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Arquitetura industrial. Da obsolescência à reconversão.

José Miguel Pereira dos Santos

Abstract

É irrefutável a influência que a indústria e os seus produtos tiveram na formulação do tempo moderno. É, por isso, preocupante que se assista ao abandono dos edifícios que a caracterizam e que são documentos vivos de uma era em constante transformação. Este documento tem como objectivo alertar para as consequências adjacentes à desindustrialização, bem como para as ferramentas existentes capazes de solucionar esta problemática. Para tal, considerámos as hipóteses existentes com base na reabilitação, com especial incidência na reconversão pelas características que lhe estão associadas. Para um maior entendimento das motivações por detrás desta prática foram escolhidos seis casos de estudo em pontos geográficos diferentes. Pode, assim, ser feita uma análise mais representativa da génese desta acção interventiva e das suas potencialidades. Neste seguimento, para a compreensão da importância do Património Industrial, foi necessário estudar não só a evolução do conceito 'património' e 'monumento', até estes abrangerem os edifícios industriais, como também a história da sua evolução, enquantoelemento significativo e contribuidor para a arquitectura. O abandono de edifícios industriais tem fortes consequências na comunidade. A sua reutilização por reconversão é uma resposta ecológica e económica para tentar inverter esta situação. Não sendo a nossa pretensão apresentar a reconversão como única solução capaz de solucionar esta problemática. Esta incita especial atenção pelas premissas que lhe são adjacentes. As adaptações e transformações podem comprometer a integridade e valores do edifício, pelo que, é necessário perceber as consequências da mudança. Percebe-se que é possível fazer reconversões não intrusivas respeitando a pré-existência. Não deverão ser feitas alterações que impeçam a leitura original, tanto em termos espaciais como formais ou materiais. Para isto, é igualmente relevante a adequação do novo programa, verificando-se que quanto mais inadequado mais proeminentes são as alterações.

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José Miguel Pereira dos Santos Dissertação de mestrado em arquitectura apresentada à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto sob orientação do Prof. Dr. Nuno Grande Porto, 2013 Arquitectura Industrial, da obsolescência à reconversão Agradecimentos À minha família. Aos meus pais pelo apoio, em especial à minha mãe por me ensinar que o conhecimento não ocupa lugar, e à minha irmã por liderar o caminho. Aos meus amigos e colegas de faculdade com quem partilhei os bons e os maus momentos. Ao arquitecto Nuno Pinto pela paciência e tempo disponibilizado. Ao meu orientador, Prof. Dr. Nuno Grande pela disponibilidade e acompanhamento. Ao João R. Barbosa, pelo apoio, interesse e ajuda ao longo deste processo. O meu agradecimento é incomensurável. iii iv Resumo É irrefutável a influência que a indústria e os seus produtos tiveram na formulação do tempo moderno. É, por isso, preocupante que se assista ao abandono dos edifícios que a caracterizam e que são documentos vivos de uma era em constante transformação. Este documento tem como objectivo alertar para as consequências adjacentes à desindustrialização, bem como para as ferramentas existentes capazes de solucionar esta problemática. Para tal, considerámos as hipóteses existentes com base na reabilitação, com especial incidência na reconversão pelas características que lhe estão associadas. Para um maior entendimento das motivações por detrás desta prática foram escolhidos seis casos de estudo em pontos geográficos diferentes. Pode, assim, ser feita uma análise mais representativa da génese desta acção interventiva e das suas potencialidades. Neste seguimento, para a compreensão da importância do Património Industrial, foi necessário estudar não só a evolução do conceito ‘património’ e ‘monumento’, até estes abrangerem os edifícios industriais, como também a história da sua evolução, enquanto v elemento significativo e contribuidor para a arquitectura. O abandono de edifícios industriais tem fortes consequências na comunidade. A sua reutilização por reconversão é uma resposta ecológica e económica para tentar inverter esta situação. Não sendo a nossa pretensão apresentar a reconversão como única solução capaz de solucionar esta problemática. Esta incita especial atenção pelas premissas que lhe são adjacentes. As adaptações e transformações podem comprometer a integridade e valores do edifício, pelo que, é necessário perceber as consequências da mudança. Percebe-se que é possível fazer reconversões não intrusivas respeitando a pré-existência. Não deverão ser feitas alterações que impeçam a leitura original, tanto em termos espaciais como formais ou materiais. Para isto, é igualmente relevante a adequação do novo programa, verificando-se que quanto mais inadequado mais proeminentes são as alterações. Palavras-chave: indústria; património industrial; obsolescência; reconversão; requalificação urbana. vi Abstract The influence that industry and its outputs had in the formation of modern times is undeniable. Therefore, it is worrying that we are now being witnesses to the abandonment of buildings that constitute living documents of an era of constant transformation. This document aims at alerting to the consequences of deindustrialization, as well as to the existing tools to solve this problem. For this, we consider the existing hypotheses based on rehabilitation, with special focus on the conversion, in order to explore its specific features. For a better understanding of the motivations behind this practice we have chosen six case studies in different geographical locations. Such a diverse set of example is intended to enable a more representative analysis of the genesis of this interventional action and its potential. In order to better understand the importance of the Industrial Patrimony, it was necessary not only to study the evolution of the concept ‘patrimony’ and ‘monument’, till they covered industrial buildings, but as well the history of its development, as an important element and contributor to architecture. The abandonment of industrial buildings has strong consevii quences in the community. The reuse by conversion is an economic and ecological response with the goal of trying to reverse this decline. It is not our intention to present the conversion as the only solution able to solve this problem. Nevertheless, this approach incites special attention to its adjacent assumptions. Adaptations and transformations might compromise the integrity and the values of the building. Thus, it is necessary to understand the consequences of the changes. It is clear that it is possible to make non-intrusive conversions respecting the pre-existent elements. Possible changes should not prevent the original reading, spatially, in form or materially. For this, it is equally relevant the suitability of the new program, since the more inappropriate ones result in more prominent changes. Keywords: industry; industrial heritage; obsolescense; conversion; urban requalification. viii Acrónimos e abreviaturas APPI Associação Portuguesa para o Património Industrial DoCoMoMo Comité Internacional para a Documentação e Conservação dos Monumentos e Sítios do Movimento Moderno ICCROM Centro Internacional de Estudos para a Conservação e Restauro dos Bens Culturais ICOMOS Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios IHRU Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana IGESPAR Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico IPPAR Instituto Português do Património Arquitectónico ONU Organização das Nações Unidas RI Revolução Industrial TICCIH The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura ix 17 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Introdução Com cerca de 4 anos de idade, num pequeno passeio com os meus tios, passei frente à Estalagem Gado Bravo em Vila Franca de Xira, em ruínas mas ainda espelho de algo grandioso. Interroguei o meu tio sobre o que era e este respondeu-me num tom saudosista que aquele já tinha sido um dos melhores hotéis na região, que até a Rainha de Inglaterra havia ficado hospedada ali. Então – continuei eu – porque está assim? Esta questão evoluiu com o tempo, para abranger conceitos mais complexos, nomeadamente as oportunidades existentes com a desindustrialização que nos deixou um legado patrimonial imenso. Esta prova insere-se na procura de uma resposta a esta questão. É incontornável o impacto que a indústria tem na história a partir do séc. XIX. A industrialização foi catalisadora de novas formas e sistemas arquitectónicos mudando, consequentemente, o conceito de espaço e a dinâmica urbana. Fábricas surgem, crescem e desenvolvem-se durante anos, atravessando gerações diferentes. Ao enraizar-se em determinado ponto não só o ocupam como acabam por caracterizá-lo. Note-se, ainda, que após ciclos de industrializa- 18 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO ção podemos ter, com frequência, processos de desindustrialização. Estes surgem como uma consequência natural, e por vezes inevitável, de mudanças no contexto económico ou do surgimento de novas tecnologias e modos produtivos, que implicam com frequência uma alteração nas necessidades espaciais. Com efeito, os edifícios industriais, mais do que monumentos, constituem documentos vivos de uma época e representações do avanço tecnológico. O nascimento de comunidades e a sua prosperidade dependem muitas vezes da existência de indústrias. O seu abandono é sentido com pesar; a fonte de rendimento passa de sujeito a objecto. Como notou o arquitecto Fernando Távora, “ a delapidação é um processo de criação de formas desprovidas de eficiência e de beleza, de utilidade e de sentido, de formas sem raízes, verdadeiros nado-mortos que em nada acrescentam ao espaço organizado ou o perturbam com a sua existência .” [1]. O mesmo se passa nos fenómenos de desindustrialização, enquanto parte do ciclo da vida das cidades. As cidades e os seus habitantes cresceram com a presença destes edifícios que, podendo não existir carácter monumental, têm significância suficiente para ganhar valor rememorativo nas pessoas. Por não seguirem leis visíveis mas apenas a vontade criativa do arquitecto, existem vários exemplos de arquitectura industrial que serviram de cobaia a novos sistemas construtivos e materiais. A sustentabilidade do património está ligada ao papel que este mantém na vida activa da comunidade sem, contudo, modificar a sua identidade. É, pois, necessário perceber quais as respostas existentes para resolver a obsolescência dos edifícios industriais abandonados e garantir a sua sobrevivência (caso seja desejável). Ao longo dos anos, vários autores desenvolveram teorias que visam defender [1] TÁVORA, Fernando, Da Organização do Espaço, FAUP publicações, 2006, Porto, pág. 27 19 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO o património perante a acção humana e natural. Aqui a arquitectura industrial adquire uma posição mais complexa; a relevância dada à mesma e o seu entendimento enquanto parte integrante da noção de património, são relativamente recentes. Como tal, algumas atitudes interventivas são insuficientes para garantir a sustentabilidade do património industrial, ou seja, a sua validade enquanto matéria e forma. Dada a diversidade de formas, tipologias, territórios e programas que preenche é expectável e compreensível que não exista uma receita única que se possa seguir. As repercussões que a desindustrialização tem na comunidade poderão muitas vezes ser invertidas pela reabilitação do edifício. Os edifícios industriais têm características muito próprias, os seus espaços amplos e pé-direito elevado permitem que sejam transformados para albergar novos e diversos programas. Uma das grandes vantagens nas conversões é de cariz económico. A recuperação de um edifício, muitas vezes, representa um custo substancialmente inferior à construção de um novo. Acrescem ainda benefícios conexos a toda a história e carácter transportados por estes edifícios. Assim, e de forma a podermos responder cabalmente à questão que motiva este estudo, começaremos por uma análise sobre a evolução do conceito de ‘património’ e as teorias de restauro a este associadas, passando ao estudo historiográfico e crescimento da actividade industrial, desde a sua génese com a Revolução Industrial. Procuraremos entender que impacto esta novo sector económico teve nas cidades, em especial quais as novas formas urbanas, sociais, culturais e económicas por si fomentadas. Passaremos seguidamente para a desindustrialização em contexto urbano. Focaremos, pois, a nossa atenção nos espaços votados ao abandono, que são hoje lugares de ninguém, ainda que enraizados na memória colectiva da cidade. O declínio deste património tornou-se uma temática merecedora de crescente atenção desde a década de sessenta do século passado. 20 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Abordaremos as formas interventivas existentes mais usuais, nomeadamente o projecto de restauro, com ou sem modificações de interiores e exteriores, a musealização ou o respeito e permanência enquanto ruína. Muitas vezes engolidos pelo desenvolvimento da cidade, queremos compreender o seu papel na cidade de hoje e de que forma este pode ser reprogramado. Para este efeito, recorreremos a casos de estudo. Os exemplos de conversões industriais escolhidos apresentam diversidade geográfica, com especial incidência no Ocidente. Esperamos assim identificar diferentes formas de entender e tratar o património industrial, reflexo da multiplicidade de culturas, climas e urbanidade. Apesar de uma dimensão territorial relativamente pequena, a Europa apresenta uma considerável diversidade cultural e social. Por esta razão escolhemos quatro exemplos provenientes deste continente. A norte a Residência Gemini em Copenhaga, situada na antiga zona industrial da cidade, hoje parte do centro urbano. Mais a sul, em Madrid, debruçar-nos-emos sobre a CaixaForum, uma antiga central eléctrica protegida no plano urbano da cidade pelo seu emparelhamento de tijolo estilo neo-mudejar. Em Portugal, em particular, foram escolhidos dois exemplos: a Fábrica de Santo Thyrso, com uma história centenária e fortes ligações com a comunidade e, em Évora, a Fábrica dos Leões, um complexo bastante heterogéneo que foi outrora o maior empregador da região. Finalmente, são estudados dois projectos do outro lado do Atlântico. Do Brasil estudaremos o SESC Pompeia em São Paulo, uma das primeiras estruturas no bairro Pompeia e que desenvolveu espontaneamente uma relação íntima com a comunidade após o seu abandono. Por fim analisaremos o MASS MoCA em North Adams, EUA, com uma presença muito grande na cidade quer pela sua dimensão quer pelos impactos do seu abandono e posterior recuperação. O presente estudo está, portanto, dividido em três partes. Na 21 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO primeira serão explorados os conceitos e valores patrimoniais inerentes à arquitectura industrial e a história da sua evolução, seguidos de uma análise da origem e evolução de práticas de restauro. Posteriormente, passamos à aplicação da análise aos casos de estudo. Estudaremos a sua história e evolução, a acção de reabilitação e o projecto final, em concreto no que consiste e qual a sua participação na vida activa da comunidade. Concluiremos com as considerações finais, explanando as conclusões retiradas do estudo e de que forma conseguimos responder à questão de partida. 