"Linhas ferroviárias no Norte de Portugal e Turismo"
Full text
FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO Joana Luís Santos Castro 2º Ciclo de Estudos em Turismo Nostalgia Ferroviária e Caminhos de Memória: uma abordagem ao turismo cultural nas linhas ferroviárias do Tâmega e do Tua 2013 Orientador: Elsa Maria Teixeira Pacheco Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/ Projeto/IPP: Versão definitiva
ii “A memória como uma maldição. Caímos na eternidade e a memória é um peso, continua a prender-nos em qualquer ponto para onde nunca poderemos voltar.” José Luís Peixoto (2003)
iii Resumo Pretende-se com esta dissertação abordar a temática da nostalgia e da memória no âmbito do turismo, recorrendo a casos de estudo de vias ferroviárias desativadas. O uso do património e lugares associados à memória por parte do turismo tem sido explorado por diversos autores e em diferentes pontos de vista ao longo do tempo. Algumas atrações turísticas foram mesmo desenhadas e construídas de maneira a que o turista possa reviver uma determinada época, os costumes e o espaço que direta, ou indiretamente, se associava ao serviço prestado pelo comboio nesses tempos. Recorre-se, aqui, ao exemplo de duas linhas ferroviárias desativadas – a do Tâmega e a do Tua, para avaliar o potencial de memória suscetível de aproveitamento para atividades de turismo, nomeadamente através da construção de um roteiro ligado à nostalgia ferroviária. Palavras-chave: Turismo – Turismo Cultural – Património – Memória – Nostalgia – Ferrovia - Ecopista Abstract It is intended with this dissertation to approach the nostalgia and the memory theme of Tourism, using case studies of deactivated railways. The use of heritage and places associated with memories by Tourism has been explored by several authors over the time. Some touristic attractions were built so and designed so the tourists can revive a certain era, the manners and the space that directly or indirectly were associated to train services of those times. The case of two abandonned railways will be explored – Tua and Tamega - to evaluate the memory potencial liable to tourism activities, particularly by constructing an itinerary associated with the railway nostalgia. Key words: Tourism – Cultural Tourism – Heritage – Memory – Nostalgia – Railway - Ecotrail
iv Agradecimentos Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Elsa Pacheco pelo acompanhamento e conselhos dados ao longo de todo o trabalho. À minha família, pelo incentivo que foi dado no último ano. Aos amigos que me acompanharam nesta jornada, dispostos a ouvir um ou outro desabafo.
v Índice Resumo .......................................................................................................................... iii Agradecimentos ............................................................................................................. iv Índice .............................................................................................................................. v Índice de Figuras ........................................................................................................... vi Índice de Tabelas ........................................................................................................... vi 1) Introdução .................................................................................................................. 1 1.1) Enquadramento temático ................................................................................. 1 1.2) Objetivos e Metodologia .................................................................................. 4 2) A Experiência Turística ............................................................................................ 7 2.1) A autenticidade ................................................................................................ 8 2.2) Atenção e Experiência ................................................................................... 11 3) Motivações, tendências e mudanças no Turismo ..................................................... 13 3.1) As motivações dos Turistas ........................................................................... 13 3.2) Do Standart ao Singular ................................................................................ 16 3.3) Os nichos ....................................................................................................... 17 4) Imaginação, Memória e Nostalgia: uma abordagem no Turismo ........................... 19 4.1) A Imaginação e o Turismo............................................................................. 19 4.2) A memória, a nostalgia e o Turismo .............................................................. 21 5) O Comboio, património cultural ferroviário e o Turismo ....................................... 24 5.1) O comboio como modo de transporte em turismo – cultura e património .... 24 5.2) O caminho de ferro Português ....................................................................... 28 5.3) As ecopistas em antigas linhas ferroviárias ................................................... 30 6) Caminhos de Memória e Ferrovia .......................................................................... 33 6.1) As linhas do Tâmega e Tua - enquadramento regionalError! Bookmark not defined. 6.2) Análise do potencial das regiões ..................... Error! Bookmark not defined. 6.3) Propostas de melhoria .................................................................................... 45 7) Conclusões ............................................................................................................... 47 Bibliografia Referências Eletrónicas Sítios Online Anexos Anexo I - Monumentos da Rota do Românico (Tâmega) por Concelho Anexo II - Monumentos presentes na Região de Alto Trás os Montes por Concelho Anexo III - Percursos Pedestres existentes Anexo IV - Cartaz Comboio Histórico Douro (2011)
vi Índice de Figuras Figura 1 – Modelo de Plog (Tipos de personalidade psicográfica) ……………………15 Figura 2 – Triângulo antropológico do comportamento turístico ……………………...20 Figura 3 – Variação da população residente nas freguesias da Região Norte, entre 2001 e 2011 …………………………………………………………………………………34 Figura 4 - Dormidas nas NUT do Ave, Tâmega, Douro e Alto Trás-Os-Montes de 1999 a 2010 …………………………………………………………………………………35 Figura 5 - Um programa presente no sítio online da Rota do Românico ……………...38 Figura 6 – Rede ferroviária do Norte de Portugal – extensão máxima ………………..39 Figura 7 – Rede ferroviária do Norte de Portugal: em serviço, desativada e reconvertida em ecopista …………………………………………………………………………….40 Figura 8 – Imagens da ecopista do Tâmega ……………………………………...……41 Figura 9 – Imagens da da linha do Tua ………………………………………………..42 Figura 10 – Localização do Porto e das estações do Arco de Baúlhe e do Tua na Região Norte …………………………………………………………………………………...43 Figura 11 - Museu de Terras de Basto – Arco de Baúlhe, Cabeceiras de Basto ………45 Índice de Tabelas Tabela 1 – Níveis de Autenticidade no Turismo (Cunha, 2010) ………………..………9 Tabela 2 - Preocupações dos turistas e estratégias que podem ser usadas para captar a atenção do turista ………………………………………………………………………12 Tabela 3 – Motivações Turísticas segundo Jamal e Lee (2003) (in Dias, 2009) ………14 Tabela 4 – Fatores de atração dos programas de comboios históricos (Hall, 2005) …..27 Tabela 5 – Taxas de crescimento das dormidas das regiões de 1999 a 2010 ………….36 Tabela 6 – Estada média entre as regiões em 1999 e 2010 ……………………………36 Tabela 7 – Estabelecimentos hoteleiros existentes nas regiões, em 1999 e 2010 ……..37 Tabela 8 – Taxa de Ocupação-Cama (hotéis, pensões e outros estabelecimentos), 1999 e 2010 ……………………………………………………………………………………37 Tabela 9 – Total de Dormidas no Norte, Grande Porto e Porto (2011) ………………..43 Siglas APCV - Associação Portuguesa de Corredores Verdes CP – Comboios de Portugal INE – Instituto Nacional de Estatística PENT - Plano Estratégico Nacional do Turismo REFER – Rede Ferroviária Nacional WTO – World Tourism Organization
1 1) Introdução 1.1) Enquadramento temático É difícil identificar a origem do Turismo. Nos séculos V a VII a.C., na antiga Grécia, os Aristocratas tinham o privilégio de ter tempo de lazer, assim como os cidadãos de Roma praticavam o otium (descanso com dignidade). Alguns autores, defendem que o Turismo teve origem na peregrinação na Idade Média (Deprest, 1997). Em relação às viagens organizadas, a primeira que se conhece terá sido iniciativa de Thomas Cook, via comboio, na Inglaterra, em 1841 (Costa, 2005). Se a origem não é fácil de descortinar, já a definição de turismo tem sido objeto de diversas definições. Segundo a Organização Mundial do Turismo, este pode ser definido como as atividades das pessoas que viajam e ficam em lugares fora do seu ambiente normal, em lazer, trabalho ou outros propósitos que não se relacionam com o exercício de uma atividade remunerada, durante um tempo inferior a um ano (WTO, 1995: 1). Em relação aos tipos de turismo, a literatura apresenta, também, diversas classificações, consoante as visões de variados autores. Em 1993, as Nações Unidas falavam em três tipos de turismo: o turismo doméstico (os viajantes no país são os próprios residentes), o turismo de entrada (os turistas são provenientes de outro país) e o turismo de saída (os residentes do país viajam para outro país) (Nações Unidas, 1994). Hoje o turismo envolve outros fatores e critérios, podendo então falar-se, por exemplo, de turismo religioso ou cultural. O Turismo em Portugal assume-se como um setor estratégico em desenvolvimento no país. Ao confrontar valores das receitas turísticas disponíveis no sítio online do Turismo de Portugal, é possível verificar que entre 1998 e 2011 os valores aumentaram em cerca de 66%. No entanto, o aumento do desemprego, o fraco crescimento das exportações e a queda da despesa dos residentes (Observatório do Turismo dos Açores, 2012) fizeram com que a participação do turismo no PIB baixasse. Através de uma iniciativa do Governo, foi criado em 2006 o Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT 2013-2015, 2007) pela entidade Turismo de Portugal , com o objetivo de orientar e promover o crescimento do setor, através da definição de linhas de desenvolvimento. Entre vários assuntos abordados, considera-se existir dez
