Relatório de Estágio - TIPS, Lda
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FACULDADE DE LET R A S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Ana Catarina Gonçalves Palas 2º Ciclo de Estudos em Tradução e Serviços Linguísticos Relatório de estágio – TIPS, Lda. 2013 Orientador: Thomas Hüsgen (Professor Doutor, Faculdade de Letras da UP) Coorientador: Félix do Carmo (diretor-geral da TIPS, Lda.) Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva
ii The practice of translation rests on two presuppositions. The first is that we are all different: we speak different tongues, and see the world in ways that are deeply influenced by the particular features of the tongue that we speak. The second is that we are all the same — that we can share the same broad and narrow kinds of feelings, information, understandings, and so forth. Without both of these suppositions, translation could not exist. Nor could anything we would like to call social life. Translation is another name for the human condition. David Bellos, Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the Meaning of Everything
iii RESUMO Neste relatório pretende-se analisar as atividades desenvolvidas durante o estágio curricular realizado na TIPS, Lda. no âmbito do Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos da FLUP. Esta análise centra-se nas tarefas de tradução e pósedição realizadas, principalmente em áreas de especialização como medicina, direito, engenharia mecânica e marketing. Pretende-se, também, refletir sobre o papel do estágio no desenvolvimento dos conhecimentos sobre tradução. Palavras-chave: tradução, pós-edição, tradução assistida por computador, CAT, tradução técnica, tradução jurídica, tradução científica, tradução automática, testes de software. ABSTRACT This report analyses the tasks completed during the internship at TIPS, Lda., which was part of the Master’s degree in Translation and Language Services at FLUP. The focus of this analysis is the tasks of translation and post-editing, especially in areas of expertise such as Medicine, Law, Mechanical Engineering and Marketing. It also aims to reflect on the role of the internship in the development of the knowledge in translation. Keywords: translation, post-editing, computer-assisted translation, CAT, technical translation, legal translation, scientific translation, automatic translation, software testing.
iv ÍNDICE Agradecimentos ..................................................................................................................................vi Introdução ........................................................................................................................................... 1 Parte 1: Apresentação......................................................................................................................... 2 1.1. Percurso académico .............................................................................................................. 2 1.2. Estágio na TIPS .................................................................................................................... 4 Parte 2: Análise quantitativa das tarefas .......................................................................................... 8 2.1. Tipos de tarefas .......................................................................................................................... 8 2.2. Áreas temáticas .......................................................................................................................... 9 2.3. Categorias de textos ................................................................................................................. 10 2.4. Clientes .................................................................................................................................... 11 2.5. Ferramentas de apoio à tradução utilizadas ............................................................................. 11 2.5. Material de referência, indicações do cliente e memórias de tradução .................................... 13 2.7. Número de palavras ................................................................................................................. 15 2.7.1. Tipo de tarefa .................................................................................................................... 15 2.7.2. Área temática .................................................................................................................... 16 2.7.3. Médias mensal, semanal e por hora .................................................................................. 16 Parte 3: Análise e discussão de tarefas ............................................................................................ 19 3.1. Descrição geral dos tipos de tarefas ......................................................................................... 19 3.1.1. Pós-edição......................................................................................................................... 19 3.1.2. Tradução ........................................................................................................................... 25 3.1.3. Alinhamentos .................................................................................................................... 27 3.1.4. Testes de software ............................................................................................................ 29 3.2. Problemas de tradução ............................................................................................................. 32 3.2.1. AO NÍVEL DOS TERMOS ..................................................................................................... 34 3.2.1.2. Terminologia científica .................................................................................................. 40 3.2.1.3. Terminologia jurídica .................................................................................................... 46 3.2.2. AO NÍVEL DOS SINTAGMAS ................................................................................................ 52 3.2.2.1. Sintaxe complexa ........................................................................................................... 52 3.2.2.2. Expressões idiomáticas .................................................................................................. 55 Conclusão ........................................................................................................................................... 61 Bibliografia ........................................................................................................................................ 63 Anexos ................................................................................................................................................ 66 Anexo 1........................................................................................................................................... 66 Anexo 2........................................................................................................................................... 67 Anexo 3........................................................................................................................................... 68
v ÍNDICE DE FIGURAS Fig. 1 – Número de trabalhos, e respetiva percentagem, realizados por tipo de tarefa .... 8 Fig. 2 – Percentagens das áreas de especialização dos textos .......................................... 9 Fig. 3 – Categorias de textos traduzidos......................................................................... 10 Fig. 4 – Ferramentas utilizadas para tradução ................................................................ 12 Fig. 5 – Total de palavras por tipo de tarefa ................................................................... 15 Fig. 6 – Número total e percentagem de palavras traduzidas por área temática ............ 16 Fig. 7 – Média de palavras traduzidas e pós-editadas por mês ...................................... 17 Fig. 8 – Média de palavras traduzidas e pós-editadas por semana ................................. 17 Fig. 9 – Pós-edição: Screenshot de um ficheiro para pós-edição em SDLX.................. 20 Fig. 10 – Pós-edição: Original, tradução automática, respetiva pós-edição e revisão (por outro tradutor) ................................................................................................................. 23 Fig. 11 – Testes de software: Exemplo de instruções de testes de software para browsers ........................................................................................................................................ 29 Fig. 12 – Testes de software: Screenshot das instruções de testes de software para smartphones não concluídas ........................................................................................... 30 Fig. 13 – Testes de software: Screenshot de uma das opções da aplicação em que se realizam testes de software ............................................................................................. 31 Fig. 14 – Problema de tradução 1: Dispositivo da apresentação de PowerPoint para a contextualização do termo “electric heat gun” ............................................................... 37 Fig. 15 – Problema de tradução 1: Screenshot dos resultados encontrados durante a pesquisa de terminologia relativa ao termo “electric heat gun” ..................................... 37 Fig. 16– Problema 1: Screenshot do resultado encontrado durante a pesquisa de terminologia relativa ao termo “decapador térmico” ..................................................... 38 Fig. 17 – Problema de tradução 2: Tabela dos fatores relacionados com o doente........ 42 Fig. 18 – Problemas de tradução 2: “afinidade cultural”, screenshot de índice (Almeida, 2012). .............................................................................................................................. 45 Fig. 19 – Problema de tradução 2: Afinidade populacional – screenshot de tese (João, 2011:53) .......................................................................................................................... 45 Fig. 20 – Problema 3: Screenshot da pesquisa de “no live trace” no Google ................ 51 Fig. 21 – Problema 4: Sugestão de tradução de frase longa e complexa e respetiva revisão ............................................................................................................................. 54 Fig. 22 – Problema 5: Proposta de tradução de expressão idiomática ........................... 57
vi AGRADECIMENTOS Aos meus pais, acima de tudo. Ao Professor Doutor Thomas Hüsgen pela orientação e disponibilidade. Aos restantes professores do MTSL, em especial à Professora Doutora Belinda Maia, às Dra.s Elena Zagar Galvão e Joana Forbes, à Professora Doutora Maria Fátima de Oliveira e ao Dr. Mark Poole. Aos colegas de mestrado, principalmente à Ana e à Ana. À equipa da TIPS: Diogo Gonçalves, Félix do Carmo, Marlene Moreira, Pedro Moreira, Sérgio Lira, Sónia Lopes, Suzana Simões.
1 INTRODUÇÃO O presente relatório insere-se no âmbito do estágio curricular realizado no segundo ano do mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto na empresa TIPS – Tradução, Interpretação e Prestação de Serviços, Lda, sob a supervisão do Professor Doutor Thomas Hüsgen e orientação do Dr. Félix do Carmo. Neste relatório pretende-se descrever o percurso realizado nos meses correspondentes à realização do estágio, sendo este dividido em três partes. Na primeira parte é feita uma contextualização do relatório: são apresentadas informações sobre o percurso académico, é descrito o processo de procura de estágio e é feita uma apresentação da empresa e o método de trabalho seguido. A segunda parte é dedicada à análise quantitativa das tarefas realizadas: são apresentadas informações relacionadas com o tipo de tarefas, os tipos de texto ou géneros trabalhados, dados relacionados com produtividade (número de palavras, tempos médios de realização das tarefas) e também informações mais específicas relacionadas com memórias de tradução, indicações de clientes, materiais de referência, entre outros. O principal objetivo deste tipo de análise é descrever quantitativamente o trabalho total realizado durante o estágio. Na terceira e última parte deste relatório é feita uma descrição mais detalhada do tipo de tarefas realizadas; são analisados alguns problemas de tradução encontrados no âmbito das terminologias técnica, científica e jurídica, sintaxe, expressões idiomáticas e formatação de textos; também são apresentadas as soluções, ou ofertas de informação, propostas e justificação das mesmas. Para a realização desta análise foi utilizado o método previamente adotado nas diferentes aulas de tradução lecionadas pela Dra. Elena Galvão, nomeadamente o modelo de análise textual de Christiane Nord, desenvolvido na obra Text Analysis in Translation. Theory, Method, and Didactic Application of a Model for Translation-Oriented Text Analysis (1991), tendo sido adaptado de forma a responder às necessidades da análise que se pretendeu realizar. Finalmente, na conclusão, são apresentadas considerações finais relativamente ao estágio e ao papel deste no âmbito do percurso académico e profissional escolhido.
