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A Continuidade e a Rotura: A evolução conceptual e a prática urbanística abordagem à obra: A Sedução do Lugar, a História e o Futuro da Cidade, de Joshep Rykwert. 1
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A Continuidade e a Rotura: A evolução conceptual e a prática urbanística abordagem à obra: A Sedução do Lugar, a História e o Futuro da Cidade, de Joshep Rykwert. Bruno Martin Amorim Orientação de Doutor Álvaro António Gomes Domingues Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, FAUP 2011-2012 3
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Agradecimentos Ao Doutor Álvaro António Gomes Domingues, com quem inicialmente foi debatida a hipótese de trabalho, um sincero agradecimento pela amizade e paciência oferecida. Aos meus colegas de curso, um especial reconhecimento pelo companheirismo presente em todos os momentos partilhados. 5
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Índice 11 Resumo 13 Abstract 15 Introdução 21 PARTE I - Futuro Urbano do Passado 23 1.1 - Antecedentes e evolução conceptual, segundo algumas perspectivas do autor Joseph Rykwert. 35 1.2 - Reformulação da Rotura. 49 PARTE II - Expressões da Continuidade 51 2.1 - A Continuidade como unidade na diversidade. 61 2.2 - Dimensões espaciais: Expansão , Concentração, Símbolo e Referência. 75 PARTE III - Cidade e Contemporaneidade 77 3.1 - Tempo e Espaço: Do Modernismo à Contemporaneidade. 99 3.2 - Manhattan como exemplo da Cidade contemporânea. 119 Conclusão 127 Bibliografia 131 Índice de Imagens 7
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Joshep Rykwert “Um dos mais controversos historiadores da Arquitectura da nossa época indaga se temos ou não as cidades de que precisamos, e o que podemos fazer para criá-las. Para entender por que as pessoas amam ou odeiam as suas cidades e por que as cidades agradam ou desagradam seus habitantes, Joshep Rykwert examina um amplo espectro de centros urbanos. Entre eles estão a Cidade do México, a maior metrópole do mundo que surge espraiando-se a partir do seu velho centro; Nova Déli e Islamabad, novas capitais que convivem com cidades antigas; cidades grandiosamente planeadas como Chandigarh, Camberra e Brasília, e ainda cidades mais modestas, como Colúmbia em Maryland e Celebration na Flórida construídas numa tentativa de corrigir os problemas endémicos das grandes cidades. Rykwert discute imagem, estilo, ornamentação, espaços e edifícios públicos, infra-estruturas e traçado de ruas, bem como qualidades visuais de contraste, conflito e energia que, por si mesmos, contribuem para o encanto da cidade. Discutindo sucessos e fracassos, ele sugere maneiras pelas quais podemos preservar - ou resgatar - o sentido do lugar e individualismo que determina o carácter benéfico e a alma da paisagem urbana”. Excerto do livro: A Sedução do Lugar, a História e o Futuro da Cidade - Joshep Rykwert. 9
Contemporânea5. Marcando a Rotura mais impressionante na história da arquitectura, a cidade Moderna, constituiu-se de acordo com a emergência do processo de industrialização, assim, afirmando o seu estatuto no início do século XX. No âmbito da nossa interpretação, dir-se-á que o conceito de ‘Tempo’ tem aqui papel fundamental: a cidade Industrial e a cidade Moderna são produto das percepções do ‘Tempo Newtoniano’ (onde Tempo e Espaço são valores absolutos); as propostas apresentadas reflectem, portanto, perspectivas de um Futuro baseado em certezas colectivas. O projecto urbano contribuiria para a constituição de uma nova sociedade, modelos de cidade perfeita, funcional e igualitária haveriam de surgir enquanto resposta ao ideal. De outro modo, a cidade Contemporânea - irregular, dispersa, fragmentada e genérica -, não define método de intervenção. Desvinculando-se da ideologia que buscava definir modelos urbanos de perfeição, a cidade Contemporânea é fruto do imprevisível: Tempo e Espaço são conceitos individualizados. Baseando-se na prática da experimentação (conforme a abordagem de Rem Koolhaas sugere), a cidade remete agora para a presença de um ‘Tempo Relativo’ onde o Futuro não se prevê. No respectivo contexto de transformações urbanas, exalta-se a argumentação por nós defendida: uma necessidade de redefinição da prática urbanística por via da ‘Continuidade’. Neste sentido, (e como suporte da reivindicação), poder-se-á dizer que um reconhecimento das experiências urbanas do passado é fundamental para se garantir uma contínua (re)construção dos valores historicamente adquiridos (património colectivo); por outro lado, defendemos que, através dela (da prática urbanística por Continuidade) se reforçará a identidade e memória colectiva de determinada sociedade, esta, sempre situada entre dois espaços de Tempo: Passado Futuro - o que, por si só, implica pressupor a importância do Tempo que é Presente, portanto, ‘um espaço de Tempo em Transição e Continuidade’. Referindo-nos à cidade do Presente, é nela que procuramos definir elementos capazes de se estabelecerem enquanto elos de ligação, elementos da morfologia que articulam diferentes Espaços e Tempos. 16 5 O processo de urbanização contemporâneo é aqui interpretado como sendo a cidade ‘Contemporânea’, fundamentalmente, refere-se à perda da ideia de cidade enquanto "coisa" perfeitamente reconhecível pela sua forma, centro ou limites. Agora, no ‘Tempo Contemporâneo’, o que há é uma multiplicidade de formas de urbanização extensiva, fragmentárias.
Assim, a dissertação apresentada tem como objectivo identificar elementos da prática urbanística que, quando remetidos para uma estrutura física e social da concepção de espaço urbano, expressam valores próprios do conceito de ‘Continuidade’. A nossa perspectiva defende-a aqui - a Continuidade - enquanto instrumento de trabalho, de facto, um artefacto capaz de articular presenças do Passado e Futuro das Cidades, sem que para tal se definam modelos a serem aplicados (universalmente) por imposição: o conceito de Tempo Futuro baseado na incerteza constitui-se ainda património da actual sociedade. Pudemos verificar (no decurso da nossa investigação) que no espaço contemporâneo das cidades de hoje predomina a construção da desconstrução. Na cidade Contemporânea, o modelo é indeterminado de exactidão e sugere um Futuro imprevisível. Se a Cidade Moderna aspirava a ser um palco no qual se estabeleceriam relações ‘em pé de igualdade’, provou o Tempo que o ‘Espaço Absoluto’ conhece o ‘Futuro Relativo’ e a sumptuosidade volumétrica ‘não passaria’ da condição de cenário idealizado. O pensamento moderno não pôde prever os ‘percalços do Tempo’ na realidade; compreende-se, portanto, que não intuísse um confronto com a cidade existente mas sim pensa-la de raiz e a partir do nada. As propostas apresentadas para a cidade Moderna foram então vistas como modelos urbanos absolutos, capazes de se repetirem infinita e universalmente: a cidade tinha-se definido num horizonte de Tempo indeterminado, sempre. Reduzindo ao máximo possíveis elementos de variação, os respectivos projectos apresentados foram consideravelmente detalhados e isolados. Desta forma, a presente dissertação estrutura-se de acordo com três momentos distintos, em cada um deles procurando reconhecer a importância do conceito de ‘Tempo’ para a respectiva prática urbanística concebida, ou seja, pretende-se - através das diferentes abordagens efectuadas - compreender o modelo urbano em análise segundo um produto da relação que a sociedade estabelece com o Tempo que lhe é Passado e o Tempo que lhe é Futuro. Assim, com base na obra do autor Joseph Rywert analisam-se propostas de cidade que surgem ou por Rotura ou por Continuidade com as formas do Tempo Passado. Abordando planos urbanísticos que marcam a evolução urbana do espaço nas cidades (em diferentes épocas), na primeira parte da dissertação apresentam-se modelos que adoptam o conceito de ‘Rotura’ como ferramenta capaz de enaltecer uma nova ordem social 17
encontrada. Numa fase posterior, (segunda parte), aponta-se a incerteza dos Tempos como factor essencial capaz de impulsionar o desenvolvimento de novas propostas que aspiram à condição de movimentos urbanos por Continuidade. Neste sentido, a Cidade existente volta a ser o objecto de estudo confinado aos seus valores sociais e morfológicos. Destacando-se a natureza do processo de intervenção por via da Continuidade, identificar-se-ão elementos urbanísticos que estruturam a sua representação, assim orientando quanto a uma Futura conduta dos profissionais na reformulação da proposta urbana. Por necessidade de exaltação, na terceira parte, concentramo-nos com maior rigor nas características da cidade contemporânea e, especificamente, analisamos o caso de Manhattan como ícone da cidade actual. Sendo que a arquitectura depende essencialmente do capital para a sua produção, no processo de globalização mundial, o modelo das cidades contemporâneas expressa-se sobretudo enquanto símbolo das suas actuais lógicas económico-mercantis, o campo de interacção entre a arquitectura e o sistema da economia capitalista, analiticamente, relaciona as premissas-base do programa da modernidade com a realidade produzida pelo processo da modernização. 18
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PARTE I - FUTURO URBANO DO PASSADO Para uma melhor compreensão da problemática urbana e dos fenómenos que desencadeiam o seu desenvolvimento e transformação, pretende-se, num momento inicial da análise, contextualizar a importância do factor ‘Tempo’. As noções de ‘Passado’ e ‘Futuro’ parecem ser determinantes quando remetidas para a prática da concepção urbana - de facto, a partir do modelo urbano concebido, poder-se-ão nomear posições assumidas entre o sujeito social do presente e a realidade que lhe é passada ou futura. Neste sentido, a produção do espaço surge enquanto testemunho dos ‘Tempos’ vividos e das condições sociais idealizadas. “(...) o objecto mais próprio da arquitectura é a sociedade compreendida na sua unidade e na sua ordem, e na sua duração, bem como a posição do mundo e a sua modulação frente a essa ordem da sociedade6”. Associando ao factor ‘Tempo’ uma qualificação histórica que tanto se dirige ao passado como ao futuro, destaca-se a mesma relevância do conceito quando remetida para o discurso próprio da disciplina da Física - a evolução do seu conhecimento mostrou já ser referência marcante para um entendimento do Homem no mundo e enquadramento da suas percepções face ao espaço temporal em que o mesmo se insere. No âmbito da produção do espaço e sua interactividade com as percepções do Tempo vivido, destacamse neste capítulo, de forma abrangente, os urbanistas e pensadores de meados do século XIX que reflectiram influências Newtonianas7 na produção das suas obras, onde Espaço e Tempo são valores absolutos e permitem uma descrição completa da evolução de qualquer corpo localizado nos mesmos. 21 6FREITAG, Michel - Arquitectura e Sociedade. Porto: Publicações Dom Quixote, 2004, p.23. 7”Na visão newtoniana o espaço é um cartesiano tridimensional como defnido pela geometria analítica e a posição de um corpo é dada por um ponto nesse espaço tridimensional. O tempo newtoniano flui independentemente do observador, sempre em direcção ao futuro”. MECÂNICA NEWTONIANA - CONCEITOS BASE. Disponível na Internet [Consult. Maio de 2011] URL:<www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S>
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1.1 - Antecedentes e evolução conceptual, segundo algumas perspectivas de Joseph Rykwert. “(...) na maioria das instituições do capitalismo tardio, as repetições sem variação expressam a mensagem de que o espaço foi padronizado, de que as suas inflexões e associações foram anuladas [...] um fenómeno intimamente relacionado a esse afectou a nossa percepção pública do tempo, o qual agora é medido com precisão nos laboratórios, por meio de relógios de césio que indicam variações de menos de um milionésimo de segundo. Contudo, a face pública do tempo está se tornando cada vez mais abstracta - como mostra o relógio digital -, o que, por sua vez, afeta a maneira como vivenciamos a experiência do espaço8”. Admitamos, portanto, que a noção de ‘Tempo’ - Passado e Futuro - trata de ser um conceito historicamente construído, culturalmente adquirido, e cuja definição vem sendo apurada segundo uma necessidade do Homem contextualizar a existência no espaço em que se insere, neste sentido, referimo-nos à noção de ‘Tempo’ enquanto artefacto útil para a análise ou hipotética reformulação da prática urbanística, e, de igual forma, se exalta a preponderância de um derivante seu: o Futuro. “Deve-se concluir que somos tanto agentes como pacientes quando se trata das nossas cidades. As cidades – “towns” e “cities” – não são fruto de uma ordem política e económica que nos é imposta totalmente de cima para baixo; tampouco são determinadas de baixo para cima por forças obscuras que mal conseguimos identificar e menos ainda controlar9”. Intuindo a indagação quanto ao Futuro das cidades, no presente ponto do capítulo, procura-se esboçar uma perspectiva genérica sobre a evolução do espaço urbano nos diferentes cenários do passado. Em paralelo, remetemos para exemplos da prática espacial, procurando reconhecer a existência de uma dinâmica interactiva entre os respectivos modelos considerados e os diferentes marcos histórico-sociais que 23 8RYKWERT, Joseph - A Sedução do Lugar: A História e o Futuro da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p.187. 9RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.6.
proliferaram nas épocas vigentes – então Tempos do Passado. Assim, num primeiro momento, registam-se ‘pensamentoschave’ da interpretação do autor Joshep Rykwert que definem o conjunto de questões inerentes à prática da problemática urbana: directrizes da análise sob forma de objecto de estudo e, simultaneamente, metodologia de trabalho que possibilitam uma reflexão quanto à importância do Passado urbano nas cidades. “Vou considerar a cidade como ela se apresenta aos nossos sentidos e tentar uma leitura do que a sua aparência pode revelar ou esconder. Acho q u e pode ser útil relacionar o tratamento que dispensamos ao espaço urbano – em especial à sua parte pública – com a maneira pela qual a cidade se exprime em seus prédios públicos. Os edifícios que se destacam deixaram há muito de ser aqueles em que reside o poder político e público, cedendo a tal posição para aqueles das finanças privadas e dos investimentos empresariais. Os prédios de escritórios, os edifícios de apartamentos e as sedes da grandes empresas dominam o panorama urbano10”. Identificada uma posição segundo a qual Rykwert aborda a problemática, a nossa perspectiva considera ainda a noção de ‘Tempo’ - Passado e Futuro - como ferramenta indispensável para a análise. Salientando a hipótese defendida pelo autor, o Futuro urbano das cidades poderá - e deverá mesmodeterminar-se através de uma análise do passado, especificamente, avaliando a importância das forças que entre o século XVIII e XIX, de forma directa contribuíram para a constituição e desenvolvimento do tecido urbano. Para o respectivo arquitecto e historiador, a cidade traduz a mais valiosa conquista da Civilização Humana e, como tal, rejeita todas as hipóteses teóricas que prevêem o fim da sua existência primordial. Proclamando a ‘Era da Globalização’ como efectivo reforço da forma que está na sua origem - centro de decisões políticas, económicas e culturais - o autor lança um olhar sobre o Passado urbano e nele detecta os principais agentes responsáveis pelos processos de transformação ocorridos nas cidades. 24 10RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.7.