2 produtos turísticos estratégicos: Sol e Mar, Touring Cultural e Paisagístico, City Break, Turismo de Negócios, Turismo de Natureza, Turismo Náutico, Saúde e Bem-Estar, Golfe, Resorts Integrados e Turismo Residencial,Gastronomia e Vinhos. Estes produtos são divididos por módulos, comportando objetivos próprios e recomendações para o desenvolvimento dos produtos num prazo de 10 anos. No PENT 2013-2015, fizeram-se algumas alterações aos produtos: Touring Cultural e Paisagístico passa apenas a denominar-se Touring, e Turismo Residencial aparece sozinho, desistindo-se dos Resorts Integrados. O Touring é o que se aproxima mais da abordagem proposta nesta dissertação. Ligado com o turismo cultural, tem como motivação principal a exploração de uma determinada região (THR, 2006). Existem dois mercados: o genérico, com rotas de conteúdo diverso (90%) e o temático, com rotas focadas num determinado tema (10%) (THR, 2006). A procura de tourings aumenta cerca de 5 a 7% anualmente e representou em 2004 cerca de 44 milhões de viagens, o que corresponderia a 18% do total de viagens de lazer realizadas pelos europeus (THR, 2006c: 9 ). Ou seja, trata-se de uma modalidade de turismo que tem vindo a ganhar adeptos, mas continua a dirigir-se a públicos relativamente restritos. Em Portugal, verifica-se que os locais mais exclusivos (os locais que representam o contrário do turismo de massas) têm vindo a aumentar, daí o interesse em aproveitar locais de atração turística vocacionados para este tipo de cliente. É um facto que o turismo cultural tem vindo a ganhar terreno, muito à custa de elementos territoriais marcantes na vida das populações, como é o caso das linhas de caminho de ferro desativadas, os quais, mesmo terminando o seu ciclo de vida permanecem na memória dos indivíduos. Urry (1990, in Pérez, 2009 : 113) aponta como causa do auge e consequente decadência dos destinos tradicionais a rutura contemporânea da identidade social, justificando que antigamente as férias eram, orientadas em função do tempo de Verão e da família . O mesmo já não acontece com tanta frequência nos dias de hoje, o que possibilitou a existência de novos tipos de turismo que recriarão novas identidades sociais. O turista de hoje tem características diferentes, o que leva a motivações novas, procurando outros destinos e/ou outros temas. O turismo ligado ao património ferroviário enquadra-se dentro da temática do turismo cultural. Trata-se de património físico e social, ligado à história e cultura de Portugal, que pode ser explorado, por exemplo, através de museus, do aproveitamento
3 de antigos espaços (como estações) - práticas recorrentes para lembrar um passado que não existe mais ou que mudou consideravelmente. O comboio teve uma enorme importância no desenvolvimento do mundo moderno (Silva e Silva, 2004). Lugares, atividades e pessoas ficaram mais próximos, tornando o mundo virtualmente mais pequeno e de mais fácil alcance. Como referem Silva e Silva (2004: 22), (...) o comboio provoca um desfiar de recordações que marcaram tempos volvidos e que todos nós nos habituamos a reter. Fosse a partida de emigrantes, a chegada de altas individualidades ou o refresso de um ente querido; fossem as idas dos mancebos para a tropa, as viagens de negócios ou os simples passeios de diversão, todos estes cenários fazem parte de um imaginário que tem o comboio como ponto comum, capaz de estabelecer uma ponte entre as memórias de cada um de nós. Este modo de transporte facilitou a troca e o acesso de ideias através do transporte de livros e jornais de outros países e aproximou os centros urbanos, o que levou a um melhor nível de vida. Em Portugal, esta aproximação foi mais que evidente: a título de exemplo, eram necessários quinze dias para ir de Lisboa a Bragança antes de existir a via ferroviária (Silva e Silva, 2004). Desde a década de 90 do século XX, em Portugal, tem-se assistido ao encerramento de diversas linhas. Em 2011, o Governo decretava o fecho de cerca de 600 quilómetros de linha, alegando a falta de passageiros como motivo para a desativação do serviço. Antigas linhas encontram-se agora convertidas em ecopistas, para promover o lazer da população local e visitantes. Infraestruturas, material circulante e equipamentos ferroviários, deixam de cumprir com a atividade para que foram concebidos – o transporte de pessoas e mercadorias, e passaram a ser verdadeiras atrações. Entre elas, os comboios turísticos a vapor, que proporcionam verdadeiras viagens históricas, num regresso ao passado. É com este enquadramento que, ao longo da dissertação, será abordado o turismo ligado à nostalgia e memória, onde a componente afetiva, remete para a saudade de um passado que já não existe. Estes sentimentos podem ser despertados através da (re)construção de espaços ou de visitas a antigos espaços, dando destaque ao património feroviário, que pode perfeitamente encaixar-se nestas questões.
10 desenvolvimento da sociedade. O voluntariado está ligado à ética: temos, como exemplo, as pessoas que vão para fora do seu local para construir casas para os mais necessitados. c) Consumo abundante e economia de experiência – Ao longo dos anos, tem-se vindo a verificar um aumento no consumo. Cada vez mais o consumidor tende a comprar produtos e serviços que aumentem a sua qualidade de vida. A tendência será que a economia de experiência1 se desenvolva de modo a que os consumidores comecem a procurar mais serviços turísticos. d) O consumidor educado – O nível de escolaridade dos consumidores é cada vez mais alto e influencia as suas escolhas. e) Confiança no passado – O consumidor, tendencialmente, confia mais no seu passado (algo certo) no que no futuro (incerto). Aqui entram sentimentos como o da nostalgia. f) Individualismo – Procura de produtos e serviços que se relacionem diretamente com o indivíduo. g) Multiculturalismo – Atualmente, através dos meios disponíveis (como a Internet), é mais fácil aceder a novas ideiais e interesses. h) Resistência ao Marketing – A publicidade já não é tão eficaz. O passa a palavra, ou seja, opiniões e recomendações de conhecidos, tem cada vez mais importância. i) Pressões Temporais e autenticidade – Os consumidores tendem a maximizar ao máximo o seu tempo disponível e procuram algo mais autêntico, com significado. j) Aumento da competição entre os destinos turísticos – O turismo é uma atividade em crescimento e a competição cada vez maior e a uma escala global. Através da análise da literatura, podemos ver na autenticidade um factor competitivo e importante para os destinos. É, tendencialmente, uma característica cada vez mais procurada pelo consumidor. 1 Termo utilizado por Pine e Gilmore no seu artigo “ The Experience Economy” em 1999. Este tipo de economia viria depois das já conhecidas economia agrária, industrial e de serviços.
11 2.2) Atenção e Experiência Os seres humanos não têm a capacidade de dar atenção a tudo ao mesmo tempo, apenas conseguindo-se focar numa coisa num determinado momento (Ooi, 2003). Ooi (2003) considera quatro caraterísticas da atenção humana: O ser humano perde o foco através de informações, observações e experiências com que se cruza diariamente e fica stressado por só conseguir dar atenção a um elemento em cada momento. O comportamento e a experiência são afetados pela mudança da nossa atenção, ou seja, quando mudamos o nosso foco. A atenção é escassa, o que explica o facto dos indivíduos apenas conseguirem focarem uma coisa de cada vez. Existem várias razões pelas quais prestamos atenção a uma só coisa, devido à existência de inúmeros factores push e pull que giram à nossa volta. É importante fazer com que os turistas se foquem em determinados elementos de modo a melhorar a experiência. Mas isto pode ser considerado uma tarefa complicada, pois diferentes pessoas tenderão a focar a atenção em eventos diferentes, enquanto há outros eventos que atraem a atenção de todos (Ooi, 2003). Os produtos turísticos possuem quatro arenas nas quais o produto compete por atenção: entre produtos, o ambiente em que o produto está situado, o contexto e os preconceitos dos turistas em relação ao produto. Ooi (2003) identifica algumas preocupações dos turistas e estratégias que podem ser usadas de modo a controlar a atenção do turista (Tabela 2): Preocupações do Turista Estratégia da gestão da atenção Competição entre produtos culturais Falta de informação Não estar a par do significado cultural e de detalhes Distração por causa de outros produtos Publicidade e marketing para aumentar o conhecimento do turista Educação Selecionar bem os produtos Combinar diferentes produtos num produto de turismo
12 Ambiente e lembranças: minimizar distrações fisícas e psicológicas Preocupações com as necessidades básicas: custos, comida e alojamento. Medo e insegurança. Distração pelo ambiente: tempo, trânsito... Transparência sobre os custo e dar a conhecer as lembranças e instalações. Dar a conhecer planos de emergência Manter o ambiente conforável (temperatura, comodidades...). Contextos Intesses turísticos e comerciais envolvidos nas atividades turísticas Apresentação moderna em produtos históricos Oferecer informação detalhada “Nativizar” os turistas Criar um produto dinâmico Preconceitos – distrações e expetativas cognitivas Ideias pré-concebida Falsas imagens Expetativas irrealistas Controlar a atenção e enaltecer a experiência Tabela 2 - Preocupações dos turistas e estratégias que podem ser usadas para captar a atenção do turista (Ooi, 2003) É possível orientar o comportamento do turista , desde que exista um ambiente propício ao consumo do produto, bem como a informação adequada (Ooi, 2003). É uma tarefa difícil que pode recompensar. Se for possível guiar a atenção para o que é mais adequado, isso pode significar uma alteração na experiência do turista. Através desta moldagem, o turista poderá mais facilmente compreender a experiência e sair de lá com uma boa imagem do destino. O principal objetivo será então minimizar as distrações e construir experiências através do controlo da atenção do turista (Ooi, 2003).
