scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Adaptação transcultural Brasil-Portugal da Escala Brief Cope para estudantes do ensino superior = Transcultural adaptation Brazil-Portugal of the Brief Cope Scale for college students

João Maroco,Juliana B. Campos,Fernanda S. Bonafé,Maria da Graça Vinagre,José Pais Ribeiro

Full text

PSICOLOGIA,SAÚDE & DOENÇAS, 2014, 15(2), 300-313 EISSN - 2182-8407 Sociedade Portuguesa de Psicologia da Saúde - SPPS - www.sp-ps.com DOI: http://dx.doi.org/10.15309/14psd150201 www.sp-ps.com 300 ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL BRASIL-PORTUGAL DA ESCALA BRIEF COPE PARA ESTUDANTES DO ENSINO SUPERIOR TRANSCULTURAL ADAPTATION BRAZIL-PORTUGAL OF THE BRIEF COPE SCALE FOR COLLEGE STUDENTS João Maroco 1, Juliana B. Campos2, Fernanda S. Bonafé2, Maria da Graça Vinagre3, & José Pais-Ribeiro4 1 Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde. ISPA-Instituto Universitário, Lisboa, Portugal; 2 Departamento de Odontologia Social, Faculdade de Odontologia de Araraquara, Universidade Estadual Paulista-UNESP, Araraquara, Brasil; 3 Escola Superior de Enfermagem de Lisboa. Lisboa, Portugal;4 Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde. ISPA-Instituto Universitário. Lisboa, Portugal. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, U.do Porto, Portugal. _________________________________________________________________ RESUMOO objetivo do estudo foi adaptar o Inventário BriefCOPE para a população de estudantes de ensino superior de língua portuguesa, avaliar suas propriedades métricas e estimar sua invariância fatorial no Brasil e em Portugal. Os dados recolhidos numa amostra de 1573 estudantes de ambas as nacionalidades permitiram confirmar a estrutura fatorial de 14 factores do coping. O inventário apresentou validade fatorial, convergente e discriminante. Contudo, o modelo fatorial não apresentou invariância entre os países indicando que a utilização da versão em português do BriefCOPE não pode ser caucionada para comparações de pontuações de coping interpaíses. Palavras-chave - coping; estudantes universitários; avaliação; psicometria. ______________________________________________________________________ ABSTRACTThe aim of this study was to adapt the BriefCOPE Inventory for Portuguese-speaking university students. We evaluate the Portuguese BriefCOPE psychometrics qualities and estimated the BriefCOPE factorial invariance in Brazil and Portugal. The data collected from a sample of 1573 students of both nationalities did confirm the 14-factor structure of the BriefCOPE and showed both factorial, convergent and discriminant related validities. However, the factor model did not show invariance across countries indicating that the use of the Portuguese version of the BriefCOPE cannot be bailed for comparisons of scores of inter-countries' student coping. Keywords - coping; college students; evaluation; psychometrics. ___________________________________________________________________ Recebido em 9 de Abril de 2014/ Aceite em 4 de Maio de 2014 O estresse invade cada vez mais o nosso cotidiano, quer como resultado de uma multiplicidade de fatores presentes nas sociedades modernas, quer como um importante determinante de muitas doenças associadas aos estilos de vida da população. Uma das  Departamento de Odontologia Social, Faculdade de Odontologia de Araraquara, Universidade Estadual Paulista-UNESP, Araraquara, Brasil. Rua Humaitá, 1680, 14801-903 Araraquara, São Paulo, Brasil. Telef.: (55) 16 3301 6358. E-mail:jucampo[email protected] ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DO BRIEFCOPE www.sp-ps.com 301 situações atuais de maior gravidade são as doenças cardiovasculares que segundo a OMS (2011) constituem a principal causa