2 PARTE 1: APRESENTAÇÃO 1.1. PERCURSO ACADÉMICO O Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos atrai os mais diversos percursos, desde o mais (pelo menos aparentemente) convencional, tipicamente algo relacionado com línguas estrangeiras, ao mais inesperado, podendo ser praticamente qualquer área de especialização existente. O percurso realizado até ao mestrado é dos mais convencionais: começando com uma licenciatura na área das línguas (em Línguas e Estudos Editoriais, percurso inglês e alemão, na Universidade de Aveiro), onde foram desenvolvidas as bases de português e inglês necessárias para o exercício de profissões ligadas ao setor livreiro e conhecimentos elementares de alemão. Concluída a licenciatura, optou-se imediatamente por prosseguir estudos em tradução. A escolha recaiu sobre o mestrado na Faculdade de Letras do Porto por vários motivos. Apesar de a Universidade de Aveiro (UA) também oferecer um mestrado na área da tradução, nomeadamente em Tradução Especializada (sendo possível prosseguir uma especialização em Saúde e Ciências da Vida ou, mais recentemente, Ciências Jurídicas), e de, portanto, existir a possibilidade de se continuar a estudar num dos percursos diretos da licenciatura na universidade em que se concluiu o primeiro ciclo de estudos, considerou-se viável prosseguir estudos numa outra universidade, não porque a UA não tivesse sido considerada uma boa opção, mas no sentido de aproveitar a oportunidade de poder aprender com uma outra comunidade académica. Foram ainda consideradas outras opções, como o mestrado da Universidade do Minho e o da Universidade de Coimbra, mas optou-se, finalmente, pelo mestrado oferecido pela FLUP. Uma das razões para esta escolha foi porque se considerou que apenas se conseguiria atingir o nível de conhecimento das línguas estrangeiras exigido num curso como o de tradução unicamente para uma das línguas estrangeiras, especialmente porque o conhecimento e/ou a aprendizagem das outras línguas oferecidas na altura (alemão, francês e espanhol; neste momento o programa inclui outras línguas) não foi, ao longo dos anos, tão consistente como para o inglês. Com isto não se quer dizer que não se pretenda desenvolver os conhecimentos nestas (ou outras) línguas no futuro, mas sim que se considerou que, para concluir com aproveitamento o
3 mestrado com uma língua estrangeira para alem do inglês, seriam necessários conhecimentos mais profundos do que os que se possui. Uma outra razão foi o facto de o mestrado possuir algum reconhecimento, nomeadamente fazer parte da rede EMT - European Master's in Translation, assim como da rede OPTIMALE - (Optimising Professional Translator Training in a Multilingual Europe) e de, portanto, esta ser, à partida, uma escolha segura. Quanto ao plano de estudos do mestrado, relativamente a outros tipos de opções, sempre que possível optou-se por disciplinas que desenvolveriam o conhecimento em áreas de especialização, por exemplo no caso da Tradução Jurídica, lecionada pela Dra. Joana Forbes, assim como disciplinas relacionadas com tecnologias aplicadas à tradução, como por exemplo Localização, sendo estas áreas em que se considera importante desenvolver profundamente os conhecimentos, para além de serem, no geral, áreas de interesse pessoal. Adicionalmente, o facto de apenas se estudar uma língua estrangeira durante o mestrado permitiu desenvolver conhecimentos mais profundos em Comunicação Técnica, assim como em Produção e Revisão de Textos, especialmente em português. Apesar de ser mais comum encontrar tradutores com pelo menos duas línguas estrangeiras, pelo menos no caso de falantes nativos do português, e de ainda existir a ideia de que um tradutor deve saber muitas línguas, este conhecimento de línguas estrangeiras deve ser acompanhado de um conhecimento ainda mais profundo da língua materna, tipicamente a língua para a qual se traduz (pelo menos no contexto da língua portuguesa). Assim, acredita-se que este percurso não se traduz automaticamente numa desvantagem. Muito do que se aprendeu em disciplinas como Teoria da Tradução ou mesmo em Tradução Técnica e Científica (tanto inglês-português como portuguêsinglês) ou Tradução Jurídica poderá ser aplicado a outros pares de línguas. Finalmente, optou-se pela via profissionalizante, e não pela científica, pois, para além das tarefas práticas realizadas em contexto de aula, mesmo tendo em conta casos de simulação de situações da vida real, em disciplinas como Tradução Técnica e Científica, com a Dra. Elena Zagar Galvão, não se possuía qualquer experiência em tradução, sendo, então, esta via a escolha óbvia, dado que se pretende trabalhar neste setor.
10 disto, uma vez que, segundo o que o Dr. Félix do Carmo mencionou quando foi admitida uma preferência por outras áreas, como existe uma elevada procura pela tradução (ou transcriação) de textos desta área, esta é uma das áreas em que será necessário desenvolver conhecimentos. Apesar de a percentagem dos trabalhos realizados em medicina ser igual à de outras áreas e de isto sugerir que esta área se encontra em pé de igualdade com outras áreas como química ou multimédia/informática, a medicina destaca-se relativamente ao número de palavras traduzidas em comparação com as restantes áreas que representam 4%. Adicionalmente, a medicina foi uma das áreas em que foi demonstrado interesse durante a entrevista para o estágio, sendo que um dos testes realizados para a seleção de candidatos a estágio foi desta área. São apresentados alguns dos exemplos de problemas de tradução desta área na Parte 3. Para além da área da medicina, também foi demonstrado interesse em tradução jurídica. Apesar de não terem sido realizados muitos trabalhos nesta área, alguns destes consistiam em documentos (por exemplo uma alteração a um contrato, diretrizes, entre outros) relacionados com medicina, o que permitiu trabalhar em duas áreas de interesse simultaneamente. 2.3. CATEGORIAS DE TEXTOS Fig. 3 – Categorias de textos traduzidos 65% 11% 8% 5% 3% 3% 2% 2% 1% Instruções Correspondência Documentos legais Descrição de produto Newsletters Comunicado de imprensa Inquérito Testemunhos Jogo
11 As categorias de textos trabalhados no âmbito das áreas temáticas descritas acima foram variadas, como é possível verificar no gráfico da Figura 3. Destacam-se os manuais de instruções, que correspondem a 65% dos trabalhos realizados (incluindo a tradução e a pós-edição). Estes não se limitaram à área da engenharia mecânica, mas também incluíram, por exemplo, medicina (por exemplo um manual de um gerador de radiofrequência no âmbito da eletrocirurgia). Foram traduzidos textos de correspondência, incluindo-se, aqui, as cartas e/ou emails institucionais, promocionais, entre outros. Relativamente aos documentos de cariz jurídico, foram traduzidos vários certificados da polícia, alterações a contratos, declarações e princípios de conformidade. Já as descrições de produtos incluíam áreas como a medicina, informática e carpintaria. Finalmente, foram, também, traduzidas algumas newsletters, comunicados de imprensa, inquéritos, testemunhos e um pequeno jogo para crianças. 2.4. CLIENTES No sentido de respeitar a privacidade da TIPS, não se faz qualquer referência direta aos clientes da empresa, à exceção da SDL, referida pela primeira vez na descrição da empresa, na Parte 1, unicamente porque esta informação encontra-se na página de Facebook da TIPS. Tendo isto em conta, no total foram realizados trabalhos para pelo menos 21 clientes (em alguns casos os clientes não eram especificados na ficha de trabalho, existindo apenas uma referência ao tipo de trabalho – por exemplo, documentação técnica ou medicina). De todos os clientes, e mesmo entre os cinco mais frequentes, o número de trabalhos realizado para cada cliente varia de forma muito marcada, destacando-se, essencialmente, um cliente. Sendo a TIPS o principal fornecedor de serviços de tradução para português europeu para a SDL International, a maior parte do trabalho realizado no âmbito do estágio, correspondente ao 80% das tarefas, foi para este cliente. Os valores dos restantes clientes variam pouco entre si, entre um e nove trabalhos, não sendo, portanto, significativos o suficiente. 2.5. FERRAMENTAS DE APOIO À TRADUÇÃO UTILIZADAS Relativamente aos programas utilizados durante o estágio, quanto às tarefas de pós-edição, uma vez que estas dizem respeito ao mesmo cliente (à exceção de um
12 trabalho), tipo de documento (manuais de instruções) e área de especialização (engenharia mecânica) e pressupõem um apoio constante de memórias de tradução, tanto as disponibilizadas pelo cliente como as criadas pela empresa, apenas se utilizou o SDLX. Já no que diz respeito aos trabalhos de tradução, como é possível observar no gráfico abaixo, dos 108 trabalhos, a maior parte também foi realizada no SDLX. À semelhança dos trabalhos de pós-edição, isto explica-se pela elevada quantidade de trabalhos de tradução na área da engenharia mecânica, dizendo respeito ao mesmo cliente, tipo de texto e área de especialização. Se os trabalhos realizados para este cliente fossem excluídos, o programa mais utilizado seria o TagEditor. Fig. 4 – Ferramentas utilizadas para tradução Estas ferramentas foram utilizadas pela primeira vez na disciplina Informática de Tradução, tendo sido desenvolvida uma preferência pela ferramenta SDL Studio. Durante o estágio, apenas se utilizou o Studio para três trabalhos. Apesar de, comparativamente com os outros trabalhos, estes terem sido dos trabalhos de maior dimensão realizados, não foi sem surpresa que se verificou que o TagEditor foi mais utilizado do que o Studio. Em comparação com o Studio (ou uma outra ferramenta semelhante no que diz respeito a opções disponíveis), depois de existir uma familiarização com as opções disponíveis no Studio, assim como com a própria disposição dos mesmos, a utilização do TagEditor torna-se desnecessariamente trabalhosa, especialmente no que diz respeito às limitações existentes ao abrir e fechar segmentos e também quanto à criação do ficheiro target. Sendo a criação do ficheiro target absolutamente fulcral, mesmo havendo ainda a fase de revisão antes da composição do ficheiro de entrega, uma vez que não é possível fazer verificações ortográficas no TagEditor, é necessário fazê-las nos documentos target. No caso dos trabalhos realizados, estes consistiam maioritariamente em ficheiros Word, PowerPoint 64% 28% 4% 3% 1% SDLX TagEditor Microsoft Word Studio Workspace
