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Os desafios de uma pequena editora na era digital

Sara Raquel Monteiro Ferreira

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Índice I 1.Introdução 1 2. A MediaXXI/Formalpress 4 2.1 A empresa 4 2.2 O funcionamento interno 5 3. Atividades efetuadas 6 3.1 Avaliação quantitativa 6 3.2 Avaliação qualitativa 10 4. Reflexão 12 II 1. Literacia e hábitos de leitura em Portugal 15 2. O livro e a leitura na era digital 21 3. Caracterização do mercado do livro: estudos recentes 25 4. Desafios do setor 28 5. Os e-books: o que são? O que representam? 31 6. Livros impressos vs. e-books: realidade antagónica ou simbiótica? 32 7. Orientações do Estudo 34 8. O Estudo 35 8.1 Amostra e recolha de dados 35 8.2 Análise de resultados 36 III 1. Conclusão 43 IV 1.Bibliografia 45 V 1.Anexos 48 1 1.Introdução O relatório apresentado em seguida tem por objetivo dar a conhecer as atividades levadas a cabo nos três meses de estágio na empresa MediaXXI/Formalpress, no Porto, entre 1 de Novembro de 2012 e 1 de Fevereiro de 2013. A par desta experiência, pretendo também dissertar sobre questões pertinentes por ela suscitadas, desenvolvendo um tema específico convenientemente explicitado. Em primeiro lugar, apresentarei a instituição em que estagiei, referindo a sua história e o seu modo de funcionamento interno que pude observar durante o período referida. Em seguida, focar-me-ei nas atividades que realizei ao longo do tempo, fazendo avaliações (quantitativa e qualitativa). Avançarei ainda para uma análise crítica relativa à minha experiência no estágio curricular, onde descrevo a forma como decorreu e a posição em que me coloco face a todos os acontecimentos vividos durante esse período. Dediquei-me em seguida, neste relatório, a assuntos pertinentes para os quais os três meses de estágio me alertaram, inevitavelmente ligados à presente era digital em que vivemos. O estágio na editora MediaXXI/Formalpress despertou o meu interesse para questões ligadas à literacia, ao livro, à sua sobrevivência na era digital, à caracterização do seu mercado e, resumindo, aos desafios que uma pequena editora enfrenta no presente e terá de enfrentar no futuro para permanecer no mercado competitivo e exigente em que se encontra. Todos estes temas estão relacionados entre si. O Estudo Nacional de Literacia (ENL), efetuado pela equipa coordenada por Ana Benavente em 1996, continua uma referência de grande valor dentro do tema, pelo que constitui um pilar central desta dissertação, que estuda o caso português e os hábitos de leitura no nosso país, indicando o modo como estes se caracterizam e que alterações atravessaram ao longo dos anos. Os baixos níveis de literacia da nossa população foram primeiramente conhecidos a partir dos resultados desse estudo, explicados ao longo dos anos pela associação direta aos baixos níveis de escolaridade que detínhamos. No entanto, se a escolaridade é encarada como determinante em questões de literacia, tornou-se também evidente que pode, ao mesmo tempo, não garantir de forma linear e direta capacidades elevadas dentro do campo: um diploma, por exemplo, pode não ser sinónimo de capacidades elevadas de literacia. Como tal, as competências de literacia não são estáticas e devem ser estimuladas, desenvolvidas e reforçadas ao longo da vida, tanto na escola como na esfera pública. Com o advento 2 da comunicação em rede, cimentada pelo uso das novas tecnologias de informação e comunicação, foi reconhecida a necessidade de rever práticas de estímulo à literacia e à leitura, fora da tradicional página escrita. Posteriormente, surge a referência ao livro impresso, partindo para o livro e leitura digitais. Não poderia falar do livro sem enquadrar a literacia e os hábitos de leitura na equação, mas seria igualmente incorreto não abrir espaço para a caracterização do mercado do livro e para os desafios do sector, tendo por base um estudo da Associação Portuguesa de Autores e Livreiros (APEL). O livro impresso e o eletrónico emergem nesse ponto como focos centrais de uma discussão pertinente: serão eles uma realidade antagónica ou passível de convivência no mesmo mercado? A nível geral, o objetivo a que me proponho neste relatório é o esclarecimento da situação atual do livro num mundo cada vez mais tecnológico e do trabalho das pequenas editoras que necessitam, como qualquer outra empresa, de se adaptar à evolução da sociedade. O livro no universo digital é a linha de orientação que mantenho presente neste trabalho. O ato de ler, à luz de um mundo globalizado, pode agora contar com a tecnologia, desenvolvendo competências que ultrapassam as fronteiras da palavra. Se o livro continua a ser uma ferramenta fundamental para a emergência da literacia, a oferta de leitura em sites na Internet, blogues e e-books, motiva os leitores a partirem em busca de novas formas de satisfação das suas necessidades. Deste modo, a elaboração de um estudo relacionado com o enquadramento teórico desenvolvido tornou-se pertinente. Foi realizado um inquérito subordinado ao tema dos hábitos de leitura de e-books e da tendência de compra dos consumidores, com o desejo de contribuir para a compreensão da realidade no setor em causa e tentar clarificar os hábitos de leitura e tendências de mercado no contexto atual, tão difícil para as editoras, sobretudo para as pequenas que trabalham fora dos grandes grupos. Com a formulação das hipóteses de investigação 1) a maioria já leu e-books e 2) essa maioria fá-lo pela facilidade de utilização, foi possível levar a cabo o estudo pretendido e analisar os seus resultados que não deixam de surpreender em alguns pontos. A revolução tecnológica a que assistimos, enfrentando o lançamento sucessivo de novos produtos no mercado, alterou a nossa forma de comunicar e de efetuar várias atividades diárias. Muito do que costumávamos fazer de uma determinada forma, como o procedimento de compra de um livro, adquirido de forma impressa numa 3 livraria, encara agora a possibilidade de ser feito eletronicamente sem sair de casa. A alteração de hábitos de compra e de consumo é capaz de afetar todo um setor de comércio, constitui um tópico para além de interessante e capaz de definir todo um trabalho académico. 