A organização dos comportamentos de vinculação na criança com alterações neuromotoras
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Marina G Gonçalves Fuertes Dionísio A organização dos comportamentos de vinculação na criança com alterações neuromotoras FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE DO PORTO 1998
Marina G. Gonçalves Fuertes Dionísio v* ! A organização dos comportamentos de vinculação na criança com alterações neuromotoras Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto sob a orientação do Professor Doutor Pedro Nuno A. Lopes dos Santos UNIVERSIDADE DO POETO Faculdade de Psicologia e da Ciências da tducaç*» N.° d» Eirada Jv } /j fc«'*i?l/4_L_/.jfL
Apoios A presente investigação foi financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia - Programa Praxis XXI/BM/8652/96. Os estudos do mestrado foram subsidiados pela Fundação Marquês de Pombal. Sem os referidos apoios, a frequência do mestrado e decorrente investigação não teriam sido de todo possíveis.
Grata... A Bowlby, Ainsworth, e todos os outros, que têm vindo a construir o mapa... Ao Professor Doutor Pedro Lopes dos Santos, a minha bússola, pela dedicação, conhecimento, experiência, confiança, e sensibilidade... Se para Bell (1993), não há livro que substitua um bom orientador, no meu caso, nem toda uma biblioteca chegava...um sentido obrigado. Ao Professor Doutor Joaquim Bairrão Ruivo, pelo tanto que me ensinou (e nem imagina...), e pela coordenação do mestrado. Aos D. Bailey, R. Simeonsson, M. Wollery, P. Winton, & D. Farran (professores convidados do Frank Porter Graham Development Center da Universidade de Carolina do Norte), pelos ensinamentos. As mães e crianças que participaram na investigação, por serem a sua causa e consequência. E aos profissionais do Centro de Reabilitação da Paralisia Cerebral do Porto, em particular às Educadoras Açucena, Edite, Manuela, à Psicóloga Rosa, e à Pediatra Fátima, pela disponibildade, ajuda e conhecimento. A Raquel, amiga e companheira de estrada. E demais colegas de mestrado. A Jaqueline, Helena, Helena M., Sofia, e Rita cotadoras de controlo da escala de envolvimento. Aos Colegas da Escola Superior de Beja (e aos pimos de Ferreira), pela disponibilidade e o acalento do sonho. Apesar da saudade, Porto/Beja e Beja/Porto, não era razoável... Ao meu marido, pela paciência, preocupação e crédito... a esta distância parecia tão perto... A.família, pelo incentivo e o apoio de retaguarda...e tanto...tanto mais... Aos amigos, que distante mas fazem sentir próxima. À cidade do Porto, minha por eleição, e que me acolheu... com os seus azuis de céu e água entrelaçados ao fim da tarde...
Aos meus pais, que nunca pouparam esforços nem amor. Em memória de Maurício Lucas Pereira, a figura de vinculação que perdi.
E a ti Francisco, pela sempre inspiradora e contagiante paixão pela ciência.
Aline avec Pierre, 1887 Pierre-Auguste Renoir "(...) mother-love in infancy and childhood is an important for mental health as are vitamins and proteins for physical health. (...)Let it be hoped, then, that all over the world men and women in public life will recognize the relation of the mental health to maternal care, seize their opportunities for promoting courageous andfarreaching reforms. " (1953) John Bowlby, (1907-1990)
RESUMO O presente estudo empírico inscreve-se numa linha de investigação da qualidade da vinculação em populações de risco. Nesse sentido recorremos ao procedimento experimental da Situação Estranha para avaliar os comportamentos de vinculação num grupo de 19 crianças que apresentavam alterações neuromotoras {paralisia cerebral). Com o intuito de avaliar o comportamento interactivo dos pais, utilizámos a PCIS-Escala de envolvimento dos pais/prestadores de cuidados num contexto de jogo livre. A nossa amostra, recrutada nos serviços do Centro de Reabilitação da Paralisia Cerebral do Porto, era constituida por 11 rapazes e 8 raparigas, que tinham idades compreendidas entre os 18 e os 32 meses (média etária de 25 meses). Os resultados mostraram que os sujeitos com alterações neuromotoras reagiam na Situação Estranha de acordo com as hipótese postuladas pela teoria da vinculação (Bowlby, 1969, 1984). Verificou-se, assim que, os níveis de exploração manipulatória e visual diminuíram nos episódios de separação, enquanto que o choro aumentou progressivamente no desenrolar da situação experimental (com alguma quebra nas reuniões com a mãe). Os valores médios da Procura de Proximidade e da Manutenção do Contacto foram mais baixos nos momentos de pré-separação, e os de resistência ao contacto aumentam significativamente nos episódios de reunião à mãe. Aplicando a tipologia proposta por Ainsworth, Blehar et ai. (1978), foi possível classificar 18 das 19 crianças: 9 crianças apresentavam uma estratégia segura, 5 apresentavam uma estratégia insegura-evitante, e 4 inseguraambivalente/resistente. Os resultados relativos às variáveis de Procura de Proximidade e de Contacto, Manutenção do Contacto, Resistência ao Contacto e Evitamento da Proximidade e da Interacção, bem como a análise função discrimante (DISCRIM) confirmaram consistência das nossas classificações. Na parte final da dissertação são discutidas as implicações dos resultados em termos teóricos e no quadro da intervenção precoce.
ABSTRACT The subject of this study is the quality of attachment in risk groups. Based on the experimental procedure Strange Situation, we classified the attachment behavior of 19 children with neuromotor disorders (cerebral palsy). In order to classify the parental interaction behavior, we used the PCIS - Parent/Caregiver Involment Scale m a play situation. Our sample consists of 11 boys and 8 girls, all from the Centro de Reabilitação da Paralisia Cerebral of Oporto, aged between 18 and 32 months (mean of 25 months). Our results suggest that children with neuromotor disorders behave under Strange Situation as predicted by the attachment theory (Bowlby, 1969, 1984). That is, we observed a lower number of initiatives for manual or visual exploration when the caregiver is not present, although the children increasingly cry during the experimental session (eventually decreasing when the mother shows up). The mean values for Proximity Seeking and Contact Maintaining are lower in the separation moment, and the Contact Resisting increased significantly when the mother shows up. Using the typology of Ainsworth, Bell, et al. (1978), it was possible, to classify 18 children: 9 children were classified as secure, 5 as imecure-avoidmg, and 4 as insecure-ambivalent/resistant. The results concerning the proximity and interaction seeking, contact maintaining, contact-resisting, proximity-avoiding, and the Discriminant Function Analysis (DISCRDVl), confirmed the validity of our classification. In the final, we discuss the implications both theoretical an early intervention practice.
2 comportamento de vinculação é activado quando a distância que o separa da mãe, excede os limites do suportável. A disponibilidade e resposta materna ao seu regresso promoverá a confiança do filho nesta relação. Sabendo que a mãe é uma fonte de segurança e a afectividade, a criança procura e tenta manter a proximidade e o contacto, através de alguns comportamentos que requerem desenvoltura motora, como agarrar-se, gatinhar, subir ao colo da mãe, entre outros, a nossa motivação foi conhecer como se desenrola o processo de vinculação na ausência de tal disponibilidade motora. Prevemos que a criança active comportamentos alternativos, num jogo de respostas com a mãe algo diferente, que pode ter ou não, consequências na qualidade da vinculação. O estudo da vinculação em grupos de risco consolida a tese universalista deste construto. Ao mesmo tempo, as diferenças, registadas na qualidade e intensidade dos comportamentos de vinculação, permitem um novo registo na compreensão desenvolvimental desses grupos. Estes contributos abrem, assim, o caminho para novas estratégias e práticas de intervenção, ora, elicitando a sinalização do desejo de proximidade da criança à mãe, ora, agindo num contexto mais alargado da relação mãe filho. Com o recurso a PCISParent/Caregiver Involvement Scale esperamos encontrar algumas relações entre o comportamento materno e a qualidade de segurança vinculativa, porventura com contributos para a compreensão desta relação e sugerindo pistas para a intervenção. Passamos à apresentação da organização da tese. A dissertação encontra-se dividida em duas partes. A primeira, denominada de -Vinculação e fenómenos da vinculação em grupos de riscoé composta por dois capítulos. O primeiro capítulo descreve a teoria da vinculação dispensando particular atenção às diferenças entre os padrões e às variáveis que explicam tais diferenças.
3 O segundo capítulo revê a investigação empírica acerca da vinculação em populações de risco, discutindo a qualidade dos comportamentos e estratégias de vínculo à mãe. A segunda parte -Vinculação na alteração neuromotoraé constituída por 3 capítulos. No primeiro capítulo (e terceiro da tese) apresentamos alguns apontamentos sobre os quadros da alteração neuromotora com vista à compreensão das vicissitudes de desenvolvimento e dificuldades do grupo que é presentemente objecto de estudo. No capítulo seguinte (capítulo 4) apresentamos a investigação propriamente dita, referindo os objectivos, o método, os resultados e a respectiva discussão. A fase final foi orientada para o enquadramento geral dos resultados na teoria da vinculação, focando alguns aspectos ligados à pertinência desta teoria nas práticas de intervenção precoce.
PARTE I - VINCULAÇÃO E FENÓMENOS DE VINCULAÇÃO EM GRUPOS DE RISCO
Capítulo 1 - Estudos da Vinculação
6 O que é a complexidade? A primeira vista, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogéneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem, a complexidade é efectivamente o tecido de acontecimentos, acções, interacções, retroacções, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal. Mas então a complexidade apresenta-se com os traços inquietantes da confusão, do inextricável, da desordem, da ambiguidade, da incerteza... Daí a necessidade, para o conhecimento, de pôr ordem nos fenómenos ao rejeitar a desordem, de desviar o incerto, de seleccionar os elementos de ordem e de certeza, de retirar a ambiguidade, de clarificar, de distinguir, de hierarquizar... Mas tais operações, necessárias à inteligibilidade, correm risco de a tornar cega se eliminarem os outros caracteres do complexus; e efectivamente, como o indiquei, elas tornaram-nos cegos. Edgar Morin (1990) 1.1. Vínculos - Apontamentos da História O estudo do comportamento humano orientou, desde o início, o foco da sua intencionalidade para o indivíduo adulto, caucasiano, supostamente médio e representativo. No começo procurou escrutinar os sentimentos de amor, afeição, inveja, ou paixão narrados ao investigador por introspecção dos sujeitos o método que fez a excelência de Wundt (1879). Na aspiração de aceder à objectividade, a Psicologia buscou depois emprestar à res cogitans as
7 qualidades reconhecidas por Descartes à res extensa. Tentou, então, com Ebbinghaus quantificar a memória ou com Cattell e Binet mensurar a aprendizagem e a inteligência. Freud, afasta-se do normativo e, com base na sua experiência clínica parte para o estudo do sintoma e da patologia, mantendo-se, no essencial, fiel ao estudo do adulto. O autor nutria a ideia de que o presente é consequência da infância e por processos de reconstituição lança-se na exploração dos passados individuais. Somente a partir da década de sessenta, o bebé se tornou objecto exemplar de estudo. Até então, as suas competências eram subestimadas. O recém-nascido, pensava-se, vivia inicialmente sem interesses nem emoções, na letargia própria da estreiteza de uma vida confinada ao sono e à mama. O desconhecimento das capacidades da criança pequena estava, de certa forma, ancorado na dificuldade em estudar o comportamento durante as fases anteriores à emergência da fala: conforme Bower (1983) confessou "os bebés são extremamente encantadores, mas tipicamente pouco cooperantes com os psicólogos" (p.15). Sobrevinda uma nova época que trouxe soluções extremamente criativas a nível dos delineamentos metodológicos, o estudo do recém-nascido revelou resultados no mínimo surpreendentes. Descobriu-se por exemplo, que desde dos primeiros instantes da sua existência, o bebé é capaz de se orientar em direcção a estímulos sonoros (Wertheimer, 1961). Na mesma altura, revela também uma notável preferência por fixar e seguir, com os olhos, estímulos visuais que compõem a configuração perceptiva da face humana (Goren, Sarty, et ai, 1975). Ao segundo dia de vida, consegue distinguir dois sons discriminando as suas consequências e reagindo em conformidade. Siqueland e Lipsitt (1966) demonstraram-no inequivocamente num estudo experimental onde os recém nascidos aprenderam que se voltassem a cabeça para a direita depois de ouvirem o som de uma campainha, recebiam na boca algumas gotas de água açucarada. Se o ruído fosse o de um
8 besouro, percebiam que só obteriam o reforço caso não movimentassem a cabeça. Segundo a observação daqueles autores bastaram alguns ensaios de aprendizagem para que os bebés estabelecessem estas várias conexões. Além de um sistema de percepção a funcionar e de algumas competências motoras, o recém nascido conta ainda com um repertório de comportamentos sociais inicialmente difusos mas germinativos. É o caso do sorriso dos seis dias, sem alvo nem coerência, que às seis semanas se torna já reactivo à apresentação da face humana, e que aos seis meses surge preferencialmente dedicado à mãe, adquirindo, então, uma intencionalidade social e vinculativa. Importa, no entanto, enfatizar que o reconhecimento da figura materna emerge muito antes. É sabido, por exemplo, que por volta das duas semanas, o recém-nascido alarma-se particularmente quando, num contexto de engodo experimental, vê a mãe falar com a voz de uma estranha, ou uma estranha falar com a voz da mãe (Carpenter, 1975). Da mesma forma, quando aos três de vida é colocado perante a difusão da voz materna faz depender o ritmo de sucção da chupeta, de acordo com as condições requeridas para escutar a mãe (DeCasper & Fifer, 1980). Os prodigiosos estudos do grupo de Bensançon, relativos à discriminação odorífera (Montagner, 1993), são exemplares na compreensão do dos comportamentos e das competências precoces do recém-nascido, na relação com a mãe e com o mundo. Retomando os trabalhos e os métodos de MacFarlane (1975; 1977), Schaal (1984) e Montagner (1982) verificam que, ao terceiro dia, o bebé é capaz de discriminar o cheiro do pescoço e do seio materno, face à exposição de uma vasta gama de odores. Do lado da mãe, o mesmo registo: ela reconhece o cheiro do seu bebé entre o segundo e o terceiro dia (Schaal, Hertling, et ah, 1980; 1981; Schaal, 1984, 1985) e sem ter verdadeira consciência do seu acto pega-o desde cedo ao colo em posição para que ele sinta melhor o seu cheiro. Ainda que este mútuo reconhecimento sofra
9 variações no tempo, a instintiva afinidade mãe-filho é dificilmente negligenciável. Abriu-se, assim, o caminho para compreender que, desse mundo de percepções, vozes, e odores se arquitectam as primeiras aquisições, sistematicamente mais complexas e organizadas, tornando-se "cada vez mais evidente que deste novelo original de informações se tecem os primeiros vínculos, admiravelmente precoces, que ligam a criança à mãe e, posteriormente, todo o desenvolvimento do bebé. " (Montagner, 1993, p.7). Durante a Segunda Guerra Mundial Anna Freud e Dorothy Burlingham registam (de maneira notavelmente sistemática dadas as circunstâncias históricas), comportamentos atípicos em crianças institucionalizadas (criadas em lares e separadas da família). Tais comportamentos coincidiam com os registos de Spitz e Wolf (1946), ou com a instabilidade registada por Roberston (1952, 1954, 1962), em crianças hospitalizadas (dos 18 meses aos 4 anos de idade). Face à privação materna, as crianças desenvolviam comportamentos estereotipados e dependentes e manifestavam dificuldades de relacionamento, lidando deficientemente com a frustração. Bowlby (1940/1944), pelo seu lado, reconheceu nos dados da experiência clínica com adultos a importância etiopatogénica das separações matemo-infantis ocorridas em fases precoces da existência. A convite da Organização Mundial de Saúde o autor elabora, em 1949, um relatório sobre as sequelas de desenvolvimento decorrentes da perda ou separação da mãe. A extensa revisão de literatura, que, então, efectuou permitiu-lhe concluir que a ausência da figura materna era vivida com crescente prejuízo, numa sequência de três fases :
