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Bullying transfóbico: experiências de discriminação e violência de pessoas trans em contexto escolar

António Carlos do Rego Gomes

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i Universidade do Porto Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação BULLYING TRANSFÓBICO: EXPERIÊNCIAS DE DISCRIMINAÇÃO E VIOLÊNCIA DE PESSOAS TRANS EM CONTEXTO ESCOLAR António Carlos do Rego Gomes Dezembro 2014 Dissertação apresentada no mestrado integrado em Psicologia, Faculdade de Psicologia e de ciências da Educação da Universidade do Porto, orientada pela Professora Doutora Conceição Nogueira (F.P.C.E.U.P.) ii AVISOS LEGAIS O conteúdo desta dissertação reflete a perspetiva, o trabalho desenvolvido, bem como as interpretações do autor no momento da sua entrega. Esta dissertação de mestrado pode conter incorreções, ao nível metodológico e/ou conceptual, que poderão ter sido identificadas posteriormente à sua entrega. Em resultado disso, é aconselhado a que qualquer utilização do conteúdo da mesma seja feita com cautela. Ao entregar esta dissertação, o autor declara que a mesma é resultante do seu próprio trabalho, contém contributos originais e são reconhecidas todas as fontes utilizadas, encontrando-se tais fontes devidamente citadas no corpo do texto e identificadas na secção de referências. O autor declara, ainda, que não divulga na presente dissertação quaisquer conteúdos cuja reprodução esteja vedada por direitos de autor ou de propriedade industrial. iii Agradecimentos À Doutora Emília Costa, por tudo que fez por mim durante estes dois últimos anos, tendo sido extremamente compreensiva comigo e uma ajuda importante a eu ter chegado onde cheguei. Ao Doutor Nuno Carneiro, pelo contributo que deu ao meu estudo, pela paciência, pelo feedback que me deu em vários momentos. Aos meus pais e irmão, que foram incansáveis comigo, sempre a incentivar. Mostraram-me que nenhum desafio é grande demais e tudo pode ser superado com sacrificio e amor. Um especial agradecimento à minha orientadora, a professora doutora Conceição Nogueira. Foi durante estes dois últimos anos muito mais que uma orientadora. À Liliana Rodrigues, pela enorme paciência para comigo e contributo nestes ultimos tempos. Às Associações “ILGA Portugal”, “A Casa” e “Rede Ex Aequo” por terem disponibilizado os vários meios de que dispunham. O meu muito obrigado. Tenho ainda um especial agradecimento às participantes do meu estudo, que deram um contributo vital e sem as quais concluir este estudo não seria possível. Não posso deixar de tecer um particular agradecimento às doutoras Maria João Cardoso e Ana Rodrigues, da ADEIMA, pela compreensão e apoio durante o meu perído de estágio curricular. A amigos e colegas, como a Armanda Dias, Priscila Almeida, Priscila Rodrigues, Carina Santos, Juliana Silva, Catarina Moreira, Belinda Costa, Helder Leite e Cátia Bastos pela enorme paciência em me ouvir quando a pressão me afectava mais e terem estado a meu lado durante esta viagem. E por fim a dois amigos da família, a Anabela e Henrique Ferreira, que estiveram sempre a dar apoio e nos momentos em que os desafios pareciam ser impossíveis de superar estiveram lá e contribuiram para que fossem superados. iv Resumo O bullying transfóbico tem sido alvo de cada vez mais estudos e inquéritos, tornando-se um fenómeno cada vez mais investigado. Contudo, de acordo com a revisão da literatura levada a cabo, ficou claro que o contexto português carece de estudos nessa temática, tendo a maioria dos estudos encontrados ocorrido em países como os estados unidos e brasil. Assim, a presente investigação sobre bullying vivenciado por pessoas trans procura dar voz a esta população, caracterizando este fenómeno que afecta vários estudantes e salientando as várias formas que toma e eventual suporte de família, amigos ou profissionais do ensino às pessoas alvo deste tipo de experiências. A metodologia utlizada foi qualitativa com recurso a entrevistas semiestruturadas. Foram realizados vários contactos, por via de presença em eventos, de divulgação do estudo em vários espaços na internet, através de divulgação junto de associações e contactos telefónicos, dos quais resultaram duas entevistas, ambas com mulheres transsexuais (MtF). Os resultados obtidos revelam que as participantes foram alvo de bullying tanto físico como psicológico, tendo experienciado sentimentos de confusão e inclusivé tido ideação suicida. Encontramos relatos intensos de várias situações que ocorreram em diversos espaços. Os depoimentos permitiram concluir que existem espaços “prediletos” dos bullies (provocadores), tais como o contexto de balneário de EF (educação física), em que as pessoas estão mais vulneráveis, bem como as traseiras de pavilhões e espaços de menor vigilância e visibilidade. No entanto, tais episódios podem ocorrer, como foi o caso das participantes do presente estudo, em outros espaços, tais como: recreios, e até mesmo no interior das salas de aula e no seu trajecto escola – casa. Este estudo parece-nos ser um contributo importante para colmatar a escassa investigação nesta temática e permite uma melhor compreensão do bullying que esta população enfrenta bem como da necessidade de maior informação e preparação do corpo docente e restantes profissionais dos espaços escolares para detetarem este tipo de situações bem como dotá-los de estratégias para prevenir ou actuar quando são detetados casos. Palavras-chave: Transsexualidade; Bullying Transfóbico; LGBT; Questões de género; v Abstract Transphobic Bullying has been subject of several studies and inquiries, becoming a phenomenon more and more researched. However, in accordance with the revision of literature that was made, it became clear that in the Portuguese context there is a lacks of studies in this subject, having the majority of those that were found from countries like the United States of America and Brazil. Thus, the present investigation on bullying experienced deeply by people trans looks for to give to voice to this population, characterizing this phenomenon that afects several students and pointing out some of the forms it takes and addresses topics such as the possible support of family, friends or professionals of education to the people that are target of this type of experiences. The used methodology was qualitative with resource the semistructured interviews. Some contacts were accomplished, for way of presence in events, spreading the study in some spaces such as the internet, through spreading next to associations and projects, of which two interview had resulted, both with transsexual women (MtF) The obtained results disclose that the participants were target of bullying, both physical and psychological, having experienced feelings of confusion and also had suicidal thoughts. We found intense stories of some situations that had occurred in several spaces. The depositions had allowed to conclude that there are “favorite” spaces in which bullies are more likely to act, such as the context of PE locker-rooms (physical education), where the students are more vulnerable, as well as the backs of school buildings and spaces with less surveillance and visibility. However, such episodes can occur, as it was the case of the participants of the present study, in other spaces, such as: playgrounds, and even inside of the classrooms and on the way back home from school. With this study we hope to be an important contribution on this subject and allow a better understanding of bullying that this part of the population faces as well as the necessity