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Um protótipo de reabilitação para a casa burguesa do Porto

Rita de Sousa Trêpa Magalhães Basto

Abstract

Terá sido o facto de ter nascido e crescido no Porto que alimentou a vontade de estruturar uma reflexão a seu respeito. É em particular a Baixa o foco do meu interesse; esta simbiose entre a beleza que lhe assiste em cada detalhe, e a inércia das populações, dos organismos e das circunstâncias que conduziram à degradação do seu património. No âmbito desta prova se torna finalmente oportuno pensar com mais profundidade sobre esta problemática. Mais do que isso, aqui se propiciam as condições necessárias para construir uma proposta conceptual e arquitectónica que quer tentar solucionar (em parte) o problema que aqui identificámos. Neste cruzamento de interesses assumimos como objectivo primordial da dissertação o desenho de um protótipo de reabilitação para a casa burguesa do Porto que, segundo a análise, constitui o tipo de habitação mais proeminente da Baixa Portuense. Pretende-se com este protótipo assegurar de uma forma generalizada a requalificação e re ocupação destas habitações. É portanto com base neste princípio, nesta intenção, que estruturamos o nosso estudo. Num primeiro momento, procuramos conhecer o percurso evolutivo da dita casa burguesa, desde a sua formação até à actualidade, tocando as questões urbanas, sociais, e culturais que lhe são inerentes. Depois de procurar perceber os factores que motivaram a sua degradação, conhecemos e analisamos a estratégia que tem sido empregue pela entidade responsável - a Porto Vivo - no sentido de a reverter. Questionamos a viabilidade do seu modelo de actuação e, mais importante, os resultados. De que forma intervêm no edificado e respondem aos interesses das populações. Quer das residentes, quer das que o desejam vir a ser. Avançamos com este estudo para a construção do problema, o processo de trabalho que acompanha e dá corpo ao protótipo. Começamos pelo desenho de um modelo abstracto, uma casa burguesa tipo, que reúna todas as suas características fundamentais. Este modelo irá constituir a base, o espaço sobre o qual incide a nossa proposta. Como nos transmitiu o percurso académico, procedemos com a base da intervenção para o conhecimento do cliente e a elaboração de um programa de necessidades ajustado. Dessa averiguação subtraem-se as coordenadas mais relevantes para o exercício do projecto. Encerramos finalmente a construção do problema com a elaboração do protótipo - que decorre, no fundo, da materialização de todos os pressupostos, condicionantes e protagonistas que ao longo da dissertação se cruzam. Expomos as opções tomadas, as referências e conceitos que as ilustram e tocamos as questões que nos parecem sempre pertinentes numa abordagem projectual, e sobretudo, sob o prisma da reabilitação. Esta investigação ambiciona mais do que a concepção de um exercício de projecto, encontrar e expor um ponto de vista, uma ideia, um princípio de recuperar este património, que tenha a capacidade de se ajustar à conjectura económica actual e, simultaneamente, respeitar a lembrança do lugar.

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Protótipo de Reabilitação para a Casa Burguesa do Porto Dissertação de Mestrado de Arquitectura Faup | 2011. 2012 Rita de Sousa Trêpa Magalhães Basto 2 Protótipo de Reabilitação para a Casa Burguesa do Porto Docente acompanhante | Arquitecto Manuel Montenegro 4 Agradecimentos Ao meu orientador, Arq. Manuel Montenegro, pela motivação, entusiasmo e conversas, sempre frutíferas, Ao Arq. Nuno Valentim, pela disponibilidade e ajuda preciosa, Às minhas amigas, pelo apoio incondicional (e fora de horas), Aos meus pais que tornaram este caminho possível, E aos meus irmãos que o fizeram mais fácil, Ao Diogo, por estar sempre perto. 6 7 Resumo ―Não perguntes o que a tua pátria pode fazer por ti. Pergunta o que tu podes fazer por ela.‖ John Kennedy Terá sido o facto de ter nascido e crescido no Porto que alimentou a vontade de estruturar uma reflexão a seu respeito. É em particular a Baixa o foco do meu interesse; esta simbiose entre a beleza que lhe assiste em cada detalhe, e a inércia das populações, dos organismos e das circunstâncias que conduziram à degradação do seu património. No âmbito desta prova se torna finalmente oportuno pensar com mais profundidade sobre esta problemática. Mais do que isso, aqui se propiciam as condições necessárias para construir uma proposta conceptual e arquitectónica que quer tentar solucionar (em parte) o problema que aqui identificámos. Neste cruzamento de interesses assumimos como objectivo primordial da dissertação o desenho de um protótipo de reabilitação para a casa burguesa do Porto que, segundo a análise, constitui o tipo de habitação mais proeminente da Baixa Portuense. Pretende-se com este protótipo assegurar de uma forma generalizada a requalificação e re ocupação destas habitações. É portanto com base neste princípio, nesta intenção, que estruturamos o nosso estudo. Num primeiro momento, procuramos conhecer o percurso evolutivo da dita casa burguesa, desde a sua formação até à actualidade, tocando as questões urbanas, sociais, e culturais que lhe são inerentes. Depois de procurar perceber os factores que motivaram a sua degradação, conhecemos e analisamos a estratégia que tem sido empregue pela entidade responsável – a Porto Vivo - no sentido de a reverter. Questionamos a viabilidade do seu modelo de actuação e, mais importante, os resultados. De que forma intervêm no edificado e respondem aos interesses das populações. Quer das residentes, quer das que o desejam vir a ser. Avançamos com este estudo para a construção do problema, o processo de trabalho que acompanha e dá corpo ao protótipo. Começamos pelo desenho de um modelo abstracto, uma casa burguesa tipo, que reúna todas as suas características fundamentais. Este modelo irá constituir a base, o espaço sobre o qual incide a nossa proposta. Como nos transmitiu o percurso académico, procedemos com a base da intervenção para o conhecimento do cliente e a elaboração de um programa de necessidades ajustado. Dessa averiguação subtraem-se as coordenadas mais relevantes para o exercício do projecto. Encerramos finalmente a construção do problema com a elaboração do protótipo – que decorre, no fundo, da materialização de todos os pressupostos, condicionantes e protagonistas que ao longo da dissertação se cruzam. Expomos as opções tomadas, as referências e conceitos que as ilustram e tocamos as questões que nos parecem sempre pertinentes numa abordagem projectual, e sobretudo, sob o prisma da reabilitação. Esta investigação ambiciona mais do que a concepção de um exercício de projecto, encontrar e expor um ponto de vista, uma ideia, um princípio de recuperar este património, que tenha a capacidade de se ajustar à conjectura económica actual e, simultaneamente, respeitar a lembrança do lugar. 8 9 Índice Resumo 7 - Objecto de Estudo 12 - Objectivo 12 - Estrutura e Metodologia 13 Parte I - A Casa Burguesa do Porto 15 - Enquadramento urbano, económico e social: o Porto entre os Séc. XVII - XX 19 - Análise tipo – morfológica 23 - Séc. XVII – XVIII 25 - Séc. XVIII – XIX 29 - Séc. XIX – XX 33 - Adaptação da casa a habitação plurifamiliar 37 - Reabilitar e Reocupar; Considerações sobre a estratégia da Porto Vivo 39 Parte II - O Projecto: A Construção de um Problema 55 - A Base da Intervenção 59 - Enquadramento urbano 61 - O lote e a casa 63 - O fogo 69 - O Cliente 71 - O Programa 79 - A Proposta 95 Nota conclusiva 117 - Índice de imagens 119 - Bibliografia 121 - Anexo I _ Desenhos Base de Intervenção 127 - Anexo II _ Desenhos Protótipo 139 16 17 Nota introdutória "Podemos viver sem ela [arquitectura], e admirar sem ela, mas não podemos recordar sem ela.‖5 Ruskin alerta-nos para a importância da preservação do património arquitectónico. Da arquitectura como memória, como relato da história de uma época (s), de uma cidade (s), e de uma sociedade (s). Argumenta o autor que a arquitectura, tal como a poesia, não pertence a ninguém em particular, ou apenas ao tempo presente, mas a todo o espaço temporal; o presente tem apenas uma vida interessada na arquitectura e por isso a obrigação de a proteger para a posteridade. 6 Assim reforça o escritor o conceito de herança, de transmissão do património: ―Quando construímos, deixem-nos pensar que construímos para sempre. Não nos deixem servir para deleite do presente, não apenas para o uso do presente; deixem-no ser um trabalho tal que os nossos descendentes nos agradeçam por ele, e deixem-nos pensar, enquanto dispomos pedra sob pedra, que chegará o tempo em que essas pedras serão declaradas sagradas por ter sido tocadas pelas nossas mãos, (…), ' Vê! Os nossos pais fizeram isto por nós ‖7 Afirma mais tarde Rossi que ―A arquitectura é o retrato das vicissitudes do homem; com toda a carga de sentimentos das gerações, dos acontecimentos públicos, das tragédias privadas, dos acontecimentos antigos e actuais‖8 Ela constitui o legado que nos deixaram os nossos antepassados, o testemunho da sua presença, e será por isso nossa obrigação garantir a sua passagem às gerações futuras; Como diz José Aguiar, o ―Património é algo que se usa e que se guarda para transmitir.‖ 9 Quando nos propomos dialogar com uma arquitectura particularmente doméstica, a necessidade de preservar a sua memória acresce. A casa guarda nas suas paredes a identidade do homem, da família que a habitaram e por isso, mais do que qualquer outra construção, poderá descrever e caracterizar uma dada sociedade. Sem esquecer o saber construir que transporta e que poderá servir de exemplo (ou não) a futuras edificações. É com esta consciência e responsabilidade que devemos abordar o tema da casa burguesa do Porto: “ (…) essa casa que nada recomenda especialmente, mas que afinal é umas das expressões mais típicas do Porto, que tem o seu estilo próprio e a sua tradição legítima, e que traduz as condições históricas e político-sociais do velho burgo, a índole e a vida da sua gente.‖ 10 Esta herança deve ser por nós analisada, conhecida e interpretada, de forma a garantir um diálogo mais adequado entre a história e modernidade que se quer introduzir. Como nos transmite Álvaro Siza, ―Sem o arquivo instantâneo da Memória não há Invenção‖.11 5 "We may live without her [architecture], and worship without her, but we cannot remember without her.‖, RUSKIN, John, citado por FORTY, Adrian ―Works and Buildings - A vocabulary of a Modern Architecture", Ed. Thames and Hudson, Nova Iorque, 2000, pág. 210 6 RUSKIN, John, citado por FORTY, Adrian, op.cit. pág. 212 7 ―When we build, let us think that we build forever. Let us not be for present delight, not for present use alone; let it be such work as our descendants will thank us for , and let us think, as we lay stone upon stone, that a time is to come when those stones will be held sacred because our hands have touched them(…), ' See! This our fathers did for us’ ‖, RUSKIN, John, citado por FORTY, Adrian, op.cit. pág. 211 8 ―La arquitectura es la escena fija de las vicissitudes del hombre; com toda la carga de sentimentos de las generaciones, de los acontecimentos públicos, de las tragédias privadas, de los hechos antíguos e nuevos.‖, ROSSI, Aldo, citado por GARCIA, Francisco, ― Construir en lo contruido - La arquitectura como modificación‖, 3ª Edição, Nerea, Madrid, 2005, pág. 30 9 AGUIAR, José, ― Memória, Cidade e Projecto - Questões e paradoxos na conservação do património arquitectónico e urbano‖ in http://mestrado-reabilitacao.fa.utl.pt/disciplinas/jaguiar/jaguiarcongressooa2000.pdf, Évora, 2000, pág. 4 10 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, ―Casas do Porto‖ in ―Arquitectura Tradicional Portuguesa‖, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1992, pág. 310 11 SIZA, Álvaro, ―As Chaves da Cidade do Porto‖ in ―01 textos – Álvaro Siza‖, Edição de texto por Carlos Campos Morais, Civilização, Porto, 2009, pág. 25 18 É desta forma que principiamos o estudo da habitação corrente da Baixa Portuense. Num primeiro momento procuramos montar um breve enquadramento histórico da cidade, entre os séculos XVII e XX, o intervalo de tempo onde terão tido origem estas construções: ― (...) a grande maioria das casas hoje existentes, mesmo nos bairros que correspondem ao núcleo medieval da cidade, e tanto as estreitas, com as suas lojas no rés-do-chão, como os grandes palácios aristocratas, são edifícios dos séculos XVII, XVIII e XIX (...) ”.12 Não se pretende elaborar uma reflexão exaustiva, mas antes uma recolha esmiuçada dos acontecimentos mais determinantes para a evolução urbana, económica e social da cidade, e mais relevantes para o entendimento da história das habitações em estudo. Com a reflexão histórica passamos à sua análise tipo morfológica: Por um lado, pretende-se observar de que modo soube a casa acompanhar as transformações da urbe e reflectir as necessidades das populações; por outro, perceber que inovações foi introduzindo, e que particularidades se mantiveram constantes na sua morfologia, organização interna, e sistema construtivo. Todo o conhecimento adquirido nesta análise, terá como último propósito fundamentar a construção rigorosa da célula doméstica destas construções – o nosso objecto de estudo e a nossa base de intervenção. Na segunda parte do presente capítulo, avançamos no tempo, e focamos o presente. Interessa observar de que modo se consolidaram estas habitações na cidade contemporânea, conhecendo o seu estado de conservação e de ocupação. Com o confronto da realidade, partimos para a análise da estratégia das entidades responsáveis pela sua reabilitação – a Porto Vivo, sob a alçada da Câmara Municipal do Porto; Aqui se pretende analisar o sistema, os meios, os pressupostos e sobretudo avaliar os resultados dessa conduta - ou seja, o efeito da intervenção, na cidade, na casa, e claro, nas populações. Como sempre na actividade projectual, e sobretudo na reabilitação, é pertinente antes de actuar conhecer os trabalhos que têm sido feitos no mesmo sentido, para que se evitem lacunas e se repitam triunfos. Se no primeiro momento do capítulo, conhecemos o objecto, nesta segunda parte percebemos a forma apropriada de actuar sobre ele. Como esclareceu Cesare Brandi, “ (…) há já quase quatro décadas, que a qualidade do restauro depende directamente da qualidade do estudo e do juízo crítico (eminentemente filológico) desenvolvidos, estando estreitamente vinculada à avaliação crítica da artisticidade e do valor histórico do objecto sobre o qual incide.‖ 13 12 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, op.cit., pág. 336 13 BRANDI, Cesare citado por AGUIAR, José, ― Memória, Cidade e Projecto - Questões e paradoxos na conservação do património arquitectónico e urbano‖ in http://mestrado-reabilitacao. fa.utl.pt/disciplinas/jaguiar/ jaguiarcongressooa 2000.pdf, Évora, 2000, pág. 6 19 Enquadramento urbano, económico e social Séc. XVII – Séc. XX Em meados do século XVII, depois da Restauração da Independência, caracteriza-se a cidade do Porto por alguma prosperidade, fruto do desenvolvimento da produção agrícola, do aumento da produção vinícola e cerealífera e da intensificação do comércio internacional, sobretudo marítimo. Por conseguinte, assinala-se um grande crescimento demográfico, resultado da migração das populações rurais, e da fixação de comerciantes estrangeiros na cidade. 14 Destes últimos, merecem particular destaque a colónia britânica ―cujo viver típico muito iria influenciar certas camadas sociais portuenses, nomeadamente a burguesia.‖ 15 A descoberta de ouro no Brasil, e a assinatura do Tratado de Methuen com Inglaterra (1703),16 já no século XVIII, contribuem de uma forma geral para acentuar aquele panorama favorável. Neste contexto, desenvolve-se o tecido urbano portuense fundamentalmente dentro do perímetro fortificado e nas freguesias de Miragaia e Santo Ildefonso. Mesmo com o aumento demográfico, não se criam novos pólos urbanos. Por oposição, assiste-se a uma sobrelotação dos existentes. 17 Uma explicação de Rogério Azevedo traduz bem o que era o planeamento urbanístico destes territórios primitivos: ― A formação mais antiga dos povoados, ao contrário do que hoje sucede frequentemente nos planeamentos artificiais, era de ordem gregária natural. Originava-se nas necessidades de cada indivíduo, sem condicionalismos e sem previsões claras, dependendo tudo unicamente daquelas, isto é, do interesse geral. Os povoados, portanto resultavam da necessidade restritiva, vinculada a um homem e não duma rebusca funcional ou estética prudentemente preconcebidas.‖ 18 Só com a fundação da Junta das Obras Públicas (1758 – 1833) o crescimento da cidade passa a receber alguma regularidade e estudo prévio. Presidida por João de Almada e Melo, e mais tarde pelo seu filho, esta entidade, surge na sequência das medidas tomadas para a reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755. Tinha como objectivo controlar e coordenar o planeamento do espaço urbano do Porto, à imagem e semelhança das políticas empreendidas por Marquês de Pombal.19 Sob o impulso dos Almadas, abrem-se novos arruamentos para lá das muralhas e reestruturam-se ou criam-se novas praças no tecido mais antigo, para encanar a parte terminal do insalubre Rio da Vila e desafogar a densa malha urbana, permitindo facilitar a relação entre a Ribeira e a parte alta da cidade - Rua de S. João, Praça da Ribeira e Praça de S. Roque. Abrem-se a Rua de Santo António e melhora-se a Rua dos Clérigos, antiga Calçada da Natividade -, criando um importante eixo este-oeste no exterior imediato da muralha; procede-se à urbanização de áreas rurais, sobretudo a norte e a oeste, nos Laranjais e a poente de Cedofeita, de acordo com planos de base ortogonal. Rasgam-se ou beneficiam-se significativamente os arruamentos que servem a ligação da cidade com o exterior - Cedofeita, Almada, Santa Catarina - Bela Princesa e Santo Ildefonso.20 14 FERRÃO, Bernardo José, ―Projecto e transformação urbana do Porto na época dos Almadas – 1758/1813 – Uma contribuição para o estudo da cidade pombalina‖, 2ª Edição, Faup Publicações, 1989, pág. 153 15 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, op.cit., pág. 297 16 FERRÃO, Bernardo José, op.cit., pág. 156 17 FERRÃO, Bernardo José, op.cit., pág. 158 18 AZEVEDO, Prof. Arq. Rogério, ―Da Sumptuária das casas do Porto‖ in ―Documentos e Memórias para a História da Cidade XXXI - Casas do Porto (séc. XIV ao séc. XIX)‖, Publicações da Câmara Municipal do Porto – Gabinete de História da Cidade, pág. 28 19 NONELL, Anni Gunther, ―Porto, 1763/1872 – a construção da cidade entre despotismo e liberalismo‖, 1ª Edição, 2002, pág. 95 20 RIO FERNANDES, José, ― Porto: um percurso urbano‖, Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto / CEGOT, 2005, pág. 4 20 01. Maquete do Porto Medieval 02. Planta de Perry Vidal de 1865 03. Planta de Telles Ferreira de 1892 04. Progressão da mancha do edificado portuense: 1812, 1892, 1930 e 1961 21 Para este movimento de expansão e cruzamento da cidade antiga com as novas áreas urbanas contribui ainda a demolição da muralha, proposta em Dezembro de 1787.21 A força dos trabalhos da Junta, em contraste com o crescimento desordenado que até então caracterizava a cidade, terá sido o resultado da pouca abertura à iniciativa individual. Assim se tornou possível imprimir o pragmatismo, racionalismo e homogeneidade que faltavam na arquitectura do lugar e que muito melhor reflectiam a burguesia mercantil em ascensão na sociedade portuense.22 Este movimento foi porém interrompido na primeira metade do séc. XIX, décadas bastante conturbadas, sobretudo pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil que opôs absolutistas e liberalistas. Só a meio de Oitocentos, o Porto terá conseguido, progressivamente, instalar a regularidade no funcionamento e na administração de um país que atravessava a sua modernização.23 Assim, a partir do terceiro quartel do século XIX e no seu prolongamento até à centúria seguinte, assinalamos o incremento do comércio vinícola, a fixação na cidade de algumas indústrias fabris, a revolução dos transportes e ainda a retoma dos trabalhos expansionistas principiados pela Junta.24 Será este panorama que favorece o crescente protagonismo da referida classe burguesa, feita de comerciantes e industriais, influenciada pela colónia britânica e agora também pelos ―brasileiros‖ – (emigrantes portugueses retornados do Brasil). Sobre esta escreve Veiga de Oliveira: ― (…) a burguesia do Porto era um caso único e à parte, representava ali a classe mais elevada, uma aristocracia comercial que era o verdadeiro senhorio da cidade, que não reconheceu nenhuma classe acima de si, e perante quem a nobreza tinha – e tevede se curvar.