4 2. A MediaXXI/Formalpress 2.1. A empresa Com o objetivo de criar uma empresa de base científica, passível de trabalhar em cooperação com universidades e centros de investigação surge, em Junho de 2003, a Formalpress - Publicações e Marketing Lda. A Formalpress, destinada a pôr em prática as valências adquiridas em gestão dos media, marketing e indústrias culturais em emergência na sociedade da informação, decide criar paralelamente a MediaXXI – Consulting, Research and Publishing, uma aliada forte impulsionada pelos conhecimentos existentes em Consultoria, Investigação, Formação e Edição. A MediaXXI/Formalpress estendeu o seu campo de atuação por seis domínios principais interelacionados, que demonstram a capacidade de cruzamento de competências existente na empresa: a experiência no âmbito da edição de livros e revistas; a investigação e pesquisa; a formação; a consultoria de marketing e comunicação; o customer publishing e a organização de eventos. A empresa preocupa-se em reger o seu trabalho através do modelo de negócio, o da natureza dos produtos e do modelo de organização. Estas plataformas combinam-se e potenciam sinergias em investigação, formação e edição; no desenvolvimento de produtos na área do ensino da comunicação, media, indústrias criativas; suportando tudo isto numa organização em rede que privilegia a inovação. Sendo esta uma empresa de base científica, a edição de livros através de co edições universitárias, de publicações escolares e científicas; a distribuição dos mesmos e de revistas académicas enquadra-se nas linhas orientadoras iniciais da sua fundação. Este destaque dado ao livro gira em torno de um processo de edição definido. Este processo gira em torno de cinco palavras-chave: edição; design; apoio administrativo; impressão e promoção. Sobre a edição, os profissionais da empresa estão aptos a rever o texto e sugerir possíveis alterações ou melhorias dos originais. Na fase final, ou seja, na promoção, são planeadas e executadas, numa perspectiva local e global, todas as actividades relacionadas com a comunicação e marketing editorial, bem como a distribuição, de acordo com os canais mais apropriados – retalho tradicional, quiosques, venda directa, cross-selling ou plataformas digitais. A nível do design, é elaborado um projecto gráfico e a composição de cada livro, através de uma cuidada paginação, bem como arte final da capa e produtos promocionais. O autor pode colaborar na estratégia da obra, com imagens, ilustrações, entre outros 5 conteúdos. No apoio administrativo, são resolvidos todos os processos administrativos relacionados com a publicação, desde o registo da obra, obtenção de depósito legal e ISBN/ISSN. Na fase da impressão, é assegurada uma produção de qualidade, através de várias parcerias com empresas gráficas. A MediaXXI/Formalpress produz livros personalizados para empresas ou outro tipo de organizações, sendo as tiragens adequadas a cada caso, sublinhando que podem variar entre oitenta a oitenta mil exemplares. O site possui uma livraria online, onde podem ser encontrados todos os livros existentes à venda, de entre quatro completas coleções disponíveis: comunicação, lazer e indústrias criativas; economia, gestão e marketing; ciências da educação e cultura geral e ainda uma compilação sobre direito, política e história. A MediaXXI/Formalpress detém uma parceria de vendas com a conhecida Amazon, sinónimo da capacidade de potencialização das vendas e de promoção dos conteúdos. São de referir ainda, os serviços de traduções, revisões e retroversões proporcionados, disponíveis em português, inglês, francês, alemão, castelhano, mandarim e russo. Também os cursos de formação, seminários e conferências, expressados “no terreno” pelos cursos executivos de formação avançada e modulares, pela formação profissional, seminários, conferências e eventos académicos, são valências que justificam o posicionamento da MediaXXI/Formalpress no mercado na forma desejada. Por outro lado, a comunicação e marketing corporativos é outro dos domínios em causa, posto em prática na edição de revistas e newsletter corporativas, no apoio à conceção e redação de conteúdos e de planos de marketing e comunicação. A empresa tem também parcerias com a OED Consultores, Quantumleap comunicación e imagen consultores e a Quatro cês. 2.2 Funcionamento interno A MediaXXI/Formalpress tem sede no Porto e uma filial em Lisboa. A nível geral organiza-se pelos departamentos de Administração e Direção Geral; Consultoria e Investigação Aplicada; com o Doutor Paulo Faustino e a Dra. Rita Alves respetivamente, estando eles no comando da empresa; restando ainda Comunicação e Conteúdos; Edição e Produção de Conteúdos e Departamento de Formação Profissional e Cursos Executivos. Detém também contactos a nível internacional, no Brasil, Angola/África Austral, Estados Unidos da América e Europa/Região dos Balcãs. 