Anatomia da Doença de Alzheimer: Correlação entre perfil Neuropsicológico e Imagem
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Anatomia da Doença de Alzheimer: Correlação entre Perfil Neuropsicológico e Imagem João Manuel de Figueiredo Baranda Marques Xavier Orientador: Professor Doutor Joaquim Luís Ramos Torres Couto Reis Co-Orientador: Dr. Ricardo Jorge Ferreira Taipa Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Universidade do Porto Centro Hospitalar do Porto Porto, 2013
Resumo Introdução: A doença de Alzheimer evolui com diferentes padrões de atrofia cortical, avaliável por ressonância magnética nuclear, e com diferentes tipos de perfil neuropsicológico. Objetivos: Este estudo teve como objectivo avaliar a distribuição da atrofia em locais específicos do cérebro e a sua relação com o perfil cognitivo. Material e Métodos: Foram incluídos 21 doentes com diagnóstico de doença de Alzheimer provável. Os doentes foram avaliados pela Dementia Rating Scale – 2 e foram obtidas imagens por ressonância magnética nuclear para avaliação de atrofia e lesões da substância branca através da aplicação de escalas visuais. Resultados: A atrofia parietal e posterior relacionou-se com piores resultados na escala global de demência e na subescala de atenção. Foi encontrado um maior grau de atrofia temporal medial esquerda no grupo de doentes com atrofia assimétrica, quando comparados com o grupo com atrofia simétrica. Não foram estabelecidas correlações estatisticamente significativas entre a atrofia cortical global ou atrofia temporal medial e a Dementia Rating Scale – 2 ou qualquer das suas subescalas. Conclusões: A atrofia parietal está associada a uma variedade de aspectos da cognição, traduzindo-se em desempenhos cognitivos piores, transversalmente, e, em especial, pior capacidade de atenção. Palavras-chave: doença de Alzheimer; demência; cognição; perfil neuropsicológico; ressonância magnética nuclear; atrofia cerebral
Abstract Introduction: Alzheimer’s disease progresses with different patterns of cortical atrophy, which can be evaluated by magnetic resonance imaging, and with different types of neuropsychological profiles. Aim: To assess regional distribution of atrophy in the brain and its relation with cognitive profile. Material and Methods: 21 patients with a diagnosis of probable Alzheimer’s disease were included. These patients were evaluated using the Dementia Rating Scale – 2 and magnetic resonance images were obtained for the assessment of atrophy and vascular lesions using visual scales. Results: Parietal and posterior atrophy was correlated with worse global performance in the Dementia Rating Scale – 2 and, in particular, with the sub-scale that assesses attention. There was also a greater degree of left medial temporal atrophy in the sub-group of patients with asymmetrical atrophy when compared to those with symmetrical atrophy. No correlation was found between global cortical atrophy or medial temporal atrophy and the Dementia Rating Scale – 2 or any of its sub-scales. Conclusions: Parietal atrophy is linked to a wide range of cognitive functions, resulting in worse performances across all aspects of cognition and, in particular, worse attentional capacities. Keywords: Alzheimer’s disease; dementia; cognition; neuropsychological profile; magnetic resonance imaging; cerebral atrophy
Lista de Abreviaturas ACG: Escala visual de Atrofia Cortical Global ANP: Avaliação Neuropsicológica AP/P: Escala visual de Atrofia Parietal / Posterior ATM: Escala visual de Atrofia Temporal Medial ATT: Subescala de Atenção da DRS-2 CHP: Centro Hospitalar do Porto CONST: Subescala de Construção da DRS-2 CONCEPT: Subescala de Conceptualização da DRS-2 DA: Doença de Alzheimer DCL: Défice Cognitivo Ligeiro DRS-2: Dementia Rating Scale – 2 DV: Demência Vascular FLAIR: Fluid Attenuated Inversion Recovery I/P: Subescala de Iniciação e Perseverança da DRS-2 MEM: Subescala de Memória da DRS-2 NIA-AA: National Institute on Aging – Alzheimer’s Association RMN: Ressonância Magnética Nuclear SPSS: Statistical Package for the Social Sciences TC: Tomografia Computorizada
