scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

A temporalidade na obra de Shigeru Ban

Anna Siviero

Abstract

Este estudo procura analisar a arquitetura de carácter temporário de Shigeru Ban, ligando-a aos conceitos de ecologia, reciclagem e sustentabilidade, com um especial enfoque na sua aplicação em contexto de emergência pós-catástrofe. A ideia de temporalidade, segundo a qual um elemento tem um ciclo de vida útil determinado, contrapõe-se aos princípios de permanência e de firmitas vitruviana normalmente associados à arquitetura. As construções temporárias são estruturas arquitectónicas criadas para permanecer por um determinado intervalo de tempo, ou com a capacidade de se transformarem no tempo através de poucas alterações estruturais. A palavra temporalidade ganha então um duplo sentido. Por um lado, a temporalidade de uso, também chamada transitoriedade, que implica a persistência da construção e a rápida e contínua modificação das funções ou das pessoas que a utilizam. Por outro lado, a temporalidade física, que implica um tempo limitado de vida do edifício, ou seja, a sua desmontagem ou destruição no término da função para a qual foi construído. A temporalidade que se pretende analisar, própria da arquitetura de Shigeru Ban, é do tipo físico e denota uma reversibilidade total do sistema, capaz de ocupar um território por um certo tempo e devolvê-lo "intacto", uma vez cumprida a sua função. Através do uso de um material não convencional - o papel - de sistemas construtivos inovadores e low-tech, baseados na montagem a seco, na rapidez construtiva e na possibilidade de desmontagem e reutilização das partes que constituem o edifício, Shigeru Ban evolui no sentido de uma arquitetura fortemente reversível, que minimiza o desperdício, maximiza a possibilidade de reutilização e a reciclagem de material. O uso de papel como material de construção, em forma de tubos, é explorado pelo arquiteto a partir de 1986 e simboliza a forte tendência de Shigeru Ban para a procura da leveza e liberdade criativa. Neste período, em que os conceitos de ecologia, reciclagem e sustentabilidade ainda não eram argumento significativo, o interesse de Ban pelo papel é justificado pelo seu desprezo pelo desperdício e pela vontade de utilizar um material estrutural económico e, ao mesmo tempo, resistente e durável. A utilização dos tubos de papel como material estrutural é aplicada na maioria das obras de carácter temporário do arquiteto, em particular em contextos de emergência pós-catástrofe. A atividade de socorro às catástrofes de Shigeru Ban, desenvolvida através da organização não governamental VAN (Voluntary Architects' Network), consiste na construção de residências e equipamentos temporários em materiais económicos, duráveis, recicláveis/reutilizáveis e, sempre que possível, de origem local, que oferecem conforto, proteção e um nível adequado de privacidade às vitimas de desastres. Pelo valor da sua obra humanitária, o arquiteto foi reconhecido com a atribuição do Prémio Pritzker em 2014. Foi definido pelo júri como "um arquiteto extraordinário que, durante vinte anos, tem respondido com criatividade e um design de alta qualidade às situações extremas causadas por desastres naturais devastadores. Os seus edifícios fornecem abrigo, centros comunitários, e lugares espirituais para aqueles que sofreram terríveis perdas e destruição. Quando uma tragédia assombra, ele muitas vezes está lá desde o princípio, como no Ruanda, Turquia, Índia, China, Itália e Haiti, e o seu país natal, o Japão, entre outros."

Full text

A TEMPORALIDADE NA OBRA DE SHIGHERU BAN - ANNA SIVIERO - Resumo Abstract Introdução 13 1.0 O HABITAR TEMPORÁRIO 21 1.1 As origens: excursus entre mito, história e teoria 25 1.1.1 Homem enquanto ser nómada, habitante de tendas 25 1.1.2 O homem na pré-história e a evolução das primeiras formas de abrigo 31 1.1.3 A cabana primitiva desde Marc-Antoine Laugier 39 1.2 Os conceitos 43 1.2.1 A temporalidade e a reversibilidade 43 1.2.2 A reversibilidade do processo construtivo segundo Roberto Bologna 49 1.3 Emergência habitacional. Projetos para povos em movimento 50 1.3.1 Jean Prouvé e o princípio de temporalidade 53 1.3.2 Os Estados Unidos entre as duas guerras 59 1.3.3 Buckminster Fuller: Dymaxion e as estruturas em papel 63 1.3.4 A superação da lógica da machine à habiter e as novas tendências 67 2.0 A ARQUITETURA DE PAPEL DE SHIGERU BAN 73 2.1 Biografia e percurso 75 2.2 A matéria e as experiências 87 2.3 A matéria e as caraterísticas 97 2.3.1 A desintegrabilidade tecnológica e o baixo custo 99 2.3.2 A sustentabilidade 103 3.0 EMERGÊNCIA HABITACIONAL PÓS-CATÁSTROFE 109 3.1 Emergência e desastre: definições 111 3.2 A consequência do desastre: o deslocamento 113 3.3 O direito ao socorro habitacional adequado 117 3.3.1 Shelter after disaster: Guidelines for Assistance 125 3.4 Projetar a emergência 131 3.4.1 A dimensão temporal 135 3.4.2 Requisitos para a projetação do alojamento temporário 137 4.0 VAN E AS INTERVENÇÕES HUMANITÁRIAS 145 4.1 Abrigos de emergência 151 4.1.1 Paper Emergency Shelter 01 151 4.1.2 Paper Emergency Shelter 02 153 4.1.3 Paper Emergency Shelter 03 155 4.2 Sistemas de partição 157 4.2.1 Paper Partition System 01 157 4.2.2 Paper Partition System 02, 03, 04 159 4.3 Alojamentos temporários 159 4.3.1 Paper Log House 01 159 4.3.2 Paper Log House 02 165 4.3.3 Paper Log House 03 167 4.3.4 Paper Log House 04 169 4.3.5 Habitação temporária para o terramoto de Sichuan 169 4.4 Obras públicas 173 4.4.1 Hualin Temporary Elementary School 173 4.4.2 Paper Church 173 Conclusões 181 Anexos: Tubos de papel: produção e características 187 Principais agencias humanitárias internacionais 195 Iconografia 203 Bibliografia 213 index a temporalidade na obra de shigeru ban resumo RESUMO Este estudo procura analisar a arquitetura de carácter temporário de Shigeru Ban, ligando-a aos conceitos de ecologia, reciclagem e sustentabilidade, com um especial enfoque na sua aplicação em contexto de emergência pós-catástrofe. A ideia de temporalidade, segundo a qual um elemento tem um ciclo de vida útil determinado, contrapõe-se aos princípios de permanência e de firmitas vitruviana normalmente associados à arquitetura. As construções temporárias são estruturas arquitectónicas criadas para permanecer por um determinado intervalo de tempo, ou com a capacidade de se transformarem no tempo através de poucas alterações estruturais. A palavra temporalidade ganha então um duplo sentido. Por um lado, a temporalidade de uso, também chamada transitoriedade, que implica a persistência da construção e a rápida e contínua modificação das funções ou das pessoas que a utilizam. Por outro lado, a temporalidade física, que implica um tempo limitado de vida do edifício, ou seja, a sua desmontagem ou destruição no término da função para a qual foi construído. A temporalidade que se pretende analisar, própria da arquitetura de Shigeru Ban, é do tipo físico e denota uma reversibilidade total do sistema, capaz de ocupar um território por um certo tempo e devolvê-lo “intacto”, uma vez cumprida a sua função. Através do uso de um material não convencional – o papel – de sistemas construtivos inovadores e low-tech, baseados na montagem a seco, na rapidez construtiva e na possibilidade de desmontagem e reutilização das partes que constituem o edifício, Shigeru Ban evolui no sentido de uma arquitetura fortemente reversível, que minimiza o desperdício, maximiza a possibilidade de reutilização e a reciclagem de material. O uso de papel como material de construção, em forma de tubos, é explorado pelo arquiteto a partir de 1986 e simboliza a forte tendência de Shigeru Ban para a procura da leveza e liberdade criativa. Neste período, em que os conceitos de ecologia, reciclagem e sustentabilidade ainda não eram argumento significativo, o interesse de Ban pelo papel é justificado pelo seu desprezo pelo desperdício e pela vontade de utilizar um material estrutural económico e, ao mesmo tempo, resistente e durável. A utilização dos tubos de papel como material estrutural é aplicada na maioria das obras de carácter temporário do arquiteto, em particular em contextos de emergência pós-catástrofe. a temporalidade na obra de shigeru ban resumo A atividade de socorro às catástrofes de Shigeru Ban, desenvolvida através da organização não governamental VAN (Voluntary Architects’ Network), consiste na construção de residências e equipamentos temporários em materiais económicos, duráveis, recicláveis/reutilizáveis e, sempre que possível, de origem local, que oferecem conforto, proteção e um nível adequado de privacidade às vitimas de desastres. Pelo valor da sua obra humanitária, o arquiteto foi reconhecido com a atribuição do Prémio Pritzker em 2014. Foi definido pelo júri como “um arquiteto extraordinário que, durante vinte anos, tem respondido com criatividade e um design de alta qualidade às situações extremas causadas por desastres naturais devastadores. Os seus edifícios fornecem abrigo, centros comunitários, e lugares espirituais para aqueles que sofreram terríveis perdas e destruição. Quando uma tragédia assombra, ele muitas vezes está lá desde o princípio, como no Ruanda, Turquia, Índia, China, Itália e Haiti, e o seu país natal, o Japão, entre outros”. 1 1 The Pritzker Architecture Price, Shigeru Ban. Jury citation. http://www.pritzkerprize.com/2014/announcement. a temporalidade na obra de shigeru ban abstract ABSTRACT This study aims to analyse Shigeru Ban’s temporary architecture, connected with the concepts of ecology, recycle and sustainability, mainly focusing on its application in post disaster emergency contexts. The idea of temporality, in which an element has a determined life cycle, contrasts with the principles of permanence and Vitruvian firmitas commonly associated with architecture. Temporary constructions are architectonic structures designed to last for a determined arc of time, or with the capability of being transformed in time through little structural changings. The word temporality has a double meaning. On one hand, the temporality of usage, also called transience, that implies the persistency of the construction and the fast and continuous modification of the functions or of the people that use it. On the other hand, the physical temporality, that implies a limited life time of the building, and its dismantling or destruction at the end of the function for which it was built. The temporality that we aim to analyze, typical of the architecture of Shigeru Ban, is the physical one. It denotes a complete reversibility of the system, able to occupy a piece of land for a certain time and, once accomplished its function, return it “intact”. Through the usage of a non convectional material – paper – , innovative and low-tech constructive systems based on dry assembling, the assembly speed and the possibility of dismantling and reusing the components that constitute the building, Shigeru Ban evolves towards a deeply reversible architecture, that minimizes waist and maximizes the chances of reusing and recycling material. The use of paper as a construction material, shaped in tubes, starts to be explored by the architect in 1986 and symbolizes Shigeru Ban’s strong tendency for the pursue of lightness and creative freedom. In a period in which ecological, recyclable and sustainable concepts weren’t yet object of frequent discussion, Ban’s interest for paper is justified by his despise for waste and by his desire to use a cheap and, at the same time, resistant and durable structural material. The usage of paper tubes as structural material is applied to the majority of his temporary works, in particular in post disaster emergency contexts. The rescue activity of Shigeru Ban after disasters, carried out through the NGO VAN (Voluntary Architects’ Network), consists in the construction of temporary residences and equipment made 16 a temporalidade na obra de shigeru ban 4 5 6 17 introdução Em “A arquitetura de papel de Shigeru Ban”, analisam-se as formas através das quais a temporalidade se manifesta na obra do arquiteto. In primis esta traduz-se no recurso a um material frágil e inovador no campo das construções, o papel. Símbolo próprio de provisoriedade, o papel é o material pelo qual Shigeru Ban começa a interessar-se, quase que por acaso, e que se torna, ao longo da sua carreira, objeto de uma constante investigação. A primeira parte do capítulo é dedicada à biografia do arquiteto, na qual se delineiam os momentos mais marcantes da sua vida e da sua carreira, na tentativa de compreender o seu percurso e o que o levou a interessar-se pelos temas da temporalidade e reversibilidade em arquitetura. A cultura de materiais frágeis, como ele próprio a define, é de facto ligada ao modo de construir japonês e, ao mesmo tempo, determinada pelas figuras que inspiraram a sua obra ao longo da sua vida, como Richard Buckminster Fuller, John Hejduk e Emilio Ambasz. Graças a uma breve cronologia de algumas aplicações do papel em arquitetura, onde se inserem as principais obras de Ban em Paper Tube Structure – a estrutura em tubos de papel que representa a marca distintiva nos seus projetos de carácter provisório – é possível evidenciar as radicais inovações em âmbito estrutural aportadas pelo arquiteto através deste material. Na parte conclusiva, analisam-se as caraterísticas do papel em âmbito construtivo e as possibilidades oferecidas pela Paper Tube Structure, a fim de evidenciar as vantagens da utilização deste sistema. Graças às características de montagem e desconstrução, baixo custo e sustentabilidade ambiental, os projetos de Ban testemunham a vontade de eliminar o supérfluo, de evitar o desperdiço e de usar os recursos de modo parcimonioso e, por isso, tornam-se particularmente aptos para aplicações em situações de crise humanitária. O terceiro capítulo, intitulado “Emergência habitacional pós-catástrofe” foi compilado na base de manuais e documentos produzidos pelas principais agências humanitárias (UNHCR, UNHabitat, IFRC, etc.) e pretende apresentar uma série de considerações relacionadas com a projetação em contextos pós-catástrofe Na primeira parte do capítulo consideram-se os factores que definem e determinam um estado de emergência e o consequente deslocamento das pessoas, as quais, induzidas a fugir do seu lugar de residência habitual, muitas vezes encontram refúgio ainda no interior das fronteiras do próprio estado. O sobrevivente que é vitima da destruição da própria casa é forçado a adaptar-se a uma forma de viver profundamente diferente da comum ideia de habitar, gerada pela situação de emergência. Embora, em muitos documentos publicados a nível internacional, o direito de uma pessoa a um abrigo pós-desastre esteja incluído no direito de acesso a uma solução habitacional adequada, como definido na Declaração dos Direitos Humanos, é importante relembrar que a sensibilização geral relativamente aos direitos dos refugiados e das pessoas deslocadas é um fenómeno bastante recente. Neste contexto insere-se a atividade de socorro de Shigeru Ban, que em 1995, em resposta à crise que assombrou o Ruanda, propôs à UNHCR as suas primeiras soluções para a emergência habitacional usando tubos de papel. O estudo dos principais documentos que tratam o problema do alojamento fornece-nos diretrizes para a programação do abrigo de emergência e da habitação pós-catástrofe. São identificados três tempos nos quais se divide a intervenção de socorro: a emergência, a recuperação e a reconstrução. A parte conclusiva do capítulo é dedicada à definição de abrigo transitório pós-catástrofe, que deve acolher os sobreviventes desde a fase sucessiva ao socorro imediato até a definição de uma solução habitacional definitiva. A análise dos requisitos de base da projetação de um abrigo transitório ajuda-nos a compreender, dentro do trabalho humanitário de Shigeru Ban, os fatores que determinam 18 a temporalidade na obra de shigeru ban 8 9 7 19 introdução e limitam as suas escolhas logísticas e de projeto. O último capítulo da tese, “VAN e as intervenções humanitárias”, é dedicado à atividade humanitária de Shigeru Ban juntamente com a sua organização VAN e pretende analisar a eficiência em termos de tempos, métodos construtivos, custos e conforto das soluções habitacionais propostas. São apresentados alguns casos de estudo, subdivididos em quatro tipologias: os abrigos de emergência, os sistemas de partição, os alojamentos temporários e as obras públicas de carácter temporário. Os casos de estudo são analisados com base em caraterísticas como o contexto de realização (desastre natural), as necessidades locais, a tecnologia construtiva, a tipologia dos materiais utilizados, a sua disponibilidade in loco, os tempos de execução, a quantidade de pessoal necessária para a montagem, e os custos totais e a duração da intervenção. Na parte conclusiva foram compilados dois esquemas, com base nas informações recolhidas e trabalhadas ao longo do processo de investigação. O primeiro compara e define mais especificamente as caraterísticas físicas e técnicas dos sistemas construtivos tidos em análise. O segundo mostra os requisitos e as caraterísticas de cada projeto habitacional, organizados cronologicamente, a fim de evidenciar as principais evoluções das tipologias construtivas. A sistematização das informações permitiu-nos analisar com mais detalhe a evolução de cada estrutura, a sua influência e capacidade de resposta em contexto pós-catástrofe, percebendo as vantagens e os limites representados pela definição de sistemas e pelo recurso a um material tão alternativo. Evidencia-se como, ao longo do tempo, as prerrogativas do arquiteto foram sempre mais focadas tanto na integração de materiais e recursos locais, quanto na simplificação estrutural e de montagem dos sistemas, a fim de garantir uma maior rapidez de resposta e, ao mesmo tempo, incluir a população afetada no processo de construção das próprias habitações, segundo a lógica da autoconstrução. Por último, são inseridos dois anexos. O primeiro, “Tubos de papel: produção e caraterísticas” oferece uma descrição detalhada das caraterísticas dos tubos de papel e dos seus métodos de produção, informação tida em conta na análise da obra do arquiteto. O segundo, “Principais agências humanitárias internacionais”, apresenta um quadro das maiores agências de gestão da emergência que atuam no contexto de pós-catástrofe, descrevendo as suas missões e métodos de financiamento. A estratégia metodológica apoiou-se, inicialmente, no estudo e leitura de autores que se insurgem em prol da arquitetura temporária e do habitar temporário. Refira-se a importância da obra de autores como Eugenio Turri, Francesco Careri, Roberto Bologna, entre outros, como também os apontamentos das aulas de Pré-história e Proto-história do professor Alessandro Bonardi, úteis para a investigação de carácter histórico sobre as origens da arquitetura temporária. Paralelamente, o aprofundamento da investigação, contemplou a leitura das monografias e de textos relativamente à obra de Shigeru Ban e às suas intervenções de carácter temporário no campo da arquitetura humanitária. Para a análise do contexto de atuação do arquiteto, das diretrizes e das modalidades de resposta em situações de emergência pós-catástrofe, foram consultados e confrontados os manuais e os documentos das principais agências humanitárias disponíveis online. Finalmente, a análise dos casos de estudo baseia-se nas informações recolhidas de monografias, livros e informação disponibilizada pelo site Shigeru Ban Architects, a partir das quais foi possível formular um posicionamento crítico pessoal. 20 a temporalidade na obra de shigeru ban 1 3 2 21 o habitar temporário 1.0 O HABITAR TEMPORÁRIO “Quando os patos bravos passam, na época das migrações, provocam curiosas marés nos territórios que dominam. Os patos domésticos, como que atraídos pelo grande voo triangular, dão princípio a um salto canhestro. O apelo selvagem veio despertar neles não sei que vestígio selvático. E lá temos os patos da quinta transformados por instantes em aves migradoras.” 1 A arquitetura considerada como possibilidade de permanência dos produtos do homem e de resistência dos valores ao tempo é um fenómeno difuso em quase todas as culturas, mas no Ocidente torna-se uma necessidade exclusiva, considerando-se o único modo de habitar. Embora a casa, em geral, represente um bem essencial, muitas vezes as realidades culturais e antropológicas que caraterizam algumas situações locais privilegiam valores que vão além da necessidade de possuir uma habitação fixa, como no caso de muitos países emergentes e em via de desenvolvimento, ou dos povos nómadas, para os quais a casa representa um bem temporário, mutável e ligado aos ciclos sazonais ou à sucessão de calamidades que podem afetar periodicamente alguns territórios do mundo. Para estas culturas a casa pode ser também uma tenda, uma barraca ou uma cabana construída com materiais encontrados no local. O termo nomadismo é aplicado a realidades muito diferentes a nível histórico, geográfico, económico e cultural para além de que hoje em dia ganha novas formas, significados e consequências. Durante a evolução do estilo de vida do homem surgiram novas tipologias de deslocação e de movimentação que levaram povos normalmente sedentários a encontrar proteção em abrigos temporários. A nossa sociedade, na realidade, mesmo que não se possa definir como nómada, é constantemente influenciada por dinâmicas que induzem o homem a deslocar-se por razões de natureza social (guerras, fome, catástrofes naturais), pessoais, laborais, etc. Estas dinâmicas caracterizam as formas de viver e de usufruir do espaço, produzindo novas relações entre o homem e o seu 1 DE SAINT-EXUPÉRY, Antoine, Terre des hommes, Paris: Gallimard, 2007, p.23. "Quand passent les canards sauvages à l'époque des migrations, ils provoquent de curieuses marées sur les territoires qu'ils dominent. Les canards domestiques, comme attirés par le grand vol triangulaire, amorcent un bond inhabile. L'appel sauvage a réveillé en eux je ne sais quel vestige sauvage. Et voilà les canards de la ferme changés pour une minute en oiseaux migrateurs". 22 a temporalidade na obra de shigeru ban 4 5 6 23 o habitar temporário meio ambiente, e induzem à formulação diferente do conceito de “habitar”. Como afirma Roberto Bologna, “o habitar fragmenta-se, divide-se em pequenas partes no tempo e no espaço: os lugares e os momentos do habitar tornam-se estados de transição nos quais os horizontes espácio-temporais já não são estáticos mas dinâmicos.”2 A ideia do habitar temporário, o ato “de usufruir dum espaço para uma função ligada a uma necessidade circunscrita no tempo, acabada a qual o espaço realizado já não tem razão de existir ou deve ser reconvertido, transformado em outros usos”3, é um costume cada vez mais consolidado também na cultura ocidental e constitui uma resposta às frequentes exigências contingentes que a nossa sociedade enfrenta. O conceito de casa já não é reconduzível unicamente ao modelo tradicional, sinónimo de permanência, mas declina-se numa multiplicidade de tipologias de natureza temporária, nas quais o espaço habitacional assume características de provisoriedade que subvertem o antigo paradigma de estabilidade. As construções temporárias são estruturas arquitectónicas feitas para permanecer por um determinado intervalo de tempo, ou com capacidade de transformar-se no tempo através de poucas alterações estruturais. A palavra “temporalidade” assume então um duplo sentido. Por um lado a temporalidade de uso, também chamada transitoriedade, implica a persistência da construção e a rápida e contínua modificação das funções ou das pessoas que a usam. Esta temporalidade não se refere estritamente à vida do edifício, mas ao uso que as pessoas fazem dele: os espaços são facilmente adaptáveis às diferentes funções de ocupação continuada, mas não definitiva, onde se procuram características de conforto e segurança, tanto quanto num espaço ocupado permanentemente. Por outro lado, a temporalidade física implica um tempo limitado de vida do edifício, ou seja, a sua desmontagem e destruição no término da função para a qual foi construído. Ela refere-se às estruturas utilizadas por um período compreendido entre uma duração muito breve e um intervalo de tempo superior a alguns meses, e os habitantes, na maior parte dos casos, estão à espera de voltar à própria habitação ou de aceder a outras formas mais evoluídas e complexas de habitar. É o caso das residências para trabalhadores temporários, das habitações destinadas às classes sociais instáveis ou nómadas, dos edifícios destinados a substituir temporariamente a sede definitiva de habitações, das residências sazonais. É, sobretudo, o caso das habitações de emergência a seguir a uma catástrofe de carácter natural (furacões, terramotos, tsunamis, inundações) ou antrópico (guerras, revoluções, contaminações). A tipologia do alojamento de emergência constitui o exemplo que mais interessa à nossa investigação e será objeto de análise na segunda parte da dissertação. Vários são os fenómenos que contribuíram para modificar a percepção da função “tempo” na arquitetura, mas a conclusão geral que se lhes pode atribuir é a passagem duma dimensão estática, permanente, para uma dimensão dinâmica e transitória do construir. A arquitetura do “divenire”, do “tornar-se”, está a substituir a arquitetura do “essere”, do “ser”, e os conceitos de evolução e de 2 BOLOGNA, Roberto, Transitorietà e reversibilità negli interventi per l'emergenza abitativa, em Emergenza del progetto. Progetto dell'emergenza, Milano: Federico Motta, 2005, p.14. "l'abitare si frammenta, si atomizza, si parcellizza nel tempo e nello spazio: i luoghi e i momenti dell'abitare diventano stati di transizione in cui gli orizzonti spazio-temporali non sono più statici ma dinamici." 