10 - Protesto - nesta primeira fase a criança demonstra aflição pela ausência da mãe, através de um choro estridente, permanecendo num compasso de espera que a leva a rejeitar outras figuras alternativas; - Desespero - corresponde a uma fase em que o comportamento da criança reflecte preocupação e um crescente desespero. Os movimentos activos de procura da mãe diminuem de intensidade, assim como o choro (agora intermitente ou monótono). A criança apresenta uma aparente quietude, que é por vezes interpretada como sinal de recuperação, mas que, assinala antes, um estado de luto profundo; - Desapego - volta, por último, a interessar-se, e porventura aceita, brinquedos, cuidados ou a interacção com outras pessoas, podendo até mesmo ser sociável e sorrir. A chegada da mãe é vivida com indiferença ou distância, o que revela que a criança não superou a sua ausência, reagindo com desencanto. Bowlby (1969/1984) defende ainda que caso a separação se perpetue, a criança tende para um estado permanente de desinvestimento das relações com os outros e bloqueio das relações íntimas, desenvolvendo uma sociabilidade meramente aparente. O autor rejeita o cepticismo dos críticos e afasta a tese de que o ambiente estranho (seja a creche ou o hospital) e as condições de vida (porventura insatisfatórias), possam constituir as causas determinantes destes estados: a única variável efectiva era a própria separação. A sua resposta arregimenta-se em dois argumentos: primeiro, refere-se aos dados conhecidos acerca da depressão anaclítica (Spitz & Wolf, 1946) que ocorre em resultado da separação da mãe, independentemente do facto de as crianças permanecerem ou não no mesmo ambiente; segundo consiste na evidência
II clínica de que as alterações psicológicas só são sanadas com o regresso materno (ou o estabelecimento de uma relação de substituição satisfatória e estável). Bowlby (1953) procura tornar inteligíveis estes dados inquietantes e convergentes na dedução "The direct studies are the most numerous. They make it plain that, when deprived of maternal care, a child's development is almost always retarded - physically, intelectually, and socially - and that symptoms of physical and mental illness may appear. Such evidence is disquieting, but sceptics may question whether the check is permanent and whether symptons ofilness may not easily be overcome. The retrospective and follow-up studies make it clear that such optimism is not always justified and that some children are gravely damage for life. This is a sombre conclusion, which must now regarded as established"1 (p.21). Para o efeito, recorre a alguns resultados, então recentes, da etologia e da investigação do comportamento animal, abrindo caminho à explicação filogenética do comportamento de vinculação. Heinroth (1910) é o primeiro etólogo a descrever o imprinting caracterizando-o como o conjunto de "... fenómenos pelos quais uma ave nidífuga recém-nascida, nas horas que sucedem à eclosão se impregna das características da mãe e da espécie" (Montagner, 1993, p.17). É no entanto, Korand Lorenz que se celebriza com os seus estudos com patinhos e jovens "Os estudos directos são os mais numerosos. Eles tomam claro que quando a criança é privada dos cuidados maternos sofre quase sempre atrasos no desenvolvimento -físico, intelectual e sociale que os sintomas da doença física e mental podem surgir. Esta evidência é inquietante, mas os cépticos podem questionar se a permanência dos efeitos foi devidamente averiguada e se os sintomas da doença podem ser facilmente superadas. Os estudos retrospectivos e prospectivos tornam claro que tal optismismo nem sempre é justificado e que algumas criança ficam gravemente afectadas para toda a vida. Esta é uma conclusão sombria que deve ser agora encarada como um dado bem estabelecido"
18 1. 4. Fases do Desenvolvimento da Vinculação Para introduzir o desenvolvimento da vinculação Bowlby cita Metawar (1967, p.319) "Heredity proposes...development disposes"4. Com efeito, o autor parte do princípio de que, ao nascer o bebé não é uma tábua rasa. Considera, pelo contrário, que o recém-nascido vem equipado com um conjunto de sistemas que são activados no meio e que estão na base do desenvolvimento da vinculação. Sistemas inicialmente pouco discriminados e rudimentares, compostos por padrões fixos de acção, que progressivamente se vão articulando entre si de maneira a poderem funcionar solidariamente no contexto de acções corrigidas para a meta. Procurando traçar o desenvolvimento da vinculação, Bowlby (1969/1984) descreve quatro grandes fases de evolução: Ia Fase - Orientação e sinais com discriminação limitada das figuras (0 -8/12 semanas) - a capacidade de discriminar pessoas nesta fase limita-se a estímulos visuais e auditivos. O bebé procura atrair a presença do adulto com o seu choro, sorriso, balbuciar, olhar ou agitando os braços. A intensidade do choro diminui com a companhia, mas o ping-pong social ainda é apenas embrionário. O bebé começa a aprender a diferenciar o familiar do estranho, e nesta diferenciação assentam as fases subsequentes. 2a Fase - Orientação e sinais dirigidos para uma ou mais figuras discriminadas (3-6 meses) - o comportamento amistoso mantem-se, mas é preferencialmente dedicado à figura materna ou de substituição. 3a Fase - Manutenção de proximidade com uma figura discriminada através da locomoção e sinais (6-24 meses) - nesta fase a criança é ainda mais discriminatória e orientada para a mãe, respondendo à sua ausência e regresso. "A hereditariedade propõe...o desenvolvimento dispõe"
19 A tentativa de aproximação à figura materna é nítida, e realizada através de comportamentos mais variados e eficazes. Em contrapartida, o estranho recebe agora, menos respostas sociais. Existe, nesta fase, objectivamente, uma direcção comportamental com intuito vinculativo à mãe (ou seu substituto). 4a Fase - Formação de uma relação recíproca corrigida para objectivos (a partir 24 meses) - a mãe passa a ser concebida como independente, mas constante no espaço e no tempo. A criança percebe que a permanência da mãe não depende apenas da sua vontade, vendo-se obrigada a negociar e a ajustar comportamentos, de modo a influenciar a conduta materna. A flexibilidade passa a fazer parte da postura da criança, que adapta os seus objectivos, de acordo com a previsão que faz das metas e comportamentos da mãe. Tal conhecimento não é alheio a um mapa conceptual que o indivíduo vai construindo com crescente acuidade e complexidade.
20 1.5. Vinculação e Situação Estranha Encarada como fenómeno instintivo, o sistema da vinculação revela uma grande labilidade relativamente às experiências do meio. O caminho para distinguir as diferenças na qualidade da vinculação começou com as medidas centradas em comportamentos isolados, como o protesto à separação ou a procura de proximidade. Tais medidas apreendiam com maior acuidade a reactividade dos comportamentos, e não propriamente a sua organização. Para o efeito, Ainsworth & Wittig (1969) imaginaram um procedimento experimental, concebido no pressuposto de que as respostas de apego são activadas face à ausência da mãe, em particular, perante pessoas e ambientes deconhecidos. Designado por Situação Estranha, este procedimento é constituído por oito breves episódios (ver quadro 1), com duas separações e duas reuniões à mãe. Quadro 1 - Sumário da Situação Estranha [ Episódio : Participantes Dtiração 1 M,B,E(1) 30 s E mostra a sala a M e B, e sai. 2 M,B 3 m M deixa B a explorar 3 E, M, B 3 m E entra: 1° minuto: E senta-se calada; 2o minuto: E conversa corn M; 3° minuto: aproxima-se de B. M sai discretamente. 4 E,B 3 m ou menos E responde a B, se necessário conforta. 5 M,B 3 m M entra e E sai: M saúda e/ou conforta B; M instiga B a voltar a brincar; M sai, despendindo-se. 6 B 3 mou menos B fica sozinho. 7 E,B 3 m ou menos E entra e interage com B. 8 M,B 3 m M entra, saúda B, pega-lhe ao colo e sai E. (1) M = Mãe, B = Bebé, E = Estranho, O = Observador (in Soares, 1992)
21 A primeira aplicação, em 13 bébés de 1 ano de idade, permitiu observar três tipos sensibilidade nos episódios de separação: a) escassa perturbação; b) clara perturbação, e c) "maladaptive" i.e. manisfestações contraditórias de ansiedade. Posteriormente, os autores centraram a sua atenção nos episódios de reunião, avaliando em escalas de 7 pontos os seguintes comportamentos: de procura de proximidade e contacto; manutenção do contacto; evitamento; resistência; procura da mãe; e distância na interacção. A investigação que se seguiu (Ainsworth, Blehar, et ai. 1978) permitiu obter três classificações da segurança da vinculação com base na organização de padrões de comportamento, durante as fases de reunião. A primeira diz respeito às crianças com relações de vinculação seguras (Grupo B), que são o grupo mais representativo, atingindo 65% dos sujeitos das amostras típicas (de classe média). O prestador de cuidados serve como base segura para a exploração durante toda a situação, o seu regresso suscita satisfação, a criança sauda-a ou sorri à sua chegada (BI e B2), e pode procura activamente a proximidade ou o contacto (B3 ou B4). Em Portugal (Soares, Lopes dos Santos et ai, 1995) estes valores foram sensivelmente similares,com 68% dos sujeitos a apresentarem uma estatégia de vinculação segura. Estes autores verificaram, no seu estudo, a total estabilização de segurança vinculativa dos 12 para os 18 meses. 5 Podem ser consultados in Ainsworth, Blehar et ai. (1978). 6 Critérios de Classificação (Episódios de reunião 5o e 8o) In Lopes dos Santos (não publicado). Classificação Terminologia Procura de Manutenção do Evitamento Resistência proximidade contacto A Evitante Baixo Baixo Alto Baixo B Seguro Alto Alto Baixo Baixo C Resistente Alto Alto Baixo Alto
22 Nas amostras norte-americanas, a estabilidade é tendencialmente menor, com 20% das crianças a alterar a sua estratégia segura (Bremner, 1994). O segundo grupo - crianças inseguras-evitantes (Grupo A) - constitui 20% das amostras típicas. Os comportamento predominantes são de evitamento da proximidade e do contacto, não se verificando respostas à chegada da mãe (ou sendo dada com considerável atraso). As crianças do subgrupo A2 apresentam um registo contraditório, procurando a proximidade com comportamentos de evitamento, enquanto que as do subgrupo Al são marcadamente évitantes. Por último, o grupo C - inseguro-resistente (15% do total das amostras típicas de Ainsworth) - foi denominado nas primeiras classificações de ambivalente, porque as crianças deste grupo revelam ao longo de toda a sessão preocupação com Mãe mas, no seu regresso, reagem com assinável resistência ou com demonstrações de irritação. As crianças do subgrupo Cl oscilam entre a procura e a manutenção de proximidade, e comportamentos de resistência, e as do subgrupo C2 combinam este último de comportamento com passividade. Apesar de diferenças interculturais pontuais, verificou-se, em duas décadas de investigação, uma clara tendência para a vinculação segura (van Ijzendoorn & Kroonberg, 1988), apoiando assim a tese universalista de Bowlby. No entanto, sabemos que a organização comportamental da vinculação não é independente nem da cultura, nem da resposta materna (Bremner, 1994). Após a distribuição das amostras pelos padrões aferidos, registou-se que um pequeno grupo de bebés não era classificável com aquela tipologia. Este grupo foi estudado por Main & Solomon (in Ainsworth, 1978), designando-os como inseguros-desorganizados/desorientados (grupo D), por apresentarem comportamentos anómalos, contraditórios, esteriotipados, sem propósito aparente, e expressões de confusão e desorientação.
23 1.6. Antecedentes da Vinculação Os trabalhos de Ainsworth (Ainsworth, Behar, et ai. 1978) puderam comprovar que, por volta do ano de vida, as crianças diferem entre si no modo como, em ambiente estranho, regulam a proximidade com a mãe e a utilizam como base segura de exploração. Estas diferenças reflectiriam estratégias diversas de organizar os processos de vinculação que, de acordo com os dados da investigação, tendem a mostrar-se consistentes e estáveis ao longo do tempo (Grossmann & Grossmann, 1991; Main, Kaplan & Cassidy, 1985). Os autores cujas orientações teóricas se inscrevem nos pressupostos conceptuais de Bowlby (1969/1984; 1973; 1981), enfatizam a ideia de que as diferenças se constituem a partir das ocorrências vividas ao longo da história da relação entre as crianças e os seus pais. Outras correntes de pesquisa enfatizam, pelo contrário, a importância das determinantes maturoconstitucionais, justificando a diversidade das estratégias de vinculação na base de factores que, à semelhança do temperamento, possuem uma natureza mais ou menos congénita {e.g. Kagan, 1984). O problema assume, assim, uma dialética similar ao debate nature/nurture, que aflui necessariamente ao cerne das questões suscitadas pelo modelo transaccional de Sameroff (Sameroff & Fiese, 1990). A essas questões não será, também, totalmente alheia a visão da ecologia dos cuidados maternos tal como foi recentemente reformulada por Bronfenbrenner (1989). Com efeito, será preciso entender a relação entre pais e filhos, como resultado de pessoas e gerações distintas em mudança contínua (mas interrelacionada) no tempo, e da sobreposição de contextos, também eles em constante evolução. Neste contexto, a dificuldade está em determinar que pontos de intersecção são críticos.
24 1.6.1. Vinculação e qualidade da resposta materna Um dos enunciados centrais da proposta teórica de John Bowlby sustenta que os modelos de relação instituídos entre a criança pequena e os seus pais irá marcar decisivamente a organização dos processos de vinculação. Assim, no primeiro volume da trilogia Attachment and Loss, o autor (Bowlby, 1969) defendia a necessidade de se identificarem as características ou qualidades do comportamento parental que favorecem ou dificultam a constituição dos padrões de apego seguro. Ainsworth, Blehar et ai. (1978) foram os primeiros investigadores a avaliarem, no âmbito de uma abordagem prospectiva, a importância que os factores da interacção mãe-filho têm no desenvolvimento da qualidade da vinculação. Esse estudo -que acompanhou longitudinalmente uma amostra de 23 díades durante o primeiro ano de vida das criançasexaminou o comportamento materno ao longo de 5 observações de 4 horas cada uma (realizadas de 3 em 3 semanas em casa das famílias) quando os bebés tinham entre 9 e 12 meses de idade. No fim, por volta das 54 semanas de idade, as crianças eram examinadas no contexto da Situação Estranha. As medidas usadas para caracterizar a actividade interactiva das mães incluíam quatro escalas cuja pontuação variava entre 1 e 9 pontos. As escalas em causa, propondo de critérios de cotação precisos, diziam respeito a características básicas do estilo interaccional {sensibilidade, aceitação, cooperação e acessibilidade) cuja definição aparece sumariamente feita no quadro 2. Efectuada a recolha das informações atinentes ao comportamento materno, relacionaram-se esses dados com os referentes à classificação obtidas pelas crianças na Situação Estranha.
25 Quadro 2 - Dimensões interactivas do comportamento materno consideradas no estudo de Ainsworth, Blehar et ai., (1978). and communications implicit in her infant's behaviour, and given this understanding, to respond to them appopriately and promptly" (Ainsworth, Bell, & Stayton, 1974, pag. 127). A sensibilidade da mãe parece, assim, revelar quatro componentes essenciais: (a) a tomada de consciência dos sinais 1 enviados pela criança; (b) a capacidade para os interpretar correctamente; (c) adequação das respostas dadas (tendo em conta os estados emocionais do sujeito e o seu nível desenvolvimental); (d) a prontidão dessas mesmas respostas. Aceitação Diz respeito ao equilíbrio entre (...) the mother's positive and negative feelings about her baby and the extent to which she has been able to integrate or to resolve her conflicting feelings (Ainsworth, Blehar et al., 1978, p. 142). A aceitação pressupõe que a mãe admite as responsabilidades e as limitações inerentes à sua condição materna, sem manifestar ressentimentos ou irritibalidade para com o bébé. Cooperação A cooperação significa o respeito pela autonomia do bébé e a aceitação de que ele é, em si, um ser distinto da mãe. Nessa medida a mãe cooperante (...) respects her baby as a separate person and plans to avoid situations in which she might have to interfere with his activity or to exert direct control over him . When she does intervene, she is skilfull (...) so that the baby is persuaded that he wants to do what she wants to do (Ainsworth, Blehar et al., op. cit., pag. -.:-. 143). Acessibilidade A acessibilidade da mãe supõem atender aos sinais e comunicações do bébé, mesmo quando outras solicitações entram em concorrência ou quando factores perturbantes interferem em termos emocionais. A inacessibilidade pode ser vista em duas vertentes: a física e a psicológica. A inacessibilidade física significa ausência ou afastamento espacio-temporal da mãe. Em termos, psicológicos, a mãe inacessível está preocupada com os seus próprios pensamentos ou estados, ou demasiado centrada nas suas actividades, sem focar a atenção no bébé, mesmo quando este a solicita explicitamente sinais de comunicação.