“Duas imensas ondas de populações rurais miseráveis se abateram sucessivamente sobre as cidades do mundo, inundando e inchando o tecido urbano quase até ao ponto de ruptura. Foi a primeira dessas ondas, de fins do século XVIII a inícios do século XIX, que deu a forma para o tecido urbano que hoje conhecemos. A onda recente e muito maior que tomou impulso em meados do século XX ainda não se abateu: estamos nos debatendo nela e ainda não conseguimos distinguir suas modalidades ou avaliar seu real impacto com acuidade11”. No respectivo cenário sequencial, destaca-se o fenómeno da privatização de terras e a expulsão das populações residentes em zonas rurais - o que haveria de ser ilustrada pelo protagonismo das cercas (delimitação física rectangular) e pelo conjunto de reformas agrícolas que na segunda metade do século XIX consagrou a agricultura como uma indústria manufatureira. “A princípio, o movimento das massas para as cidades foi acompanhado por uma breve elevação no nível de expectativa de vida [...] as habitações urbanas das classes de baixa renda eram feitas de tijolo e tinham cobertura de ardósia, em vez de madeira ou sapé, como nas áreas rurais, o que as tornava menos vulneráveis a muitos parasitas. Essas moradias também estavam livres da presença da poeira das fábricas, mas o saneamento primitivo - um risco marginal no campo, onde o lixo doméstico e os dejetos humanos eram espalhados pelos campos - é sempre fatal em cidades muito povoadas12”. Produto desta nova realidade massificada e emergente - entre o Passado e Futuro da cidade - surge ‘um primeiro momento de ruptura’ no léxico urbano. Com novos modos de vida incorporados, as cidades produziram necessidades que exigiam uma constante adaptação e reorganização, motivo pelo qual, ao serem estimulados pela procura das melhores respostas possíveis, os urbanistas desenvolveram vários estudos para modelos de cidade. “A ordenação obsessivamente repetida dessas propostas já representava uma polémica utopista contra a confusão e a superpopulação das cidades da época. 25 11RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.27. 12Ibid., 2004, p.52.
De acordo com a premissa referida no início da nossa reflexão escrita, o factor ‘Tempo’ não pode ser dissociado da prática urbana. As noções de ‘Tempo Passado’ e ‘Tempo Futuro’ são determinantes para a constituição da cidade - sempre, referindo-nos à condição espacio-social e encadeamento histórico-antropológico de um específico povo. Situando a importância do fenómeno na sua análise, Rykwert, interpreta a cidade do século XIX e, tendo em conta questões22 essenciais inerentes ao panorama social do respectivo período, desloca a investigação para o cenário presente da realidade, assim orientando para a problemática futura das cidades no século XXI. Aqui, destaca-se a preponderância da sua análise na medida em que situa aspectos teóricos frente aos exemplos práticos da ideia conceptual. De entre eles, evoca-se a adaptação da cidade Medieval23 à produção do espaço24 na Era Industrial; a primeira, expandindo territorialmente o seu modelo tipológico, ‘cedeu espaço’ às necessidades de circulação25 e incorporou na sua composição estrutural os novos sistemas de mobilidade26 que se mostravam ser indispensáveis para a produção do espaço social27 na época. De igual modo, no processo da abordagem correlativa, Rykwert, remete a sua observação para a 32 22Nomeadamente, o crescimento e efectivo aumento populacional, por consequência, a necessidade de alojar toda a população residente nas áreas urbanas (sobretudo a nova classe média e o sector operário). 23”A cidade medieval elabora uma sociedade ou uma civilização de síntese [...] a rua não tem em si mesma existência própria no plano urbanístico e arquitectónico da cidade medieval, pela razão de não existir aqui espaço público abstracto, suprafuncional [...] a cidade contínua a ser essencialmente fechada um mundo comunitário fechado e organicamente estruturado, e os vigias olham por ela durante a noite, depois de, a cada entardecer, as suas portas terem sido fechadas. Não se pode estar anonimamente na cidade, como um simples estranho [...] tem de se ser recebido nela por alguém, de ser seu hóspede”. FREITAG, Michel, op. cit., 2004, p.30. 24”Space is never produced in the sense that a kilogram of sugar or a yard of cloth is produced. Nor is it an aggregate of the places or locations of such products as sugar, wheat or cloth [...] It would be more accurate to say that it is at once a precondition and a result of social superstructures”. LEFEBVRE, Henri - The Production of Space.Oxford: Blackwell Publishing, 1991, p.85. 25”Durante milénios, o homem vivera num universo incluído num raio de 15 a 20 quilómetros em redor do seu abrigo; mas hoje, pela visão ou pela leitura, todo o mundo se lhe tornou acessível”. LE CORBUSIER, op. cit., [s.d], p.25. 26[...] “a primeira locomotiva arrastou um comboio de vagões sobre um caminho-de-ferro de uma cidade para a outra, introduzindo assim nas relações e nos transportes uma modificação do tempo - na realidade uma velocidade que aumentaria incessantemente, alargando os seus efeitos ao conjunto das actividades humanas. Estas actividades tinham-se mantido equilibradas, durante milénios, na base dos 4 quilómetros horários da marcha do homem, do passo do cavalo ou do boi. Daí em diante é necessário opor a essa cadência os 50 a 100 quilómetros horários dos veículos que correm sobre estradas planas [...] enfim, as velocidades sem medida” (...) LE CORBUSIER, op.cit. [s.d.], p.24. 27”(Social) space is not a thing among other things, nor a product among other products: rather, it subsumes things produced, and encompasses their relationships in their coexistence and simultaneity - their (relative) order and/or (relative disorder. It is the outcome of a sequence and set of operations”. LEFEBVRE, Henri, op. cit., 2004, p.73.
proposta monumental de Haussmann em Paris e para os planos de Ildefons Cerdá em Barcelona - ambas, propostas baseadas na ampliação do tecido habitacional e no protagonismo da rede de circulação viária. Sendo a temática do parque habitacional um supremo conceito desenvolvido pelas propostas urbanas do período em análise - sem aprofundar distinções - o autor examina a relevância conceptual associada aos diferentes modelos de conjuntos habitacionais. Nomeadamente, evoca os suburbanos conjuntos alemães Sieldlungens; a Viena Vermelha de Manfredo Tafuri; os vienenses intra-urbanos Hoffes; as centrais Mietskasernern de Berlim; as Company Towns das maiores cidades americanas e os blocos HBM (Habitation Bon Marché) de Paris e evidencia a importância destas tipologias dependente do sistema ferroviário - infra-estrutura que se assume como elemento estrutural capaz de organizar formas no tecido urbano. Neste sentido, considerase a interdependência existente entre ‘indústria’, ‘sistema ferroviário’ e ‘habitação’, ambos factores indiscutivelmente responsáveis pelo desenvolvimento das cidades industriais. No que se refere à leitura das cidades no século XX28, Rykwert, equaciona premissas desde o processo de construção de Brasília (Oscar Niemeyer) até ao controverso fim do Greater London Council imposto por Margaret Thatcher no início dos anos 80 (considerando também os parques temáticos americanos). Asim, baseado nas condições urbanas e sociais inerentes aos exemplos destacados, consolida a sua perspectiva sobre a cidade do século XX: o edifício e o espaço público interagem segundo entidades separadas, reconhece-se a qualidade arquitectónica e funcional ao edifício através da capacidade que este tem de neutralizar tudo o que envolve29. 33 28(...) o século XX tem as suas raízes no século XIX [...] tende a continuar as lógicas as lógicas políticas, económicas e culturais, cujos autonomia e dinamismo haviam sido justamente engendrados pela separação institucional das esferas correspondentes da acção social [...] o século XX vive dos dinamismos autonomizados resultantes desta separação [...] o problema consiste no facto de pertencermos à única civilização capaz de morrer sem deixar nada atrás de si”. FREITAG, Michel, op. cit., 2004 p.63 e p.64. 29”Uma tal sociedade, operacional e performativa, privada, pela própria perda de toda a exterioridade, de um sentido de identidade a priori, deixa de poder produzir-se em arquitectura. As formas materializadas do seu funcionamento já não mediatizam uma ‘relação com o mundo’, nem uma relação reflectida consigo própria, que se desenrolaria no diálogo interior que manteriam, nela, as suas partes e os seus momentos, o privado e o público, para não falarmos do sagrado e do profano, do persistente e do efémero): já não exprimem mais nem a visão do mundo nem a consciência de si. Tornando-se, elas próprias, a realidade que se expõe, nua, na sua evidência”. Ibid.
“A cidade atual é uma cidade de contradições; ela abriga muita ethnes, muitas culturas e muitas classes, muitas religiões. Essa cidade moderna é fragmentária demais, está cheia demais de contrastes e conflitos: consequentemente, ela tem muitas faces, não uma única apenas. É a própria condição de abertura que torna nossa cidade de conflitos tão convidativa e atraente para a sua crescente multidão de habitantes. A falta de uma imagem coerente e explícita pode, em nossas circunstâncias, ser uma virtude positiva, nunca um defeito ou mesmo um problema30”. 34 30RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.8.
1.2 - Reformulação da Rotura. A ideia de ‘Reformulação’ associada ao conceito de ‘Rotura‘ pretende demonstrar que as propostas urbanísticas historicamente nomeadas se apresentam sempre vinculadas a noções de Futuro inerentes a determinada sociedade, em simultâneo, estas propostas, operando de acordo com uma avaliação feita nas ‘fórmulas’ do presente encontrado, exigem um repensar quanto ao enquadramento prático das mesmas na vida quotidiana. “Os protestos contra os males da sociedade partiam daqueles que viam as desigualdades da velha realidade se perpetuarem na ordem pósrevolucionária [...] na primeira metade do século XIX mais organizações de protesto eram formadas para desafiar o status quo econômico-industrial emergente com objectivo de criar grupos sociais alternativos - comunidades que aspiravam a uma situação mais ou menos ideal [...] a crescente população urbana e os trabalhadores - em especial as crianças - agora viviam em condições que muitos acreditavam ser piores do que aquelas dos escravos nas Índias Ocidentais e nas plantações do Sul dos Estados Unidos. As cidades, portanto, tinham que ser reorganizadas devido ao tumulto urbano criado31”. Ao fenómeno de ascensão da burguesia ao poder, associavam-se também as miseráveis condições de vida inerentes à classe trabalhadora. O início do século XIX seria marcado tanto pela potência da sua energia industrial quanto pelo contexto de pobreza urbana que a mesma desencadeava. Num cenário em cujos relatos históricos evocam desigualdades sociais, emerge uma sociedade dominada pela natureza das forças de mercado. Quando remetidos para a análise das formas que constituem a imagem do seu espaço quotidiano, poder-se-á dizer que tal organização social vigente - então seduzida pelas possibilidades de lucro que a abertura mercantil32 oferecia - exprime valores não mais centrados no bem-estar público mas sim no enriquecimento individual, 35 31RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.60. 32[...] o comércio era visto quase como uma guerra. Os teóricos da economia de meados do século XVIII foram gradualmente separando sua disciplina da política. A principal doutrina econômica da época, aquela de um grupo de cientistas e políticos conhecidos como fisiocratas, pode ser sintetizada pelo slogan laissez-faire, laissez-passer: o livre comércio é melhor, porque é assim que a natureza que é. O comércio e a indústria não devem sofrer restrições por impostos e, como a agricultura é a definitiva produtora de riqueza, os ganhos devem proceder apenas do arrendamento da terra. Ibid., p.35.
de facto, expressam-se aqui traços de uma revolução social personificada pelo ritmo febril da máquina, o elevado grau de congestionamento nas vias de circulação e a alta poluição atmosférica pairando sobre a cidade - elemento característico da paisagem urbana. “Uma fumaça, espessa e negra, cobre a cidade [...] mil ruídos se elevam ininterruptamente desse labirinto escuro e úmido [...] os passos da multidão em disparada, o ranger das rodas umas contra as outras [...] não se ouvem gritos de alegria ou sons de prazer, nem a música de instrumentos que anunciem um momento de folga em algum lugar. Não se vêem pessoas à vontade ou distraídas [...] contudo, deste escoadouro fétido surge a mais poderosa torrente do engenho humano para fertilizar o resto do mundo. Deste esgoto imundo flui o ouro puro33”. Na maioria das cidades internacionais, o esquema básico da forma urbana continua a ser o do traçado em xadrez: uma divisão racional que, por oposição à desigualdade remanescente entre as classes sociais, (quando referidos à distribuição da propriedade), pretendia evocar a presença do conceito de igualdade. Contudo, devido à natureza caótica própria do ambiente citadino e ao crescente risco de ocorrência de incêndios, as cidades da primeira sociedade capitalista industrial exigiram um repensar face ao seu rápido e repetitivo modo de desenvolvimento. “As muralhas poligonais acabaram por alterar os traçados ortogonais, introduzindo ruas que irradiam do centro para as portas localizadas nos l a d o s do polígono34”. Inicialmente, observa-se uma expansão sistemática do núcleo urbano apenas enquanto resposta para a problemática do alojamento, deste modo, ao nível formal da leitura arquitectónica torna-se clara a ausência de diversidade, ou seja, edifícios públicos, como igrejas e escolas não faziam parte dos “conjuntos” habitacionais em série e eram implantados posteriormente - em resultado da benevolência de algum particular ou da 36 33RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.58. 34Ibid., 2004, p.61.
intervenção institucional. Neste sentido, como salienta Rykwert, questiona-se o estatuto da cidade35 e dir-se-á: “(...) não são as casas e as muralhas, mas os espaços públicos e a presença física das instituições que elevam uma aglomeração ao status de cidade, de polis36”. É, portanto, necessário encontrar no espaço edificado referências que nos indiquem o carácter da organização social subjacente ao lugar em que nos situamos. No respectivo contexto, como reacção à homogeneidade e anonimato da composição urbana vigente e em progressivo desenvolvimento, o arquitecto Jean-Nicolas-Louis-Durand, professor na École Polytechnique em França desenvolveu um método de ensino claro e esquemático que tinha por fim o objectivo de classificar as formas edificadas segundo três categorias. Assim, exaltam-se com distinção as formas referentes à classe inferior, à classe superior e aquelas cuja função intermédia seria, acima de tudo, a de remeter para o Passado e estabelecer relações com a História - estas, incluindo a presença da ornamentação possibilitavam a leitura das suas origens como garantia de continuidade histórica. Noutro sentido, enquanto os edifícios referentes à classe social inferior se definiam pela natureza dos materiais e pelos processos de construção aplicados, os edifícios destinados à classe superior exprimiam a sua identidade através da pureza geométrica das formas, de entre elas, acentuando-se a preferência pelo cubo e pela esfera perfeita. 37 35”Pausânias, o viajante que escreveu um guia do mundo grego no final do século II d.C., deixa claro o que uma cidade não é. Ao se aproximar de uma antiga e fortificada então em ruínas, denominada Panopeus e localizada na estrada de Delfos para Atenas, ele comenta: Se é que podemos chamá-la de cidade, pois não tem perfeitura, nem ginásio, teatro ou praça de mercado, nem qualquer fonte pública de água corrente”. RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.20. 36Ibid.
