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Inclusão Social e Música: o Projeto Centro Cultural de Amarante - Orquestra Geração

Catarina Sofia Almeida Ramos

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Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração ii Resumo A investigação aqui apresentada, intitulada Inclusão Social e Música: o Projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração, insere-se no Mestrado em Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e foi realizada entre julho de 2011 e setembro de 2012. A Orquestra Geração foi implementada na cidade de Amarante em 2010, com o objetivo de promover a inclusão social dos alunos e melhorar o seu desempenho escolar. Assim, o trabalho apresentado encontra-se centrado na questão da música como um elemento de inclusão social a partir da inserção de alunos em risco de abandono escolar numa Orquestra com características especiais. Neste sentido, pretendeu-se compreender quais os alunos que frequentam a Orquestra Geração e qual o seu contexto escolar e familiar. Entender o modo de integração desses alunos no projeto, conhecer o impacto na sua vida, a nível social e escolar e compreender como a música contribui para a inclusão social. Perceber, também, as representações sociais dos encarregados de educação em relação à participação dos seus educandos na Orquestra. Com o intuito de alcançar os objetivos propostos optou-se por uma estratégia qualitativa. Foram realizadas análises de conteúdo a documentos referentes à Orquestra Geração, observações exploratórias e diretas, entrevistas semidiretivas aos professores, ao diretor do Centro Cultural de Amarante, à coordenadora pedagógica do projeto, ao Presidente da Câmara Municipal de Amarante, à psicóloga e ao diretor do Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso. Esta investigação permitiu observar o trabalho desenvolvido pela Orquestra na aprendizagem musical, no esbatimento do abandono escolar e, posterior, inclusão social dos alunos pertencentes a este projeto. Palavras-Chave: Orquestra Geração, inclusão social, música, abandono escolar, insucesso escolar e educação não formal Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração iii Abstract The research presented herein, entitled Inclusão Social e Música: o Projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração, is part of the Master in Sociology, Faculty of Arts, University of Porto and was conducted between July 2011 and September 2012. The Generation Orchestra was implemented in the city of Amarante in 2010, aiming to promote the social inclusion of students and improve their academic performance. Thus, the work presented here is centered on the question of music as an element of social inclusion from the inclusion of students at risk of leaving school in Orchestra with special features. In this sense, we sought to understand why students who attend Generation Orchestra and what your family and school context. Understand how to integrate these students in the project, knowing the impact on your life, both social and school and understand how music contributes to social inclusion. Realize too the social representations from parents regarding the participation of their children in Orchestra. In order to achieve the proposed objectives we chose a qualitative strategy. Analyses of the documents relating to the content Generation Orchestra, exploratory and direct observations, interviews teachers, the director of the Cultural Center of Amarante, the educational coordinator of the project, the Mayor of Amarante, the psychologist and the director of Group of Schools Amadeo de Souza-Cardoso. This research allowed observing the work of the Orchestra in music learning, blurring the dropout and the subsequent inclusion of students belonging to this project. Keywords: Generation Orchestra, social inclusion, music, school dropout, school failure and non-formal education Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração iv Résumé La présente recherche, intitulé Inclusão Social e Música: o Projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração, fait partie du Master en sociologie, Faculté des arts, Université de Porto et a été réalisée entre Juillet 2011 et Septembre 2012. L'Orchestre génération a été mis en place dans la ville d'Amarante en 2010, visant à promouvoir l'inclusion sociale des élèves et d'améliorer leur rendement scolaire. Ainsi, le travail présenté ici est centrée sur la question de la musique comme un élément de l'inclusion sociale de l'intégration des élèves à risque d'abandon scolaire dans l'Orchestre des fonctions spéciales. En ce sens, nous avons cherché à comprendre pourquoi les élèves qui fréquentent Orchestre génération et ce que votre contexte familial et scolaire. Comprendre comment intégrer ces élèves dans le projet, sachant l'impact sur votre vie, à la fois sociale et scolaire et de comprendre comment la musique contribue à l'inclusion sociale. Réalisez aussi, les représentations sociales des parents concernant la participation de leurs enfants à l'Orchestre. Afin d'atteindre les objectifs proposés, nous avons choisi une stratégie qualitative. L'analyse des documents relatifs à l'Orchestre de génération de contenu, les observations exploratoires et direct, des interviews des enseignants semidiretivas, le directeur du Centre Culturel d'Amarante, le coordinateur pédagogique du projet, le maire de Amarante, le psychologue et le directeur de Groupe des Ecoles Amadeo de Souza-Cardoso. Cette recherche a permis d'observer le travail de l'Orchestre en apprentissage de la musique, ce qui brouille l'abandon et de l'inclusion ultérieure d'étudiants appartenant à ce projet. Concepts-clés: Generation Orchestra, l'inclusion sociale, la musique, le décrochage scolaire, l'échec scolaire et l'éducation non formelle Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração v Agradecimentos O caminho que percorri até aqui foi pautado pela presença de pessoas que o tornaram possível, por isso, gostaria de demonstrar a minha gratidão e reconhecimento pela sua ajuda. Começo por agradecer à minha orientadora, a Professora Doutora Natália Azevedo, pelo esforço, empenho e ensinamentos que me transmitiu durante este último ano, mas também por me ter acompanhado nos anos de licenciatura e de mestrado, que foram pilares essenciais para este trabalho. Não posso, ainda, deixar de agradecer aos professores do Departamento de Sociologia, que durante cinco anos transmitiram conhecimentos valiosos. Quero, também, agradecer ao Centro Cultural de Amarante, em especial ao diretor o Dr. António Laranjeira Lima, ao Presidente da Câmara Municipal de Amarante, o Dr. Armindo Abreu, aos professores da Orquestra Geração de Amarante e ao diretor e psicóloga do Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso pela disponibilidade apresenta. Gostaria de agradecer à minha mãe e à minha irmã que me acompanharam neste percurso e que estiveram sempre ao meu lado, pois sem o seu esforço não teria sido capaz de chegar ao fim. Por fim, deixo um agradecimento ao Manuel pela paciência, persistência e apoio que demonstrou. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração vi Índice Índice Figuras Ix Índice Quadros X Introdução 1 Capítulo I - A música como estratégia de inclusão social 1.1.Educação formal: um processo social. O sistema educativo nas sociedades contemporâneas ocidentais e as desigualdades na escola 4 1.2.O ensino não formal: a música como forma de inclusão social 9 1.3.O mecenato cultural de empresa no Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração 20 Capítulo IIDesenho da estratégia de investigação. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração enquanto problema sociológico, modelo de análise e enquadramento metodológico 2.1. Problema científico e modelo de análise 24 2.2. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração. Da caracterização do concelho de Amarante à Orquestra Geração de Amarante 28 2.3. Métodos de investigação: análise qualitativa. A análise de conteúdo, a observação direta e a entrevista semidiretiva como forma de aproximação ao Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração 40 2.4. Considerações de percurso: os obstáculos da investigação. Uma reflexão. 43 Capítulo IIIMúsica para a inclusão social. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração 3.1. Caracterização sociodemográfica dos entrevistados 45 3.2. Caracterização do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração. Objetivos, pedagogia, organização e dificuldades 47 3.3. Os alunos da Orquestra Geração de Amarante: perfil, modo de inserção e resultados 53 3.4. Os encarregados de educação: participação e representações 58 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração vii 3.5. Os professores da Orquestra Geração: formação e integração 59 3.6. Comunicação e divulgação das atividades do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração 60 3.7. Recetividade da Orquestra Geração de Amarante 60 3.8. Relação do entrevistado com o projeto: opinião, experiência pessoal, balanço e momentos mais marcantes 61 Considerações finais 64 Referências Bibliográficas Monografias 72 Artigos 73 Dissertações de mestrado e doutoramento 75 Dados estatísticos 76 Sites oficiais consultados 76 Anexos Anexo iAnálise de conteúdo do artigo “A Orquestra Geração na Escola Básica 2,3 Miguel Torga na Amadora” de Maria Isabel Elvas 77 Anexo iiAnálise de conteúdo do “Relatório e contas 2011”, da Fundação EDP 78 Anexo iiiAnálise de conteúdo do artigo “Projeto Orquestra Geração” de António Laranjeira Lima 79 Anexo iv – Observações exploratórias (reuniões com o diretor do Centro Cultural de Amarante e a coordenadora pedagógica da Orquestra Geração) (obs. nº1 e nº2) 82 Anexo vGrelha de Observação Direta - Sala de aula 84 Anexo viGrelha de Observação Direta - Concerto 86 Anexo viiGuião de entrevista dos professores 88 Anexo viiiGuião de entrevista da coordenadora pedagógica 89 Anexo ixGuião de entrevista do diretor Centro Cultural de Amarante 91 Anexo xGuião de entrevista do diretor Agrupamento Escolas Amadeo de Souza-Cardoso Amadeo de Souza-Cardoso 93 Anexo xiGuião de entrevista da psicóloga 94 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração viii Anexo xiiGuião de entrevista do Presidente Câmara de Amarante 95 Anexo xiiiGuião de entrevista dos Encarregados de Educação 96 Anexo xivAnálise de conteúdo vertical Observação Direta - Sala de aula (obs. nº3) 97 Anexo xv – Análise de conteúdo vertical Observação Direta Concerto no Agrupamento de Escolas Amadeo-Souza Cardoso (obs. nº4) 99 Anexo xviAnálise de conteúdo vertical Observação Direta Concerto final de estágio Orquestra de Sopros (obs. nº5) 102 Anexo xvii - Análise de conteúdo horizontal observações concertos (obs. n º4 e nº5) 104 Anexo xviiiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº1 106 Anexo xix – Análise de conteúdo vertical da entrevista nº 2 109 Anexo xxAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº3 114 Anexo xxi – Análise de conteúdo vertical da entrevista nº 4 118 Anexo xxiiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº5 121 Anexo xxiii -Análise de conteúdo vertical da entrevista nº6 123 Anexo xxiv - Análise de conteúdo vertical da entrevista nº7 125 Anexo xxvAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº8 128 Anexo xxviAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº9 135 Anexo xxviiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº10 142 Anexo xxviiiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº11 146 Anexo xxixAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº12 149 Análise xxxAnálise de conteúdo horizontal das entrevistas dos professores 151 Anexo xxxi – Análise de conteúdo horizontal das entrevistas 160 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração ix Índice de Figuras Figura 2.1: Modelo de análise 28 Figura 2.2: Composição territorial do Concelho de Amarante 29 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração x Índice de Quadros Quadro 1.1: Relação da Música com as outras áreas do Currículo 19 Quadro 1.2: Tríade Educacional 20 Quadro 2.1: Distribuição da População por local de Residência, no município de Amarante (Nº), à data dos censos de 2001 e 2011 31 Quadro 2.2: Distribuição de População Residente no Município de Amarante, em percentagem, segundo o sexo e o grupo etário, à data dos censos de 2011 33 Quadro 2.3: Indicadores de Educação em Portugal, na Região Norte, na Região do Tâmega e em Amarante, 2009/2010 35 Quadro 2.4: Distribuição dos instrumentos por ano 38 Quadro 2.5: Distribuição horária das aulas da Orquestra Geração 39 Quadro 3.1: Distribuição por sexo dos entrevistados, em percentagem 45 Quadro 3.2: Distribuição por grupo etário dos entrevistados, em percentagem 46 Quadro 3.3: Local de residência dos entrevistados, em percentagem 46 Quadro 3.4: Grau de escolaridade dos entrevistados, em percentagem 46 Quadro 3.5: Profissão principal dos entrevistados, em percentagem 47 Quadro 3.6: Implementação da Orquestra Geração de Amarante 48 Quadro 3.7: Implementação e características da Orquestra Geração de Amarante 48 Quadro 3.8: Pedagogia da Orquestra Geração de Amarante 50 Quadro 3.9: Ambiente em sala de aula 50 Quadro 3.10: Organização das aulas e atividades da Orquestra Geração de Amarante 51 Quadro 3.11: Papel do Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso na Orquestra Geração de Amarante 52 Quadro 3.12: Papel da Câmara Municipal de Amarante no projeto Orquestra Geração de Amarante 52 Quadro 3.13: Dificuldades da Orquestra Geração de Amarante 53 Quadro 3.14: Alunos inseridos no projeto Orquestra Geração de Amarante 53 Quadro 3.15: Modo de integração e perfil-tipo dos alunos da Orquestra Geração de Amarante 54 Quadro 3.16: Apoio dado aos alunos do Projeto Orquestra Geração de Amarante 55 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 6 começa desde logo na vida dos sujeitos. O que significa que a socialização primária “decorre durante a infância e constitui o período mais intenso de aprendizagem cultural. É a altura em que a criança aprende a falar e aprende os mais básicos padrões comportamentais que são os alicerces de aprendizagens posteriores” (Giddens, 2007, p.28). E é à família “que compete dirigir o seu desenvolvimento, intelectual e moral” (Durkheim, 2001, p.19). Compreende-se, então, que a educação começa em casa desde o nascimento e desempenha “um papel fundamental, proporcionando experiências, referências, competências, linguagens, valores estruturantes do processo de escolaridade dos jovens” (Abrantes, 2003, p. 101). Embora a família tenha um papel central na educação a partir do século XVIII esta passa, progressivamente, de “«um bem privado» do qual os indivíduos e as famílias podem fazer o uso que querem, para um «bem público» condicionada pela noção de «bem comum»” (Candeias, 2009, p.9). O Estado começa, assim, a ter um papel muito importante nesta área, pois a educação passa a ser uma função social e o “Estado não pode desinteressar-se dela” (Durkheim, 2001, p.20). O sistema educativo conheceu o seu grande desenvolvimento a partir do processo de industrialização e de expansão das cidades, na segunda metade do século XVIII quando a burguesia se tornou mais forte. A escola da nobreza acabou por ser substituída, pois deixou de ser dada tanta importância ao saber literário e à filosofia e passou a centrar-se a educação nas disciplinas científicas, o que fez aumentar a procura pela instrução especializada, “por forma a produzir uma força de trabalho educada e capaz” (Giddens, 2007, p.495). Surgiram, assim, dois tipos de escola: a da burguesia, a partir da qual se podia ir para a universidade e a dos trabalhadores, onde o grau máximo era o ensino básico. Por outro lado, o desenvolvimento de diferentes ocupações e o facto de os sujeitos se encontrarem mais tempo fora do lar não possibilitava que os conhecimentos fossem apenas transmitidos diretamente de pais para filhos. Neste sentido, com a criação dos Estados Nação e a construção da democracia moderna as famílias dividem com o Estado a responsabilidade e o trabalho de formação das gerações mais novas. Deste modo, segundo defende Giddens, nas sociedades modernas as pessoas passam a ter aptidões básicas como ler, escrever e calcular, mas também um conhecimento geral relacionado com o meio físico, social e económico, ao mesmo tempo que se torna essencial saberem aprender para puderem dominar formas de informação novas (ibidem, p.496). Após a II Guerra Mundial houve um aumento da procura da escola, o que originou a necessidade de acolher alunos vindos de todos os grupos sociais e garantir a igualdade de acesso à escola e a todos os benefícios que dela provêm: a instrução, a socialização, a Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 7 educação, as qualificações e os títulos escolares. Posteriormente, à igualdade juntaram-se outros objetivos: a discriminação positiva para dar oportunidades a alunos que não reuniam as mesmas condições de sucesso escolar; a diferenciação pedagógica que diferencia o atendimento escolar para facilitar um sucesso escolar generalizado; a diversificação escolar que permite criar vários géneros de escolas para diferentes públicos, proporcionando a criação de diversos diplomas (Azevedo; Silva; Fonseca, 2000, p.3). Desta forma, o sistema educativo é um dos “processos fundamentais de socialização da Modernidade” (Candeias, 2009, p.8). É um processo que se expandiu e sistematizou como um sistema de socialização obrigatório que tem na escrita o seu grande utensílio. Para Bourdieu “a instituição escolar contribui (…) para reproduzir a distribuição do capital cultural e, assim, a estrutura do espaço social” (Bourdieu, 1996, p.35). Em Portugal a democratização social através da educação escolar iniciou-se tardiamente, apenas nos finais dos anos 60 do século XX. Tal como em muitos outros países começou a crescer a necessidade de mão-de-obra qualificada, o que “fez com que predominasse na política educativa a perspectiva funcional da educação – educação como preparação para o mundo do trabalho” (Abreu, 2007, p.34). Pode-se, então, perceber que no século XX assistiu-se a uma transformação da escola, esta passa a estar aberta a todos e “Actualmente, todos os sistemas de ensino têm por objectivo dar uma educação de base a todos os cidadãos” (Crahay, 2002, p.9). Nas sociedades contemporâneas “A escola detém (…) um papel incontornável na vida das crianças e dos Jovens” (Quaresma, 2011, p. 11). Assiste-se a uma massificação escolar que tem como base a sua obrigatoriedade e gratuitidade, logo “frequentar a escola torna-se uma característica indissociável da condição de criança e de jovem” (ibidem). A escola tem como grande objetivo a socialização e não perde importância ao longo do tempo, mesmo nos chamados tempos de crise ela continua como parte integrante da vida quotidiana dos alunos, pois mesmo “Face ao agravamento dos problemas globais (…) é na escola (…) que o imaginário social concentra todas as esperanças de resolução” (ibidem, p.15). No entanto, mesmo a escola estando tão presente na vida dos alunos “tende a permanecer um mundo distante da vida, sobretudo da vida das classes populares, cujas disposições culturais não estão em osmose com a cultura escolar, como acontece com os jovens oriundos das classes sociais mais capitalizadas para quem a socialização escolar constitui (…) um prolongamento da sua cultura familiar e das disposições adquiridas na socialização primária” (Quaresma, 2011, p.17). Assim, através daquilo a que podemos chamar de socialização escolar é conferida aos alunos a importância dos saberes teóricos, do Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 8 discurso e verbalização e é apreendido um saber-estar e saber ser, em conformidade com o que é tido, pela sociedade, como normalizado num contexto escolar. Perante estas características pode-se depreender, segundo Pierre Bourdieu, que o sistema escolar mantém “a ordem preexistente, isto é, a separação entre os alunos dotados de quantidades desiguais de capital cultural (…) ele separa os detentores de capital cultural herdado daqueles que não o possuem” (Bourdieu, 1996, p. 37). As escolas reforçam as variações nos valores culturais e nas perspetivas adquiridas num período anterior da vida. Esta questão transporta-nos para a noção de Capital Cultural (Bourdieu, 1998) que corresponde a um conjunto de recursos relacionados com a posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas, nas quais os agentes olham-se como pares ou como fazendo parte de certo(s) grupo(s) e estes agentes têm propriedades comuns e estão unidos pelas ligações permanentes e úteis. Sendo que o Capital Cultural existe sob três formas (ibidem): no estado incorporado através de disposições duráveis do organismo, a incorporação encontra-se ligada ao corpo e é marcada no tempo, exige assimilação; no estado objetivado onde assume a forma de bens culturais que são possíveis de ser transmitidos de forma relativamente instantânea em relação à propriedade jurídica; e no estado institucionalizado com a junção nos títulos e certificados escolares que guardam uma limitada independência em relação ao portador do título, cria o capital cultural pela vertente coletiva. O sistema escolar vai transformar as diferenças iniciais que resultam da transmissão familiar da herança cultural em desigualdades (ibidem). Os alunos provenientes de famílias com menor capital cultural apresentam uma relação com as obras de cultura veiculadas pela escola tensa e os alunos que provêm de famílias munidas culturalmente têm uma relação oposta, marcadamente mais facilitada. Logo, a reprodução do capital social é tributária das instituições que têm como objetivo favorecer “as trocas legítimas e a excluir as trocas ilegítimas, produzindo ocasiões (…), lugares (…) ou práticas (…) que reúnem, de maneira aparentemente fortuita, indivíduos tão homogêneos quanto possível, sob todos os aspectos pertinentes do ponto de vista de existência e da pertinência do grupo” (Bourdieu, 1998, p.10). Na atualidade, as clivagens escolares dizem respeito a uma segregação interna ao sistema educacional que separa os alunos através do caminho escolar, do tipo de estudos, do estabelecimento de ensino, da sala de aula e das opções curriculares. É, por isso, um processo complexo. Assim, a escola continua a ser “um dos factores mais eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade às desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom natural” (Bourdieu, 1998, p.41). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 9 Para Basil Bernstein (Bernstein, 1975) as crianças de origens sociais diferentes vão desenvolver códigos ou formas de discurso diferentes, que mais tarde irão interferir nas suas experiências escolares. Neste sentido, nas crianças da classe trabalhadora encontra-se um código restrito que corresponde a um discurso relacionado com um contexto cultural específico, onde há uma tendência para uma cultura intensamente familiar ou local com os valores e normas tidos como evidentes e, por isso, não são expostos em linguagem. O que torna a linguagem do código restrito mais própria para a comunicação de experiências práticas do que para ideias abstratas, processos ou relações. Mas, também, existe um código elaborado que se encontra, mais predominantemente, nas crianças de classes superiores. É uma linguagem onde o significado das palavras pode ser individualizado para existir uma adaptação a situações particulares. Logo, o código dominante ou código elaborado é aquele que é utilizado pelas classes superiores, permitindo às crianças deste meio uma maior capacidade de compreensão da educação escolar formal em comparação com as crianças que assumem uma linguagem restrita. Perante estas questões percebe-se que existem falhas que é preciso colmatar, não se defende que a escola deva ser extinta, nem que a educação que nela ocorre não é importante para os seus alunos. Aliás, atualmente, “a escola está cada vez mais presente nos quotidianos juvenis” (Abrantes, 2003, p.93). Assim, torna-se necessário encontrar possíveis soluções para as desigualdades criadas na escola e consequente exclusão. Mediante isto, propõe-se explorar a educação não formal para se perceber se esta pode servir, em conjunto com a educação formal, de base para combater a exclusão e as desigualdades que podem ser criadas ao longo do percurso escolar dos alunos. 1.2.O ensino não formal: a música como forma de inclusão social A escola é percecionada pelos alunos de forma distinta, para alguns é um suporte para a construção da identidade e da vida em sociedade e para outros a escola é uma imposição, o que torna o abandono escolar uma escolha para estes alunos. Mas “a relação dos jovens com a escola é sempre enformada por dinâmicas estruturais mais vastas (económicas, culturais, políticas) ” (Abrantes, 2003, p.97). É através da educação primária que vão sendo desenhadas as primeiras noções sobre a escola e a sua função, o que implica que haja uma diferença entre os alunos. Para uns a escola é descrita como o caminho fundamental para a construção profissional e como um local de construção identitária, mas para outros a escola é desenhada como um local de obrigatoriedade e de pequena passagem para o mercado de trabalho. No entanto, estes são Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 10 apenas dois cenários possíveis, mesmo aqui existe heterogeneidade. Apesar de a educação primária estar ligada ao contexto socioeconómico das crianças, como tal em classes mais elevadas os alunos tendem a dar mais valor à escola e em classes mais baixas a dar menos, isto não é uma regra que possa ser generalizada, pois “observam-se diversos casos de jovens provenientes de famílias com parcos recursos económicos e culturais que não só vão permanecendo na escola (…) como se revelam perfeitamente integrados no espaço escolar e obtêm classificações (...) Por outro lado, alguns jovens das classes qualificadas, desencantados com a escola, preferem investir em actividades do espaço escolar, obtendo resultados suficientes ou medíocres” (Abrantes, 2003, p.101-102). Daqui advém a questão do insucesso escolar: O que é? Porque é que ocorre? São várias as perspetivas sobre estas interrogações. A teoria dos dotes, que vigorou entre o final da Segunda Guerra Mundial até finais dos anos 60 do século XX, baseava-se “em «explicações psicológicas individuais» o que fazia depender das capacidades e da inteligência dos alunos, «dos seus ´dotes` naturais» (Benavente cit. por Tavares, 1999, p.178). A teoria do handicap sociocultural foi utilizada entre o final da década de 60 e princípio dos anos 70 do século XX e tem como base explicações de natureza sociológica, já que para os seus autores o insucesso escolar estaria ligado à origem social do aluno e à sua base cultural aquando da sua entrada na escola (ibidem). Já o paradigma social e o económico defendem que as desigualdades que levam ao insucesso escolar estão ligadas às diferenças de rendimentos e de condições materiais (Hutmacher; Souta cit. por Tavares, 1999, p.178). Na visão do paradigma cultural o insucesso escolar deve-se às diferenças culturais que provêm da pertença a determinados grupos, o insucesso ocorre devido a uma inadaptação das estratégias de ensino (ibidem). Para Manuel Viegas Tavares (Tavares, 1999) o insucesso escolar está ligado a uma falha na transmissão e compreensão de uma mensagem que mesmo funcionando nos dois sentidos, entre professor e aluno, o maior responsável é o professor. No entanto, esta responsabilidade é possível de ser dissolvida nos vários agentes educativos e sociais. O autor imputa à escola a responsabilidade do insucesso, implicando uma análise à política de ensino e ao seu afastamento da realidade social. Na sua perspetiva “as causas do insucesso escolar são variadas e podem depender tanto de factores endógenos como de factores exógenos à Escola” (Tavares, 1999, p.179). Desta forma, tem-se como fatores exógenos essenciais as características socioecónomicas e culturais da comunidade pedagógica; a origem sociocultural do aluno e o modo como se processou a sua enculturação; a profissão e habilitação dos pais e o ambiente familiar; o tipo de habitação em que vivem e a distância à Escola; os grupos e Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 11 gangs existentes na comunidade aos quais pertença ou não, entre outros. No que diz respeito aos fatores endógenos tem-se em conta: as habilitações e a preparação profissional do corpo docente; os conflitos institucionais; as relações professor-professor, professor-aluno, alunoaluno, pessoal auxiliar-aluno e professor-pessoal auxiliar; a existência e disponibilidade de equipamento didático; estado de conservação das instalações e mobiliário; recreios e salas de convívio; a relação entre alunos/aula, entre outros aspetos (ibidem, p.180). Na perspetiva de Capucha é possível agrupar os fatores do insucesso escolar da seguinte forma (Capucha, 2010, p.41): por um lado, o desajustamento entre capital cultural de origem das famílias e a linguagem tradicional da escola, originando dificuldades especiais nos alunos de meios populares. Em seguida, a desarticulação entre a escola, famílias e o mercado de trabalho o que, em diversos casos, leva ao abandono escolar precoce para a entrada no mercado de trabalho. Por outro lado, o próprio funcionamento interno do sistema de ensino. Finalmente, a relação entre os agentes educativos e os alunos com problemáticas específicas. Percebe-se, desta forma, que o insucesso escolar e consequente exclusão está ligado a diferentes fatores e não apenas ao aluno. O insucesso escolar “atinge um elevado número de alunos, retardando a sua evolução no sistema de ensino, ou acabando mesmo por deixar os estudos com ou sem «bilhete de entrada» para a vida activa” (Carneiro, 1997, p.265). Maria do Rosário Carneiro afirma que, anteriormente, o insucesso escolar era visto como um sinal de exigência do ensino e o abandono escolar era a solução para a maior parte das situações de desencontro entre aluno/escola (ibidem). No entanto, esta ideia já não é aceite e, por isso, “Não basta criar condições de acesso à educação, é acima de tudo necessário cuidar das condições de frequência e de resultados” (ibidem). Neste contexto, não só a escola enquanto instituição tem um papel no que diz respeito ao insucesso escolar, como os próprios professores têm uma função importante, por isso é necessário que o professor “disponha de autonomia suficiente para desempenhar a sua função e que saiba como utilizá-la na adequação do processo de ensino/aprendizagem” (Carneiro, 1997, p.313). Por seu turno, a família tem de estar cada vez mais implicada na vida escolar dos seus membros (ibidem). Neste seguimento, poderá ser levantada mais uma questão: O que é um aluno em risco de abandono escolar? Já observamos que o insucesso escolar leva, muitas vezes, ao abandono escolar, mas para prevenir este fim é preciso perceber o perfil de um aluno que se encontra em vias de abandonar o ensino, para, posteriormente, entender as razões do seu insucesso escolar. Pode dizer-se que os alunos em risco de abandono escolar são aqueles que “vivem em áreas desfavorecidas, no seu meio familiar não há lugar para o diálogo, as fracas ambições originam fracos resultados. Por outro lado, há a atracção pelo mercado de trabalho, pela Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 12 ânsia de se verem independentes das suas famílias, de serem crescidos” (Carneiro, 1997, p.319). Pode, então, definir cinco fatores ligados ao abandono escolar (ibidem, p.304): a construção de um conjunto de expectativas que se revelam demasiado elevadas em relação à educação; a existência de dificuldades de inserção no contexto escolar; o número de aulas, ritmos de ensino e o conteúdo dos programas; a presença de dificuldades em dar resposta a todos os alunos de forma integradora e encorajante; e, por último, a existência de perspetivas de inserção no mercado de trabalho em conjunto com as noções de lucro e de consumismo. Neste contexto são suscitadas outras questões relativas ao insucesso escolar e ao abandono escolar, questões relacionadas com a exclusão, mas não só a exclusão escolar como igualmente a social, uma vez que as crianças em risco de abandono escolar estão inseridas em contextos que podem possibilitar a sua exclusão social. Parte-se, assim, do pressuposto que a inclusão social está intrinsecamente ligada à existência de exclusão, que advém das diferenças reais ou percebidas entre pessoas e que criam tensões que conduzem à discriminação e intolerância (Rizzini; Bush, 2006, p.79). Esta é uma questão muito presente na sociedade contemporânea e que tem gerado diversos debates que visam colocar em prática soluções a longo prazo. Neste campo, Max Weber defende o conceito de “estratégias de fechamento” (Weber cit. por Capucha, 2010, p.26). O fechamento por exclusão diz respeito às estratégias das classes sociais com maiores recursos económicos e profissionais colocadas em prática com o objetivo de conservar o seu acesso aos recursos. Durante vários anos o conceito de exclusão esteve colocado de parte destacando-se mais o conceito de pobreza, só mais tarde, através dos estudos feministas e de etnicidade, é que se passou a dar mais importância à abordagem das desigualdades em detrimento da problemática das classes sociais e da estratificação. Nos anos 80 e 90 do século XX surge, novamente, a temática da exclusão através de estudos de autores como Room, Paugan e Castel (Capucha, 2010, p.26). Nos vários trabalhados que foram desenvolvidos pode observar-se a exclusão “como uma realidade dinâmica, que varia com a trajectória das pessoas mas também com os processos de construção social dos direitos e deveres e com a reconstrução das identidades e representações sociais; multidimensional, envolvendo quer dimensões materiais da existência, quer dimensões subjectivas; e relacional, em dois sentidos: chama a atenção para a importância das pertenças sociais e, ao mesmo tempo, para a relação entre as pessoas e as instituições, nas quais se inscrevem os recursos e as regras que conferem o acesso aos direitos” (Capucha, 2010, p.26). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 13 Na sociedade portuguesa uma das questões que se tem colocado, nesta área, é o assistencialismo que continua a ser uma prática comum, no entanto, este tipo de estratégia tende a avaliar os excluídos “com medo, com pena, ou com uma combinação dos dois sentimentos.” (Guerra, 2008, p.2). Esta ideia permite-nos perceber que tem de se ultrapassar a mera questão do assistencialismo para serem apresentados resultados de forma a atingir uma efetiva inclusão social, o que se pretende é “preparar o futuro de pessoas que, pelas características que lhes são inerentes, tendem a reproduzir a sua situação precária de sobrevivência” (ibidem, p.4). Assim, para existir uma verdadeira inclusão social “é preciso mudar a forma de pensar e agir, é preciso respeitar o outro como ele é, respeitar as diferenças e o tempo de aprendizagem de cada ser” (Oliveira, 2008, p.43). Tendo em vista todo este cenário percebe-se que com o insucesso escolar e a exclusão escolar e social “não é só a escola que é posta em causa (…) é todo um conjunto de problemas: sociais, económicos, familiares e de desenvolvimento dos jovens” (Carneiro, 1997, p.265). Assim, segundo o nosso ponto de vista, é preciso encontrar alternativas que possam funcionar em conjunto com a escola para evitar o abandono escolar, mais especificamente, a exclusão social. Desta forma, apresenta-se uma análise sobre a educação não formal através da inserção numa Orquestra com características específicas, como uma possibilidade de estratégia de educação inclusiva. Tem de se começar por entender que os alunos têm especificidades sociais, familiares e económicas que limitam as suas possibilidades. O que se verifica é que as desigualdades presentes na sociedade podem existir na escola, por isso “é necessário que se procure atender às particularidades individuais dos alunos, proporcionando um ensino tão personalizado quanto possível. Encarar os grupos de alunos como homogéneos é ignorar a diversidade cultural e social que existe e com a qual todos contactam diariamente” (Abreu, 2007, p.38). Neste sentido, a educação na escola não se pode limitar à transmissão de saberes. Tem de se perceber, então, que “O contrário da educação inclusiva é (…) uma educação que se opõe à educação que segrega ou exclui uma parte daqueles que é suposto incluir” (Capucha, 2010, p.25). Primeiramente é preciso construir respeito pela variedade para que nenhum aluno seja excluído, isto é, fazer com que cada aluno se possa identificar e situar na sua comunidade de pertença principal, para tal há que lhe fornecer meios, o que implica a promoção de uma educação intercultural que permita chegar a uma coesão. Mas é, igualmente, necessário que o sistema educativo não leve a cenários de exclusão. Isto significa, o esquema de estímulo não Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 14 pode criar exclusão, no sentido em que não se pode assistir a uma prática excessivamente seletiva baseada nos resultados escolares (Delors, 2000, p.48). Em conformidade, para que se assista ao sucesso na inclusão social, através da educação, é necessário acolher e ajudar a desenvolver cada um dos alunos, através de “uma maior atenção ao desenvolvimento dos vários tipos de inteligência, com destaque para a importância das aprendizagens artísticas e do domínio das expressões pessoais; o reforço da acessibilidade, da flexibilidade e da individualidade, como características centrais de novos planos de estudo; uma maior conjugação entre professores e pais nas complexas tarefas educativas; a criação de equipas fixas de professores que acompanhem grupos fixos de alunos, facilitando o contacto humano essencial ao apoio ao desenvolvimento de cada um” (Azevedo; Silva; Fonseca, 2000, p.5). Desta forma, não podemos olhar os alunos como seres passivos, tem de se ter em conta as suas características para se desenhar um plano pedagógico que permita destacar o aluno. Assim, é necessário o desenvolvimento de estratégias que possam levar à responsabilização, que permitam o contacto com a diferença, de forma a criar um olhar mais sensível que conduz a uma ação mais consciente. Por isso, os alunos têm de ser formados para terem a sua própria iniciativa e capacidade de trabalhar com os outros, o que indica que “mais esforços devem ser feitos no sentido de promover a criatividade e a capacidade crítica dos jovens e das crianças” (Abreu, 2007, p.13). Outra questão é o controlo sobre a realidade exterior por parte dos alunos. As pessoas atuam de acordo com a ideia que têm delas próprias, o que permite estimular a importância da escola no contexto da construção de projetos individuais. Por outro lado, é preciso trabalhar e desenvolver planos que tenham em consideração a dimensão organizacional e curricular, sendo aqui o papel do professor fundamental, como tal, é necessária “uma formação simultânea, de formação na acção, onde o Professor aprenda fazendo, aprenda reflectindo e analisando as falhas e os êxitos da sua acção, num processo contínuo de «prática reflexiva»” (Schön; Zeichner cit. por Sousa, p.1). Por isso, a formação dos professores deve começar desde o início da sua carreira, pois “Todos os professores necessitam ser equipados com as capacidades necessárias para lidarem com questões de necessidades especiais” (Tilstone; Florian; Rose, 2003, p.26). Não se pode esperar que a educação resolva todas as falhas criadas por outros agentes sociais no que diz respeito aos laços sociais, mas a educação deve conduzir à coesão social. Deve, por isso, transmitir de forma eficaz os saberes adaptados à realidade cognitiva, que permitam revelar-se como competências a serem utilizadas no futuro. Poderá, então, Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 15 afirmar-se que a inclusão na educação “não é um trabalho isolado do educador, mas um trabalho de toda a sociedade ou comunidade envolvida em melhorar a qualidade de vida dessas pessoas” (Oliveira, 2008, p.44-43). Existem diversas formas de viver a educação escolar por parte dos alunos. Assim, é importante perceber que a educação não pode estar apenas assente em normas, valores e pedagogias que não mudam e não se transformam, é necessário perceber as vivências dos vários alunos e criar alternativas que favoreçam o sucesso escolar e a inclusão. Neste intento, compreende-se que podem ser várias as estratégias que vão sendo usadas no campo da inclusão social, no entanto, a estratégia que aqui explorámos e à qual damos relevo é a música, mais concretamente a inserção numa orquestra com características muito específicas. A cultura, área onde se integra a música, tornou-se uma forma de impulsionar e potenciar várias dinâmicas sociais, tornou-se uma forma de inovar, em especial no que concerne aos planos pedagógicos. Segundo defendem Paula Guerra e Pedro Quintela a utilização da cultura para fins pedagógicos constitui “iniciativas em prol da realização de actividades valorizadas pelas próprias pessoas enquanto actores participantes numa comunidade” (Guerra; Quintela, 2007, p.1). Neste sentido, é um elemento passível de ser usado no desenvolvimento do ser humano e, consequentemente, na inclusão social. Por outro lado, a música está intrinsecamente ligada à arte, “uma das instituições sociais primárias que procura resolver simbolicamente o enigma da vida” (Dias, 2001, p.9). A utilização da arte na educação não é algo novo, sendo defendida por Herbert Read (Read cit. por Sousa, 2003) ao afirmar que a expressão livre, o jogo, a espontaneidade, a inspiração e a criação que advêm de uma educação artística, permite aos alunos conseguirem ter inspiração, motivação da expressão dos seus sentimentos e estímulo da criatividade, sempre num cenário lúdico, expressivo, criativo e livre. Para este autor a arte na educação tem um papel fundamental na formação da personalidade, uma vez que visa um desenvolvimento equilibrado entre a individualização e a integração, isto é, existe uma consonância entre o individual e a unidade social. A arte é, então, um elemento na vida dos alunos que permite a conciliação entre a adaptação à realidade material e social e o conjunto de realidades individuais, através dos jogos simbólicos. Desta forma, a utilização da arte na educação “não tende a formar profissionais, a pôr as crianças ao serviço da arte, mas sim a arte ao serviço das crianças” (Maria Luísa Rodrigues cit. por Sousa, 2003, p.80). Seguindo esta linha na educação, que não se limita à simples transmissão de conhecimentos professor-aluno, consegue-se chegar ao desenvolvimento de instrumentos básicos de pensamento, como os Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 22 influência, não impediu que arte fosse criada. Seguindo a perspetiva de Jean-Jacques Rosé tem de existir uma cooperação e coexistência, os artistas “têm múltiplos recursos para subverter formas de dominação tradicional; as anteriores relações directas e clientelares entre senhor e artistas foram substituídas por complexas mediações institucionais que (…) asseguram a liberdade dos criadores.” (Rosé cit. por Santos; Conde, 1990, p.377). Apesar de existir alguma influência por parte dos mecenas, que não é algo ligado apenas à atualidade, os artistas sempre encontraram o caminho para a criação, “Neste sentido, o mecenato sempre fora uma condição necessária e ambivalente nos percursos de cultura europeia” (Conde, 1989, p.110). Contudo, não se pode deixar de lado a questão de autonomização social dos artistas, um processo difícil e que garantiu o acesso dos artistas às condições de produção e das pessoas aos bens culturais, isto implica que o olhar desconfiado sobre o mecenato de empresa não esteja só relacionado à instrumentalização da cultura como, igualmente, à desresponsabilização do Estado face à arte e à cultura (Santos; Conde, 1990, p.377). Na realidade, o debate sobre o mecenato cultural de empresa não pode estar apenas ligado a questões políticas e económicas, segundo defende Luís Santos Ferro é preciso “compreender as soluções próprias que cada sociedade atribui para a gestão da sua vida cultural” (Ferro cit. por Conde, 1989, p.111). O desenvolvimento do mecenato atual tem como base uma vertente de transformações económicas, sociais e culturais, após os anos 70 do século XX com as alterações sofridas no Estado-Providência. Como já foi referido, é a partir desta altura que surgem, na Europa, parcerias do Estado com o setor privado que incentivam a iniciativa privada, o que faz surgir uma “nova ética de cidadania baseada no compromisso e implicação social” (Conde, 1989, p.116). Com a crescente falta de financiamento público na área cultural torna-se necessário outro tipo de intervenção, por isso, os privados são chamados como um recurso, já que a cultura é um bem social caro e que implica, da parte do Estado, grandes gastos financeiros, mas que não deixa de ser fundamental na sociedade. Assim, podemos perceber que, apesar de todos os debates que implicam várias posições, pode-se considerar que o mecenato cultural de empresa é “não só (…) um factor necessário no campo cultural, pelas possibilidades e dinâmica que gera, mas (…) condição necessária para reaproximar Estado da sociedade civil” (ibidem, p. 121). Percebe-se, então, que a intervenção do mecenato em questões sociais deixadas ao cuidado do Estado-Nação não é uma novidade, o que é inovador e que se está a estender é a intervenção do setor privado, como é o caso da Fundação EDP, em projetos que se propõem colmatar hiatos deixados pelo Estado e, desta forma, acabam por intervir na sociedade de uma forma mais direta. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 23 No entanto, há que colocar outro tipo de questões, pois estamos perante uma situação em que existe uma partilha da contribuição dos recursos pelas entidades que estão no projeto, não sendo apenas a Fundação EDP a única a disponibilizá-los. O financiamento económico que permite, nomeadamente a compra de instrumentos, é feito pela Fundação EDP que representa o mercado. Por seu turno, o Conservatório Nacional de Música promove o ensino da música, o Centro Cultural de Amarante representa a comunidade e tem a seu cargo toda a logística, como a contratação dos professores, a escolha dos alunos que integram a Orquestra, a organização das aulas e de outras atividades, a cedência das instalações e o transporte dos alunos, mas também, tem como função o ensino da música. A escola, também, representa a comunidade, mesmo com um papel mais pequeno, já que cede as suas instalações para as aulas e proporciona aos alunos o acompanhamento por parte de uma psicóloga. Finalmente, o Estado não está representado oficialmente, mas a Câmara Municipal de Amarante contribui em pequenos aspetos como, por exemplo, cedência, quando necessário, de instalações. Desta forma, existe uma rede onde todas as partes mobilizam recursos, depreende-se que “Qualquer intervenção de âmbito social começa a ser impossível sem um trabalho em parceria, envolvendo diversas entidades, uma vez que os fenómenos da pobreza e da exclusão são consequências de vários factores” (Lança, 2010, p.12). O trabalho em conjunto com várias entidades da sociedade pode servir para criar projetos que poderão contribuir para diminuir problemas sociais e com isso visar a inclusão social. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração emerge de uma lógica de capitalismo cognitivo (Vercellone; Serfati cit. por Lança, 2010, p.6) que consiste numa economia quase imaterial que tem como objetivo a produção de conhecimento, baseada na inovação como mecanismo para a resolução de problemas. Significa, desta maneira, que estamos perante uma situação de empreendedorismo social que visa o investimento no capital social. Verifica-se a interferência de agentes não tradicionais que assumem a responsabilidade de tentar intervir para potenciar a diminuição dos problemas sociais, estes agentes “actuam de uma maneira inovadora e diferente face ao modo habitual de intervir socialmente em Portugal” (Lança, 2010, p.7). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 24 Capítulo IIDesenho da estratégia de investigação. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração enquanto problema sociológico, modelo de análise e enquadramento metodológico 2.1. Problema científico e modelo de análise A investigação apresentada centra-se na temática da música como uma forma de inclusão social, no caso específico a inserção de crianças em risco de abandono escolar numa Orquestra com características particulares, que se baseia num contexto de educação não formal. A música tem vindo a ganhar terreno “nos projectos que procuram o pleno exercício da cidadania de crianças e adolescentes em risco (…) Estudos específicos realçam o impacto que projectos de inclusão social que utilizam a música como eixo condutor têm tido no processo de recuperação da identidade e da auto-estima” (Elvas, 2010, p.294). Assim, a Orquestra Geração de Amarante propõe-se a reaproximar o aluno da escola e da sociedade. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração, enquanto objeto de estudo, proporciona a exploração da questão do ensino musical como uma possibilidade para a inclusão social. Segundo Kater, a educação musical proporciona aos alunos a hipótese de se estruturarem e se organizarem a nível pessoal, a experimentarem novas formas de relacionamento, a terem contacto com outros valores e referências (Kater, 2004, p.49). Desta forma, a música possui a objetivação de uma autorrealização, autoconfiança e socialização no que diz respeito à procura da autonomia quando os alunos são motivados para a ação (Canto, 2010, p.41). A música revela-se importante para a construção da identidade e da construção da cidadania, na medida em que pode proporcionar aos alunos não só o seu desenvolvimento na área musical como, também, noutras áreas curriculares (expressão dramática, expressão plástica, educação físico-motora, estudo do meio, língua portuguesa e matemática). Mas, para além do desenvolvimento de características curriculares, a música possibilita a apreensão e desenvolvimento de particularidades sociais que, quando assimiladas, permitem aos alunos em risco de abandono escolar não só a sua aproximação ao contexto escolar como a sua inclusão social. A evolução da função da escola levou a uma “descolarização social sobre a função reprodutora no ensino formal” (Arroteia, 1991, p.48). Surge, deste modo, a articulação entre a educação formal e os diversos géneros de educação não formal. No caso específico da Orquestra Geração de Amarante é apresentada uma educação não formal. As características principais de uma educação deste tipo são a organização e a vertente educativa, ao mesmo tempo que possibilita determinadas aprendizagens e constitui processos educativos integrais, mas não tem um currículo definido. Neste sentido, a educação não formal “é complementar Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 25 ao sistema de educação Formal, devendo esta desenvolver-se em articulação permanente, quer com a educação Formal” (Canto, 2010, 35). A Orquestra pretende funcionar em parceria com a escola para tentar contornar a exclusão social e alcançar resultados que não se limitam à aprendizagem de música, mas que através de todos os seus contornos conduz a um caminho de inclusão social, adotando uma estratégia de ensino muito específica. Desta forma, pretendemos compreender se o caminho seguido através do ensino da música na Orquestra proporciona a inclusão social dos alunos. Os alunos que integram a Orquestra são, em primeiro lugar, sinalizados pela psicóloga do agrupamento de escolas como em risco de abandono escolar. O que significa que são alunos com ausência de ambições escolares, de interesse pela escola, pela matéria e pelas aulas, mas com ambição em relação ao mundo do trabalho. Consequentemente o aluno que se encontra em risco de abandono escolar é “em geral mais velho que os colegas do mesmo grau de ensino, fruto de repetências, não aparece apoiado pelas famílias, vive num meio familiar e intelectualmente desfavorecido e tem em geral um rendimento escolar insuficiente” (Carneiro, 1997, p.319). O abandono escolar demonstra a rejeição da escola por parte dos alunos que, na maioria das vezes, acabam por ser excluídos pela instituição, o que torna o abandono escolar um problema “pelas repercussões que terá na vida dos indivíduos e das suas sociedades” (ibidem, p.302). Todo este trabalho é elaborado tendo em consideração que existe uma população-alvo definida. Por isso, os alunos a quem se destina o projeto têm determinadas características, sendo que o sexo e o género não são variáveis que interferem para a sua seleção. Outras especificidades como o grau de escolaridade, o contexto escolar e familiar e o contexto sociodemográfico e socioeconómico são tidos em conta, uma vez que a Orquestra integra alunos em risco de abandono escolar e estas são variáveis que podem ajudar a definir o perfil de um aluno nesta situação e que pode integrar o projeto. Ao fazerem parte do projeto os alunos tendem a sentir o seu impacto a vários níveis, quer estes sejam positivos ou negativos para eles. Esta questão não vai apenas depender da Orquestra Geração, já que os alunos possuem representações sociais sobre o projeto e vão criar um grau de identificação quando são incluídos nas atividades. Mediante este aspeto é necessário compreender o modo de integração dos alunos na Orquestra, perceber o seu contexto escolar e familiar, tal como compreender quais os alunos que frequentam a Orquestra Geração de Amarante. Antes de existir abandono do aluno da instituição escolar existe o insucesso, é nesta fase que os alunos são sinalizados pela psicóloga. O insucesso começou por ser visto como um sinal da exigência do sistema educativo e, quando resultava em abandono escolar, era tido Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 26 como uma forma de ajustamento (Carneiro, 1997). Consequentemente, a responsabilidade do insucesso era do aluno e não eram tidos em conta outro tipo de fatores. Atualmente, o insucesso escolar já não é visto desta forma, as suas causas são variadas e dependem de fatores exógenos e endógenos. Todas as crianças têm direito a serem inseridas no sistema educativo, mas elas não são iguais em termos intelectuais, de apoio dos pais, da família, dos amigos e do grupo, na sua condição socioeconómica e cultural (Tavares, 1999). Assim, para perceber as razões do insucesso escolar e para serem encontradas respostas é preciso entender que ele não está apenas centrado no aluno, existem outros agentes que têm de ser equacionados. Neste intuito, o papel dos encarregados de educação/pais é importante, pois “têm um papel insubstituível no desenvolvimento educativo” (Carneiro, 1997, p.297) dos alunos. Os acontecimentos e assuntos presentes na escola interferem e fazem parte da relação pais-filhos, uma vez que as vivências da escola são parte fundamental da comunicação em família, o que torna a escola um fator muito presente na definição da relação pais-filhos. O insucesso ou sucesso na escola define o ambiente familiar. Logo, é “necessário incentivar todo o tipo de acções desenvolvidas pelas instituições escolares no sentido de aproximar os pais da vida escolar dos filhos, muito embora o sucesso dessa aproximação pareça estar dependente, em muitos casos, de variáveis pessoais nem sempre presentes na maioria das situações” (Azevedo; Silva; Fonseca, 2000, p.12). Observa-se, então, o importante papel da família, uma vez que a comunicação com esta é, por vezes, difícil devido à falta de informação e de capacidades sociais que possam levar a uma melhoria da comunicação e interação. Torna-se importante uma aproximação para que seja possível o surgimento dos estímulos necessários que proporcionem uma participação positiva. Isto revela-se mais importante nas famílias desfavorecidas, onde se observa uma maior dificuldade em entender os projetos educativos. Logo, propomo-nos a entender quais as representações sociais dos encarregados de educação em relação à participação dos seus educandos na Orquestra Geração de Amarante. Surgindo, desta forma, como hipótese teórica: os encarregados de educação passam a acompanhar o desempenho escolar dos seus educandos mais regularmente. Outra questão relevante é a missão dos professores, já que na prática educativa deve existir uma concordância entre a igualdade, a tolerância, o respeito e o diálogo entre os docentes e alunos. Todavia, hoje em dia, verifica-se uma certa discordância entre o multiculturalismo e os conteúdos programáticos, o que suscita um sentimento de deslocalização dos alunos que não se identificam com o que está a ser lecionado. Para que se verifique uma melhor comunicação e interação entre professor e aluno é necessária uma Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 27 planificação das várias estratégias de ensino e aprendizagem, com o objetivo de existir respeito e justiça. A educação não formal através da música torna-se, assim, uma mais-valia para a inclusão social e para o desenvolvimento dos alunos. O que indica que a educação não pode corresponder apenas à transmissão de conhecimentos é preciso ter em consideração a diversidade dos alunos e os vários ritmos de aprendizagem. O que torna a educação uma forma de desenvolver a comunicação, a expressividade, a criatividade, a socialização e os laços com a sociedade que não se podem limitar a estarem apenas presente na escola, pois “A educação pode fazer a diferença no futuro, uma vez que o futuro será, sem sombra de dúvida uma sociedade baseada no conhecimento” (Canto, 2010, p.30). Na perspetiva de Teixeira Fernandes, “Hoje (…) a função educativa das sociedades modernas extravasa o sistema escolar” (Fernandes, 2002, p.183). A educação não formal é a base do ensino do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração, pois apesar de não ser um projeto inserido no ensino escolar funciona em parceria com a escola, para “ensinar e motivar a aprendizagem através de actividades/iniciativas conjuntamente lúdicas, motivadores e desafiantes, que permitam ao grupo alvo um maior e mais eficaz desenvolvimento pessoal e social” (Quintas; Castanõ cit. por Canto, 2010, p.33). Desta forma, a Orquestra para poder funcionar corretamente tem um espaço físico definido, que lhe permite lecionar as aulas de música. Está assente numa pedagogia e organização, que proporciona a planificação do ano letivo e que estão intrinsecamente ligadas aos objetivos. Importa, então, perceber o impacto da Orquestra Geração de Amarante na vida dos seus alunos, a nível escolar e social. O que nos leva a colocar como hipóteses teóricas que o tipo de pedagogia adotada tem suscitado resultados positivos na inclusão social dos alunos e que os mesmos deixam de estar identificados como em risco de abandono escolar. Nesta perspetiva, tentamos percecionar o Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração enquanto realidade microssocial, em que todas estas características podem contribuir para a inclusão social. Por isso, é importante questionar: de que forma o ensino da música e a integração numa Orquestra Juvenil, com características específicas, permite a inclusão social dos alunos em risco de abandono escolar? Tendo em consideração que a Orquestra integra alunos entre os 10 e os 15 anos de idade, do Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso, é sobre esta população que recai a nossa perspetiva e análise. Assim, os alunos que integram o projeto são a população-alvo definida para esta investigação. Mediante estas questões desenhámos o Modelo de Análise apresentado na Figura 2.1. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 28 Figura 2.1: Modelo de análise 2.2. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração. Da caracterização do concelho de Amarante à Orquestra Geração de Amarante Importa, agora, explicitar o que é o Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração. Assim, explora-se, em primeiro lugar, uma vertente sociodemográfica do concelho de Amarante, para perceber o contexto em que está inserida a Orquestra Geração. Posteriormente faz-se a apresentação do projeto e das suas características. O Concelho de Amarante situa-se na Região Norte de Portugal, no Distrito do Porto e encontra-se na Região do Tâmega, integrando a Comunidade Urbana do Baixo Tâmega. Está dividido em 40 freguesias (Figura 2.2). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 29 Figura 2.2: Composição territorial do Concelho de Amarante Fonte: Lopes (2004, p.19) Amarante possui uma área territorial de 29 000 hectares marcados pelo relevo, o que faz com que seja o maior concelho do Distrito do Porto, tendo uma das maiores serras do país, o Marão, que atinge os 1 450 metros de altura. O concelho é atravessado pelo rio Tâmega, rio Ovelha e Olo. Faz fronteira a norte com o município de Celorico de Basto, a nordeste com Mondim de Basto, a leste com Vila Real e Santa Marta de Penaguião, a sul com Baião, Marco de Canaveses e Penafiel, a oeste com Lousada e, por fim, a nordeste com Felgueiras (Leite, 2009). Historicamente Amarante, devido à sua localização geográfica, adquiriu uma posição essencial no que diz respeito à passagem das populações para Trás-os-Montes e Alto Douro (Lopes, 2004, p.20). No entanto, o concelho só ganhou maior visibilidade após o aparecimento de São Gonçalo (1187-1259) que, apesar de ter nascido em Tagilde, Guimarães, passou a habitar em Amarante após uma peregrinação por Roma e Jerusalém. A ele atribui-se a construção da velha ponte sobre o rio Tâmega. Quando São Gonçalo foi proclamado santo Amarante passou a ser um centro de peregrinações, facto que levou ao crescimento da sua população. Em termos territoriais o concelho era pouco mais de uma rua, correspondia à rua que ia da ponte de São Gonçalo até S. Lázaro, com pouco mais de 200 habitantes (Leite, 2009, p.115-116). Mais tarde, no século XIX com as reformas liberais, houve uma Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 30 reorganização administrativa do território onde foram extintos os municípios de Gouveia, Gestaço e Santa Cruz de Ribatâmega, o que fez com que Amarante tivesse recebido a maioria das freguesias e, também, algumas de Celorico de Basto. A 8 de julho de 1985 Amarante é elevada à categoria de cidade, atravessada pelo rio Tâmega e rodeada de serras, com casas do século XVII, com varandas de madeira coloridas em ruas estreitas e com restaurantes com terraços sobre o rio (Leite, 2009, p.118). No campo cultural destaca-se Teixeira de Pascoaes na área das letras e Amadeo de Souza-Cardoso na pintura, o qual tem hoje um museu com o seu nome e onde podem ser vistas as suas obras cubistas (ibidem). No que diz respeito às atividades económicas de Amarante destaca-se a agricultura, presente em todas as freguesias, com especial atenção para a produção de vinhos verdes, para além deste setor, a construção civil e o pequeno comércio, são, também, atividades de relevo. “A pecuária, a silvicultura, a hotelaria (…) juntamente com os serviços, completam o tecido económico das várias freguesias que compõem o concelho. O turismo é um sector com fortes potencialidades, dadas as características ambientais e patrimoniais do concelho” (ibidem, p.123). Com o intuito de perceber melhor as características da população do concelho de Amarante, em especial a população a que se destina o projeto Orquestra Geração, apresenta-se uma análise de dados estatísticos recolhidos pelo INE. No quadro 2.1 são mostrados os dados relativos à Distribuição da População por Local de Residência, segundo os Censos 2011. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 31 Quadro 2.1: Distribuição da População por local de Residência, no município de Amarante (Nº), à data dos censos de 2001 e 2011 Local de Residência População Residente (Nº) Ano 2001 2011 Portugal 9 869 343 10 047 083 Região Norte 3 687 293 3 689 609 Tâmega 551 309 550 469 Amarante 59 638 56 217 Aboadela 887 783 Aboim 652 596 Ansiães 815 623 Ataíde 1 082 1 002 Bustelo 577 521 Canadelo 217 121 Candemil 1 039 771 Carneiro 354 311 Carvalho de Rei 209 187 Cepelos 1 539 1 758 Chapa 264 301 Fregim 2 507 2 789 Freixo de Baixo 1 543 1 434 Freixo de Cima 2 196 2 203 Fridão 845 863 Gatão 1 564 1 586 Gondar 1 693 1 686 Jazente 660 542 Lomba 859 793 Louredo 655 638 Lufrei 1 799 1 777 Madalena 1 864 1 956 Mancelos 3 504 3 114 Oliveira 952 862 Olo 446 371 Padronelo 904 884 Real 3 429 3 142 Rebordelo 398 365 Salvador do Monte 1 154 1 066 Sanche 523 509 Figueiró (Santa Cristina) 1 532 1 370 Figueiró (Santiago) 2 986 2 458 Amarante (São Gonçalo) 6 503 6 540 Gouveia (São Simão) 740 633 Telões 4 535 4 232 Travanca 2 502 2 278 Várzea 563 383 Vila Caiz 3 398 3 026 Vila Chã do Marão 1 078 940 Vila Garcia 671 803 Fonte: INE (Censos 2001 e 2011) Atualmente, a população residente no concelho de Amarante é de 56 217 pessoas, assistindo-se a uma descida no número de habitantes em relação a 2001. A freguesia de São Gonçalo tem o maior número de habitantes (6 540), segue-se Telões com 4 232 habitantes e Real com 3 142 pessoas. As freguesias com menos população residente são: Canadelo (121 habitantes), seguida de Chapa (301 indivíduos) e Rebordelo (365 habitantes). No geral, Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 38 dar seguimento ao programa, com a finalidade de proporcionar oportunidades a outros alunos através da criação de ciclos de três anos (Lima, 2011). Após esta etapa foi convidado para integrar a Orquestra Geração em Amarante o Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso onde foram escolhidos, antecipadamente, com base nos objetivos elaborados para o programa, alunos sinalizados pela psicóloga do agrupamento de escolas onde se inseriam e que se enquadravam nos parâmetros sociais do modelo (Lima, 2011). Assim, no primeiro ano foram selecionados 29 alunos através da realização de um workshop no Centro Cultural de Amarante, dirigido por professores de música, com a finalidade de avaliar as capacidades musicais de cada aluno e definir o instrumento a atribuir a cada um. Desta forma, foram entrando alunos para o projeto dos 10 aos 15 anos de idade da seguinte forma: Quadro 2.4: Distribuição dos instrumentos por ano Instrumentos Ano 2010 2011 2012 Nº de Instrumentos Corda Violino 14 14 14 Violoncelo 6 6 6 Viola d´arco 6 6 6 Contrabaixo 3 3 3 Total 29 29 29 Sopro Oboé - 2 2 Flauta Transversal - 2 2 Clarinete - 2 2 Fagote - 2 2 Trompete - 2 2 Total - 10 10 Percussão Total - - 4 Fonte: Lima (2011) Desta forma, o programa antevê os instrumentos de cordas, sopros e de percussão, o que nos encaminha para a ideia de que “O crescimento da Orquestra através da implementação de novos instrumentos permite a seleção e enquadramento de novos alunos” (ibidem, p.4). A organização do período de aulas decorre conforme o ano letivo, tendo no fim de cada período um estágio de uma semana onde os alunos têm várias aulas e preparam uma apresentação pública. Também, no decorrer do ano, fazem intercâmbio com a Orquestra Geração de Mirandela e no final têm uma apresentação em Lisboa, na qual participam todas as Orquestras Geração do país. As aulas são realizadas semanalmente na escola, nas horas em que os alunos não têm aulas e no Centro Cultural de Amarante ao sábado de manhã (onde o Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 39 transporte é feito através de camionetas disponibilizadas pelo mesmo e onde os alunos têm um pequeno lanche) distribuídas da seguinte forma: Quadro 2.5: Distribuição horária das aulas da Orquestra Geração Aulas Carga Horária (minutos) Coro/Formação Musical 60 Naipe 90 Instrumento (aula individual) 60 Orquestra 180 Fonte: Lima (2011) Por seu turno, os professores inseridos no projeto recebem formação específica ligada a uma pedagogia própria no Conservatório Nacional da Música em Lisboa, que se vai completando através de formações periódicas com base nos Planos de Estudos criados pelo Conservatório Nacional de Música. É, também, definido um Coordenador Pedagógico e Artístico encarregado pelos alunos e que procede à articulação entre professores, escola e as famílias. Neste contexto, é feito um acompanhamento dos alunos através da metodologia caso-a-caso (Lima, 2011). A 15 de maio de 2010 deu-se início à atividade letiva. A cerimónia de abertura oficial do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração realizou-se a 26 de junho de 2010, no Auditório do Centro Cultural de Amarante e contou com a presença de diversos convidados e entidades oficiais, onde foram oradores o Prof. António Carlos Sousa Laranjeira Lima, Presidente do Centro Cultural de Amarante, o Dr. Sérgio Figueiredo, representante da Fundação EDP, o Dr. Armindo Abreu, Presidente da Câmara Municipal de Amarante, o Prof. Artur Correia, Diretor do Agrupamento de Telões e o Prof. Rafael Montes. Durante a cerimónia decorreu a entrega simbólica dos instrumentos musicais e foi, também, feita uma pequena apresentação dos alunos que já tinham ensaiado (ibidem). No que diz respeito às exibições públicas todas elas são divulgadas nos órgãos de comunicação social de Amarante e das escolas envolvidas no programa, tendo como presença regular entidades oficiais do concelho e representantes da Fundação EDP. O intercâmbio e a mobilidade ao longo do ano letivo permitem o contacto com outras realidades que, na maioria das vezes, não são conhecidas pelos alunos e permite, igualmente, a convivência com crianças provenientes de realidades diferentes (ibidem). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 40 2.3. Métodos de investigação: análise qualitativa. A análise de conteúdo, a observação direta e a entrevista semidiretiva como forma de aproximação ao Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração No decorrer da investigação, mediante o objeto em análise e os objetivos desenhados, foi preciso perceber quais os métodos de investigação que podem possibilitar uma resposta às interrogações que estão na base do trabalho. É o momento em que se delimita a abordagem metodológica e, consequentemente, as técnicas que melhor se adaptam. Desta maneira, considerou-se que o estudo da educação musical como estratégia para a inclusão social a partir do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração permite uma abordagem marcadamente qualitativa Na perspetiva de Godoy a pesquisa qualitativa encontra-se localizada no ambiente natural do contexto empírico a estudar, por isso há uma valorização do contacto direto do investigador com o ambiente e a situação que está a estudar. Deste modo, o investigador compreende o seu objeto de estudo na situação em que ocorre e tem nele um papel. O investigador torna-se o seu instrumento de observação, seleção, análise e interpretação dos dados recolhidos (Godoy, 1995, p.62). Neste intuito, a análise qualitativa permite a compreensão dos significados que os atores sociais dão à vida quotidiana, facto que se apresenta de grande relevância, já que é neste contexto que se desenvolve o projeto da Orquestra Geração, isto é, estamos perante um projeto que interfere, diretamente, na vida dos alunos que nele estão inseridos, o que implica que se torne uma parte significante da vida de quem o integra, por isso permite a cada elemento construir significados em seu torno. Através da pesquisa qualitativa é fundamental uma partilha com as pessoas (alunos, encarregados de educação, professores), com os factos (aulas e concertos) e os locais (Centro Cultural de Amarante, Agrupamento de Escola Amadeo de Souza-Cardoso) todos eles ligados à Orquestra Geração que permitem captar e analisar os significados visíveis e latentes, que apenas poderiam ser apreendidos através de uma atenção sensível. A aproximação ao terreno do investigador é aqui entendida como uma necessidade ligada à investigação, ao estar no terreno é exigida uma aproximação física ao terreno, mas o investigador não é um ator social, logo houve a necessidade de manter o distanciamento, para não serem levantadas questões relativas à validade dos dados recolhidos, no entanto, este distanciamento nem sempre se revelou fácil. O grande objetivo foi chegar ao essencial do real, isto significa que “O discurso do sociólogo é tanto mais fundamentado e melhor entendido quanto mais «enraizado» for na realidade que pretende explicar” (Lalanda, 1998, p. 872). Compreende-se, então, o uso de Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 41 uma maior flexibilidade, a pesquisa não se desenvolveu em fases estanques, existindo um diálogo entre as várias fases da investigação. O trabalho foi sendo desenvolvido tendo em consideração questões como a organização do ano letivo, os horários das aulas, das apresentações ou dos próprios professores. Ao longo de toda a investigação foi necessário reformular e construir diversas vezes, uma característica da análise qualitativa, uma vez que as próprias hipóteses teóricas não foram formuladas desde o início com a construção do modelo de análise, mas foram emergindo no decorrer da investigação, através do reconhecimento do campo de investigação e do aprofundamento do conhecimento do objeto de estudo e da população-alvo. Desta forma, definiu-se para esta investigação as técnicas: análise de conteúdo, observação direta e entrevistas semidiretivas. A análise de conteúdo foi elaborada em relação a três documentos sobre a Orquestra Geração (Anexo i-iii, p.79-81), com o objetivo de perceber as suas características desde as origens até à implementação no município de Amarante. A observação é uma das técnicas escolhidas, pois permite “analisar em profundidade as características, as opiniões, uma problemática relativa a uma população determinada, segundo vários ângulos e pontos de vista” (Almeida, 2007, p.198). Pode ser utilizada pelo sociólogo em diversas fases da investigação empírica e exige que o observador tenha de estar presente no terreno ou junto do grupo que pretende observar. No caso deste projeto levou-nos à recolha e ao registo de componentes de grande relevância, que vão para além dos simples diálogos, pretendeu-se apreender posturas, ambientes, linguagem corporal, entre outros aspetos. Consequentemente optou-se por realizar duas observações exploratórias (Anexo iv, p. 84) efetuadas sem um guião definido, pois corresponderam ao primeiro contacto direto com o projeto e com alguns dos seus elementos, o que permitiu a recolha de informação servindo de ponto de partida. Após esta primeira fase foram realizadas observações diretas: numa aula (Anexo v, p. 86) para perceber o contexto em sala de aula, o tipo de linguagem, os modos de apresentação, a atitude no espaço, as modalidades de interação e a relação com o espaço dos atores sociais. Foram, também, realizadas duas observações de apresentações públicas da Orquestra Geração de Amarante (Anexo vi, p.88), onde foi possível observar a reação do público, muito especialmente das famílias dos alunos, permitindo ter uma ideia das representações dos encarregados de educação em relação à participação dos educandos na Orquestra Geração, mas igualmente da atitude dos alunos e professores neste contexto. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 42 A entrevista, por seu lado, corresponde à visão da realidade do entrevistado, logo o que se pretende é captar um discurso, uma construção seletiva baseada na memória e nas representações com base nos objetivos da investigação, “Não se trata, por isso, de ouvir um qualquer relato ou história sem estrutura de sentido, mas de ouvir falar da realidade segundo um traçado que lhe é proposto e em relação ao qual o entrevistado se cola ou se desvia” (Lalanda, 1998, p.874). Neste sentido, foram realizadas entrevistas aos atores implicados no projeto, com exceção dos alunos, já que são menores o que poderia colocar algumas questões do ponto de vista da validade. Por outro lado, o próprio discurso poderia facilmente ser alterado pela presença do entrevistador, já que é uma pessoa estranha com a qual os alunos não têm o mesmo nível de confiança, logo para entrevistar os alunos seria necessário mais tempo no terreno e a autorização dos encarregados de educação. Optou-se, então, para conseguir captar questões relacionadas com a população-alvo, colocar aos outros entrevistados questões relativas aos alunos. No que diz respeito aos professores foram realizadas 7 entrevistas (Anexo vii, p. 90). Não foram entrevistados 2 professores, apesar de todos terem sido contactados, mas devido ao seu horário não foi possível a realização das entrevistas. O principal objetivo ao entrevistar os professores foi, para além de tentar perceber as principais características da Orquestra Geração, como os seus objetivos e pedagogia, entender se existem mudanças nos alunos e quais são esse tipo de alterações. Mas, também, compreender a perspetiva dos encarregados de educação em relação à participação dos seus educandos na Orquestra. Foram realizadas entrevistas à coordenadora pedagógica (Anexo viii, p. 91) e ao diretor da Orquestra Geração de Amarante (Anexo ix, p. 93) com o intuito de perceber como foi realizada a implementação da Orquestra Geração em Amarante, quais são as suas características, nomeadamente pedagogia adotada, a organização das aulas e das atividades. No que diz respeito aos alunos perceber como são selecionados para integrar a orquestra, que tipo(s) de acompanhamento(s) que possuem e entender o impacto do projeto na vida dos alunos a vários níveis. Estas entrevistas, também, permitiram perceber quais as escolas envolvidas no projeto, compreender a perspetiva dos encarregados de educação em relação ao modelo, percecionar o modo como os professores são selecionados e o seu tipo de formação, entender como é feita a comunicação e divulgação das atividades e a recetividade que tem havido em relação à Orquestra Geração. Na escola EB Amadeo de Souza-Cardoso foram entrevistados o diretor do agrupamento de escolas (Anexo x, p. 95) e a psicóloga (Anexo xi, p. 96). O objetivo foi Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 43 perceber o papel da escola no projeto, entender o tipo de alunos que frequentam a Orquestra e como são selecionados. Foi, também, entrevistado o Presidente da Câmara Municipal de Amarante (Anexo xii, p. 97) no sentido de perceber o papel da Câmara no projeto e o modo como foi implementado em Amarante, entender a forma de divulgação das atividades e a recetividade em relação ao projeto. Por último, estavam planeadas entrevistas aos encarregado de educação (Anexo xiii, p. 98) para entender a relação do educando com o projeto, para perceber como tiveram conhecimento, qual foi a motivação para o educando entrar na Orquestra e quais as mudanças que têm observado. Ao mesmo tempo compreender a relação do entrevistado com o projeto e a forma como acompanha o desempenho do seu educando. Em todas as entrevistas foram realizadas questões no que diz respeito à relação do entrevistado com a Orquestra Geração com o objetivo de compreender o balanço do projeto, as dificuldades encontradas, os momentos mais marcantes e a sua opinião sobre a inclusão social através da música. 2.4. Considerações de percurso: os obstáculos da investigação. Uma reflexão. No decorrer da investigação foram surgindo alguns obstáculos que necessitaram de ser resolvidos e exigiram flexibilidade de adaptação, tanto do investigador como do próprio desenho metodológico. Em primeiro lugar, destaca-se o facto de os objetivos da investigação não se enquadrarem, por vezes, nos objetivos da Orquestra, ou seja, a imagem do projeto é muito importante para os seus responsáveis, o que se revela no discurso dos sujeitos. É na, maioria das vezes, um discurso demasiado positivo, sem apresentar falhas ao projeto. Por outro lado, os dados recolhidos e a análise feita podem servir como uma avaliação externa à Orquestra Geração de Amarante, constituindo uma forma de se legitimarem. Assim, foi combinado entre as duas partes que o investigador entrega uma cópia da dissertação para que essas informações possam ser usadas pela Orquestra. Outro dado de relevância é a interferência que pode surgir em determinados momentos. O investigador ao estar no campo necessariamente interfere, facto que se observou na aula, mas também nas entrevistas. Devido a esta presença os atores sociais mudam o seu comportamento, passam a dizer e a fazer aquilo que consideram ser socialmente correto. Nestes contextos foi preciso elaborar novas estratégias, no caso da observação passaram só a ser realizadas nas apresentações públicas e na entrevista assegurava-se a sua confidencialidade e que não era uma avaliação. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 44 Por seu turno, o funcionamento da Orquestra em si, de toda a logística e organização que a envolve, como horários e atividades, tornou difícil a integração e a realização das entrevistas. As entrevistas exigiam a interferência de um intermediário e, por isso, demoravam muito tempo a serem agendadas. No caso específico das entrevistas com os professores devido a estas questões acabaram por não ser entrevistados dois professores. No que diz respeito às entrevistas aos encarregados de educação não foram possíveis serem realizadas. Desde fevereiro de 2012 foram mantidos diversos contactos com a coordenadora pedagógica da Orquestra Geração de Amarante, no sentido de serem contactados os encarregados de educação para serem realizadas as entrevistas. No entanto, só em junho a coordenadora mostrou disponibilidade para marcar as entrevistas. Apesar deste contacto e de diversas tentativas de marcação apenas em setembro foram mantidos novos contactos e, como já tinha acontecido, não foi possível marcar as entrevistas, mesmo já tendo uma data definida. No entanto, são desconhecidas as razões para esta situação, supõe-se que poderá ter sido uma falha de comunicação ou uma recusa dos encarregados de educação de serem entrevistados. O que implica que seria necessário mais tempo para estabelecer uma melhor comunicação com o intermediário, de forma a existir contacto com os encarregados de educação, para serem realizadas as entrevistas. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 45 Capítulo IIIMúsica para a inclusão social. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração Este capítulo consiste na análise e apresentação dos dados recolhidos ao longo da investigação. Desta forma, começa-se por elaborar uma caracterização sociodemográfica dos entrevistados. Após este momento constrói-se a caracterização do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração através da definição dos seus objetivos, da sua pedagogia, da sua organização e das dificuldades que têm sido encontradas. Posteriormente analisa-se o perfil-tipo dos alunos do projeto, o seu modo de integração e os resultados que têm surgido. De seguida, explora-se a questão dos encarregados de educação e a sua participação na Orquestra Geração. No que diz respeito aos professores é abordada a sua formação e a sua integração na Orquestra. Elabora-se, também, uma análise sobre as formas de comunicação e divulgação das atividades do projeto. É, igualmente, referida a recetividade que tem surgido em relação à Orquestra Geração de Amarante. Por fim, explora-se a relação do entrevistado com o projeto, mais concretamente, a sua opinião, a sua experiência pessoal, o balanço que faz e os momentos mais marcantes. 3.1. Caracterização sociodemográfica dos entrevistados No que diz respeito ao sexo dos entrevistados (Quadro 3.1) observa-se uma predominância do sexo masculino (58.3%) em relação ao sexo feminino (41.7%). Quadro 3.1: Distribuição por sexo dos entrevistados, em percentagem Na distribuição por grupo etário dos entrevistados (Quadro 3.2) observa-se que mais de metade (58.3%) se situa entre os 30 e os 44 anos de idade, entre os 20 e os 29 anos existem 16.7% de indivíduos e entre os 45 e os 65 anos 25.0% dos sujeitos entrevistados. Sexo % de entrevistados Masculino 58.3 Feminino 41.7 Total 100 Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 46 Quadro 3.2: Distribuição por grupo etário dos entrevistados, em percentagem Grupo etário % de entrevistados 20-29 anos 16.7 30-44 anos 58.3 45-65 anos 25.0 Total 100 No quadro 3.3 apresenta-se o local de residência dos entrevistados, onde se observa que a maioria (75.1%) reside em Amarante, depois aparecem mais três municípios com a mesma percentagem (8.3%) sendo eles Lousada, Marco de Canaveses e Vila Nova de Gaia. O que indica que todos os entrevistados vivem na Área Metropolitana do Porto. Quadro 3.3: Local de residência dos entrevistados, em percentagem Local de residência % de entrevistados Amarante 75.1 Lousada 8.3 Marco de Canaveses 8.3 Vila Nova de Gaia 8.3 Total 100 Quanto ao grau de escolaridade dos entrevistados (Quadro 3.4) destaca-se o facto de a maioria (75.0%) ser licenciado, no minino os entrevistados têm um Bacharelato (8.3%) e 16.7% possuem o grau de mestre. Quadro 3.4: Grau de escolaridade dos entrevistados, em percentagem Grau de escolaridade % de entrevistados Nenhum 0 Ensino básico (1º e 2º ciclo) 0 Ensino básico (3ºciclo) 0 Secundário 0 Ensino médio/ Bacharelato 8.3 Pós-graduação/Curso de especialização 0 Licenciatura 75.0 Mestrado 16.7 Doutoramento 0 Total 100 Por fim, na profissão principal dos entrevistados (Quadro 3.5) destaca-se que mais de metade (58.4%) são professores e há uma distribuição igualitária de 8.3% por outras profissões. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 47 Quadro 3.5: Profissão principal dos entrevistados, em percentagem Profissão principal % de entrevistados Professor 58.4 Advogado 8.3 Psicólogo 8.3 Músico 8.3 Diretor Centro Cultural de Amarante 8.3 Diretor Agrupamento de Escolas 8.3 Total 100 3.2. Caracterização do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração. Objetivos, pedagogia, organização e dificuldades O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração surgiu em 2010, através de um protocolo entre a Fundação EDP, o Conservatório Nacional de Música e o Centro Cultural de Amarante. O modelo visa o ensino de música a alunos que se encontram em contextos de risco, pretende, por isso, incutir nos alunos determinadas características como a responsabilidade, o saber trabalhar em grupo, a aprendizagem de um método de estudo, com vista a torná-los mais extrovertidos e com uma maior autoestima, de forma a ser possível a sua inclusão social. Consequentemente, a inclusão social é o grande objetivo delimitado pelo projeto, no entanto, a correta aprendizagem musical não é descurada, o que torna, também, importante que os alunos aprendam corretamente e desenvolvam as suas capacidades musicais. Mas é reforçado, pelos entrevistados, a questão de não pretenderem formar músicos profissionais, o projeto pretende que os alunos não abandonem a escola e com isso conseguir a sua inclusão social. A Orquestra tem como base um programa estipulado pelo Conservatório Nacional de Música, que determina os objetivos que devem ser cumpridos em cada período. Para além do trabalho desenvolvido ao longo dos períodos, no final de cada um é realizado um estágio que culmina com uma apresentação pública. Em relação à participação da Fundação EDP esta deve-se ao apoio que é dado à empresa mãe EDP, que construiu uma barragem em Fridão, Amarante, por isso o projeto surge como uma forma de compensar a população pelos impactos negativos que dela possam surgir. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 54 sinalizados pela escola. Após esta fase de prévia seleção os alunos são indicados ao Centro Cultural de Amarante para realizaram workshops, supervisionados pelos professores, para perceberem quais são os alunos com aptidões musicais e para definir os instrumentos para cada um. Este processo é elaborado, porque existem mais alunos interessados e sinalizados do que vagas para a Orquestra. Outro objetivo delimitado prende-se com a compreensão do contexto familiar e social dos alunos da Orquestra. Assim, foi possível entender que estamos perante alunos com problemas económicos, em risco de abandono escolar, com problemas familiares, estando alguns sinalizados pela Comissão de Proteção de Menores e com problemas de comportamento. Quadro 3.15: Modo de integração e perfil-tipo dos alunos da Orquestra Geração de Amarante Modo de integração e perfil-tipo dos alunos Sexo feminino, 30 anos, professora: “(…) alguns miúdos têm dificuldades pelo facto de saberem estar (…)” Sexo feminino, 27 anos, professora: “(…) são miúdos com problemas, quer económicos, quer sociais, que estão em risco de abandono escolar e, por exemplo, no nosso caso aqui em cima eles são quase todos sinalizados, já têm acompanhamento e essas coisas todas (…)” Sexo feminino, 31 anos, professora: “(…) são alunos que estão sinalizados pelos diretores de turma, são referências dadas pela psicóloga que vão ao encontro das metas que estão estipuladas no projeto sempre” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “(…) quem faz a seleção são os professores (…) a escola já tem alunos problemáticos que estão sinalizados nas escolas, a psicóloga e o diretor de escola dizem (…) os alunos que necessitam de apoio, que se calhar a música lhes fazia bem, fala-se com eles, vê-se com os pais, vê-se se eles estão interessados ou não, faz-se a inscrição, em função das inscrições é feita uma avaliação de capacidades para a música (…) e, em igualdade de circunstancias e de sobretudo problemas os professores fazem a apreciação (…)” Sexo masculino, 46 anos, diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso: “ (…) Com base quer no processo do aluno, quer nos antecedentes, quer nos alunos com problemas familiares que têm processos na Comissão de Proteção de Menores, quer pelos próprios diretores de turma que, por vezes, isso acontece, frequentemente têm todos conhecimento do projeto e sinalizam esses alunos como constituindo, para eles, uma mais-valia para poderem-se integrar, porque têm problemas de comportamento, muitos deles têm problemas de comportamento (…)” Sexo feminino, 35 anos, psicóloga: “Eu já estou nesta escola há 6 anos e, por isso, conheço bem o ambiente da realidade escolar. Por isso, na altura sinalizei os alunos com mais dificuldades, com ambiente desestruturado, com mais dificuldades (…) a nível de aprendizagem, com nível socioeconómico baixo (…) Também tem a ver com os critérios do projeto.” O projeto Orquestra Geração de Amarante visa o ensino de música clássica a alunos em risco de abandono escolar, mas para além desta valência principal, o programa oferece aos seus alunos acompanhamento psicológico, feito através da psicóloga do Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso. Oferece, igualmente, transporte para as aulas ao sábado no Centro Cultural de Amarante e atividades extracurriculares como, por exemplo, concertos. Ao sábado é, também, assegurado um lanche para cada aluno e, quando necessário, almoço. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 55 Quadro 3.16: Apoio dado aos alunos do Projeto Orquestra Geração de Amarante Apoio dado aos alunos Sexo feminino, 31 anos, professora: “Além do ensino da música gratuito nós fazemos um trabalho, aliás, nós temos uma psicóloga que faz um trabalho fantástico com eles, todas as vezes que há qualquer tipo de problema ela tenta resolver, a nível de famílias também, quando há um miúdo que se queixa ou acontece alguma situação em casa, nós temos situações um bocadinho graves na orquestra, miúdos que têm um contexto familiar muito grave e estão numa posição social não muito boa, não muito favorecida os próprios pais vêm falar com a psicóloga, vêm falar comigo muitas vezes, pronto, nós tentamos ajudar da melhor maneira.” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “(…) psicológico e, também, o aluno limitase a vir cá, nós vamos buscá-los a casa, levamo-los a casa, damos um suplemento alimentar (…) o almoço sempre que necessário (…)” Ao nível dos resultados da Orquestra definiu-se como objetivo: conhecer o impacto da Orquestra Geração de Amarante na vida dos alunos. Desta forma, a partir das observações foi possível visualizar uma postura diferenciada entre o momento em que os alunos estão a tocar e o momento em que não estão. Durante o momento em que tocam os alunos mantêm uma postura séria, manuseiam o instrumento de forma cuidadosa e seguem as indicações que vão sendo dadas. As mudanças que os entrevistados referem são comportamentais, pessoais e escolares, ou seja, os alunos passam a gostar das aulas, empenham-se, tornam-se mais responsáveis, ficam menos agressivos e tornam-se mais calmos, a sua autoestima aumenta, na escola mudam o seu comportamento e as notas melhoram, o que reflete que estas mudanças não se limitam ao contexto da Orquestra. A nível musical há uma evolução positiva, apesar do objetivo primordial do projeto não ser a criação de músicos, os alunos têm tido uma evolução positiva neste sentido e alguns querem mesmo seguir uma profissão ligada à música. É, desta forma, possível perceber que existe um impacto positivo na vida dos alunos que se reflete no campo escolar, mais concretamente no facto dos alunos deixarem de estar em risco de abandono escolar, pois as notas e a motivação escolar são pontos que melhoram com a sua presença na Orquestra Geração. Os alunos passam a integrar a comunidade escolar de uma forma positiva e acabam por se destacar. Perante este cenário é possível entender que o ensino musical, devido às suas características, permite chegar a uma mudança no que diz respeito ao abandono escolar, mais concretamente à inclusão social. O projeto vai para além do ensino musical, aquilo que é ensinado pode ser apreendido pelos alunos para outros campos da sua vida, em especial na área escolar. No entanto, para chegarem a estes resultados é necessário, para além de uma pedagogia alternativa, que consiste nos alunos começarem logo a tocar, ou seja, a terem contacto imediato com o instrumento e os seus sons e só depois partirem para a teoria, os Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 56 entrevistados dizem que é necessário mostrar aos alunos que são capazes de executar as tarefas, através de um reforço positivo, para que os alunos fiquem motivados. Quadro 3.17: Perfil, atitude e modalidades de interação dos alunos em concerto Alunos Perfil-tipo Obs nº4: Idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos; Na maioria são raparigas Atitude no espaço Obs nº4: Durante a apresentação mantiveram uma postura direita, olhavam para a maestrina para seguir as suas ordens e para as pautas Obs nº5: Demonstram algum nervosismo; Manuseiam as pautas e os instrumentos com facilidade; Olham para o maestro à espera de indicações Modalidades de interação Obs nº4: Os alunos durante a apresentação não interagiram entre eles, a única interação era com a maestrina que lhes ia dando ordens Obs nº5: Vão olhando para os professores e para o público; Mantêm uma postura correta durante toda a atuação Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 57 Quadro 3.18: Mudanças dos alunos da Orquestra Geração de Amarante Mudanças Sexo feminino, 30 anos, professora: “(…) eles gostam muito (…) mais das aulas de grupo, mas há de tudo, por acaso tenho duas miúdas super empenhadas e noto que querem fazer disto a vida delas (…)”; “(…) noto muitas diferenças, noto, de facto, que eles estão mais empenhados, têm evoluído (…)” Sexo feminino, 27 anos, professora: “Não tem nada a ver com os miúdos que começaram há um ano e tal atrás, não tem nada a ver, quer a nível de comportamento, quer a nível de responsabilidade, quer a nível de atitude, temos o feedback lá em cima da escola, que se não forem todos, mas a maior parte deles mudou completamente os comportamentos (…) a nível de notas melhoraram imenso.” Sexo masculino, 26 anos, professor: “Eu acho que tento sempre motivar (…) Como é que eu tento motivar? Ora bem, eles já são bloqueados, não é? Porque eles pensam que têm todas dificuldades e mais algumas (…) E eu tento desbloquear isso através do demonstrar pela prática, eles automaticamente ao eu mostrar que eles são capazes e ao eles conseguirem atingir aquele objetivo numa determinada peça eles desbloqueiam automaticamente (…)”;“Atitudes principalmente, atitudes (…)” Sexo masculino, 34 anos, professor: “Acho que é sentir os alunos, respeitar e saber quais são os gostos deles conhecendo aprofundadamente cada ser o humano que a gente consegue cativar (…)”;“Num deles noto que está bastante certinho, já o era mas ficou mais calmo o outro era muito, era muito agressivo, está muito mais concentrado e mais enquadrado, porque são primos os dois e é engraçado, é coincidência (…) estão mais unidos, eles não se davam muito bem (…)” Sexo feminino, 31 anos, professora: “(…) sim, eles são muito motivados , por exemplo, até agora não podem, não podem levar as flautas para casa, mas todos os sábados eles vêm ao Centro Cultural para ensaiar, são muito motivados.” Sexo masculino, 30 anos, professor: “Ao início foi estranho, porque o aluno já tem alguma idade, apesar de já ter reprovado… Tive de o habituar a algumas coisas. Parecia um miúdo que trabalhava, sempre com as mãos frias, isto são fatores que dificultam tocar o instrumento.”; “Tenho tido muita recetividade, o aluno que tenho quer trabalhar, mesmo em comparação com os outros do ensino regular, ele quer trabalhar mais.”; “…é um aluno que está sempre sossegado, como está sozinho é calado, faz perguntas, pede muitas vezes desculpa e quer fazer logo bem.”; “A relação que é mantida com o aluno é de proximidade, não existe a distância normal professor-aluno, por exemplo existe sempre um aperto de mão.” Sexo masculino, 34 anos, músico: “Há uma evolução, claro de qualidade, há uma evolução, ainda começaram há pouco tempo, penso que eles têm interesse em evoluir e fazer mais, claro que estão sempre a perguntar quando é que se juntam com a orquestra de cordas e querem levar os instrumentos para casa que ainda não levam (…)” Sexo feminino, 31 anos, professora: “O comportamento para mim é a primeira (…) o comportamento é uma das coisas mais visíveis (…) a orquestra ajuda a discipliná-los, ajuda a saber estar, ajuda a cumprir regras, se não estiveram não conseguem fazer o trabalho de grupo, o espírito de grupo também é uma das coisas fundamentais (…) e depois muitos deles o sucesso escolar, muitos deles tinham bastantes negativas (…) mas o comportamento e o aproveitamento sim.”; “(…)Posso dizer que a vida deles mudou mesmo muito, passaram a ter uma forma diferente de estar na vida, a forma de se comportarem, passaram a ter outro tipo de responsabilidades (…)” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “(…) eles eram, normalmente, alunos segregados nas escolas e nesta altura na escola (…) vêem-se a tocar o instrumento, de repente rodeados dos colegas (…) Deixaram de ser apenas mais um alunos da escola ou até menos um e passaram a ser reconhecidos e admirados pelos colegas (…) E isso é motivador, eles motivam-se com isso, pois quando começam logo a tocar estão logo motivados (…) A motivação é feita naturalmente (…) são motivados porque gostam (…)”;“(…) em termos de comportamento é excelente, porque a música obriga à disciplina, ao espírito de equipa, ao espírito de grupo, começam a saber trabalhar em grupo. Há a responsabilidade, há a pontualidade (…) disciplinares e, também, em termos de disciplina de comportamento (…) A diferença é abismal, que dizer os alunos que não tinham regras absolutamente nenhumas, nem sabiam estar, aqui no conservatório de música eu já nem sei quem são os alunos que estão no ensino articulado ou (…) quem são os alunos da Orquestra Geração, enquanto ao princípio os alunos da Orquestra Geração eram notados pela negativa (…)” Sexo masculino, 46 anos, diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso: “Os alunos (…) em termos de comportamento alteram radicalmente, nota-se isso, principalmente, naqueles alunos com os tais problemas de comportamento, hiperativos, irrequietos, alunos que ficam mais responsáveis, muito mais responsáveis, ficam mais afáveis, o poder de comunicação deles também melhora significativamente, sabem estar, a integração deles na turma é muito mais facilitadora e ao mesmo tempo em termos de notas também tem melhorado.” Sexo feminino, 35 anos, psicóloga: “(…) mais motivados, com uma maior autoestima (…) também a nível comportamental na sala de aulas, são mais responsáveis. (…) No geral uma melhoria positiva.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 58 3.4. Os encarregados de educação: participação e representações Nesta investigação propusemo-nos perceber quais são as representações sociais dos encarregados de educação em relação à participação dos seus educandos na Orquestra, no entanto, não é possível explorar esta questão visto não ter sido possível realizar as suas entrevistas. Mediante este cenário, em relação a este objetivo, a sua análise é feita a partir das entrevistas realizadas a outros intervenientes do projeto, uma vez que nestas estavam definidas questões concretas sobre os encarregados de educação. Num primeiro momento os encarregados de educação mostraram-se apreensivos em relação ao projeto Orquestra Geração de Amarante, estavam reticentes em relação ao trabalho que podia ser desenvolvido. Com o decorrer do projeto os encarregados de educação foram conhecendo melhor os objetivos que o norteavam e passaram a acompanhar a evolução dos seus educandos, mostrando-se interessados e acompanhando as apresentações públicas e o trabalho que é desenvolvido ao longo do ano letivo. O que nos leva a perceber que é possível que a atitude dos encarregados de educação tenha mudado. Apesar desta melhoria nesta área ainda há trabalho a ser desenvolvido, a comunicação com a família é, por vezes, difícil, o que se observa na lacuna de comunicação entre professores e encarregados de educação, tornando necessário, segundo parte dos entrevistados, alguém que possa fazer a comunicação entre a Orquestra Geração e os encarregados de educação. Quadro 3.19: Público das apresentações da Orquestra Geração de Amarante: perfil-tipo, atitude no espaço e modalidades de interação Público Perfil-tipo Obs 4: Na maioria pais dos alunos Obs nº5: Funcionários do Centro Atitude no espaço Obs nº4 O público está muito perto da orquestra, pois é uma sala de proporções pequenas, devido à grande afluência da assistência. Os que estavam sentados alguns prestavam atenção à apresentação, mas outros continuaram a falar entre eles; O público que estava de pé falava e fazia barulho, alguns professores que estavam na assistência tentavam pedir para fazerem pouco barulho, mas sem sucesso; Ao lado do observador encontram-se duas encarregadas de educação de alunos da orquestra, estão num sítio destinado a professores, no entanto, pedem para se manterem no local apenas para verem a apresentação da orquestra Obs nº5: Não fazem barulho Modalidades de interação Obs nº4: O público troca comentários entre si, em especial os que se encontram de pé. Existe um ruído bastante grande, em especial vindo dos corredores Obs nº5: Ouvem-se expressões como “Muito bem!” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 59 Quadro 3.20: Encarregados de educação do projeto Orquestra Geração de Amarante Encarregados de educação Sexo feminino, 30 anos, professora: “Eu não tenho nenhuma relação com os pais, não tenho nenhum contacto (…) quer dizer, eu vou lá, dou as minhas aulas, conhecem-me dizem olá, boa tarde mas não passa daí.”; “Eu acho que eles sentem mesmo orgulho, eu acho que sim (…)”;“Eu acho que os pais também fazem a pressão para eles aqui estarem.” Sexo feminino, 27 anos, professora: “(…) mas já aconteceu vir um pai ou outro dizer ó professora ele está completamente diferente, já estuda, está motivado e as notas, isso já aconteceu a alguns (…)”;“(…) Eles quando fazem concertos (…) fica tudo cheio, vêm os pais todos atrás dos miúdos e amigos e vizinhos como se fosse quase aquele gosto, o meu filho está ali e que, se calhar, até na altura não acompanhavam muito a nível de escola e essas coisas e começam a ter interessados (…)” Sexo masculino, 26 anos, professor: “(…) não conheço pais de ninguém.” Sexo masculino, 34 anos, professor: “Os pais, no início como estavam ainda a inteirar-se, não é? Um deles foi um bocado complicado, mas com a ajuda da coordenadora resolvemos o problema rápido.” Sexo feminino, 31 anos, professora: “(…) sei quando fazemos concertos os pais apareceram (…)” Sexo masculino, 30 anos, professor: “Não sei muito bem… Mas no outro dia a coordenadora disse que a mãe vê melhorias no filho.” Sexo masculino, 34 anos, músico: “Se calhar quem pode responder a isso é a coordenadora, porque lida diretamente com os pais (…)” Sexo feminino, 31 anos, professora: “Os pais (…) quando lhes foi apresentado o projeto, começaram ok, será que é, será que não é? Pronto eu vou deixar ir nem que seja para ele se entreter (…)”; “(…)muitos deles que não apareciam na escola, nem sequer punham os pés na escola para saber informações dos filhos, começaram a aparecer porque eles gostam de ver os miúdos a tocar (…) para eles é um orgulho (…) começaram a acompanhar a vida escola dos seus filhos.” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “Conseguimos, também envolver os pais no projeto (…) temos tido resultados excelentes (…) eles já são mais participativos na escola, já vão saber qual o aproveitamento e comportamento dos filhos, que não acontecia antes. Vêm aqui muitas vezes contar-nos como é que eles se comportam (…) Assumiram a responsabilidade, também, dos miúdos levarem instrumentos para casa, assinaram um documento a dizer que são eles que são responsáveis (…)”; “Uma das lacunas que temos, neste projeto, é não ter uma assistente social que trate da parte familiar (…)” 3.5. Os professores da Orquestra Geração: formação e integração Os professores que lecionam na Orquestra têm uma formação inicial no Conservatório de Música e são selecionados para o projeto através de um concurso em que é escolhido aquele que melhor se adapta aos pré-requisitos delimitados. O projeto define que, para além da formação inicial no Conservatório de Música, os professores para lecionarem na Orquestra Geração têm de fazer uma primeira formação intensiva em Lisboa, onde é explicada a pedagogia e os objetivos presentes e durante o ano têm de continuar a participar em diversas formações. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 60 Quadro 3.21: Formação e seleção dos professores da Orquestra Geração de Amarante Professores: formação e seleção Sexo feminino, 31 anos, professora: “Os professores são professores do Centro, a maior parte deles, os outros professores que não são do Centro que (…) nós sabemos por referência convidamos (…) mas, geralmente, são professores do Centro que já estão cá e que têm se mantido (…)”;“A formação que nós todos temos é a nossa formação de música, só que nós todos temos que fazer formação antes de iniciar o projeto. Tivemos uma formação intensiva em Lisboa que nos foi explicada, o tipo de pedagogia que nós tínhamos de aplicar e durante o ano fazemos várias formações (…)” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “ (…) nós não selecionamos, os professores que estão na Orquestra Geração, são os professores do ensino articulado. Como são professores do ensino articulado já têm que ter determinadas aptidões para o ensino obrigatoriamente (…) em 4 ou 5 professores é visto o perfil de cada um e aquele que se adapta. É explicado o projeto, qual é o objetivo do projeto (…) Depois eu e a coordenado pedagógica vemos (…) qual é aquele que tem o perfil para integrar o projeto (…)”;“ (…)a formação dos professores, porque isto é um projeto que tem uma estratégia própria, completamente diferente daquela que é implementada no nosso ensino. É um ensino que parte mais do mais geral para o particular, os alunos começam logo a tocar.” 3.6. Comunicação e divulgação das atividades do Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração No que diz respeito à divulgação das atividades extracurriculares da Orquestra Geração de Amarante é feita, essencialmente, através do facebook e do site do projeto, mas o meio de comunicação mais usado é a divulgação verbal. Quadro 3.22: Comunicação e divulgação das atividades da Orquestra Geração de Amarante Comunicação e divulgação das atividades Sexo feminino, 31 anos, professora: “Geralmente quem nos convida divulga sempre (…) E depois nós também através do nosso site, através do facebook e depois os miúdos também (…)” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “Nós, penso que é uma falha que temos no aspeto da divulgação (…) mas é verbalmente (…) é com as apresentações que fazemos aqui no concelho, nas escolas e as pessoas começam a saber que existe a Orquestra. (…) E começam-nos a convidar, sempre que há uma atividade nós publicamos nos jornais, na rádio e a televisão (…) E através do nosso site também.” 3.7. Recetividade da Orquestra Geração de Amarante A recetividade de todas as partes envolvidas no projeto tem sido, no geral, positiva, segundo os entrevistados. Os professores inicialmente ficaram apreensivos por causa da metodologia, mas rapidamente se adaptaram. Por seu turno, a comunidade local é a parte que se apercebe menos da existência da Orquestra, devido ao facto das apresentações públicas serem realizadas para os pais e para as crianças, porque o objetivo principal não é o reconhecimento do público, mas a integração dos alunos. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 61 3.23: Recetividade do projeto Orquestra Geração de Amarante Recetividade Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “ (…) a comunidade é exatamente aquela que menos se apercebe (…) porque as audições e as apresentações que fazemos e os concertos que fazemos, normalmente são virados para os miúdos (…) e quando fazemos aqui no conservatório vêm os pais (…) fica lotado o auditório.” Sexo masculino, 60 anos, advogado: “ (…) interessa-me mais a integração dos miúdos e nesse aspeto tem sido ótima (…) A comunidade está sempre aberta a receber com aplauso estas iniciativas, mas nós não podemos esquecer o objetivo fundamental (…) é formar pessoas, é integrar miúdos, crianças já com uma certa idade, evidentemente… fazer essa integração social para que se sintam parte de um projeto social na respetiva autarquia, na respetiva zona da sua residência, isso é o que me interessa. Interessa-me é que depois os pais também vejam as crianças e que eles próprios também se sintam envolvidos no processo e isso é que é o fundamental e depois a partir daqui, evidentemente, há alguns que vão gostar tanto da música que vão tentar seguir uma via profissionalizante nesta área, é ótimo (…)” 3.8. Relação do entrevistado com o projeto: opinião, experiência pessoal, balanço e momentos mais marcantes Os entrevistados quando questionados sobre o ensino da música como forma de inclusão social afirmaram que esta é uma alternativa viável. A música corresponde a uma linguagem universal que pode contribuir para a integração, a partir do desenvolvimento de várias competências como a responsabilidade e o trabalho em grupo. Ao mesmo tempo, os alunos passam a conhecer e a desenvolver uma vertente musical e cultural e sentem-se mais apoiados e acompanhados. Quadro 3.24: Opinião dos entrevistados sobre a inclusão social através da música Opinião sobre a inclusão social através da música Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “ (…) nunca me tinha apercebido, sinceramente, que a música podia contribuir para a inclusão social (…) Foi uma surpresa realmente agradável e que ultrapassou as minhas expetativas, por na verdade (…) nós aqui no Centro fazemos audições com os nossos alunos e com os alunos da Orquestra Geração em articulação. Portanto, eles estão perfeitamente integrados aqui na escola e a música tem contribuído para isso, porque a música é universal (…) Claramente, que a música é uma linguagem única.” Sexo masculino, 46 anos, diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso: “ (…) Isto está ser um projeto que eu espero que não pare, o meu medo é que, neste momento, pare porque temo que as parcerias acabem atendendo ao atual momento, se vão escusando, penso que promove mesmo a inclusão destes alunos, estes alunos sentem-se diferentes, sentem-se muito mais apoiados, têm uma retaguarda que eles por vezes não têm em casa e que por vezes lhes é dada quer pelos professores aqui, quer no centro e a própria música (…) eu sempre disse, não sendo eu um homem da música, mas este projeto e a escola têm-me ajudado a gostar e, pelo menos, a perceber mais de música, principalmente de música clássica. Eu acho que as artes, no global, neste caso especifico a música que ajudam (…) todas as escolas deviam ter a oportunidade de ter estes projetos, estes projetos aliados aos processos de ensino-aprendizagem (…)”; “(…) não é só pelos alunos gostarem da música e terem agora jeito para a música, incute-lhes muitas maiores responsabilidades, cumprem horários com maior facilidade, também são alunos mais vivos, são alunos que acho que a cultura deles aumenta efetivamente e todos deveriam ter a oportunidade na escola.” Sexo masculino, 60 anos, advogado: “Eu acho que é ótimo (…) a música em conjunto é harmonia, é paz, enfim, essa unidade, é ordem não imposta (…) E, sobretudo, dá-nos (…) a noção de que nós devemos estar todo sintonizados todos uns com os outros… numa orquestra, para além do concertino, quem quiser evidenciar-se, evidencia-se pela negativa, não pela positiva (…)têm que trabalhar todos pela causa comum e quando não há uma grande sintonia entre eles quem se destaca, destaca-se pela negativa, desafina (…) portanto, acho que é um veículo muito interessante para a integração.” Sexo feminino, 35 anos, psicóloga: “(…) a música (…) permite-lhes desenvolver outro tipo de competências.