26 Os resultados mostraram que havia, em termos globais, uma associação entre os modelos da vinculação infantil e as características do comportamento materno previamente avaliadas. Conforme podemos verificar no quadro 3, as relações mais importantes parecem estabelecer-se com a sensibilidade. Aliás, o valor preditivo inerente à aceitação, à cooperação e à acessibilidade parece explicar-se, em grande parte, pela forte correlação existente entre estas variáveis e as medidas da sensibilidade. Quadro 3 - Comportamento das mães observado em casa entre os 9 e os 12 meses de vida das crianças (médias do total das observações) e classificações na Situação Estranha (adaptado de Ainsworth, Blehar et ai, 1978). Comportamento materno Grupo A Grupo B Grupo C iV= 6 N= 13 N= 4 Reactividade ao Choro do Bebé Ignora o choro (episódios por hora) Não reage ao choro (minutos por hora) Qualidade do Contacto Corporal com o Bebé Percentagem de tempo que é afectuosa quando pega ao colo Percentagem de vezes que pega abruptamente ao colo Características Gerais (escalas) Sensibilidade-insensibilidade Aceitação-rejeição Cooperação-interferência Acessibilidade-ignorar 2.06 1.50 2.35 3.26 d 1.27 4.44 c 8.67 21.62 3.00 a 20.33 c 9.08 14.25 2.42 d 6.48 2.38 d 3.75 d 7.62 5.38 c 3.58 d 7.30 4.25 d 3.83 c 6.62 3.50 c comparação do grupo B com os grupos A e C (teste t). a p<.10; " p<.05; c p<.01; d p<.001 O mesmo quadro indica, curiosamente, que aspectos não contemplados nas quatro escalas e que incidiam sobre dimensões mais moleculares da actividade interaccional das mães constituiram, também, factores de prognóstico da segurança da vinculação infantil. Foi, assim, possível verificar que as mães cujas crianças vieram posteriormente a ser classificadas no grupo B (seguras) demoravam, por exemplo, menos tempo a acorrer ao choro dos
27 filhos, não eram tão abruptas a pegar-lhes ao colo e comportavam-se mais afectuosamente durante as interacções. Este trabalho foi retomado por vários outros autores (e.g. Belsky, Rovine et ai, 1984; Grossmann, Grossmann, et ai, 1985; Isabella, 1993; Main, Tomasini, et ai., 1979) que, utilizando amostras quantitativamente mais importantes, recorreram a desenhos de investigação e a conceitos operacionais similares. De uma forma geral, essas estudos puderam replicar os resultados originais de Ainsworth, Blehar, et ai (1978), sendo hoje inquestionável que aspectos como a sensibilidade materna representam uma das determinantes principais da segurança da vinculação. Contudo, Goldsmith e Alansky (1987), na primeira meta-análise realizada sobre o assunto (feita com base em 13 artigos) advertem que "(...) the actual size of the predictive effect of maternal sensivity is much smaller than once was believed, suggesting only a weak relation between attachment security and parental sensivity" (p. 811). A circunstância de vários resultados não indicarem associações tão robustas entre as medidas de sensibilidade e o desenvolvimento de uma vinculação de tipo seguro, pode ser atribuída a diferenças ou a fraquezas no plano das metodologias usadas. Com efeito, a partir das análises de De Wollf e van Uzendoorn (1997) julgamos pertinente sublinhar certos pontos: 1algumas abordagens socorrem-se de procedimentos mais simplificados de avaliação que não captam necessariamente toda a extensão e riqueza do conceito original de sensibilidade; 2determinados trabalhos recolhem amostras de comportamento relativamente exíguas, circunscrevendo as observações a uma só sessão de poucos minutos efectuada, muitas vezes, em contexto de laboratório; 3vários estudos utilizam um intervalo demasiado longo entre a avaliação da sensibilidade dos pais e a obtenção das medidas da vinculação infantil, não controlando a eventual ocorrência de life events
34 Main & Weston, 1981). Essa mesma ideia parece igualmente incompatível com os resultados de estudos de intervenção que, tendo produzido alterações do comportamento materno no sentido de uma maior sensibilidade interactiva, puderam verificar, em consequência, o aumento do número vinculações seguras nos bebés pertencentes às mães dos grupos intervencionados (van IJzendoorn, Juffer et ai, 1995). Existe evidência de que as diferenças de temperamento não estão associadas aos padrões de vinculação definidos de acordo com a tipologia A, B e C (e.g. Belsky & Rovine,1987; Sroufe, 1985). No entanto, equacionar os dados a este nível é susceptível de nos dar uma imagem demasiado simplista do problema. Matheny, Wilson et ai. (1987), por exemplo, consideram que o temperamento emerge desde do nascimento, " (...) as individual differences in reactivity and self-regulation. Reactivity includes such prominent features as motor activity and emotional activity (smiling or crying); self-regulation refers to processes that inhibit or enhance reactivity" (p. 324). Quer as componentes emocionais referidas à reactividade, quer os processos comportamentais relacionados com a auto-regulação envolvem aspectos valorizados na apreciação das estratégias de vinculação no contexto da Situação Estranha. O sorriso é um sinal de afiliação que o bebé utiliza para saudar a mãe nos episódios de reunião ou para comunicar com ela à distância. O choro, se intenso ou persistente, pode ter o valor de resistência. Também é possível perceberem-se analogias entre a inibição da reactividade e respostas como o evitamento. Há, por conseguinte, nas medidas do temperamento e da vinculação algumas zonas de sobreposição já que ambas avaliam a aspectos emocionais do comportamento da criança. Ora, sabemos que na tipologia de Mary Ainsworth , o grupo B - Seguros - integra quatro subgrupos. Embora no essencial se caracterizem pela orientação preferencial à mãe (sempre utilizada como base segura de
35 exploração), acontece que, os subgrupos BI e B2 mostram algum evitamento para com ela e os B3 e B4 alguma resistência. Nesse sentido, Frodi & Thompson (1985), estudaram a expressão emocional das crianças classificadas na Situação Estranha em função de dois grandes grupos: o primeiro - A1/B2 - incluía as crianças classificadas nas categorias Al, A2, BI e B2; o segundo - B3/C2 - agrupava os sujeitos B3, B4, Cl e C2. Os resultados mostraram a existência de diferenças significativas, verificando-se que o segundo grupo (B3/C2) revelava, em comparação com o primeiro (A1/B2), reacções emocionais negativas mais frequentes e intensas. Belsky & Rovine (1987) compararam as duas tipologias (A1/B2 e B3- /C2) em função dos dados obtidos anteriormente na NBAS durante avaliações feitas nas duas primeiras semanas de vida. Neste estudo, as observações do período neonatal estavam significativamente correlacionadas com as classificações da vinculação (aos 12 meses): A1-B2 infants displayed more autonomic stability than B3-C2 infants, (...) and the former infants (A1-B2) were more alert and positively responsive as newborn (p. 787). Avaliado, também, o temperamento infantil aos três meses através de questionários às mães, verificou-se que os bebés mais tarde classificados como A1/B2 tinham um temperamento considerado menos difícil. Em síntese, as diferenças temperamentais não parecem estar associadas aos padrões de vinculação segundo a grande tipologia de Ainsworth (A, B e C), mas parecem ter alguma importância a nível da probabilidade ou da tendência de o indivíduo exprimir evitamento ou resistência. Será possivelmente indispensável adoptar de futuro uma abordagem não reducionista que equacione as determinantes da qualidade da vinculação infantil numa perspectiva mais abrangente e compreensiva. Nesse sentido, Bremner (1994) comenta de forma incisiva: "There is already evidence that the form of attachment at one year can be predicted from the quality of the interaction between mother and infant those, interactions showing greatest
36 synchrony between one and nine months being predictive of secure attachment, while those showing asynchrony predicting insecure attachments. The tendency, however, is still to look for and hence to interpret the sources of synchrony or asynchrony in terms of maternal sensivity. But it has been shown that both maternal personality and infant temperament affect the quality of interaction. (...) there is evidence that interactional synchrony is contributed to by both partners in the exchange" (p. 223). Por conseguinte será mais realista considerar a segurança da vinculação como fenómeno determinado pelo modo como as variáveis da mãe e do bebé interagem umas com as outras.
37 1.7. Representações Internas da Vinculação As perspectivas desenvolvimentais sustentam que a vinculação pode ser equacionada como uma experiência de ordem afectiva, à luz da qual os indivíduos estruturam gradualmente os padrões da sua intencionalidade relacional (Lopes dos Santos, 1995). Muito antes de conseguir comunicar através da palavra, a criança estabeleceu já uma poderosa organização de emoções, de desejos, de afectos e de comportamentos que lhe permitem negociar com as suas figuras de vinculação as tarefas de obter conforto, segurança e protecção. Bowlby (1969/1984; 1973, 1980) defende que as transacções interpessoais mantidas na infância com os outros significativos são internalizadas pelos sujeitos sob a forma de modelos representacionais (internal working models). Estas representações, codificando os aspectos qualitativos da experiência relacional, constituem um sistema gerador de significados, à luz do qual o indivíduo se avalia a si próprio, e interpreta ou antecipa os comportamentos dos parceiros de interacção. Organizados em fases precoces do desenvolvimento, os modelos internos da vinculação tendem a funcionar no registo inconsciente e a resistir a mudanças sensíveis. Por essa razão, os modelos originariamente constituídos na infância têm implicações sensíveis no modo como o indivíduo abordará, ao longo da sua vida, as situações que envolvem problemáticas relacionadas com a vinculação. O reconhecimento desta dimensão representacional trouxe novas possibilidades à teoria. No plano das metodologias, permitiu a utilização de outros instrumentos de avaliação, centrados na percepção que o indivíduo tem de si próprio, dos outros e das possibilidades de intervir eficazmente no mundo circundante (Main & Weston 1981). No aspecto teórico, as considerações do domínio representacional oferecem instrumentos conceptuais e heurísticos
38 pertinentes para a abordagem da problemática da estabilidade e mudança da qualidade da vinculação.
39 1.8. Estabilidade e Mudança na Qualidade da Vinculação Vários estudos têm verificado que a qualidade da vinculação estabelecida para com uma determinada figura - mãe ou pai (Main & Weston, 1981; Easterbrooks, 1989) - tende manter-se no tempo. Conforme Soares (1986) refere, para alterar a consistência do padrão de vinculação são necessárias vivências críticas relacionadas com a figura de apego materna ou mudanças sensíveis (mais ou menos duradouras) na qualidade dos cuidados prestados (e.g. constante rotatividade das figuras, regresso da mãe à actividade laboral) e no registo familiar (e.g. mudança de residência, desemprego dos pais). Para Sroufe (1985) a qualidade da vinculação é condicionada por factores familiares e sociais. O desenvolvimento das relações desenrola-se num determinado contexto que tem uma história (passado, presente, futuro), sobre um pano de fundo de interacções, onde a criança tece a sua representação do mundo. Se as condições ambientais forem estáveis, os modelos elaborados tendem a favorecer um determinado padrão de organização. Todavia, os modelos representacionais são constantemente actualizados de acordo as avaliações realizadas a partir das condições externas e das respostas obtidas. Assim, face a acontecimentos significativos, as expectativas da criança alteram-se, e por consequência as suas respostas modificam-se também. Por vezes, de modo tão sentido, que a qualidade de vinculação muda de formas seguras para tendências évitantes ou resistentes.
40 1. 9. Implicações no Desenvolvimento da Personalidade e Cognição Apesar de defender que o bebé nasce equipado com um sistema rudimentar de comportamentos que lhe permite obter a proximidade à mãe, Bowlby (1969) não assume uma perspectiva inatista, afastando um olhar predeterminado do desenvolvimento. Antes, concebe o trajecto da personalidade como um caminho traçado em cada etapa, entre os vários possíveis. A criança, tal como um explorador, parte à construção de um mapa a partir das informações que recolhe, e à medida que vai acumulando experiências e conhecimentos antecipa pouco a pouco os passos seguintes. A ausência de rigidez neste processo permite a adaptação às circunstâncias e exigências do meio. Segundo a tipologia dos modelos de desenvolvimento de Sameroff (1993), esta perspectiva pode ser enquadrada na categoria "Active Person-Active Environment", uma vez que o autor concebe o estabelecimento da vinculação como produto biunívoco da acção na criança e das interpretações que retira dessa acção. A vinculação é encarada como uma peça chave no desenvolvimento da personalidade - a trave mestra onde se arquitectam os processos psicológicos. No terceiro volume da triologia Attachment and Loss (Loss: Sadness and Depression) Bowlby (1980) descreve um conjunto de alterações da personalidade (e.g. excessiva dependência ou independência, tacticidade nas relações), decorridas de pertubações do desenvolvimento a nível da vinculação (e.g. ausência de figuras de vinculação, vinculação indiscriminada). O desequilíbrio do processo vinculativo acarreta um estado de ansiedade e perturbação, exigindo à criança esforços suplementares para restaurar a relação e assegurar a resposta materna às suas necessidades afectivas. Face à indisponibilidade da figura de vinculação, a criança dificilmente encontra as condições de confiança e segurança necessárias à exploração do mundo social e dos objectos, o que limita o número de experiências possíveis e a aquisição de aprendizagens.
41 Ruitter & van Uzendoorn (1993) realizaram uma revisão dos trabalhos acerca das relações entre Vinculação e Cognição, verificando a íntima relação entre a qualidade da vinculação e o desempenho cognitivo na resolução de problemas. Matas, Arend & Sroufe (1978) verificaram que as crianças seguras demonstravam maior envolvimento, entusiasmo, persistência e cooperação no jogo simbólico, o que se reflectia positivamente no seu desempenho. De modo contrário, os sujeitos inseguros apresentavam com maior frequência comportamentos de frustação, negativismo, choro e agressividade. As relações preditivas entre a vinculação e a cognição são menos evidentes quando distinguimos a nível da vinculação insegura os évitantes e os resistentes, verificando-se apenas diferenças marcadas entre seguros e resistentes (Pastor, 1981, m Soares, 1992). A mesma revisão de literatura verifica a hipótese de Bowlby de que a vinculação favorece a exploração. Não só as crianças seguras exploram mais, como exploram melhor, experimentando mais e com maior intencionalidade. Estes resultados conferem consistência ao modelo holístico e dinâmico de Bowlby (1969). Para Thompson (1988) a organização da personalidade funciona a diferentes níveis. i) Se as expectativas surgem da internalização das experiências de relacionamento com os pais, interiorizando papeis e posturas comportamentais, é compreensível que as histórias de vinculação segura favoreçam uma expectativa positiva da resposta parental. Em oposição, os inseguros internalizam respostas ténues ou ambivalentes. ii) Se a vinculação é produto e produz representações internas afectas a vários aspectos do Self, servindo de filtro interpretativo das experiências, é
42 natural que, como refere Sroufe (1985), as diferenças de vinculação se traduzam, entre outras, em diferenças de: auto-estima, curiosidade e autocrítica. iii) Finalmente, a representação interna afecta o desempenho cognitivo, que por seu lado, está conexionado com o auto conceito e a motivação, também elas, associadas ao sucesso do desempenho de tarefas e das relações sociais. A relação entre a qualidade da vinculação e o desempenho, parece perdurar no tempo e afectar a vida académica. Ruitter e van Uzendoorn (1993) concluem que os alunos seguros tendem a apresentar: maior cooperação com os professores, uma maior motivação para a mestria, maior auto-estima e menor ansiedade, o que se traduz na melhoria de resultados. Por outro lado, parece existir uma associação entre determinados comportamentos de ensino ministrados pela mãe e a qualidade de vinculação estabelecida. Bus & van Uzendoorn (1988) verificaram que as mães das crianças seguras tendem a monitorizar e a avaliar verbalmente o desempenhos dos filhos, um comportamento que rareia nas outras mães. Mais tarde, no inicio das actividades de leitura, a assistência proporcionada pelas mães às crianças seguras é maior (Gus, 1993).
Capítulo 2 - Vinculação em Populações de risco
50 O critério que utilizaremos é eminentemente topográfico, agrupando as situações em função do locus onde se manifestam primariamente as dificuldades. Assim, se o problema for identificado por diagnóstico no indivíduo, consideraremos o risco como sendo relativo à criança. Caso as dificuldades sejam inicialmente percebidas no contexto em que o sujeito se desenvolve, o risco será referido ao ambiente. Por último, se os agentes adversos combinam inequivocamente factores situados na criança e no meio equacionaremos o grupo como de risco agregado. Este sistema de classificação topográfico possui, como qualquer outro, um caráter arbitrário não isento de equívocos. Na verdade, só grosseiramente poderemos reconhecer que estamos perante tipos mutuamente exclusivos. Conforme Sameroff e Fiese (1990) destacam, nenhum problema se localiza exclusivamente na criança ou no meio. Um nascimento prematuro, por exemplo, inscreve-se frequentes vezes numa dinâmica transaccional que junta riscos ambientais à vulnerabilidade que o sujeito potencialmente revela. Da mesma maneira, experiências como a negligência ou o abuso infantil deixam sequelas no indivíduo, que vêm a constituir, por si só, factores possíveis de risco. Ao fazermos esta ressalva, queremos acentuar que a tipologia usada não pressupõe a existência relações funcionais entre as condições estudadas e os processos de vinculação. Julgamos, no entanto, que os factos apurados poderão contribuir para uma melhor compreensão do papel dos fenómenos da vinculação na caracterização do desenvolvimento da criança em risco. Os trabalhos que doravante apreciaremos limitam-se a considerar o indivíduo nos seus primeiros anos de vida. Como tal, ignoram a problemática da vinculação num período mais alargado do ciclo vital dos sujeitos. Pelas mesmas razões os resultados que aqui referiremos dizem respeito a observações que, na esmagadora maioria dos casos, foram efectuadas com recurso ao método da Situação Estranha.