de mortalidade e morbilidade em todo o mundo, continuando a ocupar um lugar de destaque em Portugal (George, 2012) e no Brasil conjuntamente com as doenças respiratórias (Schmidt et al., 2011). Trata-se de situações que têm na sua origem um conjunto de fatores de risco que podem ser modificáveis, particularmente nos jovens (Heinisch , Zukowski, & Heinisch, 2007). Entre estes riscos assinalam-se o sedentarismo, a obesidade, o consumo de tabaco, álcool e outras drogas, com início frequente na adolescência, e o estresse não apenas potencializa os fatores anteriormente citados como também desencadeia alterações fisiológicas e emocionais, constituindo-se cada vez mais como um importante fator de risco para a saúde e bem-estar da população, ao longo das diferentes fases do ciclo de vida (Heinisch et al., 2007; Kim & Seidlitz, 2002; Knoll, Rieckmann, & Schwarzer, 2005; Silva, Malbergier, Stempliuk, & Andrade, 2006; Taylor & Stanton, 2007). Carver e Coonor-Smith (2010) definem coping 1 como esforços despendidos para evitar ou diminuir ameaças, danos e perdas, ou para reduzir o estresse associado. Esses esforços podem ser resultantes de respostas voluntárias, ou automáticas e involuntárias. Os autores afirmam que a identificação da natureza das respostas não é fácil dado que as mesmas podem se iniciar de forma estratégica e intencional, mas com a repetição podem tornar-se automáticas. O coping evoluiu ao longo do desenvolvimento humano e tem um papel importante no ajustamento psicológico, biológico e bem-estar (David, Montgomery, & Bovbjerg, 2006; Perczek, Carver, Price, & Pozo-Kaderman, 2000; Taylor & Stanton, 2007). Ele é importante na proteção da saúde e na prevenção e tratamento das doenças (Ebert, Tucker, & Roth, 2002; Lyon, 2012; Perczek et al., 2000). A nível psicológico, o coping tem sido apontado como um mediador do efeito da personalidade sobre as consequências do estresse (Knoll et al., 2005). Nas doenças crônicas mais usuais como, por exemplo, a diabetes, o coping bem sucedido, quase sempre melhora a gestão da doença e a qualidade de vida destes doentes crônicos (Fisher et al., 2009), o mesmo ocorrendo com grupos afetados pelo câncer (Gottlieb & Wachala, 2007), ou em pessoas com esclerose múltipla (McCabe, McKern, & McDonald, 2004). Dessa maneira, entende-se que a avaliação do coping pode ser uma estratégia interessante para o entendimento de questões de saúde pública tanto no que se refere à promoção e proteção da saúde quanto na prevenção e tratamento de doenças (Ebert et al., 2002; Lyon, 2012). Para avaliar o coping Carver et al. (1989) desenvolveram um inventário, que denominaram de COPE, concebido a partir de uma posição crítica perante as várias formas de medida existentes até ao momento. Os autores argumentam que as escalas são normalmente desenvolvidas com base em procedimentos empíricos, onde os itens são escolhidos pela sua diversidade e por representarem potenciais de respostas de coping, e não por representarem categorias teóricas interessantes de coping. Sendo que, posteriormente, a análise fatorial exploratória é utilizada para identificar dimensões em que estes itens se agrupam e todo este 1 A palavra “coping” faz parte do vocabulário da psicologia e, por não haver na língua portuguesa uma palavra única que expresse a complexidade do termo, e para facilitar a recuperação de informações por interessados no tema, optamos por não traduzir este termo. A tradução da palavra coping pode significar “lidar com”, “confronto”,” enfrentamento” ou “adaptar-se a”. J. Maroco, J. B. Campos, F. S. Bonafé, M. G.Vinagre, & J. Pais-Ribeiro. www.sp-ps.com 302 processo faz com que as escalas estejam, geralmente, associadas a princípios teóricos criados de modo frágil a posteriori. A alternativa que