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´O Projeto Doméstico a evolução da terminologia do programa da casa Diana Neves dissertação para mestrado integrado ano letivo 2011. 2012 ´ ´ ´ s a l a . f r a s q u e i r a . b o u d o i r . q u a r t o c o n j u g a l . o r a t ó r i o . f u m o i r . c a s a d e b a n h o . s a l a d e e s t u d o . s a l ã o . d e p ó s i t o d e c a r r u a g e n s . l o u c e i r a . s a l a d e r e c e b e r c a s a d e b a n h o . c o r r e d o r . s a l a d e b r u n i r . c o z i n h a . v e s t í b u l o . d e s p e n s a . b i l h a r . e s t u f a b i b l i o t e c a e s t ú d i o . c a s a d a c a l d e i r a . s a l a d o p i a n o . l o j a d e a z e i t e . g a r a g e m q u a r t o . c a p e l a . t u l h a . s a l e t a . a l c o v a . t o i l e t t e s a l ã o . l a v a n d a r i a . d e s p e n s a . c o p a . s a l a d e v i s i t a s l a v a b o . q u a r t o d a c r i a n ç a . e s c r i t ó r i o . a n t e c â m a r a . s a l a d e c o s t u r a
O Projeto Doméstico a evolução da terminologia do programa da casa Aluna: Diana Maria Pinho Neves Orientadora: Marta Rocha Moreira Ano Letivo 2011/ 2012 Dissertação para Mestrado Integrado em Arquitectura Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto
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[5] Agradecimentos À Professora Marta pelo acompanhamento, disponibilidade, confiança e ensinamentos, não só este ano, mas também na disciplina de projecto. Aprendi imenso! À minha Grande família, pelo apoio incondicional, pelos sacrifícios desmedidos e pela ajuda prestada em muitas situações. À Rossana companheira, há muitos anos, nesta caminhada. À Mariana sempre disponível e generosa. À Malhão pela loucura saudável. E a todos os que participaram nestes anos de curso: Carmen, Gil, Tó, Maria Inês, Jesica, Nuno e Sílvia. Ao 901, minha segunda escola. Ao Jorge pela sabedoria, ao Filipe pelos conselhos. À Joana, Sónia e Paula pelas alegrias. Ao Carlitos, João e Ruben pelas aventuras. Ao Artur, com quem não existem momentos aborrecidos. À minha "família" na Polónia, ao Marcin, Asia, Pawell, Inês, Andreia e muitos outros que foram a companhia que precisava. Ao Jaime, leitor atento e exigente. À Filipa e a todos os meus amigos que deixaram a nossa terra, que apesar de longe estarão sempre perto. E claro, a esta Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, a todos os seus professores e funcionários, que participaram direta ou indiretamente, na construção do meu sonho de ser Arquiteta.
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[7] Índice Resumo/ Abstract [8] 01. INTRODUÇÂO [13] 02. O PROGRAMA DOMÉSTICO [21] 03. CONSTRUÍNDO O ELENCO [33] 03.1 Espaços de Representação [37] 03.2 Espaços Íntimos [77] 03.3 Espaços do Banho e Higiene [105] 03.4 Espaços de Ligação e Circulação [117] 03.5 Os serviços no Interior Doméstico [129] 04. CONCLUSÃO [155] Bibliografia [161] Índice de Imagens [165] Índice de Termos [172]
[8] Resumo O conceito de casa e de habitar constituiu já um campo de estudo rico e variado, conformando uma das áreas de maior interesse na arquitectura. Nesta investigação procuramos o reconhecimento do programa, no contexto do projeto doméstico, enquanto ferramenta operacional. A nossa investigação concentrou-se no desenvolvimento de um estudo sobre as transformações da terminologia do programa da casa, investigando as designações dadas aos compartimentos que fazem ou fizeram parte do núcleo habitacional, no contexto português ao longo dos últimos séculos. Com o objetivo de conhecer o panorama do programa doméstico, elaboramos uma compilação de termos, feita a partir da consulta de bibliografia genérica sobre o espaço doméstico e de periódicos portugueses do século XX, especializados em arquitetura. Isto permitiu um agrupamento de termos por categorias, articulando-os com termos estrangeiros, que são a origem de grande parte do léxico criado. O trabalho é formado por dois momentos. Numa primeira parte introdutória, pretende-se fazer uma contextualização do programa doméstico, analisando a especificidade deste instrumento no campo projetual da arquitetura e dos aspetos fundamentais desde o seu carácter evolutivo à utilidade no momento da conceção do objeto arquitetónico. O corpo de trabalho pretende dissecar fragmentos e espaços da casa, apresentando-se termos que constituem o programa doméstico e revelando as suas denominações e evolução. Procuramos observar o espaço doméstico como território de múltiplos saberes. Este é um trabalho de compilação de ideias, opiniões e definições.
[9] Abstract The concept of home and dwell is already a rich and assorted field of study, forming one of the areas of greatest interest in architecture. In this research we seek recognition of the program, in the context of domestic design, as an operational tool. Our research was concentrated on the development of a study about the transformation of the terminology of the program of the house, investigating the designations given to spaces that are or were part of the housing project, in the portuguese context over the past centuries. With the goal of understanding the landscape of domestic program, we prepared a compilation of terms, made from the consultation of generic bibliography on domestic space and portuguese magazines of the twentieth century, specialized in architecture. This allowed a grouping of terms by categories, linking them with foreign terms, which are the source of much of the lexicon created. The work consists of two parts. In the first introductory part, we intend to make a contextualization of the domestic program, analyzing the specificity of this instrument in the field of architecture and the fundamental aspects since its evolutionary character to the utility at the time of conception of the architectural object. The body of work aims to dissect fragments and spaces of the house, presenting terms that constitute the domestic program and revealing their names and evolution. We seek to observe the domestic space as a territory of multiple knowledges. This work is a compilation of ideas, opinions and definitions.
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[17] anteriores poucos exemplos da planta originais, pelo que é difícil rastrear a cronologia das estruturas da casa e a evolução dos interiores. Encontramos no entanto exceções que são referidas nalguns momentos do trabalho. Não se desprezaram os vocábulos estrangeiros, que foram muitas vezes fundamentais para o aprofundamento do estudo. Conjugando o uso atual com os termos antigos foi possível criar um léxico alargado sobre a terminologia do programa e refletir sobre a importância de cada espaço para a concretização do projeto doméstico. Pretende-se encontrar um jogo de sinónimos, conhecer os nomes que vêm sendo atribuídos aos vários espaços e perceber as mudanças que ocorreram nas designações. Desenvolveu-se assim uma metodologia de investigação de diversos parâmetros associados às vivências quotidianas, à localização e articulação projeto e ao papel que desempenha ou desempenhou no programa habitacional. Este inventário incide com particular interesse na relação que os espaços tiveram desde sempre com o nome e as repercussões que isso teve ao nível projetual. Para o esclarecimento destes domínios são explorados campos como o da história e o da sociologia, mas tendo sempre como objetivo o desenvolvimento de um discurso sobre arquitectura. Foi fundamental fazer uma filtragem de termos, aqueles entendidos como representando matéria relevante sobre o programa doméstico. Inventariar os espaços atribui-lhes visibilidade e importância. A investigação foi limitada, de forma voluntária, aos espaços interiores para que se faça um estudo preciso sobre um campo particular. Ao organizar esta investigação tornou-se, desde logo uma questão primordial, o da delimitação do intervalo de tempo analisado. O campo vai desde a Idade Média até ao século XX, que foi aceite por ser, por um lado, o período temporal capaz de produzir uma leitura de continuidade sobre o programa doméstico, por outro, para haver um entendimento mais aproximado ao projeto doméstico contemporâneo. A quantidade de material informativo que nos chega dos vários períodos é inconsistente. É especialmente nos séculos XIX e XX que existe mais informação, defensável pela abundância de escritos, imagens e descrições existentes e por ser também aqui que se deram os maiores passos na definição dos interiores domésticos. Os recursos obtidos neste limite são mais vastos e completos, permitindo elaborar de forma mais precisa o catálogo de termos. Cruzando esta informação com a bibliografia consultada, encontraram-se outros termos e obras sobre o programa. Elaborou-se assim uma inventariação que permitiu caracterizar cada termo com dados relativos à evolução do nome e da sua importância no projeto. A consulta de livros e documentos especializados serviu de base para o desenvolvimento teórico e permitiu construir o objeto de estudo, demonstrando uma DELIMITAÇÃO TEMPORAL CRUZAMENTO DE INFORMAÇÃO
[18] heterogeneidade de práticas e conhecimentos. Todos os artigos e citações incorporadas propõem assim itinerários de leitura e a circulação dos conceitos está assinalada por um sistema de referências cruzadas dentro de cada entrada. Com o avanço da pesquisa foi necessário fazer um agrupamento por categorias de termos, segundo um critério de proximidade. Identificaramse cinco categorias, representativos do espaços com características semelhantes: Espaços de Representação, Espaços Íntimos, Espaços de Banho e Higiene, Espaços de Ligação e Circulação e Os Serviços no Interior Doméstico. A partir deste procedimento metodológico procedeu-se a um refinamento da definição dos termos, através da inclusão de imagens que ajudem à caracterização dos espaços: primeiramente os desenhos rigorosos dos casos de estudo que permitam a formulação de conclusões sobre a localização dos espaços em planta, acessos e a compreensão dos mesmos na obra arquitetónica; completando esta representação estão as ilustrações, pinturas e fotografias que vêm sustentar as definições, mostrando os espaços nas várias épocas e segundo várias ocupações. Pretende-se responder, de uma forma técnica e prática, através da construção de um elenco, criando para cada termo uma espécie carta de identidade que inclua as denominações, descrição e definição do espaço, bibliografia que lhe está associada e estudos de outros autores. Para cada termo existe uma compilação de informações que permite ilustrar o conhecimento adquirido. Este não pode ser um estudo perentório, mas sim elaborar as bases para uma pesquisa continuada. CATEGORIAS COMPILAÇÃO
O PROGRAMA DOMÉSTICO 02.
“O programa não é arquitetura – são meramente instruções, assim como é uma receita médica. Porque no programa há um lobby que o arquiteto deve transformar num local de entrada. Corredores que devem ser transformados em galerias [...], áreas que devem ser transformadas em espaços.” Louis Kahn em RONNER, Heinz, Louis I. Kahn: Complete work: 1935-1974. 2end. ed. revised and enlarged. Basel: Birkhäuser, 1987, p. 325.
[21] “O projeto de construir um edifício, de desenvolver um espaço ou de transformar a cidade tem presente um grande número de agentes, que assumem a responsabilidade política de definir o objetivo, regular ou controlar o uso da terra, aqueles que reúnem ou possuem os meios materiais e intelectuais para alcançar, aqueles que usam e discutem. (...) O objeto desta discussão é de analisar a conjetura, de antecipar o que está para vir, de formular previsões, de definir os meios de lidar com possíveis evoluções. Antes de ser concebido no lugar, com contexto físico e social, o projeto é pensado a partir de conjeturas, um conjunto de fatores que determinam a evolução do seu contexto. É uma resposta conjetural”.1 O projeto de arquitectura é dotado de variantes essenciais para a sua definição. O programa é assim tido como ferramenta projectual, aparecendo na forma de uma lista de exigências que funcionam como ponto de partida para a elaboração e organização do desenho dos espaços, analisando hipóteses, antecipando os espaços e as necessidades específicas da construção. O programa apoia a fase inicial do projeto, quando ainda se negoceiam as atividades possíveis e a busca por hipóteses combinatórias. É a fase na qual se atribuem nomes aos espaços desejados, se elaboram planos e se antecipam usos. Antes de ser concebido, o projeto é um rol de suposições que passa por questões criativas, económicas, sociais e técnicas. Segundo João Branco Pedro os dados do programa caracterizam na generalidade a habitação quanto aos espaços que a compõe.2 O programa fixa-se, por um lado como uma ordem técnica, sendo um importante recurso na descrição dos requisitos do edifício em termos espaciais e um apoio importante para o projetista. É necessário um conjunto de condições técnicas e formais que contribuem para uma melhor construção arquitectónica. No entanto o programa é, por outro lado, um recurso imaterial, na medida em que fixa os desejos que se irão concretizar no momento do projeto. O programa pode ser descrito como uma ferramenta de orientação que deve caber nas aspirações do utilizador. 1| EPRON, Jean-Pierre (dir.), Architecture, une anthologie. 2º tomo, Les architectures et le project. Liège: Pierre Mardaga. Institute Français d'Architecture, 1992. p. 143. 2| PEDRO, João Branco, Programa habitacional, Vol.4 "Espaços e compartimentos". Lisboa: LNEC, 2002, p. 2. O PROGRAMA NO PROJETO ORDEM TÉCNICA
[22] “Esta especificidade imaterial celebra assim a relação do ser humano com o potencial uso dos elementos edificados, numa liga que agrupa aspiração e concretização, funções e usos, actividades e eventos, rituais. A reflexão sobre o programa não busca por isso realidades objectuais, antes a inevitabilidade humanista na produção das mesmas, representando um tema simbólicofuncional no trabalho do arquitecto”.3 A casa e a materialização do programa veio pela necessidade primordial de proteção do homem e com a descoberta do primeiro aposento. O primeiro quarto de dormir, sala ou hall4 são denominações que vão na mesma linha de pensamento e que correspondem à primeira tentativa de definição de um programa doméstico. A Cabana Primitiva corrobora esta ideia de primeiro compartimento criado pelo Homem, espaço contentor do fogo. O programa doméstico inaugura-se na primeira atividade construtiva do Homem, para proteger o fogo que reúne todos os elementos integrantes do laço familiar, dando sentido ao projeto e a tudo o que ele almeja. “A habitação que inaugurou a arquitetura, a dependência de que necessitou o homem em primeiro lugar foi seguramente a capaz de o proteger quando era mais vulnerável (…) e urgia ter um recinto imprescindível para o descanso; a origem desta habitação apenas pode estar na noite, na vitória do sono; esta habitação, que seria também muitas outras coisas, teve de ser um quarto de dormir. Um sítio, uma câmara, um buraco, um aposento, um quarto, uma peça, uma alcova onde passar a noite, se possível dormindo. O desejo do quarto, não outro, foi o que impulsionou a arquitetura, onde esta germinou.”5 O valor onírico do projeto refletiu a crescente progressão do programa. No projeto arquitetónico sempre se foi assistindo a uma crescente estruturação dos espaços e ao surgimento de novas denominações que definiam assim funções variadas ao longo do tempo. Os nomes encerram em si um importante peso na definição dos espaços e do projeto. ”O nascimento das dependências da casa (de partes que dependem sempre de outras) seria, em consequência, o resultado do esforço da arquitetura por dotar-se dos interiores mais adequados para satisfazer cada nova 3| SOARES, Carlos Foyedo, «Versus uma arquitectura: o programa como conceito arquitectónico, do movimento moderno à contemporaneidade». Dissertação de Mestrado Integrado, Porto: Faup, 2011, p. 19. 4| Como defende Yago Bonet Correa em Arquitectura do Fumo, A Sala/ Hall foram os primeiros aposentos criados pelo homem. 5| PARRA BAÑON, José Joaquín, Pensamento arquitectónico na obra de José Saramago: acerca da arquitectura da casa. Lisboa: Caminho, 2004, p. 133. ORDEM IMATERIAL
[23] necessidade, para resolver cada novo problema mediante os espaços que melhor cumprissem a parte do programa que lhes corresponde”.6 Observando o contexto geral vemos que as denominações dos espaços sofreram mutações significativas ao longo do tempo. Funciona aqui o desejo do homem de que as atividades não se realizassem todas no mesmo ambiente, possuindo assim a capacidade de regular o seu comportamento individual e coletivo. Os termos e as práticas evoluíram, ilustrando um sistema complexo de palavras e definições. Os usos são guias para a compreensão da matéria do habitar e do sistema projetual. O paralelismo existente entre o programa e a evolução da vida privada teve repercursões na forma como é desenhada a habitação. Na tradição da arquitetura medieval por exemplo, o hall é muitas vezes o espaço único da habitação, sendo também atribuída a denominação de cosinha ou cozinha no caso das casas mais simples. Para perceber a evolução deste espaço, em torno do fogo e em torno do qual se passariam a posicionar todos os outros espaços da casa que respondiam às necessidades de adequação e separação funcional, temos de conhecer a evolução da terminologia. “O carácter antropológico originário, do espaço unitário em torno do fogo, perdura nas relações etimológicas das palavras: Hall, Halle, Halla, Saal, Sala e Aula, nas suas várias significações culturais, onde se revela a formação e a evolução de um conceito tipológico meta histórico como refere Yago Bonet na sua Arquitectura do Fumo”.7 O programa nasce com o nome, é uma tomada de consciência do Homem para a definição dos seus espaços. No entanto esta definição não se mostrou sempre coerente. Na época clássica era o tipo que conferia o carácter do projeto. Havia uma grande semelhança entre compartimentos, sendo depois diferenciados pela sua denominação. No entanto os sistemas programáticos foram-se alterando e no momento do projeto tornou-se fundamental diferenciar os espaços tanto pelo nome como pela variação espacial. Esta abordagem permite-nos compreender também, de certa forma, a vulnerabilidade do espaço interno da habitação. A evolução do programa relaciona-se com a mudança convencional dos usos e do propósito funcional dos espaços dentro da casa e, consequentemente, 6| PARRA BAÑON, José Joaquín, Pensamento arquitectónico na obra de José Saramago: acerca da arquitectura da casa. Lisboa: Caminho, 2004, p. 129. 7| PINTO, Jorge Cruz, A caixa: metáfora e arquitectura. Lisboa: ACD editores, 2007, p. 214. OS NOMES