51 2. 1. 3. Vinculação no risco relativo à criança Conforme ficou dito, o risco relativo à criança contempla uma série de condições em que o problema é, independentemente da sua etiopatogenia, identificado primariamente no indivíduo e não nas características do ambiente. Sem pretendermos referenciar todas as condições potencialmente integráveis nesta categoria, faremos menção a abordagens que estudaram explicitamente os processos de vinculação em crianças que apresentavam anomalias genéticas (trissomia 21), alterações graves da personalidade (autismo), danos neurológicos severos, deficiência auditiva, insuficiente tempo de gestação ou doenças físicas crónicas. Todas estas situações serão tratadas em alíneas separadas. Trissomia 21 Entre os estudos da vinculação em populações de risco, um dos grupos mais investigado é sem dúvida o das crianças portadoras de Trissomia 21 {e.g. Berry, Gunn, & Andrews, 1980; Cicchetti & Ganiban, 1990; Cicchetti & Seráfica, 1981; Cicchetti & Sroufe, 1978 e 1976; Thompson & Cicchetti et ai, 1985). Apesar das anomalias constitucionais que afectam estes bebés, o sistema de vinculação parece estar organizado de maneira similar ao das restantes crianças. Cicchetti e Beeghly (1990), salientam que os sujeitos com Trissomia 21 exibem sinais de perturbação perante a separação da mãe e evidenciam padrões comportamentais de vinculação morfologicamente idênticos aos descritos por Ainsworth, Blehar et ai (1978). Não obstante, van Izjendoorn, Golberg et ai (1992), efectuando uma análise quantitativa da literatura, verificaram que há uma prevalência anormalmente elevada de
52 inseguros-desorganizados/desorientados (padrão D) no grupo das crianças trissómicas. Thompson, Cicchetti et ai. (1985) verificaram que as respostas emocionais à separação ou à reunião com a mãe revelam, nesta população, algumas características específicas. No seu estudo, os autores avaliaram, ao longo dos episódios da Situação Estranha, o comportamento de 26 crianças de 19 meses de idade que tinham síndromo de Down, comparando-o com o de 43 crianças normais (observadas aos 12 meses e meio e aos 19 meses e meio). O objectivo principal da investigação era o de averiguar até que ponto o grau de semelhança entre as respostas de ambos os grupos dependia mais da similaridade das idades cronológicas ou da maior proximidade das idades mentais. Os resultados mostraram, globalmente, a existência de diferenças sensíveis entre os dois tipos de sujeitos. De facto, as crianças com Trissomia 21 exibiram níveis de ansiedade e de perturbação menos intensos durante os episódios de separação e, após o retorno da mãe, evidenciaram ser capazes de recuperar, mais rapidamente, o estado inicial (e.g. maior celeridade a terminarem o choro). Foi, também, possível constatar que a latência das suas respostas era superior e que os sinais indicadores do desejo de proximidade possuíam uma natureza mais difusa (e.g. maior incidência de expressões de choro mínimo do que de choro propriamente dito). Curiosamente as diferenças mantiveram-se idênticas quando as análises contrastaram o desempenho dos grupos quer na condição de idade mental aproximada, quer na circunstância de idade cronológica análoga. Cicchetti & Sroufe (1977) haviam proposto que a rapidez, a intensidade variabilidade das reacções emocionais em contextos como os da Situação Estranha poderão ser afectadas pelas dificuldades em processar e interpretar cognitivamente a informação. Ora, no caso vertente, esta linha de interpretação parece adequar-se pior aos resultados. Com efeito, se tal hipótese fosse inteiramente válida seria de esperar (ao contrário do sucedido) que as
53 diferenças se acentuassem à medida que as idades cronológicas estivessem mais próximas. Assim, na esteira de Thompson e Cicchetti (1985), autores como Cicchetti e Beeghly (1990) defendem uma explicação de índole organísmica. E sabido que na Trissomia 21 há especificidades em termos do funcionamento bioquímico susceptíveis de influenciarem a expressão das respostas afectivas (Tucker & Williamson, 1984). Na verdade, as alterações ao nível do sistema nervoso simpático afectam a actividade adrenégica levando a um decréscimo da libertação de adrenalina (epinefrina). Sendo certa a importância desta hormona na activação de reacções como o medo, a ansiedade, o desejo... entende-se que as carências de estímulo químico constituam, até certo ponto, um factor de inibição do comportamento emocional na Situação Estranha. Autismo Aparentemente cortada do mundo e voltada para si própria -como que encapsulada nos seus processos psíquicosa criança autista parece alheia à possibilidade de estabelecer qualquer relação de vinculação. Não obstante, está, hoje bem estabelecido que estas crianças reagem à separação da mãe, embora muitas vezes o façam através de respostas fugidias ou fragmentadas. Rogers et ai. (1991), estudando um grupo de crianças autistas verificaram que elas apresentavam na sua maioria estratégias de vinculação identificáveis com o padrão seguro. Importa, no entanto, sublinhar que a segurança do apego estava positivamente correlacionada com o desenvolvimento cognitivo, linguístico e da motricidade global. Shapiro et ai. (1987), adaptando o procedimento da Situação Estranha, puderam observar que os processos de vinculação em crianças autistas de 44
54 meses denotavam uma organização coerente. Foi, assim, que puderam identificar, na sua amostra, perto de 47% de sujeitos seguros e cerca de 53% de inseguros-evitantes. Sigman & Mundy (1989), estudaram os comportamentos de vinculação no contexto da Situação Estranha, verificando que as crianças autistas cuja reactividade era maior nos episódios de reunião (procurando mais activamente a proximidade da mãe) e de separação (diminuindo a actividade de exploração), estavam em estádios mais avançados de desenvolvimento do jogo simbólico. Necessariamente, coloca-se a seguinte ressalva: as relações encontradas foram obtidas numa amostra de crianças com 52 meses de idade, muito naturalmente capazes de estabelecer a permanência do objecto. Não sabemos que resultados obteríamos em condições mais acentuadas de autismo ou com idades mais precoces. Capps, Sigman, et ai. (1994) procuraram realizar a classificação de um grupo de crianças autistas, recorrendo às categorias A (inseguros-evitantes), B (seguros) C (inseguros-ambivalentes/resistentes) e D (insegurosdesorganizados/desorientados). Neste último caso os autores seguiram os critérios de classificação propostos por Main e Solomon (1990). Foi, também, observada a interacção mãe-filho numa situação de jogo livre, com o objectivo de avaliar as respostas infantis através da ESCS (escala desenvolvida Seibert & Hogan, 1982) e a sensibilidade materna pela ERIC (escala desenvolvida por Crawley & Spider, 1983). Todas as crianças -sem qualquer excepçãomanisfestaram comportamentos de vinculação.Dos 19 sujeitos que compunham a amostra, foi possível classificar 15, dos quais 6 pertenciam à categoria ou grupo B (seguros). Relativamente à observação de sinais de tipo D, 6 crianças evidenciaram respostas estereotipadas e perturbadas, mas apenas 3 foram integradas no grupo dos inseguros-desorganizados/desorientados. Esta decisão
55 "minimalista" foi tomada porque os investigadores distinguiram entre comportamentos perturbados próprios da patologia e comportamentos desorganizados em termos da vinculação propriamente dita. Neste trabalho, as mães das seis crianças classificadas como seguras demonstraram significativamente maior sensibilidade do que as restantes. Tal facto parece reforçar a relação existente entre a sensibilidade materna e a organização dos processos da vinculação infantil. A possibilidade de se encontrarem respostas de natureza vinculacional dirigidas à mãe, permitindo uma classificação das crianças em termos de padrões de vinculação, representa um passo muito significativo na compreensão de que o autismo não é uma porta fechada às relações com os outros, e em particular, com os pais. De forma inequívoca, coloca seriamente em causa a concepção psicanalítica que equaciona o autismo como uma desordem vinculativa (Kanner, 1943 in Capps, et ai, 1994). Danos neurológicos graves A emergência dos processos de vinculação parece ser de tal ordem, que mesmo em grupos de crianças com graves danos neurológicos, nos quais se observa uma inacapacidade quase total de exercerem movimentos ou evidenciarem comportamentos exploratórios, há sinais notórios do reconhecimento da mãe com reacções diferenciadas à sua presença ou ausência (Stahlecker & Cohen, 1985). Estes autores, sem terem conseguido aplicar a tipologia de Ainsworth para classificar os comportamentos em termos de padrões de vinculação, registaram -nos casos com danos mais circunscritosrespostas de sinalização, vocalizações, orientação visual, tentativas de alcançar e agarrar com algumas manifestações de evitamento e de resistência.
56 Deficiência auditiva Os processos de comunicação na criança com deficiência auditiva desenrolam-se de forma crítica, exigindo que pais e filhos organizem as suas transacções através de complexos mecanismos de acomodação recíproca (Harris, 1978). As dificuldades de comunicação introduzem, sem dúvida, um factor de risco a nível do sistema de relação materno-infantil dado que, conforme Greenberg e Marvin (1979) referem, tornam por um lado, mais problemática a regulação das trocas interactivas na base de uma parceria corrigida para a meta {goal corrected partnership) e por outro, criam sentimentos de maior insegurança na mãe. Galenson, Miller et ai. (1979) estudaram um grupo de dez crianças deficientes auditivas desde o primeiro mês até aos 33 meses de vida. Seis destes sujeitos eram filhos de pais ouvintes e quatro de pais surdos. Recorrendo a critérios de avaliação clínica, os autores observaram a existência de algumas dificuldades a nível do estabelecimento das relações de vinculação que se manifestavam particularmente junto das crianças cujos pais tinham também surdez. Obviamente, este estudo possui limitações metodológicas, não chegando sequer a utilizar um conceito de vinculação com contornos nocionais inteiramente sobreponíveis aos que Bowlby (1969/1984) propõe. No entanto, deixa bem claro que a deficiência auditiva representa uma condição de vulnerabilidade. E ao mostrarem que essa vulnerabilidade aumenta quando está associada a dificuldades auditivas dos próprios pais, os resultados obtidos permitem, também, pensar que a surdez poderá não constituir, por si só, um factor preditivo de desenvolvimento emocional anómalo. Na esteira de uma tal hipótese, Lederberg e Mobley (1990) não encontraram numa amostra de deficientes auditivos grandes discrepâncias
57 relativamente à população normal, tendo identificado padrões de vinculação análogos (seguros, inseguros-evitantes e inseguros-ambivalentes/resistentes), em proporções próximas das observadas na generalidade das amostras de não risco. Discutindo os seus resultados, os autores concluem que se forem disponibilizados apoios e meios alternativos de comunicação, há uma relação estreita entre a sensibilidade materna e o desenvolvimento de uma vinculação de tipo seguro. No estudo de Lederberg e Mobley (op. cit.), verificou-se que as crianças classificadas no grupo B gastavam uma parte significativa do tempo de interacção na descodificação da realidade envolvente e dos comportamentos que lhes eram dirigidos. No entanto, as mães eram, em compensação, mais insistentes a captar a atenção dos filhos e mais cuidadosas nas instruções prévias às actividades interactivas. Este cuidado não significava, porém, que exercessem necessariamente maior controlo ou usassem de mais directividade. Prematuridade A prematuridade é normalmente referida na literatura como um factor de risco périnatal. Existe, de facto, alguma evidência de que esta condição pode estar associada a uma prevalência maior de dificuldades nos planos do desenvolvimento cognitivo {e.g. Koller, Lawson et ai, 1997; Hack, Taylor et ai., 1994) e sócio-emocional {e.g. McCormick, Workman-Daniels, & BrooksGunn,1996; Chapieski & Evankovich,1977). Vários estudos investigaram os processos de transacção mãe-filho em amostras de bebés nascidos prematuramente. Verificou-se que estes sujeitos evidenciavam níveis de reactividade mais baixos, respondiam menos às iniciativas da mãe e tinham maior dificuldade em iniciar e manter as interacções (Beckwith & Cohen, 1980; Barnard & Kelly, 1990).
58 Field (1983), pelo seu lado, observou que, aos quatro meses, as crianças prematuras manifestavam ao longo das trocas comunicativas menos índices de afecto positivo e que nesse contexto tendiam a evitar o contacto visual com a mãe. Constatou, igualmente, que comparativamente às crianças do grupo de controlo apresentavam tempos de atenção pouco extensos e baixa tolerância aos estímulos de maior intensidade. Estas características, indicadoras de uma incidência anomalamente elevada de fragilidades de índole regulatória (Greenspan, 1992), revelam uma competência social diminuída que impede, muitas vezes, um envolvimento interactivo suficientemente estimulante e gratificante para os pais. Atendendo a que a qualidade do comportamento parental é, nalguma medida, moldada pelo sistema de recompensas que a criança vai proporcionando ao longo das transacções diádicas (Lopes dos Santos, 1990), não será estranho que aspectos como a sensibilidade materna se encontrem frequentemente afectados no contexto do relacionamento entre as mães e os filhos de pré-termo. De acordo com Franca (1998) tal facto poderá justificar, até certo ponto, que haja uma prevalência elevada de indivíduos nascidos de parto prematuro em populações de crianças vítimas de maus-tratos, negligência e atraso do crescimento ponderal. Os resultados de Frodi e Thompson (1985), obtidos no âmbito de uma abordagem que utilizou, como referência, a teoria da vinculação, parecem não confirmar inteiramente tais sugestões. Na verdade, os autores avaliaram as relações existentes entre a prematuridade e a qualidade da vinculação ao ano de vida. Para o efeito, utilizaram uma amostra de 40 bebés, dos quais eram 20 prematuros (peso médio à nascença de 1.990 gramas com tempo médio de gestação de 34 semanas), e 20 tinham nascido com o tempo completo (peso médio no parto de 3.506 gramas e Idade Gestacional situada entre as 38 e as 42 semanas). Recorrendo ao procedimento laboratorial da Situação Estranha, não registaram, aos 11.5 meses de vida (tempo corrigido para a idade
59 gestacional), quaisquer diferenças significativas entre os dois grupos, tanto na proporção de seguros e inseguros como na expressão dos processos de regulação afectiva. Frodi e Thompson (op cit.) ressalvaram na discussão que as crianças prematuras eram descendentes de famílias da classe média e que para além de não apresentarem défices associados tinham usufruído de excelentes cuidados médicos e hospitalares bem como do apoio de serviços de intervenção precoce. Wille (1991) comparou três grupos constituídos por 18 prematuros "saudáveis", 18 prematuros "doentes" e 18 bébés de termo, oriundos do estrato sócio-económico (1) baixo e (2) médio-baixo. Os prematuros ditos saudáveis tinham nascido por volta das 35 semanas com o peso médio de 2.039 gramas, tendo estado hospitalizados cerca de onze dias com suporte de oxigénio que nunca ultrapassou as 4 horas. Pelo seu lado, os "doentes" possuíam, em termos médios, 33 semanas de Idade Gestacional e 1820 gramas de peso. Estiveram hospitalizados 32 dias e necessitaram de 98 horas de oxigénio. O autor observou os sujeitos aos 6 meses de vida numa sessão de interacção conduzida em contexto de laboratório e avaliou-os aos 12 meses no âmbito da Situação Estranha. Realizou, portanto, um estudo em dois tempos, onde introduziu variáveis sócio-económicas e variáveis "clínicas". Os resultados obtidos não sustentaram o estudo anteriormente efectuado por Frodi e Thompson (1985). Apesar de aos 6 meses, a qualidade das interacções não distinguir os bébés prematuros do grupo de controlo, aos 12 meses as diferenças foram marcantes. Independentemente dos níveis socioeconómicos (aliás, pouco diversificados) constatou-se que havia uma proporção maior de inseguros junto dos prematuros do que no grupo dos bebés nascidos com o tempo completo. Curiosamente, entre as crianças de pré-termo "saudáveis" e "doentes" não se detectaram discrepâncias significativas.