Conteúdos Introdução ..................................................................................... 2 Funções Cognitivas e a sua Deterioração ............................................ 2 Neurodegeneração e a Doença de Alzheimer ...................................... 4 Papel da Imagiologia na Demência ...................................................... 5 Avaliação Neuropsicológica da Doença de Alzheimer ......................... 6 Objetivos do Estudo .............................................................................. 6 Material e Métodos ........................................................................ 7 Seleção da Amostra .............................................................................. 7 Avaliação por Ressonância Magnética Nuclear ................................... 7 Atrofia Cortical Global ................................................................................... 7 Atrofia Temporal Medial ............................................................................... 8 Atrofia Posterior / Parietal ............................................................................. 8 Escala de Fazekas ....................................................................................... 8 Escalas de Avaliação Neuropsicológica ............................................. 10 Atenção ...................................................................................................... 10 Iniciação e Perseverança ........................................................................... 10 Construção ................................................................................................. 10 Conceptualização ....................................................................................... 10 Memória ...................................................................................................... 10 Análise Estatística ............................................................................... 11 Resultados ................................................................................... 12 Discussão .................................................................................... 16
1 Atrofia Parietal..................................................................................... 16 O Papel do Córtex de Associação na Cognição ......................................... 16 Doença de Alzheimer de Início Precoce ..................................................... 17 A Rede Cerebral da Atenção ....................................................................... 17 Atrofia Cortical Global e Atrofia do Lobo Temporal ............................ 18 Ausência de Correlações com as Escalas de Demência ............................ 19 A Atrofia Temporal Medial na Doença de Alzheimer Assimétrica ............... 19 Avaliação do Estudo ........................................................................... 20 Conclusões .................................................................................. 21 Bibliografia .................................................................................. 23 Agradecimentos .......................................................................... 27 Anexos ......................................................................................... 28 Anexo I – Tabela de Comparação de Variáveis ................................. 28
2 Introdução Funções Cognitivas e a sua Deterioração A cognição é um grupo de processos mentais que permitem o processamento de informação, a aplicação de conhecimentos e a alteração de preferências. O paradigma emergente na neurociência cognitiva postula que diferentes regiões cerebrais, anteriormente consideradas como centros de processamento de funções específicas, ou módulos, funcionam em conjunto como redes cerebrais. Estas redes são definidas tendo em conta as suas conexões e interdependência funcional e anatómica, surgindo as diferentes funções cognitivas a partir de interações entre diferentes regiões, não como produto dum único módulo. As redes cerebrais produzem então uma grande variedade de aspetos da cognição, incluindo a memória, atenção, linguagem, raciocínio, perceção visuo-espacial, resolução de problemas, processamento de informação e tomada de decisões, estando envolvidas múltiplas regiões anatómicas. Deste modo, alterações fisiopatológicas em múltiplas áreas podem levar ao declínio da função cognitiva.1,2 A demência é uma síndrome clínica em que há uma deterioração adquirida de uma ou mais das várias funções cognitivas ao ponto desta prejudicar o desempenho