estes autores propõem e que utilizaram, é que a teoria ou a abordagem racional oriente o conteúdo dos itens. Carver et al. (1989) partem da extensa literatura existente sobre o coping associando duas linhas orientadoras: por um lado o modelo de Folkman e Lazarus (1980) e, por outro, o modelo de auto-regulação comportamental desenvolvido por Scheier e Carver (1988). O estudo do inventário final passou por várias fases de aperfeiçoamento, com diferentes populações, de que resultaram 14 dimensões com 60 itens. As 14 escalas exibem correlações baixas e moderadas entre si, mas correlacionam-se de uma forma conceitualmente lógica. Um grupo de escalas engloba as questões que podem ser consideradas adaptativas e um segundo grupo as que podem ser consideradas de valor questionável. Estes dois grupos de escalas tendem a exibir correlações positivas com as do seu grupo e negativas com as do outro. Por exemplo, as escalas coping ativo e planejar estão inversamente associadas com a negação e o desinvestimento comportamental. Embora possam existir diferenças de magnitude entre as correlações na versão original de Carver e na adaptação ao português europeu de Pais Ribeiro & Rodrigues (2004) o padrão é idêntico na versão Norte Americana e na Portuguesa. Posteriormente, Carver (1997), desenvolveu uma versão reduzida do inventário, que denominou de BriefCope, utilizando uma população da comunidade que tinha sido fortemente afetada pelo furacão Handrew que se abateu sobre a Florida, USA, em 1992. Como a versão de 60 itens era muito longa, os autores acharam útil e apropriado desenvolver uma versão mais curta do inventário, o que resultou numa versão com 28 itens distribuídos em 14 dimensões. Carver (1997) refere dois critérios utilizados para a seleção dos dois itens de cada uma das 14 escalas: o primeiro critério, foi reter os itens que na versão original de 60 itens exibiam uma carga mais elevada no componente a que pertenciam; o segundo critério foi baseado na experiência mantendo os itens que eram mais claros e que permitiam uma comunicação mais fácil com populações não universitárias. O inventário de coping breve visa promover um exame amplo sobre o coping em contextos e situações naturais. Para isso, explica Carver (1997), o inventário não necessita ser utilizado em bloco. Investigadores que tenham interesses especiais mais circunscritos, e que tenham limitação de tempo, podem utilizar somente algumas escalas, aquelas que forem de maior interesse para essa população ou estudo. O inventário não fornece uma pontuação total, mas sim 14 pontuações independentes que expressam a constelação ou reportório de coping, razão porque cada escala pode ser utilizada independentemente ou em grupos consoante o interesse do investigador. Os estudantes universitários constituem um grupo vulnerável em questões de saúde pública, uma vez que estão sujeitos a estressores de natureza variada incluindo as relações sociais entre pares, a competição, as exigências dos estudos acadêmicos, as limitações de natureza socioeconômica e, para alguns, o afastamento de casa e da família (Bardagi & Hutz, 2011; Loureiro, McIntyre, Mota-Cardoso, & Ferreira, 2008; Silva et al., 2006). Assim, a capacidade de coping face aos estressores constitui-se como um eixo fundamental para o ajustamento ou adaptação aos estressores da vida diária e para o bem-estar físico e psicológico, nomeadamente neste grupo onde a avaliação de estressores e coping tem sido pouco estudada (Bardagi & Hutz, 2011; Loureiro et al., 2008). Realça-se então a necessidade da elaboração e/ou validação de instrumentos que permitam avaliar a capacidade de ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DO BRIEFCOPE www.sp-ps.com 303 enfrentamento nesta população. Dadas as características