22 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1 Património e Indústria 24 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1.1 de Monumento a Património A forma como a arquitectura industrial surge na discussão de salvaguarda do património está ligada à difusão e à globalização deste conceito. Em meados do séc. XX é adoptada uma nova visão, fundada no interesse por esta tipologia arquitectónica, tantas vezes de origem não erudita. Para chegar a esta percepção, tanto o conceito de monumento como o de património tiveram de se transformar. Monumento, do latim monumentum , este último com origem em monere (advertir, recordar) tem, como sentido da sua existência, não o fornecer de um conhecimento mas o de " exercitar, pela emoção, uma memória viva " [2]. Historicamente, edifícios eram deliberadamente projectados para serem monumentos. Esta designação não surgia, portanto, a posteriori da construção, ao contrário do que veio a suceder mais tarde. De facto, a ideia de ‘Monumento’ não teve uma percepção e entendimento constante ao longo da história. Num mundo em constante mudança, a forma como o entendemos foi alterada, tendo o valor de beleza sido substituído pelo da mestria construtiva. Já no século XVIII, desenvolve-se o conceito de monumento [2] CHOAY, Françoise, Património e Mundialização, Ed. Licorne, 2005, p.17 25 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO histórico [3], com o valor histórico a libertar o monumento dos valores rememorativos e emblemáticos. É aquando da introdução deste termo, por Aubin-Louis Millin (Paris, 1759 - 1818) durante a Revolução Francesa, que são também dados os primeiros passos na direcção da preservação. Aloïs Riegl (1858-1905), foi um historiador de arte pertencente à Escola Vienense, defendeu que: “ todo o objecto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem ter tido na sua origem um destino memorial " [4]. Percebeu-se, pois, que um edifício poderia ter valor documental de uma era, local, sistema ou tipologia, como é, assim, o caso da arquitectura industrial. É precisamente aqui que se encontra a distinção entre Monumento Histórico e Monumento. Quatremere de Quincy (Paris, 1755-1849) foi um escultor, homem des letters , crítico de arquitectura e académico; escreveu em 1832 o Dicionário Histórico de Arquitectura. Nesta obra definiu monumento como uma ideia aplicada a " (...) um edifício, ou construído para eternizar a recordação de eventos memoráveis, ou concebido, erguido ou disposto de forma a tornar-se num agente de embelezamento e de magnificência das cidades (…) a ideia de monumento, mais relativa ao efeito do edifício, do que ao seu objectivo ou finalidade, pode convir e aplicar-se a todos os géneros de edificações. " [5], demonstrando assim uma visão vanguardista para a época e implicando a arquitectura industrial na sua definição. Ao longo da história existiram personagens singulares que, movidas pela empatia, ditaram decretos e leis que proibiam a destruição de determinada construção. Até ao século XVIII, apesar de existir o reconhecimento do valor patrimonial, chegado o ponto de abandono o edifício era destruído para a obtenção de materiais. Como observou Françoise Choay “ nenhum princípio proíbe a des- [3] “(...) Face às destruições e às alterações do quadro de vida que ela [a Revolução Industrial] implicou, as ‘antiguidades’ vão, a partir de agora, dar lugar a uma protecção de tipo museológico mas, não obstante, sempre devido ao seu interesse para a história e para a arte: é então que as ‘antiguidades’ ganham a designação de ‘monumentos históricos’” in CHOAY, Françoise, Património e Mundialização, Ed. Licorne, 2005, p.27 [4] idem [5] Quatremere de Quincy, Dizionario storico di Architettura, Ed Saggi Marsiglio, Veneza, 1985, p. 234 32 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO ta obra Freeman distingue três atitudes interventivas diferentes de restauro: o ‘destrutivo’, baseado na destruição de diversas partes do monumento; o ‘conservador’, fundamentado pela reprodução precisa do monumento; o ‘ecléctico’, que surge como uma mistura dos dois anteriores. Destacou-se também John Ruskin (Londres, 1819 – 1900), cuja posição mais vincada e irreverente, onde o gótico era visto como o expoente da arquitectura, defendia o retorno às formas e a rejeição da industrialização e suas consequências. Para este, o restauro devia ser visto de uma perspectiva moral, religiosa e ética. Ao introduzir um novo valor ao monumento, o da memória, Ruskin exprimiu a convicção de que o tempo e a glória têm um percurso paralelo: quanto maior for a idade de um edifício maior será a sua glória. Assim, transformar um edifício é considerado um acto criminoso que resulta na destruição das suas características, potenciado a perda da memória. Como observou: “ Nós podemos viver sem [a arquitectura], adorar o nosso Deus sem ela, mas sem ela não podemos recordar ” [15]. Enquanto paisagista, acreditava que o monumento fazia parte da paisagem e deveria ser admirado sem intervenção. A sua existência deveria ser aceite como a de um ser biológico, que nasce, vive e morre, pelo que “ restaurar é impossível. Tão impossível como dar vida aos mortos ” [16]. Esta posição é harmonizada pela aceitação da conservação, desde que a mesma seja feita de forma imperceptível. Para este efeito, Ruskin criou um fundo de conservação designado de Sociedade de Antiquários de Londres. Contemporaneamente a Ruskin, mas de pensamento oposto, surgiram Gilbert Scott (Londres, 1811-1878) e George E. Street [15] RUSKIN, John, Capítulo VI (“The Lamp of Memory”) de The Seven Lamps of Architecture, p.182 [16] CHOAY, Françoise, Alegoria do Património, Ed. 70, 2010, Lisboa, p. 159 33 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO (Essex, 1824-1881). Estes autores defendiam a substituição do termo restauro por reparo e aceitavam intervenções num monumento desde que fossem feitas com a intenção de apagar os sinais do tempo. Mais ainda, eram aceites mudanças se estas fossem de encontro a um estilo ideal (decorate style). Acreditando que um monumento é elemento integrante da memória da Humanidade e não apenas da circunstância que o criou, esta dupla defendeu uma protecção internacional, gerando a noção de ‘bem europeu’. Em 1854 aventaram também a criação de um organismo protector europeu, dotado de estruturas financeiras e técnicas. Com a associação de Ruskin com William Morris (Essex, 1834 – Londres, 1896), os seus ideais ganharam nova força. Sendo também Morris contra a industrialização, defendia a reabilitação do trabalho artesanal, baseada na admiração e interesse pela época medieval, pela teologia e ordem eclesiástica, e pelo socialismo utópico. Contudo, só vinte e sete anos após Ruskin publicar “As sete Lâmpadas da Arquitectura” é que Morris se consciencializou do problema da preservação dos monumentos. Seguindo o preceito de Ruskin, Morris criou a Society for the Protection of Ancient Buildings, a 2 de Março de 1877, com a pretensão de salvaguardar os edifícios antigos e insurgir-se contra o restauro. Desta vez as consequências foram profundas e tiveram uma crescente adesão. Em Junho do mesmo ano pública no Athenoeum o seu manifesto anti-restauracionista, onde demonstrou a importância do monumento enquanto fonte histórica. Em Itália, ao contrário de França que seguia o caminho da disneyficação e de Inglaterra que defendia o não restauro, foi adoptada uma linha de acção que permitia restaurar a historicidade de um edifício. Nesta corrente destacaram-se três personalidades: Lucas Beltrami, Camilo Boito e Gustavo Giavannoni. Luca Beltrami (Milão, 1854 – Roma, 1933) acreditava que 34 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO não deveriam ser apenas os edifícios medievais a merecer acções de restauro, como se verificou com a intervenção no castelo dos Sforza em Milão. Reconhecendo a dificuldade que é intervir sob o património, defendeu que cada caso deve ser estudado minuciosamente, recorrendo a documentos, escritos ou desenhados. Esta metodologia revelou-se limitada, uma vez que os documentos interpretados nem sempre haviam sido feitos rigorosamente. Camilo Boito (1836 – 1914) elaborou, entre 1883 e 1889, uma série de textos de onde se percebe uma selecção de directrizes quer de Ruskin quer de Viollet-Le-Duc. De Ruskin e Morris adoptou a noção de originalidade, segundo a qual tanto o edificado como as adições posteriores eram merecedores de sobreviver [17]; recusou, pois, a ideia reconstrutiva de Viollet-Le-Duc. Boito defendia, porém, a legitimidade do restauro, praticável somente em casos extremos e identificável do edifício original. Em 1883, no III Congresso de Arquitectos e Engenheiros Civis, em Roma, fez por mostrar a diferença e a necessidade de avançar no tempo, expondo a importância de abraçar a tecnologia moderna nas intervenções. Na sua metodologia interventiva destaca-se o papel da documentação fotográfica de todo o processo (que deve ser exposta ou publicada), memória descritiva de todo o processo e a exposição das partes materiais que foram eliminadas, preferencialmente num espaço contíguo ao monumento. Compreendendo a complexidade de restaurar um edifício propõe uma subdivisão entre tipos de restauro: restauro arqueológico, empregue em monumentos da Antiguidade, mas apenas para consolidar e de forma reduzida; restauro pitoresco, executado em monumentos medievais e sobretudo a nível estrutural; restauro arquitectónico, assente sobre edifícios renascentistas e barrocos e permitindo intervencionar na totalidade do edifício. A lógica subjacente à proposta de Boito é, deste modo, que quanto menor for [17] LUSO, Eduarda; LOURENÇO, Paulo B.; ALMEIDA, Manuela, Breve História da Teoria da Conservação e do Restauro, 2004, p. 38 F.06 aspecto original da Porta Ticinese em Milão F.07 Porta Ticinese após restauro de Camilo Boito 35 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO a idade maiores poderão ser as mudanças. Sublinhe-se ainda o trabalho de Gustavo Giavannoni que, ao alargar o espectro do problema, se distinguiu dos seus contemporâneos. Quando o debate se centrava na questão do monumento e restauro, Giavannoni ele transportou toda esta visão para o campo urbano, aliando valor museológico ao valor de uso de conjuntos urbanos. Este arquitecto insurgiu-se também contra a desvalorização da arquitectura menor assim como contra o isolamento urbano dos monumentos depois dos elementos que lhe eram contíguos serem destruídos. A noção de ‘ambiente’ nasce da pena de Giovannoni, que utilizou este termo para definir o espaço urbano enquanto fonte de valor para o monumento, era um “complemento social” [18]. Estendeu, assim, o conceito de monumento a novos elementos, ao tecido urbano, tantas vezes formado por arquitectura menor, como é o caso da arquitectura industrial, e a necessidade de restauro e conservação da mesma. Seguindo o preceito Boitiano sistematizou os seus ideais e estendeu-os à natureza urbana dos monumentos. Giovannoni não concordava com reconstruções ou inserções modernas em bairros antigos, considerando que a mesma não era apta para se integrar na historicidade. Contudo, a tentativa de alargar os princípios do “restauro científico” à estrutura urbana levou o autor a estender este conceito a uma definição pouco precisa. Estes princípios, defendidos por Boito e seguidos, posteriormente, por Giovannoni, constituem a primeira Carta de Restauro e estão na base das Cartas de Roma (1931), de Atenas (1931) e de Veneza (1964). Estão também na base da criação de organismos internacionais de salvaguarda, que surgem sobretudo no pós-guerra, [18] idem, p. 39 36 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO como a UNESCO (1946) e o ICOMOS (1965) e muita legislação moderna de alguns países. Assistiu-se, assim, quase simultaneamente, ao surgimento em pontos diferentes da Europa de três pontos de vista diferentes. Estes serviram de fundamento e inspiração para os projectos de restauro actuais, independentemente da tipologia arquitectónica. Enquanto o exemplo de França serviria para o que hoje designamos de fachadismo (a utilização de uma caixa histórica para a construção de algo novo), em Inglaterra defendia-se o direito à ruina, em que restaurar seria mudar para algo diferente e novo, e por isso, indesejado. Por fim, em Itália, seguia-se o caminho mais harmonioso e de certa forma vanguardista. À semelhança de os dias de hoje, não só o restauro era aceite como foi alargado o espectro de acção; já não se cingia apenas aos edifícios medievais. Novas correntes artísticas e arquitecturas menores começaram a ser vistas igualmente como merecedoras, numa atitude que, entre todas, é a mais marcante para os dias de hoje. Contudo, desta diversidade de modos operativos, nenhum responde cabalmente às necessidades da arquitectura industrial. Esta, tem como objectivo responder a uma necessidade e é abandonada e deixada à ruína por não cumprir mais esta premissa. Por isso, dotá-la das mesmas qualidades e ferramentas que tinha no seu estado inicial não é a melhor solução. Foi necessária a maturação de conceitos e ideologias durante o século XX para se chegarem a conclusões mais concretas e capazes. 37 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1.3 Século XX e a II Guerra Mundial Com o início do século XX existiam diferentes visões, de diferentes protagonistas, sobre a tutela e o restauro dos monumentos. Esta diversidade conduziu a um certo desconforto geral, levantando a necessidade de encontrar um consenso; este revelou-se imperativo após o Congresso Internacional de História e de Arte em Paris em 1921, e posteriormente, em 1930, em Roma. Foi necessária a Conferência Internacional de Atenas sobre o Restauro dos Monumentos, de 1931, para se chegarem a conclusões com resultados para o futuro. Desta discussão, com vinte países intervenientes, nasceu a Carta de Atenas que teve grandes repercussões nos anos seguintes e onde se expõem os ideais a seguir: a) valores arquitectónicos devem ser salvaguardados (edifícios isolados ou conjuntos urbanos) independentemente do seu estilo; b) condenam-se novas construções nos centros históricos; c) evita-se salvar tudo e garantir a sobrevivência apenas do que é relevante, e para tal deve ser efectuado um estudo profundo, também para garantir um modo interventivo correcto. Desta reflexão é esperada a colaboração entre não só arquitectos e arqueólogos, mas também representantes de outras ciências físicas, químicas e naturais; d) considera-se sensato utilizar o uso da técnica moderna e especialmente do betão mas de 38 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO forma dissimulada [19]. Este foi um ponto marcante na história do restauro. A Carta de Atenas serviu como ponto de referência e estímulo para outras nações, originando regulamentos e outras cartas de restauro. Consequência directa foi a Carta de Restauro Italiana, escrita por Giovannoni e publicada no “Boletim de Arte” do Ministério da Educação Nacional em 1932. Esta seguia os mesmos princípios, mas com uma mudança importante: alargou o espectro de acção e a noção de património. A II Guerra Mundial obrigou a fortes mudanças. Após o término da mesma, cidades europeias ficaram em escombros; a Carta de Atenas não foi preparada para responder à destruição bélica, prevendo apenas intervenções moderadas. Entre as demais intervenções, destacou-se, por exemplo, a de Hans Döllgast (1891 - 1974, Munique) na Alte Pinakothek de Munique, 1957-59. Após os bombardeamentos pelas forças aliadas, grande porção do edifício encontrava-se em escombros, não querendo apagar este acontecimento mas antes recordá-lo, reconstruiu o edifício seguindo a mesma linguagem arquitectónica mas com pequenas alterações materiais, fazendo, assim, a distinção entre novo e antigo. Neste seguimento destacou-se Cesare Brandi (Siena, 1906 – Vignano, 1988) que, em 1966 escreveu “Teoria do Restauro” com o intuito de ampliar o conceito de restauro e assim adaptar-se às novas exigências. A sua teoria ficou conhecida como ‘restauro crítico’, e defendia a inversão na hierarquia de valores. O valor histórico passou para segundo plano perante o valor artístico; o restauro era visto como obra de arte e particular a cada caso, não existindo uma receita aplicável a todos os casos. Restaurar é um acto criativo e crítico. Defendeu igualmente que, na inexistência de valor de obra [19] Carta de Atenas, 1931 disponível em http://www.igespar.pt/media/ uploads/cc/CartadeAtenas.pdf, consultado 6.1.13 F.08 Alte Pinakothek após bombardeamento F.09 Alte Pinakothek actualmente 39 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO de arte, o monumento poderia ser reconstruído como cópia: “ O restauro deverá restabelecer a unidade potencial da obra de arte, sempre que isto seja possível sem cometer uma falsificação artística ou uma falsificação histórica, e sem apagar as marcas do percurso da obra de arte através do tempo ” [20]. Percebe-se, pois, que o ‘restauro crítico’ teve influência nas metodologias interventivas da actualidade. Esta postura, ao admitir a inserção de novas formas, esteve na base das recuperações de hoje, em especial no caso industrial por afirmar o valor de uso. Em 1945, a ONU (Organização das Nações Unidas) criou a UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization), com sede em Paris, com o objectivo de contribuir para a paz mundial através da educação, ciência, cultura e comunicações. Acreditando que o património é uma das chaves para tal, desenvolveu convenções e recomendações para a sua salvaguarda. Em 1954, durante a Convenção de Haia [21], ou Convenção para a Protecção de Bens Culturais em caso de Conflito Bélico, é novamente redefinido o conceito de património e a sua abrangência, assim como as medidas a tomar em caso de guerra. Defendeu-se a inventariação