6 No escritório portuense, durante os três meses de estágio, pude construir uma conceção do funcionamento interno da empresa, baseado precisamente no período em que frequentei diariamente o escritório. Desta forma, o trabalho estruturou-se ao redor de vários funcionários, das mais variadas áreas: em Comunicação e Produção de Conteúdos, a Dra. Sofia Baptista, a minha orientadora no local de trabalho, encarregue da chefia deste escritório, e aquela a quem assisti com maior regularidade; uma designer; duas paginadoras; uma profissional na área de marketing; e um no campo da candidatura a projetos europeus de investigação. O regular funcionamento da empresa baseava-se na comunicação permanente entre os membros de todas as áreas, incluindo os de Lisboa, permitindo que todos soubessem exatamente o que estava a ser feito e o que seria preciso fazer em seguida em cada tarefa. Em muitos casos era necessário um trabalho conjunto, promovendo a entreajuda e a comunicação. A comunicação, tanto externa como interna, era apoiada, em grande parte, pela troca de informações via e-mail e telefone, para além da óbvia conversação entre os trabalhadores. Cada um possuía um contacto eletrónico de serviço, que mantínhamos aberto constantemente, com o propósito de ter todas as tarefas atualizadas ao minuto. Importa referir que nem todos os trabalhadores da empresa estão presentes em full-time, pelo que a equipa não está completa todos os dias, nas oito horas que compõe o horário de trabalho (das dez da manhã às seis da tarde). Quando o horário de trabalho de alguém cessava, era hábito reportar o ponto em que as tarefas tinham ficado enviando-as via e-mail: caso estivessem terminadas, para a Dra. Sofia Baptista ou para quem de direito; caso não estivessem terminadas, o seu estado e previsão de conclusão eram também comunicados. A MediaXXI/Formalpress conta também com colaboradores externos. Por vezes, em alguns trabalhos, são contactados alguns membros já habituados a fazer trabalhos para a empresa, que aceleram a produção de conteúdos e a filtragem do muito trabalho que surge no dia-a-dia. 3. Atividades efetuadas 3.1 Avaliação quantitativa Esta secção do relatório refere o trabalho realizado ao longo dos três meses de estágio de forma quantitativa. A abordagem qualitativa apenas será descrita no ponto seguinte. 7 Durante o período de estágio na empresa, os tipos de tarefas realizadas foram variadas e exigentes em cada uma das áreas trabalhadas. Dentro do escritório, sempre utilizei o e-mail institucional, criado no primeiro dia em que me apresentei ao serviço. Era esse o contacto utilizado para trocar informações com o escritório de Lisboa, para passar informações ou documentos dentro do nosso próprio local de trabalho e também para tratar toda e qualquer questão relativa a potenciais clientes ou negócios pendentes. As chamadas telefónicas representavam outro dos importantes instrumentos de trabalho. Como já referi anteriormente, por variadas vezes, enquanto estive ao serviço da MediaXXI/Formalpress, deparei-me com vários trabalhos que necessitavam de esforço conjunto, envolvendo pessoas localizadas não só no Porto, o que nos tornava dependentes do telefone e da Internet. Foram também várias as situações em que utilizávamos o Skype, para mensagens e telefonemas, sempre que algum dos contactos se encontrava fora do país e essa se apresentava como a melhor opção. A caixa de e-mail encontrava-se permanentemente aberta, de modo a cobrir qualquer urgência de última hora vinda de um cliente ou até de dentro dos escritórios, permitindo que todas as questões, vindas de quem quer que fosse, pudessem ser respondidas com brevidade. Ocorria, com frequência, a obrigatoriedade de colocar de lado trabalho começado no dia anterior, que se mostrava, no momento e perante as circunstâncias, menos relevante, levando-me a iniciar outra tarefa imperativa naquele instante. Desta forma, nenhuma situação urgente ficava sem resposta. Ao longo do período de estágio trabalhei, sobretudo, lado a lado com a Dra. Sofia Baptista, na área de Comunicação e Produção de Conteúdos. Desde início foram-me dadas instruções iguais às de qualquer outro membro da empresa em funções. Desde o fim da primeira semana de trabalho que me foram confiadas as chaves do escritório, o que me trouxe a responsabilidade acrescida de garantir que todos os equipamentos estavam funcionais aquando da chegada dos restantes colegas, levando-me a estar no local poucos momentos antes da hora de abertura prevista. O horário de entrada sempre foi às dez da manhã e, nesse momento, tendo já tudo preparado, procedia imediatamente às tarefas diárias e rotineiras de verificação dos e-mails e de encaminhamento ou resposta aos mesmos, caso necessário. Verificava os telefonemas, assegurando-me que todos tinham resposta e que não se encontrava nenhuma tentativa de contacto perdida. Anotava todos os recados deixados via telefone ou verbalmente se alguém 8 não se encontrasse presente, ou tratava da situação eu própria sempre que possível. A primeira ação de que fui incumbida tratou-se da criação e divulgação de uma newsletter. Era, nomeadamente, um call for chapters destinado a ser divulgado via correio eletrónico, o que me levou a utilizar as extensas bases de dados de e-mails que a MediaXXI dispõe. Também me foi pedido que traduzisse a newsletter para inglês, o que a faria atingir um maior número de pessoas e, consequentemente, de potenciais candidatos. Este primeiro serviço conduziu-me a outros relacionados com ele, tais como a atualização das bases de dados utilizadas e o encaminhamento de respostas de clientes interessados na proposta. Paralelamente, iniciei ainda o envio de outros e-mails relativos a propostas de co-edições de livros, o que me proporcionou mais contactos com potenciais clientes. O texto enviado foi também escrito por mim e traduzido, desta feita, para inglês e espanhol. Estes dois projetos foram divulgados nas redes sociais, outra das tarefas que me foi pedida, ao mesmo tempo que as mantinha atualizadas e fazia com que os seguidores das páginas da MediaXXI/Formalpress no Facebook, Linkedin e Xing recebiam também as mais recentes novidades por nós impulsionadas. Com o passar do tempo, o volume de trabalho foi aumentando. Tinha várias tarefas a realizar ao