13 3) Motivações , tendências e mudanças no Turismo É importante perceber o que motiva os turistas a viajar pois interessa saber aquilo que os destinos possuem que possam servir de atração ou então para corresponder aos desejos destes através de medidas que tornem os destinos mais atrativos. É ainda uma maneira de conseguir segmentar o público alvo, através das suas próprias caraterísticas e características dos destinos. O Turismo não se apresenta como um fenómeno estático. Vai mudando ao longo do tempo, consoante tendências e outros factores, como a facilitação da mobilidade das pessoas. As tendências revelam-se um importante fator de competitividade entre os destinos. Se pensarmos que hoje é relativamente fácil viajar e que podemos escolher entre vários destinos no mundo inteiro, estar a par das tendências pode significar uma vantagem em relação a outros destinos. Serão primeiramente analisadas as motivações dos turistas, ou seja, o que é que os motiva a viajar, a escolher um destino ao invés de outro. Depois, partir-se-á para a análise da massificação e especialização do turismo, onde se verifica uma existência de preferência atual por escolha de destinos singulares, únicos. O tema seguinte foca-se nos nichos, que são pequenos mercados com caraterísticas idênticas. 3.1) As motivações dos Turistas Ao longo do tempo foram identificadas diversas motivações que levam o turista a viajar para determinado local. O consumismo ou a luxúria são apenas dois exemplos apontados em estudos desta temática. Perceber as motivações dos turistas significa compreender porque é que um destino é escolhido ao invés de outro. O que é, então, a motivação? Podemos defini-la como sendo um conjunto de razões pelas quais escolhemos uma atividade ou tarefa a realizar, estabelecendo o nível de esforço que lhe colocamos e determinado o nível de persistência ao longo do tempo (Campbell e Pritchard (1976), in Nina K, 2006). Neumann e Reichel (1979) (in Plangmarn et al, 2012) definem a motivação da viagem como um conjunto de necessidades que levam alguém a participar numa atividade turística.
14 Jamal e Lee (2003) (in Dias, 2009) dividiram as motivações turísticas em duas diferentes abordagens (Tabela 3). Ponto de vista Psicologia Social (Micro-Nível) Ponto de vista Sócioantropológico (Macro-Nível) Traço de Personalidade (Plog, 1974-1987) Modelo push-pull (Dann, 1977) Satisfação das necessidades básicas (Chon, 1989; Pearce, 1982; Ryan, 1997) Procura da autenticidade (MacCannel, 1973) Curiosidade (Mayo e Jarvis, 1982) Procura de um “centro” espiritual (Cohen, 1979) Gratificação Intrínseca (Iso-Ahola, 1982; Mannell e Iso-Ahola, 1987) Homeostasia, desequilíbrio e novidade (Crompton, 1979; Crompton e McKey, 1997; Lee e Crompton, 1992) Tabela 3 – Motivações Turísticas segundo Jamal e Lee (2003) (in Dias, 2009) O micro-nível refere-se claramente aos factores intrínsecos do turista, as suas motivações internas. Aqui falamos no que move internamente a escolha do destino. A personalidade como influência na escolha ou a satisfação das necessidades básicas são exemplos das teorias de Micro-Nível. Em relação à última, Pearce adaptou a pirâmide de Maslow ao turismo. As cinco categorias seriam então, por ordem, relaxamento, estimulação, relacionamento, autoestima e realização. Tal como na pirâmide de Maslow, as pessoas tentariam subir na pirâmide, escolhendo assim os seus destinos de acordo com o estado que querem alcançar. Já o macro-nível diz respeito aos fatores do próprio destino que motivam a procura do turista. Aqui falamos do que o destino tem que impulsione a viagem do turista, como a sua autenticidade, que o poderá destacar de outros destinos. O modelo mais conhecido e estudado é o Push-Pull. Os fatores Push referem-se a aspetos intrínsecos, como o desejo de aventura ou de descanso, impulsionados por razoes emocionais. Por outro lado, os fatores Pull relacionam-se com as características tangíveis do destino que são descritores de atração.
15 Um dos primeiros modelos teóricos da motivação turística foi a de Plog, em 1971, que focava o psicocentrismo/alocentrismo. Este modelo, exemplificado na figura 1, separa as motivações consoante a personalidade do turista. Os alocêntricos seriam então as pessoas mais aventureiras, preferindo destinos novos, novas descobertas e experiências. Os psicocêntricos, com uma personalidade mais reservada, sentem-se mais à vontade com destinos familiares, como os tradicionais destinos de sol e mar. No meio destes dois extremos encontraríamos ainda os semi-psicocêntricos (com um pouco mais vontade de explorar), os mesocêntricos (possui característicos do psicocêntrico e alocêntrico) e o semialocêntrico (com características mais próximas do alocêntrico, mas menos extremo). Figura 1 – Modelo de Plog (Tipos de personalidade psicográfica) Fonte: Retirado Blog Caiçara Expedições (2012) A motivação apresenta-se como uma variável dinâmica e flexível. A motivação para uma viagem hoje pode não ser a mesma da de amanhã. Fatores como uma mudança de estilo de vida podem estar na base da alteração das motivações (Zhang, Marcussen 2007). Perceber as motivações dos turistas é importante. Muitos destinos turísticos competem entre si à escala global, sendo importante saber o que é que os turistas pretendem para obter uma vantagem competitiva. Sem este conhecimento, não é possível adaptar a experiência às expectativas, podendo no final não corresponder aos desejos dos turistas. Se não ficarem satisfeitos, é muito provável que não retornem e que não aconselhem o destino. O “passa a palavra” é muito importante nesta indústria.
16 3.2) Do Standart ao Singular Na segunda metade do século XX, o turismo acompanha as tendências do Fordismo. Os pacotes turísticos eram standarts, encaixando-se na definição de produção em massa (Avdimiotis, 2009). Em 1970, a emergência dos destinos de massa torna-se bem clara quando os destinos de praia perto de locais de residência foram trocadas por destinos internacionais (Buhalis, 1999). Este modelo fordista apresentava desiquilíbrios. Vera (1995) (in Campelo, 2000) aponta cinco desiquilíbrios: a) A especialização setorial a partir de poucos recursos naturais (como o turismo de sol e mar). b) A oferta turística não incorporou os novos avanços tecnológicos. c) O principal objetivo foi a maximização do número de turistas, o que levou a uma degradação ambiental. d) Existe uma concentração da oferta à volta de um elemento de atração, saturando o espaço geográfico. e) O turista é visto pelos locais como um intruso. Este conjunto de desequilíbrios vai tornando o destino de massa num destino saturado, que dificilmente conseguirá competir com novos destinos e projectos. Não acompanhar as tendências irá dificultar a manutenção do local como destino de eleição. Após o Fordismo, nasce um novo modelo, chamado de posfordista por Donaire (Campelo, 2000: 207). Existiam aqui cinco conceitos importantes: Singularidade como orientadora da oferta – os produtos de massa são substituidos por produtos específicos (preferência de nichos) A resposta à standartização é plural (Campelo, 2000: 207) – o turismo começa a ser associado a outras realidades, como a cultura. Redefinir a autenticidade – através da celebração do inautêntico (...) e a reivindicação da identidade local. Inovação tecnológica – com o objetivo de ir ao encontro das necessidades dos vários segmentos. Procura turística universal – procura de novos espaços únicos, que se afirmam em relação aos antigos destinos de massa.
17 Num curto espaço temporal, a procura e a oferta de destinos revelou-se como um mundo em “construção”. Estamos num ponto bastante diferente ao de há uns anos atrás. De facto, o turismo de massa tem vindo a merecer atenção por parte de alguns autores. No geral, defende-se que os destinos devem evitar estas estratégias baseadas na obtenção do máximo lucro possível, visto serem beaseadas no consumo de massa. Assim, assumem que os recursos e a capacidade de produção são ilimitadas. Buhalis (1999) recorda as estratégias propostas por estes autores que defendem a diferenciação e a criação de destinos únicos: Porter (1980), considera existir três estratégias importantes: liderança no custo, diferenciação de produtos e serviços e foco num grupo de consumidores; Gilbert (1990) propõe a criação de “status areas” em vez de “commodity area”, onde as primeiras se destinguiriam pela sua exclusividade e unicidade; Poon (1989,1993) sugere uma “especialização flexível”, onde através da inovação e da mudança se iria alcançar um “novo turismo”, oposto ao “turismo antigo” (que, segundo o autor, era de massa, standart e com pacotes de venda rígidos. Como é óbvio, nem todos os destinos se poderão tornar em algo sem competição ou único. Existem vários factores que impedem esta mudança, como a falta ou degradação dos recursos disponíveis. No entanto, é aceite que o perfil do turista tem evoluído ao longo dos anos. O facto de existir mais rendimento disponível, diferentes estilos de vida e o acesso fácil à informação leva a que o cliente seja cada vez mais exigente e procure novas formas de ocupar o seu tempo de lazer. Quer-se com isto dizer que o que resultou no passado pode já não fazer tanto sentido no presente e futuro. É necessário entender as necessidades dos turistas para se criarem destinos atrativos a estes novos tipos de consumidor. 3.3) Os nichos Um nicho é um pequeno mercado com as mesmas características ou necessidades (Hoouley e Saunders, 1993, in Sousa e Simões, 2010).
