Relações Retóricas e Temporais no Texto
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Ana Soraia Ramalho Coelho Relações Retóricas e Temporais no Texto Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Linguística, orientada pela Professora Doutora Fátima Oliveira Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015
Relações Retóricas e Temporais no Texto Ana Soraia Ramalho Coelho Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em Linguística orientada pela Professora Doutora Fátima Oliveira Membros do Júri Professora Doutora Ana Maria Brito Faculdade de Letras - Universidade do Porto Professora Doutora Fátima Oliveira Faculdade de Letras – Universidade do Porto Professora Doutora Purificação Silvano Faculdade de Letras - Universidade do Porto Classificação obtida: Versão definitiva
i Sumário Agradecimentos…………………………………………………………………….......iii Resumo………………………………………………………………………………....iv Abstract………………………………………………….……………………………...v Índice de tabelas.............................................................................................................vi Introdução........................................................................................................................1 1. Capítulo 1 – Aspeto ....................................................................................................... 3 1.1 Vendler (1957) ........................................................................................................ 3 1.2 Dowty (1979)..........................................................................................................5 1.3 Moens e Steedman(1988).....................................................................................11 1.4 Cunha (1998)........................................................................................................14 2. Capítulo 2 - Tempo ...................................................................................................... 17 2.1 O tempo, categoria linguística..............................................................................18 2.1.1 Teorias sobre o tempo.....................................................................................19 2.1.1.1 Reichenbach (1947)...............................................................................19 2.1.1.2 Comrie (1985)........................................................................................21 2.1.1.3 Declerck (1991).....................................................................................22 2.1.1.4 Kamp e Reyle (1993).............................................................................25 3. Capítulo 3 - Sequência de tempos e relações temporais..............................................29 3.1 Reichenbach (1947)...............................................................................................30 3.2 Declerck (1991).....................................................................................................32 3.3 Kamp e Reyle (1993).............................................................................................34 4. Capítulo 4 - Relações retóricas e aplicação a um texto...............................................38 4.1 Relações retóricas..................................................................................................38 4.1.1 Hobbs (1985)...................................................................................................39 4.1.2 Mann e Thompson (1987)...............................................................................46 4.1.3 Asher e Lascarides (2003)...............................................................................57 4.1.4 Cunha e Silvano (2009) e Silvano (2010).......................................................68 4.2 Análise de fragmentos do conto 'Melchior'..........................................................70
ii 4.2.1 O objeto de estudo e proposta de análise........................................................70 4.2.2 A análise de fragmentos textuais do conto 'Melchior'....................................71 Conclusões ....................................................................................................................... 80 Referências bibliográficas ............................................................................................... 84 Anexos ............................................................................................................................. 86 Anexo 1 ....................................................................................................................... 87
iii Agradecimentos Este projeto não teria sido possível sem o contributo de algumas pessoas muito especiais e queridas. Primeiro, quero agradecer à minha orientadora Professora Doutora Fátima Oliveira por me ter introduzido no mundo fascinante que é a Semântica. Muito obrigada, também, por todo o apoio que me prestou, não só no ano da dissertação mas também ao longo dos meus cinco anos académicos. Quero mostrar, igualmente, a minha gratidão a todos os professores de Linguística, pois contribuíram para que o meu fascínio por Linguística aumentasse cada vez mais. Um grande obrigada aos meus pais e ao meu irmão que sempre me apoiaram e sempre me deram ânimo para que nunca desistisse dos meus sonhos. Quero agradecer ao meu namorado, André Roque, por me ter apoiado incondicionalmente, por ter acreditado em mim quando eu achava que não era capaz e por ter sido sempre um bom ouvinte. Tenho de agradecer à minha grande amiga e companheira, Ana Maria Magalhães, pela amizade e pela preocupação. Por fim, quero agradecer igualmente à minha amiga Telma Rodrigues por ser a amiga que é e por ser um exemplo de coragem e determinação.
iv Resumo O objetivo principal deste trabalho consiste em determinar quais as relações retóricas e temporais existentes em fragmentos de um conto. Para tal, foi feito um enquadramento teórico no qual se aborda as questões sobre Aspeto e Tempo, sobre a Sequências de Tempos, sobre as Relações Temporais e as Relações Retóricas. Com base nas propostas de Asher e Lascarides (2003) e, recorrendo pontualmente a Mann e Thompson (1987), analisámos pequenos fragmentos de texto. A análise é feita a um corpus constituído por fragmentos do conto ‘Melchior’ retirado do livro Contos exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen. Para a escolha do corpus tivemos em conta a variedade de tempos verbais e de relações retóricas. A análise do nosso corpus permite-nos observar que há uma grande recorrência da relação retórica de Narração ao longo de todo o texto, o que era de esperar. Observamos também um grande jogo entre as relações de Narração, de Elaboração e de Enquadramento ao longo do texto. Verificamos também que, quando havia relação de Narração, a história desenrolava-se ao contrário das relações de Elaboração e Enquadramento. A relação de Enquadramento contrasta com a relação de Narração pois, a primeira surge tipicamente com Pretérito Imperfeito do Indicativo e a segunda com o Pretérito Perfeito do Indicativo. Palavras-chave: Tempo, aspeto, relações temporais, relações retóricas, conto.
v Abstract The main goal of our work is to determinate which temporal and rhetorical relations are present in the tale that we chose. In order to achieve our main goal, it was made a theoretical framework where we talk about some issues about aspect, time, sequence of times, temporal relations and rhetorical relations. Based on the proposals of Asher and Lascarides (2003) (and Mann e Thompson (1987) when necessary) we have analyzed small text fragments. Our analysis is applied to a corpus constituted by the tale ‘Melchior’ from the book Contos exemplares of Sophia de Mello Breyner Andresen. Our corpus was chosen taking into account the variety of verbal tenses and of rhetorical relations. Among the observations of our corpus, we argue that throughout the text there is a considerable recurrence of the rhetorical relation of Narration, which was to expect. We have observed as well parity between Narration, Elaboration and Background throughout the text. We also verified that when the rhetorical relation of Narration was present it was noticed a progressing of the story tale. It didn’t happen with the rhetorical relations of Elaboration and Background. There is a contrast between the rhetorical relation of Background and Narration because the first one is combined with the Pretérito Imperfeito do Indicativo and the second one is combined with the Pretérito Perfeito do Indicativo. Keywords: Time, aspect, temporal relations, rhetorical relations, story tale.
vi Índice de tabelas (ou de quadros) Quadro 1. Caracterização das classes aspetuais...........................................................................13 Quadro 2. A representação dos tempos de Comrie (1985) ..........................................................21 Quadro 3. A representação dos tempos de Declerck (1991) .......................................................23 Quadro 4. As propriedades dos tempos verbais propostas por Kamp e Reyle (1993) ................26 Quadro 5. Relações de Coerência de Expansão de Hobbs (1985)...............................................42 Quadro 6.Content Level Relation for Indicatives de Asher e Lascarides(2003)........................................................................................................................66 Quadro 7.Text Structuring Relations de Asher e Lascarides (2003)......................................................................................................................67 Quadro 8. Subtipos da relação retórica de Elaboração.................................................................72 Figura 1. Representação linear do tempo.....................................................................................18 Figura 2. As 9 formas temporais tendo em conta a combinação dos três pontos propostos por Reichenbach (1947)...............................................................................................20 Figura 3. A interação das lógicas que contribuem para a interpretação do discurso....................59
7 Dowty fornece, também, testes para distinguir as diferentes classes não estativas. Assim: 1. Enquanto os accomplishments podem ocorrer com adverbiais com ‘em’ (in), os activity apenas aceitam adverbias com ‘durante’ (for): (11a) ? John painted a picture for an hour. (11b) John painted a picture in an hour. (Dowty, 1979: 56) (12a) John walked for an hour. (12b) * John walked in an hour. (Dowty, 1979: 56) 2. A expressão ‘levar uma hora’ (to take an hour) pode combinar-se com accomplishments mas não com activities: (13a) John spent an hour painting a Picture. (Dowty, 1979: 56) (13b) It took John an hour to paint a Picture. (Dowty, 1979: 56) (14a) John spent an hour walking. (Dowty, 1979: 56) (14b) * It took John an hour to walk. (Dowty, 1979: 56) 3. As implicações lógicas dos activities com o advérbio ‘durante’ (for) são diferentes das dos accomplishment. Ou seja, se o João andou durante uma hora (John walked for an hour) a qualquer altura durante essa hora é verdade que o João andou. Pelo contrário, se o João pintou um quadro durante uma hora (John painted a picture for an hour), pode não ser verdade que ele tenha estado a pintar em cada instante temporal dessa hora (cf. Dowty, 1979: 57). Esta diferença de implicações lógicas pode ser representada da seguinte forma: (15) If ϕ is an activity verb, then X ϕed for Y time entails that any time during Y, X ϕed was true. If ϕ is an accomplishment verb, then X ϕed for Y time does not entail that X ϕed was true during any time within Y at all. (Dowty, 1979: 57) 4. Implicações lógicas dos tempos progressivos para os não progressivos também distinguem activities de accomplishments:
8 (16) If ϕ is an activity verb, then X is (now) ϕing entails that X has ϕed. If ϕ is an accomplishment verb, then X is (now) ϕing entails that X has not (yet) ϕed. (Dowty, 1979: 57) 5. Uma diferença de implicação lógica mostra-nos se estes dois tipos de verbos (activity, accomplishment) aparecem como complemento de’ parar de’ (stop). (17a) John stopped painting the picture. (17b) John stopped walking. (Dowty, 1979: 57) Assim, podemos concluir que em (17b) o João caminhou, enquanto em (17a) não podemos afirmar que o João pintou o quadro. Apenas podemos afirmar que, num período da vida do João, ele esteve a pintar o quadro. 6. Tipicamente, apenas os accomplishments podem ocorrer como complemento de ‘acabar de’ (finish)3: (18a) John finished painting a picture. (18b) * John finished walking. (Dowty, 1979: 57) 7. O advérbio ‘quase’ (almost) manifesta-se de forma diferente consoante a utilização com activities ou accomplishments: (19a) John almost painted a picture. (19b) John almost walked. (Dowty, 1979: 58) 3 Repare-se que ‘acabar de’, em Português Europeu, pode ter duas interpretações: aspetual e temporal. Vejam-se os seguintes exemplos dos dois casos, respetivamente: (i) O João acabou de escrever a tese. (ii) O João acabou de chegar.
9 Como podemos ver, o advérbio ‘almost’ fornece leituras diferentes para ambos os casos: no exemplo (19a) podemos deduzir que o John ou tinha intenção de pintar ou, então, não acabou de pintar. Já o exemplo (19b) explicita que o John efetivamente não caminhou. 8. Uma última distinção no que toca a activities e accomplishments tem a ver com as ambiguidades possíveis entre eles. Assim, “some accomplishments (specifically, those in which the result brought about is a non-permanent state of affairs) exhibit an ambiguity with for-phrases which activities never have.” (Dowty, 1979: 58): (20a) The sheriff of Nottingham jailed Robin Hood for four years. (20b) The sheriff of Nottingham rode a white horse for four years. (Dowty, 1979: 58) O exemplo (20a), um accomplishment, pode ter uma leitura repetitiva (o xerife prendeu o Robin Hood várias vezes ao longo de quatro anos) ou, então, o Robin Hood esteve preso durante quatro anos ininterruptamente. O exemplo (20b), uma activity, apenas tem uma leitura repetitiva (o xerife montou várias vezes o cavalo branco ao longo de quatro anos). Por último, veremos os testes que diferenciam a quarta classe aspetual na proposta de Vendler (1957). Dessa forma, achievements podem ser diferenciados com os seguintes testes: 1. Apesar de os accomplishments poderem ser combinados com adverbiais do tipo ‘durante x tempo’ e ‘em x horas’ (for-phrases e in-phrases, respetivamente), os achievements soam estranhamente quando combinados com o advérbio ‘durante’ (for): (21a) John noticed the painting in a few minutes. (21b) ?? John noticed the painting for a few minutes. (Dowty, 1979: 58) 2. O mesmo acontece com as expressões ‘spend-a-hour’ e ‘take-a-hour’: (22a) It took John a few minutes to notice the painting. (22b) ?? John spent a few minutes to notice the painting. (Dowty, 1979: 59)
10 3. As implicações lógicas de achievements diferenciam-se das dos accomplishments. Isto é, se o facto de o João ter pintado um quadro numa hora é verdade (John painted a Picture in an hour), então é verdade que o João esteve a pintar o quadro durante aquela hora. No entanto, mesmo sendo verdade que o João reparou no quadro em poucos minutos (John noticed the painting in a few minutes) não quererá dizer que o João reparou no quadro no intervalo de tempo do começo até ao fim desses “poucos minutos” (Dowty, 1979: 59): (23) If ϕ is an accomplishment verb, then ϕed in Y time entails X was ϕing during Y time. If ϕ is an achievement verb, then X ϕed in Y time does not entail X was ϕing during Y time. (Dowty, 1979: 59) 4. Diferentemente dos accomplishments, achievements, tipicamente, não são aceitáveis como complemento de ‘acabar de’ (finish): (24)* John finished noticing the painting. (Dowty, 1979: 59) 5. De forma diferente dos accomplishments e dos activities, os achievements não são aceitáveis como complementos de ‘parar de’ (stop) (excetuando a leitura habitual): (25) * John stopped noticing the painting. (Dowty, 1979: 59) 6. ‘Quase’ (almost) não dá uma leitura ambígua com achievements: (26) John almost noticed the painting. (Dowty, 1979: 59) 7. Existe uma classe específica de advérbios que é semanticamente anómala com achievements: (27)?? John attentively discovered the solution studiously detected an error vigilantly found a penny conscientiously reached Boston obediently noticed the painting (Dowty, 1979: 59)
11 Segundo Dowty (1979), uma vez que os advérbios ‘deliberately’ e ‘carefully’ (do teste de estatividade) são um subconjunto dos advérbios mencionados acima, então este último teste distingue, também, para além de state e achievement, das classes restantes. 1.3. Moens e Steedman (1988) Moens e Steedman (1988) começam o seu trabalho afirmando que se pensa que a semântica das expressões temporais está intrinsecamente relacionada com a conceção linear do tempo, isto é, uma conceção linear e ordenada do tempo. No entanto, conjetura-se que essa conceção de ordenação linear não é a mais indicada quando se trata de categorias linguísticas. As orações subordinadas com quando são um bom exemplo disso. Os autores afirmam que as proposições transmitidas por frases contextualizadas podem “(…) be classified into temporal or aspectual types, partly on the basis of the tenses, aspects, and adverbials with which they can co-occur.” (Moens & Steedman, 1988: 16). O termo ‘tipo aspetual’ (aspectual type) tem a ver com as relações de determinados acontecimentos que o locutor predica, relativamente a outros acontecimentos no domínio do discurso. O que o locutor diz sobre essas relações é bastante diferente daquilo que essas relações são na verdade. Ou seja, o que o falante diz sobre o mundo é diferente daquilo que o mundo realmente é. Moens e Steedman (1988) apresentam, baseados em Moens (1987), as seguintes classes aspetuais. Comecemos por ver o seguinte exemplo: (28) Harry reached the top. (Moens & Steedman, 1988: 16) Na proposta destes dois autores, a frase acima descrita é uma Culminação. Isto é, um evento que é visto como pontual e instantâneo e transita para um novo estado do mundo. A este novo estado do mundo, os autores denominam estado consequente do evento. Vejamos um exemplo de ‘estado consequente’4: 4 Em PE (português europeu), a forma verbal representada no exemplo (29) não dá conta do estado consequente. Em português seria algo como o topo está alcançado.