internacional dos bens culturais de maior importância e a sua protecção, sendo importante não só o monumento como também a paisagem onde se insere. Os estados membros obrigaram-se a o respeitar e a absterem-se de hostilidade quanto aos bens culturais. Percebendo que apenas a existência de normas seria insuficiente, durante o I Congresso Internacional de Arquitectos e Técnicos de Monumentos Históricos, que ocorreu em 1957 em Paris, foi [20] Brandi, Cesari, Teoria de la Restauracion, Ed. Alianza Editorial, 1988, citado em LUSO, Eduarda; LOURENÇO, Paulo B.; ALMEIDA, Manuela, Breve História da Teoria da Conservação e do Restauro, 2004, p. 40 [21] não foi dado o exemplo concreto da arquitectura industrial, mas esta foi definida como “ propriedade móvel ou imóvel de grande importância para a herança cultural da humanidade ”, sendo apenas referenciada, no artigo 8, como um “ ponto vulnerável ” a bombardeamentos e a evitar 40 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO proposta a criação de organismos nos diferentes estados membros de modo a assegurar a protecção patrimonial. Em 1964, deu-se um outro grande passo na história do restauro, durante o II Congresso Internacional de Arquitectos e Técnicos de Monumentos Históricos, em Veneza, foi redigida a Carta de Veneza. Esta veio, uma vez mais, alargar a abrangência do conceito de património e reafirmar a necessidade da conservação do mesmo, em toda a sua nova amplitude. Além da ampliação do conceito de património, foi defendido: a) o respeito pelo edifício na sua totalidade, quer tenha, ou não, construções anexas posteriores; b) antes de intervir, deve ser assegurado o profundo conhecimento do edificado. Deverão ser feitos estudos arqueológicos e históricos, fotogrametria, sondagens estratigráficas e outros que garantam o melhor resultado tanto quanto possível; c) a intervenção nunca poderá ser uma transformação definitiva, em qualquer momento deve ser possível retornar ao aspecto anterior; d) mesmo após o restauro deverão ser feitas manutenções periódicas e uma atribuição funcional socialmente útil[22]. Em 1972, por iniciativa da UNESCO, realizou-se a Convenção para a Protecção do Património Cultural e Natural. Daqui, além de surgir um entendimento de valores ocidentais universal, nasceu um grupo de obrigações que visavam a protecção e valorização patrimonial. Aqui, a partir da alteração da definição de património, em especial os seus limites inferiores, os edifícios industriais adquiriram os mesmos privilégios e os mesmos direitos de conservação que ou- [22] Carta de Veneza, 1964, disponivel em http://www.igespar.pt/media/ uploads/cc/CartadeVeneza.pdf consultado em 6.1.13 41 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO tros exemplos de arquitectura maiores [23]. Mais recentemente, em 2000, foi subscrita por diversos países a Carta de Cracóvia, que consciente da maior abrangência da noção de património e sob a égide da Carta de Veneza, veio reafirmar a necessidade da existência de normas comuns perante a variedade de valores culturais que podem gerar conflitos. Assim, foi salientada a necessidade de maior atenção nas decisões tomadas. Funcionou igualmente como pretexto para a actualização de práticas obsoletas e sinopse de todas as convenções e cartas produzidas desde a Carta de Veneza. Assistiu-se, assim, ao longo da história, a alterações na forma como entendemos a noção de património, abrangendo actualmente paisagens naturais com ou sem intervenção humana, centros históricos, bairros típicos, indústria, arquitectura vernacular e outros. Percebe-se, assim, o papel importante que a II Guerra Mundial ocupou. Se das cinzas renasceu a Fénix, dos escombros de uma Europa destruída, renasceram directrizes sobre o restauro. Esta destruição conduziu a um repensamento profundo das práticas de restauro. Os sentimentos de perda não se focaram apenas nas arquitecturas maiores, pelo que se revelou óbvia e premente a necessidade de mudança. Daqui surgiu um novo olhar sobre a arquitectura industrial. [23] lê-se nos textos fundamentais da Convenção do Património Mundial: “ O Comité considera que um bem tem um valor universal excepcional [se for:] (…) testemunho de um intercâmbio de influências considerável, durante um dado período ou numa determinada área cultural, sobre o desenvolvimento da arquitectura ou da tecnologia, das artes monumentais, do planeamento urbano ou a criação de paisagens ; [e se] representar um exemplo eminente de um tipo de construção ou de conjunto arquitectónico ou tecnológico ou de paisagem que ilustre um ou mais períodos significativos da história humana ;” Textos Fundamentais da Convenção do Património Mundial, UNESCO, 1972, p. 37 disponivel em http://portal.unesco.org/, consultado em 25.7.13 48 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO queçamos que é a Língua e a Arquitectura, são as cidades de língua portuguesa, que nos permitem algum sentimento, como esforço e imaginação (...) Temos pouco tempo antes da desistência total, mergulhados no fatalismo da inevitável perda. Trata-se, assim, usando uma linguagem fora de moda, de um esforço verdadeiramente patriótico (...) Por isso me sinto como um homem do século XIX, porque é ao passado e no passado – mas por causa do presente que, com tanta mentira caminha ao nosso lado – que, como Garret, dirijo a interrogação: que ser é o meu se a pátria a que pertenço não está segura de possuir o seu? ” [33]. As palavras de Alexandre Alves Costa sobre o património esquecido e desvalorizado são igualmente aplicáveis ao caso do património industrial. Com a destruição deste, a identidade, não só de uma comunidade mas também de um país, é esbatida e consequentemente alterada. Revela-se, pois, imperativo o desenvolvimento de instrumentos capazes de resolver esta problemática. Como elemento de identidade territorial e dos indivíduos da circunstância circundante a permanência destes edifícios parece ser a tendência preferida. De certa forma, a ruína industrial contagia a sociedade com uma noção de fracasso. O abandono é o espelho da incompetência, pelo que a sua recuperação será a reassunção de identidade e valores cívicos. Este pensamento dever ser entendido como uma existência contínua na história. Num grande número de casos os edifícios industriais foram construídos em núcleos com grande densidade populacional, que tantas vezes criaram. A sua revitalização pode, por isto, ser uma óptima oportunidade de reordenamento urbano. A permanência destes documentos vivos parece ser a opção preferida. Cada vez mais são alvos de propostas de recuperação, como acontece não raras vezes com os centros históricos. Por toda a [33] COSTA, Alexandre Alves, Comunicação efectuada a 18 de Abril de 2009, no auditório da faculdade de direito da Universidade de Coimbra, no dia internacional dos Monumentos e Sítios sob o tema geral “O Património como Oportunidade e Desígnio” F. 20 e 21 Frame do documentário “Ruínas” de Manuel Mozos, aqui o realizador explorou a memória associada a ruínas e a sua sobrevivência ao longo de gerações 49 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Europa já se assistiu à transformação de antigas zonas e edifícios industriais. Entre os exemplos contam-se Oslo, no bairro Grunerløkka, Copenhaga, na zona denominada Brygge ou ainda a intervenção de Renzo Piano na antiga fábrica da Fiat, Lingotto, em Turim. Percebe-se assim que, apesar do esforço de qualificar a arquitectura industrial de formas e espaços com qualidade, esta esteve sempre condenada pela obsolescência da tecnologia. É uma obsolescência adivinhada. Estes espaços são executados com um objectivo concreto: o de responder a uma necessidade funcional. É aceite, desde a sua concepção, que essa necessidade irá ser alterada com o tempo e, consequentemente, o espaço deixará de ter um objectivo. Então, e se, como foi já notado, a sua destruição não é a solução, é imperativo conhecer as possibilidades existentes que permitam um propósito futuro. 1.5 Caso Português “ A industrialização de Portugal não tem talvez nada de especial para contar ” [34]. Esta não tem um desenvolvimento paralelo, por exemplo, ao de Inglaterra. No contexto português, este processo ocorreu principalmente entre 1925 e 1974, aproveitando épocas de crise internacional. Diferentes historiadores afirmam que Portugal pouco aderiu à Revolução Industrial, e, quando o fez, foi por surtos. [34] AMARAL, Ferreira do A. A industrialização em Portugal, ENP-Anuário Comercial de Portugal, Lisboa, 1966 in CUSTODIO, Jorge, A arquitectura da indústria, 1925-1965, registo DOCOMOMO Ibérico, 2005 50 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO As empresas portuguesas encontravam-se em desvantagem perante as de outros países. Incapazes de competir, eram subdimensionadas e tecnologicamente rudimentares, resultando numa uma produção débil e, consequentemente, numa forte dependência do estrangeiro. Até finais do século XIX o modo produtivo era principalmente artesanal. A partir do século passado, adoptou-se uma nova atitude, com a instrução de engenheiros em academias internacionais, o que permitiu desenvolver a indústria nacional. Contudo, em grande medida pela instabilidade vivida em Portugal e internacionalmente, este desenvolvimento foi lento. Enquanto no resto da Europa a electricidade era já uma fonte de energia predilecta, aquando a realização do I Congresso Nacional de Engenharia, em 1931, foi discutida a necessidade de electrificação total do país [35]. Nas primeiras décadas do século XX, apenas os grandes centros urbanos se encontravam electrificados. Em Lisboa foi construída, em 1901, a Central Carris e, em 1908-11, a Central Tejo. No Porto, a Central do Ouro, em 1907-08, e do Freixo, em 1923. Destacou-se ainda o papel de certas políticas do Estado Novo. Este desenvolveu, durante a década de 30 e 40, infra-estruturas indispensáveis ao relançamento da economia portuguesa [36]. Após a II Guerra Mundial, a indústria portuguesa foi sido alvo de uma forte reestruturação. Com efeito, a electrificação de zonas industriais, a programação de indústria de base, a modernização de máquinas e o planeamento a médio e longo prazo, permitiram ao país atingir o estatuto de ‘moderadamente industrializado’ durante as décadas de [35] FERNANDES, José Manuel; Arquitectura e Indústria em Portugal no século XX, Ed. Secil. 2003 [36] este desenvolvimento foi consideravelmente lento e com resultados apenas a partir da década de 50. Ainda na década de 40, a indústria portuguesa padecia de fraco investimento, o que resultou em construções de expressão simplista e com preocupação meramente funcional. F.22 Central Tejo, 1939 F.23 Central do Ouro, s.d. 51 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 50, 60 e 70, sendo a de 60 considerada mesmo a ‘época de ouro’ da indústria portuguesa. Neste contexto de expansão, destacou-se a indústria cimenteira. Com um crescimento anual superior a 8% entre 1926 e 1973 foi o “pilar da indústria portuguesa”. Enquanto no resto da Europa os arquitectos modernistas estavam já ligados à concretização de complexos fabris, em Portugal a arquitectura industrial era, sobretudo, fruto do trabalho de engenheiros. E de facto, com a introdução do modernismo em Portugal, nada fazia adivinhar o papel que os arquitectos teriam na indústria. Gradualmente, os arquitectos foram sendo mais envolvidos, ganhando uma maior consciência em relação à arquitectura industrial. Assim, foi abolida a monumentalidade característica da intervenção da engenharia, dando lugar a uma nova abordagem. Esta era baseada em princípios de simplicidade, espaços elementares, racionais e sóbrios, sendo dada primazia à higiene, à segurança e à funcionalidade. Acreditando que o edifício deveria ser parte integrante da paisagem, a dissimulação da sua existência através de cortinas verdes era um acto impensável [37]. Assistiu-se, portanto, à preferência por um estilo “clássicomonumental”, que seria a expressão arquitectónica do Estado Novo. Este tinha a variante “regional-historicista”, onde a utilização de determinados materiais lembravam a arquitectura tradicional, assim como, o uso vernacular de certas formas. Conclui-se, então, que o caso da industrialização portuguesa tem pouco de inovador, principalmente quando comparado com outros percursos europeu e americano. Em Portugal, apesar de mais tardiamente, seguiram-se as premissas industriais internacionais. [37] CUSTODIO, Jorge; A indústria portuguesa na época do Movimento Moderno (1925-1965), A Arquitectura da indústria, 1925-1965, Registo DOCOMOMO Ibérico, 2005; p.35 F.24 desenho dos Armazéns Frigoríficos de Massarelos, 1934 F.25 Gare Marítima de Alcântara 52 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Apenas com o advento do Movimento Moderno, os arquitectos foram envolvidos no processo criativo destes espaços com o intuito de os melhorar. Contudo, apesar do esforço de arquitectos, a arquitectura industrial portuguesa nasceu, principalmente, da pena de engenheiros. Entre os arquitectos destacaram-se, por exemplo, Arménio Losa (1908-1988, CUF), Pardal Monteiro (1897-1957 – Gare Marítima de Alcântara, 1936-43) e Januário Godinho (1910-1990 – Armazéns Frigoríficos de Massarelos, 1934). 53 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1.6 Património Industrial Na década de sessenta do século passado, com a já referida expansão do conceito de monumento e património, tomou-se consciência da importância de inventariar, estudar e preservar os símbolos da era industrial; enquanto memória de uma época marcante no tempo e por isso relevantes. Esta é uma área com limites por definir e, como tal, abrange um vasto número de casos disseminados pelo território. Não existem, portanto, regras fixas e incontornáveis que ditem quais os edifícios industriais dignos de serem considerados património. O aparecimento da expressão “arqueologia industrial” coincidiu com a afirmação do significado de património no século XIX [38], mas ainda com força esbatida. Foi, contudo, no Reino Unido que ganhou força e maior significância. Aquando da destruição de uma grande parte de Euston Station, Londres, em 1962, a indignação provocada na população levou à formação da Sociedade Vitoriana, defensora das arquitecturas menor, cujas acções garantiram a não destruição de marcos históricos, como foi o caso da estação St. Pancreas. Surgiu, pois, um acrescido respeito, com a formação de uma [38] também o português Sousa Viterbo, em 1896, utilizou este termo para se referir ao caso dos moinhos, ostracizados perante os avanços tecnológicos F.26 Entrada da Estação de Euston, 1920 F.27 Estação de Euston aquando a demolição, 1962 54 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO nova disciplina. Enraizou-se a percepção de que existem valores que se sobrepõem à qualidade ou ao nível arquitectónico e que, apesar de não serem visíveis, estão enraizados na comunidade. Ainda que a relação do edifício com a comunidade possa muitas vezes deixar de existir, a mesma ressente-se da sua ausência, pelo que, como Kenneth Hudson (1916-1999) observou, “ Uma das principais razões para se querer preservar um edifício original é poder recuperar a relação entre as pessoas e o espaço no passado ” [39]. Num mundo em constante mutação, é natural que os elementos que marcam a civilização industrial tendam a desaparecer; cabe-nos, então, garantir a sua permanência. Sendo que muitos dos testemunhos existentes do passado chegaram até nós por acaso e não como fruto de uma selecção consciente e regrada, será que o que estamos a preservar será significativo no futuro? A resposta estará no resultado do estudo de valores do edifício e a sua vivência com a comunidade. Os espaços industriais, em particular, são vistos há já algum tempo como bons exemplos de espaços capazes de ser facilmente reutilizados; são normalmente amplos, com uma construção sólida e crua, características que facilitam a sua manutenção e fácil adaptação às normas legais actuais. Existem nas mais variadas formas e materiais, sem uma implantação que obedeça a regras fixas, podendo daqui originar um leque enorme de possibilidades. Por ser uma subdivisão do património mais recente, apresenta exemplos mais amplos do que apenas maquinofacturas, outras construções como “ indústria têxtil, de vidro, metalúrgica, química, de papel, comida, extracção – de minas, para além de obras públicas; transporte, comércio e infra-estruturas de abrigo, bairros operários, [39] MATOS, Ana; RIBEIRO, Isabel; SANTOS, Maria; Actas do colóquio de Museologia Industrial, Reconversão e Musealização de Espaços Industriais, Ed. Museu da Indústria, p. 27 F.28 Grutas de sal em HallstattDachstein, primeiro conjunto de natureza industrial a integrar a lista de Património da Humanidade, em 1997 