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Educação e desenvolvimento comunitário num processo de transição autogestionário

João Caramelo

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                   João  Carlos  Pereira  Caramelo   Educação  e  desenvolvimento  comunitário  num  processo  de  transição  autogestionário      Tese  de  Doutoramento  em  Ciências  da  Educação  Fevereiro  de  2009                   Educação  e  desenvolvimento  comunitário  num  processo  de  transição  autogestionário  João  Carlos  Pereira  Caramelo  2009      Dissertação  apresentada  à  Faculdade  de  Psicologia  e  de  Ciências  da  Educação  da  Universidade  do  Porto  para  obtenção  do  grau  de  Doutor  em  Ciências  da  Educação,  sob  a  orientação  do  Prof.  José  Alberto  Correia  e  co ‐ orientação  do  Prof.  José  Francisco  de  Melo  Neto.  i Resumo  Este  trabalho  constitui  essencialmente  uma  problematiza ção  e  uma  reflexão  teórica,  ilustrada  empiricamente  a  partir  de  um  caso  de  estudo  (o  processo  de  tr ansição  para  a  autogestão  de  uma  usina  de  açúca r  do  nordeste  brasileiro),  acerca  de  algumas  das  questões  que  se  colocam  à  relação  entre  educação  e  desenvolvimento  comuni tário  local  no  presente  momento  histórico.  Este  trabalho  adopta  como  pressuposto  a  simultânea  importância  e  inevitabilidade  da  presença  do  educa tivo  nas  dinâmicas  de  desenvolvimento  sócio ‐ comunitário,  seja  assumindo  a  forma  de  práticas  sociais  diversas  que  de  forma  intencional  procu ram  produzir  efeitos  de  transformação  dos  sujeitos,  da s  suas  interacções  e  da  sua  relação  com  o  território  em  que  (con )vivem  e  trabalham,  seja  na  qualidade  de  efeitos  induzidos  nos  sujeitos  sociais,  individuais  e  colectivos,  a  partir  do  seu  envolvimento  nos  processos  e  práticas  sociais  accionados  no  sentido  da  promoção  da  mudança  e  do  desenvolvimento  comunitário.  Neste  sentido,  a  discussão  aqui  ensai ada  centra ‐ se,  por  um  lado,  nas  características,  funções  e  qualidades  que  os  processos  educativos  podem  adquirir,  equacionadas  a  par tir  dos  sentidos  diversos  que  os  sujeitos  sociais  envolvidos  numa  dinâmica  de  mo bilização  colectiva  lhe  atribuem  e,  por  outro  lado,  procura  igualmen te  caracterizar  os  efeitos  educativos,  individuais  e  colectivos,  que  a  mobilização  e  participação  no  âmb ito  de  um  processo  de  transformação  sócio ‐ comunitária  provoca  nos  sujeitos  sociais.  O  trabalho  que  se  apresenta  constitui  ainda  um a  oportunidade  para  reflectir  as  questões  metodológi cas  que  se  levantam  à  pesquisa  qualitativa  no  domínio  das  relações  entre  educa ção  e  desenvolvimento  comunitário,  desi gnadamente  no  qu e  concerne  as  práticas  de  construção  dos  dados  empíricos  e  as  opções  teóricas  e  epistemológicas  que  sustentam  a  análise  e  interpretação  daqueles  dados  e  qu e  supõem  a  inexorável  afirmação  de  uma  postura  dialéctica  na  produção  de  um  conhecimento  simultaneamente  sensível  aos  sentidos  e  significados  atribuídos  pelos  sujeitos  sociais  à  sua  acção  e  às  condições  objectivas  e  estruturais  dentro  das  quais  aquela  acção  e  os  discursos  se  tecem.  O  possível  contributo  para  o  conhecime nto  em  ciências  da  educação  resultante  desta  pesquisa  situa ‐ se  eminente mente  na  argumentação  em  prol  da  necessidade  do  desenvolvimento  de  categori as  híbridas  de  análise  do  educativo  pres ente  nas  dinâmicas  de  desenvolvimento  sócio ‐ comunitário,  bem  como  em  prol  da  neces sidade  de  resgatar  a  gramática  produzida  no  campo  das  abordagens  críticas  do  desenvolvimento  local  e  comunitário  para  dar  conta  das  tensões  e  contradições  que  num  contexto  de  globalização  neoliberal  atravessam  a  definição  política  e  educativa  das  dinâmicas  de  promoção  da  mudança  social.   ii Resumée  Ce  travail  est  essentiellement  une  problématisation  et  réflexion,  empiriquement  illustré e  à  partir  d’un  cas  d’étude  (le  processus  de  transition  à  l’autogestion  d’une  usine  de  sucre  du  nord ‐ est  du  Brésil),  autour  de  quelques  questions  qui  se  posent  à  la  relation  entre  éducation  et  développement  communautaire  local  dan s  le  présent  moment  historique.  Le  travail  adopte  comme  présupposés  la  simultanée  import ance  et  inévitabilité  de  la  présence  de  l’éducative  dans  les  dynamiques  de  développement  sociocommunautaire,  soit  en  assumant  la  forme  de  pratiques  sociaux  diverses  qui  de  forme  intentionnel  cherchent  à  produire  des  effets  de  transformations  des  sujets,  de  ses  interactions  e  da  sa  relation  avec  le  territoire  où  coexistent  et  tra vaillent,  soit  dans  la  qualité  d’effets  induits  dans  les  sujets  sociaux,  individuelles  et  collectives,  à  partir  de  sa  participation  dans  les  enjeux  et  pratiques  sociaux  qui  se  mènent  en  marche  pour  promouvoir  le  changement  et  le  développemen t  communautaire.  Dans  ce  sens,  la  discussion  qu’on  entraîne  est  centrée,  par  un  côté,  dans  les  caractéristiques,  fonctions  et  qualités  que  les  processus  éduca tifs  peuvent  assumer,  réfléchis  à  partir  des  divers  sens  qui  les  sujets  sociaux  impliqués  dans  une  dy namique  de  mobilisation  collectiv e  leur  attribuent  et,  par  une  autre  côté,  notre  discussion  cherche  aussi  à  caractériser  les  effets  éducatifs  ,  individuelles  et  collectives,  que  la  mobilisation  et  participations  dans  un  processus  de  changement  sociocommunautaire  apporte  aux  sujets  sociaux.  Le  travail  est  aussi  une  opportunité  pour  réfléchir  les  questions  méthodologiques  qui  se  posent  à  la  recherche  qualitative  dans  le  domaine  des  relations  entre  éducation  et  développement  communau taire,  en  particulier  dans  ce  que  concerne  les  pratiques  de  production  des  do nnées  empiriques  et  les  options  théoriques  et  épistémologiques  qui  soutiennent  l’analyse  et  l’interprétation  de  ces  données  et  qui  s upposent   inexorablement  l’affirmation  d’une  posture  dialectique  dans  la  production  d’une  connaissance  simul tanémen t  sensible  aux  sens  e  significations  attribués  par  les  sujets  sociaux  à  sa  action  et  aux  conditions  objectives  et  structurelles  à  l’intérieur  desquelles  sa  action  et  discours  se  tissent.  La  contribution  potentielle  de  ce  travail  pour  la  connaissance  en  sciences  de  l’éducation  c’est  peut ‐ être  la  argumentation  autour  de  la  nécessité  du  développem ent  des  catégories  hybrides  d’analyse  du  éducatif  qui  est  présent  dans  les  dynamiques  de  développem ent  communautaire,  bien  que  la  nécessité  de  récupérer  la  grammatiq ue  produite  dans  le  champ  des  approches  crit ique s  du  développement  local  et  communautaire  pour  appréh ender  les  tensions  et  contradictions  que  dans  un  contexte  de  globalisatio n  néolibéral  traversent  la  définition  politique  et  éducatif  des  dynamiques  de  promotion  du  changement  social.   iii Abstract  This  work  mainly  intends  to  be  a  theoretical  reflection  and  questioning,  empirically  illustrated  through  a  case  of  study  (the  transition  process  to  an  employ ee  ownership  situation  of  a  sugar  cane  factory  in  the  Brazil  northeast),  of  some  of  the  issues  about  education  and  loca l  and  community  development  relations  at  the  present  historical  moment.  This  works  intentionally  assumes  the  relevance  and  inevitability  of  the  educative  phe nomena  in  the  socio ‐ community  development  processes,  either  when  it  assumes  the  form  of  diverse  intentional  social  practices  intending  to  produce  transformational  effects  in  the  social  subjects,  th eir  interactions  and  their  relation  with  the  territory  where  they  co ‐ exist  and  work,  either  when  it  appe ars  as  unintentional  effects  induced,  individually  and  collectively,  in  the  social  subjects  through  their  involvement  in  the  social  processes  and  practices  carried  way  with  the  intention  of  promoting  social  change  and  community  development.  In  this  sense,  our  discussion  is  centred,  on  one  side,  in  the  characteristics ,  functions  and  qualities  that  educational  processes  may  acquire,  understood  through  the  lens  of  the  diverse  meanings  that  social  subjects,  involved  in  a  collective  mobilisation  process,  attribute  to  those  processes  and,  on  the  other  side,  aims  to  characterize  the  in dividual  and  collective  educational  effects  that  the  mobilisation  and  participation  in  a  socio ‐ commu nitarian  change  process  provokes  in  social  subjects.  This  work  is  also  an  opportunity  to  reflect  the  methodological  issues  raised  by  qualitative  research  in  the  field  of  the  education ‐ co mmunity  dev elopment  relations,  namely  in  what  concerns  the  practices  of  empirical  data  production  and  the  theor etical  and  epistemological  choices  that  underlie  the  analysis  and  in terpretation  of  those  data  and  that  s upposes  an  inexorable  affirmation  of  a  dialectic  approach  in  order  to  produce  a  knowledge  simulta neously  sensitive  to  the  senses  and  significations  attribu ted  by  social  subjects  to  th eir  action  and  to  the  ma terial  and  structural  conditions  within  which  the  action  and  discourse  is  sewed.  A  possible  contributi on  of  this  work  to  the  sciences  of  education  field  knowledge  lays  in  the  arguing  for  the  necessity  of  developi ng  hybrid  catego ries  to  analyse  educational  phen omena  pres ent  in  the  socio ‐ communitarian  development  processes,  as  well  as  the  necessity  of  rescuing  the  theoretical  grammar  produced  in  the  field  of  local  development  critical  approaches  hence  that  grammar  may  be  able  to  apprehend  the  tensions  and  contrad ictions  that  in  the  prese nt  context  of  neoliberal  globalisation  cross  the  political  and  educative  definition  of  social  change  dynamics.    iv Dedicatória            Aos  trabalhadores  e  trabalhadoras  de  Catende  À  minha  mãe  Ao  meu  pai  ( in  memoriam )  Ao  meu  irmão,  À  Sónia  v Agradecimentos  Aos  trabalhadores  e  trabalha doras  de  Cate nde  pela  inspiração  que  constituem  para  os  que  precisam  de  acreditar  que  é  possível  construir  um  mundo  mais  justo.  Em  particular  devo  agradecer  aos  trabalhadores  e  trabalhadoras  que  se  disponibilizaram  gentilmente,  muita s  vezes  interrompendo  os  seus  afazeres,  para  conversarem  comigo  e  me  dizerem  das  suas  vidas;  Aos  meus  orientadores  José  Alberto  Correia  (FPCEUP)  e  José  Francisco  de  Melo  Neto  (UFPB)  a  quem  devo  a  oportunidade  de  ter  conhe cido  e  vivido  em  Catende  uma  das  experiências  human amente  mais  marcantes  da  minha  vida.  E  também  po r  me  terem  ajudado  a  pe nsá ‐ la  (se  tal  não  aconteceu ,  não  é  certamente  da  sua  responsabilidade,  mas  exclusivamente  da  minha).  E  a  ambos,  igualmente,  um  agradecimento  especial  pelo  indizível  da  relação  de  amiza de  que  com  eles  mantenho;  Aos  colegas  e  amigos  da  FPCEUP  qu e  me  incentivaram  constanteme nte  e  com  quem  pude  partilhar  sofrimentos  e  dúvidas  e  a  cuja  solidariedade  profissional  e  amizade  pessoal  se  deve  a  criação  de  condições  para  que  este  trabalho  se  fizesse,  muitas  vezes  com  o  sacrifício  abne gado  das  suas  próprias  c ondições  de  trabalho  (devo  em  particular  destacar  os  professores  Manuel  Matos,  Manuela  Terrasêca,  Teresa  Medina  e  José  Alberto  Correia  que  asseguraram  imensas  aulas  por  mim).  E  também  a  todos  aqueles  a  quem  deixei  de  acompanhar  nos  projectos  de  pesquisa  comuns,  em  par ticular  nos  mome nt os  mais  penosos  da  te se,  não  porque  o  meu  contributo  fosse  importante  para  esses  projectos,  mas  porque  se  viram  obrigados  a  suportar  nas  suas  costas  um  compromisso  que  era  também  meu;  Aos  amigos  e  amigas  de  ambos  os  lados  do  Atlânti co  com  quem  me  cruzei  nesta  longa  viagem  e  que  pelos  seus  conselhos  e  alentos  amigos,  acol himento,  trabalho  generoso,  escuta  sensível  e  palavra  partilhada  foram  imprescindíveis  à  chegada  a  bom  porto  desta  em presa.  Em  Portugal  e  no  Br asil  sempre  estiveram  presentes  e  disponíveis,  são  parte  deste  tr abalho  já  que  tudo  fizeram  para  me  ajudar  e  neles  encontrei  inspiração  e,  várias  vezes,  a  força  para  não  abdicar.  Não  posso  então  deixar  de  agradecer  profundamente  a:  Ademar  Aires,  Alexandra  Sá  Costa  (pela  tua  inteligência,  duro  labor  e  perspicácia  crítica  inesgotáveis),  Amélia  Lopes,  António  Ma galhães,  Ariana  Cosme,  Arn aldo  Liberato,  Bete,  Br uno  Monteiro,  Carina  Coelho,  Carlinda  Leite,  Cláudia  Rodrigues  (leitora  crítica  e  oráculo  lúcido),  Cleide  do  Nascimento,  Cristina  Ro cha,  D.  Dora,  Edilene  do  Nascimento,  Elisabete  Ferreir a,  Fátima  Pereira,  Fernanda  Dantas  ( in  memoriam ),  Francisco  Mendonça,  Helena  Araújo ,  Helena  Barbieri,  Henrique  Vaz,  Humberto  Lopes,  Irene  Terrasêca,  Isabel  Menezes,  Ivonaldo  Leite,  Izabel  Mota,  João  Francisco  Souza,  Laura  Fonseca,  Lenivaldo  Lima,  Leonor  Terrasêca,  Luciano  Correia,  Luís  Carlos  Martins  (autor  de  uma  leitura  e  revisão  minuciosa,  inteligente  e  questionadora),  Luísa  Álvares  Pereira,  Luzitânia  Lima,  Manuel  Matos,  Manue la  Ferreira,  Manuela  Terrasêca,  Margarida  Felgueiras,  Maria  José  Magalhães,  Mário  Borba,  Marivaldo  Andrade,  Natércia  Pacheco,  Orquí dea  Coelho,  Paulo  Nogueira,  Paul  Singer,  Preciosa  Fernan des,  Risadalvo  da  Silva  (São),  Rosa  Nunes,  Rui  Canário,  Ru i  D’Espiney,  Rui  Trindade,  Rui  Leal,  Sofia  Marques  da  Silva,  Sónia  Dantas  (obrigado,  mil  vezes  infinito!),  Sónia  Kruppa ,  Teresa  Medina  e  Tiago  Neves.  E  que  a  vida  me  permita  demonstrar ‐ lhes  o  significado  que  todo s  têm  para  mim.  vi Siglas  ABONG  Associação  Brasileira  de  Organizações  Não  Governamentais  ABRINQ  Fun dação  ABRINQ  –  Instituição  sem  fins  lucrativos  criada  em  1990  com  o  objectivo  de  mobilizar  a  sociedade  pa ra  questões  relacionadas  aos  direitos  da  infância  e  da  adolescênc ia  ACR  Animação  dos  Cristãos  no  Meio  Rural  ADENE  Age ncia  de  De senvolvimento  do  Nordeste  ADS  Agência  de  Desenvolvimento  Solidário  ANTEAG  Associação  Nacional  dos  Trabalhadores  em  Em presas  de  Autogestão  e  Participação  Accionária  Articulação  das  Entidades  na  Mata  Sul  Espaço  de  refl exã o  em  que  Associações  Urbanas  e  Rurais,  Organizações  Não  Governamentais,  Movimento  Sindical  de  Trabalhadores  Rurais  e  Centros  de  Mulheres  se  articulam  em  torno  de  uma  agen da  comum  para  o  desenvolvimento  sustentável  da  Zona  da  Mata  Sul  de  Pernambuco  ATR  Açúcar  Total  Recuperado  BAG  Bolsa  Autogestionária  BID  Banco  Interamericano  de  Desenvolvimento  BNDES  Banco  Nacional  de  Desenvolvimento  Econ ómico  e  Social  BNE  Banco  do  Nordeste  CCBA  Centro  Cultu ral  Brasil  Alemanha  CDI  Comité  de  Democratização  da  Informática  CDI  Centro  (ou  Comité)  de  Demo cratização  da  Informática  CEAAL  Conselho  de  Educação  de  Adultos  da  América  Latina  CEAS  Centro  de  Estudos  e  Ac ção  Social  CENTENAS  Central  de  entidades  asso ciativas  do  município  de  Catende  Centro  de  Mulheres  do  Cabo  Orga nização  Não ‐ Governamental,  emergente  das  lutas  p opulares  e  da  explosão  do  movimento  de  mulheres  na  década  de  80,  vem  desenvolvendo  acções  que  visam  cons cientizar  as  mulhe re s  sobre  xiii reconhecido  é  constituído  pelos  230 0  demitidos  de  1993  –  por  isso  alguma s  vezes  faz ‐ se  coincidir  a  designação  de  credor es  com  a  de  demitidos  –  mas  o  seu  número  total  as cende  a  cerca  de  3000  pessoas.  Cursos  da  Mass a   Expressão  utilizada  para  designar  os  curs os  e  respectivos  estágios  de  cariz  profissionalizante  desenvolvidos  com  jovens  pelo  Projecto  Catende  Harmonia  e  realmente  intitulados  “ Curso  de  Técnicas  de  Gerenciament o  em  Produção  Agrícola ”  e  “ Curs o  de  Técnicas  de  Produção  na  Agroindústria  Canavieira ”  Cursos  da  Fundação  Banco  do  Brasil  Conjunto  de  acções  de  capacita ção/form ação  em  torno  da  autogestão  e  economia  solidária  realizados  com  cerca  de  400  trabal hadores/moradores  do  Projecto  Catende  Harmonia  no  ano  de  2005,  financiados  pela  Fundação  Banco  do  Brasil.  A  produção  numa  perspe ctiva  de  economia  solidária  e  autogestionária  foi  eleita  como  eixo  central  do  trabal ho  educativo  destes  cursos,  a  partir  do  qual  se  definiram  como  possíveis  temáticas  as  quest ões  do  crédito  e  da  pr odução  canavi eira.  Escola  de  Informática  e  Cidadania  Projecto  de  instalação  de  uma  sala  de  computadores  no  agr upamento  escolar  Herculano  Bandeira  e  de  for mação  de  monitores  de  infor mática,  articula do  pela  associação  de  jovens  PU AMA  junto  do  Centro  Cultural  Brasil/Alemanha  que  financiou  a  aquisição  do  equipamento  e  a  formação  dos  jovens  como  monitores.  Esta  Escola  pretende  prestar  serviços  –  curso s  de  informática  –  à  comunidade  da  cidade  de  Catende  e  dos  engenhos  da  Usina  Catende ,  bem  como  aos  alunos  do  próprio  grupo  escolar.  Este  projecto  inscreve ‐ se  no  que  o  Projecto  Catende  Harmonia  considera  ser  a  promoção  do  protagonismo  juvenil  e  aparece  igualme nte  designado  em  outr os  momentos  como  Núcleo  de  Inclusão  Digital.  Empresa  de  trabalhadores  Expressão  encontrada  para  traduzir  a  ideia  de  empresa  autogestionária  nas  conversas,  reuniões  e  debates  com  os/as  trabalhadores/as  enquanto  rum o  desejado/visado  do  Projecto  Catende  Harmonia.  Engenho  Comunida des  rurais  constituídas  pelos  arruados ,  isto  é,  o  conjunto  das  habitações  dos  moradores  dos  engenhos  e  uma  área  agrícola  envolvente,  normalmente  de  grande  dimensão  para  o  cultivo  de  cana ‐ de ‐ açúcar.  Em  outras  regiões  corresponde  ao  termo  de  fa zenda.  O  termo  man tém  uma  ressonância  colonial  já  que  nesse  contexto  o  engenho  correspondia  também  ao  local  de  transformação  da  can a ‐ de ‐ açúcar.  “Entrar  no  FAT”  O  Fundo  de  Amparo  ao  Trabalhador  envolve  a  suspensão  temporária  do  vínculo  laboral  e  do  exercício  de  ac tividade  profissional  (por  5  meses)  –  com  incidência  no  período  de  entressafra  –  em  troca  da  frequência  de  acções  de  fo rmação  desenvolvidas  pela  Usina,  Sindicatos  ou  outras  entidades  para  os  trabalhadores  que  reúnam  as  condições  de  o  fazer,  assegurando  os  trabalhadores  uma  bolsa  de  qualificação  profissional  (paga  pelo  FAT)  cujo  diferencial  face  aos  salários  que  esses  trabalhadores  receberiam  norm almente  é  assegurado  pela  Usina.  Este  é  um  instr umento  mobilizado  pela  Usina  para  a  redução  dos  seus  enca rgos  no  período  em  que  menos  força  de  trabalho  é  necessária.  Entressafra  Período  compreendido  normalmente  entre  Março  e  Se tembro  de  ca da  ano  em  que  a  moagem  (transformação)  da  cana ‐ de ‐ açúcar  é  interrompida  atendendo  ao  ciclo  vegetativo  da  cana ‐ de ‐ açúcar,  se  procede  ao  apontamento  da  fá brica  –  isto  é,  à  sua  desmontagem,  reparação  e  remontagem  –  e  a  tratos  culturais  no  campo.  Equipa  da  Har monia  Nome  genérico  atribuí do  ao  conj unto  de  té cnicos/as  que  têm  uma  interv enç ão  na  planificação,  organização,  gestão,  animação  e  avaliação  em  diversos  xiv (ou  equipa  de  educação)  projectos  de  sua  iniciativa  ou  em  parceria  com  entidades  externas  e  com  uma  intencionalidade  e/o u  finalidade  educativa.  Grupo  Escolar  Herculano  Bandeira  Escola  montessori  que  pertence  à  Usina  e  é  por  si  financiada.  Fica  situada  no  coração  da  ci dade  de  Catende  e  os  seus  alunos/as  são  essencialmente  os  filhos/as  dos  operários  da  fábrica  e  ainda  algumas  crianças  provenientes  dos  engenhos  pró ximos  à  cidade,  filhos/as  de  trabalhadores  rurais  da  Usina  Catende.  O  grupo  escolar  tem  cerca  de  400  alunos  e  integra  crianças  até  aos  14  anos.  Até  ao  início  dos  anos  90  esta  escola  coordenava  uma  rede  de  escolas  (entre  15  a  20)  dos  engenhos  da  Usina  Catende.  Hierarquia  do  campo  Na  coordenação  da  produçã o  da  cana  os  engenhos  estã o  agrupados  Zonas  de  Produção  Agrícola  –  ZPAs.  Essas  zonas  são,  grosso  modo ,  corresponde ntes  às  antigas  capitanias  coloniais,  para  as  quais  o  senhor  de  engenho  nom eava  um  capitão .  Este,  por  sua  vez,  tinha  ao  serviço  um  administr ador  por  enge nho  que  comandava  um  conjunto  de  funcionários  chama dos  cabos ,  que  ordenavam  o  trabalho  dos  trabalhadore s  agrícolas.  Os  administradores  e  cabos  permanecem  no  Projecto  Catende  Harmonia  ainda  que  com  funções  diferencia das  das  que  lhes  eram  acometidas  no  tempo  das  capitanias.  Os  antigos  capitães  foram  substituídos  por  Supervisores  de  ZPAs.  “Juiz  da  massa”  Designação  comum  para  o  juiz  encarregu e  do  processo  de  falência  da  Usina  Catende.  Lavoura  branca  Produtos  agrícolas  produzidos  numa  lógica  de  subsistência  familiar  (segurança  alimentar)  pelos  trabalhadores/as  em  pequenas  áreas  de  roçado ,  normalmente  junto  dos  núcleos  habitacionais  rurais.  Esta  prática  era  praticamente  proibida  no  período  anterior  à  falência  da  Usina  Catende  e  ao  início  do  processo  autogestionário  dado  que  ou  as  terras  estavam  integralmente  ocupadas  com  cana ‐ de ‐ açúca r  ou  as  culturas  eram  sujeitas  a  uma  des truição  sistemática  a  mando  dos  usineiros.  Liderança(s)  comunitária(s)  Expressão  utilizada  para  designar  a  pessoa  ou  conjunto  de  pessoas  reconhecidas  pelo  Projecto  Catende  Harm onia  como  tendo  uma  influência  marcante  nas  suas  comunidades  rur ais  ( engenhos)  e,  ao  mesmo  tempo,  identificada  com  os  princípios  e  valores  do  projecto.  Por  vezes  coinci dem  com  os/as  presidentes  das  associações  de  moradores.  Destas  pessoas  é  esperado  um  papel  mobilizador  nas  comunidades,  que  se  constituam  em  elos  de  comunicação  entre  o  proje cto  e  os  moradores/trabal hadores  ou  que  ocupem  papéis  interventivos  em  iniciativas  propost as  ou  desenvolvidas  pelo  proj ecto.  Mata  Atlântica  Todo  o  território  abrangido  pelas  terras  da  Usina  Catende  foi  em  tempos  idos  floresta  com  características  muito  pr óprias  designada  Mata  Atlântica,  progressivamente  foi  devastada  para  fazer  avançar  o  cultivo  da  cana ‐ de ‐ açúcar.  Hoje  restam  pequenas  áreas  protegidas  legalmente,  nor malmente  em  locais  onde,  pelas  características  do  relevo,  o  cultivo  de  can a ‐ de ‐ açúcar  não  seria  possível  ou  rentável.  Massa  Falida  Estatuto  jurídico  da  Usina  Catende  na  sequência  do  pedido  de  falênci a  requerido  pelos  trabalhado res  e  aceite  por  um  juiz  da  vara  de  falências  de  Recife.  Este  estatuto  tem  importantes  consequências  na  preservação  do  património  da  Usina  para  futuro  pagamento  das  dívidas  trabalhistas  acumuladas  pelos  Usineiros  e  permitiu  a  recuperação  do  património  considerado  alienado  fraudul entamente  pelos  Usineiros  até  cinco  anos  an tes  do  pedido  de  falência.  Por  outro  lado,  este  estatuto  impõe  evidentes  limitações  na  relação  com  entidades  públicas  ou  privadas,  como  por  exemplo  Bancos  ou  xv entidades  do  governo  estadual  ou  federal  Morador(es)  Designa  os  trabalhadores  rur ais  e  respectivas  famílias  que  habitam  em  qualquer  um  dos  48  en genhos  da  Usina  Catende.  Policlínica  Gouveia  de  Barros  Edifício  que  albergo u  um  hospital  dedicado  ao  atendimento  dos  trabal hadores  e  trabalhadoras  da  Usina  Cat ende  nos  tempos  do  seu  apogeu  econ ómico.  O  edifício  retomou  em  parte  a  sua  funcionalidade  original  com  o  trabalho  que  nele  desenvolve  a  Comissão  de  Mulheres  da  Policlínica  no  âmbito  da  saúde  sexual  e  reprodutiva  da  mulher.  Programa  Cana  de  Morador  Iniciativa  que  desde  1998  confere  aos  moradores/tra balhadores  rurais  da  Usina  Catende  o  direito  a  plantar  cana ‐ de ‐ açúca r  em  terras  cedidas  para  o  efeito  pela  administração  da  massa  falida  e  que,  tor nando ‐ os  fornec edores  de  cana  para  a  usina,  é  uma  forma  complementar  ao  assalariamento  de  geração  de  renda  individual  e,  igualmente,  de  comprometi mento  com  o  projecto  colectivo  de  manutenção  do  funcionamento  da  Usina.  Projecto  de  Piscicultura  Esta  iniciativa  animada  essencialmente  pelo  Centro  Josué  de  Castro,  do  Recife,  integra ‐ se  no  esforço  de  diversificação  produtiva  e  começou  por  ter  uma  preocupação  central  com  a  questão  da  segurança  alimentar  das  populaçõ es  dos  engenhos.  Nesse  sentido  desenvolveu ‐ se  num  conju nto  de  engenhos  a  experiência  de  construção  de  barreiros  (peque nas  represas  ou  lagoas)  para  reprodução  e  criação  de  peixe.  Num  seg undo  momento  previa ‐ se  (prevê ‐ se)  a  possibilidade  de  criação  de  peixe  em  escala  económica  o  que  implica  a  sua  distribuição  e/ou  comercialização.  Este  projecto  tem  inte grado  uma  dimensão  de  capacitaçã o/formação  dos  moradores  dos  engenhos  onde  de corre.  Projecto  Catend e  Harmonia  Designação  genérica  atribuída  aos  processos  experiencia dos  na  Usina  Catende  desde  o  pedid o  de  falência  articulad o  pelos  trabalhadores  junto  das  instâncias  judiciais  em  1995  e  que  dá  origem  à  instituição  de  um  processo  de  co ‐ gestã o  envolvendo  os  trabalhadores  e  a  administração  judicial  da  massa  falida.  Projecto  de  produção  de  sementes  de  milho  Iniciativa  que  teve  como  proponente  a  associação  de  jovens  PUAMA,  mas  sem  uma  existência  indepe ndente  do  Projecto  Catende  Harmonia,  envolveu  vários  parceiros  de  entre  os  quais  se  destaca  o  Ministério  do  Desenvolvimento  Agrário.  Com  a  colaboração  de  técni cos  e  pedagogos  da  EMBRAPA,  4  grupos  de  jovens  de  di ferentes  enge nhos  experimentaram  o  processo  de  cultivo,  transformação  e  comercialização  de  sementes  de  milho  a  partir  de  uma  organização  de  unidades  colectivas  e  solidárias  de  trabalho,  integr ando ‐ se  assim  numa  experiência  de  diversificação  produtiva  agrícola .  PUAMA  (Rosa  que  Cresce  nas  Pedras)  Associação  constituída  por  jovens  dos  enge nhos  e  da  cidade  de  C atende,  integrando  essencialmente  rapazes  e  moças  que  frequentaram  os  cursos  e  estágios  realizados  pelo  Projecto  Catende  Harmonia.  Tem  como  finalidade  dinamizar  projectos  gerador es  de  renda  e  emprego  voltados  para  os  jovens  filhos/as  de  trabalhadores/moradores  do  projecto.  Safra  Período  compreendido  normalmente  entre  Setembro  e  Março  de  cada  ano  em  que  se  procede  ao  corte  da  cana ‐ de ‐ açúcar  e  à  sua  transformação  em  açúcar  e/ou  álcool  nas  usinas  (fábricas).  Sala  da  Harmonia  Espaço  atribuí do  à  Companhia  Agrícola  Harmonia  nas  instalações  da  Usina  Catende.  Por  extensão  passou  a  designar  as  pessoas  que  aí  trabalham,  nomeadamente  os  técnicos  li gados  especificamente  à  intervenção  educativa  e  à  administração  do  processo  de  acesso  dos  trabalha dores  ao  crédito  xvi Síndico  da  mas sa  falida  Administrador  nomeado  pela  justiça,  com  o  acordo  dos  credores  da  massa  falida,  com  a  incum bência  da  preservação  e  gestão  do  património  e  actividad e  da  Usina  Catende  até  à  conclusão  do  processo  judi cial  de  falência.  Situação  contratual  face  à  Usina  Catende  Os  trabalhado res  rurais  podem  encontrar ‐ se  em  várias  situações  co ntratuais  face  à  Usina:  de  modo  genérico  há  os  fichados  que  são  os  que  possuem  um  contrato  sem  termo  com  a  Usina  e  os  safristas  que  constituem  o  gr upo  de  trabalhadores  contratado  sazonalmente  em  face  do  aumento  de  volume  de  trabalho  duran te  o  período  da  safra  (no  campo  e  na  indústria).  Usina  Catende  Designação  ge nérica  do  complexo  agro ‐ industrial  que  envolve  26  mil  hectares  de  terras  e  a  fábrica  de  transformação  da  cana ‐ de ‐ açúcar  situada  na  ci dade  de  Catende.  O  termo  usina  é  si multaneamente  usado  para  designar  a  parte  (a  fábrica)  e  o  todo  (o  conju nto  fábrica  +  terras).  A  designação  jurídica  oficial  da  Usina  Catende  antes  da  falência  era  Companhia  Industrial  do  Nordeste  Brasileiro.  Usineiros  Designação  utilizada  para  os  antigos  proprietários  da  Usina  Catende  e  mais  genericamente  para  todos  os  que  são  “dono s/patrões  de  usinas”.  Venda  antecipada  Prática  comum  dura nte  praticamente  os  primeiros  dez  anos  do  projecto  Catende  Harmonia,  consiste  na  venda  de  parte  da  futura  produção  ainda  durante  o  período  da  entressafra  a  “atravessadores”  (interm ediários  especuladores)  do  mercado  do  açúcar  a  preços  normalmente  baixos.  Esta  prática  permitia  alguma  capitalização  da  Usina  para  atravessar  o  período  da  entressafra  mas,  inevitavelmente,  colocava ‐ a  na  situação  de  ter  de  entregar  em  tempo  de  safra  parte  da  sua  produção  a  um  preço  muito  abaixo  do  então  vigente  no  merc ad o.  Esta  prática  foi  tão  mais  danosa  quanto  o  açúcar  teve  quebras  sucessivas  de  pre ço  de  safra  para  safra  o  que  obrigou  o  proj ecto  a  entregar  cada  vez  mais  açúcar  para  paga r  aos  atravessadores  a  quem  tinha  vendido  antecipadame nte.  ZPA  Zonas  de  Produção  Agrícola  correspondem  a  unidades  territoriais  que  dividem  a  área  total  de  terra  da  Usina  Catende  e  de  acordo  com  as  quais  as  tarefas  do  cultivo  e  corte  da  cana ‐ de ‐ açúcar  são  realizadas.  Os  engenhos  da  Usina  Catende  são  identificados  não  só  pelo  seu  nome  próprio  mas  igualmente  pela  sua  pertença  a  um a  das  6  ZP A  existentes.   xvii Mudam ‐ se  os  tempos,  mudam ‐ se  as  vontades,  Muda ‐ se  o  ser,  muda ‐ se  a  c onfiança;  Todo  o  mundo  é  composto  de  muda nça,  Tomando  sempre  novas  qual idades.   Continuamente  vemos  novidades,  Diferentes  em  tudo  da  esperança ;  Do  mal  ficam  as  mágoas  na  lembrança,  E  do  bem,  se  al gum  houve,  as  saudades.   O  tempo  cobre  o  chão  de  verde  manto,  Que  já  coberto  foi  de  neve  fria,  E  em  mim  converte  em  choro  o  doce  canto .   E,  afora  este  m udar ‐ se  cada  dia,  Outra  mudança  faz  de  mor  espanto :  Que  não  se  muda  já  como  soí a.   “Mudam ‐ se  os  tempos,  mudam ‐ se  as  vontades”  Luís  Vaz  de  Camões    Mas  na  Usina  é  que  vi  aquela  boca  maior  que  existe  por  detrás  das  bocas  que  ela  plantou;  que  come  o  ca navial  que  contra  as  terras  soltou;  que  come  o  ca navial  e  tudo  o  que  ele  devorou  que  come  o  ca navial  e  as  casas  que  ele  assaltou;  que  come  o  ca navial  e  as  caldeiras  que  sufoc ou.  Só  na  Usina  é  que  vi  aquela  boca  maior ,  a  boca  que  devora  bocas  que  dev orar  mandou.     Na  vila  da  Usina  é  que  fui  desc obrir  a  gente  que  as  ca nas  expulsaram  das  ribanceiras  e  vazantes  e  que  essa  gente  mesma  na  boca  da  usina  são  os  dent es  que  mastigam  a  ca na  que  a  mastigou  enquanto  gente;  que  mastigam  a  ca na  que  mastigou  anteriormente  as  moendas  do s  engenhos  que  mastigavam  antes  outr a  gente;  que  nessa  gente  mesma,  nos  dentes  fra cos  que  ela  arrenda,  as  moendas  estrangeiras  sua  força  melhor  assentam.   Por  esta  grande  Usina  olhando  com  cuidado  eu  vou,  que  esta  foi  a  usina  que  toda  esta  Mata  dominou.  Numa  usina  se  aprende  como  a  carne  mastiga  o  osso,  se  aprende  como  mãos  amassam  a  pedra,  o  caro ço;  numa  usina  se  assiste  à  vitória,  de  dor  maior,  do  brando  sobre  o  duro,  do  grão  amass ando  a  mó;  numa  usina  se  assiste  à  vitória  maior  e  pior,  que  é  a  de  pedra  dura  furada  pelo  suor.   “Encontro  com  a  Usina”  ( excerto),  in  O  Rio.  