mesmo tempo, com um prazo definido. Para além da divulgação de projetos em vários campos, das atualizações das bases de dados, das traduções de vários artigos e textos, efetuei tarefas como: listagens das maiores livrarias existentes, virtuais e presenciais; listagens de programas de rádio e televisão onde pudessem ser divulgados os nossos livros e listagens de editores de secções de cultura de jornais que pudessem estar interessados em passar a palavra sobre as nossas publicações e ainda a contagem de todos os livros presentes neste escritório, em boas condições e rasurados, trabalho realizado de seis em seis meses, com o objetivo de determinar os valores que lá se encontram e aqueles que se perdem com a deterioração do material. Tratei das encomendas de livros feitas por editoras tais como a Porto Editora, reunindo os pedidos e enviando-os para os destinos indicados pelo correio. Efetuei leituras de variadas teses propostas para publicação, resumindo-as em várias folhas, de modo a poder revê-las cuidadosamente, apontando pontos fracos suportados com passagens concretas, tal como pontos fortes. Acompanhei a criação do novo padrão estandardizado para formatação dos powerpoints criados na empresa, participei na criação efetiva de powerpoints para as mais variadas utilizações e na reconversão dos antigos para que se encaixassem nos novos padrões. Estive envolvida 15 positivo, contribuindo para uma melhor compreensão da realidade e do que me espera no futuro. II Esta segunda parte do relatório explora um tema pertinente, para o qual os três meses de estágio na MediaXXI/Formalpress despertaram o meu interesse. Apresenta também os resultados de um inquéritos sobre a compra de e-books e hábitos de leitura. 1. Literacia e hábitos de leitura em Portugal Nos dias de hoje, o conceito de literacia deve classificar-se como abrangente, pois são múltiplas as vertentes e competências a si atribuídas e aos indivíduos que as detêm. A evolução da sociedade moderna e o avanço da tecnologia, apesar da consciência do crescente acesso dos jovens a uma educação cada vez mais prolongada, vieram colocar novos problemas e desafios às noções até aí tidas como certas. A ideia de que uma escolarização massificada conduziria à erradicação definitiva do analfabetismo e da iliteracia esteve na origem, a nível internacional, de políticas destinadas a garantir a escolaridade obrigatória para todos. Se o conceito de alfabetização traduz um acto de ensinar e de aprender a leitura, a escrita e o cálculo, um novo conceito – a literacia – traduz a capacidade de usar as competências (ensinadas e aprendidas) de leitura, escrita e de cálculo. Pretende-se, com esse novo conceito, dar conta da posição de cada pessoa num continuum de competências que têm a ver, também, com as exigências sociais, profissionais e pessoais com que cada um se confronta na vida corrente” (Benavente et al, 1996, p. 4). Define-se então literacia como “a aptidão para o processamento de informação escrita na vida quotidiana”(Benavente et al, 1996, p. 4). Trata-se do uso das capacidades de leitura, escrita e cálculo, com base em diversos materiais de uso corrente na vida quotidiana, centrando-se nessa utilização e não na sua simples obtenção. A literacia é também entendida de um modo não estático, ou seja, considera-se que as competências de uma população neste domínio tendem a alterarse quer por via da evolução (positiva ou negativa) das capacidades individuais, quer 16 por via da transformação permanente das exigências da própria sociedade. Desde os primeiros diagnósticos sobre competências de literacia, efetuados na década de 70 nos EUA e em 1996 em Portugal (Benavente et al, 1996) realizaram-se várias ações a nível nacional e internacional posteriormente, todas para que se verificasse um incremento dos níveis de literacia. Desde finais da década de 90, aliás, vêm-se produzindo internacionalmente, com destaque para os EUA e a Austrália, modelos e referenciais de literacia, a serem aplicados no ensino, como referências para os agentes educativos envolvidos e incentivando à tão necessária aprendizagem ao longo da vida. Sob a coordenação de um organismo canadiano (Statistics Canada) e com o apoio da OCDE, seguiu-se o primeiro estudo internacional de literacia – o International Adult Literacy Survey (IALS) – o qual utilizou uma abordagem muito semelhante à desenvolvida no National Adult Literacy Survey. As evoluções conceptuais do termo literacia surgem a par da evolução da sociedade logo, o aparecimento do conceito literacia mediática, por exemplo, não poderia fazer mais sentido na era tecnológica difusora de informação em que vivemos. Segundo o Jornal Oficial da União Europeia, “literacia mediática é a capacidade de aceder aos media, de compreender e avaliar de modo crítico os diferentes aspectos dos media e dos seus conteúdos e de criar comunicações em diversos contextos. É uma questão de inclusão e de cidadania na sociedade da informação de hoje; uma competência fundamental, não só para os jovens, mas também para os adultos e as pessoas de idade, pais, professores e profissionais dos meios de comunicação social. Graças à Internet e à tecnologia digital, é cada vez maior o número de europeus que pode agora criar e divulgar imagens, informação e conteúdos. A literacia mediática é hoje considerada uma das condições essenciais para o exercício de uma cidadania activa e plena, evitando ou diminuindo os riscos de exclusão da vida comunitária” (Jornal Oficial da União Europeia, 2009, p.2). Até meados dos anos 90, em Portugal, as análises realizadas para avaliação da literacia tinham em conta, essencialmente, a aferição formal das aprendizagens escolares. Media-se o analfabetismo na tentativa de perceber a eficácia dos sistemas educativos, porém, ficava por explicar a qualidade da aplicação das competências adquiridas e certificadas por processos de alfabetização/ escolarização nas diferentes situações do dia-a-dia em que elas podem ser acionadas. Podemos afirmar que o quotidiano experienciado nas sociedades ocidentais está repleto de situações nas quais o uso da informação escrita se assume como um dos elementos centrais de interação. 