de fácil utilização do instrumento BriefCOPE e a necessidade de estudos sobre estresse e coping em estudantes universitários nomeadamente no Brasil (Bardagi & Hutz, 2011) e frente ao papel que a investigação do coping pode exercer em questões relacionadas à saúde pública, realizou-se o presente estudo com o objetivo de adaptar e estimar a validade do BriefCOPE para a população de estudantes de ensino superior de língua portuguesa. MÉTODO Participantes Participaram do estudo 1 573 estudantes do ensino superior sendo 69,0% de nacionalidade brasileira que frequentavam universidades do estado de São Paulo e 31,0% de nacionalidade portuguesa e frequentavam o ensino superior em escolas localizadas em Lisboa. Da amostra total 31,0% eram do sexo masculino. A média de idade dos participantes foi 22,9 anos (DP=6,0). Relativamente à grande área de estudos, 49,5% pertenciam às ciências da saúde, 13,0% às ciências exatas, 29,0% às ciências sociais e humanas, 8,5% às ciências biológicas. Dos estudantes, 56,0% frequentavam escolas privadas e os demais restantes frequentavam escolas públicas. Material Como instrumento de medida utilizou-se a versão BriefCOPE do Inventário de COPE de Carver et al. (1989). A versão em estudo foi adaptada para o português falado no Brasil e Portugal a partir da tradução e validação de Pais Ribeiro e Rodrigues (2004). Para tanto, utilizou-se o acordo ortográfico aceite por ambos os países em 2009. O BriefCOPE, é um instrumento de autopreenchimento constituído por 28 itens agrupados em 14 escalas (ver quadro 1). A versão original do BriefCOPE era cotada numa escala de “0Nunca faço isto” a “3-Faço sempre isto”. Para melhorar as propriedades psicométricas do inventário e a validade estatística das análises fatoriais confirmatórias, no presente estudo, optou-se por usar um formato de respostas do tipo Likert com 5 pontos (0-Nunca fiz isto; 1-Já fiz isto; 2-Faço isto algumas vezes; 3-Costumo fazer isto e 4-Faço sempre isto). Procedimento O processo de desenvolvimento dos itens seguiu as recomendações clássicas dos anos 70 de Brislin, Lonner e Thordike (1973), que inclui três fases principais: a) tradução e retrotradução, independentes por juízes que dominem as línguas, o conteúdo e a amostra do estudo; b) utilização de classificadores que examinem as versões, original, a tradução, e a retroversão para analisar os erros, c) um pré-teste da versão original e da versão traduzida com sujeitos bilingues que não estejam familiarizados com o instrumento de modo a garantir a equivalência entre as duas versões. Tomou-se também em consideração as recomendações feitas por Hambleton e Patsula (1999). Quadro 1. J. Maroco, J. B. Campos, F. S. Bonafé, M. G.Vinagre, & J. Pais-Ribeiro. www.sp-ps.com 304 Inventário BriefCOPE adaptado da versão portuguesa de Pais-Ribeiro e Rodrigues (2004) Itens Fator/escala (e sua definição) cp1. Concentro os meus esforços em alguma coisa que me permita enfrentar a situação Coping ativo (CA): Ação destinada a limitar ou remover o(s) elemento(s) estressor. cp2. Tomo medidas para tentar melhorar a minha situação (desempenho) cp3. Tento encontrar uma estratégia que me ajude no que tenho que fazer Planejar (PL): Pensar na forma de limitar ou remover o estressor; planejar as ações de coping ativo. cp4. Penso muito sobre a melhor forma de lidar com a situação cp5. Peço conselhos e ajuda a outras pessoas para enfrentar melhor a situação Suporte Instrumental (SI): Procurar ajuda ou apoio às decisões a tomar. cp6. Peço conselhos e ajuda a pessoas que passaram pelo mesmo cp7. Procuro apoio emocional de alguém (família, amigos) Suporte Emocional (SE): Conseguir suporte emocional ou simpatia cp8. Procuro o conforto e compreensão de alguém cp9. Tento encontrar conforto na minha