João  Cabral  de  Melo  Neto    Índice  Introdução  geral ___________________________________________________________ 5 Do  auto ‐ questionamento  à  identificação  de  dimensões  mobilizadoras  para  a  pesquisa ________________________________________________________________________ 5 Finalidades,  objectos  e  teses  do  trabalho  de  pesquisa __________________________ 14 A  estrutura  do  trabalho __________________________________________________ 28 I  SECÇÃO  –  O  PANO  DE  FUNDO  DA  PESQUISA ___________________________________ 33 As  teorias  e  as  práticas  do  desenvolvime nto ____________________________________ 35 As  origens  da  noção  de  desenvolvimento ____________________________________ 40 A  Teoria  do  Cres ciment o  Económico  e  a  Teoria  da  Modernização _________________ 45 A  Teoria  da  Dependência _________________________________________________ 65 A  viragem  neo ‐ liberal:  a  recuperação  da  Teoria  da  Modernização  e  a  Teoria  da  Escolha  Pública _________________________________________________________________ 79 As  teorias  de  um  desenvolvimento  alternativo ________________________________ 84 A  emergência  do  local  e  da  problemática  do  desenvo lvimento  local ___________ 138 O  desenvolvimento  comunitário ________________________________________ 163 A  relação  educação ‐ dese nvolvimento ____________________________________ 187 Desenvolvimento  Loc al  e  Educação ______________________________________ 191 II  SECÇÃO  –  INTERROGAÇÕES  E  PROBLEMATIZAÇÕES  CONC EPTUAIS ________________ 225 Elucidação  e  problematização  de  referentes  teóricos  da  pesquisa  enquadradores  da  análise ____________________________________________________________________ 227 III  SECÇÃO  –  FUNDAÇÕES  METODOLÓGICAS ∙ ___________________________________ 253 As  opções  metodológicas  da  pesquisa ______________________________________ 255 O  estatuto  do  conhecimento  em/sobre  o  desenvolvimento  com unitário  e  local  e  cientificidade  educativ a ____________________________________________________ 257 O  processo  discursivo  de  análise  adoptado  –  a  dialéctica ______________________ 267 2 Do  "estranhamento  ao  entranhamento":  a  negociação  do  acesso  ao  terreno  e  os  usos  sociais  do  pesquisador ______________________________________________________ 277 As  opções  “técnicas”  de  recolha  de  dados  (as  notas  de  terreno,  as  entrevistas  e  a  análise  documental) ____________________________________________________________ 303 As  notas  de  terreno ___________________________________________________ 304 As  entrevistas _______________________________________________________ 320 A  pesquisa  documen tal ________________________________________________ 327 IV  SECÇÃO  –  ILUSTRAÇÕES  E  RE ‐ INTERROGAÇ ÕES _______________________________ 333 O  contexto  da  pesquisa:  al gum as  referências  sócio ‐ hist óricas  e  a  sua  dimensão  sócio ‐ política __________________________________________________________________ 335 A  Usina  Catende:  uma  breve  sócio ‐ história  entre  a  ascenção,  a  queda  e  a  ressurgência __________________________________________________________________ 357 As  raízes  da  mobilização  social  em  Catende:  os  movimentos  sociais  no  campo  pernambucano  e  o  trabalho  da  Igreja  Católica  progressista ____________________________ 371 As  raízes  da  lut a  ent re  a  história  social  e  a  história  pessoal:  a  produção  social  de  militantes  da  intervenção  política  e  sócio ‐ educati va _____________________________ 384 Educação,  política  e  sindic alismo  e  conscientização  dos  trabalhadores _________ 397 O  colapso  da  Usina  Catende  e  a  busca  de  alternativas:  a  luta  sindical  e  dos  trabalhadores _________________________________________________________________ 409 A  luta  que  começa  ou  o  mo ment o  de  «turbulência  ide ntitár ia»  e  os  fraccionamentos  internos  de  um  novo  «sujeito  histórico» ___________________________ 415 A  entrada  dos  trabalhadores  para  a  administração  da  massa  falida  da  Usina  Catende  e  os  desafios  a  enfrentar _________________________________________________ 445 A  educação  no  processo  de  tr ansição  autogestionária  em  Catende:  abordagem  sintagmática  e  paradigmática ____________________________________________________ 467 A  formação  de  massas ________________________________________________ 471 A  formação  profissional  de  cariz  polí tico __________________________________ 516 A  formação  de  quadros  num  contexto  da  diversificação  organizacional ________ 551 Considerações  finais ______________________________________________________ 565 Bibliografia  Referi da ______________________________________________________ 597 3 Bibliografia  Consult ada ____________________________________________________ 609 Listagem  de  Anexos _______________________________________________________ 629 4 Índice  de  Quadros  e  Gráficos  Quadro  1  –  Principais  características  do  desenvolvimento  endógeno  10 4  Quadro  2  –  Caracterização  da  abordagem  da  self ‐ reliance  10 8  Quadro  3  –  Processos  e  resul tados  do  Empoderamento  117  Quadro  4  –  Componentes  do  conceito  de  desenvolvimento  comunitário  (ONU,  1954)  166  Quadro  5  –  Concepções  de  desenvolvimento  comunitário  18 0  Quadro  6  –  Ideais ‐ tipo  de  animação  209  Quadro  7  –  O  grau  de  urbanização  no  mu nicípio  de  Catende  347  Quadro  8  –  A  evoluçã o  da  populaçã o  no  município  de  Cate nde  348  Quadro  9  –  A  evoluçã o  da  populaçã o  na  cidade  de  Cate nde  348  Quadro  10  –  Estrutura  fundiária  no  município  de  Catende:  Estabelecimentos  agrícolas  x  Tipo  de  propriedade  e  Área  agrícola  ocupada  x  Tipo  de  propriedade  350  Quadro  11  –  Estrutura  fundiária  no  município  de  Catende:  quantidade,  área  e  percentagem  de  imóveis  rurais  em  1991  e  1998  350  Quadro  12  –  N°  Imóveis  Rurais  x  Área  agrícola  ocupada  35 1  Quadro  13  –  Indicadores  de  produç ão  da  Usina  Catende  366  Gráfico  1  –  Rendimento  médi o  de  cana ‐ de ‐ açúcar  por  hectare  no  Brasil  e  no  município  de  Catende ,  1990  e  1999  368  Figura  1 ‐ A  produção  educativa  dos  militantes  e  activistas  em  Catende   388  Quadro  14  –  Gramática  do  Desenvolvimento  Lo cal  vs  Gramática  da  Educa ção  Escolar  583        5 Introdução geral Do auto-questionamento à identificação de dimensões mobilizadoras para a pesquisa O  envolvimento  no  trabalho  que  aqui  se  apresenta  é  o  prolongamento  natural  de  um  percurso  pessoal  e  profission al  que  temos  vindo  a  fazer  no  campo  da  educação  de  adultos  e  do  desenvolvimento  local  durante  os  últimos  12  anos,  em  várias  instituições  e  espaços  de  intervenção  social.  É  por  aí  que  gostaríamos  de  começar,  mostrando  como  o  percurso  seguido  neste  trabalho  está  eivado,  em  primeiro  lugar,  pela  nossa  implicação  psico ‐ afectiva  e  profissional 1 ,  e,  depois,  pela  tensã o  entre  o  primado  da  teoria  que  envolve  a  razão  cientí fica  e  a  contingência  do  real,  entre  o  desejado  e  o  possível,  entre  o  projectado  e  o  realizado 2  mesmo  se  a  depuração  formal  da  escrita  de  trabalhos  de  investigação  não  é,  geralmente,  muito  sensível  a  este  tipo  de  “ desvio ”.  Neste  sentido,  não  é  por  acaso  que  partilhamos  com  Ardoino  (2000:214)  a  ideia  de  que  se  até  há  bem  pouco  tempo  “ os  aléas 3 ,  as  peripécias,  os  avatares  da  investigação  eram  relegados  para  o  estatuto  de  caixa  negr a,  que  pouco  importava  ter  em  consideração ”,  hoje  devem  constituir ‐ se  em  materiais  co m  direito  de  pertença  ao  produto  final,  na  medida  em  que  permitem  firmar ‐ se,  para  o  autor,  num  dispositivo  com  o  qual  e  através  do  qual  o  pesquisador  pode  “ trabalhar  explicitamente  a  relação  1  Como  muito  bem  o  diz  Alberto  de  Melo  (2002: 437),  “  a  vida  consiste  em  uma  combinação  de  acaso  e  opção,  resultando  as  escolhas  de  um  emara nhado  de  ideias  e  emoções ”. 2  Em  certa  medida,  a  relação  estabelecida  com  o  “ obje cto ”  e  as  decisões  sobre  um  percurso  de  investigação  revelaram ‐ se  inseparáveis  e  concomitantes.  Nesse  sentido,  o  objecto  não  deixou  de  ser  um  sujeito  deste  processo  e  o  percurso  não  se  limitou  a  ser  escolhido,  ajudou ‐ nos  a  escolhê ‐ lo.  De  acordo  com  Isabelle  Stengers  (1991:175  e  sgs.),  este  processo  obedece  ao  estabelecimento  de  uma  relação  “ empática ”  com  o  obje cto  caracterizada  pela  “p ossibilidade  qu e  não  seja  o  investigador,  mas  o  ma te rial  que  “pose  problème ”,  que  tenha  uma  história  a  contar,  que  é  necessário  aprender  a  decifrar ”.  Nes ta  perspectiva,  a  “ descobert a ”  confunde ‐ se  com  “ a  aprendizagem  com ”  e  o  questionam ento  hipotético  passa  pela  “ dissolução  do  eu  consciente,  por  uma  ab ertura  que  “deixa  vir  a  nós”  o  material,  mas  que  significa,  do  mesmo  modo ,  o  abandono  do  conjunto  de  procedimento s  intelectuais  explícitos  que  permitem  aos  epistemólogos  construir  modelos  de  racionalidade ”  (Stengers,  19 91).  3  Salvo  referência  explícita  em  contrário,  as  palavras  e  frases  que  apar ecem  a  sublinhado  ao  longo  do  trabalho  correspondem  a  palavras  ou  frases  que  se  encontram  em  itálico  no  original.  Est a  opção  prende ‐ se  com  o  facto  de  termos  usado  como  regra  no  corpo  do  trabalho  a  apres entação  em  itálico  de  todas  as  citações  que  faze mos,  todos  os  termos  apresentados  entre  aspas  e  alguns  conceitos  que  queremos  destacar  na  economia  do  discurso. 12 inteligibilidade  de  factos  educativos  complexos  e  que  está  bem  para  além  da  constatação  de  que  as  ciências  da  educação  simplesmente  têm  um  carácter  plural.  Se  a  estas  especificidades  das  ciências  da  educação  acrescentarmos,  e  não  de  somenos  importância;  iii)  a  “ impossibilidade  de  dissociar  a  investigação  em  educação  das  práticas  que  constituem  o  seu  objecto ”,  que  traduz  um a  difícil  autonomia  entre  produção  de  conhecimento  e  tomada  de  decisões  e  conduz,  por  vezes,  a  uma  tentação  normativa  e  a,  próxima  da  anterior;  iv)  “ pret ender  produzir  conhecimentos  sobre  um  campo  de  práticas  que  é,  ao  mesmo  tempo,  um  campo  atravessado  pelo  de bate  filosófico  e  político ”,  isto  é,  a  que  assiste  uma  racionalidade  onde  saberes,  práticas  e  finalidades  se  questionam  mutua  e  incessantemente;  e,  por  fim;  v)  ser  o  modo  específico  como  as  ciências  da  educação  constroem  os  seus  objectos  de  questionamento  mais  do  que  a  definição  de  um  objecto  ou  método  que  lhes  confere  a  sua  identidade,  reconheceremos  que  o  campo  do  desenvolvimento  local  é  particularmente  desafiante  ao  questionamento  educativo.   A  uma  vivência  cívica  e  à  experiência  do  mestrado  em  educação  de  adultos  deve  acrescentar ‐ se  entre  as  “ afinidades  electiv as ”  que  conduziram  a  este  trabalho,  a  docência  que  desde  1997  vimos  desenvolvendo  no  domínio  da  formação  de  profissionais  do  desenvolvimento  humano  e  da  educação  de  adultos  no  âmbito  da  Licenciatura  em  Ciên cias  da  Edu cação  da  FPCEUP  que  nos  encaminhou  para  a  exploração  e  problematização:  i)  dos  modos  como  a  relação  entre  educação  e  desenvolvimento  está  presente  nos  discursos  e  nas  práticas  das  pol íticas  sociais  e  educativas ,  nos  quais  genericamente  se  enfatiza  a  educação  e  a  formação  com o  factores  que,  partindo  da  qualificação  individual,  inc rementam  o  desenvolvimento  nacional  e  a  competitividade  económica  internacional  dos  países  e/ou  em  que  a  educação/formação  surgem  como  instrument os  de  enfrentamento,  muitas  vezes  verdadeiras  panaceias,  para  fenómenos  crescentes  como  o  desemprego  ou  a  exclusão  social 11 .  Esta  exploração  desembocou  na  constatação  do  crescente  significado  e  impacto  que  assumem  nestes  discursos  e  práticas  noções  como  as  de  local,  território,  comunidade,  parcerias,  participação,  experiência,  cidadania  e,  enquanto  modalidade  11  Cf.  Canário,  (200 0a)  e  Lima,  L.  (2005). 13 privilegiada  da  concretização  das  finalidades  supostas  de  todos  estes  discursos  e  práticas,  o  projecto  que  tanto  pode  ser  de  cariz  individual  como  declinar ‐ se  na  sua  forma  comunitária  (Correia&Caramelo,  2001);  ii)  da  dimensão  educativa  da  acção  dos  actores  sociais,  individuais  e  colectivos,  int ervenientes  em  dinâmicas  de  animação  e  de  desenvolvimento ,  figuras  em  que  se  conjugam  acções  intencionais  e  de  finalidade  educativa  –  algumas  delas  corporizadas  por  agentes  especializados/profissionais  –  com  modos  de  interacção  social  que  podem  também  ser  lidos  como  educativos  nos  efeitos  e  sentidos  que  promovem  naqueles  que  envolvem  mesmo  se  a  sua  intencionalidade  primeira  não  é  educativa  e,  finalmente,  iii)  das  “ componentes  de  software  do  desenvolvimento  local ”  (Melo,  1994),  isto  é,  das  características  e  funções  que  a  animação,  educação/formação,  investigação  assumem  enquanto  forças  motrizes  dos  processos  de  desenvolvimento  comunitário  e  local,  bem  como  do  que  não  só  é  transversal  a  todas  aquelas  componentes  como  é  inco ntornável  nos  discursos  e  práticas  que  se  afirmam  de  desenvolvimento  “ alternativo ”  (Brohman,  2001;  Rist,  2001a;  Amaro,  2003),  isto  é,  o  seu  carácter  participativo  e  endógeno  (Melo,  1994;  Canário,  1999;  Berger,  2004;  Tommasoli,  2004),  que  se  afirmou  a  partir  dos  anos  70  contra  o  até  então  domínio  relativamente  incontestado  do  designado  paradigma  desenvolvimentista  e  de  todas  as  suas  declinações  hegemóni cas  durante  os  30  “ gloriosos ”  anos  que  se  seguiram  à  II  Grande  Guerra.  A  nossa  reflexão  a  partir  destas  três  entr adas  –  a  rela ção  educação/desenvolvimento;  o  carácter  educativo  da  acção  dos  actores  sociais  envolvidos  em  dinâmicas  de  desenvolvimento  comunitário  e  as  formas  e  efeitos  educativos  que  assumem/produzem  os  processos  que  alimentam  essas  dinâmicas  –  tem  procurado  estruturar ‐ se  a  partir  dos  discursos  científicos  e  da  análise  das  práticas  que  colocam  no  seu  cerne  a  dimensão  crítica,  radical  e  emancipatória  da  educação  –  que  claramente  denotamos  aqui  com  as  propostas  críticas  da  globalização  neoliberal  hegemónica  e  dos  seus  efeitos  no  campo  educativo  –  e  procuram  configurar  no  terreno  práticas  sociais  alternativas  de  relação  entre  educação  e  desenvolvimento,  designadamente  as  propostas  teóricas  e  praxeológicas  que  aprofundam  os  discursos  alternativos  em  torno  das  potencialidades  do  (desenvolvimento)  local  e  comunitário  como  contra ‐ hegemonia,  precisamente  porque  como  concentram  em  si  as  14 contradições  do  mundo  capitalista  parecem  ser,  igualmente,  o  locus  privilegiado  do  fermento  das  alternativas.   Não  obstante  a  evidente  implicação  e  orientação  presente  no  modo  como  acabamos  de  nos  referir  ao  programa  de  reflexão  e  de  pesquisa  que  temos  vindo  a  prosseguir  ao  longo  destes  últimos  anos  em  torno  da  relação  educação/desenvolvimento,  cremos  que  este  trabalho  não  só  é  uma  oportunidade  de  sistematização  daquela  reflexão,  e  essencialmente  dos  questionamentos  que  esta  tem  promovido,  como  é  um  momento  privilegiado  de  interrogação  sistemática  de  convicções  teóricas  e,  eventualmen te,  um  tempo  de  reconstrução  dos  nossos  modos  de  pensar  ace rca  desta  questão.  No  fundo,  é  um  trabalho  que  procura  pôr  à  prova  os  nossos  adquiridos,  tornando ‐ os  objecto  de  questionamento  e  discutindo ‐ os  a  partir  da  ilustração  que  de  si  os  elementos  de  uma  dada  situação  empírica  permitem.  Nesta  perspectiva  é  um  trabalho  que  se  organiza  num  vai  e  vem  entre  a  dedução  e  a  indução:  em  que  a  empiria  ilustra  e  interroga  os  adquiridos/pressupostos/questionamentos  da  teoria  e  estes  se  constituem  como  grelha  de  leitura  daquela  mesma  empiria,  dese javel mente  transformando ‐ se  nesse  processo  de  confronto  iterativo.  Este  modo  de  pensar  este  trabalho  tem  necessariamente  consequências  no  modo  como  definimos  as  suas  finalidades  e  objectos,  designadament e  o  facto  de  o  fazermos  em  duas  pistas,  paralelas  para  efeitos  de  clarificação  do  leitor,  convergentes  no  modo  com o  se  concretizam  no  corpo  do  trabalho:  uma  pista  centrada  na  sua  dimensão  teórica,  outra  pista  na  sua  dimensão  empírica.   Finalidades, objectos e teses do trabalho de pesquisa O  trabalho  que  agora  se  dá  a  ler  tem  como  finalidade  dar  conta  de  um  processo  de  reflexão  e  de  pesquisa  que  procura  caract erizar  e  problematizar  como  dinâmicas  educativas  os  processos  de  desenvolvimento  local  e  comunitário,  isto  é,  os  15 processos  de  mobilização  de  um  conjunto  de  sujeitos,  colectivamente  organizados 12  em  torno  da  definição  de  sentidos  para  a  sua  vida  e  para  o  seu  trabalho  e  agindo  na/sobre  a  realidade  em  função  destes,  com  a  finalidade  de  procurarem  melhorar  as  suas  condições  de  vida,  individuais  e  colectivas,  e  satisfazerem  as  suas  necessidades  enquanto  sujeitos  e  enquanto  grupo  humano  que  partilha  um  território  e  ent re  si  mantém  laços  sociais  marcados  pela  interdependência.  É,  portanto,  um  trabalho  de  análise  de  transformações  diversas  coincidentes  no  tempo  e  ontologicamente  imbricadas,  entendidas  como  educativas  pelos  efeitos  que  produzem  nos  sujeitos:  a  transformação  de  si,  de  e  com  outros,  a  transformação  dos  processos  de  trabalho,  dos  sentidos  sobre  estes  e  das  relações  sociais  que  envolve  e,  ainda,  a  transformação  do  contexto  de  vida  concreto  em  que  os  sujeitos  se  inscrevem  e  das  repr esentações  que  sobre  ele  produzem.  Por  outro  lado,  a  partir  da  concretização  da  finalidade  anteriormente  enunciada,  e  portanto  convergen temente,  este  é  tamb ém  um  trabalho  que  tem  como  finalidade  a  preocupação  de  interpelar  as  as serções  e  os  questionamentos  teóricos  que  constituem  para  nós,  à  partida,  os  fundamentos  do  nosso  modo  de  equacionar  as  relações  entre  educação  e  desenvolvimento.  Para  situar  o  leitor,  diremos  que  a  primeira  finalidade  se  refere  à  atrás  referida  pista  empírica,  enquanto  a  segunda  diz  respeito  à  pista  teórica  desta  pesquisa.  O  trabalho  de  reflexão  e  pesquisa  toma  como  objecto  social  o  processo  de  transição  autogestionário,  que  vem  decorrendo  desde  1995,  vivido  e  conduzido  por  trabalhadores  e  trabalhadoras  da  usina  Catende 13  (produtora  de  açúcar),  situada  no  Nordeste  brasileiro,  mais  exactamente  na  Zona  da  Mata  Sul  de  Pernambuco.  Este  processo  foi  encetado  como  resposta  a  um  processo  de  depauperação  fraudulenta  do  património  da  Usina  por  parte  dos  anteriores  propri etár ios ‐ usineiros  que  colocou  em  risco  o  trabalho  e  a  subsistência  de  alguns  milhares  de  trab alhadores  e  suas  famílias  e  foi  marcado  pela  apropriação  e  gestão  colectiva  dos  meios  de  produção  por  parte  dos  trabalhadores,  ainda  que  mitigada  pela  manutenção  de  uma  supervisão  judicial  à  12  Em  boa  verdade,  como  salienta  Erhardt  Friedberg  (i n  Bou don,  R.  (1996).  Tratado  de  Sociologia.  Porto:  Edições  Asa,  pp.  343 ‐ 378.) ,  o  conceito  de  “ organizaç ão ”  supõe  intrinsecamente  acção  cole ctiva  regulada,  pelo  que  a  expressã o  “ colectivamente  organizados ”  é  relativame nte  tautológica...  13  Um  conjunto  de  termos  que  se  referem  em  concreto  ao  contexto  do  caso  estudado  consta  do  glossário  inicial. 16 gestão  conduzida  pelos  trabalhadores,  que  mantém  em  suspenso  a  ent rega  definitiva  aos  trabalhadores  da  posse  do  património  agrícola  e  industrial  enquanto  não  se  encerrar  o  processo  de  falência.    Legenda 14 :  Panorâmica  da  Usina  Catende   Este  objecto  social  polariza  um  conjunto  de  características  que  o  tornam  particularmente  pertinente  para  a  análise  das  funções  e  caracteres  “ híbridos ”  que  a  educação  assume  nas  dinâmicas  de  desenvolvimento,  como  profundamente  cristalizador  das  tensões  e  contradições  que  envolvem  as  dinâmicas  de  desenvolvimento  local  ao  nível  político,  económico,  organizacional,  cultural  e  educativo.  Em  síntese,  particularmente  adequado  para  a  part ir  de le  questionarmos  as  relações  ed ucação/desenvolvimento  nos  dias  que  correm.  Em  primeiro  lugar,  estamos  perante  uma  situação ‐ limite  de  sobrevivência  física  que  desencadeia  uma  mobilização  e  organização  de  milhares  de  pessoas,  analfabetas  na  sua  larga  maioria  que,  independentemente  dos  diversos  sentidos  e  interpretações  políticas  para  a  situação  que  vivem,  congregam  num  preciso  momento  as  suas  vontades  e  forças  em  torno  de  um  desígnio  comum,  que  em  si  mesmo  é  uma  amálgama  de  desígnios  pessoais:  a  preservação  das  condições  indispensáveis  à  sua  existência.  A  acreditar  na  hierarquização  das  necessidades  humanas  elaborada  por  14  As  fotografias  que  serão  apresentada s  ao  longo  da  tese  foram  retiradas  da  internet,  do  site  do  projecto  Catende/Harmonia,  no  qual  consta m  as  identificações  dos  autores  em  algumas  delas  e  noutras  não.  17 Maslow,  dificilmente  encontraremos  em  qualquer  outro  contexto  uma  razão  mais  radical  para  o  despoletar  e  o  envolvimento  numa  dinâmica  de  desenvolvimento  local.  E  neste  sentido,  esta  situação  é,  potencialmente,  um  bom  analisador  dos  modos  como  da  heterogeneidade  das  ordens  de  justificação  pessoais  e  institucionais  presentes  num  dado  momento,  num  dado  contexto,  se  pode  passar  à  concertação  e  à  acção  comum  que,  de  forma  mais  ou  menos  tensa,  incorpora  essa  heterogeneidade  fundadora  do  sentido  para  a  mobilização  e  para  a  acção  e  a  ag lutina  em  torno  de  uma  referência  que  é  inevitavelmente  comum.  Mas  é  ig ualmente  uma  situação  que  interpela  precisamente  os  modos  de  construção  política  do  sentido  para  os  projectos  de  desenvolvimento  comunitário  e  local  e  a  própria  ideia  de  construção  de  um  projecto  comum,  colectivamente  assumido.  Provavelmente  é,  ainda,  uma  sit uação  significativa  do  modo  como  um  processo  que  nasce  da  necessidade  urgente  de  satisfação  de  necessidades  básicas  do  ser  humano  se  converte  num  processo  que  transcende  essa  intenção  e  revela  o  ser  humano,  mesmo  o  mais  despossuído,  como  um  ser  de  projecto,  capaz  de  se  projectar  e  de  projectar  um  sentido  para  a  sua  vida  e  de  agir  em  conformidade  com  essa  natureza,  ou  seja,  em  que  a  sua  humanitude  se  revela 15 .  Por  outro  lado,  a  opção  pela  autogestão  como  processo  e  finalidade  almejada  do  empreendimento  agro ‐ industrial  de  Catende,  isto  é,  uma  concepção  e  concretização,  sempre  inacabadas,  de  um  percurso  a  prosseguir  e  a  def iniçã o  de  um  ideal ‐ utopia  a  alcançar  para  esta  dinâmica  de  desenvolvimento  local  e  comunitário  que  supõe:  a  apropriação  e  gestão  dos  meios  sociais  de  produção  pelos  trabalhadores;  a  instauração  de  relações  simétricas  entre  sujeitos  sociais  como  princípio  político  de  organização  da  vida  no  interior  do  empreendimento;  o  aprofundamento  de  mecanismos  de  participação  democrática  colect iva  em  todo  o  processo  de  definição  e  tomada  de  decisões  tácticas  e  estratégicas  de  orientação  do  projecto  e  sua  avaliação  e  uma  socialização  tendencialmente  equitativa  das  mais ‐ valias  do  trabalho.  Este  15  Em  nossa  opinião,  a  este  obje ct o  social  aplicam ‐ se ‐ lhe  particularmente  bem  as  palavras  de  Alberto  Melo  (2002:44 2)  escritas  acerca  do  desenvolvimento  local  que,  como  campo  de  reflexão  e  intervenção,  é  a  “ arena  natural  para  a  peleja  entre  as  novas  ideologias  económicas  e  a  determinação  de  «pôr  as  pessoas  em  primeiro  lugar»  e  de  fazer  a  demonstração  prática  de  que  a  vontade,  a  emoção,  o  q uerer  e  a  acção  humanas  podem  resisti r  aos  desígnios  destrutivos  da  economia  mu ndial ”. 18 processo  é  particularmente  instigante  para  interrogar  as  dinâmicas  de  desenvolvimento  local.  Não  é  tanto  pela  rel ativa  « anacronia »  histórica  da  re ‐ emergência  da  autogestão  hoje  depois  das  suas  materializações  históricas  concretas  não  terem  sido,  no  passado,  necessariamente  bem  sucedidas  ou  sustentáveis  no  tempo  (com  raras  excepções,  como  o  caso  do  complexo  cooperativo  de  Mo ndragón,  no  País  Basco ‐  mas  cujas  particularidades  e  sua  discussão  não  cabem  na  economia  deste  trabalho  (cf.  por  exemplo  a  este  respeito  Santos,  2002) ‐  e,  obviamente,  do  movimento  a  que  se  tem  assistido  nas  últimas  duas  décadas  na  América  Latina,  particularmente  na  Argentina  e  Brasil,  que  já  se  poderá  considerar  significativo  deste  ressurgimento  e  sustentabilidade),  mas  porque:  i)  esta  dinâmica  de  desenvolvimento  local  se  procura  concretizar  no  âmbito  de  um  território  secularmente  marcado  pelo  modelo  de  relações  escravocrata,  que  a  obra  de  Gilberto  Freyr e,  “ Casa  Grande  e  Senzala ” 16  retrata  e,  mais  recent emente,  marcado  por  relações  de  assalariamento  não  só  caracterizad as  pela  forte  discrepância  entre  trabalho  e  retribuição  do  trabalho  (ou  seja,  a  mais ‐ valia  extraída),  como  pela  instauração  de  uma  nova  forma  de  dependência  do  trabalhador  da  venda  da  sua  mão ‐ de ‐ obra  face  à  manutenção  de  uma  situação  em  que  os  trabalhadores  não  detêm  a  mínima  propriedade  de  quaisquer  meios  de  produção;  ii)  envolve  uma  população  que  na  sua  larga  maioria  não  é  alfabetizada  e  iii)  incide  largamente  num  empreendimento  cuja  sobrevivência  está  profundamente  dependente  das  flutuações  do  mercado  mundial  do  açúcar  e,  portanto,  da  capacidade  de  resistir  aos  fenómenos  típicos  de  uma  economia  capitalista  num  mundo  globalizado  (competitividade,  produtividade,  lógica  da  oferta  e  procura,  crescente  tecnologização  da  produção,  entre  outros)  e  que,  iv)  historicamente,  se  estruturou  segundo  uma  lógica  taylorista  de  organização  do  trabalho,  aparentemente  contraditória  com  a  lógica  autogestionária.  16  Uma  outra  fonte  literária  para  compreender  o  sistema  de  relações  sociais  dominante  neste  território  é  o  conjunto  de  obras  de  Jos é  Lins  do  Rego,  que  constitue m  no  conju nto  da  sua  obra  o  designado  «ciclo  da  cana ‐ de ‐ a çúcar»  e  onde  se  dá  conta  das  memórias  da  vida  nas  casas  grande s  dos  engenhos  nordestinos ‐  uma  vez  que  o  autor  é  neto  de  um  senhor  de  engen ho ‐  mas  também  do  apog eu  e  decadência  do s  engenhos  e  dos  banguês  e  da  sua  substituição  pelas  Usinas. 19 Ou  seja,  à  partida  parece  estarmos  perante  um  processo  global  que  visa  uma  mudança  de  ruptura  (no  sentido  em  que  envolve  simultaneamente  diferentes  domínios  da  vida),  num  contexto  em  que  todas  as  condições  parecem  adversas  a  essa  possibilidade,  daí  que  se  possa  esperar  que  de  forma  mais  acentuada  se  polarizem  aí  as  contradições  de  qualquer  processo  de  desenvolvimento  lo cal.  Por  outro  lado,  estamos  perante  um  processo  que,  em  tese,  envereda  por  um  percurso  que  não  só  lhe  é  genericamente  “ exclusivo ”  no  contexto  da  realidade  social,  política  e  territorial  em  que  está  inscrito,  como  é  um  percurso  que  não  pré ‐ existe  à  sua  produção,  cujo  sentido  necessita  ser  construído  e  apropriado  pelas  pessoas,  por  entre  uma  pluralidade  de  sentidos  p ossíveis  para  o  devir  daquela  comunidade,  designadamente  sen tidos  que  a  pa rt ir  do  exterior  se  procuram  insinuar  como  mais  legítimos,  e  onde,  claramente,  a  educação  é  chamada  a  desempenhar  não  só  esse  papel,  como  em  simultâneo  se  lhe  imputam  diversas  funções,  e  o  de  responder  a  exigências  que,  por  causa  da  sua  génese  no  seio  de  um  processo  de  autogestão  de  uma  empresa  que  depende  do  capitalismo  para  sobreviver,  são,  por  vezes,  contraditórias.  Neste  sentido,  este  processo  é  particularmente  interpelador  dos  modos  como  diferentes  esferas  da  vida  social  –  a  cultural,  a  económica,  a  política,  a  educativa,  a  organizacional,  entre  outr os  –  se  articulam  nas  dinâmicas  de  desenvolvimento,  aqui  muitas  vezes  evidentemente  de  forma  tensional.  Por  fim,  uma  vez  que  na  emergência  e  desenvolvimento  deste  empreendimento  estão  polarizadas  as  contradições  de  um  modelo  de  desenvolvimento  de  toda  uma  região,  as  suas  relações  com  o  exterior,  pautadas  por  diferentes  necessidades  estratégicas ,  são  atravessadas  por  lógicas  substancialmente  diversas  e  heterogéneas  entre  si,  protagonizadas  não  só  pela  Usina  para  o  exterior,  mas  também  precisamente  por  essas  entidades  e  actores  sociais  e  políticos  que  contribuem  ou  se  relacionam  diversamente,  segundo  os  seus  próprios  desígnios,  pa ra  e  com  o  percurso  que  ali  se  vai  tecendo,  designadament e  em  termos  educativos,  políticos,  económicos  e  organizacionais.  Neste  sentido,  este  caso  é  particularmente  significativo  para  apreciar  o  caráct er  compósito  que,  em  última  instância,  caracteriza  todas  as  dinâmicas  de  desenvolvimento  local  e  que  obriga  à  mobilização  de  dispositivos  de  coordenação  da  acção,  de  ajustamento  mútuo  e  de  planeamento  20 estratégico  que  a  todo  o  momento  produzem  significações  que  não  são  declináveis  dentro  de  uma  visão  linear  do  desenvolvimento.  No  sentido  de  conhecer  e  analisar  de  perto  e  intensivamente  a  situação  enunciada  tivemos  oportunidade  de  acompanhar  durante  cerca  de  6  meses  –  entre  os  anos  de  2004  (Fevereiro  a  Abril)  e  de  2005  (Julho  a  Setembro)  –  o  qu otidiano  deste  processo  e  de  alguns  dos  seus  variados  protagonistas,  bem  como  de  entrevistar  informantes  privilegiados  e  recolher,  para  posterior  análise,  material  documental  que  nos  permitisse,  tanto  quanto  possível,  reconstituir  um  percurso  temporal  que  largamente  ultrapassa(va)  a  nossa  presenç a  física  no  local.  A  intensividade  do  olhar  analítico  e  o  carácter  de  analisador  natural 17  que  conferimos  a  esta  situação  impelem ‐ nos  a  considerar  metodologicamente  que  estamos,  simultaneamente,  pera nte  o  que  se  constituiu  do  ponto  de  vista  da  utensilagem  metodológica  um  estudo  de  caso  e,  do  ponto  de  vista  da  sua  interpelação  teórica,  um  caso  de  estudo,  eminentemente  abordado  segundo  um  paradigma  qualitativo  e  compreensivo  da  pesquisa  em  ciências  sociais.  O  olhar  analítico  sobre  esta  situação  procura  constituir  como  objecto  científico  o  processo  de  transformação/mudança  de  uma  realidade  comunitária  sócio ‐ instituída  como  dinâmica  educativa,  isto  é,  a  sequência  de  momentos,  de  (inter)acções  e  de  processos  de  atribuição  de  sentido  produzidos  pela  e  na  acção  dos  sujeitos  que  numa  dinâmica  de  desconstrução ‐ construção ‐ consolidação  (Matos,  1999)  produzem  uma  realidade  nova  (uma  nova  realidade  instituída)  e  do  mesmo  passo  produzem  transformações  significativas  nos  que  protagonizam  estas  vivências  e  nas  relações  que  estes  estabelecem  com  o  mundo  ou,  para  usar  os  termos  de  Georges  Lerbet  (1981:46  referido  in  Galvani,  1991),  transformações  no  modo  como  na  dinâmica  pessoa ‐ meio  se  estrutura  e  vai  configurando  o  « sistema ‐ pessoa » 18 .  Por  isto,  é,  também,  um  trabalho  17  Analisador  porque  consider amos  que  o  object o  científico  construído  transcende  a  particularidade  da  situação  estudada  e  a  análise  levanta  pistas  hermenêuticas  susceptíveis  de  ancorare m  processos  de  pesquisa  sobre  realidades  semelhantes;  e  natural  porque  a  situação  em  análise  possui  um  conju nto  de  propriedades  que  a  tornam  singular  pelo  modo  como  essas  propriedades  estão  condensadas  em  si,  o  que  permite  entend ê ‐ la  como  processo  ideal  típico  de  uma  dada  espé cie  de  dinâmicas  sociais.  18  Na  análise  que  realiza  às  diferentes  correntes  da  autoformação,  Pascal  Galvani  (1991)  enraíza  a  corrente  bio ‐ epistemológica  da  autoformação  na  psicologia  cognitiva  e  “ relativista ”  de  Georges  Lerbet  (1981)  que  apresenta  um  modelo  teórico  do  desenvolvimento  do  “ sistema ‐ pessoa ”.  