12 (29) Harry has reached the top. (Moens & Steedman, 1988: 16) Uma outra categoria aspetual é o ponto e, tipicamente, não é visto como modificador do estado do mundo. O ponto é um evento, indivisível e cujas consequências não estão em causa no discurso. No entanto, isso não significa que não haja consequências. Diferenciam-se das culminações, pois, quando combinados com tempos compostos, surge uma leitura agramatical. Veja-se: (30) Harry hiccuped. (Moens & Steedman, 1988: 16) (31) *Harry has hicupped. (Moens & Steedman, 1988: 16) Uma terceira classe aspetual, na tipologia de Moens e Steedman, denomina-se processo e é caracterizado por descrever um evento durativo no tempo, mas sem conclusão ou culminação. Expressões como ‘escalar’ (climb)5 podem ser combinadas com o adverbial ‘durante x tempo’. No entanto, não podem ser combinadas com adverbiais do tipo ‘em x tempo’. (32) Harry climbed. (Moens & Steedman, 1988: 16) (33) Harry climbed for several hours. (Moens & Steedman, 1988: 17) (34) * Harry climbed in several hours. (Moens & Steedman, 1988: 17) Vejamos, agora, o seguinte exemplo ilustrativo da última categoria aspetual a ser descrita pela proposta de Moens e Steedman (1988): (35) Harry climbed to the top. (Moens & Steedman, 1988: 17) O exemplo (35) refere-se a um processo culminado. Assim, o processo culminado descreve um estado de coisas que se prolonga no tempo mas, ao contrário do processo, tem associada uma culminação que faz com que haja uma mudança de estado. Esta categoria gramatical pode relacionar-se com adverbiais do tipo de ‘em x tempo’, mas não com adverbiais do tipo ‘durante x tempo’ (ao contrário dos processos). 5 Em PE, ‘escalar uma montanha’, por exemplo, é um processo culminado. Não podemos utilizar o verbo ‘escalar’ sem um objeto. É agramatical traduzirmos o exemplo (32) por o Harry escalou.
13 (36) Harry climbed all the way to the top in less than 45 minutes. (Moens & Steedman, 1988: 17) (37) * Harry climbed all the way to the top for less than 45 minutes. (Moens & Steedman, 1988: 17) Todas as classes descritas acima referem-se a eventos, isto é, “happenings with difined beginnings and ends. We distinguish these “hard-edged” categories from a class of indefinitely extending states of affairs, which, equally commonsensically, we call states” (Moens & Steedman, 1988: 17). (38) Harry is at the top. (Moens & Steedman, 1988: 17) Vejamos agora resumidamente, quais as características de cada classe aspetual: Dinâmico Télico Duração Estado Consequente Homogéneo Processo + - + - + Processo culminado + + + + - Culminação + + - + - Ponto + (-) - - - Estado - - + - + Quadro 1. Caracterização das classes aspetuais (Oliveira, 2003: 137) Há que explicar que as classes aspetuais de Moens e Steedman têm de ser caracterizadas dinamicamente, ou seja, vários elementos linguísticos (advérbios ou expressões adverbiais, auxiliares aspetuais e tempos verbais) podem influenciar na leitura aspetual de uma frase. Por exemplo, se ‘a Maria nadou na piscina durante meia hora’ é um processo, ‘a maria nadou os mil metros em meia hora’ já é um processo culminado. Dessa forma, a aspetualidade é dependente de vários fenómenos, é composicional. A esse fenómeno de mutação das classes aspetuais denomina-se ‘rede aspetual’ (aspectual net), ou seja, como dito anteriormente, existem vários fatores, como seja tempo, adverbiais temporais e auxiliares aspetuais, que fazem com que haja mudanças entre as classes aspetuais. Moens e Steedman
14 (1988: 18), acerca deste assunto, afirmam ainda que a transição das classes aspetuais “is associated with a change in the content and where, in addition, the felicity of any particular transition for a given proposition is conditional on support from knowledgr and context”. Os autores concluem declarando que as anomalias e ambiguidades que ameaçam a semântica, mais precisamente as expressões temporais nas línguas naturais, advêm da suposição de que um modelo linear do tempo é aquele mais adequado para dar conta de algumas categorias linguísticas. Uma semântica mais completa é possível a partir da conjetura de que categorias temporais como tempo, aspeto, adverbiais aspetuais e proposições “refer to a mental representation of events that is structured on other than purely temporal principles, and to which the notion of a nucleus, or contingently related sequences of preparatory process, goal event, and consequent state, is central.” (Moens & Steedman, 1988: 27) 1.4. Cunha (1998) Cunha (1998) afirma que, quando falamos em estados, é muito importante fazer a distinção entre estados faseáveis e estados não faseáveis. Assim, “uma tal diferenciação é motivada por um comportamento muito díspar, no interior da classe dos estativos, relativamente aos designados “critérios de estatividade”, que serviriam para distinguir estados de eventos” (Cunha, 1998: 448). Segundo o autor, certos estados não podem surgir no escopo do Progressivo, não podem surgir com o Imperativo nem como complementos de verbos (ex. ‘persuadir’, ‘ordenar’, etc). Para além disso, têm, tipicamente uma leitura de presente real, não se podem combinar com determinados operadores aspetuais e “englobam ou contém expressões pontuais e orações temporais introduzidas por quando (…) outros (…) sob determinados contextos, manifestam um comportamento próximo do dos eventos” (Cunha, 1998: 448) Vejamos os seguintes exemplos contrastantes: (39a) *O João está a ser alto. (39b) * João, sê alto! (39c) *A mãe persuadiu o João a ser alto. (39d) * Quando fez seis anos, o João foi alto. (39e) * O João começou a ser alto. (39f) *Quando fez seis anos, o João foi alto. (Cunha, 1998: 448/449)
15 (40a) A Maria está a ser simpática com as amigas. (40b) Maria, sê simpática com as suas amigas! (40c) A mãe persuadiu a Maria a ser simpática com as amigas. (40d) A Maria é frequentemente/ muitas vezes simpática com as amigas. (40e) (Finalmente) a Maria começou a ser simpática com as amigas. (40f) Quando as conheceu, a Maria foi simpática com as amigas. (Cunha, 1998: 449) Conforme os exemplos, podemos compreender que existem estados que não podem pertencer à rede aspetual (cf. Moens e Steedman (1988: 18)) e transformados em processos, sendo por isso [- faseáveis]. Há ainda outros estados que podem ser integrados na referida rede aspetual e, assim, recebem uma estrutura fásica característica dos processos, isto é, têm a capacidade de se transformarem em processos manifestando todas as particularidades típicas dessa tipologia aspetual, ou seja são [+ faseáveis]. De notar que a propriedade de [+ faseável] não põe em causa a definição de estado. Isto é, “ quando manifestam uma estrutura fásica, estas eventualidades deixam de ser estados, passando a processos; ou seja, um estado [+ “faseável”] só será um estativo nos contextos em que não apresenta uma estrutura fásica própria, sendo, nesses casos, um processo (derivado) ” (Cunha, 1998: 449). Sumário Neste capítulo procurámos, numa primeira parte, definir e caracterizar a noção de aspeto e em que medida se diferencia da conceção de tempo. Numa segunda parte, averiguámos quais as propostas teóricas mais importantes e em que medida deram o seu contributo neste campo semântico tão vasto que é o aspeto. Dessa forma, consideramos como indispensáveis para o presente trabalho as propostas de Vendler (1957), Dowty (1979), Moens e Steedman (1988) e Cunha (1998). Vendler (1957) foi o primeiro estudioso a agrupar, com sucesso, as formas verbais em quatro classes distintas tendo em conta as situações descritas pelas formas verbais. Dowty (1979) contribuiu, entre outras vertentes, com a criação dos testes que tentam explicar todas as propriedades inerentes às classes verbais propostas por Vendler (1957). Já Moens e Steedman (1988), baseados em Moens (1987), sugerem uma tipologia que determina não só as distinções entre estados e eventos, como também distinções entre as várias classes
16 aspetuais dentro dos eventos, propondo uma rede aspetual que permite compreender as transições aspetuais e condições de construção de classes derivadas. Por fim, Cunha (1998) propõe que quando falamos de estados não podemos deixar de fazer a distinção entre estados faseáveis e estados não faseáveis.
23 Quadro 3. A representação dos tempos de Declerck (1991) in Silvano (2010:100) Ora, este quadro revela precisamente que Declerck, para o inglês, apenas considera o passado e o presente. Para o autor, o futuro está incluído na esfera do presente. A representação dos tempos de Declerck (1991) é bastante complexa, pelo que iremos apenas fazer a análise, na esfera do presente, do Absolute Present, o Relative Present e o Present Perfect e na esfera do passado, iremos analisar o Absolute Preterite, o Relative Preterite e o Past Perfect. A nossa análise será baseada no contraste existente entre as duas esferas temporais. Tanto no Absolute Present como no Absolute Preterite o Tempo da Situação é simultâneo com o Tempo de Orientação da situação, no entanto diferem no aspeto em que, no Verb tenses Temporal relations between the relevant times Present Timesphere Absolute Present TS simul TO sit TO sit includes t0 Relative Present TS simul TO sit TO sit includes TO1 Present Perfect TS simul TO sit TO sit completely before TO1 or TO sit before and till TO1 TO1=t0 or TO1=TO behaving as t0 Absolute Future TS simul TOsit TOsit after t0 TS simul TOsit TOsit since t0 anwards Relative Future TS simul TOsit TOsit after TO1 TS simul TOsit TOsit since TO1 onwards Absolute Future Perfect TS simul TOsit TOsit completely before TO2 or TOsit befor and till TO2 TO2 after t0 Relative Future Perfect TS simul TOsit TOsit completely before TO2 or TOsit before and till TO2 TO2 after TO1 Past Timesphere Absolute Preterite TS simul TOsit TOsit before t0 Relative Preterite TS simul TOsit TOsit before TO1 Past Perfect TS simul TOsit TOsit completely before TO2 or TOsit till TO2 TO2 before TO1 (frequently t0) Absolute conditional TS simul TOsit TOsit completely after TO2 or TOsit since TO2 onwards TO2 before t0 Relative Conditional TS simul TOsit TOsit completely after TO2 or TOsit since TO2 onwards TO2 before TO1 Conditional Perfect TS simul TOsit TOsit completely before TO3 or TOsit since TO3 onwards TO3 after TO2 TO2 before TO1
24 primeiro, o Tempo de Orientação da situação inclui o tempo da enunciação (T0) e no segundo, o Tempo de Orientação da situação localiza-se antes do tempo da enunciação. No que toca aos tempos relativos, (Relative Present e Relative Preterite), tal como nos casos anteriores, também o Tempo da Situação é simultâneo ao Tempo de Orientação da situação, mas, no caso do Relative Present, o Tempo de Orientação da situação inclui o Tempo de Orientação 1, já no Relative Preterite, o Tempo de Orientação da situação é anterior ao Tempo de Orientação 1. Quanto ao Present Perfect, o Tempo da Situação é simultâneo ao Tempo de Orientação da situação (tal como nos casos já vistos), o Tempo de Orientação da situação é completamente anterior ao Tempo de Orientação 1 ou o Tempo de Orientação da situação é anterior e até ao Tempo de Orientação 1, o Tempo de Orientação 1 corresponde ao tempo da enunciação ou corresponde ao Tempo de Orientação comportando-se como o tempo da enunciação. Já no Past Perfect, o Tempo da Situação é simultâneo ao Tempo de Orientação da situação, o Tempo de Orientação da situação localiza-se completamente antes do Tempo de Orientação 2 ou até ao Tempo de Orientação 2, o Tempo de Orientação 2 encontra-se antes do Tempo de Orientação 1. Apliquemos agora o que foi dito num exemplo no Present Perfect: (41) Mary has bought a new book. Como podemos ver, o Tempo da Situação ‘comprar um livro novo’ é simultâneo ao Tempo de Orientação da situação. O Tempo de Orientação da situação é completamente anterior ao Tempo de Orientação 1 (que se comporta como tempo de enunciação). Como pudemos observar, a representação dos tempos inserida na proposta de Declerck (1991) é um mecanismo complexo e consistente que nos permite caracterizar as relações temporais existentes.