13 e Excel, sendo que, por exemplo no PowerPoint, esta verificação é muitas vezes demorosa, dependendo do número de dispositivos existentes e do número de caixas de texto presentes em cada dispositivo. Assim, sempre que era necessário realizar alguma alteração, tinha-se de voltar ao ficheiro aberto no TagEditor, abrir o segmento, alterar, fechar o segmento (não se realizava a alteração no ficheiro target uma vez que o .ttx ainda teria de ser revisto e a memória de tradução no servidor teria de ser atualizada com a revisão). No entanto, o principal problema em relação à criação de ficheiros target ocorria quando, por algum motivo, o programa não reconhecia o ficheiro source como sendo de facto o ficheiro source, sendo, consequentemente, impossível criar o ficheiro target (é possível que isto tenha ocorrido devido ao facto de se ter alterado a localização dos ficheiros para a realização do trabalho, do servidor para o disco rígido). Por outro lado, isto permitiu uma maior familiarização com o TagEditor, tendo sido possível aprender uma série de opções do programa (como por exemplo a utilização de duas memórias de tradução). Desta forma, no futuro, será possível utilizar esta ferramenta facilmente, apesar da aprendizagem “forçada”, caso seja necessário voltar a trabalhar com ela. 2.5. MATERIAL DE REFERÊNCIA, INDICAÇÕES DO CLIENTE E MEMÓRIAS DE TRADUÇÃO Para além de todo o material disponível na TIPS, principalmente no servidor, e do qual se utilizou quase exclusivamente as memórias de tradução, em algumas situações o próprio cliente disponibilizou material de referência. Sempre que o cliente fornecia alguma indicação, esta era incluída na ficha do trabalho ou então havia uma indicação na ficha para ler a correspondência entre o cliente e a TIPS. Uma vez que este tipo de situação foi rara, decidiu-se descrever de forma breve os diferentes tipos e situações em que o material ou indicações foram fornecidas. Relativamente à pós-edição, utilizaram-se memórias de tradução para todos os trabalhos, não houve indicações específicas para nenhum trabalho nem foi fornecido qualquer material de referência pelo cliente para os trabalhos realizados, existindo, no entanto, algum material de referência geral do cliente. Já para os trabalhos de tradução, 12 trabalhos tinham atribuídos memórias de tradução, enquanto 11 não; no caso de três trabalhos foram utilizadas memórias de tradução fornecidas pelo cliente juntamente com as disponibilizadas pela TIPS.
14 Relativamente a materiais de referência, apenas foi requerida a utilização de materiais de referência para 13 trabalhos, sendo que 5 destes foram fornecidos pelo cliente, enquanto os restantes consistiam em trabalhos relacionados realizados anteriormente. Relativamente aos materiais de referência fornecidos pelos clientes, estes consistiam nos seguintes tipos de materiais: › ficheiros PDF com textos com terminologia semelhante à presente no texto a traduzir; › ficheiro Excel com texto sobre a empresa/o cliente; › ficheiros com instruções de realização da tarefa; › ficheiros PDF com tradução para espanhol de um documento semelhante (certificado zoológico) e documento oficial sobre requisitos de importação de animais; › ficheiros Word com glossário e screenshots de um jogo. Quanto às indicações, foram especificadas indicações para 21 trabalhos. Assim, na ficha de cada um destes trabalhos existia uma indicação para ver a correspondência. O tipo de indicação consistia em: › entregar o ficheiro traduzido num formato específico; › não traduzir determinados termos (como por exemplo nomes de marcas); › traduzir apenas texto realçado; › enviar ficheiro bilingue; › utilizar maiúsculas e minúsculas conforme o texto original; › traduzir determinada palavra conforme o especificado pelo cliente. Finalmente, relativamente às memórias de tradução, em relação ao total de 228 traduções e pós-edições realizadas, não foi atribuída qualquer memória de tradução a apenas onze trabalhos (o que corresponde, como é possível verificar no gráfico da Figura 9, a 5% dos trabalhos realizados). Quanto aos trabalhos em que se utilizou memórias de tradução, três deles incluíam memórias de tradução fornecidas pelo cliente (que foram utilizadas em conjunto com outras existentes na TIPS).
15 2.7. NÚMERO DE PALAVRAS 2.7.1. Tipo de tarefa Já no gráfico da Figura 1, no ponto 2.1., os valores relativos à totalidade dos tipos de tarefas realizadas durante o estágio apontam para uma predominância das tarefas de pós-edição, no entanto, considerou-se importante excluir desta comparação os valores relativos aos alinhamentos e aos testes de software. Assim, em relação a um total de 173.144 palavras traduzidas e pós-editadas, 61% destas (106.365 palavras) corresponde a tarefas de pós-edição e 39% (66.779 palavras) a tarefas de tradução. Fig. 5 – Total de palavras por tipo de tarefa Com base em relatórios de outros alunos que realizaram os seus estágios curriculares na TIPS, não deixa de ser curioso verificar que, de 2007 a 2013, a pósedição parece ter sofrido um crescimento exponencial. Segundo o website da TIPS, esta começou a receber projetos de pós-edição em 2007. Num relatório de estágio na TIPS de 2009, de Ivone Oliveira, não é feita qualquer referência à pós-edição. Já num relatório do ano seguinte, Diogo Gonçalves refere que realizou 33 tarefas de pós-edição. A não ser que as tarefas realizadas pelos estagiários variem consideravelmente de ano para ano, ou que a pós-edição simplesmente não tenha sido um dos tópicos abordados nos relatórios consultados, pode-se confirmar a crescente importância deste tipo de competência. Neste relatório, a pós-edição também ocupa uma posição secundária em relação aos tópicos diretamente relacionados com a tradução, no entanto são discutidos alguns exemplos de um trabalho pós-editado no Ponto 3.1. 66.779 palavras (39%) 106.365 palavras (61%) Tradução Pós-Edição
16 2.7.2. Área temática Ao contrário dos gráficos apresentados anteriormente, onde uma das variáveis se destaca claramente das restantes, no que diz respeito ao número de palavras traduzidas por área temática, várias áreas possuem valores muito semelhantes, como é possível verificar no gráfico da Figura 6. Isto deve-se ao facto de se ter excluído desta análise a pós-edição (o número de palavras e trabalhos pós-editados já foi referido nos pontos 2.1. e 2.5.1., respetivamente). Mesmo assim, a área da engenharia mecânica continua a ser a mais representativa de todas as traduzidas, no entanto, é necessário referir que a tradução dos textos desta área também foi quase totalmente apoiada por memórias de tradução existentes na TIPS. Relativamente às outras áreas de destaque, como também foi mencionado no ponto 2.2., para além da engenharia mecânica, o marketing, a medicina e o direito constituem as áreas mais representativas do trabalho em tradução realizado durante o estágio. Fig. 6 – Número total e percentagem de palavras traduzidas por área temática 2.7.3. Médias mensal, semanal e por hora No seguimento do que foi mencionado na introdução a esta parte, uma vez que o número de palavras determina o preço da tradução e/ou da pós-edição, e aproveitando o facto de se ter realizado um controlo do número de palavras, os gráficos das Figuras 7 e 8 representam as curvas de evolução do número de palavras traduzido e pós-editado por mês e semana, respetivamente. 14.981 (22%) 13.390 (20%) 11.027 (17%) 10.744 (16%) 10.183 (15%) 3.023 (5%) 1.959 (3%) 1.472 (2%) Mecânica Marketing Medicina Outro Direito Multimédia/Informática Química Gestão de empresas/Recursos humanos
17 Fig. 7 – Média de palavras traduzidas e pós-editadas por mês Fig. 8 – Média de palavras traduzidas e pós-editadas por semana Como é possível verificar, até ao mês de abril, o número de palavras póseditadas por mês aumentou de forma contínua, sendo que se deu um crescimento mais acentuado nos meses de fevereiro a abril. O número de palavras traduzidas não sofreu um crescimento tão evidente como o número de palavras pós-editadas devido, principalmente, aos textos de diferentes áreas traduzidos. Como foi mencionado, as tarefas de pós-edição estavam todas relacionadas com engenharia mecânica, ao contrário das de tradução. Da mesma forma, as oscilações semanais verificadas no gráfico da Figura 8 para ambos os tipos de tarefas dizem respeito à frequência do tipo de tarefas atribuídas, não sendo representativas de um decréscimo na capacidade de tradução e pós-edição (por exemplo em algumas semanas não foram realizados trabalhos de pós-edição ou tradução). O decréscimo verificado para ambas as tarefas no mês de maio está relacionado com a gradual conclusão do estágio e consequente decréscimo na atribuição de tarefas, não sendo igualmente representativa de um decréscimo na capacidade de realização das tarefas. Relativamente ao número de palavras pós-editadas e traduzidas por hora, calculou-se que, em relação a um total de 10418 minutos ou 174 horas de pós-edição e 9312 minutos ou 155 horas de tradução, em uma hora é possível realizar a pós-edição de
18 cerca de 612 palavras e a tradução de 430. Estes dados correspondem a uma análise geral muito superficial. Assim, para além de se ter diferenciado os valores relativos à pós-edição e à tradução, não se teve em consideração fatores como o género de texto e/ou área temática e familiarização com os mesmos, a utilização de memórias de tradução, a ferramenta de apoio à tradução utilizada, o desenvolvimento do número e/ou número de palavras ao longo dos meses, entre outros. Apesar de este número ser influenciado por inúmeros fatores e de, idealmente, este tipo de indicador não ser algo com o qual um tradutor se devesse preocupar, num contexto profissional, quer para tradutores in house, ao qual o caso aqui descrito se aproxima, como para tradutores freelancers, uma vez que o número de palavras dita, na grande maioria das vezes, o pagamento, considerou-se importante analisar como este indicador se desenvolveu ao longo dos meses do estágio.