No entanto, não são estas prévias concepções de modelos de edificado que se mostram ser as mais relevantes para o Futuro da forma urbana. Dos ensinamentos de Durand, considera-se ser fundamento para a composição urbana vindoura37 o método de projecto por si reivindicado: 1. “Em primeiro lugar, examinar e analisar as exigências do cliente. 2. Em seguida, desenhavam-se os eixos ortogonais principais da planta, qualquer que fosse o programa analisado. 3. Os elementos fornecidos pela análise eram distribuídos em um diagrama de linhas ortogonais definidos pelos eixos. 4. Tendo assim procedido, devia-se dispor as colunas e, depois, as paredes nas linhas do diagrama38”. Prevendo a abertura de várias avenidas e a criação de elementos rotatórios para organização do tráfego, já entre 1793 e 1797, as premissas de concepção evocadas pelo arquitecto assumiam destaque num estudo revolucionário para a transformação de Paris, o qual pretendia elevar a cidade à condição de centro geográfico do mundo. Com rigor, o modelo urbano de distribuição axial onde protagonizavam as grandes avenidas-artérias destinava-se, sobretudo, a dar resposta à problemática da circulação. No entanto, contrariamente ao interesse passado pelo traçado axial cujo esquema de organização conferia especial valor aos espaços públicos abertos39 (como praças), através da colocação de um elemento simbólicodecorativo em posição central, no modelo de distribuição axial instituído pelos polytechniens, o tipo de espaço aberto ficava definido pela natureza da sua avenida-artéria. 38 37”Mesmo que a sua aceitação não tenha sido universal - e havia discordâncias principalmente por parte dos historiadores -, a doutrina de Durand ainda está implícita em muitas propostas de planejamento urbano. Seu nome já não é familiar, e a origem das suas idéias é quase sempre esquecida, mas seu impacto permanece, conquanto sistemáticamente subestimado”. RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.69. 38Ibid, 2004, p.67. 39”No caso de Paris, na Place Royale [...] havia uma estátua de Luis XII, ali colocada para exprimir as intenções comerciais cerimoniais de Henrique IV para o local”. Ibid.,p.68.
“Os edifícios ao longo delas eram, em geral, altos e com colunas - objectos distantes e isolados, que não participavam de um padrão ou de uma textura urbana. Além disso, as suas colunatas forneciam o tipo de mascaramento das superfícies exigido por Durand. O uso do ornamento convencional como um disfarce (por vezes, em um grau extremamente alto) iria se tornar um procedimento importante durante todo o século XIX, século que também seria a grande era dos novos tipos de edifícios: a fábrica e a estação ferroviária, a loja de departamentos, o grande hotel e o prédio de escritórios, do qual se originaria o arranhacéu40”. A ornamentação, em si mesma, tinha por função dissimular a introdução de qualquer elemento novo no edificado, assim satisfazendo uma premissa inicial da doutrina de Durand que visava a sua colocação enquanto ferramenta útil para a continuidade do hábito histórico. Embora, nas diferentes cidades, fosse pouco frequente a lei ditar uma aplicação prática da forma urbana em geral, as cidades recém-fundadas exigiam algum tipo de regulamentação, neste sentido, conduzindo ao estabelecimento de regras centradas em questões como a distância entre edifícios e a relação destes com a rua. “William Penn, fundou Filadélfia [...] Penn e seu gerente, Thomas Holme, planejaram uma cidade totalmente nova, com um traçado rectangular que se alonga de leste para oeste entre dois rios, o Delware e o Schuylkill. Deveria ter edifícios com fachadas voltadas para ambos os rios, de modo que os limites da cidade ficassem definidos desde o começo e seu tecido pudesse crescer para dentro. A perfeitura deveria ficar na praça central, localizada na intersecção das duas ruas principais. Cada setor deveria ter uma praça arborizada em seu centro [...] um grande espaço público não era uma das exigências da vida urbana nos Estados Unidos daquela época41”. 39 40RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.69. 41Ibid., p.71.
Determinado pelas premissas da Era Industrial, o primeiro ciclo de urbanização produzido em grande escala conjugou tanto o fenómeno dos benefícios económicos quanto as miseráveis perspectivas sobre a vida da população. Paradoxalmente, o progresso material não se mostrou uma efectiva garantia de prosperidade social e um cenário de pobreza urbana instalou-se nas diferentes cidades modernas enquanto ambiente-tipo que havia sido fruto da potência tecnológica. Neste contexto, a partir das primeiras décadas do século XIX questiona-se a dialéctica existente entre os fenómenos mencionados e vários pensadores42 trazem a debate a forma urbana adquirida, cuja problemática maior residia nas elevadas carências sociais. Convencidos de que os problemas urbanos desenvolvidos seriam passíveis de reversão, vários são os autores que aparecem sugerindo propostas urbanas de reforma para a organização espacio-social. “Tais idéias um tanto ingênuas de reforma do sistema habitacional seriam obscurecidas pelas propostas bem mais abrangentes de reconstituição completa da estrutura socioeconômica para enfrentar o impacto das novas forças industriais. Os pensadores revolucionários da segunda metade do século XIX levaram assiduamente essas propostas e acabaram por aceitá-las. Marx e Engels dedicaram especial atenção a Robert Owen e a dois “socialistas utopistas” franceses, Claude de Saint Simon e Charles Fourier [...] as suas idéias preconizavam o estímulo à criação de associações que iriam transformar a sociedade, enquanto Marx e Engels estavam preocupados com a tomada do poder pela classe trabalhadora43”. De acordo com o discurso de Rykwert, poder-se-á encarar Saint-Simon como sendo o pai da democracia social, Owen, o pai do movimento sindical e, Fourier, o pai do anarquismo. 40 42Na sua obra ‘A Sedução do Lugar’, Rykwert, exalta um conjunto de pensadores que, pelos respectivos discursos produzidos, se destacaram no século XIX. Nomeadamente, no capítulo ‘Primeiros Socorros’, exalta algumas das mais representativas teorias (utópicas e revolucionárias) de cidade e de reformas urbanas. Aqui, nomes como Saint Simon, Robert Owen, Charles Fourier, Peter Kropotkin, John Ruskin, Karl Marx e Friederich Engels são então apontados. 43 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.76.
Embora motivados pela mesma problemática, as propostas que apresentam , no entanto, são bastante diferentes quando comparadas. De entre elas, salienta-se a visão de Robert Owen que, elaborando um projecto com cerca de 400 ou 600 hectares (para 1.200 habitantes), propõe um plano de assentamentos-modelo em cujas terras cultiváveis seriam tidas como elemento capaz de gerar modelos de vida auto-suficientes para a população residente. Desde uma perspectiva mais abrangente, o conjunto habitacional por si idealizado consistia na repetição de um módulo quadrangular constituído por três casas laterais e uma área destinada a albergar o edifício dos serviços (enfermaria, hospedaria ou dormitórios), assim formando praças intermédias por todo o complexo. Na zona central da praça (esta, arborizada como um parque) implantava-se um longo edifício destinado a albergar a administração, cozinhas e refeitório. À esquerda deste edifício, localizava-se a escola para as crianças mais novas e à sua direita a escola para as crianças mais velhas. A separação entre as áreas domésticas de vida quotidiana e as áreas de trabalho (prédios industriais, matadouros, estábulos, etc.), fazia-se através de fachas com alta densidade de arborização. Fig. 1.3 - Vila Operária de Robert Owen. 41
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PARTE II - EXPRESSÕES DA CONTINUIDADE Se numa fase inicial da nossa dissertação situamos a Rotura como estratégia própria da intervenção no espaço urbano, pretende-se agora contextualizar a prática recorrendo à análise da sua antítese formal: pela prática da Continuidade. Deste modo, numa abordagem referida à transformação da cidade, destacar-se-à um conjunto de elementos capazes de se constituírem enquanto modelos para a prática do estabelecimento de Continuidade urbana. No respectivo âmbito, fixa-se como factor gerador do fenómeno da Continuidade a inserção dos elementos de natureza física que morfologicamente alteram a Cidade mas que o fazem a partir dum prévio reconhecimento ao nível de pré-existências ambientais e culturais. Sendo que se trata de um processo de inserção cuja ordem é morfológica, apresenta dimensões espaciais reconhecivéis, de entre elas, a forma, o uso ou a função, bem como uma leitura da sua categoria semiológica (constituída ao longo da História) - o sentido da memória. Em paralelo, constitui-se ainda uma dimensão política na qual a hipótese de interacção e participação cívica dos cidadãos oferece garantias para uma contínua produção do Homem enquanto Ser social. “Até ao século XIX, podíamos “ler” os edifícios enquanto tipo - uma prefeitura, uma igreja ou qualquer outro - pelo modo como as massas eram organizadas, pela evocação de determinados precedentes e pelo ornamento seleccionado. Essa relação, baseada em um tradicional entendimento metafórico dos edifícios, havia sido banida com o ancien régime, sendo substituída pela idéia de que um edifício pode se declarar a seus usuários por meio de referências históricas ou narrativas ou, de modo mais óbvio, graças ao emprego de um letreiro53”. 49 53 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.138.
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2.1 - A Continuidade como Unidade no Panorama da Diversidade. A necessidade de acolher a classe desfavorecida (classe dos trabalhadores) que se fixava nas grandes cidades internacionais (entre o século XVIII e XIX), impulsionou o desenvolvimento de novos modos de habitabilidade e, em paralelo, contribuiu para o inchaço do tecido urbano que haveria de se repercutir como problemática arquitectónica. “(...) Londres [...] cresceu mais devagar do que outras cidades britânicas; de qualquer modo, cresceu sem parar por todo o século XVIII. Por volta de 1801, o condado de Londres havia atingido cerca de 840 mil almas, gradativamente ultrapassando Paris em número de habitantes e em poderio económico. Londres não era apenas maior do que Paris, era a cidade mais populosa do mundo na época, superando Constantinopla/Istambul, Pequim ou Edo. Em 1841, a Grande Londres contava com 2.500.000 habitantes, número que subiu para 3.890.000, em 1871, e 6.586 em 1901 54”. A cidade torna-se o maior problema vigente nos países industrializados. Devido ao crescimento veloz que a caracteriza, com urgência vem requerer soluções para as condições sanitárias55, habitação popular e difusão de ferrovias. Na Europa, surgem modelos urbanos que através de adaptações, modificações e reconstruções intermináveis buscavam transformar a ordem urbanística estabelecida. Então rompendo com a imagem da cidade tradicional, (e conforme verificado no capítulo anterior), destacam-se experiências urbanas e formulações teóricas que pretendem dar resposta face às transformações sociais, económicas e demográficas decorrentes da Revolução Industrial. Sendo evidente um processo de Rotura entre cidade tradicional e cidade industrial, este não se apresenta enquanto ’sequência natural’ ou articulação do fenómeno histórico. 51 54 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.100. 55”A situação crítica da cidade industrial, principalmente no que se referia às suas condições higiénicas e sanitárias, levaram ao MOVIMENTO HIGIENISTA, na primeira metade do século XIX, responsável pela primeira legislação de saúde pública, que regulamentava medidas de limpeza das cidades, construção de esgotos e canais para águas livres de contaminação. A partir de 1830, de acordo com BENEVOLO (1994), epidemias de cólera se alastraram na Inglaterra. Com bases estatísticas, o higienista EDWIN CHADWICK (1800-90) estabeleceu a existência de uma correlação entre condições de vida e mortalidade. Seu trabalho, demonstrando que doenças transmissíveis eram causadas por miasmas surgidos da matéria em decomposição, levou ao nascimento das primeiras Leis Sanitárias inglesas (09/agosto/1844 e 31/agosto/ 1848)”.