55 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO etc. Cada universo industrial tem as suas próprias especificações ” [40]. Não é então apenas pela sua idade ou valor artístico que estes espaços devem ser preservados, mas sobretudo por serem testemunhos e espelhos de uma forma de trabalho e de vida. Pelo seu valor afectivo de memória que representa para quem sempre o viu como parte integrante da paisagem, “ preservar o Património Industrial é preservar a memória, a identidade de um edifício, uma máquina, uma actividade, uma população, região ou país. As identidades marcam diferenças e as diferenças incitam ao intercâmbio, o intercâmbio do enriquecimento mútuo ” [41], como constatou Victoria Merola. Gille Alvés caracterizou o património Industrial como “ um território promissor ” [42] perante as possibilidades que embarga. Acredita que a sua valorização poderá ser potenciadora de alterações positivas na sociedade, tanto a nível económico, como cultural, ou urbano. Em Portugal, a problemática sobre o Património Industrial começou a ser discutida na década de 80 do século passado [43]. Defendendo a existência dos mesmos valores que o TICCIH, este apresenta, no nosso território, ainda uma aceitação e compreensão limitadas. Contudo, e em favor da salvaguarda destas construções, foram desenvolvidos organismos protectores. É o caso do APPI, o representante em Portugal do TICCIH, do IGESPAR (antigo IPPAR) e do IHRU. Estes dois últimos, perante a inércia assistida em Portugal frente a normas protectivas industriais, desenvolveram, em 2008, o Kit 03. Este é um guia prático sobre inventariação patrimonial in- [40] IGESPAR, disponivel em http://www.igespar.pt/en/patrimonio/itinerarios/industrial1/ [trad. do a.] [41] MEROLA, Victoria, Reconversão e Musealização de Espaços Industriais, Ed. Associação para o Museu da Ciência e indústria, Porto, 2003, p. 38 [trad. do a.] [42] ALVÉS, Gille, “O património industrial – um território promissor”, in Património – Encontros de Divulgação e Debate em Estudos Sociais, Vila Nova de Gaua,.1999, p. 25 [43] IGESPAR, disponivel em http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/itinerarios/industrial1/ acessado em 7.8.13 56 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO dustrial, pretendendo sensibilizar não só organismos culturais como também os cidadãos em geral, para que estes “ apoiem em acções de reconhecimento, identificação e documentação do “seu” patrimóni o” [44]. Salvo raras excepções, como é o caso da Central Tejo (construída em 1919 e activa até 1972) que foi convertida em Museu da Electricidade em 1992, o Património Industrial em Portugal é desvalorizado. Mesmo quando existe consciência do seu valor patrimonial, não se verificam esforços para a sua requalificação e adaptação à contemporaneidade, degradando-se consecutivamente até à ruína e desperdiçando oportunidades de revalorização. Exemplo paradigmático é o Armazém Frigorifico de Massarelos da autoria de Januário Godinho, com classificação patrimonial mas actualmente obsoleto e descaracterizado. Estas transformações são determinantes para a qualidade de vida dos habitantes e do espaço urbano onde se inserem. São, igualmente, capazes de perpetuar e revalorizar a imagem da cidade. A reabilitação de espaços industriais contribui ainda para o reconhecimento de valores já mencionados – técnicas construtivas, história, memória e significância social, assim como, a perpetuação da, por vezes, urbanidade heterogénea, única e individual e por isso caracterizante de uma cidade. [44] FOLGADO, Deolinda, Kit 03 - Guia de Inventário Arquitectónico, IHRU e IGESPAR, Lisboa, 2008 F.29 Museu da Electricidade, antiga Central Tejo 57 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Tabela 1. Categorias, sub-categorias e tipologias de Património Industrial [45] Tabela 2. Património e reciclagem, motivações [46] [45] Para este levantamento foram consideradas as definições patrimoniais de Françoise Choay, do IGESPAR, do IHRU e do TICCIH [46] Tabela inspirada e adaptada ao espectro industrial a partir do texto e tabela do Encontro Nacional sobre Conservação e Reabilitação de estruturas, REPAR, 2000 p. 9 Sub-categoria Tipo Património Industrial Produção Fábrica Armazém/silo Central eléctrica Obra pública / Infra-estrutura Aqueduto Garagem Ponte Bairro Operário Transporte Linha caminho-de-ferro Estação ferroviária Hangar Doca Estaleiro Património Pré-industrial Produção Moinho Forno Oficina Lagar Azenha Salina Produção vitinícola Poços Motivação Valor de utilidade artístico documental cultural de identidade Durabilidade fisíca/construtiva funcional 64 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO quando se segue uma linguagem divergente da existente (espacial, volumétrica ou material) e a continuidade existe por seguir a essência do edifício. Neste seguimento, e defendendo os valores associados ao edifício original, deverá ser optada a segunda posição. Muitas vezes é admitida a construção de um novo volume, complementar ao pré-existente. Francisco Gracia, no livro “Construir en lo Construido”, enunciou três abordagens diferentes [59]. Estas baseiam-se na ‘inclusão’ (o novo edifício - B, está dentro do primitivo - A), como se pode verificar no Museu Alemão de Arquitectura, de Oswald Ungers, em Frankfurt; ‘intersecção’ (em que os dois têm um conjunto de pontos em comum), como se verifica no Museu Reina Sofia, em Madrid, da autoria de Jean Nouvel; ou ‘exclusão’ (a nova adição é construída independente, ou seja, sem pontos em comum). É importante estudar o tipo de relação que este edifício terá com o antigo de forma a conseguir desenhar uma vivência harmoniosa. Este deverá, então, apresentar uma imagem formal que siga a pré-existência, desde os alinhamentos e composição aos materiais utilizados. Podendo, ainda, ser construído um elemento de ligação entre ambos. Exemplo paradigmático é a reconversão do Convento de Santa Marinha da Costa, em Guimarães, da autoria de Fernando Távora. Nesta, apesar da DGEMN [60] pedir um novo piso sobre o convento, Távora desenhou um novo volume que, independente do edifício histórico, ajuda a definir o espaço sem comprometer a integridade e valor do património. É importante notar o impacto que determinadas intervenções têm na sociedade e, em especial, no edifício. Quando se baseiam numa atitude mais extremista, são marcadas pelo delírio, são uma tentativa de realçar o valor do objecto, assinalada pelo “ simulacro, a [59] GARCIA, Francisco; Construir en lo construido : la arquitectura como modificación, Ed. Nerea, Madrid, 2001, p. 187 [60] Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, dividida, em 2007, entre os domínios do IHRU e do IGESPAR Inclusão Intersecção Exclusão A A A B B B F.33 esquema interpretativo da relação entre novo e antigo 65 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO decoração, o falsete, o parque temático ” [61]. A autenticidade é comprometida pela alteração formal extrema e/ou adição de elementos de relação desconexa com o património. Deve-se “ assegurar a compatibilidade com os materiais, as estruturas e os valores arquitectónicos existentes ” [62]. Não se movimentando num território real e desmoralizando a autenticidade, transforma o objecto numa “magic land”, numa cartonização do original. É o fenómeno da “disneyficaç ã o”. O património adquire, assim, um duplo estatuto. Por um lado, elemento fonte de conhecimento e prazer, por outro, um produto da indústria cultural, fabricado com o intuito do seu consumo e rentabilização monetária. Neste seguimento, tome-se a crítica de Domingos Tavares como alerta à necessidade de uma reflexão crítica sobre a intervenção: “ impressionou-me muito o que aconteceu ao Castelo de Vila Nova de Cerveira quando, no princípio da década de 70 estive envolvido no projecto da sua transformação em pousada. O que era então o mais vivido monumento da população de Cerveira perdeuse completamente para os que o viviam quotidianamente, passando a referência inacessível do povo do lugar ” [63]. É, pois, introduzido o princípio da reversibilidade. Este propõe um projecto que, perante a inadaptabilidade da intervenção realizada, permita um retorno ao estado anterior do edifício. Conclui-se, pois, que no caso da arquitectura industrial, foram, finalmente, desenvolvidos mecanismos para garantir a sua existência e significância. Não tendo formulação ou projecção social se- [61] DOMINGUES, Álvaro, Actas do Colóquio de Museologia Industrial, Reconversões e Musealização de Espaços Industriais, Ed. Associação para o Museu da Ciência e indústria, Porto, 2003, p. 129 [62] Carta de Cracóvia, Princípios para a Conservação e Restauro do Património construído, Cracóvia, 2000 [63] TAVARES, Domingos, O significado Histórico e Sócio-Cultural do Monumento como Primeiro Critério de Conservação e Reabilitação, p.587 in ROSA, João, prova final de licenciatura em arquitectura com o título Reutilização Social do Património Industrial; Central do Freixo e o Vale de Campanhã, FAUP, 2006, p. 71 66 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO melhantes a outras tipologias arquitectónicas, é natural que o modo interventivo seja, também, diferente. Destacam-se, então, três modos operativos: ‘musealização, ‘reutilização’ e ‘reconversão’. É esta última a que poderá alterar mais negativamente os valores e características do edifício. Torna-se, pois, imperativo perceber as consequências de determinados gestos, tanto no edifício como na comunidade. 67 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1.8 Escolha dos Casos de Estudo Encaradas as abordagens existentes, face aos problemas decorrentes da obsolescência, e compreendido o papel e a presença que a reconversão assume na sociedade de hoje, revela-se oportuna a análise de casos reais. Pretende-se, pois, dissecar a sua pertinência e as possibilidades que gera. Como se percebeu, a forma como o património é encarado e compreendido diverge entre culturas. Sendo o Património Industrial uma acepção mais recente e com directrizes mais ambíguas, é natural que se assumam abordagens diferentes. Estas, por sua vez, têm projecção no contexto social, arquitectónico e urbano onde o edifício se insere. São, por isso, analisadas seis intervenções em pontos geográficos diferentes. Assim, com a análise sobre as diferentes atitudes, espera-se entender os limites de uma reconversão. É certo que um edifício e a forma como o percepcionamos se altera com o tempo; faz parte do ciclo natural da vida. Contudo, comprovado o seu valor e significância na história e vivência humanas, é necessário perceber as consequências de determinadas alterações em edifícios deste carácter. Neste contexto, e para além da diversidade geográfica, foram escolhidos exemplos que têm um papel preponderante na sua cir- 68 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO cunstância, em termos históricos, rememorativos, ou visuais. A análise foi, desta forma, dividida em três partes. A primeira, “Edifício Original”, visa situar, territorialmente e na história, o edifício. Passamos em seguida para um estudo da “Operação” a que o mesmo foi sujeito, ou seja, que alterações e/ou adições foram projectadas. A última parte visa compreender o “Produto”, isto é, de que forma estas alterações e/ou adições coabitam com um lugar de interesse cultural, e se houve respeito pelo mesmo. 1.8.2 Matriz de análise Modificação De todas as práticas, a reconversão de um espaço é a que induz alterações mais significativas. É, pois, necessário desenvolver mecanismos de análise que visam a protecção e a permanência de valores, e igualmente, harmonia entre o passado e o presente/futuro. Tendo por base este imperativo, e de forma a analisar e comparar os casos de estudo, desenvolvemos uma matriz. Deverão ser considerados vários parâmetros, sendo o mais imediato ligado à transformação do programa, à sua utilidade no contexto em que se insere. Uma reconversão forçada resultará na descaracterização do conjunto, pelo que, é necessário perceber a sua pertinência, necessidade, e impacto. Como já mencionado, é importante não só considerar os valores do edifício enquanto objecto, mas também enquanto parte integrante 69 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO de uma realidade. Ou seja, para o êxito da intervenção é igualmente necessário considerar as condicionantes e possibilidades do ambiente que completa. A nível de percepção exterior, destacam-se parâmetros como a forma, planos exteriores e material. Estes estão relacionados com o modo como fazemos a leitura do edifício, através de medidas, linguagem e textura. Por serem mais superficiais, estão mais vulneráveis à mudança, quer por questões de gosto, quer por desgaste natural ou desenvolvimento tecnológico. Entende-se respeito por estes parâmetros não só por não os alterar drasticamente mas, também, ter consciência da sua existência aquando nova construção. Para garantir a harmonia entre a intervenção, e/ou o novo volume, e o edifício é necessária a utilização de materiais reminiscentes do carácter industrial, tanto no interior como no exterior. O sistema estrutural, por ser desenhado para suportar grandes cargas, é um ponto motivador, e dos mais relevantes, para a reocupação de um espaço industrial. A sua alteração modificará o seu esquema e também poderá comprometer a sua integridade. Por espaço interior entende-se não só a compartimentação como também as zonas de distribuição. Ora, perante novas exigências, compreende-se a necessidade da sua alteração. Contudo, a forma como tal é feito deve ser estudada de modo a evitar o fachadismo, isto é, a utilização da ‘casca’ do edifício e o descarte do interior, que é igualmente caracterizador da era industrial. Associação Contudo, esta análise não é suficiente para determinar o êxito 70 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO da reconversão. É, igualmente necessário cruzar estes dados com características de definição mais ambíguas, como é o caso do impacto que teve com os utilizadores e na envolvente urbana. De certa forma, está ligada ao sucesso do primeiro parâmetro mencionado: o programa. 2 Casos de Estudo 2.1 Fábrica de Santo Thyrso Santo Tirso, Portugal Programa de origem: Fábrica de Tecidos Data de construção: 1896-97 Autor original: José Luis de Andrade Programa actual: Quarteirão Cultural Data de Reconversão: 2005-actualidade Autor da reconversão: Nuno Pinto F.34 Ortofotomapa da fábrica F.35 Vista panorâmica do núcleo inicial 80 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO da fábrica [69], a razão pela qual se deve manter a sua existência não está ligada à qualidade arquitectónica ou construtiva do edificado, mas à relação que este mantém com a população e com a paisagem. Existindo há mais de 100 anos, ganhou um lugar na memória colectiva da população e acompanhou e fomentou a evolução e expansão da cidade. É relevante na história de uma zona industrial e na indústria têxtil em si. Por exemplo, em 1900 recebeu um prémio de qualidade na Exposição Universal de Paris. O concurso que houve em meados da década de 90 visava, então, a musealização do complexo, pelo que, a estrutura e carácter do mesmo deveriam ser respeitados. Neste concurso participaram vários arquitectos, sendo a proposta vencedora a do arquitecto José Carlos Portugal, seguido por Gonçalo Byrne, João Pedro Serôdio, José Gigante e José Carvalho Araújo. Contudo vários foram os aspectos que levaram ao esquecimento deste, desde a falta de verbas ao reconhecimento de fragilidades programáticas [70]. Surgiu então, em 2005, a oportunidade de criar uma incubadora de negócios. Ao antigo edifício administrativo foi anexado um novo volume. Apesar de ser, nesta altura, visto como um acontecimento isolado, foi dado o primeiro passo para a requalificação total. Ainda que a oportunidade de converter a parte mais antiga da fábrica tenha surgido posteriormente, nota-se a tentativa de seguir uma linguagem comum entre as duas intervenções. Nesta proposta existe quase que um seguimento das ideias de Viollet Le-Duc, nomeadamente que deve ser respeitada a integridade do edifício, recuperar o que precisa ser recuperado e destruir o que impede a sua leitura original. Formalmente, as maiores alterações surgem com a destruição de uma parte mais recente contígua à cha- [64] de acordo com a entrevista feita ao arquitecto Nuno Pinto a 21 de Março de 2013 [70] BRITO, Renato Jorge; Fábrica Teles em Santo Tirso: a oportunidade de um legado, prova final para licenciatura em arquitectura, FAUP, 2001, p.22 F.46 espaço interpretativo F.47 fachada da antiga casa das máquinas com a nova “pele” F.48 pormenor da malha metálica 81 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO miné e núcleo inicial e com a criação de um corredor