19 PARTE 3: ANÁLISE E DISCUSSÃO DE TAREFAS 3.1. DESCRIÇÃO GERAL DOS TIPOS DE TAREFAS 3.1.1. Pós-edição Como foi possível verificar na secção anterior, as tarefas de pós-edição ocupam uma posição de destaque no âmbito do trabalho realizado durante o estágio. Apesar disto, nenhum dos problemas apresentados no ponto 3.2. foi retirado dos trabalhos de pós-edição, pois optou-se por apresentar unicamente problemas de tradução. Mesmo assim, é apresentado a seguir um exemplo de um dos trabalhos realizados. INFORMAÇÃO CONTEXTUAL: › Número TIPS do trabalho: 0787; › Data de receção e de entrega: 23/05/2013 – 24/05/2013; › Número de palavras do texto de partida: 1362; › Duração da tarefa (minutos): 120; › Língua de partida: inglês; › Material de apoio: outros trabalhos realizados, PDF originais, memórias de tradução da TIPS; › Função dos textos de partida e chegada: informativa; › Tipo de texto: manual de instruções; › Destinatários dos textos de partida e chegada: utilizadores de ceifeiras; › Objetivo dos textos de partida e chegada: informar sobre o tipo de operações que é necessário realizar para cada tipo de operação de manutenção. ANÁLISE TEXTUAL › Área temática: Mecânica; › Conteúdo: PDF de três páginas com instruções relacionadas com os intervalos de manutenção de uma ceifeira; › Pressupostos: os destinatários estão familiarizados com a terminologia, com os veículos e com o tipo e modo de instrução apresentado; › Aspetos não-verbais: imagens, tabelas;
26 para com as pessoas: os clientes, os recetores dos textos de chegada, o autor do texto de partida e também para com os próprios tradutores. Apesar disto, a realização da translational action referida acima é fundamentalmente determinada pelo pedido do cliente, sob a forma de uma translation commission ou translation brief (Nord, 1997 apud Munday, 2001:82), ou apenas commission (Vermeer, 1989/2000 apud Munday, 2001:80). Esta é de especial importância, uma vez que nela constam, ou deveriam constar, os elementos necessários para a realização de uma tradução de qualidade, nomeadamente a função da tradução (documental ou instrumental, sendo este aspeto mais desenvolvido na parte dedicada à terminologia jurídica, na Parte 3), os destinatários, o contexto de receção, o meio e o motivo pelo qual o texto de partida foi escrito e é traduzido, entre outros aspetos, como prazos, honorários (Munday, 2001:8082). Tendo em conta esta influência, são desenvolvidos vários problemas de tradução encontrados durante o estágio no âmbito da tradução técnica, científica e jurídica no ponto 3.2.
27 3.1.3. Alinhamentos Como é possível verificar no gráfico da Figura 1, na Parte 2, durante o estágio foram realizados poucos trabalhos de alinhamento de ficheiros para a criação de memórias de tradução. Apesar disto, e de, em princípio, este tipo de tarefa não ser complicada de realizar, decidiu-se incluir uma referência aos mesmos neste relatório, pois esta tarefa pressupôs trabalhar com línguas que, formalmente, estão fora do escopo de especialização escolhido durante o mestrado, nomeadamente o espanhol, o francês e o alemão. O caso de estudo a apresentar nesta secção é o de um trabalho multilíngue, nas línguas de trabalho atuais, português e inglês, e nas línguas mencionadas no parágrafo anterior. Apesar de o original ser o inglês, os pares dos alinhamentos incluíam sempre o português. Assim, os pares criados foram: EN-PT, DE-PT, FR-PT, ES-PT. A razão por que se optou por referir de forma breve este tipo de tarefa deve-se ao facto de, apesar de normalmente o software utilizado, nomeadamente o WinAlign, não causar problemas (para além de possíveis problemas de suporte de formatos de ficheiros), houve alguns problemas de alinhamento. O conteúdo do trabalho em questão será mais desenvolvido no ponto 3.2.1, uma vez que parte da tradução do inglês para o português foi uma das tarefas realizadas no âmbito do estágio. Para esta análise é apenas de referir que o trabalho em questão consistia em quatro ficheiros em três formatos diferentes (um documento Word, dois Excel e um PowerPoint) na área da saúde e segurança no trabalho, especificamente em relação à realização de trabalho a quente. No caso específico do alinhamento dos ficheiros PowerPoint portugueses e alemães e portugueses e franceses, num dos dispositivos da apresentação são apresentados dados relacionados com a temperatura da fonte de calor e a temperatura de ignição de vários elementos, como é possível verificar na Figura 15, na Parte 3. No WinAlign, os termos apresentados na Figura 15 não se encontravam na mesma ordem nos dois ficheiros para alinhar, apesar de nas respetivas apresentações estes se encontrarem na mesma ordem1. Adicionalmente, sempre que eram feitas referências a indivíduos com a abreviatura Sr. ou Mr., o programa identificava o ponto como um ponto final, tendo sido necessário unir todos os segmentos em que isto 1 Na altura em que a tarefa foi realizada não se fez um screenshot do problema. Curiosamente, quando se tentou repetir os mesmos passos no computador pessoal, o programa não reproduziu o erro que apresentou durante o estágio.
28 acontecia. Questões de familiaridade com o programa à parte, e apesar de algumas das funções deste programa não serem propriamente as mais “user friendly” (as opções de seleção e confirmação de segmentos, por exemplo), este problema de alinhamento foi de relativamente fácil resolução graças à familiarização com o texto original (inglês) e a primeira tradução (português), a qual, como foi mencionado, foi realizada no âmbito do estágio. Apesar disto, esta tarefa pressupôs alguma pesquisa em línguas de conhecimento fundamentalmente passivo, ainda que no caso de duas línguas (francês e alemão) se possua algum conhecimento formal. Para além da pesquisa realizada, a própria estrutura do texto não estar na mesma ordem, oferecia algumas indicações para a descodificação do texto. Assim, confirma-se que, apesar de, no momento, se trabalhar apenas com o par linguístico inglês-português, o conhecimento adquirido noutras línguas ao longo dos anos, quer formal ou informal, básico ou intermédio, é vantajoso, ainda que este conhecimento, por falta de prática, se tenha tornado mais passivo do que ativo. Serviu, também, como incentivo para melhorar o conhecimento destas e outras línguas nas quais se possui alguns conhecimentos.