for more information of the teachers and other professionals in schools in order to being able to detect situations of bullying and act in order to prevent them. Keywords: Transsexuality; Transphobic Bullying; LGBT; gender questions; vi Resumé La bullying transfóbique a été l'objet de plus en plus d'études et d'enquêtes, en se devenante un phénomène de plus en plus enquêté. Néanmoins, conformément à la révision de la littérature prise en oeuvre, il est resté clair que le contexte portugais manque d'études dans cette thématique, en ayant à la majorité des études trouvées présence dans des pays comme les États-Unis et Brésil. Ainsi, présente recherche sur bullying vécue intensément par des personnes trans cherche à donner voix à cette population, en caractérisant ce phénomène qui affecte plusieurs étudiants et en faisant ressortir les plusieurs formes qui prennent et l'éventuel support de famille, amis ou professionnels de l'enseignement aux personnes cible de ce type d'expériences. La méthodologie utilisée a été qualitative avec ressource à des entrevues demistructurées. Ont été réalisés plusieurs contacts, par manière de présence dans des événements, de divulgation de l'étude dans plusieurs espaces dans l'internet, à travers divulgation près d'associations et de contacts téléphoniques, desquels ont résulté deux entrevues, toutes les deux avec des femmes transsexuelles (MtF). Les résultats obtenus révèlent que les participants ont été l'objet bullying tant physique comme psychologique, en ayant expérience sentiments de confusion et de même eue idées suicidaire. Nous trouvons des histoires intenses de plusieurs situations qui se sont produites dans de divers espaces. Les dépôts ont permis de conclure qui existent des espaces « favoris » de bullies (provocateurs), tels comme le contexte de station balnéaire de EF (éducation physique), où les personnes sont plus vulnérables, ainsi que les dos de pavillons et espaces de moindre surveillance et visibilité. Néanmoins, tels épisodes peuvent se produire, comme ce a été le cas des participants de présente étude, dans d'autres espaces, tels comme : récréations, et même si à l'intérieur des salles de leçon et dans son passage école – maison. Cette étude il nous semble être une contribution important pour colmater l'insuffisante recherche dans cette thématique et permet une meilleure compréhension bullying que cette population affronte ainsi que de la nécessité de plus grand informations et à de préparation du corps enseignant et restants professionnels des espaces scolaires pour detetarem ce type de situations ainsi que les doter de stratégies pour empêcher ou agir elles quand sont des cas détectés. Mots-clés: Transsexualité; Bullying transfóbique; LGBT; Questions de type; vii Índice Introdução………………………………………………………………………………1 1. Revisão de literatura………………………………………………………………...3 1.1. Bullying: o que é?.......................................................................................... 3 1.2. Bullying homofóbico………………………………………………………..7 1.3. Bullying Transfóbico………………………………………………………11 2. Metodologia…………………………………………………………………………16 2.1. Objeto e Objetivos…………………………………………………………16 2.2. Método……………………………………………………………………..16 2.2.1. Participantes……………………………………………………..16 2.2.2. Instrumento: A entrevista………………………………………..17 2.2.3. Procedimento…………………………………………………….18 2.2.4. Análise de dados…………………………………………………20 3. Apresentação e discussão dos resultados…………………………………………22 3.1. Suporte Social no Processo de Transição………………………………….22 3.2. Bullying Transfóbico – Relatos……………………………………………23 3.3. Bully ou Bullies? Os vários papéis encontrados nas vivências partilhadas..26 3.4. Procura de apoio institucional e/ou junto de pares………………………...27 3.5. Pensamentos e Sentimentos……………………………………………….29 4. Considerações finais………………………………………………………………..32 Referências Bibliográficas……………………………………………………………35 Anexos…………………………………………………………………………………38 viii Índice de anexos Anexo I – Guião de entrevista semi-estruturada Anexo II – Ficha de dados Biográficos Anexo III – Consentimento informado 6 Sheffield, em Inglaterra. Um dos resultados a salientar desse estudo diz respeito aos locais onde o bullying ocorre. Verificou-se que a maioria dos episódios de bullying ocorrem nos recreios (intervalo entre aulas), sobretudo nas escolas básicas. Já nas escolas secundárias, os corredores e salas de aula são locais também referidos como prováveis de ocorrerem episódios de bullying (Martins, 2009). Foi ainda encontrado que apenas metade dos alunos/as reporta os episódios a alguém e que dessa percentagem 20% não tem qualquer atitude no sentido de ajudar a vítima (Martins, 2009). Em Portugal, investigações realizadas, em 1998, verificou-se que 42.5% dos/as alunos/as entre os 11 e os 16 anos de idade reportaram nunca se terem envolvido em comportamentos de bullying, 10.2% afirmaram serem agressores/as, 21.4% referiram serem vítimas e 25.9% eram simultaneamente vítimas e agressores/as (Carvalhosa, Lima & Matos, 2001; cit. in António, 2011). Posto isto, é importante agora explorar um pouco sobre dois outros tipos de bullying que encontramos na sociedade e que têm sido alvo de investigação: Bullying homofóbico e Bullying transfóbico. Distinguem-se da formas mais “tradicional” de bullying pelas questões que estão na sua base (questões de orientação sexual e questões de género), bem como pelos argumentos utilizados e que muitas das vezes não recebem a devida atenção. 7 1.2. Bullying homofóbico Nos últimos anos temos visto um aumento considerável de estudos sobre o fenómeno do bullying, das suas diversas formas de manifestação, das suas consequências e de características dos/as seus/suas intervenientes. Os vários estudos realizados na temática têm reforçado o facto deste fenómeno abranger diversas idades, tanto em jovens do sexo masculino como do sexo feminino, com várias formas de expressão. Uma dessas formas, e que tem sido alvo de estudo recentemente, é a homofobia. A homofobia corresponde a qualquer forma de discriminação feita com base numa orientação sexual não-heterossexual (Oliveira, Pereira, Costa & Nogueira, 2010). Encontramos assim, na homofobia, crenças negativas, atitudes, estereótipos e comportamentos negativos que prejudicam gays e lésbicas (Wright, Adams, & Bemat, 1999). Alguns exemplos da componente comportamental da homofobia incluem provocações, ameaças, assédio e assalto, elementos esses que encontramos também presentes na caracterização do Bullying no sentido geral. Assim, o bullying homofóbico pode ser caracterizado por comportamentos associados ao bullying no geral (e.g. agressões físicas, verbais, sexuais), mas revestidos de conteúdos homofóbicos. Peter e Taylor (2013) realizaram uma pesquisa junto de estudantes de escolas no Canadá e encontraram que epítetos homofóbicos são muito frequentes e com elevada prevalência nas escolas canadianas. Os estudantes questionados, todos do sexo masculino, reportaram ter ouvido com frequência expressões como "Isso é tão gay", sendo que 70% dos participantes disseram ter ouvido tal comentário diariamente na escola. Por epítetos homofóbicos entende-se os comentários negativos e/ou insultos que visam atingir a pessoa a quem são dirigidos e que possuem conotação homofóbica. É de salientar que o comportamento de bullying homofóbico pode ocorrer direccionado quer a pessoas heterossexuais quer LGBT, ou seja, também existem estudantes cuja orientação sexual é heterossexual e que se vêem alvo de homofobia, não pela sua orientação sexual, mas porque são percebidos/as como tendo uma orientação sexual não heterossexual e que não está em consonância com os papéis de género masculino ou feminino enraizados na sociedade (Poteat & Espelage, 2005; cit. in António, Pinto, Pereira, Farcas & Moleiro, 2012). 