Neste sentido, evocar-se-á a ausência do conceito de ‘Continuidade’, por outro lado, exaltar-se-ão, em simultâneo, preocupações que se referem à necessidade do crescimento urbano ocorrer segundo a natureza de um sistema contínuo. !“A preocupação básica de Cerdá era com as moradias e com o sistema v i á r i o ou, de maneira mais pomposa, com a habitação e comunicação. A comunicação, como ele acertadamente previu, iria transformar a cidade do futuro. Segundo ele a comunicação devia ser estudada tendo por modelo a anatomia ou a fisiologia, como um corpo composto por tecidos e animado por suas funções e processos56”. Debaixo das premissas de uma sociedade capitalista, nasce uma nova ordem de espaço urbano57. Sendo esta compreendida a partir do caos, de modo a garantir o desenvolvimento das novas relações sócio-económicas, dá-se uma revolução no modo de pensar a cidade. Paris, a maior cidade do mundo ocidental no século XVIII, exprimia uma implacável centralização de poder e, de acordo com Walter Benjamin , seria mesmo a capital do século XIX 58. Em meados do século XVIII, os arredores de Paris eram formados por pequenas indústrias, armazéns e um amontoado de habitações cujas condições se mostravam bastante precárias. Ao contrário de Londres - cidade predominantemente horizontal -, Paris constituía-se enquanto modelo de cidade concentrada e socialmente estratificada59 na vertical. No ano de 1851, Napoleão III - então imperador da nação - confrontado com a precariedade civil, doa a fortuna confiscada ao rei Luís Filipe e torna-se, ele próprio, responsável pela construção de casas populares. 52 56 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.126. 57”Por momentâneas, paisagens “passantes” ou olhares furtivos que se cruzavam nos becos e nas ruas da metrópole que começava a se desenhar, descreviam aquela experiência vivida do choque da modernidade e, segundo o filósofo Walter Benjamin (1892-1940), do desenvolvimento da cultura como “mercadoria”, o que marcaria a sociedade de massa”. 58Ibid., p.99. 59”Um prédio de apartamentos podia ter lojas e oficinas no andar térreo e luxuosos apartamentos de pé direito alto no primeiro andar. O preço caía à medida que se subia de andar, e pobres de toda a ordem ocupavam espaço sob a cobertura, as mansardas”. Ibid., p.102.
“O novo imperador tinha idéias ambiciosas quanto ao que deveria ser feito na capital e havia projectado por si mesmo, ainda antes da sua ascensão ao trono, um plano detalhado de aberturas de novas ruas e avenidas no tecido urbano antigo e de criação de parques60”. Para execução da proposta previamente desenvolvida, Napoleão III, nomeia como colaborador Georges-Eugène Haussmann (um funcionário público e ‘bonapartista’ convicto). Com a tarefa de rever o projecto imperial e definir sua concreta aplicabilidade, Haussmann apresenta um plano Plano de caráter estético, técnico e higienista, que incluiu a abertura de novas artérias para o trânsito nos velhos bairros; a criação de praças e grandes parques; a urbanização de terrenos periféricos, através da construção de novos subúrbios; a reconstrução de prédios ao longo dos recentes alinhamentos; e a renovação dos sistemas de água, saneamento, iluminação e transporte público; além da reforma de todo o sistema administrativo parisiense, com descentralização e instalação de novos edifícios públicos. de carácter estético, técnico e higienista, que incluiu a abertura de novas artérias para o trânsito nos velhos bairros; a criação de praças e grandes parques; a urbanização de terrenos periféricos, através da construção de novos subúrbios; a reconstrução de prédios ao longo dos recentes alinhamentos; e a renovação dos sistemas de água, saneamento, iluminação e transporte público; além disso, previa ainda a reforma de todo o sistema administrativo parisiense, com descentralização e instalação de novos edifícios públicos. “(...) Haussmann [...] percebeu que esse plano somente poderia ser realizado caso o suprimento de água e o sistema de esgotos de Paris fossem inteiramente reorganizados; para tanto, foram construídos novos ramais de esgotos para levar os efluentes para o Sena fora do perímetro da cidade e novos aquedutos para aumentar de modo significativo o suprimento de água61”. De igual modo, sendo imperativa a expansão da área urbana, foi necessário alterar o traçado das ruas. Neste sentido, rasgaram-se amplas avenidas que, uma vez arborizadas em torno do centro da cidade, interligavam os principais prédios públicos e melhoravam 53 60O Plano de Haussmann (1853-69) acabaria por encontrar repercussões nos planos de Florença (1864), Marselha (1865), Estocolmo (1866) e de Toulouse (1868); de igual modo, influenciou as propostas que se seguiram para Roma, Bolonha, Colónia, Leipzig, Copenhague, Adelaide e Brisbane, entre outras”. 61 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.120.
as condições de circulação viária nos anéis interiores. No alinhamento das novas artérias que surgiam, implantavam-se edifícios sujeitos a regulamentação: impunha-se um conjunto de normas restritas quanto aos materiais de acabamento; altura de cornijas,linha de telhados, avanço de varandas em relação à via pública, entre outros. Contudo, apesar da preponderância das regras de edificação, é ao nível da criação de parques urbanos62 que se destacam particularidades no plano para a cidade de Paris. Fig. 2.1 - Mapa das intervenções de Haussmann em Paris. “Eles presentearam Paris com parques contornando a cidade, cujas elaboradas variações demonstram a influência do paisagismo “pitoresco” inglês [...] fazia parte do projecto a reorganização dos canais, com suas velhas eclusas transformadas em pequenos parques, de modo que acrescentassem um elemento teatral à atividade de transportes. A associação entre Napoleão e Haussmann contribuiu muito para fazer de Paris a “capital do século XIX63”. 54 62Esta, era uma preocupação pessoal do imperador. A qual foi executada com a colaboração do paisagista Alphonse Alphand e Haussmmann. RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.110. 63 Ibid., p.120.
‘Anunciados’ os preceitos formais da nova prática urbanística, por toda a França foram repercutidos ecos da cidade de Paris: modelos urbanos em que a abertura de parques públicos nos respectivos planos demonstrou ser prioridade oficial para sua consolidação enquanto prática64. Um outro tipo de plano que vem dar resposta à problemática demográfica65 e seu respectivo processo de crescimento na cidade (em directa rotura com a cidade medieval), é o plano de Idelfons Cerdà y Suñer, a Ensanche de Barcelona. “Embora não fosse uma capital, Barcelona constituía o exemplo mais gritante de tal processo de crescimento, uma vez que, diferentemente do resto da Espanha, a Catalunha estava rapidamente se industrializando. A população de Barcelona passou de 35 mil para 115 mil habitantes ao longo do século XVIII, alcaçando 175 mil habitantes em 1854, grande parte deles morando em cortiços tão abarrotados quanto aqueles de Manchester ou Liverpool. Era a cidade com as mais alta densidade populacional da Europa e possuía, consequentemente, uma das mais altas taxas de mortalidade66”. Após a demolição das muralhas medievais na cidade, o serviço municipal abriu um concurso de propostas para a expansão urbana de Barcelona. Deste concurso saiu vencedor Cerdiá 67 com um plano-projecto para a cidade que não tinha sido levado a concurso. Também nele, as reflexões urbanísticas representam o pensamento de uma nova geração. De natureza mais pragmática, Cerdá demonstra ser fundamental entender a evolução da cidade como um processo em construção, assim, para a cidade de Barcelona 55 64 Prática Urbanística cujas raízes assentam nos ideais “bonapartistas”(...) “Napoleão investiu boa parte da energia do império e de suas finanças no projecto de Paris. Sem dúvida, o prestígio económico e cultural constituía a sua principal motivação, embora tenham sido atribuídos motivos bem menos honrosos tanto ao imperador como a Hassmann: a ganância financeira, é claro, e o traçado de avenidas rectas como forma de controle das multidões (uma vez que a artilharia podia atirar sobre as massas defendidas por barricadas [...] o principal objectivo de Haussmann e do imperador foi aquele bem declarado: propiciar uma capital burguesa, salubre e organizada”. RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.121. 65(...) “um grande número de cidades antigas menores, localizadas em torno do Mediterrâneo, também estavam se expandindo rapidamente para além de seu centro urbano medieval, chegando a multiplicar a sua área em poucas décadas [...] essas cidades tendiam a se desenvolver “racionalmente” - ou seja, segundo padrões retilíneos de ruas e praças, acrescentadas aos seus centros, em geral de traçado irregular”. Ibid., 2004. 66 Ibid, 2004, p.120. 67Idelfons Cerdá y Suñer: ”Um diplomado - como alguns dos políticos e funcionários públicos do governo liberal de 1854 - pela Escola de Engenharia de Madrid, a qual seguia o modelo de ensino de Polytechnique de Paris. O projecto era, em muitos aspectos, um ensaio de engenhaia social. Ele era um político de esquerda liberal”. Ibid, 2004, p.125.
elabora um projecto que se baseia, essencialmente, em duas funções: habitar e comunicar. No plano que concebe, o contraste existente entre a vasta malha reticular, (aberta e dando tratamento igual a todas as áreas da cidade) e o tímido núcleo original, é evidente. “Em seu projecto, cada quarteirão deveria ter uma planta quadrada com os cantos chanfrados, fazendo com que todos os cruzamentos de ruas fossem octogonais, para facilitar o fluxo de trânsito. A cidade deveria ter densidades relativamente baixas: Cerdá propôs que as edificações ocupassem apenas dois lados do quarteirão, com jardins na facha central, embora também tivesse considerado várias permutações dessa geometria. Ele também se mostrou muito firme no que se refere às atividades sociais: um centro social religioso para cada conjunto de vinte e cinco quarteirões, um mercado para cada quatro desses conjuntos e um parque para cada oito68”. Fig. 2.2 - Idelfonso Cerdá: Plano para Barcelona. Os espaços e o sistema de circulação automóvel; quarteirões tal como imaginados por Cerdá e tal como foram imaginados. 56 68 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.126.
O aspecto progressista da cidade de Cerdà está na previsão de uma distribuição igualitária não só de serviços e equipamentos, como das condições de insolação, possível graças à definição de quarteirões passíveis de múltiplas variações no seu parcelamento e na disposição de suas edificações, jardins e ruas internas. Os quarteirões da Ensanche deveriam ser verdadeiros centros cívicos, permitindo todo tipo de uso; cada conjunto de cinco quarteirões seria um bairro. Outra componente de destaque em Cerdà reside na disposição independente de ruas e espaços públicos, permitindo a formação de um tecido urbano morfologicamente novo em comparação com o tecido compacto das cidades tradicionais. Poder-se-á dizer que a flexibilidade introduzida por Cerdà no modo de ocupação de seus quarteirões e na disposição das edificações em seu interior constitui o carácter inovador da sua proposta para a cidade. “Foi o projecto de Cerdá que serviu de base para a revitalização de Barcelona nas duas últimas décadas do século XX. O projecto e a sua projecção para o futuro foram justificados posteriormente por Cerdºa em sua obra-prima incompleta, Teoria geral da urbanização, publicada em 1867, o mesmo ano em que apareceu o primeiro volume de Das Kapital [O Capital] de Marx. O seu livro foi o primeiro a empregar a palavra “urbanismo” e a expor a noção de uma disciplina sem separado, preocupada com o estudo e a feitura das cidades. Cerdá tinha consciência de estar abrindo caminho para algo novo: os seus termos e a análise que faz apresentam ao leitor uma matéria completamente nueva, intacta, virgen: uma ciência baseada na evidência estatística e no levantamento físico. Ele formulou a noção de “levantamento antes do planejamento” um levantamento que deveria ser histórico e estatísticogeográfico69”. Como verificado, no âmbito da arquitectura e urbanismo, a noção de ‘Continuidade’ surge representada por conceitos de espaço morfológicos, funcionais e semiológicos, assim definindo a evolução política, económica e, sobretudo, cultural de determinada sociedade. A noção de ‘Continuidade’ refere-se, portanto, à natureza de um modelo de intervenção que acrescentando novas estruturas e relações ao espaço da Cidade sugere um grau de dependência face às premissas do cenário urbano préexistente. Expressa-se segundo uma relação de contacto com o Passado e prevê uma 57 69 RYKWERT, Joseph, op. cit., p.145.
Diversificadas pelas suas múltiplas características morfológicas, nas médias e grandes cidades mundiais observaram-se, em simultâneo, sucessivos movimentos de crescimento periférico por expansão e concentração72 (verificando-se também, nos diferentes casos, que os modelos de transformação urbana propostos foram produto consecutivo da natureza económico-social inerente à respectiva cidade). Assim, no que se refere à problemática da rápida expansão urbana, para além da questão da superpopulação, punha-se também o problema causado pelo sistema de comunicações. O sistema de comunicações, iria transformar ‘a cidade do futuro’. “O cavalo - cujos dejetos amoníacos causavam constantes queixas contra a poluição urbana - estava congestionando as ruas da cidade [...] às carruagens, burros de carga e carroças viriam se somar os ônibus - os primeiros veículos de transporte público de massas 73”. Nas diferentes cidades, as redes de circulação viária transformavam todo ambiente citadino e, sendo responsáveis pelas emergentes situações de tráfego74, as redes de comunicação destacavam a sua presença enquanto problema que urgia solução. “(...) na primeira década do século XX, o padrão de tráfego da cidade moderna estava definido, embora o número de veículos estivesse crescendo exponencialmente. A produção de automóveis em escala industrial somente se tornou possível pouco antes de 1900; porém à medida que a primeira década do século avançava, ficou claro que o seu impacto sobre a circulação iria ser enorme. Alguns urbanistas começaram a ficar preocupados e mesmo alarmados75”. Neste contexto, Eugène Hénard (1849-1923) dedica-se sobretudo ao Futuro da Cidade de Paris. No modelo visionário que apresenta, propõe a racionalização dos sistemas urbanos de circulação através da sua organização em diferentes níveis (sobreposição das áreas públicas, arruamentos e infra-estruturas). Para tal, sugere o 64 72No entanto, desde uma perspectiva mais abrangente, poder-se-á afirmar que, devido aos altos índices populacionais, os modelos de construção em altura tendem a dominar a imagem da cidade contemporânea (considerada, assim, símbolo da prosperidade económica). 73 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.102. 74Ibid., p.127. 75Ibid., p.132.
desenvolvimento de plataformas em betão onde criteriosamente se distribuem vias pedestres e rodoviárias - ambas, facultando acesso ao parque habitacional. A estratégia desenvolvida através da sobreposição de ‘tabuleiros urbanos’ - acima e abaixo do nível das habitações - prevê ainda a necessidade de recolha de lixos, a distribuição de mercadorias e a gestão de uma rede pública de transportes. “Em 1906, Eugène Hénard [...] propôs alguns artifícios simples para resolver os intratáveis problemas de trânsito [...] um dos artifícios era uma forma primitiva de cruzamento em trevo para artérias urbanas mais movimentadas. Outro artifício - mais complexo e dispendioso - era a construção de vias em múltiplos níveis para comportar diferentes formas de tráfego subterrâneo, bem como elevadores públicos. “O mais popular deles viria a ser a rotatória (ronde giratoire). Os veículos deviam circulá-la em uma única direcção e sair ao alcançar a rua adequada [...] os pedestres alcançariam o centro por meio de passagens subterrâneas76”. Por oposição às radicais propostas modernas que intuíam a total destruição e reconstrução das Cidades, na perspectiva de Hénard o modelo de plano urbano que sugeria (baseado num esquema de sobreposições) seria mais facilmente aplicado no sentido de que garantia alguma preservação face à identidade que as cidades já possuíam77. Defendendo que não é necessário deslocar o património herdado na abordagem feita à cidade, e convencido de que a rotatória seria a solução para os problemas de tráfego, Eugène Hénard torna-se popular e as suas soluções acabam por ser adoptadas em países como a Alemanha e a Inglaterra. Apesar da rotatória não ser uma ideia inovadora (a primeira rotatória 78 de Paris tinha já sido implantada por ordem de Napoleão, no portão de Neuilly - a Barrière de l’Etoile), os espaços circulares tendem a repetir-se sucessivamente nas diferentes cidades internacionais, de modo que os sistemas de circulação assumem uma percentagem cada vez maior na ocupação da superfície de solo. 65 76RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.133. 77Eugène Hénard: ”(...) ele ficara famoso com um estudo detalhado e consciencioso dos edifícios de Paris a serem preservados”. Ibid. 78”Sob Napoleão III, foi organizada como uma zona monumental livre de atividades comerciais”. Ibid.