3 BOLOGNA, Roberto, Abitare la temporaneità, em "Costruire in laterizio" n.126, 2008, p.13. "di usufruire di uno spazio per una funzione legata a una necessità circoscritta nel tempo, cessata la quale lo spazio realizzato non ha più motivo di esistere o deve essere riconvertito, trasformato in altri usi." 24 a temporalidade na obra de shigeru ban “Desconfiem das habitações, não são sempre acolhedoras”. “Diffidate delle dimore, non sono sempre ospitali.” (E. Jabès, Le Livre des Questions, voll. 2, Gallimard, Paris 1988-89,p.171) “As habitações não são sempre acolhedoras, de facto. Mas isso significa que há então uma habitação acolhedora? Qual? Aquela de Caim que foge de Caim? Aquela marcada pela morte de Abel, da absoluta indigência do Nada? Aquela suspensa entre o Tudo e o Nada, entre os dois pólos da indigência humana e da indigência divina? Mas o que é enfim a hospitalidade? É acolher tudo e todos? Acolhedor é o deserto do nómada Abel? Acolhedora é a terra aberta a todos os encontros, a todos os costumes, a todas as tradições e línguas, a todas as escrituras? A habitação, não tendo limites que a definam, um passado e um presente que a caracterizem, é preferivelmente um ‘cruzamento de caminhos’? Um lugar que contém mil lugares: o não-lugar. Tu o habitas, logo é a tua pátria. “Le dimore non sono sempre ospitali, certo. Ma ciò significa che vi è allora, vi può essere una dimora ospitale? Quale? Quella di Caino che fugge Caino? Quella segnata dalla morte di Abele, dall’assoluta indigenza del Niente? Quella sospesa tra il Tutto e il Niente, tra i due poli dell’indigenza umana e dell’ingiustizia divina? Ma che è poi l’ospitalità? È l’accogliere tutto e tutti? Ospitale è il deserto del nomade Abele? Ospitale è la terra aperta a tutti gli incontri, a tutte le leggi, a tutti i costumi, a tutte le tradizioni e lingue, a tutte le scritture? La dimora che non avendo limiti che la definiscano, un passato e un presente che la caratterizzano, è piuttosto un ‘crocevia di cammini’? ‘Un luogo che contiene mille luoghi: il non-luogo. Tu l’abiti ed è la tua patria.” (E. Jabès, Le Livre des Questions, voll. 2, Gallimard, Paris 1988-89,p.191) 7 25 o habitar temporário capacidade de adaptação sobrepõem-se aos mais tradicionais de duração e manutenção. 4 Entre os fenómenos que maioritariamente condicionaram a relação entre espaço, tempo e arquitetura, há a globalização que, hoje em dia, já não afeta só as sociedades mais desenvolvidas, mas o mundo inteiro. Como afirma Roberto Bologna em Abitare la temporaneità 5, a globalização contrai os tempos e dilata os espaços dos eventos: tudo está sujeito a ritmos mais rápidos e a uma constante mudança e ao mesmo tempo, gera limites espaciais indefinidos e uma multiplicação de lugares indiferenciados, idênticos. Este processo causa uma considerável movimentação de povos e os seres humanos, sem raízes e sem recursos, reconstroem as próprias vidas em habitações temporárias. Os problemas relacionados com a concentração urbana, juntamente com o empobrecimento de algumas classes sociais e as migrações, determinam o recurso a construções precárias impostas pelas catástrofes sociais, na maior parte dos casos concebidas não por arquitetos mas por autoconstrutores. Estas construções, geralmente compostas por materiais de recuperação, muitas vezes são portáteis, dependendo dos contextos políticos e económicos, e a sua colocação pode variar consoante os espaços residuais disponíveis. Estamos longe do mito da cabana primitiva, mas os procedimentos construtivos normalmente inspiram-se nesta tipologia de construção. Os problemas ambientais e a procura de espaço num planeta onde os lugares edificados diminuem a cada dia induzem-nos a reconsiderar as qualidades das construções sem bases e portáteis. Desde o início da globalização a situação sedentária, tão arraigada no sentir do homem, entrou em crise. A nova condição de instabilidade social determina sempre novas exigências de mobilidade no território e pede aos projetistas uma nova atitude, capaz de fornecer soluções adequadas aos tipos de vida contemporâneos. Claramente não queremos afirmar que a arquitetura permanente já não tem razão de existir mas que hoje, mais do que no passado, há condições pelas quais o recurso a uma arquitetura temporária pode resultar apropriado, e que as duas formas podem conviver sem necessariamente se contrapor ou anular entre si. 1.1 AS ORIGENS: EXCURSUS ENTRE MITO, HISTÓRIA E TEORIA 1.1.1 Homem enquanto ser nómada, habitante de tendas A par de uma arquitetura predominantemente orientada para responder às necessidades de estabilidade e permanência, existe desde sempre uma outra, que oferece respostas às necessidades de transitoriedade e mudança. A construção de caráter temporário tem origens remotas e pode dizer-se que acompanha a evolução do género humano e do seu modo de viver e interagir com o meio envolvente. Tradicionalmente o nomadismo, o estilo de vida dos povos não sedentários, é um fenómeno resultante da procura, por parte do homem, de melhores condições de vida que encontra as suas origens no Mesolítico. Mas o homem não é nómada exclusivamente por escolha ou por necessidade, mas por natureza. As migrações são o fenómeno mais visível do “nomadismo essencial”6, inato na 4 BOLOGNA, Roberto, Abitare la temporaneità, em "Costruire in laterizio" n.126, 2008, p.13 5 BOLOGNA, Roberto, Abitare la temporaneità, em "Costruire in laterizio" n.126, 2008, p.13 6 GIOIA, Francesco, Mendicanti del Cielo - nel turismo, nei pellegrinaggi, nei santuari, em La società stanziale, paisa della storia: L’uomo nomade per natura, http://www.associazioneturismoreligioso.org 32 a temporalidade na obra de shigeru ban “Encontrar abrigo é viver sob a saliência de uma rocha. Encontrar abrigo acontece por caso: estão caminhando – de repente começa a chover – aceleram o passo, olham à volta, há uma rocha, sempre estive lá, deslizam para baixo dela para se protegerem da chuva... é um ato de adaptação: fazer um chapéu à natureza. Não afirma um ‘eu’ diante da natureza. Um caso mais avançado de encontrar abrigo é escavar um buraco, uma gruta. Este é um ato de desorientação: a natureza não é observada mas só substituída... Construir um abrigo, como o entendemos na cultura Ocidental é, pelo contrario, o ato de superar a natureza, de colocar algo acima da natureza. ‘Construir um abrigo’... não pode deixar de imitar a natureza; mas o que escolhe imitar é a parte da natureza que está mesmo à frente dos nossos olhos, a parte vertical da natureza, a natureza em movimento”. “Trovare riparo è vivere sotto uno sporgenza di una roccia. Trovare riparo avviene per caso: state camminando – all’improvviso si mette a piovere – affrettate il passo, vi guardate intorno, c’è una roccia, è sempre stata lì, vi scivolate sotto a riparo dalla pioggia ... è un atto di adattamento: fare un cappello alla natura. Non afferma un ‘io’ davanti alla natura. Un caso più avanzato di trovare riparo è scavare un cavo, una grotta. Questo è un atto di spaesamento: la natura non è vista ma solo sostituita ... Costruire un riparo, come lo intendiamo nella cultura Occidentale, è al contrario, l’atto di superare la natura, il mettere qualcosa sopra la natura. ‘Costruire un riparo’ ... non può fare a meno di imitare la natura; ma ciò che sceglie di imitare è la parte della natura che è proprio di fronte ai nostri occhi, la parte verticale della natura, la natura in movimento”. (ACCONCI, Vittorio, BARZEL, Amnon, KIPNIS, Jeffrey, RIAN, Jeffrey, Vito Acconci, Prato: Museo d’arte contemporanea Luigi Pecci, 1991, p 114-116) 14 33 o habitar temporário contínua, os animais começam a escassear, ou então porque as mutações climáticas determinam a sua migração, o homem é pressionado a mudar de local. Inicialmente vive em grupos compostos por poucas pessoas que, com o passar do tempo, se tornam mais numerosos. O homem do Paleolítico é um ser robusto que sobrevive adaptando-se ao ambiente. A escolha dum lugar é, em todo o caso, condicionada pela presença nas cercanias de cursos de água, pela proteção contra as inclemências do clima e sobretudo pela facilidade em encontrar caça. Escolhe sempre com propósito a própria morada, adaptando-a às necessidades, servindo-se de abrigos naturais, como abrigos sob a rocha e entradas de grutas e, ao ar livre, constrói cabanas, ocasionalmente reunidas em acampamentos. Algumas grutas revelam-se estruturalmente adequadas para as suas exigências, ainda que às vezes sejam necessários alguns ajustamentos e acrescentos. Muitas vezes, nos abrigos sob a rocha, o tecto naturalmente pouco saliente é tornado mais amplo com palificações e galhos. A evolução do homem implica o nascimento de novas exigências: a descoberta do fogo, nesse sentido, marca uma verdadeira e característica revolução. O homem percebe a necessidade de se resguardar melhor, mais ou menos estavelmente, em situações de maior segurança e conforto, e começa assim a construir abrigos artificiais. Sir Banister Fletcher, em A history of architecture on the comparative method (1896), escreve que a arquitetura “deve ter tido uma origem simples, no esforço elementar da raça humana de encontrar proteção contra o clima agressivo, as bestas selvagens e inimigos humanos”16. Para proteger o fogo entrança ramos e ervas, criando tapa-ventos: a mesma cobertura ou tapa-vento serve em caso de chuva, sobretudo nas zonas quentes e húmidas. É provável que os tapa-ventos fossem inclinados e se tocassem no topo, formando assim um tecto, uma estrutura semelhante a uma moderna tenda canadense. É claro que a gruta autêntica é bem mais confortável como habitação, mas estes abrigos precários têm as suas vantagens: formam um espaço fechado, delimitado, que protege contra o vento e a chuva, onde é possível comer, dormir, aquecer-se e trabalhar. É a “casa” do homem primitivo, um abrigo contra todas as hostilidades presentes na natureza. A recuperação dos restos da cabana de Terra Amata fornece-nos um dos mais antigos exemplos de abrigo artificial ao ar livre chegados até nós. Em 1965, na vizinhança de Nice, foi encontrada uma espécie de cabana de base oval, cujo eixo maior tinha alguns metros de extensão, que apresenta no centro uma lareira, inserida numa pequena cavidade. As condições favoráveis do lugar asseguraram que este sítio fosse frequentado por um grupo de homens que voltavam aqui periodicamente, reconstruindo cada ano um abrigo no mesmo local. Para se proteger construíram um pequeno muro de pedras sobrepostas à volta da lareira. O tecto em forma de abóbada era constituído por grandes ramos e troncos. Podia ser revestido de ervas e de algas que os caçadores recolhiam na praia, mas também por peles. Na Ucrânia e na região das estepes da ex URSS, onde o inverno força ao abrigo, os arqueólogos encontraram numerosas cabanas, muitas vezes com a planta circular de diâmetro até 5m. A estrutura cônica é muito simples: apresenta uma espécie de plinto em grandes pedras e ossos de mamute, aglomerados com argila, sobre os quais se ergue uma estrutura de troncos fixos à terra e ligados no topo ao centro da estrutura, de modo que constituam ao mesmo tempo as paredes e a cobertura da cabana. A este propósito, o paleontólogo francês Leroi-Gourhan afirma: “Aquelas estruturas 16 FLETCHER, Banister, Storia dell'architettura secondo il metodo comparativo, Milano: Martello, 1967, p.1."must have had a simple origin in the primitive efforts of mankind to provide protection against inclement weather, wild beasts and human enemies" 34 a temporalidade na obra de shigeru ban 15 16 17 35 o habitar temporário exigiam por vezes mais de uma centena de mamutes e deviam perdurar possivelmente por numerosas gerações. A sua fixação e o seu carácter altamente seguro tornavam-nas acomodações no verdadeiro próprio do termo”17. Devido às mudanças climáticas há cerca de 15.000 anos, quando o último período glaciar começa a regredir, o homem começa a povoar as regiões nórdicas, até à barreira dos glaciares, à procura de presas. As migrações dos animais (renas, cavalos selvagens, etc.) levam o caçador a conduzir um estilo de vida provisório e precário, e os abrigos que ele constrói refletem os seus hábitos. Devem ser facilmente transportáveis para se adaptarem às suas condições de constante movimento e podese dizer que nascem assim as primeiras tendas. Na verdade, remontam a este período os primeiros vestígios de acampamentos de facto de tendas, numerosos e estruturados. Estas tendas têm uma estrutura em madeira de forma cónica, cobertas por peles de rena e constituídas por partes desmontáveis separadamente. Para conservar melhor o calor, o homem constrói uma pequena tenda de base onde vive, coberta por uma outra maior para proteção; a espaço intermedio que se forma serve como isolante térmico, com o objetivo de manter a temperatura do interior constante e agradável. Para evitar que o vento a derrube, é fixada à terra por meio de pedras com cordas que partem do topo. Neste período de passagem entre o final do Paleolítico e o Mesolítico, a tenda representa a revolução na prática e na estrutura habitacionais, e até agora constitui a tipologia habitacional predileta de caçadores, nómadas e pastores. Com o início do Mesolítico (idade da pedra média), com a duração de cerca 3.500 anos, assiste-se a uma transformação económica, dado que a uma economia fundada essencialmente sobre a caça e a pesca se sobrepõe uma economia mista, na qual tem um papel prevalente a recolha de moluscos. O sistema de subsistência, em continuidade com o do Paleolítico, baseia-se numa economia de “predação” dos recursos ambientais e não na produção de alimentos, que vai afirmar-se só a partir do Neolítico, com a criação e a agricultura. Neste período as condições de subsistência mudam: o caçador já não percorre longas distâncias para perseguir as suas presas, mas posiciona-se em pontos estratégicos. Quando tem de parar, encontra no local tudo o que é necessário para construir uma cabana simples de ramos cobertos com ervas, musgos, folhagem e córtice e, no fim da noite, parte novamente, sabendo que conseguirá encontrar, ao pôr do sol, o material para uma nova construção. Pode-se dizer que o Mesolítico é o período das cabanas provisórias não transportáveis. Em Itália, as provas da mobilidade dos povos alpinos são os lugares de paragem: os acampamentos residenciais sazonais na proximidade de pequenos lagos; os abrigos sob saliências de rocha; os bivaques temporários nas zonas de alta quota posicionados nos sítios de onde é fácil controlar o território. Um exemplo emblemático de ocupação dinâmica do espaço por parte do homem neste período é aquele que se verifica nos Alpes. É provável que o homem as percorresse todas desde tempos bem mais remotos, mas as massas glaciares da última glaciação têm apagado os vestígios da sua presença. Depois do degelo dos últimos grandes glaciares há cerca de 15.000 anos, o homem conseguiu reapropriar-se das regiões alpinas onde agora chega graças à sua habilidade de caçador, seguindo a pista da sua presa preferida, o cabrito montês. Em Plan de Frea, na alta Val Gardena, o homem, desde há muito tem usado para se abrigar as paredes inclinadas de uma rocha grande, apoiando tendas e estruturas de líquenes e ramos secos entrançados. Durante as estações favoráveis isso servia 17 LEROI-GOURHAN, André, Demeure: espace construit dans lequel on vit, em "Corps écrit" La Demeure, n.9, Paris: PUF, 1984, p.65. "Ces structures exigeaient parfois plus d'une centaine de mammouths et devaient durer peut-être plusieurs générations. Leur fixité et leur caractère hautement sécurisant en font des demeures au sens propre du terme" 36 a temporalidade na obra de shigeru ban 18 19 37 o habitar temporário de ponto de partida para as caçadas nas áreas circundantes de grande altitude. Quando o homem começa a cultivar a terra, a criar o gado, a trocar produtos da caça e da terra e a viver agrupado em pequenas comunidades agrícolas sedentárias, começa o Neolítico (idade da pedra nova ou polida), com a duração de cerca de 5.000 anos. A introdução da agricultura e da criação muda profundamente as culturas precedentes. Os homens do Paleolítico e do Mesolítico vivem no ambiente natural, sem o modificar substancialmente: a economia deles é limitada à recolha, à caça e à pesca. Com a “Revolução neolítica” (G. Childe, 1958) estabelecem-se novas relações entre o homem e o ambiente: o homem torna-se produtor, ou seja, começa a modificar, com a sua intervenção, as relações naturais entre as espécies animais e vegetais, favorecendo a reprodução daqueles que possuem um interesse alimentar. À recolha e à caça junta-se assim a agricultura e a criação e isto comporta uma natural redução da mobilidade. A causa do desenvolvimento destas duas atividades poderá ser a pressão de povos que precisavam de novas fontes de alimentação. Para alguns estudiosos estamos perante um “processo”; para outros, a agricultura e a criação devem-se a uma evolução cultural, mais do que a uma resposta às necessidades. Não é fácil escolher, nem sequer reconstruir as fases. Pode-se pensar que, em vez de perseguir os bandos de animais que pastam e caçá-los, alguns homens consideram mais conveniente protegê-los contra outros predadores e controlar as suas migrações sazonais; outros homens dedicam mais atenção aos frutos e sementes das plantas silvestres e aprendem a desfrutar do seu ciclo reprodutivo; outros grupos neolíticos praticam a criação em forma semi-pastoral e também são agricultores; ainda outros praticam a criação e o nomadismo. Foi a agricultura a vincular maioritariamente ao território os povos e, em consequência, a determinar o surgimento das primeiras aldeias e das primeiras cidades: tem início aqui, neste período, o fenómeno do urbanismo. “A economia baseada na exploração dos recursos selvagens dá lugar progressivamente à economia de produção. A partir deste ponto, entra-se nas incidências do mundo atual.”18 À idade da pedra segue-se a idade urbana (de urbs = cidade), também denominada idade dos metais. Esta é caracterizada pelo largo uso de metais, através os quais os homens criam formas de existência sempre mais complexas até 3.000 A.C, quando, com a chegada da escrita, através da qual o homem regista os factos mais significativos da sua existência, os acontecimentos que assinalam as etapas mais importantes e os costumes típicos da sua civilidade, tem início a história. A sedentariedade como escolha consciente e a habilidade de criar condições de sustentamento são o resultado de processos de pensamento inéditos. A definição de um lugar onde a comunidade se pode estabelecer implica uma ruptura radical com o estilo de vida conduzido até então. Assegurados os alimentos e as matérias primas necessárias para a vida quotidiana dentro de um lugar limitado e definido, o homem pode optar pela sedentariedade e estabelecer-se, abandonando a condição de nómada que já não é necessária para a sobrevivência, numa perspetiva de vida mais confortável. Os conceitos espaciais alteram-se, porque agora a quantidade de espaço necessária ao homem agricultor para garantir o seu sustento é muito mais reduzida em relação a quando era caçador recolector, e assim o homem começa a concentrar-se num único lugar associado à área em volta da habitação. O estudo da relação entre a evolução do homem e as primeiras formas do habitar permitiu-nos constatar que a arquitetura temporária nasceu para dar resposta às necessidades de sobrevivência. 18 LEROI-GOURHAN, André, Demeure: espace construit dans lequel on vit, em "Corps écrit" n°9, La Demeure, Paris: PUF, 1984, p.67. "L'économie fondée sur l'exploitation des ressources sauvages fait place progressivement à l'économie de production. À partir de ce point, on entre dans les incidences du monde actuel." 38 a temporalidade na obra de shigeru ban 20 21 39 o habitar temporário Os abrigos dos quais o homem se serve no curso da Pré-história, refletem os hábitos dum individuo em constante movimento, que ainda não conhece a agricultura e, por consequência, o habitar sedentário como possível escolha de vida. As construções temporárias, nas suas diferentes declinações, têm origem na Pré-história e tornamse, no correr do tempo, um tema de estudo recorrente no qual os teóricos de arquitetura identificam não só o arquétipo das estruturas temporárias, mas a origem de todas as formas arquitetónicas. 1.1.3 A cabana primitiva O estudo da cabana primitiva como reconstrução das raízes do habitar do homem sobre a terra tem sido um dos argumentos relativamente aos quais os teóricos da arquitetura têm confrontado constantemente as próprias afirmações. A cabana descrita por Vitruvio em De architectura libri decem (séc. I a.C.) tem representado o ponto de partida para muitas destas teorias e é a base na qual têm origem muitos importantes conceitos estéticos. No primeiro capítulo do II livro do tratado, Vitruvio escreve “da vida dos antigos homens e dos princípios do viver humano”19. Ele explica como o nascimento da arquitetura teve origem na vontade do homem em se abrigar e proteger contra as forças da natureza: esta vontade tem sido satisfeita construindo abrigos que imitavam as formas naturais e que utilizavam elementos que esta providenciava, proporcionados mas naturalmente irregulares. O primeiro desenho à nossa disposição, inspirado na descrição vitruviana da cabana original, está presente no Trattato di architettura de Filarete e representa uma estrutura constituída por quatro troncos de árvore, com as extremidades em forma de forquilha, em cima dos quais se apoia o tecto. Em 1753 o abade Marc-Antoine Laugier publica anonimamente o Essai sur l’architecture, no qual afirma que a “cabane rustique”, a cabana primitiva, representa o arquétipo em madeira das construções humanas e das ordens arquitetónicas. Em analogia com a concepção de Rousseau de uma feliz condição original do homem, Laugier vê na cabana o estado quase natural, a semente de qualquer possível arquitetura. As necessidades de abrigo do homem contra as intempéries naturais têm sido resolvidas montando quatro postes verticais e dispondo em cima quatro troncos horizontais, ligados entre si, em cima dos quais são presos outros postes inclinados a formar o tecto. Desde esta primitiva forma de edificação, hipotético antecedente do templo grego, nascem as ordens, através da lenta mutação dos postes verticais em colunas, dos horizontais em entablamento e dos inclinados em frontão. A ideia da cabana primitiva, entendida no sentido puramente histórico, assenta com frequência na teoria da origem da arquitetura a partir de Vitruvio, mas com Laugier a cabana torna-se um modelo ideal, “o modelo a partir do qual imaginaram-se todas as magnificências da Arquitetura”20. Na segunda edição do Essai, publicada no 1755, o frontispício apresenta uma incisão de Charles Eisen, l’Allegoria dell’Architettura, na qual aparece a musa Arquitetura reclinada em cima do um monte de ruínas históricas, que indica a Eros uma cabana erigida na margem da floresta. Esta é constituída por quatro troncos angulares que sustentam uma cobertura a meia-água feita com ramos entrançados. Tal desenho ilustra a teoria que a arquitetura se constrói a partir da observação dos elementos 19 VITRUVIO, Dell'architettura di Marco Vitruvio Pollione Libri Dieci trad. Amati Carlo, Vol. II, Charleston: Nabu Press, 2010. "della vita degli antichi uomini e dei principi del vivere umano". 