8 Do mesmo modo, o bullying é muitas vezes utilizado para “policiar” o comportamento masculino e feminino entre os jovens do sexo masculino e feminino (Eder, Evans, & Parker, 1995; Epstein, 2001). O’Higgins-Norman (2008) divide o conceito de bullying homofóbico em dois tipos: (a) o bullying subjacente a um caráter hetero-normativo do ambiente escolar, associado a expectativas de papel de género independentemente da orientação sexual do jovem que é vítima, nomeadamente ao nível do “controlo” dos comportamentos considerados representativos dos géneros feminino e masculino; e (b) o bullying que tem por base comportamentos discriminatórios e persecutórios contra indivíduos LGBT. Aos/às jovens heterossexuais também são chamados/as epítetos homofóbicos quando vitimizados (Phoenix, Frosh, & Pattman, 2003; Swearer et al, 2008). A estes epítetos estão associadas elevadas preocupações ao nível da saúde mental e de um menor sentimento de pertença à escola das orientações sexuais nãonormativas e juventude heterossexual (D'Augelli, Pilkington, & Hershberger, 2002; Poteat & Espelage, 2007; Swearer et al, 2008). Poteat, O’Dwyer e Mereish (2011) apontam a existência de diferenças entre rapazes e raparigas relativamente à frequência com que são alvo de epítetos homofóbicos ou os utilizam em direcção a colegas. Os autores consideram como um dos factores explicativos dessas diferenças os processos de socialização de género, na medida em que estes processos podem promover diferentes padrões de mudança para rapazes em relação às raparigas. Muitos rapazes são “socializados” para adotar crenças e comportamentos masculinos normativos e que muitas vezes são homofóbicos (Kimmel, 1997; Pleck, Sonenstein, & Ku, 1994; cit. in Poteat, O’Dwyer & Mereish, 2011). Além disso, os rapazes usam a linguagem homofóbica para afirmar e provar a sua heterossexualidade durante a adolescência (Korobov, 2004; Pascoe, 2007; Phoenix et al, 2003; cit. in Poteat, O’Dwyer & Mereish, 2011). Semelhante aos rapazes, as raparigas também são “socializadas” para adotar crenças e comportamentos femininos normativos (Maccoby, 1998; cit. in Poteat, O’Dwyer & Mereish, 2011). Em contraste com os rapazes, no entanto, estas normas na maioria das vezes não incentivam as raparigas a adotar atitudes homofóbicas ou a envolverem-se em comportamentos homofóbicos. Assim, as raparigas podem usar ou ser chamadas com epítetos homofóbicos com menor frequência ao longo do tempo. Apresentam assim, por sua vez, um padrão relativamente estável do uso de epíteto a um nível mínimo, 9 acabando também por terem experiências enquanto alvo desses epítetos a um nível igualmente baixo (Maccoby, 1998; cit. in Poteat, O’Dwyer & Mereish, 2011). A pesquisa empírica sobre bullying homofóbico identifica frequentemente relações causais entre o bullying homofóbico e alcoolismo, suicídio, baixa escolaridade e uma variedade de perturbações ao nível emocional (Rios, 2001; Warwick et al., 2006). Um estudo de António, Pinto, Pereira, Farcas, e Moleiro (2012) que teve como objectivo efectuar uma caracterização do fenómeno do bullying homofóbico em Portugal, ao nível das suas formas de agressão, prevalência e consequências encontrou resultados que permitiram constatar que a maioria dos/as jovens estudantes já presenciou situações de bullying homofóbico contra alunos/as que são ou que se pensa que possam ser homossexuais ou bissexuais, tendo a maioria das situações ocorrido dentro do espaço escolar. À semelhança dos resultados encontrados noutros estudos com outras populações (e.g. D’Augelli et al., 2002; O’Higgins-Norman, 2008), os resultados obtidos neste estudo sugerem que os rapazes portugueses são mais frequentemente vítimas de bullying homofóbico, comparativamente com as raparigas. Vários estudos apontam que a juventude LGBT reporta maiores níveis de vitimização, angústia, e desempenho académico mais pobre do que a juventude heterossexual (Berlan, Corliss, Campo, Goodman, e Austin, 2010; Poteat, Aragão, Espelage, & Koenig, 2009; cit. in Poteat, Mereish, DiGiovanni & Koenig, 2011). No que diz respeito à prevalência deste tipo de violência entre os jovens em meio escolar (bullying homofóbico), um estudo de Poteat, O’Dwyer e Mereish (2011) que procurou analisar o uso de epítetos homofóbicos e das suas consequências, vem chamar à atenção, bem como outros estudos recentes, para o facto de se continuar a observar uma elevada prevalência de comportamentos homofóbicos significativos em muitas escolas e que provocam graves consequências, tanto psicológicas como académicas, e portanto existe uma grande necessidade de ser dada maior atenção a estas questões. Poteat e Espelage (2005) realizaram um estudo relacionando bullying e conteúdo verbal homofóbico utilizando como veículo de análise a escala de conteúdo homofóbico (HCAT - Homophobic Content Agent Target) e obtiveram como resultados que os rapazes fizeram comentários com conteúdo homofóbico para outros alunos em maior número do que as raparigas. Este resultado é consistente com a pesquisa sobre a homofobia, que indicou que os homens relatam atitudes e comportamentos em relação a 10 gays e lésbicas mais negativos que as mulheres (Herek, 1988; Johnson et ai, 1997; Wright et al, 1999). Relativamente aos tipos de bullying homofóbico, os resultados obtidos demonstram maiores níveis de violência psicológica do que de violência física, dados esses que foram de igual modo encontrados em estudos semelhantes (O’HigginsNorman, 2008; Poteat & Espelage, 2005). Do mesmo modo, verificou-se que as consequências psicológicas decorrentes do bullying homofóbico são notoriamente superiores para as vítimas do que para aqueles/as que não foram vítimas, destacando-se o isolamento, tristeza e solidão, tal como outros autores haviam evidenciado (e. g. Adams et al., 2004; Russell, 2003). Ao nível da intervenção em situações de bullying homofóbico, um estudo levado a cabo por António, R., Pinto, T., Pereira, C., Farcas, D. e Moleiro, C. (2012) recolheu dados que permitem afirmar que apesar das situações de vitimização serem presenciadas por terceiros, na maioria dos casos ninguém intervém e apenas em poucas situações é pedido ao/à agressor/a para parar com o seu comportamento. Regista-se ainda uma elevada percentagem de comportamentos que incentivam o comportamento do/a agressor/a e desvalorizam a agressão (e.g. risos). No que diz respeito à prevalência desta forma de bullying, a nível internacional, os registos de vitimização também são bastante elevados, sendo que cerca de 92% dos indivíduos LGBT já foram vítimas de comentários homofóbicos, 84% afirma ter sido ofendido verbalmente e 83% sofrer insultos, ameaças, violência física e sexual (Poteat & Espelage, 2005; cit. in António, 2011). No contexto português, apesar de ser um fenómeno que está a receber alguma atenção, os resultados publicados ainda são escassos. 