66 análise de Martins (1996) são bem eloquentes a esse propósito quando afirmam "(...) depressed mothers tend to have fewer secure infants and more insecure infants, specially, insecure-avoidant (A) and insecure-disorganized (D). In relation to the insecure-ambivalent (C) pattern, the results are somewhat mixed, depending on whether we are comparing the depressed samples with the total of the control samples (higher proportion in depressed samples) or with the total of the low-risk mormal samples (smaller proportion in depressed samples)"1. 2. 1. 5 Vinculação no risco agregado O estudo dos processos de vinculação em populações especiais parece confirmar, de alguma maneira, o princípio postulado por Bairrão e Felgueiras (1977) que diz haver uma dilatação do risco com a acumulação dos factores de dificuldade. Consideraremos, agora, situações que envolvem simultaneamente, em termos de risco, a criança e o meio. Exposição pré-natal ao álcool A exposição pré-natal ao álcool tem sido considerada, por virtude dos seus efeitos teratogénicos, um factor de risco no desenvolvimento da criança e na evolução do próprio processo de gravidez (Streissguth, 1978). No adulto, o consumo abusivo e contínuo de álcool, diminui a capacidade de atenção e dos tempos de reacção, aumenta a irritabilidade, e altera os padrões de sono "(.) as mães deprimidas tendem a ter menos bebés seguros e mais bebés inseguros, especialmente inseguros-evitantes (A) e inseguros-desorganizados (D). Relativamente ao padrão iiiseguro-ambivalente (C). os resultados são de alguma maneira mistos, dependendo se comparamos as amostras deprimidas com o total das amostras de controlo (maior proporção nas amostras deprimidas) ou com o total das amostras normais de baixo risco (proporção mais baixa nas amostras deprimidas)"
67 (Sigman et al, 1983). Assim, poderemos estar perante dois tipos de factores adversos: um de carácter biológico (como resultado da exposição directa do feto ao álcool) e outro de natureza ambiental (já que a ingestão de álcool por parte dos prestadores de cuidados pode afectar negativamente a sua sensibilidade e capacidade de resposta à criança). Para estudar o efeito da exposição pré-natal ao álcool na vinculação, O' Connor, Sigman et ai, (1992) utilizaram a Situação Estranha (com a tipologia A,B,C,D) junto de uma amostra de 44 crianças, nascidas com peso alto (média 3500 gramas), oriundas de famílias com instrução média ou superior, e com bom nível sócio-económico. O estudo confirmou a hipótese de que a incidência de vinculação insegura é maior nas mães consumidoras de álcool durante gestação, mesmo quando o consumo é moderado. Avaliado o comportamento interactivo da mãe no contexto de uma situação de jogo livre através da Mother-Child Rating Scales de Crawley e Spilker (1983), verificou-se que o consumo social pósnatal de álcool não afecta nem a qualidade da vinculação nem os valores da sensibilidade materna. Exposição pré-natal a drogas Os efeitos da exposição prénatal a drogas foram estudados por Rodning et ai. (1991), aplicando a Situação Estranha e a escala de sensibilidade de Ainsworth a bébés com 15 meses de vida, controlando as variáveis socioeconómicas, étnicas e geográficas. Estas crianças tinham estado expostas a drogas durante a gestação. Os resultados mostraram que os sujeitos apresentavam maioritarimente uma vinculação insegura à mãe (80%), ao elemento mais significativo da
68 família alargada (91%), e da família de acolhimento (72%) - com a tipologia A, B, C de Ainsworth. Recorrendo à classificação D, registou-se elevada incidência de vinculação desorganizada com valores que flutuaram entre 57% (família de acolhimento) 64% (família alargada) e 75% (mães). Apurou-se, assim, que à medida, que as crianças são cuidadas por elementos mais afastados da família originária, menor é o índice de vinculação desorganizada. Não obstante, parece depreender-se dos resultados que a tendência para a vinculação insegura e desorganizada mantem-se, independentemente das crianças continuarem com as suas mães biológicas ou serem removidas para outros lares.
69 2. 3. Considerações Finais Embora a nossa revisão qualitativa se reporte a uma bibliografia necessariamente limitada, os factos apurados fornecem algumas sugestões interessantes. A primeira grande ideia que ressalta dos estudos revistos é a da universalidade dos processos de vinculação. Em nenhuma das investigações apreciadas, foi possível encontrar referências a grupos que não exibissem comportamentos de vinculação. Esta constatação é verdadeira nas situações de risco ambiental (como, aliás, seria absolutamente lógico que o fosse) mas também se verifica nas condições em que os sujeitos evidenciam alterações genéticas (como a trissomia 21), ou transtornos graves da personalidade como psicoses de tipo autista. Além disso, observou-se que, independentemente dos indicadores de tipo D, as crianças, seja qual for a patologia, conseguem genericamente exibir estratégias coerentes de vinculação (excepção feita para os casos de danos neurológicos graves), claramente comparáveis às dos indivíduos normais. Estas constatações vêm ao encontro das teses fundamentais de Bowlby (1969/1984) que concebe a vinculação como uma disposição instintiva que se estrutura ao longo do desenvolvimento e se institui como uma das mais básicas organizações emergentes da personalidade humana. O segundo aspecto a considerar é o de que há, nos grupos de risco, uma prevalência maior de vinculações inseguras, particularmente do tipo desorganizado/desorientado. Este último dado, apurado nomeadamente junto das crianças com trissomia 21, parece ser mais significativo quando se consideram os casos nos quais o risco é definido pela existência de patologia parental. Martins (1996), por exemplo, em estudo metanalítico da literatura observou um número anomalamente elevado de sujeitos inseguros (e em
70 especial do padrão D) nas amostras de mães deprimidas, van IJzendoorn, Goíberg et ai. (1992), salientam que os riscos relacionados com a criança não comprometem tão decisivamente o estabelecimento de uma vinculação segura, mas que os problemas referidos à mãe podem fazê-lo. Adiantam os autores que "...if mothers suffer from mental illness or engage in disturbed caregiving behavior (e.g. maltreatment) their children cannot compensate for the resulting lack of maternal responsiveness and are vulnerable to insecure forms of attachment. However, when children are impaired (physically or mentally invarious degrees) their mothers are generally capable of compensating for this potential handicap in the dyadic relationship..." (p. 854). Não podemos, contudo, ignorar a indissociabilidade fundamental que subsiste entre mãe e filho. Importa, na verdade, perceber que as dificuldades da criança trazem exigências e necessidades que podem constituir factor potencial de instabilidade ou desorganização materna. Sendo assim, torna-se difícil estabelecer claramente as fronteiras entre os problemas da mãe e os da criança propriamente dita. Esta asserção permite entender que é sobretudo nas circunstâncias de acúmulo de risco que os problemas atingem expressão mais dramática. Trata-se de um dado que a nossa revisão, por exemplo, documenta no estudo Rodning et ai. (1991) acerca dos efeitos do consumo de drogas na gestação. A vinculação parece, pois, ser um tópico importante no estudo das populações de risco. Conforme Cichetti e Wagner (1990) referem, avaliar a qualidade da vinculação nestas crianças poder-nos-á fornecer indicações inestimáveis relativas aos seus pontos de fragilidade e resiliência. Equacionada em termos da definição de estratégias de intervenção, a informação recolhida deverá atender aos seguintes aspectos:
71 a) sinalização da criança - a fim de se compreender a participação da criança no desenvolvimento da relação, é necessário ter em conta a extensão e os tipos de dificuldade que perturbam as actividades de sinalização relacionadas com a vinculação; b) resposta materna - interessa igualmente analisar em que medida a capacidade para 1er e responder às pistas da criança está afectada; c) condições e recursos da família - importa apreciar em que medida a família pode responder às necessidades ou está sujeita a múltiplas condições de adversidade. Assente que os fenómenos da vinculação têm implicações no desenvolvimento da criança em risco, eles podem ser utilizados como ponto de partida de um processo conduzido com o objectivo de se promover uma melhor adaptação. Se o sujeito apresenta dificuldades a nível da sinalização emocional, o papel do interventor será o de ajudar os pais a encontrarem e a descodificarem os sinais mais ténues ou até, por vezes, distorcidos. Do mesmo modo é importante apoiar os pais nas suas dificuldades circunstanciais ou pessoais que alteram a expressão dos afectos de maneira a que, adoptando posturas comportamentais mais previsíveis atentas e interessadas, consigam instituir um suporte adequado para a criança. Mas é sobretudo a nível da díade como um todo que se torna mais pertinente pensar z actuação. Efectivamente, o processo de intervenção deve eliciar as forças e aspectos positivos, numa espiral de efeitos recíprocos e transaccionais. Pretende-se, no fundo, que o apoio prestado à mãe possa contribuir para melhorar a qualidade das suas respostas interactivas. Tal efeito, levará eventualmente a um refinamento da capacidade da criança para sinalizar os estados de necessidade e para se autoregular com mais eficiência o que, pelo seu lado, constituirá um incentivo mais para a mãe.
PARTE II - A VINCULAÇÃO FACE A ALTERAÇÃO NEUROMOTORA
73 Nota prévia O grupo de risco que estudámos apresenta limitações motoras devido a lesões ou alterações neurológicas. O tipo de risco em causa está essencialmente localizado na criança, embora porventura possam estar associadas outras adversidades não directamente relacionadas com a inabilidade motora. Por certo, que esta dificuldade é vivida com a problemática própria das necessidades educativas especiais, tendo as famílias -pais e filhosque aprender novas formas de adaptação e que encontrar novos recursos para responder às necessidades acrescidas As características e possibilidades da criança com alterações neuromotoras serão apresentadas no capítulo 3. Pretende-se, assim, enquadrar todo um conjunto de informação que permitirá conhecer melhor a população que será objecto de estudo no capítulo seguinte.
Capítulo 3 - A criança com alterações neuromotoras
75 "Movement is at the very center of young children's lives. " In Gallahue, 1993, p.24 3.1. Introdução O movimento inicia-se na própria vida uterina na base de uma organização reflexa que, após o parto, fornecerá ao recém nascido os instrumentos para as primeiras adaptações ao meio. Segundo Gallahue (1993), até ao segundo aniversário, a motricidade é caracterizada por movimentos rudimentares, como agarrar, puxar, ou largar objectos. Será entre os 12 e os 15 meses que, a criança adquire algum equilíbrio, e inicia a locomoção. Estes movimentos sofrem progressivamente um refinamento e especialização, determinando mudanças sensíveis no modo 4e relacionamento da criança com o ambiente. Só na fase fundamental (ver figura 1), a criança adquire um controlo mais perfeito sobre a sua musculatura, perdendo o titubear e ganhando definitivamente à gravidade. A aquisição da locomoção permite a exploração do meio, com efeito a criança passa a concretizar as suas opções pelos objectos e pelas pessoas que a rodeiam. A motricidade fina acentua esta autonomia, ao permitir realizar actividades de maior acuidade, algumas das quais ao serviço da fantasia própria do jogo simbólico.
82 partir de 1988 (mantém-se em 1990, 1992, 1994) A explicação pode estar exactamente nos fenómenos de risco (in Stanley, 1994). Partindo das revisões de Stanley (1994), e Widestrom, Mowder, et ai. (1991), estabelecemos uma tipologia de causas (de maior incidência), por fases de desenvolvimento: Pré-natal » Anomalias congénitas (problemas na migração neuronal do segundo trimestre à subida do tubo neuronal) » Hemorragia cerebral » Genéticas » Incompatibilidades sanguíneas (RH) » Infecções (e.g. rubléola, que diminui consideravelmente após a aplicação da vacina) » Cytomegalovirus » Exposição química » Trauma materno (forte abalo ou tensão emocional) » Infecções renais ou diabetes maternos. Perinatal » Anoxia de parto (responsável por 10% expressão de PC) ( da 22a semana » Encefalites de gestação » Complicações em partos gemelares até ao 7o dia de » Placentopatias vida) Pós-natal » Situações de afogamento (ou de asfixia) » Encefalites » Infecções (e.g. meningites) » Traumatismo cirúrgicos
83 3.4 Dados de Desenvolvimento O processo de maturação cerebral acontece-se ao longo da primeira infância. Os componentes elementares do cérebro, os neurónios, nascem e emigram no decorrer do crescimento, estabelecendo relações de conexão {sinapses) com outros neurónios, no sentido de uma crescente complexidade, que se reflecte no comportamento e na capacidade cognitiva. As lesões ou malformações ao nível do Sistema Nervoso Central podem afectar várias aspectos do desenvolvimento: motor (motricidade global e fina), linguístico, cognitivo (resolução de problemas), e capacidade de adaptação (emocional e social). A avaliação das consequências destes danos tem constituído uma inquietação para os técnicos, ilustrado no seguinte relato de Mc William (1993): "It is difficult, if not impossible, to get a handle on April's [child with athetoid cerebral palsy] cognitive level of development because of her severe physical impairments and her lack of speech. The professionals on the early intervention team have tried all of the tests for special populations and adaptations of standardized tests in an attempt to get a better picture of April's potential. The majority of psychological testing has indicated that April's abilities fall within the mental retardation range of intellectual functioning. Nevertheless, the psychologist has some doubts about the accuracy of these tests for April. She may, in fact, be closer to normal in intellectual abilities than the test score indicate. " (p. 259). Para Piaget (1977) o desenvolvimento motor está na base do desenvolvimento cognitivo, dado que possibilita a exploração do mundo dos objectos. Contudo, Blondis, Roize, et ai. (1993) defendem que no caso genérico das alterações neuromotoras (paralisia cerebral), não existem necessariamente défices na resolução de problemas, na recepção e expressão
84 da linguagem, nem na adaptação social, restringindo-se algumas vezes o risco ao desenvolvimento motor global ou fino. O estudo de Cioni, Paolicelli, et ai. (1993) com a aplicação de UzgirisHunt, verifica que só se encontra algum atraso cognitivo significativo na Tetraplegia (relativamente às Diplegia e Hemiplegia). Não foram encontradas diferenças significativas entre as crianças normais, prematuros e com alterações neuromotoras quando era usada a idade corrigida para os prematuros. A permanência de objecto em tempo próprio parece ser um bom preditor de desenvolvimento para estas crianças (Decarie, 1969; Kopp & Shaperman, 1973), constituindo uma âncora de desenvolvimento, tal como a imitação. Esta população apresenta uma forte incidência de problemas de comportamento (25.5%), em particular, de dependência, obstinação e hiperactividade (McDermott, 1996) e com menor frequência, comportamentos antisociais ou conflitos com os seus pares. A investigação neste grupo de risco escasseia. Segundo Blondis, Roíze, et ai. (1993), as limitações no estudo e na compreensão desta população devem-se à diversidade de dificuldades, ao leque de severidade em cada uma delas, à agregação de dificuldades, e por último, à margem de incerteza dos diagnósticos. As alterações neuromotoras (paralisia cerebral) estão, na sua maioria, associadas a outras dificuldades, como se exemplifica no quadro Y.
85 Quadro 3 - Dificuldades associadas por tipo de alteração neuromotora {em percentagem) Ataxia Espastiddade Discinesia Mista Défice Auditivo 6 9 9 5 Défice Visual i!i S 21 $* 16 15 Estrabismo 15 16 15 27 Défice ortopédico 13 2 23 33 Dificuldade de Aprendizagem 26 14 llllllllll 13 Médio a moderado atraso mental 33 >. 15 19 17 Moderado a severo atraso mental 20 24 40 45 Adaptação de Blondis, Roize, et ai. 1993, p. Num estudo desenvolvido ao longo de sete anos que envolveu aproximadamente 45 000 crianças (in Blondis, Roize, et ai. 1993), verifícou-se uma alteração de diagnóstico em 72% dos casos. Nessa investigação, as crianças diagnosticadas com paralisia cerebral a um ano de idade, apresentavam aos sete anos, atraso mental em 23% dos casos, enquanto as restantes revelaram, 19% hiperactividade, X6% défices de articulação da fala, 12% atrasos de linguagem, e 2% tinham apenas dificuldades específicas de aprendizagem. Em grande parte pela alteração do quadro clínico, mas também pela dificuldade de avaliar a natureza destas lesões. Face a problemas tão distintos e com consequências tão particulares, quase se pode afirmar que cada caso é um caso. Neste sentido, compreende-se a dificuldade de seleccionar as amostras desta população. A opção por uma dificuldade particular {e.g. diplegia), limitando a heterogeneidade dos quadros motores, torna-se difícil devido à baixa incidência de cada uma, sendo portanto dúbia a generalização dos resultados para população.