‖25 Paralelamente à notoriedade da classe burguesa, e fruto da industrialização, assinala-se um novo crescimento populacional. Este traduz-se num aumento demográfico das áreas de expansão almadina e dos eixos que lhes foram sequenciais, a par do centro histórico, que assiste à sobrelotação dos seus imóveis. Neste contexto se conhecem as mais variadas e originais formas de ocupação e de extensão das habitações (por exemplo as ―ilhas‖). 26 Em particular no antigo núcleo amuralhado, a sobreocupação irá reflectir-se numa grande precariedade das condições habitacionais, que ainda hoje ali encontramos: ― (…) os seus moradores, focados na actividade comercial, não acudiram a reparar os velhos prédios dos estabelecimentos e moradias, nem ergueram a voz a reclamar o que era de interesse colectivo. Ao lado da rua, mantinha-se a viela, mas esta bem livre de fiscalização camarária e sempre a receber toda a sorte de despejos.‖27 É esta realidade que irá impulsionar um processo de transferência das populações mais abastadas que ali residiam para as novas áreas de expansão da cidade. Além de melhores condições de vida garantiam alguns rendimentos com o aluguer ou a venda dos seus imóveis.28 21 NONELL, Anni Gunther, op.cit., pág. 256 22 FERRÃO, Bernardo José, op.cit., pág. 181 23 MOTA, Nélson, op.cit., pág. 53 24 MOTA, Nélson, op.cit., pág. 54 e 55 25 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, op.cit., pág. 326 26 RIO FERNANDES, José Alberto, op.cit., pág. 80 27 CRUZ, António, ―Nona Parte: O Porto no século XIX‖ in ―História da Cidade do Porto‖, Portucalense Editora, Porto, 1962 1965, pág. 56 28 RIO FERNANDES, José Alberto, ― Porto: cidade e comércio‖, Edição Câmara Municipal do Porto, 1997, Porto, pág. 80 22 23 Análise tipo-morfológica ―Quem percorrer o velho centro do Porto, ao lado do labirinto do antigo burgo medieval, espraiado aqui e além em belas ruas quinhentistas, e seguir depois, para lá desse primitivo núcleo, pelas antiquadas ruas irradiantes, seis, sete e oitocentistas – que representam o povoamento das estradas de acesso às portas da cidade, e o desenvolvimento do seu transbordar inicial além muralhas -, é de entrada surpreendido apenas pela completa falta de uniformidade de casas que ali se encontram. (…) Atentando-se porém um pouco melhor, logo algumas ideias gerais se vão definindo, as quais introduzem um certa ordem nesse polimorfismo caprichoso (…);‖ 29 Já havíamos antecipado em relação ao objecto de estudo, que se centra esta dissertação na casa burguesa do Porto, aquela que encontramos com mais proeminência nos arruamentos do centro da cidade. Assim reforça também Francisco Barata: ―A habitação corrente da cidade, aquela que domina anonimamente no meio urbano, é a habitação burguesa.‖ 30 São as casas daquela classe social, que vimos ganhar ao longo dos tempos, uma importância crescente no seio da sociedade portuense. Referimos também a configuração alta e estreita que é transversal a estas habitações. Esclarece novamente Veiga de Oliveira que, ― (…) surgida no primitivo burgo das próprias condições histórico - sociais que presidiram ao seu desenvolvimento, a casa estreita e alta ganhou foros de padrão material de cultura, e assim perdurou na tradição local, assimilando os sucessivos estilos e técnicas, e acompanhou a classe que é própria, mesmo quando e aonde as circunstâncias efectivas que determinaram o seu aparecimento deixaram de se verificar.‖31 São estas evidências que nos levaram a considerar as habitações esguias e altas, outrora habitadas pela classe burguesa portuense, o foco da nossa dissertação, e agora o centro desta análise tipo morfológica. Concentrando-nos na regra em detrimento da excepção, contribuímos para estender a aplicabilidade do protótipo. Sobre a diversidade que nos apresentam estas construções subscrevemos Veiga de Oliveira. Apesar do polimorfismo que apresentam, uma observação criteriosa permitirá detectar algumas características comuns e, por conseguinte, organizá-las em categorias, tornando mais operativo a observação analítica das mesmas. Francisco Barata partilha do mesmo entendimento e avança com a identificação de três momentos distintos na história da habitação na cidade: ―Parece-nos possível sustentar que existem três tipos de habitação dominantes no Porto, os quais contribuem, ainda para a caracterização da forma urbana da cidade.‖32 Teremos então uma primeira tipologia que surge a partir do séc. XVII, no primeiro momento do nosso enquadramento histórico, e que se repete dentro dos limites do antigo núcleo amuralhado; uma outra que remonta à segunda metade do século XVIII, na altura em que se assinalámos a expansão da cidade, por intermédio dos trabalhos da Junta das Obras Públicas; e uma terceira, pós Almadas, que se vai desenvolver a partir da segunda metade de Oitocentos até às primeiras décadas do séc. XX, onde assistimos aos primeiros sinais de industrialização no Porto. 33 [05] 29 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, ―Casas do Porto‖ in ―Arquitectura Tradicional Portuguesa‖, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1992, pág. 310 30 FERNANDES, Francisco Barata, ―Transformações e Permanências na Habitação PortuenseAs formas da casa na cidade‖, 2ª Edição, Porto, Faup Publicações, 1999, pág. 75 31 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, op.cit., pág. 332 32 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 67 33 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 68 24 Será então, em obediência a estes três períodos temporais, que já procurámos abranger no enquadramento histórico, que caracterizamos agora a casa burguesa do Porto. Para que a análise seja útil ao propósito da prova, dentro de cada um destes momentos abordamos: - O lote: A localização na cidade, o dimensionamento da edificação, a presença do logradouro, a divisão de propriedade, a relação com o arruamento, com a topografia e a integração no quarteirão; - A casa: A organização interior, a distribuição de funções, o sistema construtivo e os materiais, a fachada e os elementos de composição arquitectónica; No último período fazemos ainda referência aos processos de adaptação da casa a habitação plurifamiliar, os quais serão de certa forma por nós restabelecidos no exercício do projecto. Importa referir que fundamentamos em grande parte esta análise na leitura do estudo da habitação portuense que faz Francisco Barata, cujo tipo de abordagem e organização dos conteúdos nos parece particularmente adequada ao argumento que se pretende aqui apresentar. Mercantilista Iluminista Liberal Contemporâneo 05. Progressão da mancha do edificado portuense: 1812, 1892, 1930 e 1961 25 Século XVII – Século XVIII O Lote Neste período referimo-nos aos loteamentos situados no antigo núcleo amuralhado e já fora dele, nas áreas da Ribeira, Barredo, Sé, Vitória, Cimo de Vila e Miragaia.34 [06,07] Eles serão do tipo gótico-mercantil e apresentam-nos duas variantes: uma menos profunda, apenas com uma frente, possivelmente mais primitiva, que oscila entre os 10 e os 15 metros de profundidade [08], e outra mais extensa que, na teoria, duplica a profundidade da tipologia menor, apresentando então duas frentes [09]. Ambos os modelos são muito estreitos - podem ter no mínimo 3 e no máximo 6 metros de largura, sendo que geralmente assumem os 4.5 metros.35 São de vária natureza as razões que explicam esta frente tão exígua, particularidade transversal a qualquer modelo da casa burguesa do Porto. José Ferrão Afonso aponta-nos uma hipótese possível, que partilha com outros autores e historiadores: ‖ (...) o maior cumprimento possível das vigas transversais de madeira que suportavam o sobrado ou as coberturas da antiga habitação agrícola (...) ‖36. O mesmo autor considera também ― (…) possível que no burgo portuense, à semelhança do que aconteceu na Europa, o antigo parcelamento rural tenha condicionado e dimensionado essa divisão.‖37 Além de não obedecer a um planeamento urbanístico, o parcelamento na época seria ainda condicionado pela densificação populacional que se sentia dentro da muralha. A falta de espaço, como já observámos, era uma realidade que não permitiria lotes mais largos e regulares.38 No caso dos lotes de uma só frente, relativamente ao parcelamento da propriedade, a formação destes parece resultar mais de um processo de subdivisão das terras do que de associação de loteamentos.39 Eles estão implantados por norma em malhas densas ― (...) associando-se em banda ao longo dos arruamentos, o que possibilita uma fácil adaptação ao terreno, mesmo no caso de grandes declives.‖ 40 Se a pendente é muita acentuada, a parede oposta à fachada constitui uma parede cega, em parte muro de suporte; quando o terreno é plano, não passa de uma vulgar parede de meação, partilhada com a habitação vizinha. Estas construções integram quarteirões muito compactos, sem vazios entre elas, o que justifica a frente única e a ausência de logradouro.41 Relativamente aos lotes cujos edifícios apresentam dupla frente, surgem mais recorrentemente nos quarteirões junto ao rio na Ribeira – Barredo e Miragaia, mas também nos quarteirões mais extensos e regulares da Sé e da Vitória.42 Na divisão da propriedade, estes loteamentos e respectivas edificações não terão sido construídos de raiz mas pela extensão do modelo anteriormente descrito. Podem ter resultado do simples aumento gradual do comprimento do volume, ou da associação directa e em profundidade de dois lotes vizinhos. 43 34 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 120 35 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 120 36 AFONSO, José Ferrão, ―A Rua das Flores no Século XVI – Elementos para a História Urbana do Porto Quinhentista‖, Faup Publicações, 2000, pág. 46 37 AFONSO, José Ferrão, op.cit., pág. 46 38 AFONSO, José Ferrão, op.cit., pág. 46 39 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 120 40 FERRÃO, Bernardo José, op.cit., pág. 155 41 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 123 42 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 124 43 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 125 32 12. Habitação com duas frentes; logradouro; acesso central; Tipologia Unifamiliar e Multifuncional 13. Habitação com duas frentes; logradouro; acesso central; Tipologia Unifamiliar e Multifuncional 33 Século XIX – Século XX O lote Neste período importa distinguir dois tipos de construção: ― (…) o da continuidade com a tipologia polifuncional almadina e o da casa burguesa monofuncional que estabelece uma ruptura com aquela tipologia‖.74 O primeiro grupo que nos refere Francisco Barata irá preencher ao longo de todo o período Oitocentista os arruamentos promovidos pela Junta, mas também os principais eixos de acesso à cidade como S. Roque da Lameira, Costa Cabral, Antero do Quental, Cedofeita, etc. Obedecem aos princípios que determinavam aquele tipo de planeamento e construção, não aparentando por isso alterações significativas relativamente aos loteamentos que caracterizámos na tipologia anterior. Já o segundo grupo, podemos encontrar repetido ao longo da Av. Rodrigues de Freitas/Rua do Heroísmo, Bomfim/Rua de S. Roque da Lameira, Rua de D. João IV, Rua da Alegria e parte alta de Santa Catarina, Praça do Marquês do Pombal, Rua de Costa Cabral, Rua da Constituição, Rua do Vilar, Praça da República, Rua de Álvares Cabral, Rua da Boavista e outra áreas que não se enquadram na nossa área de estudo como a Av. da Boavista, a Foz do Douro e Campanhã; 75 [14,15] Esta nova tipologia habitacional – monofuncional -, irá repercutir-se na cidade desde as últimas quatro décadas do século XIX até às primeiras quatro décadas do século passado, o que justifica a delimitação temporal deste período.76 Apesar de introduzir uma nova concepção da casa – que abordamos à frente -, também no que diz respeito à configuração do lote, não se assinalam alterações de grande relevância. Como explica Veiga de Oliveira ―Por razões de inércia cultural, mantêm o tipo estreito e alto (…) ‖.77 Esta inércia cultural será também evidente na divisão da propriedade. Mesmo quando os loteamentos não tinham preexistências, o parcelamento dos terrenos era feita com base nos 6 metros de frente.78 No que diz respeito à profundidade do lote, à semelhança do período anterior, apresenta-nos dois valores de referência - os 15 [16] e os 20 metros [17]. Mais uma vez se verifica que o dimensionamento da construção permanece estável, o logradouro ajustável e o arruamento sempre a prioridade. Assim se mantém a mesma relação da construção com o traçado viário que observámos no modelo anterior. Na relação com a topografia, também não se assinalam diferenças significativas. Quando a pendente é acentuada o edifício mantém-se numa situação plana e é o logradouro, organizado em patamares, ou a cave sobreelevada – uma inovação desta tipologia-, que solucionam a articulação de cotas. 79 74 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág.170 75 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág.170 76 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág.170 77 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, op.cit., pág. 342 78 MOTA, Nélson, op.cit., pág. 82 79 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 171 34 A casa Relativamente às edificações que dão continuidade às tipologias almadinas, assinalam-se alterações pouco relevantes, quer no esquema organizativo e distributivo, quer no sistema construtivo, na fachada e nos materiais. De referir apenas a introdução de instalações sanitárias nas traseiras das construções, o aumento do pé direito dos pisos, assim como o alargamento dos espaços de arrecadação e a organização do logradouros, agora maiores, com jardins e hortas.80 São diferenças que de resto encontraremos também no segundo grupo. Este por sua vez, sobretudo no que diz respeito à matriz de organização interna e na distribuição funcional, parece ter sido inovador: ― (…) o modo de viver burguês do Porto sofre uma alteração: a casa deixa de ser funcional dissociando-se a residência e a loja, a aparecendo casas apenas de residência; (…) em vez da loja, fica um escritório com janelas para a rua, muitas vezes gradeada. É esta a casa dos nossos avós e dos nossos pais (…) ‖81 Este novo entendimento da habitação será um reflexo da classe burguesa, e da sua crescente relevância na sociedade portuense. Em parte motivada pelo desenvolvimento dos transportes, em parte pela repulsa que sente em relação ao centro da cidadeque já assinalamos-, ela acaba por querer distinguir o espaço da casa do trabalho.82 De uma forma generalizada estas habitações unifamiliares apresentam dois, três, ou quatro pisos, com pés direitos consideravelmente mais altos que os da tipologia anterior.83 Na sua organização interior, o acesso continua a ser feito por uma caixa de escadas, transversal à construção, que divide a frente das traseiras. É iluminada zenitalmente pela clarabóia, que pode ainda, à semelhança do que já havíamos observado no período anterior, iluminar os compartimentos interiores. O rés-do-chão, tradicionalmente destinado à habitação, levanta-se agora para dar lugar a uma cave sobreelevada, garantindo a privacidade do interior em relação ao exterior.84 No que diz respeito à distribuição das funções, notamos uma maior complexidade; os lugares genéricos que compunham a casa até ao século XVIII foram agora substituídos por compartimentos especializados numa determinada função: Na cave, iluminada e ventilada, por norma encontramos as áreas de serviço; No piso da entrada ou ainda no 1º piso, consoante a dimensão da edificação, localizar-se-iam as áreas comuns; A cozinha, até então na cobertura, desce para servir as zonas comuns e estar mais próxima dos armazéns na cave; Os pisos superiores serão destinados aos quartos da família, com as instalações sanitárias localizadas nas varandas das traseiras; No que diz respeito às águas furtadas, destinarse-iam aos dormitórios dos criados ou, se as condições do espaço o permitissem, a outros quartos da família.85 No sistema construtivo, como na selecção de materiais não se conhecem grandes modificações: Parecem dominar a pedra granítica, a madeira e o ferro. – ―As varandas e os peitoris de janelas, ornamentadas com artísticos ferros forjados e fundidos dão às construções dessa época especial beleza‖;86 80 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 170 81 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, op.cit., pág. 342 82 MOTA, Nélson, op.cit., Editora Edarque, 2010, pág. 81 83 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 171 84 MOTA, Nélson, op.cit., pág. 110 85 MOTA, Nélson, op.cit., pág. 136 86 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 174 35 De referir ainda o azulejo, uma inovação neste contexto arquitectónico – ―A fachada principal das casas do Porto, no século XIX, e em muitos casos as restantes paredes exteriores são revestidas com azulejos policromados (…) ‖; nos interiores destacamos um apuro das soluções por exemplo no acabamento dos tectos – ―Todos os compartimentos da casa têm tectos de gesso com motivos simbólicos, conforme a sua utilização.