20 LAUGIER, Marc Antoine, Saggio sull’architettura, Palermo: Aesthetica 1987. "Il modello secondo il quale si sono immaginate tutte le magnificenze dell’architettura". 40 a temporalidade na obra de shigeru ban 22 23 24 41 o habitar temporário naturais e que, para ser racional, deve oferecer-se como imitação, assumindo a natureza como modelo. Relativamente a isso escreve Franco Purini em Il frontespizio del Saggio sull’architettura di Marc Antoine Laugier “a cabana é assumida numa fase intermedia, na qual a sua distinção dos elementos naturais não é ainda definitiva e portanto o seu carácter artificial e projetual não é completamente expresso”.21 É exatamente à passagem, ainda não realizada em Laugier, entre os elementos naturais e os arquitetónicos, através de uma abstração destes naquela construção quase natural por imitação e a possibilitar o efetivo nascimento do artifício humano, que nós chamamos arquitetura. Vittorio Ugo, no seu texto dedicado a Laugier, considera a cabana a ἀρχή (origem) arquitetónica, que é “não um arquétipo mas o arquétipo por excelência”. 22 Αρχή como origem mas também como princípio, que não pertence a um tempo definido, mas que “risponde ad un’antica quanto attuale esigenza dell’uomo: quella di definire formalmente un spazio per il suo ‘abitare’”.23 Contemporâneos a Laugier, Denis Diderot e Jean Le Rond D’Alembert explicam, sobre o termo “Arquitetura” da Encyclopédie24, como esta nasce da primitiva necessidade do homem se proteger contra as intempéries, assumindo na arquitetura grega, no sistema tríptico, os mais altos valores construtivos e tectónicos. O conceito de cabana primitiva recebe enorme atenção em toda Europa e ao longo de décadas sucessivas contam-se numerosas versões e reconstruções ideais. De facto, também no século XX existem exemplos de interpretações de cabane rustique, um dos quais é sem dúvida a Capela no bosque realizada em 1918 por Erik Gunnar Asplund, no cemitério sul de Estocolmo. Todavia, as reflexões mais originais sobre o tema são ainda de século XIX e encontram-se em O Estilo nas artes técnicas e tectônicas, ou estética prática: um manual para técnicos, artistas e amigos de arte, publicado no ano 1860 de Gottfried Semper, onde ele analisa o problema da origem da arquitetura. De acordo com Semper, a primeira necessidade de abrigo é satisfeita graças à tecelagem. Os tapetes dispostos na vertical para delimitar o espaço, assim como o entrançado dos ramos para formar recintos, assinalam um estágio da evolução no sentido do conceito de muro. Na lógica evolucionista de Semper, cada fase histórica reelabora e atualiza modelos daquele precedente. Conforme a tal perspetiva histórica, ele destaca como modelo arquetípico uma cabana caribenha exposta na Great London Exhibition de 1851. Trata-se de uma explícita referência à cabana de Laugier, embora considerada sem fundamento histórico. Ao contrário de Laugier, Semper considera que é o muro, não uma estrutura de tronco, a originar o templo grego, através a evolução do conceito de cela. O conceito de cabana como arquétipo, modelo originário ideal e primitivo das coisas, como foi explicado de forma sintética neste sub-capítulo, é retomado em 1894 por August Schmarsow, que interpreta a cabana primitiva, o abrigo primordial, como uma verdadeira matriz espacial, definindo-a como Raumgestalterin, criadora do espaço. A necessidade de um retorno às origens, às formas puras, clássicas e elementares, é recuperada 21 PURINI, Franco, Il frontespizio del Saggio sull'architettura di Marc Antoine Laugier: La Cabane rustique come memoria dell'architettura moderna, em "Figure", n.8, 1984, p.23. "la capanna è colta in una fase intermedia nella quale la sua distinzione dagli elementi naturali non è ancora definitiva e quindi il suo carattere artificiale e progettuale non risulta compiutamente espresso.". 22 UGO, Vittorio, Spazio testuale e costruzione, in AA. VV., Laugier e la dimensione teorica dell'architettura, Bari: Dedalo, 1990, p.77-93. "non un archetipo ma l'archetipo per eccellenza". 23 VISCONTI, Federica, Postfazione. Il riparo, attualità di una riflessione, in CAPOZZI, Renato, L'idea di riparo, Napoli: CLEAN Edizioni, 2012 24 DIDEROT, Denis., LE ROND D'ALEMBERT, Jean, Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers (1751), Paris: Editions Flammarion, 1993 48 a temporalidade na obra de shigeru ban 33 34 35 49 o habitar temporário 1.2.2 A reversibilidade do processo construtivo segundo Roberto Bologna29 Por reversibilidade do processo construtivo entende-se a possibilidade de ativar um processo inverso de desconstrução duma estrutura, uma vez terminada a sua função, eventualmente reempregando os recursos materiais pelos quais é constituída. Através deste ato, o solo, espaço momentaneamente ocupado, e os materiais utilizados, são “libertados” e reintegrados no ambiente de onde tinham sido retirados, ou reintroduzidos num outro ciclo produtivo. Por consequência, estes tornam-se recursos, pelo que o seu uso se estende para além do término da função do objeto. A reversibilidade refere-se a processos cíclicos, nos quais tanto o sistema quanto o ambiente circundante voltam ao estado de equilíbrio preexistente, sem deixar marcas definitivas no território. Ao projetar uma estrutura temporária reversível, o principal foco deve ser o processo, mais que o produto, ou seja, a configuração do sistema pelo qual desde logo se prevê um procedimento de montagem e desmontagem. Para ser reversível, uma construção temporária apresenta-se como um sistema desintegrável, através da desmontagem das suas partes constituintes, mas também através da sua dissolução. A desintegração deve ser planeada logo desde as primeiras fases do projeto, prevendo o destino dos elementos derivados do processo de desconstrução. Fala-se de desintegração, desconstrução e não demolição, porque não se contempla nenhuma ação destrutiva, mas, pelo contrário, trata-se de um processo a partir do qual se obtêm bens – mais do que lixo e resíduos – que conservam o mais possível intactas as potencialidades de utilização, para uma reemissão dum outro ciclo produtivo ou uma reintegração no meio ambiente. A desintegrabilidade do sistema construtivo é realizável em três modalidades diferentes: tecnológica, física, e orgânica/biológica. Por desintegrabilidade tecnológica entende-se a possibilidade de desconstruir o sistema de forma simples, desagregando, desconectando ou desmontando os elementos que o constituem. Por desintegrabilidade física entende-se aqueles sistemas produzidos com materiais que, dependentemente do estado físico, podem determinar a dissolução da construção: um claro exemplo deste tipo é a construção em terra, onde a matéria prima é trabalhada, misturada e compactada para formar os elementos construtivos e, se esmigalhada, pode ser levada outra vez ao estado físico original. Outros exemplos representativos são as construções em pedra murada a seco ou em gelo, como os iglus, ou os ice hotel (Hotel de Glace em Quebec, Icehotel de Jukkasjärvi em Suécia, etc.), reconstruídos anualmente por arquitetos sempre diferentes, para funcionar nas estações mais frias. Finalmente, a desintegrabilidade orgânica/biológica é praticável num sistema realizado com materiais organicamente ou biologicamente degradáveis ou decomponíveis, como o amido de milho, aplicado nas construções como isolante. A modalidade mais difundida e aplicada é a primeira, que se refere aos modos de conexão e separação dos elementos que constituem um sistema construtivo, realizado através das técnicas de montagem a seco, ou seja, juntando os elementos de forma não definitiva, por simples acostamento, não por coesão. Como tal, é adaptável a diferentes circunstâncias, porque a natureza tecnológica do sistema, estratificada e sem o uso de juntos molhados, consente uma rápida e económica substituição das partes, prolongando a vida própria da construção. O conceito de desconstrução, bem diferente do de demolição, não pertence à cultura arquitetónica mediterrânea, prevalentemente por causa das formas construtivas que trabalham por estratificação de componentes, com sistemas de junção “molhada” e definitiva, mas representa um tema fundamental na projetação dos sistemas habitacionais temporários para a emergência. 29 BOLOGNA, Roberto em Emergenza del progetto, progetto dell’emergenza. Architetture con-temporaneità, Milano: Federico Motta, 2005, p. 14-18; em Abitare la temporaneità, em “Costruire in laterizio” n.126, 2008, p.13-16 50 a temporalidade na obra de shigeru ban “As casas durarão menos que nós. Cada geração deverá fabricar a sua cidade.” “Le case dureranno meno di noi. Ogni generazione dovrà fabbricarsi la sua città.” (SANT’ELIA, Antonio, Manifesto dell’Architettura Futurista, 1914) “Os homens do futuro desprezarão habitar em casas arraigadas ao solo... As novas casas serão livre de se mudarem em todas as direções, correndo sobre os gigantescos trilhos que sulcarão o solo das cidades futuras...” “Gli uomini del futuro disdegneranno di abitare in case radicate al suolo... Le nuove case saranno libere di spostarsi in tutte le direzioni, scorrendo sulle gigantesche rotaie che solcheranno il suolo delle città future...”. (FANI, Vincenzo “Volt”, Manifesto dell’Architettura Futurista, 1919) 36 37 51 o habitar temporário Existem graus diferentes de reversibilidade do sistema construtivo, com base nas potencialidades prestacionais conservadas dos elementos derivados da sua desconstrução, no que respeita às condições de utilização originária ou a novos usos. Quanto mais elevado é o grau de reversibilidade, tanto mais os elementos são reutilizáveis ou os materiais podem voltar ao meio ambiente donde foram retirados nas condições originárias. A previsão do destino dos resíduos obtidos da desconstrução está relacionada com os requisitos de reciclagem e reutilização. Embora no sentido comum esses conceitos muitas vezes sejam utilizados como sinónimos, é importante sublinhar que na realidade os dois termos têm significados distintos. Com reciclagem entende-se a reintrodução de tipologias particulares de resíduos no ciclo produtivo que gerou, enquanto que o conceito de reutilização implica a utilização repetida e renovada dos materiais ou dos produtos, sem exigir processos que alteram de forma significativa as suas características. Noutros termos, a linha de demarcação entre reciclagem e reutilização consiste essencialmente na natureza do tratamento sofrido pelo material a recuperar. Estes conceitos configuram-se como alguns dos instrumentos necessários para o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável. São necessários afim de garantir um nível adequado de salvaguarda ambiental, tanto através do menor emprego de matérias primas da produção industrial e de matérias de lixo enviados para eliminação final, quanto através da redução de emissões poluentes. Infelizmente, existem ainda poucos exemplos de arquitetura temporária reversível, e menos ainda de uma arquitetura caracterizada por um processo de desconstrução que prevê a reciclagem e a reutilização dos seus elementos. As numerosas propostas que se configuraram nos últimos anos para responder às necessidades do habitar temporário, particularmente no caso de emergência, partem da conceção do módulo habitacional como “machine à habiter”, estruturado como produto industrial acabado, objeto a comprar, “pronto para uso”. Sem querer por em dúvida a validade destas propostas, consideramos que este tipo de postura, que caracteriza uma infinidade de soluções todas ligadas a um único conceito de processo construtivo, é limitado e não deixa espaço para outras formas de conceber a habitação temporária.Uma alternativa a esta lógica é representada pela arquitetura de papel de Shigeru Ban, que concentrando-se no processo mais que no produto final, recorre às potencialidades do sistema produtivo industrial baseando as suas pesquisas e as suas experiências num material e numa tecnologia construtiva que aderem perfeitamente à lógica da reversibilidade do processo construtivo. As suas experimentações dão continuidade histórica a um pensamento cultural que se concretizou na primeira metade de século XX, graças â introdução da pré-fabricação e da produção em série no sector da construção. Para poder perceber o pensamento que está na base dos projetos de Shigeru Ban, parece-nos portanto útil lançar um olhar sobre alguns dos projetos desenvolvidos durante o século XX em resposta ao problema da emergência habitacional e baseados em requisitos como a estandardização dos elementos, a rapidez de execução da construção, a portabilidade e a desmontagem. 1.3 EMERGÊNCIA HABITACIONAL. PROJETOS PARA POVOS EM MOVIMENTO No século XX muitos arquitetos, graças às possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias, e partindo da reconsideração dos fenómenos urbanos, sociais e ambientais, têm tentado formular novas 52 a temporalidade na obra de shigeru ban 38 39 40 53 o habitar temporário respostas para o habitar temporário, desenvolvendo vários protótipos de habitação de emergência. As teorias e tendências projetistas consideradas vêem nas tecnologias da produção industrial a condição de partida imprescindível para responder às questões postas, movendo-se em duas diretrizes: a estrada da pré-fabricação (unidades pré-montadas) e a da produção industrial em série (unidades montadas no local). O aparecimento da pré-fabricação trouxe numerosas mudanças no campo da arquitetura, revolucionando o processo de construção. Trata-se de uma tecnologia que opera a desmontagem do edifício nas suas partes componentes e a produção destas separadamente na fábrica, transformando o canteiro de obra numa oficina de montagem. A maior rapidez de execução da construção, o menor desperdício de materiais e a redução de mão-de-obra são só algumas das vantagens da pré-fabricação, que permitiram que esta tecnologia se desenvolvesse grandemente a partir do início do século XX, em situações de emergência habitacional. Um exemplo desenvolvido nesta época é a cabana Nissen, uma construção em aço de forma cilíndrica, revestida de chapa ondulada, projetada pelo engenheiro canadiano Peter Norman Nissen para o exército britânico. Usada para numerosas funções (alojamento, armazém, igreja, etc.), tinha que possuir dois requisitos: economicidade no uso dos materiais e portabilidade. A cabana Nissen podia ser embalada e transportada num comum veículo militar, e ser erigida por seis homens em quatro horas. Nos anos seguintes foram desenvolvidas muitas estruturas similares, como por exemplo a cabana Romney na Inglaterra e a cabana Quonset nos Estados Unidos. A qualidade multifuncional das chapas, produzidas em grande quantidade pela indústria para serem soldadas e aparafusadas, e assim constituir pilastras, vigas, sheds, mas também painéis, janelas e escadas, torna este material de fácil uso no âmbito da realização de estruturas a baixo custo. Nos anos vinte, em França, Le Corbusier profetizou a difusão da machine à habiter, e projetou a Maison Voisin, protótipo de uma nova tipologia de unidade habitacional, fruto da integração do conceito de acomodação mínima e de automóvel. As pesquisas e as experimentações que se seguem nos anos ‘30 e ‘40, baseadas nos princípios de transitoriedade, mobilidade, flexibilidade, desmontagem e interação com o território e a envolvente, são comissionadas sobretudo pelas forças armadas ou por entidades da proteção civil interessados nas estruturas de uso temporário, por causa de calamidades naturais ou situações de emergência, como na Segunda Guerra Mundial. O conflito deixa, entre outras consequências, uma grave falta de alojamentos devido à inatividade construtiva do período da guerra, ao repatriar dos veteranos e ao aumento dos casamentos e da natalidade. A situação de crise serve assim como motor de desenvolvimento de numerosas propostas relacionadas com o problema da habitação. 1.3.1 Jean Prouvé e o princípio de provisoriedade Um significativo exemplo da participação dos projetistas neste campo é, sem dúvida, a obra de Jean Prouvé. Em França, no imediato pós-guerra, para responder às exigências bélicas e sociais de habitat temporário, Jean Prouvé leva aos limites tecnológicos o uso da chapa de aço, concentrando-se nos sistemas de pré-fabricação leve. Prouvé aconselha o princípio de provisoriedade, sustentando que as realizações com técnicas pesadas, na perspetiva de longo prazo, representariam uma hipoteca demasiado onerosa para as gerações futuras, antecipando assim o conceito de sustentabilidade. O intento dele é criar estruturas com um ciclo de vida limitado, com componentes produzidas industrialmente em materiais leves e técnicas de assemblagem sofisticadas para assim garantir a rapidez construtiva e a desmontagem. A arquitetura de Prouvé baseia-se na estandardização dos 54 a temporalidade na obra de shigeru ban 41 42 43 55 o habitar temporário elementos, na redução do número de componentes e na portabilidade. O arquiteto segue todas as fases de realização do projeto, desde o desenho das peças para a estrutura até o mobiliário. Logo em 1937, Prouvé projeta com Eugène Beaudoin e Marcel Lods o Prototype de la Maison de week-end BLPS, um modelo de habitação para férias portátil e desmontável, realizado em painéis multiestratos de chapas de aço dobrada à pressão, que incluem isolamento. Com um esquema tipologicamente simples, em cubo, esta unidade condensa em 10m2 todas as funções necessárias através de um conjunto de elementos móveis – mobiliário e divisões – e multifuncionais. Construída através de um sistema de montagem de encaixe, era instalável em qualquer sitio e comercializada com o slogan “se libérer de la dépendance de l’hotel”.30 O uso da chapa de aço permite a Prouvé dar resposta aos critérios de eficiência e solidez, e obter estruturas extremamente leves e manuseáveis, até pelo usuário comum. Todas as componentes são produzidas em oficina, resultando num kit portátil. O protótipo desapareceu e tudo o que resta são alguns esquiços e uma descrição (ver página seguinte). Prouvé recorre às componentes pré-fabricadas de fácil montagem, em chapa de aço e madeira, na projetação de diversas obras. Durante a guerra, realiza unidades de casernas desmontáveis para o Corpo de Engenharia (1939) e um estudo para escolas de emergência para as vítimas do primeiro período da guerra (1939/40), projetado em colaboração com Le Corbusier e Pierre Jeanneret. “Após a guerra, o Ministro Raoul Dautry me encomendou mil e duzentas casas ... de seis metros por seis, para os desabrigados”31. Assim, em 1944 propõe, para os sinistrados da Lorena, a Maison Démontable 6x6, caracterizada por uma estrutura em metal e madeira que, graças ao rigoroso processo de assemblagem, era passível de ser montada no lugar da destruição, apenas num dia e por duas pessoas. Desta forma, permitia às populações privadas de tudo ficar alojadas na proximidade das suas aldeias. O módulo habitacional é construído com uma estrutura em chapa de aço dobrada. A cobertura metálica assenta em suportes de chapa dobrada e é completada com um teto falso. O chão em madeira, sobrelevado em relação ao solo, é suportado por um quadro metálico e os elementos de fechadura verticais são constituídos por painéis em madeira com alma de alumínio, ou inteiramente metálicos. A habitação, agora restaurada, está ainda hoje em uso como pavilhão, acolhendo exposições itinerantes. Graças à sua estrutura concebida para ser reutilizada e adaptada a diferentes situações considera-se sempre atual, mesmo passados setenta anos. Durante o período critico da Reconstrução, o ministério francês comissiona também a Prouvé a projetação de uma série de habitações conhecidas como Maisons de Meudon. Estas casas foram concebidas de forma muito simples associando o aço, o alumínio e a madeira de forma a poderem ser montadas num dia e pousadas no chão. “As casas haviam sido concebidas para serem construídas com elementos fáceis de montar sem andaimes. As peças mais pesadas exigiam apenas dois homens para o transporte, nada mais. A ideia era fazer casas efêmeras, para uma geração. Nunca me passou pela cabeça que depois de quarenta anos elas ainda seriam habitadas. Eram destinadas a alojar pessoas muito humildes, casas que não custavam caro.” 32 Com as mesmas características tecnológicas, em 1949-50 Prouvé projeta alguns protótipos para a Maison Tropique, um pré-fabricado económico pensado para satisfazer a falta de alojamentos e de edifícios públicos nas colónias africanas francesas. Composto por materiais leves, aço dobrado e alumínio, os componentes eram facilmente produzidos e montáveis e podiam ser transportados 30 DE NARDI, Diego, Jean Prouvé, idee costruttive, Torino: Universale di architettura 2000, p. 57 31 PROUVÉ, Jean, Conversas com Jean Prouvé, Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p. 45 32 PROUVÉ, Jean, Conversas com Jean Prouvé, Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p. 47 56 a temporalidade na obra de shigeru ban “Minhas casas são muito simples, porque acredito que só se pode fazer a industrialização com um mínimo de peças. Se houver peças demais, não funciona. Parafusos, cavilhas e pinos são acessórios a proscrever. Quando há cinco mil pinos numa casa, é preciso serrar cinco mil pinos.” (PROUVÉ, Jean, Conversas com Jean Prouvé, Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p.46) 44 45 57 o habitar temporário “Muito frequentemente, as críticas às minhas ideias sobre indústria eram dirigidas à uniformidade: nós chegaríamos a uma arquitetura padronizada em toda a França, diziam. Minha resposta era imediata: ‘Vocês estão completamente enganados. Nada é mais dinâmico e mutável do que a indústria. Olhem um avião de 1900 e um avião de hoje, não é o mesmo, ainda assim ambos são industrializados.’ Portanto eu sempre refutei inteiramente a objeção à uniformidade.” (PROUVÉ, Jean, Conversas com Jean Prouvé, Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p.40) “Eu sempre digo, eu sempre falo de construtor. Isso abrange também a ideia de alguém que tem uma espécie de iluminação instantânea que lhe revela a totalidade do que deve fazer: ele não vê a arquitetura pela forma, ele vê a arquitetura pela madeira mais ou menos complexa de edificar, o que terá como consequência tal ou tal forma.” (PROUVÉ, Jean, Conversas com Jean Prouvé, Barcelona: Gustavo Gili, 2005, p.94-95) 46 47 64 a temporalidade na obra de shigeru ban 56 57 65 o habitar temporário a seco, o ciclo de produção fechado, e finalmente, a falta de resíduos de processamento e a reciclabilidade dos materiais. Estes requisitos tornam-se a base das suas sucessivas propostas: a Minimum Dymaxion Home, a Dymaxion Deployment Unit e a Wichita House. A ideia base da Minimum Dymaxion Home é a de uma casa que é contida numa caixa que permite a sua montagem e construção em qualquer sitio, independentemente da presença ou não de redes urbanas. É importante referir que Fuller fez o serviço militar na marinha norte-americana durante a Primeira Guerra Mundial e que esta fase da sua vida a bordo influenciou fortemente a sua forma de pensar e projetar a habitação. Assim, tal como uma abordagem típica da projetação naval, a estrutura da habitação é constituída por um sistema de duas pontas suspensas num mastro através de cabos de aço. O rés do chão é destinado à garagem e a cobertura funciona como terraço sendo protegida por uma estrutura em alumínio. O andar intermédio, destinado à habitação, é fechado verticalmente por vidros triangulares. As escadas e as redes de instalações estão contidas no núcleo central e a planta, em forma hexagonal inscrita num círculo com 12 cm de diâmetro, tem uma superfície de 96m2 por andar. O edifício é autónomo no que respeita às redes de energia e tecnológicas e pode ser ancorado ao solo sem quaisquer vínculos, tal como uma embarcação. A Minimum Home, como a 4D Lightfull Tower Mobile Housing, não chegou a ser produzida, sobretudo pela falta de dinheiro e porque os materiais necessários não estavam disponíveis a preços adequados. Dessa forma, as patentes nunca foram libertadas. A pesquisa de Fuller relativamente à casa produzida industrialmente prossegue com a patente da Dymaxion Deployment Unit (DDU), comissionada em 1940 pela inglesa War Relief Organizatio, destinada a acomodar tropas britânicas durante a guerra contra a Alemanha. Para este projeto, Fuller baseia-se nos silos de cereais em aço galvanizado, produzidos pela fabrica Butler Manufactoring Company e usados na América rural, fazendo com que o silo se transforme em casa habitável. As DDU são montadas completamente a seco e a assemblagem acontece partindo de um único elemento de suporte vertical, posicionado no centro da estrutura. O mastro de suporte é uma treliça metálica usada apenas durante a fase de montagem e posteriormente removida por completo, permitindo ganhar uma maior liberdade distributiva em planta. A cobertura é montada no solo com um tratamento translúcido de maneira a permitir luz natural no interior da habitação e é constituída por uma dupla membrana de tecido impermeabilizante e de um estrado intermédio de fibra de vidro que torna mais eficaz o isolamento térmico e a absorção acústica. O exército norte-americano encomendou numerosas destas unidades habitacionais em chapa de aço para adaptar a barraca de radar e abrigos de emergência, mas em 1941, logo após o inicio da Segunda Guerra Mundial, o metal foi racionado como importante matéria prima usada pela industria bélica e só em 1944 foi possível produzir um limitado número de Dymaxion Deployment Units. Para enfrentar a falta de alojamento para os oficiais do exército dos Estados Unidos, Fuller projeta a Dymaxion Dwelling Machine, também chamada Wichita House. O projeto envolve a empresa produtora de aviões Beech Aircraft com fábrica em Wichita, Kansas, que decide usar a própria ferramenta de vanguarda e a equipe de engenheiros aeronáuticos para a produzir. Entre 1944 e 1946 são produzidos dois protótipos. A Dymaxion Dwelling Machine, concebida como habitação unifamiliar mas utilizável também como dormitório e enfermaria, apoiada num único pilar de suporte, apresenta um furo de areação orientável dotado dum timão no teto e é projetada por resistir às catástrofes naturais. Ao longo do pilar central correm os cabos e as condutas das instalações para a cozinha e as duas casas de banho (Dymaxion Bath) que, produzidos segundo um método desenvolvido e patenteado por Fuller em 1936, garantem uma notável poupança de água. 66 a temporalidade na obra de shigeru ban 58 59 60 67 o habitar temporário A estrutura da casa é sobrelevada do solo de acordo com a concepção de Fuller, segundo a qual é inútil “rasgar” o terreno com os edifícios, e é projetada para ser entregue em dois contendores cilíndricos, enquanto que o mobiliário pode ser adquirido nos revendedores locais. Fuller calcula poder enviar as três mil peças que a constituem num único contendor cilíndrico de aço, de dimensões compatíveis com os standards do transporte aéreo, sendo os tempos de montagem correspondentes a dois dias de trabalho duma dezena de pessoas. O protótipo é realizado inteiramente em alumínio devido à grande disponibilidade nos Estados Unidos no imediato pós-guerra deste material, em desuso e pronto para ser reciclado. Desta forma se introduz o princípio de utilização dos materiais à disposição, com a consequente redução de resíduos e do consumo dos recursos. Na Wichita House são condensados todos os temas que Fuller desenvolveu durante a sua carreira, a partir da 4D Tower, mas nunca passa de uma utopia e de todos os seus projetos o único a chegar à produção é o Dymaxion Deployment Unit. Apesar dos vários insucessos, a pesquisa Dymaxion trouxe os seus frutos: a arquitetura hi-tech, os estudos sobre a casa portátil, sobre a casa de emergência e sobre a habitabilidade temporária baseiam-se de forma consistente nas inovações destes protótipos. Fuller distingue-se também, no âmbito da arquitetura leve e pré-fabricada, pela projetação das Paperboard Domes, abobadas geodésicas em papelão facilmente instaláveis como abrigo de homens e meios, pensadas de propósito para utilizadores nómadas e amplamente empregues pelos marines como abrigos militares. Estas estruturas, constituídas por uma rede de vigas em papelão, são extremamente estáveis e leves e representam um ambiente muito eficiente, se utilizado como habitação, porque a forma semiesférica permite ao ar e à energia térmica circular sem encontrar obstáculos. Depois da patente pelas Paperboard domes, Fuller expõe durante a Trienal de Milão do 1954, sobre o tema “Vita tra artefatto e natura: progettazione e sfida ambientale”, uma abóbada geodésica em papelão de 11m de diâmetro, com um peso total de 600 kg, pensada para constituir uma habitação unifamiliar de cerca 92m2. O abrigo de papelão podia facilmente ser transportado e montado com as indicações escritas diretamente no papelão. Todavia, a fraca resistência do material à água limitou o sucesso destas estruturas e em seguida o papelão foi substituído pelo alumínio. Os princípios das abóbadas geodésicas de Fuller inspiraram a construção da aldeia Drop City, fundada no Colorado nos anos sessenta por uma comunidade de hippies, da qual fazem parte Gene Bernofsky, Joann Bernofsky, Richard Kallweit e Clark Richert. As estruturas retomam a clássica forma das Paperboard Domes, que pela primeira vez são utilizadas para um fim habitacional (até àquele momento tinham acomodado só exposições ou eram utilizadas para funções industriais e institucionais). As habitações constituem uma interpretação das ideias de Fuller e são inteiramente realizadas com materiais reciclados, entre os quais painéis de aço obtidos dos tetos das automóveis e permaneceram até aos anos setenta. Além disso, as Paperboard Domes de Fuller antecipam por datação, sugestão e inventividade os projetos do arquiteto Shigeru Ban. 1.3.4 A superação da lógica da machine à habiter e as novas tendências A partir da segunda metade dos anos sessenta manifesta-se, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, uma considerável afirmação de ideias, projetos e protótipos experimentais elaborados por arquitetos que estão sempre mais interessados numa arquitetura liberta dos cânones clássicos de solidez e permanência. Esta nova tendência não é justificada só por uma razão de tipo funcional, ou seja a tentativa de dar resposta aos problemas da emergência habitacional, mas também por uma 68 a temporalidade na obra de shigeru ban 61 62 63 69 o habitar temporário revolução ideológica que envolve a sociedade ocidental no início dos anos sessenta. A exigência dum novo estilo de vida, longe dos tradicionais cânones e perto da tradição nómada norte-americana, torna-se cada vez mais forte e esta necessidade de profunda inovação, liberdade e mobilidade acaba por invadir o campo da arquitetura, influenciando as produções dos arquitetos que se fazem intérpretes das novas tendências. As obras deste período, como por exemplo as produções utópicas do grupo Archigram, apresentam um caráter fortemente inovador e baseiam-se nos princípios de flexibilidade, mobilidade e desmontagem. A crise energética que atinge a maior parte dos países industrializados nos anos setenta, sobretudo relacionada com o petróleo e o ambiente, desmente a concepção de crescimento tecnológico ilimitado e a baixo custo e causa um consistente redimensionamento das pesquisas sobre a habitação precária e sobre as estruturas temporárias em geral. Abandonadas as hipóteses utópicas, a pesquisa tecnológica concentram-se em respostas concretas às exigências das pessoas, em particular nos sectores onde a temporalidade não é tanto uma escolha perante uma necessidade, mas antes a emergência habitacional. Remontam a este período projetos como a Flexible house di Masayuki Kurokawa, a Cellula spaziale espandibile de Alberto Roselli e a unidade habitacional de Marco Zanuso e Richard Sapper. A proposta de Alberto Rosselli permite diferentes modalidades de organização espacial, graças à introdução de um dispositivo de tecido plástico que, abrindo-se, permite a saída telescópica de duas cápsulas contendo os serviços – cozinha e casa da banho – , possibilitando a expanção do volume. A unidade habitacional de emergência de Marco Zanuso e Richard Sapper foi projetada para sair da fabrica totalmente equipada sob forma de contentores. No seu interior, duas cápsulas menores, destinadas a acolher a casa da banho e a cozinha, movem-se sobre duas guias metálicas desde o interior até ao exterior. A relação com o solo é resolvida através de apoios pontuais reguláveis e, graças à absoluta ausência de fundações, apresentando uma grande libertade de instalação. O protótipo, dimensionado para duas pessoas, foi apresentado conjuntamente com o projeto de Rosselli na exposição de 1972 “Italy: The New Domestic Landscape”, curada por Emilio Ambasz para o MoMA. No fim dos anos setenta as questões relacionadas com a emergência habitacional pós-catástrofe tornam-se argumento de relevância em debates e conferências. Os resultados destas conferências conduzem à superação da lógica do objeto pronto para uso, inteiramente montado em oficina que, uma vez instalado no sítio da catástrofe, consente um único tipo de configuração. Algumas posições fazem das tecnologias de produção industrial uma condição de partida imprescindível para responder às questões colocadas, em particular àquelas que utilizam como potencial inovador as chamadas “tecnologias ligeiras”, estruturas facilmente desmontáveis, transportáveis ou portáteis, quase a prefigurar novas formas de nomadismo que, partindo da vontade de ocupar os solos só por um determinado tempo e abandoná-los sem deixar vestígios, respondem à necessidade de não invadir os territórios. Gradualmente os arquitetos começam a integrar nos seus projetos novos requisitos que até àquela altura se consideravam marginais, como a autoconstrução, segundo os princípios duma ativa participação das próprias vítimas na realização no local com elementos temporários, a utilização de tecnologias pobres, de materiais reciclados, recicláveis e de fácil disponibilidade, utilizáveis em qualquer lugar e contexto sem emprego de mão-de-obra especializada e ferramentas complexas. Nesta nova tendência, insere-se a obra de Shigeru Ban, que, baseando-se nas importantes pesquisas no campo da projetação de arquitetos como Jean Prouvé e Buckminster Fuller, com elementos préfabricados e produzidos em série, elabora um sistema construtivo baseado num material industrial 70 a temporalidade na obra de shigeru ban “The great affair is to move.” (Robert Louis Stevenson, Travels with a Donkey) “Nomos é a palavra grega para ‘pastagem’ e ‘nómada’ é um chefe, ou ancião do clã, que preside ao aluguer de pastagens.... O verbo nemein – ‘pastar’, ‘alinhar’, ‘alastrar’ – adquiriu um segundo sentido nos tempos de Homero: ‘negociar’, ‘repartir’ ou ‘conceder’...” “Nomos is Greek for ‘pasture’, and ‘the Nomad’ is a chief or clan elder who presides over the allocation of pastures... The verb nemein – to ‘graze’, ‘to pasture’, ‘to range’, or ‘to spread’ – has a second sense as early as Homer: ‘to deal’, ‘to apportion’ or ‘to dispense’...” (Bruce Chatwin, The Songlines, p.64) 64 65 71 o habitar temporário mas não propriamente construtivo: o papel. A obra do arquiteto em estudo começa em 1995, depois do grande terramoto de Kobe, no Japão. Nesta circunstância, ele propõe para as vítimas as suas primeiras estruturas em tubos de papel, fundadas sobre os princípios inovadores da reversibilidade do sistema construtivo, redução do desperdício (pelo qual, indiretamente, entra em jogo também o requisito de reciclabilidade), utilização de materiais e tecnologias construtivas pobres, simplicidade de montagem e desmontagem da estrutura e reutilização dos elementos construtivos. Como podemos constatar a partir desta análise, o processo da arquitetura temporária é ainda hoje implementado. Iniciado na pré-história com o aparecimento das primeiras estruturas provisórias, foi desenvolvido ao longo dos séculos graças ao interesse do homem – nómada por natureza – pelas construções que fornecem proteção, sem por isso limitar a sua necessidade de movimentação. Assim, o habitar temporário mantém-se na atualidade uma forma de viver na nossa sociedade e, embora caraterizado por prerrogativas diferentes, continua a constituir um problema ao qual é necessário oferecer resposta. Representa uma condição de forma cada vez mais consistente em contexto de emergência pós-catástrofe, ou seja, em situações onde os sobreviventes deixados “sem teto” são forçados a ocupar por um período de tempo muitas vezes ilimitado, espaços habitacionais de caráter provisório, até a fase de reconstrução. Neste campo de intervenção, o conceito de reversibilidade construtiva desempenha um papel essencial. Várias são as propostas dos arquitetos na tentativa de fornecer proteção e atenuar o sofrimento das pessoas. Entre todas, consideramos de particular interesse as soluções oferecidas por Shigeru Ban, nas quais a componente de temporalidade – prerrogativa constante na maioria da sua obra – se manifesta principalmente através de duas escolhas: a utilização de um material de construção frágil e em si provisório, e a original metodologia de gestão do processo de projetação, que tem como objetivo a reversibilidade construtiva. 72 a temporalidade na obra de shigeru ban “Para mim, não existe diferência entre o que é temporário e o que é definitivo. Construí a igreja em Kobe, que era suposto ser temporária, e as pessoas gostaram tanto que existe versão, ainda hoje, no mesmo sítio, ao contrario de alguns edifícios de betão que foram apenas construídos pelo dinheiro e que podem ser destruídos de um dia para o outro.” “For me, there’s no difference between what’s temporary and what’s definitive. I built the church in Kobe, which was supposed to be temporary, and people liked it so much that there’s a version of it still there today, unlike some concrete buildings that were just built for money and that can be destroyed from one day to the next.” (BAN, Shigeru, Shigeru Ban by Judith Benhamou-Huet em Interview, 2014) “Eu uso (papel) tanto para construções temporárias como permanentes porque as construções permanentes por vezes tornam-se temporárias e as temporárias tornam-se permanentes. Por isso, não as desenho de forma diferente. São o mesmo, apenas o orçamento é normalmente diferente. “I use (paper) both for temporary and permanent building because permanent buildings sometimes become temporary, and temporary buildings become permanent. So I don’t design them differently. It’s the same; just the budget is usually different.” (BAN, Shigeru, A house of paper. The satya interview with Shigeru Ban em Satya, 2005) 1 73 a arquitetura de papel de shigeru ban 2.0 A ARQUITETURA DE PAPEL DE SHIGERU BAN A temporalidade na obra de Shigeru Ban explica-se de várias formas e apresenta-se, acima de tudo, como uma constante na maioria das suas intervenções. Estas, compreendem tipologias de construção muito diferentes entre si, desde espaços expositivos até edifícios religiosos, desde teatros nómadas a alojamentos de emergência habitacional pós-catástrofe. Esta propriedade manifesta-se nos seus projetos principalmente através da utilização de um material frágil, provisório e inovador no campo da construção, o papel, pelo qual Ban começa a interessar-se a partir da segunda metade dos anos oitenta tornando-se no decurso da sua carreira, objeto duma assídua pesquisa. A cultura dos materiais frágeis, como ele próprio a define, ligada ao modo de construir e projetar japonês – e ao mesmo tempo dominada pelas figuras que inspiraram a sua obra, como John Hejduk, Richard Buckminster Fuller e Emilio Ambasz anteriormente estudados – é testemunhada por “uma pesquisa claramente orientada para o desenvolvimento de materiais low-tech, capazes de produzir artificialmente condições similares às do comportamento da matéria natural. Este fator determina uma substancial identificação entre ciclo produtivo e ciclo de vida da arquitetura.”1 As escolhas tecnológicas, determinantes para a reversibilidade do processo construtivo, traduzem-se na exigência de “desconstruir”, que aponta na direção de técnicas de conexão entre os elementos que permitam uma posterior desmontagem dos componentes. Isto traduz-se na aplicação de conexões a seco, ou seja através do encaixe dos elementos, evitando a coesão entre eles. A construção assim concebida, assim que a sua vida útil e funcional chega ao fim, pode ser desmontada e reconvertida e os seus materiais reinseridos num novo ciclo produtivo através da reciclagem e reutilização. Portanto, construção, demolição e recuperação são identificados como stadios diferentes mas complementares da obra. “No caso da ‘paper tube structure’ pode-se falar de uma cultura de projeto que é resultado de uma síntese na direção da qual tende constantemente a dialética entre intenções e instrumentos críticos à disposição do projetista e vocações e características próprias da matéria, 1 MARZOT, Nicola, Shigeru Ban, em http://www.archphoto.it/archives/399. "...una ricerca chiaramente orientata allo sviluppo di materiali low-tech, in grado di produrre artificialmente condizioni assimilabili al comportamento della materia naturale. Ciò determina una sostanziale identificazione tra ciclo produttivo e ciclo di vita dell’architettura." 80 a temporalidade na obra de shigeru ban 11 12 13 81 a arquitetura de papel de shigeru ban pelo arquiteto finlandês no pavilhão do seu país para a Feira Mundial de Nova Iorque de 193839. Pesquisa de essencialidade então, e não a usual capacidade de evocação; emprego de materiais pouco comuns e desconcertantes soluções construtivas: são estas as características recorrentes das obras de Ban, desde o inicio”. Durante o processo de construção da exposição dedicada a Aalto, Ban ficou espantado com a resistência, a precisão e a variedade dos tubos em papel, semelhantes em características morfológicas e mecânicas ao bambu. Foi neste mesmo momento que se iniciam os seus estudos relativamente à possibilidade de utilização destes como material estrutural em contexto arquitectónico, supondo a sua aplicação também em escalas maiores e intervenções mais complexas. Como afirma Ban, recordando essa exposição, “isto foi o princípio da arquitetura de papel”.8 Shigeru Ban também participou numa exposição mais recente sobre Aalto na Barbican Art Gallery de Londres, intitulada Alvar Aalto through the Eyes of Shigeru Ban, o que demonstra o interesse inalterado do arquiteto japonês pelo seu predecessor finlandês. O papel como material estrutural tornou-se assim um material de eleição nas obras do arquiteto. O uso de tubos de papel permitiu-lhe destacar-se dos mestres modernistas e desenvolver estruturas e materiais próprios, evoluindo no sentido de um estilo individual, não influenciado pelas modas. Em 1995, Ban construiu para si a Paper House (Paper Tube Structure 05), uma casa de férias no Lago Yamanaka constituída por cento e dez colunas de tubos de papel dispostos em forma de S, com o objetivo de demonstrar a utilização dos tubos como material estrutural nas estruturas permanentes. Graças à colaboração com Matsui, em 1995, o sistema estrutural de tubos de papel de Ban recebeu oficialmente o certificado de arquitetura permanente do Ministério da Construção no Japão, segundo o artigo 38 da lei sobre os padrões construtivos. A partir deste momento a PTS, ou seja, a Paper Tube Structure, passou a poder ser utilizada a par de outros materiais estruturais mais convencionais. Quando falamos de Shigeru Ban, imediatamente pensamos nas obras mais revolucionárias, aquelas que se baseiam em técnicas construtivas alternativas, mas temos que ter sempre em mente que a sua instrução e os seus interesses projetuais têm raízes num sólido sistema compositivo marcado pela grande tradição japonesa e pelos grandes mestres que o influenciaram, entre os quais John Hejduk. Paralelamente ao desenvolvimento de pesquisas sobre a arquitetura em papel, Ban realiza projetos para os primeiros edifícios residenciais, onde seguiu e aplicou os ensinamentos de John Hejduk recebidos durante os seus estudos na Cooper Union. Seguindo o exemplo dos Five Architects, os seus projetos são baseados numa manipulação geométrica elementar e numa elaboração formal de elementos geométricos puros, como o quadrado, o círculo e o triângulo. A esta altura correspondem os projetos da Villa K (1987) e Marumatsu Residence (1989), assim como a série de estudos em homenagem às Case Study Houses que, tal como a série de vilas californianas realizadas entre os anos 1945 e 1966 pelos arquitetos mais conhecidos do tempo e financiadas pela revista Arts & Architecture, incorporam estruturas e mobiliários pré-fabricados para uma vivência económica e moderna. Um exemplo é a Nine Square Grid House (Case Study House 09), de 1997, onde Ban recorre a elementos industriais e “enfatiza o tipo de rigor geométrico que carateriza muitas das habitações financiadas pela Arts & Architecture”,9 a propósito da qual Arata Isozaki afirma que Ban conseguiu 8 BAN, Shigeru, em JODIDIO, Philip, Shigeru Ban. Complete Works 1985-2010, "Kleine architecture", Köln: Taschen, 2010, p.13. 9 BAN, Shigeru, em JODIDIO, Philip, Shigeru Ban. Complete Works 1985-2010, "Kleine architecture", Köln: Taschen, 2010. 