dum indivíduo nas suas atividades de vida diária. A memória é a função cognitiva que mais habitualmente se encontra afetada e é o défice mais marcado nos tipos mais comuns de demência. É definida como a capacidade dum indivíduo codificar, armazenar e aceder a informação relativa a experiências, pensamentos, atos e procedimentos físicos, entre outros.3-5 Estão identificados dois grandes circuitos de formação de memórias que definem os dois grupos gerais de memória: declarativa e não-declarativa. A memória não-declarativa envolve a aprendizagem de procedimentos e capacidades motoras através da experimentação destas ações e a sua repetição.4 A memória declarativa prende-se com a aprendizagem de informação factual e explícita e depende do hipocampo e estruturas circundantes (como o córtex entorrinal e transentorrinal) do lobo temporal medial.4-6 A definição da síndrome demencial tem vindo a alterar-se em anos recentes, sendo que a presença de défice de memória episódica já não é obrigatória para se considerar que um indivíduo possui uma síndrome demencial. Qualquer domínio cognitivo pode estar envolvido, sendo comuns, entre outros, défices ao nível da linguagem, funções executivas, memória de trabalho, perceção visuo-espacial e
3 atenção.7-9 A linguagem é a capacidade de adquirir e utilizar sistemas complexos de comunicação. Envolve, duma maneira ou doutra, praticamente todo o córtex de associação do hemisfério cerebral dominante (habitualmente o esquerdo), estando identificadas como zonas críticas as áreas de Broca e Wernicke.4 A perceção visuoespacial inclui construção, perceção, orientação, atenção e processamento de informações visuais, dependendo duma rede cerebral complexa que inclui o córtex do lobo occipital e várias regiões de córtex de associação no restante encéfalo.2 A atenção é um processo que permite a concentração num aspeto do ambiente circundante em detrimento doutros. A rede que estará na base da atenção seletiva inclui estruturas do lobo parietal lateral e da linha média anterior, como o giro do cíngulo.10
4 Neurodegeneração e a Doença de Alzheimer Na Europa, em 2000, a prevalência de demência em maiores de 65 anos era de 6.4%, com 69% destes casos a serem devidos à Doença de Alzheimer (DA), doença neurodegenerativa que constitui a causa mais frequente de demência e na qual este trabalho se focará. 25% dos casos de demência são devidos a doença cerebrovascular, entidade conhecida como Demência Vascular (DV), a principal causa de demência não-neurodegenerativa.11 A neurodegeneração é o termo geral para descrever a perda progressiva de massa, estrutura ou função de neurónios. Pode atingir qualquer região do sistema nervoso e ocorrer de diferentes formas. Quando atinge regiões do cérebro responsáveis por funções cognitivas provoca uma síndrome demencial de causa neurodegenerativa.12 As principais alterações neuropatológicas na DA são, macroscopicamente, a atrofia cerebral, e, a nível microscópico, a presença de placas neuríticas, tranças neurofibrilhares e deposição de substância amiloide.13 O circuito da memória declarativa utiliza a acetilcolina como principal neurotransmissor, pensando-se que esta é determinante para a capacidade dos neurónios envolvidos formarem e recordarem memórias. Na DA típica ocorre perda de neurónios colinérgicos e atrofia cerebral, com início no hipocampo e parahipocampo – o primeiro local de atrofia é o lobo temporal medial.4,14,15 Como seria de esperar, dada a localização do processo neurodegenerativo, a função cognitiva que está afetada com maior frequência é a memória.8,9,16 As alterações neuropatológicas subjacentes a este processo evoluem progressivamente no lobo temporal medial. Ao mesmo tempo, a neurodegeneração segue um processo de disseminação regional, com afetação gradual de outras partes do córtex cerebral nos estadios mais avançados da doença e apresentação da síndrome demencial completa.8,17 Consequentemente, o espetro de funções cognitivas afetadas diversifica-se à medida que a doença avança e a magnitude das alterações em cada domínio específico aumenta.9,16,18
11 Análise Estatística Para a análise estatística foi utilizado o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). Foram utilizadas a correlação de Pearson e o teste de MannWhitney U para avaliar associações entre as escalas visuais de RMN e as subescalas da DRS-2.