25 2.1.1.4. Kamp e Reyle (1993) A proposta teórica de Kamp e Reyle (1993) tem como alicerce os estudos sobre o tempo de Reichenbach (1947). Ora, estes dois autores diferenciam duas noções de localização temporal: (i) o ponto de perspetiva temporal (TPpt doravante) e (ii) o ponto de referência (Rpt doravante). O TPpt é o ponto pela qual a situação é vista e o Rpt explica a progressão narrativa e é bastante importante para sequências de situações. Vejamos o seguinte exemplo ilustrativo: (42) Mary wrote the letter. She went to the post office. (Silvano, 2010: 101) Aqui, o Rpt da segunda situação é o evento descrito na primeira frase e o TPpt é o momento da enunciação. Conforme Silvano (2010: 101), a teoria de Kamp e Reyle é uma teoria bidimensional, ou seja, na análise dos tempos são integrados dois tipos de relações: (i) entre o TPpt e o momento da enunciação (com dois tipos de valores caso o TPpt se localize antes do momento da enunciação ou se sobreponha a ele, respetivamente: [+ PAST] e [- PAST]); (ii) entre o tempo da localização da eventualidade e o TPpt (com três tipos de valores: presente, passado e futuro). Vejamos agora o resumo das propriedades temporais dos verbos em inglês considerados por Kamp e Reyle (1993: 601) baseado parcialmente no quadro apresentado pelos autores:
26 Quadro 4. As propriedades dos tempos verbais propostas por Kamp e Reyle (1993: 601) Vejamos alguns exemplos do uso dos tempos verbais acima indicados. Os seguintes exemplos são da autoria de Kamp e Reyle (1993): (43) Mary is in the library. (Kamp and Reyle, 1993: 514) (44) John will leave work at the usual hour. (Kamp e Reyle, 1993: 597n) (45) Fred arrived at 10:00. (Kamp e Reyle, 1993: 593) (46) Mary had been unhappy in her new environment for more than a year. But now she felt at home. (Kamp e Reyle, 1993: 595) (47) Mary got to the station at 9:45. Her train would arrive at 10:05. (Kamp e Reyle, 1993: 595) (48) Mary has lived in Amsterdam. (Kamp e Reyle, 1993: 567) (49) John will get there around 6:30. He will have had a hard day. (Kamp e Reyle, 1993:597n) (50) Mary was content. The past two days had been strenuous. But now she had sent off her proposal. (Kamp e Reyle, 1993: 599) (51) Mary went to the post office. She had written the letter. (Kamp e Reyle, 1993: 573) (52) I will be at the party at 11:00. The guests would have arrived by that time. (Silvano, 2010: 102) Ora, segundo a análise feita por Silvano (2010: 103-104) dos exemplos acima referidos, os três primeiros exemplos (43, 44 e 45) são referentes aos tempos verbais Present, Future e Simple Past, respetivamente, e podemos dizer duas coisas sobre eles: (i) a relação temporal entre o TPpt das situações e o momento de enunciação é a mesma (o TPpt coincide Relation between TPpt and n Relation between location time and the TPpt Present - PAST pres Future - PAST fut Simple Past - PAST + PAST past pres Past Future + PAST fut Present Perfect - PAST pres Future Perfect - PAST fut Past Perfect + PAST past - PAST + PAST Past pres Past Future Perfect + PAST fut
27 com o tempo da enunciação), (ii) a relação entre a situação e o tempo da enunciação é diferente (a situação localiza-se antes, depois ou sobrepõe-se ao TPpt). No exemplo (46), o advérbio temporal ‘agora’ (now) faz com que o TPpt da eventualidade se encontre antes do momento da enunciação e, assim, a eventualidade sobrepõe-se ao TPpt. Kamp e Reyle (1993:597) explicam que há a possibilidade de a perspetiva temporal adquirir um valor de futuro quando esse advérbio de tempo é utilizado e, dessa forma, ‘now’ localiza-se num momento passado9. O mesmo acontece com o exemplo (47): o TPpt encontra-se antes do momento da enunciação. No entanto, a eventualidade (que se encontra no Condicional) localiza-se depois do TPpt. Os exemplos (48) e (49) ilustram os tempos verbais Present Perfect e Future Perfect, respetivamente. Nos dois casos o TPpt coincide com o tempo da enunciação. No entanto, há diferenças: no primeiro caso, a eventualidade e o TPpt são coincidentes. No segundo caso, há uma relação de posterioridade entre a eventualidade e o TPpt. Quanto ao Past Perfect, várias situações são possíveis. No exemplo (50), o TPpt da situação descrita encontra-se antes do tempo da enunciação e a localização temporal dessa situação é anterior ao TPpt (cf. the past two days had been strenuous.); o Past Perfect sofre influência do advérbio de tempo ‘agora’ (now), que faz com que a situação se sobreponha ao TPpt, que é anterior ao momento da enunciação (cf. but now she had sent off her proposal.). No exemplo (51), “o ponto de perspetiva temporal do estado resultante da eventualidade ‘had written the letter’ é coincidente com o ponto da fala e esse estado resultante localiza-se antes do ponto de perspetiva temporal” (Silvano, 2010: 102). Por último, no exemplo (52) temos o tempo verbal Past Future Perfect, que tem como característica: (i) o TPpt ser anterior ao tempo da enunciação, e (ii) a eventualidade localiza-se depois do TPpt. 9 Sobre este assunto, Kamp e Reyle (1993: 595) afirmam que “the contexts in which now can refer to a past time are severely restricted. For example, it seems to be almost impossible for now to refer to a past time if the clause in which it occurs describes an event rather than a state”.
28 Sumário Neste capítulo pretendemos fazer a caracterização da noção de tempo e, também, abordar um pouco a questão do tempo como categoria linguística. A seguir, vimos quais as propostas teóricas mais relevantes e de que forma contribuíram para o estudo do tempo. Portanto, consideramos essenciais as propostas de Reichenbach (1947), Comrie (1985), Declerck (1991) e Kamp e Reyle (1993). Reichenbach (1947) introduziu o ponto de referência na análise do tempo e, dessa forma, propôs que o tempo devesse ser analisado segundo a articulação de três pontos essenciais: o ponto da fala, o ponto do evento e o ponto de referência. Comrie (1985) cria três classes temporais diferentes: o absoluto, o relativo e o absoluto-relativo. Aqui, o ponto de referência exerce diferentes papéis. Declerck (1991) recorre não só a diferentes tipos de tempos, à noção de intervalo de tempo mas também às relações entre os tempos para representar os diferentes tempos de referência. Por fim, Kamp e Reyle (1993) assentam os seus estudos nos pressupostos teóricos de Reichenbach (1947). Os dois autores diferenciam duas noções de localização temporal: o ponto de perspetiva temporal (TPpt) e o ponto de referência (Rpt). O TPpt é o ponto pela qual a situação é vista e o Rpt explica a progressão narrativa e é bastante importante para sequências de situações.
29 Capítulo 3 – Sequência de tempos e relações temporais A questão da sequência de tempos verbais é algo que já é observado desde há bastante tempo pelas gramáticas das línguas. Conforme Oliveira (2003: 173) a sequência de tempos verbais tem a ver com a “relação de dependência que se estabelece entre as leituras temporais de formas verbais de algum modo relacionadas entre si”. Isto é, por um lado, se os tempos das frases simples localizam um determinado tempo em relação ao momento da enunciação, por outro lado, isso pode não ocorrer em muitas frases complexas e, dessa forma, há limitações quanto à ocorrência de determinados tempos verbais nas duas orações da frase e pode haver, também, leituras variadas (Oliveira, 2003: 173). A sequência de tempos verbais aplica-se não só a frases complexas, como também a sequências de frases simples e complexas em fragmentos textuais. O objeto de estudo das sequências de tempos verbais é bastante diverso, por isso as formas de as analisar também o serão. De facto, “ a natureza do fenómeno da sequência de tempos tem sido objeto de estudo por parte de alguns estudiosos e não há consenso nas diferentes abordagens” (Silvano, 2002: 79). Assim sendo, esses autores interessados no fenómeno em questão são, entre outros de que não falaremos neste trabalho, Reichenbach (1947), Declerck (1991) e Kamp e Reyle (1993). Reichenbach defende a presença de regras de sequencialização de tempos. Declerck associa sequência de tempos não só à subordinação temporal, mas também outras alternativas a este fenómeno de combinação de orações como seja a criação de um novo domínio temporal, por exemplo. Kamp e Reyle criam uma metodologia capaz de interpretar as sequências de frases através de Estruturas de Representação Discursiva (DRS). Assim, estes dois autores afirmam que as frases finitas são analisadas como sendo relacionadas com as frases anteriores a elas e, consequentemente, estabelece-se entre as frases uma anáfora temporal. A análise destas três propostas teóricas dentro do quadro da sequencialização de tempos verbais permite-nos uma melhor perceção do fenómeno em si.
30 3.1.Reichenbach (1947) Reichenbach no final dos anos 40 propõe uma teoria fundamentada na existência de três pontos, como já vimos antes: o ponto da fala, o ponto do evento e o ponto de referência. Estes três pontos tentam descrever de forma rigorosa os tempos verbais. Note-se que o ponto de referência é particularmente relevante quando se analisa sequências de frases, propondo-se que este ponto pode manter-se ou não. Reichenbach acrescenta ainda que, numa história, os eventos existentes determinam o ponto de referência (Veja-se Silvano, 2002: 81). Vejamos o seguinte exemplo de uma sequência narrativa. (53) But Philip ceased to think of her a moment after he had settled down in his carriage. He thought only of the future. He had written to Mrs. Otter, the massière to whom Hayward had given him an introduction and had in his pocket an invitation to tea the following day. (Somerset Maugham. Of Human Bondage in Reichenbach, 1947: 288) Os vários eventos descritos no fragmento mencionado acima, combinados com o Simple Past, fazem com que o ponto de referência se localize num momento passado (antes do ponto de fala). Os eventos descritos como ‘had settled down in his carriage’ e ‘had written to Mrs. Otter’ localizam-se antes do ponto de referência, pois estão a ser combinados com o Past perfect (Pretérito-Mais-Que-Perfeito) (Reichenbach, 1947: 288). Reichenbach não estuda apenas as relações temporais que se estabelecem entre os tempos verbais em fragmentos de narrativas, mas também relações temporais em frases complexas. O autor afirma ainda: “When several sentences are combined to form a compound sentence, the tenses of the various clauses are adjusted to one another by certain rules which the grammarians call the rules of the sequence of tenses. We can interpret these rules as the principle that, although the events referred to in the clauses may occupy different time points, the reference point should be the same for all the clauses – a principle, we shall say demands the permanence of the reference point.” (Reichenbach, 1947: 293) Assim, Reichenbach explicita como funciona o princípio da permanência do ponto de referência através de alguns exemplos. Vejamos: (54) I had mailed the letter when John came and told me the news. (Reichenbach, 1947: 293)
31 (54a) 1ª oração E1 ______ R1______S 2ª oração R2, E2______S 3ª oração R3, E3______S (55) I did not know that you would be here. (Reichenbach, 1947: 293) (55a) 1ª oração R1, E1______S 2ª oração R2______S, E2 Quanto ao exemplo (54), o ponto de referência das três orações localiza-se antes do ponto de fala. Já no segundo caso, no exemplo (55), o ponto de referência da segunda oração localiza-se no passado e o ponto de evento coincide com o ponto de fala. Reichenbach afirma que “if the time relation of the reference point compared is not identity, but time sequence, i.e., if one is said to be before the other, the rule of the permanence of the reference point can thus no longer be maintained” (Reichenbach, 1947: 294-295). Aliás, neste caso, a regra da permanência do ponto de referência é substituída por uma outra regra mais geral denominada ‘uso posicional do ponto de referência’ e, neste caso, é o ponto de referência que detém a posição temporal (Veja-se Reichenbach, 1947: 295 e Silvano, 2002: 82). Vejamos o seguinte exemplo: (56) He was helthier when I saw him than he is now. (Reichenbach, 1947: 295) Neste exemplo não se verifica a regra da permanência do ponto de referência. Podemos observar esse fenómeno através da representação da estrutura das orações que fazem parte do exemplo anterior. Vejamos: (56a) 1ª oração R1, E1______S 2ª oração R2, E2______S 3ª oração S,R3,E3
32 O ponto de referência, na terceira oração, apesar de coincidir com o ponto de fala e o ponto do evento, não coincide com o da 1ª e o da 2ª oração. Assim, podemos observar o seguinte: Reichenbach (1947) propõe a existência de três pontos, sendo eles o ponto de fala, o ponto do evento e o ponto de referência, que descrevem com um elevado grau de precisão os tempos verbais. O ponto que teve um grande destaque nesta proposta foi o ponto de referência por ser um “mecanismo” fundamental na interpretação das sequências de tempos verbais. No entanto, esta proposta não está ausente de críticas. Vejamos a título exemplificativo as seguintes: (i) Declerck (1991) afirma que nem todos os tempos verbais podem ser analisados através dos três pontos sugeridos por Reichenbach, pois, por exemplo, “um tempo passado relativo, numa frase em que o verbo da oração subordinante é também passado, descreve somente o evento da oração subordinada como simultâneo com o da oração subordinante, não estabelecendo qualquer tipo de relação temporal com o ponto de fala.” (Silvano, 2002: 83). (ii) Como Silvano (2002:83) afirma, a proposta de Reichenbach é um pouco omissa e simples, no entanto deve ser encarada como uma primeira no quadro da análise da sequência de tempos verbais e serviu como base teórica para outros linguistas e para outras propostas mais completas. 3.2. Declerck (1991) Declerck (1991) foca o seu estudo em dois tipos de orações: as simples e as complexas. Partindo desse princípio, ele procura observar como é que os diferentes tempos verbais são usados no discurso. Este estudioso defende que, quando duas ou mais orações são combinadas entre si, duas situações diferentes podem acontecer: (i) integrar a nova situação no intervalo temporal criado pela primeira situação (forma verbal relativa); (ii) a nova situação não é integrada no intervalo temporal da situação anterior mas, pelo contrário, dá-se a criação de um novo
39 in short discourses.” Por exemplo, no quadro da Segmented Discourse Representation Theory (SDRT), de Asher e Lascarides (2003), os elementos de análise das relações retóricas são, tipicamente, frases não complexas, com algumas exceções para as coordenações com and ou but. No entanto, o facto de muitos estudiosos cingirem as suas pesquisas às frases simples não quer dizer que as relações retóricas não possam ser usadas para interpretar frases complexas. No que diz respeito às unidades discursivas, a SDRT (no quadro teórico de Asher e Lascarides (2003)), segundo Silvano (2010: 170), “(…) predicts that two arguments linked by a rhetorical relation can form a composite unit which can be linked to other units by another rhetorical relation. Moreover, the same two units can be linked by more than one rhetorical relation, contrary to what is allowed by RST10.” Assim, as relações retóricas são mais utilizadas para interpretar a estrutura de uma sequência de frases ou pequenos textos. As diferentes teorias sobre as relações retóricas revelam-se bastante heterogéneas. Dessa forma, iremos analisar as principais propostas no campo das representações discursivas. 4.1.1. Hobbs (1985) No começo do seu trabalho, Hobbs afirma que o texto tem estrutura. Quando trabalhamos num texto observamos, por exemplo, elaborações, paralelismos, contrastes, sequências temporais. Este tipo de relações liga fragmentos de texto e essa junção dos fragmentos de texto constituem o texto na sua globalidade. No seu capítulo intitulado The Framework for a Theory of Discourse Interpretation, ele argumenta que as pessoas entendem tão bem o discurso porque sabem muito sobre este. Portanto, uma teoria sobre a interpretação do discurso deve ser uma teoria que esclareça como o conhecimento é usado para resolver problemas impostos pelo discurso. O autor assenta a sua proposta em seis subteorias: logic notation or knowledge representation; syntax and semantic translation; knowledge encoding; deductive mechanisms; discourse operations, or specification of possible interpretations; specification 10 A RST (Rhetorical Structure Theory) é uma teoria sobre as relações retóricas da autoria de Mann e Thompson (1987) e que refere que duas unidades textuais não podem ser ligadas por mais do que uma relação retórica.