Esta  perspectiva  sugere  que  o  sistema ‐ pessoa  se  constitui  a  partir  da  di nâmica  de  interacção  entre  a  pessoa  e  o  seu  21 sobre  a  mudança 19 ,  entendida  co mo  processo  concomitante  de  transformação  material  e/ou  simbólica  dos  contextos  em  que  vivemos  e  (inter)agimos  colectivamen te  e  de  transformação  de  si  (Crozier,  1982;  Enriquez,  1972)  e  sobre  a  mudança  como  processo  de  dupla  face  que  supõe,  muitas  vezes  simultaneamente,  tanto  a  percepção  da  transformação  do  que  nos  é  exterior,  como  a  transformação  dos  nossos  mecanismos  de  percepção  e  de  entendimento  e  atribuição  de  sentido  que  tornam  diferente  (mudado)  o  objecto  sobre  que  se  de tê m.  Diríamos  que  esta  é  a  já  ref erida  pista  empírica  deste  trabalho.  No  que  respeita  à  sua  pista  teórica,  o  objecto  científi co  deste  trabalho  é  a  própria  teorização  e  problematização  dos  processos  e  dinâmicas  de  desenvolvimento  local  de  que  partimos  e  que  interrogamos  precisamente  a  part ir  do  seu  confronto  com  este  processo  que  procurámos  conhecer  intensivamente.  Ou  seja,  a  análise  deste  cas o  particular  –  no  que  antes  designámos  como  tomá ‐ lo  como  caso  de  estudo  –  permite ‐ nos  ilustrar,  matizar  ou  acentuar  os  limites  dos  próprios  modos  como  conceptualizamos  as  dinâmicas  de  desenvolvimento  local  e  comunitário,  o  que  faz  da  nossa  reflexão  teórica  o  objecto  sobre  o  qual  produzimos  conhecimento:  um  conhecimento  sobre  o  nosso  conhecim ento  sobre  as  dinâmicas  de  desenvolviment o  local,  seria  assim  uma  finalidade  desejada  deste  trabalho.  Finalmente,  este  trabal ho  é  também  um  exercício  e  uma  reflexão  sobre  o  próprio  trabalho  de  pesquisa  e  de  produção  de  conhecimento  no  domínio  da  intervenção  no  e  para  o  desenvolvimento  local  e  comunitário  e  sobre  os  desafios  que  do  ponto  de  vista  epistemológico,  teórico  e  metodológico  coloca  a  produção  de  um  contexto.  No  decurso  das  suas  trocas  com  o  meio,  a  pessoa  “«produz»  uma  organização  que  «r etém»  do  meio  (...).  É  esta  produção  que  constitui  o  seu  mundo  próprio ”  ou,  dito  de  outro  modo,  o  seu  « Meio »  (Lerbet,  1981,  p.22).  Ainda  de  acordo  co m  Galvani  (1991),  Gaston  Pi neau  propõe  igualmente  uma  definição  espacial  e  interacti va  da  pessoa  como  “ sistema  de  relações ”  (Pineau,  1985:  36).  Para  Georges  Lerbet  a  pessoa  também  é  um  “  «lugar»  de  trocas  (...)  ela  constrói ‐ se  na  e  pela  relação  com  o  outro.  Mas  esta  relação  é  interiorizada  ao  ponto  que  ele  confere  ao  meio  um  estatuto  da  ordem  do  sujeito ”  (Ler bet,  1981:1 6). 19  Talvez  a  forma  mais  sintética  de  esclarecer  de  que  falamos  quando  falamos  de  mudança  seja  optar  pela  caracterização  que  dela  faz  Silva  (2000: 9).  Para  o  autor,  em  termos  sociológicos  falamos  de  mudança  para  nos  referirmos  a  processos  sociais  que,  separada  ou  articuladamente,  envolvem  diversas  dimensões:  i)  “ a  natureza  dinâmica  (não  estática)  dos  referidos  processos;  ii)  a  dimensão  diacrónica  (evolução  segundo  o  eix o  do  tempo,  entrelaçamento  de  tempos );  iii)  a  ocorrência  ou  a  possibilidade  de  ocorrência  de  transformações  de  maior  ou  menor  amplitu de,  nas  estruturas  e  nas  práticas  sociais;  iv)  a  acção  intencional  de  actores,  animados  por  projectos  e  programas  de  alteração  delibe rada  de  certos  ou  todos  os  aspectos  das  estrutu ras  e  práticas  sociais ” 28 formal  (identidade,  não  contradição  e  terceiro  excluído).  Ou  seja,  a  nossa  tese  teórica  é  a  de  que  as  categorias  educativas  susceptíveis  de  apreenderem  os  processos  educativos  que  decorrem  nas  e  das  dinâmicas  de  desenvolvimento  comunitário  e  de  permitirem  produzi r  um  conhecimento  sistemático  sobre  a  globalidade  dinâmica  dos  processos  de  educação  que  aí  se  produzem  são,  necessariamente,  categorias  dialécticas .  É  provável  que  algumas  das  muitas  questões  contidas  nestas  teses  não  sejam  objecto  de  uma  atenção  tão  detalhada  como  necessariamente  merecem,  que  a  su a  análise  fique,  de  algum  modo  implícita  num  discurso  que  oscila  entre  um  registo  monográfico,  de  pendor  mais  descritivo,  um  registo  sócio ‐ histórico  que  inscreve  as  questões  no  longo  prazo  da  tessitura  entre  estruturas  e  agência  humana,  um  registo  hermenêutico  que  arrisca  a  produção  de  sentido  sobre  factos  e  opiniões,  discurso  necessariamente  singular  e  aberto  à  interpelação  de  outras  hermenêutic as,  um  registo  compreensivo  que  evita  afirmar  relações  estritas  de  causalidade  entre  fenómenos  sociais  para  se  colocar  antes  na  perspectiva  de  dar  a  conhecer  os  seu  nexos  de  sentido,  redizendo ‐ os  de  acordo  com  uma  lógica  indutiva  propensa  a  pensar  de  modo  reticular  as  relações  entre  os  fenómenos  analisados,  um  registo  problematizador  que  realce  não  só  as  contradições  e  ambivalências  que  fazem  deste  objecto  um  objecto  “ rugoso ”,  como  os  desafios  que  o  caso  concreto  em  análise  coloca  à  teoria  de  que  partimos  e,  por  fim,  um  registo  que  não  será  certamente  o  da  confirmação/infirmação  das  tese s  sugeridas,  mas  antes  o  de  lhes  dar  espessura  empírica.  A estrutura do trabalho O  trabalho  que  se  dá  a  ler  está  organizado  em  quatro  secções,  antecedidas  por  uma  introdução  geral  e  sucedidas  pelas  considerações  finais.  A  primeira  secção,  relativamente  autónoma,  surgiu  da  necessidade  de  criar  um a  infra ‐ estrutura  mental,  um  quadro  de  leitura  amplo  que  particularmente  dê  conta  dos  modos  como  a  problemática  do  desenvolvimento  e  da  relação  entre  educação  e  desenvolvimento  tem  sido  produzida  nas  narrativas  científicas,  desde  que  aquele  emerge  como  objecto  de  reflexão.  29 Não  é  certamente  uma  abordagem  exaustiva  das  diversas  teorias  e  abordagens  ao  desenvolvimento,  mas  essencia lmente,  na  economia  da  pesquisa  e  do  pensamento  do  pesquisador,  constitui  um  esforço  de  identificação  das  coordenadas  dentro  das  quais  o  desenvolvimento  tem  sido  dominantemente  pens ado  que  nos  ajudou  a  reflectir  como  o  processo  analisado  incorpora,  se  aproxima  e  se  afasta  dos  termos  em  que  a  questão  do  desenvolvimento  tem  sido  colocada  por  diferentes  tradições  científicas  e,  fundamentalmente,  nos  permitiu  aprofundar  o  conhecimento  em  torno  das  questões  que  se  colocam  ao  designado  “ desenvolvimento  alternativo ”,  com  o  qual  identificamos  o  caso  que  analisamos.  Com  efeito,  no  que  respeita  ao  tratamento  do  desenvolvimento  procuramos  transcender  o  paradigma  dominante  desde  o  fim  da  II  Guerra  Mundial  marcado  intrinsecamente  pela  adopção  de  uma  visão  caracterizad a  pela  associação  entre  desenvolvimento  e  crescimento  económico  e,  enquanto  crença  ocid ental  (Rist,  2001a),  pela  consideração  do  desenvolvimento  como  progressão  civilizacional  através  de  uma  sequência  de  estádios  rumo  a  uma  condição  semelhante  à  dos  países  ocidentais  industrializados.  Esta  perspectiva  de  desenvolvimento,  que  não  deixa  de  ser  ainda  hoje  a  dominante,  supõe  uma  relação  de  correspondência  positiva  entre  educação  e  desenvolvimento  que  assenta  numa  relação  de  anterioridade  causal  en tre  educação  e  desenvolvimento  e  enfatiza  as  dimensões  produtivas  da  educaç ão  (ou  a  educação  ao  serviço  do  crescime nto  económico).  É  no  entanto  nossa  intenç ão  deslocar  o  foco  de  análise  para  o  que  a  literatura  vem  consagrando,  pelo  menos  desde  meados  dos  anos  1970,  como  as  abordagens  do  desenvolvimento  alternativo.  Estas  caracterizam ‐ se  essencialmente  pela  reconceptualização  do  sentido  económico  do  desenvolvimento,  relativizando ‐ o  ao  fazê ‐ lo  acompanhar  de  outras  dimensões  igualmente  consideradas  relevantes  naqueles  processos,  algumas  delas  verdadeiramente  com  componentes  imateriais  (intangíveis)  como  o  bem ‐ estar,  a  segurança,  a  equidade,  a  sustentabilidade...pela  consideração  do  local  como  escala  pertinente  para  o  promover  e  pensar,  pela  inclusão  nas  suas  preocupações  questões  como  as  da  equidade  entre  géneros  e  da  sustentabilidade  ambiental  e  essencialmente  pelos  modos  alternativos  como  equaciona  a  questão  da  economia,  abrindo  a  porta  a  fenómenos  como  a  economia  solidária  e  a  autogestão.  30 A  segunda  secção  representa  uma  oportunidade  de  sistematicamente  desenvolver  o  conjunto  de  preocupações  teóricas  que  nos  têm  ocupado  na  apreciação  da  problemática  do  desenvolvimento  local,  salientando  as  ambivalências  que  eivam  a  revalorização  discursiva  desta  problemática  e  de  questões  afins.  Nesta  perspectiva,  esta  terceira  secção  é  tamb ém  uma  oportunidade  de  nos  situarmos  teoricamente  face  a  essas  ambivalências  e  de  avançarmos  com  modalidades  alternativas  de  equacionar  os  problemas  e  de  definir  as  suas  possíveis  sol uções,  o  que  represent a  também  uma  forma  de  nos  situarmos  num  ponto  de  vista  teórico ‐ conceptual  que  necessariamente  atravessará  a  discussão  do  material  empírico.  Nesta  secção,  encontra ‐ se  ainda  um  segundo  momento  que  poderíamos  considerar  de  clarificação  conceptual,  em  que  sistematicamente  abordamos  algumas  noções  e  problemáticas  que  considerámos  necessárias  para  enquadrar  o  leitor  na  perspectiva  de  análise  desenvolvida  posteriormente.  A  terceira  sec ção  procura  responder  a  duas  intenções.  Como  sugerimos,  este  trabalho  constitui ‐ se  numa  oportunidade  de  reflectir  sobre  os  próprios  modos  de  pesquisar  e  de  produzir  conhecimento  sobre  o  campo  da  intervenção  para  o  desenvolvimento,  particularmente  sobre  a  intervenção  numa  óptica  do  desenvolvimento  local  e  comunitário.  Nesse  sentido,  nesta  terceira  secção  equacionamos,  num  primeiro  momento,  uma  possível  relação  entre  a  produção  de  conhecimento  no  domínio  da  intervenção  para  o  desenvolvimento  e  uma  dada  forma  de  pensar  a  cientificidade  educativa.  Num  segundo  momento,  procuramos  justificar  as  opções  epistemológicas  e  metodológicas  que  assumimos  na  condução  da  pesquisa,  detalhando  em  particular  a  análise  do  conjunto  de  instrumentos  que  accionámos  na  produção  dos  dados  e  dos  modos  como  procedemos  à  sua  organização  e  análise.  Por  fim,  a  quarta  secção,  sintomaticamente  intitulada  « ilustrações  e  re ‐ interrogações »,  repres enta  o  esforço  de  convocar  tudo  o  que  anteriormente  foi  explicitado  e  fundamentado  para  organizar  uma  análise  de  um  caso  particular  de  desenvolvimento  comunitário  e  local,  particularmente  olhando  para  ele  do  ponto  de  vista  da  compreensão  das  dinâmicas  educat ivas  que  nel e  estão  envolvidas  e  por  el e  são  promovidas.  31 Não  querendo  suicidariamente  menosprezar  o  trabalho  desenvolvido  ao  longo  das  três  primeiras  secções,  devemos  ainda  assim  afirmar  em  abono  da  verdade  que  na  economia  da  tese  essas  secções  deveriam  representa r  o  trabalho  invisível  de  preparação  do  pesquisador  para  a  análise,  e  que,  em  outras  circunstâncias,  poderíamos  mesmo  questionar  a  pertinência  da  sua  inclusão  na  redacção  final  da  tese.  Naturalmente  que  esta  opção  nos  levaria  a  con siderar  que,  verdadeiramente,  a  nossa  pesquisa  se  devia  encontrar  simplesmente  plasm ada  na  quarta  secção  deste  trabalho,  em  que  se  assiste  ao  confronto  entre  uma  utensilagem  teórica  e  os  dados  empíricos,  a  primeira  depurada  em  função  de  uma  pertinência  que  indutivamente  lhe  conferem  os  segundos  e  estes  convocados,  organizados,  analisados  e  interpretados  contra  aquele  modo  particular  de  equacionar  e  problematizar  teoricamente  determinados  processos  e  práticas  sociais.  Deste  “ desafio ”  (ou  interpelação)  mútuo  entre  teoria  e  empiria  haveria  de  resultar  uma  transformação  e  eventual  acréscimo  de  conhecimento  sobre  aqueles  processos  e  práticas  sociais  que  tomamos  como  fo co  do  nosso  trabalho.  Por  várias  razões,  de  que  a  menor  não  será  a  “ indisciplina ”  (e,  já  agora,  também  alguma  saudável  e  pess oalmente  enriquecedora  indisciplinariedade)  que  caracterizou  a  realização  deste  trabalho,  mas  justificadamente  também  porque  nos  identificamos  com  a  necessidade  de  que  os  trabalhos  científicos  contenham  em  si  todos  os  elementos  que  permitam  a  sua  crítica  (como  aliás  começámo s  por  dizer),  a  forma  final  deste  trabalho  assume  a  incorporação  do  que  acima  designá mos  trabalho  invisível  como  um  primeiro  momento  lógico  do  trabalho  de  pesquisa  e  de  produção  de  conhecimento,  com  o  inconveniente  claro  de  assim  se  estabelecer  uma  distinção  formal  entre  o  classicamente  designado  enquadramento  e  problematização  teórica  e  o  momento  da  análise  da  empiria.  É  certamente  uma  limitação  deste  trabalho,  muito  provavelmente  não  a  mais  significativa,  mas  que,  ainda  assim,  gostaríamos  de  ter  evitado  e,  por  analogia  ao  conhecido  dito  de  um  escritor  português  que  se  desculpava  perante  o  interlocutor  da  sua  missiva  por  essa  ser  tão  longa,  dado  não  ter  tido  tempo  de  a  encurtar,  também  a  nós  não  nos  resta  senão  desculpar ‐ nos  por  este  trabalho  ser  tão  evidentemente  org anizado  do  modo  dicotómico  que  acima  enunciamos,  porque  não  tivemos  o  engenho  de  o  tornar  mais  integrado.   32     33 I  SE CÇÃ O  –  O  PA N O  DE  FUNDO  DA  PE SQUIS A  34 35 As teorias e as práticas do desenvolvimento  De  onde,  quando  e  como  surge  a  narrativa  científica  do  desenvolvimento?  Quais  os  significados  sociais  e  políticos  que  esta  narrativa  assume  em  diferentes  momentos?  Que  consequências  se  podem  destacar  no  campo  educativo  das  narrativas  que  acerca  do  desenvolvimento  se  têm  produzido?  Neste  capítulo,  e  a  partir  desta s  questões,  procuramos  contribuir  para  a  compreensão  do  processo  de  construção  social  (científica,  política,  económica,  cognitiva)  do  desenvolvimento,  através  de  uma  digressão  sócio ‐ histórica  que  culmina  no  actual  momento  em  que  este  está  no  “ no  centro  de  uma  incrivelmente  poderosa  constelação  semântica ”  (Esteva,  1992:8),  sem  paralelo  na  modernidade,  pela  força  que  tem  de  nortear  (literalmente)  pensamento  e  acção,  apesar  de  que  para  outros  persiste  hoje  apenas  como  palavra/noção  “ incapaz  de  dar  substância  e  sentido  ao  pensamento  e  comportamento ”  e,  como  tal,  frágil  e  vazia  ( idem :8),  mesmo  uma  “ uma  ruí na  na  paisagem  intelectual ”  (Sachs,  1992:1).  Ou  seja,  vivemos  um  momento  histórico  em  que  simultaneamente  proliferam  as  referências  no  discurso  quotidiano  e  político  aos  imperativos  do  desenvolvimento  e  se  publicam  dezenas  de  revistas  científicas  que  erigem  o  desenvolvimento  para  núcleo  central  das  problemáticas  que  abordam  e,  por  outro  la do,  nos  deparamos  com  discursos,  que  os  seus  cr íticos  apelidam  de  pós ‐ modernos  (Parfitt,  2002),  que  sugerem  até  que  se  abandone  a  utilização  do  termo  desenvolvimento  de  tão  pouco  que  ainda  significa  e  de  tão  catastrófica  foi  e  é  a  sua  invocação  principalmente  pa ra  aqueles  que  dele  são  objecto.  « Impostura  intelectual »,  dizem  mesmo  estes  críticos  do  desenvolvimento  (Latouche,  2004:73).  Esta  digressão  sócio ‐ histórica  através  dos  diversos  sentidos  do  desenvolvimento,  a  partir  da  caracterização  das  concepções  políticas  e  científicas  que  em  diferentes  momentos  foram  predominantes,  visa  essencial mente  dar  conta  da  persistência  dos  traços  hegemónicos  de  pensar  e  co ncre tizar  aquele  desígnio,  enfim,  salientar  como  a  história  do  desenvolvimento,  principalmente  a  sua  história  política  e  científica,  é  uma  história  de  continuidade(s)  muito  mais  do  que  de  rupturas.  A  identificação  de  distintas  concepções  dos  processos  de  desenvolvimento  que  particularmente  ao  longo  da  segunda  metade  do  século  vinte  se  foram  erigindo  36 contribui,  em  larga  medida,  para  confirmar  estas  continuidades:  constituem ‐ se  em  quadros  de  caracterização  e  análi se  de  processos  designados  de  desenvolvimento,  naturalmente  que  ancorados  em  conceitos  distintos  oriundos  de  tradições  teóricas  várias,  enfatizando  aspectos  diversos  daqueles  processos,  encontrando  mesmo  a  sua  génese  em  matrizes  disciplinares  marcad as  pela  pluralidade,  mas  em  que  verdadeiramente  o  programa  societário,  o  sentido  do  caminho  da  humanidade,  a  teleologia  que  subjaz  à  idei a  de  desenvolvimento  não  é,  ess encialmente,  distinta  entre  as  várias  concepções,  nem  objecto  de  uma  crítica  verdadeiramente  radical.  Salvaguardam ‐ se  no  entanto  os  trabalhos  que  mais  recentemente  (particularmente  a  partir  de  me ados  da  década  de  80 21 ,  e  com  maior  expressão  a  partir  da  década  de  90  do  século  passado 22 ),  se  vêm  desenvolvendo  so b  a  designação  de  pós ‐ desenvolvimento 23  (cf.  Sachs,  1992;  Latouche,  2004;  Munck&O’Hearn,  1999;  Escobar,  1995,  Santos,  2002)  e  que  efectivamente  desenvolvem  uma  análise  radical  da  “ era  do  desenvolvime nto ”  que  afirmam  ser  necessário  encerrar,  não  só  porque  “ as  condições  históricas  que  catapultaram  a  ide ia  [do  desenvolvimento]  para  a  proeminência  desapareceram:  o  desenvolvimento  tornou ‐ se  ultrapassado.  Mas  acima  de  tudo,  as  esperanças  e  desejos  que  fizeram  com  que  a  ideia  voasse,  estão  a gora  exauridos:  o  desenvolvimento  tornou ‐ se  obsoleto ”  (Sachs,  1992:1) . .  Wolfgang  Sachs  (1992:2 ‐ 4)  afirma  que  a  “ era  do  desenvolvimento ”  que  começa  após  a  II  Guerra  Mundial  está  em  decl ínio  porque  as  suas  quatro  premissas  fundadoras  foram  tornadas  obsoletas  pela  história.  A  primeira  destas  premissas  era  a  que  afirmava  quer  a  superioridade  incontestável  na  escala  de  evolução  soci al  dos  EUA  e  das  outras  nações  altamente  industrializadas  quer  os  efeitos  libertadores  que  essa  industrialização  traria  à  humanidade,  premissa  hoje  altamente  questionada  tanto  pelos  efeitos  que  a  exacerbação  tecnológica  produziu  em  termos  amb ientais  e  que  21 Embora  a  maioria  das  obras  compulsadas  sobre  esta  pers pectiva  sejam  da  década  de  90  do  século  passado,  Gustavo  Esteva  (1992:16 ),  recorrendo  ele  próprio  a  uma  obra  de  Gilbert  Rist  (1990),  rem ete  para  os  idos  de  1985  o  início  desta  nova  era  do  pós ‐ dese nvolvimento:  “ By  1985,  a  post  development  age  seemed  to  be  in  the  offing ”. 22  Embora  possamos  enco ntrar  contributos  isolados  qu e  a  prec edem  enquanto  corrente  mais  sistemática,  de  que  arriscaríamos  destacar  como  maior  representante  Ivan  Illich  e  os  trabalhos  qu e  ao  longo  dos  anos  70  e  80  produziu  (cf.  Finger&Asún,  2003  e  Latouche,  2004  para  uma  listagem  ampla  dos  trabalhos  de  Ivan  Illich  dura nte  este  períod o) 23  Parfitt  (2002:1 ‐ 10)  apresenta  sumariamente  algumas  outras  obras  significativas  dos  anos  90  produzidas  a  partir  do  qua drante  intelectual  das  perspectivas  pós ‐ desenvolvimentistas. 37 mostram  que  se  as  nações  industrializadas  ainda  seguem  à  frente...apenas  se  dirigem  a  um  abismo  civilizacional  colocando  em  causa  a  sustentabilidade  global  do  planeta,  como  pela  constatação  de  que  a  prometida  redenção  da  humanidade  não  chegou  a  acontecer,  nem  sequer  se  assistiu  a  uma  socialização  justa  de  eventuais  benefícios  de  algumas  das  promessas  da  modernização  tecno lógica.  Portanto,  face  a  esta  primeira  premissa  a  questão  que  se  coloca  é  muito  simplesmente:  as  nações  ditas  desenvolvidas/industrializadas  afinal  são  modelos  de  quê  e  para  que  futuro?  Uma  segunda  premissa  ancorava ‐ se  no  confronto  então  vivido  entre  dois  blocos  políticos  hegemónicos  (protagonizados  pelos  EUA  e  pela  URSS)  onde  o  desenvolvimento  (e  particularmente  a  ajuda  ao  desenvolvimento)  representava  uma  forma  de  fidelização  das  nações  (principalmente  as  que  vivia m  processos  de  descolonização)  e  de  vantagem  competitiva  nesta  luta  entre  sistemas  políticos.  Hoje,  num  contexto  político  substancialmente  distinto,  marcado  pelo  fim  do  confronto  entre  bloco  de  leste  e  ocidental  e  pelo  advento  de  um  certo  mundo  policêntrico,  a  dimensão  política  e  ideológica  do  desenvolvimento  perdeu  força  enquanto  arma  de  arremesso  na  competição  entre  sistemas  políticos  e  os  apelos  ao  des envolvimento  tomam  hoje  como  referencial  a  divisão  ricos ‐ pobres,  o  que  transforma  o  carácter  do  projecto  do  desenvolvimento:  “ a  prevenção  substit ui  o  progresso  como  objectiv o  do  desenvolvimento;  a  redistribuição  do  risco  mais  do  que  a  redistribuiç ão  da  riqueza  domina  agora  a  agenda  internacional ”  ( idem,  ibidem :3).  A  terceira  premissa  da  “era  do  desenvolvimento”  remetia  par a  a  sua  capacidade  de  transformar  a  face  da  terra  diminuindo  a  desigualdade  entre  regiões  e  nações.  Pois  bem,  não  só  isso  não  aconteceu  como  a  desigualdade  se  agravou  e  a  ilusão  de  “apanhar  os  países  da  frente”  revelou ‐ se  apenas  isso,  uma  ilusão.  De  igual  modo  assi stiu ‐ se  a  um  aumento  da  polarização  social  no  interior  dos  países,  e  não  apenas  dentro  dos  mais  pobres,  mas  também  dentro  das  nações  ditas  desenvolvidas  (cf.  Canário,  1999:62).  Por  fim,  a  quarta  e  última  premissa  da  “ era  do  desenvolvimento ”  assentava  no  desígnio  da  Ocidentalização  do  mundo  (“ Westernization  of  the  world ”)  o  que  supunha  uma  “ via  única ”  que  conduzisse  a  diversidade  humana,  naturalmente  deficitária,  por  um  mesmo  caminho,  rumo  à  maturidade  dos  países  que  “ seguiam  à  frente ”.  Ora,  perante  esta  perspectiva,  Wolfgang  Sachs  sugere  que  não  era  o  falhanço  do  desenvolvimento  que  44 inaugurando  assim  um  novo  mod o  de  conceber  as  relações  internacionais  e  sintetizando  uma  série  de  ideias  conformes  ao  espírito  da  época  (Rist,  op.  cit. ),  marcada  pelo  sucesso  do  Plano  Marshall  na  reconstrução  da  Europa  mas  também  pela  disputa  da  influência  geopolítica  e  económica  com  a  União  Soviética.  De  acordo  com  Gustavo  Esteva  (1992:6)  esta  foi  a  forma  encontrada  de  afirmar  e  consolidar  a  hegemonia  da  posição  norte ‐ americana  no  mundo;  uma  espécie  de  campanha  política  à  escala  global  que  adoptou  como  emblema  o  desenvolvimento.  Em  boa  verdade,  sugere  o  mesmo  autor,  ao  utilizar  pela  primeira  vez  neste  contexto  a  noção  de  subdesenvolvimento,  o  presidente  Truman  não  só  cunhou  uma  poderosíssima  expressão  política  da  hegemonia  americana  –  de  “ uma  virulência  colonizadora  insuspeitada ”  (idem:7)  –  que  se  impôs  rápida  e  duravelmente  como  “ lugar ‐ comum ”,  rompendo  com  duzentos  anos  de  construção  social  do  significado  histórico ‐ político  do  termo  desenvolvimento  como,  “ nesse  dia,  2  biliões  de  pessoas  tornaram ‐ se  subdesenvolvidas ” 27  ( idem,  ibidem :7).  E  assim  se  insinuou  e  instaurou  uma  ordem  cognitiva  –  nas  palavras  de  Esteva  (1992:6)  nunca  antes  uma  palavra  tinha  sido  tão  universalmente  aceite  no  mesmo  instante  em  que  é  politicamente  forja da  –  que  distribui  e  situa  as  nações  e  os  indivíduos  face  a  um  referente  idealizado,  que  cria  um a  percepção  de  si  e  do(s)  outro(s)  e  os  (des)mobiliza:  “ Desde  então,  o  desenvolvimento  tem  conotado  pelo  meno s  uma  coisa:  escapar  da  indigna  condição  designada  subdesenvolvimento  [mas]  para  que  alguém  conceba  a  possibilidade  de  escapar  de  uma  condição  particular  é  necessário,  primeiro  sentir  que  se  caiu  nessa  condição.  Para  os  que  hoje  constituem  2/3  da  população  mundial,  pensar  em  desenvolvimento  –  qualquer  tipo  de  desenvolvimento  –  requer,  em  primeiro  lugar,  a  perc epção  de  si  como  subdesenvolvido,  com  toda  a  carga  de  conotações  que  tal  implica  […]  é  uma  ameaça  que  já  se  concretizou;  uma  experi ência  de  vida  de  subordi nação,  de  discriminação  e  de  subjugação.  Dada  essa  pré ‐ condição,  o  simples  facto  de  associar  a  nossa  intenção  ao  27 Nos  termos  de  Gustavo  Esteva  (199 2:7):  “ In  a  rea l  sen se,  from  that  ti me  on,  they  ceased  bein g  what  they  were,  in  all  their  diversity,  and  were  transmogrified  into  an  inverted  mirror  of  other’s  reality:  a  mirror  that  belittles  them  an d  sends  them  off  to  the  en d  of  the  queue,  a  mirror  that  defin es  their  identity,  which  is  really  that  of  a  heterogeneous  and  diverse  maj ority,  simply  in  the  terms  of  a  homogen izing  and  narrow  minority ” 45 desenvolvimento  tende  a  anular  a  intenção,  a  contradizê ‐ la,  a  escravizá ‐ la ”  (Esteva,  1992:7 ‐ 8).  O  poder  colonizador  do  discurso  do  desenvolvimento  é  igualmente  destacado  por  Arturo  Escobar  (1995)  quando  argumenta  que  a  partir  da  II  Guerra  Mundial  o  discurso  do  desenvolvimento  se  constituiu  num  dispositivo  de  poder ‐ conhecimento  que  basicamente  inventou  o  Terceiro  Mundo  como  um  objecto  de  interven ção.  De  acordo  com  este  autor,  este  dispositivo  operacionalizou ‐ se  por  intermédio  de  práticas  discursivas  progressivamente  mais  institucionalizadas  e  profissionalizadas  que,  por  via  do  modo  como  os  países  industrializados  foram  definindo  os  problemas  do  Terceir o  Mundo  e  as  suas  putati vas  soluções,  procuraram  impor  um  modelo  cultural  específ ico  –  a  modernidade  –  e  permitiram  o  estabelecimento  de  dispositivos  de  conhecimento  e  de  gestão  das  populações  destes  países  pelo  menos  tão  eficazes  como  os  que  vigoravam  durante  os  regimes  coloniais  (cf.  Triantafillou&Nielsen,  2001:71 ‐ 72).   A Teoria do Crescimento Ec onómico e a Teoria da Modernização Se  é  certo  que  o  discurso  de  Harry  Truman  inaugura  politicamente  a  era  do  desenvolvimento  não  é  menos  verdade  que  no  campo  científico  os  anos  1940  marcam  o  dealbar  de  um  pensamento  sobre  a  problemática  do  desenvolvimento.  Em  verdade,  o  campo  dos  estudos  sobre  o  desenvolvimento,  dominado  pelos  economistas  mas  de  algum  modo  surpreendentemente  per meáve l  a  contribuições  de  outras  ciências  sociais  e  humanas  (sociologia,  antropologia,  ciência  política,  geografia) 28 ,  emerge  logo  após  o  final  da  II  Grande  Guerra  e  é  marcado  essencialmente  por  uma  preocupação  com  os  problemas  macroeconómicos,  designadamente  os  que  concerniam  as  desigualdades  entre  países  ricos  e  pobres.  Os  estudos  sobre  o  desenvolvimento  do  período  pó s ‐ guerra  eram  marcados  por  um  forte  optimismo  o  que  leva  Brohman  (2001)  a  falar  de  uma  “ era  do  entusiasmo ”,  que,  aliás,  contrapõe  à  “ era  da  desilusão ”  actual,  onde  se  28  Esta  permeabilidade  do  cam po  da  produ ção  científica  sobre  o  desenvolvimento  ao  contributo  de  uma  diversidade  de  olhares  oriundos  das  diferentes  ciências  sociais  e  humanas  é,  aliás,  uma  marca  que  perdurou  até  aos  dias  de  hoje  nos  quais  se  advoga  precisamente  a  riqueza  hermenêutica  qu e  a  construção  de  teorias  híbrida s  sobre  o  desenvolvimento  pode  aportar. 46 esperava  que  os  progressos  teóricos  e  técnicos  garantidos  por  uma  ciência  positivista  a  campos  como  a  economia  permitissem  pensar  o  desenvolvimento  segundo  uma  racionalidade  planificadora,  isto  é,  segundo  uma  lógica  em  que  o  desenvolvimento  seria  traçado  por  planificadores  ao  serviço  do  Estado  usando  as  ferramentas  cientificamente  adequadas,  o  que  permitiria  promover  racionalmente  um  processo  de  crescimento  económico  e,  acredit ava ‐ se,  concomitantemente,  de  desenvolvimento,  cuja  finalidade,  em  face  do  que  acima  referimos  ser  a  preocupação  política  então  dominante,  seria  a  diminuição  drástica  e  rápida  do  fosso  entre  país es  ricos  e  países  pobres.  Este  pensamento  foi  reforçado  positivamente  pe lo  êxito  do  Plano  Marshall  na  Europa  em  reconstrução  após  a  devastação  da  guerra  e  rapidamente  se  converteu  na  forma  de  pensamento  dominante  para  analisar  as  relações  entre  países  do  hemisfério  Norte  e  países  do  hemisfério  Sul  e  os  estudos  sobre  o  desenvolvimento  assumiram  então  o  papel  de  avaliar  racionalmente  os  problemas  e  de  geri r  tec nica me nte  a  intervenção  face  àqueles,  subentendendo,  como  é  claro,  uma  relação  de  subordinação  dos  países  do  Sul  face  aos  do  Norte  obnubilada  pelo  discurso  da  ajuda  internacional.  Não  esquecendo  que  neste  período  se  inicia  também  a  designa da  « guerra  fria »,  entre  os  EUA  e  a  União  Soviética,  os  programas  de  ajuda  internacional  ao  desenvolvimento  e  as  suas  ferramentas  co nceptuais  e  técnicas  adquirem  o  valor  de  armas  de  arremesso  ideológico  no  domínio  das  relações  internacionais 29 .  A  primeira  corrente  de  pensamento  sistemática  sobre  o  desenvolvimento  sobre  a  qual  nos  debruçaremos  é  a  Teoria  do  Crescimento  Económico  que  precisamente  eclodiu  no  contexto  que  acabámos  de  caracterizar.  A  base  conceptual  da  teori a  do  crescimento  económico  é  es sencialmente  de  teor  económico  e  mantém  fortes  afinidades  ideológicas  com  o  New  Deal  americano  e  com  os  programas  social ‐ democratas  europeus .  Esta  perspectiva  foi  popularizada  a  partir  do  final  dos  anos  1940  e  prolongou ‐ se  até  meados  dos  anos  1950,  sen do  posteriormente  absorvida  progressivamente  por  uma  outra  corrente  de  pensamento:  a  Teoria  da  Modernização.  Na  génese  da  Teoria  do  Crescimento  Económico  esteve  a  29  Não  é  por  acaso  que  a  emergência  e  proliferação  dos  discursos  pós ‐ des envolvimentistas  se  inscrevem  no  contexto  do  fim  da  « guerra ‐ fria »  e  do  desmoronamento  do  bloco  de  leste  (cf.  Sa chs,  1992). 47 crítica  à  teoria  económica  neoclássica  ortodoxa  –  que  assentava  na  importância  conferida  a  um  mercado  “ puro ”  e  no  crescimento  baseado  nas  exportações  definidas  e  partir  do  princí pio  das  vantagens  comparativas  entre  nações  –  produzida  pelos  teóricos  do  crescimento  a  partir  do  ponto  de  vista  Keynesiano  intervencionista,  pondo  em  causa  “ the  ability  of  neoclassical  theory  to  translate  its  microeconomic  base  of  individualized,  short ‐ run  decision ‐ makin g  into  a  dynamic  macroeconomic  theory  for  long ‐ term  development ”  (Brohman,  2001:12) 30 .  A  ideia  de  desenvolvimento  que  protagonizava  era  bastante  redutora,  associando ‐ o  ao  cresci mento  económico  sendo  que  os  factores  sociais  e  cult urais  apenas  eram  tidos  em  consideração  pelo  seu  papel  facilitador/obstaculizador  das  mudanças  socia is  “ apropriadas ”  que  acompanhariam  o  crescimento  económico.  Nesta  perspectiva  o  desenvolvimento  é  entendido  como  processo  de  formação  de  capital  que,  por  seu  lado,  é  largamente  determinado  pelo  investimento  e  pelos  níveis  de  poupança  que  deveria  ser  canalizada  para  o  investime nto  produtivo,  especialmente  em  sectores  com  elevados  níveis  de  crescimento .  Neste  modelo  de  desenvolvimento,  o  papel  interventivo  do  Estado  é  modesto;  apenas  se  justifica  num  contexto  de  imperfeição  do  mercad o  ou  está  reservado  aos  estádios  iniciais  de  descolagem  económica  durante  os  quais  é  desejável  uma  extensiva  intervenção  estatal  mas,  vencida  a  inércia,  o  mercado  conduziria,  de  forma  linear,  o  crescimen to  (no  que  na  expressão  anglo  saxónica  se  identifica  como  “ market ‐ driven  growth ”).  Os  modelos  e  quadros  teóricos  da  Te oria  do  Crescimento  estavam  enrai zados  na  história  económica  do  Ocidente  o  que  significa  que,  mesmo  se  aquela  rejeitou  alguns  dos  aspectos  da  economia  neoclássica  no  que  diz  respeito  à  promoção  do  desenvolvimento  em  países  do  Terceiro  Mundo 31 ,  se  estruturava  ess encialmente  na  30  O  autor  identifica  três  áreas  principais  de  crítica  a  partir  do  ponto  de  vista  keynesiano  à  eco nomia  clássica  e  por  referência  ao  desenvolvimento:  1)  A  teoria  neoclássica  é  estática  e  está  centrada  na  alocação  (allocations)  de  certos  recursos,  enquanto  os  problemas  do  desenvolvimento  são  dinâmicos  e  devem  concentrar ‐ se  no  aumento  de  re cursos  de  investimento  através  da  estimulaçã o  da  poupa nça  e  do  investimento;  2)  Os  modelos  neoclássicos  negligenciam  a  rigide z  estrutural,  nas  suas  múltiplas  expressões,  comuns  nos  países  em  desenvolvimento  que  impedem  o  mercado  de  reagir  da  forma  teórica  esperada;  3)  A  ênfase  neoclássica  no  desenvolvimento  baseado  nas  vantagens  comparativ as  e  no  comércio  livre  é  inapropriado  para  os  países  de  industrialização  tardia. 