12 Resultados As características demográficas, resultados das escalas de RMN e avaliação neuropsicológica estão representadas na tabela 3. No anexo I encontram-se os dados utilizados para as correlações entre as diferentes variáveis. Tabela III: Características Demográficas, Escalas de RMN e ANP Número de Doentes 21 Sexo (% sexo feminino) 47.6% Idade de Início de Sintomas (anos) Média 62.24 Idade na Avaliação Neuropsicológica (anos) Média 64.67 Casos com Atrofia Assimétrica (%) 52.4% Atrofia Cortical Global (0 a 3) Média 1.38 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 2 Atrofia Temporal Medial Esquerda (0 a 4) Média 1.62 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 3 Atrofia Temporal Medial Direita (0 a 4) Média 1.52 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 4 Atrofia Posterior / Parietal Esquerda (0 a 3) Média 1.33 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 3 Atrofia Posterior / Parietal Direita (0 a 3) Média 1.29 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 3 Escala de Fazekas (0 a 3) Média 1.05 Mediana 1 Mínimo 0 Máximo 3 DRS-2 Ajustada (média de desvios padrão abaixo da média esperada) Total 5.11 MEM 4.75 I/P 3.20 AT 3.30 CONST 1.90 CONCEPT 1.95
13 Foi possível constatar, a um nível estatisticamente significativo, uma correlação negativa entre o valor total da DRS-2 ajustada e a AP/P à direita (p <0.05). Há uma tendência à mesma correlação para a AP/P à esquerda, mas sem atingir significância estatística (p = 0.068). Estas relações estão representadas nas Figuras 1 e 2. Figura 1 - Relação entre AP/P Direita e DRS Global Figura 2 - Relação entre AP/P Esquerda e DRS Global R²#=#0.20486# 0# 1# 2# 3# -18# -16# -14# -12# -10# -8# -6# -4# -2# 0# Atrofai(parietal( DRS( Relação(entre(Atrofia(Parietal(Direita(e(DRS(Global( R²#=#0.16513# 0# 1# 2# 3# ,18# ,16# ,14# ,12# ,10# ,8# ,6# ,4# ,2# 0# Atrofia'Parietal' DRS' Relação'entre'Atrofia'Parietal'Esquerda'e'DRS'Global'
14 Nas subescalas, observou-se uma correlação negativa entre a subescala da Atenção e os valores da AP/P em ambos os lados (p < 0.001 à direita e p < 0.05 à esquerda). Estas relações estão representadas nas Figuras 3 e 4. Não foram observadas correlações entre as restantes escalas visuais e a DRS-2 ou qualquer das suas subescalas, nomeadamente entre a ATM e o nível global de demência ou a subescala da Memória. Figura 3 - Relação entre AP/P Direita e Subescala da Atenção Figura 4 - Relação entre AP/P Esquerda e Subescala da Atenção R²#=#0.3095# 0# 0.5# 1# 1.5# 2# 2.5# 3# ,18# ,16# ,14# ,12# ,10# ,8# ,6# ,4# ,2# 0# 2# Atrofia'Parietal' Subescala'Atenção' Relação'entre'Atrofia'Parietal'Direita'e'Subescala'da'Atenção' R²#=#0.24539# 0# 1# 2# 3# -18# -16# -14# -12# -10# -8# -6# -4# -2# 0# 2# Atrofia'Parietal' Subescala'Atenção' Relação'entre'Atrofia'Parietal'Esquerda'e'Subescala'da'Atenção'
15 Verificou-se também que 52.4% dos casos apresentavam padrões assimétricos de atrofia na RMN. Neste grupo, em relação ao grupo com atrofia simétrica, há uma tendência a um maior grau de ATM. Por outro lado, o grupo com atrofia simétrica tem tendência a um maior grau de AP/P. No entanto, nenhuma destas relações atingiu significância estatística.
