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Os Determinantes da Procura de Museus

João Filipe Pereira da Silva

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Dissertação de Mestrado em Economia Os Determinantes da Procura de Museus João Filipe Pereira da Silva Orientado por José Manuel Janeira Varejão Setembro 2015 i Biografia do Autor João Filipe Pereira da Silva nasceu a 13 de janeiro de 1990 no concelho de Matosinhos, onde estudou até ao momento de ingressar no ensino superior. Entre 2008 e 2012 estudou na Faculdade de Economia da Universidade do Porto. A nível de disciplinas opcionais optou por Mercados para a Cultura, Economia Regional e Urbana e Economia do Ambiente, complementando o percurso com Sociologia da Cultura, disciplina nuclear do 3º ano da licenciatura em Sociologia. Com o objetivo de solidificar a sua formação académica, ingressou no Mestrado em Economia da mesma instituição. Em março de 2013 apresentou duas comunicações no congresso «Portugal: 40 anos de Democracia», na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, uma delas consistiu na apresentação de alguns resultados preliminares desta dissertação. A nível profissional desempenha funções de consultoria na Quaternaire Portugal – Consultoria para o Desenvolvimento, S. A., desde agosto de 2013, onde já participou na Avaliação Ex-ante do Programa Operacional Centro e Alentejo, no Plano de Alinhamento Intermunicipal do Algarve, Plano de Ação da Comunidade Intermunicipal do Cávado e Infraestruturas para a Competitividade do Eixo Atlântico, entre outros. ii Agradecimentos Em primeiro lugar, agradeço aos meus pais e avós pela educação que me transmitiram. Agradeço também aos amigos que me têm acompanhado neste processo, desde das palavras de incentivo, até aos períodos de companhia enquanto nele trabalhava. Uma parte do meu período académico foi passado com alguns companheiros de cidadania. Agradeço-lhes o companheirismo. Seguidamente detalharei alguns cumprimentos especiais a nível académico. Agradeço à professora Isabel Campos pelo incentivo em prosseguir estudos neste domínio, à professora Helena Santos e ao professor João Teixeira Lopes pelos conhecimentos que me forneceram ao nível da cultura, tanto na dimensão sociológica, como na dimensão económica. Por último, agradeço ao professor José Varejão por me ter acompanhado na elaboração da dissertação e orientado todo este processo. Agradeço também, por fim, a todos os colegas da Quaternaire Portugal, mas de forma especial agradeço a confiança depositada em mim pelo professor António Figueiredo. Chegou a hora de apresentar o resultado e espero que vá ao encontro das expetativas de todos os que de alguma forma contribuíram para este produto final. iii Resumo Este estudo pretende identificar (i) qual a elasticidade-preço da procura dos museus portugueses, assim como (ii) quais são os determinantes da procura de museus. Para alcançar os objetivos pretendidos estimou-se uma regressão econométrica através do modelo dos efeitos fixos para dados em painel. O modelo assume como variável dependente o logaritmo do número de visitantes dos museus tutelados pelo antigo Instituto dos Museus e da Conservação. As variáveis de controlo são os logaritmos do preço de ingresso para adultos, do ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem, do número de exposições em galerias e do número de espetáculos performativos; assim como a proporção de crianças, seniores e de pessoas com ensino superior na região em que o museu se encontra. Por fim, também se incluíram variáveis dummy, sendo que o ano assume valor de um quando o museu esteve encerrado, quando o museu reabriu e na presença de uma exposição temporária relevante. Em relação ao preço, existe uma reduzida elasticidade-preço da procura de 0.4. Os restantes resultados permitem concluir que a procura é afetada positivamente pelas exposições temporárias, pelas reaberturas após um longo período de encerramento, pela disponibilidade de serviços substitutos mais próximos - como o aumento do número de exposições – e pela escolarização da população da região em que o museu se encontra. Por outro lado, a procura de museus depende negativamente do preço e dos encerramentos parciais por motivos de requalificação. Códigos JEL: C33 e D12 Palavras-chave: economia, cultura, museus, determinantes, procura, preço, dados em painel i Abstract The purpose of this study is identify (i) what is the price elasticity of demand for Portuguese museums, as well as (ii) what are the demand determinants for museums. To achieve these goals we estimate an econometric regression using fixed-effects model for panel data. The model assumes as dependent variable the logarithm of museums visitors by the former Instituto de Museus e da Conservação. Control variables are the admission price for adults, the average of employees monthly income, the number of exhibitions and number of performative shows; as well the share of children, seniors and superior qualification in the region where the museum is located. Finally, it also contains dummy variables which it assumes 1 when the museum was closed, reopened and in presence of a relevant temporary or special exhibition. Concerning the price, the results found a reduced price elasticity of demand around 0.4. The remaining results indicates a demand positively affected by special exhibitions, reopening after a closed period, availability of close substitutes services - such an increasing of the number of exhibitions – and people qualifications in museum region. On the other hand, the demand for museums depends negatively on the price and partial closed museums. JEL codes: C33 e D12 Keywords: economy, culture, museums, demand, price, panel data ii Índice Introdução 1 Capítulo 1. Economia e museus 7 1.1. A economia da cultura e a análise dos museus do ponto de vista económico 7 1.2. Determinantes da procura de museus 11 1.3. A definição do preço e a crescente importância das receitas próprias 15 Capítulo 2. Museus em Portugal 20 Capítulo 3. Visitantes dos museus da Direção Geral do Património Cultural 28 3.1. O fenómeno dos visitantes livres 30 3.2. Evolução dos visitantes às exposições 31 3.3. A importância dos visitantes estrangeiros 36 3.4. Considerações finais 38 Capítulo 4. Caracterização dos dados 40 Capítulo 5. Determinantes da procura dos museus da Direção Geral do Património Cultural 48 5.1. Metodologia 48 5.2. Resultados 52 5.2.1. Visitantes totais 52 5.2.2. Visitantes nacionais 56 Síntese e conclusões 61 Referências bibliográficas 66 iii Índice de Figuras Figura 1. Síntese do plano de dissertação 5 Figura 2. Museus, em Portugal, por tipologia de tutela, em 2009 20 Figura 3. Mapa indicativo dos museus da Direção Geral do Património Cultural 27 Índice de Quadros Quadro 1. Caraterização dos museus, em Portugal, por tipologia da coleção, em 2013 22 Quadro 2. Fontes de informação 40 Quadro 3. Síntese da informação descritiva dos museus 45 Quadro 4. Definição das variáveis 50 Quadro 5. Descrição das variáveis 51 Quadro 6. Resultados da estimação econométrica de origem agregada por variável dependente (bilhetes pagos) 54 Quadro 7. Resultados da estimação econométrica por variável dependente (ingresso gratuito) 55 Quadro 8. Resultados da estimação econométrica de origem nacional por variável dependente (bilhetes pagos) 59 Quadro 9. Resultados da estimação econométrica de origem nacional por variável dependente (ingresso gratuito) 60 Índice de Gráficos Gráfico 1. Museus, entre 1974 e 2012, por ano (número) 22 Gráfico 2. Visitantes, entre 1974 e 2012, por ano (número) 23 Gráfico 3. Visitantes totais dos museus da DGPC, entre 2001 e 2011, por museu (número) 28 Gráfico 4. Visitantes dos museus da DGPC acumulados, entre 2001 e 2011, por museu (%) 30 Gráfico 5. Visitantes dos museus da DGPC que adquiriram “bilhete normal”, entre 2001 e 2011, por museu (número) 32 Gráfico 6. Visitantes dos museus da DGPC ao domingo e feriado, entre 2001 e 2011, por museu (número) 33 Gráfico 7. Visitantes dos museus da DGPC com idade inferior a 15 anos, entre 2001 e 2011, por museu e proporção de crianças em relação ao total de população (número e %) 34 Gráfico 8. Visitantes dos museus da DGPC com idade superior a 64 anos, entre 2001 e 2011, por museu e proporção de seniores em relação ao total de população (número e %) 36 Gráfico 9. Visitantes dos museus da DGPC, entre 2001 e 2011, por nacionalidade 37 Gráfico 10. Hóspedes (número) nos estabelecimentos hoteleiros, entre 2006 e 2011 37 iv Abreviaturas CE Comissão Europeia DGPC Direção Geral do Património Cultural IMC Instituto dos Museus e da Conservação INE Instituto Nacional de Estatística LGF Local Government Forum 1 Introdução A relação entre o campo cultural e a economia tem-se intensificado nas últimas décadas devido à crescente importância do peso do setor em variáveis como o emprego ou a produção, pela sua capacidade de impulsionar externalidades nas regiões, mas também pela intervenção do Estado (Herrero et al., 2006; Frey, 2003). Os museus também têm apresentado um desempenho cada vez mais relevante na economia, como demonstram as variáveis económicas. Em 2011, em Portugal, a despesa pública total com os museus foi de 38 milhões de euros, o que correspondeu a 0.02% do produto interno bruto do país (INE, 2012). O número de visitantes dos museus, em 2013, ascendeu a onze milhões, o que correspondeu a um aumento de 9.8% face ao ano anterior (INE, 2013, 2014). Apesar disso, escasseiam os trabalhos de análise dos museus na perspetiva económica relativamente à realidade portuguesa. Os estudos existentes incidem meramente sobre os seus impactos económicos (Costa et al., 2012; Castro et al, 2013), sobre as características das experiências dos visitantes (Barbosa e Brito, 2012; Costa et al., 2014) ou sobre o seu desempenho económico (Carvalho et al., 2014). De forma genérica, as atividades culturais e criativas podem ser tipificadas, em termos da organização económica, da seguinte forma: indústrias culturais (editorial, musical, cinematográfica, média e internet), belas-artes, museus (e monumentos) e artes performativas (Throsby, 2010; Towse, 2010). Por vezes, esta dissertação faz referência a trabalhos que transcendem a abordagem dos museus por insuficiência de trabalhos teóricos ou empíricos relativamente a uma temática em particular, como no caso dos determinantes da procura, uma vez que existem inúmeros estudos publicados e é uma atividade que apresenta caraterísticas semelhantes no seio da disciplina, nomeadamente ao nível da estrutura de custos (apresenta elevados custos fixos), dilemas relacionados com produtividade pela dificuldade em internalizar tecnologia e pela complexidade em aferir a qualidade dos serviços ou medir a produção (Heilbrun e Gray, 2001; Doyle, 2010). O domínio da economia aplicada à cultura que mais tem sido alvo de estudo relativamente aos determinantes da procura são as artes performativas. Estes estudos têm concluído que entre os fatores que mais têm determinado a procura de espetáculos performativos encontram-se o preço do bilhete, o número de atuações, a reputação do 8 de