31  A  expressão  «Terceiro  Mundo»  que  ao  longo  deste  capítulo  será  utilizada  algumas  vezes  tem  a  sua  génese  em  início  dos  anos  50,  mais  precisamente  em  1952,  e  é  citada  por  um  demógrafo  fr ancês  de  nome  Alfred  Sauvy  no  L’Observateur .  Aí  se  diz  a  determinado  momento:  « Nous  parlons  volontiers  des  48 base  de  uma  visão  Eurocêntrica  do  desenvolvimento,  unicamente  baseada  na  interpretação  keynesiana  da  experiência  do  capitalismo  industrial  dos  países  centrais .  Nesta  perspectiva,  aos  países  que  saíam  de  longas  histórias  de  colonização  era  requerido  que  atravessassem,  numa  espécie  de  “ imperativo  da  modernização ”  (Brohman,  2001:  13),  um  conjunto  definido  de  etapas/estádios,  à  semelhança  dos  que  se  podiam  de  forma  simplista  identificar  na  história  económica  ocidental,  para  que  alcançassem  um  patamar  de  desenvolvimento  mais  elevado,  isto  é,  um  desenvolvimento  “ ao  estilo  Ocidental ”  ( idem,  ibidem :13) 32 .  Mas,  em  finais  dos  anos  1950,  a  Teoria  do  Crescimento  Económico  caíra  já  em  descrédito  junto  da  maiori a  dos  teóricos  do  desenvolvimento  principalmente  pelo  reconhecimento  de  que  a  sua  abordagem  aos  problemas  de  de senvolvim ento  socioeconómico  e  político  dos  países  do  Terceiro  Mundo  a  partir  de  conceitos  e  teorias  desenvolvidos  a  propósit o  de  economias  industriais  centrais  não  era  hermeneuticament e  ajustada,  bem  como  pela  constatação  de  que  a  sua  visão  unilinear  do  desenvolvimento  como  uma  sequência  de  estádios  não  era  verdadei ra  nem  concretizável  e  muito  menos  através  da  prescrição  da  receita  keyn esiana  para  aqueles  países.  No  entanto,  foi  a  aquela  teoria  que  preparou  as  fundações  teóricas  e  políticas  para  a  perspectiva  que  haveria  de  dominar  o  panorama  dos  estudos  e  dos  progra mas  de  desenvolvimento  durante  os  anos  1960  e  parte  dos  1970.  Falamos  da  Teoria  da  Modernização  que  aprofundando  e  alargando  o  aparelho  conceptual  da  Teoria  do  Crescimento  incorpora  algumas  das  ideias ‐ chave  da  sua  predecessora,  nomeadamente:  i)  o  desenvolvimento  como  cresci mento  económico  baseado  na  industrialização;  ii)  o  papel  crítico  do  aumento  da  poupança  e  do  (seu)  investimento  produtivo;  iii)  a  necessi dade  da  intervenção  estatal  na  planificação  do  deux  mondes  en  présence,  de  leur  guerre  possible,  de  leur  coexistence,  etc…,  oubliant  très  souvent  qu’ il  en  existe  un  troisième ,  le  plus  important  et,  en  somme,  le  premier  dans  la  chronologie.  C’est  l’ensembl e  de  ceux  que  l’on  appelle,  en  style  Natio ns  Unies,  les  pays  sous ‐ développées »  (cit.  em  Rio ndet,  1996  :26) 32  O  modelo  de  estádios  proposto  por  Rostow  foi  provavelmente  o  mais  popular  dentro  desta  perspectiva  e  nele  se  propugnava  a  ideia  de  que  os  países  evoluem  através  de  uma  sequência  de  estádios  de  desenvolvimento,  cond uzindo  as  sociedades  tr adicionais  a  transformar ‐ se  em  sociedades  de  consumo  de  massas,  típicas  do  capitalismo  moderno. 49 desenvolvimento  e  iv)  o  desenvolvimento  como  sequência  de  estádios  bebidos  na  experiência  histórica  dos  países  do  Ocidente.   Na  perspectiva  de  Alvin  So  (1990),  o  contexto  sócio ‐ político  de  emergência  da  Teoria  da  Modernização  é  marcado  pela  reunião  de  três  eventos  históricos:  i)  a  emergência  dos  EUA  como  superpotência  mundial;  ii)  o  alastramento  do  movimento  comunista  ao  mundo;  iii)  a  desi ntegra ção  dos  impérios  coloniais  das  potências  europeias.  Do  ponto  de  vista  intelectual  ou  teórico,  a  Teoria  da  Modernização  é  claramente  influenciada  no  seu  esforço  de  iluminar  a  modernização  dos  países  do  Terceiro  Mundo,  quer  pela  teoria  ev olucionista 33 ,  quer  pela  teoria  funcionalista.   Uma  vez  que  a  teor ia  evolucionista  havia  ajudado  a  explicar  a  transição  entre  sociedades  tradicionais  e  sociedades  moderna s  na  Europa  Ocidental  no  século  XIX,  muitos  pesquisadores  integrados  na  corrente  modernizadora  acreditaram  que  de  igual  modo  poderia  iluminar  os  processos  de  modernização  dos  países  do  Terceiro  Mundo.  Com  efeito,  a  Teoria  da  Modernização  e  a  escola  intelectual  que  a  protagoniza  representam  um  esforço  multidisciplinar  para  examinar  as  perspecti vas  do  desenvolvimento  do  Terceiro  Mundo  onde  cada  disciplina  contribui  do  seu  modo  para  a  identificação  de  aspectos  chave  a  respeito  da  modernização.  Assim,  os  sociólogos  focam ‐ se  na  mudança  das  variáveis ‐ padrão  e  na  diferenciação  estrutural,  os  economistas  acentuam  a  importância  de  acelerar  os  inves timentos  produtivos  e  os  cientistas  políticos  destacam  a  necessidade  de  melhorar  a  capacidade  do  sistema  político.  Apesar  da  sua  natureza  multidisciplinar,  os  pesquisadores  da  Teoria  da  Modernização  partilham  dois  conjuntos  de  assunções  e  metodologias  no  estudo  do  desenvolvimento  do  Terceiro  Mundo.  O  primeiro  conjunto  de  assunções  partilhado  pelos  pesquisadores  da  escola  da  modernização  diz  respeito  a  certos  conceitos  extraídos  da  teoria  evolucionista  33  A  teoria  evolucionista  clássica  tinha  as  seguintes  características:  1)  Assumia  que  a  mudança  social  é  unidireccional,  isto  é,  que  as  sociedades  humanas  invariavelmente  se  movem  na  direcção  de  um  estado  primitivo  a  um  estado  avançado.  Nesse  sentido,  o  destino  da  evol ução  humana  está  pré ‐ determina do;  2)  Impunha  um  juízo  de  valor  sobre  o  processo  evolucionário  –  o  movimento  em  direcção  à  fase  final  é  bom  porque  r epresenta  progresso,  humanidade  e  civilização;  3)  Assumia  que  os  ritmos  da  muda nça  social  são  lentos,  graduais  e  pacíficos  –  evolucionário  e  nã o  revolucionário!  (So ,  1990) . 50 europeia.  De  acordo  com  a  teoria  evolucionista,  a  mudança  social  é  unidireccional,  progressiva  e  gradual,  irreversivelmente  conduzindo  as  sociedades  de  um  estádio  primitivo  a  um  estádio  avançado,  e  tornando  as  sociedades  mais  iguais  entre  si  à  medida  que  avançam  no  trilho  da  evolução.  Assentes  nesta  premissa,  os  teóricos  da  escola  da  modernização  formularam  as  suas  perspectivas  com  os  seguintes  traços  (So,  1990:33 ‐ 34):  i)  a  modernização  é  um  processo  faseado;  ii)  a  modernização  é  um  processo  homogeneizador ;  iii)  a  modernização  é  um  processo  de  Europeização  (ou  Americanização );  iv )  a  modernização  é  um  processo  irreversível ;  v)  a  modernização  é  um  processo  progressivo ;  vi)  a  modernização  é  um  processo  longo.   O  outro  conjunto  de  assunções  partilhado  pelos  pesquisadores  da  escola  da  modernização  é  retirado  da  teoria  funcionalista,  que  enfatiza  a  interd ependência  das  instituições  sociais,  a  importância  das  variáveis  padrão  ao  nível  cultural  e  o  processo  imbuído  de  mudança  através  do  equilíbrio  homeostático.  Influenciados  por  estas  ideias  de  Talcott  Parsons 34 ,  os  pesquisadores  da  escola  da  modernização  formularam  34  Uma  componente  forte  do  substrato  te órico  da  Teoria  da  Modernização  é  a  teoria  funcionalista  de  Talcott  Parsons  cujos  co nceitos  –  tais  como  « sist ema »,  « imperativo  funcional »,  « equilíbrio  homeostático »  e  « variáveis  padrão »  –  entrara m  nos  trabalhos  de  muitos  dos  prota gonistas  da  Teoria  da  Modernização.  Para  Parsons,  originalmente  um  biólogo,  a  sociedade  humana  é  como  um  organismo  biológico  e  pode  ser  estudada  enquanto  tal:  i)  pode  dizer ‐ se  que  as  diferentes  partes  de  um  organismo  correspondem  às  diferentes  instituições  que  constituem  uma  sociedade  que,  tal  como  no  caso  dos  organismos  vivos  as  partes  estão  inter ‐ relacionadas  e  são  inter ‐ dependen tes  entre  si  na  sua  acção,  assim  também  as  instituições  numa  sociedade  estão  intim amente  relacionados  entre  si.  Parsons  usa  o  conceito  de  « sistema »  para  denotar  a  coordenação  har moniosa  entre  instituições;  ii)  tal  como  cada  parte  do  organismo  biológico  desempenha  uma  função  específica  para  o  bem  do  todo,  assim  cada  instituição  desempenha  uma  certa  função  para  a  estabilidade  e  o  crescimento  da  sociedade.  Parsons  formula  o  conceito  de  « imperativos  funcionais »  argumentando  que  há  4  funções  cruciais  que  todas  as  sociedades  devem  desempenhar  senão  morrerão:  i)  Adaptação  ao  ambient e  (desempenhada  pela  economia);  ii)  Goal  attainment  (desempe nhada  pelo  Governo);  iii)  Integração  (ligando  as  instituições  entre  si)  –  desempenha da  pelas  instituições  legais  e  pela  religião;  iv)  Latency  (manutenção  de  um  padrão  de  valores  de  geração  em  geração )  –  desempenhad a  pela  família  e  pela  escola.  A  analogia  da  sociedade  com  um  organismo  vivo  também  cond uziu  Parsons  a  formular  o  conceito  de  « equilíbrio  homeostático ».  Parsons  parte  da  ideia  de  que  um  organismo  biológico  procura  sempre  estar  num  estado  uniforme.  Se  uma  parte  muda,  então  as  outras  mudarão  de  acordo  co m  essa  mudança  para  restaurar  o  equilíbrio.  De  acor do  com  Parsons  a  sociedade  também  observa  os  ritmo s  necessários  para  a  homeostasia;  há  interacções  const antes  entre  instituições  para  mant er  o  equilíbrio  homeostático.  Quando  uma  instituição  ex periencia  mudan ças  sociais,  isso  provoca  uma  reacção  em  cadeia  de  mudança s  em  outra s  instituições  de  modo  a  restabelecer  o  equilíbrio.  Nes ta  perspectiva,  o  sistema  social  para  Parsons  não  é  estático,  estacionário,  uma  entidade  imutável,  mas  pelo  co ntrário,  as  instituições  que  constit uem  o  sistema  estão  sempre  a  mudar  e  a  ajust ar ‐ se .  Parsons  formulou  ainda  o  conceito  de  « variáveis  padrão »  para  distinguir  as  sociedades  tradicionais  das  sociedades  modernas.  As  variáveis  padrão  são  as  relações  sociais  chave  que  51 implicitamente  o  conceito  de  modernização  com  os  seguintes  traços:  i)  a  modernização  é  um  processo  sistemático :  os  atributos  da  modernidade  formam  um  todo  consistente,  aparecendo  em  blocos  mais  do  que  isolados.  A  mode rnidad e  implica  mudanças  em  virtualmente  todos  os  aspectos  do  comportamento  social,  incluindo  industrialização,  urbanização,  mobilização,  diferenciação,  secularização,  participação  e  centralização;  ii)  a  modernização  é  um  processo  transformativo :  para  que  uma  sociedade  se  mova  para  a  modernidade  as  sua s  estruturas  e  valores  tradicionais  devem  ser  totalmente  substituídos  por  um  conjunto  de  valores  modernos  (modernidade  e  tradição  são  conceitos  assimétricos  nesta  perspectiva);  iii)  a  modernização  é  um  processo  imanente :  devido  à  sua  natureza  sistemática  e  transformadora,  a  modernização  introduziu  mudanças  no  sistema  social.  Uma  vez  que  a  mudança  começa  numa  esf era  de  actividade  produzirá  necessariamente  mudanças  comparáveis  em  outras  esferas.  Devido  a  esta  assunção  da  imanência,  a  escola  da  modernização  tende  a  focar ‐ se  nas  fontes  internas  de  mudança  nos  países  do  Terceiro  Mundo  (So,  1990).   A  principal  ruptura  da  Teoria  da  Modernização  com  a  Teoria  do  Crescimento  Económico  passa  pela  abordagem  ao  desenvolvimento  em  moldes  int erdisciplinares,  particularmente  sofisticando  a  análise  a  partir  da  complementaridade  ent re  uma  abordagem  dos  processos  de  transformação  económica  e  a  consideração  de  teorias  da  mudança  socia l  e  institucional,  o  que  torna  os  modelos  teóricos  mais  complexos  embora  não  necessariamente  meno s  economicistas  (Brohman,  2001:15).  Com  efeito,  se  a  incorporação  na  análise  de  elementos  não  económicos  tais  como  as  práticas  sociais,  crenças,  valores  e  hábitos  implicou  uma  extensão  para  além  do  económico  das  ideias  até  então  convencionais  sobre  o  desenvolvimento  e  se  aqueles  elementos  passaram  a  constituir ‐ se  em  elementos  de  que  o  desempenho  económico  depende,  nem  por  isso  se  transformaram  as  ideias  de  que  o  desenvolvimento,  agora  sinónimo  de  permanecem,  são  recorrentes  e  estão  inscritas  no  sistema  cultural  –  o  mais  importante  sistema  na  teorização  de  Parsons.  Para  Parsons  há  5  conjuntos  de  variáveis ‐ padrão  que  permitem  caracterizar  as  relações  sociais  das  sociedades  (So,  1990 :21 ‐ 22 ):  i)  Afectivas  vs  Afectivas ‐ neutrais;  ii)  Particulares  vs  Universais;  iii)  Orientação  colectiva  vs  Auto ‐ orientação;  iv)  Atribuição  vs  Achievement;  v)  Funcionalmente  difusas  vs  Funcionalmente  específicas. 52 modernização,  estava  profundamente  associado  ao  desempenho  económico,  nem  de  que  aqueles  elementos  deveriam  evoluir  de  modo  consistente  com  a  lógica  do  crescimento  económico  capitalista.  Ou  seja,  a  questão  central  ap enas  se  deslocou  para  a  busca  de  compreensão  de  qual  a  combinação  normas ‐ instituições  mais  propícia  à  modernização.  Assim,  como  a  ideia  de  modernização  estava  construída  sobre  uma  tipificação  de  padrões  culturais,  sociais  e  económicos  e  atributos  psicológicos  e  se  estabelecia  uma  forte  correlação  entre  estes  e  o  nível  de  desenvolvimento  presentes  nas  sociedades  Ocident ais,  considerava ‐ se  que  a  difusão  desses  padrões  e  atributos  nas  sociedades  de  que  estivessem  ausentes  –  papel  reservado  a  instituições  como  a  educação  ou  os  meios  de  comunicação  de  massas  –  seria  a  melhor  via  de  criar  uma  relação  mutuamente  reforçadora  entre  factores  económicos  e  não  económicos  para  suportar  o  desenvolvimento.  Não  é  de  somenos  importância  salientar  novam ente  que  esta  abordagem  se  afirme  no  contexto  histórico  da  guerra ‐ fria  de  competição  e  expansão  e  alargamento  da  área  de  in fluê nci a  que  as  grandes  superpotências  disputam  através  dos  programas  de  ajuda  internacional  e  que,  como  tal,  seja  sustentada  num  discurso  optimista  sobre  a  caminhada  para  o  desenvolvimento  dos  ajudados,  de  um  e  de  outro  quadrante.  As  principais  características  da  teoria  da  modernização,  na  sua  formulação  clássica  (até  meados  dos  anos  1960),  são  sumariadas  por  John  Brohman  (2001:16 ‐ 17):  i)  «Mesmo  se  envolve  uma  mistura  de  factores  de  desenvolvimento,  a  modernização  resulta,  para  a  maior  parte  dos  autores  dentro  desta  teoria,  da  indução  da  mudança  de  valores,  crenças,  costumes  no  tecido  social  a  partir  da  que  resultaria  mudança  em  outras  esferas  do  desenvolvimento;  ii)  As  diversas  componentes  das  sociedades  (valores,  instituições,  grupos  sociais,  regiões...)  estão  divididas  (e  as  sociedades  separadas  entre  si)  entre  esfera  tradicional  e  esfera  moderna,  que  sendo  antitéticas  ou  estando  puramente  separadas  poderão  apenas  coexistir  a  curto  prazo.  Estas  sociedades  “duais”  tenderão  a  desaparecer  à  medida  que  a  modernidade  err adicar  a  esfera  tradicional,  no  que  consistirá  realmente  o  processo  de  modernização;  iii)  A  modernização  corresponde  a  um  percurso  cuja  direcção  e  finalid ade  inevitável  é  similar  a  todos  os  países  do  Terceiro  Mundo  e  mimetiza  o  percurso  da  história  do  mundo  industrial  capitalista,  mesmo  se  acontece  num  tempo  substancialmente  53 distinto;  neste  sentido  modernização  e  ocidentalização  são  sinónimos;  iv)  A  difusão  interna  dos  factores  de  desenvolvimento  (mudança  de  valo re s  e  atitudes,  inovação  tecnológica...)  nos  países  do  Terceiro  Mundo  necessita  provenir  de  uma  origem  externa  de  forma  a  acel erar  o  processo  de  modernização  e  a  fech ar  mais  rapidamente  o  fosso  entre  países  ricos  e  países  pobres;  v)  A  rapidez  da  difusão  e  de  todo  o  processo  de  modernização  estão  criticamente  dependentes  da  elite  modernizadora  de  cada  país  que  enquanto  “ actor  de  mudança ”  promove  a  inovação  e  a  difusão,  pelo  que  as  políticas  de  desenvolvimento  os  devem  visar  privilegiadamente  nas  primeiras  fases  da  modernização  de  modo  a  facilitar  a  transformação  estrutural;  vi)  Apesar  de  a  difusão  ter  origem  externa,  a  modernização  depende  essencialmente  de  factores  internos  a  cada  sociedade  jogando  uma  particular  importância  a  remoçã o  de  barreiras  culturais  e  sociais  à  modernização,  muitas  das  quais  ligadas  à  manutenção  de  um  sector  tradicional,  assumindo ‐ se  assim  que  os  factores  que  impedem  o  desenvolvimento  (ou  são  causas  do  subdesenvolvimento)  se  prendem  com  questões  da  estrutura  interna  enraizadas  no  passado  e  que  se  a  mudança  estrutural  puder  ser  induzida  então  o  crescimento  e  a  moderni zação  seguir ‐ se ‐ ão.»   Na  base  dos  pressupostos  da  te oria  da  modernização,  em  particular  do  dualismo  que  instaura  entre  o  tradicional  e  o  moderno,  encontra ‐ se  o  resgate  e  a  articulação,  ainda  que  simplista,  das  ideias  dos  sociólogos  clássicos,  nomeadamente  Durkheim  e  Weber.  Do  primeiro,  a  teoria  da  modernização  recupera  a  distinção  entre  sociedades  tradicionais  e  modernas  que  este  el abora  a  partir  das  distintas  formas  de  coesão  social:  as  primeiras  estão  baseadas  numa  forma  de  “ solidariedade  mecânica ”  que  subentende  a  semelhança  de  grupo  e  a  adesão  a  padrões  rígidos  de  normas  e  valores  tradicionais  e,  as  segundas,  em  contraste,  assentam  numa  “ solidariedade  orgânica ”  resultado  do  desenvolvimento  de  instituições  e  funções  especializadas  que  permitem  uma  crescente  diferenciação  social.  Por  seu  turno,  Max  Weber  sugeria  que  os  factores  ligados  aos  processos  de  industrialização  seriam  os  responsáveis  pela  distinção  das  sociedades  ocidentais  (europeias)  face  a  outras.  O  resgate  desta  “ herança ”  procede  no  entanto,  como  já  se  sugeriu  antes,  por  simplificação,  obnubilando  o  facto  de  que  estes  estabeleceram  a  sua  distinção  entre  sociedades  60 social  que  se  diferencia  individualmente  em  virtude  de  elementos  diferentes  de  que  os  diversos  indivíduos  se  apropriaram  durante  o  seu  processo  de  educação/formação.  É  a  qualidade  e  a  quantidade  dos  elementos  nele  incorporados  que  explica  a  existência  de  uma  multiplicidade  de  salários  no  mercado,  os  quais  variam,  portanto,  consoante  as  características  próprias  evidenciadas  pelo  t rabalhador  e  que  resultam,  exactamente,  da  quantidade  e  da  qualidade  de  conhecimentos  e  experiências  de  que  ele  se  apropriou ”.  A  Teoria  do  Capital  Humano  foi  sendo  posta  em  causa  desde  os  anos  1960  não  só  por  razões  filosóficas  que  discutiram  o  sen tido  puramente  instrumental  e  utilitário  que  naquela  teoria  se  atribui  à  educação,  mas  também  porque  evidências  empíricas  contrariaram  os  pressupostos  da  articulação  funcional  e  linear  entre  economia  e  educação.  Assim,  de  entre  os  discursos  críticos  à  Teoria  do  Capital  Humano  podemos  destacar  os  que  têm  origem  nas  teorias  da  “ selecção ”,  da  “ segmentação ”  e  da  “ reprodução ”.  As  teorias  da  selecção  caract erizam ‐ se  genericamente  pela  rejeição  da  ideia  de  que  a  educação  contribui  linearmente  para  aumentar  a  pro dutividade  no  trabalho  que,  na  perspectiva  desta  teoria  está  prioritariamente  associada  às  características  da  própria  actividade  e  posto  de  trabalho,  bem  como  rejeita  a  influência  da  educação  nos  salários  e  nos  processos  de  distribuição  de  rendimentos.  Para  as  teorias  da  selecção  “ a  educação  possui  apenas  uma  função  «sinalizadora»  que  identifica  os  indivíduos  de  quem  se  podem  esperar  maiores  níveis  de  produtividade,  em  virtude  das  características  pessoais  de  que  são  port adores ”  (Cabrito,  2002:26) 38 .  38 As  teorias  da  selecção  tiveram  distintas  formulações  de  que  as  mais  expressivas  são  a  teor ia  do  sinal  e  a  teoria  credencialista.  A  primeira  assenta  igualmente  na  ideia  de  que  a  educação  não  representa  um  factor  decisivo  na  produtividade  do  trabalho  já  que  esta  estará  dependente  de  características  inerentes  ao  posto  de  trabalho  a  que  a  educação  não  dá  resposta.  Neste  sentido,  a  educação  ap ena s  tem  uma  função  indiciadora  –  sinalizadora  –  da  natureza  das  c apacidades  que  os  sujeitos  eventualmente  possuem,  adquiridas  pelos  processos  educativos,  e  que  os  tornarão  mais  ou  menos  competentes  par a  o  exercício  de  determinada  funçã o  ou  tarefa.  Portanto,  se  à  educação  pode  ser  atribuído  um  papel  de  “ filtro ”  que  determina  em  ce rta  medida  os  lugares  que  o  sujeito  pode  ocup ar  no  processo  produtivo,  são  no  entanto  as  características  desses  lugar es  que  determinarão  os  níveis  de  produtividade  dos  sujeitos.  Esta  perspectiva  entra  em  ruptura  com  a  premi ssa  da  teoria  do  capital  humano  que  supunha  que  a  maiores  níveis  de  educação  corresponderiam  inevitavelmente  maiores  níveis  de  produtivida de  no  quadro  de  um  funcion amento  perfeito  do  mercado.  De  acord o  com  os  pressupostos  da  teoria  do  sinal  enunciados,  a  educa ção,  nomeadamente  a  escola r,  representa  uma  espécie  de  socialização  antecipatória  para  o  trabalho  e  deve  cont ribuir  essencialmente  com  uma  formação  geral  que  permita  posteriormente  ao  mundo  do  trabalho  realizar  a  formação  específica  a  cada  função  ou  posto  profissional  de  acordo  com  a  estrutura  produtiva  em  que  os  sujeitos  se  inscreverão,  isto  é,  deve  61 As  teorias  da  segmentação  assentam  a  sua  crítica  à  validade  da  teoria  do  capital  humano  no  que  identificam  como  “ descontinuidade  do  mercado  de  trabalho ”  ( op.  cit .:  28).  Dito  de  forma  bastante  simples,  esta  crítica  des monta  a  ideia  cara  à  teoria  do  capital  humano  de  que  “ o  que  é  procurado  e  vendido  no  mercado  são  determinadas  características  específicas  dos  trabalhadores,  concretizadas  na  quantidade  e  na  qualidade  de  capital  humano  de  que  são  portadores  e  decorrente  do  investimento  educativo  por  eles  efectuado ”  ( op.  cit.:  28 ‐ 29)  e  que,  portanto,  um  capital  humano  idêntico  seria  valorizado  também  de  igual  forma  pelo  mercado,  ao  opor ‐ lhe  a  constatação  de  que  suje itos  portadores  do  mesmo  tipo  de  capital  humano  não  são  encarados  da  mesma  forma  pelo  mercado  de  trabalho,  mas  antes  desigual  em  função  de  características  particulares.  Com  efeito,  contra  a  ideia  de  um  mercado  que  funcionaria  em  concorrência  per feita  e  de  um  isomorfismo  entre  igual  capital  humano  incorporado  e  igual  remuneração  au ferida,  a  teori a  da  segmentação  vem  mostrar  que  sujeitos  com  o  mesmo  tipo  de  capital  humano  são  tratados  de  forma  desigual  pelo  mercado  de  trabalho,  consoante  o  segmento  ou  grupo  a  que  o  indivíduo  pertence,  nomeadamente  em  termos  da  remuneração  que  o  mercado  lhes  retribui.  No  seu  prolongamento,  a  teoria  da  segmentação  vem  postular  que  “ o  trabalho  é  uma  mercadoria  cujo  preço  não  depende  do  livre  jog o  da  oferta  e  da  procura,  mas  da  capacidade  negocial  das  partes,  emp regadores  e  trabalhadores ”  ( op.  cit .:31).  A  par  destas  perspectivas  encontramos  ainda  um  conjunto  de  análises  que  Belmiro  Cabrito  (2002:31)  abriga  sob  a  designação  de  “ crítica  radical ”  e  que  se  contribuir  com  a  promoção  de  capacidades  de  aprender  a  aprender  um  trabalho.  Os  diplomas  escolares,  nesta  perspectiva,  funcionam  como  sinais  ao  serviço  dos  emprega dores  e  a  partir  dos  quais  supõem  as  capacidades  que  os  sujeitos  adquiriram  durante  o  período  da  sua  formação  e  que,  idealmente,  se  irão  reflectir  na  cap acidade  de  trabalho  e  de  apr endizagem  no  posto  de  traba lho  (Cabrito,  2002:27).  Belmiro  Cabrito  (2002:28 )  sintetiza  esta  ab ord agem  concluindo  que  “ o  maior  contri buto  da  educa ção  para  o  desenvolvimento  da s  capacidades  produtivas  dos  sujeitos  não  se  revela  nos  domínios  do  saber  e  do  saber ‐ fazer,  mas  no  domínio  das  capacidades,  nomeadamente  de  aprendizagem,  e  o  domíni o  das  atitudes,  através  da  adeq uação  dos  traços  de  persona lidade  às  exigência  dos  posto s  de  trabalho,  e  cuja  posse  prováve l  é  comprovada  pelo  grau  correspondente  aos  diplomas  alcançados ”.  Por  seu  turno,  a  perspectiva  credencialista  da  teoria  da  selecção  atribui  um  papel  ainda  mais  marginal  à  educação  face  ao  mundo  do  trabalho  su gerindo  que  esta  não  tem  nenhum  ef eito  nos  níveis  de  produtividade  do  trabalho,  não  contrib uindo  para  o  desenvolvimento  de  capacida des  e  atitudes  facilitadoras  da  aprendizagem  no  posto  de  trabalho,  mas  apenas  terá  um  efeito  em  ternos  de  distribuição  de  rendimentos  (op.  cit.:  28).  Nesta  abordagem,  a  produtividade  está  exclusivamente  depe ndente  da  natureza  do  trabalho  sem  qualquer  co ntributo  do  capit al  humano  de  que  o  sujeito  é  portador  e  os  diplomas  representam  apenas  uma  credencial  que  constitui  essencialmente  uma  vantagem  concorrenc ial  potencial  na  negociação  do  acesso  ao  mercado  de  trabalho  ( op.  cit .). 62 constroem  não  necessariamente  por  oposição  intencional  à  teoria  do  capital  humano  mas  que,  pelos  seus  pressupostos,  efectivamente  surgem  como  contraponto  àquela.  Oriundas  igualmente  do  campo  da  economia,  podemos  no  entanto  encontrar  nestas  críticas  radicais  um  foco  de  análise  mais  centrado  nos  processos  educativos,  particularmente  nos  processos  de  escolarização.  Entre  estas  abordagens  críticas,  o  autor  que  vimos  seguindo  destaca:  i)  as  que  enfatizam  o  papel  da  escola  no  desenvolvimento  e  inculcação  de  atitudes  de  trabalho  promovendo  uma  socialização  antecipada  para  o  trabalho,  constituindo ‐ se  igualmente  em  agência  de  alocação  de  sujeitos  adequados  aos  diversos  segmentos  do  mercado;  ii)  as  que  acentuam  a  vertente  de  inculc ação  de  um  ethos  do  trabalho  capitalista  dos  processos  de  escolarização,  preparando  uma  força  de  trabalho  para  aceitar  a  ordem  capitalista  e  para  contribuir  para  a  acumulação  de  capital  e  iii)  as  que  enfatizam  da  escola  o  seu  papel  de  socialização  intergeracional  da  condição  trabalhadora  (Cabrito,  2002:31)   Ainda  que  “ criticada  duramente  a  partir  da  década  de  60,  a  “teoria  do  capital  humano”  veio  retomar  parte  da  sua  importância  inicial  a  partir  dos  finais  do  século  XX,  com  as  novas  teorias  do  crescimento  económico  (Lucas,  1988;  Romer,  1989  cit.  por  Cabrito,  2002) ,  que  priorizam  o  papel  do  conhecimento  e  da  investigação  científica  na  capacidade  competitiva  das  economias  e  no  êxito  dos  trabalhadores  no  mercado  de  trabalho.  Neste  contexto,  é  a  natureza  do  conhecimento  que  a  educação  e  a  investigação  oferecem  que  garante  a  sobrevivência  dos  Homens,  empresas  e  países  no  quadro  da  globalização,  onde  a  competição  e  a  mobilidade  dos  factores  de  produção  atinge  a  escala  mundial ”  (Cabrito,  2002:25).  Por  outro  lado,  não  po demos  deixar  de  frisar  o  papel  de  cortina  de  fumo  ideológica  que  a  Teoria  do  Capital  Humano  e  os  seus  sucedâneos  contemporâneos  representam  na  medida  em  que  “ a  esperança  de  mobilidade  social  que  a  «teoria  do  capital  humano»  oferece  aos  filhos  das  classes  operárias,  faz  desta  teo ria  um  «instrumento»  que  contribui  para  «pacificar»  os  indivíduos,  diminuir  as  tensões  sociais  e  reproduzir  o  sistema  social.  Nesse  sentido,  a  «teoria  do  capital  humano»  contribuiria  para  que  as  sociedades  capitalistas  prolongassem  a  situação  de  dominação  e  de  injustiça  social  que  as  caracteriza”  (Carter,  1976  cit.  por  Cabrito,  2002:32)  63 As  reformas  levadas  a  cabo  nos  sistemas  educativos  entre  os  anos  1950  e  1970,  bem  como  a  expansão  daqueles,  assentaram  nas  pedras  de  toque  da  política  do  pós ‐ guerra,  isto  é,  na  crença  da  do  crescimento  económico  continuado  e,  subsequentemente,  na  democratização  económica,  política  e  educativa,  para  a  qual,  precisamente,  contribuiria  o  investimento  educativo  na  cria ção  de  condições  universais  de  igualdade  de  oportunidades  para  o  acesso  e  o  investimento  na  permanência  dos  indiví duos  nos  sistemas  educativos,  isto  é,  para  o  alarga mento  da  base  social  de  recrutamento  dos  processos  de  escolarização.  Esta  visão  foi  alimentada  em  boa  medida  pelo  efectivo  cresci mento  das  economias  que  viviam  na  expectativa  de  que  os  sistemas  educativos  fossem  céleres  e  eficazes  na  produção  de  uma  mão ‐ de ‐ obra  qualificada  para  lidar  com  novas  tecnologias,  se  adaptar  a  nova s  funções  e  encarar  processos  de  trabalhos  distintos  dos  conhecidos  e  teve  como  consequência  a  elevação  das  expectativ as  dos  sujeitos  face  ao  processo  de  escolarização,  conduzindo  ao  que  Sérgio  Grácio  (1986)  apelida  de  “ procura  optimista ”  de  educação,  já  que  a  economia  parecia  responder,  neste  contexto,  não  só  à  integração  dos  indivíduos  no  mercado  de  trabalho,  mas  igualmente  à  sua  recompensa  diferenciada  no  interior  deste  em  função  da  qualificação  possuída.  A  este  propósito  Belmiro  Cabrit o  (2002)  sugere  que  “ a  relação  que  se  estabeleceu  entre  qualificações  possuídas  e  carrei ra  profissional  conduziu  a  que  os  indivíduos  se  apercebessem  das  vantagens  ec onómicas  e  sociais  de  que  poderi am  beneficiar  co m  o  consumo  de  mais  educação.  A  «educação»  surge,  assim,  como  um  bem  que  lhes  franqueava  as  portas  do  mercado  de  trabalho  de  uma  forma  qualificada,  dada  a  correspondência  que  se  estabeleceu  entre  o  nível  de  qualificações  possuídas,  a  função  desempenhada  e  os  poderes  económico  e  simbólico  usufruídos  associados  a  essa  função ”  ( op.  cit .:  22).  Encontramo ‐ nos,  pois,  perante  uma  situação  altamente  favorável  a  que  o  campo  económico  exercesse,  como  exerceu,  uma  ascendência  sobre  o  campo  educativo,  subordinando  o  funcionamento  deste  à  resposta  às  demandas  daquele,  mas  igualmente  “ vantajoso ”  para  o  campo  educativo,  objecto  de  vultuosos  investimentos  de  recursos  e  a  uma  situação  de  dupla  pressão  sobre  os  sistemas  educativos:  “ pressionados  no  sentido  da  sua  expansão  não  apenas  pelo  aparelho  económico  –  que  64 precisava  de  mão ‐ de ‐ obra  qualificada  –,  mas  também  do  lado  dos  indivíduos  –  cujas  qualificações  seriam  aproveitadas  para  melhores  empregos ”  ( op.  cit .:  22).   O  acento  no  desenvolvimento  de  uma  racionalidade  individual  e  do  empreendedorismo  que  está  presente  na  Teoria  da  Modernização,  assim  como  a  centralidade  atribuída  a  conceitos  como  os  de  inovação  e  difusão,  através  dos  quais  o  processo  de  modernização  se  alastraria,  incorporavam  em  si  uma  concepção  clara  de  desenvolvimento  do  topo  para  a  base  social  e  do  centro  para  o  exterior.  Na  sua  versão  original,  a  Teoria  da  Modernização  assumia  que  o  processo  de  mudança  política  marcado  pela  emergência  de  instituições  democráticas  liberais  seria  o  resultado  inevitável  do  crescimento  económico  baseado  no  consumo  de  massas  e  na  industrialização  e  na  geração  de  estruturas  económicas  mais  igualitárias  nas  quais  assentariam  aquelas  instituições  políticas.  