[24] com a mudança e aumento das denominações. É natural surgirem termos no programa doméstico português com origens em termos estrangeiros, ou estrangeirismos adotados diretamente. Compreendemos que é vital reconhecer o valor dessas denominações, pois isso traduz-se em mudanças do espaço arquitetónico. O programa enquanto ferramenta conceptual pode ser interpretado de diversas formas. Pode constituir, por um lado, uma solicitação inicial do projeto, por outro, pode ser uma reformulação, atendendo aos termos que podem surgir durante a ocupação e consoante a atividade que aí decorre. Se o programa é entendido como um conjunto de desejos identificados pelo utilizador os interiores domésticos são, muitas vezes, fruto de afirmação social. Houve uma tendência notória para a complexidade do programa nas casas mais abastadas, consequência do poder económico. Isto é visível logo na Idade Média quando as Torres Medievais de organização interior simples e com as divisões mínimas começam a ser substituídas pelos grandes Paços Medievais. Os interiores caracterizavam-se ainda por serem espaços comunitários, no qual exercia um grande controlo social A privacidade e a vida familiar era subjugada pelos valores vigentes da sociedade clerical e havia uma grande permeabilidade entre o público e o privado. “Porque o espaço da casa não é de acesso exclusivo da família, porque os poderes públicos civis e religiosos interferem na intimidade e porque é expectável que os indivíduos exprimam comportamentos fora desse enclave físico”.8 Os interiores revelam ainda uma atitude pouco clara em relação à intimidade, ao segredo e à ocultação das atividades privadas. As divisões eram ligadas umas às outras, sem grande definição dos seus usos. As grandes casas tornavam-se, cada vez mais, elementos chave na definição do programa. Casas grandes correspondiam a interiores mais complexos. Estas eram de forma óbvia, reveladoras das condições sociais do agregado familiar. “Também a casa como elemento diferenciador socioeconómico é deslocada de uma representação da monumentalidade e da ostentação para a valorização da adequação entre o programa funcional e edificado, numa proposta atenta ao quotidiano doméstico”.9 8| MILLÁN DA COSTA, Adelaide Pereira, GONÇALVES, Iria, "O espaço urbano e o espaço rural", in MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 25. 9| RAMOS, Rui Jorge Garcia, "Disponibilidade Moderna na Arquitectura Doméstica de Raúl Lino e Ventura Terra na abertura do FERRAMENTA CONCEPTUAL
[25] Este é um ponto chave na concretização do estudo sobre a terminologia. Os mais aliciantes exemplos são os que correspondem a projetos complexos que se preocuparam em pormenorizar a ocupação. A relação termoespaço sempre foi determinante na elaboração projetual, não só porque se destacam assim os espaços mais importantes, como transparece uma mutação significativa da vida privada com repercussão ao nível do projeto. Se o conceito de privacidade muda na sociedade, também a casa vai mudar. «A especialização das dependências da casa contemporânea no Ocidente começa em finais do século XVII; as salas multiusos vão-se concretizando em funções específicas ao longo dessa centúria. As divisões vão sendo denominadas segundo a actividade que, por distribuição, nelas realiza, modificando-se com o tempo, ou por causa deste, a organização doméstica; esta ordenação do programa de usos é acompanhada da atribuição a cada quarto de alguns móveis singulares que o distinguem».10 Desde então vai-se assistindo lentamente a uma maior especialização do interior doméstico, mas com algumas contradições, fruto da época em que se vivia. O termo sala, por exemplo, sofre uma ramificação, dando origem a outras salas com funções mais especificas. No entanto o interior doméstico ainda não contemplava uma exposição clara dos espaços e da sua função. Entre os séculos XVI e XVII assiste-se a um período de transição do que toca à privatização que caracteriza as sociedades ocidentais. Era um período de mudança na sociedade e consequentemente na família e no indivíduo. “Aí vamos encontrar o indivíduo enquadrado por solidariedades colectivas, feudais e comunitárias, no interior de um sistema que funciona menos mal: as solidariedades da comunidade senhorial, as solidariedades linhagísticas, os laços vassálicos encerram o indivíduo ou a família num mundo que não é público nem privado, nem no sentido que hoje damos a estes termos nem no que, sob outras formas, lhes foi dado na época moderna”.11 O espaço arquitetónico é formado pela contradição entre a busca da intimidade e a existência coletiva. Os compartimentos ainda apresentavam uma hibridez no seu carácter, fruto da falta de definição do projeto: quartos século XX", in Revistas de arquitectura: arquivos da modernidade. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2011, p. 85. 10| PARRA BAÑON, José Joaquín, Pensamento arquitectónico na obra de José Saramago: acerca da arquitectura da casa. Lisboa: Caminho, 2004, p. 101. 11| PHILIPPE, Ariès, "Para uma história da vida privada", in História da Vida Privada, Vol. 4: Do Renascimento ao Século das Luzes" Porto: Edições Afrontamento, 1984, p. 7. ESPECIALIZAÇÃO DO INTERIOR DOMÉSTICO
[26] podiam servir tanto para dormir, como para receber convidados. A partir do século XVIII dá-se uma proliferação de divisões interiores destinadas a várias atividades e aliada a uma reorganização funcional da casa. Nota-se uma preocupação com a intimidade na repartição correta dos espaços e com a ocultação de divisões de alguns olhares: os corredores e os átrios surgem então como órgãos articuladores da privacidade constituindo um sistema de organização e restrição de acessos. Os compartimentos começam a ter cada vez mais uma função específica aliada ao nome que lhe é atribuído. A forma como a planta se organiza, neste período, pode ser tão diverso, que o programa deve de ser entendido como um elemento variável. A família torna-se nesta altura um sinónimo na noção de privado e o indivíduo ganha mais autonomia. Está agora no epicentro do discurso sobre o privado, engendrando pensamentos políticos, sociais, morais, higienistas, médicos, etc. Os espaços são para contemplar ao mesmo tempo que são úteis à vida quotidiana, servindo tanto como núcleos de conforto como de representatividade. É importante salientar as exigências técnicas que nesta altura foram determinantes e que se relacionam com a regulamentação muitas vezes instituída e que obriga à inclusão de espaços específicos no programa doméstico. Esta regulamentação definiu padrões espaciais que definiram a qualidade dos espaços interiores e que foram o motor de desenvolvimento habitacional, despoletado pelas preocupações institucionais de oferecer mais qualidade de vida aos habitantes e de criar um sistema homogéneo de habitação social. As preocupações regulamentares acompanham a postura da sociedade e a evolução do cenário globalizante do mundo. A revolução industrial, a introdução da luz elétrica, as mudanças nos hábitos de higiene graças ao desenvolvimento da engenharia hidráulica foram uma mudança marcante. Passou a existir um equilíbrio entre o social e o privado, que estruturam o desenho da casa moderna. O século XIX aceitou novos valores como o higienismo, sentidos especialmente na cozinha e na casa-de-banho. Estas divisões sofreram alterações tanto na sua organização interior (no mobiliário e na estruturação das peças) como na sua posição na casa. O programa ganha ainda maior relevância enquanto ferramenta de projeto ao longo do século XX. Tornou-se necessário rever os conceitos preconizados até ali, especialmente no século XIX com o desenvolvimento dos termos programáticos, colocando em causa o que foi feito, o seu êxito, fracasso e razões para a mudança. Ao longo deste século, e graças a muitas alterações no panorama arquitetónico, deu-se uma emancipação conceptual do Programa em relação à obra construída. Foram dados nesta DESENVOLVIMENTO DO PROGRAMA
[33] 03.1 Espaços de Representação Espaços de Receção Sala | Sala de Estar | Sala Comum Salão | Salão Nobre | Grande Salão | Salão de Festas Sala de Visitas | Sala de Receção | Sala de Receber Saleta | Salinha Sala de Bilhar | Sala de Jogo Sala de Fumo| Fumoir Sala de Música | Sala de Piano Estufa/ Jardim de Inverno Espaços de Refeição Sala de Jantar | Casa de Jantar | Sala de Comer Sala de Mesa | Sala de Refeições | Refeitório Sala de Almoço | Sala de Pequenos-Almoços Os Espaços Híbridos Biblioteca | Livraria Escritório | Sala de Trabalho | Gabinete de Trabalho | Estúdio 03.2 Espaços Íntimos Os Espaços de Oração Oratório Capela | Ermida Espaços de Dormir Quarto de Dormir | Câmara de Dormir | Quarto Principal Quarto de Cama | Zona de Dormir Quarto Conjugal | Quarto de Casal | Quarto dos Donos da Casa Quarto da Senhora | Quarto do Senhor Alcova Espaços de Preparação da Beleza e Vestir Boudoir/ Toucador Quarto de Vestir | Toilette | Vestiria | Vestiário | Transcâmara Closet | Armários Embutidos | Quarto do Roupeiro Os Espaços das Crianças Sala de Estudo | Gabinete de Estudo Quarto da Criança | Quarto dos Filhos 03.3 Espaços do Banho e Higiene Casa de Banho | Quarto de Banho | Banheiro | Banho W.C. | Privada | Sentina | Latrina| Retrete| Sanita | Despejo Lavabo | Lavabus | Lavatório
[34] 03.4 Espaços de Ligação e Circulação Corredor | Galeria | Corredor de Serviço | Passagem | Comunicação Hall/ Hall Central/ Vestíbulo/ Átrio Antecâmara Casa de Fora | Sala de Fora 03.5 Os serviços no Interior Doméstico Espaços das Tarefas Domésticas Cozinha Copa Lavagem da Louça | Lavagem | Pia Sala de Costura | Lavôres Engomados | Sala de Brunir | Tratamento de Roupa | Roupa Lavandaria | Lavagem | Lavadouro | Lava-Roupa | Lavar Quarto dos Criados | Quarto da Criada | Lingerie Espaços das Máquinas Casa da Caldeira Chauffage | Aquecimento | Calorífero Espaços de Arrumação Despensa | Despensaria | Armários Arrecadação | Arrecadação de Víveres | Arrumos | Loja | Loja de Azeite Depósito de Lenha | Frasqueira | Carvoeira | Garrafeira | Adega | Frasqueira Queijeira | Tulha | Louceira Lagar Garagem | Depósito de Carruagens
Espaços de Representação 03.1
“Os espaços de recepção aparecem associados a uma utilização profundamente codificada, da qual se distancia a informalidade, constituindo-se como suporte para uma forma de representação que pretende transmitir para o público uma ordem que corresponda aos ideais de sociabilidade burguesa, marcados em grande parte por valores associados a uma moralidade pudica e conservadora. Os géneros negoceiam a sua convivência, criando-se por vezes territórios distintos para a sua relação com o espaço doméstico. (...) A sua localização ocupa preferencialmente os espaços próximos ou em contacto com o exterior, com o espaço público. (…) Nas casas da alta burguesia, as ligações que se estabelecem entre o exterior e os espaços de recepção evitam a promiscuidade com os espaços íntimos". MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 162
[37] Os Espaços de Receção Sala | Sala de Estar | Sala Comum| Hall “Sala: s. f. Compartimento principal de uma casa, geralmente destinado aos usos da vida externa e social. Em especial, o compartimento destinado à recepção de visitas de cerimónia. (...) Compartimento de uma casa destinado a diversos usos, sem ser a de quarto de dormir, Sala de estar, pequena sala confortável onde a família costuma demorar-se em trabalho ou em conversa”.1 O estudo da etimologia da sala percorre um longo percurso, desde as antigas formações habitacionais que o homem usou para se proteger até aos dias de hoje fazendo salientar novamente o conceito da Cabana Primitiva: origem da casa e do primeiro aposento criado para alojar o Homem. Este espaço, característico das primeiras habitações europeias era amplo, sem divisões internas e onde se desenrolavam todas as atividades quotidianas. Era o espaço do fogo, tão necessário para as manter quentes, confortáveis e com um efeito purificador dos interiores. “O carácter antropológico originário, do espaço unitário em torno do fogo, perdura nas relações etimológicas das palavras: Hall, Halle, Halla, Saal, Sala e Aula, nas suas várias significações culturais, onde se revela a formação e a evolução de um conceito tipológico meta histórico como refere Yago Bonet na sua Arquitectura do Fumo”.2 Yago Bonet refere esta importância para a manutenção das habitações, fazendo alusão às primeiras cabanas primitivas dos povos europeus, as pallozas, com o seu espaço unitário interior e ao qual se poderia ter várias denominações. As pallozas são a última evolução das cabanas primitivas celtas presentes na Europa Atlântica, que se constroem nos castros e nas citânias. São construções cilíndrico-cónicas de cobertura-parede diferenciada, com paredes em pedra e cobertura vegetal. “O espaço unitário da palloza, que não possui denominação própria, encontramo-lo na Europa Atlântica com um nome específico: o hall. Com 1| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo X, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 543. 2| PINTO, Jorge Cruz , A caixa: metáfora e arquitectura. Lisboa: ACD editores, 2007, p. 214. quarto p. 82
[38] efeito, a palavra anglo-saxónica hall e a sua denominação alemã halle aparecem já nas suas antigas sagas da Europa Atlântica da Idade Média com um significado arquitectónico concreto. Hoje em dia, esta palavra tem uma difícil tradução por causa do seu uso inadequado que a confunde em alguns lugares e épocas como veremos, com a palavra latina vestíbulo, sendo esta a tradução normal enquanto a um espaço arquitectónico se refere; contudo também foi sendo traduzido vagamente por: pavilhão, castelo e em poucos casos adequadamente por sala ou aula”.3 A palavra sala provém, como é defendido por Yago Bonet Correa do termo germânico saal ou sal, evoluindo para o frâncico salla e depois para o francês salle, de onde parece evoluir o termo português de forma mais direta e que designa um espaço amplo único e habitável onde se podem realizar múltiplas funções. O termo hall, apesar de ter a mesma designação inicialmente segue um percurso diferente. Na Idade Média surge a denominação de Royal Hall, ou Aula Régia (em português) e que designa a Sala Principal do Paço ou Residência do Rei. Nas torres de menagem a configuração era mais simplificada, podendo consistir numa sala ampla interior. Existia nesta altura uma certa sobreposição funcional entre quarto e sala. Aliás, o termo mais usado para definir a zona de dormir era câmara. Apesar disso, as salas na idade média era os locais de maior aparato e contendo a decoração mais opulente, sendo prova da primeira noção de representatividade. Era um espaço de certa forma semi-público pois comportava uma função primordial na vida da corte: festas, cerimónias, receção de embaixadores, banquetes, entre outros. Nela tinham acesso todos os súbditos com permissão do Rei, não havendo por isso uma 3| BONET CORREA, Yago, La arquitectura del humo. Barcelona: Fundación Caja de Arquitectos, 2007, p. 43. vestíbulo p. 121 [Fig. 01.01] Construção Beirã de cobertura-parede indiferenciada, Marvão e Viseu, Portugal. quarto p. 82
[39] limitação das acessibilidades. O carácter da Sala/ Hall medieval estava longe daquilo que viria a ser mais tarde. Existia uma ambiguidade no tratamento funcional dos vários espaços, modulado por uma liberdade de utilização. Nas casas mais modestas não se encontra com tanta frequência este termo: muitas vezes a habitação era constituída por um espaço unitário a que se dava o nome de cozinha. Apenas as casas com mais do que um piso pareciam considerar este espaço, na parte superior da casa, de forma a ficar mais resguardado. Segundo Sílvia Conde, esta estruturação propiciava uma maior especialização do âmbito privado, situando-se na parte da frente da casa e a colocação da sala na parte da frente da casa permitia um aproveitamento da iluminação.4 A sala como espaço privado onde se podiam receber visitas e estar parece desenvolver-se ainda mais a partir do século XVII. Segundo Akiko Busch esta denominação tem igualmente raízes no termo inglês parlour que também significa sala de estar. O parlatório ou lucotório5 ficou reconhecido nos mosteiros medievais como local de encontro dos monges, fazendo uma transição entre interior e exterior. “O precedente da sala de estar moderna foi, de facto, o parlour encontrado nos mosteiros medievais, o compartimento onde as visitas eram convocadas a falar com aqueles que pertenciam à ordem. Por isso o nome da sala, do francês parler tornou-se uma parte da casa, funcionando como uma área de recepção informal assim como um lugar para sentar e comer. Mais tarde, era geralmente equipado como uma área de recepção geral com cama – para o uso tanto das visitas como do anfitrião.”6 4| CONDE, Sílvia, "A casa", in MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 73. 5| ASSUMPÇÃO, T. Lino d’ , Diccionário dos termos d’architectura: suas defi niçöes e noçöes históricas: com um indice remissivo dos termos correspondentes, em francez. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, 1895, p. 96. 6| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 153. [Fig. 01.02] Sala Medieval, Gravura do século XII. cozinha p. 129
[40] Nos séculos seguintes a denominação hall continua a ter importância como espaço central da casa, mas transformando-se cada vez mais num espaço de passagem e não tanto de estar. Como sabemos, o hall transformarse-á com o tempo num espaço de entrada e passagem, até ir perdendo importância no desenho da casa, sendo tratado como vestíbulo. “(...) nas Ilhas Britânicas durante os séculos XVII e XVIII, devido à influência de Palladio, o Hall ganhou importância como espaço central que gerava a composição da planta nos grandes edifícios, tanto que vai perdendo as suas funções à medida que se criam novos compartimentos específicos. O parlour e o solar são os primeiros espaços de privacidade que se geram na época medieval. (…)É através do Renascimento, com a introdução de mais peças específicas como o salão, o sallon, o dinning room e o drawing-room, quando o espaço que se denomina hall se foi esvaziando do seu conteúdo funcional e por sua vez, pela própria posição central na planta e pelo desenvolvimento da cobertura em forma de cúpula, se converteu num espaço simbólico e ritual de passagem e de ligação às partes do edifício.”7 É necessário atravessar este problema semântico na palavra hall para voltarmos ao termo da sala. Existe uma certa dificuldade em separar os dois num determinado momento da história. Também o quarto adquiriu uma função semelhante nesta altura: para receber visitas e socializar. 7| BONET CORREA, Yago, La arquitectura del humo. Barcelona: Fundación Caja de Arquitectos, 2007, p. 101. hall p. 121 [Fig. 01.03] Sala com cama de dia, do Século XIX.