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 62 A nível pessoal os entrevistados referem que tem sido uma experiência positiva e que os tem surpreendido, pois viram a música surgir como uma esperança de inclusão social para alunos de estratos sociais menos favorecidos e começaram a ter mais consciência de uma realidade com a qual não tinham um contacto direto. Por outro lado, ao verem o resultado do trabalho dos alunos sentem-se orgulhosos e emocionados, porque conseguem notar várias diferenças. Quadro 3.25: Experiência pessoal dos entrevistados na Orquestra Geração de Amarante Experiência pessoal Sexo feminino, 31 anos, professora: “Para mim tem sido excelente (…) os professores na escola tinham muito a noção deste tipo de realidades que existem com as crianças e que não existem, temos muito essa perceção, mas estando no projeto eu tenho a perceção total (…) A realidade que, às vezes, sabemos que elas acontecem mas não estão tão próximas, de repente passaram a estar próximas de mim (…)” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “A nível pessoal (…) como diretor da escola na 1ª, na 2ª e na 3ª apresentação vieram-me as lágrimas aos olhos (…) miúdos de estratos sociais péssimos, do pior que há (…) e vi aquilo os miúdos que não tinham esperança (…) em termos de projetos individuais (…) há aqui uma possibilidade de trabalho futuro deles e, para além disso, (…) a alegria deles em participar (…) Portanto, vi miúdos que não tinham perspetiva nenhuma, porque conversei com eles e com a família e que de repente aparecem em palco a serem admirados (…)” Sexo masculino, 46 anos, diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso: “ (…) tem sido, eu costumo dizer e tenho muito orgulho enorme que esta geração (…)gosto de os acompanhar e gosto de estar presente e sinto-me (…) por vezes, até me sinto emocionado (…)então quando vi aquela evolução do trabalho, eu lembro-me no primeiro e segundo ensaio na escola que aquilo era um alvoroço, era uma confusão, a maestrina entrou em pânico (…) agora assistir à preparação dos concertos deles, assistir àquele momento preparatório dos concertos que eles fazem um silêncio absoluto, são eles próprios aqui em relação aos colegas que pedem esse silêncio e os colegas aqui na escola também apoiam muito a orquestra geração e conseguem manter.” Os momentos que os entrevistados recordam como mais marcantes são as primeiras apresentações da Orquestra Geração, em que os alunos com poucos ensaios tiverem ótimas prestações. Alguns destacam situações de maior proximidade, acontecimentos apenas só com um aluno que os marcou, no entanto, é de salientar que os entrevistados não se sentiram muito à vontade com estas situações, não sabendo como agir. Isto revela, como foi dito por eles, a necessidade de uma psicóloga que os possa ajudar no sentido de perceberem como lidar com este tipo de situações. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 63 Quadro 3.26: Momentos mais marcantes dos entrevistados no projeto Orquestra Geração de Amarante Momentos mais marcantes Sexo feminino, 30 anos, professora: “ (…) Lembro-me quando fui a Lisboa… foi por acaso a visita do Cavaco e uma miúda estava constantemente a chorar e, de certa forma, ajudei-a e não tinha nada a ver com aquilo, ajudei-a e ela chorava, porque achava que tinha um problema grave de saúde (…) não teve a ver propriamente com o projeto, mas nós no fundo somos psicólogos dos miúdos e falamos com eles e brincamos muito.” Sexo feminino, 27 anos, professora: “O concerto lá em baixo em Lisboa (…) o ano passado, nós não tínhamos começado assim há tanto tempo e fizemos a junção das orquestras todas (…) aquilo estava imenso, estava cheio, a Aula Magna estava completamente cheia e estavam montes de miúdos e foi gratificante (…) a nossa era das mais novas, a nossa daqui e a de Mirandela, nós fizemos um programa separado cada um e depois juntamos numa música todas, o que é certo é que aquilo estava imenso, estava cheio, a Aula Magna estava completamente cheia com montes de miúdos e correu tudo muito bem e foi gratificante, foi uma das primeiras vezes que fomos completamente a outra zona, ter com as outras pessoas, as outras Orquestras Geração, convidados e foi gratificante, porque a nossa era uma das mais novas e tivemos excelentes resultados, eles acabaram de tocar e toda a gente se levantou a aplaudir (…) nessa e na do Presidente (…)” Sexo masculino, 26 anos, professor: “Houve uma vez em que, tenho um aluno bastante problemático, bastante mesmo, qualquer coisa e ele faz asneiras, ele não tá bem quieto e houve uma vez que pronto, armou confusão na orquestra, na aula de orquestra e na aula seguinte eu falei com ele, com ele não, falei com eles, tive naipe e falei com os três, conversei com eles muito seriamente e expliquei que tudo na vida tem o seu retorno, falei da teoria do caos (…) Que tudo aquilo que nós fazemos é-nos devolvido, falei em vários tipos de coisas, falei em vários tipos de exemplos que violência só traz violência, que se eles responderem aos berros, só vão ter alguém que só lhe responda aos berros, se eles derem uma bofetada, a única coisa que vão ter de volta é uma bofetada e tive assim uma grande conversa com eles e eu fiquei muito contente que na aula seguinte esse aluno virou-se para mim e professor esta semana (…) não bati em nenhum colega meu (…) mas sabes porque é que não bati? Porque me lembrei das suas palavras (…)” Sexo masculino, 30 anos, professor: “A situação mais marcante foi quando o aluno agradeceu no fim de uma aula, quando começou a tocar as primeiras músicas. Senti uma enorme satisfação! Porque não tinha sido uma aula nada de especial. Fiquei sem reação… É que nos que pagam não agradecem.” Sexo feminino, 31 anos, professora: “ (…) eu gostei logo da nossa apresentação do projeto de orquestra, foi aí que eu vi, que este trabalho iria para frente e nós poderíamos acreditar que realmente o projeto iria ter sucesso, que ia ter futuro, depois gostei muito de o ano passado ter ido com os miúdos para Lisboa, porque eles nunca tinham ido a Lisboa, partilhar com eles essa experiência (… )gostei muito do concerto da Aula Magna, acho que foi espetacular, eles tiveram lá um momento muito marcante e depois no final tocaram (…) gostei também muito do nosso concerto para o Presidente da República na Fundação EDP, acho que foi marcante porque acho que eles portaram-se mesmo muito bem (…) foram capazes de fazer, de cumprir com o objetivo que eles tinham combinado connosco, de forma muito boa até (…)” Sexo masculino, 63 anos, diretor executivo Centro Cultural de Amarante: “Tenho dois momentos que foram marcantes. O primeiro quando fomos à Aula Magna (…) e que estava absolutamente cheia (…) Nós estávamos no 1º ano (…) Nós fomos a última orquestra a ser apresentada com as do 1º ano e (…) acabou de tocar a nossa e as (…) pessoas que estavam lá levantaram-se a bater palmas. Portanto, isso foi para mim um motivo de orgulho (…) A outra foi quando fomos escolhidos (…) fazer o encerramento de uma conferência no Museu da Eletricidade (…) Aí também me emocionei bastante.” Sexo masculino, 46 anos, diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso: “Quando nós tivemos a oportunidade de… foi lá em cima no Centro Cultural de no programa do canal 1, do programa da tarde, tivemos a oportunidade de atuar (…) eu, enquanto diretor, falar desta experiência foi um momento marcante e para nós, enquanto diretores, nos realizam e muito e nos incentivam a continuar a apostar neste tipo de projetos.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 70 interesse não se manifesta apenas no que diz respeito à Orquestra, passam a acompanhar a vida escolar dos alunos. O Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração foi implementado devido à iniciativa da Fundação EDP que se aliou ao Conservatório Nacional de Música e ao Centro Cultural de Amarante. Assim, estamos perante uma situação de mecenato cultural de empresa, uma vez que uma entidade privada toma a iniciativa de criar um projeto ligado à inclusão social, o que implica a intervenção de privados em questões sociais que, normalmente, estão a cargo do Estado. Consequentemente, o mecenato cultural de empresa é uma “doação, aquisição ou empréstimo de bens culturais (…) a particulares e instituições de utilidade pública; promoção e comparticipação em iniciativas de âmbito cultural (…); atribuição de prémios, bolsas e financiamento directo de projectos (…); intervenção no património e edificação de imóveis como utilidade pública, etc.” (Santos; Conde, 1990, p.376). No entanto, tendo em vista os dados recolhidos, a participação da Fundação EDP deve-se ao apoio que é dado à empresa mãe EDP que construiu uma barragem em Fridão, Amarante, por isso o projeto surge como uma forma de compensar a população dos aspetos negativos desta construção. No caso específico da Orquestra Geração de Amarante estamos perante uma partilha da contribuição dos recursos pelas entidades que estão no projeto. O financiamento económico que permite, nomeadamente a compra de instrumentos, está a cargo da Fundação EDP que representa o mercado. Por seu turno, o Conservatório Nacional de Música promove o ensino da música e o Centro Cultural de Amarante representa a comunidade, tendo como responsabilidade toda a logística, como a contratação dos professores, a escolha dos alunos que integram a Orquestra, a organização das aulas e de outras atividades, a cedência das instalações e o transporte dos alunos e o ensino da música. A escola, também, representante da comunidade, cede as suas instalações para as aulas e proporciona aos alunos o acompanhamento por parte de uma psicóloga e transporte. Por fim, o Estado que não está representado oficialmente, mas a Câmara Municipal de Amarante contribui em pequenos aspetos. Neste contexto, existe uma rede onde todas as partes mobilizam recursos, é desenvolvido um trabalho conjunto com várias entidades da sociedade que, através de um projeto definido, tratam questões sociais abrangentes, neste caso a inclusão social. Apesar dos resultados positivos que o Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração tem conseguido alcançar, existem aspetos que devem ser melhorados. Em primeiro lugar, deve ser estabelecido um apoio para os professores, no sentido de puderem melhorar o seu relacionamento e comunicação com os alunos e deve ser desenvolvida, igualmente, uma Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 71 linha de comunicação entre a Orquestra, os professores e os encarregados de educação, para que haja uma aproximação destes últimos ao projeto e aos seus educandos de uma forma mais direta. Outra questão fundamental prende-se com a parceria com a Fundação EDP, tendo apenas uma entidade a financiar o projeto contribui para uma constante preocupação neste campo. Assim, a procura de novos parceiros torna-se importante para o crescimento da Orquestra e a sua ampliação a mais alunos. Por fim, no que diz respeita ao trabalho de investigação que ainda pode ser desenvolvido neste campo, chama-se a atenção para a necessidade de realizar as entrevistas aos encarregados de educação para perceber as perceções destes atores sociais em relação à Orquestra Geração, tal como a realização de entrevistas aos dois professores que não foram entrevistados. Por sua vez, uma maior permanência no terreno, através de observações diretas que irão permitir uma compreensão mais clara do impacto do projeto na vida dos seus atores sociais. Outro aspeto que consideramos que poderá ser desenvolvido está ligado à compreensão de possíveis mudanças nos alunos que não estão integrados na Orquestra Geração de Amarante, isto é, os alunos que não estão sinalizados pela escola como em risco de abandono escolar podem adotar comportamentos que estão de acordo com esta definição, na medida em que ao verem os colegas integrados num projeto musical lhes possa suscitar interesse de também fazerem parte da Orquestra. Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 72 Referências Bibliográficas Monografias ALMEIDA, João Ferreira de, coord. (2007) – Introdução à sociologia. Lisboa. Universidade Aberta. ISBN: 978-972-674-137-4. ARROTEIA, Jorge carvalho (1991) – Análise Social da Educação: Indicadores e Conceitos. Leiria: Roble Edições, Lda. AZEVEDO, Joaquim; SILVA, Augusto Santos; FONSECA, António Manuel (2000) – O Futuro da Educação em Portugal: Tendências e Oportunidades. 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O modelo original “Procura tirar partido da aproximação de crianças à música, para desenvolver competências pessoais e sociais, assumindo que, para além da relação directa com a música, o desenvolvimento de competências possa alargar-se à sociedade” (Elvas, 2010, p.293) . A adaptação da metodologia, a conceção do modelo de gestão e a formação dos professores tem o apoio de especialistas venezuelanos . A cargo da Escola de Música do Conservatório Nacional está a pedagogia e a conceção artística . Em janeiro de 2008 o projeto foi alargado ao agrupamento de Escolas da Vialonga, no início do ano letivo 2009/2010 juntaram-se ao projeto escolas de Loures, Oeiras, Sintra e Sesimbra . Em 2008/2009 foi implementado o naipe de sopros e em 2009/2010 o naipe de percussão Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 78 Anexo iiAnálise de conteúdo do “Relatório e contas 2011”, da Fundação EDP Características Orquestra Geração . Projeto iniciado em conjunto com a Fundação EDP e a Fundação Calouste Gulbenkian no Bairro Casal da Boba, na Amadora, mais concretamente na Escola Miguel Torga . Objetivo principal é “ser um contributo inovador para a inserção e desenvolvimento de crianças de meios sociais mais desfavorecidos através do ensino da música e que visa também aproximar a família da escola e vice-versa” (Fundação EDP, 2011, p. 42) . No Norte do país existem as Orquestras de Amarante, tutelada pelo Centro Cultural de Amarante, de Mirandela na Expoarte, e de Murça, situada na Escola Secundária . A Fundação EDP é mecenas exclusivo dos projetos de Amarante, Mirandela e Murça . No Natal, na Páscoa e no verão são realizados estágios regionais que juntam três orquestras de diferentes escolas . Uma vez por ano é realizado um estágio a nível nacional em conjunto com todas as orquestras . “A «Orquestra Geração» é um projeto que promove a inclusão social de crianças e jovens que se encontram em maior vulnerabilidade educativa e social, através do ensino da música clássica, com provas dadas na melhoria do desempenho escolar e no desenvolvimento de competências inter-relacionais, do seu sentido de disciplina e responsabilidade perante o grupo” (Fundação EDP, 2011, p.111). Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 79 Anexo iiiAnálise de conteúdo do artigo “Projeto Orquestra Geração” de António Laranjeira Lima Características Projeto Centro Cultural de Amarante: Orquestra Geração . A Orquestra Geração de Amarante iniciou-se em 2010, através de uma parceria entre a Fundação EDP, o Conservatório Nacional de Música e a Fundação EDP . A Orquestra a nível organizacional está dividida em três grandes momentos: no primeiro ano são introduzidas as cordas, no segundo ano os sopros e no terceiro ano os instrumentos de percussão . Tal como o modelo base, proporciona, gratuitamente, o ensino/aprendizagem de música a alunos inseridos em contextos de risco . Os grandes objetivos são: combater o abandono e o insucesso escolar; promover a inclusão social das crianças e jovens; promover o trabalho de grupo e disciplina, adicionando-lhe responsabilidade para uma melhor cidadania; promover a autoestima das crianças e das suas respetivas famílias, fazendo-as sentir-se parte do projeto; aproximar os pais do processo educativo dos filhos, fazendo com que estes se tornem numa parte integrante do processo de inclusão social dos filhos; contribuir para a construção de projetos de vida de crianças e jovens; proporcionar acesso a uma formação musical que, de outra forma, seria impossível para as crianças e jovens que vivem em contexto de exclusão social . Depois de assinado o protocolo entre as três entidades foi realizada uma reunião no Conservatório de Música de Lisboa onde foram delimitados os objetivos para o projeto e onde foi determinada a durabilidade do projeto em três anos renováveis, por qualquer uma das partes, com vista a chegar a mais alunos . Após esta primeira fase foi convidado o Agrupamento de Escolas Amadeo de SouzaCardoso onde foram escolhidos alunos, com base nos objetivos do programa, pela psicóloga do agrupamento . No primeiro ano foram selecionados 29 alunos através de um workshop realizado pelo Centro Cultural de Amarante e supervisionado pelos professores, com a finalidade de avaliar as capacidades musicais de cada aluno e definir os instrumentos a atribuir . Os alunos têm idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos . Os instrumentos de corda foram inseridos no primeiro ano, em 2010, com um total de 29 alunos distribuídos da seguinte forma: 14 violinos, 6 violoncelos, 6 violas d´arco e 3 contrabaixos . Em 2011 foram inseridos os instrumentos de sopro, por um total de 10 alunos distribuídos Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 86 Anexo viGrelha de Observação Direta - Concerto Nome do observador: Posicionamento do observador face ao cenário de observação: Grau de interação do observador com o meio: Local: Data: Hora: Duração: Dia da semana: Tipo de aula: Número de alunos e acompanhantes: Características do local/Características espaciais Atores sociais Perfil-tipo Alunos Professores Público Modos de apresentação Alunos Professores Público Atitude no espaço Alunos Professores Público Modalidades de interação Alunos Professores Público Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 87 Tipo de Linguagem Alunos Professores Público Relação com o espaço físico e com as atividades Alunos Professores Público Outras observações Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 88 Anexo viiGuião de entrevista dos professores Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: ACaracterísticas da Orquestra Geração de Amarante A.1Principais objetivos e organização 1Que tipo de trabalho tem sido desenvolvido na Orquestra Geração? E quais os seus objetivos? 2Quais as principais prioridades, dificuldades e estratégias do projeto? 3Qual o tipo de pedagogia adotada? 4Como são organizadas as aulas e as atividades realizadas? A.2Alunos 5Qual a recetividade dos alunos? 6Como motivam os alunos a continuarem no projeto? 7Que tipo de mudanças observa nos alunos desde que integraram o projeto? A.3Encarregados de Educação 8Que tipo de relação é mantida com os encarregados de educação e os alunos? 9Como é que os encarregados de educação estão envolvidos no projeto e como acompanham os educandos? BRelação do entrevistado com o projeto 10Há quanto tempo está no projeto? 11Quais as aulas que lecionada? 12Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 13Como descreve a nível pessoal, emocional e pedagógico esta experiência? 14Quais as dificuldades que tem encontrado ao longo deste percurso? 15Qual a situação mais marcante que já viveu neste projeto? Porquê? 16Qual o balanço que faz deste projeto? 17Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 89 Anexo viiiGuião de entrevista da coordenadora pedagógica Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: AImplementação da Orquestra Geração em Amarante 1Como se iniciou o projeto Orquestra Geração de Amarante? 2Há quanto tempo é que o este projeto veio para Amarante? 3Qual a razão da escolha desta cidade? BCaracterísticas da Orquestra Geração de Amarante B.1Principais objetivos e organização 4Que tipo de trabalho tem sido desenvolvido na Orquestra Geração? E quais os seus objetivos? 5Quais as principais prioridades, dificuldades e estratégias do projeto? 6Qual o tipo de pedagogia adotada? 7Como são organizadas as aulas e as atividades realizadas? B.2Escolas 8Quantas escolas fazem parte da Orquestra Geração de Amarante? Como são selecionadas? B.3Alunos 9Quantos alunos fazem parte, atualmente, do projeto? 10Como são selecionados os alunos que integram a orquestra? 11Que tipo de apoio prestam aos alunos, para além do ensino gratuito de música? 12Como motivam os alunos a continuarem no projeto? 13Que tipo de mudanças observa nos alunos desde que integraram o projeto? B.4Professores 14Qual o modo de seleção dos professores? Estes mantêm-se no ano letivo seguinte? 15Que tipo de formação têm os professores? B.5Encarregados de Educação 16Que tipo de relação é mantida com os encarregados de educação e os alunos? 17Como é que os encarregados de educação estão envolvidos no projeto e como acompanham os educandos? B.6Comunicação e divulgação das atividades Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 90 18Qual o género de divulgação existente em relação ao projeto Orquestra Geração de Amarante? E em relação às apresentações públicas que se realizam? B.7Recetividade 19Qual a recetividade das escolas, alunos, professores e comunidade em relação a este projeto? CRelação do entrevistado com o projeto 20Há quanto tempo está no projeto? 21Qual a sua relação com a música? Toca algum instrumento? 22Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 23Como descreve a nível pessoal, emocional e pedagógico esta experiência? 24Quais as dificuldades que tem encontrado ao longo deste percurso? 25Qual a situação mais marcante que já viveu neste projeto? Porquê? 26Qual o balanço que faz deste projeto? 27Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 91 Anexo ixGuião de entrevista do diretor Centro Cultural de Amarante Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: AImplementação da Orquestra Geração em Amarante 1Como se iniciou o projeto Orquestra Geração de Amarante? 2Há quanto tempo é que este projeto veio para Amarante? 3Qual a razão da escolha desta cidade? BPapel do Centro Cultural de Amarante 4Como é que o Centro Cultural de Amarante começa a fazer parte deste projeto? 5Qual o papel do Centro Cultural de Amarante no desenvolvimento deste programa? CCaracterísticas da Orquestra Geração de Amarante C.1Principais objetivos e organização 6Que tipo de trabalho tem sido desenvolvido na Orquestra Geração? E quais os seus objetivos? 7Quais as principais prioridades, dificuldades e estratégias do projeto? 8Qual o tipo de pedagogia adotada? 9Como são organizadas as aulas e as atividades realizadas? C.2Escolas 10Quantas escolas fazem parte da Orquestra Geração de Amarante? Como são selecionadas? C.3Alunos 11Quantos alunos fazem parte, atualmente, do projeto? 12Como são selecionados os alunos que integram a orquestra? 13Que tipo de apoio prestam aos alunos, para além do ensino gratuito de música? 14Como motivam os alunos a continuarem no projeto? 15Que tipo de mudanças observa nos alunos desde que integraram o projeto? C.4Professores 16Qual o modo de seleção dos professores? Estes mantêm-se no ano letivo seguinte? 