‖87 O desenho de composição das fachadas apresenta uma configuração desconhecida em épocas anteriores. Aumentam consideravelmente os pés direitos e por consequência a altura dos vãos; a porta de entrada, por abranger o meio piso da cave e respeitar a altura das padieiras das janelas do primeiro piso, é agora extremamente alta; são abertos novos vãos, quase ao nível do arruamento, que iluminam e ventilam a cave; As três aberturas mantêm-se, sendo que a central pode receber uma varanda ou sacada.88 14. Rua do Vilar 15. Rua da Boavista 87 FERREIRA. J.A, ―Das Casas do Porto do séc. XIX‖ in ―Documentos e Memórias para a História da Cidade XXXI - Casas do Porto (séc. XIV ao séc. XIX)‖, Publicações da Câmara Municipal do Porto – Gabinete de História da Cidade, 1961, pág. 41 88 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 174 36 16. Habitação com duas frentes; logradouro; acesso central; Tipologia Unifamiliar e Monofuncional 17. Habitação com duas frentes mais profunda; logradouro; acesso central; Tipologia Unifamiliar e Monofuncional 37 Adaptação da casa a habitação plurifamiliar Quando procuramos contextualizar o nosso estudo na história da cidade assinalamos o galopante crescimento demográfico que se fez sentir desde o séc. XVII até ao séc. XX. Observámos também que esse incremento populacional terá sido em parte fruto do número crescente de indivíduos que abandonaram a vida rural e se fixaram na cidade, sobretudo no velho perímetro fortificado. O que já verificámos é que, ao contrário de Lisboa, a resposta às carências habitacionais que gerou este fluxo migratório não terá passado pelo desenho de novas tipologias mas antes pela densificação das estruturas urbanas já existentes. - ―É a via pobre, simultaneamente individualista e solidária, de criação provisória e casuística de habitação.‖89 A casa que era até então destinada a uma só família será agora sujeita a todo o tipo de operações para se adaptar à morada de variados núcleos familiares. É a solução horizontal a insinuar-se na vida tripeira, pelo próprio veículo da casa vertical.90 Sobre este fenómeno argumenta e justifica Manuel Mendes: ―Na forma construída do Porto, o imobilismo e a inércia de anos sustentou um sentimento de perenidade, de conservação ou capacidade integrativa da construção urbana herdada de Oitocentos, um processo longo, em urdidura prolongada ao ritmo extenso do tempo. (…) Cidade pequena tessitura compósita de continuidades, rompimentos e simulações, actualizou-se mas não se modernizou (ou o fez à escala do sítio e preexistências, dos recursos e clientelas possíveis);91 Em concreto sobre as transformações arquitectónicas que tornaram viável a conversão de habitação do tipo unifamiliar para plurifamiliar, centramos uma vez mais a publicação de Francisco Barata, e em particular o capítulo que aborda este tema. Observa o autor que, das tipologias que abordámos, aquelas que combinam tradicionalmente a habitação com comércio, oficinas, arrecadações ou garagens já no séc. XX, serão aquelas que apresentam maior capacidade de adaptação – o piso térreo é nivelado com a rua, e verifica-se a possibilidade de aceder de forma independente aos pisos superiores. Como já havíamos antecipado, essa capacidade aumenta na tipologia almadina devido às áreas mais generosas que apresenta. 92 Na análise destes processos de transformação conclui-se que o acesso e respectiva localização assumem um papel determinante na organização do espaço e na adaptabilidade da tipologia. Principiamos nas construções mais primitivas, de uma frente, que ainda hoje encontramos no velho núcleo amuralhado. O facto de possuírem a caixa de escada encostada à parede posterior facilita a divisão por pisos. Em cada um deles será possível organizar uma habitação continua. Nestes casos, poder-se-iam criar quantas habitações as tecnologias e os materiais permitissem através do acrescento de pisos. Estas porém, de dimensões limitadas, iluminação e ventilação um tanto precárias – pela frente estreita, e o quarteirão compacto onde se integram.93 Já nos edifícios de duas frentes, e nos casos em que se destina uma habitação por piso, as áreas são mais generosas, podendo localizar-se, por exemplo, a cozinha e sala num lado da caixa de escadas, e os quartos no outro. A par do aumento da superfície do fogo, importa referir a iluminação e a ventilação mais adequadas que propiciam estas edificações. 89 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 227 90 VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e GALHANO, Fernando, op.cit., pág. 344 91 MENDES, Manuel Graça, SALGADO, José, ―(In) formar a modernidade. Arquitecturas portuenses, 1923-1943: morfologias, movimentos, metamorfoses‖, Faup Publicações, Porto, 2001, pág. 64 92 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 229 93 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 226-229 38 Nas tipologias almadinas de duas frentes, fruto do aumento da largura do lote, estas vantagens serão ainda mais evidentes. Porém, o acesso mais uma vez se revela um dispositivo determinante na apropriação do espaço. Ao contrário do que verificámos na tipologia de uma só frente, aqui a caixa de escada interrompe a continuidade espacial da habitação. Nestas situações, quando não é viável o desenho de um corredor paralelo ao patamar intermédio da caixa de escadas, que garanta a comunicação entre a frente e traseiras, o patamar do piso deve ser considerado simultaneamente público e privado – é a forma possível de fazer comunicar as duas frentes da casa, mantendo a passagem para os habitantes dos outros pisos.94 Sobre a adaptação das construções de duas frentes a novos programas habitacionais, refere-nos Francisco Barata outros exemplos: habitações cuja sala e cozinha se localizam num piso e os quartos no piso superior, fazendo-se a ligação através da caixa de escadas colectiva, ou ainda variantes em que os últimos lances da escada já pertencem ao interior da habitação – tornandose o acesso colectivo nos primeiros pisos e privado nos últimos; 95 Alguns destes edifícios têm ainda espaço para integrar um saguão, junto do qual serão colocadas, progressivamente, as casas de banho; estas, até ao momento, encontram-se divididas – o banho está separado das peças sanitárias instaladas no tardoz, como já havíamos referido. 96 O autor revela mais exemplos de conversão da casa unifamiliar para plurifamiliar que resultam, por exemplo, da associação lateral de lotes. Não obstante, o nosso estudo pretende focalizar somente as tipologias que, ainda que longe da sua distribuição original, mantêm a mesma configuração de lote – estreito e profundo, o mesmo dimensionamento da edificação, e a mesma posição de caixa de escadas que temos vindo a referenciar – central e transversal à construção. Essa é a casa que estará na base do nosso estudo e da nossa intervenção. No momento de projectar o objectivo será também, à semelhança destes processos que observámos sumariamente, a rentabilização máxima da casa burguesa do Porto; Não se pretende programar a habitação para alojar uma família apenas, mas para o maior número possível - e exequível - de indivíduos. Daqui decorre a pertinência desta última análise, como aliás já tínhamos antecipado. 94 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 229 95 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 242 96 FERNANDES, Francisco Barata, op.cit., pág. 230 39 Reabilitar e Re Ocupar; Considerações sobre a estratégia da Porto Vivo ―Havia uma janela de comboio na qual surgia subitamente a cidade. Uma visão rápida, quase irreal. Era necessário treino e truques para apreender tudo – instantâneo perfil petrificado, animal desdobrado, sucessão de episódios, intervalos, Torre dos Clérigos dourada pela limalha dos cabos eléctricos, torres de igreja conventuais, Grilos, Sé, cubo imponente de Nasoni, muralha cruzando o arco de ferro da ponte, encostas desfeitas e casario, casario, reflexo de azulejos, empenas em chapa zincada de sumptuoso vermelho veneziano, telhas, vidros de clarabóia cortantes como espelhos. (...) Sempre o mesmo e sempre diferente. (...) À distância mantém-se uma beleza essencial. Mas já não apetece viver nesta cidade.‖97 Nas últimas décadas, mesmo os olhares menos instruídos notam que o panorama do centro urbano do Porto está longe do cenário favorável que conhecemos outrora. Restou apenas a arquitectura, a dita memória de um passado áureo, mas sem a(s) vida(s) que lhe conhecemos. No centro da urbe passamos a encontrar um cenário degradado e desertificado. Os Censos de 2001 já confirmavam esta realidade: 38% do total dos alojamentos (cerca de 1.928.000 fogos) careciam de obras de reparação, sendo que 6.5 % (cerca de 325.000 fogos) se encontravam muito degradados ou a necessitar de grandes reparações. Relativamente à sua ocupação, os dados revelam que quase 187.000 correspondiam à residência habitual, cerca 100.000 se encontravam devolutos e os restantes 38 mil eram de uso sazonal. 98 Pelo enquadramento histórico realizado, não será difícil adivinhar as razões que justificam as estatísticas. Como observamos, a industrialização que chegou à cidade do séc. XIX terá contribuído não só para o desenvolvimento da sua actividade comercial e económica, como também para um grande crescimento demográfico. O Porto viu a sua população aumentar descontroladamente, a par das carências habitacionais que referimos. As novas formas de adaptação da casa burguesa unifamiliar às necessidades dos habitantes, por mais inventivas e originais que fossem, acabaram por comprometer as suas condições de vida. Os desenhos que realizaram os agentes do CRUARB revelam bem o que terá sido a dura realidade do subaluguer de quartos, vãos de escada, pisos inteiros, meias-casas, águas furtadas, anexos, etc., que compunham por esta altura aquelas habitações. Qualquer vazio era alugado e depois sub-alugado, fazendo rentabilizar ao máximo os metros quadrados disponíveis, provocando problemas de sobreocupação, insalubridade, doença, destruição, etc.99 [18,19] 97 SIZA, Álvaro, ―As Chaves da Cidade do Porto‖ in ―01 textos – Álvaro Siza‖, Edição de texto por Carlos Campos Morais, Civilização, Porto, 2009, pág. 32 98 ―Censos 2001‖ citados por FREITAS, Vasco, SOUSA, Hipólito, COSTA, Aníbal, QUINTELA, Marisa, ―Manual de apoio ao projecto de edifícios antigos‖, Coordenação Vasco Peixote de Freitas, Edição Ordem dos Engenheiros da Região Norte, 1ª Edição, 2012, pág. 22 99 FIGUEIREDO, Pedro, ― O Centro Histórico antes do CRUARB" in http://www.porto.taf.net/dp/node/7058, 29-06-2009 40 18,19. Plantas de um quarteirão no Barredo com o tipo de ocupação dos interiores A par da sobrelotação da cidade antiga, surge uma nova estrutura urbana, a periferia, resultado da expansão oitocentista que também a industrialização propiciou. Progressivamente conectada ao centro por uma eficaz rede de ligações e capacitada com as estruturas adequadas, esta nova cidade periférica ter-se-á tornado alvo de uma construção massiva que, não só o investimento privado, mas também os capitais públicos, terão motivado e financiado: ―A urbanização da cidade e, especificamente, das suas freguesias periféricas, é claramente resultado do conjunto de políticas implementadas pelo Estado. As sucessivas políticas de ordenamento do território e de política habitacional contribuíram para construir novos lugares na cidade e para infra-estruturar em termos urbanos contextos que, de alguma maneira, ou não existiam ou estavam muito distantes das lógicas organizadoras da cidade modal da sua época.‖ 100 Assim, a partir dos anos 30 do século passado, ter-se-á dado o preenchimento dos vazios urbanos com os chamados prédios de rendimento, urbanizações privadas de prédios colectivos e bairros sociais. Estes ofereciam, a preços acessíveis, uma variedade de tipologias, privilégios e benefícios, com os quais dificilmente a Baixa poderia competir. O resultado terá sido, um pouco como já observámos, o abandono das residências precárias do centro da cidade, por parte das populações, que encontram na periferia próxima melhores condições de habitabilidade. 101 Terá sido esta a realidade que gerou a dita desertificação e degradação do lugar. Hoje a imagem que conhecemos do Porto Iluminista ou Liberal, deu origem a ― (…) uma crise estrutural, não propriamente de preços, mas do já mencionado edificado (casas muito antigas, degradadas, sem elevador e sem o precioso e inevitável, para efeitos de recuperação, estacionamento automóvel), que, por sua vez, se articulam com uma ausência qualificada (no que respeita à idade, à fase de ciclo de vida e às capacidades de acção) de agentes sociais‖.102 Para esta realidade terá contribuído a estratégia do Estado que teve dificuldades em conciliar a criação do novo tecido urbano com a manutenção do património arquitectónico existente e a resolução das carências habitacionais da população do centro da cidade. O país terá concentrado recursos avultados no incentivo à nova construção, reservando uma tímida percentagem para financiar operações de reabilitação urbana ou de conservação patrimonial103: 100 PEREIRA, Virgílio Borges, "A cidade, a relegação e o Estado: coordenadas para uma sociologia da relegação sócio espacial na cidade do Porto" in ―Leituras de Marques da Silva: reexaminar a modernidade no início do século XX‖, Fundação Marques da Silva, Edição de Rui Jorge Garcia Ramos, pág. 55 101 PEREIRA, Virgílio Borges, op.cit., pág. 55 102 PEREIRA, Virgílio Borges, op.cit., pág. 57 103 AGUIAR, José, ― Projecto de conservação: da importância do método à oportunidade das surpresas‖, in http://mestradoreabilitacao.fa.utl.pt/disciplinas/jaguiar/jaguiarprojectarparaconservarscte2004.pdf, Junho de 2004, pág. 4 41 ―Quer dizer: as políticas municipais e governamentais têm contribuído, paulatinamente, talvez sem terem consciência e levadas pelos próprios técnicos que fazem os planos, para a morte lenta das áreas antigas dos aglomerados. E que a cidade é como um sistema de vasos comunicantes em que o que se faz ou deixa de fazer num lado influencia ou condiciona o que acontece no outro lado‖ 104 Alguns críticos apontam ainda o regime de arrendamento urbano, também sob a alçada do Estado, que terá contribuído para o aumento da percentagem de edifícios degradados, pertencentes a proprietários que se sentiram impotentes perante o congelamento das suas rendas.105 Depois do 25 de Abril de 1974, numa tentativa de potenciar o centro urbano da cidade e reverter a conjuntura descrita é criado o CRUARB – entidade responsável pela recuperação e reabilitação do Área de Ribeira/Barredo e cuja actividade terá sido decisiva para a classificação do centro histórico do Porto como Património da Humanidade, em 1994. João Campos, consultor desta instituição, resume os principais traços da sua estratégia de intervenção: ―Tratando-se de manter a cidade viva, é da reabilitação mesma das pessoas que tem que cuidar-se, para que as características globais de um património continuem asseguradas. A intervenção levada a cabo no Centro Histórico tem sido realizada através de políticas de reenquadramento social (que passam pela habitação e por todo um conjunto de medidas urbanísticas complementares), implicando a fixação das famílias ao seu bairro e, mesmo, à sua rua de origem. As gentes que dão sentido às próprias características dos espaços da cidade, e que com eles se identificam, garantem a interacção fundamental para que o património físico continue sendo desses habitantes (e) da cidade— e não uma área transfigurada para outros usos mais ou menos exclusivistas (por exemplo, o turismo), passando a ser apreciada sob pontos de vista exógenos e com finalidades externas ao meio social original.‖ 106 Os resultados desta primeira geração de políticas de reabilitação urbana do centro do Porto terão sido porém, um tanto limitados. A normalização social e política iniciada após o 25 de Novembro de 1975, veio restringir os ímpetos revolucionários, contribuindo para nova inversão nas estratégias de planeamento e organização do espaço urbano. O CRUARB vê então condicionados os seus recursos e, portanto, o alcance da sua intervenção. São interrompidos os trabalhos deste organismo em 2003.107 No ano seguinte surge em ―substituição‖ uma nova entidade, a Porto Vivo - SRU, criada no mandato do Presidente da Câmara Rui Rio. Este novo organismo, integrado nas Sociedades de Reabilitação Urbana, apresenta-se como uma empresa de capitais públicos, do Estado e da Câmara [60% IHRU e 40% CMP] que tem como missão conduzir o processo de reabilitação urbana da Baixa Portuense, sobretudo através do estímulo ao investimento privado. 108 Compreende como objectivos não só a re-habitação do lugar, mas também a promoção e revitalização do comércio, a dinamização do turismo, cultura e lazer, e a qualificação do espaço publico, também ele deficiente.109 104 PORTAS, Nuno, ―Os tempos das formas – vol. I: A Cidade Feita e Refeita‖, Edição Departamento Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho/ Guimarães, 2005, pág.164 105 AGUIAR, José, ― Projecto de conservação: da importância do método à oportunidade das surpresas‖, in http://mestradoreabilitacao.fa.utl.pt/disciplinas/jaguiar/jaguiarprojectarparaconservarscte2004.pdf, Junho de 2004, pág. 5 106 CAMPOS, João, citado por QUEIRÓS, João, ―QUEIRÓS, João, ―Estratégias e discursos políticos em torno da reabilitação de centros urbanos – Considerações exploratórias a partir do caso do Porto‖, in ―Sociologia, problemas e práticas‖, nº 55, 2007, pág. 93 107 QUEIRÓS, João, op.cit., pág. 93 108 PORTO VIVO, SRU ―Apresentação‖ in http://www.portovivosru.pt/sub_menu_1_1.php 109 PORTO VIVO, SRU, ―Objectivos‖ in http://www.portovivosru.pt/sub_menu_1_2.php 48 27. Durante as demolições no quarteirão das Cardosas 28. Durante a intervenção no quarteirão das Cardosas 29. Durante a intervenção no quarteirão de Carlos Alberto 30. Fachada recuperada 49 Podemos observar esta opção nas obras em curso nas Cardosas [28] mas também em alguns edifícios recuperados no quarteirão Carlos Alberto, que já referimos. As fachadas foram mantidas e recuperadas, sendo que grande parte do seu interior terá sido demolido e reformulado.131 [29,30] Por trás das fachadas ―originais‖ encontramos agora, além de uma nova configuração do quarteirão, um novo tipo de loteamento, a par de uma matriz de organização interna das edificações diferente da original. Terá sido fruto do emparcelamento, outra estratégia que também defende a Porto Vivo [31,32]: ―Como orientação geral, motivada pela necessidade de modernização e preparação da oferta habitacional para segmentos variados de residentes, deverá colocar-se a possibilidade de, nas operações de renovação urbana, a tipologia do fogo alterar a tipologia arquitectónica do edifício, ou seja: Fragmentação ou divisão em edifícios de maior área e o emparcelamento em edifícios de menor área (sempre que os edifícios contíguos o permitam e o programa à escala de intervenção o fundamente).‖132 Também no Corpo Guarda se procuram manter as fachadas e alterar, pela mão do emparcelamento, as tipologias interiores nos casos mais críticos: ― (…) onze edifícios antigos foram convertidos em dois prédios novos com 21 apartamentos e tipologias que variam entre T0 e T3. [33,34] 133 31. Planta do quarteirão de Carlos Alberto, com a sinalização dos fogos a recuperar 32. Planta com a proposta de intervenção 33. Planta do quarteirão do Corpo da Guarda 34. Planta com a proposta de intervenção: Castanho escuro – novos acessos; Castanho claro – lotes emparcelados 131 Ver EDIFER, grupo, SRU, PORTO VIVO, ―Quarteirão de Carlos Alberto – Apresentação do Projecto‖, Porto, Fevereiro, 2007 132 PORTO VIVO, SRU, ―Masterplan (síntese executiva): Revitalização Urbana e Social da Baixa‖ Versão Definitiva, Porto 2005, pág. 9 133 SCHRECK, Inês, ―Casas renovadas na Zona Histórica sem interessados‖ in http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho .aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=1775179&page=-1, 4 -022011 50 O que nos perguntamos é se a manutenção de um alçado, de uma capa, é suficiente para garantir a preservação da memória. Não serão o sistema construtivo e as tipologias habitacionais, património tão valioso como é uma fachada? No que se refere à transferência massiva das soluções da construção nova para este sector, que também preocupa José Aguiar, poder-se-á considerar, por exemplo em Carlos Alberto, um tanto questionável. [35] A mesma inquietação se sente em relação às Cardosas: quando avançamos além das fachadas de pedra, também elas com caixilharias em alumínio ou PVC e placagens de granito a substituir molduras em ―pedra estrutural‖, descobrimos toda uma estrutura em betão, com o sistema de pilar e viga e lajes aligeiradas. [36] Em face a estas opções importava recordar a sugestão de Purini: ―Passado e Futuro representam duas formas de existência do pensamento projectual que deveriam estar associadas pela técnica, para reconstruir um sistema dotado de um grau aceitável de lógica.