oportunidade (Throsby, 2001; O’Brien, 2010). Este conceito de custo de oportunidade é particularmente relevante no caso das atividades sem mercado definido ou de bens e serviços com provisão “gratuita” ao consumidor. Existe um amplo debate sobre a delimitação da fronteira do setor cultural. Nesse sentido, importa agora referir que adota-se o enquadramento que considera, por um lado, o património e as instituições culturais (museus, bibliotecas ou monumentos), as belas-artes e as artes performativas (ópera, dança ou teatro); e, as atividades culturais (média, cinema ou música), por outro, como parte integrante desta especialização económica (CE, 2006; Towse, 2010; Throsby, 2010). Todas estas áreas estão incluídas nos serviços e, por isso, a medição da produção é mais difícil do que em relação à produção de bens (Heilbrun e Gray, 2002) e a perceção da qualidade do que é produzido é mais difícil de medir do que nos restantes setores da economia porque, como abordaremos neste estudo em momento oportuno, os serviços e bens culturais apresentam a característica de learning-byconsuming (Brito e Barros, 2005; Alderighi e Lorenzini, 2012). Para além disso, é comum que as instituições culturais integrem o setor público e mesmo quando não o integram, assumem-se como organizações sem fins lucrativos (Throsby, 1994; Brooks, 2006). Um denominador comum nestas atividades é a propensão para que os custos fixos tendam a ser elevados seja pelo valor do ativo (Frey, 2003), seja pelo aumento do custo do trabalho (Brooks, 2006), embora as áreas mais intensivas em tecnologia como as indústrias culturais consigam ganhos de produtividade mais significativos do que os restantes domínios (Fazioli e Filipini, 1997). A gestão das organizações e instituições culturais obedece a padrões muito semelhantes (Netzer, 2011), embora os museus tenham preocupações mais sérias quanto à conservação dos ativos e património (Johnson e Thomas, 1998). Por fim, é necessário distinguir alguns domínios mais comercializáveis, como as indústrias culturais, que apresentam preocupações mais padronizáveis à economia de mercado e assimiláveis com outros setores (Towse, 2010; Walls, 2014). Então, pelas características apresentadas, algumas conclusões setoriais são passíveis de extrapolação. Os museus podem ser importantes para os consumidores como atividade de lazer, mas também são importantes atrações turísticas com efeitos significativos na economia local (Frey e Meier, 2006). A 21ª Assembleia Geral do Conselho Internacional de Museus, realizada em 2007, consagrou o museu como “uma organização sem fins lucrativos, que 9 trabalha ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, pesquisa, comunica e expõe a herança tangível e intangível da humanidade, sendo espaço para a educação, o estudo e o lazer” 1 . Existem outras definições, nomeadamente a que enfatiza a sua função de conservação, que os considera como arquivo de objetos com valor cultural e educativo (Johnson e Thomas, 1998) ou a que sublinha o seu papel recreativo, mas também de indutor de novas tendências culturais, para além do seu papel educativo e de conservação (Maddison e Foster, 2003). A definição de museu tem-se alterado em função das mutações ocorridas na sociedade, existindo um espectro alargado de funções desempenhadas pelos museus: educação, conservação, investigação, coleção e exibição (Heilbrun e Gray, 2001). A análise económica é importante neste setor porque, também nele, os recursos podem ter usos alternativos e a abordagem económica permite construir mecanismos de avaliação para a tomada de decisão (Throsby, 2001). A economia aplicada aos museus ajuda na tomada de decisão, nomeadamente como alocar recursos ao longo das suas funções múltiplas, como gerir os seus portfólios de investimento (incluindo obras de arte), como encontrar financiamento para cobrir as despesas ou qual o preço a cobrar pela entrada (Heilbrun e Gray, 2001). É indispensável falar do papel do Estado quando se estudam os museus porque este desempenha um papel importante no financiamento, mas também garante a função de regulação do mercado (Johnson e Thomas, 1998). A promoção da identidade e de sentido de pertença, a captação de turistas ou mesmo a demonstração de poder, apresentam-se como alguns dos objetivos políticos que justificam a presença do setor público neste domínio (Towse, 2010). Contudo, em concreto, existem pelo menos duas razões para o Estado subsidiar a cultura: ineficiência na alocação dos recursos, a chamada falha de mercado, e a distribuição desigual da riqueza (Heilbrun e Gray, 2001). Na literatura, é a falha de mercado que é apontada como principal argumento para justificar a intervenção do Estado (Heilbrun e Gray, 2001; Towse, 2010). Uma falha de mercado acontece sob determinadas condições, nomeadamente (i) quando a estrutura de mercado do bem em causa é de concorrência imperfeita e exerce poder de mercado, (ii) 1 Informação consultada no dia 5 de setembro de 2014, pelas 11:36, no sítio oficial da organização: http://icom.museum/the-vision/museum-definition/ 10 na ocorrência de externalidades, (iii) face a assimetria de informação antes e após o momento da transação, (iv) nos setores com custos decrescentes; e, como já se analisou, (v) quando o bem apresenta características de bem público (Netzer, 1978; Peacock, 1994; Motta, 2004; Pereira, 2012). As organizações com poder de mercado têm capacidade para transacionar a um preço superior ao preço de concorrência perfeita, significa que podem transacionar uma quantidade inferior à quantidade que maximizaria o bem-estar (Motta, 2004), mas mesmo que o número de museus existentes seja, em média, reduzido, principalmente na presença de localidades sem tradição turística ou centralidade regional e, por isso, com algum poder de mercado, a maioria dessas instituições têm uma missão que não se orienta para o lucro, não exercendo esse poder (Heilbrun e Gray, 2001). Para além disso, estas organizações assumem custos decrescentes, sendo neste caso mais eficiente existir apenas poucas instituições e não muitas (Heilbrun e Gray, 2001). Por sua vez, os benefícios externos do consumo podem justificar a intervenção do estado no sentido de que as atividades culturais permitem aumentar a utilidade privada individual do consumo, mas outros podem beneficiar desse consumo (Towse, 2010). Ora, a presença de exposições que sensibilizam para determinadas problemáticas sociais resultam numa maior consciencialização dos visitantes relativamente a realidades diferentes da sua, mesmo que apenas exista subsidiação do custo da visita ao museu e a sua respetiva experiência de consumo. Adicionalmente, a intervenção do Estado é justificada no sentido de preservar o legado para as futuras gerações, acautelando, portanto, um benefício para o futuro, mas também induz benefícios para outras atividades como no caso do setor turístico (Peacock, 1994, 2006). A subestimação dos benefícios desta tipologia de consumos e as externalidades positivas desse mesmo consumo possibilitam a inserção dos museus na categoria de bens de mérito, nomeadamente pelos seus benefícios educativos (Johnson, 2003). Por fim, a falta de informação poderá resultar numa subvalorização da utilidade que o consumidor retira de uma visita ao museu, desvalorizando a sua fruição e experiência face a quem tem stock de capital cultural diferente; assim, o subsídio poderá cobrir a diferença entre o custo percebido pelo utilizador e o seu custo efetivo (Netzer, 1978; Towse, 2010). A literatura considera que os benefícios do acesso a museus assumem características de bem público no sentido em que possui duas caraterísticas: a quantidade consumida por um individuo não diminui a quantidade disponível para outro individuo; e, não é possível 11 restringir o acesso ao seu consumo (Heilbrun e Gray, 2001; Towse, 2010), ainda que seja pouco realista considerar a impossibilidade de exclusão pelo preço (Towse, 2010; LGV, 2008), mesmo que existam benefícios além da própria utilidade do consumo. Se flexibilizarmos essa característica, chega-se à definição de bem de clube. Avançada em 1965, a definição de bem de clube distingue-se de bem público puro exatamente na componente da não exclusão já que existe um conjunto de pessoas que retiram utilidade do bem, as que pertencem ao clube, e as restantes são restringidas, mantendo a característica da não rivalidade (Buchanan, 1965; Cornes e Sandler, 1984). Não obstante os elementos que justificam o financiamento e a intervenção pública neste mercado, também existem argumentos que defendem o mercado livre. Por um lado, o financiamento público incentiva à provisão de forma ineficiente; por outro lado, subsiste a possibilidade de existir uma falha de governo, ou seja, que a intervenção estatal não mitigue a falha de mercado, nomeadamente por falta de informação ou limitações legais (Towse, 2010; Pereira, 2012). Estes argumentos, mas também a pressão que resulta de um aumento da dívida pública dos países, têm levado os governos a reduzirem as dotações orçamentais dos museus e estes procuram estar mais orientados para o financiamento direto por parte dos visitantes e, portanto, para a procura (Johnson, 2003; Frey, 2003; Frey e Meier, 2006). 1.2. Determinantes da procura de museus De acordo com a teoria económica, a quantidade procurada de um bem, 𝑄𝐷, depende, entre outros fatores, do preço do bem, 𝑃 𝑥; do preço de bens substitutos, 𝑃 𝑦; do preço dos bens complementares, 𝑃 𝑧; das expetativas sobre preços futuros, 𝑃𝑒(𝑡+1); do rendimento dos consumidores, 𝑌; da dimensão do mercado, 𝑁; e, das preferências dos consumidores, 𝑇 (Samuelson e Nordhaus, 2012; Frank e Bernanke, 2003). Assim, a função procura poderá ser escrita da seguinte forma: (1.1) 𝑄𝐷= 𝑓(𝑃 𝑥,𝑃 𝑦,𝑃 𝑧,𝑃𝑒(𝑡+1),𝑌,𝑁, 𝑇) Antes de avançar na explicação, deve-se ter em conta que o efeito de substituição é mais facilmente detetável em estudos no seio de uma categoria específica individualizada do que numa área agregada, isto é, os estudos demonstram que mais facilmente se deteta a suscetibilidade de uma variação da procura entre o museu 𝑖 e os restantes museus, do que 12 uma sensibilidade na procura agregada dos museus em relação às restantes possibilidades de consumo (Heilbrun e Gray, 2001; Stavins, 1997). Então, a procura de um setor (agregada) é distinta da procura de um bem em específico (Frank e Bernanke, 2003). A dimensão do mercado é relevante porque os museus não se localizam de forma uniforme no território, por um lado; e o mercado é normalmente superior à circunscrição geográfica em que se insere, por outro (Frey e Meier, 2006; Towse, 2014). No domínio das artes, e relativamente às preferências do consumidor, escreve-se que elas se formam através de learning-by-consuming, tal significa que os consumidores acumulam todas as experiências e a cada nova experiência haverá uma variação nas preferências conforme ela se assuma como positiva ou negativa, isto é, se o consumidor avaliou a experiência como positiva ou não (Brito e Barros, 2005; Alderighi e Lorenzini, 2012). Esta característica não é completamente compatível com a teoria económica avançada logo no início desta