Mas  ao  longo  dos  anos  1960  torn ou ‐ se  evidente  que  em  muitos  países  do  Tercei ro  Mundo,  o  processo  de  mudança  política  que  acompanhava  a  modernização  não  só  não  ia  no  sentido  da  democratização,  como  muitas  vezes  o  próprio  processo  de  modernização  era  fonte  de  conflitos  sociopolíticos  que  nem  as  instituições  tradicionais,  nem  as  trazidas  dos  países  “ promotores ”  da  modernização  eram  capazes  de  gerir.  A  par  destas  constatações,  o  ambiente  revolucionário  que  varreu  algumas  regiões  do  globo  para  onde  a  Teoria  da  Modernização  se  havia  exportado  conduziu,  em  contraponto,  à  emergência  de  algumas  nuances  na  Teoria  da  Modernização  que  enfatizaram  a  estabilidade  política  em  detrimento  da  promoção  de  instituições  democráticas  como  condição  do  processo  de  modernização,  o  que  legitimou  o  aparecimento  e  sustentação  de  regimes  militares  ou  autoritários.  Ora,  a  apreciação  destes  efeit os  ajudou  a  enfrentar  criticamente  os  pressupostos  políticos  que  tinham  estado  por  trás  da  expansão  da  Teoria  da  Modernização,  designadamente  o  propósito  imperialista  e  neo ‐ colonialista  das  potências  Ocidentais,  particularmente  os  EUA,  que  estava  subjacente  à  sua  implementação  na  medida  em  que  a  Teoria  da  Modernização  ajudava  a  providenciar  uma  justificação  implícita  para  a  relação  de  poder  assimétrica  entre  socied ades  “ tradicionais ”  e  sociedades  “ modernas ”,  a  assimilar  a  presença  e  expansão  do  comunismo  no  Terceiro  Mundo  com  um  problema  de  modernização  ou  a  legitimar  a  65 política  de  ajuda  internacional  dos  EUA  (ou  por  outras  palavras  o  seu  expansionismo)  (So,  1990).  Na  viragem  dos  anos  1960  para  os  anos  1970,  os  pressupostos  da  Teoria  da  Modernização  já  tinham  sido  postos  em  causa,  salientando ‐ se  não  só,  genericamente,  o  falhanço  da  transição  tradicional ‐ moderno 39  tal  como  por  aquela  prescrita  mas  mais  ainda,  particularmente,  constatando  o  aumento  das  clivagens  socioeconómicas  (e  não  a  mobilidade  social  ascendente  esperada)  e  a  apropriação  pelas  el ites  das  polít icas  modernizadoras  em  seu  benefício  (não  se  constituindo  assim  em  vanguarda  da  modernização  para  a  generalidade  da  população,  mas,  em  boa  verdade,  aprofundando  divisões  sociais).  Durante  grande  parte  dos  anos  1970  e  1980,  o  paradigma  da  modernização  foi  relegado  para  as  margens  da  teoria  do  desenvolvimento  e  sujeito  às  críticas  à  esquerda,  por  intermédio  da  teoria  da  dependência  e  dos  neo ‐ marxistas,  e  à  direita  pelos  neoliberais 40 .  A Teoria da Dependência Mas  a  Teoria  da  Modernização,  apesar  de  hegemónica,  não  dominou  incontestavelmente  o  campo  do  pensamento  sobre  o  desenvolvimento  durante  as  décadas  de  1960  e  1970.  Com  efeito,  com  origem  nos  países  do  Sul,  particularmente  na  América  Latina,  uma  outra  corrente  teórica  emergiu  e  se  consolidou  durante  este  período  e  adquiriu  uma  importância  significativa  nos  países  ditos  subde senvolvidos  ou  que  vinham  de  processos  longos  de  colonização  Ocidental:  a  Teoria  da  Dependência.  Aliás,  se  a  Teoria  e  a  Escola  da  Dependência  foi,  no  início  dos  anos  1960,  uma  resposta  à  crise  do  Marxismo  ortodoxo  na  Améri ca  Latina,  o  seu  acolhimento  favorável  para  além  das  fronteira s  da  América  Latina  deveu ‐ se  com  certeza  ao  declínio  que  a  Teoria  da  Modernização  vinha  conhecendo,  designadamente  nos  EUA  (So,  1990).  39  Brohman  (2001 :23)  refere  que,  para  a  generalidade  dos  países  do  Sul,  a  Teoria  da  Modernização  conduziu  a  economia s  estagnadas,  desigualdades  agrava das  e  repressão  política... 40 Nos  últimos  anos,  de  acordo  com  Brohman  (2001:23 ‐ 25),  há  uma  te ntativa  de  recuperação  em  moldes  renovados  da  Teoria  da  Modernização,  incorporando  parte  das  críticas  que  lhe  foram  feitas  dura nte  os  anos  70,  nomeadamente  responde ndo  à  crítica  de  i)  desvio  ideológico  ocidentalista  e  à  ii)  adopção  de  um  evolucionismo  determinista  e  formalista  baseado  na  História  ocidental.  Neste  sentido  há  tentativas  de  explorar  alternativas  co nceptuais  à  dicotomia  tradicional ‐ moderno,  nomeadamente  alijando  o  conceito  de  modernização  do  seu  referente  formalista  e  do  conte údo  ideológico  para  o  associar  à  capacidade  de  “transformação  social”  das  di ferentes  sociedades  ( op.  cit .:  25 ‐ 26 ). 66 A  sua  premissa  de  base  resulta  de  uma  ideia  desenvolvida  por  Paul  Baran  segundo  a  qual  seria  a  participação  na  economia  mundial  capitalista  –  e,  obviamente,  o  modo  de  funcionamento  desta  –  o  factor  responsável  pelo  subdesenvolvimento  dos  países  periféricos,  e  que,  dentro  do  âmbito  da  economia  capitalista,  nenhum  país  periférico  seria  capaz  de  romper  com  a  dependência  que  impede  que  se  desenvolva  de  modo  similar  aos  países  industrializados  (Cendrero,  2008:49 ‐ 51).  Daqui  pode  extrair ‐ se  uma  segunda  premissa,  invariável  apesar  da  diversidade  de  análises  internas  à  Teoria  da  Dependência,  que  é  a  de  que  são  as  influências  externas  que  distorcem  o  proc esso  de  desenvolvimentos  dos  países  periféricos.  Na  verdade,  o  contributo  de  Paul  Baran,  através  de  uma  obr a  de  1959  que  é  considerada  pioneira  da  teoria  e  da  escola  de  pensamento  da  dependência,  globalmente  permite  reabilitar  a  análise  marxista  do  desenvolvimento 41 ,  salientando  que  esta  já  não  é  apenas  pertinente  para  descrever  as  consequências  do  desenvolvimento  capitalista  à  escala  mundial,  o  seu  impacto  no  desenvolvimento  das  forças  produtivas  e  as  suas  implicações  na  construção  de  condições  objectivas  para  o  advento  do  socialismo,  como  sustentavam  os  teóricos  marxistas  do  início  do  século  (Lenine,  Rosa  do  Luxemburgo,  Nikolai  Bujarin  ou  Rudolf  Hilferding,  por  exemplo),  que  se  tinham  essencialmente  debruçado  sobre  o  desenvolvimento  capitalista  na  sua  fase  imperialista  e  sobre  as  suas  repercussões  na  articulação  e  funcionamento  da  economia  mundial,  mas  que  a  análise  marxista  é  igualmente  pertinente  para  analisar  especificamente  a  condição  de  subdesenvolvimento  que  afectava  designadamen te  os  países  da  América  Latina.  Este  é  verdadeiramente  o  grande  contributo  de  Paul  Baran  que  em  finais  dos  anos  1950  realiza,  a  partir  de  um a  perspectiva  económica  marxista,  a  análise  da  natureza  dos  países  subdesenvolvidos  e  se  envolve  na  busca  das  origens  do  subdesenvolvimento.  Da  mesma  forma  que  pode  afirmar ‐ se  que  a  Escola  da  Modernização  examina  o  desenvolvimento  do  ponto  de  vista  dos  EUA  e  de  outros  países  Ocidentais,  pode  41  Outra  tradição  teórica  sob  a  qual  assenta  a  Escola  da  Depe ndência  principal mente  nas  suas  formulações  dos  anos  1960  e  1970,  é  o  chamado  neo ‐ marxismo  uma  vez  que  o  suc ess o  das  revoluções  chinesa  (1949)  e  cubana  (1959)  ajudaram  a  disseminar  uma  nova  forma  de  marxismo  nas  universidades  latino ‐ americanas,  dando  or igem  a  uma  geração  de  “ radicai s ”,  cujos  membros  se  designavam  a  si  mesmos  de  “ neo ‐ marxistas ”. 67 dizer ‐ se  que  a  Escola  da  De pendê nci a  encara  o  desenvolvimento  a  partir  da  perspectiva  do  designado  Terceiro  Mundo  e,  como  pode  facilmente  perceber ‐ se,  a  atribuição  de  responsabilidades  ao  capit alismo  pela  condição  dos  paíse s  subdesenvolvidos  implicou  necessariamente  que  a  perspectiva  desenvolvida  a  partir  destes  países  fosse  no  sentido  de  acentuar  a  necessidade  de  superação  do  capitalismo  como  sistema  económico  e  de  ruptura  com  a  economia  mundial.  Como  sugere  neste  sentido  Samir  Amin  ( cit.  por  Cendrero,  2008:51),  o  desenvolvimento  desigual  a  que  estão  sujeitos  estes  países  impõe  a  interrupção  da  conexão  com  a  economia  mundial  como  alternativa  para  que  a  periferia  consiga  alcançar  um  “ desenvolvimento  popular,  nacional  e  autocentrado ”,  ou  seja,  primordialmente  preocupado  com  a  satisfação  das  necessidades  dos  sectores  populares,  “ o  que  significa  ignora r  o  sistema  de  pre ços  derivado  dos  intercâmbios  no  mercado,  capital ista,  mundial  e  estabelecer  out ro  que  permita  uma  retribuição  crescente  dos  produtores  directos ”  (Amin,  1986  e  1988  cit.  por  Cendrero,  2008:51),  porque,  caso  contrário,  a  participação  na  economia  mundial  continuará  a  gerar  a  reprodução  das  disparidades  entre  centro  e  periferia  capitali sta.  Esta  análise,  que  supunha  a  ruptura  com  os  moldes  em  que  a  economia  mundial  estava  estruturada,  encontrava  suporte  na  análise  sócio ‐ histórica  que  mostrava  como  os  processos  de  colonização,  a  partir  de  de ter mi nad o  momento,  foram  também  processos  de  incorporação  das  periferias  na  economia  mundial  (e  de  constituição  verdadeiramente  de  uma  economia  mundializada)  e  de  como  o  subdesenvolvimento  havia  sido  uma  consequência  do  modo  como  se  havia  procedido  a  esta  incorporação.  Como  assinala  Cendrero  (2008:53),  esta  interpretação  é  marcada  por  um  certo  “ determinismo  mecanicista ”  que  subjuga  os  factores  internos  dos  países  ao  peso  dos  factores  externos,  bem  como,  consequentemente,  só  possa  ter  como  corolário  lógico  a  ideia  de  que  a  economia  de  alguns  países  (os  periféricos)  está  dependente  da  evolução  e  expansão  da  economia  de  outros  (os  centrais)  e  que  a  expansão  e  autosuficiência  dos  países  periféricos  só  poderá  ocorrer  como  reflexo  da  expansão  e  autosuficiência  dos  países  centrais  e  nunca  como  um  caminho  próprio  ou,  nos  termos  em  que  o  coloca  Paul  Sweezy  (1968,  cit.  por  Cendrero,  2008:54),  “ o  desenvolvimento  capitalista  produz  inevitavelmente  desenvolvimento  num  pólo  e  subdesenvolv imento  em  outro ”.  68 A  Teoria  da  Dependência  e  os  seus  arautos  emergem  na  Améric a  Latina  no  início  dos  anos  1960  (cf.  tb.  Rist,  2001a)  no  moment o  que  coincide  com  a  resposta  à  bancarrota  do  Programa  da  Comissão  Económica  das  Naç ões  Unidas  pa ra  a  América  Latina  (ECLA  é  o  seu  acrónimo  anglosaxónico  e  CEPAL  o  seu  acrónimo  latino).  E  é  sob  a  égide  da  ECLA  que  alguns  teóricos,  de  forma  paralela  à  análise  marxista  do  subdesenvolvimento,  vão  trazer  contributos  importantes  para  a  Teoria  da  Dependência  principalmente  a  partir  da  constatação  das  limitações  das  estratégias  de  desenvolvimento  ligadas  à  substituição  das  importações  e  de  uma  percepção  cada  vez  mais  céptica  acerca  da  natureza  do  desenvolvimento  capitalista  na  América  Latina.  Com  efeito,  a  formulação  de  uma  escola  de  desenvolvimento  distintivamente  latino ‐ americana  está  intimamente  relacionada  com  a  ECLA.  Convém  recordar  que  nesta  época  a  doutrina  dominante  do  desenvolvimento  dos  países  não  industrializados  assentava  em  3  pilares:  i)  as  transferências  massivas  de  capital  nomeadamente  de  origem  privada;  ii)  a  exportação  de  matérias ‐ primas  e  iii)  o  livre  jogo  do  mercado  no  quadro  da  teoria  das  vantagens  comparativas  dos  países  (Ri st,  2001a).   Ora,  os  estudos  da  ECLA  vêm  mostrar  que  existe  uma  discrepância  entre  estes  princípios  e  as  situações  históricas  concretas,  nomeadamente,  i)  demonstrando  a  falácia  da  livre  troca  (e  da  teoria  das  vantagens  comparativas)  já  que  as  estruturas  económicas  dos  países  industrializados  são  substancialmente  distintas  das  dos  países  com  economias  dominadas,  o  que  conduz  a  que  de  facto  a  troca  não  seja  livre,  mas  antes  desigual,  com  claro  favorecimento  das  economias  centrais  e,  a  longo  prazo,  com  uma  deterioração  dos  termos  das  trocas  em  prejuízo  dos  países  do  Sul  ( idem,  ibidem :185);  ii)  sugerindo  que  não  seria  necessário  especializar  os  países  periféri cos  no  papel  de  exportadores  de  matérias ‐ primas,  mas  antes  des envolver  aí  algumas  formas  de  industrialização  que  permitissem  substituir  a  grande  dependência  das  importações  e  do  capital  estrangeiro;  iii)  ap elando  a  uma  intervenção  mais  forte  do  Estado  não  só  para  prevenir  as  desigualdades,  através  por  exemplo  da  promoção  de  políticas  de  reforma  agrária,  mas  também  para  coordenar  a  melhor  repartição  dos  investiment os  e,  ainda,  iv)  apelando  a  um  reagrup amento  económico  regional.   69 No  manifesto  da  ECLA,  Raul  Prebisch,  o  argentino  presidente  daquela  entidade  que  já  ha via  sido  criada  em  1948,  criticou  o  esquema  de  divisão  internacional  do  trabalho,  acusando ‐ o  de  constituir  a  raiz  dos  problemas  de  desenvolvimento  da  América  Latina.  Na  sua  perspectiva,  a  estrat égia  para  o  desenvolvimento  da  América  Latina  passava  por  acabar  com  a  lógica  de  produzir  apenas  alimentos  e  matéri as ‐ primas  e  receber  bens  transformados  dos  países  industrialmente  desenvolvidos  –  o  que  evidentemente  acarretava  implicações  negativas  na  acumulação  doméstica  de  capital  –  bem  como  por  incentivar  o  processo  de  industrialização  (o  que  não  deixava  de  ser  uma  perspectiva  optimista  que  assentava  na  ideia  de  que  as  várias  características  de  uma  sociedade  subdesenvolvida  desapareceriam  com  o  processo  de  industrialização).  A  abordagem  da  ECLA,  constituída  essencialmente  por  economistas,  é  objecto  de  críticas  à  direita  –  opondo ‐ se  ao  que  julgavam  ser  um  “ socialismo  camuflado ”  (Rist,  2001,a:186),  isto  é,  à  politização  do  económico  e  à  red efinição  do  papel  do  Estado  no  sentido  de  ser  mais  interventor,  bem  como,  reagindo  contra  as  críticas  ao  livre  jogo  do  mercado  –  e  à  esquerda,  por  parte  dos  sociólogos  que  haveriam  de  vir  a  constituir  a  Escola  da  Dependência,  em  que  as  críticas  acentuavam  a  id eia  de  que  a  ECLA  “ não  se  interessava  senão  pelos  meios  de  realizar  a  acumulação  de  capital  sem  se  preocupar  com  as  condições  dessa  acumulação ”  ( op.  cit .:186).  Este  não  é  exactamente  o  entendimento  de  Cendrero  (2008)  para  quem  estes  autores  ligados  à  ECLA  não  abandonam  como  matriz  da  sua  análise  a  noção  de  dependência  nos  termos  em  que  foi  formulada  na  génese  –  como,  aliás ,  reforça  Rist  (2001,a:187)  “ a  existência  de  uma  dependência  económica  dos  paí ses  periféricos  face  ao  capitalismo  central  constitui  certamente  um  postulado  partilhado  por  tod os  os  dependentistas  –  incluindo  os  pesquisadores  da  CEPAL  –  mas  a  partir  daí  as  suas  pesquisas  procuram  compreender  de  forma  global  as  implicações  desse  fenóm eno  geral  na  estrutura  social ” ‐ ,  pelo  que,  se  desenvolve  uma  análise  que  põe  essencialmente  em  destaque  as  deficiências  do  desenvolvimento  capitalista  da  América  Latina,  impulsionado  pela  industrialização,  considerado  insatisfatório  na  medida  em  que  se  caracteriza  por  ser  concentrado  e  excludente  (Cendrero,  2008:54),  por  outro  lado,  acentuam  claramente  que  é  ins uficiente  a  tran sformaç ão  da  estrutura  76 consolidar  um  projecto  que  identificasse  seriamente  as  forças  sociais  que  poderiam  prosseguir  este  desígnio  de  construir  um  projecto  social  diferente.  Por  fim,  um  outro  aspecto  olhado  criticamente  por  Rist  (2001b),  e  que  é  claramente  uma  questão  importante  para  situar  a  Teoria  e  a  Escola  da  Dependência  no  campo  das  narrativas  sobre  o  desenvolvimento,  co nce rne  o  facto  de  que  os  dependentistas  propõem  um  mesmo  tipo  de  desenvolvimento,  ainda  que  em  benefício  de  outras  classes  ou  estratos  sociais.  Quer  isto  dizer,  que  não  obstante  a  Escola  da  Dependência  reconhecer  o  carácter  sócio ‐ histórico  do  dito  subdesenvolvimento,  e  portanto  recusar  a  sua  condição  natural,  associando ‐ o  às  relações  de  dominação  provocadas  pelo  colonialismo  e  pelo  capitalismo  central,  o  entende  como  um  disfuncionamento  das  lógicas  normais  do  desenvolvimento,  como  um  bloqueio  que  impede  um  normal  curso  de  algo  que  não  se  questiona.  Não  está  ausente  desta  forma  de  pensamento  uma  certa  naturalização  da  bondade  do  social,  que  seria  apenas  corrompida  pela  intervenção  humana  ainda  que,  por  intermédio  de  um  esforço  de  racionalidade,  que  segundo  as  orientações  programáticas  se  pode  traduzir  ou  pela  libertação  das  forças  do  mercado  ou  pela  oposição  às  injustiças,  às  desigualdades  e  à  propriedade  privada,  pode  retomar  o  seu  curso  natural,  a  sua  trajectória  normal.  Ora,  esta  característica  leva  Gilbert  Rist  ( op.  cit .:194)  a  admitir  que  a  Teoria  da  De pendê ncia  nos  ajuda  a  compreender  a  origem  do  subdesenvolvimento  mas  que  nos  diz  pouco  sobre  o  desenvolvimento  e  sobre  aquilo  em  que  este  se  poderia  constituir  se  fossem  desbloqueados  os  obst áculos  estruturais  e/ou  históricos  que  a  Teoria  da  Dependência  assinala.  Nesta  perspectiva,  de  acordo  com  o  autor  que  seguimos,  pode mos  perguntar ‐ nos  se  a  teoria  da  dependência  não  substitui  simplesmente  a  tradicional  dicotomia  tradição ‐ modernidade  que  estrutura  a  Teoria  da  Modernização  por  uma  nova  dicotomia:  a  do  centro ‐ periferia.  Parece  ficar  claro  que,  paradoxalmente,  os  dependentistas  ao  esclarecer em  bem  as  relações  entre  capitalismo  e  subdesenvolvimento  e  sobre  as  relações  deste  com  os  interesses  de  classe  e  com  os  mecanismos  do  sistema  internacional  de  relações  económicas  e  políticas  estão  a  opor ‐ se  critica  e  frontalmente  ao  capitalis mo,  mas  continuando  a  ter  o  desenvolvimento  nos  seus  pressupostos  capitalistas  como  horizonte  uma  vez  que  não  põem  em  causa  os  seus  pressupostos  fundamentais,  designadamente  os  que  reenviam  pa ra  a  ideia  de  77 crescimento  considerad o  como  condição  necessária  de  acesso  ao  modo  de  consumo  ocidental  (Rist,  op.  cit .:195).  Esta  crítica  radica  nas  próprias  opções  teóric as  que  a  Escola  da  Dependência  mobiliza.  Com  efeito,  enfatiza  Rist  ( op.  cit .:195),  ao  adoptar  uma  visão  marxista  do  mundo,  esta  perspectiva  permite ‐ se  fazer  uma  análise  crítica  interna  ao  sistema  social  ocidental  mas  não  do  sistema  socia l  ocidental  e  assim,  o  desenvolvimento  das  forças  produtivas  acaba  por  constituir  o  objectivo  central,  quer  do  capitalismo,  quer  do  socialismo 43  e,  como  tal,  a  teleologia  do  desenvolvimento  tal  como  herdada  da  modernidade  ocidental  é  exactamente  a  mesma.  Este  facto  cond uz ‐ nos  à  compreensão,  na  opinião  de  Rist  ( op.  cit.: 195 ‐ 196),  de  por  que  é  que  a  “ escola  da  dependência  não  se  interroga  nem  sobre  os  aspectos  culturais  do  «desenvolvimento»,  para  discutir  a  possibilidade  de  modelos  fundados  em  outros  pressupostos,  nem  sobre  as  consequências  ecológicas  de  uma  industrialização  considerada  como  necessária  ao  bem ‐ estar  colectivo ”.   Em  jeito  de  síntese,  e  partindo  do  pressuposto  que  as  duas  narrativas  científicas  mais  relevantes  para  a  produção  de  um  imaginário  sobre  o  de senvolvimento  são  a  Teoria  da  Modernização,  que  particularmente  continua  a  povoar  as  políticas  e  práticas  de  desenvolvimento  em  grande  parte  dos  países  Ocidentais,  e  a  Teoria  da  Dependência  que  tendo  marcado  fortemente  o  pensamento  das  perif erias  do  sistema ‐ mundo  sobre  o  seu  processo  de  desenvolvimento,  se  mantém  ainda  hoje  como  uma  referência  incontornável,  quer  para  alguns  discursos  científicos  que  incorporaram  os  seus  contributos  e  procuram  transcender  as  sua s  limitações  em  face  de  um  novo  contexto  sócio ‐ político  e  económico  em  termos  de  relações  entre  países  (nomeadamente  a  Teoria  do  Sistema  Mundo),  quer  par a  alguns  dos  discursos  ideologicamente  mais  radicais,  quer,  enfim,  para  um  conjunto  de  práticas  que  designadamente  nos  países  do  Sul  se  vêm  desenvolvendo  a  coberto  da  designação  de  desenvolvimento  alternativo,  parece ‐ nos  importante  não  avançar  sem  antes,  43  Cf.  a  este  respeito  Finger,  (1993)  que  face  ao  ac tua l  contexto  de  industrialização  contraproducente ,  para  usar  o  conceito  de  Illich,  utiliza  esta  me sma  crítica  para  identificar  as  limitações  das  perspectiv as  que  no  campo  da  educação  de  adultos  se  reclamam  da  her ança  marxista,  como  por  exemplo,  as  teorias  que  aproveitam  do  trabalho  de  Paulo  Freire  desenvolvido  nos  anos  60 ,  numa  perspectiva  de  humanização  do  desenvolvimento,  para  dar  conta  dos  desafios  que  as  sociedades  ocidentais  enfren tam  desde  a  última  década  do  século  XX. 78 recorrendo  à  sistematização  de  Alvin  So  (1990),  pôr  em  confronto  ambas  as  perspectivas  para  nelas  destacar  os  pontos  de  encontro  e  as  divergências.  No  que  diz  respeito  às  suas  semelhanças  o  autor  referido  salienta:  i)  As  duas  perspectivas  têm  o  mesmo  enfoque  de  pesquisa:  estão  interessadas  no  desenvolvimento  do  Terceiro  Mundo  e  querem  descobrir  que  factores  promovem  o  desenvolvimento  daquele;  ii)  As  duas  perspectivas  adoptam  metodologias  similares:  ancoram  a  sua  discussão  num  nível  de  abstracção  elevado,  procurando  explicar  os  processos  gerais  de  desenvolvimento  aplicáveis  a  todas  as  nações;  iii)  As  duas  perspectivas  desenvolveram  um  quadro  teórico  polarizado,  ainda  que  a  Escola  da  Modernização  tenda  a  enunciá ‐ lo  a  partir  da  dicotomia  “ tradição  versus  moder nidade ”  e  a  Escola  da  Dependência  clássica  a  enuncie  segundo  a  dicotomia  “ centro  (metrópole)  versus  periferia  (satélit e) ”.   Por  seu  turno,  no  que  respeita  às  suas  diferenças,  Alvin  So  (1990)  destaca:  i)  Resultam  de  bases  teóric as  distintas.  Enquanto  a  perspectiva  clássica  da  modernização  é  fortemente  influenciada  pelas  teori as  evolucionistas  europeias  e  pelas  teoria s  funcionalistas  americanas,  a  perspectiva  clássica  da  Escola  da  Dependência  é  fortemente  influenciada  pelo  programa  liberal  ECLA  e  pelas  teorias  radicais  neo ‐ marxistas;  ii)  No  que  diz  respeito  às  causas  dos  problemas  do  Terceiro  Mundo,  a  perspectiva  clássica  da  modernização  oferece  uma  explicação  interna,  apontando  para  traços  como  uma  cultura  tradicional,  falta  de  investimento  produtivo  e  ausência  de  motivação  para  se  ser  bem  sucedido  nos  países  do  Terceiro  Mundo.  A  perspectiva  clássica  da  Escola  da  Dependência,  em  contraste,  oferece  uma  explicação  externa,  acentuando  os  papéis  desempenhados  pelo  colonialismo  e  neocolonialismo  na  moldagem  do  subdesenvolvimento  dos  países  do  Terceiro  Mundo;  iii)  A  perspectiva  clássica  da  modernização  caracteriza  as  ligações  entre  países  do  Terceiro  Mundo  e  do  Ocidente  como  benéficas.  Nesta  perspectiva,  os  países  Ocidentais  estão  a  ajudar  (a  prestar  assistência)  ao  desenvolvimento  dos  países  do  Terceiro  Mundo.  A  perspectiva  clássica  da  dependência,  por  outro  lado,  vê  aquelas  ligações  como  prejudiciais:  os  países  Ocidentais  estão  a  explora r  os  países  do  Terceiro  Mundo  para  seu  próprio  benefício;  iv)  Ao  prever  a  futura  direc ção  do  desenvolvimento,  a  perspectiva  clássica  79 da  modernização  é  geralmente  optimista.  Com  paciência  os  países  do  Terceiro  Mundo  eventualmente  “ apanharão ”  os  países  Ocidentais  e  mo dernizar ‐ se ‐ ão.  A  visão  da  perspectiva  clássica  da  dependência  a  respeito  do  futuro  dos  paíse s  do  Terceiro  Mundo  é  pessimista.  Se  as  actuais  ligações  exploradoras  permanecerem  sem  ser  desafiadas,  os  países  do  Terceiro  Mundo  tornar ‐ se ‐ ão  cada  vez  mais  dependentes  dos  países  Ocidentais,  conduzindo  a  um  maior  subdesenvolvimento;  v)  No  que  respeita  às  soluções  para  a  situação  de  “ atraso ”  dos  países  do  Terceiro  Mundo,  a  perspectiva  clássica  da  modernização  advoga  mais  ligações  com  os  países  Ocidentais,  passando  por  exemplo  por  mais  ajuda  externa,  mais  trocas  culturais  e  mais  transferência  tecnológica.  Os  pesquisadores  inscritos  na  perspectiva  clássica  da  dependência  têm  uma  abordagem  completamente  distinta:  advogam  a  redução  das  ligações  com  os  países  centrais  para  que  os  países  do  Terceiro  Mun do  possam  alcançar  um  desenvolvimento  independente  e  autónomo  e  consideram  que  uma  revolução  socialista  radical  pode  ser  necessária  para  alcançar  esta  finalidade.   A viragem neo-liberal: a r ecuperação da Teoria da Modernização e a Teoria da Escolha Pública A  partir  da  constatação  de  que  nem  as  pe rspecti vas  dominantes,  ne m  as  perspectivas  radicais  por  si  só  (ou  em  si  mesmas)  dão  conta  de  oferecerem  “ soluções ”  teóricas  sobre  e  práticas  para  o  desenvolvimento,  assiste ‐ se  recentemente  a  um  movimento  no  sentido  de  procurar  a  convergência  en tre  aspectos  da  Teoria  da  Modernização  e  de  outras  perspectivas  e  a  criação  de  perspectivas  híbridas,  nomeadamente  a  partir  da  incorporação  na  Teoria  da  Modernização  de  elementos  da  Teoria  da  Dependência  e  da  Teoria  do  Sistema  Mundo  o  que  perm itiria  dar  conta  de  forma  integrada  dos  factores  económicos  e  socioculturais  do  desenvolvimento,  internos  e  externos,  bem  como  obviar  ao  desvio  etnocentrista  e  burguês  da  teoria  da  modernização.  No  entanto,  a  comensurabilidade  entre  estas  perspectivas  tem  igualmente  sido  post a  em  causa  pela  perda  de  coerência  teórica  que  aporta  a  cada  uma  das  perspectivas  e  vem  sendo  igualmente  discutida  pelos  obstáculos  a  que  está  sujeita,  que  particularmente  implicaria  ultrapassar  as  substanciais  diferenças  ideológicas  que  as  caracterizam.  80 Mas,  a  par  dos  esforços  teóricos  de  criar  uma  teoria  híbrida  assistimos,  essencialmente  nas  últimas  duas  décadas,  a  uma  viragem  que  tende  a  abandonar  a  perspectiva  desenvolvimentista  em  favor  do  neoliberalismo,  numa  espécie  de  “ co nt ra ‐ revolução ”  liberal  face  ao  impacto  que  o  pensamento  keynesiano  teve  durante  os  “ trinta  gloriosos  anos ”  que  se  seguiram  à  Segunda  Guerra  Mundial,  particularmente  no  seio  da  teoria  do  crescimento  económico  e  da  modernização.  Particularmente  durante  os  anos  1950  e  1960,  a  maioria  dos  teóricos  das  correntes  dominantes  do  desenvolvimento  rejeitavam  a  ênfa se  da  economia  neoclássica  nas  forças  de  mercado  e  no  crescimento  “ out ward ‐ oriented ”  (virado  para  o  exterior),  considerado  pouco  adequado  para  as  necessidades  de  rápido  desenvolvimento  dos  países  do  Terceiro  Mundo  e  advogavam  ainda  a  importância  de  uma  intervenção  de  iniciativa  estatal,  através  do  planeamento  e  do  investimento,  para  sustentar  as  fases  iniciais  dos  processos  de  crescimento  económico  e  de  moderniz ação  que  permitiriam  a  sustentação  futura  do  processo  de  desenvolvimento,  desconfiando  assim  da  capacidade  de  o  mercad o  vencer  a  inércia  inicial.  A  viragem  neoliberal,  e  portanto  em  direcção  a  uma  forte  ortodoxia  económica  neo ‐ clássica,  foi ‐ se  forjando  lentamente  já  em  finais  dos  anos  1960  e  insinuou ‐ se  em  sectores  como  o  do  comércio  internacional  e  da  planificação  do  desenvolvimento  acompanhando  o  declínio  do  paradigma  desenvo lvimentista,  mas  a  verdadeira  viragem  acontece  com  a  chegada  ao  poder  na  Alemanha  (Federal),  Inglaterra  e  nos  Estados  Unidos  de  um  conservadorismo  anti ‐ Keynesiano  protagonizado  particularmente  por  Margaret  Thatcher  e  Ronald  Reagan  que  com  os  seus  economistas  neo ‐ clássicos,  pela  visibilidade  e  influência  nas  instâncias  internacionais  que  passam  a  ter  e  auxiliados  pela  crise  económica  vivida  pelos  países  do  Sul,  operam  “ a  p rofound  change  in  the  accepted  economic,  financial,  and  sociopolitical  orthodoxy,  which  placed  a  new  emphasis  on  supply ‐ side  factors,  private  initiative,  mar ke t ‐ led  growth,  an  outward ‐ oriented  development,  while  turning  away  from  old  development alist  policies  based  in  demand  stimulation,  import ‐ substitution,  state  intervention,  and  centralized  development  planni ng ”  (Brohman,  2001:27).  A  contra ‐ revolução  liberal  enfatiza  três  aspectos:  i)  a  adopção  do  monetarismo  co mo  doutrina  económica,  ii)  o  anti ‐ Keynesianismo  e  a  iii)  monoeconomia.  81  O  monetarismo  é  a  doutrina  mais  influente  no  desenho  da  teoria  neoliberal  e  das  suas  extensões  no  campo  do  desenvolvimento,  particularmente  os  programas  de  ajustamento  estrutural  levados  a  cabo  pelo  FMI  e  pelo  Banco  Mundial.  Esta  doutrina  essencialmente  advoga  a  manutenção  de  baix as  taxas  de  juros  para  promover  o  crescimento  e  está  preocupada  com  a  quantidade  de  dinheiro  que  circula  numa  dada  economia,  situação  directamente  imputada  à  acção  dos  governos,  já  que  é  esta  que  determina  absolutamente  o  preço  dos  bens.  Nest a  óptica  os  problemas  macroeconómicos,  como  o  endividamento  ou  a  pressão  inflacionista,  vividos  por  alguns  países  são  vistos  essencialmente  como  um  fenómeno  monetário  em  resultado  de  excessivos  gastos  do  governo  e  estimulação  da  procura  que  leva  a  que  a  quantidade  de  dinheiro  que  em  dado  momento  circula  sej a  insustentável.  A  crítica  neoliberal  à  intervenção  estatal  numa  lógica  keynesiana  acen tua  a  responsabilidade  desta  pela  situação  de  estagnação  económica  vivida  pelos  países  do  Terceiro  Mundo,  sugerindo  que  esta  crise  não  é  caus ada  por  factores  externos  (neocolonialismo  ou  desigualdades  estruturais  globais)  mas  sim  em  resultado  de  políticas  internas  conduzidas  na  crença  ilusória  de  que  o  Keynesianismo  promoveria  o  desenvolvimento,  situação  que  só  poderia  ser  superada  pela  rejeição  da  interven ção  estatal  keynesianista  em  favor  de  políticas  baseadas  na  teoria  económica  neoclássica,  isto  é,  que  promovessem  a  redução  do  papel  do  Estado  à  condição  de  promotor  de  um  enquadramento  em  que  o  mercado  pudesse  operar  eficientemente.  Por  fim,  a  perspectiva  monoeconómica  sustenta  que  a  teoria  económica  neoclássica  ortodoxa  é  igualment e  aplicável  em  qualquer  contexto  nacional,  e  mesmo  se  estes  são  atravessados  por  particularidades,  os  agentes  económicos  e  os  mercados  funcionam  de  acordo  com  lógicas  que  são  comuns  a  todos.  Nesta  perspectiva,  os  problemas  dos  países  do  Terceiro  Mundo  não  requerem  uma  abordagem  específica,  antes  são  abordáveis  a  partir  de  princípios  económicos  universais  e  permeáveis  a  soluções  gerais,  aqueles  problemas  e  o  seu  eventual  agravamento  só  têm  um  responsável:  a  perversão  por  parte  dos  paradigmas  dominantes  do  desenvolvimento  dos  princípios  da  economia  neoclássica.  O  modelo  de  desenvolvimento  neoliberal  é  baseado  numa  leitura  neoclássica  da  história  económica  do  mundo  capitalista  82 industrializado.  Nesse  sentido,  enfatiza  sobretudo  os  elementos  do  desenvolvimento  tais  como:  i)  Crescimento  conduzido  pelo  mercado;  ii)  Poupança  crescente  e  investimento  privado  baseado  em  elevados  lucros;  iii)  Industrialização  gradual  (inicialmente  de  indústrias  leves);  iv)  Difusão  de  inovação  e  dos  avanços  tecnológicos  através  de  uma  progressiva  integração  económica  global;  v)  Progressivo  “ efeito  dominó ”  dos  benefícios  do  crescimento  a  todas  as  classes  sociais,  sectores  económicos  e  regiões  geográficas.   O  modelo  neoliberal  providencia  um  poderoso  meio  de  simplificar  co mplexos  processos  sociais  de  desenvolvimento  de  modo  a  que  uma  agenda  para  a  produção  de  política  possa  estabelecer ‐ se  baseada  na  teoria  microeconómica  da  teori a  económica  neo ‐ clássica.  A  economia  neoclássica  exemplifica  a  expansão  do  positivismo  através  das  ciências  sociais  com  a  utilização  do  “ método  científico ”,  o  seu  enfoque  ontológ ico  em  factos  empíricos  e  eventos,  a  sua  derivação  de  generalizações  tipo ‐ lei  e  a  sua  promessa  de  resultados  predizíveis  baseados  na  replicabilidade  dos  seus  modelos.  