11 1.3. Bullying transfóbico Na investigação focada ao nível das questões de género, discriminação e atitudes negativas são temas já com um considerável suporte teórico. Embora o sexismo tenha recebido considerável atenção, poucos profissionais têm investigado o preconceito e violência experimentada por pessoas transsexuais ou transgénero (Hill & Willoughby, 2005). Um conceito importante desde já clarificar é o de transfobia. Transfobia é o sentimento de mal-estar ou mesmo repulsa em relação a pessoas que manifestam expressões não-normativas de identidade de género (Hill, 2002; Hill & Willoughby, 2005). Este conceito é, de certo modo, consistente com a de Weinberg (1972) de homofobia, que o autor define como sendo o medo irracional, ódio, e intolerância de estar em ambientes fechados com homens homossexuais e mulheres lésbicas (Weinberg, 1972; cit. In Nagoshi et al., 2007). No entanto há que ter cautela para não se confundir os dois conceitos. O conceito de homofobia é mais antigo e é apropriado por pessoas LGBT para reconhecer direitos e alertar a discriminação. Já o conceito de transfobia, por sua vez, surge como um conceito que é análogo ao da homofobia mas com menos história. Algumas pessoas trans utilizam este conceito de transfobia, enquanto outras continuam a usar a expressão de homofobia para relatar situações de discriminação contra pessoas trans. Hill e Willoughby (2005) sugeriram que o conceito de transfobia, que "envolve o sentimento de repulsa (desgosto emocional) para mulheres masculinas, homens femininos, cross-dressers (travestis), transgéneros e/ou transsexuais " (p. 533) é multifacetado, com foco em todo o aval negativo de genderismo. De uma forma simplificada, transfobia constitui-se como um preconceito para com pessoas trans. Genderismo é um conceito semelhante ao de heterossexismo (Hill & Willoughby, 2005), na medida em que se refere a normas sociais e institucionais que reforçam a adoção de comportamentos esteriotipados tanto para sexo masculino como sexo feminino e “punem” os indivíduos que não se conformam com essas concepções – gender nonconformity (a não conformidade de género). Neste sentido, não só as pessoas transexuais estão em risco de serem vítimas de genderismo, mas também as pessoas que demonstrem qualquer forma de não-conformidade relativamente ao género (Costa & Davies, 2012). Segundo Hill (2002), o genderismo é uma crença de origem cultural e 12 que perpetua julgamentos negativos de pessoas que não se apresentam como um homem ou mulher estereotipados. Hill e Willoughby (2005) defendem, relativamente ao genderismo, que é simultaneamente uma fonte de opressão social e vergonha psicológica, de tal forma que pode ser imposto a uma pessoa, mas também uma pessoa pode vir a internalizar essas crenças. O Observatório de Educação LGBT (2013), por sua vez, e voltando ao conceito de transfobia, define este conceito como semelhante ao conceito de homofobia, isto é, como algo que caracteriza o medo e o resultante desprezo por, neste caso, transgénero ou transsexuais. Para muitas pessoas é fruto do medo de elas próprias serem homossexuais ou de que os outros pensem que o são. Este desprezo é dirigido a pessoas com identidade ou expressão de género distinta daquela esperada a partir do seu sexo biológico. Transgénero diz respeito a alguém que não corresponde às categorias tradicionais dos géneros e que não se comporta como se espera convencionalmente perante o sexo biológico com que nasceu (observatório de educação LGBT, 2013). Dito por outras palavras, é alguém que “quebra” as regras sociais que procuram ditar a forma como cada sexo se deve comportar. O trangenderismo é um termo utilizado por algumas pessoas para incluir num só termo transsexuais, travestis, transformistas, andróginos e interssexuais. Transexual diz respeito, por sua vez, a pessoas que sentem que o seu corpo não corresponde à sua identidade de género. Hill e Willoughby (2005) apontam que existe ainda muito pouca pesquisa sobre discriminação contra transexuais, transgénero e travestis. Organizações não-governamentais relataram haver discriminação quando pessoas trans procuram acomodações públicas ou de habitação, acesso aos cuidados de saúde e serviços sociais, tais como abrigos de jovens ou de mulheres, ou procuram tratamento para álcool e problemas com drogas (e.g. Aliança dos direitos para gays e lésbicas em Ontário, 1997; cit. In Hill & Willoughby, 2005). Adams-Price (1997) analisou as atitudes de homens homossexuais e heterossexuais em relação a vinhetas que observaram e que descreviam homens travestis (“cross-dressers”) homossexuais e heterossexuais. Descobriu que, em geral, homens homossexuais eram mais tolerantes com travestis do que os homens heterossexuais, mas os homens heterossexuais viam tanto homens homossexuais como 13 homens heterossexuais travestis negativamente, independentemente da orientação sexual (cit. In Hill & Willoughby, 2005). Temos que atribuir algum peso à dimensão cultural na manutenção de atitudes, pensamentos e crenças transfóbicas na mente das pessoas em resultado dos padrões de género que estão nela enraizados e que tornam uma pessoa que não seja conformista com os mesmos um possível alvo de discriminação e até de bullying. Este tipo de concepções é mais predominante em culturas onde estão enraizados os padrões tradicionais de como um homem/mulher devem ser. Esta dimensão cultural e o peso que exerce nas pessoas que com ela interagem condicionam as pessoas levando a que tenham pensamentos e atitudes prejurativas para com pessoas LGBT. Estes padrões tradicionais que estão enraizados em várias culturas e que são de difícil combate, podemos inseri-los num conceito designado de “heteronormatividade” e que constitui um grande obstáculo a ultrapassar quando queremos intervir na comunidade, visando a mudança de mentalidade e combater o fenómeno do bullying transfóbico. Heteronormatividade pode ser definida como as "estruturas organizacionais em escolas que apoiam e reforçam a heterossexualidade como normal, natural e qualquer outra orientação é desviante" (Donelson & Rogers, 2004, p. 128; cit. In DePalma & Atkinson, 2010). Assim, a homofobia e transfobia surgem em contextos culturais heteronormativos, mas intervenções baseadas no contexto escolar focadas no combate ao bullying homofóbico/transfóbico fracassam por não serem capazes de entender o contexto cultural mais amplo da heteronormatividade (DePalma & Atkinson, 2010). Há a ter em conta um aspecto muito importante no que diz respeito ao bullying transfóbico e que se prende com o número real de casos detectados e que são contabilizados como casos de bullying transfóbico. Segundo o 1º relatório bianual do Observatório de Educação LGBT (2012) é possível que os valores encontrados no que diz respeito à transfobia podem ser significativamente mais elevados do que os valores que foram encontrados. Por um lado por existirem casos não detectados mas também porque é confundida, algumas vezes, com a homofobia. Adicionalmente é possível verificar que, embora em menor número, tanto pessoas homossexuais como pessoas bissexuais são também vítimas de transfobia e que no presente relatório, embora com um valor muito baixo, surgem pessoas heterossexuais vítimas de homofobia e transfobia. Neste relatório encontramos ainda dados que vão no sentido do que a literatura e investigação têm vindo a confirmar e que se prende com a manifestação de homofobia e transfobia em todas as áreas, inclusive num sentido bidirecional, ou seja, 14 se muitos/as alunos/as sofrem discriminação vinda dos seus colegas heterossexuais, outros sofrem-na também de colegas homossexuais e/ou bissexuais que adotam posturas homofóbicas para que nenhum dos seus colegas desconfie da sua orientação sexual. No dia-a-dia, muitos de nós deparamo-nos com situações em que estamos claramente perante um acto de homofobia/transfobia. Essas situações podem ir desde uma “piada” simples e quotidiana até ao insulto direto. Em alguns casos chegamos a deparar-nos com empurrões, socos e outros tipos de agressões que põem em risco a integridade fisica da vítima. Estes comportamentos provocam sentimentos negativos na vítima e que a conduzem a uma exclusão, que