secção uma vez que a mesma pressupõe que os gostos são uma variável exógena ao modelo e constante, por um lado, e os consumidores têm a completa informação do mercado, por outro (Towse, 2010). Sendo assim, é necessário justificar que, sendo a função utilidade a satisfação retirada dos diferentes níveis de consumo possíveis, resultado do conjunto de preferências do consumidor, as preferências do consumidor dependem do consumo prévio desse bem e a utilidade depende das experiências de consumo (Lévy-Gourboa e Montmarquette, 1996). Por outro lado, para minimizar a falta de informação que os consumidores detêm relativamente ao mercado, recorrem à informação provisionada pelos críticos e, sendo um consumo partilhado, não está ausente de enviesamentos em relação à escolha racional individual (Towse, 2010). A maioria dos estudos sobre os determinantes da procura de produtos culturais incidem sobre as artes performativas (Felton, 1992; Abbé-Decarroux, 1994; Lévy-Garboua e Montmarquette, 1996; Corning e Levy, 2002; Urrutiaguer, 2002; Seaman, 2006; Grisolía e Willis, 2012; Legoux et al., 2014). Estes estudos concluem que os fatores que determinam a procura de espetáculos performativos são o preço do bilhete, o número de atuações, a reputação do artista/grupo/companhia (Abbé-Decarroux, 1994; Urrutiaguer, 2002), mas também as despesas de marketing, o preço dos espetáculos substitutos, a dimensão do mercado geográfico e o estilo de música (Felton, 1992). Adicionalmente, também se pode considerar a capacidade dos espaços e os prémios como determinantes da procura (Corning e Levy, 2002). A reduzida elasticidade-preço da procura não é 13 consensual entre os estudos, muito porque existem alguns trabalhos mais orientados para um setor específico (Urrutiaguer, 2002; Grisolía e Willis, 2012) face a outros que agregam os dados diversos para analisar as artes performativas como um todo (Seaman, 2006). No entanto, pode inferir-se que a procura é pouco elástica nas organizações mais consagradas (Abbé-Decarroux, 1994; Zieba, 2009), embora em outros estudos a elasticidade-preço seja negativa (Lévy-Garboua e Montmarquette, 1996; Legoux et al., 2014). Ainda assim, o preço pode ser visto como chancela de qualidade e, para esses consumidores, a sensibilidade ao preço pode ser diferente de zero e positiva (Urrutiaguer, 2002; Grisolía e Willis, 2012). Normalmente, no caso do teatro, a elasticidade-preço tende a ser positiva e elevada (Lévy-Garboua e Montmarquette, 1996; Schimmelpfennig, 1997; Corning e Levy, 2002). Quanto à elasticidade-rendimento da procura, nos estudos mais recentes existe evidência que comprova alguma sensibilidade da procura ao rendimento nas artes performativas (Lévy-Garboua e Montmarquette, 1996; Zieba, 2009; Legoux et al., 2014), embora em outros exista evidência de reduzida elasticidade (Moore, 1966; Gapinski, 1986). Em regra, são os estudos que se debruçam sobre o teatro que evidenciam uma elasticidade-rendimento diferente de zero e positiva (Levy-Garboua e Montmarquette, 1996; Zieba, 2009; Legoux et al., 2014). Os estudos da procura dos museus variam entre estudos econométricos ou trabalhos de caracterização demográfica dos visitantes. Relativamente aos museus, então, existem alguns estudos de público, que versam sobre as características dos visitantes dos museus (DiMaggio, 1991; Lampi e Orth, 2009; Brida et al., 2013; Costa et al., 2014), mas existem escassos trabalhos empíricos sobre os determinantes da procura de museus (Luksetich e Partridge, 1997; Darnell et al., 1998). Os trabalhos disponíveis indiciam que a procura de museus depende, por um lado, negativamente do preço, do rendimento do agregado e da idade; e, por outro lado, varia positivamente com o número de membros das associações de amigos dos museus, do valor da coleção do museu, da antiguidade da instituição e do número de horas em que o museu está aberto ao público por semana (Luksetich e Partridge, 1997). Para além dos fatores já referidos anteriormente, no caso dos museus, a elasticidade-preço tende a ser reduzida porque o preço de ingresso representa apenas uma pequena proporção do custo total da visita, sendo que o peso maior reflete-se no custo de transporte, de alojamento e de alimentação (Heilbrun e Gray, 2001). Entende-se por procura pouco elástica quando 14 uma variação relativa no preço provoca uma pequena variação relativa na procura (Samuelson e Nordhaus, 2012; Frank e Bernanke, 2003). Dependendo do tipo de museu, e excluindo o cluster de museus de História, um aumento de 1% do preço tem um impacto de redução da procura entre 0.12, elasticidade-preço da procura para os museus não especializados, e 0.20, elasticidade-preço da procura verificada para os museus de história natural norte-americanos, sendo que, portanto, no caso dos museus de arte a elasticidadepreço é inferior (Luksetich e Partridge, 1997). Já no caso de um museu inglês, o Museu de Bowes, a elasticidade-preço da procura ronda os 0.26 (Darnell et al., 1998). Quanto ao rendimento, embora também não seja um resultado consensual entre os estudos, verifica-se uma relação negativa entre o número de visitas e o rendimento. Tal pode dever-se ao aumento dos custos de oportunidade à medida que o rendimento aumenta, sendo mais forte o efeito substituição (Steiner, 1997; Frey, 2003; Frey e Meier, 2006). Não obstante a ausência desta variável nos estudos econométricos anteriormente referidos, as exposições temporárias ou especiais têm-se revelado importantes indutores da procura (Frey e Meier, 2006). Em primeiro lugar, revelam-se úteis para atrair novos visitantes (Frey, 1998). Para além disso, estas exposições induzem a procura entre os visitantes nacionais, principalmente os visitantes que se localizam na própria região onde o museu está localizado, porque os custos indiretos diminuem, sendo que estes absorvem a maior fatia dos custos associados às visitas dos indivíduos; por outro lado, permitem a atração do turismo pela oportunidade excecional destes consumidores acederem ao bem (Frey, 2013). Associado a este último argumento, a excecionalidade, por um lado, e a oportunidade, por outro, reduzem a elasticidade-preço da procura das exposições temporárias, o que faz com que seja expetável um preço superior às exposições permanentes ou a simples prática de fixação de preço no caso de os museus serem de acesso gratuito (Towse, 2010). Aliás, esta análise segmentada dos visitantes permite identificar de uma forma mais eficaz as possibilidades de discriminar preços em função das elasticidades-preço da procura, ou seja, da disponibilidade dos visitantes para pagar um determinado preço (O’Hagan, 1995; Espelt e Benito, 2006). Por fim, estas exposições reforçam a notoriedade do museu (Bayart e Benghozi, 1993; Frey, 2013). Os trabalhos disponíveis indicam que a elasticidade-preço da procura depende do tipo de museu, mas tende a ser reduzida, principalmente para os museus de arte (Luksetich e Partridge, 1997). Apesar de apresentarem um resultado diferente entre instituições, as 15 receitas de bilheteira representam uma fração significativa do orçamento (Trupiano, 2005) e a baixa elasticidade sugere que seja possível aumentar as receitas via aumento do preço de acesso (Luksetich e Partridge, 1997; Darnell, 1998; Frey e Meier, 2006). Nesta situação, um incremento do preço resulta num reforço da receita total uma vez que a redução da quantidade procurada, resultado de um preço superior, é proporcionalmente menor do que o aumento da receita (Mankiw e Taylor, 2011; Pindyck e Rubinfeld, 2013). Assim, existe um trade off entre o aumento da procura pela via do preço e o lucro, uma vez que a maximização da receita pode restringir o acesso, mas para compreender essa dimensão é necessário conhecer a curva da procura, nomeadamente os seus determinantes (Darnell., 1998). 1.3. A definição do preço e a crescente importância das receitas próprias Existem trabalhos que analisaram o efeito do preço, nomeadamente na procura de museus, mas que não tinham como objetivo o cálculo da elasticidade-preço da procura. O preço de acesso aos museus pode assumir três modalidades: zero, consistir numa contribuição voluntária ou obrigatória, podendo também haver discricionariedade no preço dependendo da tipologia da exposição ou do visitante. A existência de preço poderá ser invocada para conservação da coleção, razões económicas como a eficiência ou aspetos políticos e sociais (Frey e Steiner, 2012). Adicionalmente, para além de aumentar os custos de manutenção da própria infraestrutura, o excesso de visitantes poderá causar danos nas coleções e poderá prejudicar a satisfação que se retira da experiência, os chamados custos de congestionamento (Falconer e Blair, 2003; Maddison e Foster, 2003). Por outro lado, a gratuitidade é uma opção de gestão que continua a reunir adeptos e, de acordo com alguns estudos, permite aumentar os visitantes no seio da população com um nível menor de escolaridade (Anderson, 1998). Contudo, alguns estudos revelam que nos grupos mais distantes dos equipamentos culturais o preço não é determinante (Bailey e Falconer, 1998). Para além disso, do ponto de vista da redistribuição do rendimento (função do Estado), não é fácil justificar esta medida de alargamento do acesso aos museus. A evidência empírica sugere que sejam as pessoas com maiores rendimentos que visitam com maior frequência os museus, o que com entrada gratuita significa que essas classes são beneficiadas pela subsidiação do ingresso, não existindo transferência de rendimento 16 para os que têm rendimentos inferiores, mas sim para os que já têm rendimento superior (Lampi e Orth, 2009). Então, tem surgido a opção de pagamento voluntário no final da visita, obrigando o museu a investir no aumento da utilidade que o visitante retira da experiência (Frey e Steiner, 2012). A evidência sugere que, em concordância com o que já se analisou anteriormente, existe um impacto negativo no número de visitantes quando se verifica uma variação positiva no preço (Johnson, 2000). Adicionalmente, quando se acrescenta um dia com acesso gratuito durante o horário do museu, existe um aumento do número de visitantes na ordem dos 65% face aos restantes dias em que o acesso não é gratuito (Steiner, 1997). Contudo, a gratuitidade ou o preço reduzido são um entrave ao financiamento das organizações. À semelhança do que acontece nas restantes organizações, os museus necessitam de recursos para se manterem em atividade. Esta necessidade de recursos pode destinar-se à cobertura dos custos operacionais ou de conservação de coleções (Steiner, 1997; Frey e Meier, 2003). A estrutura de custos dos museus é caracterizada por elevados custos fixos e o custo marginal, em função do número de visitantes, tende para zero (Heilbrun e Gray, 2001; Frey, 2003; Frey e Meier, 2006). Os museus têm procurado um financiamento misto que combina a receita corrente com contribuições públicas e privadas (Lindqvist, 2012). Ao longo das últimas décadas, proliferaram organizações híbridas (com financiamento público e privado) e tem-se tornado cada vez mais comum estudar as diferenças na organização e nos resultados dos museus (Schuster, 1998, 2001). O financiamento dos museus, sendo de propriedade privada ou pública, pode advir de dotações orçamentais da administração pública (central, regional ou municipal), de donativos, de receitas correntes, de subsídios, patrocínios ou de associações de amigos (Lindqvist, 2012; Trupiano, 2005). Com o objetivo de promover a equidade, o Estado pode subsidiar integralmente o preço de acesso (Heilbrun e Gray, 2001), facto que condiciona ou não a política de receitas de uma instituição. Considera-se que, no caso de existir, o preço de acesso corresponde a “uma parte vital das finanças do museu” (Lindqvist, 2012) e de qualquer instituição cultural (Gapinski, 1986) e deve, no caso das instituições públicas, apenas cobrir os custos marginais (O’Hagan, 1995), tal significa que o museu assume prejuízos. 