40 of the best interpretation. Estas subteorias são muito importantes porque fornecem as ferramentas necessárias para que se possa analisar o discurso e, consequentemente, avaliar qual a relação de coerência mais plausível para cada caso. No seu terceiro capítulo, Hobbs coloca as seguintes questões: ‘porque é que o discurso é maior do que uma frase?’, ‘Porque chamamos ‘discurso’ a uma sequência de enunciados e não simplesmente ‘sequência de enunciados?’, ‘Quais são os critérios que definem o discurso?’. Posteriormente, o autor responde às questões por ele colocadas dando a entender que as relações de coerência são determinadas consoante o que o leitor/ouvinte infere daquilo que é dito. Dessa forma, num momento discursivo: (i) o locutor deseja transmitir uma mensagem; (ii) o locutor pretende, com essa mensagem, atingir algum objetivo; (iii) o locutor deve conjugar aquilo que ele próprio diz com aquilo que o ouvinte sabe; (iv) o locutor deve facilitar a mensagem para que o ouvinte perceba aquilo que está a ser transmitido (cf. Hobbs, 1985: 8). Estas considerações trazem à luz quatro categorias distintas de relações de coerência, sendo elas: (1) relações de ocasião; (2) relações de avaliação; (3) relações que evocam o conhecimento do ouvinte e (4) relações de expansão. As relações de Ocasião acontecem quando uma mudança de estado pode ser inferida a partir da asserção da primeira oração (S0), cujo estado final pode ser inferido através da segunda oração (S1) ou vice-versa. (63) Walk out the door of this building. Turn left. Go to the corner. (Hobbs, 1985: 10) A primeira frase descreve uma mudança de localização cujo estado final se mantem durante o evento relatado na segunda frase que, por sua vez, é o estado inicial na mudança de sítio (descrito na terceira frase). O segundo grupo de relações de coerência na proposta de Hobbs (1985) é referente às relações de Avaliação. Este tipo de relações ocorre quando se infere, a partir de S1, que S0 é um passo no plano de alcançar algum objetivo no discurso. Ou seja, S1 informa sobre o que
41 foi dito em S0. A relação também pode ser invertida. As relações de avaliação são parecidas com as relações de Causa e Explicação. Assim, “if the state or the event described in S1 causes the state or event described in S0, then S1 explains S0. If the state or event described in the S1 has caused the speaker to say S0, then S1 evaluates S0” (Hobbs, 1985: 12). (64) The funniest thing happened to me. (A story.) or (A story.) It was funny at the time. … Do you know what I mean? (Hobbs, 1985: 12) Para o autor, o objetivo de ser-se compreendido é algo essencial. Foi por causa deste objetivo que Hobbs nomeou este tipo de relação de ‘Avaliação’. O terceiro grupo de relações de Coerência tem a ver com aquelas que relacionam o discurso com o conhecimento já adquirido pelo ouvinte. Assim sendo, fazem parte deste grupo a relação de Explicação e a relação de Enquadramento. Temos uma relação de Enquadramento quando o discurso satisfaz os seguintes requisitos: “Infer from S0 a description of a system of entities and relations and infer from S1 that some entity is placed or moves against that system as a background” (Hobbs, 1985: 13). Vejamos um exemplo para a relação de Enquadramento: (65) And one Sunday morning about ohhh five o’clock in the morning I sat down in the Grandno no, not in the Grand Central, in the Penn Station, and while I was sitting there a young cat came up to me,… (Hobbs, 1985: 12) Aqui, as duas primeiras frases parecem fornecer o enquadramento do que se irá passar na terceira linha do exemplo. Na relação de Explicação inferimos que a situação descrita por S1 causa ou pode causar a situação descrita em S0. Segundo Hobbs, apenas existe a relação de Explicação quando a frase descreve conhecimento prévio. A relação inversa seria a relação de Causa, que não está incluída neste grupo de relações de coerência.
42 Esta relação de coerência é uma das razões para se contar uma história de trás para a frente. (66) He was in a foul humor that night. He hadn’t slept well that night. His electric blanket hadn’t worked. (Hobbs, 1985: 14) A segunda frase informa-nos sobre a causa do acontecimento da primeira frase e a terceira frase faz o mesmo para a segunda frase. Finalmente, o quarto grupo referente às relações de coerência denomina-se por relações de Expansão e é o maior dos grupos. Estas relações, segundo Hobbs (1985: 14): “Expand the Discourse in place, rather than carrying it forward or filling in background. They all involve inferential relations between segments of the text and can probably be thought of as easing the listener’s inference processes. They can be classified in terms of moves between specific and general assertions and the interaction of these moves with negation (…)” (Hobbs, 1985: 14) Quadro 5. Relações de coerência de Expansão de Hobbs (Hobbs, 1985:15) Na relação de Paralelismo infere-se “p (a1, a2,…) a partir da asserção de S0 e infere-se p (b1, b2,…) a partir da asserção de S1, em que ai e bi são semelhantes para todos os i” (Hobbs, 1985:15). O seguinte exemplo ilustra a relação de coerência referida: (67) Blood probably contains the highest concentration of hepatitis B virus of any tissue except liver. Semen, vaginal secretions, and menstrual blood contain the agent and are infective. Saliva has lower concentrations than blood, and even hepatitis B surface antigen may be detectable in no more than half of infected individuals. Urine contains low concentrations at any given time. (Hobbs, 1985: 16) Specific to Specific Specific to General General to Specifics POSITIVE Parallel Generalization Exemplification NEGATIVE Contrast ----- -----
43 Como podemos ver, o predicado p é ‘conter’ com vários argumentos. Neste exemplo estamos a fazer o paralelismo entre as várias características de cada elemento: sangue, sémen e saliva. A relação de Elaboração é como a relação de Paralelismo. Em Elaboração “infere-se a mesma proposição P a partir das asserções de S0 e S1” (Hobbs, 1985: 18). Normalmente, a segunda parte acrescenta informação essencial sobre a primeira parte. Segue-se um exemplo deste tipo de relação: (68) Go down First Street. Just follow First Street three blocks to A Street. (Hobbs, 1985: 18) Sobre a primeira frase podemos inferir: go (Agent: you, Goal: x, Path: First St., Measure: y). No entanto, na segunda frase já temos a informação necessária para inferir o seguinte: go (Agent: you, Goal: A st., Path: First St., Measure: 3 blks). A próxima relação de coerência a ser referida é a relação de Exemplificação e é definida da seguinte forma: infere-se “p(A) a partir da asserção de S0 e p (a) a partir da asserção de S1, em que a é membro ou um subconjunto de A” (Hobbs, 1985:20). Vejamos um exemplo: (69) We cannot affirm that the technical evolution of East Asia followed the same course as it did in the West. Certainly no stage corresponding to the Mousterian tradition has been found in China. (Hobbs, 1985: 20) A ‘China’ aqui está a dar o exemplo de um país da Ásia Oriental que não seguiu o rumo da evolução tecnológica da Asia Ocidental. A relação de Generalização é o oposto da de Exemplificação. Existem dois casos distintos de relação de Contraste. Isto é: (i) Num primeiro caso, as predicações são feitas sobre entidades idênticas; (ii) Num segundo caso, as predicações são feitas sobre entidades contrastantes. Segue-se um exemplo que ilustra o primeiro caso de relação de Contraste:
44 (70) You are not likely to hit the bull’s eye, but you are more likely to hit the bull’s eye than any other equal area. (Hobbs, 1985: 21) Aqui, podemos inferir, a partir da primeira oração, que a probabilidade de o individuo acertar no alvo é muito pequena. Já na segunda oração podemos inferir que a probabilidade de o indivíduo acertar no alvo é maior do que a probabilidade de acertar em qualquer outra área semelhante. Vejamos, agora, um exemplo ilustrativo do segundo caso de relação de Contraste: (71) If INFO (M) < INFO (N), then set M to LINK (M). If INFO (M) < INFO (N), then set N to LINK (N). (Hobbs, 1985: 21) Sobre este exemplo o autor diz o seguinte: “what is asserted in each sentence is an implication. The first arguments of the implication are contraditory conditions. The second arguments are similar in that they are both assignment statements.” (Hobbs, 1985: 21) Apesar de o autor não incluir a próxima relação a ser descrita no quadro acima referido, Hobbs associa uma outra relação de coerência a este último grupo de relações. Esta relação é denominada de Expectativa anulada. Então, na Expectativa anulada, o leitor infere “P a partir da asserção de S0 e ﬧP é inferido a partir da asserção de S1.” (Hobbs, 1985: 22). Assim sendo: (72) John is a lawyer, but he’s honest. (Hobbs, 1985: 22). Neste exemplo, podíamos inferir a partir da primeira oração que o John é desonesto porque é advogado. No entanto, essa inferência é imediatamente anulada na segunda oração (o John é honesto). Estamos a anular a expectativa de ele ser desonesto por ser advogado. Como conclusão deste capítulo sobre a descrição das relações de coerência, Hobbs declara que as relações de coerência são estratégias de construção de texto, estratégias essas usadas pelo falante/locutor para facilitar a compreensão do leitor.