[41] Esta problemática na definição dos espaços parece deslindar um problema, ainda existente, da definição de privacidade. Não existia ainda um clarificação das acessibilidades que se convertesse numa preocupação do projeto. Os compartimentos da casa ainda podiam servir para funções indeterminadas, sem um controlo demarcado da intimidade e dos acessos. Só a partir do século XVIII é que assistimos a uma tendência generalizada para distinguir plenamente as funções dos vários compartimentos: o hall como vestíbulo; o quarto como zona íntima; a sala como espaço de receção e que se desdobra noutros espaços de funções mais específicas. A sala de estar, propriamente dita, é um espaço mais familiar. Esta terá de competir com os inúmeros espaços de estar que compõem a casa de ambiente burguês: salões, saletas, salinhas. Espaços, estes, “para a família, mas também para a representação”.8 Era nas salas de visitas, salas de fumo e bilhar, entre outras que parecia recair a função de receber pessoas de fora. Apesar de tudo não se pode fechar estas definições: todos estes compartimentos parecem ter uma forte carga representativa e parece depender no anfitrião sobre a verdadeira utilidade a dar a cada um dos compartimentos. Na casa Branco Rodrigues (M. J. Norte Júnior, 1906-08) a tendência é a de colocar a sala no piso dos quartos, com uma função mais interiorizada, prolongando a esfera íntima de convívio formada por estes 8| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 150. [Fig. 01.04] Casa Branco Rodrigues, planta piso 1, Manuel J. Norte Júnior, 1906-08. [Fig. 01.05] Palacete Viscondessa de Valmor, planta andar nobre, Ventura Terra, 1909. visitas p. 47 bilhar p. 51 fumo p. 54 saleta p. 50 salão p. 45
[42] núcleos e deixando o piso do rés-do-chão livre para todos os espaços de receção. Observando outros casos de estudo, no século XIX e também em inícios do século XX encontramos alguma diferenciação entre o que se denomina “Salões” e “Salas de Visitas” e as que eram denominadas apenas de “Salas”. De facto, a Sala consegue ler-se como um espaço mais familiar, onde apenas os mais próximos chegam, conhecendo o seu lugar na casa. No entanto a sala sempre deveu o seu carácter ao seu valor representativo, lugar de receção. “A abertura e a articulação dos espaços de recepção vão caracterizar primeiro as habitações luxuosas da grande burguesia, assim como o gosto pelo mundano e por grandes festas. A valorização dos grandes volumes nasce também do desejo de ostentação; o hall, imitando a Inglaterra, permite as receções brilhantes, onde o jogo com a luz e as plantas ornamentais são muito apreciados.”9 O termo Sala, Salle ou Living-room retoma por vezes o carácter funcional que o Hall havia tido da Idade Média: um espaço onde se podiam desenrolar diversas funções, receber conhecidos e amigos, organizar festas. Este é um dos mais importantes espaços de representação da era oitocentista. O hall continua ainda a ser um espaço com uma enorme presença no projeto, mas com uma função de passagem. No Palacete Viscondessa de Valmor (Ventura Terra, 1909) assistimos ainda a essa caraterização. Um hall imponente domina a planta como elemento aglutinador de todos os compartimentos. O termo sala aparece de forma discreta na zona que faz a distribuição do hall para os restantes espaços. Também existem outros exemplos que colocam a sala nos principais espaços de receção, como é o caso da Casa João H. A. Serra (António Couto, 1910). A sala mantêm-se assim como espaço livre, englobando assim, as funções dispersas em divisões específicas e retomando o papel vital do hall medieval. A sala de estar continuou a espelhar cada vez mais a tentativa de transparecer aquilo que em tempos se englobava numa variedade de compartimentos. Continuamos a ver uma atenção especial no projeto para este espaço, sendo um dos mais importantes no interior doméstico onde se sobrepõem funções. A partir de meados do século XX assiste-se progressivamente a uma mudança nos interiores domésticos. Existe uma maior racionalidade na comunicação dos espaços. A especialização e variedade exagerada de 9| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 63.
[49] parisiense copiada pelas senhoras da burguesia portuguesa; e retirar-se com eles para um local próprio e já designado. O posicionamento da sala de visitas na habitação relaciona-se quase sempre com o vestíbulo de entrada ou o hall central o que salienta a sua ambiguidade: é um lugar para a receção de visitas mas também para a família, tanto serve um propósito mais público, como um mais privado. Na Casa Augusto da Silva Castro (Amandio Duarte Pinto, 1923) observamos esta condição. A sala de visitas está, juntamente com outros espaços de recepção interligado com o vestíbulo de entrada. Parece criar com o escritório um grupo de receção que assinala o ingresso na casa. Ao observar um outro exemplo, a Casa Adelino Morais Ferreira (Carlos Dias, 1937) vemos o compartimento, denominado «visitas» que contém uma dupla entrada: uma de acesso ao corredor ou hall e outra de acesso ao vestíbulo de entrada o que parece oferecer pistas sobre a sua forma de funcionamento: as visitas tinham uma entrada reservada. Este espaço é bastante representativo das vivências oitocentistas, onde predomina a cerimónia. Existem outras formas de articulação deste compartimento. No entanto observa-se, na maior parte das vezes, a convivência deste espaço com as zonas de acesso e entrada na casa. A sala de receção é um exemplo máximo da influência das modas e dos rituais no projeto arquitetónico. As vivências na época oitocentista comandavam todos os pormenores do interior doméstico, tudo era pensado com um propósito, mesmo os níveis vestíbulo p. 121 [Fig. 01.13] Casa Adelino Morais Ferreira, planta rés-do-chão, Carlos Dias, 1937. [Fig. 01.12] Casa Augusto da Silva Castro, planta piso 1, Amandio Duarte Pinto, 1923.
[50] de exposição pública dos espaços da casa. Aos poucos este tipo de compartimentos abandonou o quadro do programa doméstico, tendo a sala de estar retomado a função deste espaço. A forma como se recebem pessoas exteriores ao núcleo familiar deve ser pensado de forma a adequar os acessos e a articular as movimentações no interior da casa. Saleta | Salinha “Saleta, s. f. Sala pequena, Sala de espera. Pequena sala que serve para a costura e ainda outros trabalhos domésticos”.18 “Salinha, s. f. Forma diminutiva de sala. Aposento Pequeno. O m. q. saleta”.19 As denominações saleta e salinha referem-se a espaços com funções híbridas no interior doméstico: podem ser utilizadas igualmente como espaço para receber visitas ou para estar. Ao observarmos a sua dimensão nos casos estudados concluímos que existe aqui um carácter mais recolhido e íntimo, percebendo contudo que este seria um espaço de uso mais comum e privado, predominado o conforto e a informalidade. «Os termos saleta e salão são a tradução portuguesa para as designações francesas dos espaços de recepção denominados petit salon e grand salon, que em alguns casos distinguiam, respectivamente, zonas de estar do quotidiano e zonas para bailes e grandes eventos.»20 O lugar que estas salas ocupam no programa é ainda ambíguo. Podem servir vários propósitos e reunir funções mais secundárias. Na casa António Joaquim Palma (Amilcar Pinto, 1925) observamos a sua localização junto dos quartos, com um carácter mais íntimo, mas ainda assim, gozando de uma posição e forma privilegiada. Já na Casa de um arquitecto (A. R. Silva Júnior, 1930) a saleta é utilizada como charneira entre espaços, propondo um novo entendimento entre a utilização diária e a utilização no momento de receção de convidados. Ela articula o vestíbulo de entrada com a sala de fumo, evidenciando a sua utilização por parte de visitas. O carácter que estas salas impõem no projeto revela alguma hibridez. 18| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo X, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 549. 19| Idem, p. 556. 20| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 163. salão p. 45 fumo p. 54
[51] Elas podem servir tanto para complementar áreas de receção como áreas íntimas. Podem servir ainda para abarcar atividades de rotina, como a costura e trabalhos domésticos. Sala de Bilhar | Sala de Jogo “Bilhar, s. m. Jogo sobre mesa coberta com pano verde com bolas de marfim, que são impelidas por meio de tacos. A mesa sobre que se realiza esse jogo. A casa pública onde se joga o bilhar. A sala onde está o bilhar”.21 Estas denominações fazem referência a um mesmo espaço: um dedicado ao jogo, ao lazer e ao convívio doméstico. Não existem ao certo dados da existência de salas específicas para jogos na Idade Média ou em épocas anteriores: esta atividade podia muito bem decorrer em qualquer aposento da casa, sem diferenciação de género. Para Monique Eleb, o bilhar, que toda a casa burguesa devia possuir, assinala a predominância masculina para a sociabilidade e as relações com o exterior.22 É, sem dúvida, um espaço exclusivo das classes sociais mais altas, especialmente 21| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo II, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 341. 22| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 66. [Fig. 01.15] Casa de um Arquiteto, planta piso 1, A. R. Silva Júnior, 1930. [Fig. 01.14] Casa António Joaquim Palma, planta piso 1, Amilcar Pinto, 1925.
[52] proliferado com o advento da Burguesia oitocentista, quando se deu a diferenciação de géneros. «Ainda se pode, nalguns casos, identificar a associação entre a organização dos espaços e as questões do género, os lugares destinados aos elementos masculinos e aqueles vocacionados para os femininos.»23 Trata-se do espaço masculino da casa, na urgência que houve de, nesta época, diferenciar ainda mais as funções dos vários compartimentos. A sala de bilhar está, na maior parte das vezes, associada à sala de fumo, podendo estar incluída ou agregada. Nalguns casos de estudo encontrados é visível uma relação de complementaridade com o escritório ou com a biblioteca: espaços onde o homem da casa trabalha, recebe as suas visitas e familiares, onde se falam de negócios, política, mulheres. “Nas classes mais privilegiadas, um fumoir, um bilhar permitia ao homem da casa receber os seus amigos, sem a presença das mulheres. A moda inglesa dos clubes inspirou estas práticas. (...) Neste caso, e isto é confirmado pelos planos das habitações e as suas denominações, o homem era muito mais bem tratado que a mulher, que dispõe apenas raramente de espaços específicos”.24 Estes espaços têm tendencialmente uma relação com o exterior e com os espaços de receção, especialmente com o vestíbulo da entrada e com a 23| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 148. 24| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 26. [Fig. 01.16] Edgar Degas, A sala de Bilhar em MenilHubert’Hilaire, 1892 fumo p. 54 escritório p. 71 biblioteca p. 67 vestíbulo p. 121
[53] sala de jantar. Depois de uma jantar conjunto as mulheres retirar-se-iam para a sala de visitas e os homens para a sala de bilhar. Isto denuncia também a preocupação notória em evitar a promiscuidade dos espaços de receção com os espaços íntimos. Isto é visível na Casa José Carreira de Souza (M. J. Norte Júnior, 1912) na qual a sala de bilhar está colocada imediatamente a seguir à sala de jantar, numa ligação franca. As ligações parecem ser francas e reveladoras da intenção inicial de projeto de interligar todos estes espaços. Era comum existirem clubes públicos da burguesia com salas de bilhar mas começou a ser usual incluir um espaço na casa para este efeito. Este é o espaço dos homens, onde o senhor da casa podia permanecer ausente durante a maior parte do dia, mas tinha ainda assim espaços exclusivos, como é o caso da sala de bilhar, sala de fumo e biblioteca. Na casa António Rodrigues Pontífice (Moreira de Lemos, 1923) a sala de bilhar têm um tratamento também muito especial: numa posição central, com uma área considerável e uma ligação cuidada à Sala do Piano e de Mesa. Os rituais sociais estão aqui representados pela fluidez existente entre estes espaços e despoletados pelo hall de entrada que dá acesso diretamente à sala de bilhar. Demonstrando uma forte e duradoura influência na diferenciação de géneros dentro do espaço doméstico, a sala de bilhar adotou uma posição favorável na definição dos núcleos de receção. jantar p. 59 [Fig. 01.17 Casa José Carreira de Souza, planta do Rés-do-chão, M. J. Norte Junior, 1912. [Fig. 01.18] Casa António Rodrigues Pontífice, planta piso 2, J. Moreira de Lemos, 1923. visitas p. 47 piano p. 55
[54] Sala de Fumo| Fumoir “Sala de Fumar ou Sala de Fumo, s. f. a que se destina ao fumo e em que também se costuma tomar café e executar música”.25 Com a Guerra da Crimeia e o crescente utilização do tabaco turco, o hábito de fumar tornou-se popular na sociedade oitocentista, porém era considerado indelicado fumar sem ser em espaços próprios ou em clubes. Foi então necessário criar um espaço próprio para que os Homens se pudessem deslocar e isolar, especialmente depois do jantar, longe da presença das mulheres. As salas de fumo eram bastante populares e úteis nesta época, muitas vezes com decoração ao gosto masculino, carregado de cortinas que ajudassem a absorver o cheiro. As preocupações higienistas parecem também apoiar este isolamento do fumo em espaço próprio. “O fumoir, local indispensável para o depois do jantar burguês, é geralmente muito bem decorado e comporta numerosas funções. (...) Apesar do seu papel socialmente importante, ele pode ocupar uma pequena área nas habitações de luxo”.26 Este espaço têm uma forte ligação com a sala de bilhar, podendo ser mesmo confundida com esta ou adjacente. As relações que se dão entre estes tipos de espaços são, na maior parte das vezes, claras e francas: com 25| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo X, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 544. 26| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 92. bilhar p. 51 [Fig. 01.19] Casa Jorge Salgueiro P. Costa, planta do andar nobre, Tertuliano de Lacerda Marques, 1923.
[55] portas de grande dimensão e que se podiam manter abertas ou fechadas, consoante o propósito do momento. Na Casa Jorge Salgueiro P. Costa (Tertuliano de Lacerda Marques, 1923) atentamos nessa ligação entre a sala de fumo e a sala de bilhar. Existe uma ligação especial entre estes espaços, com a separação com abóbadas que denuncia a caracterização especial destes espaços e a sua convivência. e uso em simultâneo. Já na Casa para um desportista moderno (José Carlos Sellerier, 1933) a sala de fumo (e jogo) representa um espaço de complementação à sala de bilhar e sala de jantar e que faz a transição para o terraço, para o espaço exterior. Com o tempo este espaço deixou de fazer parte do projeto doméstico. Apesar de tudo, e numa condição mais contemporânea, podemos refletir na sua adequação aos dias de hoje para não existir cruzamento de fumos no interior doméstico, quando existem tantas preocupações com os perigos adjacentes ao hábito de fumar. Sala de Música | Sala de Piano A sala de música ou piano, como o nome assim o indica, destinava-se à utilização de instrumentos musicais e à realização de pequenos concertos familiares. Já no século XVI assitimos à inclusão de espaços específicos para este tipo de práticas. [Fig. 01.20] Casa para um desportista moderno, planta do résdo-chão, José Carlos Sellerier,1933.
[56] “A música era outro dos entretenimentos habituais entre os membros da família real. (de D. João III) (…) A música ocupou um espaço relativamente importante na sociabilidade palaciana dos reis da dinastia de Bragança. É sobejamente conhecida a dedicação de D. João IV a essa arte, materializada em obras de remodelação do Paço da Ribeira para acomodar uma sala de música e uma livraria musical”.27 A partir de oitocentos podemos observar a utilização destes espaços de carácter lúdico. Era muito comum a educação musical nas famílias burguesas, especialmente o ensino do piano às meninas. No início do século XIX era comum haver um piano em casa, para as mulheres tocarem. “(...) tocar piano participa na inutilidade do tempo feminino; permite matar o tempo enquanto o homem não chega; segundo Hippolyte Taine, ele ajuda aquela que toca a resignar-se à «nulidade da condição feminina». Falta acrescentar que todas estas cenas que atestam a importância do instrumento na vida feminina informam, antes de mais, sobre o imaginário masculino da mulher ao piano”.28 Exemplo disso é a Casa António Rodrigues Pontífice que dá destaque à sala de piano enquanto espaço de lazer, apresentando grandes vãos de ligação com a sala de visitas e a sala de bilhar, ampliando a área total de receção e intensificando a sua diversidade. 27| CARDIM, Pedro, "A corte régia e o alargamento da esfera privada", MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade moderna. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 188. 28| CORBIN, Alain, "Os bastidores", História da Vida Privada, Vol. 4: Da Revolução à Grande Guerra. Porto: Edições Afrontamento, 1984, p. 489. [Fig. 01.21] Columbano Bordalo Pinheiro, Horas de Estudo, 1979. visitas p. 47 bilhar p. 51
[57] Nota-se um desaparecimento deste espaço ao longo do século XX. Pode ser ainda encontrado nalguns projetos, como na Casa na R. Honório de Lima. Este espaço está ainda circunscrito à zona comum da casa, havendo uma função tanto de estar, conjugada com o uso do piano. Os espaços definidos para a utilização de instrumentos podem circunscrever-se também a outros espaços de estar, especialmente à sala de estar e se isso significar um instrumento musical de grande dimensão, é natural existir uma preocupação na sua localização do interior doméstico para a privatização do lazer. Estufa/ Jardim de Inverno "Jardim de Inverno, s. m. Parte envidraçada de uma casa, usada para cultivo de plantas e para lazer".29 O jardim de inverno é um termo que não se encontra em abundância nos exemplos estudados, o que permite identificar desde logo a sua natureza assente no luxo e na ostentação. Este espaço característico das grandes casas surge provavelmente no início do século XIX, em construções ligeiras, 29| Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (Disponível Online em: htt p://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=jardim%20 de%20inverno). [Fig. 01.22] Casa António Rodrigues Pontífice, planta piso 2, J. Moreira de Lemos, 1923. [Fig. 01.23] Casa na R. Honório de Lima, planta piso 1, Viana de Lima 1941.
[58] e situa-se normalmente num flanco do edifício, de forma a aproveitar da melhor forma a luz e as vistas que se possam proporcionar na envolvente. Este espaço servirá de complemento aos restantes compartimentos de estar, com um carácter diferente e rico, e como defende Monique Eleb, relacionado com o gosto por plantas. Este espaços engradeciam e prolongavam para o exterior as zonas de receção.30 “Mas o apêndice assinalando uma casa de grande classe é a estufa ou o jardim de inverno. (...) O jardim de inverno lança a nota de «distinção» na época dos salões proustianos, limita à classe das pessoas ricas o direito de conversar sob as palmeiras, enquanto lá fora a neve cai. Ao contrário das varandas dos cafés e dos restaurantes, viradas para a rua, ele dá para um espaço privado, o pátio ou o jardim”.31 Na Casa Castro Guimarães é possível observar este espaço. O jardim de inverno é colocado numa posição intermédia, nas traseiras da casa, de forma a beneficiar de mais intimidade e interligando espaços da casa: biblioteca e sala de jantar. Sente-se aqui uma procura por recolhimento e privacidade, tendo ainda um acesso à Capela da casa. 30| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 256. 31| GUERRAND, Roger-Henry, "Espaços privados", História da Vida Privada, Vol. 4: Da Revolução à Grande Guerra. Porto: Edições Afrontamento, 1984, p. 343. [Fig. 01.25] Casa Castro Guimarães, planta do rés-do-chão, José Luiz Monteiro, 1885-86. biblioteca p. 67 jantar p. 59 capela p. 80
[65] Este espaço teve uma evolução também ao nível da denominação. Nos exemplos encontrados podemos ver variados termos: sala de jantar, sala de mesa, casa de jantar, sala de comer; porém, a partir de meados do século XX, começam a desaparecer alguns desses termos do programa doméstico, permanecendo a sala de jantar, como denominação mais comum, e sala de comer, que evidencia uma utilização mais generalizada. Nuno Portas diferenciou, no seu estudo Funções e exigências de áreas da habitação as refeições correntes e as refeições formais. “A legitimidade desta distinção é sublinhada pelos inquéritos tendo consequências para a organização da casa, função da localização da mesa ou mesas para cada um dos tipos de refeições; pode traduzir-se em mudanças do modo de servir, vestir e até do tema das próprias conversas”.40 Este quadro permite-nos refletir sobre a flexibilidade nas opções pelos ambientes domésticos. Estes tipos de refeições podiam realizar-se na sala de jantar própria, na sala comum, na cozinha (especialmente as refeições correntes) ou mesmo do exterior. Observando a evolução do programa doméstico é possível notar a presença dos espaços de refeição enquanto definidores do projeto. No entanto ela foi-se unindo à sala de estar, sendo por vezes fundidas numa só para poupança de área e oferecendo igualmente flexibilidade das opções de apropriação. A sala de jantar também se aproximou da cozinha. A copa desaparece porque o carácter da cozinha também mudou e não existe mais resistência em ligar estes dois compartimentos que funcionam em conjunto. Esta determinação em ligar a sala de jantar com outros espaços é reflexo da sua importância no interior doméstico. Sala de Almoço | Sala de Pequenos-Almoços “O almoço, em particular, é uma refeição de família em que os estranhos raramente são admitidos. Por isso é servido sem toalha”.41 A separação de compartimentos diferenciados para as diferentes refeições do dia parece distinguir algum nível de vida, tão notório nas 40| PORTAS, Nuno, Funções e exigências de áreas de habitação. Lisboa : LNEC, 1969, p. 37. 41|MARTIN-FUGIER, Anne, "Os ritos da vida privada burguesa", História da Vida Privada, Vol. 4: Da Revolução à Grande Guerra. Porto: Edições Afrontamento, 1984, p. 204. sala p. 37 cozinha p. 129
[66] classes mais altas. Podemos encontrar alguns exemplos de famílias que possuem salas específicas para o pequeno-almoço e almoço, de menor dimensão e importância, de carácter mais privado e familiar, e salas de jantar de grande aparato, especialmente concebidas para receberem visitas sociais e grandes eventos. Neste caso, a relação com a copa tornar-se-ia mais vincada, com uma rigorosa utilização por parte dos empregados que demonstravam, à luz dos olhares dos visitantes, a excelência dos serviços. Estes espaços eram de utilização específica para esta refeição. Nos exemplos estudados observa-se que a separação entre a cozinha e os espaços de refeição deixou de ser uma necessidade. Isto pode ser explicado pelo facto de na época oitocentista o termo almoço significar o pequeno-almoço de hoje, daí que os dois termos podem significar o mesmo espaço. Este facto não se vê com tanta abundância nos exemplos mais recentes, sendo na sala de jantar que se praticam as refeições. [Fig. 01.33] Claude Monet, O Pequeno Almoço, 1868.