religião ou crença espiritual Religião (RE): Participação em atividades de caráter religioso cp10. Rezo ou medito cp11. Tento analisar a situação de maneira diferente, de forma a torná-la mais positiva Reinterpretação positiva (RP): Tirar partido dos acontecimentos encarando-os de modo favorável/positivo. cp12. Procuro algo positivo em tudo o que está acontecendo cp13. Faço críticas a mim mesmo Auto culpabilização (AC): Culpabilizar-se e autoresponsabilizar-se pelos acontecimentos cp14. Culpo-me pelo que está acontecendo cp15. Tento aceitar as coisas tal como estão acontecendo Aceitação (AT): Aceitar o elemento estressor como real cp16. Tento aprender a viver com a situação cp17. Fico aborrecido e expresso os meus sentimentos (emoções) Expressão de Sentimentos (ES): Consciência do estresse emocional e expressão desse estresse sobre outros cp18. Sinto e expresso os meus sentimentos de aborrecimento cp19. Tenho dito para mim mesmo(a): “isto não é verdade” Negação (NG): Rejeição da realidade e da existência do elemento estressor cp20. Recuso-me a acreditar que isto esteja a acontecer comigo cp21. Refugio-me noutras atividades para me abstrair da situação Auto distração (AD): Desinvestimento mental nos elementos com os quais o estressor está a interferir, através de sonhar acordado, dormir, ou auto distração. cp22. Faço outras coisas para pensar menos na situação, tal como ir ao cinema, ver TV, ler, sonhar ou ir às compras cp23. Desisto de me esforçar para obter o que quero Desinvestimento comportamental (DC): Deixar de se esforçar ou desistir dos elementos/objetivos condicionados pelo estressor. cp24. Simplesmente desisto de tentar atingir o meu objetivo cp25. Refugio-me no álcool ou noutras drogas (comprimidos, etc.) para me sentir melhor Abuso de Substancias (medicamentos /álcool) (AS): Usar álcool, drogas ou medicamentos para atenuar os efeitos dos estressores cp26. Uso álcool ou outras drogas (comprimidos) para me ajudar a ultrapassar os problemas cp27. Enfrento a situação levando-a para a brincadeira Humor (HU): Encarar o estressor de forma leve e com humor cp28. Enfrento a situação com sentido de humor Os dados para a avaliação das qualidades psicométricas foram recolhidos quer em formato papel-e-lápis, quer num formulário online disponível no Google Docs. A solicitação para ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DO BRIEFCOPE www.sp-ps.com 305 preenchimento dos questionários foi realizada junto à direção das escolas de ensino superior cadastradas junto ao Ministério da Educação e Cultura e também junto às redes sociais. Os estudantes que acederam participar em ambos os países foram informados, por escrito, que a sua participação era voluntária, anônima e não remunerada. Os objetivos da pesquisa foram claramente explicitados e os participantes foram informados que o estudo era de natureza estritamente acadêmica e não tinha qualquer objetivo de diagnóstico e/ou intervenção. Os aspetos da pesquisa com seres humanos foram avaliados em Portugal pela comissão científica da Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde (UIPES) e, no Brasil, pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESPAraraquara (processo 12/2011). A avaliação das qualidades psicométricas do BriefCOPE foi realizada nas suas facetas de sensibilidade psicométrica, validade relacionada com o construto e confiabilidade. Todas as análises foram efetuadas no programa IBM SPSS Statistics (v. 20, SPSS An IBM Company, Chicago, IL) e IBM SPSS AMOS (v. 20, SPSS An IBM Company, Chicago, IL). A sensibilidade psicométrica, isto é a capacidade que os itens apresentaram para discriminar participantes estruturalmente diferentes, foi avaliada pelas medidas de forma dos itens (assimetria e curtose). Considerou-se que os itens