29 3.1.4. Testes de software Durante o estágio também foi dada a oportunidade de auxiliar nesta tarefa que pouco tem a ver com tradução. Neste caso em específico, nenhuma das vertentes dos testes estava relacionada com o texto apresentado no software, apenas com a funcionalidade do mesmo. O software consiste numa aplicação de streaming de música disponível exclusivamente e gratuitamente para os smartphones Nokia Lumia. Desta forma, parte dos testes foram realizados em dois smartphones deste modelo, no entanto, também se realizaram testes no website da aplicação em diferentes browsers a partir de um computador. As instruções foram disponibilizadas em inglês, no entanto a aplicação já se encontrava traduzida para português. As instruções encontravam-se em várias folhas num ficheiro Excel, as quais estavam dispostas em três colunas com os passos, descrição dos mesmos e resultado esperado, conforme ilustrado na imagem abaixo: Fig. 11 – Testes de software: Exemplo de instruções de testes de software para browsers Uma vez que o papel realizado foi apenas o de auxiliar o tester principal, o Dr. Luís Trigo, as tarefas realizadas foram apenas a leitura das instruções e os testes em si, e não, por exemplo, enviar os resultados ao cliente. Durante a realização deste trabalho, surgiu apenas um problema em relação à funcionalidade da aplicação. Uma das tarefas consistia em verificar a funcionalidade da opção de visualização da letra da música que estivesse a tocar. Como é possível verificar na Figura 13, segundo as instruções existiria um ícone referente à opção da letra da música. Uma vez que não se encontrava qualquer opção que indicasse a ativação da opção pretendida, conclui-se que não existia letra para a música com que se
30 estava a realizar aquele passo do teste. Considerou-se a hipótese de estas, quando disponíveis, se encontrarem na parte da aplicação apresentada na Figura 14, no entanto, como foi referido, uma vez que a tarefa realizada foi apenas a de auxiliar aos testes (e como também não se possui um smartphone Nokia Lumia), não é possível confirmar esta informação. Fig. 12 – Testes de software: Screenshot das instruções de testes de software para smartphones não concluídas
31 Fig. 13 – Testes de software: Screenshot de uma das opções da aplicação em que se realizam testes de software Para além do problema descrito acima, durante os testes reparou-se que, à semelhança do que ocorre na imagem da Figura 14, no título da música, o texto de uma das opções da aplicação não estava totalmente visível. Apesar de esta não ser uma das vertentes do conteúdo da aplicação que era suposto ser analisada nestes testes em específico, informou-se igualmente o tester principal da situação. No entanto, é importante referir que a Figura 14 não apresenta o problema em si, pois ao deslizar o dedo para a esquerda, o resto do texto era visível. O facto de este tipo de trabalhos ser requisitado a empresas de tradução, ainda que neste caso tenha consistido numa única ocorrência nos seis meses de estágio realizado, demonstra a versatilidade dos trabalhos dos tradutores e da flexibilidade e abrangência de conhecimentos necessárias na prestação de serviços linguísticos.
32 3.2. PROBLEMAS DE TRADUÇÃO Segundo Catford (1965 apud Bassnet, 2012:39), existem dois níveis de intradutibilidade: linguístico e cultural. Como será possível verificar nos exemplos apresentados nos pontos seguintes, foram encontrados alguns exemplos que, dependendo da teoria que se subscreve, poderiam ser considerados exemplos de intradutibilidade. No entanto, Roman Jakobson (1959 apud Bassnet, 2012:137) refere que: “Both the practice and the theory of translation abound with intricacies, from time to time attempts are made to sever the Gordian knot by proclaiming the dogma of untranslatability.” Da mesma forma, em relação à afirmação de Catford, Susan Bassnett (2002:43) menciona que: “Boguslav Lawendowski, in an article in which he attempts to sum up the state of translation studies and semiotics, feels that Catford is 'divorced from reality', while Georges Mounin feels that too much attention has been given to the problem of untranslatability at the expense of solving some of the actual problems that the translator has to deal with.” Assim, como foi mencionado anteriormente, procurou-se aplicar os princípios defendidos pelas teorias funcionalistas. Em conformidade com estes princípios, as soluções propostas para os problemas de tradução apresentados são ofertas de informação. Em alguns casos, estas sugestões de tradução não são necessariamente equivalentes linguísticos, mas espera-se que sejam equivalentes pragmáticos. Assim, no âmbito deste relatório e do trabalho realizado, e em relação ao conceito de intradutibilidade, Tom Scocca, num artigo online intitulado “David Brooks Wishfully, Wrongly Believes the Chinese Have No Word for ‘Nerd’” (2013) afirma que “[w]henever you hear someone explain that a concept is so foreign to this or that culture that people cannot even use their language to describe it, it is safe to assume your passport has just been stamped for entry into the Land of Bullshit." Como foi referido, a primeira parte da análise realizada nas páginas seguintes está fundamentalmente baseada no modelo de Christiane Nord. Este foi o modelo selecionado para analisar alguns dos textos traduzidos durante o relatório, pois foi o modelo utilizado no âmbito das disciplinas de Tradução Técnica e Científica (português-inglês e inglês-português), lecionadas pela Dra. Elena Zagar Galvão. A
33 análise realizada para estas disciplinas dizia unicamente respeito a um dos textos traduzidos durante o semestre, o que pressupôs, assim, uma análise mais profunda desse único texto, sendo apresentada quase a totalidade dos diferentes problemas de tradução encontrados, o que não foi realizado para os casos aqui apresentados. Algumas dimensões da análise proposta por Nord não foram incluídas, como dados relacionados com os clientes e, em muitos casos, também sobre os emissores, pois não se considerou fundamental para a análise dos exemplos correspondentes e/ou foram omitidos de forma a respeitar os dados da TIPS e/ou dos próprios clientes. Adicionalmente, os dados relativos às datas de receção e de entrega podem não corresponder às acordadas pela TIPS com os clientes; tratam-se, respetivamente, das datas em que o trabalho foi iniciado e concluído (pronto para ser revisto por outro tradutor). Os exemplos de problemas selecionados para este relatório não foram retirados do mesmo texto, nem foram necessariamente encontrados nos textos das áreas temáticas ou dos clientes mais trabalhados. Correspondem aos problemas mais difíceis de resolver ou a problemas-tipo, cuja forma de resolução de assemelha à de outros trabalhos realizados. É, também, de referir que as sugestões de tradução apresentadas não são necessariamente representativas da qualidade do trabalho realizado. Adicionalmente, não é realizada uma análise profunda dos textos em si, mas sim da natureza do problema, assim como da descrição da sua resolução, sendo estes, sempre que relevante, acompanhados de fundamentação teórica. No geral, nesta parte são desenvolvidos problemas ao nível das terminologias técnica, científica e jurídica, da sintaxe e da formatação de documentos jurídicos. Para cada problema é feita uma análise superficial do respetivo texto, no sentido de o contextualizar; é apresentado um excerto da frase ou parágrafo em que o problema se encontra, seguido da sugestão de tradução proposta durante o estágio e da versão revista/final; é realizada a justificação e fundamentação da opção tomada e, quando relevante, uma solução alternativa à proposta durante o estágio.
34 3.2.1. AO NÍVEL DOS TERMOS 3.2.1.1. Terminologia técnica A tradução técnica corresponde a mais de 90% da produção em tradução profissional (Kingscott, 2002). Muitas vezes são incluídos vários outros tipos de tradução no âmbito da tradução técnica, como a científica e a jurídica. Nesta perspetiva, a tradução técnica aparece frequentemente numa relação de oposição à tradução literária. No entanto, este tipo de perspetiva não oferece uma visão clara do que é de facto a tradução técnica e de que forma se pode diferenciar de outros tipos a que normalmente aparece relacionada. Segundo Byrne (2006:24), “in general, the aim of a technical translation is to achieve a high level of acceptability, primarily because technical texts, particularly instructional texts, are intended to function first and foremost as a target language text.” Tendo isto em conta, um dos modelos que se verificou ser útil foi a avaliação da compreensibilidade proposta por Susanne Göpferich. Esta análise parte do princípio de que o texto traduzido irá chegar à língua e/ou cultura de chegada como se de um original se tratasse. Assim, “[i]f the translation of a pragmatic text is expected to function like an original in the target culture, determining its quality should involve employing the same methods of quality assessment that can be used in technical writing” (Göpferich, 2009). O quadro para esta análise inclui o estabelecimento da função comunicativa do texto (são definidos o objetivo, os destinatários e os emissores) e a descrição das características de orientação para a produção do texto (o modelo denotativo mental, ou seja, a imagem mental do que é apresentado no texto; o modelo de convenção mental, ou seja, usos específicos da língua e convenções de género; meio; requisitos legais e orientações do autor). No seguimento desta análise, são apresentadas as dimensões de compreensibilidade que se devem aplicar quando se escreve e/ou traduz textos técnicos: concisão, correção, motivação, estrutura, simplicidade e percetibilidade. Devido a esta utilização de traduções como originais, a tradução técnica é frequentemente associada à comunicação técnica. Assim: “the role of the modern technical translator has evolved to such an extent that it bears little resemblance to the traditional notion of a translator” (Byrne, 2009).