‖134 Será como refere José Aguiar: ―Uma coisa é afirmar a inevitabilidade da contemporaneidade na conservação, outra, bem diferente, é sustentar a anulação da história pela selecção exclusivista de sinais e signos dos novos tempos e pela inclusão ensurdecedora dos seus paradigmas formais no processo de projecto e de desenho. Hoje e aqui necessitam-se de novas criatividades, eventualmente menos protagonizadas e aparentes, mas não menos poéticas ou corajosas e (hoje) muito mais subversivas.‖ 135 Consideramos que na cidade antiga ―nem sempre temos de falar baixo‖, não obstante, e como remata o autor, isso não invalida a consciência de que não se está a projectar num papel em branco. Deve prevalecer a premissa de Álvaro Siza: ‖No que à História diz respeito, que o façam com rigor intransigente, afastando a tentação de deixar alguma assinatura por demais perceptível; para tal existe o campo vasto do que se vai construindo nos novos territórios (...).‖136 E de novo caímos na inevitabilidade de questionar quanto custa tanta e tão ―nova‖ construção. 35. Perspectiva do interior do quarteirão de Carlos Alberto 134 ―Pasado y futuro representan dos formas de existência del pensamento proyectual que tendrían que estar unidas por la técnica, para reconstruir un sistema dotado de un grado acptable de logicidad.‖, PURINI, Franco, citado por GARCIA, Francisco, op.cit, pág. 29 135 AGUIAR, José, ― Memória, Cidade e ProjectoQuestões e paradoxos na conservação do património arquitectónico e urbano‖ in http://mestrado-reabilitacao.fa.utl.pt/disciplinas/jaguiar/jaguiarcongressooa2000.pdf, Évora, 2000, pág. 8 136 SIZA, Álvaro, ―As Chaves da Cidade do Porto‖ in ―01 textos – Álvaro Siza‖, Edição de texto por Carlos Campos Morais, Civilização, Porto, 2009, pág. 25 51 36. Perspectiva do interior do quarteirão das Cardosas A par do planeamento urbano e da questão construtiva, também a componente sociocultural será de maior relevância, se não a mais preponderante. Ela deve representar o objectivo, o fim da reabilitação e da (re) habitação; quando a intervenção não satisfaz a sociedade, o seu papel tornar-se-á por suposição redundante e dispensável. ―Antes da autenticidade das pedras, coloca-se a das gentes que habitam o Centro Histórico, garantia primeira da perenidade da vida urbana. São os habitantes da cidade histórica os actores insubstituíveis da sua evolução e os participantes privilegiados na formação e difusão do conhecimento intrínseco que uma dada urbanidade transmite‖137 É a síntese da salvaguarda do património e da população que deverá prevalecer na hora de actuar. Na teoria, a Porto Vivo parece obedecer a um princípio de inserção social coerente e ajustado: ―É indispensável criar uma oferta de habitação, em qualidade e quantidade, que possa atrair ―os tripeiros‖ a viver no centro da sua cidade. Importa captar moradores de diversos standards socioeconómicos para preencher o edificado que se esvaziou e para vivificar o comércio e as ruas‖.138 Na prática, o cenário assemelha-se um tanto contraditório: " Se me disserem que a SRU só tem casas para a classe alta, eu tenho que concordar, porque de facto tivemos que actuar nos casos mais complexos e o custo final da obra foi altíssimo portanto não é possível disponibilizar habitações com custos acessíveis porque se assim fosse os investidores estariam a perder muito dinheiro», afirma Rui Quelhas".139 Perante esta incidência sobre o cliente com capacidade financeira para cobrir o investimento, não poderemos depreender o esquecimento da salvaguarda dos interesses dos restantes estratos socioeconómicos por parte da SRU? Será esta forma de actuar que motiva o sociólogo João Queirós afirmar que ― Em relação ao objectivo da captação de novos residentes, vale apena acrescentar que o programa de intervenção da Porto Vivo assenta a sua lógica em intervenções cujo princípio fundamental é o da gentrificação da cidade.‖140 137 CAMPOS, João, op.cit, pág. 61 138 PORTO VIVO, SRU, ―Masterplan (síntese executiva): Revitalização Urbana e Social da Baixa‖, Versão Definitiva, Porto 2005, pág. 5 139 QUELHAS, Rui em ―Reabilitação: Um Porto como novo‖ in http://imobnewsportugal.blogspot.pt/2012/07/reabilitacao-umporto-como-novo.html, 14-07-2012 140 QUEIRÓES, João, ―O lugar da cultura nas políticas de reabilitação de centros urbanos: apontamentos a partir do caso do Porto‖, Edição Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras. Instituto de Sociologia, 2007,pág. 18 52 Ou seja, o objectivo parece ser o de oferecer os meios e as oportunidades necessárias à criação de uma oferta habitacional e de uma cultura de consumo capaz de seduzir apenas o segmento educacional e culturalmente mais capitalizado das novas classes médias urbanas.141 O custo dos imóveis recuperados podem ajudar a ilustrar a afirmação de Rui Quelhas e a consideração de João Queirós. Por exemplo em Carlos Alberto estiveram disponíveis 20 fogos, com tipologias do T0 ao T2, cujos valores oscilavam entre os 100 mil e 250 mil euros; Mário Santos, da Edifer, e Miguel Freitas, o mediador imobiliário, justificam o preço e as opções: "Quisemos apostar em algo diferente, num estilo não consensual e destinado a um nicho de mercado. (...) Um deles é um T1 ao "estilo parisiense" (…). Situado nas águas-furtadas, tem 106 metros quadrados, um pé-direito fora do comum, três frentes e cozinha separada.‖142 Situação semelhante verifica-se no quarteirão das Cardosas ou do Corpo da Guarda. No primeiro caso os apartamentos, com áreas entre os 34 m2 e os 150 m2, estão a ser vendidos a preços médios entre os 2.500 e os três mil euros o m2 - entre 80 mil, nas tipologias mais pequenas, e os 380 mil euros (três assoalhadas).143 No caso particular do Corpo da Guarda os preços base dos T1 e T3 variavam entre 180 mil euros (T1 sem lugar de garagem) e os 310 mil euros (T3 duplex com estacionamento e arrumos).144 Devem contribuir para estes valores a intenção de atrair o dito ―target‖, que referiu Rui Quelhas, mas também as estratégias urbanísticas e construtivas que já referimos. O que averiguamos é que, embora os apartamentos de Carlos Alberto tenham tido de facto algum sucesso, possivelmente pelo factor novidade e pela conjuntura de há três anos atrás, não tão precária como a actual, no Corpo da Guarda, por exemplo, um ano após a sua construção ainda não tinham sido vendidos quaisquer apartamentos, o que nos leva a questionar se terá adequado a Porto Vivo o tipo de oferta à procura ou, como inquire João Queirós, haverá procura que justifique a oferta que se tem criado?145 No que concerne aos residentes originários da Baixa do Porto, eles serão à partida os primeiros interessados em ver solucionada a precariedade das habitações. Reforça a própria SRU que ―Uma política de habitação sustentável tem necessariamente em conta a população residente e enraizada (…).‖ 146 Questiona, porém, o sociólogo, ―Que papel lhes cabe na estratégia de reabilitação urbana desta área da cidade? Estarão destinados a ser, a prazo, afastados para a periferia citadina ou para os subúrbios? Ou, pelo contrário, conseguirão ver asseguradas as suas ambições de permanência? Mais do que isso, conseguirão ver respondidos os seus anseios de melhoria das suas condições habitacionais e de vida?‖147 141 QUEIRÓS, João, ―Estratégias e discursos políticos em torno da reabilitação de centros urbanos – Considerações exploratórias a partir do caso do Porto‖ in ―Sociologia, problemas e práticas‖, nº 55, 2007, pág. 112 142 PINTO, Reis, ―Café Luso renascem quarteirão de luxo‖ 1 de Dezembro de 2009 http://www.jn.pt/paginainicial in /pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=1435200 143 SOARES, Elisabete, ―Casas das Cardosas são procuradas por investidores‖ in economico.sapo.pt/noticias/casas-dascardosas-sao-procuradas-por-investidores_127677.html, 2 -112011 144 SCHRECK, Inês, ―Casas renovadas na Zona Histórica sem interessados ―in http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho .aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=1775179&page=-1, 4 -02 - 2011 145 QUEIRÓS, João, ―Estratégias e discursos políticos em torno da reabilitação de centros urbanos – Considerações exploratórias a partir do caso do Porto‖ in ―Sociologia, problemas e práticas‖, nº 55, 2007, pág. 113 146 PORTO VIVO, SRU, ―Masterplan (síntese executiva): Revitalização Urbana e Social da Baixa‖ Versão Definitiva, Porto 2005, pág.10 147 QUEIRÓS, João, ―Estratégias e discursos políticos em torno da reabilitação de centros urbanos – Considerações exploratórias a partir do caso do Porto‖ in ―Sociologia, problemas e práticas‖, nº 55, 2007, pág. 113 53 Neste contexto, a dúvida que se coloca é se estes indivíduos, que são expropriados por não terem condições financeiras de assumir a reabilitação do imóvel, algum dia as terão para cobrir os valores que pede a Porto Vivo pelas casas recuperadas. Refere Rui Sá, vereador da CDU, que ―A Câmara do Porto, directamente, pela FDZHP (...) ou pela SRU, já expulsou mais moradores do centro do Porto do que aqueles que passaram a viver em casas reabilitadas pela SRU‖. 148 Também no que se refere aos ―jovens licenciados‖ ou ―casais em início de vida familiar‖ 149, questionamos se terão condições para adquirir as habitações recuperadas pela Porto Vivo. Assumindo que são estes os grupos sociais que têm maior predisposição para vir habitar o centro da cidade, não terão nesta fase de transição entre a vida académica e as responsabilidades conjugais um orçamento (ainda) limitado? No que diz respeito ao standard económico mais favorecido, e com base nos custos das habitações recuperadas, na afirmação de Rui Quelhas e nas considerações de João Queirós, concluímos que, na prática, este grupo será aquele que maior atenção tem recebido por parte da SRU. Assim vem reforçar a estratégia de promoção e publicidade das casas reabilitadas, equiparadas com as construções localizadas nas zonas mais valorizadas da cidade - Foz, Boavista, Matosinhos, etc.,- sendo os seus preços não muito desfasados daquelas: "Estamos a pedir dois mil euros por metro quadrado, o mesmo que nas Antas e na Boavista. Na zona do Hospital de S. João já há edifícios onde estão a pedir mais e na Foz está bem acima dos 2500 euros", referiu o administrador da SRU, Rui Quelhas a propósito da falta de desinteresse no Quarteirão do Corpo da Guarda‖.150 De qualquer forma, e independentemente da qualidade ou sucesso da estratégia de reabilitação da Porto Vivo, questionamo-nos se esta dita ―classe alta‖ quer de facto habitar na Baixa: irão estes indivíduos, com algum poder económico, querer residir num lugar onde o congestionamento automóvel é uma realidade, os passeios não têm árvores, os edifícios são recuperados, em detrimento de uma construção nova, de dimensões generosas, num terreno na periferia próxima, de inferior ou valor semelhante, onde não se verificam estes constrangimentos? A verdade é que a dificuldade que se verificou na venda das habitações do Corpo da Guarda poderá reflectir a pouca adesão mesmo por parte das classes mais privilegiadas. [37] 37. Fachadas recuperadas no quarteirão do Corpo da Guarda 148 RIOS, Pedro, ―Reabilitação do centro histórico do Porto com ―ritmo extremamente pequeno‖ in http://porto24 in.pt/porto/27032011/reabilitacao-do-centro-historico-do-porto-com-ritmo-extremamente-pequeno/, 27 -03 - 2011 149 PORTO VIVO, SRU, ―Masterplan (síntese executiva): Revitalização Urbana e Social da Baixa‖ Versão Definitiva, Porto 2005, pág. 9 150 QUELHAS, Rui, SCHRECK, Inês, ―Casas renovadas na Zona Histórica sem interessados‖ in http://www.jn.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=1775179 &page=-1, 4 -02 - 2011 54 Não será mais seguro encarar o facto de que " (…) para a Baixa vão as famílias atípicas, não as tradicionais (...); os casais jovens, artistas, pessoas sozinhas ou famílias sem filhos (…) aqueles que não precisam de grandes espaços para viver"? Para o arquitecto Nuno Grande este deveria ser o ―target‖ da Porto Vivo, o grupo social para o qual deviam incidir os seus trabalhos de re habitação da Baixa, o que de momento, não se sucede.‖151 Alerta de certa forma o autor para a necessidade de averiguar rigorosamente quem é o potencial morador do lugar, encarar e aceitar essa consideração, criando um tipo de ―oferta‖, de habitação, que lhe seja de facto ajustada. Não interessa dar uma ―nova cara‖ à cidade, investindo tempo e recursos na recuperação dos edifícios, se o seu interior permanecer vazio. É como refere Bruno Taut: ―é irrelevante o espaço da arquitectura sem as pessoas, o que importa é o aspecto das pessoas dentro dela‖. 152 151 GRANDE, Nuno, VILLAS-BOAS, Cristina, ―Reabilitação da Baixa do Porto: Faltam incentivos ao pequeno investidor‖ in http://jpn.icicom.up.pt/2009/07/21/reabilitacao_da_baixa_do_porto_faltam_incentivos_ao_pequeno_investidor.html, 21-07-2009 152 ―es irrelevante el espacio de la aquitectura sin gente, lo que importa es el aspecto de la gente en ella‖, TAUT, Bruno citado por MONTEYS, Xavier, FUERTES, Pere, ―Casa Collage – Un ensayo sobre la arquitectura de la casa‖, Editora Gustavo Gili, Barcelona, 2001, pág.14 O Projecto: A Construção de um Problema 56 57 Nota Introdutória ―De qualquer maneira, será uma operação violenta; mas o seu resultado estará ligado à capacidade de fazer nascer do choque entre o antigo e o novo, precisamente a relação dialéctica que liga a historicidade e a permanência dos tecidos antigos com os valores do presente, do transformador, do arbitrário, do energético, próprios da arquitectura e da existência contemporânea ‖ 153 Se a história que lemos sobre a casa burguesa do Porto permitiu-nos conhecer o objecto onde nos propomos intervir, a análise aos trabalhos da SRU esclareceu as maiores dificuldades dessa intervenção. Sem essas reflexões não seria, certamente, viável (ar) riscar uma proposta alternativa. Neste projecto de reabilitação, como já antecipámos, pretende-se delinear uma estratégia de recuperação daquele edificado que respeite, de facto, a sua configuração original, e que consiga simultaneamente responder às populações interessadas em vir habitar o centro da cidade. Procurar-se-á uma resposta que seja satisfatória quer do ponto de vista do orçamento – e assim ajustada à conjectura -, quer do próprio projecto de arquitectura. O facto de nos propormos desenhar um projecto modelo – um protótipo – em detrimento de actuarmos num caso em particular, apresenta claras limitações. Perante a ausência de um espaço concreto, um cliente e um programa de necessidades específicos, a proposta deve revelar uma grande flexibilidade. Tem inevitavelmente de considerar ligeiras variações da base, como diversos tipos de clientes e formas de habitar, como um programa versátil, para que se torne exequível a sua aplicação. É essa abstracção a grande dificuldade do exercício, que nos cruza em cada consideração, mas será também a sua componente que pode assegurar a aplicabilidade generalizada do protótipo. Para o seu desenho apropriado, impõe-se à priori todo um processo de pesquisa, de reflexão, que lhe dê fundamento teórico e justifique as suas opções. Embora a propósito de uma casa unifamiliar – Casa Vieira de Castro em Famalicão (1984-1987), servem-nos as coordenadas de Álvaro Siza para o desenho do nosso espaço doméstico: ―O projecto de uma casa unifamiliar estudado num escritório de grande dimensão, exige um esforço notável, visto que devem ser analisados em profundidade os hábitos as necessidades, e as aspirações da família que ali irá habitar. É necessário uma análise particularmente cuidada para que a resposta projectual seja muito detalhada no respeito do programa, das funções, e do aspecto estético. Todavia o projecto de uma casa unifamiliar continua a ser profícuo, pois constitui o momento ideal para a experimentação.‖ 154 Apesar de o contexto ser diferente, é com esta consideração que organizamos o corpo teórico que irá sustentar o nosso projecto; um argumento que pretende expor o processo de trabalho, o caminho que nos leva à concretização do objectivo primordial da dissertação. Assim o estruturamos em quatro etapas sequenciais; Com o apoio da reflexão anteriormente realizada, procurar-se-á desenhar um modelo abstracto da casa burguesa do Porto, que traduza as tipologias que nos parecem mais proeminentes na cidade actual, e mais susceptíveis de se ajustarem à abordagem que se propõe. Quando mencionamos tipologia, referimo-nos às várias questões urbanas, técnicas, e formais que lhe são inerentes; 153 ―De qualquier manera, será una operación violenta; pero su resultado estará ligado a la capacidad de hacer nacer, del choque entre lo antiguo y lo nuevo, precisamente la relación dialéctica que liga la historicidad y la permanencia de los tejidos antiguos con los valores del presente, de lo cambiante, de lo arbitrario, de lo energético, proprios de la arquitectura y de la existencia contemporânea ‖, GARCIA, Francisco, ―Construir en lo contruido-La arquitectura como modificación‖, 3ª Edição, Nerea, Madrid, 2005, pág. 109 154 SIZA, Álvaro, ―Imaginar a evidência‖, Edições 70, Lisboa, 2000, pág. 39 64 38. Corte de uma fachada principal 39. Pormenor dos sobrados 40. Corte transversal pelo telhado – pormenor das vigas esquadriadas e telha marselha 41. Corte longitudinal – pormenor do algeroz e da platibanda 42. Pormenor tipo de uma parede de tabique da caixa de escadas 43. Pormenor de lanço de escadas interiores 65 Assim, no que se refere à matriz de organização interna da nossa habitação tipo, consideramos a mais recorrente caixa de escadas de dois lanços, colocada a meio do edifício, numa posição transversal, iluminada zenitalmente por uma clarabóia. O acesso divide o espaço da frente - que se volta para o arruamento, do tardoz, orientado para o logradouro. Nas varandas da fachada traseiras, localizamos uma instalação sanitária. Em relação ao número de sobrados, mais uma vez, a escolha não traz grandes implicações para o projecto, devido à intenção, que já mencionámos, de actuar isoladamente nos pisos. Não obstante, para a compreensão da estrutura global do edifício, consideramos, além do piso térreo, mais três níveis. Sobre os pés-direitos, como já antecipámos, sabemos que aumentaram gradualmente. No entanto, novamente por razões operativas, estabelecemos um valor de 3.20 metros, tomando como referência o modelo abstracto de Joaquim Teixeira que tem ― (...) uma altura, correspondente a três pisos, de sensivelmente onze metros‖158. Também no que se refere à distribuição dos usos, como já aferimos, a escolha não condiciona o desenho da base da intervenção. Partimos porém do pressuposto que o piso térreo é ocupado com uma função terciária e os restantes pisos com habitação. Em relação ao sistema construtivo, materiais e composição da fachada, obedecemos fundamentalmente à ―Prova de aptidão pedagógica e capacidade científica‖ de Joaquim Teixeira sobre o sistema construtivo da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX, que confrontamos pontualmente com o ―Manual de apoio ao projecto de edifícios antigos‖, onde o mesmo autor participou. Além dos textos, partimos das ilustrações que integram esta biografia, para construirmos com rigor a nossa base de intervenção. No que diz respeito às paredes de meação, empregamos o granito com 40 cm de espessura e um revestimento exterior em chapa ondulada, menos primitivo do que os soletos de ardósia ou a telha vã.159 As paredes das fachadas serão também em alvenaria de granito, constituídas por peças aparelhadas em cantaria, conformando os vãos das portas e janelas sob a forma de lancis de soleiras, de parapeitos, de ombreiras e de lintéis. Contam com uma profundidade de 60 cm, sendo que 20 cm se destinam ao encaixe da janela e os restantes 40 cm para as portadas. 