por sua vez levam a que a pessoa alvo desses comportamentos se condene com pensamentos e/ou comportamentos de homofobia/transfobia internalizada. Pessoas trans, segundo a literatura existente, são a população considerada como mais vulnerável ao isolamento e à exclusão social. Para jovens trans, a Internet oferece um potencial adicional na medida em que não envolve o contato face-a-face, por isso há a oportunidade de interagir com as pessoas sem revelar características físicas (Clarke et. al., 2010). Um estudo sobre a discriminação em função da orientação sexual e da identidade de género veio salientar que as pessoas mais percebidas como alvo de discriminação são as transexuais (Nogueira & Oliveira, 2010). Taylor e Peter (2011) conduziram um inquérito, o primeiro a nível nacional e no qual foram envolvidas todas as escolas canadianas, sobre homofobia, bifobia e transfobia e que revela resultados a salientar relativamente a estudantes LGBT, mais particularmente estudantes trans. Em primeiro lugar verificou-se, em meio escolar, a ocorrência com frequência de comentários negativos sobre o género, em níveis similares a comentários homofóbicos. Por exemplo, um comentário como “não sejas menina” é utilizado para acusar rapazes de demonstrarem qualidades femininas, como o ser mais emotivo. Um outro resultado deste mesmo estudo aponta que estudantes LGBT reportam terem sido alvo de comentários negativos relacionados com o género ou transfóbicos por parte dos/as professores/as. Atendendo a uma parte destes/as estudantes mais em concreto, o estudo revela ainda que estudantes trans apontaram ter ouvido comentários negativos sobre género ou transfóbicos de outros estudantes diariamente ou semanalmente (89,9% dos jovens trans). Os/as estudantes trans referiram ainda ter sido alvo deste tipo de comentários por parte também do corpo docente e funcionários 15 algumas vezes ou frequentemente (22,5%). No que diz respeito aos níveis de assédio vivenciados e que constituem outra das dimensões estudadas no inquérito, foi obtido que estudantes trans eram o maior alvo (64,8%), comparativamente com estudantes de outras orientações sexuais não-heterossexuais (33,3%) e estudantes não LGBT (17,3%), o que vem reforçar o já referido, de que a população trans é a diversos níveis a mais vulnerável e potencialmente maior alvo de discriminação, violência e bullying. O referido inquérito aborda ainda outras questões cruciais de se ter em linha de conta, como os espaços onde episódios de discriminação, violência e/ou bullying podem ter lugar e que são espaços de maior “insegurança”. As respostas dadas revelaram que os/as participantes consideram como espaços mais “inseguros” na escola os balneários e corredores. Foram ainda referenciados outros espaços numa segunda linha de locais “inseguros”, tais como: os recreios e o trajecto casa – escola e escola – casa. Analisando por fim, mas não menos importante, outras dimensões na vida de um/uma estudante trans, um estudo de Whittle, S. e Al-Alami, M. (2007) refere alguns resultados interessantes de referir, nomeadamente o facto de terem sido encontrados dados que apontam no sentido de que pessoas trans vivenciam problemas/dificuldades várias no seio familiar e com a vizinhança, levando à perda de suporte familiar, da sua residência e até do circulo de amigos. 45% dos/as participantes do estudo reportaram ter ocorrido um corte nas relações com a família devido ao seu processo de transição. Por fim, em Julho de 2009, foi divulgado um relatório por parte do comissário dos direitos humanos no qual estão referenciadas algumas directrizes para ser traçado um caminho com vista a um mundo mais respeitador dos direitos de cada um, mas estão também referidos alguns dados encontrados e que vão de encontro ao acima referido. O presente relatório encontrou que estudantes transgénero encontram, tanto na escola como em ambiente familiar, frequentemente um ambiente inseguro, sendo alvo de bullying na escola e até mesmo expulsos/as do seio familiar. 22 3. Apresentação e Discussão dos Resultados Os resultados que se seguem serão apresentados tenho como linha orientadora os temas principais que resultaram da análise temática dos mesmos. 3.1. Suporte Social (amigos/família) no processo de transição. Como questão incial foi perguntado às participantes como foi o seu desenvolvimento, isto é, quando percebeu que era trans, como foi esse processo e com que rede de suporte pôde contar. As questões em si colocadas encontram-se no guião em anexo (Anexo I). Ambas referem ter sido um processo contínuo e que o ser trans era algo que “esteve sempre presente na vida , de uma forma inconsciente durante uma boa parte da mesma e que se foi tornando totalmente consciente” (P2). É referido por ambas que todo este processo foi longo e passou por uma fase de total desconhecimento do que era ser trans. Sentiam-se do sexo oposto, sentiam-se confortáveis quando vestiram roupas associadas ao género oposto e não sabiam muito bem o que isso significava. Num dos casos, da participante mais jovem, esta ideia é bastante clara quando diz: “Não sabia o que era. Se for a comparar com o resto da minha vida só sei o que é a transsexualidade há relativamente pouco tempo” (P2). Tanto a P1 como a P2 referem que todo o processo é “solitário”, no entanto no que diz respeito a suporte as duas participantes têm experiências distintas. Encontramos por um lado, uma participante que não teve qualquer suporte familiar, referindo mesmo que a nível de relação com a família não se relaciona de todo com os seus irmãos e que no que diz respeito aos pais, a relação com o pai era extremamente conflituosa. “Sempre fui discriminada pelos meus irmãos. Em relação ao meu pai este batiame. Foi muito cruel comigo. Queria moldar-me à força e acreditava que eu tinha que ser homem dê por onde der” (P1) Realidade bem distinta é a que foi retratada pela P2, que diz viver somente com a mãe, com quem não teve grandes partilhas mas que a apoia, apesar de inicialmente ter havido um período de alguma resistência. 23 Relativamente a suporte de amigos durante este processo, as duas participantes voltam a reportar histórias de vida similares. Ambas referem ter perdido amizades por serem trans. “Sim, sem dúvida que perdi amizades. Ainda estou a perder devido a isto” (P2) “A minha rede de amizades é muito curta. Tive pessoas que me tinham adicionado no facebook, isto já numa fase mais recente, que foram perdendo amigos por me terem como amiga e me removeram. Há pessoas que me acompanharam ao longo do processo e que ficaram, mas só duas ou três. O resto afastou-se. Como não sabem lidar com isto afastam-se” (P1) Como se pode constatar, as participantes viram as suas redes de amizades afectadas, efeitos esses que ainda hoje sentem. Este resultado vai de encontro ao que se encontra revisto na literatura, particularmente no estudo de Whittle, S. e Al-Alami, M. (2007) que referem haver dados que apontam no sentido de que pessoas trans vivenciam problemas/dificuldades várias no seio familiar e com a vizinhança, levando à perda de suporte familiar, da sua residência e até do circulo de amigos. 