45 No quarto capítulo do trabalho de Hobbs, intitulado de The Structure of Discourse, o autor explica que uma oração é um segmento de discurso e, quando dois segmentos de discurso, ou seja, duas orações, são ligados por uma dada relação de coerência, as duas combinadas transformam-se num único segmento de discurso. Com o reconhecimento das relações de coerência através dos segmentos, estamos aptos para construir a estrutura do discurso como um todo. A um dado momento, Hobbs (1985: 25) coloca o seguinte problema: “If the definition of the coherence relations can be applied to segments of discourse larger than a single clause, we need to be able to say what is asserted by those segments. We can do so if, in the composition process, when two segments S0 and S1 are joined by a coherence relation into a larger segment S, we have a way of assigning an assertion to S in terms of the assertion of S0 and S1. The assertion of S constitutes a kind of summary of the segment S.” (Hobbs, 1985: 25) Uma possível abordagem a este problema passa pela divisão das relações de coerência em duas classes sintáticas distintas: coordenação e subordinação. Dentro da classe da coordenação estão integradas as relações de Paralelismo e Elaboração. Para reconhecer uma relação dentro do grupo da coordenação temos de descortinar uma proposição comum a cada segmento. Podemos denominar esta proposição comum como uma asserção do segmento composto. Dentro do grupo das relações de subordinação estão incluídas as relações de Enquadramento, Explicação, Exemplificação, Generalização, Contraste e Expectativa anulada. Neste tipo de relações, um dos dois segmentos (S0 ou S1) é subordinado ao outro. Isto é, S0 é subordinado a S1 ou vice-versa. No último capítulo, o autor sugere um método para analisar o discurso. Esse método analítico consiste em quatro passos, e à medida que os passos vão avançando a dificuldade aumenta também. Assim, o primeiro passo seria o de menor dificuldade e o quarto passo seria o de maior dificuldade. Primeiramente, divide-se o texto em duas grandes partes (intuitivamente). O processo é realizado consecutivamente até chegarmos ao nível básico das orações simples. O passo seguinte consiste em rotular os nós não terminais da árvore através de relações de coerência,
46 na direção de baixo para cima. O terceiro passo, e penúltimo, tem como função especificar “(more or less) the knowledge or beliefs that support for the assignment of coherence relations to the nodes. Each of the coherence relations has been defined in terms of the inferences that must be drawn from the listener’s knowledge base in order to recognize the relation” (Hobbs, 1985:32). Finalmente, o quarto e último passo deste processo de análise serve de validação sobre a hipótese conjeturada no passo número 3. Hobbs conclui afirmando que este seu trabalho é apenas uma parte de uma teoria maior que tem como objetivo explicitar o vínculo entre a interpretação de um texto e o conhecimento e as crenças que circunscrevem o texto. Diz ainda que as relações de coerência que dão forma e estrutura ao texto são uma parte fundamental para a interpretação de um texto e são definidas tendo em conta um conjunto de inferências (que devem ser desenhadas de forma a que se reconheça uma determinada relação de coerência e para especificar uma união que deve existir entre as interpretações e o conhecimento) (Hobbs, 1985: 33). 4.1.2. Mann and Thompson (1987) A Rhetorical Structure Theory (RST), proposta por Mann e Thompson (1987), fornece um leque de combinações de traços muito úteis no que toca aos estudos do discurso. Estas combinações de traços: -identificam a estrutura hierárquica do texto; -descrevem possíveis relações entre partes do texto, identificando o ponto de transição de uma relação e a extensão dos itens relacionados; -fornecem análises bastante mais adequadas do que um simples comentário; -analisam textos de diferentes tamanhos. Como Mann e Thompson explicam, a RST disponibiliza uma forma de descrever as relações entre as orações num determinado texto, quer estejam lexicalmente e gramaticalmente delineadas ou não. Para além disso, a RST é uma ferramenta bastante importante para relacionar o significado das conjunções, a gramática das combinações de orações e as parataxes não sinalizadas. Mann e Thompson descrevem as relações como algo “defined to hold between two non-overlapping text spans, here called the nucleus and the satellite, denoted by N and S”
47 (Mann and Thompson, 1987: 4). Importa explicar que o Núcleo (N) é uma unidade que transporta a informação mais importante, corresponde às partes mais importantes do texto e preenche o objetivo principal do escritor/locutor. Já o Satélite (S) é uma unidade que fornece informação secundária. Um determinado texto sem núcleos é incompreensível, um texto sem satélites é interpretável. No quadro teórico destes dois autores, existem várias formas de combinação de unidades (núcleo e satélite): um único núcleo é ligado a um satélite; um único núcleo e dois satélites; vários núcleos mas sem satélites. Não é possível haver relações retóricas no quadro da RST apenas com satélites. Para os autores, a definição de relação baseia-se em quatro categorias diferentes: - Restrições no núcleo - Restrições no satélite - Restrições na combinação entre núcleo e satélite - Efeito. Cada categoria descreve juízos que o analista do texto deve ter em conta no momento da construção da estrutura da RST. No que toca à análise dos textos, o primeiro passo a ser feito, segundo Mann e Thompson (1987: 6), “is dividing it into units. Unit size is arbitrary, but the division of the text into units should be based on some theory-neutral classification. That is, for interesting results, the units should have independent functional integrity.” As unidades do texto são, principalmente, orações. Uma análise estrutural do texto é um conjunto de aplicações esquemáticas (schema applications), como os que se seguem: Completeness: A aplicação esquemática deve conter todas as porções de texto (text spans) que constituem o texto. Connectedness: Cada porção/ fragmento de texto em análise tanto é uma unidade mínima como parte de uma outra aplicação esquemática da análise. Uniqueness: Cada aplicação esquemática abarca um diferente leque de porções de texto e “within a multi-relation schema each relation applies to a diferente set of text spans” (Mann e Thompson, 1987: 8).
48 Adjacency: As porções de texto de cada aplicação esquemática formam uma porção de texto. Posteriormente, Mann e Thompson apresentam as relações retóricas fundamentadas no quadro da RST. Assim, os investigadores começam com as relações de Evidência e de Justificação. Estas duas relações retóricas formam um subgrupo e o que têm em comum é o facto de ambas envolverem “the reader’s attitude toward the nucleus.” (Mann & Thompson, 1987: 9). De facto, Evidência e Justificação são diferentes uma da outra porque, enquanto na Evidência o satélite é criado para aumentar a crença do leitor sobre o se encontra no núcleo, na relação de Justificação cria-se um satélite para aumentar a prontidão do leitor em aceitar o que o locutor apresenta na parte nuclear. Vejamos um exemplo para Evidência (73) e para Justificação (74): (73) 1.The program as published for calendar year 1980 really works. 2. In only a few minutes, I entered all the figures from my 1980 tax returns and got a result which agreed with my hand calculations to the penny. (Mann & Thompson, 1987: 10) Como podemos verificar, a unidade 2 está numa relação de evidência com a unidade 1: a unidade 2 faz com que a crença do leitor sobre o que foi dito na unidade 1 aumente. (74) 1. The next music day is scheduled for July 21 (Saturday), noon – midnight. 2. I’ll past more details later. 3. But this is a good time to reserve the place on your calendar. (Mann & Thompson, 1987: 10) Neste exemplo, as unidades 2 e 3 estão numa relação de Justificação com a unidade 1. As duas últimas unidades informam o leitor (reader) qual o motivo pelo qual o escritor (writer) acha que pode pronunciar a unidade 1 sem entrar em mais detalhes (localização do evento). As próximas relações retóricas a serem descritas são as relações de Antítese e Concessão. Estas duas relações partilham a propriedade de fazer com que o leitor tenha uma consideração positiva sobre o núcleo. Em contrapartida, diferenciam-se, também, uma da outra, pois a relação de Antítese é um subtipo de Contraste, enquanto Concessão não. Vejamos um exemplo para a relação de Antítese:
55 (90) 1. Steep declines in capital spending commitments and building permits, along with a drop in the money stock pushed the leading composite down for the fifth time in the past 11 months to a level of 5% below its high in May 1984. 2. Such a decline is highly unusual at this stage in an expansion. (Mann & Thompson, 1987: 67) No exemplo mencionado, o satélite da unidade 2 relaciona o núcleo da unidade 1 a um quadro de ideias que interpreta o declínio referido na unidade 1. (91) 1. Features like our uniquely sealed jacket and protective hub ring make our discs last longer. 2. And a soft inner liner cleans the ultrasmooth disc surface while in use. 3. It all adds up to a better performance and reliability. (Mann & Thompson, 1987: 69) A unidade 3 faz uma avaliação do conhecimento apresentado nas unidades 1 e 2 no que diz respeito à consideração positiva do escritor. Partiremos, agora, para o conjunto de relações retóricas denominadas Atualização e Sumário. Estes dois tipos de relações retóricas lidam com atualizações, mas diferem no tamanho da atualização. A relação de Atualização dá-se quando o tamanho do satélite é o mesmo que o tamanho do núcleo. Pelo contrário, a relação de Sumário é verificada quando o satélite é bastante menor do que o núcleo. Vejamos os seguintes exemplos elucidativos das relações retóricas descritas: Atualização (92) 1. A well – groomed car reflects its owner 2. The car you drive says a lot about you. (Mann & Thompson, 1987: 71) Aqui, a unidade 2 faz uma reafirmação do que foi dito na unidade 1 Sumário (93) 1. For top quality performance from your computer, use the flexible discs known for memory excellence 16. it’s a great way to improve your memory and get a big bonus in computer performance. (Mann & Thompson, 1987: 72)
56 A unidade 1612 faz um sumário do que foi dito na unidade 1. O último conjunto de relações retóricas engloba as relações de Sequência e Contraste. Estas duas relações têm vários núcleos. No primeiro caso, há uma relação entre as situações dos vários núcleos. No segundo caso, não pode haver mais do que dois núcleos e as situações desses dois núcleos: (i) são similares em vários aspetos; (ii) são diferentes em vários aspetos; (iii) são comparadas a uma ou mais dessas diferenças. Vejamos os respetivos exemplos: (94) 1. Peel oranges 2. and slice crosswide. 3. Arrange in a bowl 4. and sprinkle with rum and coconut 5. Chill until ready to serve. (Mann & Thompson, 1987: 74) As receitas de culinária são um bom exemplo de relação de Sequência. (95) 1. Animals heal, 2. but trees compartmentalize. 3. They endure a lifetime of injury and infection 4. by setting boundaries that resist the spread of the invading microorganisms. (Mann & Thompson, 1987: 75) Neste último exemplo, a relação retórica de Contraste é visível na unidade 1 e 2. As árvores e os animais têm muitos aspetos em comum mas são muito diferentes noutros aspetos. As duas unidades abordam essas diferenças. Para descobrir a relação retórica certa, o leitor tem de fazer juízos baseados no contexto e nas intenções do escritor. Para concluir, atentemo-nos em alguns comentários feitos por Silvano (2010): A RST é uma ferramenta analítica bastante útil que facilita o estudo de determinados fenómenos linguísticos. 12 Mann e Thompson (1987: 72) não mencionam as unidades entre a unidade 1 e a unidade 16 no exemplo (93).