160 Relativamente ao seu revestimento exterior, é inevitável considerar o reboco ou o azulejo, os materiais que prevaleciam neste tipo de aplicações. [38] No que concerne aos sobrados, seguimos o esquema tradicional: paus rolados com um diâmetro de 25 cm e um afastamento entre eles de aproximadamente 50 cm, articulados com os tarugos; 161 Apoiam-se nas paredes de meação, com uma entrega de cerca de dois terços dos 40 cm que atribuímos a estas paredes. [39] Na cobertura representamos um telhado de quatro águas com telha marselha e vigas esquadriadas de madeira. [40] Consideramos ainda o desenho do algeroz e de uma platibanda, marcas características destas construções.162 [41] Relativamente à parede das escadas, obedecemos à solução aparentemente mais divulgada no séc. XIX: um tabique simples reforçado, constituído por um duplo tabuado onde se pregam os fasquios, por sua vez revestidos com argamassa de reboco e estuque no acabamento final. 163 [42] 158 TEIXEIRA, Joaquim, ―Descrição dos sistemas construtivos da casa burguesa do Porto entre os séculos XVII e XIX - Contributo para uma história da construção arquitectónica em Portugal‖, Outubro de 2004, pág. 45 159 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 46 160 FREITAS, Vasco Peixoto, coordenação, ―Manual de apoio ao projecto de edifícios antigos‖, Edição Ordem dos Engenheiros da Região Norte, 1ª Edição, 2012, pág. 36 e 37 161 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit , pág. 88 162 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit , pág. 96 e 167 163 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.126 66 44. Corte por uma clarabóia quadrangular 45. Maqueta de uma casa na Rua Dr. Barbosa de Castro 46. Corte transversal por uma fachada abrangendo janela de peito e janela de sacada 47. Corte tipo por uma fachada de tardoz 48. Corte por uma sacada constituída por peça única 49. Corte por uma sacada apoiada em cachorros 67 Para a definição da caixa de escadas mais uma vez seguimos o esquema tradicional: o vigamento do piso é interrompido com a ajuda de cadeias e chichareis, que têm a forma de paus rolados e definem os patamares dos pisos e os patamares intermédios. [43] Para apoiar os lanços, desenhamos apenas duas vigas pernas, também em forma de paus rolados, que encaixam nas cadeias dos patamares. Sobre estas pernas são pregadas tábuas em forma de esquadro, que recebem por sua vez as tábuas dos cobertores e dos espelhos. Estas têm respectivamente 4 e 2 cm de espessura. Os lanços e os tectos dos patamares recebem na sua parte interior o mesmo tipo de revestimento que as paredes – argamassa de reboco e estuque aplicados sobre os fasquios.164 [42] Para iluminar a caixa de escadas, consideramos uma clarabóia – no caso, rectangular-, cuja colocação exige a interrupção do vigamento do telhado. Quanto ao seu revestimento interior o esquema repete-se – um fasquiado, coberto pela argamassa de reboco e acabada em estuque.165 [44] Relativamente à composição da fachada principal, ao nível do piso térreo, e porque optamos representar apenas a tipologia plurifuncional, desenhamos uma porta que se destina ao acesso das habitações, e um envidraçado para uma qualquer função terciária. Nos restantes pisos conjugamos janelas de peito de batente e janelas de sacada, também de batente. Localizamos três vãos por sobrado, equidistantes entre si, sendo que abertura do meio corresponde ao eixo central da composição. Uma composição análoga à que sugere Francisco Barata no capítulo anterior. [45,46] Na fachada tardoz, que representamos apenas em planta, consideramos além da instalação sanitária junto a uma das paredes de meação, dois vãos por piso. [47] Associadas às janelas desenhamos varandas com meio metro de largura. São constituídas por uma única laje de pedra que se apoia na parede da fachada, uma técnica mais recente que permite à construção prescindir de cachorros. [48] Também na fachada tardoz representamos varandas, embora estas apresentem já uma dimensão bem mais considerável – 1,2 de largura-, assim permitindo o acesso às instalações sanitárias. Pela dimensão da consola, estes elementos carecem do suporte dos cachorros. [49] O material das guardas, tanto na frente de rua como nas varandas da fachada traseira será em ferro, a opção que, com a evolução dos tempos, se parece ter tornado mais recorrente.166 Esta análise serviu de fundamentação teórica aos desenhos rigorosos que nos permitem perceber na globalidade a estrutura do lote e da casa tipo que queremos recuperar. [D03, D04, D05, D06] Caracterizaremos agora a célula onde vai incidir a nossa actuação e o protótipo de reabilitação proposto. 164 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.129 165 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.154 166 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.176 68 50. Corte por uma parede de tabique simples 51. Corte por uma parede de alvenaria de pedra 52. Estuques decorativos 53,54. Corte vertical e horizontal e de uma janela de sacada e batente 55,56. Alçado e pormenor de uma porta interior 69 O fogo Como já antecipámos, a variação que sofre a profundidade dos lotes leva-nos a considerar dois tipos do fogo: - Um menor, que resulta do lote de 15 por 6 metros e tem sensivelmente 30 m2; - Um maior, que resulta do lote de 20 por 6 metros e tem sensivelmente 45 m2; [D07] A profundidade é a único parâmetro que distinguimos nos dois tipos. Toda a restante caracterização é idêntica. Os paramentos verticais - de forma a garantir uma grande continuidade espacial, todas as paredes - fachada, caixa de escadas, e as duas de meação - são emboçadas e regularizadas no seu interior com argamassa de cal, areia e saibro; o acabamento é em estuque com um barramento de pasta de cal. Serão caiadas e pintadas.167 No caso particular da parede que divide o fogo da caixa de escadas, como já vimos, a argamassa de reboco será aplicada sobre uma grelha de fasquios espaçados entre si 3 cm e pregados sobre o duplo tabuado.168 [50] O pavimento – consideramos todo o sobrado revestido por um tabuado, o soalho, com uma espessura de 4 cm, uma largura de 16 cm e o comprimento total do espaço.169 Para assinalar o remate do pavimento e fazer a transição para as paredes, desenhamos em todo o perímetro um rodapé. Este é composto por duas tábuas sobrepostas e tem uma altura total de 50 cm, de acordo com o modelo divulgado a partir dos finais do séc. XVIII.170 [50,51] O tecto - em relação ao tecto optamos por um acabamento em estuque, característico das casas burguesas do Porto a partir do séc. XIX. Mais uma vez, a técnica recorre a uma grelha de fasquios que aplicamos sobre uma estrutura intermédia de barrotes com 5 cm por 7 cm, os quais serão revestidos por duas camadas de argamassa e acabados com o dito estuque – uma pasta de gesso. Embora não seja desenhada uma planta de tectos, consideramos que existem motivos decorativos, sobre os quais devem ponderar as opções do projecto. Também na transição destes para as paredes, é desenhada uma sanca à volta de todo o perímetro do fogo.171 [51,52] As caixilharias exteriores - na descrição da fachada, desenhámos uma composição que articula dois tipos de caixilharia – peito e sacada, ambos de batente. Porém, no fogo, optamos apenas pelas janelas de sacada que permitem aceder à varanda. Por um lado, condicionamos mais o desenho do protótipo, já que este tipo de janelas praticamente inviabilizam o aproveitamento da parede da fachada para encostar mobília ou qualquer outro elemento. Pelo outro, desenhando uma proposta que se coaduna com as janelas de sacada, garantimos que ela é aplicável mesmo quando as janelas são de peito. No fundo, o que se pretende é desenhar o projecto independentemente da configuração da fachada de forma assegurar que este, no futuro, se adapta a qualquer tipo de situação. As caixilharias que integram estas janelas de sacada serão definidas por meio de uma esquadria de couceiras e travessas, segundo o esquema mais corrente.172 [53,54] As caixilharias interiores - no que diz respeito às portas de acesso às habitações mantemos a tradicional esquadria de tábuas, dispostas em forma de couceiras e travessas, à semelhança daquela que representamos nos caixilhos exteriores. 173 [55,56] Das caixilharias interiores contam-se também as portadas de madeira que por norma 167 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 85 168 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.121 e 126 169 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 93 170 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 175 171 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit , pág. 93 e 94 172 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 151 173 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág. 160 70 encontramos a proteger as janelas de batente.174 No caso, serão consideradas quatro folhas, que se encaixam integramente nos 40 cm da parede da fachada, que destinamos para este efeito. A sua composição e desenho seguem um esquema semelhante ao da porta de entrada no fogo. Toda a descrição que expusemos sobre o fogo, não se altera significativamente da frente do edifício para as suas traseiras. As únicas diferenças que devem ser assinaladas são a extensão das varandas, a localização da tradicional instalação sanitária, para a qual não se prevê nenhum uso em particular, e por consequência, o desenho de apenas dois vãos na fachada, que já assinalámos. Desta forma, não surge a necessidade de considerar o desenho de dois protótipos distintos consoante a sua orientação. Como já aferimos, o modelo que desenhamos para uma frente, repetir-se-á com alterações mínimas para a outra. [D07, D08] 174 TEIXEIRA, Joaquim, op.cit, pág.160 71 O Cliente ―O cliente é esse ser sem o qual é impossível fazer arquitectura, mas com o qual é ainda mais difícil realizá-la (…).‖175 Disse-o Rogers, e nós somos obrigados a sublinhar. Determinar, conhecer e considerar o cliente, é e será sempre condição necessária e obrigatória sobretudo quando se projecta habitação. Os seus modos de vida, e as suas expectativas em relação à casa revelam-se ferramentas basilares para a concepção do projecto. Considerando as reais necessidades do futuro habitante, o arquitecto pode economizar tempo, recursos e assegurar o sucesso da construção. A necessidade desta reflexão terá sido em parte motivada – ou ―alertada‖-, pela análise realizada aos trabalhos da SRU. Pese embora esta entidade ter definido previamente o seu ―público-alvo‖ no ―Masterplan‖, reforçando a importância de ― (…) captar moradores de diversos standards socioeconómicos (…) ‖176, consoante foram seguindo os trabalhos e surgido as limitações, o dito público-alvo foi, como já verificámos, reformulado: " Se me disserem que a SRU só tem casas para a classe alta, eu tenho que concordar, porque de facto tivemos que actuar nos casos mais complexos e o custo final da obra foi altíssimo portanto não é possível disponibilizar habitações com custos acessíveis porque se assim fosse os investidores estariam a perder muito dinheiro‖.177 A consequência dessa reformulação terá sido em parte, como também já observámos, a pouca adesão a alguns destes imóveis recuperados. Desta conduta e seus resultados, o que podemos concluir é que a procura do cliente deverá ser elaborada à priori da intervenção - como aliás procurou fazer a Porto Vivo- , mas que, ao longo dos trabalhos, essa consideração jamais pode ser ignorada ou reajustada conforme o investimento. Por isso nos propomos antes de ―intervir‖ a definir esse cliente - o potencial habitante das casas da Baixa-, mas considerando também previamente todas as limitações que possam estar associadas às suas necessidades, como por exemplo, o orçamento. Assim, mais facilmente se garante a pertinência do nosso protótipo e a sua adesão. De novo a dificuldade cresce pela abstracção do exercício. Não projectamos para uma família ou um indivíduo em particular e toda a carga emocional, intelectual e física que por norma acarretam, o que nos leva uma vez mais no caminho da tipificação: se atrás definimos um tipo de habitação, agora urge a procura pelo tipo do habitante. Este modelo hipotético será, no fundo, o resultado da confluência dos denominadores comuns que encontramos nos vários potenciais clientes do lugar. Nesta demanda de limites tão incertos serve-nos a análise da sociedade contemporânea donde inferimos as coordenadas imprescindíveis para fundamentar a descrição do público-alvo e da sua forma de habitar o mundo. Dizia Mies Van der Rohe que ―A arquitectura é a vontade de uma época traduzida num espaço‖.178 175 ROGERS, Ernest Nathan, citado por Rodrigues, Ana Luísa Jardim Martins, ―A habitabilidade do espaço doméstico : o cliente, o arquitecto, o habitante e a casa ― no âmbito da Dissertação de Doutoramento, Universidade do Minho, 2008, pág.10 176 PORTO VIVO, SRU, ―Masterplan (síntese executiva): Revitalização Urbana e Social da Baixa‖, Versão Definitiva, Porto 2005, pág. 5 177 QUELHAS, Rui em ―Reabilitação: Um Porto como novo‖ in http://imobnewsportugal.blogspot.pt/2012/07/reabilitacao-umporto-como-novo.html, 14-07-2012 178 LLEÓ, Blanca, ―Sueño de habitar‖, Gustavo Gili, Barcelona, 2005, pág. 33 72 Sobre as recentes transformações que sofreu a sociedade ―as pesquisas chegaram a um resultado unânime, de que as formas de vida se haviam individualizado fortemente, o que podia ser esclarecido por meio de mudanças irreversíveis que ocorreram na sociedade‖: 179  A liberalização dos relacionamentos humanos – aumento da coabitação informal e recuo do casamento, crescimento do divórcio, dos nascimentos fora do casamento, das famílias monoparentais, entre outros fenómenos;  A tendência para a igualdade de direitos sociais e profissionais para as mulheres, as quais adiam o casamento e o nascimento do primeiro filho;  A crescente valorização da carreira e da autonomia pessoal, em detrimento da formação do agregado familiar;  O envelhecimento da população, fruto do aumento da esperança média de vida e da diminuição da taxa de fecundidade;  A coexistência entre uma cultura local e global em função de uma rede global de comunicação;  O franco aumento da mobilidade, que contribuiu para o incremento do turismo e da imigração e, consequentemente, para uma grande diversidade cultural dos meios;  A tendência para eliminar a segregação entre trabalho e moradia por meio do desenvolvimento das tecnologias e aparição de novas profissões liberais, entre outros factores; Esta conjuntura tem-se reflectido no progressivo desaparecimento das famílias clássicas e no aumento crescente das famílias unipessoais, o grande segmento desta sociedade contemporânea.180 ―A classe média desaparece e com ela a clássica família nuclear do século vinte. A sociedade transformar-se-á em novos e amplos subgrupos: pessoas que vivem sozinhas, dinkies (casais sem filhos), famílias monoparentais, e gente mais velha, todos com referências étnicas e culturais diversas. Cada um deles terá as suas próprias expectativas sobre como gostaria que fosse a sua casa, mas surpreendentemente quase todos preferiam uma habitação localizada num ambiente urbano. As vantagens de uma infra-estrutura pública, os serviços, uma oferta cultural variada (...) serão as razões que os motivam a escolher o estilo de vida urbano, face às urbanizações com jardim da periferia.‖181 De facto, numa grande metrópole, estes subgrupos poderão encontrar-se com todos os dispositivos indispensáveis à sua sobrevivência. Não haverá dúvida que ali a actualização e a modernização serão sempre mais rápidas do que num contexto rural. Assim se convertem as cidades ― (…) em lugares de lazer, de intercâmbios, de cultura e do entretenimento, lugares em que escolha e as possibilidades são ilimitadas, graças á proximidade das redes.‖ 182 Por esta razão as habitações nas grandes centralidades tornam-se mais dispendiosas e, paralelamente, se convertem em espaços de vida diferentemente codificados por indivíduos que coabitam mas que seguem ritmos e estilos de vida diferentes.183 179 SCHNEIDER, Friederike, ―Atlas de Plantas – vivendas/habitação‖, Edição Gustavo Gili, 2006, pág. 32 180 SCHNEIDER, Friederike, op.cit,, pág. 32 181 ―La clase media desaparece y com ella la clássica familia nuclear del siglo veinte. La sociedad se troceará en unos nuevos y amplios subgrupos: personas que viven solas, dinkies (parejas com dos ingresos y sin hijos), familias monoparentales, y gente mayor, todos ellos com referencias étnicas y culturales diversas. Cada uno de ellos tendrá sus proprias expectativas sobre cómo le gustaría que fuera su vivenda, pero sorpredentemente casi todos preferíran un apartamento situado en un entorno urbano. Las ventajas de una infraestructura pública, unos servicios, una oferta cultural variada (...)serán las razones que le empujen a escoger el estilo de vida urbano, frente a las urbanizaciones con jardin de las afueras.‖, KEMPE, Andre, THILL, Oliver, ―Neutralidad específica, Un manifesto sobre la nueva vivenda colectiva‖ in ―a+t – Densidad II‖, nº20, 2002 182 ―Las ciudades se convierten en los lugares del ocio, los intercambios, la cultura y el entretenimento, lugares en los que la elección y las posibilidades son ilimitadas, gracias a la proximidad de las redes.‖, GAUTIER, Pierre, ‖Identidad, Escala, Flexibilidad‖ in ―Revista Quaderns D'Arquitectura I Urbanismo‖, Nº 226, Editor Colégio Arquitectos Catalunha, 1996, Barcelona 183 DOMINGUES, Álvaro, ―De que se fala quando se fala de casas?‖ in ―Jornal dos Arquitectos‖ nº224, Edição da Associação dos Arquitectos Portugueses, 2006 73 Para estes indivíduos prevalece, acima da coabitação, a vontade de estar mais perto do lugar ―de todos os possíveis‖. ―Este sujeito social é, simultaneamente, resultado e braço armado da globalização económica do território. Para as civilizações ou os habitantes sedentários, este sujeito, assim como todos os nómadas, é um parasita, um depredador que usa as cidades, e que, embora tenha delas se originado, contribui, a partir da sua perspectiva, para a sua destruição, na medida em que opera contra elas, como um fagócito que tomasse para si todos os benefícios de um esforço que é colectivo.