3.2. Bullying Transfóbico – Relatos de experiências vivenciadas Às participantes (P1 e P2) foi colocada a questão de “como definem o bullying?”, com o intuito de clarificar com as mesmas o conceito e que o tema fosse abordado com a definição clara. “É um sistema de assédio constante ao longo dos dias, presente no quotidiano, de maneira prevasiva, que de uma maneira ou de outra está sempre lá, mesmo que a vítima não esteja a ser vítima de uma ação física ou verbal ou psicológica no momento, é algo que está sempre presente. É uma ameaça que pode atacar a qualquer momento (…)” (P2) Esta foi uma das respostas obtidas e que espelha desde logo sentimentos que eram vivenciados pela pessoa alvo de bullying, nomeadamente o receio e o sentir-se constantemente ameaçado/a. Esta resposta está em consonância com o que é escrito por vários autores, nomeadamente Olweus (1993) que define bullying como um comportamento que ocorre repetidamente e ao longo do tempo, numa relação 24 caracterizada por um desequilíbrio de poder e/ou força, na qual o indivíduo é exposto frequentemente a acções negativas por parte de uma ou mais pessoas. “Bullying é uma forma de agressão brutal, em geral psicológica e muitas vezes física (…) é como uma violação daquilo que nós somos” (P1) Este é outro exemplo de como é visto o bullying pela participante e que está em sintonia com o existente na literatura. Depois de abordado o conceito, foi pedido às mesmas que partilhassem situações que se recordassem e que sentisses confortáveis em partilhar com o entrevistador. No que diz respeito às primeiras situações, em ambos os casos teve lugar no ensino primário. Quanto aos espaços onde as suas experiências de bullying ocorreram, ambas referem como principal espaço os balneários que se viam obrigadas a frequentar nas aulas de educação física. “Os balneários de EF (educação física) são um ambiente absolutamente tóxico, para quem não é conformista de género, principalmente o masculino que é de uma toxicidade muito grande e onde uma pessoa naturalmente mais feminina se sente mais vulnerável” (P2) Ora, este testemunho vem confirmar o que a literatura já defende, nomeadamente o inquérito referido na revisão, conduzido por Taylor e Peter (2011), segundo o qual as respostas dadas revelaram que os/as participantes consideraram como espaços mais “inseguros” na escola os balneários e corredores. “Roubavam-me os ténis, o fato de treino, tudo. Eu acabei por ter que falar com a médica da escola e pedir atestado para não fazer EF. Na altura tinha sinusite e o teto era aberto e usei isso como desculpa.” (P1) “É um espaço onde as defesas, por imposição de outros factores estão em baixo. Não podemos fugir. É bastante fácil cercar uma pessoa. Eu levava até a roupa já vestida muitas vezes para não mudar de roupa no balneário” (P2) Estes dois testemunhos espelham bem toda a pressão a que esta população é sujeita bem como o facto de ser um ambiente com menor vigilância e onde a pessoa fica mais exposta, o que torna este espaço um local de elevado risco de ocorrerem episódios de bullying. 25 “Vou especular que acontecia mais em balneário por ser um ambiente mais fechado” (P2). O contexto de balneário não foi o único a ser referenciado. Num dos casos foi ainda referido que o bullying passava dos limites do balneário até à própria aula de EF. A participante que foi alvo de bullying no decorrer destas aulas refere que tal teve lugar no seu 10º, altura em que pela 1ª vez teve apoio por parte de um docente, que chamava os provocadores (bullies) à atenção, tendo mesmo colocado por várias vezes fora da aula com falta disciplinar. “Eu não gostava de voleibol e batia mal a bola. Ouvia logo “olha a menina. Ainda parte uma unha o maricas”. Mas aí o professor era impecável. Dizia não admitir isso e chgou a por colegas fora da sala. Chegaram a pregar-me rasteiras e empurravamme para eu cair.” (P1) Abordando agora outros espaços onde os episódios ocorriam, foi referido por P1 e P2 áreas como os recreios/intervalos entre aulas, os corredores, espaços de menor visibilidade, salas de aulas, refeitório e mesmo no trajecto escola – casa. “Havia uma sala de estar com rádio escolar lá no liceu (10ºano) e tive alguns episódios em que ouvia bocas, bem como no refeitório, em que me chamavam “paneleiro”, “maricas”. Os episódios mais graves eram nos espaços em que me apanhavam mais isolada, como os espaços atrás dos pavilhões.” (P1) “Houve episódios em algumas salas de aula, dependendo do utente a leccionar a disciplina. Havia utentes mais despreocupados com a turma e até mesmo transmisógeno. As traseiras dos blocos eram também espaços mais perigosos para quem não se conforma a 100% nos padrões, porque são espaços com menor visibilidade e vigilância e como tal os prevericadores sentem-se mais à vontade para todo o tipo de coisas.” (P2) Estes dois testemunhos são exemplos da multiplicidade de espaços onde o/os provocador/es podem tomar ação e exercer bullying sobre colegas. Pelos resultados obtidos pode-se depreender que os bullies procuram locais de fraca ou nenhuma vigilância e recatados, onde seja de extrema dificuldade alguém que não os intervenientes possa assistir algo e reportar, e que exercem tal pressão e violência que 26 faz despoletar sentimentos e pensamentos negativos como vamos ter oportunidade de analisar mais à frente. Podemos neste momento perceber que, das várias formas que o bullying pode tomar, a forma verbal foi a mais presente em ambos os casos, o serem chamados de comentários (epítetos) com conotação homofóbica, o que novamente está em conformidade com dados obtidos em vários estudos realizados. Um dos que espelha isso mesmo é o inquérito de Taylor e Peter (2011) no qual foi encontrado existir uma ocorrência com frequência do uso de comentários negativos a estudantes LGBT que eram relacionados com o género ou transfóbicos por parte de outros estudantes diariamente ou semanalmente (89,9% dos jovens trans). Abordando as experiências vivencidas em que as agressões tiveram dimensão física também, ambas referem vários episódios, dos quais destaco dois que são exemplos flagrantes da dimensão que este fenómeno pode tomar. “Juntaram-se todos a mim. Um colega estava já sentado à minha espera. Esfregaram-me a cara na virilha dele. Por sorte não tive contacto com a genitalia dele” (P2) “Havia uma zona que tinha uns arbustos e tinha um espaço lá no meio. Quando vou a passar, eles cercam-me. Eles queriam despir-me e ver o sexo que eu tinha” (P1) A salientar com estes dois excertos que as duas participantes em questão foram alvo de bullying mas não por um só agressor. Era um grupo de colegas, que tinha a atenção em cercar e esconder o que planeavam fazer. O ponto que se segue falará com mais detalhe deste aspecto, isto é, do comportamento do/s provocador/es e de outros intervenientes. 3.3. Bully ou Bullies? Os vários papéis encontrados nas vivências partilhadas Até aqui exploramos o conceito de bullying, à luz da literatura e na voz das participante e dos vários espaços onde os episódios ocorreram. Mas os episódios têm lugar por existirem intervenientes. Quando um fenómeno de bullying conseguimos definir quase que de imediato dois papéis: o de Bully (ou provocador) e o de vítima, mas 27 existem outros, como se pode ler na revisão de literatura. As duas histórias recolhidas espelham os vários papéis que podem ser atribuidos. “Com 15 anos eu era a preferida de um rapaz que fazia 3 de mim (pesado) e que tinha um grupinho de mais quatro. Quando me via começava a dizer coisas do género “dá cá um beijinho” (P1) “Numa outra situação cercaram-me e só me safei porque um deles disse “deixem lá o rapaz” (P1) “Dependeu do ano em que eu estava. Tive turmas tranquilas, turmas em que era alvo de forma generalizada, sem uma hierarquia definida e uma, que foi a pior, em que havia uma hierarquia definida e um instigador principal digamos… e era pior porque tornava-se algo mais organizado… parecia as legiões de Persia a debaterem-se com as legiões de Roma. No exemplo mais generalizado e anárquico alguns até diziam “pára com isso” só mesmo para ficar bem na imagem mas não passava disso. Na turma mais organizada, ficavam caladinhos porque se dissessem alguma coisa tinham todo o sistema contra eles” (P2). Conseguimos com estes testemunhos encontrar vários papéis que estão considerados na literatura, tais como: Bully/Bullies, Vítima, assistente do bully e defensor da vítima. Estes testemunhos reforçam um outro aspecto considerado na literatura, o de que o bullying resulta de um processo de grupo, tal como Salmivalli et al. (1996) defendem, tendo identificado em investigação a existência de seis papéis participativos em situações de bullying: (a) vítima, (b) bully, (c) incentivador do bully, (d) assistente do bully, (e) defensor da vítima e (f) outsider. Alguns destes papéis são claros nos testemunhos. Assim, podemos concluir que participam em situações de bullying não só os bullies e as vítimas, mas também os indivíduos que desempenham outros papéis importantes no reforço do comportamento de bullying e na defesa da vítima. 