17 O financiamento via subsídios públicos significa que todos os cidadãos, independentemente da utilização de um bem, financiam-no através de impostos. Existe evidência contraditória no tocante ao efeito do financiamento público. Existem trabalhos que concluem que existe independência entre as fontes de financiamento no caso das orquestras sinfónicas americanas (Brooks, 1999, 2003) ou que concluem pela presença de uma relação positiva entre os subsídios (Khanna e Sandler, 2000). Ainda assim, os trabalhos que versam sobre as organizações sem fins lucrativos indicam que a relação entre os subsídios públicos e privados é inversa (Kingma, 1989; Khanna et al., 1995; Smith, 2003). Assim, existem estudos que sugerem que o financiamento público por parte da administração central depende negativamente do apoio das autarquias locais e positivamente do valor das coleções e da idade do museu; assim como o apoio local depende negativamente da dotação orçamental da administração central e positivamente do número de visitantes e da evolução das despesas (Hughes e Luksetich, 1999; Maddison, 2004). Adicionalmente, existe evidência de que as transferências do setor público influenciam positivamente a decisão de apoio financeiro por parte do setor privado; mas, a partir de um certo montante financeiro, a relação existente entre o financiamento público e privado começa a ser inversa (Hughes e Luksetich, 1999). O aumento das receitas (exceto transferências correntes da administração central) induz um decréscimo no nível futuro dos subsídios, mas essa redução é menos que proporcional ao aumento das receitas restantes (Maddison, 2004). Estes resultados indiciam a existência de crowding-out entre os subsídios públicos e privados (Hughes e Luksetich, 1999; Maddison, 2004). Para os Estados Unidos da América e entre os anos 1986 e 1988, as doações privadas de indivíduos e empresas correspondiam a 6.5% e 27% do total da receita, respetivamente (Rosett, 1991). As receitas correntes são as receitas com as tarifas de acesso, as concessões de espaços, as lojas, os parques ou a cafetaria e são influenciadas positivamente pelo apoio de indivíduos e fundações e negativamente pelo financiamento público, embora sem evidência de que sejam substitutos diretos (Hughes e Luksetich, 1999). Existe evidência de que um visitante adicional resulte num aumento nas vendas da loja em 2.92$ e o efeito das visitas nas receitas do restaurante também sejam positivos (Steiner, 1997). Adicionalmente, também as receitas da produção editorial do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MOMA) correspondem a 30% da receita total (Parkhurst, 1975) e existe 24 execução da política cultural no tocante aos museus e conservação, nomeadamente a gestão dos museus sob tutela do Ministério da Cultura. Ora, tal delegação de competências, dizia respeito a 28 museus dispersos pelo território. Assim, em Lisboa, o IMC estava responsável pela gestão da Casa-museu Dr. Anastácio Gonçalves, do Museu de Arqueologia, do Museu do Chiado, do Museu de Arte Popular, do Museu da Música, do Museu Nacional de Arte Antiga, do Museu Nacional de Etnologia, do Museu Nacional do Azulejo, do Museu Nacional do Teatro, do Museu Nacional do Traje e do Museu Nacional dos Coches. Mais a sul, em Évora, o IMC estava responsável pelo Museu de Évora e pelo Museu Abade de Baçal, localizado mais a norte, em Bragança. Também no Norte, pode-se encontrar o Museu Terras de Miranda (Miranda do Douro), o Museu dos Biscainhos (Braga), o Museu D. Diogo de Sousa (Braga), o Museu Alberto Sampaio (Guimarães), o Museu Nacional Soares dos Reis (Porto) e o Museu de Lamego. O Museu de Aveiro, o Museu Grão Vasco (Viseu), o Museu da Guarda, Museu Nacional Machado de Castro (Coimbra), o Museu Monográfico de Conímbriga (Condeixa-a-Nova), o Museu Francisco Tavares Proença Júnior (Castelo Branco), o Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso (Nazaré), o Museu da Cerâmica e o Museu José Malhoa (ambos em Caldas da Rainha) compõe o conjunto de museus, na região centro do país, cuja gestão foi delegada pelo Ministério da Cultura no IMC. A Figura 3 sinaliza geograficamente cada um dos museus anteriormente referidos. Os museus são altamente diversificados quer quanto à antiguidade, quer quanto à tipologia de catalogação do acervo. Ora quanto à idade, existem museus cuja inauguração aconteceu no século XXI, mas em três remonta ao século XIX. Entre esses museus encontra-se o Museu Nacional Soares dos Reis (que já ultrapassou o século e três décadas de idade, embora tenha estado encerrado entretanto durante alguns anos), o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Nacional de Arqueologia, que foi inaugurado em 1893. No início do século XX foi inaugurado o Museu Nacional dos Coches, em 1905, e o Museu Francisco Tavares Proença Júnior, em 1910. Logo após a implantação da República e durante o período a que historicamente apelidamos de Primeira República foram ainda inaugurados o Museu do Chiado, o Museu Nacional Machado de Castro, o Museu de Évora, Museu Grão Vasco, o Museu de Lamego e o Museu Abade de Baçal. No período do Estado Novo foram fundados mais oito museus, o que perfaz um total de dezanove organismos museológicos até 1974 sem contar com os equipamentos privados 25 e da administração local. Então, em 1931, foi fundado o Museu de Alberto Sampaio e três anos depois o Museu de Alberto Sampaio. Em 1940, foi altura da Guarda receber um museu homónimo e, em 1948, foi criado o Museu de Arte Popular. Já o Museu Monográfico de Conímbriga foi criado em 1962 e o Museu Nacional do Azulejo nasceu em 1965, ano em que também foi criado o Museu Nacional de Etnologia. Por fim, o Museu de Aveiro, embora já existisse, foi aberto ao público em 1974. Dois anos depois, em período de pós 25 de abril, foi fundado o Museu Dr. Joaquim Manso e o Museu Nacional do Traje. Em 1978, foi inaugurado o Museu dos Biscainhos, e dois anos depois foi fundada a Casa-museu Dr. Anastácio Gonçalves. No ano de 1982 foi criado o Museu Nacional do Teatro e o Museu de Terras de Miranda. Já no ano de 1983 foi inaugurado o Museu de Cerâmica e onze anos depois foi inaugurado o Museu da Música. Por fim, já no século XXI, em 2007, foi inaugurado o Museu D. Diogo de Sousa. Em 2011, houve lugar a mais uma fusão envolvendo o IMC. De acordo com o Decretolei N.º 115, de 25 de maio de 2012, a fusão envolveu também o Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico, a Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo, assim como a Comissão para o Património Imaterial. A Direção Geral do Património Cultural (designada a partir deste momento apenas por DGPC) corresponde ao novo organismo que resulta desta fusão de entidades e responde diretamente à Presidência do Conselho de Ministros através da Secretaria de Estado da Cultura, assumindo a prossecução da execução da política museológica, como consta do Decretolei N.º 126, de 29 de dezembro de 2011. Então, sob tutela da DGPC encontram-se os museus nacionais e a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, o Museu da Música, o Museu de Arte Popular e o Museu de Grão Vasco. A Direção Regional de Cultura do Alentejo detém a tutela do Museu de Évora. Já o Museu de Aveiro, o Museu de Cerâmica, o Museu Dr. Joaquim Manso, o Museu Francisco Tavares Proença Júnior e o Museu José Malhoa estão sob tutela da Direção Regional da Cultura do Centro. Estas alterações orgânicas também resultaram numa ampliação das competências da Direção Regional do Norte, que ficou responsável pelo Museu de Abade Baçal, de Alberto Sampaio, D. Diogo de Sousa, Biscainhos, Lamego e o Terras de Miranda. 26 Enquadrado no Programa Aproximar, que visa a delegação de competências da Administração Central na Administração Local (municípios e Comunidades Intermunicipais), o Museu da Guarda, que chegou a ser tutelado pelo extinto IMC, deixou de estar confiado à Direção Regional de Cultura do Centro, em 2015, para ser integrado na Câmara Municipal da Guarda, como consta do Decreto-lei N.º 30, de 12 de fevereiro de 2015. . 27 Figura 3. Mapa indicativo dos museus da Direção Geral do Património Cultural Fonte: elaboração própria BRAGANÇA 1.Museu Abade de Baçal MIRANDA DO DOURO 2.Museu Terras de Miranda BRAGA 3.Museu dos Biscainhos 4.Museu D. Diogo de Sousa GUIMARÃES 5.Museu Alberto Sampaio PORTO 6.Museu Nacional Soares dos Reis LAMEGO 7.Museu de Lamego AVEIRO 8.Museu de Aveiro VISEU 9.Museu Grão Vasco GUARDA 10.Museu da Guarda COIMBRA 11.Museu Nacional Machado de Castro CONDEIXA-A-NOVA 12.Museu Monográfico de Coimbra CASTELO BRANCO 13.Museu Francisco Tavares Proença Júnior NAZARÉ 14.Museu Dr. Joaquim Manso CALDAS DA RAINHA 15.Museu da Cerâmica 16.Museu José Malhoa LISBOA 17.Casa-museu Dr. Anastácio Gonçalves 18.Museu de Arqueologia 19.Museu do Chiado 20.Museu de Arte Popular 21.Museu da Música 22.Museu Nacional de Arte Antiga 23.Museu Nacional de Etnologia 24.Museu Nacional do Azulejo 25.Museu Nacional do Teatro 26.Museu Nacional do Traje 27.Museu Nacional dos Coches ÉVORA 28.Museu de Évora 28 Capítulo 3. Visitantes dos museus da Direção Geral do Património Cultural Nesta secção procede-se a uma análise da informação estatística relativamente aos ingressos nos museus abrangidos pelo estudo com o objetivo de fornecer uma base sólida de compreensão acerca da evolução do número de visitantes. Gráfico 3. Visitantes totais dos museus da DGPC, entre 2001 e 2011, por museu (número) Fonte: Estatística de Visitantes, Direção Geral do Património Cultural (elaboração própria) Entre 2001 e 2011, como demonstra o Gráfico 3, assistiu-se a uma evolução positiva no número de visitantes, embora essa tendência se tenha revestido de alguma volatilidade, nomeadamente entre 2001 e 2003 ou 2009 e 2011, períodos em que se assiste a um decréscimo dos visitantes. No primeiro caso o decréscimo foi bastante acentuado uma vez que, em 2002, a variação homóloga do número de visitantes foi negativa na ordem dos 22%. Por sua vez, no ano de 2010 a redução rondou os 4%. Pelo contrário, no ano de 2006 assistiu-se a uma evolução homóloga de 28%, a maior durante este período de 0 200 000 400 000 600 000 800 000 1 000 000 1 200 000 1 400 000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Número de visitantes Ano Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves Museu do Abade de Baçal Museu de Alberto Sampaio Museu de Aveiro Museu dos Biscainhos Museu de Cerâmica Museu do Chiado Museu Dr. Joaquim Manso Museu de Évora Museu de Francisco Tavares Proença Júnior Museu Grão Vasco Museu da Guarda Museu de José Malhoa Museu de Lamego Museu Monográfico de Conímbriga Museu da Música Museu de Arqueologia Museu Nacional de Arte Antiga Museu Nacional do Azulejo Museu Nacional dos Coches Museu Nacional de Etnologia Museu Nacional Soares dos Reis Museu Nacional do Teatro Museu Nacional do Traje Museu de Terras de Miranda Museu de Arte Popular Museu Nacional Machado de Castro Museu D. Diogo de Sousa 29 análise. Em termos agregados, existiu uma evolução de 28% no número de ingressos dos museus durante este intervalo. Os processos de reconfiguração dos espaços, por um lado, e de redefinição das estratégias, por outro, parecem ter resultado num reforço da tendência de crescimento da procura por parte dos públicos, que já se verificava desde 2006. Desde logo é possível perceber que uma componente substancial do aumento da procura de museus deve-se à entrada em funcionamento de forma plena dos equipamentos culturais que tinham entrado em reabilitação: Aveiro, Évora, José Malhoa, Nacional Machado de Castro e Arte Popular. O Museu Nacional Machado de Castro reabriu parcialmente em 2009, já o Museu de Aveiro e de Évora reabriram integralmente em 2010 (depois de um período de encerramento longo) e 2009, respetivamente. Também o Museu Etnográfico de José Malhoa esteve encerrado entre 2008 e 2009. Por sua vez, o Museu Grão Vasco esteve parcialmente encerrado entre o ano de 2002 e 2003. Em suma, todas estas reaberturas resultaram no incremento do número total de visitantes, embora a tendência crescente de ingressos nos museus sem qualquer interrupção de atividade, principalmente os de maior notoriedade, não deva ser ignorada. Em termos acumulados, isto é, somando a totalidade de visitantes em cada um dos museus durante o decénio, conclui-se pela existência de quatro níveis de museu. Um primeiro nível de museus com elevada procura; um segundo nível, onde se posicionam os museus com procura significativa mas, ainda assim, longe da procura dos museus superstar portugueses, ou seja, aqueles que têm uma procura incomparavelmente superior; um terceiro nível onde se situam os museus com uma procura relevante para a circunscrição geográfica em que se inserem; e, por fim, o quarto nível onde se situam os museus em que o número de visitantes pode ser considerado residual individualmente, mas quando somados resultam em 1/5 do total de visitantes dos museus sob tutela da DGPC. O Gráfico 4 é resultado do somatório do número de visitantes de cada um dos museus durante este intervalo de tempo. O museu que mais contribui para a procura agregada de museus é o Museu Nacional dos Coches, que contribui com aproximadamente 17% do número de visitantes. O Museu Monográfico de Conímbriga e o Museu Nacional de Arte Antiga, que contribuem de igual forma para 20% da procura agregada, assim como o Museu de Arqueologia e de Arte Antiga, que contribuem aproximadamente com 8% e 30 7%, respetivamente, contemplam um segundo nível. O terceiro nível corresponde a 26% do total de visitantes entre 2001 e 2011; sendo constituído pelo Museu Alberto Sampaio, de Aveiro, Chiado, Grão Vasco, Soares dos Reis, Teatro e Traje. Gráfico 4. Visitantes dos museus da DGPC acumulados, entre 2001 e 2011, por museu (%) Fonte: Estatísticas de Visitantes, Direção Geral do Património Cultural (elaboração própria) Uma terceira dimensão adjacente ao aumento do número de visitantes está relacionada com as exposições temporárias. A informação constante nos diversos Relatórios de Atividades (IMC, 2007; IMC, 2008, IMC, 2009; IMC, 2010; DGPC, 2012) permite chegar à conclusão que os últimos anos do decénio foram muito ricos em número de exposições temporárias. Contudo, não é possível contabilizar o número de visitantes a elas associados pois não são registados separadamente pelos organismos. 3.1. O fenómeno dos visitantes livres Nos últimos anos, como já vimos, os principais museus mundiais começaram a encontrar novas formas de financiamento, por um lado, e a encontrar novas formas de posicionamento da instituição face ao mercado através da utilização das suas instalações para outras atividades que não correspondem à definição de museu. As lojas, os restaurantes, as cafetarias e os parques começaram a fazer parte das estratégias de gestão 1% 1% 4% 3% 2% 1% 3% 2% 2% 1% 4% 1% 2% 2% 10% 1% 8% 10% 7% 17% 1% 4% 4% 4% 1% 0% 1% 2% Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves Museu do Abade de Baçal Museu de Alberto Sampaio Museu de Aveiro Museu dos Biscainhos Museu de Cerâmica Museu do Chiado Museu Dr. Joaquim Manso Museu de Évora Museu de Francisco Tavares Proença Júnior Museu Grão Vasco Museu da Guarda Museu de José Malhoa Museu de Lamego Museu Monográfico de Conímbriga Museu da Música Museu de Arqueologia Museu Nacional de Arte Antiga Museu Nacional do Azulejo Museu Nacional dos Coches Museu Nacional de Etnologia Museu Nacional Soares dos Reis Museu Nacional do Teatro Museu Nacional do Traje Museu de Terras de Miranda Museu de Arte Popular Museu Nacional Machado de Castro Museu D. Diogo de Sousa 31 e dinamização dos museus. Por outro lado, os concertos e outras atividades localizadas nos museus com o objetivo de captação de públicos heterogéneos também têm observado resultados nos museus portugueses. Os visitantes livres são os visitantes que não o visitam, mas frequentam o museu para outras atividades. As entradas livres nos museus sob alçada da DGPC têm evoluído de forma crescente, com um crescimento sustentado nos últimos anos, correspondendo a 19% do total de visitantes contabilizados. Desde 2007 que se verifica uma tendência de crescimento, mas mesmo em 2006 houve um pico de aproximadamente 214 mil visitantes. No último ano do decénio o número já rondava os 419 mil visitantes, apresentando nestes últimos anos uma taxa de crescimento média de 44%. Os visitantes livres têm nacionalidade maioritariamente portuguesa e apenas num museu é que a proporção de visitantes nacionais é inferior a 60%, tal acontece num dos museus com mais visitantes estrangeiros, o Museu Nacional do Azulejo. Embora de forma agregada não existam diferenças assinaláveis entre os museus em relação ao total de visitantes livres, quando a análise tem em conta o peso dos visitantes livres no total dos visitantes, já é possível detetar alguma heterogeneidade. Em especial, o Museu D. Diogo de Sousa (74% dos visitantes ingressaram por esta via), o Museu da Guarda (36%), Museu Nacional Machado de Castro (36%), Museu Terras de Miranda (34%), o Museu Francisco Tavares Proença Júnior (34%), o Museu de Cerâmica (33%), o Museu do Traje (33%) e a Casa-Museu Anastácio Gonçalves (32%). Nos museus reabertos mais recentemente, assiste-se a um maior contributo desta tipologia de visitantes para o aumento do número de visitantes. Com estes resultados podemos chegar à conclusão que as visitas livres têm muito que ver com o crescimento do número de visitantes dos museus em Portugal e, portanto, a justificação para a evolução que assistimos pode estar associada a um maior dinamismo na utilização das suas instalações. 3.2. Evolução dos visitantes às exposições Para analisar a evolução dos visitantes com bilhete de ingresso na exposição, sejam visitantes estrangeiros ou nacionais, analisam-se três tipologias estatísticas: a) visitantes 32 que adquiriram bilhetes ao preço normal, isto é, ao preço estipulado; b) bilhetes de domingo/feriado em regime de gratuitidade; e, c) visitantes que ingressaram com bilhetes com preço de desconto, isto é, bilhetes com desconto jovem, sénior ou estudante. Os visitantes que adquirem bilhetes normais correspondem a 25% do total dos visitantes, enquanto os visitantes com entrada gratuita correspondem a 9%. Os bilhetes etários também revelam um contributo assinalável no seu conjunto, sendo que no total dos visitantes 3% e 6% são crianças e reformados, respetivamente. Gráfico 5. Visitantes dos museus da DGPC que adquiriram “bilhete normal”, entre 2001 e 2011, por museu (número) Fonte: Estatísticas de Visitantes, Direção Geral do Património Cultural (elaboração própria) Em primeiro lugar, analisar-se-á a componente dos bilhetes considerados de ingresso “normal” cujo preço está devidamente estipulado através de Decreto-lei, Portaria ou Despacho. Os preços foram aumentando gradualmente ao longo do período de análise e pode-se considerar a existência de três níveis de preços: reduzido, intermédio ou elevado. Sendo que os preços nunca foram superiores a 5 euros, entre 2001 e 2011. 0 50 000 100 000 150 000 200 000 250 000 300 000 350 000 400 000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Visitantes (número) Ano Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves Museu do Abade de Baçal Museu de Alberto Sampaio Museu de Aveiro Museu dos Biscainhos Museu de Cerâmica Museu do Chiado Museu Dr. Joaquim Manso Museu de Évora Museu de Francisco Tavares Proença Júnior Museu Grão Vasco Museu da Guarda Museu de José Malhoa Museu de Lamego Museu Monográfico de Conímbriga Museu da Música Museu de Arqueologia Museu Nacional de Arte Antiga Museu Nacional do Azulejo Museu Nacional dos Coches Museu Nacional de Etnologia Museu Nacional Soares dos Reis Museu Nacional do Teatro Museu Nacional do Traje Museu de Terras de Miranda Museu de Arte Popular Museu Nacional Machado de Castro Museu D. Diogo de Sousa 33 De acordo com o Gráfico 5, que traduz a evolução dos visitantes com ingresso pago ao preço normal, a aquisição de bilhetes normais observou, de facto, uma tendência decrescente no período em causa. No ano de 2002, a variação negativa aproximou-se dos 36%. Pelo contrário, em 2001, observou-se o melhor resultado do decénio, com o número de visitantes a ultrapassar os 240 mil. Por sua vez, entre 2001 e 2011 perderam-se aproximadamente 123 mil visitantes num total médio anual de 277 mil visitantes. Contudo, pode-se afirmar que, entre 2001 e 2011, perderam-se aproximadamente 27 mil. Gráfico 6. Visitantes dos museus da DGPC ao domingo e feriado, entre 2001 e 2011, por museu (número) Fonte: Estatísticas de Visitantes, Direção Geral do Património Cultural (elaboração própria) Quanto aos visitantes que usufruíram de isenção de pagamento devido à sua visita ter sido realizada ao domingo ou ao feriado, chega-se à conclusão precisamente oposta. O Gráfico 6 evidencia o aumento do número de visitantes em horário gratuito. A procura de museus neste período aumentou 66%, tendo-se ganho aproximadamente 98 mil 0 50 000 100 000 150 000 200 000 250 000 300 000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Visitantes (número) Ano Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves Museu do Abade de Baçal Museu de Alberto Sampaio Museu de Aveiro Museu dos Biscainhos Museu de Cerâmica Museu do Chiado Museu Dr. Joaquim Manso Museu de Évora Museu de Francisco Tavares Proença Júnior Museu Grão Vasco Museu da Guarda Museu de José Malhoa Museu de Lamego Museu Monográfico de Conímbriga Museu da Música Museu de