“Esse aumento não ocorreu como resultado de mudanças observadas, mas como antecipação delas. É por essa razão que sou tentado a concluir que tal aumento está relacionado com algo diferente: com uma mudança na natureza do espaço público. A rotatória é, essencialmente, um espaço de passagem, e não um espaço para se estar ou habitar 79”. De facto, ao contrário dos espaços circulares que na Antiguidade apontavam para a existência de áreas públicas, como teatros e anfiteatros, a planta de forma circular, que com e após a Revolução começa a aparecer nos planos urbanísticos, denuncia, através do seu carácter funcional, a ausência de zonas públicas de interacção ou espaços de referência, assim constituindo-se uma importante fragilidade na cidade do século XX. A afirmação da Cidade pela recuperação dos valores herdados e reconquista da esfera pública (enquanto palco onde habita a sociedade) exalta a sua formação de acordo com a problemática da identidade, portanto, conceito que se associa à necessidade de uma estratégia por via da Continuidade). Em meados do século XX, após o enfraquecimento das propostas urbanas que apontavam para uma imagem de Futuro perfeito, a cidade existente voltou a destacar-se como objecto de estudo. À recuperação do conceito aliaram-se as noções de ‘incerteza’ e ‘ambiguidade’ enquanto elementos próprios da contemporaneidade. Diversidade e multiplicidade emergiram sob forma de conceitos vitais para o desenvolvimento urbano. Ao crescimento económico, fez-se corresponder o papel de agente renovador ou produtor de novos cenários na cidade. Neste sentido, o novo debate cultural e arquitectónico defende que o actual estatuto da cidade promover-se-á tendo como base de reflexão a análise dos seus problemas e exaltação das suas qualidades. Num contexto de diversidade cultural e multiplicidade funcional, a cidade existente confere ao cidadão um merecido protagonismo. A doutrina urbanística não se apresenta dependente dos processos de intervenção que, idealizando um Futuro de perfeição, se estabelecem por via da Rotura. O modelo da cidade perfeita é abandonado. 66 79RYKWERT., Joseph, op. cit., p.134.
“Pontos de orientação são essenciais para qualquer forma não insana de vida urbana ou rural. Sem eles, um cidadão não consegue “ler” quanto mais “entender”, o seu lar. “Um meio diferenciado e legível não só oferece segurança, como também aumenta a profundidade e intensidade potencial da experiência humana”, escreveu Kevin Lynch [...] Lynch e seus assistentes perceberam que o mapa apreendido da cidade - a maneira como as pessoas reconstituem a cidade em suas mentes - pode ser muito diferente de qualquer de qualquer levantamento “objectivo feito por cartógrafos. Qualquer cidade, bairro ou quarteirão precisa não apenas de pontos de referência que os indiquem, como também de locais mais ou menos diferenciados para reuniões semipúblicas e semiprivadas - além de locais de encontro como tavernas, restaurantes, cafés e bares, que se tornaram tão comuns na cidade burguesa do século XIX80”. Lynch, na sua obra ‘A Imagem da Cidade’, fixa um conjunto de perspectivas capazes de definirem a sua interpretação urbana, de entre elas, a hipótese de que a Cidade que rompe com o Passado se traduz num lugar não compreendido pela sociedade, portanto, um espaço onde as pessoas são incapazes de se situarem ou exprimirem uma posição face ao ambiente edificado no qual se inserem. O autor reivindicava, portanto, a consolidação do lugar vinculado-o à memória visual e colectiva da sociedade - condição que estabelecia ligações entre a forma urbana e a realidade. Valorizando a Cidade existente e as referências espaciais que a mesma comporta, o autor defende uma constante renovação urbana através de uma prática que acentua a sua prévia identidade (de facto, uma prática urbanística que enaltece o processo de intervenção por via da Continuidade). (...)“Lynch identificou cinco tipos de elementos básicos que ajudam a criar os mapas mentais do ambiente urbano: (1) trajectos: são ruas ao longo das quais as pessoas viajam, tais como as ruas principais, linhas de comboio, etc.; (2) orlas: são elementos lineares que não funcionam como trajectos; podem ser barreiras entre diferentes partes da cidade, como muros, orlas de desenvolvimento, margens, etc.; 67 80 RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.186.
(3) zonas: são secções mais ou menos amplas da cidade, apreendidas de forma global e homogénea e como distintas umas das outras; (4) nós: são espaços de intersecção e pontos de polarização, isto é, pontos estratégicos na cidade, para os quais e dos quais os residentes se deslocam, como rotundas de tráfego, estações de caminho de ferro principais e praças movimentadas; (5) pontos de referência: são pontos encarados do ponto de vista de uma vantagem externa, elementos facilmente identificáveis devido ao seu tamanho ou carácter simbólico; alguns pontos de referência, como uma grande torre, são consideravelmente distintos e podem ser vistos de grandes distâncias; outros são de pequeno alcance, como por exemplo, a fachada de um edifício. Estes elementos intervêm na formação da imagem da cidade, em função da sua qualidade visual (forma, volume), da sua singularidade (clareza das silhuetas, nitidez das fronteiras), da sua situação (mais ou menos estratégica) e da sua significação social e histórica81”. Fig. 2.4 - Kevin Lynch: Imagem da Cidade. Ilustrações dos propósitos do texto. 68 81MUGA, Henrique - Psicologia da Arquitectura. Porto: Edições Galviro, Lda., 2005, p.209 e p.210.
Dado que no cenário urbano residem fenómenos interactivos profundamente enraizados no Passado, torna-se imperativo reconhecer-lhe valores sociais e padronizar o ambiente envolvente. A pertinência inerente à gestão dos respectivos factores demonstra a condição de um modelo urbano que não é alheio à correspondência entre observador e meio edificado. Este último, sugere especificidades e relações que o observador organiza mentalmente e interpreta, conferindo assim novos significados a tudo o que vê (sendo verdade que cada indivíduo cria a sua própria imagem da cidade, porém, é também válida a certeza de que se promove o consenso em relação à interpretação das formas existentes). Fig. 2.5 -Mapa Cognitivo da cidade do Porto. 69
Uma imagem clara proporciona ao utente uma deslocação fácil e directa, contudo, um ambiente ordenado, que considere a importância dos elementos básicos que ajudam a criar mapas cognitivos, vai mais além e exprime-se como um vasto sistema de referências presente. Uma imagem clara do entorno constitui uma base valiosa para o desenvolvimento do indivíduo. Um adequado reconhecimento ao nível da atmosfera ambiental, projecta-se no cidadão enquanto estado de emotivo de segurança. Efectivamente, considera-se que um ambiente caracterizado pelo seu índice de legibilidade não só oferece segurança como também reforça e aprofunda a intensidade da experiência do Homem no lugar. Neste sentido, encara-se a cidade como um poderoso símbolo da sociedade. Sendo possível decompor a forma urbana em significado, estrutura e identidade, é também necessário classifica-la a partir dos seus elementos primordiais. De entre vários: o sistema viário - preponderante na limitação, organização e relação das partes; o quarteirão - elemento formal que define características próprias da cidade; os edifícios de referência histórico-cultural - directos constituintes da memória e identidade - e as áreas que entre ambos permanecem. Fig. 2.6 -Gorden Callen: Townscape. Análise da visão serial num pequeno percurso. 70
Assim, partindo duma análise geral onde se observam condições emergentes, reconstrói-se a forma urbana. No decurso do processo, deve atender-se à necessidade de interacção entre todos os elementos afim de controlar hipotéticas inflexões que muitas vezes resultam de uma inconsequente gestão. A leitura das relações entre forma e contexto demonstra ser preponderante para a constituição do modelo urbano. Os fenómenos de evolução cultural e social, contíguos à necessidade de renovação do ambiente urbano, constituem-se enquanto instrumentos da fórmula que estrutura o crescimento da cidade. Aqui, destaca-se também Aldo Rossi e o contributo da sua análise, cujos estudos foram influentes para a prática urbanística a partir da segunda metade do século XX. Fig. 2.7 - Aldo Rossi: Projecto para o Palácio da região em Trieste, 1964. 71
Em ‘A Arquitectura da Cidade’ foca a abordagem sobre as mais importantes cidades do mundo e, por oposição às perspectivas modernistas, claramente defende a autonomia da forma em detrimento da função - a funcionalidade é aqui desvalorizada devido ao aspecto da sua natureza mutável, pelo contrário, exalta-se a memória, traduzindo um estado de forma contínua. Segundo o autor, a forma não se refere somente à geometria dos volumes, esta vincula-se à História, aos edifícios e ao lugar. “As analogias do lugar são já o projecto: eis a chave mais autêntica para compreender o método rossiano, ‘arte da memória’ e escuta da vocação dos lugares que se traduz num contínuo recontar das próprias raízes82”. Rossi, considera que na forma reside a ‘chave’ do lugar e, uma vez que o Tempo o transforma - o lugar - admite a sua renovação formal. Defendendo que a transformação urbana não se resume à problemática do crescimento demográfico, aponta para movimentos de concentração ou expansão como modo de se controlar a sua organização. Pelo seu valor construtivo, histórico, cultural e memorial, encara os monumentos como sendo o elemento de maior persistência no ambiente urbano. Estes, constituem base de fortalecimento para a formação da identidade colectiva de determinada sociedade (sendo a habitação apenas um elemento que se estrutura em torno das principais referências do tecido urbano). 72 82PORTOGHESI, Paolo - Depois da Arquitectura Moderna. Lisboa: Edições 70, [s.d], p.159.
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Fig. 3.2 - Gropius e Scharoun: o bairro Siemensstadt (Berlim, 1930). Plano de vista de um sector e tipos constructivos. 80
Dadas as condições, consideram-se as premissas urbanas do Movimento Moderno como sendo as mais influentes para o desenvolvimento do urbanismo no século XX, de entre elas, destacando-se a diferenciação das funções urbanas; os edifícios isolados que se implantam em áreas verdes desafogadas e a norma organizativa que separa os diferentes eixos de circulação (pedestres e rodoviários, de velocidade lenta e rápida. Walter Gropius (1883-1969) e Le Corbusier (1887-1965) são aqui tidos como agentes principais e formulam um conjunto de propostas que, conceptualmente, traduzem os novos vínculos existentes entre espaço e sociedade. Fig. 3.3 - Cidade Linear Industrial. (A) Habitação/Casas Dispersas; (B) Habitação/Bloco; (C) Via Transversal de acesso à Fábrica; (D) Via de separação entre Habitação e Serviços Comuns; (E) Via Pedonal de ligação; (F) Zona Verde de Protecção e Separação; (G) Serviços. “Os projectos mais famosos de Corbusier daquela época eram deliberadamente provocativos e polêmicos, razão pela qual suas associações “clássicas” em geral passam despercebidas. A sua “cidade para 3 milhões de habitantes” ocupava uma área rectangular com arranha-céus de planta em cruz e sessenta andares, cercada por um tapete de habitações formado por blocos denteados em meio a parques90”. 81 90RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.176.
O alojamento de toda a população (que havia aumentado consideravelmente) continua a ser uma necessidade primordial, contudo, altera-se a condição do edifício que alberga, este, é agora tido, acima de tudo, como um elemento compositivo isolado. No respectivo enquadramento, os urbanistas do Movimento Moderno conceberam modelos de cidade que se mostraram ser o maior símbolo de rejeição e Rotura com a cidade tradicional (modelos formulados nos Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna - CIAM). De igual modo, cresceu a escala inerente aos edifícios da nova Era e, se a grandeza das dimensões constituiu o novo cenário da paisagem urbana, a velocidade traduziu o modelo da sua apropriação. Ao aparecimento do automóvel juntou-se o elevador: elemento adequado à necessidade de deslocação no próprio edifício (ambos, vistos como elementos que contribuíram para novas formas de percepção urbana). Morfologicamente, o conceito de escala identifica-se pela presença de diferentes dimensões (maiores ou menores, por imposição ou submissão), bem como pelo processo das relações que nele se estabelecem. No que se refere a uma ordem de escalas por imposição, assumem-se os edifícios verticais, ou skyscrapers, como símbolos da modernidade, fruto do progresso e dos avanços tecnológicos, estes, caracterizam a ambição das várias cidades mundiais em fixarem o seu poderio económico. “Os primeiros prédios nova-iorquinos realmente altos - todos eles construídos com alguma forma de estrutura metálica - haviam sido os novos armazéns com quatro ou cinco andares para lojas do tecido, os hotéis e os escritórios de companhias de seguro dos anos 40 e 5091”. Ainda que a condição Europeia se enquadre no mesmo contexto de globalização económico-social, o carácter individualista e afirmativo das respectivas torres é tido como característica fundamental sobretudo nas cidades Norte Americanas. No entanto, a interpretação Europeia (habituada à densidade construtiva de baixa altura), foi desvirtualizando a imposição da regra. Efectivamente, o início do século XX ficou marcado pelo aparecimento dos novos conjuntos de edifícios verticais que paradoxalmente se opunham ao modelo da cidade existente. As novas concepções, 82 91RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.284.
discordando com as origens da forma precedente, apenas formularam interacções com os elementos pertencentes à nova escala urbana. No plano de Voisin, Le Corbusier propõe uma sucessão de edifícios megaestruturais (com cerca de 60 andares) que se repetem ortogonalmente no tecido urbano e, na medida em que interagem como um todo, afastam-se do conceito primordial da torre individualista americana. “(...) o “Plan Voisin”, de 1925, aplicava o mesmo tratamento a Paris como um todo, preenchendo o centro da margem direita do Sena com uma grelha de arranha-céus, entre os quais os principais monumentos da cidade (o Louvre, a Notre Dame) sobreviviam espalhados como meros incidentes [...] o “Plan Voisin”, apesar do seu impiedoso tratamento do traçado da cidade e de sua exaltação saint-simoniana de uma elite administrativa e empresarial, obedece a um contexto urbano e histórico que se tornaria ainda mais marcado na obra de Corbusier do pós-guerra92”. Fig. 3.4 - Le Corbusier: o Plan Voisin, 1925 - proposta para reestruturação do centro de Paris. 83 92RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.176.