35 “The functions of technical translation are gradually fusing or becoming difficult to distinguish from those of technical writing as both professions have an interest in producing unambiguous messages. The technical translator also has to take into account the audience to a more marked extent. This means that deliberate formatting of texts to local “styles” and the use of controlled language will become more pronounced and used more often by translators. In addition, localisation, especially software localisation, and the extensive use of translation memories mean that technical translators will come to rely less on traditional source texts. This implies that translators must also command content management and make use of tagging and metadata” (Kingscott, 2002). “There is, therefore, an ethical responsibility for technical writers and technical translators to ensure that the information contained in a user guide is easy to understand and that it is adequate for what the readers need to do. In producing user guides whether as writers or translators, our duty is to ensure that users can do what they need to do as easily and as safely as possible” (Byrne, 2006:83). PROBLEMA 1: Electric heat gun INFORMAÇÃO CONTEXTUAL: › Número TIPS do trabalho: 0493; › Data de receção e de entrega: 28/03/2013 – 09/04/2013; › Duração total da tarefa (minutos): 973; › Número de palavras do texto de partida: 10208; › Língua de partida: inglês; › Material de apoio: dois documentos (um PDF com um exemplo de uma autorização para trabalho de corte e soldadura e um PDF sobre trabalho a quente); › Função dos textos de partida e chegada: informativa, apelativa; › Tipo de texto: formulários, norma, texto suporte de formação; › Destinatários dos textos de partida e chegada: indivíduos que realizem trabalho a quente, responsáveis por autorizar a realização de trabalho a quente;
42 › Objetivo dos textos de partida e chegada: promoção da utilização de um medicamento. ANÁLISE TEXTUAL › Área temática: Medicina; › Conteúdo: apresentação PowerPoint a informar sobre as vantagens de utilização de um medicamento, com casos de estudo e testemunhos, para fins ilustrativos; › Pressupostos: tendo em conta os tipos de destinatários do TP e do TCH acima referidos, parte-se do princípio que os principais destinatários estejam familiarizados com o tema e terminologia típica do mesmo; › Aspetos não-verbais: imagens e/ou gráficos em todos os dispositivos; › Léxico: terminologia médica; › Sintaxe: uma vez que o texto foi concebido para uma apresentação PowerPoint, existem predominantemente frases simples, construções típicas de texto presente em listagens, legendas de gráficos e imagens. Num dos primeiros dispositivos da apresentação são listados os tipos de fatores relacionados com o doente que foram tidos em conta nos ensaios clínicos realizados para o medicamento em questão. Algumas vertentes são reproduzidas na tabela da Figura 17, juntamente com as respetivas traduções propostas e correspondente revisão. Original Tradução Revisão Patient factors Factores relacionados com o paciente Factores relacionados com o doente Age Idade Idade Family history Histórico familiar Histórico familiar Lifestyle factores Estilo de vida Estilo de vida Race Raça Raça Fig. 17 – Problema de tradução 2: Tabela dos fatores relacionados com o doente Em relação à alteração de “paciente” para “doente”, a revisora sugeriu que se opte por “doente” quando se estiver a referir a portadores de uma doença e por
43 “paciente” quando este facto não for claro (por exemplo se se tratar de uma consulta de rotina). Quanto ao termo apresentado como problemático, durante a tradução não houve tempo suficiente para realizar uma pesquisa terminológica mais exaustiva. Para além disto, o termo em questão já tinha surgido durante um exercício de tradução numa aula de Tradução Técnica e Científica (inglês-português), tendo sido igualmente traduzido por “raça” pela maioria dos alunos. Nessa aula, levantou-se a mesma questão que aqui se coloca, nomeadamente em relação à legitimidade e correção da utilização deste termo. Não podendo desenvolver este tema de modo adequado (tanto por limitações de espaço, relevância da discussão em relação ao relatório, assim como, principalmente, em relação aos conhecimentos limitados face ao tema), é, no entanto, necessário justificar a razão por que a tradução proposta, e aceite, tanto no âmbito da aula do mestrado como do estágio não é a mais adequada. O motivo por que a questão surgiu no contexto da aula deveu-se ao facto de o termo aparecer no âmbito de um exercício de tradução científica no seguinte excerto do livro Twins, Triplets, and More: Their Nature, Development and Care, de Elizabeth M. Bryan: “Race strongly affects the chances of having twins. Black races, and particularly, it seems, Nigerians, have the highest rates of twinning. The Oriental (or ‘Mongolian’) races have the lowest rates. Caucasians and Indians are somewhere in between. The incidence of twins is about five times higher in the Yoruba people of Nigeria than amongst the English and ten times higher than amongst the Japanese” (Bryan, 1992). Na altura, houve a necessidade de questionar a utilização deste termo, pois durante a licenciatura, na disciplina de Comunicação Intercultural2, após um colega de curso ter utilizado este termo, a professora da disciplina afirmou que o termo "raça" está ultrapassado e que em vez deste deve utilizar-se "etnia". Esta opção foi apresentada no contexto da aula de Tradução Técnica e Científica (inglês-português), no entanto não se chegou a um consenso nem a uma solução final. Assim, as dúvidas em relação a este termo propagaram-se até ao estágio, onde se optou pela solução oferecida pela maioria dos colegas no contexto da aula. 2 lecionada pela Professora Maria Manuel Baptista, no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, no segundo semestre do ano letivo de 2008-2009.
44 Em “A Short History of the Race Concept”, Michael Yudell afirma que: “Today, despite the growing consensus among scientists that race is not, in fact, a useful classificatory tool, an understanding of human difference and diversity remains a hallmark of contemporary scientific practice, and thus presents a seeming contradiction (…). [A]dvances in population genetics and evolutionary biology led many to conclude that the race concept was not a particularly useful or accurate marker of biological difference. By the 1970s, many prominent biologists (…) came to see the race concept as a deeply flawed way to organize human genetic diversity that is inseparable from the social prejudices about human difference that spawned the concept in the 18th century and have accompanied its meaning since. Historians and social scientists believe that race is socially constructed, meaning that the biological meaning of race has been constrained by the social context in which racial research has taken place” (Yudell, 2011). Já concluído o estágio, e muito depois da conclusão do trabalho em que o termo aparece, descobriu-se (acidentalmente) que, em contextos científicos, é possível utilizarse o termo "afinidade populacional". Adicionalmente, segundo a UNESCO, relativamente ao tipo de afinidades populacionais existentes neste momento (o texto de referência sugere que possam mudar), segundo a organização, existem três grandes grupos: "the mongloid division", "the negroid division" e "the caucasoid division", sendo que existem inúmeros subgrupos ou grupos étnicos. O termo “afinidade populacional” foi encontrado pela primeira vez num relatório de autópsia, sendo incluída também a referência a “caucasóide”, o que sugere que a terminologia apresentada pela UNESCO é utilizada na prática. Adicionalmente, foram encontrados outros resultados, em teses e livros relacionados com ciências forenses, dos quais foram retirados os exemplos seguintes: “Quando restos ósseos/esqueletizados são recuperados, torna-se necessário proceder à respectiva identificação. Uma vez confirmada a sua natureza humana e determinado, se possível, o IPM, procede-se à análise dos mesmos, determinando quatro informações essenciais: sexo, idade à morte, (1)
45 estatura e afinidade populacional, que no conjunto correspondem ao perfil biológico” (Azevedo, 2008:11). Fig. 18 – Problemas de tradução 2: “afinidade cultural”, screenshot de índice (Almeida, 2012). Fig. 19 – Problema de tradução 2: Afinidade populacional – screenshot de tese (João, 2011:53) Tratando-se de um texto de caráter científico, em que se faz a promoção de um medicamento e se descreve o desenvolvimento da doença em determinados grupos de pessoas, no original com base no conceito de "raça", mas tendo, no entanto, em mente a carga histórica que este termo possui, sugere-se que, no futuro, se considere a opção “afinidade populacional” como uma alternativa mais adequada, pelo seu neutralismo. (2) (3)
46 3.2.1.3. Terminologia jurídica Como foi referido na introdução, os conhecimentos adquiridos no mestrado levaram a que fosse tomada uma preferência pela perspetiva das teorias funcionalistas. Em “Legal Translation and Functionalist Approaches: a Contradiction in Terms?”, Giuliana Garzone questiona a aplicabilidade destas teorias à tradução de textos jurídicos, referindo que vários académicos (Fluck, 1985:136; Soffritti, 1987; Trosborg, 1994; Madsen, 1997 apud Garzone, 2000) questionaram a legitimidade da aplicação da perspetiva funcionalista à tradução de textos jurídicos: “This comes to no surprise for a theory which in its most extreme statement proclaims the “dethronement” (Entthronung) of the ST, an idea which seems inadmissible in the perspective of legal translation where the ST is “sacred writ”. On the whole, functionalism and legal translation seem to be in glaring contradiction” (Garzone, 2000). Garzone rejeita este argumento, pois, segundo a mesma: “It is also true that in spite of the reputation of functional approaches for being associated with ‘free’ translation and scarce consideration for the original text, which would make them incompatible with legal translation, it is part of the rationale underlying them that the skopos of a certain TT “may demand (or lead to) a literal translation” (Vermeer, 1996: 41-42); in other words, as C. Nord (1997: 29) makes clear, “the Skopos of a particular translation task may require a ‘free’ or a ‘faithful’ translation, or anything between these two extremes, depending on the purpose for which the translation is needed [...] There may be cases where relative literalism is precisely what the receiver (or the client or the user) needs” (ibidem). Para além das óbvias dificuldades relacionadas com o uso da língua em direito, isto torna-se mais complexo à luz dos diferentes sistemas jurídicos que possam estar envolvidos, em particular, e como é o caso, do par de línguas de trabalho apresentado neste relatório, entre o sistema da Common Law e o sistema romano-germânico no geral. De facto, como foi possível verificar ao longo das
47 aulas de Tradução Jurídica, lecionadas pela Professora Joana Forbes, e como também é referido no artigo de Garzone, existem conceitos jurídicos na Common Law que não existem no nosso sistema, e vice-versa, existem termos quase idênticos, mas que não correspondem ao mesmo conceito, e existem, também, diferenças substanciais em relação às definições básicas das leis (ibidem). Para além disto, um outro aspeto que torna a tradução jurídica uma área “sensível” da tradução é o facto de estes textos, devido ao seu estatuto pragmático especial de textos jurídicos, sendo estes, assim, essencialmente performativos, pois: “(…) not only describe, report, narrate and point out facts, information and arguments, but also have the property of performing legal actions and imposing obligations (Austin, 1962; Benveniste, 1990a; 1990b). This applies also to translated legal texts when they are authoritative: one of the reasons why legal translation is so problematic is that in many cases the new text will be as legally binding as the ST and have legal consequences” (ibidem). Garzone afirma ainda que: “This inherent difficulty of legal translation has made it a good case in point in discussions of untranslatability. But, since in actual practice legal translations are produced and used every day, for a translator this suggestion of untranslatability is only an abstract concept that serves to highlight the remarkable degree of difficulty of her/his work” (ibidem). No entanto, é importante mencionar que as questões apresentadas nos parágrafos anteriores são mais relevantes no caso das traduções de textos jurídicos que terão a mesma validade que os originais (correspondendo, assim, à noção de tradução instrumental de Nord). Isto aplica-se aos casos em que é necessário existir uma equivalência legal e, consequentemente, uma transposição jurídica. Isto não se aplica ao exemplo de problema de tradução apesentado a seguir neste ponto. O texto aqui apresentado consiste numa tradução documental, servindo unicamente como uma proposta de informação sobre o documento original para o destinatário do mesmo. O TT por si só não é um documento com autoridade.