17Que tipo de formação têm os professores? C.5Encarregados de Educação 18Que tipo de relação é mantida com os encarregados de educação e os alunos? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 92 19Como é que os encarregados de educação estão envolvidos no projeto e como acompanham os educandos? C.6Comunicação e divulgação das atividades 20Qual o género de divulgação existente em relação ao projeto Orquestra Geração de Amarante? E em relação às apresentações públicas que se realizam? C.7Recetividade 21Qual a recetividade das escolas, alunos, professores e comunidade em relação a este projeto? DRelação do entrevistado com o projeto 22Há quanto tempo está no projeto? 23Qual a sua relação com a música? Toca algum instrumento? 24Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 25Como descreve a nível pessoal, emocional e pedagógico esta experiência? 26Quais as dificuldades que tem encontrado ao longo deste percurso? 27Qual a situação mais marcante que já viveu neste projeto? Porquê? 28Qual o balanço que faz deste projeto? 29Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 93 Anexo xGuião de entrevista do diretor Agrupamento Escolas Amadeo de SouzaCardoso Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: APapel do Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso 1Como teve conhecimento da Orquestra Geração de Amarante? 2Qual o papel do Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso no projeto Orquestra Geração? 3Qual foi a motivação do agrupamento para participar neste projeto? BAlunos 4Que tipo de alunos são sinalizados para integrarem o projeto e como é feito esse processo? 5Como motivam os alunos a continuarem no projeto? 6Que tipo de mudanças observa nos alunos que integraram o projeto? CRecetividade 7Qual a recetividade dos alunos, professores e comunidade em relação a este projeto? CRelação do entrevistado com o projeto 8Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 9Como descreve a nível pessoal, emocional e pedagógico esta experiência? 10Qual a situação mais marcante que já viveu neste projeto? Porquê? 11Qual o balanço que faz deste projeto? 12Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 94 Anexo xiGuião de entrevista da psicóloga Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: AAlunos 1Que tipo de alunos são sinalizados para integrarem o projeto e como é feito esse processo? 2Como motivam os alunos a continuarem no projeto? 3Que tipo de mudanças observa nos alunos que integraram o projeto? BRecetividade 4Qual a recetividade das escolas, alunos e professores em relação a este projeto? CRelação do entrevistado com o projeto 5Há quanto tempo está no projeto? 6Qual a sua relação com a música? Toca algum instrumento? 7Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 8Como descreve a nível pessoal, emocional e pedagógico esta experiência? 9Qual a situação mais marcante que já viveu neste projeto? Porquê? 10Qual o balanço que faz deste projeto? 11Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 95 Anexo xiiGuião de entrevista do Presidente Câmara de Amarante Sexo: Idade: Grau de escolaridade: Formação: Profissão principal: Local de residência: AImplementação da Orquestra Geração em Amarante 1Como se iniciou o projeto Orquestra Geração de Amarante? 2Há quanto tempo é que este projeto veio para Amarante? 3Qual a razão da escolha desta cidade? BPapel da Câmara Municipal 4Como é que a Câmara Municipal de Amarante começa a fazer parte deste projeto? 5Qual o papel da Câmara Municipal de Amarante no desenvolvimento deste programa? CComunicação e divulgação das atividades 6Qual o género de divulgação existente em relação ao projeto Orquestra Geração de Amarante? E em relação às apresentações públicas que se realizam? DRecetividade 7Qual a recetividade da comunidade em relação a este projeto? ERelação do entrevistado com o projeto 8Qual a sua opinião sobre a inclusão social através da música? 9Qual o balanço que faz deste projeto? 10Considera que a Orquestra Geração de Amarante deve ser mantida a médio e longo prazo? Porquê? Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 102 Anexo xviAnálise de conteúdo vertical Observação Direta Concerto final de estágio Orquestra de Sopros (obs. nº5) Nome do observador: Catarina Ramos Posicionamento do observador face ao cenário de observação: Numa das duas mesas, em frente à orquestra. Grau de interação do observador com o meio: parte do público Local: Centro Cultural de Amarante Data: 30/03/2012 Hora: 15.30 Duração: 10 minutos Dia da semana: sexta-feira Número de alunos e acompanhantes: 7 alunos e 3 professores Características do local/Características espaciais . Anfiteatro Centro Cultural de Amarante . Local bem iluminado, amplo . Os alunos estão na parte inferior das escadas, no centro, virados para as mesas, ao mesmo nível do público que ali se encontra . Na parte superior estão algumas pessoas Atores sociais Perfil-tipo Alunos Professores Público .3 rapazes e 4 raparigas .entre os 13 e os 15 anos .1 professora e 2 professores . Funcionários do Centro Modos de apresentação Alunos Professores Público . Modo de apresentação informal, t-shirt, calças de ganga e sapatilhas . Modo de apresentação informal . Modo de apresentação informal Atitude no espaço Alunos Professores Público . Estão sentados, à espera das ordens para começarem . De frente para os alunos . Espalhado pelo anfiteatro .Não fazem barulho Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 103 . Demonstram algum nervosismo . Manuseiam as pautas e os instrumentos com facilidade . Olham para o maestro à espera de indicações Modalidades de interação Alunos Professores Público . Entre si não interagem . Vão olhando para os professores e para o público . Mantêm uma postura correta durante toda a atuação . No fim, levantam-se para agradecer . Só o maestro dá indicações, os outros mantêm-se sentados . No final batem palmas . Não interagem, apenas no fim, quando batem palmas Tipo de Linguagem Alunos Professores Público . Linguagem informal . Linguagem informal . Linguagem informal Relação com o espaço físico e com as atividades Alunos Professores Público . À vontade, apesar de algum nervosismo visível . Enquanto tocam mantêm uma postura correta . O maestro dá as indicações . Os outros professores permanecem interessados . Batem palmas . Durante a atuação permanecem em silêncio .Batem palmas . Ouvem-se expressões como “Muito bem!” Outras observações Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 104 Anexo xvii - Análise de conteúdo horizontal observações concertos (obs. n º4 e nº5) Nome do observador: Catarina Ramos Grau de interação do observador com o meio: parte do público Atores sociais Perfil-tipo Alunos Professores Público Obs nº4: Idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos; Na maioria são raparigas Obs 4: Duas professoras (a coordenadora pedagógica e a maestrina) Obs 5: 1 professora e 2 professores Obs 4: Na maioria pais dos alunos Obs nº5: Funcionários do Centro Atitude no espaço Alunos Professores Público Obs nº4: Durante a apresentação mantiveram uma postura direita, olhavam para a maestrina para seguir as suas ordens e para as pautas Obs nº5: Demonstram algum nervosismo; Manuseiam as pautas e os instrumentos com facilidade; Olham para o maestro à espera de indicações Obs nº4: A maestrina conduz a apresentação, apresentando uma postura concentrada, ao mesmo tempo que ia dando as indicações consultava a pauta Obs nº4 O público está muito perto da orquestra, pois é uma sala de proporções pequenas, devido à grande afluência da assistência. Dos que estavam sentados alguns prestavam atenção à apresentação, mas outros continuaram a falar entre eles; O público que estava de pé falava e fazia barulho, alguns professores que estavam na assistência tentavam pedir para fazerem pouco barulho, mas sem sucesso; Ao lado do observador encontram-se Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 105 duas encarregadas de educação de alunos da orquestra, estão num sítio destinado a professores, no entanto, pedem para se manterem no local apenas para verem a apresentação da orquestra Obs nº5: Não fazem barulho Modalidades de interação Alunos Professores Público Obs nº4: Os alunos durante a apresentação não interagiram entre eles, a única interação era com a maestrina que lhes ia dando ordens Obs nº5: Vão olhando para os professores e para o público; Mantêm uma postura correta durante toda a atuação Obs nº4: A grande interação é feita com os alunos, vão-lhes dando indicações Obs nº5: O maestro dá as indicações; Os outros professores permanecem interessados Obs nº4: O público troca comentários entre si, em especial os que se encontram de pé. Existe um ruído bastante grande, em especial vindo dos corredores Obs nº5: Ouvem-se expressões como “Muito bem!” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 106 Anexo xviiiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº1 Sexo: Feminino Idade: 30 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Violino Profissão principal: Professora de violino Local de residência: Amarante Características da Orquestra Geração de Amarante “ (…) isto começou há cerca de dois anos e tal, começou-se com alguns alunos, muitos já foram mudados, também vão desistindo (…)” “ (…) têm aulas de instrumento, têm aulas de naipe e aulas de orquestra (…)” “ (…) pequenas coisas foram feitas e não funciona com todos os alunos da mesma forma e, às vezes, os professores têm alguma dificuldade em saber lidar com algumas situações (…)” “ (…) eu às vezes, com estes alunos, tento funcionar um bocadinho diferente, eu não sei até que ponto isso é bom… porque depois o grau de exigência também não é tão grande, não é? Mas isto sempre nos foi incutido no projeto que o objetivo não é tanto o musical (…)” “ (…) Fui a primeira professora, neste caso, que tomei conta da orquestra, era eu que era a maestrina o ano passado e fui algumas vezes a Lisboa para ter formação (…)” “ (…) No início funciona um bocadinho como o método de Suzuki, tocam todos a mesma voz e todos em conjunto e através de cantar (…)” “ (…) Eles têm meia hora de instrumento, têm (…) duas horas de naipe (…) e três horas de orquestra (…) as atividades vamos fazendo consoante o que nos pedem (…)” “ (…) inclusão social, pelo menos tentamos que isso seja…” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 107 “ (…) Para mim tudo bem que a base não é a música, mas no fundo estamos a ilustrar um trabalho e as pessoas querem ouvir sons bonitos, querem ouvir alguma qualidade e nós estamos a saltar etapas técnicas, eles nunca terão bases para fazer as coisas de forma correta (…)” Alunos “ (…) O facto de os miúdos estarem sentados, esperarem, aquelas coisas que parecem muito básicas (…) sobretudo no início, eles agora já estão muito melhores” “ (…) alguns miúdos têm dificuldades pelo facto de saberem estar (…)” “ (…) aí miúdos que não é tanto por parecem mal é mesmo questões de educação graves, que dizem asneiras (…)” “ (…) uma coisa importante nesses miúdos tão independentes e acham sempre que só eles é que são importantes e uma orquestra não é assim que funciona, não é (…) aprendem a trabalhar em grupo e que haja companheirismo e espírito de entreajuda (…)” “ (…) eles gostam muito (…) mais das aulas de grupo, mas há de tudo, por acaso tenho duas miúdas super empenhadas e noto que querem fazer disto a vida delas (…)” “ (…) noto muitas diferenças, noto, de facto, que eles estão mais empenhados, têm evoluído (…)” Encarregados de Educação “Eu não tenho nenhuma relação com os pais, não tenho nenhum contacto (…) quer dizer, eu vou lá, dou as minhas aulas, conhecem-me dizem olá, boa tarde, mas não passa daí.” “Eu acho que eles sentem mesmo orgulho, eu acho que sim (…)” “Eu acho que os pais, também, fazem a pressão para eles aqui estarem.” Relação do entrevistado com o projeto “Como eu lhe disse no início da entrevista, não é, se nós transpusermos isso para a vida normal, se toda a gente perceber que toda a gente é importante, não é? E numa Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 108 orquestra funciona sempre da mesma forma (…)” “ (…) Lembro-me quando fui a Lisboa… foi por acaso a vista do Cavaco e uma miúda estava constantemente a chorar e, de certa forma, ajudei-a e não tinha nada a ver com aquilo, ajudei-a e ela chorava, porque achava que tinha um problema grave de saúde (…) não teve a ver propriamente com o projeto, mas nós, no fundo, somos psicólogos dos miúdos e falamos com eles e brincamos muito.” “É uma experiência interessante, diferente, porque tecnicamente as coisas são diferentes (…)” “ (…) Acho que sim, há coisas que terão de ser mudadas, mas faz todo o sentido, sim (…)” “ (…) Não sei muito bem… a questão é essa, a questão é que se calhar os professores… eu fui a Lisboa algumas vezes e até tive algumas sessões com psicólogos, mas não me disseram nada, por exemplo, eles podiam-nos ter ajudado, por exemplo, se houver este tipo de situações os professores devem reagir desta forma e neste projeto, se calhar, fazia sentido um psicólogo ajudar-nos mais (…)” “ (…) se bem que aqui há psicólogo, mas nunca senti que houvesse grande apoio e mesmo em relação a nós o que fazer… porque os professores também não sabem (…)” “ (…) em Lisboa eles tinham muito mais formação e, se calhar, eles estariam mais preparados de outra forma (…) lá eu sei que eles têm algumas formações em composição, em harmonização, a nível de psicologia que, se calhar, era mais isso que nos convinha, nós não temos… a música nós já percebemos, já sabemos o que fazer tecnicamente com os miúdos (…)” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 109 Anexo xix – Análise de conteúdo vertical da entrevista nº 2 Sexo: Feminino Idade: 27 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Violino Profissão principal: Professora de violino Local de residência: Amarante Características da Orquestra Geração de Amarante “ (…) Os objetivos da orquestra geração é (…) além da música, não é a parte primordial (…) o primeiro objetivo é que eles não abandonem a escola e depois junta-se o útil ao agradável, que é eles desenvolverem através da música (…)” “ (…) um sistema completamente diferente do que era o articulado, porque o articulado é as regras todas, o dito oficial, no articulado não, tens muita técnica, aquilo tudo direitinho, os metodozinhos todos e a geração é um bocado a pirâmide ao contrário, eles primeiro vão fazer e depois vão perceber o porquê (…) eles começam logo no primeiro ano, logo com os instrumentos, logo em orquestra (…)” “Por incrível que pareça, nós no início, uma pessoa fica, isto não é possível, como é que é possível isto começar assim, mas o que é certo é que está a dar resultados e até bastante rápido (…)” “ (…) supostamente isto está tudo interligado com Lisboa, mas depois temos o coordenador da zona Norte e temos o coordenador do projeto aqui da escola (…) coordena connosco, tipo as atividades que é preciso serem feitas, os concertos, temos concertos normais e vamos fazer as formações lá abaixo a Lisboa… fazem alguns concertos também fora da escola (…)” Alunos “ (…) são miúdos com problemas quer económicos, quer sociais, que estão em risco de abandono escolar e, por Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 110 exemplo, no nosso caso aqui em cima, eles são quase todos sinalizados, já têm acompanhamento e essas coisas todas (…)” “ (…) São miúdos que vêm de famílias que têm problemas, toxicodependentes, presos, essas coisas todas, carências económicas e isso tudo e são miúdos que, normalmente, como são sinalizados com muito mau comportamento e más notas e no início uma pessoas depara-se um bocadinho quase como no meio da selva (…)” “Imensa, uma coisa que se calhar no início foi mais uma coisa por brincadeira e que, se calhar, no início não conheciam bem o que é que era, mas o que é certo é que agora uma pessoa na brincadeira disser portaste-te mal, vais sair da orquestra é o fim do mundo, eles ficam (…) têm mesmo medo, não querem sair da orquestra.” “Acho que é tudo, porque acho que é assim como eram miúdos que, se calhar, pelo tipo, as condições deles, não tem nada a ver com dinheiro mas, por exemplo, os que eram mal comportados não conseguiam parar, irresponsáveis e respondões, essas coisas todas, se calhar, afastava-os, um bocadinho, dos outros e isso, também, se reflete por que, se calhar, também, tinham aquela parte da afetividade, aquela coisa assim social, eles não tinham muito isso e uma das coisas deste projeto é nós conseguirmos fazer isso com os miúdos, eles sentirem-se uma bocado parte (…)” “ (…) eles próprios agora sentem-se como um grupo, mandam-se calar uns aos outros, aquela responsabilidade se for preciso, para quem no início era completamente impensável, agora se for preciso estão xiu, está calado, olha a professora e há aquela coisa, querem atuar, querem ir, querem fazer (…)” “Não tem nada a ver com os miúdos que começaram há um Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 111 ano e tal atrás, não tem nada a ver, quer a nível de comportamento, quer a nível de responsabilidade, quer a nível de atitude, temos o feedback lá em cima da escola que se não forem todos, mas a maior parte deles mudou completamentos os comportamentos (…) a nível de notas melhoraram imenso.” Encarregados de Educação “É assim como os pais, não posso dizer que é a cem por cento, porque como eles estão noutra escola as nossas aulas são todas dadas lá em cima, menos a orquestra (…) e, então, nós com os pais, principalmente nós, quem tem mais essa parte é a coordenadora e psicóloga, porque ela é que faz a ligação entre todos, se há algum problema ou assim ela é que gere ou assim (…) por exemplo, se algum miúdo começasse a faltar alguma vez, uma, duas vezes, eles vão logo em cima ver o que é que se passa, estão sempre em cima da situação para ver o que é que se passa (…) tanto que é que é que nós só tivemos um ou dois que saíram, não mais do que isso, o resto está quase tudo inicial (…) mesmo assim ou foi um ou outro que mudou de escola ou não quis continuar, mas mesmo, mesmo desinteresse só houve um caso ou dois que me recorde (…)” “ (…) mas já aconteceu vir um pai ou outro dizer ó professora ele está completamente diferente, já estuda, está motivado e as notas, isso já acontece alguns (…)” “E complicado, essa parte já não consigo acompanhar (...)” “ (…) Eles quando fazem concertos (…) fica tudo cheio, vêm os pais todos atrás dos miúdos e amigos e vizinhos como se fosse quase aquele gosto, o meu filho está ali e que, se calhar, até na altura não acompanhavam muito a nível de escola e essas coisas e começam a ter interessados (…)” Relação do entrevistado com o projeto “ (…) Desde o início, desde o início (…) dou violino, dou Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 118 Anexo xxi – Análise de conteúdo vertical da entrevista nº 4 Sexo: Masculino Idade: 34 anos Grau de escolaridade: Bacharelato Formação: Trompete Profissão principal: Professor de trompete Local de residência: Lousada Características da Orquestra Geração de Amarante “No caso do meu trabalho são alunos novos que começaram (…) a partir de Setembro, Outubro comigo (…) começamos a trabalhar o som a respiração, só que eles ainda não levam os instrumentos embora (…) estamos a ver as notas e já conseguem tocar três pecinhas.” “Pra já, no meu caso e no meu naipe, é que eles toquem bem e as estratégias é que eles estudem de acordo com o que eu lhes ensino nas aulas (…) para depois em concerto suar bem (…)” “ (…) é a pedagogia que eu adoto em todas as aulas de trompete, o normal.” “ A organização é 45 minutos os dois juntos para trabalhar em dueto, em termos de afinação, em termos de articulação e, também, para os integrar os dois como se trabalha em naipe (…) e depois meia hora individual para cada um.” Alunos “ (…) não são rapazes problemáticos, nem nada que se pareça, são bons alunos, agora é falta de prática, é traquejo (…)” “Muito boa, melhor é impossível, tão todos entusiasmados (…)” “Acho que é sentir os alunos, respeitar e saber quais são os gostos deles conhecendo aprofundadamente cada ser o humano que a gente consegue cativar (…)” “Num deles noto que está bastante certinho, já o era, mas Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 119 ficou mais calmo o outro era muito, era muito agressivo, está muito mais concentrado e mais enquadrado, porque são primos os dois e é engraçado, é coincidência (…) estão mais unidos, eles não se davam muito bem (…)” “A relação é muito boa, é muito próxima, eu arrisco muito, por isso é que eles, penso eu, que a motivação é mais fácil, porque não era o único professor, há respeito mas há um grau de amizade muito grande (…)” Encarregados de Educação “Os pais, no início como estavam ainda a inteirar-se, não é? Um deles foi um bocado complicado, mas com a ajuda da coordenadora resolvemos o problema rápido.” Relação do entrevistado com o projeto “Sim, sim desde este ano (…)” “É perfeito, é muito, muito bom, eu por acaso conheço colegas meus quando eles estavam em Lisboa que implementaram isso, também, na Argentina (…) ele foi fruto desse projeto lá e veio estudar para a Metropolitana onde eu andei a estudar, toca bastante… eu acho muito bom, eu acho que eles melhoram muito em termos de concentração, em caráter (…)” “Eu estou sempre aberto a novos projetos, a novas ideias, gosto da ideia, acho diferente, é muito bom (…) é diferente porque olhe as aulas são num ciclo, é um ambiente diferente, é bom, é bom, é bom, gosto (…) ” “ (…) Não, não, não tenho que dizer (…) muito positivo, (…) estou a gostar (…) é um projeto diferente, mesmo até para mim é uma experiência diferente porque eu já dei aulas a mulheres grávidas, um projeto de mulheres grávidas que nos concertos estavam esgotados completamente, enquanto que os filhos deles quando atuavam estavam 20, 30 pais a atuar e as mulheres grávidas era com dois meses de antecedência compravam os bilhetes (…)” “Sim, sim não tenho dúvidas (…) Porque isso une-os Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 120 mesmo, até eu tenho notado, eu tou a dar as aulas, quando saiu ou quando chego os outros alunos, dos outros instrumentos, pedem para assistir às aulas, mas uma média de 10 a 12 alunos, não estou a mentir, batem à porta, posso a assistir? (…) gostam, gostam mais e tão entrosados entre eles.