86 3.5. Interacções Alguns estudos do comportamento materno nesta população têm dado conta de uma ansiedade materna, que por vezes se materializa numa atitude proteccionista (Boles, 1959; & Kogan, 1962). Salientamos o estudo de Kogan & Tyler (1973) onde foram comparados três grupos de díades (entre um e sete anos de idade). Os grupos eram definidos pelas seguintes situações: alteração neuromotora, atraso mental, e grupo de controlo (idade mental corrigida). Os autores verificaram que as crianças com défices motores tinham uma postura mais passiva e que as suas as mães eram mais directivas, assumindo uma atitude de maior controlo. Posteriormente, Barrera & Vella (1987) realizaram um estudo relativo às interacções sociais com 22 díades mãe-filho, divididas entre grupo de controlo e alteração neuromotora (a saber: hemiplegia, diplegia, tretaplegia, hipotonia, spina bífida e síndroma Praeder-Willi). As amostras foram emparelhadas no desenvolvimento motor e mental, sexo, estatuto socioeconómico, ordem de nascimento, e nível educacional da mãe. As díades foram filmadas em situação de jogo livre (por períodos de 10 minutos), e os comportamentos foram transcritos por observadores que desconheciam os objectivos de estudo. O principal resultado deste estudo foi a confirmação de que se estabelecem os mesmos padrões de interacção mãe-filho, tanto na presença como na ausência de défice motor. Todavia, existem algumas diferenças que confirmam que as mães dos bebés com alterações neuromotoras exibem com maior frequência comandos, enquanto as mães do grupo de controlo, optam pela fala {e.g. elogiam, confortam, colocam questões). Os bebés com défice motor, parecem acatar esta tendência directiva por parte da mãe, estabelecendo menos contacto visual e protestando menos.
87 A resposta às iniciativas de jogo da criança é um aspecto central do comportamento interactivo da mãe e, na referida investigação, observou-se que as mães dos bebés saudáveis respondiam às solicitações de jogo dos filhos com a mesma resposta interactiva, enquanto que as mães do outro grupo respondiam com respostas verbais (na maioria dos casos com directivas). Ao contrário do que se registou noutros estudos, o comportamento destes bebés não é consideravelmente diferente do grupo de controlo, sendo que, as áreas mais sensíveis do comportamento coincidem com as da mãe (e.g., o contacto visual), sugerindo uma acomodação recíproca, tal como Sameroff havia descrito no modelo transaccional: "Parents do adapt to their child^s disability and characteristics in much the same way as the child adapts to parental behavior styles" (in Barrera & Vella, 1987, p. 171). Com efeito, a preocupação de dirigir e controlar o comportamento em substituição ao jogo, pode ser consequência da percepção das dificuldades da criança e da necessidade de a compensar com um comportamento de ensino. Caberá, aos profissionais encorajar outro tipo de comportamentos e, em particular, restabelecer o prazer na interacção.
Capítulo 4 - Estudo empírico
89 4.1. Introdução A vinculação na infância concebida por Bowlby (1969) como processo instintivo seleccionada ao longo da filogénese, constitui o fenómeno pelo qual a criança estabelece uma ligação afectiva privilegiada e duradoura com a figura que habitualmente lhe dispensa os cuidados maternos. Segundo o autor, esta ligação exprime-se, em termos comportamentais, através de uma série estruturada de respostas cuja consequência previsível será a de criar ou manter um certo grau de proximidade com a mãe. Na criança pequena, tais respostas englobam reacções como o aproximar-se, o seguir, o tocar, o subir para o colo, ou incluem os comportamentos ditos de sinalização onde avultam o sorriso, o chamar e o choro. As respostas de vinculação operam solidariamente entre si, integrando um sistema de acção altamente reactivo às variáveis de tipo situacional. Este sistema tende a responder de forma particularmente intensa quando a criança depara com circunstâncias que revelem indicadores potenciais de perigo ou contenham aspectos susceptíveis de causarem mal-estar físico e psicológico. Durante os primeiros anos de vida, tais circunstâncias concretizam-se em situações como (1) a entrada em ambientes estranhos, (2) a ausência ou afastamento da mãe, (3) a aproximação de desconhecidos, (4) o alarme materno, (5) a experiência da dor, da fadiga ou da fome (Bowlby, 1969). Nesses casos, a instauração do contacto ou a mera obtenção de proximidade com a figura de vinculação permitirá ao sujeito a reconstituir a homeostasia interna, que será vivenciado sob a forma de uma sensação básica de conforto e segurança. Os fenómenos da vinculação parecem ter um papel importante na regulação da experiência interpessoal dos indivíduos. Operando desde as fases iniciais da existência, estes fenómenos "(...) começam a marcar os processos
90 de construção da personalidade numa altura em que o sujeito não dispõe, ainda, da aptidão para representar claramente os objectos, os acontecimentos ou as emoções. Assim, muito antes de conseguir utilizar os mecanismos da mediação simbólica para estruturar os sentidos do vivenciado, a criança terá já estabelecido uma poderosa organização de afectos, de condutas e de significados em torno da tarefa de obter segurança, conforto ou protecção por parte das suas figuras de vinculação..." (Soares, Lopes dos Santos et ai, 1996, p. 247-248). É com base nessa organização que ela elaborará a imagem de si própria e construirá um sistema de significados a partir do qual ficará apta a antecipar comportamentos e a negociar o curso das trocas interactivas (Lopes dos Santos, Silva et ai, 1995). Os processos de vinculação inscrevem-se num tipo de organização instintiva cujo desenvolvimento denota grande labilidade em relação às influências ambientais (Bowlby, 1969). Desta maneira, o modo como a criança irá estruturar e regular os esquemas da sua intencionalidade social evidenciará, até certo ponto, componentes específicas que reflectirão muitas das vicissitudes e regularidades vividas no quadro das interacções com os outros significativos. Na esteira de uma tal hipótese, Mary Ainsworth (e.g. Ainsworth, Blehar, et ai., 1978) pôde efectivamente verificar que os processos da vinculação tinham uma expressão diferencial cuja origem estava ligada à qualidade dos fenómenos da relação da mãe-filho. Avaliando a maneira como os bebés de 12 e 18 meses regulavam a proximidade com a mãe ao longo da exploração de uma ambiente estranho, a autora (Ainsworth, Blehar, et al., op. cit.) identificou várias estratégias de organização comportamental globalmente descritas em termos de padrões de vinculação segura (B), insegura/ambivalente (C) ou insegura/evitante (A). Estudos de replicação efectuados em contextos culturais diferentes - nomeadamente em Portugal (Soares, Lopes dos Santos et ai, 1995 e 1996)-
91 confirmaram a reprodutibilidade e consistência de muitas das observações de Ainsworth (e.g. Grossmann, Grossmann, et ai, 1981; Miyake, 1985; van Ijzendoorn & Kroonenberg, 1988 e 1990). Estes trabalhos contribuíram para reforçar a ideia de que os processos da vinculação são aparentemente regulados por mecanismos básicos e universais do funcionamento humano. A teoria da vinculação constitui, hoje, uma referência heurística importante para a abordagem dos fenómenos do desenvolvimento nos domínios do Self, das relações interpessoais e da adaptação social (Thompson, 1988). Nos últimos anos, alguns estudiosos têm inclusive investigado o papel desempenhado pelos processos da vinculação na própria elaboração da competência cognitiva dos sujeitos (Ruitter & van Ijzendoorn, 1993; Matas, Aimáetal., 1978). Recentemente assistiu-se a um crescente interesse pelo estudo desenvolvimental das populações especiais. Autores como Cicchetti (1984) notaram que tais enfoques poderão ter a vantagem teórica de permitirem alcançar uma compreensão mais exacta dos mecanismos e princípios que organizam os processos gerais do desenvolvimento. Mas independentemente dessas considerações, será lícito supor que os eventuais ganhos em termos do conhecimento adquirido terão potencialmente implicações positivas no domínio do aperfeiçoamento das políticas e das estratégias de prevenção desenvolvidas junto daqueles grupos. Existe, hoje, um número significativo de abordagens que elegeu como objecto de investigação a análise dos fenómenos da vinculação em grupos de crianças de risco. Esses trabalhos abarcam uma multiplicidade de condições que incluem, entre outros, casos de trissomia 21 (e.g. Cichetti & Ganiban, 1990) prematuridade {e.g. Frodi & Thompson, 1985; Wille, 1991; Manglesdorf, Meisels, et ai., 1996), deficiências sensoriais (e.g. Lederberg & Mobley, 1990), autismo (e.g. Sigman & Mundy, 1994) ou então várias situações identificadas a nível do funcionamento do sistema familiar (e.g.
98 4.2.3. Instrumentos de avaliação e procedimento Para a realização do estudo foram utilizados dois métodos de recolha de dados: a Situação Estranha (Ainsworth, Blehar, et ai, 1978) e a PCIS - Escala de Envolvimento Parental/Prestadores de Cuidados6 (Farran, Kasari, Comfort, & Jay; 1986). Situação Estranha Dadas as características da amostra foi necessário realizar alguns ajustes relativamente aos procedimentos descritos por Ainsworth, Blehar et ai. (1978). Tal como na sua versão original a Situação Estranha foi, aqui, constituída por 8 episódios. Nos parágrafos subsequentes descrevê-los-emos em detalhe. Io Episódio - Introdução - A Mãe e a Criança eram levadas para a sala experimental por uma educadora especializada, que sentava a Criança apropriadamente, de acordo com as suas características físicas. A mãe sentava-se ligeiramente ao lado da criança que tinha à sua frente um tabuleiro com brinquedos. Face à impossibilidade da Criança se deslocar autonomamente, e dadas as suas dificuldades de coordenação motora a mesa de tabuleiro servia de base de apoio à manipulação dos brinquedos. A Educadora saía, deixando a Criança com a Mãe, e iniciava-se o episódio seguinte. 2o Episódio - Exploração - A Criança encontrava-se na sala sentada na cadeira, e a Mãe deveria, na medida do possível, manter-se afastada deixandoParent/Caregiver Involvement Scale
99 a brincar. A Mãe respondia quando solicitada, podendo mesmo interagir com ela ou interessá-la pelos brinquedos. Neste episódio flexibilizámos os procedimentos, admitindo um grau de participação da Mãe superior ao usualmente recomendado. Primeiro, porque a Criança não iniciava a Situação Estranha ao colo (como no método original) e em segundo, porque muitas crianças teriam dificuldade em chegar por si aos brinquedos, podendo necessitar da ajuda. 3 o Episódio - Entrada da Estranha - Neste momento, a Estranha entrava na sala e dirigia-se para a outra cadeira vaga permanecendo calada durante o primeiro minuto. Conversava, depois, com a Mãe, e no último minuto procurava iniciar a interacção directa com a Criança. No fim do terceiro minuto era dado um sinal à Mãe para sair e deveria despedir-se da Criança. 4o Episódio - Criança-Estranha - A Criança ficava com a Estranha, que na medida do possível deveria manter-se afastada. A Estranha respondia às solicitações da Criança, ou acalmava-a caso ela ficasse ansiosa com a saída da Mãe. 5o Episódio - Primeira Reunião com a Mãe - Neste episódio era dado sinal à Mãe para a entrar. Batia à porta, entrava e cumprimentava a Criança ao mesmo tempo que a Estranha se retirava Por último, a Mãe voltava a sentar-se, a menos que a Criança se mantivesse a chorar. Neste caso, deveria procurar consolá-la. Ao fim dos três minutos, a Mãe voltava a receber novo sinal para sair, despedindo-se da Criança. 6o Episódio - Criança Sozinha - A Criança ficava sozinha com os brinquedos. Caso se destabilizasse demasiado, decidia-se a passagem aos episódios seguintes. 7o Episódio - Reunião com a Estranha - Entrava a Estranha saudando a Criança, procurando consolá-la se esta estivesse a chorar. Se o sujeito estivesse sossegado, sentar-se-ia na sua cadeira e, deixava-o brincar com os
100 objectos sem interferir. A Estranha tinha por vezes que reeinteressar a Criança pelos brinquedos. Passados os três minutos começava o último episódio. 8o Episódio - Segunda reunião com a Mãe - A Mãe recebia novo sinal e voltava a entrar saudando a Criança e a Estranha saía. Era dada à Mãe a indicação de pegar no filho/a ao colo. Quando a criança já se encontrava mais calma, a Mãe procurava interessá-la pela exploração dos brinquedos. Os brinquedos e jogos utilizados no âmbito da Situação Estranha foram previamente escolhido com a educadora, de acordo com as características desenvolvimentais de cada criança. Tivemos sempre presente a preocupação de que os brinquedos favorecessem a exploração manipulatória {global efina). A sala onde decorria o procedimento era bem iluminada e tinha uma parede forrada a espelho. No seu interior, encontrava-se pouco mobiliário, e alguma (escassa) decoração infantil. A Criança era sentada de costa para os espelhos e de frente para câmara, que estava colocada sobre um tripé num ângulo que abrangia, também, a porta de modo a que se pudessem registar as entradas e saídas. A colocação da câmara era realizada por um técnico, não necessitando de operador. Os firmes foram posteriormente avaliados de acordo com os itens propostos por Ainsworth, Blehar et al. (op. cit.). As variáveis analisadas constam no quadro 5.
101 Exploração - refere-se a comportamentos manuais de exploração (ou com manipulatória intenção de explorar), directamente relacionados com brinquedos ou outros aspectos do meio físico. Excluem-se movimentos não intencionais, ou de interacção social. Exploração - olhar espontaneamente (ou explorar com o olhar) um visual brinquedo, ou algum aspecto do meio (e.g. porta entreaberta, a mobília, imagens na parede), ou simplesmente olhar em redor. Não se inclui olhar para pessoas ou objectos associados à mãe durante os episódios de separação (e.g. a porta de saída ou a mala de mão da mãe). Choro - distinguem-se duas formas de choro real (que inclui o choro forte e gritos, contínuo ou intermitente), e mínimo (cara de choro sem ruído, ou simplesmente, murmúrios tristes). Na nossa análise esta distinção não foi considerada. Procura de - esforço da criança para obter {ou voltar obter) o contacto, proximidade e ou, proximidade à Mãe ou à Estranha. Inclui comportamentos de contacto activos como: esticar os braços na direcção do adulto, procurar agarrá-lo, inclinar-se, chamamentos como choro dirigido ou outros apelos vocais. Manutenção do - actividade e persistência da criança para manter o contacto contacto físico com o adulto (uma vez conseguido), quer a aproximação tenha sido estabelecida pela criança quer tenha sido da responsabilidade do adulto, e independentemente de a criança ter ou não demonstrado desejo desse contacto. Inclui agarrar-se à Mãe (ou à Estranha), resistir ao afastamento ou abrandamento do choro com o contacto. Resistência ao - reporta-se ao comportamento de resistência provocado pela contacto tentativa de interacção ou aproximação de outra pessoa. Inclui manifestações como: a zanga, o amuo, a irritação, ou a birra. Nos comportamentos mais sintomáticos salienta-se: o empurrar, o bater para obter o afastamento, o chorar para ser afastada, o resistir ao colo, o sacudir-se ou o encolher-se. Englobam-se, ainda, outras reacções mais difusas como protestar, bater na mesa, rejeitar brinquedos e expressões faciais de desagrado. Evitamento da - com o adulto mesmo à distância. Incluía virar-se de lado, proximidade e virar a cara, afastar o olhar, fugir ao contacto ocular, da interacção esconder a cara, ou simplesmente ignorar quando solicitada à : distância pela Mãe ou pela Estranha ou ainda como reacção à aproximação de um destes adultos.
102 A Exploração Manipulatória, a Exploração Visual e o Choro foram objecto de avaliação numa base frequencial. Cada episódio (à excepção do primeiro) era subdividido em intervalos de tempo de 15 segundos nos quais assinalávamos se o comportamento crítico ocorria ou não. Assim, num total de 3 minutos poderíamos, em princípio, obter um máximo de 12 ocorrências desse comportamento. Aconteceu, porém, que os episódios nem sempre tiveram a duração prevista. Por razões várias, num casos foram encurtados noutros demoraram um pouco mais do que o tempo preestabelecido. Seguindo as instruções de Ainsworth, Blehar et ai. (Po cit.) transformámos as frequências observadas em medidas de frequência relativa. Para tal aplicávamos a seguinte fórmula: fr = fo x 12 IT Em que/> significa frequência relativa, fo (frequência observada) diz respeito ao número de frequências efectivamente registadas, 12 corresponde ao número de períodos de 15 segundos que o episódio teria caso tivesse durado exactamente os 3 minutos previstos e IT refere-se à quantidade de intervalos de tempo que o episódio na realidade teve. As variáveis de Procura de proximidade e de contacto, Manutenção do contacto, Resistência ao contacto e Evitamento da proximidade e da interacção foram cotadas de acordo com uma escala de avaliação cujos valores variam entre 1 e 7 pontos. Os critérios dessa cotação encontram-se explicitados por Ainsworth, Blehar et al. {pp. cit.).