82 a temporalidade na obra de shigeru ban 14 15 16 83 a arquitetura de papel de shigeru ban realizar a Nine Square de John Hejduk até melhor do que o seu professor. O projeto de Villa Torii, em 1990, representa um momento de passagem, no qual o arquiteto começa a liberar-se das influências da Cooper Union a favor de uma linguagem autónoma. Pela primeira vez nas suas obras, a composição não parte de uma manipulação geométrica, mas de uma razão estrutural, baseada na criação de um determinado espaço. Nesta obra, usa planos abertos à paisagem, inteiramente em vidro e planos fechados às casas vizinhas. Uma série de cabos fixam ao chão à cobertura e permitem reduzir ao mínimo a espessura das paredes, a que são submetidas apenas a carga de compressão. Um outro exemplo merece particular atenção: a Furniture House (Case Study House 04) de 1993, no Lago Yamanaka, em proximidade do monte Fuji. Apresenta uma original ideia construtiva, que irá ser desenvolvida pelo arquiteto em sucessivos projetos. A particularidade desta construção, de outro modo bastante simples, está no uso estrutural de elementos de mobiliário de produção industrial a toda a altura, sem ter de recorrer assim a paredes e colunas. Este sistema, “um exemplo de customização em massa que ajuda a reduzir os custos de construção”10, foi desenvolvido sobretudo para a realização de alojamentos de emergência, sobre os quais Ban começa a ocupar-se neste período, e constitui o principio base do projeto de reconstrução pós-tsunami em Kirinda, Sri Lanka (2005), e da unidade habitacional temporária em Chengdu, Japão (2008). O reconhecimento das inovações estruturais de Ban a nível mundial foi representado pelo projeto para o pavilhão do Japão na Expo de Hannover, Alemanha (2000), que na época representava a maior estrutura em tubos de papel. Nesta obra, o material escolhido revelou-se particularmente adaptado ao tema da Expo, “homem-natureza-tecnologia” e o sistema construtivo facilitou a demolição e a reciclagem da estrutura. Uma outra obra que contribuiu para tornar Ban mais conhecido foi o Centre Pompidou-Metz (2007). O projeto foi realizado em colaboração com Philip Gumuchdjian e Jean de Gastines, com o qual Ban abriu no mesmo ano um escritório em Paris. Depois de ter vencido o concurso, pediu ao gerente do Centre Pompidou de Paris, Bruno Racine, permissão para construir um escritório temporário na cobertura do próprio museu, com o objetivo de ficar perto do cliente durante a realização do projeto. O pedido foi aceite, sob a condição que o interior do edifício fosse visível do exterior e que a estrutura, uma vez terminada a sua função, ficasse propriedade do Centre Pompidou. Assim, Ban realizou uma estrutura tubular em arcos de tubos de papel, que se adaptava à imagem industrial do museu. Suficientemente leve para poder ser instalada no sexto andar do edifício, mas ao mesmo tempo bastante resistente para suportar as rajadas de vento. A estrutura permaneceu durante seis anos, o tempo necessário para a realização do Centre Pompidou-Metz. Mas os tubos de papel não representam os únicos elementos aos quais Ban recorre na realização de estruturas temporárias. Embora Ban seja fascinado pelo papel comprimido e processado, o seu interesse é centrado não tanto no material em si, mas nas suas propriedades estruturais. Um interesse similar foi manifestado pelo arquiteto em relação aos contentores navais, utilizados na realização do Nomadic Museum. Em 2000, o realizador e fotografo canadense Gregory Colbert comissionou a Ban o projeto para o Nomadic Museum, um grande edifício expositivo transportável, que devia viajar de país em país e acolher a mostra itinerante de fotografias de grande escala da série “Ashes and snow”, apresentada a 10 MCQUAID, Matilda, Shigeru Ban, London: Phaidon Press Limited, 2003, p.15. "An example of mass customization that helps reduce construction costs". 84 a temporalidade na obra de shigeru ban 17 18 19 85 a arquitetura de papel de shigeru ban primeira vez no Arsenale de Veneza em 2002. O projeto tinha que responder aos seguintes requisitos: rápida construção, simples desmontagem e transporte dos componentes economicamente sustentável. Ban retomou a ideia de utilizar elementos de armazenamento aplicada nos projetos do Nova Oshima Showroom (1996) e da Furniture House (1995) e recorreu ao uso de contentores, que respeitam padrões internacionais e por isso estão disponíveis e alugáveis em qualquer sitio, com as mesmas dimensões e características. Os contentores, elementos sólidos e de medidas padronizadas, são, de qualquer forma um objeto pouco comum numa composição arquitetónica, embora outros arquitetos já os tivessem empregado para diferentes propósitos. Na maior parte dos casos, todavia, são utilizados unicamente pela sua forma, e pelo facto de que são estruturas industriais e pela sua solidez. Também Ban tem em consideração estes elementos, mas ao mesmo tempo lembra que os contentores são feitos para transportar e ser transportados, e que estão disponíveis em qualquer parte do mundo. A estes, Ban junta uma estrutura em tubos de papel, que podia ser desmontada e transportada dentro de alguns dos contentores, enquanto os outros eram alugados no sitio onde tinha lugar a exposição. A estrutura foi projetada com o apoio do escritório de engenheiros Buro Happold e era composta por 148 contendores. O corredor, de 256m de cumprimento e 24m de largura, era suportado por um sistema de tubos de papel com diâmetro de 75cm e cumprimento de 10 m, protegido por uma cobertura de duas águas de policarbonato. O Nomadic Museum constitui a maior exposição itinerante da história: construído pela primeira vez em 2005 num antigo molhe de madeira em Nova Iorque, foi reconstruído em Santa Mónica, Califórnia (2006) e em Tóquio (2007), com algumas alterações à planta original, devido às diferentes dimensões dos lotes, mas sempre mantendo o mesmo numero de peças. Também neste caso a obra do arquiteto distingue-se pela busca por materiais em maior consonância com as exigências do projeto e sem desperdício de recursos. O mesmo esquema estrutural encontra-se nos projetos para edifícios permanentes do Papertainer Museum na Coreia (2006) e do Onagawa Container Temporary Housing (2011). Esta última obra, uma unidade habitacional transitória de três andares constituída por contentores, foi realizada na fase de reconstrução após o terramoto e tsunami que afectaram o Japão. Na verdade, a carreira de Shigeru Ban não é caracterizada apenas por projetos grandiosos e complexos. De maior interesse para os propósitos deste estudo são as tipologias construtivas que normalmente não chamam a atenção de arquitetos famosos, onde o princípio de temporalidade constitui a base sob a qual assenta cada projeto: as estruturas para a emergência habitacional pós-catástrofe. Ban aproximou-se de tema da emergência logo no princípio da sua atividade de arquiteto: pensando em como maximizar as potencialidades da sua inovadora estrutura em tubos de papel, experimentou a sua aplicação num campo normalmente pouco explorado pelos arquitetos. Embora as circunstâncias o tenham levado a ocupar-se deste sector mais do que ele próprio esperava, como de costume, abordou um área menos comum do seu trabalho com uma abordagem extremamente lógica. O seu trabalho humanitário começou em 1994, quando ficou chocado com as fotografias da guerra no Ruanda, que deixou mais de dois milhões de pessoas em condições de vida trágicas, e decidiu intervir para melhorar os abrigos destinados aos refugiados. Ban propõe ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) um sistema construtivo em tubos em papel de fácil montagem, para alojar as vítimas. A partir deste momento a arquitetura de emergência tornou-se uma das suas diretrizes de intervenção. Trabalhar num contexto de emergência permite a Ban explorar materiais e sistemas não convencionais fora das áreas de desastre, sobretudo relativamente às estruturas em tubos de papel, que constituem uma boa solução a baixo custo, rapidez construtiva, possibilidade de desmontagem e reutilização das partes. 86 a temporalidade na obra de shigeru ban 20 21 22 87 a arquitetura de papel de shigeru ban Em 1995, fundou a organização não-governamental Voluntary Architects’ Network (VAN), com quem exerce uma atividade de socorro nas catástrofes em todo o mundo, construindo residências e equipamentos temporários que oferecem às vítimas de desastres conforto, proteção e um nível adequado de privacidade. Numerosos são os exemplos da sua experiência no campo dos projetos de arquitetura realizados com o intuito de oferecer imediata resposta às exigências habitacionais utilizando para as construções materiais locais modelados com base nas suas inovações construtivas. Ban, de facto, demonstrou com o seu trabalho as infinitas potencialidades arquitectónicas de materiais económicos e naturais, como o papel, o papelão e o bambu. Graças às suas atividades humanitárias, em 2014 recebeu o prêmio Pritzker, o mais importante reconhecimento internacional na Arquitetura, premiado pela sua abordagem criativa e inovadora, com a qual criou uma arquitetura de qualidade a serviço também das necessidades das sociedades em maiores dificuldades, pelas suas preocupações relacionadas com o meio ambiente, e por ter estendido o papel do arquiteto e tê-lo responsabilizado, participando no dialogo com governos e agencias públicas, filantropos e comunidades afectadas. Atualmente Ban trabalha como arquiteto, como voluntário em contexto de emergência, dá conferências e lecciona. O seu trabalho académico, iniciado em 2001, teve lugar nas universidades de Keio, de Harvard e Cornell. Desde 2011, é professor na universidade de Arte e Design de Kyoto. Continua a explorar materiais e sistemas estruturais. O seu trabalho inclui tubos de papel, bambu laminado, sistemas estruturais com contentores e estruturas em madeira sem juntas metálicas (série Plywood Structure). A única obra do arquiteto realizada em Portugal é a Quinta Botânica (2009), em Vila Real de Santo António, estruturalmente idêntica a Paper House de 1995. 2.2 A MATÉRIA E AS EXPERIÊNCIAS Geralmente, a ideia de utilizar o papel como elemento estrutural deixa-nos perplexos. No imaginário comum, pelo menos no mundo ocidental, o papel é associado a algo de frágil, longe de ser resistente, que usualmente é considerado sob a forma de uma folha subtil ou como papelão maleável e que parece ter pouco em comum com os materiais estruturais convencionais. Por esta razão, é difícil elevar esta concepção a qualquer coisa capaz de substituir os tradicionais materiais de construção ou que pode trabalhar lado a lado com o betão e o aço. Todavia, atualmente no Japão, o papel é para todos os efeitos considerado e utilizado como material estrutural e é assim desde 1995, graças às inovadoras pesquisas de Shigeru Ban e do engenheiro estrutural Gengo Matsui, que conseguiram a emissão do certificado de arquitetura permanente do Ministério da Construção no Japão. Antes de Ban, o papel representava um elemento de raro interesse na arquitetura e no design, revestindo uma função praticamente secundária, e as suas potencialidades no âmbito estrutural nunca foram realmente exploradas. Todavia, é importante relembrar algumas experiências nas quais, através da sua aplicação no campo das construções, tentou-se elevar este material até ao nível de outros elementos mais convencionais. Em 1928, nos Estados, Unidos, foi patenteado um conglomerado de resíduos de papel e betão, chamado papercrete. O papercrete é produzido sendo posto a macerar o papel em água durante mais de 24 horas, que a seguir é mexido e misturado juntamente com betão na percentagem desejada, 88 a temporalidade na obra de shigeru ban 23 24 35 89 a arquitetura de papel de shigeru ban antes de ser atirado para as cofragens. O conglomerado assim feito permite realizar um material muito leve, com grandes prestações a nível térmico, boas prestações de nível estático e com uma resistência à água e à humidade aceitável desde que protegido por ação direta. A patente teve pouca sorte, tanto pela crise que em 1929 afectou os Estados Unidos, como pelo facto de ter sido considerado, devido à sua facilidade de construção, uma banalidade. Só nos anos oitenta o papercrete foi redescoberto e permitiu em diferentes zonas dos Estados Unidos a construção de edifícios de baixo custo que, graças à leveza do material, foram erigidos autonomamente por grupos de ambientalistas. Todavia, nunca foram desenvolvidos estudos adequados no campo estrutural para ultrapassar os requisitos mínimos impostos pelas normativas. Além disso, devido ao facto de que o papercrete é de difícil reciclagem, e por consequência não respeita os requisitos de reversibilidade construtiva, representa um caso de pouco interesse para os propósitos da nossa tese. Uma obra que, de certa forma, antevê a inovação dos projetos de Shigeru Ban é a Paperboard Dome de Buckminster Fuller, apresentada pela primeira vez na Trienal de Milão em 1954 com o tema “Vita tra artefatto e natura: progettazione e sfida ambientale”. A abobada geodésica de papelão, de 11m de diâmetro, com um peso total de 600 kg, podia facilmente ser transportada e assemblada com as indicações descritas diretamente nos componentes. Depois desta estreia italiana, as abobadas de Fuller obtiveram fama mundial graças ao interesse do exército norte americano, que começou a estudar as possíveis utilizações desta tecnologia no campo militar. Todavia, a baixa resistência do papelão à água limitou o sucesso destas estruturas e mais tarde o material foi substituído pelo alumínio. Também Frank O. Gehry interessou-se pelo papel no princípio da sua carreira, experimentando as potencialidades do papelão ondulado no sector do design. O resultado foi o desenvolvimento de um material a que chamou edgeboard. O material era obtido sobrepondo folhas de comum papelão ondulado, assemblados através de um processo de colagem e acabados com masonite. O produto apresentava óptimas características de resistência e a sua estrutura elástica prestava-se às mais várias configurações plásticas. Entre 1969 e 1973, a partir do edgeboard, projetou uma série de mobiliário nomeada Easy Edges. O papelão ondulado é empregado de forma estratificada e aplicado em direções alternadas para aumentar a resistência. A série Easy Edges nunca chegou a grandes volumes de produção devido aos preços de venda. Em 1986 Vitra AG lançou a produção de quatro modelos. A este projeto seguiu-se a série Experimental Edges (1979-1982). Peças de mobiliário em papelão de perfis grosseiros criados pelo cumprimento varável das folhas de papelão dentro da mesma unidade, com o resultado final de um objeto de aspecto improvisado. Embora haja exemplares de cadeiras “pobres” em papelão já nos anos sessenta, Gehry foi o primeiro a encontrar o caminho para tornar-las leves e resistentes a par das de plástico. Victor Papanek, convicto defensor da influência positiva do design responsável na qualidade do meio ambiente, considera-as a melhor aplicação do material de embalagem no mobiliário. Um outro exemplo que tem o papelão como protagonista num projeto arquitectónico é a Paper Tower de Vincent Mangeat, que faz parte do Pavilhão Suíço realizado para a Expo de Sevilha de 1992. A torre, com uma altura de cerca de 33m, e com um diâmetro exterior de cerca de 13m, era constituída por painéis prismáticos em papelão ondulado inseridos numa leve estrutura de madeira, necessária para suportar a deformação causada pelo próprio peso da estrutura. Na diagonal de cada prisma foi inserido um cabo de aço, mas a sua função foi tão relativa que podemos considerar a torre como composta quase exclusivamente por materiais recicláveis. Ainda que não pudesse ser visitada em altura, era acessível através dum percurso na base da estrutura. No mil ducentésimo aniversário da cidade de Apeldoorn, na Holanda (1993) foi comissionado ao arquiteto holandês Hans Ruijsenaars o projeto para um teatro temporário. A escolha do papelão 96 a temporalidade na obra de shigeru ban “VB: Quanto tempo pode então uma casa de papel durar? SB: Eternamente! Não tem nada a haver com o material. VB: Quer dizer que os materiais desgastados podem ser substituídos mas a vida útil de uma casa pode potencialmente durar o tempo que fôr preciso? SB: Claro. O mesmo acontece com qualquer outro edifício, feito de madeira, betão ou aço.” “VB: So how long can a paper house last? SB: Forever! It has nothing to do with the material. VB: Do you mean that the worn-out elements can be replaced but the life of a house can potentially go on for as long as there is a need for it? SB: Sure. The same happens with any other building, made of wood, concrete, or steel.” (BAN, Shigeru em BELOGOLOVSKY, Vladimir, Shigeru Ban: No one before me built permanent structures primarily out of paper, 2013, http://curatorialproject.com/interviews/shigeruban.html) 35 97 a arquitetura de papel de shigeru ban variadas tipologias de construção, baseando-se nas capacidades físicas dum material no qual ninguém anteriormente tinha depositado particulares expetativas. Na obra dedicada ao arquiteto japonês, Matilda McQuaid escreve: “Esteja ele a transformar tubos de papel em colunas monumentais ou estruturas de cobertura grandiosas, mudou para sempre a nossa noção de fraqueza, durabilidade, e a natureza efémera do papel.”14 2.3 A MATÉRIA E AS CARATERÍSTICAS Os produtos que se podem realizar através da utilização do papel e papelão são variados. Todavia é importante sublinhar que a fibra da celulose, à medida que é empregue, diminui a sua resistência e como tal, o número de reciclagens possíveis é limitado, sobretudo se a intenção é de produzir papel para fins estruturais. A utilização estrutural do papel, para já, é praticamente confinada aos tubos de papel. Quando Ban entrou pela primeira vez em contacto com a Sonoco, líder mundial da produção de tubos de papel reciclado, este material era empregue unicamente em embalagens. Dez anos de estreita colaboração foram necessários para desenvolver um material capaz de passar os testes pedidos pelo Ministério das Construções japonês. Relativamente à utilização deste material, é necessário estimular a produção de construções de forma a abrir-se a novos sectores em vez de utilizar unicamente os materiais tradicionais. A normativa, neste caso, é um forte impedimento fazendo com que cada proposta de materiais inovadores se depare com uma difícil aplicação. O papel é um material natural, mas o seu processamento para a criação de tubos de papel e painéis honeycomb aproxima o seu comportamento ao dos materiais sintéticos ou semissintéticos. No caso da madeira, sabemos que o seu emprego aumentou devido aos seus derivados sintéticos ou semissintéticos, como madeira lamelar e painéis, que permitiram a redução dos defeitos presentes na madeira maciça. Se para o papel, como já aconteceu para a madeira, se aumentasse a experimentação, criar-se-ia a possibilidade de melhor conhecer este material e de poder eventualmente utilizá-lo de forma mais alargada na construção. A bloquear este desenvolvimento sustentável das práticas construtivas há, além disso, o facto de que, por exemplo na Europa, muitos países não possuem um plano regulador sustentável e não existem estímulos normativos e incentivos estatais para o desenvolvimento de materiais e componentes sustentáveis. Entretanto, o sector da construção produz uma enorme quantidade de desperdiço nas operações de construção e demolição. Os tubos de papel representam uma das principais aplicações do papel em âmbito estrutural: aparentemente não demasiado diferentes dos normais tubos de papel de uso quotidiano, possuem prestações mecânicas de altíssimo nível. Nos últimos vinte anos, começaram de facto a fazer parte do mundo da construção, também graças aos desenvolvimentos tecnológicos capazes de aumentar as suas prestações de resistência à água e ao fogo (ver anexo “Tubos de papel: produção e características”). Na Europa, as referências sobre as características do papel no âmbito estrutural baseiam-se nas 14 MCQUAID, Matilda, Shigeru Ban, London: Phaidon Press Limited, 2003, p. 15. "Whether he is transforming tubes into monumental columns or majestic roof structures, he has forever changed our notion of the weakness, durability, and ephemeral nature of paper." 98 a temporalidade na obra de shigeru ban 36 37 38 99 a arquitetura de papel de shigeru ban pesquisas de Shigeru Ban e dos engenheiros Gengo Matsui, de Frei Otto e da sociedade de engenharia Buro Happold, assim como das empresas produtoras de tubos de papel. Sem querer aprofundar as características mecânicas do material, a qual resistência foi demonstrada em várias situações, neste capítulo ilustraremos brevemente as propriedades físicas dos tubos de papel e as vantagens da sua utilização em arquitetura, enquanto apresentam temas mais pertinentes aos propósitos da nossa tese. 2.3.1 A desintegrabilidade tecnológica e o baixo custo Um dos aspectos mais convenientes que caracterizam o emprego da Paper Tube Structure é certamente a possibilidade de desmontar e remontar a construção. Esta propriedade oferece a possibilidade de mover o edifício de um lugar para o outro, mas também, mais simplesmente, de substituir facilmente componentes ou partes inteiras da estrutura para responder a exigências de qualquer tipo. As construções temporárias, que depois de terem cumprido o seu propósito, deixam de ter uma função, ou de ser utilizadas por longos períodos, são desmanteladas. Este facto, muitas vezes implica um grande desperdiço em termos de material utilizado e de energia empregue no processamento do material. A possibilidade de reempregar não só os mesmos materiais, mas a mesma tecnologia, é sem dúvida algo de profícuo, tanto do ponto de vista de custos, quanto do ponto de vista ambiental. A Paper Tube Structure é caracterizada por uma metodologia construtiva que permite um procedimento de montagem bastante simples, a seco, dado que a assemblagem da estrutura pode ser realizada pela mão de pessoal não qualificado. Por isso, representa uma solução ideal em situações de emergência e em situações onde é necessário mover a estrutura para um local diferente do inicial. A montagem a seco acontece através de conexões de encaixe ou aparafusadas que não resultam como permanentes, como aconteceria, por exemplo, no caso da utilização de betão. Esta técnica não só permite uma fácil e rápida composição, mas também uma igualmente simples desintegrabilidade tecnológica, ou seja, a desmontagem completa da estrutura. A possibilidade de desmontar e remontar a Paper Tube Structure permite o seu emprego numa multiplicidade de tipologias arquitectónicas de carácter nómada, que chegado o fim da sua utilização se mudam para outros sítios, como, por exemplo, os espaços que acolhem exposições, feiras, instalações, ou as habitações temporárias de emergência pós-catástrofe. Além disso, a propriedade de desintegrabilidade tecnológica favorece a reciclagem e a reutilização de tanto os elementos construtivos como das estruturas, evitando desperdiço de material que, se não utilizado, volta a ser reciclado. Em casos em que os diferentes componentes da estrutura não sejam necessários num futuro imediato, podem ser facilmente reposicionados e conservados em armazéns ou contendores à espera de uma nova utilização. O facto de se poder desmontar e remontar os componentes da estrutura com relativa facilidade permite também a substituição dos tubos no caso de estarem danificados. Expostos às condições meteorológicas, os tubos de papel duram pelo menos dez anos, mas uma boa manutenção da estrutura é suficiente para prolongar o seu tempo de vida útil, sem que esta pese consideravelmente no custo geral do edifício. Em outras palavras, a Paper Tube Structure, apesar de ser constituída em papel, um material que, por si só, tem uma durabilidade inferior em comparação com outros materiais de construção, representa uma tecnologia que graças ao processo de substituição das partes permite de aumentar a duração da vida das construções e, ao mesmo tempo, garantir baixos custos de manutenção. Como afirma muitas vezes Shigeru Ban, a duração de um edifício não tem nada a haver com a duração do material que o constitui. Por esta razão é praticamente inútil falar de duração do 100 a temporalidade na obra de shigeru ban 39 40 101 a arquitetura de papel de shigeru ban material e, como menciona o próprio arquiteto, não faz sentido comparar estruturas de aço às de madeira, tanto quanto não faz sentido comparar estruturas de papel às de outros materiais. Entre os projetos de Shigeru Ban que utilizaram de melhor forma as possibilidades oferecidas por esta tecnologia estão o Paper Arbour, a Paper Church e o Nomadic Paper Dome. O Paper Arbour, primeiro em ordem cronológica, foi montado inicialmente em Tóquio e lá conservado durante o período de tempo necessário para controlar a assemblagem e os detalhes. A seguir, a estrutura foi desmontada e remontada no lugar prefixado da Expo de Nogoya. A Paper Church de Kobe, completada em 1995, foi projetada para substituir a igreja de Takatori, destruída durante o terramoto que afectou Kobe. O edifício tinha que ser erguido rapidamente a fim de satisfazer as necessidades espirituais e comunitárias durante o tempo necessário para a recuperação da igreja permanente. Quando esta ficou finalmente pronta, em 2005, a Paper Church foi desmatelada e enviada para Taiwan, onde foi aí assemblada novamente. Diferente dos outros projetos, o Nomadic Paper Dome (2003), foi expressamente concebido como edifício nómada. A estrutura, destinada a um teatro, lembra as cúpulas geodésicas de Buckminster Fuller e foi realizada, em colaboração com o escultor Klaas Kamphius, para um grupo teatral de mímica. Montada, pela primeira vez, na envolvente “desértica” de Yburg, próximo de Amsterdão, a estrutura tem uma planta circular de 26m de diâmetro e uma cúpula que se ergue a uma altura máxima de 10 m, numa configuração que Ban compara ao yurt dos nómadas asiáticos. Neste projeto foi dada prioridade ao uso de materiais acessíveis e reutilizáveis, razão pela qual Ban propôs o uso de tubos de papel para as funções estruturais, conjuntamente com varões e cabos de aço. A estrutura, uma espécie de kit de construção, é completamente desmontável e transportável em quatro ou cinco contendores. Para concluir, um outro projeto que merece atenção como obra projetada para ser portátil, composta por uma tecnologia mista onde a Paper Tube Structure é associada a uma estrutura em contentores, é o Nomadic Museum. Por todas as características descritas até agora, a Paper Tube Structure mostra-se apta para a realização de edifícios temporários, mas não se deve esquecer que é possível recorrer à sua utilização também na construção de edifícios permanentes, sendo que, graças à possibilidade de substituição dos componentes e do continuo desenvolvimento das tecnologias que permitem a produção de tubos de papel cada vez mais resistentes, este material não apresenta limites de durabilidade. No caso da projetação de estruturas para uso permanente, a Paper Tube Structure é associada a outros materiais, por exemplo, o aço. Uma combinação de materiais deste tipo permite rentabilizar ao máximo as propriedades de ambos os elementos: a partir do papel pode-se obter a economicidade, a rapidez de montagem e a resistência à compressão, enquanto a partir do outro material obtém-se uma maior durabilidade. Uma outra vantagem na utilização dos tubos de papel é o custo: criar tubos deste material custa relativamente muito pouco, e numa sociedade onde o dinheiro é um dos elementos principais que guia as escolhas em diversos campos, dispor de um produto económico em prol de um mais caro em paridade de prestações, é com certeza um fator em alta consideração. O custo reduzido dos tubos de papel é garantido pelo seu processo de produção. De facto, uma das suas qualidades principais é que para a produção dos tubos de papel não se usam tecnologias avançadas mas, antes pelo contrario, é necessária maquinaria que pode ser considerada hoje, num certo sentido, “primitiva”. Esta maquinaria pode ser transportada para o local do estaleiro da obra e desta forma evitar todos os custos e as problemáticas que podem derivar do transporte de uma quantidade de material mais consistente. 