18 Segundo o marketing, os nichos terão de ser vistos em duas diferentes perspectivas: poderá ser visto como um processo criativo ou então como uma etapa final da segmentação (Sousa e Simões, 2010). Este termo surgiu como oposição ao turismo de massas. Devido à mudança do comportamento e às motivações do turista, os nichos representam um segmento de mercado interessante nos dias de hoje. Atualmente viaja-se mais e os turistas começam a desenvolver uma mentalidade diferente, pegando na sua própria experiência para procurar novos destinos ou experiências. A emergência do turismo cultural contribuiu para o desenvolvimento desta capacidade do turista, pois começam a desenvolver relações emocionais entre cultura, economia e sociedade (Fetaherstone, 1990). A procura de novos locais e experiências faz com que surjam novos produtos adequados à nova procura. A preocupação ambiental ou a procura da autenticidade são apenas dois exemplos das novas necessidades. Alguns autores encontram vantagens para este tipo de turismo, como a existência de uma maior sustentabilidade, menos danos e uma maior capacidade de despesa de dinheiro dos turistas (Novelli, 2005). As escolhas turísticas são cada vez mais diversificadas e a facilidade em viajar também, pelo que a segmentação e a diferenciação se revelam cada vez mais uma importante ferramenta para o sucesso. Hoje em dia existe mais oferta a nível de transporte e o tempo de viagem já não se traduz num entrave tão grande como no passado. Esta aproximação dos destinos através dos mais modernos meios de transporte, faz com que os nichos tenham mais potencial. A cada vez maior globalização contribui para que se comece a olhar para o turismo de nichos de outra forma, de tal modo que Dalgic e Leeuw (1994) (in Sousa e Simões, 2010) consideram a criação de um Euromarkting. Frederico Costa, presidente do Turismo de Portugal em 2012, considera que o país deveria investir neste tipo de turismo, reinventado os destinos tradicionais e que estes diversificariam e enriquecem a experiência turística (Wise, 2012: 3).
19 4) Imaginação, Memória e Nostalgia: uma abordagem no Turismo Atualmente, existem tipologias de turismo que não eram identificadas no passado. Estes novos segmentos surgem de novas necessidades e ideias que influenciam o turismo. O ecoturismo, por exemplo, emerge com as preocupações sobre o meio ambiente e as mudanças que o ser humano provoca na natureza, na maioria das vezes nefastas. Pretendia-se manter o turismo como uma atividade sustentável, onde o dano ambiental seria o mais baixo possível. A abordagem a este tema apresenta-se neste capítulo subdividida em duas partes. Começa-se com a imaginação no turismo, que pode ser individual ou partilhada. Através do imaginário, o turista vai criar certas expectativas em relação ao destino, que afetarão a experiência turística. De seguida, será tratada a questão da memória e nostalgia, que se relacionam diretamente com o passado. Aqui, o tema liga-se mais aos sentimentos do turista, quando este busca de algo. Os conceitos ligados à imaginação, memória e nostalgia surgem no quadro das mudanças rápidas que se verificam na sociedade atual e da necessidade de se ligar ao “simples”, às origens. Com estas mudanças, a sociedade perde certos elementos que já eram sentidos como sendo seus. O comboio é exemplo disso. Em Portugal, as populações manifestam o seu desagrado com o encerramento de certas linhas, dizendo que o comboio era seu, sempre foi seu e deveria continuar a sê-lo. 4.1) A Imaginação e o Turismo O imaginário turístico pode ser individual ou partilhado por um grupo e representa uma parte específica da visão de mundo dos indivíduos ou de grupos sociais, de outros lugares que não aquele de sua residência principal, referindo-se aqui a contextos territoriais nos quais podem ocorrer alguns tipos de atividades de turismo e lazer (Gravari, Graburn, 2012) Amirou (2002) (in Dias, 2009) entende o imaginário turístico como tendo três dimensões: um imaginário heroico, relacionado com a procura da aventura; um imaginário intimista, onde é procurada a calma e repouso; um imaginário cíclico, relacionado com a procura da manutenção da regularidade.
26 Bob Mckercher e Hilary Du Cros (2002, in Pérez, 2009) dividem os turistas culturais em cinco: O turista cultural motivado, onde a motivação cultural é a mais importante e existe a procura de uma experiência profunda; O turista cultural inspirado, onde a experiência é mais superficial; O turista cultural esporádico, onde não existe motivação cultural como objeto central mas há a procura de uma experiência profunda; O turista cultural casual, onde a motivação cultural é mais e a experiência procurada é superficial; O turista cultural acidental, onde não existe motivação cultural mas há uma participação numa experiência cultural superficial. Outros autores fazem outras distinções entre o tipo de turista cultural. Greg Richards (2004, in Pérez, 2009) considera apenas existirem turistas abutres culturais (que vão à procura de produtos culturais) e os turistas culturais acidentais (encontram por acaso um ato cultural). Mamede (2008: 8), referindo Miranda, considera ser importante existir para a interpretação positiva do património para fins turísticos: Provocar atenção, curiosidade ou interesse na audiência; Relacionar-se com a vida cotidiana do visitante; Revelar a essência do significado do lugar ou do objeto; Unir as partes em um todo; Produzir sensações e emoções no público; Ir além do mero fato da visita, contribuindo para a prevenção dos problemas sociais, ambientais e patrimoniais. O património ferroviário pode perfeitamente encaixar-se dentro do turismo cultural. Além daquilo que é físico (material) como as estações, comboios, e linhas, existe ainda um património imaterial, a que Mamede (2008) chama de riqueza cultural humana. Aqui entram as recordações, a memória e a nostalgia. Os circuitos turísticos realizados em comboios valorizam o património ferroviário do país e da região (Mamede et al, 2008). As viagens nos comboios de época levam o turista para uma época anterior, apelando à sua imaginação e chamando
27 um sentimento nostálgico. Mais que conhecer o passado, estas viagens dão ao turista uma sensação de viver o passado. Hall (2005) identifica várias caraterísticas das viagens históricas de comboio que são factores de atração de turistas (Tabela 4): Tabela 4 – Fatores de atração dos programas de comboios históricos (Hall, 2005) Hall (2005) considera que o transporte tem sido desvalorizado a nível cultural e de atração de nichos, apesar de ser aceite que tem o seu potencial quando combinado com atrações locais e regionais. Objetivo Atividade Conservar o “preservacionismo” Elementos tradicionais que apelam à nostalgia, como o uso de uniformes tradicionais Atrair mercados diferentes Oferta de várias experiências que envolvam mercados diferentes entre si Atrair famílias com diferentes faixas etárias Complementar a atividade com outras experiências para tornar a experiência interessante para todos Atrair famílias com crianças Entretenimento especial para crianças Atrair famílias com crianças em idade escolar Atividades educativas Alargar o periodo de funcionamento Atrações no fim do dia Alargar o periodo sazonal Programas especiais consoante a estação do ano Atingir nichos de mercado além das famílias Atividades como programas de dia dos namorados Acolher eventos especiais Eventos como casamentos Dar formação Ensinar a operar certos aspetos das máquinas Atuar como local de filmagens Património antigo poderá ser utilizado em filmagens Networking com outras atrações da região Bilhetes para várias visitas de atrações na região com acesso a descontos
28 5.2) O caminho de ferro Português A primeira linha ferroviária pública foi construída na Inglaterra, em 1824 e tinha 32 quilómetros. Em 1844 surge a Companhia das Obras Públicas de Portugal, que tinha como um de vários objetivos a promoção de estudos para a construção de um caminho de ferro em Portugal (Matos et al : 2009). O projeto apenas se concretiza em 1853, quando é assinado um contrato com a Companhia Central Peninsular dos Caminhos de Ferro Portugueses (CP, Cronologia detalhada). O objetivo era ligar Lisboa a Espanha e a viagem inaugural deu-se em 1856 (apesar do troço não estar ainda completo). A Caminhos de Ferro Portugueses (CP), tal como conhecemos hoje, foi constituída em 1975. Em 1997 surge a Rede Ferroviária Nacional (REFER) que assume as responsabilidades da gestão da infraestrutura. Muitas linhas foram construídas ao longo dos tempos. Em 1944, Portugal atingiu o seu máximo a nível de via ferroviária. Com o fecho de algumas linhas, reduziu-se o serviço em 40% (comparando 1944 a 2012). Como razão para o fecho destas linhas é sempre apontada a falta de rentabilidade, baixa procura e falhas de segurança das mesmas. Existem atualmente quatro serviços prestados ao público em geral por esta empresa. Os comboios urbanos circulam na região do Porto (linha de Braga, Guimarães, Aveiro e Caíde) e Lisboa (linha da Azambuja, Cascais, Sintra e Sado). O Alfa Pendular está disponível em trajetos entre Braga e Faro. O Serviço Regional atua nas ligações aos centros urbanos à complementaridade nos serviços de longa distância, o serviço regional assegura um Serviço Público de Mobilidade Regional (CP, Regional). Por fim, o Intercidades, que liga cidades entre Guimarães e Faro e faz ainda serviços em cidades do interior (Guarda, Covilhã, Évora e Beja). (CP, Viajar em Portugal, 2013). Tal como noutros países, a ferrovia transformou a mobilidade de pessoas e mercadorias em Portugal. Tornou as localidades mais próximas, encurtando o tempo de viagem e era mesmo considerado quase como que vital para o desenvolvimento da agricultura e industria portuguesa. Desde o surgimento do comboio como nova forma de viajar em Portugal houve uma preocupação de o conjugar com o turismo. A própria Sociedade Propaganda de