16 Discussão Neste estudo foram avaliadas associações entre escalas visuais de atrofia por RMN e escalas de avaliação neuropsicológica. Foi estudada a potencial relação entre padrões regionais de atrofia e padrões específicos de sintomatologia cognitiva, tanto em termos de localização como de lateralidade. Atrofia Parietal O Papel do Córtex de Associação na Cognição Foi estabelecida uma correlação negativa entre o grau de atrofia parietal e o grau global de demência, estatisticamente significativa à direita e tendencial à esquerda – quanto maior o AP/P, pior o desempenho total na DRS-2. A nível microscópico, sabemos que a deposição de substância amiloide se inicia na rede neuronal intrínseca, um grupo de áreas corticais (cíngulo posterior, lóbulo parietal inferior, neocórtex temporal lateral e córtex pré-frontal ventromedial e dorsomedial) funcionalmente associadas e com inúmeras projeções no lobo temporal medial.34 No córtex parietal, as regiões mais afetadas parecem ser as porções medial e posterior.35 Estas alterações precedem a atrofia hipocampal e podem ser o motivo pelo qual os indivíduos com DA têm défices em testes de memória que utilizam vários procedimentos cognitivos e em quase todas as modalidades.9 Assim, faz sentido que um maior grau de atrofia do lobo parietal, local onde se encontra uma grande quantidade de córtex de associação, resulte num maior grau de demência global – o atingimento disseminado e simultâneo das conexões de várias redes cerebrais de diferentes funções cognitivas faz com que a tradução neuropsicológica seja transversal, sem grande predomínio de nenhum domínio específico. Isto vem de encontro com o atual paradigma integrativo da cognição, que postula que esta depende tanto das regiões responsáveis por algumas funções específicas (como o lobo temporal medial na memória episódica ou as áreas de Broca e Wernicke na linguagem) como da capacidade de integrar informação de várias regiões. 1,2,36 A conectividade entre regiões cerebrais tem vindo a ganhar maior importância na compreensão da patogénese da DA, havendo evidência recente que aponta para a deterioração da conectividade, nomeadamente entre o córtex de associação parietal e a região posterior do giro do cíngulo. Esta deterioração é observável mesmo em doentes com DCL e, nesta fase, é
17 compensada pelo aumento da conectividade temporo-parietal.35 Este tipo de alterações de conectividade está mais bem estudada no lobo parietal e tem, naturalmente, efeito sobre a capacidade de integrar informação de todos os domínios da cognição. Será esta capacidade de integração que está mais deteriorada em indivíduos com maior atrofia parietal.1 Doença de Alzheimer de Início Precoce É de relevar a idade média de início de sintomas abaixo de 65 anos, o limiar para se considerar DA de início precoce. A DA com atrofia de predomínio parietal é o principal subgrupo de apresentações não-amnésicas ou atípicas.9 Estes doentes apresentam-se antes dos 65 anos e têm graus elevados de disfunção cognitiva extra-memória, com afetação de uma maior variedade de domínios cognitivos logo numa fase inicial da doença. A apresentação mais heterogénea, rápida, agressiva e mais frequentemente não-amnésica da DA de início precoce reflete-se desde cedo em piores resultados em testes que avaliam vários aspetos da cognição.37 Dado que, nesta amostra, a média de idade de início de sintomas é inferior aos 65 anos, é razoável considerar que esta tem uma proporção de doentes com DA de início precoce superior a uma população normal de DA. Isto é uma possível explicação para a elevada proporção de atrofia parietal encontrada – a relação entre a DA de início precoce e o predomínio da atrofia parietal está bem documentada. Este enviesamento pode ser explicado pelo facto de os doentes mais jovens serem habitualmente sujeitos a avaliações mais exaustivas para um diagnóstico mais preciso; alguns dos doentes mais idosos com DA típica podem ter sido excluídos por não terem realizado RMN e/ou avaliação neuropsicológica, ou por estas se