17 No nosso país, o primeiro (e mais completo) estudo de avaliação direta das competências de leitura, escrita e cálculo da população adulta foi o Estudo Nacional de Literacia (ENL), realizado por uma equipa coordenada por Ana Benavente, da qual faziam também parte Alexandre Rosa, António Firmino da Costa e Patrícia Ávila. Esse mesmo estudo deu origem ao livro A Literacia em Portugal. Resultados de uma Pesquisa Extensiva e Monográfica (Benavente, Rosa, Costa e Ávila, 1996). Esta pesquisa, de âmbito nacional, constituiu um referencial teórico, metodológico e empírico dos estudos sobre literacia da população adulta portuguesa até hoje. Em termos metodológicos, o modelo seguido foi a avaliação direta das competências de leitura, escrita e cálculo da população, através da construção de uma prova nacional composta por um conjunto de tarefas remetendo para os domínios pessoal, social e profissional. Assim, ao mesmo tempo que vários países participavam no primeiro estudo internacional nesta área, o Estudo Nacional de Literacia desenvolveu de raiz um teste de literacia. Este teste foi construído tendo em conta a especificidade do real contexto sociocultural português, tendo a preocupação de avaliar competências de literacia consideradas transversais às sociedades contemporâneas. A nível empírico, este estudo tornou possível a recolha de um conjunto alargado de dados ligados, sobretudo, a três pontos principais: a distribuição da população por níveis de literacia; as práticas declaradas de leitura, escrita e cálculo na vida pessoal e profissional e as autoavaliações dessas competências. A amostra, representativa da população no intervalo já indicado (dos 15 aos 64 anos), residente em Portugal Continental, foi construída a partir da amostra do Inquérito ao Emprego, regularmente realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Os estratos de análise foram construídos pela combinação das variáveis: grau de instrução; sexo; idade e condição perante o trabalho. Na conceção do ENL, a análise extensiva ocupou um lugar central, tendo sido recolhida informação através de uma pluralidade de abordagens (avaliação direta, autoavaliação, grau de ensino) e também através de uma vertente de análise qualitativa, de caráter monográfico, indispensável à conclusão final. Nesta ordem de ideias, o ENL optou por uma estratégia simultaneamente extensiva e intensiva, desdobrando-se ela própria em várias dimensões e procedimentos e a outra aplicada aos diversos contextos sociológicos. A literacia faz parte e é indissociável de um universo sociocultural, onde vai estabelecendo relações de cruzamento e interpenetração com todos os seus elementos. De uma forma global, foi possível 18 constatar que os níveis de literacia estão muitas vezes dependentes das origens sociais dos indivíduos. Segundo as conclusões do estudo, estamos perante um nível de literacia “bastante fraco”, repartido de forma desigual pela população portuguesa (Benavente et al, 1996, p. 398). 37% dos inquiridos detêm competências muito limitadas, enquanto 32,1% do total enquadra-se no parâmetro das competências bastante simples. Alguns dos inquiridos (10,3%), não foram capazes de solucionar o desafio proposto. Verificou-se que “quanto maior é a escolaridade, mais elevado tende a ser o nível de literacia” (Benavente el al, 1996, p. 399). É na classe do grupo dos assalariados agrícolas e dos camponeses e nos grupos em que os pais evidenciam graus de ensino mais baixos, em que se encontram várias condicionantes para o desenvolvimento das competências de leitura, escrita e cálculo, que demonstram os mais reduzidos níveis de literacia. No que concerne a práticas de leitura, escrita e cálculo associadas às competências de literacia da população, conclui-se que quanto mais elevado o nível de literacia, maiores são as taxas de leitura, escrita e cálculo. Com efeito, e no que se refere à leitura de livros, revistas e jornais verificou-se que, independentemente do nível de literacia, a leitura de livros afasta-se significativamente dos outros dois suportes. É de facto o tipo de leitura menos praticado, confirmando os estudos realizados sobre esta matéria em Portugal, que afirmam que os portugueses leem muito pouco. No entanto, a tendência continua a ser confirmada: “quanto mais elevado o nível de literacia, maior tende a ser a frequência declarada quanto à leitura de livros, jornais e revistas.” (Benavente et al. 1996, p. 148). No que respeita à escrita, esta competência encontra-se bastante distanciada da leitura. É uma “prática com expressão bastante reduzida no quotidiano dos indivíduos, estando praticamente ausente entre a quase totalidade daqueles com níveis de literacia mais reduzidos.” (Benavente et al. 1996, p. 167). Hoje em dia é provável que o caminho a percorrer para aproximar a leitura e a escrita já não seja tão distante, pois as novas tecnologias e a Internet despoletaram um número incontável de utilizares, dispostos a comunicar através escrita a qualquer hora, em qualquer parte do mundo. Os resultados supracitados prendem-se com diversos factores: o baixo nível de instrução ( a população inquirida, na sua maioria, não tinha mais do que o primeiro ciclo do ensino básico); “os contextos domésticos empobrecidos em livros e outros materiais escritos, a vida quotidiana rarefeita em práticas de literacia ou, muito 19 trivialmente, as dificuldades em prestar ajudas concretas às crianças nas aprendizagens da leitura, escrita