29 Portugal (ou Touring Club) tinha como um de vários objetivos conseguir que portugueses e estrangeiros visitassem o país (Pereira, 2008). Diversas medidas foram tomadas para conseguir este objetivo, como a criação dos guias de viagem. Tal como noutros países europeus, criaram-se tarifas especiais de comboio, para incentivar viagens às praias e termas no período do verão. Os bilhetes especiais dividiam-se não só segundo as classes (1.ª, 2.ª e 3.ª) mas também por “homens” e “senhoras e crianças” (Ribeiro, 2009). Em 1880 surgem as viagens circulatórias por Portugal e Espanha, para promover as viagens no caminho de ferro. Existiam dois percursos diferentes: um, com a duração de sessenta dias para um percurso de 2 424 quilómetros e outro, de oitenta dias para um percurso de 3 635 quilómetros (Matos et al, 2009 : 10). O início e o fim destas viagens era em Lisboa. Organizaram-se também excursões a feiras, exposições e congressos (Matos et al, 2009). Exemplo de uma destas excursões foi a “A Paris por 5 Libras” que promovia uma viagem em classe económica a Paris pela altura da da exposição mundial em 1889. Para além da época de praia e excursões ocasionais, foram criados outros bilhetes especiais com preços reduzidos. Em 1891, por exemplo, existiam bilhetes de ida e volta com tarifa reduzida para quem pretendesse visitar Castelo Branco ou Covilhã (Ribeiro, 2009). Entre outros meios de divulgação, A Gazeta dos Caminhos de Ferro teve um papel importante na promoção do turismo português aliado ao uso do comboio. Foi publicada pela primeira vez em 1888 sob o nome Gazeta dos Caminhos de Ferro de Portugal e Espanha (Ribeiro, 2009). Era possível ler diferentes artigos relacionados com turismo como “Notas de Viagem” ou “Viagens em Terras Alheias” A rubrica “Viagens e Transportes” foi uma das que mais tempo foi publicada (19101940). O objetivo era a promoção da viagem em si e não dos destinos, ou seja, incentivava os leitores a viajar, independentemente do destino (Ribeiro, 2009). Outra rubrica interessante, virada para a promoção do país, era a “Portugal Grande País de Turismo”. Aqui, pelas palavras de Dr. Augusto Cunha, eram dadas a conhecer várias terras portuguesas e descritas as suas paisagens, de modo a aliciar potenciais turistas. Atualmente, existem alguns incentivos à viagem de comboio para fins turísticos. No sítio online da CP existe um separador dedicado a “Programas Turísticos” com três diferentes divisórias: Cultura e Natureza, Festas e Romarias e Sabores e Gastronomia.
30 Na secção Cultura e Natureza, temos os seguintes percursos: Rota das Aldeias Históricas de Comboio (Beira Baixa), Rota das Cerejas (Fundão), Comboio Histórico (Douro), Festa das Vindimas (Douro). Em relação a rotas propostas, existem a do Minho, Rodão, Ria Formosa, Tomar e Amendoeiras. Sugerem como percursos de descoberta Braga, Guimarães, Porto, BioRia (Aveiro e Baixo Vouga) e Évora. A parte das Festas e Romarias dedica-se à promoção de eventos perto de linhas ferroviáras, como o o Carnaval de Ovar e Estarreja, Braga Romana, São João, Semana Santa em Braga, Santos Populares, Romaria da Nossa Senhora da Agonia e outras festas Por fim, a secção de Sabores e Gastronomia destaca a Rota da Lampreia (Beira Baixa) e a Rota dos Sabores Tradicionais em Évora. São mencionados outros percusos em “Outros Sabores”. 5.3) As ecopistas em antigas linhas ferroviárias A rentabilização de caminhos e trilhos em estado de abandono tem sido um tema ao qual se tem dado mais atenção nos últimos anos. Entre outros objetivos, existem o de preservar a paisagem e para fins de lazer (Sarmento, 2002). Tendo em conta a análise do uso das ecopistas nos Estados Unidos da América e na Europa, o lazer é a principal razão para usar estes caminhos. Em relação às linhas ferroviárias em desuso, Sarmento (2002) refere que estas por estarem sem uso oficial não significa que estejam abandonadas. A população, por exemplo, serve-se muitas vezes destes caminhos no seu quotidiano. As ecopistas definem-se, então, como: (...) vias de comunicação autónomas, reservadas às deslocações não motorizadas, realizadas num quadro de desenvolvimento integrado, que valorize o meio ambiente e a qualidade de vida, e que cumpra as suficientes condições de largura, inclinação e qualidade de pavimentação, de forma a garantir uma utilização em convivência e segurança por parte de todos os utentes, independentemente da capacidade física dos mesmos. Por conseguinte, a utilização dos caminhos, canais, e vias ferroviárias desativadas, constitui um suporte privilegiado para o desenvolvimento das Vias Verdes. (Declaração de Lille, para uma Rede Verde Europeia, 12 de setembro de 2000). A Declaração de Lille tinha como objetivo a criação de uma rede de ecopistas tendo em conta vários fatores como a procura dos utilizadores de espaços acessíveis a todos, permitindo a prática de atividades de tempos livres em completa segurança, e o
31 impacte favorável destes sobre a saúde pública, conjungado-os com diversas diretivas e compromissos assumidos no passado relativos a preocupação ambientais (APCV, 2012) Analisando o caso português, verificamos que a Reserva da Agricultura Nacional e a Reserva Ecológica Nacional em conjunto com as Áreas Protegidas para Conservação da Natureza em 1976 foram as primeiras a preocupar-se com a proteção de espaços e caminhos (Sarmento, 2002). Apesar desta preocupação mais “oficial”, a ideia das ecopistas já vem do Século XIX aquando a preocupação com as rotas urbanas (Ribeiro, Barão, 2006). A criação das ecopistas nos espaços de antigas linhas ferroviárias foi contemplada no Plano Nacional de Ecopistas da REFER, criado em 2001. O processo da criação das ecopistas envolve não só a REFER como as autoridades locais. A primeira cede à segunda uma concessão de até um máximo de 25 anos, ficando a REFER proprietária e as autoridades com o direito de uso (Sarmento, 2002). Sarmento (2002) considera que as ecopistas propostas pela REFER não se baseiam numa estratégia de desenvolvimento sustentável e coerente, por quatro razões: falta de articulação com outras vias existentes, falta de envolvimento da população e a não envolvência de grupos de voluntários, associações locais ou outras pessoas responsáveis pela segurança, gestão e manutenção das ecopista, o desenvolvimento das ecopistas não está articulado com uma estratégia nacional de promoção do uso de transportes alternativos. A junção destas razões fazem com que as ecopistas portuguesas não aproveitem o seu potencial e coloquem em risco o seu funcionamento e permanência. Uma das razões que mais preocupa Sarmento é a falta de envolvimento da população local. Recorrendo a uma citação de Flink e Searns (1993) , esclarece que é importante este envolvimento para perceber o que é que a população local precisa e deseja com a construção destas vias. Mais do que ninguém, serão os principais interessados nestas vias para uso diário. Esta falta de envolvimento da população está demonstrada na análise que Sarmento faz à ciclovia entre Guimarães e Fafe. Nasceram daqui vários conflitos pois a população local considerava que a infraestrutura não respondia às suas necessidades.
32 Também a falta de planeamento e manutenção fez com um inverno mais rígido danificasse a pista através do deslocamento de terras entre outros (Sarmento, 2002). Em relação às ecopistas desenvolvidas em antigos espaços ferroviários em Portugal, através da consulta do sítio online da REFER pode ver-se que existem 10 em funcionamento. São elas as ecopistas do Tâmega, Rio Minho, Guimarães, Ramal de Famalicão, Corgo, Sabor, Dão, Vouga, Montado Montemor-o-Novo e Mora. A apresentação das pistas e feita através de uma foto desta, descrição da localização, extensão e uma pequena nota histórica. As ecopistas já são divulgadas no âmbito do turismo em Portugal. Como podemos ver no próprio sítio online do Turismo de Portugal, existe uma parte reservada à explicação deste conceito, dentro do separador “Produtos e Destinos”.