encontrarem demasiado separadas no tempo. Este viés pode também ter contribuído para não terem sido encontradas correlações entre a ATM e a DRS-2 ou qualquer das suas subescalas, já que estes doentes têm habitualmente os seus hipocampos relativamente poupados em fases iniciais da doença.19,20,38 A Rede Cerebral da Atenção Foi observada correlação entre a atrofia parietal e a subescala da DRS-2 que avalia a atenção. A rede cerebral que controla a atenção é constituída por várias regiões anatómicas distintas com diferentes funções. Estas regiões possuem conexões entre elas e com múltiplas redes, cognitivas e outras, de acordo com o modelo integrativo já descrito.39 Há três subtipos de atenção identificados, que estão
18 localizados em regiões anatómicas mais ou menos específicas. A atenção seletiva, que se prende com a capacidade de focar um evento relevante em detrimento do restante ambiente circundante, tem o seu substrato neural no córtex parietal posterior e da linha média anterior, bem como nos gânglios da base. A capacidade de focar e manter a atenção num dado evento ao longo do tempo depende dum sistema localizado na região frontoparietal direita. A capacidade de dividir a atenção por mais do que um evento relevante em simultâneo estará sediada no córtex préfrontal dorsolateral e na porção anterior do giro do cíngulo.40 Na DA há um défice substancial e transversal dos diferentes aspetos da atenção, com efeito significativo sobre a capacidade destes doentes funcionarem independentemente. A atenção será até o segundo aspeto da cognição a sofrer deterioração, depois da memória, precedendo alterações com tradução sintomatológica mais evidente como a linguagem ou perceção visuo-espacial. Os subsistemas da atenção acima descritos serão afetados de forma seletiva inicialmente mas, à medida que a doença progride, toda a rede está sujeita a neurodegeneração.40 Tendo em conta que o substrato neurológico da atenção reside em parte no lobo parietal, faz sentido que a atrofia deste se traduza em pior capacidade de atenção. Outro fator que pode contribuir para este achado é a já referida provável preponderância de DA de início precoce na amostra, já que está descrita uma maior proporção de perturbações da atenção neste tipo de doentes, ainda que não haja dados concretos que relacionem estas alterações com atrofia de regiões cerebrais específicas.40-43 No entanto, é de notar que a subescala ATT não fornece dados acerca da afetação específica dos três subtipos da atenção, não sendo possível demonstrar que os subtipos da atenção mais afetados nesta amostra sejam os localizados no lobo parietal atrofiado.
19 Atrofia Cortical Global e Atrofia do Lobo Temporal Ausência de Correlações com as Escalas de Demência Não foi encontrada qualquer correlação entre as escalas de atrofia cortical global e temporal medial e a DRS-2 ou qualquer das suas subescalas. Este é um facto surpreendente, já que estão descritas correlações entre vários domínios da cognição e a atrofia cortical global.44-48 Adicionalmente, sabe-se que o início em idades mais jovens, a atrofia cortical global e a cognição estão relacionadas entre si.49 Seria de esperar que, nesta amostra, que tem uma média de idades de início de doença baixa, esta relação também se verificasse. Esta ausência de correlação pode ser explicada pelo tamanho pequeno da amostra estudada, que poderá não permitir o estabelecimento de associações estatisticamente significativas. Mais, é necessário ter em conta as limitações inerentes à utilização de escalas visuais de atrofia, que têm o seu grau de subjetividade, e o facto de boa parte dos estudos nesta área utilizarem avaliações morfométricas de atrofia, obrigatoriamente mais precisas e objetivas. As alterações neuropatológicas que afetam a rede neural da memória episódica fazem com que a amnésia anterógrada seja a manifestação clínica central da DA típica.7-9 O défice de memória episódica na DA é devido principalmente a alterações na consolidação ou armazenamento de nova informação, e não à recoleção