constituído por duas partes, uma coberta e paralela ao edifício inicial e outra, ao ar livre, perpendicular ao mesmo. Este segundo desenvolvimento surgiu como consequência de limitações regulamentares, que se prendiam com o facto de as naves de trabalho ocuparem uma área muito grande. A área ao ar livre atravessava uma das naves iniciais sustentada por pilares metálicos que foram retirados. Numa tentativa de perpetuar a sua memória, os mesmos foram marcados no pavimento. Às fachadas não foram adicionadas alterações marcantes, existem apenas reparações pontuais de reboco e limpeza de pedra. Foi adicionada uma malha metálica que aspira a funcionar como elemento rememorativo do carácter produtivo da fábrica. Ao tear de fios de algodão é contraposto este elemento metálico que conduz a imagem da mesma à contemporaneidade. Também os interiores foram tratados de forma a modificar o menos possível. Pela necessidade de cumprir questões regulamentares foram inseridos volumes que contêm programas e sistemas necessários à habitabilidade e segurança dos espaços. Estes volumes funcionam simultaneamente como orientadores e definidores da circulação do espaço. A modificação mais expressiva é o corredor paralelo ao volume inicial que, para permitir saída de emergência, a passagem de ambulâncias ou bombeiros, foi necessário abrir um vão maior na fachada tornando o que era um espaço interior em exterior coberto. A cobertura, tipo shed , das naves antigas não apresentava características térmicas que cumprissem os parâmetros mínimos de confortabilidade. Como tal, a telha foi substituída e o isolamento acrescentado. Também o seu vidro foi substituído por outro com melhor comportamento térmico. Para manter o carácter deste espaço, estilo sala hipóstila, as colunas de ferro foram alvo de restauro meticuloso, de forma a garantir poderem continuar a servir a sua F.49 arruamento pedonal e chaminé F.50 espaço expositivo 82 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO dupla função como tubo de queda de águas pluviais, o que acontece alternadamente entre colunas. A única parede construída encontra-se na nave do Imode, a zona designada para albergar a incubadora de moda. Apesar de ser um espaço aberto, apresenta dois carácteres diferentes, um mais antigo com a forte marcação das colunas em ferro, e outro, mais recente, com um sistema construtivo em betão. De forma a melhor definir as qualidades de cada um destes espaços, foi erguida uma parede no ponto que os separa. Sendo um símbolo forte de identidade e marco visual proeminente, também a chaminé se encontrava num estado de degradação avançado, pelo que, com a ajuda de um especialista da Universidade do Minho, foi alvo de um restauro complicado e moroso. Apesar de ser uma intervenção com pouca visibilidade, foi efectuada para perpetuar o carácter do conjunto. Para devolver a sua percepção original, foi destruída parte da nave que lhe era contígua e mais recente, e desenhada uma praça multimédia frente ao rio. Esta intervenção adquire, assim, um duplo estatuto. Trata não só da reconversão de um espaço industrial obsoleto, mas também, da cristalização, ou musealização, de um elemento que já não tem um papel operativo no funcionamento do conjunto. 2.4 Produto “ A noção de Quarteirão Cultural, enquanto princípio conceptual e estratégico que orienta o processo de revitalização desta área fabril e a sua definição programática, sustenta-se num conjunto de projecF.51 futuro iMode ainda em construção F.52 incubadora de negócios 83 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO tos e candidaturas, independentes, que visam no seu conjunto, pelas ligações e sinergias que pretendem criar, desenvolver neste espaço actividades e negócios, culturais e criativos. ” [71] Como já foi referido anteriormente, aquando a geração da incubadora de empresas ainda não se sabia que o programa iria ser alargado. O mesmo surgiu e foi realizado como aproveitamento de uma potencialidade. Como observou o arquitecto Nuno Pinto [72], não é possível hierarquizar em pirâmide o programa que a fábrica agora alberga. O mesmo surgiu pela necessidade e não está obrigatoriamente interligado. A incubadora de negócios foi, então, realizada no antigo edifício administrativo, marcando assim o gesto embrionário da requalificação. Com uma área com cerca de 570 m2 tem a capacidade para acolher 14 micro e pequenas empresas. As naves mais antigas são reservadas a lojas e à permanência da memória. No espaço junto à entrada encontra-se um centro interpretativo, cuja existência é defendida pelo TICCIH, onde está exposta a história da industrialização do Vale do Ave e da fábrica, assim como, uma livraria. Na outra nave, estão localizadas lojas ainda sem destino definido, e na primeira casa das máquinas, um espaço simbólico, de passagem, que visa exprimir a relação entre a fábrica e o rio. Na nave contígua ao edifício inicial, que tem uma área de 2200 m2, está instalado um espaço polivalente para exposições e outros eventos culturais, com um pequeno bar que pode funcionar independentemente. Frente a esta, será instalada a incubadora de moda, criada através de uma parceria com o curso de moda da ESAD, e que irá ser o habitat de pequenos ateliers e de tecnologia de ponta para a produção de tecidos e padrões. [65] apresentação do projecto no sítio da internet do seminário que ocorreu em Outubro de 2012 [66] de acordo com a entrevista feita pessoalmente 84 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Como já foi referido, as adições exteriores cingem-se, predominantemente, ao novo volume da incubadora de negócios. Lê-se nesta parte do projecto um seguimento, ou concordância, dos ideiais de harmonia de Francisco Gracia. O novo volume veio completar a composição espacial e formal e não surgiu como um elemento deslocado e sem nexo. Apesar de algumas alterações necessárias, os esquemas de circulação e espacial mantêm-se quase inalterados, com excepção da nave que foi encurtada para formar um corredor/saída de emergência. Igualmente mencionado, e de forma a evitar grandes transformações físicas nos espaços ou na forma, foram introduzidos pequenos volumes com programa complementar em cada espaço. Nestes foram instalados os sanitários e arrumos, assim como toda a tecnologia necessária actualmente, como AVAC, sistema de alerta de incêndio, entre outros. Pela imperatividade da sua existência, foram utilizados para ajudar a organização espacial. É nestes que se verifica a adição de novos materiais. Contudo, estão ligados às características industriais, não havendo, assim, grande discrepância de carácter. Não houve alteração de materiais, sendo estes apenas restaurados. A materialidade dos novos elementos surge num gesto de continuidade e não ruptura, não só porque não compromete a anterior mas também porque segue a mesma linguagem industrial da fábrica. É de salientar a mudança positiva de programa entre projectos. Uma musealização só atrairá investimento exterior quando o seu valor ultrapassa a paisagem que compõe. O programa actual é mais interactivo e instigador de mudança, não tendo a pretensão de servir só a comunidade de Santo Tirso. Em especial, as incubadoras poderão fomentar novo interesse na zona. A par de outros projectos semelhantes, vem ocupar o papel de catalisador de novas hipóteses e potencialidades económicas. O programa misto revela, assim, maior interactividade. A 85 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO parte museu e a chaminé garantem a perpetuação da memória, e as incubadoras e parte expositiva servem de atracção a novos utentes. O valor rememorativo e histórico foram garantidos pelas poucas mudanças formais e estruturais e pela permanência das naves e edifícios ainda abandonados. Apesar de existir vontade de intervir nos mesmos e ideias de como o fazer, as mesmas são ainda tão incertas que é impossível, de momento, dar certezas sobre o seu fim. Talvez por só parte do conjunto ter sido reabilitado, o ambiente não foi alvo de alterações profundas. A sucessão de espaços e a distribuição entre os mesmos respeita o esquema inicial. É de referenciar a pouca qualidade dos espaços exteriores, falha esta que está a ser colmatada com a sua requalificação, um esforço que se insere na criação de percursos entre pontos históricos na região. A Fábrica de Santo Thyrso surgiu, pois, num acto de revitalização transmunicipal. A desindustrialização teve consequências negativas no Vale do Ave, assim, a Rota do Património Industrial do Vale do Ave surgiu como um instrumento de reabilitação social e económica, à imagem de rotas europeias semelhantes. Como se trata de uma intervenção recente, é difícil fazer conjecturas precisas sobre o novo papel da fábrica na comunidade e as suas consequências. Verifica-se, contudo, a aceitação generalizada da mesma, assim como ânsia e vontade de mudança. Gerações mais antigas continuam a conseguir ler o seu antigo posto de trabalho, mas identificam igualmente um catalisador de mudança. 2.2 Complexo de Artes Visuais e Arquitectura, Évora, Portugal Programa antigo: Fábrica de moagem Data de construção: 1916 Autor original: dado desconhecido Programa actual: Complexo de Artes Visuais e Arquitectura Data de reconversão: 2007/2010 Autor de reconversão: Inês Lobo e Ventura Trindade F.53 Ortofotomapa da fábrica F.54 Alçado noroeste 87 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO F.55 Planta nível 0, esc. 1/1000 F.56 Corte longitudinal pelo pátio interior, esc. 1/750 F.57 Corte longitudinal pelo pátio interior face novo volume, esc. 1/750 88 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 2.2.1 Edifício antigo A nível de industrialização e expansão urbana, Évora teve uma evolução consideravelmente lenta, talvez devido à sua proximidade relativa a Lisboa. No entanto esteve sempre presente uma vontade de reverter esta posição. Com a inauguração do caminhode-ferro e da estação, em 1863, a cidade ganhou nova notoriedade, contudo bastante menor em relação a outros casos em Portugal. Nesta época, Évora era uma cidade que vivia ainda intramuros. O crescimento extramuros foi bastante reduzido até 1940. Contavam-se, então, apenas 900 moradias que totalizavam cerca de 3500 habitantes [73]. A cidade intramuros era reservada às classes mais privilegiadas. Extramuros, e de forma mais espontânea, pontual e de- [73] “ O crescimento da área urbana extramuros foi, no entanto, muito lento até 1940. Um mapa datado de 1930 assinala apenas, para além da presença dos bairros já referidos [bairro Tenente Pereira e dos Leões], todos eles de dimensão muito reduzida e localizados próximo da cidade intramuros, pequenas partes dos bairros do Chafariz d’El Rei e de Almeirim e o princípio do Poço Entre as Vinhas (actual bairro da Sª da Saúde). Segundo dados referidos no relatório nº29 do Plano Director de Évora (C.M.E., 1978/1979, p.III.1) as áreas urbanas extramuros compreendiam então perto de 900 fogos, com uma população de, aproximadamente, 3500 habitantes (...) Em 1940 encontravam-se recenseados fora das muralhas 915 fogos atingindo, na altura, a população da cidade intramuros o seu valor máximo – 18559 habitantes. ” SIMPLICIO, Maria Domingas; Evolução da Estrutura Urbana de Évora: o século XX e a transição para o século XXI, p.4 F.58 vista aerea do conjunto antes da intervenção F.59 idem F.60 linha férrea e cais de carga e descarga 89 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO sordenada [74], instalaram-se as classes de fracos recursos e a indústria. È neste contexto que surge a Fábrica dos Leões e os dois bairros operários vizinhos, os bairros Tenente Pereira e dos Leões. A origem da Fábrica dos Leões remonta a 1916. Neste ano, por decisão empreendedora da Sociedade de Moagem Alentejana Limitada e com o objectivo de ser um elemento catalisador de progresso e desenvolvimento na região, iniciou-se a sua construção na parte exterior norte da muralha. Tratou-se de um primeiro passo, se bem que tardio, para a industrialização do Alentejo. Aqui foi instalada a maquinaria mais recente para a produção de farinha, massas e bolachas, coerente com as capacidades produtivas da região. Surge numa altura de esperança e investimentos elevados, os anos entre 1915 e 1926 tiveram um ritmo elevado de criação de empresas e produtivo [75]. Surgiu numa zona pontualmente industrial e pouco densificada. Actualmente existe um núcleo habitacional que faz a separação entre a mesma e a muralha antiga. Pela sua volumetria e disposição territorial, este é um conjunto que tem uma presença forte [74] Pelo menos até 1942, ano da elaboração do primeiro plano urbano: o Plano de Urbanização de Évora criado por Etienne de Gröer (arquitecto urbanista russo naturalizado francês que elaborou diversos planos urbanos em Portugal) [75] Devido à crise gerada pela guerra, o trigo e outros cereais atingiram preços bastante mais elevados aos praticados em território nacional, o que facilitava as trocas e aumentava consequentemente a produtividade. F.61 Planta do conjunto inicial, sem escala definida 96 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO versão, Inês Lobo estudou este conjunto enquanto um organismo marcante inscrito numa paisagem, pelo que, a intervenção não poderia alterar dramaticamente a sua caracterização. Então, numa aproximação mais intimista, estudou, individualmente, cada edifício de forma a perceber o seu valor e papel no conjunto. Na ala noroeste, no corpo A e parte do B, é leccionado o curso de arquitectura. Este edifício recuperado é constituído por 4 pisos, ocupados por várias salas de aula e grandes espaços de trabalho. Apesar de fazer parte do núcleo inicial, parte do edifício B está ainda como uma área de futuro incerto, apesar de imperceptível do exterior, este era o silo inicial, pelo que o interior está compartimentado apenas verticalmente. Alterar exige um orçamento superior. No corpo C estão os espaços destinados às artes visuais e multimédia. No novo corpo F, construído no pátio e paralelo ao núcleo inicial, foi instalada a sala de convívio, bar e cafetaria, ocupando assim uma zona central e de fácil distribuição. Outros serviços, como a secretaria, salas administrativas, centro de documentação e Informação, biblioteca, mediateca, sala de exposições, associação de estudantes, livraria/papelaria e reprografia desenvolvem-se no corpo E. os corpos Co correspondem às oficinas, cinco implantadas entre o corpo C e a rua e duas no lado oposto que ajudam a definir o pátio central. O corpo D aguarda a sua intervenção e após a mesma será casa de ensino das artes cénicas. Foram, portanto reconvertidos apenas os corpos A, B e E. Nestes, foram recuperados tectos, pavimentos e o sistema estrutural original que foi reforçado com uma laje de compressão em betão conectada com as vigas existentes. Não existindo, assim, alteração de materiais ou do sistema estrutural. Foram utilizados materiais dos anexos destruídos sempre que necessário para reparações, como foi o caso da telha marselha. F.70 Sala de aula de arquitectura F.71 idem 97 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Inês Lobo, na sua memória descritiva do projecto, refere a ideia de inversão do programa, às máquinas opõem-se as pessoas, o ‘produzir’ foi trocado pelo pensar. Fez-se por preservar o que se considerou mais representativo, ou seja, a implantação, a volumetria e a heterogeneidade formal. Apesar das estruturas anexas que não faziam parte da estrutura original terem sido destruídas, foram construídos novos volumes. Pela diferença, estes mantêm, assim, igualmente o mesmo carácter, tanto formal como de heterogeneidade. Se uma das justificações para as reconversões está ligada aos valores rememorativos, o novo projecto respeita esta mesma premissa. Os edifícios mais representativos foram mantidos, estando o mais expressivo, o silo, ainda expectante de uma intervenção futura. Mais ainda, as novas adições não deixam esquecer o passado, a sua linguagem metálica remete-nos para a ideia de produção industrial. As debilidades orçamentais [82], que ocorrem igualmente no caso da fábrica de Santo Thyrso, poderão conduzir a este tipo de intervenção. Esta realidade não tem de ser um aspecto negativo, podendo ser antes um factor que força o arquitecto a estudar e [82] este complexo representa um investimento de cerca de 8 milhões de euros, cerca de 800 € por m2, bastante económico quando comparado com projectos como a Casa da Música no Porto com um custo superior a 5000 €/m2 F.72 corte transversal pela oficina, sala de artes visuais e terreiro coberto 98 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO entender o edifício. Orçamentos milionários podem levar ao esquecimento de certos valores e carácter na procura do espectáculo, sendo o edifício alterado profundamente