33 6) Caminhos de Memória e Ferrovia Nesta parte da dissertação, apresentam-se dois espaços ferroviários que se considera ter potencial turístico: a linha do Tâmega, já convertida em ecopista, e a linha do Tua, ainda com carris. O objetivo é aplicar os conceitos anteriormente estudados a estes dois casos. Na linha do Tâmega verifica-se uma ausência física (dos carris, sinalização, apeadeiros, taludes, túneis, viadutos, entre outros), traduzindo-se na eliminação visual deste elemento forte que caracterizava estes canais ferroviários. Pelo contrário, a linha do Tua, ainda com carris, representa a presença de um passado ainda visível. Serão estudadas propostas para tornar estes espaços em sítios de memória e nostalgia, com potencial turístico. 6.1) As linhas do Tâmega e Tua - enquadramento regional As linhas do Tâmega e Tua, tal como as do Corgo e Sabor, constituíam ramais ferroviários da linha do Douro, desenvolvendo-se para Norte, com traçados próximos dos rios que lhes deram nome. Durante muito tempo, esta era a rede de transportes fundamental do território transmontano, porém, dinâmicas demográficas regressivas associadas a políticas de desinvestimento ferroviário e investimento em rodovias de alta capacidade, ditaram o seu encerramento. De facto, após um período de aumento populacional em praticamente todos os concelhos da Região Norte, a partir da década de 50 do século XX – altura em que se concluiam alguns dos lanços dos ramais ferroviários -, os municípios a Norte e Leste de um espaço mais dinâmico a Oeste (com configuração próxima de um triângulo, cujos vértices tocam no Porto e seus vizinhos, Viana do Castelo e Amarante), iniciam um período de perda de atratividade, resultando na diminuição de efetivos populacionais. Na última década (2001-2011), a Região Norte registou alguma estabilização no computo da sua população, mas, mesmo assim, dando continuidade às dinâmicas anteriores, isto é, através do reforço da urbanização com concentração da população a Oeste, e a perda a Leste, aqui muito à custa das freguesias predominantemente rurais
34 que, apesar mitigam o poder atrativo das freguesias sede de concelho no interior (Figura 3). Figura 3 – Variação da população residente nas freguesias da Região Norte (2001/2011) Fonte: INE, 2001 e 2011 Os municípios das NUT Tâmega e Sousa, e das de Alto Trás-os-Monte e Douro, que enquadram as linhas do Tâmega e Tua, apresentam, portanto, uma evolução concordante com o quadro de espaços em perda, com consequências, também, na redução de procura do serviço ferroviário de passageiros, tanto mais que na última década do séc. XX e início do séc. XXI, se construíram vários itinerários principais e complementares responsáveis pelas melhorias, muito significativas, nas condições de acessibilidade ao interior da Região Norte. A NUT do Tâmega e Sousa tem uma população de 520 mil habitantes distribuídos por 12 concelhos: Amarante, Baião, Castelo de Paiva, Celorico de Basto, Cinfães, Felgueiras, Lousada, Marco de Canaveses, Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel e Resende (Rota do Românico, Tâmega e Sousa). Atualmente depara-se com um problema grave de desemprego, sendo uma das regiões mais afetadas de Portugal. O Presidente do Conselho Empresarial do Tâmega e Sousa considera-a como sendo a
35 região da Europa que mais irá crescer nos próximos dez anos (Associação Empresarial de Amarante, 2013). O Turismo não foi um dos setores mencionados para a ajuda deste crescimento. Apenas referiu as indústrias tradicionais da área: o têxtil, calçado, mobiliário, metalomecânica e extração da pedra. Apesar do setor em análise não ter sido referido, já se utilizou a indústria local para promover atividades culturais e de lazer, como a Art on Chairs3. As regiões de Alto Trás-Os-Montes e Douro, registaram, em 2011, cerca de 400 mil residentes, sendo constituídas por 33 concelhos. Ao contrário do Tâmega que entre 1991 e 2011 conseguiu uma variação da população de 8,11%, aquelas duas áreas perderam efetivos, para o mesmo período, na ordem dos 13% A nível de Turismo, destacam-se sem dúvida o turismo rural e gastronómico. A oferta a nível de turismo rural é variada e com preços diferentes entre si. O vinho do Porto, sempre presente, é já tradição na região para quem visita a região. Entre 1999 e 2010, a taxa de crescimento das dormidas na região TOM aumentou 32%, o que é significativo (tabela 5). A tabela 8, com as taxas de ocupaçãocama, apresenta uma evolução positiva para a região. No entanto, esta continua bastante abaixo da média nacional. Figura 4 - Dormidas nas NUT do Ave, Tâmega, Douro e Alto Trás-Os-Montes de 1999 a 2010 Fonte: Gráfico elaborado através de dados disponíveis no INE 3 http://www.paredesdesignmobiliario.com/pt/go/noticias
42 Atualmente, nem toda a linha se encontra em funcionamento, podendo, em função do aproveitamento que se vier a fazer deste canal ferroviário, beneficiar dos programas associados ao Comboio Histórico do Douro6 Apesar de ser programa único dentro do género no país, já viu o seu funcionamento ser ameaçado. Em 2011, a CP ponderou não voltar a realizar a viagem devido a prejuízos com o programa (TVI, Comboio Histórico do Douro pode chegar ao fim, 2011). 6.2) Análise do potencial das regiões A partir da análise da componente teórica e das linhas ferroviárias em estudo, a ideia seria ter dois percursos facilmente acessíveis com uma trajetória em comum. Para funcionar e ter interesse turístico, é preciso reunir um conjunto de requisitos. Como foi possível analisar anteriormente, as regiões do Tâmega e Alto Trás-OsMontes têm vários pontos de interesse turístico. A região do Tâmega apresenta valores bastante interessantes a nível de ocupação hoteleira ao longo dos anos. É uma região bastante orientada para o turismo cultural, o que podemos facilmente compreender através das propostas da Rota do Românico. Monumentos, tradições, gastronomia são sugestões correntes. Também é dada especial importância à saúde (termas) e à paisagem (rotas pedestres, passeios). Quanto a Alto Trás-Os-Montes, a sua paisagem característica, gastronomia e vinhos são de destacar. Tal como no Tâmega, o turismo rural tem grande expressão. É uma região bastante rústica e rural, sendo atrativa para quem gosta deste tipo de turismo. No anexo I, II e III, é possível ver alguns dos monumentos, rotas e percursos de interesse existentes nos concelhos. No anexo I encontram-se monumentos recomendados pela Rota do Românico, no anexo II aqueles que os sítios online de turismo e câmaras municipais da região de Alto Trás-os-Montes consideram como ponto de interesse e no anexo III os percursos pedestres existentes nas regiões. É preciso 6 O Comboio Histórico é um percurso turístico oferecido pela CP que consiste numa viagem na Linha do Douro num comboio antigo, ainda a vapor (a motora poderá eventualmente ser substituída por uma a diesel se as condições metereológicas assim o exigirem). Este programa turístico apenas se encontra disponível nos meses de verão.
43 existir um conjunto de atrações interessantes aos olhos do turista para além da ecopista e da linha, de modo a que a visita não se limite apenas a isso. A ecopista do Tâmega e a Linha do Tua, como já foi anteriormente dito, são linhas “afluentes” da Linha do Douro. Esta última, tem início no Porto. O facto da Linha do Douro começar numa cidade com significativo movimento de turistas é uma vantagem. Podemos assumir a cidade como porta de entrada para estas duas regiões em análise. De resto, como é possível ver na Tabela 9, a região do Grande Porto representa uma grande fatia do total do turismo praticado no Norte de Portugal (61,05%). Torna-se, portanto, numa oportunidade para as regiões do Norte. Região Total de Dormidas Norte 4547011 Grande Porto 2775725 Porto 1783781 Tabela 9 – Total de Dormidas no Norte, Grande Porto e Porto (2011) Fonte: INE, 2011 Figura 10 – Localização do Porto e das estações do Arco de Baúlhe e do Tua na Região Norte Fonte: Site da CCDRN, consultado em 15.9.2013
44 Na figura 10 pode identificar-se o Porto, muitas vezes cidade de entrada para a região Norte, a estação de Arco de Baúlhe (a última da antiga Linha do Tâmega) e a estação do Tua. Apesar de não serem propriamente localidades vizinhas, não se encontram muito distantes. Fazem entre si um triângulo estratégico, que pode ser aproveitado a nível de turismo. Tanto a ecopista como a linha podem-se tornar em espaços interessantes de turismo. Falando primeiro da ecopista, após a revisão da literatura, parecem ainda faltarem alguns elementos importantes para a criação de um espaço de memória. A ecopista ainda não se encontra completa, tendo começado a ser construída no em Amarante. Sem uma ligação à linha “principal”, ou seja, à Linha do Douro, não se tornará tão apetecível. É preciso ir lá ter através de transporte privado ou procurar alguma eventual ligação rodoviária. Não existe ainda um espaço para alugar bicicletas, embora esteja prevista a reconversão da estação de Celorico da Beira para este fim (Município de Celorico de Basto, Abertura Oficial da Ecopista do Tâmega, 2013). A criação de estruturas de apoio é fundamental, até porque não é usual o turista trazer consigo a sua bicicleta. Seria ainda interessante ver um posto de aluguer de bicicletas no início da ecopista, se esta vier a ser totalmente reconvertida, para ser possível fazer a ecopista toda. Nas ecopistas da Républica Checa, esta solução tem sido bem aceite e com bons resultados (Seidenglanz, 2006). Em relação às estações, seria importante manter a traça e ambiente original. Aqui se criaria a sensação de ausência, de “abandono”, onde se apelaria à nostalgia, à saudade de um passado que já não existe. A própria falta de carril poderá trazer essa sensação de nostalgia. Muitos utilizadores da ecopista visitam e fotografam as estações abandonadas, o que nos faz perceber a potencialidade do local como sítio de visita turística. É ainda importante referir que, no final da ecopista, em Arco de Baúlhe, encontra-se um Núcleo Museológico com locomotivas, carruagens e vagões7 (Figura 11). Este tipo de museu é também apontado como fator de atração de turistas por Seidenglanz (2006). 7 Espólio do Núcleo Museulógico de Arco de Baúlhe: Locomotiva MD 407 (1908), Automotora a gasolina ME 5 (1948), Carruagem CEyf 453 (1908), Carruagem CEfv 79 (1876), Salão de direcção SEyf 201 (1906), Salão de direcção SEfv 4001 (1905), Furgão DEfv 506 (1908), Vagão 5937023 (1909/11), Vagão 1820013 (1906), Cisterna 7012002 (1926)
45 Figura 11 - Museu de Terras de Basto – Arco de Baúlhe, Cabeceiras de Basto Fonte: http://www.cabeceirasdebasto.pt, consultado em 15.9.2013 Passando agora para a Linha do Tua, o programa do Comboio Histórico já se encontra em condições de apelar à memória e à nostalgia. Além do próprio comboio, os maquinistas também usam trajes da época, o que é bastante interessante e apelativo para este tipo de programa. Alargar estas ideias traria mais interesse à memória. Simular uma viagem antiga, com revisor e passageiros com figurinos de época, poderia ser bastante atrativo para o público. Tal como no exemplo anteriormente falado da Heidiland a reunião de esforços para simular um tempo antigo traria mais valor à viagem. Muitos projetos deste género funcionam através de voluntários. Antigos trabalhadores, população local e outros interessados encarnariam, então, estas personagens. O voluntariado é importante para o funcionamento e manutenção deste tipo de projetos. Goddin (2002) elaborou um estudo sobre as motivações dos voluntariados em projetos de turismo ferroviário e concluiu que estes se sentiam altamente motivados, especialmente quando eram colocados na sua área de interesse. Refere também que voluntários motivados que transpareçam para o público a sua satisfação trazem retorno sobretudo a nível comercial. A energia e o entusiasmo geram resultados que vão ao encontro das necessidades dos turistas.