[67] Os Espaços Híbridos Biblioteca | Livraria “Biblioteca, s. f. (do latin bibliotheca). Colecção de livros posta em estantes ou armários. Livraria. (...) O edifício, a sala, ou as salas, em que os livros são sistematicamente guardados e arrumados”.42 Na definição do conceito biblioteca podemos considerar que este é um espaço destinado ao armazenamento de livros e manuscritos e que na arquitectura doméstica, a biblioteca privada é o aposento onde se depositam as coleções e objetos que se pretendem conservar, enquanto bens privados. “A biblioteca privada, com hoje a conhecemos, é oriunda provavelmente da Inglaterra do século XVI, num tempo em que os membros da aristocracia rural mostravam o seu estatuto social nos livros que possuíam e liam. As suas bibliotecas podiam incluir apenas um punhado de Livros, a maior parte Clássicos Gregos e Latinos e alguns romances. Esta colecção limitada tendia a ser abarrotado num pequeno armário embutido ligado ao quarto ocupado pelo homem da casa; isso transmitia a erudição do dono e a sua superioridade moral como um homem de letras.”43 Parece certo que as Casas Senhoriais na Idade Média já continham bibliotecas privadas. Os livros passaram a fazer parte da vida privada de cada vez mais pessoas a partir da invenção da imprensa, deixando o domínio religioso para penetrar no interior doméstico. Na época moderna a biblioteca alcança o seu estatuto de refúgio secreto, próprio da noção de privatização do espaço doméstico que se vive nesta época. O plano da ostentação e da representação parece ser ultrapassado, em muitos casos, pelo plano das apropriação cuidada, uma demonstração da erudição do habitante. É no século XIX que se dá uma maior difusão deste compartimento que parece introduzir um novo olhar sobre o colecionismo e sobre a exposição das posses individuais, especialmente da classe burguesa. Esta era uma forma de ultrapassar 42| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo II, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 330. 43| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York : PAP, 1999, P. 95
[68] a barreira do isolamento, expondo objetos de viagens ao exterior, instrumentos musicais e antiguidades. “Um dos hábitos mais arreigados foi o do coleccionismo, em especial o de antiguidades. (…) As casas do século XIX da pequena e média burguesia, apresentavam o aspecto de inesperados bricabraques, onde cada peça de mobiliário ou de exposição, revelava um intuito e um convite.”44 Este tipo de compartimento não funcionava apenas como espaço de leitura e reclusão, parecendo assumir várias funções na época oitocentista. Pode ser referido algumas vezes como um dos espaços do Homem da casa, onde podia receber visitas e resolver negócios. Podia ser também o seu espaço de trabalho, mas também podia constituir um espaço para a reunião da família ou para receber visitas ocasionais. Podemos refletir também na sua posição na casa. Este é uma divisão que requer, à partida, sossego e privacidade. Ao observar o contexto geral do programa, a biblioteca surge como um elemento contraditório. Se, por vezes o consideramos como um espaço reservado ao chefe da casa, onde, na ausência de uma divisão como o Escritório ou Zona de Trabalho ele pudesse desenvolver as atividades profissionais, ela surge ligada a 44| CABIDO, José Jacob, Refl exões sobre o interior doméstico as mentalidades e os espaços. Lisboa : FAUTL, 1994, p. 309. [Fig. 01.34] Backer-Harriet, A biblioteca de Thorvald Boeck, 1902. escritório p. 71
[69] outros espaços de receção da casa, normalmente à zona mais social e ativa. Noutros exemplos a Biblioteca aparece afastada da entrada, sem acesso direto com outros espaços, assumindo-se como um espaço de reclusão, íntimo e sem interferência com o público. É o caso da Casa J. J. da Silva Graça (Miguel Ventura Terra, 1905-07) onde encontramos a biblioteca num ponto mais íntimo da casa, com acesso pelo gabinete de trabalho. A sua posição na parte de trás da casa denuncia a procura de um ambiente mais relaxado, de reclusão e sem interferência do público. Na Casa do Arquitecto A. R. Silva Júnior (1930) a biblioteca situa-se, juntamente com o arquivo, no piso da cave, parecendo funcionar mesmo como um espaços de acumulação de posses. Podemos observar, no entanto, uma situação oposta na Casa Adelino Morais Ferreira (Carlos Dias, 1937) a biblioteca aparece como um espaço de representação central e com uma ligação forte tanto com o hall central, como com a sala de bilhar e o escritório. Existe aqui uma forte exposição deste compartimento ao contacto mais público, sendo que parece ser a disposição mais típica da biblioteca no interior doméstico. Nota-se um claro desaparecimento deste compartimento nos interiores doméstico. Possuir livros continua a ser uma necessidade, mas deixou de ser uma excentricidade. Também com o acesso à Internet, deixou de ser necessário armazenar o conhecimento em estantes e armários próprios. [Fig. 01.35] Casa J. J. Silva Graça, planta do andar nobre, Miguel Ventura Terra, 1905-07. hall p. 121 bilhar p. 51 escritório p. 71
[70] “Hoje em dia o conhecimento não tem mais um compartimento só para si. O que ele ocupa é o espaço cibernético criado por um computador com disco rígido e um modem. E com o aumento da disponibilidade e a discriminação do custo dos computadores, o conhecimento tornou-se uma comodidade inteiramente portátil. Esta mudança de espaço físico para espaço electrónico assinala uma das ironias do nosso tempo: quanto mais informação temos, menos espaço precisamos para o colocar”.45 Observar o contexto da biblioteca no projeto doméstico torna-se vantajoso para perceber a forma como se articula este tipo de espaço no domínio da habitação. A sua função pode ser dissimulada no escritório ou gabinete de trabalho e existiram certos momentos em que estes dois tipos de compartimento podiam ser confundidos. No entanto a biblioteca relaciona-se sempre com as posses dos livros e com inevitável atividade de leitura. 45| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York : PAP, 1999, P. 96 [Fig. 01.36] Casa de um Arquiteto, planta da cave, A. R. Silva Júnior, 1930. [Fig. 01.37] Casa Adelino Morais Ferreira, planta rés-do-chão, Carlos Dias, 1937.
[71] Escritório | Sala de Trabalho | Gabinete de Trabalho | Estúdio “Escritório: s.m. Compartimento, sala em que escreve e trabalha o dono dela; gabinete.”46 “Gabinete de trabalho, s. m. A sala onde o intelectual trabalha”.47 A necessidade de introdução de um espaço dedicado às atividades profissionais do proprietário da casa vem desde muito cedo. Ele pode representar o local oficial do seu trabalho ou pode constituir apenas um complemento, sendo o espaço na casa onde se podem tratar de negócios esporádicos, escrever, ler e receber visitas. Este era predominantemente um espaço para o Homem. “O gabinete correspondia ao aposento recatado, para o qual se retirava o dono da casa para escrever, fazer contabilidade ou estudar. Ali tinha alguma intimidade. Era assim tanto em Portugal, como em Castela ou em França. Seria um compartimento que muitas vezes se podia encontrar nas casas dos negociantes, dos letrados e dos nobres da segunda metade do século XVIII”.48 O termo estúdio surgiu no antigos mosteiros e foi fazendo a sua aparição no século XVI, podendo designar um móvel onde as pessoas se sentam e trabalham, ou o compartimento onde se podem realizar essas 46| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo IV, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 581. 47| Idem, Tomo XII, p. 119. 48| OLIVAL, Fernanda, "Os lugares e espaços do privado nos grupos populares e intermédios", MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade moderna. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 258. [Fig. 01.38] Antonello de Messina, São Jerónimo no seu estúdio, 1475-76.
[72] mesmas tarefas. Era o local de retiro do dono da casa. A palavra gabinete (cabinet) pode também significar tanto o móvel como o compartimento onde se processa o trabalho e a leitura. Existe no entanto uma aproximação mais intimista neste espaço, mais próximo do homem, e nos casos em que a palavra gabinete se refere ao espaço da mulher, ele comporta quase sempre uma conotação erótica, pois é o seu espaço mais íntimo, aproximado ao toucador ou ao quarto de vestir. A inserção de espaços de trabalho no seio doméstico intensificou-se especialmente a partir da Revolução Industrial, num momento em que se processavam mudanças tanto a nível económico, como ao nível privado. “Na relação entre o trabalho e o espaço doméstico da burguesia verifica-se, até finais do século XIX, um processo de progressivo afastamento. Desde o século XVII, com o crescimento da intimidade e da domesticidade associadas à habitação, a burguesia foi distanciando o lar do lugar do trabalho (…) A crescente valorização da família e do papel da mulher como dona de casa determina também o progressivo afastamento do domicílio em relação ao mundo dos negócios”.49 Nesta época eram raras as mulheres que possuíam uma profissão. A estas estava reservado o governo do lar. O escritório ou gabinete do homem, como é chamado em alguns casos, torna-se um espaço exclusivamente masculino, reservado ao homem da casa para tratar de negócios, ou simplesmente para ler e relaxar. O escritório centra-se, juntamente com a biblioteca, no domínio da acumulação e da demonstração das posses. Podia muito bem constituir o espaço de trabalho fixo do homem da casa porém, o crescimento das grandes cidades, da poluição e da miséria tornou-se uma condicionante que levou ao afastamento da casa dos locais de trabalho. “A separação do espaço de trabalho da vida doméstica (não necessariamente da própria edificação) é uma condição determinante para a consagração do privado e da intimidade familiar, até aí praticamente inexistente”. 50 No escritório sente-se alguma permeabilidade entre o público e o privado porque pode funcionar tanto na admissão de clientes e pacientes ou apenas para o homem da casa receber os amigos, complementando outras zonas de receção. Têm na maior parte das vezes acesso ao vestíbulo 49| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra : EDARQ, 2010, p. 195 50| RAMOS, Rui Jorge Garcia, A casa: arquitectura e projecto doméstico na primeira metade do século XX português. Porto: Faup publicações, 2010, p. 68. toucador p. 92 vestir p. 96 biblioteca p. 67 vestíbulo p. 121
[73] de entrada, ou possuiu uma entrada independente a partir do exterior. Na Casa João H. A. Serra (António Couto, 1910) encontramos um exemplo de escritório com acesso imediato a partir do vestíbulo de entrada, que depois se abre a uma sala de estudo e sala de bilhar, que parecem prolongar o universo masculino da casa. Já na Casa José Carreira de Souza (M. J. Norte Júnior, 1912) o escritório não contacta com nenhum outro compartimento de forma directa, mas é interessante atentar no desenho da entrada a partir do exterior, que resulta num acesso independente. As duas entradas, do escritório e da casa que antecede o vestíbulo parecem competir na entrada da habitação. “...a posição do gabinete numa habitação é bem precisa. Numa série de tratados, a insistência é colocada na sua independência face ao resto da casa, o que implica a sua localização próximo da entrada ou tendo uma entrada independente”.51 Para resolver a convivência de estranhos na casa pode também recorrer-se a uma sala de espera. É disto exemplo a Casa Dr. João Carlos Reis (Tertuliano de Lacerda Marques, 1922), cujo acesso exterior incluiu este pequeno compartimento que antecede o escritório. A colocação de saletas e salas de espera parece ser recorrente da atividade profissional 51| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 24. [Fig. 01.39] Casa João H. Serra, planta rés-do chão, António Couto, 1910.
[74] do proprietário, e a busca de fronteiras que limitem de forma clara a esfera do privado e do público salientam a importância do programa como estratégia. “Esta situação denuncia a vontade de criar limites à interferência do público com o espaço doméstico. No entanto verificam-se casos em que, devido à actividade profissional do chefe de família ou à especificidade programática do edifício, se produz um confronto mais intenso entre a actividade profissional e o espaço doméstico.”52 Não existe uma fórmula única no que diz respeito ao desenho dos espaços de trabalho. Se este representar, como já vimos, o local oficial de trabalho do homem da casa, é uma boa opção recorrer a um espaço de charneira com o exterior ou um acesso direto. Também existem casos em que a posição do escritório corresponde a outros requisitos. Na Casa Arnaldo Teixeira (Frederico Carvalho, 1925) temos um exemplo de escritório situado no piso dos serviços, possivelmente exigência do projeto. O escritório foi-se dissolvendo no programa e podemos não o encontrar com tanta frequência, mas ele continua a ser um requisito em alguns projetos, nem que seja para servir como zona de ócio. A verdade é que este local, se não servir como zona oficial, complementa sempre o trabalho exercido noutro local, já não sendo mesmo exclusivo do homem. 52| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 204 [Fig. 01.40] Casa João Carlos Reis, planta do rés-do-chão, Tertuliano de Lacerda Marques, 1922. [Fig. 01.41] Casa Arnaldo Teixeira, planta das lojas, Frederico de Carvalho, 1925.
[81] mesmo a ostentação”.5 As capelas ou ermidas são, na maior parte das vezes, edifícios contíguos à habitação, autónomas funcional e arquitetonicamente. É um factor determinante na valorização do estatuto social e económico dos seus habitantes. A sua dimensão seria algo importante a juntar à decoração (por vezes mais rica no exterior que no interior). No arcebispado de Braga, por volta do século XVI, era exigido que as capelas construídas em recintos privados tivessem uma porta que abrisse para a rua, tornando estas semi-públicas, comungando da conceção comunitária da Igreja Católica6. Existia, regularmente, uma visita de algum elemento eclesiástico para verificar o funcionamento da capela. Desde o século XVII era usual a edificação de uma capela particular por parte da nobreza. Esta era normalmente uma construção anexa à casa, preparada para receber maiores cerimónias que um oratório. “Para poder usufruir de serviços religiosos nestes espaço era indispensável fazer prova de quatro requisitos cumulativamente: ser nobre; obter um breve de Roma a autorizar o culto; apresentar a uma vistoria do Ordinário uma edificação digna e adequada. Na realidade, tentava-se que não fosse 5| STOOP, Anne de, Palácios e casas senhoriais do Minho. Porto: Civilização, 1993, p. 11. 6| Idem, p. 11. [Fig. 02.04] Casa Castro Guimarães, planta do rés-do-chão, José Luiz Monteiro, 1885-86. [Fig. 02.05] Casa Adelino Morais Ferreira, planta piso 1, Carlos Dias, 1937.
[82] qualquer pessoa e em qualquer lugar a beneficiar deste tipo de serviço”.7 Continua a ser um espaço das mulheres, que confinadas ao espaço doméstico, podiam continuar o culto religioso mesmo em casa. Uma capela, que não existe nas casas mais modestas, torna-se um vínculo de gerações das famílias mais abastadas. Na Casa Castro Guimarães temos um exemplo de capela adjacente ao edifício. Apesar de ser independente ela continua ligada à casa na forma em que está envolvida por ela, quase com contacto através do Jardim de Inverno. O desenvolvimento maior da Capela exterior ocorreu durante a época barroca, justificando a sua dimensão e impacto decorativo. A partir do século XVIII a capela passa a integrar-se diretamente no corpo do edifício, não possuindo dimensão própria ou local fixo em relação ao resto da casa. No século XIX e XX ainda se observam algumas construções com capela integrada, mas neste período ela ocupa um espaço interior com o mesmo carácter que um espaço de representação como o salão ou a sala de jantar. Um exemplo disso é a casa Adelino Morais Ferreira que contém uma capela no interior da casa, numa posição central, juntamente com outros espaços de receção. A capela privada resume-se a um espaço de carácter independente que acumula uma função mais específica que um oratório. No entanto este último parece ter tido uma maior permanência no interior doméstico enquanto espaço privado. Espaços de Dormir Quarto de Dormir | Câmara de Dormir | Quarto Principal Quarto de Cama | Zona de Dormir “Quarto, s. m. Divisão de uma casa, especialmente o compartimento onde se dorme”.8 “Câmara, s. f. Divisão de uma casa, especialmente o quarto de dormir”.9 A câmara de dormir da Idade Média impõe-se como uma das 7| OLIVAL, Fernanda, "Os lugares e espaços do privado nos grupos populares e intermédios", MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade moderna. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 259. 8| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo IX, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 603. 9| Idem, Tomo II, p. 517. j. inverno p. 128 salão p. 45 jantar p. 59
[83] primeiras divisões designadas para o ato de dormir, o compartimento mais privado, a esfera mais inalcançável pelos elementos exteriores da casa. Este termo, referido por D. Duarte refere-se a um compartimento da casa no qual só poderiam entrar os mais chegados, isto é, as personalidades mais importantes ou os que para isso tinham autorização do Rei. “A câmara de dormir é um local reservado e intimista que, de alguma forma se torna por vezes sinónimo de toda a habitação senhorial. Aliás é interessante sublinhar que é precisamente este carácter muito restritivo (indicador claro do que, em termos medievais, se pode entender por privacidade e apreender do alcance deste conceito) que ficou associado à designação das Câmaras Municipais: com este nome, designa-se, afinal, o espaço onde só os vereadores do concelho – na verdade, e por antonomásia, os maiores e mais chegados da casa – podiam entrar para resolver, em assembleia municipal, os assuntos da sua competência.”10 Vemos uma sequência lógica de estruturação dos espaços com uma graduação ao nível do carácter privado dos espaços, uma evolução do mais aberto e público para o mais fechado e privado. Na Sala dos Árabes, no Palácio de Sintra encontramos uma câmara de dormir de decoração sumptuosa e rica, digna do valor deste espaço. As atividades que se desenrolavam aqui não estão longe daquelas praticadas hoje em dia em qualquer quarto contemporâneo, pois era aqui que o Rei, acompanhado pelo camareiro-mor, executava as suas tarefas íntimas: o acordar, vestir e despir, alguns cuidados com a higiene e corpo, doenças e até mesmo práticas sexuais. A câmara de dormir e os espaços anexos são, como veremos mais à frente, a esfera íntima do Rei e são por isso muito controlados em termos de acessos às pessoas exteriores. Sabemos que, nalguns momentos era permitido à Corte penetrar neste universo para assistir a situações consideradas bastante íntimas, mas socialmente aceites. Apesar disso este compartimento também deu mostras de uma grande hibridez em certos momentos, sendo considerado espaço de receção ou referindo-se apenas a uma divisão da casa sem qualquer uso predefinido. É necessário percorrer a linha do tempo para compreender como de facto se desenvolveu o espaço destinado ao descanso, aquele destinado à atividade de dormir. 10| SILVA, José Custódio Vieira da, "O paço", MATTOSO, José (dir.), História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 81.