3.4. Procura de apoio institucional ou junto de pares As participantes referem a este nível não ter tido qualquer apoio por parte do corpo docente e outros profissionais em nenhum momento, salvo uma excepção com uma das participantes no 10º ano e que já de seguida será explorada. Referem não tê-lo 28 feito por haver situações em que os próprios professores contribuiam para o que lhes acontecia. “Cheguei a ter professores que atiravam objectos nas aulas e algumas professoras que se riam e achavam piada a estar ali a levar com objectos. É um problema que existe. A sala de aula é suposto ser um espaço seguro e quando o professor se torna cúmplice dessas situações de bullying é um bocado complicado pois temos literalmente parte do sistema educativo conta nós por assim dizer” (P2) “Não sentia apoio nenhum da parte de ninguém da escola. A própria professsora ainda se ria enquanto apagava coisas que haviam escrito para mim no quadro (e.g. maricas). Quando ouvia duas alcunhas que me colocaram (“mariazinha e Borboleta”) só mandava calarem-se. Não fazia nada” (P1) Estes são exemplos de situações nas quais a postura do corpo docente foi de ignorar, não percebendo os sinais que estavam diante deles. Nas situações reportadas em que os docentes acabaram por soltar risadas, as participantes revelam que isso servia de catalizador, o que reforçava o sentimento de impunidade dos provocadores bem como alimentava a vontade de continuar a exercer bullying sobre as vítimas. Das várias questões colocadas, foi abordado porque não reportaram ao conselho directivo, pelo que ficou claro e os excertos acima são indicadores disso, haver um sentimento de descrença que o sistema educativo actue de forma a pôr termo aos episódios. Os seguintes excertos colocam mais ênfase nestas conclusões retiradas. “Não contei com apoio institucional porque mesmo que fosse lá ou não tomavam ação ou tomavam mas depois os instigadores continuavam presentes e eu vulnerável a eles. Em teoria as escolas têm argumentos para prevenir estas situações mas na prática é o equivalente a um preservativo que passou por uma máquina de costura, todo furado e não oferece proteção” (P2) “Quando tentei procurar ajuda as coisas tornaram-se piores. Os prevericadores foram suspensos e quando voltaram obrigaram-me a engolir pedras e tive que fazer lavagem ao estômago dois dias depois” (P2) O que se pôde constatar nas entrevistas realizadas é que o sistema educativo, possivelmente por desconhecimento ou falta de formação, actua chamando os provocadores à atenção ou suspendendo-os. Ora, como se pode constatar pelos 29 depoimentos, isso não teve efeitos preventivos, muito pelo contrário, serviu de catalizador e reforço para os episódios se sucederem. Dentro da temática da procura de ajuda para reportar os episódios na tentativa de lhes pôr termo, foi também abordada a procura de ajuda junto de pares, ao qual, e como se pode perceber pelos resultados obtidos no que diz respeito ao impacto que o ser trans teve nas suas relações de amizade, que nenhuma das participantes procurou ajuda juntos de pares e/ou amigos/as. Os motivos para tal não ter sido feito podem ser entendidos com base nos excertos abaixo indicados: “Não tinha amigos para desabafar porque ninguém se dava comigo. Tinha efectivamente uma amiga mas que não podia fazer muito por mim. Era de outra turma, de outra escola. Tinha ainda um amigo mas deixou de se dar comigo porque chegaram a ele e disseram que se continuasse a dar-se comigo também ia sofrer. Um dia vou ter com ele e não me cumprimenta” (P1) “Nunca contei nada à minha mãe, nem a amigos nem a família. Os meus colegas ficavam passivos a assistir com receio de que o sistema se voltasse contra eles” (P2) Podemos perceber que não reportavam a amigos ou colegas por dois factores principais: um desses factores prende-se com o facto de terem uma rede de amigos muito reduzida ou nula. Um outro factor tem a haver com a influência que o Bully/bullies exerciam sobre os colegas. Com medo de tornarem-se também alvos adoptavam uma postura de inércia e viravam a cara para outro lado, o que conduzia a um sentimento de que estavam sozinhos/as nestes episódios e não podiam nem contar com a ajuda de colegas para reportar. 3.5. Pensamentos e Sentimentos Como tema final foram abordados os sentimentos que experienciavam durante essa fase das suas vidas, bem como os pensamentos que tinham. Para melhor podermos analisar estes aspectos, encontram-se de seguida alguns excertos. “Sentia uma confusão geral. Não compreendia porquê. Ainda hoje procuro resposta. Qual a razão de as pessoas fazerem isso e não há razão. Sentia-me uma espécie de entretenimento sádico, um espectáculo humorístico, um saco de boxe. Sentia também 30 imensa raiva. Havia momentos em que ficava tipo Hulk mas sem ficar verdinha e com músculos. Era bom que os tivesse que assim esmagava uns quantos mas infelizmente não acontece na vida real” (P2) “Sentia-me humilhada e pensava que o melhor era eu morrer. Tentei o suícidio por duas vezes. Uma em que cortei os pulsos e por sorte/azar não sabia cortar e foi superficial. Outra em que tomei comprimidos e uma amiga deu por minha falta nas aulas e veio a casa e com a minha mãe fizeram-me vomitar” (P1) Estes dois exemplos são intensos e revelam imenso da dimensão psicológica que o bullying tem. As participantes revelaram, como já referi, sentir confusão mas também raiva, tendo tido pensamentos de suicídio, e como se pode constatar num dos casos, existiu mesmo tentativas. O ponto que mais é focado é a busca em ambos os casos de uma razão para estarem a ser alvo deste tipo de episódios. O facto de não encontrarem uma explicação plausível ou que justificasse lançava mais ainda a ideia na mente destas pessoas de que o problema não é dos provocadores mas está nelas próprias. No entanto, à data da entrevista é notório que encontram como possíveis causas explicativas do que vivenciaram questões de género, mais concretamente ao nível dos papéis que a sociedade incute sobre a forma como é expectável que um homem e uma mulher se comportem. Tais conclusões estão de acordo com a revisão da literatura, como se pode constatar no estudo de Poteat e Espelage (2005) no qual se salienta o facto de poderem ocorrer comportamentos de bullying pelo facto de as pessoas serem percebidos/as como tendo uma orientação sexual não heterossexual e que não está em consonância com os papéis de género masculino ou feminino enraizados na sociedade. Podemos assim concordar ainda com a literatura quando defende que o bullying acaba por ser utilizado para “policiar” o comportamento com vista a ser conformista com o seu sexo