A transformação da morfologia urbana através da gestão de escalas demonstra ser um factor determinante quanto à eventual preservação ou perda da sua Continuidade formal. Deste modo, se na base das respectivas relações prevalecer o discurso da desproporção, temos como produto a imagem de uma cidade descaracterizada, (conduzindo a momentos de inflexão na análise do espaço urbano). Em paralelo, no decurso do produção de espaço modernista, identificam-se nas composições volumétricas edifícios (sobretudo nos do período Pós-Guerra) que, (pela obsessão funcionalista e racionalista que cumprem), exprimem a sua natureza com carácter de impessoalidade, assim acentuando a condição da Rotura urbana. “Todos eles demonstram a sua total devoção ao seu muito citado lema: “menos é mais” (mais tarde satirizado com “menos é uma chatice”), bem como sua crença na ordem como única salvação contra a decadência omnipresente da sociedade [...] a princípio esses perigos não eram óbvios. Para alguns, linhas limpas e superfícies lisas pareciam muito atraentes após as linearidades complicadas e a desordem das décadas precedentes. O ornamento não apenas era inútil, era também extravagante - como chamava já no final do século XIX o arquitecto e jornalista austríaco Adolf Loos93”. Contudo, a partir da segunda metade do século XX, a dialéctica funcionalista é fortemente contestada. O carácter impessoal das formas edificadas, directamente relacionado com as suas superfícies nuas, provoca reacções por parte do público: a rápida difusão do grafite, é um dos sinais que melhor traduz a respectiva insatisfação social. “(...) “nós somos o que está escrito nas paredes” [...] a insatisfação com paredes nuas que o grafite reflete era tão generalizada que foram tentados vários paliativos. Nos anos 50 houve uma tentativa de volta a algum tipo de ornamentação moderna94”. As novas expressões culturais, políticas e económicas enquadram-se num cenário em cujas perspectivas de Futuro absoluto são dissolvidas. Sendo a arquitectura um reflexo da sociedade que nela habita, simultaneamente, emerge a reformulação da sua linguagem. A partir de 1960, motivados pelas transformações culturais decorrentes na 84 93RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.178 e p.176, respectivamente. 94Ibid, 2004, p.181 e p.182.
sociedade, alguns arquitectos interrogam-se quanto às noções fixadas pelo Movimento Moderno, de entre elas, questionando os fundamentos que rejeitavam valores estéticos decorativos e clássicos. A certeza dá lugar à dúvida - tendência que naturalmente encontra correspondência no campo formal da arquitectura, tanto nos padrões elementares apresentados pelo Pós-Modernismo95 como nas concepções urbanísticas que lhe são inerentes. Na constituição de uma renovada perspectiva urbanística, a complexidade e incerteza são, portanto, noções dominantes. À Rotura evidenciada pelo Estilo Universal (modelação homogénea, estrutura racional e absoluta crença num Tempo Futuro perfeito), sobrepõem-se conceitos espaciais que visam salvaguardar a identidade e história das cidades existentes. Os fenómenos desvalorizados pelo Movimento Moderno passam a ser matéria de investigação. “A unidade representada pelo pós-modernismo surgiu da disposição à reavaliação que afligiu os modernistas mais ponderados nos anos do pós-guerra. Já por volta de 1950, muito se discutia a necessidade de uma “nova monumentalidade96”. A cidade tem agora a primordial função de (re)construir História e preservar identidades que lhe pertençam, de novo, articulando manifestações próprias de uma sociedade em mudança. Neste sentido, argumentar-se-ia que uma atitude revolucionária não implicava, necessariamente, a destruição da realidade existente para que, numa segunda fase, se procedesse à sua efectiva reconstrução. As Futuras propostas seriam então produto de uma análise crítica face às formas do presente, reconhecendo-lhes, para tal, toda a sua diversidade e complexidade. Na 85 95(...) “Desta renovada atenção pela arquitectura como produto colectivo, nasceu uma compreensão muito mais profunda do fenómeno cidade e uma direcção de pesquisa que, depois de um longuíssimo intervalo de silêncio, restitui à arquitectura a ‘palavra’, através da reapropriação da metáfora, do símbolo, da capacidade de se modelar não só a partir das ideias abstractas, mas a partir do gosto e sensibilidade das gentes e, obviamente, não só para aceitar mas também para criticar e discordar, partindo, porém, sempre do conhecimento e da compreensão de códigos mais difusos. Os expoentes do Post-Modern são postos em evidência por Jencks, não com base na pertença intencional a um movimento organizado, mas como criadores de um novo clima, participantes, ainda que com diversas orientações pessoais, da nova onda emergente. Ao lado de Venturi e Charles Moore, de Robert Stern, de Stanley Tiergman, de Thomas Gordon Smith, Jencks põe arquitectos como Lucien Kroll, Ralph Erskine, Peter Eisenman, Luis Clotet e Oscar Tusquets, Andrew Derbyshire, Aldo van Eyck e Teo Bosch: um conjunto de arquitectos que testemunham uma abertura de orientação nada limitada; as suas obras são lidas como sintomas, avisos de uma transformação que terá como terreno de acção os anos oitenta”. PORTOGHESI, Paolo, op.cit., [s.d], p.47 e p.48. 96RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.183.
medida em que se considera a importância de todos os ‘Tempos’ presentes e se indaga quanto a questões de permanência ou ausência97, conclui-se que a noção de Futuro surge conotada pela dúvida e incerteza. De acordo com a interpretação de Roberto Venturi98, o Pós-Moderno operaria segundo os conceitos de complexidade, contradição e ambiguidade. Acresce, portanto, que pensar a cidade desde uma perspectiva incerta e a partir de valores existentes permite equacionar infinitas possibilidades urbanas e desvendar o incompreensível. Venturi expõe em ‘Complexity and Contradiction in Architecture’, com muita seriedade e de modo directo, o seu gosto e as suas teorias sobre a arquitectura [...] oportunamente apresentado por Scully como sendo uma ‘obra incómoda’, inicia comum ‘pequeno manifesto’ a favor da obra de arquitectura equívoca [...] ‘Complexity and Contradiction’ acaba com uma peroração do ‘difficult whole’, do ‘conjunto difícil’99”. Assumida como nova tendência, o ‘Pós-Modernismo’ (como o próprio nome indica), pretende identificar toda a produção arquitectónica que surge depois do Movimento Moderno. No que respeita à sua caracterização, é ilusório querer resumi-la a um conjunto de princípios cuja aplicação é prática, de facto, trata-se de um conceito ambíguo, visto ser uma mescla de estilos arquitectónicos ocidentais (conjugando inclusivamente o modernismo, que em tantos aspectos contraria). Embora muitas vezes caracterizado pela sua efemeridade (com propostas que remetem para a concretização de cenários descartáveis ou executadas para meros fins 86 97”O principal trabalho do arquitecto consiste na organização de um conjunto único partindo de elementos convencionais, introduzindo criteriosamente elementos novos, quando os antigos se revelam impróprios [...] se ele utiliza as convenções de um modo inconvencional, se ele dispõe objectos comuns de modo não comum, muda o seu contexto e pode, também, utilizar um tipo consolidado para obter um efeito novo. Objectos familiares, postos num contexto não familiar, são percebidos mais como objectos novos do que como objectos antigos”. PORTOGHESI Paolo, op.cit., [s.d], p.94. 98”Nas suas obras mais recentes, Venturi oscila entre a recuperação de um vínculo com a tradição regional americana e um uso discreto e controladíssimo do vocabulário moderno, condicionando sempre as escolhas linguísticas ao contexto ambiental, para além das exigências dos clientes [...] À motivação de uma correspondência da complexidade, com o ‘espírito do tempo’, Venturi acrescenta a do valor estético da ambiguidade (...)” Ibid., [s.d], p.94. 99Ibid., [s.d], p.91, p.92 e p.94, respectivamente.
comerciais), o Pós-Modernismo assume protagonismo na medida em que contribui para o enfraquecimento da arquitectura moderna nos anos 60 e 70. Num momento em que tudo parecia já ter sido inventado, os Pós-Modernos destacavam-se por não temerem a introdução de elementos clássicos nas suas obras, chegando mesmo a serem concebidas propostas cujas misturas se traduziam em ‘absurdos’ e que visavam uma tomada de posição por parte do espectador. O instrumento percursor de tal intenção generalizada seria a obra de Venturi Complexity and Contradiction in Architecture, publicada em 1966: pela defesa de uma arquitectura renovada que se opunha ao modelo organicista do século XIX, adaptável e sem ideal, contudo: “Inúmeros edifícios pós-modernos se parecem muito com os prédios sem ironia alguma característicos do realismo social, tal como foi praticado na Europa Oriental [...] apesar de muita discussão sobre novos monumentos e até sobre uma nova monumentalidade (a qual teria influência imediata sobre alguns dos melhores arquitectos da época), não foi sugerida nenhuma resposta ou fórmula definitiva. Está claro que existiram mais modernismos que pós-modernismos e, na verdade, nenhum desses“movimentos” pode ser considerado realmente como um estilo 100”. Assim, no ambiente edificado do cenário urbano continuam a prevalecer as ‘formas impessoais’, nele reina a predominância daqueles que simplesmente passam (e ainda mesmo que quotidianamente, continuam sendo estranhos para os já poucos que na cidade habitam). A cidade contemporânea, essencialmente promovida pelos seus equipamentos e conjuntos infra-estruturais, assume a categoria de área metropolitana. 87 100RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p. 183 e p.184.
Fig. 3.5 - Shibuya - Tokyo: Exemplo de uma infra-estrutura interligando-se com o edificado circundante. (...) a metrópole como um local de pessoas sós, isoladas, desprovidas de vínculos sociais sólidos: ‘as relações e os afazeres típicos da vida metropolitana são normalmente tão variados e complexos que sem uma pontualidade estrita toda a estrutura cairia por terra num imenso caos (Simmel, 1950, p.412)101”. !Os grandes equipamentos desportivos, os terminais de transportes de intermodais, as galerias comerciais, ou mesmo as avenidas principais, não estabelecem qualquer tipo de relação com o conceito de espaço comunitário (perdendo-se a noção de vizinhança, os habitantes da metrópole são, à partida, um ‘grupo de desconhecidos’ apropriando-se do espaço). No respectivo palco urbano: !“Simmel defendeu a existência de quatro formas culturais distintas, mas !relacionadas entre !si, as quais podem ser encontradas como características !próprias nas áreas urbanas: (1) “Intelectualidade”, segundo a qual o habitante urbano “reage pela cabeça dele [sic], em vez de o fazer pelo coração” (Simmel, 1950, p.410); 88 101SAVAGE, Mike; WARDE, Alan - Sociologia Urbana, Capitalismo e Modernidade: Perspectivas sobre a Cultura Urbana. [s.l]: Celta, 2002, p.114.
(2) Os habitantes urbanos são “calculistas” (Ibid., p.412) - pensando antecipadamente as vantagens e as desvantagens de cada acção; (3) As pessoas são “blasé”. (4) Os habitantes urbanos escondem-se atrás de uma imagem protectora de descrição, revelando raras vezes as suas emoções ou raras vezes se expressando directamente a outros102”. !Desde a sua origem, a vivência urbana ou a actividade metropolitana foi, portanto, essencialmente moderna em todos os seus aspectos. Nela se constituiu uma sociedade dividida em classes e emergiram multidões sob o conceito de ‘massas’. O cosmopolitismo das cidades fez nascer um ‘novo Homem’: o indivíduo moderno. No retrato psíquico deste ‘novo Homem’ exaltam-se características como angústia e ambiguidade. Embora seduzido pelas variadas formas de modernização, ‘este Homem’ vive em conflito por reconhecer as suas limitações. Neste sentido, A Sociedade Invisível (de Daniel Innerarity), claramente traduz o dramático impacto da metrópole sobre a natureza humana, de igual modo, a análise Simmeliana sugere concordância quanto em torno da temática. !(...) “la mutación constante, por el ritmo febril de las sensaciones, e insiste en el !conocimiento racional como elemento que determina de forma essencial la !personalidad y como arma de defensa, necessaria y exclusiva (la facultad !intelectual sirve así de defensa a la vida sujetiva contra el poder opresor de la !vida metropolitana103”. !De modo geral, entre as críticas efectuadas sobre a vida urbana no espaço contemporâneo, verifica-se que as necessidades de adaptação espacial conduziram à transformação da postura nos próprios indivíduos, (quer enquanto Ser social e nas relações estabelecidas com o seu semelhante como na interpretação que os mesmos fazem do contexto em que se inserem). Torna-se cada vez mais acentuado o ‘afastamento’ entre ambientes periféricos (onde nas relações sociais subsistem ainda laços comunitários) e as áreas metropolitanas (lugar destinado às massas e ao desenvolvimento da vida anónima). 89 102SAVAGE, Mike; WARDE, Alan, op. cit., [s.l], p.114. 103BETTIN, Gianfraco - Los Sociólogos de la Ciudade: George Simmel - El Individuo y la Metrópoli. [s.l]: Gustavo Gili, 1982, p.65.