Arqueologia Museu Nacional de Arte Antiga Museu Nacional do Azulejo Museu Nacional dos Coches Museu Nacional de Etnologia Museu Nacional Soares dos Reis Museu Nacional do Teatro Museu Nacional do Traje Museu de Terras de Miranda Museu de Arte Popular Museu Nacional Machado de Castro Museu D. Diogo de Sousa 40 Capítulo 4. Caracterização dos dados Neste estudo utilizam-se dados provenientes de diferentes fontes. A informação sobre os visitantes é oriunda das estatísticas da DGPC, utilizadas no capítulo anterior, e a restante informação é proveniente dos inquéritos anuais ou estimativas do INE, assim como originária de fontes diversas (contacto eletrónico e telefónico). O quadro seguinte (Quadro 2) descreve de forma mais completa quais as fontes de informação para cada variável, assim como a amplitude temporal e a descrição sobre a informação. Quadro 2. Fontes de informação Variável Fonte Anos Descrição da variável Visitantes (número) Estatísticas de Visitantes, Direção Geral do Património Cultural 2002-2011 A informação foi segmentada pelas seguintes tipologias de visitantes: visitantes que adquiriram bilhete normal de nacionalidade nacional, visitantes que adquiriram bilhete normal de nacionalidade estrangeira, visitantes com idade inferior a 15 anos de origem nacional, visitantes com idade inferior a 15 anos de origem estrangeira, visitantes que adquiriram bilhete reduzido através de apresentação de Cartão Jovem, visitantes que adquiriram a bilhética sénior de origem nacional, visitantes que adquiriram a bilhética sénior de origem estrangeira, visitantes gratuitos via ingresso ao domingo/feriado de origem nacional, visitantes gratuitos via ingresso ao domingo/feriado de origem estrangeira, visitantes livres – outros ingressos sem tipologia – de origem nacional, visitantes livres – outros ingressos gratuitos sem tipologia – de origem estrangeira, visitantes escolares de origem nacional, visitantes escolares de origem estrangeira, visitantes com ingresso gratuito por pertencerem a uma Associação de Amigos, Instituto dos Museus e da Conservação e Direção Geral do Património ou mecenas de origem estrangeira e nacional. 41 Variável Fonte Anos Descrição da variável Preço de ingresso (euros, preços constantes) Direção Geral do Património Cultural 2002-2011 A informação dos preços de ingresso foi obtida através da Direção Geral do Património Cultural. Considerase o preço, em euros, para a categoria de bilhete normal. Existem, em regra, três níveis de preços: preço reduzido, intermédio e elevado. Esses níveis de preço foram sofrendo atualizações quer devido a ajustamentos ao nível geral de preços, quer por transferência de nível ao longo do período de análise. Por fim, a informação é veiculada através de Lei, Decreto-lei ou Despacho. Ganho médio mensal (euros, preços constantes) Quadros de Pessoal, Ministério do Trabalho e da Segurança Social 2002-2011 A informação foi disponibilizada pelo Gabinete de Estudos e Estatísticas do Ministério do Trabalho e da Segurança Social ao nível das NUTS III uma vez que se considera o mercado relevante dos organismos museológicos como superior ao do concelho que circunscreve o museu. Idade (%) Estimativas Anuais da População Residente, Instituto Nacional de Estatística 2002-2011 Proporção estimada da população com idade inferior a 15 anos e proporção estimada da população com idade superior a 64 anos, no distrito em que se localiza o museu. Ensino Superior (%) Inquérito ao Emprego, Instituto Nacional de Estatística 2002-2011 Proporção da população residente com idade inferior a 65 anos e superior a 24 anos com ensino superior. A informação existente corresponde ao nível da NUTS II. Exposições (número) Inquérito às Galerias de Arte e Outros Espaços de Exposições Temporárias, 2002-2011 A informação estatística corresponde é ao nível da NUTS III. 42 Variável Fonte Anos Descrição da variável Instituto Nacional de Estatística Espetáculos ao vivo Inquérito aos Espetáculos ao Vivo, Instituto Nacional de Estatística 2002-2011 A informação está definida ao nível da NUTS III. Encerrados parcialmente Fonte diversa 2002-2011 Numa primeira fase, a Direção Geral do Património Cultural sinalizou os anos em que os museus teriam estado encerrados por motivo de obras de remodelação, conservação ou ampliação. Posteriormente, confirmou-se essa informação telefonicamente e, nos casos em que não se obteve a confirmação por telefone, contactou-se eletronicamente. Exposições Temporárias Fonte diversa 2002-2011 As exposições temporárias foram detetadas através dos Relatórios de Atividades (IMC, 2007, 2008, 2009, 2010; DGPC, 2012). Adicionalmente, foram também confirmadas telefonicamente ou por contacto eletrónico. A variável dummy assume valor igual a um no ano em que o museu em causa organizou uma exposição que se considera ter relevância do ponto de vista da crítica ou comunicação (por exemplo, Grandes Mestres da Pintura no Museu Nacional de Arte Antiga). Ano de reabertura Fonte diversa 2002-2011 O ano de reabertura foi obtido através de informações em linha, quer no próprio sítio oficial, quer através de notícias de jornais. Posteriormente confirmou-se essa informação via contacto eletrónico ou telefónico. A variável assume o valor de 1 no ano de reabertura. 43 Variável Fonte Anos Descrição da variável Idade do Museu Fonte diversa 2002-2011 A informação sobre a data de abertura ao público e de fundação, no caso de não existir a primeira informação. Foi obtida diretamente junto de cada um dos museus. Ao nível da política de preços de acesso aos museus sob alçada da DGPC, existe gratuitidade para crianças até aos quinze anos de idade, visitantes escolares, visitantes que integram a Associação de Amigos do Museu, trabalhadores do IPM/IMC/DGPC e membros da APOM, informação do Despacho n.º 9104, de 6 de maio de 2004. Adicionalmente, os detentores de Cartão Jovem e os visitantes com idade superior a 64 anos têm direito a um desconto de 50%. É com base nestas diferentes tipologias que são elaboradas as estatísticas que vão servir de base ao estudo microeconométrico. No período de análise, ou seja, entre 2002 e 2011, o preço médio de acesso a cada um dos museus sob investigação aumentou 50%, sendo que o preço pago pelo visitante nunca foi superior a 5 euros. Entre 2002 e 2007, assistiu-se a uma estabilidade nos preços de acesso dos museus, salvo algumas atualizações pontuais, como a que aconteceu nos museus de Aveiro e Alberto Sampaio (preço alterou de euro e meio para dois euros, em 2004). No ano de 2008 houve uma alteração mais profunda na tabela de preços. Nessa atualização, os visitantes sentiram um aumento de preços, de dois euros para três euros, os visitantes na Casa-museu Anastácio Gonçalves e no Museu Alberto Sampaio. Por sua vez, o Museu do Chiado, o Grão-Vasco, o Museu Monográfico de Coimbra, de Arqueologia, de Arte Antiga, de Azulejo, dos Coches, o Museu Soares dos Reis e o Machado de Castro praticaram um preço de quatro euros a partir deste ano, resultando num aumento de um euro face ao que era praticado. No ano de 2010, foi a vez do Museu de Aveiro, após um período de reabilitação, sofrer uma atualização no preço de dois para quatro euros. O mesmo aconteceu com o Museu de José Malhoa, mas o preço situou-se nos três euros. Já os visitantes do Museu de Évora começaram a pagar quatro euros, uma vez que o preço praticado até então era de três euros. As visitas aos museus de Arqueologia, de Arte Antiga, do Azulejo, o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu Machado de Castro e o Museu dos Coches passaram a ter um custo de cinco euros, em 2010. 44 O Quadro 3 resume a informação relevante relativamente aos museus da amostra, que correspondem a aproximadamente 8% do total de museus contabilizados pelo INE. Da informação constante da tabela salienta-se a informação sobre o ano de abertura do museu, o nome e ano das exposições temporárias mais relevantes e informação sobre a duração dos encerramentos. Para além da diversidade na tipologia de museus, a diversidade e quantidade de coleções temporárias relevantes organizadas pelo museu, por um lado, e o número de anos em que os museus estiveram encerrados, por outro, atraem a atenção. Os museus Machado de Castro e Arte Popular estiveram encerrados totalmente durante quatro e seis anos, respetivamente. 45 Quadro 3. Síntese da informação descritiva dos museus Museu Tipologia Encerrado durante o período de análise Exposições temporárias relevantes Ano de Abertura Informação Início Final Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves Arte Não 2008/2009: Os Anos de Exílio da Rainha D. Amélia. Colecção Rémi Fénérol 1980 Museu do Abade de Baçal Arqueologia e Arte Parcialmente 2005 2007 2007: Caretos II 1925 Museu de Alberto Sampaio Arte Não 1931 Museu de Aveiro Arte Parcialmente 2006 2008 1974 Museu dos Biscainhos Arte Não 1978 Museu de Cerâmica Especializado Não 1983 Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado Arte Não 2006: O Olhar Fauve na Coleção do Musée des Beaux-Arts de Bordeaux e Pine Flat: Sharon Lockhart 2007: Columbano Bordalo Pinheiro e Coleção Centro Pompidou no Museu do Chiado 2011: Columbano Bordalo Pinheiro 1911 Museu Dr. Joaquim Manso Território Não 2005: Fotografia Nazaré na década de 80 (Festas da Nossa Senhora da Nazaré) 1976 Museu de Évora Arte e Arqueologia Parcialmente 2003 2009 2011: Primitivos Portugueses 1915 46 Museu de Francisco Tavares Proença Júnior Arqueologia Não 1910 Museu Grão Vasco Arte Parcialmente 2001 2004 2006: A luz como material plástico – Objetos específicos de luz e Pintar com luz 1916 Museu da Guarda Arte Não 2004: O espirito dos lugares - Cenários para um património Imaterial 2010: Carolina Beatriz Ângelo 1940 Museu de José Malhoa Arte Parcialmente 2007 2008 2005: Malhoa e Bordalo: confluências de uma geração 1934 Museu de Lamego Arte Não 1918 Museu Monográfico de Conímbriga Arqueologia Não 1962 Museu da Música Especializado Não 1994 Museu de Arqueologia Arqueologia Não 2004: TESOUROS DA CHINA. As 100 maiores descobertas arqueológicas no século XX 2007: Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules 2008: O Ouro Tradicional de Viana do Castelo. Da Pré-História à Atualidade e SIT TIBI TERRA LEVIS: Rituais funerários romanos e paleocristãos em Portugal 1893 Museu Nacional de Arte Antiga Arte Não 2006: Grandes Mestres da Pintura 2009: Encopassing the globe 1884 Museu Nacional do Azulejo Especializado Não 1965 Museu Nacional dos Coches Especializado Não 2006: Lisboa há 6 anos 1905 47 2007: D. Amélia, uma Rainha um Museu 2010: Os Carrinhos de Passeio dos Pequenos Príncipes Museu Nacional de Etnologia Etnologia e Antropologia Não 2007: Pinturas Cantadas: arte e perfomance das mulheres de Naya 1965 Museu Nacional Soares dos Reis Arte Não 2007: Gerardo Rueda, Pintura. Exposição antológica 2010: Exuberâncias da Caixa Preta - a propósito d' A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais 1883 Museu Nacional do Teatro Especializado Não 2004: Novas aquisições, novas doações: Nuno-Côrte Real e José de Guimarães 2006: Viriato rey. Castanheira : pinturas 2009: (2009-12) Vozes líricas do século XX 1982 Museu Nacional do Traje Especializado Não 2006: Trajes para Dona Inês 1976 Museu de Terras de Miranda Território Não 1982 Museu de Arte Popular Arte Integralme nte entre 2004 e 2010 2003 2010 1948 Museu Nacional Machado de Castro Arte Integralme nte entre 2004 e 2008 2004 2011 2010: Museu s. m. e Mestre Pêro - O escultor da Rainha 1911 Museu D. Diogo de Sousa Arqueologia Não 2007 48 Capítulo 5. Determinantes da procura dos museus da Direção Geral do Património Cultural 5.1. Metodologia O método utilizado é o de efeitos fixos aplicado a dados em painel uma vez que a principal caraterística, e uma das que faz dele um método muito utilizado nos estudos micoeconométricos e macroeconométricos, é a sua capacidade de reconhecer a heterogeneidade individual, controlando não apenas as caraterísticas não observadas dos indivíduos (heterogeneidade observada), mas também para as características observadas que não variam ao longo do tempo (heterogeneidade não observada). Isto é, o modelo para dados em painel decompõe o erro (𝑒𝑡𝑖) em duas componentes, o erro idiossincrático (𝑣𝑡𝑖) comum nos modelos econométricos e por um efeito fixo não observado (𝑐𝑖) que não varia no tempo (𝑡), mas que pode variar em cada unidade secional (𝑖): (5.1.) 