e cálculo” (A. Benavente, et al., 1996, p. 402) que certamente se refletiram nos dados obtidos; e a falta de escolarização na época, que na “sociedade portuguesa é ainda muito baixa comparativamente com os países mais desenvolvidos, ou mesmo com outros países de desenvolvimento intermédio” (A. Benavente, et al., 1996, p. 403). De facto, se analisarmos os resultados deste estudo, verificamos que grande parte da população portuguesa sofre de um analfabetismo funcional, ou seja, não possui competência de leitura. Esta lacuna indica que, “nesta sociedade em constante transformação, o analfabeto funcional é uma criatura singularmente indefesa” (M. Perini, 1991, p. 78); limitada no acesso à informação; à cultura e à política. É possível levantar muitas questões após conhecer o ENL, ficando extremamente vincada a noção de que “as condições sociais herdadas condicionam o desenvolvimento das competências” (Benavente et al. 1996, p. 167). Assim, a solução para um desenvolvimento forte e sustentado, que vise diminuir os níveis de iliteracia, só poderá passar pela transversalidade da formação dos mais jovens aos mais adultos, concedendo-lhes oportunidades e incentivando a aprendizagem em qualquer fase da vida. Quantos aos hábitos de leitura no nosso país, a melhoria das condições económicas das famílias desde os anos noventa, a escolarização progressiva e cada vez mais prolongada da população, o lançamento da rede de bibliotecas públicas e escolares, entre outras iniciativas, decerto contribuíram para alargar as possibilidades de acesso e estímulo à leitura. Em 1983, no manifesto sobre a leitura pública em Portugal, esta era vista como “condição indispensável para o exercício da cidadania no país democrático”, contribuindo para “a afirmação do indivíduo na comunidade, conferindo-lhe a possibilidade de exercer plenamente o ato de escolher” (Sousa, 1999, p.132). As investigações no campo são crescentes, com particular incidência desde o ano de 2007, graças à implementação do Plano Nacional de Leitura. A sociedade e o governo portugueses tentam, com este tipo de medidas, acompanhar o movimento ascendente imposto pelos novos padrões europeus, que em muito se relacionam com uma plena integração na comunidade internacional. Portugal, apesar do esforço, continuava na “cauda da Europa”, estando mesmo abaixo de todos os países da Ásia Central. Na Europa, só Malta apresenta valores piores. Nesta Europa a 27, Portugal aproxima-se 20 gradualmente dos padrões europeus. A escolarização das novas gerações, o desenvolvimento da sociedade portuguesa teve, relativamente a esta questão, dois efeitos: “por um lado, uma procura acrescida de ciência por parte da sociedade civil em geral; por outro, uma procura inadiável do ensino superior por parte de uma percentagem crescente da população” (Cabral, 2001, p. 121). Um dos mais importantes estudos sobre hábitos de leitura a nível nacional que continua a servir como referência foi “A Leitura em Portugal”, sob coordenação de Maria de Lourdes Lima dos Santos, com João Soares Neves, Maria João Lima e Margarida Carvalho (2007). Os dados finais do estudo parecem evidenciar uma correspondência entre o aumento da escolarização das novas gerações e o aumento dos índices de leitura em Portugal, havendo a confirmação de que os não-leitores se situam no grau de escolaridade mais baixo (88%) e se enquadram, na sua maioria, na categoria socioprofissional “Operários” (39%). Assim, as conclusões demonstram que 44% acreditam que se lê mais hoje em dia, contra uma percentagem inferior que acredita no contrário (41%). São as pessoas com mais de 55 anos que têm a percentagem mais elevada entre os que acham que se lê mais (50%), contra os 34% dos que têm entre 15 e 24 anos, que contribuiram em maior número para a ideia de que se lê menos. Falando especificamente do período da vida em que os inquiridos crêm ter lido mais, o que obteve o maior número de respostas é aquele em que frequentaram a escola (19%). Quanto ao período em que leram menos, salienta-se o que remete para fases ligadas ao trabalho (15%). Num nível de maior generalidade, como se caracteriza efetivamente o panorama da leitura em Portugal? No que toca à socialização primária para a leitura verifica-se, desde logo, que a idade de aprendizagem situa-se entre os 6-7 anos de idade. A precocidade da aprendizagem e a qualificação da família estão diretamente relacionados com a leitura: quanto mais cedo, mais cumulativa a leitura; quanto mais qualificado o núcleo familiar, mais os incentivos à mesma. Falando de resultados, quanto ao gosto pela leitura na infância, dois em cada três gostava de ler, sendo que as razões por que mais gostavam de ler se prendem com a aprendizagem e a curiosidade. Uma grande maioria (nove em cada dez) dos que gostavam de ler na infância (65% do total da amostra) afirma continuar a gostar de ler, sendo que as razões mais apontadas são gostar de aprender, por prazer, ou passatempo. Para a pequena proporção que deixou de gostar de ler, a falta de tempo e o desinteresse são as razões mais apontadas. Passando ao número de livros lidos de lazer, estudo e profissionais, os de 21 lazer são claramente os que se destacam. Num outro plano, quase metade da amostra leu o último livro (sem ser escolar ou profissional) há cerca de um mês ou menos, sendo que a escolha ocorre essencialmente por gosto pessoal. Quanto ao que leem no dia-a-dia aqueles que não leem jornais, nem revistas nem livros (os não leitores que, como se referiu já, representam uma pequena parte da amostra, 5%), servem-se da sua alfabetização para ler sobretudo as contas/recibos e as marcas e preços de produtos (79% e 75%, respetivamente). Por sua vez, a utilização da Internet (87% dos que usam o computador), é feita muito especialmente em situações de lazer, maioritariamente