No Futuro, a importância do Estado perspectiva-se incerta. Num contexto de Tempo Invisível ou Indizível - próprio da sociedade contemporânea - localiza-se, por consequência, a problemática das cidades com projecções na produção do espaço. “Assistimos assim, através do efeito de jogo de todos estes factores heterogéneos e de todos estes modos de pertença entrecruzados, a uma verdadeira decomposição do espaço urbano, não só horizontal mas também verticalmente, não só material mas também simbolicamente, não só económica, mas também política e ideologicamente. A aglomeração moderna perdeu assim toda a sua relação com a polis, tornou-se uma sucessão, uma montagem, uma seriação, uma interferência de ‘processos’ e de ‘acontecimentos urbanísticos instáveis’108”. Por necessidade, no reconhecimento feito em torno das cidades, torna-se urgente ponderar os diferentes tipos de análise desenvolvidas pelas áreas de investigação social. Objectivando processos de requalificação, devemos, antes de tudo, compreender que a morfologia urbana não se apresenta isolada dos seus conceitos sociais. Como pudemos verificar, incorpora específicas categorias simbólicas que são pertença da sociedade (em determinado período do Tempo) e do lugar (de facto, vivemos referenciados pelo poder simbólico das coisas, devemos admitir que um mero conceito de cidade contemporânea enquanto rede diversificada pela oferta de funções e acontecimentos não abarca toda a sua complexidade). Metapólis (metrópole da era digital), Cidade Global, Cibercidade ou Cidade Inteligente, são apenas alguns do termos que surgem ramificados pelo conceito. No geral, todos exprimem o poder da virtualização. Simultaneamente, observa-se que as interpretações do espaço colectivo, cada vez mais, são individualizadas e carentes de sentido solidário (fomentando-se a busca de referências imateriais). Remetendo para o quadro dos hipotéticos processos de requalificação (por via de estratégias contínuas), concluímos que a problemática, sobretudo, incide na concepção pública do espaço. Desde a nossa perspectiva, a requalificação dos aglomerados contemporâneos não dispensa uma transformação na sua dimensão pública (em busca dos valores perdidos). 96 108FREITAG, Michel, op. cit., 2004, p.54.
Fig. 3.8 - O Homem e a Cidade Global. “Sem espaço público em sentido estrito, o poder é entendido como denominação, o estado como instância das regulações sociais e a opinião pública como lugar das manipulações dos meios de comunicação social [...] Pensar o espaço público exige hoje que se comece por examinar as suas formas substitutivas [...] com a actual crise da representação, a esfera política não parece estar em condições para configurar o lugar de construção deliberativa requerido por uma sociedade democrática avançada. Os actuais espaços sociais, na sua imediatez emocional, populista ou identitária, oferecem especial resistência no momento em que são configurados como espaços públicos, isto é, como âmbito de construção e representação social109”. 97 109INNERARITY, Daniel, op. cit., 2006, p.15 e p.22, respectivamente.
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3.2 - Manhattan como exemplo da cidade contemporânea. De acordo com a análise efectuada à obra de Joseph Rykwert, destaca-se a cidade de Nova York como referência válida que identifica a organização da cidade contemporânea. Depois de reflectir quanto à evolução histórica do urbanismo nas cidades mundiais (recuando mesmo até à estrutura de composições primordiais - Barcelona (218 a.C.), Londres (43 d.C.) e Paris (360 d.C.)), Rykwert elege como modelo de análise para a cidade do século XXI, Manhattan: um símbolo urbano produzido nos meandros do capitalismo industrial e comercial. “De onde quer que seja vista - da Europa, Ásia, América Latina ou do Pacífico -, Nova York hoje parece ser a capital financeira, administrativa e até cultural do mundo inteiro [...] e como sempre acontece quando uma nova capital surge ou é estabelecida, outras cidades vão invejá-la ou tentar imitá-la. É por isso que a palavra “manhattanization” teve que ser cunhada para o processo de tornar as cidades mais ou menos parecidas com Manhattan110”. Sendo que a arquitectura depende essencialmente do capital para a sua produção, no processo de globalização mundial, o modelo das cidades contemporâneas expressa-se sobretudo enquanto símbolo das suas actuais lógicas económico-mercantis111. No contexto dos respectivos dinamismos sociais, situa-se a ilha de Manhattan112. Por excelência um porto natural, (cujas condições de solo são propícias para o desenvolvimento da agricultura), numa baía protegida pelos quebra-mares de Brookly e Staten Island, onde desaguam dois rios (o East e o Hudson), localiza-se Manhattan: uma ilha de xisto que, a norte, o rio Harlem separa do continente. 99 110RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.263. 111”Onde não encontra obstáculos, a economia de mercado trata, portanto, o espaço e a construção (industrial, comercial e residencial) como trata todas as coisas: ou como recursos cujo rendimento se trata de maximizar, ou como factores cujos custos se trata de minimizar. O espaço em causa e as construções em causa, por definição, não representam intrinsecamente nada mais [...] o espaço para o capitalismo industrial é, antes de mais, um obstáculo à fluência ideal dos factores de produção”. FREITAG, Michel, op. cit., 2004, p.43. 112Ibid., p.265.
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Naturalmente, devido à sua localização geográfica, o tráfego aquático tornou-se uma característica essencial para o retrato da cidade. “Foi o presidente da Nova Holanda, Willem Verhulst [...] que provavelmente comprou a ilha de um grupo de índios por sessenta florins em mercadorias sortidas [...] a extremidade sul de Manhattann foi ocupada, cercada por uma paliçada, fortificada e chamada de Nova Amsterdã [...] era mais uma fortaleza com um povoado ao lado do que uma cidade regulamentada ou empresarial113”. Contudo, na sua privilegiada condição de porto favorável 114 às trocas comerciais, em 1825, iniciou-se a construção de um canal para os Grandes Lagos, o que por si só impulsionaria o desenvolvimento e crescimento exponencial da cidade de Manhattan. O Great Western (primeiro transatlântico a vapor e com rodas) chegaria ao Porto de Nova York em Abril de 1830. Nesse mesmo ano, ligando Union Square ao Harlem instalava-se também a primeira linha férrea. Desde 1790 a ilha já estava loteada segundo uma trama ortogonal que se estendia no sentido sul-norte. “Por volta de 1790 [...] após uma série de projectos extravagantes e abortados, as autoridades da cidade entraram em acção: foi empossada uma Comissão de Ruas, para a qual um jovem avaliador, John Randel Jr., mapeou Manhattan. Com base em seu mapa, foi apresentado um projecto com cerca de doze avenidas (com 30 metros de largura) e 155 ruas (com 15 metros de largura) [...] esse plano estabelecia uma trama uniforme - independentemente das irregularidades do sítio [...] entre as Ruas 14 e 34 e a Terceira e Sétima Avenidas, ficaria o maior espaço aberto da nova trama, uma “Grande Esplanada” para acomodar exercícios militares, exposições, etc. [...] desde o início, empreendedores privados intervieram no plano, comprando quarteirões em sequência e tratando-os como uma única “propriedade”115”. 101 113RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.265. 114(...) “os comerciantes ingleses o escolheram como seu porto favorito para “desova” de mercadorias embargadas, o que era ruim para as indústrias nacionais, mas bom para a cidade”. Ibid. 115Ibid., 2004, p.266 e p.267..
Fig. 3.10 - Planta (parcelar) da zona central de Coney Island, 1907. Cada rectângulo representa uma unidade geradora de prazer; todo o sistema de irracionalidade da massa é estruturado pela rectícula da ilha. 102
Embora seja mundialmente reconhecido o valor conquistado pelas edificações erguidas em Manhattan (e a imagem do skyline Nova Yorkino, rapidamente se tenha difundido pelas grandes cidades mundiais como ícone do urbanismo contemporâneo e símbolo do status económico da respectiva cidade), nem todos os arquitectos e urbanistas (intervenientes na constituição da morfologia do lugar) previam o resultado da sua imagem final116. O (hoje famoso) skyline de Manhattan assume-se como produto colectivo da diversidade e multiplicidade inerente ao espaço mercantil, no entanto, destaca-se neste modelo de formas urbanas a ausência de áreas comuns e de encontro que fomentam tipos de interacção social. Quando referidos à esfera pública do espaço e às condições físicas de apropriação que esta oferece, o conceito de ‘diversidade’ é praticamente inexistente. “Com todos esses empreendimentos privados, os 150 acres de espaço público previstos pelo projecto original acabaram por ser reduzidos a 117 acres [...] à medida que os quarteirões iam sendo ocupados por prédios cada vez mais altos e maiores, crescia a movimentação pela criação de um grande parque público. As autoridades da cidade resistiam: para elas, os rios de cada lado da estreita ilha garantiam ar puro suficiente; os extensos cemitérios “verdes” - em especial o de Green-Wood, no sul de Brooklyn - poderiam sempre servir como locais de passeio, como já ocorria em outras cidades americana117”. No respectivo contexto, Manhattan adquire uma imagem tão forte que acaba sendo copiada e adaptada em diferentes lugares do mundo segundo um processo de difusão urbana que hoje é conhecido por ‘processo da Manatanismo’. Em Nova York Delirante: um manifesto retroativo para Manhattan118, Koolhaas interpreta o modelo de urbanização como sendo produto de uma teoria não formulada. O arranha-céus, sublinha a força da sua identidade e surge como o novo protagonista da atmosfera urbana. 103 116Poder-se-á dizer que pré-figuração mais próxima tenha surgido com o testemunho de alguns arquitectos em manifestos futuristas. Nomeadamente, com a obra de António Sant’ Elia, onde especula sobre o futuro da cidade). 117RYKWERT, Joseph, op. cit., 2004, p.267. 118Escrito em 1978 pelo holandês Rem Koolhaas e assume-se ‘figura-chave’ na cena arquitectónica contemporânea internacional.
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De acordo com a perspectiva de Rykwert, na medida em que a sua presença é ‘menosprezada’ por parte dos arquitectos e urbanistas, estes, têm vindo a perder responsabilidade sobre o processo de reformulação da cidade, assim, emergindo aqueles que são agora vistos como ‘produtores de formas e imagens’, eventualmente, os ‘designers da arquitectura’119. Desta forma, torna-se também cada vez mais óbvia a ausência de propostas para a composição urbana e exalta-se o papel da imagem e simbolismo como característica fundamental na cidade. Fig. 3.12 - O planeamento do ‘Manhattanismo’: estudos para a comissão do Plano Regional. (...) “o elemento visual ganha um relevo especial na cultura urbana moderna. Simmel considerou o urbano como caracterizado pelo predomínio da visão sobre todos os demais120”. 105 119”O próprio arquitecto deixou de ter em grande medida outra escolha que não a de, também ele, se redefinir como um técnico: um gestor de conforto e do modo de vida, um designer de living-rooms paisagisticizados, de cozinhas open, de kitchenettes ergonomizadas, de casas de banho e de átrios de entrada tropicalizados; um perito da promoção visual do standing individual e categorial, bem como da eficiência corporativa”.FREITAG, Michel, op. cit., 2004, p.67. 120SAVAGE, Mike; WARDE, Alan, op. cit., [s.l], p.118.
“É a esgotante ambição de Le Corbusier inventar e construir a nova Cidade compatível com as exigências e glórias potenciais da civilização maquinista. É um azar trágico que, quando desenvolve essa ambição, tal cidade já exista, a saber, Manhattan131”. As características valorizadas por Rem para a qualificação de Manhattan - desde a sua flutuação funcional e inconstância física até à sua neutralidade e imprevisibilidade futura - são veemente criticadas pelo mestre europeu, cujo modelo proposto para a Ville Radieuse apresenta como antítese. Efectivamente, não se pode deixar de afirmar que a Ville Radieuse do anos 30 exprime um confronto disciplinar determinante para a herança da Arquitectura Moderna e sua definição na contemporaneidade: verifica-se nela uma natureza anti-Manhattanista; as suas torres transparentes, estereométricas e monofuncionais formulam a hipótese do conceito do anti-arranha-céu). No entanto, Koolhaas assume detectar na congestão descongestionada de Le Corbusier uma inversão da original cultura da congestão qualificando a imagem urbana de Manhattan. Sendo o primeiro descrever o campo de interacção entre a arquitectura e o sistema da economia capitalista, analiticamente, relaciona as premissas-base do programa da modernidade com a realidade produzida pelo processo da modernização. A sua obra (Nova York Delirante), traz a debate a prática arquitectónica na contemporaneidade. No respectivo âmbito, defende uma modernidade em constante processo de modernização e defende que a experimentação (em consonância com os padrões da estrutura social), sem modelos restritivos, se traduz num fenómeno assumido e praticando em Tempo real. Em total posição de renúncia perante a submissão da arquitectura face às lógicas uniformizadas do mercado liberalista, Rem Koolhaas declara ser real uma progressiva destituição do programa ideológico na produção de espaço. Com o objectivo de reafirmar o papel do arquitecto na sociedade contemporânea, celebra a racionalidade instrumental como forma de salientar um caminho para o que é imprevisível. ! 112 131KOOLHAAS, Rem, op.cit., 2008, p.202.
!“A cidade já não existe. Entretanto, a noção de cidade sofre uma distorção sem precedentes; insistir na sua natureza primordial, seja através de desenhos, regras ou invenções, conduz irrevogavelmente da nostalgia à irrelevância [...] para assegurar a sua sobrevivência, o urbanismo terá que imaginar uma nova ideia de novo [...] temos que imaginar mil e um conceitos alternativos de cidade, temos que correr riscos desproporcionados, temos que nos atrever a ser profundamente acríticos, devemos aguentar a adversidade e perdoar a direita e a esquerda132”. 113 132KOOLHAAS, Rem - in Oeste, 2002, p.2 e p7 respectivamente.