103 A procura de proximidade, a manutenção do contacto, e a resistência ao contacto foram avaliadas relativamente à mãe nos episódios 2, 3, 5 e 8. Em relação à estranha foram-no nos episódios 3, 4 e 7. Por sua vez o evitamento foi alvo de classificação nos momentos em que se dava a entrada do adulto na sala. Desta forma obteve cotação nos episódios 3 <Estranha), 5 (Mãe), 7 (Estranha), 8 (Mãe). PCIS - Escala de Avaliação do Envolvimento Parental/ Prestador de Cuidados A PCIS centra-se no comportamento interactivo dos pais com a criança (ou de qualquer pessoa que habitualmente tome conta dela ou lhe preste cuidados), no sentido de averiguar a forma como o adulto se envolve em interacção com a criança. A presente escala atende a três aspectos do comportamento: - Quantidade - a frequência de cada comportamento, sem atender a aspectos qualitativos; - Qualidade - a intensidade de cada comportamento, e o grau de satisfação e de aceitação demonstrado pelo adulto; - Adequação - a medida em que o comportamento dos pais se adequa ao nível de desenvolvimento, interesse e capacidade motora da criança. Podendo estar na presença de uma Mãe muito afectuosa, distinguimos antes, a sua capacidade de adaptar as actividades às necessidades e interesses da criança. Estes três aspectos são pontuados de acordo com uma escala de Likert de 1 a 5 pontos, para os seguintes comportamentos: - Envolvimento Físico - apoio passivo e activo. O apoio passivo é considerado como a assistência dada à criança quando ela está sentada ou de
104 pé. O envolvimento activo são as iniciativas de contacto físico (e.g. festas, segurar a criança). - Envolvimento Verbal - refere-se à conversa estabelecida com a criança. - Capacidade de Resposta à Criança - reacção dos pais/prestadores de cuidados às iniciativas, pedidos, verbalizações e atitudes ansiosas da criança; contempla também a capacidade de antecipação relativamente a situações de perigo ou de dificuldade da criança. - Interacção em Jogo - refere-se ao tempo que os pais e a criança se envolvem em actividades lúdicas com o objectivo de se divertirem, podendo essas actividades ser aproveitadas para se ministrarem alguns ensinamentos. O jogo muitas vezes inclui brinquedos, mas não exclusivamente. Podem ser usadas cantigas e jogos imaginários (e.g. fazer um bolo). - Comportamento de Ensino - diz respeito ao ensino de habilidades específicas, em situações particulares de aprendizagem ou de jogo. - Controlo sobre as actividades da criança - refere-se sobretudo à estruturação e à organização das actividades da criança feita pelo adulto. - Directivas - refere-se às exigências que o prestador de cuidados faz à criança. - Relacionamento entre as actividades - diz respeito à forma como adulto liga as actividades umas às outras, atende-se à maneira como ele organiza as transições e sequências. - Demonstrações Positivas - demonstrações positivas verbais (e.g. elogios) e não verbais (e.g. abraços, sorrisos, festas). - Demonstrações Negativas - respostas ou demonstrações negativas ao comportamento da criança. Inclui sarcasmo, piadas, agressões físicas, ameaças, irritabilidade ou sátira.
105 - Definição de Objectivos - em que medida as expectativas são comunicadas à criança. A transcrição completa da escala e dos critérios de cotação é feita em Anexo. As crianças e respectivas(os) mães/pais foram filmadas(os) cerca de 15 minutos numa situação de jogo livre. As filmagens decorreram na sala de apoio educativo do Centro de Reabilitação, familiar aos sujeitos. As instruções dadas às mães e aos pais foram as seguintes: a) deveriam escolher brinquedos ou áreas lúdicas; b) pedia-se que brincassem com os seus filhos de um modo espontâneo, o mais próximo possível do que faziam habitualmente em casa. Após a escolha do jogo, uma educadora especializada, sentava confortavelmente a criança numa cadeira própria de acordo com as suas dificuldades motoras. Feito isto, os pais eram deixados sozinhos com os filhos, excepto nos casos em que surgiam circunstâncias ou utilizavam jogos que careciam de apoio da educadora {e.g. mudança de jogo, ou recurso a jogos de água). 4.2.4. Observadores A observação dos comportamentos de vinculação foi realizada pela própria autora do estudo. Ainsworth, Blehar et al. (op. cit.) indicam que o consenso entre observadores nesta fase de análise é muito grande. Assim, optou-se por repetir as observações em 10 casos, obtendo um índice de acordo de 96.6% para a
106 Exploração Manipulatória, 93.0% para Exploração Visual, 97.7% para o Choro. A avaliação das variáveis de procura de proximidade e de contacto, manutenção do contacto, resistência ao contacto e evitamento da proximidade e da interacção, foi realizada pela investigadora e com um observador cuja fidelidade havia sido internacionalmente certificada (por Karin Grossmann, da Universidade de Regensburg). Num processo que se desenrolou sensivelmente ao longo de seis meses, o treino da investigadora relativo à cotação da PCIS passou por várias fases, nomeadamente: o estudo e tradução da escala, o treino repetido segundo as instruções previstas em manual e o ensaio da cotação com alguns filmes de crianças com alterações neuromotoras. Após o referido treino, tivemos oportunidade de esclarecer algumas dúvidas com a autora, que nos aconselhou igualmente sobre a recolha de dados. Para avaliar a confiança das cotações utilizamos 10 registos para análise e fizemos uma avaliação de acordo intra-observador obtendo um índice de acordo total de 80.7% (quantidade 90.3%, qualidade 79.5%, adequação 72.5%). Com um grupo de 5 alunas do 4o ano do curso de Psicologia (da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto), procedemos a uma comparação inter-observador com 5 casos, depois de um treino com uma primeira fase de instrução da escala (10 horas) e de uma segunda de exercícios (10 horas). O grau de acordo com estes coladores foi sensivelmente mais baixo, de 68.2% no total (quantidade 79.6%, qualidade 59.1%, adequação 65.9 %).
107 4.3. Resultados Os resultados do nosso estudo serão apresentados em quatro secções. Na primeira consideraremos a amostra total, fazendo a análise dos comportamentos globalmente exibidos pelas crianças ao longo dos vários episódios da situação estmnha. Na segunda secção, será efectuada uma abordagem de carácter diferencial na qual procuraremos identificar padrões de vinculação e relacioná-los com as várias respostas dos sujeitos. Na terceira, procuraremos a avaliar a consistência estatística das classificações anteriormente efectuadas, recorrendo para o efeito a métodos apropriados. A quarta secção examinará as relações entre os dados da relação mãe-filho e os diferentes tipos de vinculação. As análises revelaram que não existem afeitos estatísticos importantes associados ao sexo e idade das crianças. Tam pouco se detectaram, para a esmagadora maioria das variáveis, diferenças significativas relacionadas com a severidade dos sintomas clínicos que os sujeitos apresentaram (foi feito a comparação entre os tetraplégicos e não tetraplégicos). Por essa razão, as nossas análises não consideraram aqui esses factores. 4.3.1 Comportamentos de vinculação na Situação Estranha A partir das médias das frequências obtidas por cada sujeito durante os episódios de pre-separação (episódio 2 e 3), de separação (episódio 4, 6 e 7) e de reunião (episódio 5 e 8), a figura 1 considera os valores médios da actividade de exploração manipulatória naquelas três situações.
114 if" /! 41 I 3,5 3- | 2,5I 2 1,5 J 14—— Pré-separação Reunião Figyra 6 - Valores médios da Procura de Proximidade nos episódios de préseparação e de reunião. Averiguámos, até que ponto, a procura de proximidade se manifestou com mais intensidade em relação à Mãe on à Estranha. Ora, os resultados do quadro 6 ilustram que as medias se mantêm praticamente idênticas quando tomamos em conta os quatro primeiros episódios. Com efeito, nestas-situações os sujeitos não procuraram verdadeiramente a proximidade com .qualquer um dos dois adultos. Quadro 6 - Valores médios da procura de proximidade em função dos episódios e dos adultos. Estranha -11 I ! !
115 Todavia o 5o, o 7o e o 8o episódios revelam, no seu conjunto, que o desejo de proximidade se manifesta com mais força relativamente à Mãe. De facto, o retorno da Estranha no 7o episódio não suscita uma resposta tão intensa como a evidenciada durante as reuniões com a Mãe nos episódios 5 (t =2.29; p< .02); e 8 (t =2,78; p<008). Quando consideramos o conjunto dos -episódios -de pré-separação (episódio 2 £ 3) £-de reunião (episódio 5 e $), verificamos pela figura 7 .que o esforço para manter o contacto aumenta significativamente com o regresso -da mãe e da estranha (t = 2.89; p<i)05). Pré-separação Reunião FiguraiValores médios da Manutenção do Contacto nos episódios de préseparação e de reunião. Conforme se pode notar {no -quadr-o 7), os níveis de manutenção do contacto são genericamente muito baixos. Contudo, no caso da Mãe verifica-se um efeito estatisticamente significativo devido à variável episódios {F = 7.35; p<.0004). As fontes principais de variação residem no aumento verificado entre os episódios depré-separação -eo -5a .episódio (teste F deScheffe
116 significativo -com a a. .05) hem como .entre aqueles mesmos 4ois episódios e o 8o (teste F de Scheffe igualmente significativo com -a a .05). No episódio 7 a manutenção de -contacto relativamente à Estranha não diferiu dos valores encontrados para com a Mãe no episódio 5, mas foi significativamente inferior aos observados no episódio rt - 2.06; p<.03). Quadro 7 - valores médios da manutenção do contacto em função dos episódios e dos adultos. A figura 8 apresenta as médias de resistência -ao contacto para com a Mãe e a Estranha nos episódio 2 (Mãe), 3 (Mãe, Estranha), 4 (Estranha), 5 (Mae), 7 (Estranha) e 8 (Mãe).
117 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 Ep.2 Ep.3 Ep.4 Ep.5 Ep. 7 Ep.8 Figura 8 - Valores médios da Resistência do Contacto com a Mãe (episódios 2, 3, 5 e 8) e com a Estranha (episódios 3, 4 e 7). Relativamente a estes dois adultos, os níveis de resistência permanecem nos seus valores mais baixos antes da primeira reunião com a Mãe. Note-se, a propósito, que a separação materna ocorrida durante o 4o episódio não provocou, para com a Estranha, um aumento significativo da resistência (t = - .72; n.s.). No episódio subsequente, o retorno da Mãe implicou, comparativamente aos episódios 2 e 3 o crescimento da quantidade das respostas de tipo resistente (F - 4.42; p<02), que se acentuou ligeiramente na segunda reunião. Após a segunda separação materna, a reentrada da Estranha (episódio 7) produziu os índices maiores de resistência, que embora não diferissem significativamente dos observados para com a Mãe nos episódios 5 e 8 (F = 1.35; p = .28) apresentaram valores muito superiores aos verificados em qualquer um dos restantes três episódios (F = 7.35; p<0006). O comportamento de evitamento foi avaliado relativamente à Mãe nos episódios 5 e 8 e em relação à Estranha nos episódios 3 e 7 (as razões pelas •—Mãe — Estranha
118 quais só foram considerados estes episódios prende-se com o facto de corresponderem aos momentos em que, por estar na sala o adulto pode ser evitado mais ostensivamente). A análise dos resultados constantes da figura 9 revela que a média do evitamento não variou significativamente com os episódios (F = 104; n.s.). Portanto, encarados globalmente, as crianças da nossa amostra não evitaram mais a Mãe do que a Estranha nem houve uma tendência geral para ocorrer uma aumento das respostas évitantes nos dois últimos episódios da Situação Estranha. 4 3,5 3 2,5 2 1,5 1 Ep.3 Ep.5 Ep.7 Ep.8 Figura 9 - Valores médios do Evitamento da Proximidade com a Mãe (episódios 3, 5 e 8) e com a Estranha (episódios 3, 4 e 7). 4.3.2 Padrões de vinculação As análises até agora apresentadas centraram-se nas tendências de comportamento evidenciados pela totalidade dos 19 sujeitos em ligação com as determinantes situacionais configuradas nos vários episódios. A partir de agora, debruçarmo-nos-emos sobre as estratégias de comportamento -Mãe -Estranha
119 procurando ver se, à semelhança do que se passa com as populações normais, é possível identificar a existência de padrões consistentes de vinculação na criança com alterações neuromotoras. Para tal, utilizaremos os critérios de classificação propostos por Ainsworth, Blehar et ai. (1978). De acordo com esses critérios, cada criança poderá ser integrada num de três grandes grupos: o A (inseguros-evitantes), o B (seguros) e o C (insegurosambivalentes/resistentes). Cada um dos três grupos é, ainda, susceptível de ser diferenciado em diversos subgrupos: dois para os évitantes (Al e A2), quatro para os seguros (BI, B2, B3, e B4), dois para caso dos ambivalentes/resistentes (Cie C2). Conforme referimos noutro lugar, Main e Solomon (1990) descreveram, com base nos desempenhos observados ao longo da Situação Estranha, um quarto grupo que denominaram de inseguro-desorganizado/desorientados (grupo D). No âmbito das nossas análises não considerámos a possibilidade de classificar os sujeitos nesta categoria pelas seguintes duas razões: 1as autoras que fizeram a sua descrição (Main & op cit.) reconhecem explicitamente que os critérios de classificação do padrão D só são aplicáveis a crianças sem qualquer alteração neurológica. 2alguns dos critérios usados definidos dizem respeito a comportamentos gestuais (e.g. maneirismo, estereotipias) que são típicos nas crianças com alterações neuromotoras, decorrendo da sua condição neurológica e não da eventual desorganização dos processos de vinculação. Assim sendo, a atribuição do estatuto de desorganizado/desorientado só poderia ser feita na base de critérios teoricamente ambíguos e imprecisos. Não obstante, a fim de evitarmos a introdução de factores de enviezamento, procurámos não forçar as classificações. Ou seja, considerámos apenas como validamente classificados os casos em que eram exteriorizadas estratégias consistentes, nitidamente identificáveis à luz dos critérios propostos por
120 Ainsworth, Blehar et al. (1978). Decidimos, nesta ordem de ideias, que quando tal não sucedesse, os sujeitos seriam tidos como inclassificáveis. Conforme o quadro 7 indica não conseguimos classificar uma das crianças da amostra. Das restantes 18, 9 foram consideradas seguras. No grupo das inseguras, 4 exibiram uma estratégia ambivalente e 5 estratégia évitante. Quadro 7 - Distribuição dos sujeitos por grupo e subgrupo da vinculação Grupos de vinculação Evitantes Subgrupos de vinculação Al A2 Número dè crianças 4 1 Seguros BI B2 B3 B4 3 2 i 2 Ambivalentes/ Resistentes Inclassificáveis Cl C2 3 i 1 Como se pode apreciar no mesmo quadro houve necessidade de utilizar todos os subgrupos, para classificar as crianças. Os mais representados foram Al, BI, e Cl. Os subgrupos que incluíram menos crianças foram o A2 e o C2. Relativamente a cada sujeito, dispúnhamos de uma avaliação informal do equilíbrio emocional, feita pela educadora especializada que normalmente seguia a criança. Essa avaliação situava os sujeitos numa das seguintes categorias: normal, instável ou imatura. Confrontados estes dados com as nossas avaliações, na Situação Estranha, verificou-se que 8 das 9 crianças percebidas como seguras tinham sido incluídas por parte da educadora na categoria normal. No que respeita às inseguras, 7 eram dadas como instáveis/imaturas e apenas duas obtinham a classificação normal. Tendo em conta que se trata de duas avaliações independentes (embora não possamos
121 aferir a validade e fiabilidade dos juízos em causa) é interessante notar a existência de um certo paralelismo e afinidade entre ambos os tipos de classificação. Procurámos examinar até que ponto os padrões de vinculação estavam relacionados com a expressão diferencial dos comportamentos da criança. No que diz respeito à procura de proximidade para com a Mãe, a figura 10 considera na base das médias inter-episódios de cada sujeito, os valores médios no conjunto dos episódios de pré-separação (episódios 2 e 3) e de reunião (episódio 5 e 8). □ Evitantes ■ Seguros D Am bivalentes Préseparação Reunião Figura 10 - Médias da Procura de Proximidade nos évitantes, seguros e ambivalentes nos episódios de pré-separação, separação e reunião. O teste Kruskal-Wallis7 mostrou que os níveis de procura de proximidade não variaram nos episódios de pré-separação em função do tipo 7 Atendendo à pouca quantidade de sujeitos e à sua distribuição desigual pelos diferentes grupos recorremos nesta e na maior parte das análises subsequentes a testes não paramétricos.