a partir de casa. Quanto aos usos, destacam-se a procura de indicações úteis e a comunicação com familiares. Há que referir que, nos dias de hoje, estas percentagens e estes motivos poderiam ser bastante diferentes. As redes sociais e os seus milhões de utilizadores; projetos como o da atribuição do computador Magalhães e o E-escolas ajudaram a conferir uma vertente tecnológica assumida ao ensino, reforçando ainda mais a ideia de que a Internet é um instrumento usado para muito mais do que aquilo que é referido no estudo. Relativamente à ocupação do tempo durante um dia normal, quase metade dos inquiridos indica que a leitura é uma atividade que os ocupa num período que não ultrapassa os trinta minutos. Evidenciam-se, assim, diferentes circunstâncias justificativas dos períodos de maior e menor intensidade da leitura ao longo dos ciclos de vida, em conjunto com a indicação de que lemos cada vez mais, mas talvez ainda não o suficiente. 2. O livro e a leitura na era digital Para Castells, os avanços tecnológicos do século XX, favoreceram o surgimento de uma nova revolução na sociedade da informação (Castells, 2003, p.1). Estamos diante de um novo paradigma tecnológico: a revolução tecnológica da informação, a revolução informacional, revolução essa que difere das outras na sua matéria-prima: o conhecimento. Mais do que um conflito para alargar fronteiras, este está condenado a quebrá-las, impulsionando o conhecimento e todo o tipo de informação pelo mundo. Quanto ao livro impresso, meio incontornável para a transmissão de conhecimento, este vê-se obrigado, na atualidade, a conviver com o eletrónico. O 22 surgimento e o aperfeiçoamento das novas tecnologias impuseram uma profunda modificação na apresentação de coisas tradicionalmente palpáveis ou materiais. O livro, então, pode ser entendido como o veículo de trasmissão de um conjunto específico de conhecimentos, que podem ser disseminados de várias formas dentro do mesmo suporte: impresso ou digital. Deve ser pensado como um dispositivo cuja função não seria apenas dar suporte ao pensamento criativo, mas também colocá-lo numa posição de operacionalização perante os utilizadores. O novo paradigma tecnológico estimulado, em parte, pela supramencionada revolução informacional e pelas novas exigências da sociedade, tem um exemplo da sua expressão precisamente no paradigma do livro eletrónico. O texto virtual permite, agora, a junção de várias plataformas, vincando a necessidade do “multimédia”: das imagens, dos sons, dos vídeos e das hiperligações. O Electronic Book é utilizado para denominar o livro em formato eletrónico, podendo ser obtido via download para o computador ou para um aparelho que permita a sua leitura fora dele, disponibilizando-o ao leitor de uma forma bastante mais simples. Perante estas mudanças, não podemos deixar de observar que a revolução dos livros eletrónicos é também uma revolução da leitura, permitindo novas possibilidades de compreensão. Segundo Chartier (1994, p. 100) “a representação eletrónica dos textos modifica totalmente a sua condição: ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar específico”. Como sabemos, a nossa cultura está intimamente ligada ao livro logo, as mudanças estruturais que observamos, podem produzir mudanças fundamentais nos padrões culturais e sociais. O surgimento de novas tecnologias e paradigmas sempre foi acompanhado da colocação das mais variadas questões. Os novos suportes de informação que acompanham este novo modelo do livro impõem ao leitor um novo tipo de comportamento. No tradicional livro impresso, a sequência de leitura poderá eventualmente estar predeterminada pelo autor. Em contraposição, no texto eletrónico, o leitor conta com múltiplas alternativas ou cursos de ação, que são definidos segundo as suas necessidades, eliminando-se, portanto, a linearidade já caracterizou a leitura. Sobre este assunto, Bellei refere: “A estrutura do hipertexto, ao enfatizar a conetividade, altera a situação e o comportamento do leitor e do autor características do livro impresso, no qual o autor tende a controlar o roteiro de leitura do leitor. Este parte de um índice linearmente organizado e percorre capítulos até chegar à página final. No hipertexto, perde-se, pelo menos em parte, a autoridade do 23 autor, assumindo o leitor uma certa responsabilidade (e um certo risco) para escolher alguns dos roteiros previamente estabelecidos e ignorar outros (Bellei, 2002, p. 47). Assim, o novo modelo de leitura define-se pela reconstrução do seu próprio sentido, possuindo, o leitor, uma certa liberdade para estabelecer os caminhos que mais deseja, optando por uns em detrimento de outros. Desta forma, o texto principal já não constitui o centro da ação, podendo haver tantos centros de leitura como leitores possíveis, não subsistindo, portanto, nenhuma hierarquia. O hipertexto permite que o leitor possa enveredar, durante a leitura, por temas que deseja aprofundar, recebendo mais alguma informação (Barthes,1999). O suporte digital deixa nas mãos do leitor decisões que, anteriormente, eram próprias do autor ou editor. Ao ler uma obra na plataforma eletrónica, o utilizador pode, por exemplo, mudar o tamanho ou o tipo da letra, se isso fosse necessário para uma melhor leitura. Tem, igualmente, a possibilidade de usar outras ferramentas de busca, localizando palavras e frases, ou mesmo marcando partes do texto que lhe pareçam importantes para uma consulta posterior. Deste modo, impulsionada pelo lançamento de aparelhos portáteis para leitura digital, a produção de livros neste formato cresce a cada dia, apresentando-se como uma nova opção para o público consumidor de livros. Tal como aconteceu com as músicas, os vídeos, as revistas e jornais, era de esperar que chegasse também a vez do universo literário fazer