ineficaz de nova informação. Isto traduz-se no esquecimento rápido de informação no tempo e perturbação do reconhecimento e recoleção, principais alterações neuropsicológicas da DA, no que toca à memória.9 Na RMN, a progressão da DA típica inicia-se com atrofia do córtex entorrinal, seguindo-se o hipocampo, amígdala e outras estruturas do sistema límbico e para-hipocampo. A perda neuronal estende-se depois ao neocórtex temporal e, mais tarde no curso da doença, às regiões de associação de todo o neocórtex, de forma simétrica.20,24-26 Esta sequência relaciona-se de perto com as alterações neuropatológicas observáveis microscopicamente.16,22 Tendo estes factos em conta, seria de esperar uma relação entre o grau de ATM e o grau de défice de memória, relação essa que está sobejamente descrita mas que não foi encontrada neste estudo.27,46,47,50-52, As razões para isto poderão ser algumas das já apontadas – tamanho reduzido da amostra e maior proporção de doentes com DA de início precoce com hipocampos relativamente poupados. Outras alterações neuropsicológicas importantes ocorrem na DA, nomeadamente nas funções executivas e capacidade visuo-espacial, mas também
20 não foi possível estabelecer relações entre estas e um padrão específico de atrofia. As alterações ao nível das funções executivas, como a manipulação mental de informação, formação de conceitos e resolução de problemas, ocorrem cedo no curso da DA. Estas alterações serão provocadas pela deposição de tranças neurofibrilhares no córtex pré-frontal, que não é avaliado individualmente por nenhuma das escalas usadas. O défice de funções executivas pode ser o principal sintoma de apresentação num subgrupo de doentes com DA.9,16 As alterações na capacidade visuo-espacial são comuns no curso da DA ou podem ser o principal défice na apresentação, sendo evidenciadas em tarefas de construção, perceção, orientação, atenção e processamento de informações visuais. Como apresentação principal, a disfunção visual é rara, ocorrendo em indivíduos com atrofia cortical posterior.9,53 Nenhuma das escalas de atrofia se relacionou com piores resultados em testes que envolvem as capacidades visuo-espaciais. A Atrofia Temporal Medial na Doença de Alzheimer Assimétrica O estudo demonstrou que, quando o padrão de atrofia na RMN é assimétrico, há uma tendência a maior ATM. A DA com atrofia temporal esquerda é uma possível apresentação não-amnésica de DA, em que o défice predominante é de linguagem. Esta apresentação pode ser confundida, tanto em termos sintomáticos como imagiológicos, com a variante semântica da Demência Frontotemporal. Aliás, é menos comum a assimetria da atrofia do lobo temporal na DA do que na demência semântica, podendo pôr-se a questão da acuidade do diagnóstico de DA nestes casos. No entanto, todos os doentes incluídos na amostra têm diagnóstico de DA provável segundo os critérios NIA-AA, tornando esta possibilidade de erro mais remota.54,55 As alterações de linguagem podem também fazer parte da DA típica, à medida que a neurodegeneração atinge o córtex de associação dos lobos temporal, frontal e parietal. Estas alterações, em conjunto com défices concomitantes da memória semântica, traduzem-se em piores resultados do que controlos da mesma idade em testes de nomeação, fluência verbal (principalmente na geração de listas de objetos ou conceitos relacionados) e categorização semântica. Estes défices serão provocados pela deterioração da estrutura, conteúdo e organização da memória semântica, que está subjacente à função cognitiva da linguagem, e não tanto por incapacidade de aceder à memória semântica. 9,16
27 Agradecimentos Agradeço ao Professor Doutor Joaquim Reis e ao Dr. Ricardo Taipa pela orientação e ajuda na realização deste trabalho. É de referir também o contributo indispensável do Dr. Tiago Rodrigues na análise das imagens de RMN. Agradeço também à Professora Doutora Sara Cavaco pelo fornecimento da base de dados da Unidade de Neuropsicologia e avaliações neuropsicológicas dos doentes incluídos na amostra.