57 Outra vantagem desta teoria tem a ver com as noções fundamentais de Núcleo e Satélite que, por sua vez, facultam uma útil descrição do discurso e das frases complexas e explicam porque nem sempre é a última unidade a ser conectada à unidade anterior. Para Silvano (2010), a proposta de Mann e Thompson apresenta, também, algumas desvantagens. Uma delas tem que ver com o facto de a definição das relações retóricas ser baseada apenas nas intenções do escritor ou do leitor, descurando, assim, a contribuição de outras informações úteis. Para além disso, a Rhetorical Structure Theory aplica restrições ao discurso que são demasiado rígidas, como é o caso da impossibilidade em haver mais do que uma relação retórica a ligar duas unidades discursivas. Assim sendo, segundo Silvano (2010: 188), quando o leitor é confrontado com duas relações retóricas diferentes, ele tem de escolher uma delas, o que não é a melhor forma de resolver o problema. 4.1.3. Asher e Lascarides (2003) Asher e Lascarides (2003) apresentam “Segmented Discourse Representation Theory” (SDRT). Na verdade, Asher (1993) já teria desenvolvido algo sobre esta teoria dez anos antes como uma extensão da Discourse Representation Theory, de Kamp e Reyle (1993) para que se pudesse adicionar contributos de outras propostas semânticas e “capture some inferences about the content derived from the discursive cohesion treated within pragmatics” (Silvano, 2010: 197). No entanto, a DRT apresentava alguns problemas no que toca à resolução de algumas questões linguísticas, nomeadamente quanto à resolução de anáforas, em particular anáforas temporais. Segundo Silvano (2010: 197-198), de forma a resolver estas questões e para poderem obter uma melhor interpretação discursiva, Asher e Lascarides chegaram à conclusão de que era preciso uma noção mais enriquecedora da estrutura discursiva, que poderia ser alcançada através da introdução na DRT do conceito de ‘relação retórica’. Segundo os dois autores, as relações retóricas retratam de uma melhor forma a interação entre o significado de um texto e a sua estrutura e, consequentemente, possibilitam um discurso mais claro e preciso do que meramente “the append-based process applied in DRT” (Silvano, 2010: 198). Para além disso, para os autores, as relações retóricas “link together the utterancesor, more accurately, the meanings or “contents” those utterances convey” (Asher and Lascarides, 2003: 3) e
58 dispõem de contributos sólidos que determinam as leituras adequadas a serem feitas dos pronomes anafóricos e das anáforas temporais. De acordo com Silvano (2010), algumas lacunas na análise semântico-dinâmica levaram os autores a discutir a possibilidade de uma extensão da teoria com contributos de caráter pragmático. Porém, esses contributos têm de respeitar uma cláusula: o papel desempenhado pelos estados cognitivos na interpretação do discurso deve permanecer limitado, para que a teoria possa ser uma teoria linguística com explicações linguísticas. Tendo em conta Silvano (2010: 198), de modo a atingir esse objetivo, Asher e Lascarides sugerem: (i) modelar o significado linguístico dos textos e a compreensão linguística do falante; (ii) recorrer às intenções e desejos dos falantes apenas quando necessário; (iii) descortinar a informação intrínseca sobre os estados cognitivos a partir do que é dito pelo falante e não vice-versa. Assim, conforme Silvano (2010: 198), esta teoria considera duas importantes faculdades do conhecimento: o conhecimento linguístico e o conhecimento não linguístico. O primeiro tipo de conhecimento aqui mencionado representa diferentes fontes informacionais, nomeadamente léxico e a semântica composicional. O segundo tipo de conhecimento (conhecimento não linguístico) diz respeito ao conhecimento do mundo e aos estados cognitivos dos interlocutores. Enquanto o conhecimento linguístico é considerado como o mais importante, o conhecimento não linguístico ajuda a resolver problemas causados pela gramática. As fontes do conhecimento, combinadas com a semântica das relações retóricas, apresentam os parâmetros mais adequados para que se possa descobrir quais as relações retóricas que ligam dois enunciados diferentes e, dessa forma, fazer com que o discurso flua. No modelo de Asher e Lascarides (2003), o processo de dedução de uma relação retórica resulta de um complexo raciocínio anulável (defeasible reasoaning), que pode ser utilizado para: (i) moldar a interpretação pragmática do texto; (ii) escolher a partir de um vasto leque de possíveis representações semânticas do texto qual a representação mais apropriada;
59 (iii) edificar a estrutura semântica do texto. (cf. Lascarides & Oberlander, 1993:1 in Silvano, 2010: 198). Quanto à forma como o raciocínio anulável funciona, (Silvano, 2010: 199): “The SDRT separates the different knowledge or information sources into distinct reasoning modules with different but interactive logics. The connection between all the modules and logics is carried out by the glue logic or the logic of information packaging, which, however, has limited access to the inferences from other logics, so that information can be computable.” (Silvano, 2010: 199) Vejamos o esquema que traduz o que foi dito: Figura. 3. A interação das lógicas que contribuem para a interpretação do discurso (adaptado de Asher e Lascarides, 2003: 431 por Silvano, 2010: 199) Segundo Silvano (2010: 199), as relações retóricas são inferidas a partir de esquemas de axiomas. Esses esquemas de axiomas estabelecem a forma como a inferência das relações retóricas decorre da informação recolhida das diferentes fontes do conhecimento. Vejamos o esquema de axiomas: Lexicon Information content (partial) Description of content Glue logic Cognitive modelling Cognitive states World knowledge
60 (96) (? (α, β, λ) Λ some stuff) > R(α, β, λ) O esquema mencionado é explicado da seguinte forma: “α, β, λ are metalinguistic variables over labels; some stuff concerns the wellformed formulae that define the properties of α, β, λ; and Λ and > are logical connectives, meaning “and” and “then, normally”, respectively. This schema axiom can be glossed as follows: if β is attached to α with a discourse relation in some constituent λ, and “some stuff” about α, β and λ holds, then, normally, the discourse relation is R.” (Silvano, 2010: 200) Durante o processo de inferência há várias informações a competir. É a glue logic que resolve esses problemas assentando alguns princípios. Por exemplo, o Principle of Maximizing Discourse Coherence diz que o discurso é tão mais coerente quantas mais relações retóricas tiver e quanto menos condições subespecificadas houver. Asher e Lascarides (2003) acrescentam ainda etiquetas do tipo π1, π2,... para rotular o conteúdo de orações, frases ou unidades linguísticas de maior extensão. A teoria envolve outros conceitos e formalização que são bastante complexos e não trataremos todos os casos aqui13. Quando construímos a forma lógica do discurso, encontramos dois casos de subespecificação que têm de ser resolvidas: “one concerning the range of rhetorical relations that can connect them to the previous sentences; and the other concerning the available attachment points to which the sentences can be linked.” (Silvano, 2010: 201-202). Em ambos os casos, a subespecificação surge como consequência da falta de informação gramatical criando, assim, fissuras que vão sendo preenchidas à medida que o discurso se vai atualizando. Segundo Asher e Lascarides (2003), existem cinco classes diferentes de relações retóricas: (i) content-level relations; (ii) text structuring relations; (iii) cognitive-level relations; (iv) divergent relations; (v) metatalk relations. 13 Para mais informações veja-se Asher e Lascarides (2003: 138-139).
61 Como Silvano (2010: 203-204) afirma, a classe contentlevel relations é ainda dividida em 3 subclasses (content-level relations para declarativas, content-level relations que envolvem interrogativas e content-level relations que envolvem imperativos) e inclui as relações que são definidas tendo em conta as situações que são introduzidas. Text structuring relations estão relacionadas com a estrutura em que as situações são representadas. Já a classe cognitive-level relations têm a ver com as relações que podem ser inferidas em diálogos e são definidas tendo em conta as intenções e crenças expressas pelos sujeitos do diálogo. As relações retóricas integradas na classe divergent relations, tal como em text-structuring level, são definidas em termos de estrutura dos seus constituintes e a sua semântica está relacionada com conflitos existentes nos diálogos. Por fim, metatalk relations, “relates the content of one utterance to the performance of uttering another, thus focussing on speech acts related goals” (Silvano, 2010: 204). Neste ponto apresentam-se as relações retóricas mais importantes de Asher e Lascarides (2003)14, embora, como se verá mais abaixo, nem todas se aplicam aos fragmentos textuais selecionados. Assim, começamos com as relações retóricas inseridas na classe das content-level relations. A primeira relação retórica a ser aqui apresentada é a relação de Alternância. Esta relação é equivalente à conjunção ‘ou’. Vejamos o seguinte exemplo: (97) a. John is being very quiet just now. (...) b. Either John didn’t solve the problem or else Mary realized that the problem’s been solved. (Asher e Lascarides, 2003: 24) (97b) fornece duas possibilidades contrastantes para a situação explicitada em (97a). Podemos ligar as orações de (97b) com uma relação indicando que são disjuntos contrastantes. Em seguida, temos a relação retórica de Enquadramento. Neste tipo de relação, um constituinte dá a informação necessária sobre tudo o que se passa na vizinhança da situação 14 Neste trabalho, dentro do quadro teórico de Asher e Lascarides (2003), apenas iremos abordar as duas primeiras classes de relações retóricas (content-level relations e text-structuring level relations), pois é no âmbito dessas duas classes (entre outras propostas teóricas referidas anteriormente) que iremos analisar o nosso corpus.
62 descrita no outro constituinte. A consequência temporal que advém da relação de Enquadramento é a sobreposição temporal. Segue-se um exemplo de Enquadramento: (98) Max entered the room. It was pitch dark. (Asher e Lascarides, 2003: 165) Como podemos ver, o segundo constituinte dá a informação sobre o espaço envolvente em que a situação do primeiro constituinte ocorre. A seguir temos a relação retórica de Consequência. Neste tipo de relação, um dos constituintes é uma consequência do outro constituinte. Vejamos o seguinte exemplo: (99) If there is a bathroom, then it’s in a funny place. (Asher e Lascarides, 2003: 461) Aqui, a palavra-pista é ‘se...então’ (if...then). A interpretação para este exemplo é o seguinte: suponhamos que existe uma casa de banho, então está localizada num sítio estranho. Uma outra relação retórica muito relevante é a relação de Narração. Esta relação acontece quando os constituintes expressam eventualidades que ocorrem exatamente na mesma ordem em que são descritos. O seguinte exemplo ilustra esta relação retórica: (100) Max fell. John helped him up. (Asher e Lascarides, 2003: 162) Em (100), os eventos acontecem exatamente na ordem temporal em que eles são descritos. Como os autores explicam, “if Narration (π1, π2) holds, then the poststate of eπ115 must overlap, both in space and time, with the prestate of eπ2. To put it another way, where things are at the end of eπ1 is where there are at the beginning of eπ2.” (Asher e Lascarides, 2003: 162) A relação de Continuação é como a relação de Narração, mas sem as consequências espaciais e temporais, como se pode ver no seguinte exemplo em que não há as consequências espácio-temporais como na Narração. As eventualidades b-d podem ser descritas sem qualquer ordenação temporal e espacial. 15 π é usado por Asher e Lascarides (2003) para rotular um constituinte. e é usado também pelos autores para descrever as eventualidades.
63 (101) a. The teacher asked the students to look for the lost cat. b. John looked under the table. c. Mary looked in the garden. d. Max searched all the cupboards. (Asher e Lascarides, 2003: 461) Quanto à relação retórica Consequência anulável, o significado intrínseco é “ se A então, normalmente B”. Esta relação é muito útil para interpretar pressuposições. Vejamos: (102) If John scubadives, he’ll bring his regulator. (Asher e Lascarides, 2003: 461) Aqui podemos pressupor que se o John for praticar mergulho, então ele trará o seu regulador. Iremos passar agora para a relação retórica de Elaboração. Esta relação surge quando as situações descritas no segundo constituinte (ou nos constituintes seguintes) são partes mereológicas do primeiro constituinte. Eis um exemplo: (103) Alexis did really well in the school this year. She got As in every subject. (Asher e Lascarides, 2003: 159) Como podemos verificar, o segundo constituinte é uma parte do primeiro constituinte. Vejamos agora duas relações retóricas aparentadas: a Explicação e o Resultado. Na primeira, Explicação, a situação do segundo constituinte descreve o motivo do acontecimento da primeira situação. (104) Max fell. John pushed him. (Asher e Lascarides, 2003: 462) Neste caso, o segundo constituinte está a descrever o que causou a situação do primeiro constituinte (o Max caiu porque o John o empurrou). Na relação retórica de Resultado, é feita a ligação entre a causa (primeiro constituinte) ao seu efeito (segundo constituinte). Esta relação é o inverso da relação de Explicação, na medida em que surge em primeiro lugar a causa e depois o efeito. Portanto, no exemplo (105), o efeito de o John ter empurrado o Max foi este ter caído. (105) John pushed Max. He fell (Asher e Lascarides, 2003: 463)
64 Por fim, consideram-se as relações retóricas incluídas nas text structuring level relations. As que teremos em consideração serão as de Contraste e de Paralelismo. Quanto à primeira, este tipo de relação dá-se quando “Kα16 e Kβ have similar semantic structures and when it is established between them a contrasting theme.” (Silvano, 2010: 206). A relação é escalar, ou seja, quanto maior for o grau de contraste, melhor é a relação retórica. Importa esclarecer que existem dois tipos de Contraste: (i) contraste formal e (ii) violação de expectativa. Vejamos dois exemplos dos dois casos de contraste, respetivamente: (106) John speaks French. Bill speaks German. (Asher e Lascarides, 2003: 168) (107) John loves sports. But he hates football. (Asher e Lascarides, 2003: 168) Os autores começam por explicar o exemplo (106) afirmando “ (...) default world knowledge would not lead us to believe that because John speaks French Bill doesn’t speak German, i.e., the second clause does not deny a default consequence of the first clause. However, the contrast relation between them does invite us to infer (as implicatures) that (a) Bill doesn’t speak French and (b) John doesn’t speak German.” (Asher e Lascarides, 2003: 168). Quanto ao exemplo (107), estamos perante um caso de violação de expectativa, como dito anteriormente. Neste caso, há a seguinte implicação lógica: se o futebol é uma modalidade desportiva e se John gosta de desporto, então John gosta de futebol. Como John não gosta de futebol, então constata-se uma violação da expectativa de ele gostar de futebol. Quanto à relação retórica de Paralelismo, esta relação dá-se quando” Kα e Kβ have similar semantic structures and when it is established between them a common theme. (Silvano, 2010: 206) Esta relação também é escalar e quanto mais informação melhor é a relação retórica. Vejamos o seguinte exemplo: (108) John loves sports. Bill loves sports too. (Asher e Lascarides, 2003: 466) Como podemos conferir, há um tema em comum que é o facto de os dois indivíduos gostarem de desporto. O gosto de John pelo desporto “é paralelo” ao gosto de Bill pelo desporto. 16 K, em Asher e Lascarides (2003), é usado para representar uma estrutura.