48 Adicionalmente, normalmente estes textos são traduzidos de forma muito próxima ao original, podendo-se dizer que se tratam, muitas vezes, de traduções literais: “The approach adopted in the translation of this category of legal texts is usually literal since the translated version is a Verständnishilfe, having the status of a parallel text, a gloss or a commentary to be used as a key of access to the original, which has no legal validity of its own. Within this framework a special cases is that of sworn translations for which in some countries a ‘strict literal’ approach, indeed bordering on interlinearity, is prescribed” (ibidem). Como foi possível verificar na análise apresentada no Ponto 2, durante o estágio foram realizados vários trabalhos de tradução jurídica. Para além de casos como apresentado a seguir, o de um certificado da polícia, também foram realizadas as traduções de uma diretriz e de uma alteração a um contrato. É de referir que a alteração a um contrato pressupunha o envio de um ficheiro bilingue, isto é, o próprio documento apresentava, no lado esquerdo, a versão original, em inglês, e, no lado direito, a versão traduzida, em português, tratando-se de um caso muito semelhante ao descrito acima por Garzone quanto à necessidade de uma quase “interlinearidade”. Em relação ao método de tradução geralmente adotado para traduções deste género, Garzone menciona ainda que: “Initially, the translator will draw upon her/his encyclopaedic knowledge of the subject or, more probably, conduct a thorough research in the literature and analyse parallel texts in order become fully aware at a conceptual level of the notion it refers to and to ascertain to a high degree of accuracy the syntactic, semantic and pragmatic value of the term. On this basis, it will be possible to find a term in the TL that covers the same “super abstract” notion (Sacco, 1994: 490), i.e. broadly speaking a legal concept that is basically correspondent in the TL language and culture, albeit with differences due to the peculiarities of each legal system. (...) At this point, the reasonable course usually taken is to evaluate with great care the semantic features that differ in the original term and its potential translation respectively, in order to ascertain which discrepancies, if any, are actually relevant to the purpose of the text in question, and behave accordingly
49 (Sacco, 1994: 490), i.e. either choose one of the near-equivalent terms available, making sure that the differences in meaning are not relevant to the case in point, or adopt a solution that makes up for conceptual incongruencies resorting to a descriptive paraphrase or adding an explanatory note (Sarcevic, 1991: 615; 1997: 231ff.; Smith, 1995: 188-189)” (ibidem). PROBLEMA 3: No live trace INFORMAÇÃO CONTEXTUAL: › Número TIPS do trabalho: 0341; › Data de receção e de entrega: 01/03/2013; › Número de palavras do texto de partida: 82; › Duração total da tarefa (minutos): 162; › Língua de partida: inglês britânico; › Material de apoio: outros trabalhos realizados; › Emissor: ACRO; › Função dos textos de partida e chegada: informativa; › Tipo de texto: certificado; › Destinatários dos textos de partida e chegada: instituições públicas e privadas, titular do documento; › Objetivo dos textos de partida e chegada: o Certificado da Polícia é um documento necessário para efeitos de imigração. Neste caso, uma vez que o país recetor não é de língua oficial inglesa, também é necessário uma tradução do documento; esta tradução cumpre, essencialmente, o objetivo de informar os destinatários do conteúdo do documento oficial. ANÁLISE TEXTUAL › Área temática: Direito; › Conteúdo: carta introdutória ao certificado; o certificado em si contém dados gerais e informações relativas ao registo criminal de um indivíduo; › Pressupostos: os destinatários estão conscientes de que se trata de uma tradução; › Aspetos não-verbais: imagens, assinatura, tabelas;
50 › Léxico e sintaxe: terminologia jurídica; o certificado em si consiste numa listagem de informações, sendo a estruturação da informação ao nível da sintaxe quase exclusivamente composta por segmentos nominais. Um dos primeiros trabalhos de tradução jurídica realizados foi a tradução de um certificado da polícia ACPO (Association of Chief Police Officers) Criminal Records Office (ACRO). Tratando-se de um certificado, grande parte do tipo de dados requeridos é bastante transparente (nome, naturalidade, data de nascimento, etc.). Do mesmo modo, trata-se de um documento de caráter jurídico, o que o torna representativo do sistema jurídico em que se insere. Desta forma, existe toda uma série de referências, indicações e forma de estruturar os diversos elementos e informações que constituem este tipo de documentos, ou seja, convenções, que não correspondem às existentes no sistema jurídico português. Apesar disto, uma vez que se tratava de uma tradução do tipo documental, pretendia-se criar um documento final que fosse muito semelhante ao original. Tratando-se, ainda, de um documento de cariz jurídico, é importante ter em conta que as traduções normalmente acompanham os documentos originais (ou cópias destes), sendo estas, neste caso em particular, cuidadosamente analisadas por parte dos recetores dos documentos (normalmente instituições, quer privadas como públicas). Como foi mencionado, foram realizados mais trabalhos deste género, no entanto, este foi o primeiro em que o termo "no live trace" apareceu. Na memória de tradução existia apenas uma entrada para "no trace", traduzida como “sem registo”. Uma vez que não se tinha totalmente a certeza da alteração de significado causada pela introdução da palavra "live", o primeiro passo para a resolução deste problema foi aceder à página oficial da ACRO. Através da barra de pesquisa do site da ACRO, encontrou-se um resultado para “no live trace”, referente à página das Perguntas Frequentes. No entanto, uma vez nesta página, não foram encontradas quaisquer referências a “no live trace”. Assim, procurouse no Google “no live trace” (entre aspas) com a indicação de que a pesquisa deveria ser limitada ao site da ACRO (site:www.acro.police.uk). Como é possível verificar na Figura 20, o primeiro resultado apresentado até se encontra em português, referente ao documento “Notas de Orientação do Pedido de Certificado da Polícia da ACRO”3. 3 A versão consultada durante a realização da tarefa foi a anterior à agora disponibilizada no website. A atual é a versão18 de maio de 2013. A referência completa encontra-se em Referências.
51 Fig. 20 – Problema 3: Screenshot da pesquisa de “no live trace” no Google O termo encontra-se na secção das Perguntas Frequentes do documento, sendo acompanhado de uma tradução para o português, “sem registo ativo”: “O Certificado da Polícia que recebi declara «Sem registo ativo/Informações adicionais retiradas” (No Live Trace/Further Information Stepped Down) e a embaixada/o alto comissariado pediume para facultar detalhes sobre a(s) minha(s) condenação(ões). Como posso obtê-los?” A única alteração realizada ao termo foi a adaptação para a grafia anterior ao AO (“sem registo activo”). Uma vez que não existiam quaisquer indicações do cliente para adaptar ao AO, seguiu-se a política interna da TIPS.
58 and comfortable” sugerida pela palavra “snug”, pois no original está “Bug tries to be snug”, enquanto na tradução o Bug tenta encontrar a palavra. Uma vez que a tradução proposta tinha sido aceite pela revisora, a justificação que esta enviou ao cliente incluiu uma explicação quanto à função do texto de chegada. Como já foi referido, em Portugal, a série passa/passou num canal de televisão infantil. Foi possível confirmar, ao ver excertos de episódios, que o objetivo da série é ensinar palavras e/ou expressões idiomáticas a crianças (os próprios nomes das personagens são mantidos em inglês). No caso da versão portuguesa, há ainda o fator de se estarem a ensinar palavras e expressões idiomáticas de uma língua estrangeira. Tendo isto em conta, optou-se por uma tradução que se afasta bastante do original, mas que cumpre o objetivo de informar sobre aquele episódio em particular, tendo como principal preocupação o público-alvo da tradução. Neste caso, não é propriamente a expressão presente no resumo do original que é relevante, mas indicar, de algum modo, que se trata de um programa/episódio com o objetivo de ensinar palavras e expressões em inglês que terminem em -ug.