46 6.3) Propostas de melhoria Através da análise da teoria e aplicando-a aos conhecimentos sobre as regiões em análise, é possível detetar potencial turístico em ambas. Apesar do potencial, ainda não estão reunidas todas as condições para existir um projeto de sucesso a nível do turismo de nostalgia e memória. O facto de a ecopista não estar ligada à Linha do Douro é um enorme entrave, visto que dificulta o acesso. É exatamente a área mais perto da Linha do Douro que apresenta mais oferta turística cultural, que interessaria mais ao tipo de turista que se pretende atrair. A Linha do Tua também não tem esta ligação, mas existe ligação rodoviária, que facilita o acesso. Não fossem os efeitos da construção da barragem, seria interessante converter toda a linha para um projeto deste género. Apesar deste tipo de atividade não ter como objetivo o lucro, é necessário que seja sustentável. A ecopista terá eventualmente custos com a sua manutenção e o Núcleo Museológico, que já existia, também terá os seus custos previamente pensados. O mais preocupante neste campo, é o comboio da Linha do Tua. Tillman (2002) refere existirem dois fatores chave para a sustentabilidade de uma linha ferroviária deste género: visitantes e voluntários. Através dos dados disponíveis de dois anos de funcionamento do comboio histórico, foi possível ver o prejuízo dado. Aqui é necessário atuar em várias frentes. No marketing, por exemplo, é preciso haver mais divulgação. Esta é apenas feita via sítio online institucional, ou seja, se as pessoas não souberem ou não se lembrarem deste comboio, apenas o descobrirão se forem de propósito ao sítio online. É preciso ter cuidado com o tipo de marketing, pois pode perder o seu factor de autenticidade (Yeoman et al, 2007). A tendência é que, ao longo dos tempos, haja um aumento de visitantes. É importante não esquecer manter o ambiente que remete ao passado, para a atividade não perder interesse. (Tillman, 2002). Perder a autenticidade significará, muito provavelmente, perder potenciais turistas que procuram esta característica. Seria também interessante integrar melhor o projeto na comunidade, através de uma maior divulgação do que por lá existe. Bom exemplo será a gastronomia típica, que certamente ajudará a reconstituir uma “cena de época”. Assim, além de ajudar a promover e a desenvolver a região, seria mais um fator de atração aos turistas. A junção
47 de bens públicos (neste caso, a viagem ferroviária) com bens privados (restaurantes, associações, entre outros) é uma caraterística deste tipo de projetos (Tillman, 2002).
48 7) Conclusões O facto de não podermos fazer “experiências” em turismo, torna difícil saber se determinado projeto turístico irá ou não ter sucesso. Um nicho de hoje não é igual a um nicho de antigamente. Existe mais poder monetário, mais tempo livre e mais facilidade em viajar. Assim, os destinos ficam cada vez mais próximos dos turistas. Este facto faz ainda com que exista mais competição entre eles. O turismo de memória e nostalgia, ligado ao turismo cultural devido a várias características em comum, encontra-se em crescimento e representa um exemplo de turismo para nichos. Existem cada vez mais tentativas de um “regresso ao passado que já não existe” para responder às necessidades de procura da autenticidade. Esta autenticidade não se prende com uma simulação rigorosa do passado, mas sim com uma aproximação. Os turistas valorizam a autenticidade e é importante que ela se mantenha, apesar de poder ser complicada esta manutenção. É necessário ter em conta vários aspetos, visto não estarmos a lidar com um produto para massas. A memória e a nostalgia podem ser ativadas de várias formas. Exemplo disso é a dicotomia entre a presença e a ausência. Na presença ocorre o regresso ao passado, através de objetos e ações. O Comboio Histórico do Douro é exemplo desta presença: existe um regresso ao passado através do próprio comboio antigo que já circulou num passado. Em relação ao ausência, sentimos falta daquilo que já não existe, das ruínas de um passado. A ecopista do Tâmega, já sem carris, leva-nos a sentir saudade do que lá existiu. O abandono, as estações sem ninguém, ajudam a criar esse ambiente. Também o Núcleo Museológico de Arco de Baúlhe ajuda a esta nostalgia, visto que os museus são espaços de memória. O comboio a nível de turismo tem deixado cada vez mais de ser um modo de transporte para passar a própria atração turística. Se antigamente aliciavam o turista com viagens baratas em épocas balneares (a par de outros produtos com as viagens circulatórias entre Portugal e Espanha), hoje em dia criam-se programas onde o comboio é a estrela. Aqui se incluem as “Heritage Railways”, ou seja, viagens em comboios antigos, já fora de circulação, em locais com potencial turístico. Os programas ligam o comboio à região onde este circula.
49 O país tem sofrido vários cortes a nível de ferrovia, tendo sido encerrrados vários quilómetros de carris durante os últimos anos. Uma maneira de aproveitar esses caminhos foi transformá-los em ecopistas. Várias razões foram apontadas para a criação destas mas, a com mais peso, é provavelmente o argumento de tornar os caminhos seguros. Muitas vezes a população continuava a servir-se destes caminhos a pé. Com o abandono, foram-se tornando perigosos. O norte de Portugal tem sido bastante afetado com o encerramento das linhas. Esta região tem crescido a nível de turismo, sendo cada vez mais procurada. O Porto é uma importante porta de entrada para o norte, visto ser a cidade mais conhecida internacionalmente da região e por estar em voga nos últimos tempos. Alguns esforços foram feitos no sentido de reabilitar estas linhas encerradas (Tâmega, Sabor e Corgo) e a linha do Tua, em parcial funcionamento. No entanto, os projetos não têm sido aceites, sobretudo pelo grande encargo financeiro que representam. Existem alguns programas turísticos, disponíveis apenas por um curto período de tempo. Noutros países, com mais tradição a este nível, os períodos de circulação deste tipo de comboios são mais alargados. A região do Tâmega apresenta um potencial turístico a desenvolver. Através da análise estatística, foi possível verificar este facto. A linha que lá existiria poderia traduzir-se num projeto ferroviário interessante. No entanto, esta foi transformada em ecopista. Esta última ainda não envolve toda a antiga linha, estando apenas construída na zona mais a norte da Linha do Douro, ou seja, nas últimas estações da Linha do Tâmega. Como se encontra neste momento, talvez não tenha grande sentido a nível turístico, apenas servindo os locais. Com a ligação à Linha do Douro e criação de estruturas de apoio (como aluguer de bicicletas), fará mais sentido para os turistas. Deste modo, é também possível a construção de um espaço de memória. A linha do Tua ainda se encontra em funcionamento parcial e é aqui que opera o comboio turístico. Este programa é único em Portugal. No estrangeiro, existem vários programas do género, com bastante sucesso. Uma das grandes diferenças entre os outros programas e o português, é a falta de envolvimento da população local que existe por cá. Estas Heritage Railways trabalham com bastantes voluntários, que ajudam a criar ambiente.
50 Na elaboração destes programas é preciso ter bastante atenção para criar uma experiência turística adequada. Como já foi anteriormente dito, a publicidade do “passa a palavra” é muito importante e eficaz. Se a experiência for negativa, certamente se perderá muito a este nível. É também importante não dispersar demasiado a experiência, de modo a que o turista foque a sua atenção naquilo que é importante: o regresso ao passado, ainda que estejam num presente. Como refere James May (2013), conhecido jornalista e apresentador britânico, não precisamos de ter uma locomotiva a vapor, mas é verdade que ela está um pouco como “escondida” na memória pública. O símbolo rodoviário de aproximação de comboio tem o desenho de uma locomotiva a vapor, mesmo poucos se lembrem de ter alguma vez visto uma. Mas sabemos que existe e identificamos o símbolo como real. É a nostalgia e a memória a funcionar, mesmo que não nos apercebamos de imediato.