para agradar às massas, mudando-se assim a importância e sentido do património. Edifícios públicos requerem certas características alienadas na construção de indústria, já que uma fábrica é construída para alojar máquinas e o movimento de produtos, não de pessoas. Porém, desde a implantação à escala, a reconversão da fábrica para um complexo educacional foi suave, principalmente em relação ao espaço exterior, desenhado para carga e descarga de mercadoria, para a movimentação, que com a sua ajardinação ganha carácter de espaço de estar, lazer e de encontro. Aquando o início das obras, o interior da fábrica tinha ainda a maquinaria dos tempos produtivos. Esta foi removida do complexo, excluindo, assim, a possibilidade da existência de uma zona interpretativa e museológica, defendida pelo TICCIH, que ajudaria na perpetuação da identidade da fábrica. Posteriormente à sua reconversão, a fábrica entrou na lista da DGEMN para a obtenção da categoria ‘monumento’, encontrando-se actualmente em fase de estudo. Considera-se incluída no grau 5 por estar incluída no “ registo (...) pré-inventário com um preenchimento mínimo dos campos ” [83]. Ao reconverter este espaço foi possível integra-lo na vida contemporânea de Évora. Foi abandonado o seu carácter obsoleto e sem funcionalidade e foi colmatada uma necessidade. Para tal, foram feitas algumas intervenções que poderão ser consideradas radicais, contudo, necessárias. Estas, mais do que uma subtracção, foram uma substituição que completa a disposição original e não alteraram a sua percepção. [83] informação disponível em http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=34274 2.3 Frøsilos, Residência Gemini Copenhaga, Dinamarca Programa antigo: Silo de cereais Data de construção: 1963 Autor original: dado desconhecido Programa actual: Habitação colectiva Data da reconversão: 2003-2005 Autor da reconversão: MVRDV F.73 Ortofotomapa dos silos F.74 átrio interior 100 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO F.75 Planta tipo, esc. 1/500 F.76 Corte, esc. 1/500 101 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 2.3.1 Edifício antigo A zona conhecida actualmente por Ilhas Brygge, um bairro em Copenhaga, costumava ser apenas mar, até que por volta de 1880 as forças armadas viram aqui a solução da necessidade de uma zona ampla para treino de tiro [84]. Drenaram, então, a parte mais a norte para esse efeito. No final do mesmo século o porto da cidade encontrava-se cada vez mais sobrelotado, pelo que, em 1901, a Autoridade Portuária estendeu-se para esta zona. Quatro anos depois começaram a surgir edificações industriais e, também, habitação predominantemente operária. Em 1933, com a extensão territorial para sul, foi atingida a dimensão actual. Esta área chegou a estar ocupada pelas tropas nazis durante a II Guerra Mundial. Após o término deste conflito a presença militar diminuiu, até que, durante a década de 70, se extinguiu e os edifícios que a serviam foram convertidos para outro uso. Nas Ilhas Brygge destacava-se a Dansk Soyakage Fabrik, ou Fábrica de Soja e Ração Dinamarquesa. Esta unidade era, à data, o maior empregador na área; em 1950 empregava cerca de 1200 trabalhadores. A fábrica foi fundada em 1909, com vista ao desenvolvimento do comércio de soja com o Extremo Oriente. Este produto era proveniente da Manchúria, uma região no leste asiático que se [84] http://en.wikipedia.org/wiki/Islands_Brygge consultado a 11.11.2012 102 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO estende da China à Sibéria. Foi uma iniciativa da parte da EAC (East Asiatic Company), uma empresa dinamarquesa com o objectivo de aproximar Copenhaga a Bangkok e à parte mais este da Ásia. Apesar do preço reduzido do produto final, o projecto conheceu grande sucesso entre 1912 e 1913 [85]. A sua localização em Brygge e, consequentemente, junto ao porto era pois privilegiada para a actividade comercial. A fábrica é um edifício feito com tijolo à vista e aberturas invulgares para um espaço industrial. Os seus grandes vãos verticais arredondados fazem lembrar as catedrais góticas. Entre 1918 e 1921 foram construídas novas partes, com o objectivo de expandir a sua capacidade produtiva, ganhando assim uma nova disposição territorial. Estas adições seguiram a mesma linguagem arquitectónica do edifício original. Posteriormente, durante a década de 30, diversificaram a produção e iniciaram-se na indústria química. Durante a década de 60 deu-se uma nova expansão da fábrica com a construção de três silos que marcaram fortemente a imagem de Brygge. Um construído ao longo da década de 60 por sucessivas adições, o silo Wennberg, com 56 metros de altura, e outros dois, de aspecto mais sóbrio e cru, conhecidos por Frøsilos, com 39 metros de altura e 25 de diâmetro. Estas novas estruturas foram construídas [85] KIRKABAEK, Mads; China and Denmark, Relations Since 1674, Ed. Kjeld Brodsgaard, p. 179 disponível em http://books.google.pt F.77 Franz Sedivy, Desenho da fábrica em 1916 103 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO em betão armado, distanciando-se da imagem de tijolo à vista dos edifícios mais antigos. Esta escolha pode ser vista como uma tentativa de avançar no tempo e na tecnologia após a II Guerra Mundial. Procurava-se ser a imagem de marca de uma nova era produtiva. A 15 de Julho de 1980 deu-se uma explosão que destruiu ou danificou fortemente o núcleo produtivo da fábrica. Esta passou a trabalhar parcialmente e, incapaz de suportar os custos das reparações, perdeu a sua força competitiva no mercado, acabando por fechar definitivamente em 1991. 2.3.2 Operação Pouco tempo depois de a fábrica fechar, assim como tantas outras que seguiram o mesmo destino nas imediações, investidores imobiliários começam a mostrar interesse na zona, atraídos pela sua localização, à beira rio, e numa zona de transição entre o rural e o urbano, pouco distante do centro histórico de Copenhaga. A sua área, com cerca de 177000 m2, assegurava uma forte presença, permitindo facilmente a identificação do potencial de rentabilidade do espaço, caso pudesse ser transformado. Contudo, como consequência da produção de químicos durante décadas, o solo encontrava-se contaminado, e os custos para a sua descontaminação eram altos. Consequentemente, esta era, no início da década de 90 do século passado, um ‘brownfield’ [86]. Em 1994 foram esboçados planos urbanos para a área. Estes, ainda envoltos em incertezas, já que as possibilidades eram muitas. Um ano depois, o Porto de Copenhaga, Ltd decidiu parcelar o [86] termo anglo-saxónico que define uma zona industrial, abandonada e poluída mas com potencial de ser reutilizada desde que limpa F.78 Silos, década de 90 F.79 Vista dos Silos a partir da ponte F.80 Pormenor do encontro entre novo e antigo 104 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO terreno e vendê-lo a diferentes entidades. Esta divisão abriu o leque de potenciais compradores, conduzindo a um número alargado de ofertas. Entre as entidades compradoras contaram-se a Câmara de Copenhaga, NCC, JM Danmark, entre outros. Com a venda de terrenos a ser muito mais rápida do que era esperado, foram angariados fundos suficientes para a descontaminação da área. Em 2001, com todos os edifícios e terrenos vendidos, assistiu-se a um grande desenvolvimento na zona. Procedeu-se então a uma limpeza também do espaço urbano, asfixiado com construções excessivas que não se adaptavam à intenção de reocupação. Partes da fábrica foram destruídas, por se encontrarem num estado de ruína ou por questões de salubridade, restando cinco construções: o núcleo de produção inicial e um silo construídos em 1909, e os três outros silos, acima descritos. Devido ao parcelamento e divisão da propriedade, não foi desenhado um projecto comum, os cinco coabitam uma história comum, mas não partilham um futuro ligado da mesma forma. Dos quatro projectos destaca-se o dos Frøsilos, dois silos gémeos de aspecto cru e implantação privilegiada, também conhecidos, actualmente, como Gemini Residence. Pela sua posição e imagem, conquistaram o lugar de imagem de marca desta nova parte da cidade. O silo vizinho, Wennberg, foi convertido num edifício habitacional F.81 Localização dos 4 edifícios restantes e reconvertidos 105 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO com assinatura de Tage Lyneborg [87]; o silo mais antigo pelo atelier PLH [88] foi igualmente transformado num edifício de habitação colectiva; a parte produtiva da fábrica é hoje a sede da Sociedade Dinamarquesa de Medicina, projecto do mesmo atelier [89]. Serão vários os factores que levaram a Residência Gemini a ganhar tal destaque. Destacam-se a sua imagem, o tipo de solução e a sua localização, cuja associação resultou num certo carácter monumental. Trata-se de uma localização numa área importante; é aqui que as Ilhas Brygge estão conectadas com o interior dos velhos subúrbios de Copenhaga, através da ponte Bryggebroen, reservada apenas a peões e ciclistas. Desde o início do século XX que a forma e material do silo americano para cereais ganhou destaque em publicações como a revista L’Espirit Nouveau. Le Corbusier viu nestas imagens a expressão máxima da associação entre beleza e função, chegando, posteriormente, a afirmar “ a casa é uma máquina de habitar ” [90]. O projecto de reconversão dos silos esteve a cargo do atelier Holandês MVRDV, conhecido pelas soluções de imagem marcante. Este deparou-se com dois volumes ocos com cerca de 39 m de altu- [87] As obras de conversão do silo Wennberg ocorreram entre 2002 e 2004, das quais surgiram 142 apartamentos divididos em 16 andares. A divisão interior respeita o que era anteriormente, exteriormente foram abertas janelas e adicionadas varandas e bow windows, as últimas duas as mais transformadoras da imagem do edifício; [88] A designada conversão deste edifício é falaciosa, do edifício original restou apenas a parte que funcionava como silo, e do mesmo foi apenas aproveitada a torre e parte de duas torres, sendo posteriormente o resto construído a imitar o que havia sido anteriormente, em forma e matéria. Das obras que iniciaram em 2000 e terminaram apenas 1 ano depois surgiram 35 apartamento que com áreas que variam entre os 94 e os 195 m2; [89] Este edifício alberga laboratórios, arquivo e parte administrativa. As fachadas originais foram restauradas e foram adicionados novos elementos em cobre tratado e pintado de preto e vidro. O objectivo principal era manter tanto do original quanto fosse possível. Como disse Rikke, um dos arquitectos responsáveis na renovação, “Foi fantástico entrar em edifícios antigos e quase bombardeados, que eram praticamente uma concha (...)o chão estava molhado, e as janelas e colunas no espaço com pé-direito alto transmitiram a ideia de catedral. Foi muito inspirador.” [trad. do a.] in http://laegemiddelstyrelsen.dk/~/media/C5E9955E543345FBA76E2813A2659A4A. ashx [90] LE CORBUSIER, Vers une Architecture, Flammarion, Paris, 1995 [1993] in TOSTOES, Ana; A Arquitectura da Industria, 1925-1965, Ed. Registo DOCOMOMO, 2005 F.82 átrio central F.83 idem 112 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO F.90 Planta piso -1, esc. 1/1200 F.91 Planta piso 0, esc. 1/1200 F.92 Planta piso 1, esc. 1/1200 F.93 Planta piso 2, esc. 1/1200 F.94 Planta piso 3, esc. 1/1200 F.95 Planta piso 4, esc. 1/1200 113 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO F.96 Corte pelos acessos verticais e auditorio, esc. 1/750 F.97 corte pela entrada F.97 Corte pela entrada, esc. 1/750 F.98 esquema da intervenção adição existente praça coberta 114 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 2.4.1 Edifício Original Na viragem para o século XX, e como tantas outras capitais europeias, Madrid fazia por se adaptar à nova realidade, fruto da RI. Esta não só teve consequências no espaço urbano como também trouxe novas potencialidades, entre as quais, a electricidade. Foi neste contexto que José Battle, pediu a Jesús CarrascoMunoz Encina e ao engenheiro José Maria Hernandéz, o projecto para uma central eléctrica que deveria alimentar toda a parte sul de Madrid. Este veio ocupar o espaço de uma fábrica de velas, La Estrella, existente desde 1857. Inaugurada em 1901, esta central veio satisfazer as necessidades de uma população que aumentava exponencialmente a cada ano. Este crescimento, não planeado a nível urbano, conduziu, especialmente na parte sul, à formação de pequenos núcleos residenciais e de bairros de lata. Pela leitura do Plano de Madrid de 1901, da autoria de Wagner e Debes, percebe-se que o quarteirão onde a central se inseria era maior do que hoje, unido com os circundantes. Este, encontra-se, agora, reticulado pelo prolongamento de ruas. Apesar deste feito, as novas ruas continuaram o traço das ruas medievais, pelo que, são estreitas e pouco iluminadas. Assim, pode afirmarse que a enclausura foi sempre uma característica predominante no edifício. Desde a sua construção nunca teve muita exposição F.99 WAGNER, DEBES; Planta de Madrid, 1901, Leipzig (detalhe) 115 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO visual. A antiga central tinha a forma de um trapézio, com cerca de 37 m de largura e 40 e 50 m de comprimento. Apresentava uma imagem definida mas pesada, resultado da sua pele de tijolo e de estar confinada entre ruas estreitas, tendo, assim, uma raiz mais encerrada e pouco pública. Para a sua concepção foi utilizado o modelo de uma estação ferroviária, pelo que, formalmente, era composto por duas naves rectangulares, juntas e de largura semelhante, separadas apenas por uma parede. Apresentava uma fachada sem elementos decorativos elaborados, destacando-se a expressão material do emparelhamento do tijolo, de inspiração neo-Mudéjar [93]. Cada nave estava protegida com uma cobertura de chapa ondulada com duas águas, assente sobre a cornija do edifício e que, pela disparidade de estilo, se pode afirmar ser uma substituição posterior à sua construção. O edifício tinha uma estrutura robusta, capaz de aguentar o peso de várias máquinas [94]. Para tal ser possível, o piso térreo foi sustentado na cave por uma série de arcos suportados por colunas rectangulares, uma solução bastante eficiente. Assim, pelas suas características estruturais e formais, a Central Eléctrica de Mediodía é considerada um dos melhores exemplos de arquitectura industrial ainda existente no centro histórico de Madrid. Pelo estudo de fotos antigas da zona e de textos que confirmam a produção de energia através da queima de carvão, sabe-se [93] O movimento Mudéjar desenvolveu-se entre os séculos XII e XVI. Apresenta influências, elementos ou materiais com inspiração muçulmana, uma consequência directa da reconquista. Então, o Neomudéjar é a recuperação desses valores. Teve origem em Espanha no final do século XIX como fruto das crenças de certos arquitectos espanhóis que viam nesta expressão artística o verdadeiro espírito espanhol. [94] “The power plant had three steam furnaces constructed in Mahón by Maquinista Naval, three 120 HP horizontal steam engines built in England, and three 80 kW (direct current) dynamos by Oerlikon (Zurich).” in Fundación “La Caixa”, CaixaForum Madrid Press Kit, 2008, p. 15 disponível em http://press.lacaixa.es/socialprojects/la-caixa-social-and-cultural-outreach-projects-inaugurates-the-caixaforum-madrid-a-new-concept-in-social-and-cultural-centres__816-c-3730__.html F.100 passeo del Prado, 1928 F.101 La Tocha e Paseo del Prado, 1968 F.102 estado pré-reconversão 116 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO que na parte lateral da central, hoje demolida, existia uma chaminé que marcava substancialmente o perfil da zona. Sem se saber exactamente a data da sua demolição, verifica-se que em 1968 já não existia. Aquando o início do projecto de conversão, o edifício estava num estado de degradação avançado, reduzido às paredes exteriores. No interior existiam apenas duas paredes parciais longitudinais e a cobertura, que existia apenas parcialmente, bastante deteriorada. Segundo o panfleto informativo de “la Caixa”, a fachada com o emparelhamento de tijolo estava já protegida sob o P.G.O.U.M. com “grau 3”, pelo que deveria ser protegida e conservada [95]. 2.4.2 Operação “(...) os interiores não eram o que a Caixa precisava, precisava de um volume muito maior. O outro problema era que o edifício era interessante mas era como se reflectisse uma imagem antiga de Madrid. Ruas estreitas, muito remoto, muito bonito como peça mas completamente o oposto de público (…) A primeira ideia foi a de libertar o edifício, faze-lo visível e acessível através do Passeio do Prado. ” [96]. [95] P.G.O.U.M.