71 selecionamos qual o género textual a ser estudado e que áreas pretendíamos trabalhar dentro do texto. Assim, escolhemos o conto ‘Melchior’ de Sophia de Mello Breyner Andresen, inserido no livro Contos Exemplares também de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma vez escolhido o texto, foi preciso cingir o nosso objeto de estudo e optámos por deixar de parte todas as falas do texto e analisar apenas a narrativa, pois as falas funcionam como pequenos interregnos e colocam outros tipos de problemas que não analisaremos aqui. De seguida, tomámos a decisão de fazer uma análise a pequenos fragmentos do conto Na primeira parte deste capítulo expusemos quais as propostas teóricas mais importantes para o tema em questão. Portanto, decidimos que seriam as propostas teóricas de Hobbs (1985), Mann e Thompson (1987) e Asher e Lascarides (2003) aquelas que fariam parte do nosso enquadramento teórico porque mostravam, por um lado, conceitos e noções no começo do estudo nesta área e, por outro lado, a evolução da mesma. Para a análise do texto selecionado decidimos seguir os modelos teóricos de Mann e Thompson (1987) e Asher e de Lascarides (2003), por serem os mais adequados e os mais completos. 4.2.2. A análise de fragmentos textuais do conto ‘Melchior’ O objetivo fundamental deste trabalho é o de determinar quais as relações retóricas e temporais existentes em fragmentos de um conto. Dessa forma, recolhemos um texto que apresentasse variedade de tempos verbais e em que se observasse variedade de relações retóricas. Com essa finalidade, decidimos analisar o conto ‘Melchior’ retirado do livro Contos exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen. Como foi dito anteriormente, apenas são analisados fragmentos do texto. Por uma questão de organização, iremos abordar as relações retóricas encontradas nos fragmentos selecionados apresentando exemplos ilustrativos. Embora o título do conto seja ‘Melchior’, a questão fundamental que é abordada ao longo do texto é a da placa de barro. Isso verifica-se ao longo de todo o texto e no início do conto em que a ‘placa de barro’ é antecedida do artigo definido. Por outro lado, o primeiro tempo verbal é o Pretérito-Mais-Que-Perfeito que é, como se sabe, um tempo anafórico em português. A conjugação destas duas características iniciais do texto apontam para a sugestão
72 de que o início do conto parece a continuação de algo anterior, sugerindo que o leitor já tivesse conhecimento do que era a placa de barro. (111) A placa de barro tinha passado de geração em geração, de idade em idade, de mão em mão. (linhas 1-2)17 Várias são as relações retóricas que se podem observar nos fragmentos. A primeira relação retórica que vamos considerar é a relação de Elaboração. Antes de mais, é necessário explicar que encontramos, no nosso corpus, fragmentos que pareciam fazer uma descrição/ caracterização de uma determinada entidade. Na literatura diz-se que a relação retórica de Elaboração faz descrição de uma situação, no entanto, nada diz acerca deste fenómeno que encontramos no corpus. Assim sendo, propomo-nos criar uma nova relação retórica (um subtipo da relação de Elaboração) que se denomina ‘Elaboração E’. Esta relação caracteriza e descreve uma entidade e fornece informação adicional sobre essa mesma entidade. De modo a compreendermos este fenómeno, iremos “rebatizar” a relação de Elaboração de Asher e Lascarides (2003) e passará a chamar-se ‘Elaboração S’. Passamos a delinear um quadro com a especificação e exemplificação dos dois tipos de relação de Elaboração: Relação retórica Especificação Exemplo Elaboração S Caracterização/ descrição de uma determinada situação. Parte-se do geral para o particular. O João e a Maria tiveram um almoço maravilhoso: a. comeram as entradas. b. escolham lagosta como prato principal. c. beberam vinho. Elaboração E Caracterização/ descrição de uma determinada entidade. Dá-se Informação adicional sobre a entidade. A Maria é uma rapariga de 23 anos. Ela alta, tem olhos azuis, cabelo loiro e é muito simpática. Quadro 8: Subtipos da relação retórica de Elaboração Vejamos os exemplos encontrados no corpus para a relação retórica de Elaboração E: 17 Veja-se os anexos. Todas as linhas dos exemplos que são referidas no ponto 4.2.2. são remetidas para as linhas do texto que se encontra nos anexos.
73 (112) A placa era um pequeno retângulo de argila, enegrecido pelo tempo, de aspeto frágil, pobre e gasto. Era um prodígio que tivesse atravessado, sem se perder, tantos séculos de ruínas e opulências, saques, incêndios e guerras. Era um prodígio que tivesse podido atravessar sem se perder a ambição, a violência, a agitação e a indiferença dos homens. Estava ali, no palácio, alinhada ao lado de milhares de placas que enumeravam vitórias, batalhas, massacres e riquezas. Os seus caracteres estavam semiapagados pelo tempo e a sua escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exato rigor. Muitas leituras eram possíveis. (linhas 5-15) (113) Parecia extremamente pequena e insignificante, no meio de tanto espaço e opulência, parecia um detrito das eras antigas que ali tinha sido abandonado pelo tempo. (linhas 35-38) (114) Primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham aprendido toda a ciência das bibliotecas e que conheciam até ao menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e os códigos dos tempos idos. (linhas 19-22) Como podemos observar, na Elaboração E, estamos a fazer uma descrição de uma entidade (a placa de argila, os historiadores). São utilizados fundamentalmente estados combinados com o Pretérito Imperfeito do Indicativo. Acresce que, em (113) estamos perante um comentário que é verificável através das expressões estativas “parecia extremamente pequena e insignificante”, “parecia um detrito das eras antigas”. De notar que em (114), no primeiro segmento do exemplo (“primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham aprendido toda a ciência das bibliotecas”) obtemos uma relação de Narração, mas de uma forma invertida18. Ou seja, as eventualidades estão a ser narradas (tal como na relação retórica de Narração) mas as situações não acontecem na ordem em que são expressas no texto. As situações combinadas com o Pretérito-Mais-Que-Perfeito localizam-se antes de “primeiro vieram os historiadores”. Quanto à relação temporal, a segunda situação está numa relação de anterioridade com a primeira situação. A esta primeira parte do exemplo, acrescentamos que ‘primeiro’ está a localizar temporalmente todo o excerto. Tudo o que vem a seguir localiza-se posteriormente à chegada dos historiadores, mas ordenando relativamente à estrutura do texto. Está a estabelecer uma ordem. Finalmente, a segunda parte do exemplo ( “e que conheciam até ao menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e os códigos dos tempos idos”) está a estabelecer uma relação de 18 Cunha, Leal e Silvano (2008) chamam a esta relação retórica de Narração Invertida. Já Alves (2002) denomina-a ‘Retro-Narração’.
74 Elaboração com “primeiro vieram os historiadores”, isto é, está a acrescentar detalhes, está a caracterizar as competências dos historiadores. Os dois exemplos seguintes, (115) e (116), são ilustrativos da relação de Elaboração que descreve situações (Elaboração S). No exemplo (115) há uma relação de Narração entre “Melchior propôs-lhes as dúvidas (...) ” e “os letrados estudaram o texto”, e estas duas situações têm uma relação de Elaboração com “ e no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos letrados.”. O tempo verbal utilizado é o Pretérito Perfeito do Indicativo combinado com eventos. O mesmo se verifica no exemplo (116): há uma relação de Narração entre “Melchior propôs-lhes as dúvidas (...)” e “e a nova assembleia deliberou durante trinta dias” e uma relação de elaboração entre estas duas situações e “ e no mês seguinte reuniramse no palácio os homens sapientes.”. O tempo verbal utilizado volta a ser o Pretérito Perfeito do Indicativo combinado com eventos. A consequência temporal da Relação de Elaboração nestes dois exemplos é de inclusão. (115) E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos letrados.19 Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto. (linhas 88-92) (116) E no mês seguinte reuniram-se no palácio os homens sapientes. Melchior propôs-lhes as dúvidas dos historiadores e dos letrados e a nova assembleia deliberou durante trinta dias. (linhas 125-127) Como foi dito anteriormente, embora a maior parte das relações retóricas utilizadas sejam propostas por Asher e Lascarides (2003), pareceu necessário recorrer a duas relações retóricas de Mann e Thompson (1987) como é o caso da seguinte, Solução, e uma outra que analisaremos mais à frente (Resultado Voluntário). Atentemo-nos no seguinte excerto em que se observa a relação retórica de Solução: (117) Os seus caracteres estavam semiapagados pelo tempo e a sua escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exato rigor. Muitas leituras eram possíveis. Por isso o rei Melchior convocou três assembleias de sábios para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele texto antiquíssimo. (linhas 13-18) 19 Tanto no exemplo (115) como no exemplo (116) pode haver uma relação retórica de Narração mais global, dependendo da interpretação.
75 Como podemos observar, as linhas 13 a 15 do corpus (ver anexos) correspondentes às duas primeiras linhas de (117) são o problema e as linhas seguintes são a solução para o problema das linhas anteriormente mencionadas. Acrescenta-se que, “para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele texto antiquíssimo”, está ligado aos segmentos anteriores através de uma relação de Resultado. O Imperfeito do Conjuntivo ‘averiguassem’ localiza-se posteriormente a ‘convocou’ que se encontra no Pretérito Perfeito do Indicativo. Outra relação retórica observada é a relação de Narração. (118) Durante longos debates, durante trinta dias, os sábios estudaram e examinaram meticulosamente cada linha dos caracteres antiquíssimos. (Linhas 39-41) (119) E ao trigésimo dia ergueu-se Negurat, arquivista-mor do templo da Lua, e disse: (...) Quando Negurat acabou de falar, levantou-se Atmad, arquivista-mor do palácio, e disse: (...) E quando Atmad acabou de falar, levantou-se o velho sábio Akki, que disse: (...) Então levantou-se Menchior e disse: (...). (linhas 42-43; 62-63; 79-80; 85) (120) (...) Levantou-se Ken-Hur e disse: (...) Falou em seguida Amer, que disse: (...) E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse: (...) E tendo terminado o debate, levantou-se Melchior, que disse: (...). (linhas 95-96; 104; 109; 118-119) (121) E no trigésimo dia levantou-se Kish, que disse: (...). E falou depois Maro, que disse: (...). Falou em seguida Tot, e disse: (...). (linhas 128; 137; 152) (122) Quando os pensadores se retiraram, Melchior levantou-se do trono e avançou até à mesa de pedra. Entre as grandes colunas que rodeavam o pátio, a placa de argila parecia extraordinariamente frágil e pequena. Mas o rei tocou com a sua fonte as letras quase apagadas. (linhas 174-178). (123) Nessa noite, depois da Lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela. (linhas 179-181) No exemplo (118), a locução adverbial ‘durante longos debates’ estabelece o intervalo temporal no qual decorrem as situações que se encontram no Pretérito Perfeito do Indicativo. Nesta interpretação, é possível haver uma sobreposição parcial dos eventos.
76 Os exemplos (119), (120) e (121) são bastante interessantes, pois, a partir deles, podemos observar não só a relação retórica de Narração entre os constituintes, mas também a um nível mais global. Assim, é visível a relação retórica de Narração nas situações ‘levantouse e disse’, ‘e quando x acabou de falar, levantou-se y que disse’ e assim sucessivamente. Quando uma eventualidade acaba, começa imediatamente outra e isso repete-se várias vezes ao longo do texto. Este conjunto de micro relações de Narração forma uma grande relação de Narração. Ou seja, temos Narração dentro de Narração. Importa realçar que esta recorrência do ‘levantou-se e disse’ é sempre combinada com o Pretérito Perfeito do Indicativo, o que realça o facto de ser este tempo verbal promover o avanço da narrativa. O exemplo (122) começa com uma frase temporal iniciada com ‘quando’ que, por ter o verbo no Pretérito Perfeito do Indicativo, permite interpretar as frases seguintes que estão com o verbo no mesmo tempo, organizadas sequencialmente. Além disso, neste exemplo voltamos a ter presente o Pretérito Perfeito do Indicativo para narrar os acontecimentos, e, quando deixamos de ter esse tempo verbal para passarmos para o Pretérito Imperfeito do Indicativo, deixamos de ter avanço da narrativa e passamos a ter um comentário. É de notar que este comentário (“a placa de argila parecia (...) ”) parece ser apresentado como da personagem Melchior e não da autora. Quando a utilização de Pretéritos Imperfeitos do Indicativo acaba, voltamos a ter Pretéritos Perfeitos do Indicativo e a narrativa volta a avançar. Finalmente, no exemplo (123), voltamos a ter uma sucessão de Pretéritos Perfeitos do Indicativo que fazem a narrativa avançar e as situações acontecem na ordem em que são descritas no texto. A relação temporal postulada na relação de Narração é de posterioridade entre a situação nova e a situação precedente. Ou seja, a situação nova segue temporalmente a situação anterior. A próxima relação retórica a ser abordada é a relação de Contraste. Veja-se o seguinte exemplo: (124) Então retiraram-se os letrados e o rei ficou no pátio, em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da noite. (linhas 122-124)
77 O contraste observado neste fragmento é feito lexicalmente (retirar/ficar), ou seja há um contraste entre a saída dos letrados e a permanência do rei no pátio. O tempo verbal utilizado nas situações “retiraram-se os letrados” e “o rei ficou no pátio” é o Pretérito Perfeito do Indicativo. Utiliza-se o gerúndio para especificar a atividade que o rei estava a desempenhar no pátio. Note-se que, apesar de o tempo gramatical utilizado ser o Pretérito Perfeito do Indicativo, não se infere a relação retórica de Narração, pois as situações não se sucessedem umas às outras. Pelo contrário, há uma relação de sobreposição, mesmo que parcial, das eventualidades (o rei já se encontrava no pátio quando os letrados se retiraram). Seguidamente, temos também a relação retórica de Enquadramento. Veja-se: (125) Era o meio do Verão e o calor poisava pesadamente sobre os terraços cegos de sol. Nos jardins, as palmeiras roçavam umas nas outras, com um rumor metálico, as suas folhas afiadas e duras como serras. (linhas 24-27) (126) Um fino murmúrio de água correndo nos tanques acompanhava os debates. Os escravos descalços circulavam em silêncio servindo vinho de tâmaras temperado com neve das montanhas. (linhas 29-32) (127) E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse (...). (linhas 93-96) (128) A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o grito de ronda dos soldados. (linhas 182-185) (129) E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tateando, como um labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela ascendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria. (linhas 186-189). Como podemos notar através dos exemplos, o tempo verbal mais utilizado na relação de Enquadramento é o Pretérito Imperfeito do Indicativo, ou seja, tipicamente quando usamos o Pretérito Imperfeito do Indicativo temos uma relação de Enquadramento, pelo menos no texto em estudo. Em todos os exemplos há uma descrição do espaço circundante, há uma descrição de todo o ambiente em que as diferentes situações ocorrem. O pretérito Imperfeito do indicativo é tipicamente utilizado com estados ou com eventos, estativizando-os. Foi possível
78 verificar também que, nos vários excertos, a ocorrência deste tempo verbal induz uma leitura de sobreposição temporal (total ou parcial). Finalmente, temos a relação retórica de Resultado voluntário de Mann e Thompson (1987). Segue-se um fragmento ilustrativo desta relação retórica: (130) Nessa noite, depois de a lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela. (...) E Melchior deixou o seu palácio nessa noite. (Linhas 179-181; 190) Este conto termina com um Pretérito Perfeito do Indicativo combinado com eventos. No entanto, nas linhas anteriores à frase “e Melchior deixou o palácio nessa noite”, há um conjunto de Pretéritos Imperfeitos do Indicativo que fazem a descrição do espaço no qual Melchior se encontrava. Como Melchior viu que surgia no céu uma nova estrela, então saiu do palácio de livre e espontânea vontade. O aparecimento da estrela foi a causa e o facto de o Melchior ter deixado o palácio foi o resultado. Sumário Neste ponto analisámos as relações retóricas presentes em fragmentos do conto ‘Melchior’ do livro Contos exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen. Para isso recorremos à proposta teórica de Asher e Lascarides (2003) e, quando pareceu necessário, recorremos também a Mann e Thompson (1987). A metodologia utilizada para analisar o nosso corpus foi determinar quais as relações retóricas encontradas nos fragmentos de texto em análise (a um nível mais global) e, sempre que necessário, também ao nível dos constituintes. Em seguida, descrevemos as relações retóricas encontradas no texto e exemplificámos com fragmentos do texto em análise. As relações retóricas que encontrámos foram as seguintes: Elaboração, Narração, Contraste, Enquadramento e Resultado (relações de Asher e Lascarides (2003)), Narração Invertida (cf. Cunha, Leal e Silvano (2008) e Alves (2002)), e Solução e Resultado Voluntário (relações de Mann e Thompson (1987)). No entanto, as que predominam no texto são as relações retóricas de Elaboração, Narração e Enquadramento.