― 184 O carácter ―parasítico‖ dos indivíduos contemporâneos será evidente no modo como se ―apropriam‖ da cidade. Como explica o autor, eles ocupam-na efemeramente, usufruindo das suas mais-valias enquanto lhes é proveitoso; Quando lhes convém, e graças à mobilidade, abandonam a urbe e partem em busca de novas oportunidades. A cidade torna-se no ―cenário da acção‖, sendo a casa tendencialmente convertida num mero dormitório; Para estes sujeitos parece ser suficiente o abrigo para guardar alguns pertences - ― (…) com pouca tralha há espaço-tempo para apreciar mundos e meditar escolhas‖185 - ao mesmo tempo um refúgio para quando a vida lá fora fatigar: ―É para esse corpo que «sai de si mesmo, que adquire novas velocidades e conquista novos espaços», que caminham as nossas casas. Mais tendas do que casas. Mais leves do que tendas‖.186 Nesta forma de habitar ― (…) a privacidade, reduzida ao mínimo, apenas está protegida por um fino véu, uma segunda pele que envolve uns poucos objectos. Como cabanas primitivas, [estes habitantes] anunciam um modo de se instalar no mundo contemporâneo permeado por sua própria fugacidade, sem memória, nem futuro, num presente contínuo, telemático e num espaço ubíquo nem sempre idêntico a si mesmo.‖187 Toyo Ito leva a cabo uma proposta experimental, intitulada ―Mulher de Tóquio‖, onde traduz com clareza esta questão do parasitismo e do nomadismo dos sujeitos. A habitação desta mulher é a cidade: ela não necessita de uma cozinha, de uma sala de estar ou uma lavandaria - todos estes serviços são providenciados por instalações públicas em espaços públicos. O único espaço físico que lhe compete, são as mínimas e ténues estruturas, tendas ou cabanas, que projecta o arquitecto, para o refúgio da sua intimidade máxima. ―Nela habita uma figura emergente e especialmente singular no Japão: uma mulher jovem, independente, ociosa e consumista, um sujeito em si mesmo banal (…). A mulher nómada, porém, não resiste ao seu meio, nem actua, ou exerce pressão sobre ele, apenas se dispõe a ser objecto das acções e ofertas por ele propiciadas (…).‖188 Toyo Ito enquadra esta mulher em Tóquio, mas muito provavelmente ela também vagueia nas ruas do centro de Londres, de Berlim, de Nova Iorque, ou em qualquer outra grande metrópole. Embora figurativa e hiperbolizada, ela será a personificação desta nova camada social que temos vindo a descrever. No contexto nacional, pese embora estarmos perante uma circunstância mais modesta, o individualismo dos sujeitos é também um fenómeno evidente: ―Um quinto da população portuguesa vive sozinha. As chamadas famílias unipessoais foram as que mais cresceram - 37,3 % em dez anos (….). No Portugal de 2011 são 21,4% os que vivem sozinhos, uma realidade mais vincada no interior do país, na região Centro e Sul do país, mas também que atinge valores muito elevados nos municípios de Lisboa e Porto. A dimensão média das famílias é, em 2011, de 2,6 pessoas, enquanto que em 2001 era de 2,8.‖189 184 ÁBALOS, Iñaki , ― A Boa-vida: Visita guiada a las casas da modernidade‖, Editorial Gustavo Gili, SA, Barcelona, 2000, pág. 149 185 BRANDÃO, Ludmila de Lima, ― A Casa Subjectiva‖, Editora Perspectiva, São Paulo, 2002,pág. 101 e 102 186 LÉVY, Rino, citado por BRANDÃO, Ludmila de Lima, op.cit,, pág. 101 e 102 187 ÁBALOS, Iñaki, op.cit, pág. 157 188 ÁBALOS, Iñaki, op.cit, pág. 154 189 GOMES, Catarina, FREITAS, ―Famílias de uma pessoa cresceram 37% em dez anos‖ in http://www.publico.pt/Rafaela Sociedade/familias-de-uma-pessoa-cresceram-37-em-dez-anos-1524142, 07-12-2011 80 No que concerne ao nosso cliente, e à sua forma de habitar, também nos parece evidente o desajuste. Segundo nos deu a entender a análise anterior, não projectamos para a dita família convencional, numerosa, mas para um grupo bem reduzido de indivíduos; Assumindo que os mesmos são, de facto, o reflexo da sociedade contemporânea, os ditos ―nómadas‖ que da casa querem pouco mais do que o habitáculo, faz com que se torne um tanto exagerado aquela compartimentação e especialização dos espaços; O orçamento condicionado que determinámos só vem reforçar esta consideração. Assim, decorre a necessidade de reformular o programa de necessidades convencional da casa, determinar o que é de facto fundamental, no sentido de criar um novo esquema programático que melhor se ajuste à célula da casa burguesa do Porto, ao cliente e à sua forma, aparentemente ―laissez faire‖, de habitar. É neste contexto pertinente considerar a provocação, a hipótese, que lança o próprio Perec sobre a sua reflexão: ― (...) o meu modelo não se modificaria praticamente se em vez de ter, como aqui, espaços separados por paredes que delimitam um quarto, uma sala de estar, uma sala de jantar, uma cozinha, etc., se considerasse a possibilidade, como se faz hoje muito frequentemente, de um espaço supostamente único e pseudo-modular (habitáculo, estancia, etc.): então teríamos não uma cozinha mas sim um recanto-cozinha, não um quarto mas sim um recanto-descanso, não uma sala de jantar mas sim um recanto-jantar. (…) É fácil imaginar um apartamento cuja disposição responderia, já não a actividades quotidianas, mas sim a funções de relações;‖211 Interpretando a sugestão do autor, o que se propõe é despojar o fogo de paredes, pôr fim aos compartimentos, e reunir todas as funções da habitação num mesmo espaço. Perec conclui que, apesar de uma nova configuração, o óptimo funcionamento da casa não será de todo perturbado. Pelo contrário, assim se poderá economizar na superfície do fogo e aproximar os habitantes. Por outro lado, em relação aos modelos convencionais, este tipo de organização, de espaço híbrido, parece adequar-se bem melhor à circunstância e às sociedades contemporâneas, que atrás procurámos caracterizar: ―A verdadeira casa assim desmaterializada, um oásis à carta, vai sobrepor-se livremente a qualquer suporte físico ou a qualquer não lugar; estruturas nostálgicas, novos híbridos ou espaços itinerantes, poderiam ser o catálogo sobre o qual se produz a casa futura.‖212 No nosso caso particular, a ―proposta‖ de Perec, parece de todo pertinente, perante as condicionantes que nos coloca o exercício: No que se refere ao cliente, além de presumir uma diminuição de custos – assim ajustando-se ao nosso orçamento limitado – parece ainda adequar-se à sua forma de habitar – seja pela pouca especialização, pela flexibilidade e abertura que por norma pressupõem este tipo de espaços. Também o número potencial de habitantes para qual projectamos pode justificar esta opção. No que diz respeito à base da intervenção, pode servir esta hipótese como resposta à carência de espaço. Aliás, já nas habitações que integravam o antigo perímetro fortificado, e mesmo nas que preenchiam os arruamentos almadinos, conhecemos estes lugares genéricos. Tudo era a mesma superfície de sala, quarto, serviço, etc; Só mais tarde, com a introdução da tipologia monofuncional, terá surgido a primeira especialização de funções na casa burguesa portuense, como assim nos deu a conhecer a análise tipo morfológica da mesma. 211 ― (...) mi modelo no se modificaría praticamente si en lugar de tener, como aquí, espacios separados por paredes que delimitan una habitación, un salón, un comedor, una cocina, etc, se consideraba la posibilidad, como se hace hoy muy a menudo, de un espacio presuntamente único y pseudo-modulable (habitáculo, estancia, etc) : entonces tendríamos no una cocina sino un rincón-cocina, no una habitación sino un rincón-descansi, no un comedor sino un rincóncomida. (…) És fácil imaginar un apartamento cuya disposición respondería, no ya a actividades cotidianas, sino a funciones de relaciones;‖, PEREC, Georges,op.cit, pág. 57 212 ―La verdadera casa asi desmaterealizada, un oásis a la carta, se superpondrá libremente a cualquier soporte físico o a cualquier no lugar; estructuras nostálgicas, nuevos híbridos o espacios itinerantes, podrían ser el catálogo de aparencias sobre el que se produzca la casa futura.‖, LLEÓ, Blanca, ―Sueño de habitar‖, Edição Fundación Caja de Arquitectos, Barcelona, 2005, pág. 196 81 Partindo deste modelo de espaço unitário, entendemos que na construção do programa, não fará sentido organizá-lo segundo um somatório de compartimentos, fechados, isolados – quarto, sala, escritório, etc. Por oposição, ele deverá resultar da associação das funções que os mesmos representam – dormir, estar, estudar/trabalhar, etc. Assim, sobre cada uma destas funções, enunciamos as actividades que por norma lhe estão subjacentes, o espaço da habitação onde serão desempenhadas, e o equipamento, sejam máquinas, sejam objectos de mobiliário, que irão tornar possível o seu bom funcionamento – a cama, o sofá, a secretária, etc. Pese embora defendermos um espaço aberto, contínuo, sem paredes, parece-nos de toda a conveniência não ignorar a questão da privacidade. É por esse motivo que nos sentimos conduzidos a distinguir, dentro daquele ―espaço supostamente único”, uma área resguardada, de uso individual, associada às funções que exigem algum isolamento dos indivíduos e que não carecem de luz natural - Tratamento da Roupa, Vestir, e Higiene Pessoal; As restantes funções, de uso comum - Receber/ Distribuir, Cozinhar, Refeições, Estar, Estudar/Trabalhar, e Dormirserão então conciliadas na superfície maior dos fogos, num espaço amplo, sem ―barreiras‖, contiguo á fachada. 213 Funções de uso comum Receber e Distribuir Nesta primeira função incluímos as operações de ― (…) recepção, armazenamento de certas peças de vestuário [o abrigo, o guarda chuva, o cachecol, a mala] e ligação entre as diversas zonas da casa.‖ 214 No que se refere ao espaço onde é desempenhada consideramos uma área aberta mas ainda assim resguardada, já que pressupõe ― (…) uma fronteira entre as pessoas estranhas e a intimidade do lar.‖. 215 Recebe quem tiver de receber e distribui para os diferentes momentos da habitação, o privado e o público, sem que aceder a um implique atravessar o outro. No que diz respeito ao mobiliário que lhe compete para o dito armazenamento consideramos: Fogo 30m2 Bengaleiro Área total : 4,00 m2 Fogo 45m2 Armário Roupeiro Área total : 7,80 m2 Cozinhar Nesta função incluímos todo o processo de conservação e confecção dos alimentos – antes das refeições -, mas também a lavagem, secagem e arrumação dos utensílios de cozinha (tachos, pratos, copos, talheres) – depois das refeições.216 No que se refere ao espaço que lhe compete, importa antes reconhecer que esta função tem vindo a perder a importância que lhe era atribuída tradicionalmente no domínio doméstico: 213 Enumeramos as várias funções da casa com base em: PEDRO, João Costa Branco ―As dimensões do mobiliário e do equipamento utilizado na habitação‖, pág.11, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2011 e PORTAS, Nuno, ―Funções e exigências de áreas da habitação‖, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 1969, pág. 47 214 MOIA, José Luis, ―Como projectar uma vivenda‖, Editorial Presença, 2000, pág. 25 215 MOIA, José Luis, op. cit, pág. 25 216 PEDRO, João Costa Branco ―As dimensões do mobiliário e do equipamento utilizado na habitação‖, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2011, pág. 29 82 ―Os complexos horários laborais, as facilidades em comer fora de casa, a crescente simultaneidade entre a comida, e a audiência televisiva ou o aumento da presença de pratos preparados, congelados ou de serviço ao domicilio, com a consequente diminuição do tempo dedicado a cozinhar‖,217 serão os motivos que conduzem a esta realidade. Pela análise anterior, podemos deduzir que estes hábitos também integram a rotina do nosso cliente. Por outro lado, interessa considerar a superfície dos fogos, o número de potenciais moradores e o orçamento limitado que dispomos. Por estas razões nos sentimos motivados a considerar um espaço modesto para o desempenho desta função; Embora não seja encerrado entre paredes, também não se expõe totalmente; Por questões funcionais deve encontrar-se contiguo à entrada. Pelos mesmos motivos do espaço, no que diz respeito ao equipamento, pretende-se reduzi-lo ao essencial. Desta forma consideramos: Fogo 30m2 3 Módulos: 1 Pio 1 Placa eléctrica c/ 2 discos 1 Forno microondas 1 Frigorifico 1 Gaveta para talheres 1 Gaveta para toalhas e afins 1 Depósito para lixo 1 Prateleira para louça/ escorredor 1 Prateleira para armazenamento de alimentos 2 Prateleiras para tachos 2 Prateleiras para utensílios diversos Área total : 3,40 m2 Fogo 45m2 4 Módulos: 1 Pio 1 Placa eléctrica c/ 4 discos 1 Forno microondas 1 Frigorifico 1 Gavetão para tachos 1 Gaveta para talheres 1 Gaveta para toalhas e afins 2 Gavetas para utensílios diversos 1 Depósito para lixo 1 Prateleira para louça/ escorredor 1 Prateleira para louça 2 Prateleira para armazenamento de alimentos 1 Prateleiras para tachos 4 Prateleiras para utensílios diversos Área total : 4.80 m2 217 ―Los complejos horarios laborales, las facilidades para comer fuera de casa, la creciente simultaneadad entre la comida, y la audiencia televisiva o el aumento de la presencia de platos preparados, congelados o de servicio a domicilio, con la consiguinte disminución del tiempo dedicado a cocinar‖, MONTEYS, Xavier, FUERTES, Pere, ―Casa Collage – Un ensayo sobre la arquitectura de la casa‖, Editora Gustavo Gili, Barcelona, 2001, pág.108 83 Refeições Aqui nos referimos à tomada das várias refeições do dia – pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar -, mas também às actividades que as antecedem e se lhes sucedem – pôr a mesa, servir a refeição e levantar a mesa.218 Poderão participar somente os residentes, mas também as visitas. No que diz respeito ao espaço que lhe é destinado, pelos mesmos motivos que referimos na análise da função anterior, também o momento das refeições parece ter perdido a importância que noutros tempos lhe era atribuída, como ritual sagrado de reunião familiar. Hoje, sobretudo as mais rotineiras, já não parecem exigir o espaço, o convívio, ou sequer a convencional ―mesa de jantar‖ própria para o efeito: ―Esta evolução em direcção ao estilo de vida casual continua: é mais provável que comamos o pequeno-almoço na bancada da cozinha ou uma pizza em frente à televisão do que sentarmo-nos na mesa de jantar para uma refeição demorada.‖219 Perante esta realidade e em obediência ao que conhecemos sobre a forma de habitar do nosso cliente, não parece justificar-se no exercício um espaço excessivo ou resguardado para o desempenho desta função. Embora no caso da tipologia maior este possa ser, de certa forma, mais ―dignificado‖ quando assim desejarem os indivíduos. É a economia de espaço que mais uma vez se justifica pelo número de habitantes, pela superfície do fogo e pelo orçamento. No que se refere ao mobiliário consideramos: Fogo 30 m2 Mesa (4 pessoas) 4 Bancos Área total : 8,00 m2 Fogo 45 m2 Mesa (2 pessoas) de apoio ou refeições mais rápidas Mesa (4 pessoas) 4 Bancos Área total : 11,80 m2 Estar ―O seu objectivo principal é a reunião da família com o contacto que permite entre gerações e a sua crescente comunicação com o mundo exterior, quer através de outras pessoas, quer através dos meios de informação e cultura.‖ 220 Assim compreendemos nesta função todas actividades que registam momentos de lazer: convívio entre amigos, ler, ouvir música, dar uma festa, ver televisão, tocar instrumentos musicais, fazer exercício, estar no computador, descansar, etc. Certamente por esta competência de abrigar tantas e tão variadas actividades, dirige-se a autora de ―Geography of Home‖ ao espaço de estar como ―A Grande divisão, uma espécie de espaço para todos os propósitos (…)‖221. Assim nos parece óbvio a necessidade de destinarmos a esta função uma área generosa e bem iluminada – ou pelo menos, tanto quanto nos permite a base da intervenção. No que se refere ao mobiliário consideramos, além da televisão, do computador, dos livros ou do aparelho de ginástica, que certamente acompanham o futuro morador, o mobiliário que por norma compõem os espaços de estar: 218 PEDRO, João Costa Branco, op. cit, pág. 39 219 ―This evolution toward a casual lifestyle continues: we are more likely to grab breakfast at the kitchen counter or have a pizza in front of the VCR than we are to sit at the dining table for a leisurely meal.‖ in BUSCH, Akiko, ―Geography of Home – writings on where we live‖, Editora Pap-Princeton Architectural Press, Nova Iorque, 1999, pág. 53 220 PORTAS, Nuno, ―Funções e exigências de áreas da habitação‖, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, pág. 36, Lisboa, 1969 221 ―The Great Room, a kind of all-purpose gathering space (…)‖, BUSCH, Akiko, op. cit, pág. 85 84 Fogo 30m2 1 Sofá 1 Sofá/ Cama individual 1 Mesa de apoio 1 Estante Área total : 15,50 m2 Fogo 45m2 2 Sofás/ Cama individual 2 Bancos 1 Mesa de apoio 1 Estante Área total : 20,80 m2 Estudo/Trabalho Nesta função fazemos referência não somente ao estudo ou trabalho esporádico realizado, por exemplo, ao fim do dia, mas também ao seu desempenho permanente na célula doméstica. Uma situação que tivemos em linha de conta na definição do cliente. Em relação ao espaço que lhes é destinado, temos de reconhecer: ―O desenvolvimento do trabalho em casa apresenta questões fundamentais tanto do ponto de vista do espaço como dos âmbitos social e profissional, assim como jurídico e financeiro, e obriga os arquitectos a redefinir os limites entre o privado e o público na habitação. Trata-se de delimitar, pois, esta tarefa como uma definição nova e arquitectural do espaço habitado.‖222 Idealmente o espaço destinado ao estudo ou ao trabalho deve poder ser isolado das restantes actividades da casa, assim garantindo a concentração que por norma necessitam os indivíduos no seu desempenho; Segundo Neufert, localizado “ (…) próximo à entrada principal, orientado a nascente ou poente, mobilado com secretária, estantes e assentos.‖223 No caso, a área disponível e a única frente de luz não nos permite o isolamento ou a localização que nos sugere o autor. Pelo contrário, esta função terá de ser combinada e até alternada com outras actividades da habitação; Na tipologia maior, ainda que temporariamente, poder-se-á conformar uma área própria para o efeito. Já no que se refere ao mobiliário que lhe devemos associar, agimos em concordância com a consideração de Neufert. Assim temos: Fogo 30 m2 1 Secretária 1 Estante 1 Banco Área total : 5,00 m2 Fogo 45 m2 2 Secretárias 1 Mesa de apoio 1 Estante 2 Bancos Área total : 10,00 m2 222 ―El desarrollo del trabajo en casa plantea cuestiones fundamentales tanto desde el punto de vista del espacio como de los ámbitos social y profesional, así como jurídico y financiero, y obliga a los arquitectos a redefinir los límites entro lo privado y lo público en una vivienda. Se trata de delimitar, pues, esta tarea como una definición nueva y arquitectural del espacio habitado.‖, ELEB-VIDAL, Monique, CHÂTELET, Anne Marie, MANDOUL, Thierry, ―La flexibilidad como dispositivo‖ in ― Revista Quaderns D'Arquitectura I Urbanismo‖, Nº 202, Editor Colégio Arquitectos Catalunha 223 NEUFERT, Ernst, ―A Arte de Projectar Arquitectura‖, 21º Edição, Editora Gustavo Gili, Barcelona, 1998, pág. 173 85 Dormir/Descanso Pessoal ―Esta função define-se na habitação sobretudo pela natureza da acção de repouso dos indivíduos e actividades conexas (…) ‖224 Além dos residentes, aqui nos dirigimos também ao abrigo de visitas. Acreditamos que esta é uma que opção que contribui para o enriquecimento do protótipo aumentando novamente a sua aplicabilidade. Especificamente sobre o espaço de dormir diz-nos a autora de “Geography of Home‖, ― (…) é só para dormir e fazer amor», um médico disse a uma amiga minha sem sono.