𝑒𝑡𝑖 = 𝑐𝑖+ 𝑣𝑡𝑖 O modelo escreve-se da seguinte forma: (5.2.) 𝑦𝑡𝑖 = 𝛼 + 𝛽1𝑥1𝑡𝑖 + ⋯+ 𝛽𝑘𝑥𝑘𝑡𝑖 + 𝑐𝑖+ 𝑣𝑡𝑖 Em cada unidade seccional, por cada unidade de tempo, existe uma variável dependente (𝑦𝑡𝑖) que é explicada em função de uma variável constante 𝛼, de um conjunto de variáveis independentes (𝑥𝑘𝑡𝑖) que têm associadas a si um parâmetro (𝛽𝑘), que correspondem aos coeficientes a estimar. No Quadro 4 definem-se as variáveis incluídas no modelo, sendo útil para a descrição da equação que está na origem das regressões estimadas. Foram estimadas regressões para diferentes variáveis dependentes que traduzem o número de visitantes dos museus. Em primeiro lugar, estimou-se uma regressão em que a variável dependente consiste na totalidade de visitantes que comprou bilhete – bilhetes a preço normal ou bilhetes com desconto. Seguidamente, fez-se o mesmo exercício, mas considerando os visitantes em cada tipologia isoladamente. Seguindo a mesma lógica, considera-se como variável dependente o número de visitantes isentos de qualquer pagamento (visitantes livres, 49 escolares, domingo/feriado e outras isenções específicas) e depois estima-se a mesma regressão para a tipologia de visitantes escolares e ao domingo/feriado, assim como a totalidade de visitantes isentos de pagamento (com e sem a exceção dos visitantes livres) e a totalidade de visitantes com exceção dos visitantes que visitam o museu via aquisição do bilhete a preço normal, o que chamamos a regressão cruzada pois permite analisar a elasticidade preço-cruzado da procura. Adicionalmente, estima-se uma regressão que explica a importância das variáveis independentes nos visitantes dos museus que detêm tesouros nacionais (na totalidade dos visitantes que pagam bilhete – normal ou com desconto – e dos que estão isentos do pagamento, com exceção dos visitantes livres). A análise considera numa primeira fase os visitantes totais, independentemente da nacionalidade. Seguidamente, realiza-se o mesmo exercício, mas considerando apenas os visitantes nacionais. 56 5.2.2. Visitantes nacionais Fez-se o mesmo exercício da subsecção precedente, mas isolando os visitantes de origem nacional. Os resultados apresentados denotam algumas diferenças. Ao nível do preço, mantém-se a relação inversa com o número de visitantes. Perante o aumento do preço em 1%, o número de visitantes nacionais que adquiriram bilhete diminuirá, em média, aproximadamente 0.4%, ceteris paribus. A elasticidade-preço procura é, então, de 0.4. Contudo, no caso dos visitantes com mais de 64 anos, a elasticidade-preço da procura é de 0.7. De qualquer forma, independentemente do valor que assume em função da tipologia de visitantes, o resultado indica uma reduzida elasticidade-preço da procura. O preço também é um determinante na tipologia de visitantes que usufruem de desconto via Cartão Jovem. Contudo, o sinal é positivo, o que contraria as restantes tipologias pagas, mas pode indiciar substituição entre categorias. Comparativamente com os resultados apresentados anteriormente, verifica-se que não existem diferenças assinaláveis entre a elasticidade-preço da procura dos visitantes estrangeiros e visitantes nacionais, com exceção dos visitantes reformados, onde os nacionais apresentam-se mais sensíveis a uma variação no preço. Os resultados apresentados confirmam o preço como um determinante da procura de museus, mas o impacto do aumento do preço no número de indivíduos que procura o museu em horário gratuito reforça essa tese. Em média, o número de visitantes aumenta 0.6% quando o preço sofre uma variação positiva de 1%, ceteris paribus. A elasticidade-rendimento não se afigura, em geral, significativamente diferente de zero, sendo que a única exceção refere-se ao caso dos visitantes escolares. Como já analisamos, alguns museus estiveram encerrados parcialmente durante vários anos e isso resultou num impacto negativo e significativo no número de visitantes que o museu recebeu. Em média, os museus encerrados parcialmente viram uma redução no número de visitantes pagos de aproximadamente 50%, ceteris paribus. Adicionalmente, após esse período de encerramento, os museus beneficiaram de um suplemento de interesse por parte dos visitantes nacionais. Em conformidade com os resultados 57 apresentados na secção anterior, a reabertura apresenta um incremento no número de visitantes no próprio ano e no ano seguinte, em alguns casos. O número de visitantes que adquiriram bilhete aumentou 82% e 35%, em média, em resultado da reabertura no próprio ano e no ano seguinte, respetivamente, após um período de encerramento parcial ou total por motivo de requalificação. No período de análise, entre 2002 e 2011, a existência de uma exposição temporária de relevo, induziu o número de visitantes nacionais pagos e gratuitos (exceto livre) em média 65% e 35%, respetivamente, a um nível de significância de 5%, ceteris paribus. Tal como acontecia com os visitantes totais, os visitantes com idade superior a 64 anos concedem maior atenção às exposições temporárias uma vez que, em média, o número de visitantes desta faixa etária duplica aquando da organização de uma exposição temporária relevante, ceteris paribus. As variáveis demográficas assumem a mesma tendência revelada na secção anterior, tanto a nível de significância estatística como na relação com a variação do número de visitantes. Mesmo assim, é possível afirmar que, em média, o aumento em 1% na proporção de indivíduos com idade superior a 64 anos no total da população tem um impacto negativo no número de visitantes que adquire bilhete na ordem dos 2%. Por sua vez, o aumento da proporção de indivíduos com idade inferior a 15 anos no total da população tem um impacto negativo no número de visitantes que visita o museu em horário gratuito. Os resultados indiciam que quanto menor a proporção de indivíduos com idade inferior a 65 anos e superior a 15 anos na região, menos visitas recebe o museu, existindo um impacto negativo dos grupos etários de idade mais reduzida e mais elevada, com a devida exceção para as tipologias de visitantes mais relacionadas com a sua faixa etária. A escolarização da população da região onde o museu se situa parece ser um determinante muito relevante da procura de museus. Em média, o aumento em 1% da proporção de diplomados na região, traduz-se num reforço de 7% no número de visitas que o museu recebe via aquisição de bilhete (a preço normal), mas também tem um impacto muito significativo (7%) no número de visitantes que não adquirem bilhete, ceteris paribus. 58 Por fim, os resultados das variáveis que procuram analisar o contributo da oferta de alternativas culturais são contraditórios. Por um lado, o aumento do número de exposições em galerias de arte assume um impacto negativo no número de visitantes mais jovens (que adquirem bilhete com desconto de Cartão Jovem), mas um impacto positivo nos visitantes do museu isentos do pagamento de bilhete, nomeadamente os que o visitam em horário gratuito. Ainda assim, na generalidade, o aumento do número de exposições e de espetáculos de artes performativas, na região, resultam num impacto positivo na procura dos museus, mas as variáveis não assumem coeficientes com significância estatística suficientemente robusta para uma leitura aprofundada e conclusiva dos resultados. 59 Quadro 8. Resultados da estimação econométrica de origem nacional por variável dependente (bilhetes pagos) Variáveis XI Log(visitantes com bilhete pago) XII Log(visitantes que adquiram bilhete normal) XIII Log(visitantes que adquiram bilhetes de reformado) XIV Log(visitantes que adquiram bilhetes com Cartão Jovem) Constante 9.307 16.324 0.200 28.267 (0.69) (1.38) (0.01) (1.16) Log(preço) -0.430*** -0.328 -0.691** 0.663 (-1.76) (-1.39) (-2.05) (1.47)) Log(rendimento) -0.098 -1.208 0.888 -0.065 (-0.05) (-0.83) (0.33) (-0.02) % pop. < 15 -7.405 -3.932 -17.413 -8.161 (-0.57) (-0.30) (-0.98) (-0.40)) % pop. > 64 -2.016 -4.868 14.198 -50.838*** (-0.22) (-0.63) (0.74) (-1.92) % pop. c/ ensino superior 6.034*** 6.540** 2.705 30.736** (1.80) (2.15) (0.36) (2.69) Encerrado -0.675** -0.606** -1.037** -1.041* (-2.10) (-2.10) (-2.58) (-3.00) Exposição Temporária 0.472* 0.425* 0.669* 0.243** (3.71) (3.09) (4.97) (2.01) Reabertura (t) 0.646* 0.703* 0.335 0.534 (3.44) (5.68) (0.84) (0.89) Reabertura (t+1) 0.350* 0.390** 0.310* -0.244 (2.93) (2.53) (3.91) (-0.65) Reabertura (t+2) -0.029 0.014 -0.208*** -0.641*** (-0.27) (0.11) (-1.73) (-1.85) Idade do museu -0.004 -0.004 -0.004 -0.042 (-1.02) (-0.99) (-0.23) (-1.12) Log(exposições) -0.011 0.038 0.142 -1.675* (-0.04) (0.15) (0.34) (-2.96) Log(espetáculos) 0.078 0.063 -0.057 -0.720 (0.86) (0.53) (-0.26) (-1.42) N 208 209 208 205 * Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 1% ** Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 5% *** Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 10% Nota: Estatística t-student entre parênteses 60 Quadro 9. Resultados da estimação econométrica de origem nacional por variável dependente (ingresso gratuito) Variáveis XV Log(visitantes que não adquiriram bilhete normal – cruzado) XVI Log(visitantes de domingo/ feriado) XVII Log(visitantes escolares) XVIII Log(visitantes c/ entrada gratuita) XIX Log(visitantes c/ entrada gratuita exceto livres) Constante 15.427 27.799** -8.240 4.061 3.979 (1.56) (2.23) (-1.07) (0.42) (0.50) Log(preço) 0.397*** 0.588** 0.562** 0.793* 0.651* (1.82) (2.15) (2.12) (3.27) (2.84) Log(rendimento) -0.382 -1.819 2.226*** 0.179 0.422 (-0.33) (-0.95) (2.02) (0.13) (0.35) % pop. < 15 -35.292** -42.209** 11.136 -17.144* 2.603 (-2.24) (-2.58) (1.49) (-2.80) (0.31) % pop. > 64 -27.413** -21.844 -33.112* -3.687 -21.374** (-2.60) (-1.62) (-3.66) (-0.53) (-2.11) % pop. c/ ensino superior 9.667** 4.117 10.562* 7.323** 7.028 (2.72) (0.90) (3.16) (2.48) (1.69) Encerrado -0.861** -1.016* -0.813** -0.946* -0.868* (-2.35) (-4.06) (-2.35) (-3.31) (-3.24) Exposição Temporária 