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CONCLUSÃO Motivados pela pertinência dos constantes processos de transformação enfrentados pelas cidades, indagamos quanto a traços Futuros da dimensão urbana. Após uma análise focada em diferentes perspectivas urbanas do Passado, foi-nos possível classificar o factor ‘Tempo’ enquanto ‘conceito-chave’ capaz de conduzir à identificação de directrizes úteis a aplicar na prática urbanística contemporânea. De entre os vários momentos de reflexão, concluímos que no início do século XIX - a par do aumento populacional e da consagração da indústria como fenómeno mundial -, o modelo de crescimento das cidades estabelecia correspondência com percepções de ‘Tempo Newtoniano’: um Tempo absolutamente definido, absoluto. A cidade estabelecia relações directas com o lugar do Futuro, lugar de progresso, um destino absoluto. No respectivo enquadramento, (confiantes na existência de uma sociedade igualitária) confinava-se à prática urbanística o dever de conceber planos para o modelo absoluto da perfeição. Contudo, o Tempo não desconhece a efemeridade. Rapidamente, os modelos descendentes da percepção ‘Newtoniana’ haveriam de se confrontar com as premissas da Quântica (o Tempo para Heisenberg) e da Relatividade (o Tempo para Einstein). Emergindo uma considerável percentagem de imprevisibilidade (causalidade na ciência), verifica-se no espaço da cidade (décadas depois no urbanismo) o entoar da incerteza: confiança é um valor que conhece o declínio, a prosperidade Futura nunca é certa. No contexto de uma certeza falhada, a cidade existente (herdada) é objecto de estudo para a transformação urbana. Outrora rejeitada, constitui-se hoje como garantia. Passando por um longo caminho de transformações (por processos de expansão e concentração; mudanças de escala, morfologia e infra-estruturas), encontra nova identidade, uma identidade sempre inesperada (que não aspira à perfeição). Por excelência espaço da diversidade e multiplicidade, a composição urbana é também alvo de inflexões: irregular, dispersa, fragmentada e segmentada (evidências às quais a prática urbanística não foi alheia). 119
Sem hipótese de se afirmar pela natureza de um fenómeno reducionista, o estatuto da cidade conta com raízes ancoradas na diversidade. Considerando a inutilidade de se prever uma reformulação urbana elementar (passiva de ser repetidamente aplicada enquanto modelo ideológico absoluto), tivemos como intuito - afim de referenciar a nossa conduta profissional - proceder à identificação do actual estado da problemática. Antes de tudo, importa aceitar que o ‘incerto’ é certo, é ‘estado das coisas’, e que a incerteza se define aqui como ponto de partida. A cidade adquiriu uma natureza irreversível. Sendo hoje abrigo da actividade metropolitana, a cidade contemporânea é símbolo de todo o actual dinamismo económico, político e cultural. O espaço é mercado - valor que muitas vezes fataliza o decurso das relações sociais. Na nossa perspectiva - referindo-nos à necessidade de intervenção - o processo não deve alhear-se da estratégia por via da ‘Continuidade’. A noção de ‘Continuidade’ apresenta-se como instrumento da (re)construção. Para reformulação do objecto de estudo, deve-se, necessariamente, entende-lo como produto já adquirido, aceitando seus vínculos históricos herdados e, em simultâneo, omitindo valor dos fenómenos que os destituam. A cidade é a mais pura expressão de memória colectiva social. No espaço da cidade reside a história do seu cidadão, neste sentido, consigna-lhe o direito da sua (re)construção. A Cidade representa a estabilidade de um modelo cultural. Essa estabilidade, só pode ser garantida quando se preserva o espaço destinado à participação cívica - o espaço público é onde se incorpora a representação de uma sociedade. Não sendo meta a imposição de um modelo, pretende-se redefinir a interacção existente entre morfologia urbana e cidadão: dimensão espacial e identidade sócio-cultural. Efectivamente, desde a nossa interpretação, acreditamos que a cidade se renova pelo complexo das interacções que tende a desaparecer, espaços que fomentam a participação cívica do cidadão no momento das decisões públicas. Dado que, em paralelo, conduz à dissipação das relações urbanas, consideramos aqui questionável a natureza do modelo ‘Manhatanizado’, e como pudemos verificar, há viabilidade no ‘método simples’ do seu crescimento. O crescimento desmedido facilmente dá lugar à condição de periferia, um depósito sem contributo significativo para o cerne da cidade que raramente assume maturidade urbana. 120
Essas grandes manchas que ocupam território urbano (na análise de Rossi: “sem alma”) dando ‘sentido ao que aparece sem sentido’, em constante processo de (re)construção, Koolhaas define-as como modelo tipológico da Cidade Genérica. A estrutura da composição genérica pode ser lida no cenário de New York: um exemplo de constatação e superação do modelo metropolitano dependente da estrutura capitalista, em particular, Manhattan, cuja configuração dos princípios modernos se salientam, quer ao nível da escala urbanística (edifício implantado isoladamente) quer ao nível da escala simbólica (consagrada pelo arranha-céus). Atendendo à problemática da concentração populacional e das virtudes económicas - espaço é mercado - o modelo edificado é sinónimo de rentabilidade. Isolado de contexto, constitui motor de arranque para a desconsolidação da forma urbana (na qual tinham já sido explícitas relações primordiais entre áreas públicas e privadas). Ao edifício vertical corresponde o sentido da imposição, este, entende-se como sendo um elemento do espaço capaz de identificar o estatuto económico inerente à cidade: símbolo de poder económico. No âmbito da respectiva problemática, fixa-se a nossa conclusão: Tempo, do Passado e do Futuro, Rotura e Continuidade, Interacção Social e Diversidade Espacial são conceitos que o processo de (re)construção urbana não permite dispensar. Percorrida a viagem pela história das cidades, (essencialmente suportada pela obra do autor Joseph Rykwert), concluímos estar perante a natureza de um rumo incerto, no entanto, cabe a nós - arquitectos - legitimar o objecto da profissão (prática ao serviço da sociedade) e numa atitude crítica reflectir consequências do projecto urbano mesmo antes da sua produção. O Tempo, hoje, da vida metropolitana e dos seus constantes processos de globalização é já Passado e Futuro simultaneamente. Mais do que nunca, a política é económica e, como nunca, tem repercussões na produção imediata do espaço urbano. A cidade, hoje, irregular, dispersa, genérica, partida, fragmentada é também a nossa cidade conquistada. 121
- MONTANER, Josep Maria - Despues Del Movimiento Moderno: Arquitectura De La Segunda Mitad Del Siglo XX. Editorial Gustavo Gili, 2000. - MERLEAU-PONTY, Maurice - Phénoménologie De La Perception. Mesnil-surl’Estrée: Ed. Gallimard, 2008. - MORIN, Edgar - Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 2008. - MUGA, Henrique - Psicologia da Arquitectura. Porto: Edições Gailivro, Lda., 2005. - NESBITT, Kate (Ed.) - Theorizing a New Agenda For Architecture. New York: Princeton Architectural Press, 1996. - PORTOGHESI, Paolo - Depois da Arquitectura Moderna. Lisboa: Edições 70, [s.d]. - PENZ, François; RADICK, Gregory e HOWELL, Robert (Eds) - Space in Science, Art and Society. Cambridge: Cambridge University Press, 2004. - PORTAS, Nuno - A Arquitectura Hoje. Lisboa: Ed. Livros Horizonte, 2008. - RAJCHMAN, John - Construções. Stª Maria da Feira: Ed. Relógio d’Água, 2002. - RAPOPORT, Amos - Culture, Architecture et Design. Gollion: Ed. Infolio, 2000. - ROSSI, Aldo - A Arquitectura Da Cidade. WMF Martins Fontes, 2001. - SAVAGE, Mike; WARDE, Alan - Sociologia Urbana, Capitalismo e Modernidade: Perspectivas sobre a Cultura Urbana. [s.l]: Celta, 2002. - STORRER, William Allin - The Architecture of Frank Loyd Wright. A Complete Catalog. Paperback, 2002. - TUAN, Yi-Fu - Espace et Lieu - L’Perspective de l’Expérience. Gollion: Ed. Infolio, 2006. - VIDLER, Anthony - Warped Space - Art, Architecture, and Anxiety in Modern Culture. Massachussets: MIT Press, 2001. Revistas e Periódicos: - A.A.V.V., Colóquio-Letras, N.1, Lisboa, 1971. - A.A.V.V., L’Architecture d’Ajourd’hui - Siza, N.278, Paris, 1991. - A.A.V.V., Jornal Arquitectos - Faire Ecole 1, N.201, Lisboa, 2001. - A.A.V.V., Prototypo - Cidade em Performance, N.7, Lisboa, 2002. - A.A.V.V., Correntes d’Escritas - Eduardo Prado Coelho, N.7, Póvoa de Varzim, 2008. - NADAIS, Inês, Foi Bonita a Festa do SAAL, PÁ, in Ípsilon, 08-05-2009. 128
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ÍNDICE DE IMAGENS PARTE I Fig. 1.1 - Unidade de Habitação Colectiva de Marselha (Le Corbusier). Fonte: LE CORBUSIER - Maneira de Pensar o Urbanismo. [s.l]: Publicações Europa-América, [s.d]. Fig. 1.2 - Não-Lugares: Espaços de passagem incapazes de dar forma a qualquer tipo de identidade. Fonte: KOOLHAAS, et. al. - HARVARD DESIGH SCHOOL, GUIDE TO SHOPPING. Cambridge: TASCHEN GmbH, 2001. Fig. 1.3 - Vila Operária de Robert Owen. Fig. 1.4 - O Falanstério: Planta e Corte esquemáticos. PARTE II Fig. 2.1 - Mapa das intervenções de Haussmann em Paris. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 2.2 - Ildefonso Cerdá - Plano de Barcelona. Os espaços e o sistema de circulação automóvel. Quarteirões tal como imaginados por Cerdá, e tal como foram realizados. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 2.3 - IBA. Berlim. Algumas propostas dos concursos para zonas de reconstrução. Reformulação dos quarteirões, ruas e praças. Reconstrução da Cidade Tradicional. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 2.4 - Kevin Lynch: Imagem da Cidade. Ilustrações dos propósitos do texto de K. Lynch. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 2.5 - Mapa Cognitivo da Cidade do Porto. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. 131
Fig. 2.6 - Gorden Callen: Townscape. Análise da visão serial num pequeno percurso. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 2.7 - Aldo Rossi: Projecto para o Palácio da região em Trieste, 1964. Fonte: PORTOGHESI, Paolo - Depois da Arquitectura Moderna. Lisboa: Edições 70, [s.d]. PARTE III Fig. 3.1 - Unidades Habitacionais Modernas. (1) Superblocos Soviéticos; (2) Superquadras em Brasília - Lúcio Costa, 1958; (3) Complexo Pedregulho no Rio de Janeiro - A. E. Reidy, 1947 - 1952; (4) Unidade Residencial Wupperthal Atelier 40 - 1966. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 3.2 - Gropius e Scharoun: o bairro Siemensstadt (Berlim, 1930). Plano de vista de um sector e tipos constructivos. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 3.3 - Cidade Linear Industrial. (A) Habitação/Casas Dispersas; (B) Habitação/Bloco; (C) Via Transversal de acesso à Fábrica; (D) Via de separação entre Habitação e Serviços Comuns; (E) Via Pedonal de ligação; (F) Zona Verde de Protecção e Separação; (G) Serviços. Fonte: LE CORBUSIER - Maneira de Pensar o Urbanismo. [s.l]: Publicações Europa-América, [s.d]. Fig. 3.4 - Le Corbusier: o Plan Voisin, 1925 - proposta para reestruturação do centro de Paris. Fonte: LAMAS, José M. Ressano Garcia - Morfologia Urbana e Desenho da Cidade. [s.l]: Fundação Calouste Gulbenkian,Ministério da Ciência e da Tecnologia, 2000. Fig. 3.5 - Shibuya - Tokyo: Infra-estrutura interligada com o edificado. Fonte: KOOLHAAS, et. al. - HARVARD DESIGH SCHOOL, GUIDE TO SHOPPING. Cambridge: TASCHEN GmbH, 2001. Fig. 3.6 - Tokyo: Rede de Circulação Ferroviária. Mapa das linhas de metro com a linha Yamanote locazida no centro do aglomerado (assim permitindo uma fácil interacção com os restantes núcleos). Fonte: KOOLHAAS, et. al. - HARVARD DESIGH SCHOOL, GUIDE TO SHOPPING. Cambridge: TASCHEN GmbH, 2001. Fig. 3.7 - O Homem e a Cidade Global. Fonte: URL <http://evoracidadeeducadora.pt>. Fig. 3.8 - Manhattan: Capital económica mundial. Fonte: KOOLHAAS, et. al. - HARVARD DESIGH SCHOOL, GUIDE TO SHOPPING. Cambridge: TASCHEN GmbH, 2001. 132
Fig. 3.9 - Planta (parcelar) da zona central de Coney Island, 1907. Cada rectângulo representa uma unidade geradora de prazer; todo o sistema de irracionalidade da massa é estruturado pela rectícula da ilha. Fonte: KOOLHAAS, Rem - Nova York Delirante. Barcelona: Gustavo Gili, SL, 2008. Fig. 3.10 - “A cosmópolis do Futuro” - Manhattan. Fonte: KOOLHAAS, Rem - Nova York Delirante. Barcelona: Gustavo Gili, SL, 2008. Fig. 3.11 - O planeamento do ‘Manhattanismo’: estudos para a comissão do Plano Regional. Fonte: KOOLHAAS, Rem - Nova York Delirante. Barcelona: Gustavo Gili, SL, 2008. 3.12 - “Vista aérea geral do alto da Rua 47, no sentido NE, das coberturas ajardinadas e do edifício RCA com pontes sobre as ruas da cidade”. Fonte: KOOLHAAS, Rem - Nova York Delirante. Barcelona: Gustavo Gili, SL, 2008. Fig. 3.13 - “Le Corbusier olha - criticamente: ondas de choque à chegada do arquitecto, registradas na imprensa nova-iorquina. Pequenos demais? - Sim, diz Le Corbusier”, estreitos demais para uma circulação livre e eficiente”. (New York Times Magazine, 3/11/1935). Fonte: KOOLHAAS, Rem - Nova York Delirante. Barcelona: Gustavo Gili, SL, 2008. 133
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