102 a temporalidade na obra de shigeru ban “São ecológicos os objetos produzidos com materiais limpos, recicláveis e renováveis, que no ciclo produtivo não emitem gás tóxicos, que permitem o processamento dos resíduos, tal como uma redução do consumo energético e dos materiais empregues. São ecológicos os objetos que em fase de desintegração são desmontáveis e desagregáveis facilmente, permitindo um rápido desmantelamento e a recuperação dos materiais desintegrados.” “Sono ecologici gli oggetti prodotti con materiali puliti, riciclabili e rinnovabili, riciclati e ulteriormente riciclabili, che nel ciclo produttivo non emettono gas tossici, che consentono la lavorazione degli sfridi, una riduzione dei consumi energetici e dei materiali impiegati. Sono ecologici gli oggetti che in fase di dismissione si smontano e di disaggregano più facilmente, permettendo un più veloce smaltimento e il recupero dei materiali dismessi.” (MOROZZI, Cristina, Oggetti risorti. Quando i rifiuti prendono forma, Milano: Costa&Nolan, 1998, p.51) “O drama é então a oportunidade de ir para além dos limites existentes. O processo de reciclagem permite que a arquitetura lute contra a entropia, enquanto, ao mesmo tempo, aceita o estatuto efémero do seu objecto final.” “The drama is then the opportunity to go beyond the existing limits. The process of recycling enables the architecture to fight against the entropy, while accepting the ephemeral status of the final object.” (MEADOWS, Fiona, em SHIGERU BAN ARCHITECTS, Shigeru Ban: 17 réalisations = works, Paris: Institut Français d’Architecture, 1999) “O meu principal princípio consiste na reutilização ou reciclagem de materiais pré-existentes. Levou-me vários anos para perceber como usar os tubos de papel. Hoje, estou a trabalhar na ideia de usar areia para a construção de condomínios no Dubai.” “My main principle consists of reusing or recycling pre-existing materials. It took me several years to work out how to use the paper tubes. Today, I’m working on using sand for some condominiums in Dubai.” (BAN, Shigeru, Shigeru Ban by Judith Benhamou-Huet em “Interview”, 2014, disponível em: http://www.interviewmagazine.com/art/shigeru-ban) 41 103 a arquitetura de papel de shigeru ban A ideia de construir utilizando elementos leves, fáceis de transportar, de montar e de desmontar pode induzir uma diminuição sensível dos custos de produção. Se, absurdamente, compararmos a utilização do papel com a do betão, torna-se evidente como este último é de forma substancial, mais difícil de transportar, mais pesado, requer um processamento mais complexo e com consequências superiores nos custos. Isto sem considerar que o seu desmantelamento e a sua reutilização são certamente mais problemáticos. 2.3.2 A sustentabilidade A escolha de utilizar tubos de papel em vez de outros materiais tem também motivações de tipo filosófico. É importante mencionar que Ban ficou fascinado por este material principalmente por uma questão de economia dos recursos, sendo que, os seus princípios vão contra o desperdiço de material. “Detesto deitar coisas fora. Penso, portanto, que tenho uma predisposição natural para reutilizar as coisas.” 15 Ainda que não totalmente deliberado, o primeiro uso estrutural de tubos de papel por parte de Ban representava um ato sustentável. Realizados com papel reciclado, depois ter sido consumido, a sua produção precisa de uma combustão mínima de materiais que emitem dióxido de carbono (CO2) e, num sentido macroeconómico, respeita o Protocolo de Quioto que incita a um empenho global para a conservação de energia e recursos. A matéria prima da qual são produzidos os tubos é a celulose, inicialmente obtida de árvores e florestas certificadas ou pela reciclagem de resíduos de papel e papelão. Os tubos produzidos são, por sua vez, parte de um chamado “ciclo fechado” de produção e reciclagem, no momento no qual são utilizados como matéria reciclável na produção de nova celulose, recriando materiais iguais aos que foram desmantelados. Produzir papel reciclado, e por consequência os tubos de papel, significa intrinsecamente reciclar e gerar produtos para essa mesma reciclagem. Deparamo-nos com um produto não só económico mas também sustentável que limita da melhor forma o desperdiço de recursos e que responde positivamente aos requisitos de reciclagem. Construir com o papel é assim, para todos os efeitos, um ato de construção sustentável. No caso especifico da Paper Tube Structure a reciclagem torna-se ainda mais simples do que a própria metodologia construtiva. A montagem a seco permite, por sua vez, a desmontagem com fácil separação das partes e portanto dos diferentes materiais que compõem a estrutura, os quais podem ser eliminados ou reutilizados com facilidade. Construção, demolição e recuperação são fases diferentes que, todavia, se tornam complementares uma vez que a realização da obra se quer sustentável durante todo o ciclo de vida do produto. “O sucesso dos projetos em tubos de papel de Shigeru Ban beneficiou em grande parte da atenção e do suporte que este sistema construtivo recebeu por parte de comitentes, conscientes que encontraram no seu trabalho potenciais aplicações em linha com os princípios de sustentabilidade.” Em particular, o pavilhão japonês projetado para a Expo 2000 de Hannover demostrou-se um ponto de lançamento para a carreira do arquiteto e encorajou-o nas pesquisas relacionadas com a Paper Tube Structure. A feira mundial promovia o tema “homem-natureza-tecnologia”, retomando 15 BAN, SHIGERU em JODIDIO, Philip, Shigeru Ban 1957. L'architettura della sorpresa, Köln: Taschen, 2012, p.9. “Odio buttare via le cose. Penso di avere una predisposizione naturale al riciclo.” 104 a temporalidade na obra de shigeru ban 42 43 44 105 a arquitetura de papel de shigeru ban os conceitos filosóficos do Earth Summit de 1992. 16 Ban foi selecionado pelo governo japonês como projetista do pavilhão pela sua abordagem única à matéria, que podia assim dar uma boa resposta ao imperativo ambiental. O pavilhão, pensado com a vontade intrínseca de apoiar a sustentabilidade ambiental, é projetado sobre os princípios base de reciclabilidade e de redução dos resíduos. Assim, a atenção foi direcionada para ciclo de vida da estrutura: os materiais escolhidos para a sua realização são reciclados e, por sua vez, podem ser novamente reciclados. As conexões entre os elementos são formadas através de um material único, uma durável fita de tecido polietilenico geralmente usada nas minka – um estilo de casa de campo tradicional japonsa – que possibilita movimentos tridimensionais da estrutura e por isso permitiu a Ban configurar o volume de forma livre. A interseção entre dois tubos gera um ângulo definido com base na solicitação aplicada. Como cobertura, a fim de evitar recorrer à tela em PVC, demasiado poluente, Ban desenvolveu uma membrana translúcida em papel resistente ao fogo e impermeável, que estava de acordo com as normativas alemãs. Para se esquivar à utilização de betão, de difícil reciclagem, as fundações foram realizadas com caixas de madeira enchidas com sacos de areia, a mesma técnica que Ban já tinha aplicado nos abrigos temporários para o terramoto de Kobe. A montagem da estrutura, também neste caso, foi projetada para ser realizada à mão, sem o recurso a maquinaria pesada. Todos os componentes e os procedimentos são low-tech, à exceção da utilização de antenas para a medição via satélite, através de GPS, da geometria da estrutura, que a partir do chão não era possível controlar. Ao fim de cortar custos, o transporte foi reduzido ao mínimo tirando partido dos materiais produzidos localmente (o fornecedor de tubos de papel neste caso foi a Sonoco Europe). Embora a estrutura do projeto final tenha sofrido alterações relativamente à inicial, Ban conseguiu reduzir ao mínimo os materiais não recicláveis e, por consequência, responder de uma melhor forma ao tema da Expo – ”homem-natureza-tecnologia”. Este projeto, assim como as restantes obras em tubos de papel, testemunham a vontade, na projetação de estruturas de carácter temporário, de eliminar o supérfluo, de evitar o desperdiço e de usar os recursos de modo parcimonioso. O desejo, e por consequência, a possibilidade de construir de forma sustentável torna-se concreta graças também à vontade por parte dos próprios fabricantes de tubos de papel de produzir de forma sustentável. A Sonoco, que atualmente representa a maior produtora e distribuidora deste material, e que colaborou com Shigeru Ban em numerosos projetos, é uma grande promotora de iniciativas apontadas à reciclagem e recolha de papel, com notáveis resultados. O empenho relativamente à sustentabilidade é observável na qualidade dos seus produtos e da sua tipologia de produção. A Sonoco está, de facto, a trabalhar no sentido de reduzir o impacto ambiental dos seus estabelecimentos, reduzindo o consumo de energia, minimizando as emissões de gás e limitando a utilização de água e a acumulação de desperdícios destinados à lixeira. 16 A United Nations Conference on Environment and Development, também conhecida como Earth Summit, que teve lugar em Rio de Janeiro de 3 a 14 junho de 1992, foi a primeira conferência mundial dos chefes de estado sobre o meio ambiente. Os tópicos que foram tratados foram: a análise sistemática dos modelos de produção, em particular a fim de limitar a produção de toxinas; o recurso a energia alternativa para substituir o abuso de combustível fóssil, considerado responsável pelas alterações climáticas globais, um quadro sobre os sistemas de transporte público de forma a reduzir as emissões de veículos e os problemas de saúde causados pela poluição; a crescente escassez de água. Uma importante resultado da conferência foi o tratado "Convenção – quadro das Nações Unidas sobre a mudança do clima", que levou, alguns anos depois, à elaboração do Protocolo de Quioto. 112 a temporalidade na obra de shigeru ban “Embora haja uma crescente consciência dos perigos das alterações climaticas, o seu provável impacto na mobilidade e deslocamento humano tem recebido demasiado pouca atenção.” “Although there is a growing awareness of the perils of climate change, its likely impact on human displacement and mobility has received too little attention.” (GUTERRES, Antnio UN High Commissioner for Refugees, Foreign Affairs, 2008, disponível em: http://www.foreignaffairs.org/20080901 faessay87506/ antonio-guterres/millions-uprooted.htmls) Refugiado: qualquer pessoa que, “em razão de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de nacionalidade e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer aproveitar-se da proteção daquele pais; ou quem, não tendo uma nacionalidade e encontrando-se fora de sua residência habitual como resultado dum tal evento, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo.” “owing the well-founded fear of being persecuted for reasons of race, religion, nationality, membership of a particular social group or political opinion, is outside the country of his nationality and is unable or, owing to such fear, is unwilling to avail himself of the protection of that country; or who, not having a nationality and being outside of the country of his former habitual residence as a result of such events, is unable or, owing such fear, is unwilling to return to it.” (UNHCR, Convention and protocol relating to the status of refugees, Genebra, 1951, disponível em: http://www.unhcr.org/3b66c2aa10.html) 4 113 emergência habitacional pós-catástrofe um fenómeno excecional mas, pelo contrário, um evento que faz parte da normalidade da vida quotidiana. Mesmo assim e embora os eventos naturais sejam uma das causas mais evidentes dos acontecimentos imprevisíveis e incontroláveis que podem afetar o nosso planeta, muitas vezes a natureza é a menos responsável pelas dimensões que pode assumir uma catástrofe provocada pelos erros e as omissões das pessoas que operam nas transformações e no aproveitamento dos recursos ambientais. Mesmos os devastadores efeitos climatéricos são o resultado de uma cada vez mais grave alteração da natureza pela mão do homem. Devido às suas causas primárias, os desastres podem ser distinguidos em “ naturais”, causados por fenómenos naturais, e em “desastres pela mão do homem”, causados pela atividade do homem. Os primeiros, são atribuídos a eventos imprevisíveis e incontroláveis, que variam em termos de momentos de alerta, velocidade de aproximação, intensidade e impacto. Estes, incluem desastres meteorológicos (ciclones, furações, granizadas, dilúvios, tornados, tufões, geadas, secas, etc.), desastres topológicos e hidrogeológicos (avalanches, derrocadas, deslizamentos de terra, inundações, erosões, etc.), desastres telúricos e tectónicos (terramotos, maremotos, erupções vulcânicas, etc.), e desastres biológicos (enxames de insetos, epidemias de doenças contagiosas, etc.). Entre os desastres produzidos pelo homem existem as agitações civis (revoltas, rebeliões, demonstrações de massa violentas, tumultos), guerras e conflitos armados (nucleares, químicos, biológicos), atos de terrorismo, movimentos forçados de refugiados entre um país e outro, incidentes (com meios de transporte, por desabamento de estruturas, de fabricas/instalações nucleares, de poluição de fabricas químicas, por uso impróprio, etc.), e económico-políticos (crise económicas, carestias, etc.). 3 Estes fenómenos imprevisíveis e de rápido desenvolvimento, forçam, cada ano, milhões de pessoas a abandonar as próprias casas em busca de lugares mais seguros para se instalar temporariamente, procurando evitar perder a vida e ser expostos a danos sérios e imediatos. A consequente emergência habitacional constitui grandes desafios para as populações expostas e vulneráveis, para os governos e para as organizações humanitárias e ambientais. Este tipo de emergência envolve os refugiados e as pessoas denominadas de “IDP’s” (Internally Displaced Persons), forçadas a adaptarem-se a uma situação habitacional não desejada, e que constituem o objeto de análise do próximo parágrafo. 3.2 A CONSEQUÊNCIA DO DESASTRE: O DESLOCAMENTO O termo deslocamento refere-se à mudança involuntária e forçada, evacuação ou relocação de indivíduos ou grupos de pessoas das suas casas ou lugares de residência habitual. A linha de separação entre o conceito de deslocamento e aquele de migração é subtil, mas pode-se afirmar que enquanto o primeiro é um fenómeno forçado pelas circunstâncias, o segundo é voluntário e considerado como forma de prevenção para evitar o deslocamento forçado. Muitos fatores contribuem para o deslocamento das pessoas, entre os quais os desastres ambientais e as catástrofes causadas pelo homem, que são o motivo iniciador mais óbvio e imediato. O deslocamento expõe as pessoas a maiores riscos de empobrecimento e descriminação, e cria necessidades especificas entre as populações afetadas. 3 LATINA, Corrado, “La vulnerabilità dell’ambiente costruito agli eventi eccezionali: genesi analisi e problematiche dei disastri”, em Ambiente costruito e calamità, Bolonha: Ente Fiere di Bologna, 1982 114 a temporalidade na obra de shigeru ban Ano População mundial total Taxa de crescimento a dez anos (%) 1980 4,453,831,714 18.5 1990 5,278,639,789 15.2 2000 6,082,966,429 12.6 2010 6,848,932,929 10.7 2020 7,584,821,144 8.7 2030 8,246,619,341 7.3 2040 8,850,045,889 5.6 2050 9,346,399,468 — “Pessoas deslocadas internamente: “pessoas ou grupos de indivíduos que foram forçados a fugir ou deixar as suas casas ou lugares de residência habitual, em particular como resultado de, ou como forma de evitar os efeitos de conflitos armados, situações de violência generalizada, violações de direitos humanos ou desastres naturais ou causados pelo homem, e que não atravessaram uma fronteira internacional reconhecida.” “Internally displaces persons ... persons or groups of persons who have been forced or obliged to flee or to leave their homes or places of habitual residence, in particular as a result of or in order to avoid the effects of armed conflict, situations of generalized violence, violations of human rights or natural or human-made disasters, and who have not crossed an internationally recognized State border.” (UN, Guiding Principles on Internal Displacement, E/CN.4/1998/53/Add.1, New York: United Nations) 5 6 População mundial em biliões, 1950-2050 (projetada) Dados do U.S. CENSUS BUREAU 115 emergência habitacional pós-catástrofe As estimativas globais não diferenciam ou quantificam o número de pessoas deslocadas temporariamente ou permanentemente fora das fronteiras nacionais, os assim chamados refugiados. Todavia, é sabido que a maior parte dos indivíduos que fogem destes desastres ficam nos limites do seu próprio estado. Como descrito em Guiding Principles on Internal Displacement, estas pessoas são definidas como deslocados internos, internally displaced people (IDPs). Segundo o relatório Global Estimates 2014. People displaced by disasters, “o deslocamento pode ter lugar em curtas ou longas distâncias e inclui diferentes esquemas de mudança para além da fuga inicial. Desde o primeiro local de acolhimento, que pode ser, por exemplo, o centro de evacuação, os IDPs podem mudar-se para diferentes lugares de abrigo transitório e fazer visitas temporárias às suas casas originais, antes de obter uma solução de alojamento permanente.”4 Para muitas pessoas, a possibilidade de voltar a viver em casas próprias não se apresenta como uma opção. Uma evacuação temporária pode transformar-se num deslocamento prolongado, ou pode acontecer que a população seja realocada para áreas onde continuam a ser expostas a alguns riscos. “As pessoas com recursos mínimos e poucas capacidades de recuperação, normalmente aquelas que são mais vulneráveis às violações dos direitos humanos, são afectadas de forma desproporcional e encontram-se expostas a um maior risco de deslocamento prolongado.”5 “Por situação prolongada entende-se uma condição na qual o processo para alcançar uma solução durável e permanente foi-se arrastando, e/ou os IDPs tornam-se marginalizados porque os seus direitos económicos, sociais e culturais são violados ou insuficientemente protegidos”6. As pessoas que se encontram em tais situações enfrentam o risco de outros ciclos de desastre e novo deslocamento. As causas de deslocamento são numerosas e, muitas vezes, inter-relacionadas. As pessoas transformam-se em deslocados internos quando perdem as suas acomodações devido a uma catástrofe, mas também quando têm de fugir das suas áreas habitacionais porque faltam as condições vitais para a sobrevivência (como o acesso a serviços de base), ou porque são expostas a ameaças criadas pela diminuição da segurança. O deslocamento derivado de desastres é um fenómeno global que tem vindo a crescer em escala, frequência e complexidade: a partir de 2008, segundo o relatório Global Estimates 2014. People displaced by disasters7 – atualizado em setembro do ano passado – 27 milhões de pessoas foram deslocadas anualmente por causa de desastres infligidos pela natureza. É estimado que o risco de deslocamento duplique nos últimos 40 anos. Os fatores que contribuíram para aumentar este fenómeno são vários. Em primeiro lugar, 4 IDMC, Global Estimates 2014. People displaced by disasters, p.13, http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/201409-global-estimates.pdf. "Displacement may take place over both short and long distances and include complex patterns of movement beyond initial flight. From their first place of refuge, such as an evacuation center, IDPs may move to different transitional shelter sites and make temporary visits home before they are able to achieve a durable solution to their displacement." 5 IDMC, Global Estimates 2014. People displaced by disasters, p.14, http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/201409-global-estimates.pdf. "People with the fewest resources and least capacity to mitigate and recover, and who are most vulnerable to human rights abuses, are disproportionately affected and at the greatest risk of prolonged and protracted displacement." 6 IDMC, Global Estimates 2014. People displaced by disasters, p.14, http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/201409-global-estimates.pdf. "A protracted situation is defined as one in which the process of achieving a durable solution has stalled, and/or IDPs become marginalised because their economic, social and cultural rights are either violated or insufficiently protected." 7 IDMC, Global Estimates 2014. People displaced by disasters, p.6, http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/201409-global-estimates.pdf 116 a temporalidade na obra de shigeru ban 7 8 9 117 emergência habitacional pós-catástrofe encontramos o aumento populacional, comparativamente à 40 anos, exposto a catástrofes naturais e afectado por desastres, em particular nas áreas urbanas de países mais vulneráveis. A partir dos anos setenta, como se pode observar nas tabelas na página anterior, a população global aumentou rapidamente (img. 6), sobretudo nos países em desenvolvimento (img. 5). O melhoramento dos procedimentos de socorro e preparação para o desastre, incluídos nos sistemas de prevenção e de evacuação de emergência, permitem que um número maior de pessoas sobreviva às catástrofes, e grande parte fique deslocada aguardando relocação. Assim, é importante dizer que, em relação à 40 anos atrás, possuímos atualmente mais informação sobre o impacto de desastres e estamos melhor preparados para enfrentá-los, embora em muitos países isso não seja ainda sistemático. Todavia, a natureza casual das catástrofes naturais de grandes dimensões impede-nos de conseguir prever com exatidão as taxas de deslocamento e necessita de maiores investimentos na redução dos riscos, na adaptação às alterações climáticas e na preparação de medidas que limitam a vulnerabilidade das pessoas contra a extrema variabilidade do clima e o risco de desastres causados por fenómenos de escala cada vez maior. 