- Plan General de Órdenacion Urbana de Madrid, neste lêse na página 62: “Sección Segunda. Deberes de Conservación Artículo 2.2.4 El deber de conservación (N-1) 1. Los propietarios de edificaciones, urbanizaciones, terrenos, carteles e instalaciones deberán conservarlas en buen estado de seguridad, salubridad y ornato público. 2. Para la conservación y rehabilitación de los elementos sometidos a algún régimen de protección se estará a lo dispuesto en el Título 4 y en la legislación aplicable.” [96] em entrevista ao Studio Banana TV, acessível em http://www.youtube. com/watch?v=TD7zEbD_Azk F.103 e 104 frame da entrevista de Herzog para o Studio Banana Tv 117 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Em 2001, quando “la Caixa” comprou a central, esta estava em ruínas e as pretensões para este espaço eram maiores do que as possibilidades físicas. O programa pretendido exigia uma área de 10000 m2 enquanto a central ocupava uma área de apenas 2000 m2, pelo que as opções passariam por escavar, sobrepor ou reproduzir o edifício no espaço da praça. Optou-se por seguir os primeiros dois caminhos. Para além dos reparos necessários era imperativo transformar este espaço enclausurado em público e aumentar a área disponível. Apesar de se ocupar também de uma estação eléctrica, este projecto da dupla Herzog e de Meuron diverge de um trabalho anterior deste atelier: o Tate Modern, em Londres. Trata-se de um exemplo máximo e bastante escrutinado no estudo de reconversões industriais, tendo uma localização mais privilegiada, uma forma icónica e uma potencialidade espacial maior. Contudo, a CaixaForum, veio fortalecer e tornar-se no centro de um triângulo de museus de arte, formado pelos museus del Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza. Situada junto ao Paseo del Prado, estava comprimida entre edifícios habitacionais e uma, gasolineira, entretanto demolida. No dia 14 de Julho de 2003 iniciou-se a primeira fase da obra. Com a consolidação da fachada, as janelas foram fechadas com tijolo original ou novo. 50% da fachada da rua Gobernador teve de ser recuperada porque parte da central foi demolida em data incerta. O trabalho de recuperação revelou-se trabalhoso, 40000 dos 115000 tijolos foram substituídos, usando tijolo das paredes interiores e muro do pátio lateral e, para garantir o suporte da nova estrutura, a fachada foi reforçada e grampeada [97]. [97] Fundación “La Caixa”, CaixaForum Madrid Press Kit, 2008, p.6 disponível em http://press.lacaixa.es/socialprojects/la-caixa-social-and-cultural-outreach-projects-inaugurates-the-caixaforum-madrid-a-new-concept-in-social-and-cultural-centres__816-c-3730__.html F.105 CaixaForum e jardim vertical F.106 alçado reconstruído 118 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO “ Não pode começar do zero e ter de respeitar a fachada de tijolo, protegida como Património de Madrid e testemunho da sua era industrial inicial, não foi um obstáculo mas forçou-nos a procurar soluções para desenhar um edifício único e marcante ”[98]. Estas são as palavras de Herzog e de Meuron que justificam a utilização fachadista do novo edifício e identificam uma das quatro vontades primárias: a manutenção da fachada. As restantes motivações foram a eliminação do embasamento em pedra, a criação de uma praça frente à entrada e o aumento do volume. Como as janelas originais foram tapadas, quatro novas aberturas foram feitas. Tratou-se de uma interrupção propositada da regra compositiva anterior, com o intuito de satisfazer as vontades do novo sem agir de acordo com a integridade do antigo. Para compensar a falta de espaço disponível, o edifício aumenta a sua altura, passando de 17 m de altura para cerca de 27. Nesta nova parte não houve uma tentativa de imitar o existente mas sim de criar algo que coabitasse em harmonia. Aos 115000 tijolos foram adicionados 4500 painéis de aço corten que criaram uma nova dinâmica formal. Também o terreno sob o edifício e praça foi escavado de forma a criar dois novos pisos abaixo da cave já existente. Para a criação da praça foi demolida a gasolineira existente entre a central e o Paseo del Prado, existindo agora um espaço de recepção e transição entre o edifício e um dos principais eixos da cidade. A CaixaForum parece levitar sobre este espaço projectado a três níveis diferentes: a praça pública com cerca de 2500 m2, seguida da área sobre a qual o edifício levita e, finalmente, pela extensão anteriormente limitada pelo pátio da antiga central eléctrica, também ao ar livre. Para a formação do pavimento foram utilizados triângulos em betão, trabalhados a diferentes ângulos. [98] Fundación “La Caixa”, CaixaForum Madrid Press Kit, 2008, p.6 disponível em http://press.lacaixa.es/socialprojects/la-caixa-social-and-cultural-outreach-projects-inaugurates-the-caixaforum-madrid-a-new-concept-in-social -and-cultural-centres__816-c-3730__.html F.107 Bar/restaurante F.108 acessos verticais F.109 acesso principal 119 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Aqui, foram instaladas duas fontes que ornamentam a praça. A primeira localiza-se junto à base do jardim vertical a outra ocupa a parte mais funda da praça sob o edifício. Esta segunda área é assim beneficiada, uma vez que de outra forma não seria agradável de habitar, por estar já praticamente em clausura pela rua Alameda, desenvolvida a uma cota superior. O jardim vertical, plantado na fachada cega do edifício vizinho, não só foi o primeiro em Espanha como também é o maior, até à data, a existir sobre uma superfície sem falhas, tendo uma área total de cerca de 460 m2. Além do efeito estético que provoca, este actua também como um agente ambiental e de transição entre o Parque del Retiro e a galeria. Com a utilização de 15000 plantas de 250 espécies diferentes consegue-se, assim, um elemento diferente e marcante na entrada principal do museu, a partir do Paseo del Prado. Ao introduzir três únicos pilares que sustentam o edifício e com o reforço das paredes com betão na parte interior, foi possível eliminar o embasamento em pedra e criar uma ligação entre espaço público e edificado. Assim, a nova praça pode prolongarse sob o novo edifício, que cresce sem adicionar esforços adicionais na central. Dois dos três pilares servem também para fazer as caixas de escadas e elevadores, e é através do pilar central que se faz a entrada no edifício. Com a mesma eliminação foi ainda possível eliminar a sensação claustrofóbica existente anteriormente; foi aberto o caminho à fluidez espacial imperativa num edifício público. O novo volume destaca-se, assim, pela sua forma, sem um embasamento perceptível e pelos seus limites superiores recortados, influência directa dos edifícios vizinhos. A escolha do material do novo volume baseia-se num entendimento das características do tijolo da central. Era intenção de Herzog e de Meuron utilizar um material com uma plasticidade F.110 Jardim vertical F.111 pormenor jardim vertical 120 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO semelhante, que não fosse o mesmo, mas tivesse uma cor e textura similares. Com a aplicação de placas de aço Corten, recriaram a regra padronizada do emparelhamento do tijolo. No último piso, onde está localizado o restaurante, as placas aplicadas são perfuradas, sempre de modo diferente, para permitir a entrada de luz através da segunda fachada de vidro. Para a concretização das perfurações foram efectuados estudos em maquete e protótipos à escala 1:1. Este padrão veio aliar as valias da janela ao material, criando simultaneamente um jogo luminoso. Como observou José Aguiar, actual vice-presidente do ICOMOS, e dando como exemplo a CaixaForum, na conferência “Centros Históricos e Vida Contemporânea“: “ A solução experimental e transgressora é muitas vezes a mais interessante para a crítica de arquitectura, e a mesma solução é muitas vezes tomada como o pior dos exemplos… para a crítica da conservação! ” [99]. Optou-se por demonstrar as novas capacidades da engenharia actual, são reabilitações sem conservação, dotou-se apenas e não se adoptou. O valor histórico da central foi utilizado, mais uma vez, como pretexto para realçar o valor do novo edifício, e nem esse foi respeitado, uma vez que até o emparelhamento, defendido como importante e protegido, foi inevitavelmente mudado ao preencher os vãos das janelas. [99] AGUIAR, José; conferência “Centros Históricos e Vida Contemporânea: Cidade Antiga, Problemas Novos: como a Conservação encara(ou) as Intervenções em Património Urbano”, Auditório do Metropolitano de Lisboa, 6 de Novembro de 2009 F.112 transição entre antigo e novo F.113 pormenor aberturas no aço corten F.114 aço corten 121 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 2.4.3 Produto Na definição do programa foram criados dois mundos, o subterrâneo e o acima da terra. No piso -2 desenvolve-se o estacionamento, o auditório, com lotação para 322 pessoas, e quartos de serviço. Imediatamente acima, no -1, existe um depósito, área de descarga de obras de arte e duas salas de conferências. Já à superfície, no piso térreo, dá-se a entrada para o edifício, tem apenas três elementos: as colunas de betão, por onde se fazem os acessos verticais. No primeiro andar existe uma livraria, uma loja, a recepção, casa de banho, quarto VIP, foyer e sala de controlo. Já no segundo e terceiro pisos existem quatro áreas expositivas e um espaço destinado a workshops. Por fim, no quarto andar existe um restaurante, a administração e casas de banho. A percepção que se tem do edifício da parte exterior é diferente da que se obtém a partir do interior. Ao entrar no edifício é imperceptível o facto de que se está numa antiga central eléctrica centenária. A plasticidade do tijolo foi substituída pela esterilidade de painéis de aço e betão branco, a memória do passado é esquecida e substituída por novos valores. O valor histórico e documental acaba por ser uma desculpa na busca de uma maior relevância enquanto ponto no território. Ao entrar na galeria penetramos num mundo diferente do exterior. Se o arquitecto projectou imaginando dois mundos, o sobre a terra e o sob a terra, a nível de restauro e reconversão podem ser entendidos igualmente outros dois mundos. O exterior, ainda com algum sentimento histórico marcado pela poeira do tempo, e o interior, novo e reluzente, não existindo, pois, qualquer elemento rememorativo do passado da central. 128 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO 1999 2001 2004 2005 2009 2.5.2 Processo No início da década de 80 do século passado, Thomas Krens, director do Williams College Museum of Art, situado em Williamstown a cerca de 8km de North Adams, visitou Colónia, na Alemanha, onde se deparou com um novo tipo de museu. Uma velha fábrica reconvertida num museu de arte contemporânea. Aqui percebeu que o museu que dirigia não tinha capacidade para albergar obras de arte com a mesma envergadura. Um ano após o encerramento da fábrica, a associação de comerciantes e políticos já procuravam uma solução à problemática surgida. Thomas Krens viu aqui uma oportunidade de replicar o que viu em Colónia. Nasceu, assim, o conceito do MASS MoCA [103]. Desde a formulação do conceito à sua realização passaram catorze anos conturbados, de dificuldades e indecisões. Desde o crash da bolsa de 1987 à recessão económica que os EUA atravessaram entre os anos de 1990 e 1992, passando pela desistência prática de Thomas Krens quando aceitou o cargo de director do Guggenheim de Nova Iorque. Apesar deste querer que o MASS MoCa fosse um museu afiliado ao Guggenheim, tal não se viria a concretizar, pelas [103] http://www.massmoca.org/history.php consultado a 19.3.2013 F.124 esquema cronológico da inauguração de espaços do museu 129 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO fortes críticas sociais de que foi alvo. Os seus opositores defendiam que seria tirar prestígio à arte, fazendo então o apoio por parte deste apenas teórico e sem consequências práticas. As obras de adaptação iniciam-se, finalmente, em 1995 com demolições que se prolongaram por dezoito meses. Estas demolições resultaram num total de 4.800 toneladas de detritos provenientes da anulação de paredes interiores assim como de lajes e de um edifício que se encontrava demasiado deteriorado para a sua recuperação. Dezanove dos vinte e seis edifícios encontravam-se nos mais variados níveis de degradação e, simultaneamente, expectantes por um novo uso. Após a sua inauguração, outros três edifícios foram reabilitados e dois destruídos, número que tenderá a aumentar com o passar do tempo. Segundo Phoebe Crisman, orientadora do projecto, o conceito inicial da reconversão era o de “ viver o espaço ao invés de criar um objecto arquitectónico” [104]. Segundo a mesma, tiveram uma atitude que não foi formal ou pragmática, mantendo o espírito aberto às potencialidades físicas do complexo. Contudo, com a anulação de pisos, por exemplo, foram criadas uma dinâmica e uma leitura espaciais diferentes. No entanto, os sinais de desgaste pelo tempo foram mantidos: é possível ver a perpetuação da memória pela permanência das camadas de tinta descolorada. Os espaços criados não foram feitos deliberadamente ou por necessidade; o projecto iniciou-se por perceber quais os elementos a manter. A estratégia construtiva pode ser dividida em três momentos. O primeiro quando se recupera os edifícios mais antigos, seguido pela transformação do espaço de forma a permitir a que os visitantes possam entrar tão profundo quanto possível e, finalmente, a transformação dos edifícios mais acessíveis em comércio. [104] CRISMAN, Phoebe; MASS MoCA: Industrial > Cultural Production, University of Virginia, p.6 [trad. do a.] F.125 átrio central durante as demolições F.126 teatro com a nova estrutura F.127 teatro 130 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO A destruição de paredes e lajes foi resultado das necessidades espaciais para fruição de arte contemporânea. A abertura espacial é a condição que permite um sítio ou objecto ser livre para a recepção ou interpretação. Os vários andares de pé-direito baixo e as variadas colunas que suportavam o peso das máquinas não estavam de acordo com as necessidades expositivas de arte. A imagem forte do tijolo foi preponderante na decisão de como fazer o auditório. De forma a não potenciar a danificação da estrutura e das fachadas, foi construída uma nova estrutura metálica interior sob a qual estão apoiadas as bancadas. Assiste-se então a uma vontade com duas vertentes: a possibilidade de ler o tempo e tornar o presente apenas como outra fase de algo em constante evolução. Esta evolução estende-se ao longo de décadas, uma vez que já na década de 40, com a sua venda, tinha sido alvo de transformações físicas. Percebe-se, então, que o conjunto não foi consumido pelo novo uso. O sistema de praças e os espaços abertos permitem vaguear á descoberta do mesmo e dos mais variados níveis de degradação. Existiu uma vontade de tornar estes espaços em algo polivalente, não apenas com uma utilização mas capazes de serem transformados numa outra, gerando assim novas oportunidades de acção. Tome-se como exemplo uma das praças exteriores que pode ser transformada num cinema ao ar livre. Os curadores deste projecto viram neste enorme espaço também uma oportunidade de angariação de capital, como tal, foram criados espaços para alugar: o edifício 1 com cerca de 1900 m2, o edifício 2 com cerca de 2800 m2 e o 26 com 500 m2. Estes foram desenhados como sendo apenas um involucro, permitindo aos inquilinos modificarem-nos consoante as suas necessidades. De forma a garantir a competitividade com os demais muF.128 espaço de entrada e torre F.129 espaço interior 131 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO seus e galerias, foi instalada tecnologia de ponta de forma a transformar este no único lugar no mundo onde fosse possível exibir determinadas performances/obras de arte. A torre do relógio foi alvo de uma intervenção singular. Esta, que não funcionava desde 1986, ganhou um propósito adaptado à nova circunstância. Pela mão da artista Christina Kubisch nasceu um novo conceito de torre do relógio com sino. Os painéis solares instalados na base do vão do sino transmitem informação, transformada em algoritmos a um computador instalado no interior da torre, que decide o som sinaleiro apropriado [105]. Simultaneamente, as arestas da torre foram pintadas com uma tinta fluorescente que a delineia durante a noite. Esta reconversão foi um projecto económico, principalmente comparando com outras construções da mesma natureza. Teve um custo de cerca de 700 dólares por cada m2 - cerca de 520 € actualmenteenquanto, por exemplo, o Guggenheim Bilbao teve um custo de 3700 dólares por m2 e o Getty Museum de 10300 [106]. Foi inaugurado a 30 de Maio de 1999 com aceitação generalizada e rapidamente trouxe alterações para a cidade. Sendo o maior centro de arte contemporânea nos EUA, conseguiu aumentar o número de visitantes da cidade em grande escala. Este novo fluxo económico, que se alargou a restaurantes e outros negócios, permitiu descer a taxa de desemprego, que se encontrava entre os 25 e 30%, para 5%,. Desde a sua inauguração já houve tempo para estudar com [105] “(…) uma manhã solarenga gera sons altos, distintos e metálicos, enquanto uma tarde cinzenta reproduz-se em sons suaves e melancólicos. Ao meio-dia e às 17 horas, o computador toca um mini-concerto, mas, em outras alturas, as breves composições alteram-se consuante a qualidade da luz e o tempo do dia. Este uso das mudanças de tempo imprevisiveis, associado com uma função alogarítmica previne a repetição (...) o desvanecer da luz do dia, registado pelos painéis solares, faz The Clocktower Project silenciar-se durante a noite” [trad. do a.] disponivel em http:// www.massmoca.org/event_details.php?id=152, acessado em 6.4.2013 [106] CRISMAN, Phoebe; A case for Openness: Ethical and aesthetic intentions on design of MASS MoCA, p.16 F.130 espaço interior F.131 pormenor das colunas cerradas 132 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO precisão o impacto na comunidade, sendo este bastante positivo [107]. “ O MASS MoCA é a reconversão industrial concebida para um uso completamente diferente... é significativamente melhor tanto que o Tate Modern como o Musée d’Orsay. O que mais gosto sobre o MASS MoCA é a subtileza do balanço entre arquitectura industrial antiga e o seu novo papel enquanto espaço expositivo de arte contemporânea ” [108]. 