[84] “As camas no século XIV eram frágeis e temporários objetos que eram fáceis de mover pela casa ou de transportar de um edifício para outro”.11 Importa ainda referir que estes dados se referem a casa de famílias de classe média alta. O quarto não era de todo um luxo das famílias modestas que podiam possuir uma ou duas divisões, que eram denominadas cozinha ou sala e um quarto. Quando existia, servia para albergar toda a família, muitas vezes na mesma cama. Existe um momento no século XVII, em que as zonas de dormir simulam zonas sociais e assiste-se a uma mutação significativa no seu carácter funcional. Dan Cruickshank defende esta ideia sobre as casas inglesas, que adotando os sistemas da renascença italiana, fazem da casa um verdadeiro cenário para os visitantes, enquanto o conforto fica em segundo plano. “É difícil dizer se, no final do século XVII, o quarto emergiu verdadeiramente como um espaço distinto e privado, usado apenas para dormir e para outras actividades nocturnas. (...) Por um lado havia uma crescente demanda pela privacidade pessoal. Por outro, o crescimento da moda para a exibição pública das partes da casa. Esta moda requeria que os compartimentos principais da casa se intercomunicassem com todas as portas alinhadas de forma a criar uma vista notável (ou alinhada) através da casa e de dar a oportunidade para um grande desfile de divisão para divisão - um desfile que culminava no quarto principal com a sua cama e armário contíguo ou gabinete”.12 O quarto é usado para complementar algumas áreas de receção enquanto se vai encerrando, cada vez mais, na esfera da intimidade. É requisitado para servir como sala de visitas para amigas íntimas da senhora da casa, para o receber no "aprés midi", mas pode também ser utilizado como sala de fumo para o senhor da casa receber amigos, como complemento a outros espaços. No entanto ele vai se aproximando cada vez mais da esfera do privado. Na Idade Moderna aumentaram os constrangimentos, o núcleo de intimidade cresceu em relação aos ditames públicos, a interação social vai diminuindo. “Quando as pessoas eram menos interessadas em procurar entretenimento noutro local, espaços diferentes dentro da casa eram projectados para uma variedade de eventos sociais. No século XVII o quarto era a área de recepção 11| CRUICKSHANK, Dan, "Private Parts", The name of the room: a history of the british house & home. London: BBC, 1992 p. 61. 12| CRUICKSHANK, Dan, "Private Parts", The name of the room: a history of the british house & home. London: BBC, 1992 p. 73. sala p. 37 cozinha p. 129 fumo p. 54
[85] comum, apesar do conteúdo social das reuniões/ encontros parecem ter sido mais cerimoniais que confortáveis e relaxantes”.13 Bosc defende que os italianos e de seguida, os franceses, adotaram a palavra quarto para designar todos os compartimentos habitáveis da casa.14 Também no Vocabulaire de l’Architecture, este é definido como sendo uma divisão sem uma função precisa.15 Este termo pode, de facto, referirse a um qualquer compartimento doméstico. Na época oitocentista observa-se ainda mais claramente o carácter mutável e polivalente deste espaço e definir a sua identidade, enquanto que vai competindo ainda com o termo quarto conjugal, que cai lentamente em desuso O quarto vai desenvolvendo outros códigos espaciais que lhe estão subjacentes. “A partir do início do século XIX, o véu espesso lançado sobre a menor manifestação sexual concretiza-se pela especialização de um espaço sagrado, o quarto conjugal, templo da geração e não da volúpia. A época em que se podia receber num compartimento com cama parece definitivamente terminada. Pesa doravante um tabu sobre todo o espaço qualificado de «quarto», como se o facto de aí se penetrar sem razão definida expusesse a terríveis perigos”.16 É possível observar, nalguns termos encontrados, a integração de certas funções no quarto: zona de toilette, banho e vestir. É também habitual encontrar a denominação «zona de dormir» em quartos que possuem, numa só divisão e sem separação física aparente, uma área com a cama e uma área para os adereços de preparação e vestir. De facto, durante o século XIX e XX, encontramos exemplos de grandes áreas com estas funções diferenciadas, em vez de as nomearem «quarto». Este termo é utilizado em todas as casas, no entanto existe um ponto de interesse neste compartimento, que é a preocupação, em muitos programas domésticos, de diferenciar as funções e os destinatários o que leva a uma atenção, na altura do projeto em definir núcleos diferentes e diferentes denominações. Na Casa Moreira de Almeida, encontramos diferentes terminologias: 13| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 153. 14| BOSC, E., Dicionnaire raisonné d’architecture, Paris, Firmin-Didot et Cie, 1877, Ap. ELEB-VIDAL, Monique, DEBARREBLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 295. 15| Vocabulaire de l’ Architecture, Principes d’ analyse scientifi que, Ministère des Aff aires Culturelles, Paris, Imprimerie Nationale, 1972, Ap. ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 18801914. Paris: Hazan, 1995, p. 295. 16| GUERRAND, Roger-Henry, "Espaços Privados", História da Vida Privada, Vol. 4: Da Revolução à Grande Guerra. Porto: Edições Afrontamento, 1984, p. 334. banho p. 105 vestir p. 96
[86] Quarto Grande, Quarto de Hóspedes, Quarto das Criança e Quarto da Nurse. A disposição destas divisões também espelha alguma racionalização e funcionalidade. O Quarto Grande situa-se num extremo da casa, numa posição de vantagem e com funções anexadas, como quartos de vestir e banho. Os Quartos das Crianças e Nurse situam-se no outro extremo, juntos e com franca ligação à Sala de Estudo. Neste projeto encontramos uma interessante disposição destes elementos, que apesar de albergarem a mesma função, estão à partida diferenciados relativamente ao seu ocupante. Este tendência parece subsistir ao longo do século XX nos projetos portugueses. Na Casa Ryu d’Athouguia, um projeto mais tardio, os quartos também se encontram diferenciados e a suas posições na casa também serão diferentes. O Quarto dos Pais e Filhos pocisionam-se no primeiro piso, enquanto que o Quarto da Criada fica no piso do rés-do-chão, ficando mais perto dos serviços. Uma das maiores heranças do século XIX foi esta tendência de afastar os quartos o mais possível das zonas de receção e serviços, criando muitas vezes núcleos apenas de zonas de dormir que podiam ser complementados com casas de banho e armários. A sistemas de disposição colocam o quarto normalmente numa posição interiorizada, normalmente virado para as traseiras do edifício, ou para espaços mais calmos da envolvente. A ligação entre quartos e salas de receção começou a ser posta em causa e surgiram preocupações ao nível do tratamento das ligações entre estes espaços. [Fig. 02.06] Casa Moreira de Almeida, planta piso 1, Carlos Ramos, 1929. [Fig. 02.07] Casa Ruy d’Athouguia, planta piso 2, Ruy J. d'Athouguia, 1954. criança p. 101 criados p. 144 estudo p. 99
[87] Na definição mais recente de Nuno Portas, o quarto excede a sua utilização para a função dormir, podendo abranger atividades particulares: espaço de recreio de crianças, estudo ou trabalho. “A função Dormir - define-se na habitação sobretudo pela natureza da acção de repouso dos indivíduos e actividades conexas e, menos necessariamente, pelo espaço próprio (quarto, dormitório, alcova, etc.). No entanto é aqui encarada na sua situação normal, isto é, admitindo que a função Dormir se localiza no espaço «quarto» ainda que este se apresente sob diversas formas, com maior ou menor autonomia”.17 A sobreposição de atividades atua como um factor de economia do espaço, no entanto as atividades exclusivas ao quarto devem ser aquelas que se praticam num ambiente mais relaxado. Segundo Rui Ramos, nos anos 70 o quarto readquire a sua importância enquanto espaço de estar e de trabalho, sinal da alteração da estrutura familiar pela recomposição da dinâmica entre pais e filhos.18 “Na verdade, uma das coisas mais impressionantes sobre o quarto moderno é o facto de um quarto que realmente apenas requer uma única peça de mobiliário viria a acomodar muitas mais. E eu penso se todas estas actividades no quarto não são flexíveis num espaço doméstico que se descontrola.”19 O quarto foi crescendo, cada vez mais necessitamos de ampliar a zona de dormir. Estamos a necessitar de mais espaço no quarto porque fazemos mais coisas dentro dele. Não é só para a cama, mas também para a televisão, livros, zona de estudo ou trabalho, zona de exercício. Quarto Conjugal | Quarto de Casal | Quarto dos Donos da Casa Quarto da Senhora | Quarto do Senhor “Há na habitação burguesa do final do século XIX, a caracterização associada ao quarto de dormir é discutida nos tratados de civilidade, em textos de arquitectos e em propostas higienistas. Aborda-se a questão sobre a pertinência do chamado quarto conjugal. Nos costumes associados 17| PORTAS, Nuno, Funções e exigências de áreas de habitação. Lisboa : LNEC, 1969, p. 21. 18| RAMOS, Rui Jorge Garcia, A casa: arquitectura e projecto doméstico na primeira metade do século XX português. Porto: Faup publicações, 2010, p. 355. 19| BUSCH, Akiko , Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 116. alcova p. 90
[88] às classes mais elevadas da sociedade setecentista, vigorava a prática de coexistir um quarto destinado a cada um dos donos da casa, mas no final do século XIX esta situação já não ocorre com frequência, mesmo nas casas destinadas à alta burguesia”20 Este aposento assume-se como uma das principais divisões da esfera íntima da habitação: ele é o mais importante quarto da família. Foi necessário conjugar neste texto os dois sistemas de quarto principal para compreender o todo: o quarto conjugal, lugar para o casal e para o uso de ambos em simultâneo; e o quarto para o senhor e para a senhora. Esta separação da zona de dormir do casal teve o seu auge no século XVIII. O quarto conjugal torna-se um elemento fortalecedor dos laços entre marido e mulher, mas está também associado a uma perda do território pessoal. É na altura em que a esfera do privado se confunde com a figura do feminino que, paradoxalmente, a mulher abastada perde os seus privilégios sobre o seu espaço privado.21 Os quartos conjugais poderiam igualmente servir, segundo Monique Eleb, para encontros em família, era um lugar de convívio familiar. Na Casa Torre de S. Patrício observamos ainda esta tendência, no início do século XX de diferenciar o quarto do senhor e da 20| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 120 21| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 142. [Fig. 02.08] Torre de S. Patrício de Jorge O'Neill, planta piso 2, Raúl Lino. 1917. quarto p. 82
[89] senhora. Existe apesar de tudo uma ligação entre os dois quartos, que deve permitir que o casal se encontre sempre que desejar. Este tipo de quarto permitia sobretudo a sua utilização de forma mais descomprometida, especialmente por parte da mulher, como zona de receção. A separação dos quartos do casal não se vai sentir muito nos exemplos encontrados. As mudanças nas práticas domésticas nos finais do século XIX sentem-se no quarto principal que passa a ser usado pelo casal em simultâneo, que vai ganhando, cada vez mais, um estatuto de intimidade intangível, de sacralidade. O quarto comum aproxima o casal e também os espaços que normalmente complementam o quarto serão comuns. Na Casa Januário Alves da Silva observamos a reunião de uma série de funções que gravitam em torno do quarto: toilette, lavatório, armários. A preocupação de prover ao quarto principal espaços úteis para o quotidiano doméstico não se sente com tanta força noutros quartos que existam na casa. A Casa Dr. Sousa Lara apresenta um desenho que se aproxima em muito aos quartos principais que se tornaram mais funcionais: uma antecâmara faz a entrada para o quarto conjugal e para uma casa de banho privada. Existe sempre um cuidado especial na localização deste quarto no projeto e na sua ligação com outras divisões íntimas. É interessante ver este conjunto de dispositivos, com um desenho vantajoso e que hoje se pode ver em muitos projetos domésticos. [Fig. 02.09] Casa Januário Alves da Silva, planta piso 1, Tertuliano de Lacerda Marques, 1921. [Fig. 02.10] Casa Dr. Sousa Lara, planta piso 1, António Couto Martins, 1935. vestir p. 96 lavatório p. 104 armários p. 98 banho p. 105
[90] Alcova “Alcova, s. f. Pequeno quarto interior de dormir; recâmara. Esconderijo”.22 A definição de alcova refere-se a um local específico para as atividades de descanso. No entanto ele diferencia-se ligeiramente do quarto por ser mais encerrado, ou se referir muitas vezes apenas a peça de mobiliário. No programa doméstico esta é uma divisão de difícil definição, que nos transporta para os espaços mais privados, de retiro amoroso e isolamento, que abrigam práticas naturais e secretas. Segundo a definição de 1765 de d’Alembert e Diderot: “Este faz parte de um quarto onde o leito é usualmente colocado e, por vezes, não há assentos. É separado do resto por uma plataforma, ou por algumas colunas ou outros ornamentos de arquitectura”.23 Segundo T. Lino de Assumpção, a alcova podiria também ser um quarto interior sem luz24. Isto pode ser lido no interior doméstico pela tendência em situar a alcova numa zona interiorizada do compartimento. 22| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo I, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 305. 23| D’ ALEMBERT E DIDEROT, Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, Neuchâtel, 1765, in ELEBVIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 291. 24| ASSUMPÇÃO, T. Lino d’ , Diccionário dos termos d’architectura: suas defi niçöes e noçöes históricas: com um indice remissivo dos termos correspondentes, em francez. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, 1895, p. 9. [Fig. 02.11] P. Thomas, Alcova, 1909. quarto p. 82
[97] espaço de toilette, parece ter convergido mais num espaço dedicado à preparação da figura, não se diferenciando nem género, nem função específica. Sabemos que a toilette, nalgumas alturas resumia-se a uma peça de mobiliário especialmente colocada no quarto para o efeito. Este espaço tinha uma função clara: era onde se faziam os preparativos diários de beleza, como vestir, pentear ou barbear. “O quarto de toilette, lugar de sedução, suplanta durante os primeiros tempos a sala de banho, entendido como um lugar técnico. Começa por se instalar perto dos quartos como peça equipada e higiénica”.33 Nalguns exemplos encontrados no século XIX percebe-se a importância dada a este espaço quando se observa a sua dimensão, que na maior parte das vezes era semelhante ou superior à do quarto de dormir. Na Casa J. J. da Silva Graça (Miguel Ventura Terra, 1905-07) existe uma fusão, nalguns compartimentos, da toilette com o banho, muito comum no início do século XX quando as casas ainda não estavam preparadas com instalações sanitárias. O banho era muitas vezes feito no local da toilette. Na Casa José Carreira de Souza (M. J. Norte Júnior, 1912) o quarto da toilette relembra um pouco a função das transcâmaras medievais, que faziam ligação ao oratório. Também aqui a toilette faz ligação à capella, 33|ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 8. [Fig. 02.19] Casa José Carreira de Souza, planta do Rés-do-chão, M. J. Norte Junior, 1912. banho p. 105 oratório p. 77 capela p. 80
[98] acentuando o carácter privado desta, e o carácter polivalente que existe no espaço de vestir. Ao percorremos os restantes exemplos, vemos o quarto de toilette com variadas disposições. Tanto a denominação toilette, como quarto de vestir foram usadas em abundância nos projetos domésticos do século XX. Por vezes o próprio termo quarto era esquecido, optando-se pela denominação de dormir e vestir nessa área. Closet | Armários Embutidos | Quarto do Roupeiro “As donas de casa erroneamente medem a conveniência pelo número e tamanho de sítios escuros onde podem guardar coisas longe da vista e da ventilação. Quantos mais armários (embutidos) tiverem, mais terão de ter e, como comummente usados, são fontes de doenças e de más limpezas”.34 Este elemento tão usual nas casas de hoje tem um carácter unicamente utilitário, de uso diário para a arrumação de objectos e a sua ocultação em pequenos quartos ou atrás das portas dos armários. Aqui entra o conceito de CupBoard Doors35, de Peter Smithson, que salienta a importância dos objetos para a definição do indivíduo: as portas dos armários que escondem os artefactos que se usam ocasionalmente, ou que se desejam esconder dos olhares indiscretos, ou das crianças. Onde se podem guardar coisas inúteis pois simplificam o quotidiano e permitem «levar os conteúdos heterogéneos a um nível preciso de atenção entre as mil coisas que nos rodeiam dentro e fora de casa»36. Estes compartimentos (ou elementos) nem sempre fizeram parte no interior doméstico. De facto, o armazenamento de objetos foi feito, durante muito tempo, em baús e pequenos armários, que podiam ser transportados se fosse necessário. Isto também de alia ao facto de as pessoas terem, na maior parte dos casos, poucos pertences. “Ed Chapell, director da Restauração Arquitectónica na Colonial Williamsburg em Virgínia, disse-me que a ausência de armários na casa do século XVIII é explicada, em parte, pelo facto de as cruzetas/cabides não terem sido ainda inventados. (…) No entanto, o espaço de arrumação era 34| F.L.Wright, discurso de 1984 na Universidade Guild em Evaston, Illinois, Ap. BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York : PAP, 1999, p. 73. 35| SMITHSON, Peter, From the house of the Future, to the House of Today, Barcelona, 2007, p. 217. 36| Ibidem.