122 de vinculação estabelecida com a Mãe (H = 1; n.s.). Contudo, as discrepâncias são flagrantes quando se consideram as fases de reunião (H = 9.59; p< .01). Os ambivalentes/resistentes correspondem ao grupo que evidenciou índices superiores de proximidade, diferindo significativamente dos seguros (U de Mann-Whittney = 4; p< .02) e dos évitantes (U de Mann-Whittney = 0.5; p< .008). Por sua vez, estes últimos sujeitos não procuram tanto a mãe como os seguros (U de Mann-Whittney = 7; p< .02). A figura 11 apresenta os níveis médios da manutenção do contacto à Mãe no conjunto dos episódios de pré-separação e reunião. a Evitantes ■ Seguros D Am bivalentes PréReunião separação Figura 11 - Médias da Manutenção do Contacto nos évitantes, seguros e ambivalentes nos episódios de pré-separação, separação e reunião. As únicas diferenças significativas observadas dizem respeito ao contraste entre os valores das crianças ambivalentes e évitantes nos episódios de reunião (U de Mann-Whittney = 2.5; p< .02).
123 Por sua vez, a figura 12 ilustra os valores médios da resistência para com a Mãe no total dos episódios de pré-separação e de reunião em função dos 3 tipos de vinculação. Préseparação Reunião D Evitantes ■Seguros D Ambivalentes Figura 12 - Médias da Resistência ao Contacto nos évitantes, seguros e ambivalentes nos episódios de pré-separação e reunião. Na pré-separação os sujeitos évitantes e seguros ou ambivalentes, não se distinguiram entre si (H = 0.19; n.s.). Contudo, as diferenças foram marcadas no conjunto dos episódios de reunião (H = 12.24; p<001). Os ambivalentes exibiram em média mais resistência do que os seguros (U de Mann-Whittney = 0; p< .008). Por sua vez, estes últimos não manifestaram tantos comportamentos resistentes como os évitantes (U de Mann-Whittney = 6; p< .02).
130 4.3.3. Classificação dos sujeitos e análise da função discriminante Pudemos verificar que os padrões de vinculação por nós identificados estão relacionados com um conjunto de variáveis do comportamento infantil. Estas relações apresentam, genericamente, um perfil que correspondem grosso modo às expectativas teóricas e os dados acumulados pela investigação. Acreditamos que tal circunstância representa um indicador susceptível de apoiar a validade das classificações efectuadas. Importa, porém, considerar que o nosso estudo tentou, pela primeira vez, diferenciar estratégias de vinculação numa amostra de crianças com alterações neuromotoras, adaptando os procedimentos metodológicos habitualmente utilizados na avaliação de populações normais. Embora tenhamos realizado todas as nossas observações com um investigador previamente certificado em termos da fiabilidade das suas classificações na Situação Estranha, a verdade é que as condições inusitadas do estudo poderiam introduzir factores de enviezamento na avaliação. Decidimos, por isso, indagar em que medida alguns elementos objectivos apoiavam ou não a consistência das nossas classificações. Recorremos para o efeito ao método estatístico da análise da função discriminante (D1SCRIM). Como é sabido, este procedimento faz parte das técnicas multivariadas e tem como propósito principal prever a pertença de um elemento a um grupo com base numa série de preditores. Segundo Tabachnick e Fidell (1989) a DISCRIM pode ser usada para responder a várias questões de investigação. Uma das suas utilizações é a de examinar a adequação de uma classificação efectuada. Trata-se, no fundo, de avaliar, com base em determinados critérios ou funções, qual a proporção de casos correctamente classificados. Quando a DISCRIM analisa a adequação de uma classificação, as exigências de distribuição e de tamanho da amostra não são extraordinárias.
131 De facto, o método lida sem problemas com grupos que integrem um número desigual de casos e apenas exige que o tamanho do grupo mais pequeno não seja inferior ao número das variáveis preditoras. Examinámos, então, através da análise da função discriminante a consistência dos padrões de vinculação à luz dos valores na reunião com a Mãe (episódios 5 e 8 tomados conjuntamente) das escalas de Procura da Proximidade, Manutenção do Contacto, Resistência e Evitamento. A DISCRIM calculou duas funções discrimantes e os centróides dos três grupos. Conforme se pode apreciar no quadro 11, a primeira função maximiza a separação entre o grupo dos Seguros e as restantes dois. Por sua vez, a segunda função separa os Evitantes e os Ambivalentes. Quadro 11 - Funç^s4iscrimantes Evitantes Seguros Ambivalentes FUNÇÕES DISCRM1NANTES Ia função 1.32716 -2.35173 3.63245 2* função -2*19942 0.47071 1.69017 Tendo como base nos valores discriminantes, pudemos verificar <me as crianças foram correctamente classificadas em todos os grupos (quadro 12). Classificação pré\ ia Evitantes Seguros Ambivalentes Grupo de Pertença Previsto Numero do Kvítcmtes Seviiros Âtnbivakntes 5 9 4 5 (100%) 0 (0%) 0 (0%) 9 (100%) 0 (Q%) 0 (0%) 0 (0%) 0 (0%) 4 (100%)
132 4.3.4. Padrões de vinculação e comportamento interactivo das mães Conforme indicamos na exposição 4o método as Mães foram avaliadas em interacção com as suas crianças numa situação 4e jogo livre. Para o efeito, recorremos aos itens da Escala de Envolvimento Parental/Prestadores de cuidados (Farran, Kasari et ai, 1986). Nas tabelas seguintes podemos verificar que não foi encontrada qualquer relação significativa entre os padrões 4e vinculação e os 11 comportamentos de interacção 4o prestador de cuidados avaliados pela escala, tanto quanto à quantidade, qualidade e adequação. Comportamentos Evitantes (mediai Seguros (média) Ambivalentes (média) Teste Kruskal-Walli Envolvimento Físico Quantidade 3.60 3.33 3.25 H =.57; n. s. Qualidade 4.20 3.63 4.25 H = 1.37; n. s. Adequação 4.20 4.50 4.13 H = .56; n. s. Envolvimento Verbal 4.13 Quantidade 3.20 3.56 3.00 H = 1.35; n. s. Qualidade 3.89 4.00 4.40 H = 1.16; n. s. Adequação 3.60 4.00 3.33 H = .81; n. s. Capacidade de Resposta 3.60 4.00 Quantidade 3.80 4.11 4.00 H =.27; n. s. Qualidade 4.00 3.67 4.00 H = .23; n. s. Adequação 4.00 3.79 3.75 H = .25; n. s.
133 Interacção no Jogo Quantidade 4.00 4.11 4.00 H = .31;n.s. Qualidade 3.40 3.33 3.50 H = .03;n.s. Adequação 3.00 3.67 3.75 H = .85;n.s. Ensino Quantidade 3.20 4.00 3.25 H = 1.99;n.s. Qualidade 3.20 3.44 3.67 H = .29; n.s. Adequação 3.20 3.67 4.67 H = 3.39;n. s. Controlo das Actividades Quantidade 4.20 4.11 3.25 H = 1.38;n.s. Qualidade 3.20 3.11 4.25 H = 3.16;«.s. Adequação 4.20 3.11 3.50 H = 2.74;n.s. Directivas Quantidade 3.80 4.33 3.50 H = 4.68;n.s. Qualidade 4.00 3.22 3.75 H = 4.19;n.s. Adequação 4.00 3.33 4.25 H = 3.68; n. s. Relação entre Actividades Quantidade 4.60 4.56 4.25 H = .89;n.s. Qualidade 3.20 2.78 3.25 H= 1.19; O.S. Adequação 2.80 2.44 2.75 H = .30; n. s. Positivas Quantidade 2.40 2.56 2.25 H = .42; n. s. Qualidade 4.20 3.88 4.67 H = 2.64; n. s. Adequação 4.20 4.50 5.00 H = 1.67; ù. s.
134 Demonstrações Negativas Quantidade 1.40 1.89 Qualidade 3.00 3.67 Adequação 3.00 3.00 Definição de Objectivos Quantidade 3.60 3.78 Qualidade 3.20 3.56 Adequação 3.20 3.56 125 H = 3.38;n. s. 5.00 H = 2.42; n. s. 5.00 H =1.47; n. s. 3.00 H = 1.09; n. s. 4.00 H = 1.20; n. s. 4.00 H =1.84; n. s. Embora não apresentemos esses dados por serem em si redundantes, verificamos a ausência de relação quando contrastamos os seguros com os évitantes e ambivalentes tomados conjuntamente (seguros vs. inseguros).
135 4.4. Discussão O presente estudo procurou investigar a organização comportamental da vinculação numa amostra de 19 crianças portadoras de alterações neuromotoras. Para o efeito, utilizámos - com algumas adaptações - o procedimento laboratorial conhecido sob a designação de Situação Estranha. As alterações introduzidas ao método foram mínimas, não sendo crível que afectassem a possibilidade de compararmos os nossos resultados com os dados recolhidos pela generalidade 4as outras pesquisas. Estamos, contudo, em crer que a especificidade dos arranjos experimentais, e as limitações motóricas dos sujeitos por nós examinados, trouxeram algumas diferenças de pormenor. Será seguramente esse o caso das variáveis Procura da Proximidade e Manutenção do Contacto que se exprimiram com valores médios inferiores aos encontrados nos restantes trabalhos de investigação. Sublinha-se, muitas vezes, que a Situação Estranha está particularmente adaptada para avaliar bebés entre os 12 e ao 18 meses de vida. Conforme tivemos oportunidade de apreciar, as crianças do nosso estudo são um pouco mais velhas, indo as suas idades dos 18 aos 32 meses. Gostaríamos de sublinhar que não se trata de uma circunstância inusitada. Com efeito, várias pesquisas têm aplicado a Situação Estranha depois dos dois anos sem que os resultados obtidos justifiquem grandes objecções (e.g. Blehar, 1974; Maccoby & Feldman, 1972; Marvin, 1972). Tal opção parece ser, aliás, frequente, no caso dos estudos que abordam a análise dos processos de vinculação em populações especiais. Acerca do problema, Ainsworth, Blehar et ai. (1978) chegam mesmo a afirmar que "...the strange situation might well prove to have a wider application as a method of examining the effects of rearing methods" (p. 210).
136 1. Ao idealizarem a Situação Estranha, Ainsworth & Wittig (1969) tinham presente a hipótese 4e que a mãe {ou a figura substituta) constituem tipicamente uma base segura para a exploração 4o meio. Nesse sentido, a criança confiará na aceitação, disponibilidade, e acessibilidade 4o adulto agindo como se fossem válidas três regras implícitas: "tf mãe aceita que me afaste dela e explore todos estes brinquedos interessantes"; "a mãe virá logo em meu socorro no caso de aflição " e "quando eu regressar ela estará a minha espera". A criança pequena fica, então, liberta para olhar em redor, interessar-se pelos objectos, experimentar e até - presume-se - aprender. Todavia, se na história da relação se acumularem experiências que infirmem aquelas regras, a confiança no adulto enfraquecerá. Em virtude 4a insegurança instalada, a criança optará, ou por assegurar a proximidade evitando afastar-se e explorar o meio, ou, pelo contrário, por controlar defensivamente a ansiedade voltando-se para os brinquedos, num comportamento que supostamente ignora a figura de vinculação. Em consequência 4a inibição da locomoção ou da dificuldade 4e controlo 4a sua musculatura, a criança com alterações neuromotoras não tem a mesma possibilidade 4e explorar o ambiente. Em muitos casos, está 4epen4ente 4o adulto para se deslocar ou para chegar aos brinque4os. Assim, a maneira como ela constrói o quadro de relações com o mundo das pessoas e dos objectos poderá seguir vias próprias, que moldarão de forma singular a configuração e o desenvolvimento básico da sua personalidade. Contudo, os nossos resultados ilustram que os sujeitos com alterações neuromotoras, quando observados na Situação Estranha, revelam um comportamento semelhante ao evidenciado pelas crianças das amostras típicas. Apesar das suas limitações motoras, a presença da mãe parece facilitar a exploração manipulatória e visual. Com efeito, verificámos que este tipo de
137 actividade decrescia nos episódios de reparação, com uma recuperação evidente nas fases de reunião. A reacção à entrada da Estranha assemelhou-se, igualmente, à observada na criança típica e traduziu-se na diminuição das respostas de tipo exploratório. No entanto, podia supor-se que este grupo de crianças teria maior tolerância à presença de figuras não familiares, uma vez que com frequência lidam com muitas pessoas diferentes que temporariamente lhes prestam assistência ou cuidados terapêuticos. No que respeita ao comportamento de choro, era de supor que ele fosse ostensivamente activado para assinalar o desejo de proximidade. Com afeito, esta hipótese foi verificada e, tal como na população normal, verificou-se um aumento deste comportamento nas separações, com atenuação nos episódios de reunião à mãe. Conforme Ainsworth, Blehar, et al (op. cit.) referem, o fenómeno de utilização da mãe como base segura não se esgota na exploração, funcionando como suporte do equilíbrio emocional. Assim, a sucessão de eventos da Situação Estranha, estabelecidos para provocar um efeito crescente de ansiedade na criança - a introdução num ambiente não familiar, a chegada de um adulto desconhecido (que tenta a interacção), e a ausência da mãe em dois momentos distintos - é passível de despertar a necessidade de proximidade e contacto com a figura de vinculação. No que respeita ao nosso grupo de estudo colocavam-se algumas dúvidas quanto à qualidade e variação dos comportamentos de procura proximidade e manutenção do contacto ao longo desta situação experimental, pelos seguintes motivos:
138 a) o hábito de as crianças conviverem com figuras não familiares e de usualmente serem introduzidas em espaços novos, podia ter gerado um efeito de habituação; b) face às suas dificuldades motoras, a sinalização 4o desejo de proximidade e contacto poderia ser diminuta, ou de dúbia interpretação; c) de uma forma geral, a relação estabelecida com o adulto caracterizase por uma certa sujeição às suas iniciativas c acções. No entanto, apesar dos níveis de procura de proximidade e de manutenção do contacto observados serem relativamente baixos, verifica-se uma clara reactividade aos períodos de pré-separação e de reunião, no sentido postulado por Ainsworth, Blehar, et ai. (1978), isto é, com um aumento significativo nos episódios de reunião. A variedade de comportamentos para assinalar o desejo de proximidade e contacto não foi tão grande como a relatada por Ainsworth, Blehar, et aí. {op cit.). Porém, a título de exemplo, referiremos que o levantar dos braços em direcção à mãe, o agarrar-se a ela, -o choro,-oseguir com olhar, as vocalizações dirigidas, e o sorriso puderam ser profusamente observadas. A expressão da resistência observada na nossa amostra seguiu o percurso esperado nas crianças típicas, aumentando ao longo do procedimento, tanto em relação à Estranha como à Mãe, particularmente após os episódios de separação. O evitamento - ignorando ou afastando-se - do adulto parece ter, em termos gerais, causas diferentes quer se trate da figura materna quer de uma figura não familiar. O evitamento à Estranha pode ser consequência do medo do contacto com uma pessoa desconhecida, no fundo, o receio pelo que é estranho. Mas se a criança evita a mãe (afastando o olhar, virando costas, ignorando-a) tal constitui uma atitude defensiva adoptada no sentido de
139 minimizar as hipótese de rejeição por parte 4a figura de vinculação {Ainswortíi &Bell, op. cit.). No presente estudo, embora tenhamos encontrado respostas apreciáveis de evitamento, não se verificaram diferenças assinaláveis de intensidade no tocante à Estranha ou à Mãe. De facto, não era de esperar que existissem grandes-diferenças na expressão do evitamento e da resistência relativamente à população típica, uma vez que a sua sinalização inclui comportamentos que não necessitam de tanta desenvoltura física, bastando apenas respostas simples como a fuga do olhar. Os resultados ilustraram que as crianças com alterações neuromotoras exibiram estratégias de vinculação coerentes similares às observadas nas populações normais. Efectivamente, recoirendo aos critérios de classificação propostos por Ainsworth, Blehar et ai (1978) pudemos verificar que nove sujeitos evidenciavam características típicas do grupo dos seguros, cinco do grupo -dos inseguros-evitantes, e quatro do grupo dos inseguroambivalente/resistentes. Do total de dezanove casos observados, apenas um não foi classificável. A consistência das 18 classificações obteve confirmação estatística nos dados resultantes da análise da função discriminante. No entanto, dois tipos de factos mais, suportam complementarmente a validade destas avaliações. Em primeiro lugar, parece-nos merecer algum realce o paralelismo existente entre as classificações feitas com base nos desempenhos apreciados ao longo da Situação Estranha e os resultados dos juízos "impressionistas" que a educadora produziu acerca da estabilidade emocional das crianças. Lembremos, a propósito, que oito dos nove casos seguros eram por ela percebidos como sujeitos emotivamente normais e estáveis, ao passo que essa mesma avaliação apenas se reportava a um único dos inseguros. Embora a teoria da vinculação postule que o padrão seguro representa a organização comportamental mais adaptada {Bowlby, 1969, 1984), não