que apresentavam distribuição de valores entre o mínimo e o máximo da escala, com valores absolutos de assimetria e curtose inferiores a 3 e 7, respectivamente (Kline, 2004; Maroco, 2010) apresentaram sensibilidade psicométrica e distribuições não excessivamente afastadas da distribuição normal que inviabilizassem as análises psicométricas subsequentes. É desejável que os itens que constituem uma escala psicométrica apresentem distribuição não muito afastada da normal na amostra sob estudo, pois é expectável que o construto, do qual os itens são manifestações, apresente distribuição normal na população (uma consequência direta da lei dos grandes números e do teorema do limite central). A validade relacionada com o construto foi avaliada pela validade fatorial, convergente e discriminante. De acordo com a conceitualização de Fornell e Larcker (1981), a validade relacionada com o construto é defensável se este apresentar em primeiro lugar validade fatorial, depois validade convergente e validade discriminante com outros fatores presentes no inventário. A validade fatorial foi avaliada por intermédio de uma Análise Fatorial Confirmatória dos 14 fatores presentes no BriefCOPE. Os índices e respetivos valores de referência utilizados para avaliar a qualidade do ajustamento do modelo fatorial foram: a Razão da Estatística do Qui-quadrado pelos graus de liberdade (2/gl) inferior a 3,0, Goodness of Fit Index (GFI), Comparative Fit Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI) superiores a 0,9 e Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA) inferior a 0,05, com limite superior do intervalo de confiança a 90% inferior a 0,10 (ver e.g. Maroco, 2010). A validade convergente foi avaliada pela Variância Extraída Média (VEM) dos itens por cada um dos respetivos fatores (Maroco, 2010). Considerou-se que VEM superior ou igual a 0,50 é indicador de validade convergente de acordo com a proposta de Fornell e Larcker (1981). Finalmente, a validade discriminante entre fatores foi avaliada comparando a VEM por cada fator com o quadrado da correlação de Pearson entre os fatores. Adotou-se a proposta de Fornell e Larcker (1981) de que existe validade discriminante quando a VEM por cada fator é superior ao quadrado da correlação entre fatores. J. Maroco, J. B. Campos, F. S. Bonafé, M. G.Vinagre, & J. Pais-Ribeiro. www.sp-ps.com 306 A invariância do modelo fatorial obtido na amostra brasileira e portuguesa foi avaliada por intermédio de uma Análise Fatorial Multigrupos sequencial. Na primeira fase, comparam-se os pesos fatoriais dos itens nos dois países (invariância de medida fraca); depois as médias dos itens (invariância de medida forte) e finalmente as covariâncias entre os fatores (invariância estrita). Se o teste de diferença do qui-quadrado de ajustamento (X 2) entre os modelos com os parâmetros fixos (iguais nos dois países) e o modelo com os parâmetros livres (variantes entre os dois países) for estatisticamente significativo (p <0,05) então os modelos não são invariantes. A confiabilidade foi estimada por intermédio da confiabilidade Composta (CC) e do Coeficiente alfa de Cronbach (. Considerou-se confiabilidade adequada quando 0,7. É de referir que o BriefCOPE apenas apresenta 2 itens por fator, pelo que o  é penalizado por este reduzido número de itens (Maroco & Garcia-Marques, 2006). RESULTADOS Sensibilidade Psicométrica As propriedades distribucionais dos 28 itens do BriefCOPE são apresentadas no quadro 2. Todos os itens apresentaram valores que oscilaram entre o mínimo (0) e o máximo (4) com valores médios e medianos próximos do centro do formato de resposta (3). Apenas os itens 25 e 26 apresentaram sk e ku consideráveis (>2 e >5 respetivamente), mas ainda assim, não limitantes para análises