O  modelo  neoclássico  e  por  extensão  o  neoliberal  focam ‐ se  na  esfera  do  mercado  de  trocas  e,  via  agregação,  extraem  conclusões  gene ralizáveis  à  sociedade  toda  de  um  nível  de  análise  individual,  empregando  análises  estatísticas  sofisticadas.  Os  mecanismos  de  mercado  são  vistos  como  promovendo  um  bem ‐ estar  mais  eficiente  ao  maximizarem  a  utilidade  para  cada  indivíduo.  A  abordagem  neoliberal  reduz  o  comportamento  humano  a  um  postulado  simplista:  o  do  indivíduo  isolado  e  com  interesses  próprios  que  escolhe  livremente  e  racionalmente  entre  cursos  alternativos  de  acção  depois  de  calcular  os  seus  custos  e  benefícios  de  forma  prospectiva.  Este  actor  rac ional,  associado  a  uma  ênfase  numa  mudança  gradual,  marginal  e  equilibrante,  estr eita  o  desenvolvimento  económico  a  um  campo  em  que  o  cálculo  e  outros  procedimentos  quantitativos  podem  ser  empregados  para  conseguir  resultados  mais  científicos  e  por  isso  mais  certos.  No  entanto  este  processo  deixa  de  fora  muitos  elementos  não  económicos  do  desenvolvimento  e  adicionalmente  restringe  a  anális e  económica  dos  factores,  directamente  observáveis  e  mensuráveis,  que  pode m  mais  confortavelmente  encaixar  83 as  suas  técnicas  de  modelização,  excluindo  desse  modo  do  estudo  muito  do  tradicional  objecto  da  economia  política  clássica  (Brohman,  2001:31 ‐ 32).   Recentemente  pudemos  constatar  a  ascensão  de  um  novo  tipo  de  economia  política  neoliberal,  a  designa da  Teoria  da  Escolha  Pública  (TEP).  Esta  perspectiva  focaliza ‐ se  na  alocação  de  re cursos  públicos  no  mercado  político  e  enfatiza  a  redistribuição  a  grupos  de  interesse  poderosos.  Neste  sentido  pretende  uma  mudança  nos  estudos  sobre  o  desenvolvimento  que  conduza  ao  afastamento  da  antiga  ênfase  keynesiana  nas  falhas  do  mercado  resolúveis  através  de  um  Estado  benevolente  em  prol  de  uma  nova  ênfase  neoliberal  na  falha  política  e  na  consideração  do  Estado  como  “ predador ”:  se,  na  perspectiva  keynesiana  dominante,  o  Estado  opera  no  interesse  comum  da  sociedade  como  um  todo  e  intervém  frequentement e  para  corrigir  as  frequentes  falhas  do  mercado  ou  para  atender  a  finalidades  societais  que  se  consideram  estarem  para  além  do  âmbito  do  mercado.  Em  contraste,  o  quadro  da  Escolha  Pública  é  caracterizado  pela  crença  neo ‐ clássica  de  que  os  mercados  do  mundo  real  podem  ser  imperf eitos,  mas  os  Estados  (governos)  do  mundo  real  são  ainda  mais  imperfeitos  e  os  primeiros  são  genericamente  entendidos  como  preferíveis  face  aos  segundos  (Brohman,  2001:32 ‐ 33).  Os  defensores  da  Teoria  da  Escolha  Pública  sugerem  que  a  teoria  do  desenvolvimento  dominante  se  caracterizou  por  um  desvi o  keynesianista  segundo  o  qual  o  Estado  nunca  se  enganaria.  No  entanto,  para  alguns  críticos  da  TEP ,  a  reacção  desta  conduziu ‐ a  a  cair  para  o  extremo  oposto,  segundo  o  qual  o  Estado  nunca  está  certo.  Em  boa  verdade  a  TEP  encara  o  Estado  como  executante  de  políticas  discriminatórias  em  favor  de  grupos  de  pressão  de  cujo  suporte  depende  e  nesse  sentido  os  membros  do  Estado  usam  as  suas  posições  privilegiadas  para  extrair  “ proventos ”  do  processo  de  produção  política,  conduzindo  assim  a  uma  distorção  do  funcionamento  “ puro ”  do  mercado  só  resolúvel  pela  limitação  estrita  da  intervenção  do  Estado.  Nesta  perspectiva  a  intervenção  do  Estado  não  é  a  solução  –  como  para  Keynes  –  mas  sim  o  problema  já  que  não  contribuirá  para  a  optimização  do  bem ‐ estar  colectivo  da  sociedade,  mas  sim  apenas  para  o  bem ‐ estar  de  grupos  de  interesse  part icular es  e  não  é,  claramente,  a  solução  para  as  “ i mperfeições ”  do  mercado,  bem  pelo  contrário.  Na  perspectiva  da  Teoria  da  Escolha  Pública,  o  Estado  é  84 encarado  como  um  actor  racional  que  procura  maximizar  a  sua  utilidade  política  e  económica  ao  estender  a  sua  influência  aos  grupos  poderoso s  da  sociedade,  apesar  do  abrandamento  que  tal  acarreta  para  o  crescimento  e  desenvolvimento  a  longo  prazo.  As  críticas  à  TEP  centram ‐ se  na  visão  reducionista  dos  processos  políticos,  no  que  se  aproxima  do  neoliberalismo,  que  oferece  pouca  complexidade  na  análise  do  jogo  político  em  que  os  Estados  se  envolvem  e  onde  comportamentos  produtivos  e  “ predatórios ”  coexistem  de  acordo  com  uma  variedade  de  influências  internas  e  externas.  No  que  respeita  à  crítica  específica  para  dar  conta  do  fenómeno  do  desenvolvimento  nos  países  do  Terceiro  Mundo,  a  TEP  é  incipiente  na  análise  que  permite  do  Estado  porque  necessita  ainda  de  construir  uma  teoria  baseada  no  exame  das  estruturas  internas  e  mecanismos  do  Estado  em  si  mesmos  ou  na  análise  da  composição  social  do  Estado  no  âmbito  das  mais  lentas  estruturas  societais.   Em  síntese,  Brohman  (2001:34)  sugere  que  é  dúbia  a  maior  relevância  da  perspectiva  neoliberal  para  dar  conta  dos  problemas  do  desenvolvimento  político  daqueles  países  face  àq uelas  perspectivas  que  se  desenvolveram  dentro  de  um  quadro  de  pensamento  Keynesiano  e  pautadas  por  um  modelo  pluralista  do  Estado.   As teorias de um desen volvimento alternativo Mas  se  estas  foram  e  são  as  correntes  dominantes  do  pensamento  teórico  sobre  o  desenvolvimento  também  é  certo  que  este  domíni o  tem  sido  palco,  pelo  menos  desde  os  anos  70  do  século  passado,  do  surgimento  de  um  pensamento  divergente  e  de  um  pensamento  crítico  que,  mais  do  que  estabilizar ‐ se  em  torno  de  um  modelo  ou  de  uma  teoria  tem  assumido  várias  designações  consoante  a  problemática  ou  enfoque  privilegiado 44 .  Não  é  seguro,  em  nossa  opinião,  que  os  trabalhos  que  procuram  dar  corpo  a  este  pensam ento  alternativo  no  campo  do  desenvolvimento  resolvam  integralmente  as  objecções  radicais  que  as  perspectivas  pós ‐ desenvolvimentistas  levantam  a  qualquer  discurso  que  tome  o  desenvolvimento  como  propósito  a  realizar  (cf.  início  deste  ponto  do  trabalho),  no  entanto,  na  form a  44  Cf.  a  este  propósito  o  momento  deste  trabalho  em  que  com  base  em  Amaro  (2003)  apresentamos  as  diferentes  fileiras  que  permitem  organiza r  a  diversidade  de  discursos  e  prá ticas  que  actualmente  povoam  o  campo  do  desenvolvimento. 85 como  formulam  os  problemas  de  desenvolvimento  e  equacionam  possíveis  soluções,  pelo  menos  potencialmente,  não  deixam  de  afastar ‐ se  de  um  modelo  hegemónico  de  pensamento,  de  política  e  de  prática  que  já  provou  ser  contraproducente  na  medida  em  que  apenas  agravou  os  problemas  que,  pelo  menos  para  alguns  dos  optimistas  que  o  defendiam  e  defendem,  era  suposto  resolver  (cf.  a  este  propósito  Canário,  1999;  Finger&Asún,  2003).  Nesse  sentido  vale  a  pena  procurar  compreender  o  modo  como  estas  abordagens  alternativas  equacionam  os  elementos  que  as  abordagens  dominantes  do  desenvolvimento  consideram  imprescindíveis  para  que  o  desenvolvimento  aconteça,  bem  como  as  condições  a  que  estes  elementos  devem  obedecer.  Como  já  sabemos,  na  perspectiva  dominante  do  desenvolvimento,  estes  element os  passam,  por  exemplo,  pelo  investimento  uma  vez  que  o  crescimento  económico  depende  daquele  e  es te  é  entendido  como  uma  important e  dimensão  do  desenvolvimento,  senão  mesmo  a  mais  importante.  Um  outro  elemento  da  concepção  dominante  de  desenvolvimento  é  a  consideração  de  que  estamos  perante  um  processo  sequencial  e  progressivo  de  fases  ou  estádios  ao  longo  dos  quais  os  benefícios  se  vão  alargando  a  uma  maior  fatia  da  população,  aliviando  assim  fenómenos  como  a  pobreza  e  a  desigualdade.  Um  terceiro  elemento  diz  respeito  ao  papel,  e  mais  ainda  à  difusão,  da  tecnologia  e  de  “ outr os  atributos  da  modernização ”  (Brohman,  2001:201)  que  se  considera  que,  através  do  designado  “ efeito ‐ dominó ”  ( trickle  down  effect ),  fará  chegar  os  benefícios  do  desenvolvimento  aos  mais  diversificados  e  necessitados  sectores  da  população.  Um  outro  elemento  constante  desta  concepção  do  desenvolvimento  prende ‐ se  com  a  definição  deste  como  um  processo  que  se  organiza  de  cima  para  baixo  sendo  que  a  este  “ cima ”  correspondem  as  instâncias  internacionais  e  as  elites  nacionais,  sociais,  económicas  e  políticas.  Tipicamente,  este  desenvolvimento  é,  igualmente,  concebido  e  desenhado  por  especialistas  nacionais,  e  por  vezes  internacionais,  a  partir  do  exterior  dos  contextos  onde  se  deseja  promover  e  com  base  num  conhecimento  especializado  de  base  científica  e  com  uma  expressão  tecnológica  (de  tecnologia  social,  mais  propriamente)  que  tende  a  subjugar  e  a  impor ‐ se,  senão  mesmo  a  remetê ‐ los  para  o  domínio  dos  pré ‐ conceitos,  aos  saberes  locais  ou  profanos.  Podemos  ainda  associar  a  esta  lógica  hegemónica  o  facto  de  que  as  populações  a  quem  alegadamente  se  dirigem  92 crédito.  Por  outro  lado,  ainda,  em  termos  macro ‐ políticos,  os  países  em  vias  de  desenvolvimento  viam  o  apoio  à  perspectiva  das  « Necessidades  Básicas »  por  parte  dos  países  industrializados  como  uma  forma  de  desviar  a  atenção  da  discussão  da  política  internacional  e  da  necessidade  de  uma  nova  ordem  económica  internacional  (PNUD,  1996).   Como  já  se  salientou,  a  década  de  1970  foi  ainda  agitada  pel o  envolvimento  de  outras  instâncias  internacionais  ou  transnacionais  na  discussão  e  na  elaboração  de  propostas  em  torno  das  vias  a  seguir  para  o  desenvolvimento.  Estas  organizações  promoveram  fóruns  e  encontros  onde  os  discursos  alternativos  e  menos  alternativos  se  enfrentaram  e  dos  quais  surgiram  algumas  orientações  programáticas  que  marcaram  indelevelmente  o  surgimento  do  discurso  alternativo  à  ideologia  desenvolvimentista  dominante.  Um  dos  momentos  mais  significativos  neste  sentido  foi  o  Simpósio  realizado  em  Cocoyoc,  no  México,  em  1974,  onde  se  encontraram  “ experts ”  do  desenvolvimento  de  todo  mundo  e  ond e  se  confrontaram  as  duas  mais  fortes  correntes  que  então  davam  início  à  construção  de  um  pensamento  alternativo  sobre  as  questões  do  desenvolvimento,  nomeadamente,  os  adeptos  das  abordagens  cuja  ênfase  estava  localizada  na  satisfação  das  necessidades  básicas  das  populações  mais  do  que  na  maximização  do  crescimento  e,  do  outro  lado,  os  críticos  da  ideologia  desenvolvimentista  que  estruturam  o  seu  discurso  e  propostas  a  partir  da  confrontação  do  modelo  de  desenvolvimento  dominante  com  os  limites  ecológicos  a  que  este  deveria  estar  submetido,  quer  no  que  respeita  ao  consumo  de  matérias ‐ primas,  designadamente  os  recursos  energéti cos,  quer  no  que  respeita  aos  efeitos  sobre  a  transformação  da  Natureza  e  da  qualidade  de  vida  humana  induzidos  pelas  políticas  de  proliferação  e  de  modernização  industrial  (Matthias  Finger  (1993)  designa  estes  limites  ecológicos,  respectivamente  como  os  limites  de  input  e  de  output  do  desenvolvimento).  A  declaraç ão  que  sai  deste  encontro  de  Cocoyoc  acentua  a  ideia  de  que  qualquer  processo  de  desenvolvimento  que  não  conduza  à  satisfação  das  necessidade s  humanas  básicas  será  uma  distorção  da  ideia  de  desenvolvimento,  nomeadamente  93 aquele  assente  uma  lógica  de  apelo  ao  hiper ‐ co nsumismo,  e,  mais  ainda,  abre  espa ço  para  as  dimensões  imateriais  do  desenvolvimento  humano  ao  sugerir  que  todo  o  processo  de  desenvolvimento  deveria  atender  a  necessidades  tais  como  a  liberdade  de  expressão  ou  a  realização  no  trabalho.  Se  a  declaração  de  Cocoyoc  é  entendida  por  Brohman  (2001)  como  o  momento  do  nascimento  do  desenvolvimento  alternativo,  ao  longo  da  década  de  1970  há  ainda  outros  momentos  e  instâncias  que  vêm  ajudar  a  consolidar  esta  perspectiva  alternativa  como  a  publicação  em  1975  da  obra  “ What  now:  another  development ”  pela  Fundação  sueca  Dag  Hammarskjöld  onde  se  confrontavam  explicitamente  os  modelos  dominantes  de  desenvolvimento  principalmente  porque  não  prestavam  uma  atenção  significativa  ao  problema  da  pobreza  ma ciça  nem  à  questão  da  sustentabilidade  (a  propósito  da  relevância  desta  obra  cf.  tb.  Friedmann,  1996;  Santos,  2002).  Mais  uma  vez,  neste  documento  esboçava ‐ se  “ uma  abordagem  humanista  ampla  (...)  advogando  um  desenvolvimento  voltado  para  a  satisfação  de  necessidades,  começando  pelas  dos  pobres  e  assegurando  a  humanização  pela  satisf ação  das  suas  necessidades  de  expressão,  criatividade,  convivialidade  e  de  decisão  do  seu  destino ”  (Brohman,  2001:207).  Por  outro  lado,  também  a  International  Foundation  for  Development  Alternativ es ,  entidade  estabelecida  na  Suiça  a  partir  de  1976,  emerge  com  o  propósito  de  promover  uma  alternativa,  uma  abordagem  do  desenvolvimento  a  partir  da  base  social,  que  intitula  de  “ Third  Movement  System ”  (cf.  tb.  Friedmann,  1996;  Finger&Asún,  2003:83)  para  dar  conta  de  um  outro  poder  que  não  o  político  (associado  ao  Estado),  que  não  o  económico  (dominado  pelo  capital  transnacional),  mas  sim  do  poder  do  “ povo ”,  baseado  na  organização  voluntária,  que  estaria  no  centr o  de  um  movimento  que  se  dedica  a  explorar  novos  métodos  de  consciencialização  e  a  aumentar  a  participação  dos  movimentos  de  base  nas  decisõ es  acerca  do  desenvolvimento,  nomeadamente  através  da  intervenção  junto  de  movimentos  sociais.  Do  ponto  de  vista  sócio ‐ político  e  económico  o  que  torna  alternativas  estas  perspectivas  é  essencialmente  uma  inversão  no  modo  como  se  equaciona  a  relaçã o  entre  crescimento  e  redistribuição.  Co m  efeito,  a  ideologia  desenvolvimentista  dominante,  embora  de  forma  não  explicitamente  assumida,  supõe  que  a  existência  de  94 desigualdades  entre  pessoas  e  entre  regiões,  pelo  menos  num  primeiro  momento,  é  uma  condição  inevitável  do  crescimento  económico  que  pode,  mais  tarde  ou  mais  cedo,  ser  ultrapassada  pelos  benefícios  do  próprio  crescimento  económico.  Ora,  os  discursos  alternativos  que  emergem  durante  a  déca da  de  1970  vão  base ar ‐ se,  por  um  lado,  no  pressupost o  de  que  não  é  ne cessário  que  exista  uma  relação  de  conflito  entre  medidas  de  redistribuição  e  medidas  de  crescimento  económico  e,  por  outro  lado,  vincam  a  ideia  de  que  a  precedência  da  redistribuição  face  ao  cres cimento  é  uma  estratégia  com  mais  sentido  para  promover  o  desenvolvimento.  De  forma  complementar  a  uma  acentuação  da  importância  das  estratégias  redistributivas,  o  discurso  do  desenvolvimento  alternativo  vem  também  enfatizar  a  importância  dos  projectos  em  pequena  escala  e  integrados  ao  nível  comunitário.  Com  efeito,  genericamente,  as  estratégias  de  desenvolvimento  alternativo  encararam  a  escala  local  como  particularmente  importante  para  um  desenvolvimento  cujas  preocupações  incluíam  a  ênfas e  nas  pessoas,  a  satisfação  de  necessidades  não  materiais  e  um  equilíbrio  entre  q ualidade  de  vida,  qualitativamente  apreendida,  e  bem ‐ estar  material.  Deste  modo,  as  comunidades  e  as  organizações  locais  começa m  a  ser  olhadas  como  entidades  charneira  destes  processos,  admitindo ‐ se  que  seria  ao  nível  local  que  as  diferentes  escalas  do  desenvolvimento  (por  exemplo  o  pessoal  e  o  societário)  interagiriam  de  forma  mais  poderosa,  o  que  favoreceria  a  oportunidade  de  os  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  localizado  terem  um  maior  e  efectivo  impacto  na  mudança  da  vida  das  pessoas.  Quase  inerentemente,  esta  descoberta  do  local,  analisada  mais  em  detalhe  em  outro  momento  deste  trabalh o,  fez ‐ se  acompanhar  por  uma  ampla  ênfase  nas  questões  da  participação  e,  se  analisados  os  programas  e  projectos  de  ajuda  ao  desenvolvimento  que  então  se  desenvolvem  dentro  desta  óptica  “ alternativa ”,  é  fácil  constatar  que  quase  todas  as  instituições  internacionais  e  agências  de  ajuda  bilateral  robustecem  o  apoio  às  instâncias  locais  no  sentido  destas  promoverem  a  participação  das  pessoas  na  concepção  e  gestão  de  projectos  de  desenvolvimento  ao  nível  comunitário,  bem  como  se  assiste  a  uma  tendência  para  a  descentralização  das  próprias  estruturas  estatais  de  apoio  ao  desenvolvimento.  Aliás,  a  ideia  de  ênfase  na  participação  aparece  fortemente  conotada  com  uma  das  vias  do  desenvolvimento  95 alternativo:  o  desenvovimento  local.  Neste  âmbito,  como  sustenta  Rui  Canário  (1999:65),  a  participação  surge  como  contraponto  à  intervenção  especializada  conduzida  do  exterior  que  toma  as  populações  como  objectos  dos  processos  de  desenvolvimento.  Ainda  de  acor do  com  este  autor,  é  a  participação  dos  actores  locais  nos  vários  níveis  ou  fases  dos  pr ocessos  de  desenvolvimento  (da  tomada  de  decisões,  à  concretização  destas  e  à  avaliação  dos  seus  resultados)  que  “ permite  transformar  o  processo  de  desenvolvimento  num  trabalho  que  uma  comunidade  realiza  so bre  si ‐ própria,  aprendendo  a  con he cer ‐ se,  a  conhec er  a  realidade  e  a  transformá ‐ la ”  ( idem,  ibidem :65).  A  associação  da  participação  a  este  processo  concomitante  de  conhecimento  e  transformação  da  realidad e  comunitária  é  uma  condição  não  só  da  pertinência  e  do  sucesso  das  iniciativas  levadas  a  cabo,  mas,  fundamentalmente,  uma  condição  de  evitamento  do  acréscimo  de  dependência  face  ao  exterior.  Na  síntese  de  Canário  (1999:65),  a  participação  seria  uma  condição  da  pertinência,  da  eficiência  e  do  valor  educativo  nos  processos  de  desenvolvimento  local.  Por  um  lado,  associada  à  contextualização  pertinente  das  iniciativas  de  desenvolvimento  ao  permitir  pensar  estas  inicitivas  em  articulação  com  problemas  localmente  identificados,  por  outro  la do,  porque  “ permite  fazer  mais  e  melhor  através  de  um  mais  eficaz  aproveitamento  os  recursos  internos  e  externos ”  ( ibide m :65).  Por  fim,  a  participação  teria  um  valor  educativo  intrínseco  que  na  perspectiva  que  vimos  seguindo  se  associa  à  responsabilização  colectiva  e  à  conscientização  como  condição  catalisadora  da  prossecução  de  outras  e  mais  autónomas  iniciativas.  Este  reconhecimento  e  ênfase  na  importância  da  participação  são,  igualmente,  assinalados  por  Guy  Berger  (2004)  considerando  que  são  efeitos  de  fenómenos  sociais  e  de  novas  formas  de  pensamento  sobre  a  sociedade  que  emergem  nos  anos  1970  e  que  rompem  com  concepções  e  formas  de  pensamento  até  aí  dominantes  (o  autor  destaca  entre  estes  fenómenos  a  progressiva  atribuição  de  centralidade  ao  Homem  nos  processos  de  desenvolvimento,  o  reconhecimento  da  importância  para  a  democracia  da  participação  de  todos  e  a  crescente  div ersidade  cultural  das  sociedades,...) 45 .  De  acordo  com  o  aut or,  assiste ‐ se  pois  neste  contexto  a  45  Guy  Berger  (2004)  identifica  um  conjunto  de  no ções  que,  com  a  sua  emergência,  vão  perturbar  a  noção  de  parti cipação.  Uma  delas  é  a  no ção  da  centralidade  do  Homem  por  contraposição  às  ideias  de  96 uma  transformação  da  noção  de  participação:  “ já  não  se  trata  de  uma  mobilização  colectiva  para  a  realização  de  grandes  projectos,  como  era  o  modelo  de  participação  definido  pelos  países  socialistas.  A  noção  de  participação  vai  ser  concebida  como  devendo  estar  presen te  em  todos  os  momentos  e  a  todos  os  níveis  de  tomada  de  decisão  da  vid a  social.  Consequentemente,  participar  passará  a  ser  participar  tanto  na  concepção  como  na  elaboração  e  na  realização  e,  como  é  evidente,  também  na  avaliação  e  na  reorientação  das  dife rentes  actividades ”  ( op.cit .:17 ‐ 18);  a  participação  torna ‐ se  como  tal  “um  meio  e  uma  finalidade  da  acção  social ”  ( op.  cit .:18) 46 .  Esta  transformação  supõe  ainda  que  o  mundo  político  deixe  de  ser  pensado  como  o  mundo  da  delegação  e  da  representação  para  passar  a  ser  pensado  como  o  mundo  da  associação,  em  que  esta  é  simultaneamente  meio  e  fim,  do  que  resulta  que  a  crescimento,  de  produção,  dos  pro blemas  do  desenvolvimento  apenas  centrad os  no  mundo  das  empresas  e  que  tem  evidentes  consequências  para  o  campo  educativo.  Uma  segunda  noção  é  a  da  participação  de  tod os  qu e  o  autor  distingue  claramente  da  ideia  tradicional  de  democracia  funda da  na  representação  que  supõe  um a  distinção  entre  os  que  têm  a  responsabilidade  de  pensa r  e  de  conceber  e  outros  a  responsabilidade  de  participar  na  realização  do  concebido  e  do  pensado  (papéi s  que  apenas  se  sobrepõem  nos  momentos  de  eleição  enqua nto  exercício  do  poder  de  delegar ).  Uma  outra  noção  avançada  pelo  autor  é  a  de  diversidade ,  da  pluralidade  de  culturas,  “ que  tem  s ubjacente  a  ideia  de  proteger  as  identida des  culturais  e  não  de  propor  a  diversidade.  Há  uma  pluralida de  de  respostas  e  culturas  e,  por  conseguinte,  não  há  um  desenvolvimento,  mas  desenvolv imentos ”  (o p.  cit.:17),  o  que  tem  como  consequência  admitir  que  o  desenvolvimento  não  tem  qualq uer  sentido  se  não  se  inscrever  numa  história  e  numa  cultura  e,  enquanto  tal,  funcionar  como  modo  de  promover  e  proteger  identidades  culturais  e  não  como  modelo  universal  e  co mum  do  homem. 46  É  aliás  neste  mesmo  sentido  que  se  poderá  compreender  o  contributo  de  Nóvoa  et  al.  (1992)  quando  discutem  os  princípios  e  condições  de  promoção  de  uma  lógica  de  desenvolvimento  endógeno .  Em  primeiro  lugar,  sustentando  que  a  participação  dos  actores  locais,  sendo  uma  condição  necessária,  não  é  uma  condição  suficiente  para  promover  o  desenvolvimento  endógeno,  sugerindo  a  necessidade  de  articular  a  dinâmica  participativa  com  uma  “ abordagem  estrat égica  do  desenvolvimento ”  (Nóvoa  et  al ,  1992:2 7)  que  s ubentende  a  criação  de  estruturas  de  apoio  ao  desenvolvimento  e  agentes  encarregados  de  “ coordenações  técnicas  e  organizativas ”  capazes  de  lidar  com  a  “ gestão  da  com plexidade ”  através  da  integração  de  iniciativas  coerentes,  viáveis  tecnicamente  e  sinergéticas  entre  si.  Em  segundo  lugar,  e  principalmente,  quando  aler tam  para  a  diversidade  de  interpretações  a  que  a  no ção  de  participação  dos  actores  locais  pode  ser  sujeita,  propondo  eles  próprios  uma  conceptualização  dos  cinco  níveis  dos  processos  de  desenvolvimento  em  qu e  a  participação  dos  actores  locais  é  pertinente:  i)  “ no  diag nóstico  dos  problemas  que  os  afecta m  ou  que  afectam  a  colectividade;  ii)  no  processo  de  decisão  relativo  às  prioridades  e  aos  objectivos  do  dese nvolvimento  local;  iii)  no  lançamento  de  iniciativas,  projectos  e  programas  a  nível  local;  iv)  na  concertação,  coordenação  e  integração  dessas  iniciativas  e  projectos;  v)na  avaliação  dos  resultados  obtidos  e  do  impacto  das  acções  locais  so bre  o  bem ‐ estar  e  o  futur o  da  colectividade ”  ( idem,  ibidem :25 ‐ 26).  Esta  abordag em  participativa  supõe,  na  perspectiva  dos  actores ,  a  reunião  de  3  condições:  i)  que  os  poderes  públicos  negoc eiem  os  diagnósticos,  prioridades  e  project os  em  vez  de  simplesmente  os  imporem  aos  actores  locais;  ii)  o  desenvolvimento  de  competências  de  comunicação  e  de  cooperação  que  facilitem  a  coordenação  das  ini ciativas  e  dos  programas  de  desenvolvimento  e,  por  fim,  iii)  instituir  a  avaliação  dos  processos  em  curso  por  parte  dos  actores  locais  como  uma  dinâmica  educativ a  cuja  finalidade  primordial  seja  a  tomada  de  cons ciência  dos  problemas  a  resolver  e  das  suas  possíveis  soluções  ( idem,  ibidem :26 ‐ 27).  97 participação,  nesta  perspec tiva ,  se  torne  uma  pedagogia  e,  simultaneament e,  exija  uma  pedagogia  ( idem,  ibidem :  18).  Mas,  embora  se  possa  afirmar  que  a  participação  emerge  no  contexto  destes  discursos  alternativos  do  desenvolvimento  como  um  fim  em  si  mesmo,  não  é  possível  omitir  que  a  participação  é  igualmente  percebida  e  utilizada  de  modo  instrument al  no  seio  desses  mesmos  discursos  e  dos  projectos  e  programas  que  lhe  dão  corpo.  De  facto,  como  salienta  Brohman  (2001:218),  a  participação  estava  associada  a  um  conjunto  de  valores  instrumentais  de  que  se  salientam:  i)  a  participação  nas  organizações  de  base  comunitária  poderia  ajudar  a  identificar  prioridades  locais  de  modo  a  que  os  projectos  e  processos  de  desenvolvimento  pudessem  reflectir  me lhor  as  necessidades  e  desejos  da  base  social;  ii)  a  participação  em  organizações  populares  e  grupos  poderia  auxiliar  na  mobilização  do  suporte  local  para  os  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  e,  ainda,  iii)  uma  participação  aumentada  poderia  reduzir  os  custos  de  muitos  serviços  públicos,  e  dos  próprios  projectos  de  desenvolvimento,  ao  atribuir  uma  maior  responsabilidade  nesta  gestão  às  organizações  de  base.   No  entanto,  ao  longo  das  últimas  décadas,  a  particip ação  tornou ‐ se  uma  noção  “ fetiche ”  –  ou  mesmo  imperativa  –  no  campo  dos  discursos  sobre  o  desenvolvimento  e  claramente  deixou  de  ser  um  exclusivo  das  estratég ias  alternativas  que  se  desenvolvem  a  partir  dos  anos  1970,  que  levanta  novos  problemas  na  sua  abordagem  e  conceptualização.  Com  efeito,  é  evidente  aos  nossos  olhos  que  a  noção  de  participação,  pela  sua  complexidade,  multidimensionalidade  e  principalmente  pe la  sua  natureza  intrínseca  de  acto  político,  pode  e  tem  sido  facilmente  toma da  como  objecto  de  disputa  política  pelo  seu  significado  no  domínio  do  desenvolvimento.  E  se,  para  a  maioria  dos  especialistas  do  desenvolvimento,  a  participação  reenvia  imediatamente  para  o  envolvimento  efectivo  das  comunidades  nas  tomadas  de  decisão,  tal  não  significa  que  esta  ideia  não  possa  assumir  conotações  substancialmente  distintas  nos  discursos  e  nas  práticas,  o  que  nos  obr iga  permanentemente  a  equacionar  um  conjunto  de  questões  que  nos  permitem  de  forma  mais  vigilante  apreender  o  sentido  que  efectivamente  se  está  a  atribuir  à  participação  98 quando  se  nomeia.  Em  particular,  a  análise  da  questão  da  participação  implica  necessariamente  que  nos  perguntemos  sistematicamente  sobre  quem  participa,  em  que  participa,  como  participa  e  por  que  razão  participa  (Brohman,  2001).  Algumas  das  tentativas  de  conceptualização  da  particip ação  dependem,  desde  logo,  do  ponto  de  vista  a  partir  do  qual  se  produzem,  e  particularmente  quando  falamos  de  pontos  de  vi sta  produzidos  a  partir  de  diferentes  campos  do  saber.  Assim,  a  título  de  exemplo,  é  inequívoca  a  diferença  da  noção  de  participação  comunitária  entre  os  economistas  do  desenvolvimento  que  a  associam  à  “ equitabl e  sharing  of  the  benefits  of  projects ”  (Br ohman,  2001:252)  e  os  planificadores  sociais  que  a  associam  à  contribuição  das  comunidades  na  tomada  de  decisão.  Mas  várias  outras  formas  de  encarar  a  participação,  e  designadamente  a  participação  comunitária,  podem  ser  destacadas,  desde  a  que  a  entende  como  processo  induzido  do  topo  para  a  base  que  permita  aos  “ beneficiário s  influencia r  a  direcção  e  exec ução  de  um  projecto  de  desenvolvimento,  tendo  em  vista  melhor ar  o  seu  bem ‐ estar  em  termos  de  rendime nto,  crescimento  pessoal,  self ‐ reliance  e  outros  valores  que  apreciem ”  Paul,  1986  (cit.  in  Brohman,  2001:252),  até  a  que  a  procura  apreender  co mo  um  continuum  que  se  estende  desde  a  contribuição  voluntária  para  os  projectos  sem  qualquer  influência  local  sobre  a  forma  daqueles  até  à  participação  como  processo  activo  para  aumentar  o  controlo  da  comunidade  ou  do  local.  Outras  tipologias  podem  ainda  ser  referidas  co mo  a  da  própria  ONU  que  distingue  entre  a  participação  coagida,  induzida  e  espontânea,  esta  última  claramente  entendida  como  a  desejável  nos  processos  de  desenvolvimento,  ou  a  de  Midgley  (1986,  cit.  in  Brohman,  2001:252)  que  distingue  entre  “ participação  autêntica ”,  para  se  reportar  às  situações  em  que  as  pessoas  e  as  comunidades  democraticamente  co ntrolam  as  tomadas  de  decisão  no  âmbito  dos  programas  e  projectos  de  desenvolvimento,  e  a  “ pseudo ‐ participação ”  em  que  os  programas  e  projectos  são  conduzidos  de  acordo  com  decisões  anteriores  e  exteriores  ao  contexto.  Mas  talvez  a  distinção  mais  interes sante,  assumida  por  diversos  autores,  seja  a  que  opõe  ou  distingue  a  participação  nos  processos  de  desenvolvimento  enquanto  meio  ou  enquanto  fim.  A  participação  enquanto  meio  está  estreitamente  associada  à  ideia  de  melhorar  os  resultados  dos  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  e,  co mo  tal,  é  encarada  como  uma  forma  de  melhorar  a  qualidade  e  99 a  rele vância  daqueles  ao  facilitar  a  sua  implementação  e  a  sua  aceitação.  Em  contraponto,  encontramos  a  participação  como  fim  em  si  mesma,  isto  é,  em  que  a  participação  é  entendida  como  uma  componente  essencial  de  uma  sociedade  democrática  e  o  garante  do  bem ‐ estar  das  pessoas  e  das  comunidades,  estando  fortemente  associada  às  ideias  de  empoderamento  e  de  co ntrolo  sobre  as  tomadas  de  decisão,  sendo  que,  por  vezes,  designadamente  nas  perspectivas  pós ‐ desenvolvimentistas,  e  de  forma  aparentemente  paradoxal,  esta  acepção  da  participação  como  fim  em  si  mesma  incorpora  explicitamente  a  finalidade  de  permitir  inventar  alternativas  ao  capitalismo,  ao  consumo  de  massas  e  mesmo  à  modernidade  (Escobar,  1995).  Uma  problematização  que  nos  parece  particularmente  original  em  torno  das  questões  da  participação  é  desenvolvida  por  Triantafillou&Nielsen  (2001).  Os  autores  partem  de  uma  questão  aparentemente  simples:  por  que  razão  há  hoje  esta  demanda  generalizada,  constante  e  insistente  da  participação  dos  actores  sociais  locais?  Subjacente  a  esta  questão  está  a  ideia  de  que  a  participação  se  tornou  um  “ lugar ‐ comum ”,  portanto,  uma  ideia  normalizada  –  que  se  difunde  nomeadamente  através  dos  discursos  políticos  e  científicos  na  arena  do  desenvolvimento,  mas  que  é  anterior  a  estes  –  que  tem  como  pressuposto  que  todos  os  sujeitos  que  povoam  as  sociedades  modernas,  em  última  instância  ontologicamente,  possuem  o  desejo  e  a  possibilidade  de  participar  e,  no  campo  dos  programas  e  projectos  de  desenvolvimento,  que  os  sujeitos  são  instados  a  interiorizar  um  certo  sentido  de  obrigação  de  participar.  A  argumentação  dos  autores  passa,  em  primeiro  lugar,  por  sustentar  que  a  participação  é  representada  como  um  bem  universal,  representa ção  que  mais  recentemen te  vem  sendo  reforçada  pela  impo rtância  que,  nomeadamente  no  campo  do  desenvolvimento,  se  confere  às  (auto)representações  locais  da  realidade,  o  que  tem  feito  com  que  as  tecnologias  do  self  através  das  quais  a  participação  verdadeiramente  actua  não  sejam  questionadas  pela  pesquisa  nos  seus  efectivos  efeitos  históricos  e  concretos.  