51 Bibliografia Armario, Enrique Martín - Tourist Satisfaction: An analysis of its antecedents. Universidad, Sociedad y Mercados Globales. (2008). p. 367-382. Consult. em 12/02/2013. Disponível em WWW: <http://dialnet.unirioja.es/servlet/oaiart?codigo=2751774>. Avdimiotis, Spyridon; Bonarou, Christina; Dermetzoupoulos, Athanasios; Karamanidis, Ioannis; Mavrodontis, Thomas; Kelessidis, Vassilios; Kalonaki, Elisavet - TOUREG: Global SWOT Analysis. (2009). p. 139. Consult. em 12/04/2013. Disponível em WWW: <http://www.stepc.gr/online_library.html>. Bartoletti, Roberta - Tourism and Visual Culture - Volume 1 Theories and Concepts. 2010. - "Memory Tourism" and Commodification of Nostalgia. Buhalis, Dimitrios - Marketing the competitive destination of the future. Tourism Management. Vol. 21. (1999). p. 97-107. Consult. em 18/04/2013. Disponível em WWW: < http://www.esgt.ipt.pt/download/disciplina/355__buhalisdestinationmarketing.pdf>. Butler, R. W. - The concept of a tourist area cycle of evolution: Implications for management of resouscer. Canadian Geographer. Vol. XXIV. n.º 1 (1980). p. 512. Consult. em 11/02/2013. Disponível em WWW: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.15410064.1980.tb00970.x/abstract>. Campêlo, Álvaro - O autêntico e o banal: como descrever a experiência turística? ANTROPOlógicas. n.º 4 (2000). Consult. em 15/02/2013. Disponível em WWW: < http://revistas.rcaap.pt/antropologicas/article/view/931>. Cohen, Erik - A Phenomenology of Tourist Experiences. Sociology. Vol. 13. n.º 2 (1979). Consult. em 13/04/2013. Disponível em WWW: <http://www.travelstudies.com/sites/default/files/Phenomenology_of_Tourist_Experiences.pdf>. Cohen, Erik - Authenticity and Commoditization in Tourism. Annals of Tourism Research. Vol. 15. (1988). p. 371-386. Consult. em 12/05/2013. Disponível em WWW: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/016073838890028X>. Correia, Rita - Ficha Histórica da Gazeta dos Caminhos de Ferro. (2009). Consult. em 20/02/2013. Disponível em WWW: <http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/GazetaCF.pdf>. Costa, Carlos - Turismo e cultura: avaliação das teorias e práticas culturais do sector do turismo (1990-2000). Análise Social. Vol. 175. (2005). Consult. em 14/09/2013. Disponível em WWW: <http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/pdf/aso/n175/n175a02.pdf>. Costa, Flávia Roberta - Turismo e patrimônio cultural - interpretação e qualificação. Senac, 2009. Cunha, Augusto - Portugal Grande País de Turismo. Gazeta dos Caminhos de Ferro. Vol. 1103. (1933). Consult. em 3/3/2013. Disponível em WWW: <http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1933/N1103/N1103_master/JPG/GazetaCFN1103_0025_branca_t0.jpg>. Cunha, Licínio - Autenticidade e Inovação: factores de renovação dos destinos turísticos maduros. Cogitur. Vol. 4. n.º 4 (2011). Consult. em 10/02/2013. Disponível em WWW: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/jts/article/view/2690>. Cunha, Licínio - Autenticidade e Inovação: factores de renovação dos destinos turísticos maduros. Cogitur. Vol. 4. n.º 4 (2011). Disponível em: http://revistas.ulusofona.pt/index.php/jts/article/view/2690 Deprest, Florence - Enquête sur le tourism de masse. Lécologie face au territoire. Belin. Paris: Belin, 1997. Dias, Francisco - Visão de síntese sobre a problemática da motivação turística. Percursos & Ideias, Revista Científica do Iscet. Vol. 1. n.º 1 (2009). p. 226. Consult. em 23/11/2012. Disponível em WWW: <http://www.iscet.pt/sites/default/files/PercursosIdeias/N_1/Revista2009.pdf>.
58 Anexos Anexo I Monumentos da Rota do Românico (Tâmega) por Concelho Concelhos Monumentos Amarante Igreja de Santa Maria de Jazente Igreja de Santa Maria de Gondar Igreja do Salvador de Lufrei Igreja do Salvador de Real Igreja de Santo André de Telões Igreja de São João Baptista de Gatão Ponte de Fundo de Rua Mosteiro do Salvador de Travanca Mosteiro de São Martinho de Mancelos Mosteiro do Salvador de Freixo de Baixo Baião Igreja de São Tiago de Valadares Ponte de Esmoriz Mosteiro de Santo André de Ancede Castelo de Paiva Marmoiral de Sobrado Cinfães Igreja de Nossa Senhora da Natividade de Escamarão Igreja de Santa Maria Maior de Tarouquela Igreja de São Cristóvão de Nogueira Felgueiras Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro Igreja de São Vicente de Sousa Igreja do Salvador de Unhão Igreja de Santa Maria de Airães Igreja de São Mamede de Vila Verde Lousada Ponte da Veiga Ponte de Vilela Torre de Vilar Ponte de Espindo Igreja do Salvador de Aveleda Igreja de Santa Maria de Meinedo Marco de Canaveses Capela da Senhora da Livração de Fandinhães Memorial de Alpendorada Mosteiro de Santa Maria de Vila Boa do Bispo Igreja de Santo André de Vila Boa de Quires Igreja de Santo Isidoro de Canaveses Igreja de Santa Maria de Sobretâmega Igreja de São Nicolau de Canaveses Igreja de São Martinho de Soalhães Igreja do Salvador de Tabuado Ponte do Arco Paços de Ferreira Mosteiro de São Pedro de Ferreira Paredes Torre dos Alcoforados Torre do Castelo de Aguiar de Sousa
59 Capela da Senhora da Piedade da Quintã Mosteiro de São Pedro de Cête Ermida da Nossa Senhora do Vale Penafiel Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa Memorial da Ermida Igreja de São Pedro de Abragão Igreja de São Gens de Boelhe Igreja do Salvador de Cabeça Santa Igreja de São Miguel de Entre-os-Rios Resende Ponte da Panchorra Mosteiro de Santa Maria de Cárquere Igreja de São Martinho de Mouros Igreja de Santa Maria de Barrô Fonte: Tabela feita com base na Listagem de Monumentos presentes no sítio online da Rota do Românico
60 Anexo II: Monumentos presentes na Região de Alto Trás os Montes por Concelho Concelhos Monumentos Alfândega da Fé Castelo de Felgueira Castelo de Colmeais Capela da Misericórdia de Alfândega da Fé Quinta Branca Boticas Castro de Gestosa Capela Santa Margarida Bragança Igreja e Convento de S. Francisco Museu Militar Núcleo Museológico da CP Mosteiro Castro de Avelãs. Chaves Castelo de Monforte de Rio Livre Forte de S. Francisco Igreja da Misericórdia de Chaves Macedo de Cavaleiros Rota dos Museus Aldeias Históricas Igreja de Vilarinho de Agrochão Miranda do Douro Museu da Terra de Miranda Centro Histórico Sé Igreja Românica Mirandela Zonas Históricas e Antigas (7 zonas segundo o sítio online da câmara municipal) Passeio de Comboio (Linha do Tua) Pelourinhos Lagares Mogadouro Museu de Arqueologia Casa das Águas Férreas Castelo de Penas Róias Montalegre Castelo de Piconha (vestígios) Aldeia das Madanelas Castelo de Montalegre Mosteiro de Pitões Ribeira de Pena Percursos pedestres Igreja Matriz do Salvador Capela de Nossa Senhora da Guia Capela da Granja Velha Ponte de Arame Casa do Barroso Valpaços Vias augustas Vila Pouca de Aguiar Moinhos Complexo Mineiro Romano de Tresminas Castelo de Aguiar Vimioso Rotas (azeite, mel, lazer e javali) Castelo de Algoso Capela de São Sebastião Igreja Matriz de Vimioso Vinhais Castelo de Vinhais Igreja Matriz Solar de Vilar de Ossos
61 Anexo III: Percursos Pedestres existentes Tâmega Alto Trás-os-Montes Caminhos da Srª da Graça Trilho da Serra de Bornes Ponte do Cabril Trilho de Vilares da Vilariça Do Douro à Serra de Montedeiras Trilho de Gouveia Pedras, Moinhos e Aromas de Santiago Trilho do Sabor Pelos trilhos do românico Trilho dos Colmeais Ilha dos Amores Trilho da Parada De mãos dadas com o(s) Sousa(s) Rota do Contrabando-Trilho Segirei Trilhos da beata Mafalda Rota do Contrabando-Trilho Câmberes Pelos trilhos da pintura mural Percurso da Ponte Medieval do Cabril Ecopista do Tâmega Ribeira dos Ladrões-Meiral Termas de Tuela Tresmonte Via Augusta XVII Fonte: Tabela feita com base nas sugestões de visita presentes nos sítios online das Câmaras Municipais e igogo.pt
62 Anexo IV Cartaz Comboio Histórico Douro (2011)