biológico. Outro sentimento que foi possível de recolher nos depoimentos foi o que desconforto com o corpo. Este sentimento não está relacionado directamente com o bullying mas sim com questões de género. É, no entanto, de salientar por ser algo que era sentido durante os anos de escola e por influenciar a escolha da indumentária, o que, segundo foi recolhido, originava situações de embaraço e risos por parte de colegas . O seguinte excerto reflete o aqui referido: “Quando fui para o 7º ano, para onde iam os meninos betinhos, cheios de dinheiro, e eu era uma pessoa que não se sentia bem com o corpo, utilizava formas de 31 dar a volta a isso, como roupas largas, andrógenas. Não me sentia homem e procurava esconder o não ter peito” (P1) Para além dos sentimentos e pensamentos que eram vivenciados pelas participantes do estudo, existia um outro sentimento que estava constantemente presente: o sentimento de insegurança constante. As participantes revelaram que sentiam em todos os momentos inseguras, com receio do próximo episódio, sem saberem onde ia ter lugar ou quando, tendo num dos casos a sucessão de episódios de ameaças sido tão intenso que houve a necessidade de realizar durante um período de tempo o trajecto escola – casa na companhia de um agente de autoridade, como se pode constatar nos excertos que se seguem: “Eu era de tal modo alvo que quando saía da escola tinha de ter “uma escolta” (um guarda) porque tinha um grupo à minha espera que dizia que me limpava o sebo porque eu era maricas e não tinha direito a viver” (P1) “Acabaram por me espancar. Tive de usar uma pala durante um mês, como um pirata. A ameaça está sempre presente, como se fosse uma guerra fria” (P2) Estes são alguns exemplos de sentimentos e pensamentos que podem ser experienciados por pessoas alvo de bullying, neste estudo em particular, são sentimentos e pensamentos de pessoas trans alvo de bullying transfóbico. 0 Anexos Anexo I: Guião de entrevista semi-estruturada Guião de Entrevista  Introdução (Apresentação do aluno, do estudo e consentimento informado) (bom dia/boa tarde), o meu nome é António Gomes e sou aluno finalista do curso de mestrado integrado em psicologia do comportamento desviante e justiça na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Antes de mais quero agradecer a sua disponibilidade para fazer parte do estudo. O estudo que estou a desenvolver neste momento procura explorar o fenómeno do “bullying transfóbico” tendo como objectivos dar uma maior visibilidade ao fenómeno de modo a que escolas, professores e restantes funcionários escolares possam estar melhor preparados para apoiar mais todos/as os/as seus alunos/as. Gostaria de acrescentar que para este estudo a sua experiência e posições (opiniões) são o mais importante. No que diz respeito ao estudo, importa-se que a nossa entrevista seja gravada para que depois possa transcrever e não perder informações importantes? Tudo o que for dito aqui fica só entre nós; todas as informações são confidenciais, sendo que para efeitos de tese serão transcritas e analisadas por mim mas assegurando sempre a confidencialidade. Pode a qualquer momento interromper a entrevista caso não queira continuar ou queira colocar alguma questão. Tenho aqui um documento com todas estas informações e gostaria que assinasse autorizando a realização desta entrevista (dar consentimento informado). No caso de ocorrerem via skype: pedir para iniciar a gravaçao e colocar novamente a questão do consentimento a fim de ficar a resposta na gravação. Quer colocar alguma questão antes de começarmos? Podemos então começar?  Questões de Entrevista Questão 1 TEMA: Questão inicial de entrevista a) Para si ser transexual/ transgénero foi um processo continuo na sua vida ou houve algum momento que marcou esse processo? Pode falar-me sobre isso? Teve alguma rede de suporte?(contar histórias) Questão 2 TEMA: Amizades / relaçao com pais (suporte social) a) Gostaria de começar por lhe pedir que falassemos um pouco sobre relações de amizade. Como classifica a sua rede de amigos? b) Para além dos amigos, a família é também uma peça relevante na vida de uma pessoa. Pode-me falar um pouco sobre a sua relação com os seus pais? Questão 3 TEMA: Bullying – o que é? a) Falando agora de um tema mais sensível gostaria de lhe perguntar como define “bullying”? (introduzir aqui definiçoes de bullying de modo a explicar de forma clara em que consiste, quais os critérios de modo a depois começar a falar-se sobre as experiências do/a participante e dar exemplos) Questão 3 TEMA: Bullying transfóbico a) Recordando os seus anos de escola, foi alvo/a de algum tipo de intimidação, agressão ou violência relacionado com a sua orientação sexual ou identidade de género e que seja considerado bullying? b) Onde ocorreram? c) Que idade tinha quando foi vitima de bullying? Questão 4 a) Quais as reacções e sentimentos perante essa violência? Teve apoio de alguém? (professores/as e restante corpo escolar) TEMA: Reacção de professores e/ou funcionários Questão 5 TEMA: Procura de suporte/ajuda a) Em relação a amigos e/ou familiares, chegou a contar a alguém? Como reagiram? Questão 6 TEMA: Questões sobre a identidade do/a participante para finalizar a) Aproximamo-nos do final da nossa entrevista. Pedialhe agora que me falasse um pouco mais sobre si. b) (colocar as questões de “dados biológicos”) c) Perguntar se a pessoa quer escrever ela ou se prefere que o/a entrevistador/a coloque as questões oralmente.  Conclusão Bem, chegamos ao final. Quero mais uma vez agradecer a sua disponibilidade e participação neste estudo. Foi muito importante o seu contributo. Gostaria de saber se ficou com alguma dúvida? Quer acrescentar alguma informação? Deixo consigo este contacto (e-mail) para o qual pode enviar alguma dúvida que tenha e caso queira depois ter acesso ao estudo que posso fornecer. Dou assim a entrevista por terminada. Mais uma vez obrigado e o resto de um bom dia. Final! Anexo II: Ficha de dados biográficos Dados Biográficos Nome no qual se identifica: _______________________________________ Idade: Área de Residência: _______________________________________(cidade) Escolaridade: _______________________ Qual o sexo atribuído no registo de nascimento? _____________________ Qual a sua identidade de género? __________________________________ Orientação sexual (Sente-se atraído/a por?): __________________________ Qual o seu estado civil?  Solteiro/a __  Casado/a __  Viuvo/a __  Divorciado/a __  Em união de facto __ Situação profissional?  Empregado/a __  Desempregado/a __  Outra: _______________________________________________ Profissão: __________________________________ Anexo III: Consentimento Informado CONSENTIMENTO INFORMADO Eu,_______________________________________________________ (nome do/a participante), nascido/a em ____ de _________________ de _______, residente na cidade de ______________ aceito participar no estudo levado a cabo por António Carlos Rego Gomes, estudante no 5º ano do curso de mestrado integrado em psicologia do comportamento desviante e justiça na Universidade do Porto, focado no tema de Bullying Transfóbico. Declaro ainda ter sido informado/a de que a entrevista é confidencial e os dados recolhidos serão somente analisados pelo entrevistador. Por fim, declaro ter aceite que a entrevista seja gravada para fins académicos. Local: ______________ Data: ______ de __________________ de 2014 Assinatura do/a participante: ______________________________________________________________________ Assinatura do aluno/mestrando: ______________________________________________________________________