Ora,  o  que  estes  autores  sugerem,  a  partir  do  aparato  teórico  foucaultiano,  é  que  efectivamente  a  participação  no  domínio  dos  projectos  de  desenvolvimento  é  uma  tecnologia  de  governamentalidade  do  self  típica  do  contexto  das  sociedades  liberais  modernas  e  que  actua  essencialmente  através  do  100 estabelecimento  de  um  ideal  de  cidadão,  precisamente  caracterizado  por  ser  activo  e  responsável,  isto  é,  através  de  um  processo  de  normalização,  veiculando  através  do  modo  como  se  institui  normas  de  obrigação  do  sujeito  para  consigo  próprio  e  para  com  os  grupos  de  pertença  e  as  suas  comunidades.  Todavia,  ao  contrário  do  que  fazem  os  adeptos  da  teoria  crítica  que  simplesmente  entendem  a  participação  como  uma  forma  de  ocultação  das  relações  de  poder  instituídas,  a  perspectiva  avançada  por  Triantafillou  &  Nielsen  (2001:82)  assume  que  “ it  is  just  not  credible  to  discard  these  practices  on  a  general  basis  simply  as  tools  for  repressing  the  poor  thro ugh  distortion  of  reality,  because  all  the  productive  aspects  of  development  are  overlooked  notably  their  ability  to  govern  through  th e  creation  of  new  subjectivities,  to  engender  new  forms  of  resistance,  and  in  some  instances  even  to  improve  welfare  and  wealth 47 ”.  Daí  que  concluam  que  se  há  motivos  para  nos  questionarmos  acerca  das  práticas  de  participação,  não  é  tanto  porque  estas  podem  ser  rituais  vazios  ou  ao  serviço  de  interesses  ocultos  das  elites  locais  ou  da  indústria  do  desenvolvimento,  mas  antes  porque  as  práticas  constitutivas  do  sujeito  participativo  e  dotado  de  poder  não  conduzem  à  ausência  de  poder,  “on  th e  contrary,  the  making  of  the  capable  subject  with  increased  room  for  choice  is  preconditioned  on  it  subjection  to  rituals  that  conform  to  a  modern  mod e  of  beeing ”  (Triantafillou  &  Nielsen,  op.  cit .:83).  A  par  desta  valorização  da  participação  –  e  em  articulação  com  ela  –  como  meio  e  fim  destas  novas  perspectivas  de  desenvolvimento,  encontramos  também  no  seu  seio  o  apel o  à  designada  endogeneidade  ou  auto ‐ sustentação  do  desenvolvimento  ( self ‐ reliance ) 48 ,  que  Canário  (1999:65 ‐ 66)  associa  sinteticam ente  “ ao  mod o  como  sã o  47  Sublinhado  nosso  48  Cabe  aqui  um  esclarecimento  quanto  à  tradução  para  português  do  termo  self ‐ reliance  como  sinónimo  de  endogeneida de.  A  tradução  mais  literal  remete  para  a  ideia  de  “ valer ‐ se  ou  bastar ‐ se  por  si  só ”,  o  que,  normalmente,  nos  conduziria  a  traduzir  esta  expressão  por  “ auto ‐ sust entação ”  ou,  neste  caso,  por  “ desenvolvimento  auto ‐ sustent ado ”.  No  entanto,  o  conceito  teórico  de  self ‐ reliance ,  tanto  quanto  nos  demos  conta,  é  de  utilização  recorrente  no  campo  das  teorias  do  desenvolvimento  e,  nos  autores  portugueses  que  consultámos  deste  campo,  o  equivalente  mais  próximo  em  termos  de  significado,  isto  é,  do  que  se  pretende  trad uzir  do  real  com  o  con ceito,  parece ‐ nos  efectivamente  ser  o  termo  de  endogeneidade  –  embora  exista  em  inglês  o  termo  end ogeno us  e  como  tal  possa  ser  discutível  se  a  utilização  de  self ‐ reliance ,  não  é  uma  opção  deliberada  dos  autores  –  tal  como  o  define  Rui  Canário  (1999: 65 ‐ 66):  “ diz  respeito  ao  modo  como  são  identificados  e  mobilizados,  no  quadro  de  processos  de  desenvolvimento,  os  recursos  locais.  Como  os  recursos  locais  mais  importantes  e  decisivos  são  sempre  as  pessoas  a  endogeneidade  a parece  como  indissociável  da  participação ”  que,  em  nosso  entender  se  aproxima  bastante  do  modo  como  Brohman  (2001:21 9)  define  a  self ‐ reliance :  “ self ‐ reliance  implies  101 identificados  e  mobilizados,  no  quadro  de  processos  de  desenvolvimento  os  recursos ”,  sendo  que  os  mais  importantes  de  entre  estes  serão  sempre  as  pessoas.  Com  efeito,  presumia ‐ se  que  a  prossecução  de  práticas  mais  amplamente  participadas  constituiria  uma  condição  optimizadora  para  a  obtenção  de  um  desenvolvimento  mais  autónomo  e  sustentável,  na  medida  em  que  permitiria  às  pessoas,  aos  grupos  e  às  comunidades  uma  compreensão  mais  alargada  e  aprofundada  das  mudanças  em  que  se  envolviam,  o  que  supunha,  também,  transformações  estruturais  que  permitissem  a  proliferação  de  relações  de  cooperação  entre  várias  escalas  de  organização  social  (local,  regio nal,  nacional)  segundo  um  princípio  de  simetria  e  não  de  subordinação.  Embora  a  escala  mais  comum  para  pensar  o  desenvolvimento  endógeno  fosse  o  local  ou  comunitário,  alcançar  um  padrão  de  desenvolvimento  caracterizado  por  esta  id eia  de  “ self ‐ reliance ”  tornou ‐ se  um  desígnio  igualment e  desejável  à  escala  nacional,  designadamente  para  as  nações  mais  desprotegidas  nas  suas  relações  com  as  potências  dominantes,  enfatizando ‐ se  nesta  perspectiva  a  necessidade  de  dese nvolver  relações  mais  simétricas  entre  países,  um  clima  de  cooperação  Norte ‐ Sul  mais  efectivo  e  a  redução  da  dependência  externa  tornando  o  uso  dos  recursos  próprios  mais  eficiente.  De  acordo  com  Brohman  (2001:219),  em  algumas  das  análises  que  durante  os  anos  1970  foram  ganhando  expressão,  estas  duas  perspectivas  (da  endogeneidade  local  e  da  endogeneidade  na  relação  entre  nações)  convergiram  para  dar  corpo  a  reivindicações  de  uma  maior  e  mais  efectiva  parti cipação  dos  países  do  Terceiro  Mundo  no  sistema  económico  internacional,  condição  para  a  qual  se  acreditava  poder  contribuir  uma  política  interna  a  estes  países  que  primasse  pela  diversidade  de  estratégias  que  permitisse  “ exploring  the  possibilities  for  new  forms  of  participation,  cooperation,  and  more  endogeneous,  self ‐ reliant  development ”.  O  discurso  e  as  práticas  que  valorizam  a  endogeneidade  procuram,  em  primeira  instância,  erguer ‐ se  contra  uma  definição  pel a  negativa  ou  deficitária  dos  países  ou  comunidades  que  até  então  vinha  caracter izand o  os  discursos  e  práticas  do  desenvolvimento  hegemónico  e  que,  como  já  assinalámos,  viam  na  contribuição  externa  de  rec ursos,  nomeadamente  financeiros,  a  pedra  de  toque  dos  processos  de  desenvolvimento  e  que,  como  efeito,  promoviam  demasiadas  making  more  effective  use  of  a  society’s  own  strenghts  and  resources,  both  human  and  nat ural ”.  Não  obstante,  assinale ‐ se  que  a  tradução  da  obra  de  Finger&Asún  (2003)  adop ta  a  noção  de  “auto ‐ sustentado”  e  “auto ‐ sustentação”  como  significado  português  de  self ‐ reliance . 108 económica  e  escapar  do  colete ‐ de ‐ forças  do  sistema  económico  internacional  não  seria  possível  a  partir  da  promoção  de  uma  mesma  lógica  económica,  segundo  as  regras  de  um  sistema  que  precisamente  tinha  sido  o  causador  da  dependência,  pe lo  que,  na  expressão  feliz  de  Gilbert  Rist  (2001a:213),  tratava ‐ se  de  praticar  uma  espécie  de  “ judo  económico ”,  rompendo  com  a  lógica  do  opressor  e  com  o  valor  que  o  dinheiro  nela  representava,  para  adoptar  um  princípio  e  uma  lógica  de  acção  que  enfatizava  que  a  autonomia  assentaria  na  confiança  nas  capacidades  próprias,  o  que  supunha  uma  transformação  “ psico ‐ política ”  que  redundasse  numa  outra  relação  com  o  económico  ( idem,  ibidem :213).  Nesse  sentido,  mais  do  que  o  dinheiro  seriam  a  população  e  o  seu  trabalho  a  força  motriz  de  construção  de  um a  sociedade  desenvolvida,  o  que  significava  também  a  adopção  de  medidas  que  impedissem  a  exploração  entre  diferentes  sectores  da  população  (capitalistas/trabalhadores,  urbana/rural)  e  que  promovessem  uma  relativa  igualdade  de  condições.  Por  fim,  supunha  ainda,  em  termos  de  princ ípio,  a  relativa  originalidade  do  modelo  de  desenvolvimento  a  construir  na  medida  em  que  não  deveria  ser  uma  cópia  ou  importação  de  quaisquer  outros  modelos  estrangeiros,  capitalistas  ou  socialistas.  Não  cabendo  na  economia  deste  trabalho  detalhar  as  condições  e  contradições  particulares  deste  processo  que  se  levou  a  cabo  durante  mais  de  uma  década,  a  análise  das  suas  conquistas  e  insucessos  ou  mesmo  assinalar  especialmente  a  contradição  política  que  subjaz  ao  “ voluntarismo  iluminado ”  de  um  modelo  de  desenvolvimento  auto ‐ sustentado  decretado  pelo  governo,  ainda  assim  importa  retirar  ensinamentos  da  análise  desta  experiência  histórica.  É  isso  que  Gilbert  Rist  (2001a:219 ‐ 222)  procura  fazer  ao  assinalar  os  fundamentos  do  modelo  de  desenvolvimento  centrado  na  endogeneidade  ( self ‐ reliance ),  aquilo  que  procura  não  ser  e  os  efeitos  perversos,  que  preferimos  designar  de  limitações,  da  adopção  deste  tipo  de  modelo  e  que  procuramos  sintetizar  no  quadro  que  se  segue.   Quadro  2  –  Caracterização  da  abordage m  da  self ‐ reliance   Os  fundamentos  da  self ‐ reliance  O  que  não  pode  ser  um  modelo  de  desenvolvim ento  ancorado  na  self ‐ reliance  Limitações  de  um  modelo  de  desenvolvime nto  assente  na  self ‐ reliance  Redefinição  das  prioridades  económicas  em  função  da  produção  de  bens  úteis  ao  conjunto  da  população  Não  é  um  modelo  abstracto,  mas  um  processo  histórico  de  luta  contra  uma  estrutura  que  se  recusa  Reduz  as  desigualdades  que  dec orrem  das  trocas  mas  não  as  desigualdades  ligadas  à  dotação  de  factores  de  produção  (os  recursos  não  estão  igualmente  presentes  109 em  todos  os  contextos,  pelo  que  a  superação  desta  limitação  implicaria  que  as  políticas  de  self ‐ relianc e  fossem  acompanhadas  por  mecanismos  de  redistribuição  global)  Controlo  democrático  da  produção,  promoção  da  solidariedade  horizontal  e  diminuição  da  alienação  provocada  pela  ausência  de  domínio  sobe  o  processo  económico  Não  pode  ser  instituído  a  partir  de  cima  A  self ‐ reliance  pode  reforçar  a  exploração  ao  nível  local  ou  regional  se  o  sistema  democrático  não  funcionar  devidamente  e  atribuir  a  uma  minoria  o  domínio  do  económico  Utilização  prio ritári a  dos  factores  de  produção  disponíveis  localmente  e  investimento  na  pesquisa  de  soluções  locais  de  produção  Não  pode  confundir ‐ se  com  a  simples  transformação  industrial  das  matérias ‐ primas  nos  locais  da  sua  produção  (esta  pode  ser  um a  condição  polític a  da  self ‐ relian ce ,  mas,  em  si  mes ma,  é  também  compatível  com  a  expansão  do  mercado  capitalista)  A  self ‐ reliance  c orre  o  risco  de  acentuar  a  divisão  do  mundo  entre  um  centro  “desenvolvido”  e  uma  periferia  “subdesenvolvi da”.  Se  a  self ‐ relian ce  implica,  pelo  menos  no  início,  uma  ruptura  ou  desconexão  com  o  mercado  internacional,  não  pode  por  isso  deixar  de  pugnar  pela  produção  de  novas  formas  de  associação  e  relaçã o  numa  base  mais  igualitária  Harmonização  dos  modos  de  vida  com  o  ambiente  e  com  os  factores  locais  existentes  com  a  finalidade  de  obt er  repercussões  ecológicas  e  culturais  positivas  Não  se  reduz  à  produção  dos  bens  necessários  aos  mais  desmun idos  (um  modelo  de  dese nvolvim ento  resumido  a  este  aspecto  pode  ser  simplesmente  conduzido  numa  perspectiva  burocrática  ou  gestionária  A  self ‐ reliance  arrisca ‐ se  a  criar  uma  clivagem  entre  os  que  a  podem  praticar  e  aqueles  que  não  têm  condições  para  o  fazer  (superar  esta  limitação  implicaria  praticar  formas  de  self ‐ reliance  ancoradas  na  associação  entre  diferentes  locais  ou  regiões,  internos  a  um  país,  ou  entre  países)  Recusa  da  imitação  de  modelos  de  desenvolvimento  importados  e  concretização  através  de  uma  multiplicidade  de  “desenvolvimen tos”  Não  se  confunde  nem  com  a  auto ‐ suficiência,  nem  com  a  auta rcia  económica  (mesmo  se  a  auto ‐ suficiência  alim entar  é  uma  das  finalidades  da  self ‐ relian ce )   Estimulação  da  criatividade  e  da  confiança  nos  valores  próprios   Assenta  num  processo  de  aprendizagem  permanente:  reinventar  em  vez  de  imitar   Favorecimento  da  solidariedade  interna  (país)  e  externa  (internacional)  através  da  reorientação  dos  fluxos  comerciais  para  fora  dos  centros  dominantes   Incrementar  a  resistência  à  dependência  externa  em  termo s  comerciais  através  da  promoção  da  auto ‐ suficiência  nos  recursos  estratégicos   Crescimento  da  capacidade  de  resistência  e  defesa  face  às  pressões  externas   Rompe  com  a  dicotomia  centro/periferia:  a  periferia  transforma ‐ se  numa  multiplicidade  de  “centros”   Fonte:  Rist.  (2001a:219 ‐ 222)   110 Matthias  Finger  e  José  Manuel  Asún  (2003:83)  dedicam  também  algum  esforço  analítico  a  esta  noção  de  endogeneidade  (que  no  caso  está  traduzida  como  auto ‐ sustentação)  quando  discutem  o  contexto  de  emergência  da  Investigação  Acção  Participativa  nos  países  do  Sul,  enquadrando ‐ a  [a  IAP]  precisamente,  como  já  salientámos,  no  contexto  da  desilusão  com  os  efeitos  da  Primeira  Década  do  Desenvolvimento  promovida  pela  ONU  (a  década  de  1960).  De  acordo  com  estes  autores,  como  aliás  já  assinalámos,  terá  sido  Juli us  Nyerere,  presidente  da  Tanzânia,  “ o  primeiro  a  esboçar  uma  nova  perspectiva  em  relação  à  fuga  ao  subdesenvolvimento  e  pobreza,  caracterizada  pel os  conceitos  de  «auto ‐ sustentação»,  «autonomia»  e  «desenvolvimento  autocentrado»  “  (Finger  &  Asún,  2003:82),  embora,  também  como  assinalámos,  a  noção  de  auto ‐ sustentação  já  estivesse  anteriormente  presente  em  algumas  iniciativas  desenvolvidas  na  Índia  sob  a  égide  de  Gandhi.  Não  obstante  apontarem  como  crítica  a  pouca  relevância  que  aí  é  atribuída  aos  aspectos  ecológicos  e  culturais,  para  estes  autores  há  quatro  ideias  fundamentais  que  estão  associadas  a  esta  ideia  de  desenvolvimento  auto ‐ sustentado  ou,  avançamos  nós,  endógeno:  i)  supõe  que  a  independência 53  é  sobretudo  de  pessoas  e  não  de  dinheiro,  ou  seja ,  constrói ‐ se  com  base  nas  pessoas,  nas  suas  potencialidades  e  capacidades;  ii)  implica  necessariamente  a  auto ‐ sustentação  por  oposição  à  manutenção  de  um a  relação  de  dependência,  ainda  que  sob  a  forma  de  “ ajuda ”,  do  exterior;  iii)  é  primordialmente  um  movimento  que  se  desencadeia  a  nível  local  e,  como  tal,  um  movimento  da  base  para  o  topo  e  não  o  contrário;  iv)  a  independência  e  auto ‐ sustentação  promove ‐ se  igualmente  por  intermédio  da  adopção  de  “ tecnologia  adequada ” 54  em  oposição  à  tecnologia  importada  dos  países  do  Norte  e/ou  industrializados  (Finger  &  Asún,  2003:83).  53  Lembremo ‐ nos  que  é  a  partir  do  Sul  rec ém  descolonizado  ou  dos  contextos  regionais  ainda  em  situação  de  forte  dependênc ia  económica  dos  países  do  hemisfério  Norte  ou  industrializados  que  esta  perspectiva  emerge . 54  Esta  noção  de  “ tecnologia  ad equada ”,  que  retomaremos  à  frente,  é  uma  tradução  do  termo  em  inglês  “ socially  apropriate  technology ”  (S AT).  No  contexto  brasileiro  esta  noção  te m  sido  traduzida  simplesmente  por  “ tecnolog ia  social ”,  o  que  pode  gerar  alguma  ambi guidade  ao  leitor  portug uês  na  medida  em  que  alguma  literatura  sociológica  em  Portugal  regista  esta  expressão  co m  um  significado  completamente  diverso  (cf.  por  exemplo  Grácio,  1986). 111 Em  síntese,  concluem  os  autores,  “ o  desenvolvimento  auto  sustentado  desenrola ‐ se  de  baixo  para  cima,  através  das  pessoas  com  a  tecnologia  adequada  às  respectivas  necessidades ”  ( idem,  ibidem :83).   Mas,  a  noção  de  endogeneidade  não  deixa  de  estar  eivada  de  alguma  ambiguidade,  ou  no  mínimo  de  uma  diversidade  de  sentidos,  que  resulta  do  ponto  de  vista  disciplinar  a  partir  do  qual  se  produz  a  su a  definição,  bem  como  do  modelo  de  desenvolvimento  que  se  lhe  associa  que  não  é,  inevitavelmente,  “ alternativo ”  no  sentido  que  vimos  adoptando.  Um  particular  bom  exemplo  é ‐ nos  oferecido  por  Garofoli  (2002)  quando  analisa  os  modelos  de  desenvolvimento  local  na  Europa  com  um  particular  enfoque  no  desenvolvimento  económico.  Para  este  autor,  a  dicotomia  exogeneidade ‐ endogeneidade  constitui  a  refe rência  inicial  dos  debates  que  na  Europa  se  desenvolveram  desde  o  início  dos  anos  1990  opondo  modelos  de  desenvolvimento  endógenos  a  modelos  de  desenvolvimento  exógeno.  Não  deixamos  de  encontrar  neste  autor  uma  caracterização  genérica  destes  modelos  de  desenvolvimento  endógeno  que  partilham  alguns  dos  traços  já  anteriormente  assinalados  como  constitutivos  desta  ideia  ou  como  consequência  da  sua  adopção,  nomeadamente  a  sua  forte  ligação  e  legitimação  a  um  paradigma  do  desenvolvimento  “ a  partir  de  baixo ”  e  à  literat ura  especializada  em  torno  do  desenvolvimento  territorial,  “ agropolitano ”  e  do  ecodesenvolvimento  ou,  ainda,  o  reforço  da  ideia  de  que  endogeneidade  não  é  claramente  sinónimo  de  “ fechamento  ao  exterior ”  e  a  noção  de  que  o  desenvolvimento  endógeno  é  fundamentalmente  a  capacidade  de  inovar  e  de  produzir  uma  “ inteligência  colectiva ”  à  escala  local  (Garofoli,  2002:228 ‐ 229).  No  entanto,  a  sua  preocupação  é  essencialmente  a  de  argumentar  em  torno  do  modo  como  um  “ modelo  de  desenvolvimento  endógeno  garante  a  autonomia  ao  processo  de  transformação  do  sistema  económico  local ”  ( idem,  ibidem :228)  e  nesse  propósito  o  seu  discurso  articula  indissociavelmente  vantagens  sociais  com  vantagens  económicas  da  endogeneidade,  com  o  que  nos  parece  ser  uma  ênfase  particular  na  associação  entre  endogeneidade  e  controlo  do  processo  de  desenvolvimento  económico  e  competitividade  face  ao  exterior.  Desde  logo,  Garofoli  (2002)  sublinha  a  centralidade,  em  termos  de  112 desenvolvimento,  dos  processos  de  tomada  de  decisão  pelos  actores  sociais  locais  e  a  sua  capacidade  para  controlar  e  interiorizar  co nhecimento  e  informação  externos  e,  desse  modo,  assegurarem  genericamente  os  traços  de  um  processo  de  desenvolvimento  auto ‐ sustentado,  reforçado  no  facto  de  que  o  processo  de  transformação  assenta  nas  especificidades  locais  e  na  capacidade  local  para  governar  variáveis  fundamentais  desse  processo.  Mais  ainda,  na  perspectiv a  de  Garofoli  (2002:228),  o  modelo  de  desenvolvimento  endó geno  baseia ‐ se  na  produção,  ao  nível  das  empresas  e  instituições  que  operam  a  nível  local,  do  que  identifica  como  “ social  capability ”,  nomeadamente  através  da  construção  progressiva  de  determinadas  características  e  capacid ades  tais  como:  i)  o  uso  e  a  implementação  de  recursos  locais  (trabalho,  capital  historicamente  acumulado  ao  nível  local,  empreendedorismo,  conhecimento  específico  acerca  dos  processos  de  produção,  competências  profissionais  específicas,  recursos  materiais);  ii)  a  capacidade  de  controlar  o  process o  de  acumulação  a  nível  local;  iii)  o  controlo  da  capacidade  de  inovação;  iv)  a  existência  (e  a  capacidade  de  dese nvolver)  interdependências  produtivas  intrasectoriais  e  intersectoriais  à  escala  local.  Como  já  se  referiu,  para  o  autor  a  endogeneidade  não  é  contraditória  com  a  abertura  ao  ext erior;  pelo  contrário,  implica  relações  progressivas  com  um  exterior  bastante  part icular :  os  mercados  externos  e  com  os  locus  de  produção  de  conhecimento  e  tecnologia.  Na  sequência  deste  raciocínio,  repita ‐ se  que  claramente  orientado  pela  finalidade  do  crescimento  económico,  o  desenvolvimento  endógeno  é  sinteticamente  conceptualizado  por  Garofoli  (2002:229)  como :  i)  a  capacidade  para  transformar  o  sistema  social  e  económico  (provavelmente,  de  acordo  com  o  pensamento  apresentad o,  seria  mais  correcto  dizer:  transformar  o  sistema  social  em  função  do  sistema  económico);  ii)  a  capacidade  de  reagir  aos  desafios  externos  e  iii)  a  capacidade  de  introduzir  formas  específicas  de  regulação  social  ao  nível  local  que  dêem  suporte  aos  dois  processos  anteriores.   Em  suma,  parece ‐ nos  de  facto  estarmos  perante  um  significado  de  desenvolvimento  endógeno  que,  embora  aparent ado  com  as  perspectivas  anteriormente  enunciadas,  se  dema rca  claramente  no  modo  como  define  a  113 endogeneidade  essencialmente  como  uma  vantagem  competitiva  no  contexto  de  uma  organização  económica  que  se  assume  implicitamente  como  natural,  única  e  a  mel hor.   Uma  outra  ambiguidade  que  cruza  a  questão  da  endogeneidade,  auto ‐ sustentação  ou  self ‐ reliance  como  vias  alt ernativas  do  desenvolvimento  prende ‐ se  com  a  pertinência  que  os  seus  princípios  e  práticas  têm  nos  dias  de  hoje,  caracterizad os  por  uma  economia  capitalista  globalizada,  quer  no  pensamento,  quer  na  prática  do  desenvolvimento  nas  suas  diversas  escalas.  A  alternativ a  é,  simplesmente,  olhar  par a  estas  via s  do  desenvolvimento  como  “ curiosidades ”  e  “ antiguidades ”  propensas,  na  melhor  das  hipóteses,  a  serem  adoptadas  tenazmente  por  “ náufragos  do  desenvolvimento ”  dominante  ou  a  “ trânsfugas  voluntários ”  desencantados  com  as  soluções  que  lhe  têm  sido  impostas  (Rist,  2001a :224)  e  a  darem  origem  a  “ ilhas  de  irracionalidade ”  (Melo,  1994)  perdidas  e  isoladas  no  mar  do  capitalismo  avançado  ou,  optimisticamente  e  sem  qualquer  intenção  romântica  de  retorno  a  um  « paraíso  perdido »,  a  reconstruírem  a  sociedade  fora  das  prescrições  dominantes  e  dos  « programas  de  desenvolvimento »  que  lhes  qu erem  impo r,  reinterpretando  originalmente  as  leis  económicas,  aproveitando ‐ se  das  falhas  do  sistema  dominante  e,  gen eric ame nte,  afirmando  a  possibilidade  de  uma  pluralidade  de  desenvolvimentos  marcada  pela  história  e  cultura  específica  de  cada  um  dos  lugares  a  partir  dos  quais  estas  alternativas  se  erigem  (Rist,  2001a:225).  Como  nos  advertem  as  pesquisas  de  Serge  Moscovici  sobre  as  “ minor ias  activas ”  e,  mais  genericamente,  a  experi ência  histórica,  não  podemos  descurar  a  importância  e  o  profundo  papel  inovador  que  certos  movimentos  e  sistemas  de  pensamento  minoritários  ou  alternativos  têm  desempenhado  numa  perspectiva  de  mudança  socia l  na  história  humana  e,  por  outro  lado,  não  é  uma  inevitabilidade  histórica  que  o  futuro  continue  a  ser  caracterizado  pela  universalização  do  mercado  capitalista.  Assim,  se  é  importante  reconhecer  que  a  adopção  radical  dos  princípios  da  self ‐ reliance  tem  acontecido  mais  por  necessidade  do  que  por  opção,  também  não  podemos  deixar  de  reconhecer  que  é  a  própria  lógica  excludente  do  mercado  capitalista  globalizado  que  vem  gerando  condições,  outros  dirão  a  obrigação,  para  que  alguns  territórios  e  algumas  comunidades,  excluídos  dos  circuitos  de  troca  114 mercadorizada,  vão  alicerçando  formas  de  autonomia  social,  inclusive  na  esfera  económica  [cf.  por  exemplo  o  conjunto  de  experiên cias  que  con stam  da  obra  organizada  por  Boaventura  Sousa  Santos  (2002)],  que  recuperam  alguns  dos  princípios  da  self ‐ reliance .  A  ambiguidade  parece  pois  colocar ‐ se  no  estatuto  que  estas  experiências  assumem:  resultam  de  uma  opção  societária  e  política  ou  são  uma  necessidade  imposta  pela  exclusão  do  mercado  globalizado?  São  efectivamente  experiências  contra ‐ hegemónicas  ou  representarão  a  contradição  estritamente  suficiente  para,  sem  afrontar  nem  pôr  em  causa  a  sua  hegemonia,  legitimar  uma  via  dominante  do  desenvolvimento?  Sobreviverão  isoladas  num  mundo  marcado  pela  divisão  internacional  do  trabalho  e  pela  multiplicação  das  trocas  ou  serão  capazes  de  globalizar  o  seu  carácter  alternativo  contrapondo ‐ se  à  lógica  de  mercado  dominante  nas  relações  entre  comunidades  e  países?  Talvez  a  resposta  a  estas  questões  não  possa  ser  absoluta  mas  o  potencial  alternativo  que  está  encerrado  nestas  prátic as  de  desenvolvimento  que  apelam  à  endogeneidade,  e  que  está  muito  para  além  do  que  foram  as  suas  tentativas  de  concretização  histórica,  deve  equacionar ‐ se  quanto  mais  não  seja  porque  vivemos  neste  início  de  século  XXI  a  necess idade  urgente  de  “ pensar  e  lutar  por  alternativas  económicas  e  sociais ”  num  contexto  em  que  o  capitalismo  atingiu  um  nível  de  aceitação  inaudito  e  as  alternativas  sistémicas  a  este,  representada  pelas  economias  socialistas  centralizadas,  deixaram  de  o  ser  (Santos,  2002).  E  mais  importante  ainda  parece  esta  reflexão  se  concordarmos  com  Santo s  (2002:25)  quando  afirma  que  a  viabilidade  de  formas  alternativas  de  viver  e  de  produzir,  no  curto  e  médio  prazos,  “ depende  em  boa  medida  da  sua  capacidade  de  sobreviver  no  contexto  do  domínio  do  capitalismo ”.   Uma  outra  questão  que  atravessa  profusamente  os  debates  em  volta  das  estratégias  alternativ as  de  desenvolvimento  prende ‐ se  com  a  noção  de  empoderamento  que  está  igualmente  intimamente  articulada  com  a  noção  de  participação  na  medida  em  que,  como  sustenta  Brohman  (2001),  a  participação  nas  tomadas  de  decisão  é  uma  pré ‐ condição  se  o  empoderamento  é  a  finalidade.  Assim,  115 embora  genericamente  possamos  adoptar  o  modo  como  Brohman  (2001:265)  desenha  os  contornos  da  noção  de  empoderamento,  salientando  que  este  “ comummente  é  entendido  como  um  processo  multifacetado,  envolvendo  a  reunião  de  recursos  para  atingir  uma  força  colectiva  e  se  contrapor  ao  poder,  buscando  o  aperfeiço amento  das  competências  manuais,  técnicas,  administrativas,  gerenciais  e  de  planeamento,  bem  como  das  capacidades  analíticas  e  reflexivas,  das  pessoas  a  nível  local ” 55 ,  o  menos  que  se  pode  dizer  é  que  a  noç ão  de  empoderamento  é  claramente  ambígua  e  arrisca ‐ se  a  ser  superficial  e  panfletária  (Menezes,  2007:57).  No  âmbito  das  estratégias  alternativas  de  desenvolvimento  esta  noção  ganhou  força  nas  últimas  duas  décadas  e  a  sua  necessidade  é  uma  consequência  da  constatação  de  que,  de  facto,  o  desenvolvimento  nas  suas  vertentes  de  diminuição  das  desigualdades  sociais  e  da  pobreza  ao  nível  comunitário  não  se  atinge  simplesmente  pela  transferência  de  verbas  por  parte  do  Estado  ou  a  parti r  de  programas  e  projectos  que  apenas  envolvem  as  pessoas  como  beneficiários  sob  o  risco  de,  assim,  se  estar  inclusive  a  fomentar  uma  “ mentalidade  de  assistido ”  (cf.  Canário,  1999).  Fazer  face  a  este  risco  parece  pressupor  que  as  estratégias  de  desenvolvimento  encarem  as  pessoas  e  as  comunidades  como  actores  de  pleno  direito  em  todas  as  decisões  que  concernem  a  transformação  das  suas  condições  e  contextos  de  vida,  ou  seja,  que  as  pessoas  sejam  reconhecidas  e  apoiadas  como  autoras  das  opções  de  transformação  social  que  põem  em  marcha.  A  noção  de  empoderamento  poderá  associar ‐ se  a  este  modo  de  conceber  e  promover  a  autorização  por  parte  dos  indivíduos,  das  populações  e  das  comunidades  o  que,  como  parece  evidente,  se  reveste  de  um  carácter  político  tudo  menos  neutral.  Nesse  sentido,  as  estratégias  de  empoderamento  podem  ser  facilmente  encaradas  com  desconfiança  por  parte  dos  poderes  instalados,  55  Podíamos  adoptar  de  igual  modo  uma  definição  mai s  genérica  como  a  proposta  em  Me nezes  (2007: 57):  “ o  empoderam ento  refere ‐ se  ao  processo  pelo  qual  os  indivíduos,  as  organizações  e  as  comunidades  ganham  mestria  ou  co nt ro lo  sobre  as  suas  vidas  e  participação  democrática  na  vida  das  suas  comunidades  (Ra ppaport,  19 81,  1984,  cit.  por  Menezes,  2007) ”.  Independentemente  da  singularidade  destas  definições  parece  ser  possível  identificar  um  co njunto  de  elementos  qu e,  mais  ou  menos,  estão  constantemente  presentes  de  forma  transversal  à  noção  de  empoderament o:  participação,  consciência  crítica,  poder  e  controlo,  cidadania,  autonom ia  e  compromisso  comunitário,  desenvolvimento  e  expressão  das  cap acidades  individuais  e  da  identidade  social  (Montero,  20 04,  cit.  por  Menezes,  200 7:57).  Não  obstan te  a  louvável  sistematicidade  na  identifi cação  destes  elementos,  em  boa  verdade,  cada  um  deles  pode  ser,  e  normalmente  é,  mobi lizado  com  significados  bastante  díspares,  pelo  que  nos  resta  admitir  que  a  ambiguidade  permanece  como  traço  irredutível  da  noção  de  empoderamento. 116 nomeadamente  o  económico,  e  pelas  classes  socia is  dominantes  ou  pelas  ditas  elites  locais  ou  comunitárias.  Daí  que  se  olhe  para  esta  “ exigência ”  do  empoderamento  de  forma  ambivalente:  por  um  lado,  como  condição  imprescindível  ao  desenvolvimento  de  uma  consciência  crítica  sobre  a  realidade,  à  auto ‐ confiança  e  à  auto ‐ expressão  enquanto  requisitos  que  possibilitam  a  mobilização  e  a  participação  efectiva  nas  tomadas  de  decisão  que  afectam  as  vidas,  designadamente,  das  classes  desfavorecidas;  por  outro  lado,  como  tarefa  radical  que  poderá  pôr  em  causa  os  interesses  instalados.  Mesmo  quando  se  trata  do  Estado  –  que  seria  suposto  pugnar  pela  igualdade  entre  todos  os  cidadãos  –  a  promover  estas  estratégias  de  empoderamento  permanece  um  certo  receio  de  que  o  seu  próprio  poder,  ou  melhor  a  estrutura  de  relações  que  poder  que  este  sustenta  e  legitima,  seja  colocado  em  cau sa  com  a  aquisição  de  poder,  por  via  da  educação,  da  participação  efectiva  ou  da  designada  conscientização,  pelos  mais  desprovidos.  De  forma  sintética  pode  sustentar ‐ se  que  a  noção  de  empoderamento  tem  diversas  facetas  interligadas:  i)  uma  faceta  sócio ‐ política  que  a  associa  à  aquisição  ou  activação  de  competências  de  intervenção  participativa  ao  nível  local  e  ao  nível  dos  poderes  instituídos;  ii)  uma  faceta  educativa  que  está  articulada  tanto  com  o  processo  de  conscientização  e  de  análise  crítica  da  realidade  que  está  subjacente  ao  processo  de  tornar ‐ se  autor  da  sua  acção  como  com  a  finalidade  desejável  do  empoderamento  de  permitir  a  realização  plena  do  potencial  e  das  capacidades  humanas;  iii)  uma  faceta  organizacional  que  se  prende  com  a  forma  como  na  acção  prática,  de  índole  individual  e/ou  colectiva,  o  empoderamento  se  traduz  enquanto  intervenção  efectiva  nos  processos  de  tomada  de  decisão  e  de  acção  colectiva.   De  igual  modo,  a  noção  de  empoderamento  reporta ‐ se  a  diferentes  escalas  de  organização  do  social,  nomeadamente  o  nível  individual,  organizacional  e  comunitário,  pressupondo  a  sua  interligação  mas  também  que  em  cada  um  deles  o  empoderamento  decorre  de  processos  diversos  e,  como  resultado  em  cada  um  deles,  se  dá  a  activação  de  competências  distintas  (Menezes ,  2007).  A  partir  do  trab alho  de  Zimmerman  [1995,  cit.  por  Menezes  (2007:57 ‐ 58)],  esta  autora  sistematiza  o  que  em  termos  de  empoderamento  está  envolvido  em  cada  um  daqueles  níveis:  i)  ao  nível  individual  está  117 em  causa  o  designado  empoderamento  psicológico  que  passará  pela  promoção  da  capacidade  para  exercer  controlo  sobre  a  própria  vida,  de  uma  consciência  crítica  sobre  o  ambiente  envolvente  e  de  um a  postura  participativa  na  vida  comunitária;  ii)  ao  nível  organizacional  está  associada  a  transformação  das  estruturas  e  processos  que  desempenham  papéis  de  suporte  e  de  capacitação  da  participação  e  da  mudança  na  comunidade  e,  por  fim,  iii)  ao  nível  comunitário  está  associada  a  promoção  da  qualidade  de  vida  através  da  acção  colectiva  de  indivíduos,  grupos  e  organizações.  