‖225 Evidentemente, e será já de conhecimento geral, que as actividades que integram esta função requerem algum intimismo e privacidade. No entanto, agindo em conformidade com o que refere Akiko Busch, questionamo-nos se se justifica encerrar um espaço permanentemente para o desempenho de tão poucas actividades, concretizadas em momentos tão particulares do dia. Perante esta interrogação, e mais uma vez pela superfície e o número de habitantes para o qual projectamos, consideramos que o descanso dos moradores deve ser articulado, e alternado, com as demais actividades da casa. Já na tipologia maior, poder-se-á considerar-se a possibilidade de integrar uma espécie de alcova para um desempenho mais reconfortante desta função. Estas são de resto opções que parecem ir de encontro às mais recentes inquietações sobre o papel do espaço de dormir no habitar doméstico: ―A segregação entre áreas de quarto e sala corresponde a uma única solução de separação? Não existem soluções mais permeáveis que possam satisfazer diferentes formas de apropriação e uso do espaço doméstico?‖226 No que se refere ao equipamento que lhe corresponde consideramos: Fogo 30m2 1 Cama de casal 1 Sofá/ Cama individual 3 Mesas-de-cabeceira Área total : 8,00 m2 Fogo 45m2 1 Cama de casal ou 2 camas de solteiro 2 Sofá/ Cama individual 4 Mesas-de-cabeceira Área total : 7,60 m2 Funções de uso individual Tratamento da roupa Aqui nos referimos à lavagem, secagem, e passagem a ferro de todo o tipo de roupa, mas também ao armazenamento das roupas da casa – lençóis e toalhas. ―Recentemente surgiu novamente a tendência do lavadouro privado, mesmo nas habitações mínimas, devido à facilidade de instalação de uma máquina de lavar roupa, total ou parcialmente automática, na cozinha, no quarto de banho, etc.‖227 Como já havíamos antecipado, o espaço destinado à lavagem e ao armazenamento da roupa será integrado na zona mais privada da célula, perto da instalação sanitária e dos armários roupeiros – como nos parece ser mais funcional. Quanto à secagem da mesma obedecemos ao parecer de Nuno Portas: ― (…) o interesse da secagem da roupa acompanhada de exposição aos raios solares é considerado como essencial‖ – um hábito que nos parece aliás muito próprio do lugar. 224 PORTAS, Nuno, op. cit, pág. 21 225 ―(…) is just for sleepping and for making love», one physician told a sleepless friend of mine.‖ in BUSCH, Akiko, op. cit, pág. 72 226 RAMOS, Rui, ― A nossa Casa, 44, piso 12, ap.136 - Dois Pontos Para Outras Formas de Habitar‖ in ―Jornal dos Arquitectos‖ nº205, Lisboa, 2002 227 NEUFERT, Ernst, ―A Arte de Projectar Arquitectura‖ Editora Gustavo Gil, pág.157 86 Em tempo de chuva ―Resolve o problema uma solução mista que inclua sempre um estendal bem orientado ainda que de menor capacidade.‖ 228 Também no que se refere à passagem a ferro acompanhamos a consideração do arquitecto. Nuno Portas defende que esta actividade não exige um local constante e apropriado e que, frequentemente nos inquéritos se nota, que a peça auxiliar desta operação – a tábua de engoma r-, é deslocada dentro de casa conforme as conveniências e as alturas do dia que se dedicam a estas tarefas. 229 Assim decorre que no equipamento consideramos apenas a máquina e o mobiliário para o dito armazenamento: Fogo 30 m2 1 Máquina de lavar roupa Arrumação para toalhas/lençóis lavados Área total : 1,00 m2 Fogo 45 m2 1 Máquina de lavar roupa Arrumação para toalhas/lençóis lavados Área total : 1,40 m2 Vestir Aqui nos referimos à operação de vestir e despir, mas também ao armazenamento das roupas pessoais dos indivíduos. No que concerne ao seu espaço, esta é uma função que carece indiscutivelmente de algum resguardo e privacidade. Sobre ele diz-nos novamente a autora de ―Geography of Home‖: ― (…) é o reflexo do narcisismo, um espaço interior completamente destinado ao apreço pessoal, não só sobre cuidar da sua aparência, mas também dos seus pensamentos; Sobre pôr-se a si mesmo, tal como às suas roupas, em ordem.‖230 É com este argumento que, no nosso programa, integramos a função vestir na área mais recatada da célula, propositadamente associada à zona de tratamento da roupa e de higiene pessoal. Assim permitimos ao indivíduo, no meio da tanta abertura e falta de compartimentação, isolar-se, cuidar do corpo - e como sugere a autora - da sua mente. Em parte, este é o meio que encontramos para solucionar a ausência do quarto que, convencionalmente, assegura o desempenho deste tipo de operações. No que se refere ao mobiliário próprio para o armazenamento das roupas consideramos: Fogo 30 m2 1 Armário Roupeiro 1 Prateleira para sapatos Gavetas para roupa diversa Área total : 1,90 m2 Fogo 45 m2 2 Armários Roupeiros 2 Prateleiras para sapatos Gavetas para roupa diversa Área total : 3,75 m2 228 PORTAS, Nuno, op. cit, pág. 61 229 PORTAS, Nuno, op. cit., pág. 61 230 ―(…) is the landscape of narcissism, an interior space that is completely about dwelling on the self. (...) is not only about composing your appearance, but about composing your thoughts; about putting yourself, as well your attire, in order.‖ in BUSCH, Akiko, op. cit.,pág.128 87 Higiene Pessoal Aqui nos referimos às operações relacionadas com as lavagens corporais, os cuidados pessoais, e as excreções.231 O espaço que se destina a esta função terá de ser possivelmente o mais reservado do fogo. Assim argumentamos: ―É um espaço pequeno, mas a solidão não exige muito (…) este ―posto‖ de privacidade – é o único sítio da casa onde se justifica estarmos sozinhos.‖232 Por esse motivo integramos esta função no espaço mais privado da casa, em franco contacto, quer com a zona de tratamento de roupa, quer com a função de vestir/despir – como nos parece ser de toda a conveniência. Neste caso em particular, por questões de isolamento térmico e afins, o espaço terá mesmo de ser fechado e transformado em cubículos. Como forma de evitar conflitos no caso das coabitações, por exemplo na hora das lavagens corporais, separamos as várias operações e por conseguinte os vários equipamentos. Assim consideramos: Fogo 30 m2 Cubículo com 1 lavatório + 1 retrete + 1 armário Base de Duche Área total : 3,50 m2 Fogo 45 m2 Cubículo com 1 lavatório + 1 retrete + 1 armário+ 1 prateleira Base de Duche Área total : 2,90 m2 Em dois quadros resumo, correspondentes a cada fogo, procuramos sintetizar toda a informação aqui exposta. Relacionamos as funções com as respectivas actividades, as peças por intermédio das quais são efectivadas, e o espaço na habitação onde são desempenhadas. A uma escala maior representamos nas plantas dos fogos a superfície que cabe a cada função, com a área em metros quadrados que lhe corresponde. É com o confronto e a análise destes esquemas que procuramos principiar o desenho definitivo do nosso protótipo. 231 PEDRO, João Costa Branco, op.cit., pág. 79 232 ―It's a small place, but solitude doesn´t ask for much. (…) this outpost of privacy - is the only place in the house where we are justified in being alone.‖ in BUSCH, Akiko, op.cit.,pág. 136 88 96 57. Tipologias de 30m2 e 45 m2 (2 pax e casal) - Alternância de espaços/funções 97 A análise aos esquemas representados no âmbito da determinação do programa torna evidente que o somatório das áreas correspondentes a cada função ultrapassa a superfície total das células. Por razões óbvias esta diferença é superior na tipologia de 30m2. Esta é de resto uma situação com a qual se deparam frequentemente os arquitectos na organização de espaços pequenos. “Esta ética de redução comportou a concepção de uma grande zona comum na qual era necessário sobrepor as diferentes actividades quotidianas para poder dotá-la de um certo bem estar e amplitude.”236 Sobre esta justaposição de actividades, e sobre a forma de a solucionar, considera o mesmo autor que “Se trata basicamente de um problema de desenho de interior;”237 Não restarão dúvidas que neste desenho interior não há lugar para o desperdício. Todos os metros quadrados devem ser rentabilizados e canalizados para qualquer tipo de operação: “ Os economistas de espaço mais radicais mostram-se se firmes na hora de mobilar uma habitação pequena. Afirmam que tudo aquilo que sirva unicamente para um fim é supérfluo.”238 Neste contexto, parece-nos de todo pertinente abordar a questão da flexibilidade; não nos reportamos a uma flexibilidade hiperbólica, que projecta um espaço vazio ou que, pelo contrário, imprime movimento em todos os dispositivos da casa, mas antes a uma flexibilidade ponderada ou realista: “ (…) uma «flexibilidade realista» poderá acontecer em torno de alguns elementos fixos como os sanitários, a cozinha e as instalações: sem dúvida conceitos como as «paredes equipadas», as «paredes armários» ou o reagrupamento dos serviços não comportam nenhuma revolução, mas permitem ganhar superfície, e demonstrar assim que trabalhar na habitação implica pensar sem grandiloquência, a articulação entre usos, técnicas e distribuição. (…) Se perfila assim uma forte oposição entre o fixo e o móvel, entre a estrutura e os separadores.” 239 Tomamos este esquema como princípio base na nossa proposta. Em ambas as tipologias fixamos o equipamento relativo às funções receber/distribuir, cozinhar, e as de carácter individual – tratamento da roupa, vestir e higiene pessoal; Já as refeições, as funções de estudar/trabalhar, estar e dormir, serão desempenhadas alternadamente, por intermédio da deslocação das respectivas peças. [57] Apenas como proposta experimental, serve de exemplo o “Habitat Futurístico”de Joe Colombo, criado para a exposição Italy (1972). Esta estrutura conta com quatro blocos: a cozinha, o quarto de banho, a cama e o armário. Os dois primeiros são fixos e desempenham apenas a função para a qual foram desenhados. O armário, além de roupeiro, divide o espaço, e o bloco de dormir, o mais “capacitado”, reúne as restantes funções da habitação: receber, dormir, comer, estar, etc.240[58] Também na “Maison Loucheur” de Corbusier (1929) encontramos clara esta oposição entre o que é fixo e o que se move. O desenho inclui duas habitações contíguas de 46 metros quadrados, destinadas a quatro pessoas, com o benefício de três frentes de luz. Tanto a instalação sanitária localizada no centro da planta, como a cozinha são elementos fixos. De resto, encontramos mesas rebatíveis, camas que se soltam das paredes, um plano que se move, transfigurando por completo o espaço do dia para a noite. [59] 236 “Esta ética de la reducción comportó la concepción de una gran zona comum en la que era necesario superponer las diferentes actividades cotidianas para poder dotarla de cierto bienestar y amplitud.”, BALL, Rick, “Arte del espacio: diseño de interiores mínimos”, Ed. Hermann Blume, Madrid, 1988, pág. 25 237 BALL, Rick, op.cit, pág. 25 238 “Los economistas del espacio más radicales se muestran tajantes a la hora de amueblar una habitación pequeña. Afirman que todo aquello que sirva únicamente para un fin es supérfluo.”, BALL, Rick, op.cit, pág. 25 239 “ (…) una “flexibilidade realista” podrá plantearse alrededor de algunos elementos fijos, como los sanitarios, la cocina y las instalaciones: sin duda, conceptos como el las «paredes equipadas», los «tabiques armários» o el reagrupamiento de los servicios no comportan ninguna revolución, pero permiten ganar superficie en la vivenda social y demonstrar así que trabajar en la vivenda implica replantearse, sin grandilocuencias, la articulación entre usos, técnicas y distribuição. (…) Se perfila así una fuerte oposición entre lo fijo y lo móvil, entre la estructura y los separadores.”, ELEB-VIDAL, Monique, CHÂTELET, Anne Marie, MANDOUL, Thierry, “La flexibilidad como dispositivo” in Revista “Quaderns D'Arquitectura I Urbanism”o Nº 202, Editor Colégio Arquitectos Catalunha, pág. 99 e 100 240 GALFAETTI, Gustau Gili, “Pisos Piloto”, Editora Gustavo Gili, Barcelona, 1997, pág. 78 98 58. “Habitat Futurístico”, Joe Colombo 59. Le M aison Loncheur”, Le Corbusier Colombo aison Loncheur”, Le Corbusier 60. “ Unfolding Apartment”, Normal Projects Mais recentemente podemos encontrar esta ideia de certa forma materializada no Apartment” (2007) dos “ Normal Projects”. fixos, desenham uma espécie de armário multifuncional. Nele estão integrados um roupeiro, uma mesa rebatível, uma cama e um painel que a protege. Será este dispositivo, e a flexibilidade que lhe é inerente, que tornam possí diferentes – estar, relaxar, refeições, vestir, dormir. A observação destes exemplos confirma peças, que terão de se deslocar, expor, guar competências, para compensar quer o habitante desempenhar: “ Segundo a convertibilidade dos ditos móveis, um mesmo lugar pode ser diferentes divisões. (… ) O reagrupamento em móveis transformáveis específicos, pode ser uma resposta à justaposição de actividades heterogéneas no seio do grupo familiar.” Assim procuramos explorar. [ 61 241 Ver http://www.normalprojects.com/?p=182/ 242 “Según la convertibilidade de dichos nuevos mueblles, un mismo lug reagrupamiento en muebles transformables especificos puede ser una respuesta a la yustaposición de actividades heterogéneas en el seno del grupo familiar.”, flexibilidad como dispositivo” in Revista “Quaderns D'Arquitectura I Urbanism”o Nº 202, Editor Colégio Arquitectos Catalunha, pág. 104 Unfolding Apartment”, Normal Projects Mais recentemente podemos encontrar esta ideia de certa forma materializada no Normal Projects”. Os arquitectos, além d e uma cozinha e de um sanitário, fixos, desenham uma espécie de armário multifuncional. Nele estão integrados um roupeiro, uma mesa rebatível, uma cama e um painel que a protege. Será este dispositivo, e a flexibilidade que lhe é inerente, que tornam possí vel numa mesma superfície o desempenho de cinco funções estar, relaxar, refeições, vestir, dormir. 241[60] A observação destes exemplos confirma o que já havíamos antecipado: serão os móveis, as ditas peças, que terão de se deslocar, expor, guar dar, e mostrar uma grande versatilidade de competências, para compensar a escassez de espaço e conformálo segundo a actividade que quer o habitante desempenhar: “ Segundo a convertibilidade dos ditos móveis, um mesmo lugar pode ser diferentes divisões. ) O reagrupamento em móveis transformáveis específicos, pode ser uma resposta à justaposição de actividades heterogéneas no seio do grupo familiar.” 242 61 ] http://www.normalprojects.com/?p=182/ “Según la convertibilidade de dichos nuevos mueblles, un mismo lug ar puede ser diferentes habitaciones. (…)El reagrupamiento en muebles transformables especificos puede ser una respuesta a la yustaposición de actividades heterogéneas en el seno del grupo familiar.”, ELEBVIDAL, Monique, CHÂTELET, Anne Marie, MANDOUL, Th flexibilidad como dispositivo” in Revista “Quaderns D'Arquitectura I Urbanism”o Nº 202, Editor Colégio Arquitectos 99 Mais recentemente podemos encontrar esta ideia de certa forma materializada no “Unfolding e uma cozinha e de um sanitário, fixos, desenham uma espécie de armário multifuncional. Nele estão integrados um roupeiro, uma mesa rebatível, uma cama e um painel que a protege. Será este dispositivo, e a flexibilidade que vel numa mesma superfície o desempenho de cinco funções havíamos antecipado: serão os móveis, as ditas dar, e mostrar uma grande versatilidade de lo segundo a actividade que “ Segundo a convertibilidade dos ditos móveis, um mesmo lugar pode ser diferentes divisões. ) O reagrupamento em móveis transformáveis específicos, pode ser uma resposta à ar puede ser diferentes habitaciones. (…)El reagrupamiento en muebles transformables especificos puede ser una respuesta a la yustaposición de actividades VIDAL, Monique, CHÂTELET, Anne Marie, MANDOUL, Th ierry, “La flexibilidad como dispositivo” in Revista “Quaderns D'Arquitectura I Urbanism”o Nº 202, Editor Colégio Arquitectos 100 61. Tipologias de 30m2 e 45 m2 (2 pax e casal) - Alternância de mobiliário/ actividades 101 Esta “ambiguidade” do equipamento e a sua importância na organização do espaço são evidentes no projecto “Matrioshka Home” (2011), levado a cabo por quatro estudantes universitários na Suíça. Procurou-se compactar o mobiliário básico da casa em apenas 4m2 – uma estante, uma cama de casal, um sofá, uma mesa de jantar, junto com quatro bancos, doze cadeiras, espaço de trabalho, um guarda-roupa, uma caixa de produtos de limpeza, gavetas e uma pasta de armazenamento. Estas peças são deslocadas e combinadas conforme a função que se quer desempenhar. É um esquema que não inclui nem cozinha, nem instalação sanitária, reforçando, neste sentido, a importância do mobiliário enquanto dinamizador do espaço.243 De assinalar o recurso a uma pequena diferença de cotas, onde se guarda o equipamento quando ele não é utilizado, sem que haja desperdício de área. [62] 62. “Matrioska Home” 243 Ver http://matroshkafurniture.com/home/index.html 102 63. Tipologia 30m2 – Plantas cota superior e inferior 64. Tipologia 30m2 – Corte 65. Tipologia 45m2 | 2 pax – Plantas cota superior e inferior 66. Tipologia 45m2 | casal – Plantas cota superior e inferior 67. Tipologias 45m2 – Corte 103 É um esquema análogo que empregamos nos nossos fogos. O facto de a casa burguesa do Porto apresentar, como já observamos, pés direitos relativamente altos, permite-nos elevar toda a zona de carácter individual cerca de 60 cm, e ai localizar os ditos móveis. Na tipologia menor guardamos uma cama e um sofá; no caso da variante maior, duas camas, dois sofás e duas mesas, quando a célula é habitada por dois indivíduos ou dois sofás, uma cama de casal, e uma mesa grande quando ali reside um casal.