3.3 O DIREITO AO SOCORRO HABITACIONAL ADEQUADO No final dos anos setenta, as temáticas relativas aos abrigos temporários a aplicar em casos de emergência adquire uma maior importância e torna-se tema de debate em várias conferências. Em 1977, foi organizada em Istambul, pelo The Scientific and Technical Research Council of Turkey e pelo Building Research Institute, a International Conference on Disaster Area Housing, onde, segundo a autora do livro L’urbanistica dell’emergenza. Progettare la flessibilità degli spazi urbani, Marcella Anzalone, estabelece a formulação estratégica da intervenção de socorro habitacional em áreas de desastre, ou seja, a exigência de uma correlação orgânica preventiva entre os tempos, as modalidades e o carácter da intervenção, em referência à tipologia, às dimensões e à natureza do evento. Em 1978, Ian Davis8, um dos maiores especialistas no campo da emergência e ao mesmo tempo diretor da unidade Disaster and Settlement do departamento de Arquitetura do Politécnico de Oxford, publica o texto Shelter after disaster, onde apresenta uma breve história do abrigo de emergência, os mitos comuns e os “desastres” que o próprio abrigo improvisado causa.9 No segundo capitulo, “From Myth to Reality”, Davis enumera uma série de situações assumidas pela opinião pública para depois descrever as suas condições reais. Por exemplo, o autor explica como no imaginário comum as vítimas de desastre são afectadas por um estado de inatividade e pânico, enquanto na realidade não há nenhuma prova que sustente esta tese e os factos indicam na verdade o contrário.10 Este estudo foi um contributo fundamental para as intervenções habitacionais, princi8 Graduado em arquitetura, trabalhou em Disaster Risk and Recovery Management desde 1972, depois de ter concluído um PhD em Developement Planning Unit (DPU) de UCL, intitulado Shelter following disaster. É autor de numerosos livros, professor e pesquisador, gerente ONG e consultor internacional. A sua experiência cobre planeamento pré-desastre e redução de riscos, recuperação pós-desastre a partir da fase de resposta imediata até reconstrução a longo-prazo e adaptação as alterações climáticas. Atualmente é consultor num projeto sobre Risk reduction in the Asia/Pacific Region do Asian Development Bank Institute em Tóquio, assim como editor técnico para Guidelines on Urban Risk, Integration of DRR into Government Sectors and Adaptation to Climate Change para o Asian Disaster Preparedness Centre em Bangkok. 9 MC GRAW, Jack W., http://www.massemergencies.org/v3n4/Davis_Review_v3n4.pdf 10 MC GRAW, Jack W., http://www.massemergencies.org/v3n4/Davis_Review_v3n4.pdf 118 a temporalidade na obra de shigeru ban 10 11 12 119 emergência habitacional pós-catástrofe palmente por ter recolhido, sintetizado e descrito os princípios que orientaram as políticas de socorro nos pedidos de ajuda à volta do mundo. O texto, que se foca principalmente nas experiências em países em desenvolvimento, propõe reflexões fundamentais referentes às tipologias construtivas, às tecnologias empregues na realização dos assentamentos provisórios e à qualidade das intervenções de reconstrução. As experiências demonstram como a utilização de abrigos realizados com tecnologias pobres – particularmente em referência aos países em desenvolvimento – permite uma melhor adaptação aos modelos culturais e ambientais do lugar, contribuindo para a recuperação local. Durante a International Conference on Disasters and Small Dwellings, que teve lugar em Oxford em 1978, foi promovida e divulgada uma abordagem interdisciplinar aos aspectos estratégicos da intervenção de socorro habitacional e às problemáticas de carácter projetual. O tema principal da conferência é shelter after disaster, ou seja, o abrigo pós-catástrofe, entendido como refúgio, cobertura de primeiro socorro, capaz de proteger as vítimas desde o momento do desastre até a acomodação numa residência temporária. Emergem três momentos principais de intervenção em caso de catástrofe, a coordenar e definir em termos de programação, projetação e gestão: a emergência, a recuperação e a reconstrução. Passada a fase de emergência, ou seja, o momento imediatamente após o desastre em que o objetivo prioritário é encontrar soluções rápidas de abrigo e proteção, segue-se a fase da recuperação onde se procuram respostas para o problema da transição entre o estado de emergência e a reorganização das estruturas urbanas e territoriais. Os sistemas de habitação realizados neste momento têm um carácter de temporalidade que depende dos tempos de espera para a reconstrução e/ou a consolidação dos edifícios afectados. Segundo Marcella Anzalone11, é de particular interesse a conclusão a que chega o Prof. Ian Davis, que propõe direcionar as investigações para possíveis estratégias projetuais tendentes ao emprego de sistemas e equipamentos autónomos e abertos ao fim de oferecer soluções caso a caso, tentando, de facto, desencorajar o desenvolvimento de mais estudos na direção do objeto acabado e das tipologias fechadas. A partir deste debate surgem indicações fundamentais para a elaboração de uma normativa especial das exigências que tem como função regular a produção de sistemas habitacionais a serem empregues em caso de emergência. Alguns dos princípios estabelecidos na normativa são: adaptabilidade, leveza, compatibilidade dimensional com os meios de transporte, predisposição à desmontagem e montagem. Os requisitos que caracterizam um assentamento provisório em caso de emergência, delineados pela conferência, encorajaram a difusão de concursos para a projetação de alojamentos de emergência, com o intuito de incentivar a participação e o interesse de arquitetos neste campo. Em 1982, o escritório United Nations Disaster Relief Coordinator (UNDRO) publica o relatório Shelter after Disaster: Guidelines for Assistance, onde descreve as experiências de 10 anos de intervenções habitacionais realizadas em contextos de emergência12. O texto torna-se uma importante referência tanto para o desenvolvimento de críticas melhorativas relativamente às intervenções analisadas, como para a divulgação de um conhecimento partilhado a nível internacional sobre as verdadeiras condições de intervenção nas quais se trabalha. Em particular, contém uma lista de princípios base para as atividades de socorro (ver paragrafo 3.2.1) e oferece advertências sobre os procedimentos 11 ANZALONE, Marcella, L'urbanistica dell'emergenza. Progettare la flessibilità degli spazi urbani, Firenze: Alinea editrice, 2008, p.71 12 UNHCR, Shelter after Disaster: Guidelines for Assistance, New York, 1982: https://www.sheltercluster.org/sites/default/ files/docs/shelterafterdisaster-undro-jul82.pdf 120 a temporalidade na obra de shigeru ban 13 14 15 121 emergência habitacional pós-catástrofe a adotar para fornecer socorro habitacional às vitimas do desastre. Cada capítulo termina com explícitas diretrizes que, graças aos numerosos exemplos listados, poderiam constituir elementos muitos úteis para operadores e administradores envolvidos em atividades de socorro habitacional. Em 1988, a Assembleia Geral das Nações Unidas publica a Global Strategy for the Shelter to the year 2000, que tem como objetivo principal do plano estratégico, um abrigo seguro para todos “na convicção que os problemas de abrigo são universais, que nenhum país satisfez ainda completamente as suas necessidades de abrigo, e que todos podem beneficiar com a experiência de outros.” 13 Em termos de programação das habitações, declara-se a necessidade de procurar soluções centradas nos aspectos sociais, históricos e culturais dos contextos onde se opera, conferindo à programação dos assentamentos um perfil cada vez mais autónomo. Em 1990, Ian Davis organiza em Oxford uma outra conferência intitulada Disaster and the Small Dwelling, à qual se segue, dois anos depois, uma publicação realizada em colaboração com Yasemin Aysan14 que sintetiza os temas tratados durante o encontro e as conclusões alcançadas. O encontro, concebido como um seguimento da conferência que teve lugar em Oxford em 1978, sobre o mesmo tema, tem como convidados os mesmos oradores e centra-se no tema do alojamento de pequenas dimensões, no seu significado mais amplo como metáfora de artefacto, entidade económica, unidade social e cultural. Durante o debate é produzido um documento que aponta as três preocupações prioritárias, sendo elas “uma compreensão mais profunda da capacidade de resiliência dos sobreviventes de desastres; uma menor vulnerabilidade em áreas propensas a desastres; uma intervenção mais eficaz da parte de grupos externos” (Davis 1981)15. No texto são analisados os progressos feitos no decorrer da última década, tanto a propósito destas prioridades – capacidade de cooperação com as vítimas, redução de vulnerabilidade em áreas predispostas ao desastre e melhoramento das intervenções de grupos externos – como a propósito de temáticas que não tinham emergido em 1978. A conclusão é que existe ainda a necessidade de promover as três preocupações prioritárias, mas que com o passar dos anos o problema aumentou, devido a um maior número de vítimas e sobreviventes, às pressões nas populações e da urbanização, e aos esquemas de fornecimento de abrigos e habitações. O objetivo da conferência e do texto é chamar à atenção as agências financiadoras e governativas, porque “se estes problemas são enfrentados, muitas vidas serão salvadas, será reduzido o sofrimento e será protegida a propriedade dos ocupantes de pequenas acomodações”.16 13 UN GENERAL ASSEMBLY, Global Strategy for Shelter to the Year 2000, http://www.un.org/documents/ga/res/43/ a43r181.htm “convinced that shelter problems are universal, that no country has yet completely met its shelter needs, and that every country can profit from the experience of others.” 14 Uma das maiores especialistas no campo das construções de edifícios e abrigos resistentes a terramotos. Tem um PhD em Arquitetura e Planeamento Urbano na universidade Brookes de Oxford, Inglaterra. Aysan liderou o Disaster Management Centre – uma linha reconhecida de pesquisa, treino e consulta da universidade Brookes de Oxford – e desde 1995 até 1999 trabalhou com a United Nations Development Programme’s Bureau for Crisis Prevention and Reduction. Durante este período desenvolveu dois programas chave: risco, vulnerabilidade e avaliação de capacidade (VCA) e preparação ao desastre das comunidades (CBDP). A seguir, trabalhou com as Nações Unidas, antes de começar a trabalhar como consultora independente em 2004. Mais informações em: WORLD ECONOMIC FORUM, Yasemin Aysan, http://www.weforum.org/global-agenda-councils/yasemin-aysan 15 AYSAN, Yasemin, DAVIS, Ian, Disaster and the Small Dwelling: perspectives for the UN IDNDR, London: Routledge, 2013, p.8 “a deeper understanding of the coping abilities of disaster survivors; the reduction of vulnerability in disaster-prone areas; more effective intervention by outside groups.” 16 AYSAN, Yasemin, DAVIS, Ian, Disaster and the Small Dwelling: perspectives for the UN IDNDR, London: Routledge, 2013, p.20 "if these issues will be addressed during the decade, lives will be saved, distress reduced and the property of unfranchised occupants of small dwellings protected.” 128 a temporalidade na obra de shigeru ban 24 25 26 129 emergência habitacional pós-catástrofe 11. Financiamento da abrigo Um dos componentes mais importantes de um programa de alojamento depois de um desastre é o seu sistema de financiamento. As doações diretas em efetivo só são eficazes a curto prazo e podem criar uma relação de dependência entre os sobreviventes e os grupos de assistência. Resulta muito mais vantajoso tanto para as pessoas como para a comunidade, participar no financiamento dos seus programas de financiamento especialmente na reconstrução de carácter permanente. 12. Expectativas crescentes Com a tendência crescente ao aproveitamento das habitações pré-fabricadas e temporárias para permanentes, do elevado custo inicial das mesmas e apesar da frequente rejeição por razões socioculturais, o alojamento temporário acelera com frequência o desejo de uma vivenda moderna permanente, situada muito acima das expectativas possíveis. É importante que os grupos de apoio não exasperem as linhas sociais e económicas ao facilitar essa classe de habitações onde existia uma escassez extensa e crónica entre as populações de baixos rendimentos e marginais. 13. Responsabilidade dos doadores para com os beneficiários da ajuda Como a maioria das políticas de socorro e de reconstrução mais eficazes são consequência da participação dos sobreviventes na determinação e planificação das suas próprias necessidades, a atuação com êxito dos grupos de assistência dependerá da responsabilidade desses grupos face aos beneficiários da sua ajuda. 14. Diretrizes para o nível local As diretrizes em matéria de alojamento de emergência e de habitação, depois de um desastre, para comunidades determinadas, só podem ser formuladas por pessoas locais qualificadas, tendo em conta as condições locais existentes, (tipo de perigo, tradições de construção, base económica, sistema social, etc.). As prioridades dos sobreviventes, relativamente ao abrigo pós-catástrofe são: 1. permanecer tão próximos quanto possível dos lugares afectados ou destruídos e dos seus meios de subsistência 2. Mudar-se temporariamente para casas de familiares ou amigos. 3. Improvisar alojamentos temporários tão perto quanto possível da localização dos lugares destruídos (esses abrigos transformam-se com frequência em habitações reconstruídas) 4. Ocupar edifícios temporariamente definidos para o efeito. 5. Ocupar tendas levantadas nos lugares destruídos ou próximas a eles. 6. Ocupar alojamentos de emergência facilitados por organismos externos. 7. Ocupar tendas de acampamentos. 8. Ser evacuado para localidades distantes (evacuação obrigatória). Na recente revisão é importante evidenciar, na seção dos métodos de construção, a enfâse sobre o self help e a observação que a habitação não pode ser distribuída negligenciando as condições do contexto, os custos efetivos e o desenvolvimento dos efeitos a longo prazo dos esforços do país de acolhimento ou do grupo nacional. O maior recurso nos programas de construção dos alojamentos transitórios e da reconstrução são os próprios sobreviventes. O self help permite aos indivíduos deslocados realizar os seus próprios 130 a temporalidade na obra de shigeru ban 27 28 29 131 emergência habitacional pós-catástrofe projetos, com a ajuda de especialistas. Este pode ser um método eficaz de assegurar grandes níveis de participação e permite que o alojamento final se adapte melhor às necessidades do ocupante. 3.4 PROJETAR A EMERGÊNCIA Projetar a emergência significa afirmar a necessidade de programação e inovação das intervenções em caso de desastres naturais e pela mão do homem, considerando o deslocamento como consequência quase sempre certa da catástrofe. No campo da emergência, o assunto segundo o qual a tarefa da arquitetura constitui em dar forma e transformar em “pedra” as substâncias da vivência coletiva, não apresenta uma resposta possível. Os numerosos desastres no decurso dos últimos anos provaram que apesar das intenções de coordenar e administrar as operações, a realidade é muitas vezes bastante caótica e cheia de interesses conflituosos que dificultam os esforços de socorro. Arquitetos e urbanistas podiam ter neste campo um papel mais proeminente para assim tornar as intervenções mais eficientes. Embora não seja possível prever o momento exato no qual uma catástrofe vai acontecer e, sobretudo, como esta se vai desenvolver, conseguimos avaliar e definir os efeitos que esta vai produzir no território, nas cidades e nos edifícios. Esta consciência leva-nos a considerar a catástrofe não apenas no momento no qual acontece, mas no seu desenvolvimento total, que é constituído inevitavelmente por um “antes”, um “durante”, e um “depois”, aos quais correspondem diferentes tipologias de intervenção. Durante a International Conference on Disasters and Small Dwellings21 de 1978 em Oxford, foi acordado que a intervenção de socorro deve ser dividida em três tempos: 1. A emergência: define o momento imediatamente após o desastre, onde o objetivo prioritário é encontrar soluções rápidas de asilo e proteção. 2. A recuperação: identifica a fase de transição entre a emergência e a relocação definitiva. Esta fase intermédia tem duração variável, que pode ser de algumas semanas, meses ou até anos. O objetivo consiste na criação de condições favoráveis para a reativação das atividades humanas, conferindo à característica de temporalidade das intervenções a capacidade de oferecer condições ambientais e habitacionais suficientes para uma vivência digna das populações acolhidas. 3. A reconstrução: constitui o leque de medidas e de processos finalizados para um regresso ao estado de “normalidade”, antecedente ao desastre, que inclui as operações de restauro e/ou consolidação das estruturas de carácter permanente. Juntamente a estes três pontos existe uma fase anterior ao desastre, que podemos indicar como “fase 0”, que consiste na preparação, na mitigação e na redução dos riscos (UNHCR, Shelter after Disaster: Guidelines for Assistance)22. 21 AYSAN, Yasemin, DAVIS, Ian, Disaster and the Small Dwelling: perspectives for the UN IDNDR, London: Routledge, 2013 22 UNDRO, Shelter after Disaster: Guidelines for Assistance, New York, 1982, https://www.sheltercluster.org/sites/default/files/docs/shelterafterdisaster-undro-jul82.pdf 132 a temporalidade na obra de shigeru ban 30 31 32 133 emergência habitacional pós-catástrofe É importante clarificar que a solução para o problema do deslocamento não pode ser simplesmente uma e que cada evento exige respostas diferentes dependentemente das características do desastre, do contexto no qual acontece, das condições económicas do lugar e da fase operativa. Estes fatores influenciam tanto a tipologia da habitação, quanto a duração da intervenção, que depende do seu período de uso. A partir desta análise podemos evidenciar que relativamente às condições económicas do lugar, ou seja, dependendo do facto de se tratar de um país em desenvolvimento ou desenvolvido, a modalidade de intervenção varia tanto em termos de oferta de estruturas e infraestruturas preexistentes no sitio, utilizáveis durante as fases de socorro, como em termos de exigência das populações afectadas, que serão maiores relativamente ao conforto nos países desenvolvidos que consequentemente requererão a tipologias habitacionais mais complexas e dotadas de um nível de bem-estar mais alto. Logo na fase de emergência, nos casos onde é possível, o deslocamento temporário é resolvido através da mudança dos sobreviventes para casas de familiares ou amigos e/ou da ocupação de estruturas públicas como ginásios. Quando estas soluções não se apresentam como opções, por exemplo no caso dos países em desenvolvimento, onde podem não existir estruturas públicas capazes de abrigar um número consistente de pessoas, recorre-se à utilização de tendas. Apesar de ter melhorado ao longo dos anos em termos de qualidade, as tendas onde são abrigados os sobreviventes são facilmente perecíveis e não deviam ser utilizadas durante um período demasiado prolongado. Por essa razão, geralmente, na sucessiva fase da recuperação até à fase de reconstrução tende-se a realojar os sobreviventes em abrigos transitórios. Estas estruturas devem permanecer até o fim da construção das estruturas de carácter permanente e devem oferecer condições habitacionais adequadas. As tipologias de sistemas habitacionais temporários propostas até hoje, como explica Tiziana Firrone em Sistemi abitativi di permanenza temporanea,23 podem resumir-se a dois sistemas estruturais fundamentais: por um lado os sistemas de involucro flexível, como a tenda, expressão das culturas nómadas, estruturas leves, extensíveis e insufláveis; por outro lado os sistemas de involucro rígido, como a casa pré-fabricada, o contentor, a roulotte e a autocaravana. A partir destas matrizes da tradição arquitetónica tem origem a ampla produção atualmente presente no mercado. Todavia, pode dizer-se que, relativamente ao campo dos sistemas habitacionais temporários, não existe uma solução universal, idónea a todas as exigências e é difícil imaginar que um modelo de habitação possa ser adaptável, de forma indiferente, às varias tipologias de utilizadores. Isto acontece porque se trata, quase sempre, de unidades habitacionais projetadas para usos específicos e que são adaptadas a exigências diferentes daquelas para as quais foram concebidas. No caso especifico da emergência habitacional, as soluções adotadas até agora evidenciam, em muitos casos, uma falta de evolução assim como características, sob muitos aspectos, inapropriadas. Como afirma Roberto Bologna24, o erro que os arquitetos tendem a cometer durante a fase de projeto é o de seguir a lógica da máquina de habitar, inteligente e concebida como produto pronto a usar, estandardizada e processada de forma indiferenciada em qualquer lugar e para qualquer situação. Este produto muitas vezes não considera as necessidades locais e os possíveis recursos disponíveis no sitio e como consequência adapta-se mal aos costumes e às tradições culturais e tecnológicas do contexto onde se vai inserir. A inovação devia estar na utilização dos recursos tecnológicos e das 23 FIRRONE, Tiziana, Sistemi abitativi di permanenza temporanea, Roma: Aracne editrice, 2010 24 BOLOGNA, Roberto em Emergenza del progetto, progetto dell’emergenza. Architetture con-temporaneità, Milano: Federico Motta, 2005, p. 15 134 a temporalidade na obra de shigeru ban 33 34 35 135 emergência habitacional pós-catástrofe possibilidades construtivas atuais numa lógica de ações segundo a qual a construção temporária não é pensada como produto acabado mas antes como processo de projetação, construção, desconstrução e reutilização. 25 Embora existam numerosas propostas alternativas, com lógicas estratégicas muito diferentes entre si, tanto como forma de produto comercializado quanto como estudo projetual, poucos são os modelos habitacionais que respondem aos principais requisitos necessários para uma intervenção de carácter temporário, enquanto que aqueles que os satisfazem todos são quase inexistentes. Neste limitado grupo de soluções encontram-se as propostas de habitação temporária de Shigeru Ban. As soluções do arquiteto são concebidas para abrigar as pessoas durante a fase de recuperação e integram a tipologia dos sistemas de involucro rígido. Os projetos são concebidos caso a caso, graças ao desenvolvimento, no decorrer dos anos, de três principais sistemas estruturais, correspondentes a três tipos de necessidade: privacidade e conforto no interior de edifícios públicos preexistentes, estruturas habitacionais temporárias em países desenvolvidos e estruturas habitacionais temporárias em países em desenvolvimento. Estes sistemas de base, constantemente revisitados, parcialmente reformulados e integrados com materiais e técnicas locais, apresentam uma lógica e um grau de flexibilidade tal que, através das devidas alterações, são adaptáveis a uma grande variedade de situações. Além disso, o atento estudo do processo produtivo, executivo e de desmantelamento que está na base de cada intervenção permite que estes possam responder aos principais requisitos necessários para uma intervenção de carácter temporário. 