subsequentes. Quadro 2. Mínimo, máximo, média (M), mediana (Md), Assimetria (Sk) e Kurtose (Ku) para os 28 itens da amostra sob estudo (n=1 573) Item Min Max M Md Sk (EP=0,06) Ku (EP=0,12) Item Min Max M Md Sk (EP=0,06) Ku (EP=0,12) cp1 0 4 2,65 3 -0,56 -0,31 cp15 0 4 2,18 2 -0,05 -0,53 cp2 0 4 2,89 3 -0,76 0,25 cp16 0 4 2,55 3 -0,41 -0,48 cp3 0 4 3,01 3 -0,88 0,56 cp17 0 4 2,45 2 -0,18 -0,88 cp4 0 4 3,13 3 -0,97 0,62 cp18 0 4 2,34 2 -0,12 -0,90 cp5 0 4 2,55 3 -0,34 -0,61 cp19 0 4 1,53 1 0,52 -0,52 cp6 0 4 2,30 2 -0,30 -0,82 cp20 0 4 1,33 1 0,63 -0,36 cp7 0 4 2,65 3 -0,54 -0,61 cp21 0 4 2,04 2 0,09 -0,80 cp8 0 4 2,60 3 -0,49 -0,65 cp22 0 4 2,19 2 -0,09 -0,93 cp9 0 4 2,11 2 -0,06 -1,35 cp23 0 4 0,79 0 1,33 1,29 cp10 0 4 2,25 2 -0,18 -1,30 cp24 0 4 0,54 0 1,82 3,03 cp11 0 4 2,63 3 -0,44 -0,48 cp25 0 4 0,42 0 2,36 5,08 cp12 0 4 2,63 3 -0,43 -0,58 cp26 0 4 0,35 0 2,74 7,20 cp13 0 4 2,79 3 -0,60 -0,39 cp27 0 4 1,48 1 0,51 -0,65 cp14 0 4 2,02 2 0,09 -0,86 cp28 0 4 1,75 2 0,30 -0,78 ADAPTAÇÃO TRANSCULTURAL DO BRIEFCOPE www.sp-ps.com 307 Validade relacionada com o Construto Validade Fatorial A Figura 1 apresenta o modelo de análise fatorial confirmatória dos 14 fatores do BriefCOPE na amostra total (n=1 573). O modelo fatorial apresentou um bom ajustamento à estrutura de variância-covariância dos 28 itens que constituem o BriefCOPE (X2/gl=3,2; CFI=0,97; GFI=0,96; TLI=0,95; RMSEA=0,03; IC90%RMSEA = ]0,03, 0,04[ ) Figura 1. Modelo de 14 fatores do BriefCOPE com pesos fatoriais (valores nas setas entre os fatores e os itens) e confiabilidades individuais dos itens (valores nas setas entre os erros e os itens) (X2/gl=3,2; CFI=0,97; GFI=0,96; TLI=0,95; RMSEA=0,03; IC90%RMSEA =]0,03,0,04[; n= 1 573) J. Maroco, J. B. Campos, F. S. Bonafé, M. G.Vinagre, & J. Pais-Ribeiro. www.sp-ps.com 308 Validade Convergente e Validade Discriminante O quadro 3 apresenta a Variância Extraída Média (VEM) e a Confiabilidade composta (CC) dos 14 fatores do BriefCOPE. Nesta tabela é apresentado também o quadrado da correlação de Pearson entre os fatores. Quadro 3 Variância extraída média (VEM), Confiabilidade Composta (CC), Coeficiente alfa de Cronbach (, e Quadrado da correlação de Pearson entre fatores (R2) Fator VEM CC  R2 CA PL SI SE RE RP AC AT ES NE AD DC AS CA 0,60 0,75 0,74 1 PL 0,56 0,72 0,71 0,79 1 SI 0,72 0,83 0,83 0,09 0,16 1 SE 0,82 0,90 0,90 0,04 0,07 0,43 1 RE 0,80 0,89 0,89 0,07 0,08 0,05 0,08 1 RP 0,72 0,83 0,83 0,23 0,29 0,08 0,04 0,16 1 AC 0,52 0,68 0,66 0,00 0,02 0,02 0,02 0,01 0,02 1 AT 0,58 0,73 0,73 0,14 0,16 0,05 0,03 0,03 0,23 0,10 1 ES 0,79 0,88 0,88 0,02 0,03 0,09 0,15 0,02 0,01 0,10 0,05 1 NE 0,65 0,79 0,78 0,00 0,00 0,05 0,02 0,04 0,01 0,21 0,02 0,16 1 AD 0,58 0,73 0,72 0,01 0,01 0,03 0,07 <0,01 0,02 0,04 0,03 0,07 0,22 1 DC 0,72 0,83 0,83 0,08 0,08 <0,01 0,00 <0,01 0,01 0,06 <0,01 0,01 0,15 0,06 1 AS 0,83 0,90 0,90 0,01 0,01 0,00 <0,001 0,00 0,01 0,03 <0,01 <0,01 0,05 0,03 0,24 1 HU 0,77 0,87 0,87 0,01 0,02 0,02 <0,01 <0,01 0,09 0,01 0,06 0,01 0,02 0,04 0,01 0,02 Todos os fatores apresentaram VEM superior a 0,5 e CC superior a 0,7 o que aponta para adequada validade convergente dos 14 fatores sob estudo. Relativamente à validade discriminante, apenas os fatores Planejar (PL) e Coping ativo (CA) não apresentam VEM superiores ao quadrado da correlação de Pearson entre os dois fatores. Confiabilidade A confiabilidade avaliada quer pela confiabilidade composta (CC) quer pelo Coeficiente alfa de Cronbach (revela que todos os 14 fatores apresentam consistência interna boa (>0,7) a excelente (>0,85). Estes resultados são particularmente reveladores da boa confiabilidade dos fatores uma vez que cada fator é composto por apenas 2 itens e o  é particularmente subestimado para um número reduzido de itens por fator.