Uma  versão  esquemática  da  articulação  ent re  níveis,  processos  e  resultados  do  empoderamento  pode  apreciar ‐ se  no  quadro  seguinte:  Quadro  3  –  Processos  e  Resultados  de  Empoderamento   Níveis  Processos  (de  empodera mento)  Resultados  (empoderad os)  Individual  Competências  de  tomada  de  decisão  Gerir  recursos  Trabalhar  com  outros  Sentido  de  controlo  Consciência  críti ca  Comportamentos  de  participação  Organizacional  Oportunidades  de  participar  na  tomada  de  decisõe s  Partilha  de  responsabilidades  e  liderança  Competir  eficazmente  pelos  recursos  existentes  Trabalhar  em  parceria  com  outras  organizações  Influenciar  políticas  Comunitário  Acesso  aos  recursos  Estrutura  de  “governo”  aberta  Relevância  da  diversidade  Coligações  de  organizações  Liderança  pluralista  Competências  de  participação  dos  membros  Fonte:  Zimmerman  (1995)  cit.  in  Menezes,  I,  (2007:59)   Mas  a  ambivalência  da  noção  de  empoderamento  reside  muito  mais  na  sua  utilização  como  operador  ideológico  no  âmbito  de  um  discurso  e  de  um  paradigma  cognitivo  de  abordagem  do  social  e  de  definição  dos  problemas  sociais  que,  ocultando  as  tendências  para  a  desresponsabilização  do  Estado  pelas  suas  funções  de  regulação  social  (ou  ocultando  a  sua  incapacidade  de  as  exercer)  em  prol  de  um  bem  comum,  exalta  incontroladamente  as  virt ualidades  de  uma  acção  individual  “ esclarecida ”,  “ competente ”  e  “ estratégica ”  como  condição  da  manutenção  do  estatuto  de  socialmente  integrado  ou  como  pré ‐ requisito  necessário  aos  que  não  o  são  mas  que  devem  pretender  ser .  Este  modo  de  gestão  do  social  presente  nas  sociedades  capitalistas  avançadas,  a  que  em  outro  momento  apelidámos  de  “ periferialização  das  contradições  sociais ”  (Correia  &  Caramelo,  2003),  tem  estado  pr evalentemente  associada  à  tendência  para  a  “ personalização ”,  “ localização ”  ou  “ territorialização ”  dos  dispositivos  de  gestão  dos  problemas  sociais,  caracter izados  precisamente  por  lógicas  124 às  abordagens  participativas.  Neste  caso,  argumenta ‐ se  que  o  fracasso  passado  das  intervenções  em  prol  do  desenvolvimento  não  se  ficou  a  dever  “ à  ignorância  dos  pobres ”,  mas  à  desade quação  dos  métodos  convencionais  de  intervenção  –  assentes  numa  lógica  “ top ‐ down ”  e  conduzidos  por  profissionais  caracterizados  por  um  viés  em  favor  do  conhecimento  científico  face  aos  sistemas  cognit ivos  locais  –  para  levar  em  consideração  e  adaptar ‐ se  ao  conhecimento  local.  Na  perspectiva  destes  autores,  um  dos  precursores  da  problematização  do  conhecimento  local  co mo  elemen to  dos  processos  de  desenvolvimento  é  Robert  Chambers  que  se  dedicou  a  demonstrar  de  que  forma  as  abordagens  participativas  poderiam  envolver  técnicas  concretas  e  relativamente  simples  que  permitissem  a  inclusão  do  conhecimento  dos  locais  (e  a  sua  problematização  por  estes  mesmos  sujeitos)  nas  intervenções  para  o  desenvolvimento,  numa  perspectiva  que  designou  de  Rapid  Rural  Appraisal  e,  mais  recentement e,  Participatory  Rural  Appr aisal .  Em  termos  gerais,  o  contributo  de  Robert  Chambers  passa  por  considerar  que  os  sujeitos  envolvidos  pelos  processos  de  intervenção  são  não  só  detentores  de  um  saber,  como  são  igualmente  competentes  para  se  exprimirem  e  analisarem  a  sua  realidade  concreta  e,  igualmente,  para  planearem  e  agirem  e  que,  através  deste  processo,  se  gera  um  conhecimento  melhorado  e  uma  capacidade  acrescida  de  reivindicar,  agir  e  mudar.  Esta  abordagem  supõe  a  necessidade  de  colocar  os  sujeitos  face  a  uma  forma  de  definição  da  realidade  local  que  lhes  permita  ef ectivamente  pensar  e  planificar  a  sua  intervenção,  bem  co mo  agir.  Consequentemente,  a  definição  das  figuras  técnicas  e  profissionais  externas  implica  uma  ruptura  com  uma  perspectiva  extensionista  (Freire,  1971b)  de  relação  com  os  actores  locais  e  a  assunção  de  um  papel  de  facilitação  –  Freire  diria  comunicacional  –  que  permit a  aos  actores  locais  “ organizing  and  analysing  their  knowledge  in  a  manner  that  enables  an  inscription  of  reality  susceptible  to  a  certain  level  of  calculation,  planning,  priority ‐ setting  and  inter ve ntio n ”  (Triantafillou  &  Nielsen,  2001:73).  Ora,  esta  abordagem  suscita  duas  ordens  de  questões,  designadamente  acerca:  i)  do  tipo  de  saber  que  se  produz  sobre  a  realidade  através  deste  processo  e  ii)  das  fontes  de  legitimidade  desse  mesmo  saber.  Obviamente  que,  no  que  concerne  a  Paulo  Freire  este  é  como  referência  incontornável  do  pensamento  e  reflexão  sobre  o  reconhecimento  dos  saberes  locais  e  125 sobre  os  modos  de  relação  destes  com  os  saberes  especializados  ou  socialmente  mais  valorizados.  O  seu  trabalho  no  domínio  da  alfabetização  de  trabalhadores  rurais  e,  por  via  destes,  o  seu  envolvimento  com  programas  de  reforma  agrária  que  deram  origem  a  obras  como  Extensão  ou  Comunicação  (Freire,  1971b)  ou  a  incontornável  Pedagogia  do  Oprimido  (Freire,  1975),  consti tuem  marcos  da  reflexão  político ‐ educativa  e,  esta  última,  a  propósito  do  método  de  trabalho  pedagógico  de  alfabetização  utilizado  por  Freire,  aborda  sistematicamente  a  questão  da  relação  investigador ‐ alfabetizador,  produção  de  conhecimento,  sujeito  aprendente,  cujo  sentido  para  o  autor  pensamos  poder  apreender  sinteticamente  nas  suas  palavras:  “ A  metodologia  que  defendemos  exige,  por  isto  mesmo,  que,  no  fluxo  da  investigação,  se  façam  ambos  sujeitos  da  mesma  –  os  investigadores  e  os  homens  do  povo  que,  aparentement e,  seriam  seu  objecto ”  (Freir e,  1975:141).  Não  podemos  deixar  de  referir  que  a  noção  de  desenvolvimento  está  essencialmente  implícita  nas  reflexõ es  de  Paulo  Freire,  contudo,  como  salienta  Finger  (1993),  a  conscientização  tal  como  teorizada  por  Freire  inscreve ‐ se  numa  lógica  de  “ humanização  do  desenvolvimento ”  bastante  típica  dos  discursos  no  campo  da  educação  de  adultos  da  década  de  1960  e  1970  e  que  não  pondo  em  caus a  os  fundamentos  do  modelo  hegemónico  de  desenvolvimento  da  época,  acredita  que  é  possível  humanizá ‐ lo,  isto  é,  acredita  que  é  possível  recuperar  o  controlo  humano  sobre  este  processo.  Curiosamente,  uma  das  abordagens  críticas  mais  interessantes  e  polémicas  à  obra  de  Paulo  Freire  é  a  produzida  por  Vanilda  Paiva  (2000,  reedição)  que  é  sintomaticamente  intitulada  “ Paulo  Freire  e  o  Nacional  Desenvolvimentismo ”  cujo  argumento  central  é  justamente  a  afirmação  da  articula ção  e  mesmo  funcionalidade  das  práticas  de  educação  de  adultos  ou  alfabetização  encetadas  por  Paulo  Freire,  numa  fase  inicial  da  sua  intervenção,  com  a  ideologia  e  as  políticas  de  desenvolvimento  modernizador  ou  industrializante  encetadas  pelo  Estado  brasileiro  na  mesma  época  [cf.  a  este  respeito  Canário  (2007)]  Uma  leitura  dos  complexos  interstícios  da  Pedagogia  do  Oprimido ,  permite ‐ nos  descortinar  uma  explicitação  do  posicionamento  de  Freire  que  parece  confirmar  a  análise  de  Vanilda  Paiva  e  de  Matthias  Finger  ao  discurso  de  Freire  mas  que,  segundo  cremos,  em  larga  medida  traduz  essencialmente  o  zeitgeist :  “ A  «situação  limite»  do  subdesenvolvimento,  ao  qual  está  ligado  o  problemado  da  dependência,  é  a  126 fundamental  característica  do  «terceiro  mundo».  A  tarefa  de  superar  tal  situação,  que  é  uma  totalidade,  por  outra,  a  do  desenvolvimento,  é,  por  sua  vez,  o  imperativo  básico  do  Terceiro  Mundo ”  (F reire,  1975:136) 56 .  Ao  contrário  das  abordagens  convencionais  de  intervenção  para  o  desenvolvimento  em  que  a  acção  dos  técnicos  ou  profissionais  põe  em  circulação  no  sistema  de  intervenção  um  saber,  abstracto  e  com  pretensões  à  universalidade,  ancorado  na  racionalidade  científi ca  normal,  ou  em  que  os  saberes  locais  são  apreendidos,  transformados  e  posteriormente  aplicados  segundo  os  pressupostos  dessa  mesma  racionalidade,  o  que  esta  nova  abordagem  admite  é  o  carácter  local  (específico)  e  intersubjectivo  do  saber  e  a  necessidade  de  outro  papel  para  os  agentes  externos  pois,  como  acentuam  Triantafillou  &  Nielsen  (2001),  o  “ knowledge  of  reality,  which  the  locals  form  part  of,  can  be  grasped  only  through  a  process  of  intersubjective  communication  facilitated  first  by  an  outsid er  and  subsequently  by  the  local  themselves ”.  Mas,  nesta  perspectiva,  embora  se  tenha  de  admitir  que  há  um  saber  local  prévio  à  intervenção  que  resulta  da  compreensão  da  situação  que  os  “ locais ”  expressam  através  de  uma  linguagem  própria,  este  saber  só  ganha  legitimidade  como  “ conhecimento  local ”  a  partir  do  momento  em  que  é  sujeito  às  “ terapêuticas  participativas ”  conduzidas  pelos  “ facilitadores ”  externos  ( idem,  ibidem :73).  Portanto,  a  questão  que  aqui  se  coloca  não  é  a  de  que  a  compreensão  que  o  conhecimento  “ externo ”,  “ ocidental ”,  “ científico ”  produz  sobre  o  “ conhecimento  local ”  é,  na  melhor  das  hipóteses,  uma  aproximação,  mas  sem  que,  ef ectivamente,  só  56  Há,  no  entan to ,  autores  que  rebatem,  veementemente,  esta  asso ciação  procur ando  justificar  a  posição  de  Paulo  Freire,  como  por  exemplo,  João  Franci sco  Souza  (200 7:68):  “ Há  quem  tente,  de  forma  autoritária  e  muito  apressa da,  identificar  nessa  afirmaç ão  um  compromisso  de  Freire  com  a  ideologia  desenvolvimentista  como  se,  independentemente  de  ideologismos  quaisquer  que  na  afirmação  estiveram  embutidos ,  não  se  tratara  de  um  “imperialismo  existencial”  a  necessidade  de  industrialização  e  da  modernização  da  agric ultura  de  toda  a  socie dade  brasileira  e  dos  campos  nordestinos,  em  particular,  para  garantir  as  c ondições  de  vida  de  sua  população.  Por  certo  que  ess e  processo  deman dava  e  demanda  o  deba te  sobr e  a  apropriação  e  usufruto  dos  bens  produzidos.  Portanto,  impl ica  a  discussão  sobre  a  direcionalidade  do  próprio  processo  como  o  aprofundará  Freire  em  toda  sua  obra.  Tomar  uma  atitude  p uritana  em  relação  a  uma  ques tão  de  vida  ou  de  morte  para  o  país,  acusando  a  identificação  daquela  necessidade  de  desenvolvimento  como  desenvolvimentismo,  agora  e  naquele  momento,  não  parece  deixar  de  ser,  porém,  uma  estupidez.  De  quaisquer  maneiras,  ou  em  quaisquer  perspectivas  ideopolíticas,  essa  é  a  questão  nodal  de  todos  e  quaisq uer  processos  educativos,  em  todos  e  quaisquer  espaços  e  tempo:  seu  compromi sso  com  um  mode lo  socie tal  e  de  convivência  humana.  Nesse  debate,  dada  a  diversidade  de  inter esses  e  disputas  de  poder  entr e  os  grupos  humanos,  quaisquer  consensos  revela m ‐ se  extremamente  complexos.  E  não  apenas  com pl exos,  mas  complicados  deveras. ”  127 podemos  falar  de  um  “ conhecimento  local ”,  na  acepção  de  que  é  o  conhecim ento  que  permite  tornar  o  real  susceptível  de  análise,  planificação,  tomada  de  decisão  e  acção  pelos  actores  locais,  quando  este  se  produz  através  de  práticas  participativas  ( idem,  ibidem :74).   Um  outro  importante  contributo  para  equacionar  toda  esta  questão  do  conhecimento  nos  processos  de  desenvolvimento  e,  particularmente,  a  rel ação  entre  saberes  endógenos  e  exógenos  é ‐ no s  fornecido  pela  corrente  da  Investigação  Acção  Participativa  (IAP)  (cf.  Finger  &  Asún,  2003:81 ‐ 86;  Triantafillou  &  Nielsen,  2001:71).  Este  movimento  que  é  eminentemente  protagonizado  pelos  países  do  Sul,  sobre  os  quais  impendeu  a  dominação  desenvolvimentista  do  Norte  em  termos  tecnológicos,  culturais  e  políticos,  parte  do  pressuposto,  no  que  à  questão  do  conhecimento  diz  respeito,  que  o  conhecimento  endógeno  foi  absolutamente  colonizado,  destruído  e  substituído  por  um  conhecimento  especializado  oriundo  do  Norte  a  que  se  associa m  determinadas  tecnologias.  Ora,  a  IAP  o  que  supõe  e  visa  é  a  capacidade  de  os  países  e  comunidades  do  Sul  se  reapropriarem  do  seu  conhecimento  endógeno  e  assim  se  envolverem  verdadeira mente  num  processo  de  desenvolvimento  auto ‐ sustentado  (endógeno)  e  autónomo.  Neste  sentido,  para  a  IAP  o  verdadeiro  problema  subjacente  ao  subdesenvolvimento  é  a  marginalização  do  conhecimen to  endógeno  pelo  que  será  necessário  auxiliar  estas  comunidades  e  povos  não  só  a  compreender  os  processos  pelos  quais  o  seu  conhecimento  lhes  foi  exprop riado,  destruído  ou  esvaziado,  como  ajudá ‐ los  a  desocultar,  recuperar  e  activar,  a  partir  de  um  processo  colectivo  no  interior  de  comunidades  concretas,  esse  conhecimento  como  condição  imprescindível  à  reapropriação  do  seu  pró prio  processo  de  desenvolvimento.  O  que  está  em  causa  é,  portanto,  uma  crítica  radical  às  formas  de  conhecimento  Ocidentais  ou  do  Norte  que,  por  intermédio  das  tecnologias  que  lhes  estão  associadas,  transplantam  mundivisões  e  racionalidad es  para  os  países  do  Sul  com  amplas  consequências  ecológicas,  culturais  e  societárias,  o  que  faz  com  que  a  inversão  desta  situação  implique  que  “ as  pessoas  têm  de  recupera r  não  só  o  controlo  dos  meios  de  produção,  mas,  mais  profundamente,  o  contr olo  sobre  os  mei os  de  produção  do  conhecimento ”  (Finger  &  Asún,  2003:84).  128 Este  processo,  cujos  protagonistas  devem  ser  precisamente  os  espoliados  do  conhecimento,  e  como  tal  de  poder,  per mit irá  tornar  o  conhecimento  endógeno  a  fonte  primordial  dos  processos  de  desenvolvimento  auto ‐ sustentado,  ancorados  no  envolvimento  colectivo  na  definição,  análise  e  resolução  de  problemas 57  e  numa  preocupação  simultânea  com  a  transformação  das  condições  de  vida  imediatas  e  com  a  transformação  radical  da  realidad e  social  ( idem,  ibidem :85).  Como  concluem  Finger  &  Asún  (2003:85),  “ a  IAP  não  se  opõe  ao  desenvolvimento  nem  à  modernizaç ão,  mas  quer  remetê ‐ los  à  escala  local  e  humana  das  comunidades,  permitindo  que  estas  dominem  e  dirijam  o  seu  próprio  processo  de  desenvolvimento  (auto ‐ sustentado) ”.  Neste  sentido,  a  abordagem  proposta  pela  IAP  vai  claramente  ao  enco ntro  dos  princípios  que  Serge  Latouche  (2004:90  e  sgs)  enuncia  como  necessários  à  construção  de  um  pensamento  pós ‐ desenvolvimentista  marcado  pela  ideia  de  um  “ decrescimento  convivial ”.  Nesta  perspectiva,  o  decr escimento  não  tem  de  necessariamente  estar  associado  a  uma  diminuição  dos  níveis  bem ‐ estar  e  de  qualidade  de  vida  no  sentido  de  deixar  de  responder  à  satisfação  das  necessidades,  mas  sim  que  esta  deva  subordinar ‐ se  aos  constrangimentos  ambientais  (e  não,  como  as  sociedades  industriais  fizeram:  adaptaram  o  ambiente  aos  seus  modos  de  vida )  e  deve  organizar ‐ se  não  apenas  para  preservar  o  ambiente,  mas  sobretudo  para  restaurar  um  mínimo  de  justiça  soc ial  sem  a  qual  o  planeta  parece  condenado.  Em  última  instância,  o  decrescimento  supõe  romper  com  o  imaginário  económico  que  enferma  de  uma  perversão  ética  que  faz  com  que  o  maior  crescimento  seja  associado  ao  melhor  crescimento  e  redescobrir  uma  outra  forma  de  riqueza  no  desenvolvimento  de  relações  conviviais  pautadas  por  uma  « simplicidade  voluntária »  (expressão  utilizada  57  Este  processo  supõe,  de  acord o  com  Finger&Asún  (2003: 85),  4  passos:  i)  a  recuperação  dos  saberes  e  das  técnicas  tradicionais  e  a  compreensão  comparativa  das  funções  económicas,  políticas,  sociais,  culturais  e  ecológic as  que  aqueles  saberes  e  técnicas  po dem  desempenhar  face  aos  saberes  e  técnicas  importados;  ii)  avaliação  da  relevância  e  importância  dos  saberes  e  técnicas  tradicionais  para  o  desígnio  de  construir  comunidades  locais  pa utadas  por  modos  sustentados  de  vida;  iii)  identificação  dos  problemas  centrais  que  afe ctam  as  comuni dades;  iv)  enf renta mento  dos  problemas  por  intermédio  do  conhecimento  e  técnicas  tr adicionais  recuperados  e  de  alguns  elementos  dos  saber es  e  técnicas  importados.  Todo  este  processo  se  constitui  numa  dinâmica  de  aprendizagem  colectiva  e  comunitária  com  ou  sem  recurso  a  facilitadores  externos  que  promovam  as  condiç ões  para  que  as  soluções  concretas  e  práticas  sejam  uma  descoberta  ou  invenção  das  comunida des. 129 por  Gandhi),  designadamente  em  ter mos  de  consumo  ou,  como  podemos  apreciar  de  forma  sintética  nas  palavras  de  Latouche  (2004:96),  “l a  construction  d’une  société  moins  injuste  serait  à  la  fois  la  réintroduction  de  la  convivialité,  d’une  consommation  plus  limitée  quantitativement  et  plus  exigeante  qualitativement ”.  Este  propósito  do  decrescimento,  no  caso  concreto  dos  países  do  Sul,  em  boa  medida  vítimas  das  consequências  do  crescimento  dos  países  do  Norte,  assumirá  contornos  particulares  que  Latouche  (2004:101)  identifica:  « il  s’agit  moins  de  décroître  (ou  de  croître,  d’ailleurs)  que  de  renouer  le  fil  de  leur  histoire  rompu  par  la  colonisation,  l’impérialisme  et  le  néo ‐ impérialisme  militaire,  politique,  économique  et  culturel,  pour  se  réapproprier  leur  identité.  C’est  la  condition  pour  qu’ils  soient  en  mesure  d’apporter  à  leurs  problè mes  les  solutions  appropriées. »  Um  outro  ponto  de  vista  a  partir  do  qual  a  perspectiva  da  IAP  aborda  a  questão  da  relação  entre  conhecimento  endógeno  e  exógeno  é  a  partir  da  análise  que  realiza  do  papel  que  os  intelectuais  podem  des empenhar  na  promoção  da  mudança  social,  incorporando  na  sua  reflexão  a  noção  gramsciana  de  “ intelectual  orgânico ”.  Numa  perspectiva  ass umidamente  política,  para  a  IAP  é  absolutamente  evidente  a  pertinência  e  a  urgência  de  definir  linhas  de  acção  concretas  dos  intelectuais  que  ajudem  a  transformar  a  situação  dos  oprimidos  que  passam  justamente  por  colocar  o  saber  destes  intelectuais,  produzido  segundo  os  cânones  de  um  conhecimento  opressor,  ao  serviço  da  tomada  de  consciência  pelos  oprimidos  desta  sua  condição,  assegurando ‐ lhes  igualmente  o  acesso  aos  instrumentos  intelectuais  que  permitam  a  sua  mobilização  e  organização  e,  a  partir  destas,  a  sua  libertação.   Em  síntese,  seguindo  de  perto  a  recapitulação  que  Brohman  (2001:219 ‐ 220)  faz  das  estratégias  de  desenvolvimento  alternativo,  pode  sugerir ‐ se  que  não  obstan te  o  seu  carácter  ecl ético  e  a  inexistência  de  uma  teoria  unificada  subjacente,  há  um  conjunto  de  elementos  que  são  típicos  destas  estrat égias:  i)  corporizam  um  movimento  rumo  a  medidas  redistributivas  directas,  incidindo  particularmente  na  população  pobre,  ao  invés  de  mant erem  uma  crença  ilimit ada  nos  efeitos  a  posteri ori  do  crescimento  económico  (o  já  várias  vezes  referido  « trickle  down »  ou  « efeito ‐ dominó »;  ii)  mantêm  um  enfoque  nos  projectos  locais,  de  pequena  escala,  ger almen te  130 ligados,  quer  com  iniciativas  de  desenvolvimento  rural,  natura lmen te  nos  contextos  rurais,  quer  com  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  comunitário  nas  zonas  urbanas;  iii)  atribuem  um a  ênfase  par tic ular  à  satisfação  das  necessidades  básicas  das  populações  e  à  capacitação  educativa  das  pessoas,  especialmente  através  da  provisão  de  bens  e  serviços  públicos;  iv)  apelam  à  necessidade  de  reequacionar  a  visão  do  desenvolvimento  que  o  associa  estrita  e  estreitamente  ao  crescimento  económico  como  primeiro  passo  para  a  elaboração  de  uma  concepção  mais  ampla  e  humana  do  desenvolvimento;  v)  exprimem  uma  preocupação  com  a  participação  local  ou  das  comunidades  na  concepção  e  implementaç ão  dos  programas  e  projectos  de  desenvolvimento;  vi)  conferem  uma  forte  ênfase  à  progressiva  endogeneidade  dos  processos  de  desenvolvimento  que,  idealmente,  se  poderia  estender  a  uma  diversidade  de  escalas  da  organização  social  de  modo  a  reduzir  a  dependência  externa  e  a  criar  condições  para  um  desenvolvimento  mais  cooperativo,  social  e  ambientalmente  mais  sustent ado  e  sustentável.   O  carácter  alternativo  e  concomitantemente  perifé rico  política  e  cognitivamente  destas  perspectivas  tornaram ‐ nas  num  alvo  sistemático  de  críticas  que  as  acompanham  exactamente  desde  que  emergem.  Quer emos  assim  dizer  que  logo  nos  anos  1970  há  reacções  às  propostas  destas  correntes  e  que  conduziram  posteriormente  a  que  as  estratégias  alternativas  de  desenvolvimento  se  modificassem  substancialmente  para  passarem  a  incorporar  novas  ênfases,  conceitos  e  métodos  (Brohman,  2001:220).  Mas  regressemos  aos  anos  1970  para  apreender  as  críticas  mais  substanciais  que  foram  dirigidas  a  estes  discursos  e  práticas  que  escapavam  do  “ mainstream ”  do  desenvolvimento.  As  críticas  dos  anos  1970  centraram ‐ se  essencialmente  em  3  aspectos:  i)  na  discussão  da  verdadeira  utilidade  desta s  estratégias  e  do  seu  carácter  de  real  alternativa  às  perspectivas  de  pensamento  hegemónicas  no  domínio  do  desenvolvimento;  ii)  na  controvérsia  suscitada  pelos  métodos  utilizados  para  conceber  e  implementar  os  programas  e  projectos  ditos  de  desenvolvimento  alternativo,  mormente  questionando  a  sua  distinção  face  àqueles  empregues  pelos  programas  e  p rojectos  inscritos  no  paradigma  dominante;  iii)  na  apreciação  do  fosso  entre  teoria  e  prática  do  desenvolvimento  alternativo,  131 nomeadamente  no  respeitante  à  questão  do  envolvimento  participativo  das  populações  e  comunidades  nas  diferentes  fases  e  operações  dos  processos  de  desenvolvimento.   Em  suma,  nas  palavras  dos  seus  críticos,  as  estratégias  alternativas  de  desenvolvimento,  apesar  da  sua  orientação  progressista,  parece  que  acabaram  por  gerar  projectos  de  desenvolvimento  muitas  vezes  bastante  convencionais  e  por  replicarem  muitos  dos  problemas  e  limitações  que  se  atribuíam  às  abordagens  “ tradicionais ”  ou  “ dominantes ”  (Bro hman,  2001:221 ‐ 222).  Efectivamente  as  críticas  acima  enunciadas  são  corroboradas  por  Brohman  (2001:221)  que  sugere  que  os  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  alternativo  foram  comummente  administrados  segundo  uma  lógica  “ top ‐ down ”  e,  quando  inscritos  numa  lógica  de  ajuda  ao  desenvol vimento,  foram ‐ no  ainda  de  modo  paternalista,  dando  poucas  oportunidades  às  organizações  locais  de  participarem  significativamente  nas  tomadas  de  decisão.  De  igual  modo,  como  aliás  já  assinalámos  em  outro  momento  deste  trabalho,  esta  situação  agrava ‐ se  com  a  emergência  nestes  projectos  de  figuras  profissionais  externas  aos  contextos  de  intervenção  que  são  portadoras  de  amplas  exigências  burocráticas  e  administrativas  (senão  mesmo  técnicas)  que  não  só  dificultam  o  empoderamento  das  populações  e  comunidades  como  contribuem  mesmo  para  a  desqualificação  dos  seus  saberes  e  modos  de  acção.  Brohman  (2001:221)  atribui  mesmo  a  estas  figuras  profissionais  a  responsabilidade  pela  distorção  a  que,  por  vezes,  a  natureza  dos  projectos  foi  sujeita,  bem  como  pela  menor  qualidade  da  participação  local,  quando  estas  figuras  técnicas  entravam  em  ruptura  ou  contribuíam  de  algum  modo  para  desqualificar  formas  de  organização  sócio ‐ comunitárias  e  de  participação  política  democrática.  Por  outro  lado,  parece  também  ser  possível  assacar  a  estas  interferências  externas  a  responsabilidade  pela  edificação  de  formas  de  dominação  das  instituições  locais  que  contribuíram  em  larga  medida  para  que  as  percepções  locais  sobre  os  problemas  e  as  opções  em  termos  de  desenvolvimento  fossem  invisibilizadas  e,  em  contrapartida,  levasse  a  que  noções  e  opções  externas  de  desenvolvimento,  alheias  e  inapropriadas  às  condições  locais  132 fossem  assumidas  e  conduzissem  a  consequências  diametralmente  opostas  às  finalidades  professadas  pelos  programas  e  projectos  de  desenvolvimento.  Mas,  Brohman  (2001)  identifica  ainda  outros  aspectos  nestas  experiências  alternativas  que  têm  merecido  repa ros  a  partir  de  um  olhar  crítico  e  analítico.  Um  dos  aspectos  salientados  prende ‐ se  com  o  papel  do  Estado  face  a  estas  propostas.  Com  já  se  sugeriu,  uma  das  pedras  de  toque  destas  propostas  é  a  sua  ênfase  na  participação  local  e  comunitária  mas,  de  acordo  com  Br ohman  (2001:222),  não  é  despiciendo  sustentar  que  muitas  vezes,  ao  invés,  est es  programas  e  projectos  promoveram  uma  extensão  do  controlo  Estatal,  quer  na  sua  forma  centralizada,  quer  através  da  sua  representação  por  intermédio  de  instâncias  de  poder  desconcentradas,  mas  não  efectivamente  descentral izadas,  e  muitas  vezes,  no  caso  do s  programas  de  cooperação,  com  a  conivência  das  agências  de  ajuda  internacional.  Como  sustenta  o  autor,  assistiu ‐ se  assim  à  instauração  de  uma  relação  de  tipo  clientelar  entre  Estado ‐ local/comunidade,  com  evidentes  consequências  na  supressão,  controlo  ou  manipulação  das  iniciativas  de  base  popular.  Uma  forma  de  crítica  mais  radical  sugere  mesmo  que  o  envolvimento  do  Estado  e  das  agências  de  ajuda  internacionais  nestes  programas  de  desenvolvimento  alternativo  visou  apenas  prevenir  ou  impedir  a  eclosão  de  revoltas  populares  ou  instaurar  processos  de  mudança  reformistas  que  travassem  quaisquer  veleidades  revolucionárias.  Neste  sentido,  mais  do  que  serem  conduzidas  pela  finalidade  de  promover  um  desenvolvimento  mais  justo  do  ponto  de  vista  económico,  social  e  político  estas  iniciativas  –  que  alguns  autores  apelidam  de  « modernização  defensiva »  –  seriam,  antes  de  mais,  garantes  da  estabilidade  política.  Isto  permite  sustentar  que,  paradoxalmente,  o  ímpeto  para  os  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  alternativo,  pelo  menos  em  algumas  circunstâncias,  veio  muito  menos  de  um  imperativo  ético  do  que  do  receio  de  perder  o  controlo  so bre  a  condução  dos  processos  de  desenvolvimento  a  partir  do  Estado.  Naturalmente  que,  assumindo  um  ponto  de  vista  dialéctico,  esta  situação  recolocou  o  Estado  no  centro  das  críticas  dos  movimentos  sociais  e  de  outras  formas  de  o rganização  e  mobilização  social  local  e  comunitária.  Como  bem  sintetiza  e  explicita  Brohman  (2001:222):  “  se  os  programas  de  desenvolvimento  alt ernativo  falharam  em  alcançar  a  f inalidade  de  um  desenvolvimento  mais  equilibrado  e  equitativo,  pelo  menos  ofereceram  ao  Estado  um  133 conjunto  de  mecanismos  para  dirigir  o  crescimento  económico,  mediar  as  relações  políticas  e  sociais  e  limitar  o  alcance  dos  movimentos  sociais  através  da  cooptação,  fragmentação  e  controlo.  No  entanto,  como  as  condições  continuaram  a  deteriorar ‐ se  para  os  pobres,  o  Estado  to rnou ‐ se  freque ntemente  um  alvo  visível  para  os  movimentos  de  protest o  social  à  medida  que  os  actores  do  desenv olvimento  se  tornaram  politizados ”.  Um  outro  efeito  conectado  com  a  tendência  para  que  estes  programas  e  projectos  acabassem  por  obedecer  a  uma  lógica  de  regulação  centralizada  prende ‐ se  igualmente  com  a  sua  cooptação  e  dominação  pelas  elites  locais,  principalmente  nos  contextos  em  que  as  comunidades  se  encontravam  fortemente  desarticuladas  e  polarizadas,  o  que  para  além  de,  evidentemente,  afastar  a  maioria  da  população,  principalmente  os  seus  sectores  mais  desprotegidos,  do  envolvimento  participativo  nas  iniciativas  de  desenvolvimento,  conduziu  também  a  que  os  programas  e  projectos  se  organizassem  em  função  das  percepçõ es  e  reflectissem  substancialmente  os  interesses  particulares  daquelas  elites.  Por  fim,  um  outro  aspecto  crítico  identificado  nestas  iniciativ as  alternativas  de  desenvolvimento  prende ‐ se  com  o  modo  como  as  relações  sociais  promovidas  e  as  estruturas  criadas  de  facto  reflectem,  ou  não,  as  preocupações  e  os  pressupostos  de  uma  concepção  de  dese nvolvimento  que  se  afirma  participativa,  equitativa,  solidária.  Na  perspectiva  crítica  de  Brohman  (2001:223)  há  que  reconhecer  que,  por  vezes,  analisadas  as  relações  sociais  e  as  estruturas  organizativas,  se  identifica  a  tendência  para  que  mais  do  que  se  constituírem  em  instrumentos  de  mudança  progressiva,  estes  programas  e  projectos  se  tornem  instrumentos  de  cooptação  e  de  manipulação  ao  serviço  das  classes  dominantes  ou  das  elites  lo cais,  o  que  tamb ém  significa  que,  para  que  isto  aconteça,  os  programas  e  projectos  de  desenvolvimento  alternativo  acabem  por  encarar  as  comunidades  como  realidades  homogéneas  e,  com o  tal,  acabem  a  negar  a  expressão  das  subjectividades,  e  a  não  atender  efecti vamente  às  necessidades,  desejos  e  interesses  diferentes  e/ou  divergentes  que  coexistem  nas  comunidades  (nomeadamente  permeados  pelas  questões  da  idade,  do  género,  da  classe,  da  etnia...).   Embora  possamos  facilmente  reconhecer  a  permanência  nos  dias  de  hoje  de  preocupações  trazidas  para  a  arena  da  discussão  sobre  o  desenvolvimento  por  estas  236 Esta  última  questão  foi  igualmente  abordada  em  outro  momento,  reforçando ‐ se  a  ideia  de  que  a  actual  tendência  para  declinar  a  problemática  da  intervenção  comunitária  em  torno  das  agências  de  desenvolvimento  e  dos  “ especialistas  especialmente  especializados ”  também  contrib ui  fortemente  para  a  desqualificação  dos  militantes  da  acção  comunitária  e  promove  “ a  cristalização  de  uma  ideologia  do  sacrifício  que  inibe  que  eles  se  reconheçam  no  sentido  da  sua  própria  acção ”  (Correia  &  Caramelo,  2001:89),  sugerindo ‐ se,  em  contraponto,  a  necessidade  de  promover  uma  abordagem  ao  trabalho  comunitário  que  permitisse  amplificar  os  “ discursos  da  prática ”,  ou,  como  ness e  momento  se  dizia,  “ pensar  o  trabalho  comunitário  como  dispositivo  promotor  de  «narrativas  comunitárias»  susceptíveis  de  inibir  a  tendência  para  o  silenciamento  dos  práticos ”  ( idem ,  ibidem :  89).  Uma  das  abordagens  mais  sedutoras  acerca  da  possibilidade  de  amplificar  a  voz  das  narrativas  comunitárias  e,  simultane amente,  de  abordar  a  questão  da  relação  entre  saber  profano  e  saber  sábio  –  que  nos  pode  ajudar  a  tec er  um  quadro  alternativo  para  pensar  esta  dinâmica  entre  saber  local  e  endógeno  e  o  saber  técnico ‐ científico  e  exógeno,  entre  a  acção  militante  e  a  acção  especialista  ou  entre  a  acção  comunitária  e  a  intervenção  comunitária  –  é  des envolvida  por  Callon,  Lascoumes  et  al .  (2001).  Estes  autores  desenvolvem  uma  abordagem  das  relações  entre  saber  e  poder  e  avançam  com  a  proposta  de  uma  nova  concepção  de  de moc rac ia.  O  seu  pont o  de  partida  é  a  constatação  do  aumento  das  controvérsias  públicas  que  são,  simultaneamente,  controvérsias  sócio ‐ técnicas  e  que  resultam,  em  grande  medida,  do  facto  de  que  o  desenvolvimento  da  ciência  e  das  técnic as  não  vir  a  ser  acompanhado  necessariamente  por  um  aumento  das  certezas  do  conhecimento.  Mas,  ao  invés  desta  constatação  constituir  um  lamento,  estas  controvérsias  são  analisadas  segundo  a  perspectiva  da  sua  fecundidade  precisamente  se  abordadas  a  partir  de  um  aprofundamento  democrático  que,  para  os  auto res,  passa  por  uma  nova  concepção  de  democracia  técnica  que  nos  permita  evoluir  da  democracia  representativa  ou  delegativa  par a  uma  democracia  dialógica .  Este  processo  de  democracia  dialógica  é  para  Callon,  Lascoumes  et  al .  (2001)  um  “ processo  de  aprendizagem  colectivo ”  que  obriga  a  uma  reformulação  das  lógicas  hegemónicas  de  delega ção  do  saber  cie ntífico  nos  especialistas  e  de  delegação  do  poder  político  em  representantes  e  supõe  um  [Document text truncated for crawler view.]