3.4.1 A dimensão temporal Abrigar os sobreviventes deslocados num curto espaço de tempo é uma das prioridades absolutas em caso de catástrofe. Emergência significa condição limite e, como tal, pede respostas rápidas e verificadas, e uma ativação imediata para enfrentar uma condição de necessidade inesperada. Uma situação de emergência necessita de recursos imediatamente disponíveis e no mais curto espaço de tempo possível, mas implica também a necessidade de ações efetivas, bem organizadas e definidas no tempo, aptas a reconstruir uma situação de normalidade, pressupondo a temporariedade da própria ação. Assim, na fase de projetação, é importante prestar particular atenção ao papel da dimensão temporal. Na projetação da primeira forma de acolhimento, a variável tempo tem um papel fundamental e por consequência a rapidez de montagem da estrutura deve ser maximizada. Os tempos alongam-se largamente no caso de um grande número de componentes, da falta ou escassez de elementos préfabricados, de instruções complexas e pouco intuitivas. Ao aumentar o número de componentes é mais fácil que estes fiquem perdidos, danificados ou mal posicionados. Como explicado em L’abitabilità transitoria: la ricerca architettonica per nuove strategie abitative 26, as tendas fornecidas durante a primeira fase de emergência constituem refúgios temporários desprovidos de qualquer conforto, onde os sobreviventes são alojados por um período que vai desde o momento da catástrofe até cerca de 12 meses depois, ainda que em alguns casos se possa estender por um período mais longo. A seguir, o sobrevivente pode mudar-se para diferentes formas de 25 SIGNORONI, Chiara, Dalla catastrofe ad oggi. analisi dell'emergenza abitativa, tese de mestrado em arquitetura, Politécnico de Milão, 2011/2012 26 CECERE, Tiberio, GUIDA, Ermanno., MANGO, Roberto, L’abitabilità transitoria: la ricerca architettonica per nuove strategie abitative, F.lli Fiorentino, Napoli, 1984 136 a temporalidade na obra de shigeru ban “Não existe um protótipo universal de abrigo transitório porque a arquitectura humanitária não se pode comparar à medicina em que uma certa doença de ser curada sempre com o mesmo medicamento. Em arquitectura, não existe uma solução universal, mas antes soluções que se adaptam a diversas situações.” “Non esiste un prototipo universale di temporary shelter perchè l’architettura umanitaria non si può paragonare alla medicina in cui una certa malattia dev’essere curata sempre con lo stesso farmaco. In architettura non esiste una soluzione universale, ma soluzioni che si adattano alle diverse situazioni.” (Shigeru Ban, JODIDIO, Philip, Shigeru Ban 1957. L’architettura della sorpresa, Köln: Taschen, 2012, p.33) 36 37 137 emergência habitacional pós-catástrofe abrigo transitório e temporário antes de obter uma solução de alojamento permanente. Quando a mudança para casas de familiares, amigos e/ou o abrigo em estruturas públicas pré- -existentes não constituem uma opção, as situações que o sobrevivente deslocado enfrenta podem resumir-se a três casos:27 O primeiro, que constitui o caso mais frequente nos países em desenvolvimento, prevê uma fase inicial de acolhimento em tendas, com duração de cerca de 12 meses desde o início da emergência. Depois destes 12 meses, com a diminuição do nível de emergência, as populações locais intervêm através de um processo de autoconstrução com materiais aleatórios, integrando e transformando as tendas em alojamentos definitivos que, todavia, resultam altamente insalubres e privados de qualquer conforto. O segundo caso também prevê uma primeira fase onde a intervenção inicial é constituída pelo recurso à tenda provisória, mas diferentemente do primeiro caso. As populações ficam a viver em condições insalubres e desconfortáveis durante longos anos, até que seja organizada uma reconstrução programada. Durante a primeira fase os próprios habitantes, com os próprios recursos, tratam de melhorar as condições da tenda, a fim de torná-la mais habitável. Neste caso, o investimento económico é certamente maior, considerando que a reconstrução consiste na construção de verdadeiras casas definitivas. Finalmente, o terceiro caso, mais raro do que os outros, principalmente porque é mais caro, prevê três fases temporais. A fase inicial, de duração de aproximadamente 12 meses, na qual se intervém através de tendas; a fase intermédia, onde se prevê a chegada dos transitional shelter, ou seja, abrigos transitórios que devem acompanhar as populações locais no período seguinte à emergência oferecendo condições de maior conforto; a fase final, constituída pela reconstrução. Esta solução exige muitas vezes um grande investimento económico, que poucos países em situações de emergência têm capacidade de suportar, e o custo dos transitional shelter é dificilmente proporcional às funções que estes conseguem satisfazer. Todavia, se pensados segundo critérios tais como a temporalidade e reversibilidade, podem representar uma resposta ótima do ponto de vista funcional e qualitativo. 3.4.2 Requisitos para a projetação do alojamento temporário Uma primeira definição de alojamento temporário, transitional shelter, refere-se a um espaço habitacional coberto com um ambiente de vida seguro e saudável, com privacidade e dignidade dos ocupantes, durante o período desde o conflito ou desastre natural e à criação de uma solução habitacional definitiva 28. Estes alojamentos são utilizados para o acolhimento dos sobreviventes durante o período da recuperação e têm que garantir um adequado nível de conforto em toda a duração da fase da restauração ou reconstrução das habitações permanentes. Uma vez acabada a sua função, os transitional shelter são relocados para outros territórios, e implementados como habitações de longo prazo ou desmontados, por vezes com o objectivo de recuperar o material que possa posteriormente ser reutilizado 27 MARTIGNONI, Marta, MELZI, Laura, MINOIA, Roberta, TenT-Re, tese de Mestrado, Politecnico de Milão, 2012, p.113 28 CORSELLIS, Tom, VITALE, Antonella, IFRC, Transitional settlements displaced populations, http://www.ifrc.org/ PageFiles/95884/D.01.06.%20Transitional%20Settlement%20Displaced%20Populations_%20OXFAM%20and%20 Shelter%20Centre.pdf, p.11. “Shelter which provides a habitable covered living space and a secure, healthy living environment, with privacy and dignity, to those within it, during the period between a conflict or natural disaster and the achievement of a durable shelter solution”. 144 a temporalidade na obra de shigeru ban 1 2 3 145 van e as intervenções humanitárias 4.0 VAN E AS INTERVENÇÕES HUMANITÁRIAS “To work for each and every human being is the mission of the architect.”1 Shigeru Ban Podíamos afirmar que o empenho na experimentação estrutural de Shigeru Ban e a viva e constante investigação direcionada para a redefinição dos conceitos estéticos e espaciais não faria sentido se tudo isso não fosse acompanhado por um forte contributo humanitário. A atenção à sociedade e todas as suas complexidades carateriza a obra de Shigeru Ban na sua totalidade. A qualidade de vida, enquanto elemento fundamental para o ser humano, constitui sempre um objetivo no trabalho do arquiteto e as suas inovações estruturais são aplicadas em todos os sectores, de forma a que todas as pessoas possam beneficiar delas. A isso, segue-se uma atenção redobrada aos menos favorecidos, às áreas afectadas por desastres naturais e às pessoas que vivem em situação de emergência. Sobre isto, o próprio arquiteto afirma: “acho que as estruturas para a pessoa em áreas afectadas por desastres devem ser confortáveis e bonitas, de forma a que as pessoas se possam sentir à vontade e possam ter a possibilidade de recuperar: se tudo isto não fosse realizável, não poderia fazer arquitetura, já que não traria nenhum contributo à sociedade contemporânea.”2 Uma peculiaridade da arquitetura de Ban é certamente a sua extrema flexibilidade projetual. A desenvoltura com que se move entre diferentes tipologias arquitectónicas, conseguindo elaborar sempre soluções em linha com os seus princípios, mas ao mesmo tempo customizadas e bem ponderadas. De facto, os princípios utilizados pela Paper Tube Structure podem levar à realização de refinadas villas onde a leveza, a transparência e a flexibilidade na distribuição planimétrica são 1 LUNA, Ian, MIYAKE, Riichi, GOULD, Lauren A., Shigeru Ban: Paper in architecture, New York: Rizzoli International Publications, 2009, p. 21. 2 ALESSIO, Lorena, Shigeru Ban, Roma: Edilstampa 2008, p.37. "Penso che le strutture per le persone in aree disastrate debbano essere comode e belle, affinché le persone stesse possano sentirsi a loro agio ed avere la possibilità di migliorare: se non fosse realizzabile tutto ciò, non potrei fare dell'architettura, perché non apporterei un contributo alla società contemporanea." 146 a temporalidade na obra de shigeru ban 4 5 6 147 van e as intervenções humanitárias extremamente interessantes e inovadoras, assim como nas sua aplicações em estruturas temporárias para sobreviventes de desastres. Em entrevistas, Ban reflete muitas vezes sobre o papel do arquiteto e de como este se foi alterando nos últimos trezentos anos. Os arquitetos construíam monumentos para as pessoas pertencentes a uma certa classe social privilegiada e para determinados grupos religiosos ou políticos. Após a Revolução Industrial, que provocou uma crescente demanda por alojamentos económicos para as novas forças trabalhadoras os arquitetos foram levados a projetar para um público mais amplo e a ocupar-se cada vez mais da temática social. Mas quando Ban começou a trabalhar como arquiteto no Japão, deparou-se com uma realidade diferente da que imaginava. Como ele próprio afirma: “Apercebi-me que o público em geral no Japão não tinha uma concepção do papel ou função do arquiteto na sociedade”. A principio, pensou que isto se devesse ao facto de que a figura do arquiteto no Japão era bastante recente, sendo que antes da Restauração Meiji (1868) era o toryo,3 ou seja o mestre carpinteiro, a ocupar-se da projetação dos edifícios. Mas em breve, percebeu que a razão era, simplesmente, que o papel principal dos arquitetos era o de “tornar visível o poder invisível das politicas e riquezas possuídas pelas classes privilegiadas ... através duma arquitetura monumental, e que não estavam necessariamente a trabalhar para as pessoas.” 4 Firme opositor da concepção segundo a qual a arquitetura é meramente uma troca comercial entre clientes e construtores, Ban interessou-se em questões de carácter global e assim começou a ocuparse do problema do deslocamento pós-catástrofe, seguindo o desejo de proporcionar um melhoramento efetivo das condições de vida das pessoas afectadas. “A experimentação nas técnicas de montagem a seco com materiais de baixo custo facilmente reempregáveis, projetada no horizonte das responsabilidades colectivas em matéria de sustentabilidade ambiental e de padronização construtiva para uma produção ao serviço duma sociedade de massas, encontraram um fértil campo de aplicação nas situações de emergência derivadas de calamidades naturais e conflitos”5. Em 1995, Ban fundou, juntamente com o seu sócio Koh Kitayama, a organização não governamental Voluntary Architects’ Network (VAN), com a principal preocupação de estabelecer uma rede de arquitetos e de outros indivíduos que partilhavam a consciência da falta de habitações de qualidade e das miseráveis condições de vida, em várias partes do mundo. A VAN é constituída por arquitetos e estudantes de arquitetura e é através de uma constante pesquisa e intervenção ativa em cenários de desastre natural e de conflito, que exerce uma atividade de socorro, construindo residências e equipamentos temporários que oferecem às vitimas das catástrofes conforto, proteção, e um nível adequado de privacidade e dignidade. Além disso a VAN incorpora um carácter de angariação de fundos, visto estar conectada com a cadeia de fornecedores de materiais e em constante promoção, tanto de uma consciência como do desenvolvimento de capacidades técnicas, entre outras iniciativas. 3 Como explica Masao Noguchi em Da carpentiere a ingegnere. Scuole di architettura in Giappone, em Japão, a profissão de mestre carpinteiro, criador e construtor da arquitetura tradicional tem uma historia secular, enquanto a profissão do arquiteto como especialista do projeto foi introduzido pelo Ocidente apenas a partir da Restauração Meiji, graças ao processo de ocidentalização e de modernização, e quando foi fundada a primeira universidade de arquitetura (1877). 4 BAN, Shigeru, Voluntary architects' network: making architecture, nurturing people: from Rwanda to Haiti, Tokyo: Inax, 2010, p.45. "render visible the invisible powers of politics and wealth belonging to the privilege classes ... through monumental architecture, they were not necessary working for people." 5 MARZOT, Nicola, Shigeru Ban, em http://www.archphoto.it/archives/399. "La sperimentazione sulle tecniche di montaggio a secco con materiali a basso costo facilmente reimpiegabili, proiettata sullo sfondo delle responsabilità collettive in materia di sostenibilità ambientale e di standardizzazione edilizia per una produzione al servizio di una società di massa, trovano un fertile campo di applicazione nelle situazioni di emergenza conseguenti a calamità naturali e conflitti". 148 a temporalidade na obra de shigeru ban 7 8 9 149 van e as intervenções humanitárias Entre 2002 e 2009, a base das pesquisas da VAN era o Paper Temporary Studio da universidade de Keio SFC, projetado pelo próprio arquiteto e montado pelas mãos dos seus estudantes. As atividades primárias do laboratório eram representadas pelos projetos para a emergência habitacional pós-catástrofe, não só em circunstância de desastre mas também como argumentos de investigação quotidiana, fruto duma intensa colaboração com os estudantes da faculdade. Numerosas maquetas em escala real foram construídas e testadas no interior desta estrutura, como por exemplo o Paper Partition System, um sistema de partição criado para oferecer privacidade às pessoas alojadas em centros de evacuação. As atividades humanitárias de VAN podem ser divididas em três categorias: projetos de socorro de emergência no interior de centros de evacuação, como escolas, ginásios e salas municipais; estruturas e habitações temporárias; estruturas e habitações permanentes. Em 2004, a VAN realizou em Kirinda, Sri Lanka, quarenta e cinco habitações permanentes como parte da reconstrução da aldeia de pescadores, destruída pelo tsunami que assombrou o Oceano Indiano. Os materiais utilizados neste projeto são aqueles que abundam localmente: blocos de terra prensados, constituídos por uma mistura de argila e betão facilmente encontrável no Sri Lanka, e madeira da árvore da borracha para o mobiliário fixo. Na composição do projeto, Ban alterna entre superfícies em terra e paredes-mobiliário e ainda grandes portas em livro feitas de madeira, que permitem um ampla vista sobre o grande pórtico e criam continuidade espacial entre o interior e o exterior. Um dos princípios que está na base de todas as intervenções da VAN é a escolha dos materiais tendo sempre em consideração a facilidade com que podem ser encontrados, ou seja a preferência pela utilização de materiais locais, ordinários e low-tech, a fim de reduzir ao mínimo as operações de transporte e garantir o baixo custo do produto final. Nos projetos, os materiais locais mais convenientes e apropriados constituem geralmente partes do revestimento, enquanto a estrutura de suporte é quase sempre formada por tubos de papel, estando estes disponíveis em qualquer lugar e adaptáveis a uma enorme variedade de utilizações. Um outro requisito fundamental da VAN é a cooperação com as autoridades, as agências e a população local, assim como o envolvimento das vitimas na construção dos alojamentos, tanto para torná-los participantes na realização dos seus abrigos (questão psicológica), como para reduzir o custo com a mão-de-obra (questão económica). Ban assume que hoje um dos grandes desafios para os arquitetos é a capacidade de responder às necessidades que surgem nas áreas afectadas por desastres naturais, e que são por vezes, agravadas pela ação mão do homem. Afirma: “É raro pessoas morrerem devido ao facto de que a terra treme debaixo dos seus pés. As pessoas morrem porque são presas e esmagadas debaixo de edifícios colapsados”6. Com a sua intensa atividade de socorro pós-catástrofe, Ban fala do quanto é determinante o empenho social, não considerando os problemas ambientais e sociais como distantes da atividade do arquiteto, mas antes pelo contrário, diretamente influenciáveis pelas escolhas do projetista. Em Maio 2015, logo depois do terramoto que atingiu o Nepal no dia 25 de abril, Ban anunciou a participação da VAN no plano de construção de abrigos de emergência e outros equipamentos, dividido em três fases. Numa primeira fase o objetivo será montar tendas para oferecer refúgios imediatos. Passada a fase de emergência imediatamente após o desastre, VAN colaborará com 6 LUNA, Ian, MIYAKE, Riichi, GOULD, Lauren A., Shigeru Ban: Paper in architecture, New York: Rizzoli International Publications, 2009, p. 22. "It is rare for people to die from the earth shaking beneath them. People die because they are crushed underneath collapsing buildings." 150 a temporalidade na obra de shigeru ban 10 11 12 151 van e as intervenções humanitárias arquitetos e estudantes locais para construir habitações temporárias com material encontrado in loco e, a seguir, na última fase participará na reconstrução, planeando estruturas permanentes.7 Para percebermos a sua evolução na projetação de estruturas em contexto de emergência, apresenta-se de seguida uma análise de alguns projetos do arquiteto, desenvolvidos ao longo dos anos, organizados por tipologia de intervenção: abrigos de emergência, sistemas de partição, alojamentos temporários e obras públicas. 4.1 ABRIGOS DE EMERGÊNCIA 4.1.1 Paper Emergency Shelter 01 Na Primavera de 1995, Shigeru Ban propôs ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR) um sistema construtivo baseado em tubos de papel de fácil montagem para a criação de abrigos para as vitimas da guerra civil no Ruanda. Vitimas essas que fugiam do genocídio em direção à Tanzânia e ao Zaire (agora República Democrática do Congo). A guerra civil no Ruanda deixou mais de dois milhões de pessoas em condições de vida trágicas e foi a partir desse momento que se iniciou o trabalho humanitário de Ban tornando-se a arquitetura de emergência uma das suas principais diretrizes de intervenção. Para enfrentar esta emergência humanitária, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados forneceu à população deslocada folhas de PVC, mas não incluiu os adequados elementos de suporte às folhas. Como consequência, as populações resolveram o problema cortando árvores das florestas circundantes, provocando assim em poucos meses uma completa desflorestação da área, fazendo com que à emergência humanitária se adicionasse também um desastre ambiental. Para bloquear o fenómeno, o UNHCR forneceu elementos tubulares em alumínio para substituição da estrutura em madeira. A tentativa, todavia, demonstrou-se um fracasso. A população faminta vendeu o alumínio, considerado em África um metal precioso, preferindo voltar a utilizar a madeira dos ramos e dos troncos para fazer as estacas. Para enfrentar a crítica operação de desflorestamento, era necessária uma solução que recorresse a materiais alternativos e a proposta de Ban de utilizar tubos de papel, facilmente utilizáveis e difíceis de revender ou roubar, foi imediatamente bem aceite. Assim, numa primeira fase, Ban dedicou-se ao desenvolvimento de três protótipos de abrigos temporários, realizados e produzidos na fabrica de mobiliário Vitra, na Suíça. No seu processo de projetação, Ban assumiu como requisitos, a durabilidade, o baixo custo e a resistência às térmitas, assim como previu o uso de maquinaria simples para a produção dos materiais no local da obra assim como a sua facilidade de montagem, de forma a poder erguer tendas apenas com a ajuda das organizações médicas de apoio às vitimas, como a Médecins sans Frontières. Por razões de praticidade foi utilizada como cobertura a folha de plástico de dimensões 4x6m fornecida aos sobreviventes pelo UNHCR. O custo total tinha que corresponder a $50 por unidade. O primeiro protótipo era constituído por uma tenda triangular com um tubo de papel posicionado no topo enquanto cordas e estacas asseguravam a tensão necessária. 7 FRANCO, José Tomas, Shigeru Ban lanza campaña para construir refugios de emergencia en Nepal, http://www.plataformaarquitectura.cl/cl/766610/shigeru-ban-lanza-campana-para-construir-refugios-de-emergencia-en-nepal 152 a temporalidade na obra de shigeru ban 13 14 15 153 van e as intervenções humanitárias O segundo, com um desenho assimétrico, de forma a tornar a maior parte do espaço interno utilizável, apresentava os tubos de papel assemblados no topo em forma de “V” presos por cordas e estacas que forneciam tensão à estrutura. O terceiro e último protótipo tinha dimensões maiores, equivalentes a 3,5m de largura, 4m de cumprimento e 1,7m de altura, com um área total de 14m2, para abrigar um grupo de 4 pessoas respeitando os padrões dimensionais mínimos fornecidos no Handbook for Emergencies do UNHCR (3,5m2 por pessoa). Foi revestido por três folhas de plástico, uma maior e duas mais pequenas, podendo ser extensível através da conexão com outros abrigos do mesmo tipo. A sua estrutura, assim composta, tornava uma maior parte da área interna utilizável, relativamente às outras opções e criava um fator flexibilidade que permitia a sua utilização para outros fins, como hospital de campanha ou outros equipamentos de apoio. Por estas razões foi este o protótipo a ser utilizado. Depois da breve fase de montagem nas instalações da Vitra, em 1996, as tendas foram transferidas para o jardim da sede central das Nações Unidas em Genebra para uma apresentação final ao UNHCR. Durante a segunda fase foi explorada a produção in loco. Em fevereiro de 1997, os especialistas da Sonoco foram para o centro logístico da Médecins sans Frontières em Bordéus, com a maquinaria necessária para a criação dos tubos de papel e com as matérias primas necessárias. Ao mesmo tempo os representantes da Sonoco treinaram a equipa de médicos de forma a estes poderem operar a maquinaria, demonstrando assim a praticabilidade da produção de grande quantidades de tubos em locais de emergência. No ano seguinte, foram construídos no Ruanda apenas cinquenta exemplares da chamada Paper Tube Structure 10, monitorizados por Ban a fim de avaliar o nível de funcionalidade do sistema. O reduzido número de unidades deveu-se à substituição, no UNHCR, do responsável do projeto, o que levou a uma perda de interesse na proposta, como explica o próprio Ban numa entrevista 8. Todavia este projeto, além de marcar o inicio do seu empenho humanitário e da sua cooperação com as ONG, representa também a primeira aplicação do papel estrutural em contexto de emergência, com resultados positivos. Embora a crise no Ruanda tenha dado origem a situações extremamente dramáticas, este esforço para encontrar formas mais adequadas de alojar populações em circunstâncias catastróficas contribuiu largamente para o melhoramento dos métodos empregues pelo UNHCR ou pelas várias ONG que fornecem apoio nestas situações. 4.1.2 Paper Emergency Shelter 02 Em 2008, a atenção da VAN muda-se para o Sri Lanka. A guerra civil que teve inicio em 1993 entre o governo e os Tigres da Libertação do Tamil Eelam (TLLE), a organização armada separatista que lutava pela criação de um estado independente Tamil Ealam, nesta altura intensificou-se, gerando numerosos deslocados internos confinados à área dominada pelos terroristas. A Organização Internacional para as Migrações (IOM) no Sri Lanka comissionou a Shigeru Ban a projetação de abrigos para as vítimas da guerra civil. Para poder fornecer os abrigos no interior das fronteiras da TLLE era necessário a permissão do governo do Sri Lanka, que aceitou um pacto mediante a condição que entre os materiais empregues não houvessem metais ou betão, sendo que estes podiam ser utilizados como armas. 8 MAERKLE, Andrew, Shigeru Ban. Solving Problems through Design, em http://www.art-it.asia/u/admin_ed_feature_e/ U1imzvxeNqKokfsbg64A