[99] previsto em casas abastadas: as roupas eras penduradas em cabides, ou eram dobradas e mantidas em prensas, ou prateleiras, ou por vezes em cofres. Nas casas mais modestas, pregavam-se pregos simplesmente.”37 Segundo Akiko Buch, os armários embutidos são uma invenção do século XIX. Isto acabou com os baús e pequenos armários. “Armários, cofres e similares são objetos volumétricos com uma presença espacial inequívoca. Em contraste, o closet apresenta-se mais dissimuladamente. Enquanto os primeiros são objetos decorativos, muitas vezes carregados com pinturas, esculturas e incrustações, o closet exprimese apenas com um plano de porta, geralmente lisa e sem adornos.(…) Desde cerca de 1840 para a frente, o closet ofereceu, em vez disso, uma expressão arquitetónica reduzida”.38 Os armários embutidos são muitas vezes incluídos nos espaços intersticiais das divisões da casa, ou são colocados de forma a redesenhar os espaços. Existe uma grande importância na reflexão sobre estes dispositivos no momento de projeto. São necessários para o armazenamento e ocultação das posses, podendo portanto ser pensados como organizadores de espaço, permitindo manter uma certa ordem. Os Espaços das Crianças Sala de Estudo | Gabinete de Estudo “A transformação da ideia de infância pela diferenciação com a idade adulta vai também contribuir para a transformação lenta das condutas educativas. A elevação dos níveis de pudor, a presença maior da criança na habitação familiar, a concepção da infância como idade particular necessitando de um dispositivo educativo específico, parecem explicar em grande parte a 37| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 72. 38| URBACH, Henry, “Closets, Clothes and disClosure”, in Gender Space Architecure: an interdisciplinary introduction. 1st ed . New York: Routledge, 2000, p. 343.
[100] necessidade, que emergirá aos poucos num espaço qualificado, organizado pela criança”.39 A sala de estudo no espaço doméstico é um compartimento necessário e exclusivo das crianças. Este é um espaço que emerge no século XIX, com o realce da importância da família e a proteção do núcleo doméstico. Enquanto não se fortalece o sistema de educação público grande parte das crianças recebe a sua instrução básica em casa. Daí existirem espaços reservados para a instrução que até ao início do século XX podia estar a cargo de uma professora, educadora particular, preceptora ou nurse, que poderia igualmente possuir o seu lugar privado na casa. No Chalet José Maria de Andrade (Alexandre Saldanha da Gama, 1913) encontramos a sala de estudo em ligação direta com o quarto da mestra. O programa doméstico neste projeto parece prever, já de forma bastante antecipada os usos futuros, articulando na forma mais adequada os espaços da criança e da mestra. Este compartimento é colocado junto dos quartos, refletindo a intenção de localizar a zona de estudo para um local mais privado na casa. Os espaços de estudo continuaram a marcar presença nos interiores domésticos ao longo do século. Porém, a sua função pode ter sofrido mudanças: a criança já não recebe a educação em casa, mas na escola. No entanto será sempre uma mais valia a presença de um espaço dedicado às 39| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, Architecture de la vie privée: maisons et mentalités: XVIIe - XIXe siècles. Bruxelles: AAM, 1999, p. 246. [Fig. 02.20] Chalet José Maria de Andrade, planta piso 1, Alexandre Saldanha da Gama, 1913. [Fig. 02.21] Casa Emanuel Rocha Brito planta do rés-dochão, Mário de Abreu, 1943. quarto p. 82
[101] tarefas de estudo na casa. Na Casa Emanuel Rocha Brito (Mário de Abreu, 1943), um projeto mais tardio, pode observar-se a intenção de isolar o espaço de estudo e proporcionar-lhe boa iluminação. Não sabemos até que ponto podemos encerrar a exclusividade deste compartimento às crianças e jovens da casa, que poderia servir pontualmente como espaço de leitura e repouso dos adultos. Quarto da Criança | Quarto dos Filhos “A presença de crianças na casa lê-se nos projetos, depois do início do século XIX, pela multiplicação de quartos e pela diferenciação pura das partes reservadas à vida privada. (...) É raro que a denominação «quarto de criança» apareça nos planos, e os comentários dos críticos e dos autores de coleções são ainda mais raros. A ideia que os quartos das crianças não são uma peça privilegiada encontra-se também, frequentemente, nos arquitetos. As crianças são então tratadas da mesma forma que os empregados domésticos. O quarto é pequeno, muito longe dos espaços de recepção, perto de escadas e das zonas reservadas aos serviços”.40 O quarto da criança, ou quarto dos filhos surge como uma ideia burguesa, símbolo do progresso social e da transformação da ideia de família. Os seus quartos são então espaços multifuncionais, para o estudo e o recreio, para dormir e estar com os pais. A aproximação do quarto dos filhos e dos pais é por vezes desejada, para dotar de segurança o núcleo das crianças. “A distinção estrita dos papéis masculinos e femininos é marcada pela localização de divisões, pela procura de proximidades, de adjacências precisas entre compartimentos. O papel feminino, associado ao papel maternal, provoca um vínculo priveligiado entre o quarto da mulher, que pode ser partilhado, e o quarto da criança”.41 40| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, L’invention de l´habitation moderne: Paris, 1880-1914. Paris: Hazan, 1995, p. 161. 41| Idem, p. 64. casal p. 87
[102] A posição do quarto dos filhos pode variar. Como já vimos ele pode estar adjacente ao quarto da mestra mas também da criada. No entanto existiu uma tendência de aproximar este compartimento ao quarto dos pais, conformando núcleos precisos de intimidade, com os quartos de dormir, vestir e quartos de banho. [Fig. 02.22] William Merritt Chase, Lançamento do arco, 1896.
Espaços do Banho e Higiene 03.3
«A lavagem do corpo deixa de ser entendida apenas como uma acção fútil e a obsessão com a higiene volta a colocar os banhos fora do espaço íntimo; surge o termalismo e a hidroterapia. (...) A ausência da água canalizada nas habitações é também um factor que importa considerar para enquadrar a forma como estes rituais de limpeza se processavam. Por outro lado, as banheiras surgem como um objecto cuja aquisição só está ao dispor de alguns privilegiados, e nesses casos a sua representação nos desenhos surge quase como mais uma demonstração de opulências.» MOTA, Nelson - A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra : EDARQ, 2010, p. 183.
[105] Casa de Banho | Quarto de Banho | Banheiro | Banho “Banheiro, s. m. A casa, o quarto de banho”.1 A introdução de um local para o banho no interior doméstico deu-se recentemente. O compartimento de casa de banho como hoje conhecemos, com todas as peças, foi institucionalizado com mais força apenas no século XX. Para perceber este compartimento recuaremos até aos tempos da Grécia e Roma Antiga, quando tomar banho era um ato social, uma atividade partilhada, que desenvolvia a saúde mental e física. No entanto isto foi-se perdendo e na Idade Média o banho era um hábito muito pouco cultivado. No interior doméstico era raro encontrar espaços preparados para este tipo de finalidade, a higiene pessoal era feita recorrendo a bacias e objetos muito simples. Segundo José Cabido, o ritual do banho na Idade Média era tratado como cerimónia, um evento com um carácter mais coletivo que privado. “Por isso, o banho quente ou frio (tomado regularmente em tinas de madeira), no lavatorium, de que todos os mosteiros estavam dotados, tornou-se prática corrente durante este período. O banho público e colectivo tornou-se mesmo uma praxe na sociedade de então, assumindo por vezes carácter de ritual em bodas, festejos ou banquetes, sendo acompanhado de música, comida, bebida e, inevitavelmente, do amor. O banho não era (a não ser excepcionalmente), tomado no domicílio. Para isso existiam balneários públicos que se foram degradando e transformando em bordeis.bForam depois proibidos e só voltam no século XVIII”.2 Os balneários públicos eram de facto, um dos poucos espaços criados para abarcar esta função. Ao longo do tempo foram sendo introduzidos alguns utensílios destinados ao banho na habitação. Nas casas inglesas, por exemplo, chega-nos um relato Dan Cruickshank sobre as formas de higiene. 1| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo II, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 247. 2| CABIDO, José Jacob, Refl exões sobre o interior doméstico as mentalidades e os espaços. Lisboa: FAUTL, 1994, p. 105.
[106] “Nas grandes casas de campo construídas antes de 1700 as evacuações e a lavagem do corpo era atividades normalmente realizadas dentro da casa. Ir ao lavatório podia não ser mais do que chegar ao penico, ir à latrina num compartimento ou num desconfortável armário. (...) Tomar banho podia ser também simples, apenas envolvendo um servo labutando-se pelas escadas de serviço com baldes de água quente (...)”.3 Na época oitocentista com o aumento das preocupações higienistas e o pudor, o odor era visto com especial desagrado. A função do banho torna-se mais visível na casa. No nosso país, as casas mais abastadas são as primeiras a considerar a mecanização destes elementos. Com o terramoto de 1755, a reconstrução da Baixa Pombalina fazia já referência à construção de infra-estruturas que permitissem um escoamento das águas das habitações. “A existência de esgotos, efectivamente documentada desde há muito em alguns palácios e prevista na reconstrução da Baixa, foi excepcional, mas a produção da Real Fábrica de louça do Rato a partir de 1769 sugere uma difusão muito maior de objectos de higiene pessoal, como bacias, bidés e bispotes (bacios de formas variáveis)”.4 Existe um grande crescimento de vários equipamentos de banho no nosso país. As antigas banheiras em madeira dão lugar a modernos equipamentos que começam a fazer uso da água canalizada e dos esgotos. 3| CRUICKSHANK, Dan, "Private Parts", The name of the room: a history of the british house & home. London: BBC, 1992 p. 86. 4| CUNHA, Mafalda Soares, MONTEIRO, Nuno Gonçalo, "As grandes casas", in História da vida privada em Portugal: a idade moderna. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 228. [Fig. 03.01] Alfred Stevens, O Banho, 1897.
[113] [Fig. 03.07] Casa Artur Prat, planta do rés-do-chão, Miguel Ventura Terra, 1913. abaixo”.10 Apesar de tudo, até meados do século XX era usual separar as peças de banho da sanita. O processo que determinou o desenho das casas de banho completas dos dias de hoje foi lento e teve resistências devido a diversos fatores. O maior de todos foi a inexistência de saneamento em grande parte das habitações, que permitisse incluir peças sanitárias no interior da habitação. Nos casos estudados a partir de meados do século XX incluem já as casas de banho com todas as peças, especialmente a sanita, o objecto que teve tanta relutância em se inserir devidamente no espaço doméstico. 10| KOOLHAAS, Rem, Small, Medium, Large, Extra-Large: Offi cr for Metropolitan Architecture. 2ª ed . New York: The Monacelli Press, 1998, p. 1206. [Fig. 03.08] Casa João H. Serra, planta rés-do chão, António Couto, 1910.
[114] Lavabo | Lavabus | Lavatório “Lavabo, s. m. Depósito de água com torneira, para lavagens parciais, em refeitórios, latrinas, etc”. Este compartimento refere-se essencialmente à divisões da casa com um lavatório incorporado, que se podia utilizar de forma prática ao longo do dia. Podemos encontrar este género de função nas mais variadas zonas da casa: junto da cozinha ou na sala de vestir; encerrado ou aberto. De facto, a existência de um lavatório em qualquer zona de receção parecia ser habitual no século XVIII (ou mesmo antes) para responder às necessidades de alguns compartimentos. vestir p. 96 cozinha p. 129
Espaços de Ligação e Circulação 03.4
“Abandonada definitivamente desde finais do século XVII, é a concepção de espaços comunicantes na habitação. Este princípio, que tinha feito de todos os compartimentos, zona de passagem, não haveria de sobreviver à contínua busca de intimidade. Assim como a polivalência desses espaços, determinados funcionalmente apenas pelo mobiliário, irá dar lugar à especialização dos compartimentos, servidos por eixos de circulação, sistemas de distribuição e espaços de transição. Surgem os conjuntos de elementos solidários: quarto + antecâmara, quarto + saleta de estudo, sala + escritório; todos com o fito de separar as visitas, os empregados e principalmente os estranhos, do núcleo íntimo da residência.” CABIDO, José Jacob, Reflexões sobre o interior doméstico as mentalidades e os espaços. Lisboa: FAUTL, 1994, p. 167.
[117] Corredor | Galeria | Corredor de Serviço | Passagem | Comunicação “Corredor, s. m. Passagem estreita e comprida pelo interior de uma casa para comunicar dois ou mais repartimentos”.1 “Galeria, s. f. Espécie de corredor largo e extenso, que serve de comunicação e trânsito entre edifícios de grandes proporções, mansões, palacetes, palácios, etc.”2 Os corredores, galerias e passagens de comunicação são espaços que surgiram no interior doméstico e que permitiram ajudar à compartimentação dos espaços e privatização de algumas áreas. Quando surgiram nas habitações estes espaços levantaram algumas questões sobre a sua utilidade: eram tidos sobretudo como espaço desaproveitado e inútil. Logo se viu que estes dispositivos eram uma invenção poderosa para estruturar a organização interna e facilitar acessos. O corredor é hoje em dia um elemento fundamental no desenho da casa. “A história do corredor como dispositivo para eliminar o trânsito que atravessa as habitações, ainda está por escrever. A partir das pequenas provas que tem sido capaz de recolher, o corredor fez a sua primeira aparição em Inglaterra na Beaufort House, em Chelsea, projectada por John Thorpe por volta de 1597”.3 Para compreender as suas origens teremos de fazer uma abordagem em paralelo às mudanças que se alçavam na sociedade e nas vivências no interior doméstico. Por exemplo, o aspeto compacto dos Paços Medievais é justificado pela ausência de espaços de comunicação propriamente criados para esse efeito. Assim os compartimentos eram desenhados na continuidade uns dos outros sendo por isso necessário a limitação progressiva à entrada e à permanência de estranhos nos compartimentos mais interiores, assim se salvaguardando a intimidade do senhor e demais moradores da casa.4 1| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo III, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 482. 2| Idem, Tomo V, p. 346. 3| EVANS, Robin, Traducciones, Girona: Pre-Textos, 2005, p. 86. 4| SILVA, José Custódio Vieira da, "O paço", in História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 84.
[118] «A inexistência de corredores até relativamente tarde ou é simplesmente apontada, em qualquer vulgar história de habitação, ou, por ser facto corrente, nem sequer é referida. Na realidade a passagem de sala para sala e de sala para quarto faz-se, (...) quase sempre directamente.»5 Mesmo nas casas mais simples da Idade Média, os espaços eram organizados em sequência cuja passagem era feita de sala para sala. A construção de habitações na vertical, com dois pisos (o da loja e do sobrado) podia satisfizer alguma limitação nos espaços no piso superior, que se desejavam mais resguardados. No último quartel de setecentos já era possível encontrar corredores em algumas habitações portuguesas. Um pequeno número de prédios na Baixa Pombalina faziam já o uso deste dispositivo. Encontramos vários exemplos de casas nos arredores de Lisboa do século XVIII onde os corredores são praticamente inexistentes.6 “As primeiras transformações da habitação – e que a distingue verdadeiramente da precedente – têm a ver com a vontade, a necessidade e a escolha de poder estar só. (...) Em paralelo, a estruturação vertical da residência unifamiliar que tinha sido corrente até ao século XVI, é a pouco e pouco substituída pela organização horizontal.”7 O corredor inicia, segundo Maria Milano, a «domesticação da vida social»8 pois garante a privacidade e a intimidade dentro da casa e controla o movimento dos habitantes. Isto é o reflexo das novas normas de sociabilidade que estavam a ser exercidas no interior das habitações. 5| CALDAS, João Vieira, A casa rural dos arredores de Lisboa no século XVIII. 2ª ed. Porto: Faup Publicações, 1999, p. 70. 6| Ibidem. 7| CABIDO, José Jacob, Refl exões sobre o interior doméstico as mentalidades e os espaços. Lisboa: FAUTL, 1994, p. 303. 8| MILANO, Maria, "A Cultura de habitar em Portugal", in Do Habitar. Matosinhos : ESAD, 2005, p. 24 [Fig. 04.01] James Baker Pyne, Corredor Sul, Castelo de Windsor, 1838.
[119] No século XIX observa-se de forma ainda mais acentuada a capacidade que os corredores têm de «estruturar» a casa está ainda hoje patente nas habitações. As casas da Burguesia Portuense por exemplo, eram desenhadas segundo uma hierarquização de dependências, irrigadas por corredores e escadas. De facto é importante diferenciar os vários termos que aqui estão expostos. Nos exemplos estudados encontramos os termos corredor, galeria, passagem, comunicação, mas existem algumas diferenças assinaláveis. Galerias e corredores pressupunham uma área maior, eram espaços mais largos e com uma maior tratamento espacial. Os termos passagens e comunicação tinham, na maior parte das vezes, uma função de serviço”. “Corredores, ao contrário das passagens, eram mais do que meras rotas de conveniência. (...) os corredores foram considerados uma tão boa ideia e uma forma satisfatória de melhorar a comodidade de um interior que foram regularmente adicionadas a casas de campo já existentes ao longo dos últimos anos”9 Assiste-se gradualmente a uma mudança radical na organização interior dos espaços, que dita uma divisão mais acentuada entre espaços de receção e espaços íntimos. Na Casa J. J. da Silva Graça (Miguel Ventura Terra, 1905-07) encontramos as denominações Corredor (espaço fechado que faz o acesso aos quartos) e Galeria (que se abre para o hall central) e 9| CRUICKSHANK, Dan, "Private Parts", The name of the room: a history of the british house & home. London: BBC, 1992 p. 78. [Fig. 04.02] Casa J. J. Silva Graça, planta do piso 1, Miguel Ventura Terra, 1905-07.