[63,64,65,66,67] Além da vantagem de guardar as peças, sem desperdiçar superfície do fogo, esta operação contribui para que seja acentuada a diferenciação entre o público e o privado na casa, assim imprimindo alguma riqueza espacial no projecto. O seu acesso é feito por intermédio de três degraus. Além da Matrioshka Home, encontramos esta operação e suas vantagens num edifício de habitação social de María José Aranguren e José González Gallegos, em Carabanchel, Madrid (1995). Mais uma vez se consideram as instalações sanitárias e as cozinhas como elementos fixos, e o restante espaço transformável. Durante o dia as portas recolhem e as camas são guardadas na parte inferior do núcleo central da habitação. Á noite, as mesmas portas tomam a sua posição original, compartimentando o espaço em vários quartos, sendo as camas de novo descobertas, para servir a função de dormir/descanso.244[68] Um esquema semelhante podemos observar numa experiência elaborada pelo escritório espanhol de Borja Garcia, no âmbito da exposição “APTM, 6 viviendas de 30m2″(2005). Na cota mais baixa integram-se a cozinha, e o dito desnível, que guarda uma mesa de refeições, um sofá e uma mesa mais baixa. Na cota superior, encontra-se a casa de banho, uma secretária, e a cama, também amovível.245[69] Barbara Apollonni também emprega esta solução na recuperação de um apartamento em Barcelona (2011).246 A arquitecta aproveita o desnível entre o interior do fogo e o terraço no exterior, para aí integrar a cama. O que de dia funciona como sofá, à noite proporciona o repouso do habitante. [70] Em duas casas que fez Corbusier no Weissenhofsiedlung de 1925247, já encontramos uma referência a este tipo de operação. Não existe uma plataforma contínua, como nos exemplos precedentes, mas aproveitam-se a parte inferior dos armários para guardar as camas quando já não são utilizáveis. Um espaço que é comum de dia, à noite transforma-se em dormitórios. [69] 68. Habitação social em Carabanchel, María Aranguren e José Gallegos 244 GALFAETTI, Gustau Gili, op.cit., pág. 55 245 Ver http://www.borjagarcia.es/web2/portfolio/aptm-05/ 246 Ver http://www.barbaraappolloni.com/ 247 BOESIGER, W., GIRSBERGER,H., “ Le Corbusier 1910-65”, Les Editions d’Architecture Zurich, 1986, pág. 50 104 69. Exposição “APTM, 6 viviendas d 70. A partamento em Barcelona, Barbara Apolloni 71 . Duas casas no Weissenhofsiedlung, Le Corbusier Exposição “APTM, 6 viviendas d e 30m2”, Borja Garcia partamento em Barcelona, Barbara Apolloni . Duas casas no Weissenhofsiedlung, Le Corbusier 105 No nosso protótipo, para que seja possível esta constante deslocação do mobiliário, e a consequente flexibilidade do espaço, incorporamos nas camas, nos sofás, nos bancos e nas mesas das tipologias maiores, sistemas de rodas, como encontramos em Carabanchel. Já as mesas que estão anexas ao equipamento da cozinha, em ambas as tipologias, são rebatíveis, para quando necessário, configurarem o espaço de refeição. [72,73] Na Casa da Escrita em Coimbra (2010), do arquitecto João Mendes Ribeiro248[74], encontramos uma mesa deste género ou novamente no apartamento que recuperou a arquitecta Barbara Apollonni, em Barcelona. [75] Será por intermédio destas operações que conseguimos materializar a flexibilidade que se impõem e, assim, apresentar uma resposta ao problema da sobreposição de funções. No caso do fogo menor, a mesma superfície é ocupada simultaneamente por uma mesa rebatível que serve as refeições, por um sofá integrado e outro amovível que conformam um espaço de estar, pela mesa e a estante que permitem estudar ou trabalhar e ainda pela cama, que sai da parte inferior da plataforma e transforma a sala num “quarto” de dormir – com ou sem visitas. No fogo maior o grau de flexibilidade será semelhante; Porém, o aumento de área imprime alguma complexidade na organização desta superfície. Durante o dia temos um espaço amplo aberto, contínuo, que pode servir exclusivamente a função estar - o descanso dos habitantes, o convívio com amigos, uma comemoração especial, etc, - ou articulá-la com outras actividades –o estudo ou trabalho por intermédio das mesas fixas e móveis, as refeições, que usufruem das mesmas mesas, ou qualquer outra actividade que desejarem os habitantes. Durante a noite uma parte daquele espaço com um pé direito de 2,5 m, limitado pela parede de meação e pelo equipamento da cozinha, pode ser fechado, e juntamente com as camas que saem da plataforma, conformam uma espécie de alcova interior, um dormitório, resguardado da restante superfície do fogo.[76,77] Embora noutra escala, encontramos esta cedência do espaço de dormir ao usufruto da sala durante o dia nos apartamentos de Fukuoka, no Japão (1992)de Steven Holl249 [78] ,no primeiro piso da “Casa Schroder” de Gerrit T. Rietvelt, em Ultrecht (1924)250 [79],ou novamente nas habitações em Carabanchel, Madrid. [68] Esta é uma opção que, além de traduzir a flexibilidade necessária, se adequa à circunstância contemporânea e às formas de habitar que traz subjacente: “A família actual necessita de espaços flexíveis rapidamente mutáveis, onde a privacidade seja conseguida sem ser necessário levantar paredes e fechar portas e, por consequência, os espaços de convívio e lazer se possam tornar amplos e abertos sem ser necessário demolir paredes e abater portas.”251. Outra questão que surge pertinente na descrição da nossa proposta e que também contribui para a transformabilidade reversível dos seus espaços são as portas: “Da mesma forma que as portas camufladas, podemos resgatar do esquecimento outros tipos que merecem ocupar um lugar de novo nas nossas casas, com a convicção de que uma alteração tão elementar tem, em troca, uma grande repercussão no modo de vida.”252 248 Ver http://www.domalomenos.com/001-Joao-Mendes-Ribeiro-Casa-da-Escrita 249 GALFAETTI, Gustau Gili, op.cit., pág. 28 250 OKU, Kaya, “Rietveld [the architecture of Gerrit Th. Rietveld] / Kaya Oku”, Toto publ., Tokyo, 2009, pág. 26 251 FERNANDES, Fátima e CANNATÁ, Michele, “Casa inteligente – Protótipo de Casa contemporânea”, Concreta 2002, Edições Asa, pág. 8 252 “Al igual que las puertas camufladas, podemos rescatar del olvido otros tipos que merecen ocupar un lugar de nuevo en nuestras casas, en el convencimiento de que una alteración tan elemental tiene, en cambio, una gran repercusión en el modo de vida”, MONTEYS, Xavier, FUERTES, Pere, “Casa Collage – Un ensayo sobre la arquitectura de la casa”, Editora Gustavo Gili,2001, Barcelona, pág. 64 112 91. Aproveitamento dos degraus 92. Aproveitamento dos bancos 93. Aproveitamento das camas | sofás 113 Também sobre a forma como se relaciona directamente o protótipo com a base de intervenção e com o seu imenso valor patrimonial interessa tecer considerações. Entende-se porém, que sobre esta problemática, acresce a dificuldade de tomar opções definitivas devido ao carácter abstracto do exercício. Apesar de termos tipificado uma casa, devemos ser conscientes de que cada caso é um caso, e quando se fala em recuperar o património esta premissa deve receber uma consideração especial. Ainda assim procuramos antecipar, deixar em aberto algumas soluções, ou antes, alguns pressupostos sobre a actuação nestas habitações. Antes de mais, prevalece a intenção de ser sensível à presença do passado. Já por isso se quis actuar no lote em detrimento do quarteirão, mantendo a caixa de escadas, a clarabóia, as paredes estruturais, e tudo aquilo que garanta a preservação da configuração original da casa. Por isso se quis uma intervenção “modesta”, resumida ao perímetro de um fogo. Não obstante o respeito pela memória do lugar, consideramos ser pertinente assumir o facto de o projecto ter origem numa circunstância contemporânea. De ser um objecto que ali chegou mais tarde. Assim subscrevemos Aldo Rossi: “ (…) creio que esta relação – entre antiga e nova arquitectura – ou vínculo, amplamente estendido, passa por um uso sábio, ainda que contrastado, dos materiais e das formas, e não através de uma relação mimética ou de adaptação.”261 Como meio de reforçar esta dicotomia entre o existente e a intervenção, evitamos prolongar o projecto até ao tecto da casa. [94] Seguimos, neste sentido, como referência, alguns projectos de recuperação: Por exemplo, a Quinta de Bouços (2007) em Valença do Minho, de Nuno Brandão Costa, onde as instalações sanitárias se assumem como um bloco isolado, não chegando a tocar no tecto. [95] Uma operação semelhante encontramos nos quartos da pousada de Santa Maria de Bouro de Eduardo Souto de Moura(1997). [96] Num quadro mais doméstico, assinalamos novamente a recuperação do arquitecto Steven Pollock.262 Interessa a forma como se unem as várias peças da habitação e como, à semelhança dos exemplos já citados, procuram respeitar o tecto existente não chegando a tocar-lhe. [97] Algo similar fazem também Bruno e Carla Pica na reabilitação de um apartamento dos anos 70 em Lisboa (2012). Existe um volume de armários que parece “invadir” a sala e, da mesma forma, evita encostar-lhe. [98] Além de reforçar este contraste entre o novo e o velho que nos parece de todo apropriado, esta solução surge pertinente pelo facto de não conhecermos integralmente a base da intervenção. Desta forma garantimos que os ditos tectos, quer sejam lisos, quer sejam estucados com motivos decorativos, como encontramos a partir do séc. XIX, são sempre considerados pelo projecto. Também no que concerne ao sistema de construção do protótipo, pretende-se assumir a contemporaneidade da intervenção. Por outro lado, no que a esta questão diz respeito devemos, uma vez mais, agir em conformidade com o orçamento limitado que dispomos. Neste sentido parece-nos apelativo a pré – fabricação dos elementos, um processo que se impõem cada vez na construção em Portugal: 261 “ (...) creo que esta relación – entre antigua y nueva arquitectura – o vínvulo, apliamente estendido,pasa por un uso sabio aunque constrastado de los materiales y de las formas, y no através de una relação mimética o de adaptación”.ROSSI, Aldo, citado por GARCIA, Francisco, “Construir en lo Construido: Arquitectura como Modificación”, 2ª Edição, Editorial NEREA, Madrid, 1996, pág.134 262 Ver http://www.guardtillmanpollock.com/ 114 94. Tipologia 30m2 – alçados interiores 95. Tipologias 45 m2 – alçados interiores 96. Quinta de Bouços, Nuno Brandão Costa 97. Pousada de Santa Maria do Bouro, Eduardo Souto Moura 98. Apartamento em Londres, Steven Pollock 99. Apartamento em Lisboa, Bruno e Carla Pica 115 “A construção composta de camadas sucessivas de mão-de-obra, suja e desconfortável, molhada, fria e desordenada, que actualmente se continua a praticar em Portugal, é completamente anacrónica, e ainda que não nos seja cómodo, é o resultado de um processo projectual errado que ainda não introduz no seu conceito intrínseco os processos das linhas de montagem da produção industrial, que não pensa na economia da obra enquanto momento de gestão controlada nos tempos de montagem e que não aplica sistemas de execução e montagem em condições de trabalho óptimas em fábrica, com presença mínima em estaleiro, onde as condições meteorológicas adversas são imprevisíveis (...) A matéria da construção deve necessariamente ser mínima e corresponder perfeitamente às exigências de conforto, higiene, estéticas, durabilidade e mínima manutenção necessárias ao Homem contemporâneo.”263 Partindo destas considerações, e por oposição à construção molhada, no estaleiro, que terá estado na origem da casa burguesa do Porto, sujeita ao longo dos tempos, a sucessivas estratificações, consideramos um processo de execução em seco. Todas as peças do nosso protótipo serão executadas em fábrica, em obediência a um sistemas modular, compactadas num “contanair” para ser transportado para o local, e facilmente montadas. Já que a reabilitação das paredes, dos tectos, dos pavimentos e das caixilharias do fogo pressupõem um tipo de construção mais particular, mais incisivo, aproveitamos, no nosso projecto, para economizar e equilibrar o custo final da intervenção. De resto, esta é uma opção, que se cruza com a ideia de protótipo, de modelo industrial. É em obediência a esta lógica de pré fabricação e economia de meios que nos materiais, optamos pelo viroc. 264 Está disponível em painéis de grandes dimensões (3000 mm x 1250mm), é económico, fácil de instalar e disponibiliza uma grande quantidade de acabamentos. Na sua estrutura interna consideramos prumos de madeira colocados transversal e longitudinalmente, conforme necessário. Ainda sobre os materiais, ou no que diz respeito às opções cromáticas não podemos antecipar grandes considerações, uma vez mais, pelo carácter abstracto do exercício. Sabemos apenas que as instalações sanitárias, e sobretudo o cubículo do banho, deverão receber algum tipo de impermeabilização, assim como o equipamento da cozinha – na bancada, e nos painéis que a circundam. Pela mesma razão, e como já antecipámos, não referenciamos o restante espaço da célula e a sua recuperação – portados, caixilharias, revestimento das paredes, pavimentos, tectos, e seus remates. Concentramo-nos exclusivamente no desenho do protótipo. Por tudo aquilo que enunciamos sobre considerar o existente antes de intervir, concluímos que só na presença de um caso concreto, esta componente do projecto pode ser solucionada condignamente. Sobre toda esta divagação em que projectamos, interessa reforçar o facto de termos procurado desenhar o projecto, de forma a ser viável adaptá-lo às variações que apresentam cada habitação. Por esse motivo não excedemos no pé direito, procuramos compactar tanto quanto possível as várias peças, e encostamos apenas a duas das quatro paredes da construção. Assim, em caso de necessidade, se pode estender ou encurtar o protótipo, sem que essa adaptação comprometa o desenho original do projecto, e os princípios que o fundamentaram. Pese embora estas e outras limitações que intersectaram o processo de construção deste problema, a proposta procurou definir e definir-se ao detalhe – à escala do mobiliário -, para que na presença de um espaço tão peculiar como é aquele em que intervimos, o usufrutuário não tenha dúvidas sobre a melhor forma de o habitar. Onde deve ser desempenhada cada função, cada actividade e por intermédio de que meios podem ser efectivadas. Sem nunca esquecer a observação de Fernando Távora, procurou-se neste exercício, desenhar tudo aquilo que o tempo viabilizou e que se considerou imprescindível para garantir o bom funcionamento do protótipo, e sobretudo, a sua exequabilidade, na (re) organização deste espaço doméstico. 263 FERNANDES, Fátima e CANNATÁ, Michele, “Casa inteligente – Protótipo de Casa contemporânea”, Edições Asa, pág. 8 264 www.viroc.pt 116 117 Nota conclusiva “O Porto, apesar de no dizer da UNESCO, constituir «uma obra-prima do género criativo do homem», tem ainda um árduo caminho a percorrer neste trabalho de reabilitação.”265 Com esta consciência nos propusermos encontrar mais uma forma, no meio de tantas outras, de recuperar o património habitacional corrente do Porto preservando simultaneamente a sua memória e cultura. Em relação à casa burguesa – aquela sobre a qual nos debruçamos em particular - pudemos compreender o modo como paulatinamente foi dando corpo à cidade que temos hoje. Mostrouse perseverante na forma como conservou ao longo dos tempos a sua integração na malha urbana, morfologia e estrutura interna. Terá sido a inércia cultural, que referiu Veiga de Oliveira, que fez perdurar aquele saber construir quando já nada o exigia. Inércia ou não, hoje este edificado é a imagem da cidade, a sua particularidade mais característica. Daí resulta a importância de o reabilitar e conservar. No que a esta matéria diz respeito e em particular sobre a actuação da Porto Vivo, novas inquietações se juntaram às dúvidas iniciais, fruto de um conhecimento agora mais aprofundado. Percebemos que o investimento privado pode de facto constituir um meio imprescindível para que o processo de reabilitação da cidade tenha andamento e impacto. Sobretudo agora em face da conjectura económica. Desconfiamos porém, se se justifica para o atrair, uma intervenção à escala do quarteirão. Ou pelo menos o emparcelamento que tanta demolição e tão pouca preservação do existente parece produzir. Além dos seus efeitos para o património, questionamos o impacto que tem junto das populações interessadas. O custo final que implica este tipo de actuação não parece coadunar-se com o orçamento que dispõem. É nos argumentado que “reabilitar é caro”, mas não podemos aferir, partindo da análise, que será tudo uma questão de escolha de critérios e de prioridades? Com o objectivo de apresentar uma alternativa, e em tom de manifesto, nos propusemos reduzir ao limite a escala da intervenção, passando do quarteirão ao fogo, o espaço que foi outrora um dos compartimentos das casas da burguesia portuense. Foi a forma que encontramos de proceder a uma actuação menos invasiva, que pouco ou nada interfere na natureza da parcela, na estrutura global do lote e da casa, ou na sua matriz de organização interna; Por outro lado, garante-se a rentabilização necessária para poder praticar valores mais ajustados à conjectura económica e por conseguinte às populações. Esses terão sido os propósitos que nos conduziram no exercício. Reconhecemos que este tipo de actuação não se aplica a todos os casos. E por isso partimos do princípio que intervínhamos exclusivamente nas edificações cujo estado de conservação não fosse ruinoso, ou cujas dimensões do fogo viabilizassem o desenho de uma habitação minimamente funcional. Sobre a questão particular de actuarmos num fogo de dimensões tão modestas, reforçou a sua viabilidade a averiguação do cliente. Pudemos aferir que serão fundamentalmente as famílias mais reduzidas e atípicas as mais predispostas e interessadas em vir habitar o centro da cidade e, nomeadamente, uma casa recuperada. Assim se tornou possível desenhar habitações funcionais, ajustadas à precariedade económica que atravessamos e à forma de viver que pressupõem os agregados de um ou dois indivíduos – os nossos potenciais clientes. Pese embora as limitações desta estratégia, acreditamos que qualquer forma de proceder à recuperação do património – em obediência aos pressupostos expostos ao longo da reflexão -, se solucionar pelo menos uma parte do problema, se tornará útil. No que se refere à utilização do protótipo como meio de materializar a nossa estratégia, fica 265 CAMPOS, João, “Porto – Património e Paradigmas”, Ed. Câmara Municipal do Porto, 1997, pág. 10 118 sempre o sentimento do inacabado; Inevitavelmente sobram perguntas sem resposta, à espera do confronto directo com uma casa real e não tipificada. Só assim se poderá garantir um diálogo ajustado entre a pré-existência e a intervenção. De qualquer forma, foi desafiante a abstracção do exercício. Permitiu-nos alargar o campo de visão, conhecer com mais abrangência a história destas habitações e explorar uma “resposta” ao problema da sua recuperação e revitalização com algum alcance. Pelo menos mais do que o permitiria um projecto isolado, numa habitação particular. Mais do que um exercício projectual – com princípio, meio e fim -, procurou-se expor uma ideia, uma resposta prática ao desígnio e à vontade de contribuir, modestamente, para recuperar este edificado, e devolver-lhe a(s) vida(s) que em tempos conheceu. É que este “árduo caminho” só se fará como os outros, caminhando… 119 Índice de imagens 1. -- 2. http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/08/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos_17.html 3. http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Maqueta_cidade_medieval_3_(Porto).JPG 4. 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Câmara Municipal do Porto, 1999 128 Porto Mercantilista Porto Iluminista Porto Liberal Limite da zona de intervenção prioritária da Porto Vivo (ZIP) D 01 | enquadramento urbano - planta | escala 1.10 000 130 6,00 m 15,00 m - 20,00 m D 02 | o lote - planta de cobertura | escala 1.100 6,00 m 15,00 m - 20,00 m D 03 | a casa - planta piso tipo| escala 1.100 D 04 | a casa - alçado| escala 1.100 6,00 m D 05 | a casa - perfil transversal | escala 1.100 15,00 m - 20,00 m D 06 | a casa - perfil longitudinal | escala 1.100 5,50 m 5,50 m - 8,00 m D 07 | o fogo - planta | escala 1.50 3,20 m 5,50 m - 8,00 m 3,20 m 5,50 m D 08 | o fogo - perfis longitudinal e transversal | escala 1.50 e e' cota 1.50 m e e' cota 0.50 m tipologia 30 m² | escala 1.50 | plantas - função estudar cota 1.50 m f f' g g' f f' g g' cota 0.50 m tipologia 30 m² | escala 1.50 | plantas - função cozinhar / refeições h h' cota 1.50 m cota 0.50 m h h' tipologia 30 m² | escala 1.50 | plantas - função dormir cota 1.50 m ii' ii' cota 0.50 m tipologia 30 m² | escala 1.50 | plantas - função dormir com visitas águas limpas águas sujas cota 1.50 m tipologia 30 m² | escala 1.50 | plantas - infra-estrutura perfil bb' perfil aa tipologia 30 m² | escala 1.50 | perfis - aa' e bb' perfil cc' - aberto perfil cc' - fechado tipologia 30 m² | escala 1.50 | perfis - cc' perfil dd' perfil ee' tipologia 30 m² | escala 1.50 | perfis - dd' e ee' perfil ff' perfil gg' tipologia 30 m² | escala 1.50 | perfis - ff' e gg' perfil hh' perfil ii' tipologia 30 m² | escala 1.50 | perfis - hh' e ii'