59 3.2.3. Formatação PROBLEMA 6: Marca-d’água INFORMAÇÃO CONTEXTUAL: › Número TIPS do trabalho: 0080; › Data de receção e de entrega: 17/01/2013; › Número de palavras do texto de partida: 230; › Duração total da tarefa (minutos): 162; › Língua de partida: inglês britânico; › Emissor: ACRO; › Função dos textos de partida e chegada: informativa; › Tipo de texto: certificado; › Destinatários dos textos de partida e chegada: (igual a Problema 3); › Objetivo dos textos de partida e chegada: (igual a Problema 3). ANÁLISE TEXTUAL › Igual a Problema 3. Como foi referido anteriormente, um dos primeiros trabalhos de tradução jurídica realizados foi a tradução de um certificado da polícia da ACRO. Antes de iniciar o trabalho, foi indicado que o cliente tinha solicitado que o documento original se assemelhasse o máximo possível, ao nível da formatação, ao original. Assim, a maior parte do tempo total de realização deste trabalho foi dedicada à criação de um documento de chegada exatamente igual ao nível da disposição dos diferentes elementos que o compõem. Um dos aspetos em que houve uma maior dificuldade em tornar o documento idêntico foi em relação à marca-d’água presente atrás do texto com os dados do individuo a quem o certificado diz respeito a informar da natureza confidencial do documento. Uma vez que se trata de um documento digitalizado e convertido para PDF, foi necessário recriar o documento de raiz. Na verdade, houve uma preocupação tão grande com o pedido do cliente que o trabalho realizado em relação à marca-d’água (neste caso a eliminação de qualquer vestígio de texto da imagem para se poder utilizar a marcad’água no documento traduzido) acabou por ser desnecessário. Isto porque se utilizou
60 (distraidamente) a mesma marca-d’água que o original, em inglês. Uma vez que o trabalho foi revisto, este lapso foi corrigido, o entanto, se se tivesse tido mais atenção, poderia ter havido mais tempo para trabalhar na marca-d’água, de forma a ficar idêntica à original. Apesar de se ter utilizado quase exclusivamente o Microsoft Word (foi utilizado o Photoshop para criar a marca-d’água baseada no PDF, mas, como já foi referido, este trabalho acabou por ser desnecessário), e de o domínio desta ferramenta ser fundamental, este tipo de trabalho é demonstrativo do tipo de conhecimentos técnicos que pode ser exigido a um tradutor.
61 CONCLUSÃO Neste relatório procurou-se apresentar o trabalho realizado durante o estágio curricular na TIPS. Na primeira parte contextualizou-se o relatório no âmbito do estágio e do próprio MTSL. Na segunda parte efetuou-se uma análise quantitativa das tarefas realizadas, não só para descrever as vertentes dos trabalhos na globalidade, como também para demonstrar o desenvolvimento do trabalho e das próprias tarefas ao longo dos meses. Na terceira parte desenvolveu-se os tipos de trabalho, assim como exemplos de problemas encontrados e respetivas soluções propostas. Assim, também se procurou demonstrar como os conhecimentos teóricos e práticos adquiridos ao longo dos dois anos de mestrado influenciaram o trabalho realizado, a sua qualidade e a capacidade de resolução dos problemas encontrados nos mesmos. Graças à exposição a diferentes áreas de conhecimento, muitas delas nas quais não se possui(a) conhecimento para além do básico, confirmou-se o papel absolutamente fundamental da investigação, quer esta seja terminológica ou para verificar as próprias informações apresentadas nos textos. A tradução é, pois, como foi mencionado nas aulas de orientação com o Professor Doutor Hüsgen, a resolução de problemas. Foi com alguma surpresa que se verificou que a pós-edição foi a tarefa mais realizada durante o estágio, no entanto não houve qualquer resistência à realização desta tarefa ou ansiedade em relação ao futuro papel do tradutor num setor cada vez mais industrializado. No entanto, torna-se imperativo adquirir e atualizar constantemente os conhecimentos nas áreas das tecnologias da informação, desenvolver a capacidade de absorver conhecimento sobre novas ferramentas ou reciclar o que se possui e aplicá-lo em situações diferentes. Assim, também se verifica a necessidade de se desenvolver a capacidade de adaptação às várias necessidades dos clientes, mesmo quando não estão relacionadas com o típico trabalho de um tradutor. De facto a definição atual de tradução é muito diferente da do passado, havendo quem considere a opção de fornecedor de serviços linguísticos ou consultoria linguística mais adequada. Pode-se questionar ainda a validade destas face a tarefas como a de testes de software, como foi apresentado. No âmbito deste relatório e do respetivo percurso académico e profissional, mantém-se a preferência por "tradução". O termo é tão flexível como a realidade que representa.
62 Para além disto é também necessário estar sempre consciente de que as línguas são inseparáveis das culturas e da necessidade de se ser prudente em relação a termos marcados pela sociedade, história e cultura. Verificou-se a importância de conhecer outras línguas para além dos pares com que se trabalha, mesmo que seja um conhecimento básico ou elementar. O desenvolvimento da consciência deste aspeto foi possível principalmente graças à possibilidade de se trabalhar em áreas de conhecimento diferentes e/ou muito específicas. Também foi possível confirmar que os princípios defendidos no âmbito da Skopostheorie são mais do que um conjunto de princípios teóricos, tendo sido possível aplicá-los na prática. Confirmou-se, assim, a necessidade de se saber exatamente o papel da tradução na língua e/ou cultura de chegada, como foi possível verificar no exemplo de terminologia jurídica apresentado, em que os métodos e as soluções aplicadas teriam sido diferentes caso se tivesse tratado de uma tradução documental (como foi o caso) ou instrumental. Ainda em relação às diferenças entre a teoria e a prática subjacentes a este tipo de trabalho, Oliver Reichenstein, designer da empresa iA, num texto que escreveu, uma espécie de apologia ao design, afirma que "theory can get in the way of practice, but only until the theory becomes practice. With practice your intuition evolves, and the better you understand what you do, the deeper your intuition. Only once you do not consciously think about the theory anymore are you achieving mastery." Estas palavras são tão relevantes para o design como para a tradução ou qualquer outra área em que a teoria e a prática estejam em constante "luta" pelo primeiro lugar. Acima de tudo, os últimos dois anos foram a confirmação necessária de que a tradução é a melhor carreira pela qual se poderia ter optado.
63 BIBLIOGRAFIA BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL Almeida, Giselle de, Translating the Post-editor: An Investigation of Post-editing Changes and Correlations with Professional Experience across Two Romance Languages. Tese. Dublin City University., 2013. DCU Online Research Access Service. Último acesso em 25 de julho de 2013. <http://doras.dcu.ie/17732/> / <http://doras.dcu.ie/17732/1/THESIS_G_de_Almeida.pdf>. Andriesen, Simon. "Medical Translation: What Is It, and What Can the Medical Writer Do to Improve Its Quality?" AMWA Journal, 4, 21 (2006). MediLingua. Último acesso em 1 de agosto de 2013. <http://www.medilingua.com/pdf/AMWA_Medical_translation.pdf>. Baker, Mona. In Other Words: A Coursebook on Translation. London: Routledge, 1992. Bassnett, Susan. Translation Studies. London: Routledge, 2012. Bellos, David. Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the Meaning of Everything. London: Particular , an Imprint of Penguin, 2011. Byrme, Jody. "Are Technical Translators Writing Themselves Out of Existence?". School of Languages and Area Studies (SLAS). University of Portsmouth. Último acesso em 4 de agosto de 2013. <http://www.port.ac.uk/departments/academic/slas/conferences/pastconferenceproceedings/trans lationconf2009/translationconf2009file/filetodownload,138138,en.pdf>. Byrne, Jody. Technical Translation: Usability Strategies for Translating Technical Documentation. Dordrecht: Springer, 2006. Christiane Nord (translation Scholar) Interviewed in Tarragona, 2006. Anthony Pym. YouTube. 16 de julho de 2012. Último acesso em 28 de julho de 2013. <http://www.youtube.com/watch?v=lhzgOzkJ1sw>. Doornekamp, Leander. Guidelines for the Beginner Medical Translator - Practically Applied and Analysed. Tese. Países Baixos, Universiteit Utrecht, 2011. Igitur Archive. Último acesso em 16 de julho de 2013. <http://igitur-archive.library.uu.nl/student-theses/2011-0802200932/UUindex.html>. Fischbach, Henry. Translation and Medicine. Amsterdam: J. Benjamins, 1998. Garzone, Giuliana (2000): “Legal Translation and Functionalist Approaches: a Contradiction in Terms?,” in ASTTI/ETI (2000). Último acesso em 25 de julho de 2013. <http://www.academia.edu/771698/Legal_Translation_and_Functionalist_Approaches_A_Contr adiction_in_Terms>. Gonçalves, Diogo. Relatório De Estágio. Tese. Faculdade De Letras Da Universidade Do Porto, 2010. N.p.: n.p., n.d. Repositório Aberto Da Universidade Do Porto. Último acesso em 2 de agosto de 2013. <http://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/56050/2/TESEMESDIOGOGONALVES000128085.pdf>. Göpferich, Susanne. "Comprehensibility Assessment Using the Karlsruhe Comprehensibility Concept". The Journal of Specialised Translation 11 (2009). Último acesso em 4 de agosto de 2013. <http://www.jostrans.org/issue11/art_goepferich.php>. Jakobson, Roman. "On Linguistic Aspects of Translation". Translation Studies Reader. Amsterdam: Routledge, 2012. 128.
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66 ANEXOS ANEXO 1
67 ANEXO 2