[120] que faz o acesso a uma sala e aos restantes quartos. Esta diferenciação de denominações parece dever-se à forma como são encerrados os espaços de circulação. Neste projeto os sistemas de corredores utilizados gravitam em torno do hall e fazem uma distribuição para os quartos. Esta casa, apesar de ter um programa bastante extenso, faz uso do corredor para hierarquizar os espaços, organizando as várias atividades domésticas. Estes espaços, desenhados para eliminar o trânsito da casa diferenciam igualmente as personagens da casa consoante a sua importância social. Desenvolveram-se sistemas de corredores complexos, que podiam ser utilizados pelos donos da casa ou apenas por empregados. De facto, os corredores podem ser considerados a grande invenção das habitações do século XIX, pois espelham as condições sociais da época. O desejo de ocultar dependências e pessoas, de organizar um grau de limitação a certas zonas é algo característicos desde século e que esteve ausente até então. “Em consequência, no século XIX, os corredores podiam considerarse como a espinha dorsal de uma planta, não só porque os corredores pareciam espinhas mas porque diferenciavam funções unindo-as mediante um distribuidor aparte, de um modo muito similar à forma como a coluna vertebral estrutura o corpo.”10 10| EVANS, Robin, Traducciones, Girona: Pre-Textos, 2005, p. 95. [Fig. 04.03] Casa José Carreira de Souza, planta do rés-do-chão, M. J. Norte Junior, 1912. sala p. 37 quarto p. 82
[121] Na Casa José Carreira de Souza (M. J. Norte Júnior, 1912)) o corredor atravessa a casa, fazendo uma quebra com o vestíbulo que permite separar de forma coerente os espaços de receção (à entrada da casa e com um corredor mais largo) e os espaços íntimos (com um corredor mais estreito e que dá acesso aos quartos que ficam no fundo da casa). “Já relativamente aos espaços exclusivamente dedicados à circulação, foi possível compreender que nos exemplos modernistas apresentados, estes são frequentemente eliminados de todo, ao abrigo da necessidade absoluta de reduzir a área da habitação. A solução encontrada foi a de permitir estes movimentos de circulação através da divisão que precede a de destino, sendo mais frequentes os casos em que isto acontece no espaço da sala de estar. Importa no entanto, não esquecer que isto pode apresentar problemas relativos à privacidade, onde, por exemplo a deslocação do quarto para a cozinha obrigaria a uma passagem inevitável pela sala de estar”.11 Esta afirmação atenta no facto de o corredor não ser um dado adquirido aquando a conceção do projeto. Podem ser utilizados outros recursos para evitar área desperdiçada. Os vestíbulos ou a entrada direta para um compartimento central, como a sala comum por exemplo, são dispositivos benéficos que apoiam o desenho da casa. Hall/ Hall Central/ Vestíbulo/ Átrio “Vestíbulo, s. m. Espaço entre a via pública e a entrada de um edifício; átrio; escadaria interior”.12 Este compartimento da casa funciona como um dispositivo de distribuição, tanto na zona da entrada da casa, como nos espaços internos. Como já foi referido anteriormente, o Hall começou por referir-se ao espaço amplo, a sala nas pallozas europeias. No entanto este termo foi sendo confundido com o vestíbulo e assim permaneceu. “É através do Renascimento, com a introdução de mais peças específicas como o salão, o sallon, o dinning room e o drawing-room, quando o espaço que se denomina hall se foi esvaziando do seu conteúdo funcional e por 11| OLIVEIRA, Rogério André Santos de, «A dimensão sustentável: a redução da área da habitação como critério de sustentabilidade». Dissertação de Mestrado Integrado, Porto: Faup, 2011, p. 69. 12| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo XII, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 500. vestíbulo p. 121 sala p. 37
[122] sua vez, pela própria posição central na planta e pelo desenvolvimento da cobertura em forma de cúpula, se converteu num espaço simbólico e ritual de passagem e de ligação às partes do edifício”.13 Foi com este carácter que permaneceu o hall até inícios do século XX, com uma dupla funcionalidade: de distribuição e de galeria. A sua posição era centralizada e ocupava, grande parte das vezes, uma área considerável. As preocupações inerentes aos espaços de entrada: hall, vestíbulos, átrios sempre se relacionaram com a afirmação social, o desejo de demonstrar as posses. Como afirma Rui Jorge Garcia Ramos “o átrio é, na arquitectura doméstica, um espaço representativo. Diz-me como é o átrio e dir-te-ei que casa tens”.14 Nos séculos XVII e XVIII o termo hall ganhou importância como espaço central da composição arquitectónica, especialmente devido à influência de Palladio. No entanto ele tende a perder importância à medida que vão surgindo novos compartimentos de funções especificas em torno deste espaço. “Depois de 1630, estas mudanças de distribuição interna passarão a manifestar-se mais nas casas construídas para os ricos. Hall de entrada, uma grande escada aberta, corredores e escadas traseiras se fundiam para formar uma rede penetrante de espaço de circulação que chegava a todos os compartimentos principais da casa”.15 13| BONET CORREA, Yago, La arquitectura del humo. Barcelona: Fundación Caja de Arquitectos, 2007, p. 101. 14| RAMOS, Rui Jorge Garcia, Elenco para uma arquitectura doméstica, Opúsculo, Porto: Dafne, 2007, p. 15. 15| EVANS, Robin, Traducciones, Girona: Pre-Textos, 2005, p. 86. [Fig. 04.04] Joseph Nash, Hall Central da Casa Staford, 1850.
[129] Espaços das Tarefas Domésticas Cozinha | Cosinha “Cozinha, s .f. Compartimento da casa destinado à preparação de alimentos pela acção do fogo, onde se faz a comida”.1 A cozinha é um dos termos mais antigos que denominava toda a habitação humana. Na Idade Média começou por designar a divisória única da casa do camponês: domus, casa, cocina, cabana. Este espaço servia de zona de estar pois era onde se fazia o fogo, onde a família convivia e dormia. Era aqui que se desenrolavam todas as atividades domésticas e onde se armazenam todos os bens e no qual podiam conviver, nalgumas situações, pessoas e animais. “Não era muito distinta a organização espacial da moradia térrea bicelular, em que uma casa dianteira, ou cozinha, era acompanhada por uma outra divisão, o celeiro, câmara ou casa de dentro. À reduzida compartimentação correspondia uma muito ténue divisão funcional, já que, neste tipo arquitectónico, tanto a cozinha como o celeiro eram locais de dormida, independentemente da função primária que competia a cada uma das divisões.”2 1| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo III, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 523. 2| CONDE, Sílvio, "A casa", in História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 71. [Fig. 05.01] Cozinha multifuncional de uma casa rural madeirense, cerca de 1821.
[130] Não nos é possível desvendar como eram confecionados os elementos em casas sobradadas, no entanto existem registos que apontam a localização da cozinha para construções contíguas ao edifício principal e uma das mais importantes a ocupar no piso térreo. Quando existia em pisos superiores fixava-se nas traseiras. Esta autonomia deve-se à natureza das atividades que aí se desenrolavam, e ao perigo de incêndio que estava muitas vezes associado. “Muitas vezes apenas as lojas, a estrebaria, o palheiro, a adega e a cozinha seriam compartimentos identificados como tal nos tombos e noutras descrições coevas. Mesmo assim, esta última nem sempre. Muitas vezes nem teria chaminé para evitar a saída de calor, apesar de esta se ter divulgado desde o século XV. (…) No Porto, seria comum a cozinha situar-se nas traseiras do último piso, junto ao telhado. Em muitas povoações rurais localizava-se fora da casa, num logradouro. Muitas vezes seria uma edificação com certo carácter efémero. Mesmo em Lisboa, um relato de cerca de 1578-1580 refere que nalgumas hospedarias se cozinhava na rua, «sobre uns fogareiros de barro», nomeadamente sardinhas e outros peixes. Mas as pessoas comuns também os usavam em diferentes lugares e fora das habitações”.3 No entanto as habitações desta época careciam de especialização. Quando a cozinha não era autonomizada, esta dependia sempre de um outro aposento, geralmente o quarto. Esta estruturação do espaço interno parece reconhecer a cozinha como espaço de convivência. 3| OLIVAL, Fernanda, "Os lugares e espaços do privado nos grupos populares e intermédios", in História da vida privada em Portugal: a idade moderna. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 250. [Fig. 05.02] Wolfgang Heimbach, Uma Cozinha, Nuremberga. quarto p. 82
[131] “A atmosfera social que prevalece na cozinha contemporânea é evocada na descrição de Giedion da Cozinha do século XVII, no qual a cozinha «serve frequentemente como sala de jantar burguesa, por vezes também como quarto e ocasionalmente como aposento social».4 Nas residências Paçãs a cozinha era muitas vezes colocada o mais longe possível dos aposentos principais. Esta situação levou, assim, à instalação da copa junto das antecâmaras, para as refeições terem aí lugar. Este aposento era tratado com todo o cuidado, para albergar as funções de preparação de alimentos de grandes senhores. “Nas cozinhas de gente abastada, sobretudo em ambientes urbanos, as diferenças eram sensíveis. As preparações culinárias realizavam-se em divisão própria, o que não quer dizer que ela não fosse usada também para outros fins como o de armazenagem de víveres, numa sequência lógica de utilização, mas também como lugar de dormida de alguns moradores da casa, como local destinado à higiene corporal da família ou, enfim, como sítio adequado a quaisquer outros objetivos que se afigurassem necessários”.5 Nos séculos XVIII e XIX o carácter de aposento de serviço da cozinha intensificou-se: localizada mais no exterior, por vezes num edifício à parte por razões de segurança e para evitar cheiros. A cozinha era nesta altura tratada como um local desagradável, a evitar e de facto, nas pinturas do século XIX raramente são representadas cozinhas. No entanto estes eram locais que ocupavam uma área considerável da casa, com diversos compartimentos de serviços adjacentes à cozinha onde se podiam preparar desde o azeite e vinho, até ao processo de matança de animais. “Nas grandes casas o número de divisões nas quais são preparadas as refeições é demonstrativo do seu estatuto. As cozinhas não são compartimentos de luxo mas são a multiplicação dos seus anexos e/ou a qualidade dos seus equipamentos que o significam”.6 Na Casa J. J. da Silva Graça (Miguel Ventura Terra, 1907-05) a cozinha é tratada com este tipo de distanciamento. Situa-se no rés-do-chão, junto com outras divisões de serviço. Foi colocada uma copa tanto neste piso como no primeiro andar, onde estão os compartimentos de receção, que 4| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 41. 5| GONÇALVES, Iria, "A alimentação", in História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 241. 6| ELEB-VIDAL, Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne, Architecture de la vie privée: maisons et mentalités: XVIIe - XIXe siècles. Bruxelles: AAM, 1999, p. 273. copa p. 136
[132] faz a transição para a sala de jantar. Todo este piso foi, portanto, reservado às áreas de serviço, consideradas menos agradáveis na casa. Esta separação previne a promiscuidade entre criados e patrões, atividades de lazer e serviço, etc. Num caso diferente, a Casa João H. A Serra (António Couto, 1910) a cozinha situa-se no piso nobre, mas recebe um tratamento diferente dos restantes espaços. Localiza-se nas traseiras da casa, sem copa de transição, mas servindo-se de certa forma do corredor para que exista um isolamento em relação às zonas nobres. A galeria desenha um eixo que define todos os compartimentos associados às refeições: cozinha, sala de almoço e sala de jantar. A cozinha é um importante motor no interior doméstico e, apesar de ser um local propicio à criação de cheiros, fumos e detritos, importa notar a tentativa de segregar esta divisão com outros compartimentos. “Este estatuto de subordinação reflectiu-se igualmente na planta da casa. A cozinha era geralmente designada como um espaço periférico o mais longe possível daqueles espaços onde a família vivia e socializava - os odores da cozinha eram considerados vulgares”.7 É curioso observar a diversas formas de interligar este espaço com a sala de jantar, articulando com a copa ou o elevador de pratos. A Casa 7| CORRODI, Michelle, "On the kitchen of vulgar odors", in The Kitchen: life world, usage, perspectives. ed. Klaus Spechtenhauser. Basel: Birkhauser, 2006, p. 21. [Fig. 05.03] Casa J. J. Silva Graça, planta do rés-do-chão, Miguel Ventura Terra, 1905-07. jantar p. 59 corredor p. 117 almoço p. 65
[133] Torre de S. Patrício (Jorge O'Neill, 1917) representa um modelo eficaz do sistema Cozinha-Copa-Sala de Jantar, tendo também uma despensa de apoio. Este é um sistema muito utilizado nas casas desta época pois permite uma eficaz convivência entre espaços contíguos de diferentes naturezas. A sala de jantar funcionava como limite de encontro onde devia ser servida e consumida a comida. Empregados viviam, trabalhavam e socializavam na cozinha enquanto os patrões estavam do outro lado, sendo raras as vezes que transpunham esta fronteira. “Verifica-se uma vontade comum a todos os casos de segregar o mais possível os espaços de serviço em relação aos de recepção, variando a forma de o conseguir de acordo com as características do edifício. Identificamos situações nas habitações maiores de segregação total e casos pertencentes às moradias mais pequenas em que os espaços praticamente se confundem” 8 No século XIX e início do século XX, nas casas da classe burguesa, a cozinha era tratada como um elemento à parte do núcleo de convivência familiar. Era uma zona de trabalho a ser evitada e a mulher da casa devia manter as mãos limpas. A cozinha, antes da existência de comida processada, podia ser constituída por vários compartimentos onde se armazenavam produtos em grande quantidade, copa, zona de frios, zona 8|MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 222. [Fig. 05.04] Casa João H. Serra, planta rés-do chão, António Couto, 1910. [Fig. 05.05] Torre de S. Patrício de Jorge O'Neill, planta piso 1, Raúl Lino. 1917.
[134] de defumar carnes, entre outros. Entretanto os espaços diminuíram e a cozinha podia ser mais prática. O número de criados qualificados nas habitações, mesmo nas mais abastadas, foi diminuindo. A cozinha ia sendo transformada cada vez mais num espaço para as donas de casa e não para os criados. As cozinhas vão se transformar no centro da casa e o espaço da mulher. Vai também ver reduzido o seu tamanho especialmente no Movimento Moderno, com uma reforma tanto ao nível organizacional como dimensional. “Teige considera que a sua redução extrema , ou mesmo eliminação, foi motivada pelo facto das carruagens de confecção Miltropa comuns na indústria ferroviária no início do século XX, terem a capacidade de permitir, num espaço contido em menos de 4 m², a preparação de inúmeras refeições quentes para inúmeros passageiros”.9 As cozinhas nas quais se podiam realizar várias atividades revelam a intenção de traduzir no espaço habitacional as necessidades básicas. Este modelo de espaço amplo veio obviamente refletir a ideia económica que levou à cozinha compacta. No entanto a cozinha que se tornou um marco na história, e que se tornou um modelo eficaz até aos dias de hoje foi a cozinha de Frankfurt. “A proposta mais forte, que foi mesmo ao extremo na posição e determinação com o qual organizou o fluxo de trabalho e na sua minimização do espaço, ficou na história dos novos edifícios como a Cozinha de Frankfurt. Projetada pela arquiteta vianesa Margarete Schütte-Lihotzky, ela combina com sucesso fogão, pia, armários e espaço de balcão no seu compacto que ultrapassou muitos projetos comparáveis, em termos de acessibilidade e ergonomia”.10 Esta cozinha desenvolveu-se segundo um sistema de módulos e tendo em atenção as tarefas que aí se desenrolam e tendo em conta parâmetros de higiene e limpeza, prioridade acima de tudo e que conduziu à separação da cozinha como um espaço de trabalho autónomo. A cozinha foi sendo cada vez mais um espaço de trabalho simplificado, que pretendia economizar tempo para outras tarefas da mulher da casa. 9| TEIGE, Karel, The Minimum Dwelling, Massachusett s: Massachusett s Institute of Technology, 2002, p. 242 Ap. Oliveira, Rogério André Santos de, «A dimensão sustentável: a redução da área da habitação como critério de sustentabilidade». Dissertação de Mestrado Integrado, Porto: Faup, 2011, p. 74. 10| CORRODI, Michelle, "On the kitchen of vulgar odors", in The Kitchen: life world, usage, perspectives. ed. Klaus Spechtenhauser. Basel: Birkhauser, 2006, p. 31.
[135] A cozinha como zona de estar é um tema de discussão. Adolf Loss defendeu ativamente a presença de lareira na cozinha, pois isso aproximava as pessoas deste espaço, introduzindo conforto e favorecendo a qualidade das refeições. “Loss não só favoreceu as vantagens experimentais que isso trazia à família, como também enfatizou os benefícios que isto traria para a dona-de-casa, que assim iria ser mais firmemente integrada na vida familiar”.11 Temos de considerar a cozinha como zona de jantar pois isso significava economia de área da casa, quando não podia haver mesmo uma zona destinada às refeições da família. O modelo de Kitchentte veio também favorecer a ligação entre espaços, possibilitando à dona de casa a concentração em várias tarefas ao mesmo tempo, quer fosse cozinhando, quer fosse tomando conta dos filhos A partir dos anos 60 a cozinha voltou a ganhar área, mas não só. Os aparelhos eletrodomésticos e utensílios desenvolvidos nesta época foram preenchendo as cozinhas e facilitando as tarefas domésticas. Os modelos 11| CORRODI, Michelle, "On the kitchen of vulgar odors", in The Kitchen: life world, usage, perspectives. ed. Klaus Spechtenhauser. Basel: Birkhauser, 2006, p. 37. [Fig. 05.06] Cozinha de Frankfurt, Margarete Schütte-Lihotzky, 1926.
[136] de cozinhas era variados: para trabalhar, para estar ou para comer. Começaram a ser considerados outros fatores de integração na cozinha: uso de novos materiais, eletrodomésticos e aparelhos mais modernos, um melhoramento das relações espaciais entre a cozinha e outros espaços. A cozinha moderna é marcada pela mecanização e racionalização das atividades que nela têm lugar. É fundamentalmente um lugar de produção, acompanhada pelo papel da dona de casa. A cozinha torna-se o centro da habitação onde acontecem as tarefas necessárias para o funcionamento de tudo. Ela torna-se inclusive num espaço de estar, aliada ou não à sala. Segundo Nuno Portas, a preparação de refeições é a função que maior evolução sofreu dentro da casa, nas últimas décadas.12 Este espaço tornou-se igualmente mais eficaz no armazenamento de produtos. Não só estava munida de despensas como o frigorífico passa a ser um meio de conservar comida já cozinhada, sendo eficaz a qualquer momento. “De uso quotidiano, mas não é necessário gastar aqui muito tempo; as atividades culinárias são sujas e os cheiros não são de todos agradáveis, daí a necessidade de fazer da cozinha um espaço fechado e à parte do resto da casa, mas ao mesmo tempo capaz de manter um olho sobre o que se passa por lá, trabalho da doméstica ou atividades múltiplas da senhora da casa; pode ser para tomar algumas refeições, pequeno-almoço por exemplo, mas não todas as refeições o que implica que a cozinha pode ter múltiplos usos”.13 Cozinha é também um lugar para comunicar, para estar. Hoje em dia a maior parte das famílias não tem poder económico para individualizar exaustivamente as áreas dedicadas ao quotidiano. Isto levou igualmente ao desejo de abrir a cozinha sobre outros compartimentos, especialmente sobre a sala de jantar. Copa “Copa, s. f. Dependência ou armário em que se guardam géneros alimentícios, louças, talheres e roupa de mesa”.14 A copa é a divisão que na casa pretende fazer a transição entre a 12| PORTAS, Nuno, Funções e exigências de áreas de habitação. Lisboa: LNEC, 1969, p. 29. 13| FLAMAND, Jean-Paul, L´abécédaire de la maison. Paris: Éditions de la Villett e, 2004, p. 77. 14| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo III, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 444.