2.5.3 Produto Como já foi referido, não é uma reconversão total do conjunto. Existem ainda alguns edifícios abandonados, o que se deveu, em parte, à falta de fundos. Contudo, quando foi inaugurado tinha 19 galerias e 9300 m2 de espaço expositivo, num total de 23000 m2, divididos também entre espaço público, teatro, escritórios e espaços [107] OEHLER, Kay, SHEPPARD, Stephen, BENJAMIN, Blair; Mill Town, Factory Town, Cultural Economic Engine: North Adams in Context; Center for Creative Community Development, 2006, p.25 [108] GOLDBERG, Paul, crítico de arquitectura vencedor de um Pulitzer [trad. do a.]in http://brunercott.com/Project_shts_round_03/Project%20Sheets%20 PDF_Cultural/BC_proj_sht_mass_moca.pdf, acessado em 19.3.2013 F.132 MASS MoCA 133 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO técnicos. Para maior interacção com a comunidade, foram criados programas que visavam a sua reintegração na mesma. Para as crianças foi criada a Galeria Kidspace, onde são livres para criar as suas obras de arte. Para os adultos o C4, um laboratório de computadores, onde é ministrada formação em informática. A antiga área de carga foi transformada num cinema ao ar livre com a adição de um ecrã com cerca de 15 metros de largura. Dois dos pátios interiores foram adaptados de forma a poderem receber artes performativas, um dos quais tem cerca de 2000 m2. O teatro, com cerca de 930 m2, tem capacidade para cerca de 850 lugares. Para garantir a contínua entrada de fundos, como já foi referido, 5500 m2 foram reservados como espaço de aluguer. As galerias principais estão localizadas nos edifícios 4 e 5, tendo o último a dimensão de um campo de futebol. Neste é ainda possível ver as marcas de onde existia a laje que formava o segundo piso. Entre 2007 e 2008, um antigo reservatório de água na parte sudeste do complexo foi recuperado e convertido num centro de arquivo de arte, com um total de 3000 m2. Desta intervenção, percebem-se dois tratamentos espaciais diferentes. Enquanto o exterior foi apenas alvo de uma clarificação espacial com a demolição de elementos em ruína, o interior sofreu fortes alterações. Foi necessário adoptar espaços meramente produtivos em expositivos, pelo que, foi alterada a circulação interior assim como as suas proporções. De espaços longos e com pé-direito baixo mudou-se para o carácter oposto, marcado pela amplitude. Contudo, apesar das transformações espaciais, não houve alterações materiais, nem tão pouco foi restituído o seu aspecto original. Assim, é possível ler a história do edifício, tanto pelas paredes nuas, como pelas cama- 134 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO das de tinta adicionadas ao longo do tempo e que agora caiem. Observa-se, então, uma concordância com Ruskin. Este defendia o não restauro e a existência de uma vida biológica num edifício. Assumiram-se as transformações e as suas marcas como parte integrante. Tome-se como exemplo o edifício 5 onde são visíveis as marcas de vigas e colunas, demolidas para ampliar o espaço. Percebe-se, assim, que o interior foi alvo de fortes mudanças, com excepção da materialidade que permaneceu intocada. Tanto a circulação, como a percepção espacial, e a estrutura foram alteradas. O interior teve uma aproximação oposta. À excepção do volume anexo, mais recente mas em ruínas, destruído para abertura espacial da zona de entrada, não existiram alterações, apenas tratamento de pavimentos e adaptações funcionais. Não foram adicionadas novas construções e não houve alteração ou introdução significativa de novos materiais, com excepção do edifício 15. Neste, que havia sido reduzido às paredes de betão na década de 90, foi adicionada uma estrutura em ferro que permitiu a construção de um novo andar revestido a chapa metálica. Outro ponto atractivo neste conjunto é a organização, desde 2011, de um festival de música anual numa parceria entre a instituição e a banda de indie rock Wilco, sendo o espaço exterior utilizado como zona de acampamento. Salienta-se, igualmente, a transformação social que fomentou. Como variados autores notaram, o insucesso de uma fábrica transmite à comunidade a sensação de fracasso, pelo que, a sua recuperação estará ligada à reabilitação da fábrica. Do estudo de tabelas sobre o impacto económico na região, verificou-se que fomentou uma mudança positiva na região. Contudo, apesar do respeito demonstrado, falta, ainda, a abertura de um espaço interpretativo. Aquando as obras de recon- 135 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO versão deste complexo, foram encontrados vários artefactos que espelham a história da fábrica, desde máquinas a panfletos e materiais de escritório. Estes foram guardados num dos armazéns do conjunto: o edifício 17, com o intuito de transformar o edifício 15 no espaço interpretativo. No entanto, segundo uma reportagem no North Adams Transcript de setembro de 2013, o edifífio 15, recuperado recentemente, foi o espaço escolhido para expor durante quinze anos o trabalho do artista alemão Anselm Kiefer. 2.6 SESC Pompeia São Paulo, Brasil Programa antigo: Fábrica de Tambores (barris) e posteriormente frigoríficos Data de construção: 1938 Autor original: dado desconhecido Programa actual: Centro Cultural e Desportivo Data de Reconversão: 1976-1986 Autor da Reconversão: Lina Bo Bardi F.133 Ortofotomapa da fábrica F.134 pormenor das passagens 137 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO F.135 planta do conjunto, esc. 1/1000 144 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO A transformação de um espaço privado para público exige certas adaptações regulamentares e de segurança, como são os casos do sistema de detecção de fumo, do alarme de incêndio, das ventilações, entre outros. A sua presença foi assumida e não escondida, tubos e fios coloridos fazem parte do espaço, predominando cores fortes, como o vermelho, o azul e o amarelo. Compreendendo o valor e força do povo, Lina teve como um dos objectivos principais representar as suas tradições. Então, foi introduzido um forno de barro junto à praça da entrada, existem varais de tecidos suspensos no telhado do restaurante, a cachoeira, o rio de S. Francisco, mandacarus [115] vermelhos que funcionam como grades às passagens dos blocos desportivos, espadas de São Jorge [116] e outros não realizados, como a tenda para venda de guloseimas. Já em 1977 a arquitecta tinha mostrado vontade de transformar o muro de 142 m, que faz a divisão do terreno, num mural que relatasse a história do Brasil e do seu povo. Isto acaba por ser concretizado em todo o SESC, em manifestações variadas, desde fotografias a camisolas de jogadores de futebol. “ Uma cidade, para ser realmente cidade, deve ter um ritmo composto baseado em muitos tipos de movimento, humano, mecânico e natural ” [117]. Já no primeiro croqui o movimento mostrava ser o tema primordial, desde o movimento humano pelos percursos ao natural pela existência de água por todo o conjunto. Em 1978 surgiu a ideia de transformar o conjunto numa ilha, uma cidadela rodeada por água. Esta ganha presença com o rio no pavilhão multiusos, o rio de São Francisco, serpenteante e com seixos colocados no fundo (trazidos do triângulo Mineiro, onde nasce o verdadeiro rio São Francisco). Nos armazéns foram projectadas cascatas, um elemento [115] uma espécie de cacto comum no Brasil [116] planta que na cultura afro-brasileira acredita ser uma arma contra o mau-olhado [117] BARDI, Lina Bo, citada em OLIVEIRA, Olivia de, Lina Bo Bardi, Sutis Substâncias da arquitectura, ed. GG, São Paulo, 2006, p. 221 F.150 pormenor de tubagens e ligações F.151 artigo sobre a reconversão da Fábrica de Tambores na Folha de S. Paulo de 11 de Abril de 1982 147 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO forte da cultura brasileira, que seguem a corrente do rio através das ruas entre os armazéns, e desaguando numa piscina ao ar livre, não construída, onde hoje é o deck. Porém, foi construída apenas uma única cascada exterior, localizada junto à chaminé e ao lado da praia. “ A cachoeira na praça é uma imagem nordestina, é o banho de cachoeira, a cachoeira da Mata Grande, onde mora o pai Xangô ” [118]. De forma a transmitir o verdadeiro espírito industrial, foi construída uma torre de reservatório de água, em anéis trepantes de betão, que recupera, simbolicamente, a imagem da chaminé destruída, um símbolo de trabalho. 2.6.3 Produto O programa do conjunto foi dividido. Na zona antiga prevalecem as actividades literárias e artísticas, num ambiente mais calmo e espaçado. Às novas construções foram associadas as actividades desportivas, sendo o seu acesso feito pelo eixo longitudinal que faz a distribuição entre os outros espaços. Junto à entrada principal encontra-se a administração, do lado esquerdo. Segue-se um amplo espaço onde foram instaladas uma área expositiva, a biblioteca e a sala multiusos. Esta foi pensada como uma grande praça de lazer aberta ao improviso da população, estando marcada pela existência do ‘rio São Francisco’ e por uma lareira central. Segue-se o teatro, com capacidade para 800 pessoas, organizado a partir do palco central e com duas arquibancadas opostas. Neste espaço as cadeiras são em madeira, mais desconfortáveis [118] idem, pág. 233 F.152 cobertura dos armazéns e bloco desportivo 148 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO do que as almofadadas mas, segundo Lina Bo Bardi, transportam o observador à experiência original do teatro antigo, feito em bancadas de pedra ao ar livre. Os ateliers-oficinas mostram a articulação entre o trabalho artesanal e o saber fazer. Com os já referidos muros em tijolo de betão são formados espaços, de dimensões e formas variadas, autónomos e distribuídos ordenadamente pela área. Do lado direito estão os vestiários dos funcionários, uma pequena praça, também relacionada com a cozinha industrial, o restaurante self-service e a ‘choperia’. O último dos armazéns foi reservado a oficinas de manutenção. Ao encerrar a fábrica, a comunidade adaptou o seu ambiente às suas necessidades. Os espaços exteriores transformaram-se em espaços de lazer. De forma a não alterar esta ligação, foram adaptados à vida do povo, por exemplo, o deck ou solarium , foi preenchido com cadeiras de praia, chuveiros e guardas-sol para o usufruto da comunidade. Este foi montado sob o Córrego das Águas Pretas, que dividiu o terreno restante em duas partes, visto ser impossível construir sob o mesmo. Assim, ainda que não de forma visível, o seu percurso permanece inalterado. Percebemos, então, que apesar da intenção ser agir de acordo com a natureza do edifício, as suas acções modificaram-no. Pode, contudo, argumentar-se que se respeitou o que se considerou mais significativo, ou seja, a base industrial. Iniciar as obras de reconversão com a extracção de estuque das paredes, não só alterou a textura, como também, a imagem exterior do conjunto. Não havendo a introdução de nova materialidade, adoptou-se por seguir a mesma linguagem das fachadas interiores e dos espaços cobertos, o tijolo e estrutura à vista. O edifício era marcado pela simplicidade. Foi construído, como tantos outros, para satisfazer uma necessidade. A mesma ati- 149 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO tude foi tomada na adaptação dos espaços interiores. Os novos elementos surgem para cumprir uma função. Muros orientadores ou divisórios e balcões têm um objectivo concreto. Obedecendo a uma natureza meramente utilitária, não são criados num contexto decorativo e apresentam-se de aspecto cru e em betão, seguindo, pois, a génese da fábrica. Assim, apesar da adição de elementos novos que alteraram a circulação espacial, lê-se uma só linguagem material. Como o terreno edificável estava dividido em duas partes, a solução encontrada por Lina Bo Bardi foi dividir o programa que faltava. Assim, no bloco com cinco pisos existem, apenas e só, quatro campos desportivos e uma piscina no piso térreo. Cada um dos campos foi pintado em honra de uma estação do ano, em ordem decrescente, inverno, outono, verão e primavera. Na piscina, pintada em branco, destacam-se apenas a tubulação vermelha e a laje fungiforme. Os dois volumes estão ligados por um conjunto de passagens superiores, que formam uma das imagens mais marcantes do SESC Pompeia. O segundo volume tem doze pisos onde foram instalados os vestiários, salas de ginástica, lutas e dança, o bar [119], uma enfermaria e toda a circulação vertical que não é possível fazer no bloco desportivo. Apesar de não fazer parte do conjunto inicial, os novos volumes continuam a implantação e os alinhamentos da fábrica. Contudo, esta continuação é apenas bidimensional. Formalmente, distancia-se das naves originais, uma vez que “ não teria sentido executar uma obra semelhante à antiga fábrica. Além disso, havia o problema do terreno, que só comportava uma estrutura vertical ” [120], não deixando, apesar das condicionantes, o carácter industrial. Salienta-se a inexistência de um espaço interpretativo da era [119] não teve o tratamento desenhado pro Lina, esta queria trazer o desporto para o mesmo através da marcação na parede por uma larga faixa verde junto ao chão que representaria um campo de futebol, e um banco corrido em torno de todo o espaço; [120] BARDI, Lina Bo; jornal Folha de S. Paulo, 11 de Abril de 1982, p.41 150 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO industrial, contudo, todo o edifício tem essa função. Em suma, identificam-se duas motivações nesta reconversão: a permanência de um documento industrial e a satisfação do povo brasileiro. Ambos foram preponderantes nas alterações introduzidas, que, ao surgirem a partir dos mesmos e não como algo novo, mantêm o carácter da fábrica. 3 Conclusão 153 ARQUITECTURA INDUSTRIAL: DA OBSOLESCÊNCIA À RECONVERSÃO Conclusão A Revolução Industrial fomentou mudanças no espaço e vivência das cidades. Num primeiro momento, estas alterações foram vistas de uma perspectiva meramente funcional e não documentária ou relevante. As manifestações arquitectónicas da industrialização não integravam, portanto, a definição do século XIX de património ou monumento. Assim, e apesar de as teorias de restauro formuladas até ao início do século XX não terem contemplado a defesa do património industrial, foram estas a base dos modos operativos actuais. No entanto as limitações das abordagens originais foram expostas pela desindustrialização que ocorreu na década de 70 do século passado. À medida que máquinas urbanas produtivas se transformaram, após o seu abandono, em ‘brown fields’ e polos gravitacionais de devolução, levantou-se a necessidade de desenvolver mecanismos de salvaguarda destes documentos. Foi precisamente esta a génese da Arqueologia Industrial. Este ramo da arquitectura preconiza diferentes abordagens para a preservação dos espaços, distinguindo-se a musealização, a reutilização e a reconversão. A reconversão visa encontrar um novo uso do edifício através da transformação do seu programa. Estas acções são, não raras vezes, controversas. Com efeito, as reconversões são intervenções que se movem ainda por zonas cinzentas da arquitectura, pelo que nos