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 121 Anexo xxiiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº5 Sexo: Feminino Idade: 31 anos Grau de escolaridade: Mestrado Formação: Flauta transversal Profissão principal: Professora flauta transversal Local de residência: Amarante Características da Orquestra Geração de Amarante “Tenho que antes da flauta, tenho que para as criança, coisa mais importante ensinar, de modo que elas podem começar a trabalhar na orquestra, porque no ensino normal nós começamos a trabalhar, muitos anos depois começamos a trabalhar na orquestra (…)” “ (…) a coisa mais importante é que as crianças querem tocar juntos e então dá uma motivação muito forte (…)” “ (…) as crianças têm meio hora sozinhas, só comigo mesmo de flauta transversal, meia hora, tenho dois alunos, depois tem uma hora e meia de naipe, significa que as duas flautas tocam juntos.” Alunos “ (…) sim, eles são muito motivados , por exemplo, até agora não podem, não poder levar as flautas para casa, mas todos os sábados eles vêm ao centro cultural para ensaiar, são muito motivados.” “ (…) a estratégia que é o objetivo que é tocar na orquestra é também, não sei.” “Eu gosto muito, acho que eles também gostam muito (…) também para mim é uma experiência muito interessante, porque é a primeira vez que começo a ensinar crianças bastante grandes, já têm 15 anos, normalmente, começo com pequeninos, é muito bom, porque elas conseguem fazer muitas coisas rapidamente (…) ” Encarregados de Educação “ (…) sei quando fizemos concertos os pais apareceram (…)” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 122 Relação do entrevistado com o projeto “Eu comecei só em Novembro, Dezembro, os sopros só ainda mais tarde (…)” “Acho que sim, sim, muito bom, acho que sim, eu gosto da ideia de uma orquestra, porque os amigos podem fazer muito bem trabalhar juntos (…) ajuda a melhorar, ajuda a crescer” “Gosto muito, até agora gosto muito, gosto da ideia, não é como o ensino normal que queremos fazer músicos (…) a coisa mais importante é ajudar as pessoas que têm dificuldades (…)” “Negativa, com certeza, não, positiva, não sei… agora não me lembro nada de especial, mas (…) a coisa mais positiva para é ver que estão muito entusiasmados, motivados (…)” “Sim, sim, porque acho que funciona, eu tenho, também, medo das coisas, temos crianças com muitas dificuldades, não sei, eu penso que era bom arranjar um psicólogo, alguma coisa para preparar melhor os professores (…) mas é uma boa experiência para nós e para as crianças, é uma coisa para manter.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 123 Anexo xxiii -Análise de conteúdo vertical da entrevista nº6 Sexo: Masculino Idade: 30 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Oboé Profissão principal: Professor de oboé Local de residência: Vila Nova de Gaia Características da Orquestra Geração de Amarante “O grande objetivo é tocar peças.” “Integrar os alunos, mas nunca tendo aquele peso de um aluno regular que tem de fazer tudo direito. É o prazer de tocar que está presente e não a obrigação.” “…incentivar a começar logo a tocar, sem o peso igual a uma disciplina… Dar ênfase ao lado positivo em vez do lado negativo…” “…trinta minutos de oboé…” Alunos “Tenho tido muita recetividade, o aluno que tenho quer trabalhar, mesmo em comparação com os outros do ensino regular, ele quer trabalhar mais.” “Para o motivar realço os aspetos positivos e nunca digo que está tudo mal…” “…é um aluno que está sempre sossegado, como está sozinho é calado, faz perguntas, pede muitas vezes desculpa e quer fazer logo bem.” “A relação que é mantida com o aluno é de proximidade, não existe a distância normal professor-aluno, por exemplo, existe sempre um aperto de mão.” Encarregados de Educação “Não sei muito bem… Mas no outro dia a coordenadora disse que a mãe vê melhorias no filho.” Relação do entrevistado com o projeto “Desde o início deste ano letivo.” “Aulas de oboé.” “É uma boa estratégia, os alunos não estão a fazer outras coisas… Acaba por ser uma solução para outro caminho e Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 124 vê-se o entusiasmo.” “Ao início foi estranho, porque o aluno já tem alguma idade, apesar de já ter reprovado… Tive de o habituar a algumas coisas. Parecia um miúdo que trabalhava, sempre com as mãos frias, isto são fatores que dificultam tocar o instrumento.” “Não tenho tido grandes dificuldades. É só um aluno e começou há pouco tempo, é um aluno recetivo.” “A situação mais marcante foi quando o aluno agradeceu no fim de uma aula, quando começou a tocar as primeiras músicas. Senti uma enorme satisfação! Porque não tinha sido uma aula nada de especial. Fiquei sem reação… É que nos que nos pagam não agradecem.” “…balanço positivo!” “…os objetivos estão mais do que postos em prática.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 125 Anexo xxiv - Análise de conteúdo vertical da entrevista nº7 Sexo: Masculino Idade: 34 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Música Profissão principal: Músico Local de residência: Amarante Características da Orquestra Geração de Amarante “Nesta altura nós começamos as aulas, os sopros começaram há cerca de um mês ou mês e meio, o primeiro objetivo é que eles tenham o primeiro contacto com o instrumento e comecem a evoluir, gradualmente, até que seja possível inseri-los na orquestra de cordas (…)” “ (…) Nós trabalhamos individualmente (…) neste caso eu trabalho os clarinetes e há um professor responsável por cada instrumento e basicamente trabalho as peças individualmente, para depois, existe a disciplina de orquestra de sopro, em que juntámos todos os instrumentos de sopros e que sou responsável e juntámos todos e que servirá de preparação para a junção com a orquestra de cordas (…)” “Neste momento, nós trabalhámos de uma forma diferente do que trabalhámos no ensino oficial (…) recebemos as normas de Lisboa e é um trabalho em que, sensivelmente, o objetivo é que ele comecem logo a tocar, nem que seja só duas notas (…)” “ (…) eles têm aulas individuais, meia hora de aula individual cada miúdo e depois têm uma aula de naipe que depois tem que juntar os dois e trabalhámos os dois juntos, trabalhámos outros aspetos para depois juntar com os colegas (…)” “É uma coisa que pra eles é bastante motivante (…) eu acho que eles, basicamente, auto motivam-se, o objetivo, Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 126 como é uma coisa muito prática, para eles o facto de terem um instrumento e começarem logo a tocar em grupo e fazerem parte de uma orquestra, eles querem é fazer (…)” Alunos “Há uma evolução, claro, de qualidade, há uma evolução, ainda começaram há pouco tempo, penso que eles têm interesse em evoluir e fazer mais, claro que estão sempre a perguntar quando é que se juntam com a orquestra de cordas e querem levar os instrumentos para casa que ainda não levam (…)” “O comportamento é tranquilo, para agora (…)” “Não, é de proximidade, claro é que com o tempo, não é? Começamos há bem pouco tempo (…)” Encarregados de Educação “Se calhar, quem pode responder a isso é a coordenadora, porque lida, diretamente, com os pais (…)” Relação do entrevistado com o projeto “ (…) eu acho que tem tudo para dar certo, porque ocupa os miúdos de alguma forma, segundo motiva-os para alguma coisa diferente e depois a música é uma coisa que trabalha várias capacidades do nosso organismo, trabalha a concentração, trabalha a responsabilidade e são coisas que se nota, pelo menos há um feedback por parte das escolas, dos professores, lá notam que os miúdos que andam na orquestra geração mudaram a nível de comportamento, a nível de concentração (…)” “ (…) para nós ainda não temos os resultados óbvios, é tudo muito fresco, mas acho que tem tudo e vendo a orquestra de cordas, que já tem muito mais tempo, penso que vai ser muito importante para eles (…)” “Não, dificuldades é a única coisa e como a abordagem ao ensino é bastante diferente daquilo que nós fazemos tradicionalmente no ensino oficial, ainda andamos um bocadinho a apalpar, a apalpar terreno (…)” “É positivo (…) eu acho que sim, temos muito bons Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 127 exemplos, portanto, é um projeto que começou na Venezuela e tem orquestras sinfónicas com muito bom nível (…)” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 134 com os miúdos para Lisboa, porque eles nunca tinham ido a Lisboa, partilhar com eles essa experiência (…) gostei muito do concerto da Aula Magna, acho que foi espetacular, eles tiveram lá um momento muito marcante e depois no final tocaram (…) gostei, também, muito do nosso concerto para o Presidente da República, na Fundação EDP, acho que foi marcante, porque acho que eles portaram-se mesmo muito bem, (…) foram capazes de fazer, de cumprir com o objetivo que eles tinham combinado connosco, de forma muito boa até (…)” “O balanço que eu faço é mesmo muito positivo, não estou a ver estes miúdos que isto um dia pode acabar, não estou muito bem a ver, porque muitos deles começam a dizer, vamos continuar, começo a acreditar que muitos deles se tivessem vindo para a música há muito mais tempo poderiam ser um dia músicos, temos lá muito bons alunos.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 135 Anexo xxviAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº9 Sexo: Masculino Idade: 63 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Ciências do desporto Profissão principal: Diretor executivo Centro Cultural de Amarante Local de residência: Amarante Implementação Orquestra Geração de Amarante “O projeto iniciou-se em Amarante em 2010, por convite da Fundação EDP” “ (…) foi feito o convite, foi-me explicado qual era o objetivo (…) eu fiquei logo entusiasmado com o projeto (…) indicamos que estávamos interessados.” “Fizemos um protocolo com a Fundação EDP (…) e depois tive uma reunião com o Conservatório Nacional de Música que é, em Portugal, o responsável pela orientação e pela implementação do projeto (…)” “Decidimos, que como já estávamos com o ensino articulado (…) podíamos optar por outra escola (…) pelo Agrupamento de Escolas Amadeo de Souza-Cardoso, com quem estabelecemos uma parceria.” “O diretor do agrupamento mostrou-se, também, muito recetivo (…). É evidente que havia problemas logísticos que era preciso resolver e ele disponibilizou-se a resolver esses problemas.” “Depois, nomeei o coordenador do projeto, que é a nossa coordenadora pedagógica (…) Começou a tratar (…) de tudo aquilo que estava pressuposto nas parcerias. A professora (…) foi para o terreno, começou a fazer a seleção dos alunos, a formação dos professores, em Lisboa, conforme a metodologia própria do projeto.” “ (…) primeiro conservatório do Norte a ser convidado para a implementação do projeto.” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 136 “ (…)os professores que fazem parte deste projeto, em Lisboa, são financiados pelo Ministério da Educação (…) o que não acontece connosco, somos financiados pela EDP (…)” Características da Orquestra Geração de Amarante “ (…) tem uma componente social muito forte (…)” “ (…) Fundação EDP financia a 100%(…)” “ (…) as aulas são parte dadas lá (escola), só a orquestra é feita cá ao sábado.” “ (…) é um projeto que visa um problema de âmbito nacional, que é o risco de abandono escolar, que é a exclusão social. (…) este projeto está vocacionado para estas duas vertentes social e a educacional (…) A aprendizagem da música não é o principal (…)” “O saldo da Orquestra tem sido positivo (…)” “Pedagogia do geral para o particular (…)” “Neste projeto os alunos começam logo a tocar, portanto, partem do geral e depois vão tendo (…) formação teórica.” “Começam pela imitação (…)” “São 7 horas por semana, estão divididas em naipes (…) e, depois, há as aulas em comum de formação musical, que é a parte teórica e, depois, tem a orquestra.” “Trabalham os alunos individualmente ou a pares, depois, trabalham os de violino (…) em comum, depois, trabalham em naipes e, depois, em orquestra (…)” “As atividades são organizadas… Normalmente, nós começamos a ser convidados (…) para além das atividades curriculares, isto é, são atividades que já estão previstas no projeto, que são as audições finais de período, que são as audições finais de ano (…)” “ (…) fazemos intercâmbio (…) nomeadamente, com Mirandela e com Murça, porque é importante, também, o intercâmbio, porque há miúdos que nunca saíram de Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 137 Amarante.” “ (…) não é esse o objetivo fazer músicos, há a componente social.” Alunos “ (…) preparar como se fosse uma turma do ensino articulado (…)” “ (…) os alunos têm-se portado muito bem, estão muito entusiasmados (…)” “Atualmente, estão no projeto 43 alunos, distribuídos por cordas, por sopros e por percussão (…)” “ (…) quem faz a seleção são os professores (…) a escola já tem alunos problemáticos, que estão sinalizados nas escolas, a psicóloga e o diretor de escola dizem (…) os alunos que necessitam de apoio, que, se calhar, a música lhes fazia bem, fala-se com eles, vê-se com os pais, vê-se se eles estão interessados ou não, faz-se a inscrição, em função das inscrições é feita uma avaliação de capacidades para a música (…) e, em igualdade de circunstâncias e de, sobretudo, problemas, os professores fazem a apreciação (…)” “ (…) psicológico e, também, o aluno não se limita a vir cá, nós vamos buscá-los a casa, levamo-los a casa, damos um suplemento alimentar (…) o almoço sempre que necessário (…)” “ (…) eles vêm para cá com alguma apreensão (…) mas com o decorrer do tempo começam a gostar.” “ (…) eles eram, normalmente, alunos segregados nas escolas e, nesta altura, na escola (…) vêem-se a tocar o instrumento, de repente, rodeados dos colegas (…) Deixaram de ser apenas mais um aluno da escola ou até menos um e passaram a ser reconhecidos e admirados pelos colegas (…) E isso é motivador, eles motivam-se com isso, pois quando começam logo a tocar estão logo motivados (…) A motivação é feita naturalmente (…) são Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 138 motivados porque gostam (…)” “ (…) temos vários alunos que gostariam de estar e não estão (…)” “ (…) em termos de comportamento é excelente, porque a música obriga à disciplina, ao espírito de equipa, ao espírito de grupo, começam a saber trabalhar em grupo. Há a responsabilidade, há a pontualidade (…) disciplinares e, também, em termos de disciplina de comportamento (…) A diferença é abismal, quer dizer os alunos que não tinham regras absolutamente nenhumas, nem sabiam estar, aqui no conservatório de música eu já nem sei quem são os alunos que estão no ensino articulado ou (…) quem são os alunos da Orquestra Geração, enquanto ao princípio os alunos da Orquestra Geração eram notados pela negativa (…)” “A evolução é de tal ordem que é reconhecida pela escola e pelos professores da escola.” “ (…) para além de vê-los a tocarem bem (…) é realmente o aspeto do comportamento e aproveitamento.” Escolas “Nós por uma questão de logística e por uma questão de verbas (…) optámos por uma escola. É muito mais fácil organizar o horário numa escola do que em duas ou três (…)” Encarregados de educação “Conseguimos, também, envolver os pais no projeto (…) temos tido resultados excelentes (…) eles já são mais participativos na escola, já vão saber qual o aproveitamento e comportamento dos filhos, que não acontecia antes. Vêm aqui muitas vezes contar-nos como é que eles se comportam (…) Assumiram a responsabilidade, também, dos miúdos levarem instrumentos para casa, assinaram um documento a dizer que são eles que são responsáveis (…)” “Uma das lacunas que temos, neste projeto, é não ter uma Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 139 assistente social que trate da parte familiar (…)” Professores “ (…) a formação dos professores, porque isto é um projeto que tem uma estratégia própria, completamente diferente daquela que é implementada no nosso ensino. É um ensino que parte mais do mais geral para o particular, os alunos começam logo a tocar.” “ (…) conforme as deficiências que vão encontrando os professores vão adotando métodos e metodologias (…) para que eles consigam tocar.” “ (…) procuramos manter os professores sempre (…)” “ (…) nós não selecionamos, os professores que estão na Orquestra Geração são os professores do ensino articulado. Como são professores do ensino articulado já têm que ter determinadas aptidões para o ensino, obrigatoriamente (…) em 4 ou 5 professores é visto o perfil de cada um e aquele que se adapta. É explicado o projeto, qual é o objetivo do projeto (…) Depois, eu e a coordenado pedagógica vemos (…) qual é aquele que tem o perfil para integrar o projeto (…)” “ (…) têm formação todos os anos (…) este estágio de alunos é, ao mesmo tempo, um estágio de professores (…) vão tendo ao mesmo tempo formação específica.” Comunicação e divulgação das atividades “Nós, penso que é uma falha que temos no aspeto da divulgação, (…) mas é verbalmente (…) é com as apresentações que fazemos aqui no concelho, nas escolas e as pessoas começam a saber que existe a Orquestra. (…) E começam-nos a convidar, sempre que há uma atividade nós publicamos nos jornais, na rádio e a televisão (…) E através do nosso site também.” “Mas mais do que a publicidade é os resultados.” Recetividade “ (…) a comunidade é exatamente aquela que menos se apercebe, (…) porque as audições e as apresentações que fazemos e os concertos que fazemos, normalmente, são Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 140 virados para miúdos (…) e quando fazemos aqui no conservatório vêm os pais (…) fica lotado o auditório.” “ (…) o Senhor Presidente da Câmara vê este projeto com grande entusiasmo (…)” “ (…) vamos ver se as pessoas se começam a aperceber que nós existimos.” Relação do entrevistado com o projeto “ (…) nunca me tinha apercebido, sinceramente, que a música podia contribuir para a inclusão social (…) Foi uma surpresa, realmente, agradável e que ultrapassou as minhas expetativas, por na verdade (…) nós aqui no Centro fazemos audições com os nossos alunos e com os alunos da Orquestra Geração em articulação. Portanto, eles estão perfeitamente integrados aqui na escola e a música tem contribuído para isso, porque a música é universal (…) Claramente, que a música é uma linguagem única.” “A nível pessoal (…) como diretor da escola na 1ª, na 2ª e na 3ª apresentação vieram-me as lágrimas aos olhos (…) miúdos de estratos sociais péssimos, do pior que há (…) e vi aquilo os miúdos que não tinham esperança (…) em termos de projetos individuais (…) há aqui uma possibilidade de trabalho futuro deles e, para além disso, (…) a alegria deles em participar (…) Portanto, vi miúdos que não tinham perspetiva nenhuma, porque conversei com eles e com a família e que de repente aparecem em palco a serem admirados (…)” “As grandes dificuldades que tenho encontrado, neste projeto, (…) é em termos logísticos, por causa do transporte dos miúdos (…) De resto, (…) todos queremos que isto vá para a frente (…) estamos todos empenhados.” “Tenho dois momentos que foram marcantes. O primeiro quando fomos à Aula Magna (…) e que estava absolutamente cheia (…) Nós estávamos no 1º ano (…) Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 141 Nós fomos a última orquestra a ser apresentada com as do 1º ano e (…) acabou de tocar a nossa e as (…) pessoas que estavam lá levantaram-se a bater palmas. Portanto, isso foi para mim um motivo de orgulho (…) A outra foi quando fomos escolhidos (…) fazer o encerramento de uma conferência no Museu da Eletricidade (…) Aí também me emocionei bastante.” “O balanço que faço deste projeto é o mais positivo possível. Tem sido um sucesso (…) No aspeto social tem tido um sucesso imenso, no aspeto educacional imenso e na integração e na inter-relação pais e educandos tem sido realmente um sucesso.” “ (…) tem de ser mantido (…) enquanto os objetivos puderem ser alcançados, (…) porque já começam as pessoas a ver que a música é importante (…)” Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 142 Anexo xxviiAnálise de conteúdo vertical da entrevista nº10 Sexo: Masculino Idade: 46 anos Grau de escolaridade: Licenciatura Formação: Administração escolar Profissão principal: Diretor Agrupamento de Escolas Amadeo Souza-Cardoso Local de residência: Amarante Papel do Agrupamento de Escolas Amadeo SouzaCardoso “ (…) Eu tive conhecimento através de contatos com o Centro Cultural de Amarante e, neste cas,o através de uma professora comum (…) foi aqui colocada e é lá professora.” “Em relação ao projeto nós tivemos aquela fase inicial de inventariar os alunos que reuniam condições (…)” “ (…) com acompanhamento da coordenadora pedagógica e da psicóloga (…)” “ (…) dá-mos apoio na parte das aulas, na parte de instrumento, que funciona aqui nestas instalações, também, sou eu (…) que faço a interligação com a autarquia, no que diz respeito a transporte, quer dos alunos, quer de instrumentos, porque é necessário, por exemplo, levar os instrumentos para o Centro Cultural, (…) quando é as atuações sou eu que desencadeio os transportes (…) é o nosso papel e dar todo o apoio logístico aos professores do Centro que vêm aqui dar as aulas de instrumento aos nossos alunos.” Alunos “ (…) alunos com problemas familiares, problemas socioeconómicos, que se enquadravam no âmbito do projeto (…)” “ (…) Com base quer no processo do aluno, quer nos antecedentes, quer nos alunos com problemas familiares, que têm processos na Comissão de Proteção de Menores, quer pelos próprios diretores de turma que, por vezes, isso Inclusão Social e Música: o projeto Centro Cultural de Amarante – Orquestra Geração 143 acontece, frequentemente, têm todos conhecimento do projeto e sinalizam esses alunos como constituindo, para eles, uma mais-valia para poderem-se integrar, porque têm problemas de comportamento, muitos deles têm problemas de comportamento (…)” “Os alunos (…) em termos de comportamento alteram radicalmente, nota-se isso, principalmente, naqueles alunos com os tais problemas de comportamento, hiperativos, irrequietos, alunos que ficam mais responsáveis, muito mais responsáveis, ficam mais afáveis, o poder de comunicação deles, também, melhora significativamente, sabem estar, a integração deles na turma é muito mais facilitadora e ao mesmo tempo em termos de notas, também, têm melhorado.” Recetividade “A recetividade tem sido excelente (…) temos muitos alunos a quererem entrar no projeto que não se enquadram nos parâmetros, nos pressupostos inicialmente pela orquestra, mas que gostariam de estar.” “Os inícios foram muito complicados. Que também não queriam os que estavam sinalizados e agora passa-se precisamente o contrário, uma aluna que tivemos aí um problemazito e a primeira coisa que eu lhe disse que ia retirá-la da orquestra e ela entrou em pânico, entrou mesmo em pânico, esteve suspensa ali uma semana da orquestra que, também, temos que dar e tirar, temos que jogar com isso, principalmente quando eles têm problemas de comportamento.” Relação do entrevistado com o projeto “ (…) Isto está ser um projeto que eu espero que não pare, o meu medo é que, neste momento, pare, porque temo que as parcerias acabem, atendendo ao atual momento se vão escusando, penso que promove mesmo a inclusão destes alunos, estes alunos sentem-se diferentes, sentem-se muito mais apoiados, têm uma retaguarda que eles, por vezes,