0.277* 0.222** 0.335* 0.267* 0.277* (4.23) (2.42) (4.35) (3.43) (4.00) Reabertura (t) 0.254 0.513** 0.536*** 0.255 0.506*** (0.90) (2.09) (1.87) (0.96) (1.92) Reabertura (t+1) -0.273* -0.056 -0.040 -0.344* -0.100 (-3.35) (-0.26) (-0.38) (-2.97) (-0.64) Reabertura (t+2) -0.219 -0.072 -0.007 -0.183 -0.046 (-1.27) (-0.52) (-0.06) (-0.91) (-0.34) Idade do museu -0.008 0.000* -0.005 -0.005 0.001 (-1.30) (0.03) (-0.89) (-0.96) (0.11) Log(exposições) 0.578** 0.178 0.532** 0.710** 0.634** (2.05) (0.47) (2.52) (2.66) (2.67) Log(espetáculos) 0.192 -0.109 0.106 0.222 0.064 (1.26) (-0.59) (0.65) (1.65) (0.46) N 210 208 210 210 209 * Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 1% ** Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 5% *** Coeficiente estatisticamente significativo a um nível de significância de 10% Nota: Estatística t-student entre parênteses 61 Síntese e conclusões Este estudo tomou como ponto de partida a análise das estatísticas dos visitantes sob tutela da DGPC com o objetivo de estimar a elasticidade-preço da procura de museus, assim como estudar os restantes determinantes da procura de museus através de várias estimações, que assumem como variável dependente os logaritmos desses visitantes em função de diversas tipologias e as variáveis explicativas decorrem de fonte diversificada, utilizando uma dimensão temporal de dez anos, entre 2002 e 2011. Este capítulo permitirá sintetizar os principais pontos deste estudo e identificar as principais conclusões acerca dos resultados. A análise das estatísticas de visitantes permitiu concluir que os visitantes nacionais continuam a contribuir de forma assinalável para o crescimento da procura dos museus, nomeadamente a categoria de visitantes livres. Esta tipologia é responsável, em larga medida, pelo crescimento do número de visitantes. Isto significa que os eventos não diretamente relacionados com a visita ao museu têm ganho maior relevância do que os ingressos com o objetivo de visitar o acervo do museu. Estes resultados vão em linha de conta com a literatura existente (Barbosa e Brito, 2012; Laamanen e Sorjonen, 2014) uma vez que, de acordo com estes autores, não existe evidência de que os visitantes livres se tornem visitantes habituais do museu (os que adquirem bilhete), mesmo que a avaliação da visita seja positiva. O aumento do número de visitantes que recorrem ao horário de isenção do preço de ingresso contrasta com a tendência de redução do número de visitantes que decide frequentar o museu em horário regular. Dada a atualização dos preços de ingresso que estes museus têm sido alvo, mas também ajustamento de nível de preços, estes resultados permitem indiciar duas coisas: i) elasticidade preço da procura de museus diferente de 0 e negativa; e, ii) elasticidade preço cruzada da procura diferente de 0 e positiva, existindo substituição entre a utilização de um serviço por outro. Estes indícios fortalecem a pertinência das questões subjacentes a este estudo. Ao realizar-se a revisão bibliográfica verificou-se que a maioria das investigações relativamente aos determinantes da procura, em particular o rendimento e o preço, versavam sobre as artes performativas. Ainda assim, e relativamente aos museus, a 62 evidência empírica sugere que a procura dos museus depende, por um lado, negativamente do preço, do rendimento do agregado e da idade; e, por outro lado, varia positivamente com o número de membros das associações, da etnia, do valor da coleção do museu, da idade do museu e do número de horas que está aberto por semana (Luksetich e Partridge, 1997; Darnell et al., 1998). Esta investigação chega a resultados convergentes com esses estudos anteriormente realizados. No caso dos museus nacionais, as estimações realizadas permitem asseverar que o preço é um dos determinantes da procura de museus. Não só se confirma a relação inversa existente entre a variação do preço e a variação da quantidade procurada, como se alcança um valor da elasticidade-preço da procura de 0.4. Embora o valor seja superior aos resultados empíricos analisados na literatura, onde - dependendo do tipo de museu - um aumento de 1% do preço resultava numa redução da procura entre 0.12% e 0.26% (Luksetich e Partridge, 1997, Darnell et al., 1998), a conclusão que é possível retirar é a mesma: em média, existe uma reduzida variação na quantidade procurada em resultado de uma variação no preço, ceteris paribus. Se se considerar o ingresso em horário gratuito como uma substituição do ingresso em horário normal, é possível reforçar a tese de que o preço é um determinante da procura de museus. Em média, o aumento do preço em 1% traduz-se no reforço dos visitantes nacionais que não adquirem bilhete de 0.4%, sendo que só no horário gratuito o aumento chega a ser de 0.6%, ceteris paribus. Ora, o aumento do preço pode não significar que o individuo deixa de visitar o museu, pode é fazê-lo numa modalidade diferente, na qual não necessite de adquirir bilhete. Contudo, o preço afeta a decisão de consumo. Na literatura encontraram-se evidências de que existe um aumento de 65% dos visitantes em resultado de um dia com acesso gratuito em comparação com um dia em que o acesso é pago (Steiner, 1997). A receita oriunda da bilheteira não é a única fonte de receita do museu, mas perante essa hipótese teórica, considere que a receita é calculada através do número de visitantes e do preço de acesso (quando este existe). Ao preço de 5€, 100 mil visitantes corresponderá a 500 mil euros. Perante um aumento de 1% do preço de acesso, o número de visitantes, de acordo com a elasticidade-preço da procura calculada, cairá para 99,6 mil visitantes, mas a receita acumulada, se tudo o resto se mantiver constante, aumentará para 503 mil euros. 63 Perante a hipótese de reduzida elasticidade-preço, comprova-se a possibilidade de se recorrer ao financiamento próprio através do aumento da receita via aumento do preço. Contudo, não só o preço não é o único determinante da procura de museus, como existem receitas oriundas dos serviços complementares como a livraria, a cafetaria ou a loja, que variam em função do número de visitantes (Parkhurst, 1975; Rosett, 1991; Steiner, 1997). Quanto ao rendimento, embora não seja um resultado consensual, verifica-se uma relação negativa entre o número de visitas e o rendimento, tal pode dever-se ao aumento dos custos de oportunidade à medida que o rendimento aumenta, sendo mais forte o efeito substituição (Luksetich e Partridge, 1997; Frey, 2003; Frey e Meier, 2006). Os resultados deste estudo não são conclusivos, mas comprova-se a relação negativa entre o aumento do rendimento médio da região e o número de visitantes dos museus. As exposições temporárias assumem uma função preponderante como determinante da procura dos museus uma vez que o efeito da variável é estatisticamente significativo e apresenta valor positivo em todas as tipologias. Este resultado vai ao encontro da literatura existente. Em primeiro lugar, os indivíduos têm a oportunidade de visitar exposições internacionais a um menor custo do que a sua visita no museu de origem (Frey, 2013). Em segundo lugar, a realização de uma exposição temporária relevante alavanca a notoriedade do museu, uma vez que demostra capacidade para atrair e organizar exposições de grande alcance, mas também apresenta efeitos positivos do ponto de vista da comunicação já que a publicidade a uma exposição particular reforça a presença do museu nos circuitos de publicidade, nomeadamente na comunicação social (Bayart e Benghozi, 1993). A análise das características dos museus permitiram analisar o efeito dos encerramentos parciais em virtude de requalificação, assim como o efeito da reabertura dos museus. Os museus encerrados parcialmente viram uma redução no número de visitantes pagos e gratuitos (exceto livre). Embora exista um interesse adicional por parte do público após um período de encerramento, a verdade é que esse efeito é inferior ao do encerramento no próprio ano de reabertura, mas prolonga-se para o período imediatamente seguinte, embora em menor escala, conseguindo recuperar o nível de visitas anteriores ao encerramento. 64 Este estudo respondeu aos objetivos propostos. Em suma, permitiu estimar a elasticidade da procura. Adicionalmente, através da estimação da equação da procura, chegou-se à conclusão que a mesma é afetada positivamente pelas exposições temporárias, pelas reaberturas após um longo período de encerramento, pela disponibilidade de serviços substitutos mais próximos - como o aumento do número de exposições – e pelo nível de qualificações da população da região em que o museu se encontra. Por outro lado, a procura de museus depende negativamente do preço e dos encerramentos parciais por motivos de requalificação. Enquanto em Itália chegou-se à conclusão que existe uma relação positiva entre as exposições temporárias e o número de hóspedes (Di Lascio et al, 2011), neste trabalho a elasticidade-preço da procura dos museus por visitantes nacionais é praticamente igual à dos visitantes totais. O expectável seria os visitantes estrangeiros fossem (ainda) menos sensíveis ao preço porque esse custo corresponde a uma pequena parcela do custo total da experiência, seja o transporte, o alojamento ou as refeições (Steiner, 1996; Heilbrun e Gray, 2001), mas não é o que acontece. Embora os resultados finais sejam, indo ao encontro das expectativas alicerçadas na literatura, a realidade é que a constituição da base estatística foi exaustiva. Em primeiro lugar, a homogeneização da dimensão estatística não foi alcançada, quer por inexistência de informação ao nível das NUTS III, quer por dimensão da amostra ser superior à informação recolhida. Adicionalmente, embora as questões e pedidos de informação tenham sido sempre respondidos, nem sempre o foram no momento desejável e na primeira tentativa. Em terceiro lugar e último, algumas variáveis têm variações muito reduzidas, quer ao nível da dimensão temporal, quer ao nível da unidade estatística regional, o que prejudica o alcance de resultados mais satisfatórios, nomeadamente nas variáveis demográficas. Este foi a primeiro trabalho que se focou nos determinantes da procura de museus nacionais, por isso no futuro existem várias vias de estudo por forma a confirmar estes resultados, mas também investigar alguns fatores críticos que aqui foram enumerados, mas que não foram estudados em profundidade, nomeadamente o efeito do visitantes estrangeiros na procura de museus, a capacidade de alargamento de públicos auferida pelos eventos de grandes dimensões ou através do cada vez maior número de visitas aos 65 jardins/cafetarias/loja e a importância das exposições temporárias nos determinantes da procura de museus. Para além disso, o próprio estudo dos determinantes da procura merece um aprofundamento teórico para que sejam encontradas novas variáveis que tenham impacto no número de visitantes. 72 McCain, R. (1981), “Cultivation of Taste, Catastrophe, Theory and the Demand for Works of Art”, American Economic Review, Vol. 71, N.º 2, pp. 332-334; Motta, M. 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