[137] cozinha e os restantes espaços de receção, especialmente com a sala de refeições. Não é possível precisar quando surgiu a copa nos interiores domésticos. Nos paços medievais é possível encontrar já este termo pois a ausência de um local especificamente destinado às refeições levou a que fossem instaladas copas nas antecâmaras. “Por outro lado, o receio dos incêndios obrigava quase sempre à colocação da cozinha em zona isolada e à parte das restantes dependências paçãs”.15 O compartimento da copa, até meados do século XX era um compartimento essencial nas casas. Procurava fazer a ligação da cozinha com a sala de jantar, cortando o contacto feito entre uma e outra. Os ruídos e cheiros da cozinha não podiam interferir no ambiente da sala de jantar. Num exemplo do início do século, o Chalet José Maria de Andrade (Alexandre Saldanha da Gama, 1913) é possível observar a copa e a cozinha ainda não ligadas. De facto, para se aceder da cozinha para a copa é necessário recorrer ao corredor. Parece ter havido uma preocupação em colocar a copa com acesso ao exterior. “Entre a sala e jantar e cozinha convêm sempre que haja uma copa, ou casa parecida, que tenha as portas de comunicação convenientemente colocadas, 15| SILVA, José Custódio Vieira da, "O paço", in História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 96. [Fig. 05.07] Chalet José Maria de Andrade, planta rés-dochão, Alexandre Saldanha da Gama, 1913. cozinha p. 129 jantar p. 59 antecâmara p. 125 corredor p. 117
[138] de maneira que quem estiver à mesa não veja a cozinha nem possa ouvir os desabafos da cozinheira ou sentir os fragores da luta que esta trava com as suas batarias”.16 No entanto a situação que predomina na maior parte das casas é a ligação direta entre cozinha e copa, colocando por vezes uma dispensa intermédia. Este modelo prevaleceu até meados do século. Na Casa Rangel de Lima (Maurício de Vasconcelos, 1950-52) a copa funciona de forma eficaz como filtro entre a cozinha e os restantes espaços. Esta divisão, generosa, incorpora não só uma pequena zona de refeições, arrumação, como pretende fazer charneira entre a sala de jantar, a cozinha, o W.C. e o hall de entrada. A copa é um dos dispositivos mais úteis que fizeram parte do núcleo doméstico, funcionando como um filtro de transição entre a cozinha, o motor dos serviços domésticos, e a sala de jantar e os espaços de representação. A copa foi perdendo posição na casa a partir do momento em que a cozinha foi reforçando a sua posição no interior doméstico, impondo-se não só como espaço de trabalho, mas também de estar. A copa desapareceu para dar lugar a uma maior permeabilidade entre a cozinha e os espaços de receção. 16| LINO, Raul, A nossa casa: apontamentos sobre o bom gosto na construção de casas simples. 2ª ed . Lisboa, 1924, p. 37. [Fig. 05.08] Casa Rangel Lima, planta do résdo-chão, Maurício de Vasconcelos, 1950-52. latrina p. 109 vestíbulo p. 121
[145] Os criados eram altura considerados elementos muito importantes na convivência doméstica. Eles ajudavam os patrões nas suas tarefas mais íntimas, eram confidentes e estavam comprometidos a guardar os segredos mais privados dos donos da casa. A existência de numerosos criados no interior doméstico podia significar uma matriz de habitação organizada, extensa, com sistemas de escadas e corredores pensados na convivência em diferentes eixos, dos patrões e empregados. Observando os casos estudados verificamos que as divisões destinadas aos criados da casa podem ter dois tipos de localização: nos pisos inferiores, junto aos serviços ou nas águas furtadas, aproveitando a proximidade aos quartos dos patrões, que facilitava o serviço se fosse solicitada ajuda a meio da noite. «A facilidade com que se pode acudir em qualquer parte do dia às solicitações da dona de casa determina a conveniência desta localização. As criadas domésticas assumem-se como um elemento fundamental para o funcionamento da habitação; como afirma Monique Eleb, elas “são para os burgueses, neste fim do século XIX, um dos pilares da vida quotidiana”»25 Nesta época era igualmente usual separar os núcleos destinados aos criados e às criadas, procurando evitar a promiscuidade entre o pessoal de serviço. Foi encontrado igualmente o nome francês lingerie, termo este que 25| MOTA, Nelson, A arquitectura do quotidiano: público e privado no espaço doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século XIX, Coimbra: EDARQ, 2010, p. 213. [Fig. 05.15] Criada ajudando a sua patroa com o vestir e a arrumação da roupa. corredor p. 117
[146] também designa o quarto dos empregados. Este tipo de divisão manteve-se no programa da casa até muito recentemente. Foi se deslocando para as zonas de serviço, fixando-se junto da cozinha principalmente. Casa da Caldeira | Chauff age | Aquecimento | Calorífero “Caldeira, s. f. Grande vaso metálico para o aquecimento de líquidos”.26 A partir do século XIX foi possível observar a introdução de termos no programa que se referiam às máquinas presentes no interior doméstico. Existiam eram divisões especialmente projetadas para incluir aparelhos necessários, para conter uma caldeira ou toda a maquinaria necessária para o aquecimento. Charles Moore foi um dos autores que dedicaram à teorização destes tipos de elementos do interior doméstico. É particularmente interessante a sua opinião sobre a Casa Goetsch-Winkler (1939), de Frank Lloyd Wright. «E elas não estão só fixas no espaço; fixam elas o espaço. Todas as máquinas e os seus domínios criam áreas de uso específico que delimitam o espaço fluente do corredor e dos quartos de estar. Inclusive o espaço principal está formado por elas”.27 A casa da caldeira refere-se, como o nome indica, ao compartimento onde se deposita a caldeira, que irriga os compartimentos da casa de água quente. Situa-se normalmente nas zonas de serviço, especialmente nas caves dos edifícios. A chauffage ou aquecimento é o local onde se produz o aquecimento da casa. Este seria feito inicialmente à base de carvão para, mais tarde, ser à base de eletricidade ou água quente. Articula-se muitas vezes com a casa da caldeira, a carvoeira e outras zonas de serviço. «As nossas casas estão cheias de máquinas e dos domínios que estas requerem para um uso cómodo. Albergá-las e ao mesmo tempo manter uma agrupação 26| Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (Versão Online. Disponível em htt p://www.priberam.pt/dlpo/default. aspx?pal=caldeira) 27| Ibidem.
[147] coerente de compartimentos é particularmente difícil”.28 Todos os mecanismos e infraestruturas concorrem para ocuparem menos área, serem mais silenciosos e práticos no uso quotidiano, facilitando as tarefas domésticas. Despensa | Despensaria | Armários|Arrecadação | Arrecadação de Víveres Arrumos | Loja | Loja de Azeite | Depósito de Lenha | Frasqueira Carvoeira | Garrafeira | Adega | Frasqueira | Queijeira | Tulha | Louceira “Despensa, s. f. Casa, compartimento ou armário em que se guardam móveis, provisões culinárias ou géneros alimentícios para uso doméstico; copa”.29 “Arrecadação, s. f. Lugar onde se arrecadam coisas para depósito”.30 “Loja, s. f. Pavimento térreo que serve de armazém, de oficina ou até de habitação. Cocheira, átrio por onde entram as carruagens”.31 “Adega, s. f. Lugar térreo ou subterrâneo, geralmente fresco, onde se guardam e conservam géneros alimentícios e especialmente vinhos e outras bebidas alcoólicas ou fermentadas”.32 “Garrafeira, s. f. Lugar onde se guardam garrafas de vinho, frasqueira”.33 “Frasqueira, s. f. Caixa ou lugar para acomodar frascos. Local onde se guardam vinhos finos. Depósito de vinhos guardados e engarrafados para uso do lavrador”.34 “Carvoeira, s. f. Lugar onde se guarda o carvão nas casas particulares”.35 “Queijeira, s. f. Casa ou dependência onde se fazem queijos”.36 “Tulha, s. f. Lugar onde se deposita a azeitona antes de ser levada ao moinho. Casa ou compartimento onde se depositam os cereais em grão e vários outros produtos”.37 “Louceira, s. f. Armário onde se guarda louça; louceiro, guarda-louça”.38 Existe uma enorme variedade de espaços destinados ao armazenamento, dentro do interior doméstico. A despensa é um local reservado ao armazenamento de variados objetos no espaço doméstico. Ele é, de facto, uma das divisões do interior doméstico que se aproxima mais ao uso quotidiano. Segundo T. Lino de Assumpção, a despensa, denominada por este de Apotheca, servia para 28| MOORE, Charles, La casa: forma e diseño. 5ª ed . Barcelona: GG, 1999, p. 168. 29| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo IV, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 188. 30| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo I, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 636. 31| Idem, Tomo VI, p. 511. 32| Idem, Tomo I, p. 185. 33| Idem, Tomo V, p. 378. 34| Idem, Tomo V, p. 281. 35| Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (Versão Online. Disponível em htt p://www.priberam.pt/dlpo/default. aspx?pal=carvoeira). 36| Idem, (Versão Online. Disponível em htt p://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=queijeira). 37| MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo XII, Lisboa: Amigos do Livro, 1981, p. 291. 38| Idem, Tomo VI, p. 523.
[148] o depósito de géneros, e especialmente vinho, nas partes superiores de uma casa, quase sempre junto do fumarium.39 Normalmente fixa-se junto da cozinha, para o armazenamento de alimentos e bebidas. São raros os exemplos estudados que não incorporam este tipo de divisão. Eles revelamse de facto úteis, enquanto se mostram igualmente um desafio no projeto: como ocultar estes espaços dos olhares e das zonas de receção. Este termo, também denominado de copa, era muitas vezes integrado na tangência entre esta e a cozinha. Na Casa Artur Prat (Miguel Ventura Terra, 1913) vemos a ausência de copa no programa, porém a despensa situa-se numa posição intermédia entre a cozinha e o corredor de acesso aos espaços de receção, que parece ser indicador do seu uso enquanto espaço articulador. Já na Casa Torre de S. Patrício (Raúl Lino, 1917) a solução encontrada foi a de colocar a despensa entre a cozinha e a copa, servindo de apoio a ambas as divisões e funcionando também como filtro da cozinha para os restantes espaços. Existem outros modelos de localização da despensa: na cave junto com outros compartimentos de serviço, nos quartos, etc. Porém esta divisão nunca deixou de ter presensa no projeto como uma forma bastante prática de armazenar e conter objetos, ocultando-os no interior doméstico. Os espaços que se referem ao depósito de outros materiais, produtos alimentares e utensílios domésticos desvendam um universo muito variado 39| ASSUMPÇÃO, T. Lino d’ , Diccionário dos termos d’architectura: suas defi niçöes e noçöes históricas: com um indice remissivo dos termos correspondentes, em francez. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, 1895, p. 14. [Fig. 05.16] Casa Artur Prat, planta do rés-do-chão, Miguel Ventura Terra, 1913. [Fig. 05.17] Torre de S. Patrício de Jorge O'Neill, planta piso 1, Raúl Lino. 1917.
[149] de termos e definições. No panorama doméstico, estes termos referem-se quase sempre aos núcleos mais afastados das zonas nobres, muitas vezes dispostos em anexos ou nas zonas subterrâneas das habitações. Parece constituir um modelo prático agrupar estes compartimentos, na maior parte das vezes, todos juntos, com ligações francas a escadarias de serviço. Só algumas destas divisões são colocadas nas zonas mais nobres das habitações: arrumos junto dos quartos que servem de apoio ao depósito de roupa e acessórios; despensas localizadas predominantemente junto das cozinhas e copas. De facto, as zonas de armazenamento solicitam os lugares mais frescos da casa. “Com efeito, se a área de armazenamento de produtos buscava no andar inferior o fresco indispensável para a preservação dos produtos alimentares, a opção de localização das cozinhas visava o arejamento que evitasse a propagação de odores, calor e ruídos. No piso térreo as residências mais ilustres incorporavam quase sempre uma capela, para a qual se procuravam licenças e enobrecimentos através da compra de retábulos e de diversas alfaias religiosas. Em espaço urbano, algumas parcelas do rés-do-chão tinham, frequentemente, espaços alugados para lojas”.40 Todos estes termos referem-se a compartimentos para o armazenamento dos mais variados produtos: carvão, lenha e produtos alimentares. Sempre houve a necessidade de incorporar estes elementos nas habitações particulares. Mesmo na Idade Média, as casas dos camponeses incorporavam nos anexos da casa celeiros, adegas, arrumos, lagares, que serviam tanto como divisões de trabalho, como de armazenamento. Nos casos de estudo encontrados a sua localização podia depender da casa em questão e da zona onde estava inserida. Eram localizados essencialmente junto dos serviços gerais. Com o decorrer do século XX os espaços de armazenamento diminuem (assim como diminui a área da casa) e o seu acesso não é tão restrito. Tal como a cozinha passou a integrar cada vez mais na esfera íntima e quotidiana da casa também os espaços de arrumação começaram a aparecer mais relacionados com as zonas nobres. O seu carácter funcional está na forma como se escondem as arrumações e como se guardam os objetos. Com o aperfeiçoamento dos armários é possível esconder dos olhares de forma competente, os objetos que apesar de tudo têm de estar perto. 40| GONÇALVES, Iria, "O nome", in História da vida privada em Portugal: a idade média. Maia: Circulo de leitores, 2010, p. 225. cozinha p. 128 copa p. 128
[150] Garagem | Depósito de Carruagens “A palavra [garagem] tem a sua origem no vocabulário marítimo do século XVI: «estacionar41 um navio».”42 Ao longo dos séculos a zona onde se guardava o meio de transporte foi mudando. Começou por ser uma zona bastante afastada da casa, em anexos e zonas de serviço adjacentes, sem acesso direto às zonas principais. Porém, com a chegada do automóvel e o sucessivo desenvolvimento da casa, a garagem tornou-se uma zona mais privilegiada. Era importante haver um acesso direto deste compartimento até ao interior da casa (vestíbulo de entrada ou zona de serviços). Nalguns exemplos encontrados, a garagem era organizada em conjunto com outros compartimentos como quarto do motorista, depósito de gasolina, entre outros. Um exemplo do início do século, a Casa J. J. da Silva Graça (Miguel Ventura Terra, 1905-07) ainda apresenta a denominação «depósito de carruagens». No entanto o princípio é semelhante às garagens que se foram desenvolvendo. Com uma entrada generosa, ele consegue incorporar o armazenamento dos meios de transporte no interior doméstico, neste caso, na cave. Estes espaços sempre consumiram uma área considerável na casa. Com o aparecimento e crescente utilização do automóvel tornou-se imprescindível a reserva de um compartimento na casa destinado ao seu estacionamento. O carro e o seu tamanho obrigaram a garagem a ter uma área considerável. Mesmo a sua entrada (portão) representa uma abertura significativa na fachada de um edifício. Pode ser integrada na casa ou num volume à parte. Por vezes procura-se a sua ocultação numa zona subterrânea. No exemplos estudados sente-se alguma contenção na incorporação da garagem. Começou por se situar nas traseiras da casa, geralmente sendo um abrigo para o veículo e retirando espaço ao quintal ou jardim. De seguida começou a ser incluído no volume da casa situando-se na frente desta casa, não ocupando espaços exteriores, nem recorrendo à construção de abrigos feitos depois da construção principal. Na Casa da R. Santos Pousada (Fernando Ferreira, 1943) a garagem fica numa posição relevante da casa, articulando-se com a entrada principal da casa. Existe um investimento no tratamento deste acesso, que revela já nesta altura as preocupações existentes em qualificar a integração da garagem no projeto doméstico. 41| Termo francês «garer». 42| FLAMAND, Jean-Paul , L´abécédaire de la maison. Paris: Éditions de la Villett e, 2004, p. 119.
[151] Este espaço expandiu-se, representando uma das áreas fundamentais no interior doméstico das casas de hoje: funciona não só para a guarda dos veículos como de porta de entrada. Esta tornou-se a rota mais direta de chegar ao interior das habitações. Isto remete-nos também para o carácter de chegada e partida: a garagem pode ser um ponto de encontro e de despedida. Pode também albergar eletrodomésticos e servir de arrumação. “Pense que outra coisa pode fazer mais um coberto, que outras máquinas poderiam compartilhar esse domínio e como poderiam utilizar este espaço, quando está vazio, por exemplo, como lugar para jogos das crianças. Recorde-se também que as estruturas que albergam os carros também contribuem para configurar o lugar e afetam a relação entre o universo público da estrada e o universo privado da casa”.43 A garagem já faz parte integrante do programa doméstico. Tornou-se também espaço de arrumação, de oficina, de atelier e por vezes de recreio. É sem dúvida dos espaços mais multifuncionais na habitação. 43| MOORE, Charles, La casa: forma e diseño. 5ª ed . Barcelona: GG, 1999, p. 175. [Fig. 05.18] Casa J. J. Silva Graça, planta do rés-do-chão, Miguel Ventura Terra, 1905-07.
[152] “É exactamente esta desordem e solidão, este mexer e brincar que mais identifica a garagem-oficina como um lugar de invenção, uma espécie de estúdio alternativo, um laboratório do que é vulgar.”44 A garagem é o local onde se processam as tarefas criativas, ou apenas as tarefas necessárias de bricolage. É o local que nunca precisa que estar verdadeiramente arrumado. Protege o carro das condições atmosféricas, de roubo e de outros perigos. Entrar em casa e vermo-nos imediatamente abrigados significa segurança. 44| BUSCH, Akiko, Geography of home: writings on where we live. New York: PAP, 1999, p. 148. [Fig. 05.19] Casa na R. Santos Pousada, planta da cave, Fernando Ferreira, 1943.
CONCLUSÃO 04.
“(...) as paredes separam os temas, a organização dos quartos cria hierarquias, e as soleiras permitem passagens” Gulsum Bayclar em Negotiating domesticity : spacial productions of gender in modern architecture. 1st ed . London : Routledge, 2005, p. 38. “O escritor alicantino Vicente Verdú situou a casa «entre a realidade e o desejo, entre o corpo e o sonho, entre o possível e o desejado». O mínimo ou o máximo, refúgio ou mostruário, a casa tem essa estranha e extensa capacidade maternal de poder acolher sonhos e satisfazer necessidades... A casa, como as pessoas, como todos os organismos vivos, tem um corpo interior e outro exterior que convivem em uníssono”. Anatxu Zabalbeascoa, em La casa del arquitecto, 4ª ed. - Barcelona : Gustavo Gili, 2000, p. 6.