79 Verificamos ainda que, tipicamente, quando se encontrava o Pretérito Perfeito do Indicativo, tínhamos presente a relação retórica de Narração. Nesses momentos a narrativa avançava, ou seja, a história desenrolava-se. Neste tipo de relação, há uma sucessividade de situações e estas localizam-se temporalmente umas a seguir às outras. Tipicamente, quando se encontrava o Pretérito Imperfeito do Indicativo, deparávamo-nos com a relação retórica de Enquadramento. Neste tipo de construções era como que se o tempo parasse quando a autora fazia a descrição dos espaços circundantes de cada momento. No caso da relação de Elaboração, vimos que havia dois casos distintos: Elaboração em que são feitas descrições de uma situação e Elaboração em que são feitas descrições de uma entidade. Vimos, igualmente, que havia durante todo o texto um jogo fundamental entre Narração e Elaboração intercalando com Enquadramento. Existe uma recorrência da expressão “levantou-se e disse” ao longo do texto que faz com que a Narração esteja sempre presente.
80 Conclusões O objetivo geral desta dissertação foi determinar quais as relações retóricas e temporais existentes em fragmentos de um conto. Pretendemos com este trabalho demonstrar que as relações retóricas e temporais contribuem para a coesão textual. Antes de apresentarmos o enquadramento teórico que nos serviu de base para um tratamento semântico próprio, iremos explicitar quais as questões que nos guiaram ao longo desta investigação: (i) Que fatores contribuem para que haja coesão de modo a entendermos que se trata de uma determinada sequência textual? (ii) Qual a proposta teórica mais indicada para tratar as relações retóricas num conto? (iii) Haverá tempos verbais e relações retóricas dominantes nos fragmentos em análise? (iv) Será que as relações retóricas contribuem para um melhor entendimento das relações estabelecidas pelos tempos verbais? De forma a encontrar respostas para estas questões, foi feito um enquadramento teórico organizado em quatro capítulos. No primeiro capítulo, abordámos questões relacionadas com aspeto tendo em conta as principais teorias propostas para o tratamento das tipologias aspetuais. Dessa forma, focámonos em Vendler (1957), Dowty (1979), Moens e Steedman (1988) e Cunha (1998). No segundo capítulo, centrámo-nos nas questões relacionadas com o tempo. Vimos que várias eram as abordagens deste fenómeno linguístico. No entanto, destacámos aquelas que achamos que eram essenciais para o presente trabalho, a saber: Reichenbach (1947), Comrie (1985), Declerck (1991) e Kamp e Reyle (1993). Tratadas as questões relacionadas com o tempo, reunimos as condições necessárias para passarmos ao capítulo seguinte, capítulo 3, que é direcionado para a sequência de tempos e as relações temporais. Tal como no capítulo anterior, várias são as propostas teóricas de
87 Anexo1 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 Melchior A placa de barro tinha passado de geração em geração, de idade em idade, de mão em mão. Nela estava inscrito que ao mundo seria enviado um redentor e que uma estrela se ergueria no Oriente para guiar aqueles que buscavam o seu reino. A placa era um pequeno rectângulo de argila, enegrecido pelo tempo, de aspecto frágil, pobre e gasto. Era um prodígio que tivesse atravessado, sem se perder, tantos séculos de ruínas e opulências, saques, incêndios e guerras. Era um prodígio que tivesse podido atravessar sem se perder a ambição, a violência, a agitação e a indiferença dos homens. Estava ali, no palácio, alinhada ao lado de milhares de placas que enumeravam vitórias, batalhas, massacres e riquezas. Os seus caracteres estavam semiapagados pelo tempo e a Página 155 sua escrita era tão antiga que se tornava difícil decifrá-la com exacto rigor. Muitas leituras eram possíveis. Por isso o rei Melchior convocou três assembleias de sábios para que juntos averiguassem qual era a justa interpretação daquele texto antiquíssimo. Primeiro vieram os historiadores, aqueles que tinham aprendido toda a ciência das bibliotecas e que conheciam até ao menor detalhe a escrita, a linguagem, os usos, os costumes, os anais e os códigos dos tempos idos. A assembleia reuniu-se durante um mês no palácio do rei. Era o meio do Verão e o calor poisava pesadamente sobre os terraços cegos do sol. Nos jardins as palmeiras roçavam umas nas outras, com um rumor metálico, as suas folhas afiadas e duras como serras. Ao cair das tardes, os sábios sentavam-se em círculo no pátio interior do palácio. Melchior presidia. Um fino murmúrio de água correndo nos tanques acompanhava os debates. Os escravos descalços circulavam em silêncio servindo vinho de tâmara temperado com neve das montanhas. O círculo de homens sentados descrevia uma área vazia e no centro dessa área tinha sido colocada uma mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro. Parecia extremamente pequena e insignificante, no meio de tanto espaço e opulência, parecia um detrito das eras antigas que ali tinha sido abandonado pelo tempo. Página 156
88 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 Durante longos debates, durante trinta dias, os sábios estudaram e examinaram meticulosamente cada linha dos caracteres antiquíssimos. E no terceiro dia ergueu-se Negurat, arquivista-mor do templo da Lua, e disse: - Creio que a leitura que tu, ó rei, fizeste deste texto não é a verdadeira. Pois leste: « Ao mundo será enviado um redentor e uma estrela subirá no Oriente para guiar aqueles que buscam o seu reino.» Mas verdadeiramente é outra a significação deste texto antigo: assim, os caracteres onde leste «redentor» significavam, na remota era em que foi gravada esta placa, não «redentor« mas sim «grande rei»; e os caracteres onde leste «será» e «subirá» não exprimem formas verbais do futuro mas sim formas verbais do passado; e o verbo buscar não está no presente mas sim no pretérito perfeito; e onde leste «para guiar» deverá ser lido, de acordo com os métodos de decifração dos textos antigos, «guiando». Portanto, ó rei, ao contrário daquilo que julgaste ler, este texto não se refere ao futuro mas sim ao passado, e não anuncia o advento de nenhum salvador, mas antes glorifica as obras de uma grande personagem dos tempos idos. Assim a leitura correcta deste texto é, em minha opinião, a seguinte: «Ao mundo foi enviado um grande rei que como uma estrela dominou o Oriente guiando aqueles que buscaram o seu reino.» Quando Negurat acabou de falar, levantou-se Atmad, arquivista-mor do palácio e disse: Página 157 - Grande é a ciência de Negurat. Mas a interpretação da escrita antiga tem terríveis dificuldades. Não há dúvida que no texto apresentado devemos ler «grande rei» e não «redentor». No entanto, não concordo com aquilo que diz respeito às formas verbais: creio que o verbo ser e o verbo subir se encontram realmente no futuro. E também discordo da forma como foram lidas as palavras «guiar», «buscam» e «reino». E penso ainda que o verbo «subir» tem aqui o sentido de «dominar». De forma que, na minha opinião, a leitura correcta do texto é esta: « Ao mundo será enviado um grande rei que como uma estrela dominará o Oriente para engrandecer aqueles povos que aceitarem o seu poder.» Pois esta inscrição é de facto uma profecia, mas uma profecia que já foi cumprida. É evidente que o grande rei é o grande Alexandre que dominou todo o Oriente até ao reino de Pórus e que morreu, como sabeis, em Babilónia. E quando Atmad acabou de falar, levantou-se o velho sábio
89 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 118 119 120 Akki, que disse: - Admirei as sapientes palavras que ouvi. Mas na verdade a leitura deste antiquíssimo texto levanta tantas dúvidas e são tantas as interpretações que podemos propor, que verdadeiramente, ó rei, nada podemos concluir. Então levantou-se Melchior e disse: - Ide em paz e continuai os vossos estudos. Eu continuarei a perguntar, a escutar e a esperar. Página 158 E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos letrados. Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto. E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse: - A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser tomado como uma metáfora que não se refere nem ao passado nem ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e apenas simboliza o espírito criador do homem. Falou em seguida Amer, que disse: - Este texto é um poema e coloca-se por isso à margem do vivido. O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está. E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse: - Num poema não devemos buscar o sentido, pois o poema é ele próprio o seu próprio sentido. Assim o sentido de uma Página 159 rosa é apenas essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria. E tendo terminado o debate, levantou-se Melchior, que disse: - Eu vos agradeço as vossas palavras. Por mim, continua-
90 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 146 147 148 149 150 151 152 153 154 155 156 157 158 rei a buscar, a escutar e a esperar. Então retiraram-se os letrados e o rei ficou sozinho no pátio, em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da noite. * E no mês seguinte reuniram-se no palácio os homens sapientes. Melchior propôs-lhes as dúvidas dos historiadores e dos letrados e a nova assembleia deliberou durante trinta dias. E no trigésimo dia levantou-se Kish, que disse: - As multidões ignorantes curvam-se em frente dos ídolos, mas aqueles que meditam conhecem a solidão do universo. Que redentor poderemos esperar? O universo é como uma máquina bem regulada que sem princípio nem fim gira lentamente através das idades e dos ciclos. Nas constelações e nas luas, Página 160 nos triângulos e nos círculos, encontrarás as leis dos números que se cumprem e se cumprirão inexoravelmente. Que redenção poderemos esperar? E falou depois Maro, que disse: - Os deuses que existiram extinguiram-se há muito e aquilo que adoramos é apenas a cinza do divino. Qual é, na idade em que vivemos, o homem que viu o anjo? Onde está aquele que ouviu, com os seus ouvidos de carne, a palavra de Ísis ou de Assur? Vivemos um tempo de viuvez e todas as coisas se tornaram cegas e surdas. Num mundo de injustiça e de desordem tentamos sobreviver como animais perseguidos. Quebrou-se o laço que nos ligava ao universo atento. Podemos bater com os punhos na terra, podemos implorar com a cabeça tocando a poeira. Ninguém responderá. Cegou o olhar que nos via e o ouvido que nos escutava secou. Tudo nos é alheio como um lugar que não nos reconhece. E o brilho dos astros impassíveis cintila sobre a nossa tristeza. Quem pode esperar que uma estrela se mova? Falou em seguida Tot, e disse: - Nascemos para morrer. Toda a nossa esperança se resolverá em cinza. Onde está o homem que não morreu? O próprio Alexandre, filho de Ámon, que estabeleceu o seu império desde o Egipto até ao reino de Pórus, morreu miseravelmente nos palácios da Babilónia. E no entanto a sua radiosa juventude parecia mostrar a natureza de um Deus, e era tão grande a sua Página 161
91 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171 172 173 174 175 176 177 178 179 180 181 182 183 184 185 186 187 188 189 190 perfeição que ninguém a podia julgar mortal. Quem poderia acreditar que morresse o seu corpo equilibrado e liso como uma coluna, a sua inteligência aguda e limpa como o sol, o seu olhar direito que simplificava todas as coisas, o seu rosto brilhante como um estandarte e a sua alegria invencível? Alexandre, príncipe da Macedónia, filho de Ámon, maravilhamento dos povos, conduziu o destino do homem a seus últimos limites, de tal forma que nele todos julgaram que a natureza humana tinha conquistado o divino. Mas Alexandre morreu no trigésimo terceiro ano da sua vida, no cimo da sua força e da sua glória, em pleno esplendor da sua juventude. E assim os deuses nos disseram que o homem não pode ultrapassar o seu destino, e que o seu destino é um destino para a morte. Por isso, ó rei, que poderemos esperar? Nada pode modificar a condição do homem e nesta condição não há lugar para a esperança. Quando os pensadores se retiraram, Melchior levantou-se do trono e avançou até à mesa de pedra. Entre as grandes colunas que rodeavam o pátio, a placa de argila parecia extraordinariamente frágil e pequena. Mas o rei tocou com a sua fonte as letras quase apagadas. * Nessa noite, depois da Lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela. Página 162 A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o grito de ronda dos soldados. E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como um labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela ascendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria. E Melchior deixou o palácio nessa noite. Página 163