28 Anexos Anexo I – Tabela de Comparação de Variáveis DRS AT IP CONST CONCE MEM Id. ANP Escol. Id. Início Duração Fasekas ATM E ATM D AP/P E AP/P D DRS Pearson 1 .933** .948** .701** .908** .752** .338 .144 .360 -.220 .090 -.032 -.005 -.406 -.453* Sig. (2-tailed) .000 .000 .000 .000 .000 .134 .533 .109 .338 .697 .891 .984 .068 .039 AT Pearson .933** 1 .848** .673** .823** .608** .344 .087 .379 -.293 .093 -.049 -.057 -.495* -.556** Sig. (2-tailed) .000 .000 .001 .000 .003 .127 .708 .090 .197 .689 .832 .807 .022 .009 IP Ajusa3 Pearson .948** .848** 1 .674** .793** .678** .441* .069 .465* -.265 .167 -.063 .025 -.329 -.369 Sig. (2-tailed) .000 .000 .001 .000 .001 .045 .766 .034 .246 .470 .785 .915 .145 .100 CONST Pearson .701** .673** .674** 1 .508* .557** .395 .377 .421 -.266 .047 -.275 -.334 -.335 -.360 Sig. (2-tailed) .000 .001 .001 .019 .009 .077 .092 .057 .243 .839 .227 .139 .138 .109 CONCE Pearson .908** .823** .793** .508* 1 .592** .171 .084 .165 -.026 .043 .113 .178 -.356 -.372 Sig. (2-tailed) .000 .000 .000 .019 .005 .459 .716 .474 .911 .854 .624 .439 .114 .097 MEM Pearson .752** .608** .678** .557** .592** 1 .095 .287 .131 -.217 .010 -.147 -.206 -.259 -.329 Sig. (2-tailed) .000 .003 .001 .009 .005 .682 .207 .572 .345 .965 .526 .370 .257 .146 Id. ANP Pearson .338 .344 .441* .395 .171 .095 1 -.116 .982** -.230 .354 .416 .197 -.257 -.202 Sig. (2-tailed) .134 .127 .045 .077 .459 .682 .616 .000 .316 .116 .060 .393 .262 .381 Escol. Pearson .144 .087 .069 .377 .084 .287 -.116 1 -.201 .480* .026 -.219 -.232 .171 .208 Sig. (2-tailed) .533 .708 .766 .092 .716 .207 .616 .381 .027 .911 .341 .311 .460 .366 Id. Início Pearson .360 .379 .465* .421 .165 .131 .982** -.201 1 -.408 .282 .350 .111 -.297 -.255 Sig. (2-tailed) .109 .090 .034 .057 .474 .572 .000 .381 .066 .215 .120 .633 .192 .265 Duração Pearson -.220 -.293 -.265 -.266 -.026 -.217 -.230 .480* -.408 1 .258 .211 .384 .291 .342 Sig. (2-tailed) .338 .197 .246 .243 .911 .345 .316 .027 .066 .259 .358 .086 .200 .129 Fazekas Pearson .090 .093 .167 .047 .043 .010 .354 .026 .282 .258 1 .300 .447* -.402 -.340 Sig. (2-tailed) .697 .689 .470 .839 .854 .965 .116 .911 .215 .259 .186 .042 .071 .132 ATM E Pearson -.032 -.049 -.063 -.275 .113 -.147 .416 -.219 .350 .211 .300 1 .757** -.260 -.165 Sig. (2-tailed) .891 .832 .785 .227 .624 .526 .060 .341 .120 .358 .186 .000 .255 .475 ATM D Pearson -.005 -.057 .025 -.334 .178 -.206 .197 -.232 .111 .384 .447* .757** 1 -.094 -.008 Sig. (2-tailed) .984 .807 .915 .139 .439 .370 .393 .311 .633 .086 .042 .000 .684 .972 AP/P E Pearson -.406 -.495* -.329 -.335 -.356 -.259 -.257 .171 -.297 .291 -.402 -.260 -.094 1 .967** Sig. (2-tailed) .068 .022 .145 .138 .114 .257 .262 .460 .192 .200 .071 .255 .684 .000 AP/P D Pearson -.453* -.556** -.369 -.360 -.372 -.329 -.202 .208 -.255 .342 -.340 -.165 -.008 .967** 1 Sig. (2-tailed) .039 .009 .100 .109 .097 .146 .381 .366 .265 .129 .132 .475 .972 .000 N 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 21 **. Correlation is significant at the 0.01 level (2-tailed). *. Correlation is significant at the 0.05 level (2-tailed).