parte do ambiente digital. Há já algum tempo que as grandes bibliotecas virtuais começaram a disponibilizar o seu conteúdo em papel na Internet, fazendo sucesso na rede, principalmente no meio académico, para consulta e pesquisa. De qualquer forma, a ideia de comprar um livro e de o ler digitalmente ainda consegue soar de forma estranha para certos tipos de público. Afinal, não podemos negar que o livro em papel atravessou séculos assumindo-se como o mais simples e prático instrumento para registo e a transmissão de ideias, com a qualidade de nos poder acompanhar a qualquer hora, facilitando também o empréstimo e a troca entre uma infinidade de leitores. Encontramo-nos num momento oportuno para encontrar e promover mecanismos que o tornem uma importante oportunidade de negócio para os representantes do setor, extraindo o melhor das novas tecnologias. São os e-readers que têm por objetivo conseguir transmitir ao utilizador a sensação de que estão realmente a ler uma obra impressa. O maior representante mundial nesta categoria é o Kindle, criado pela empresa norte americana Amazon em 2007: “In addition, non-traditional book industry actors like Amazon, Apple and 24 Google are actively and at times aggressively pursuing global e-book markets and have forced traditional publishers to form strategic responses” (DeFillippi & Wikström, 2013, pág. 81). Além dele, também se destacam o Sony Reader (Sony), Nook (Barnes e Noble) e o Ipad, aposta da gigante Apple, lançada em Janeiro de 2010. No entanto, como em toda a tecnologia que se preze, os e-readers também encontram obstáculos, como o desenvolvimento de uma bateria de duração razoável, uma escala de cores variada e preços mais acessíveis. Outro dos problemas muito discutidos refere-se à quase indestrutível pirataria e violação dos direitos de autor. Para evitar tais atos, as editoras têm distribuído livros protegidos por DRM (Digital Rights Management), uma tecnologia que inibe a cópia das obras e garante a proteção legal dos direitos autorais dos autores. Embora a multiplicação dos e-books já seja uma realidade nos Estados Unidos e na Europa, onde um grande número de editoras possuem a versão digital das suas obras, o negócio da leitura digital continua com muitas vantagens a descobrir e a explorar, não esquecendo que, na era tecnológica, há sempre a possibilidade de formação de novos paradigmas a provocar alteração de práticas ancestrais. As editoras, por sua vez, devem estar atentas para conseguirem acompanhar as novas demandas, já que será sempre o público a decidir se convive com os dois suportes ou prefere apenas um deles. É um facto que muitas pessoas passam muitas horas em frente ao computador e praticamente o dia todo online através do computador ou de smartphones. Para essas pessoas tavez seja mais cómodo utilizar o suporte eletrónico, no entanto, há quem continue a preferir o papel. Na obra Não contem com o fim do livro, editada no formato de uma longa conversa de Umberto Eco com o cineasta francês Jean-Claude Carrière, Eco defende que, ao contrário do que se pensa, com a utilização do computador, voltamos à era alfabética, em oposição a uma suposta era das imagens. Para ele “Das duas, uma: ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Não pode fazer uma colher melhor que uma colher. O livro venceu os seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro” (Carrière & Eco, 2010, p. 15). Outra das questões em discussão é, por exemplo, a da memória. Apesar das novas tecnologias terem aumentado a capacidade de armazenamento de 31 para estas causas. Apesar de este ser um caminho claramente longo e difícil, o setor livreiro não deve baixar os braços, mas sim fazer valer os seus direitos. O livro em papel continua a ser importante para um largo segmento da população, sobretudo para os que não são nativos da geração digital. 5. Os e-books: o que são? O que representam? A indústria editorial tem sofrido, nos últimos anos, uma revolução de grande magnitude. Esta revolução, que muitos comparam apenas ao momento em que Gutenberg inventou a imprensa, declara que uma das suas principais causas é o livro digital. O e-book veio revolucionar o mercado editorial, apanhando desprevenidas muitas editoras que aguardam ainda para conhecerem a verdadeira dimensão do sucesso deste produto, de modo a começarem a tomar medidas relativas ao mercado e ao eventual modelo de negócio a adotar: “There are many players involved in the ebook industry. Authors, publishers, sellers, readers, libraries and device manufacturers all have concerns and expectations about e-book market development (DeFillippi & Wikström, 2013, pág. 239) Todas estas alterações no setor com a chegada do e-book trouxeram problemas para as editoras, sendo que alguns já aqui foram mencionados, como as questões dos direitos de autor digitais, direitos de imagem, novos e diferentes modelos de negócio, bem como a pirataria e outros imprevistos. No entanto, nos Estados Unidos da América, onde subsiste uma mentalidades protetora dos direitos de autor, o avanço do livro eletrónico tem sido inquestionável, assistindo-se a um fenómeno crescente de popularidade e adesão por parte dos consumidores. Segundo a Association of American Publishers, entre 2010 e 2011 o número de e-books vendidos subiu 169,4%, ao mesmo tempo que os livros físicos baixaram 24,8%. O desenvolvimento dos e-books poderá contribuir também para a criação de um mercado de novas oportunidades também para os mercados de língua portuguesa. Os editores poderão chegar facilmente a mercados como o Brasil, os PALOP e a outras comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo. No caso dos livros técnicos, os livros eletrónicos (e não os PDF) de livros impressos apresentam enormes vantagens, pois permitem associar ao livro todas as 32 vantagens de uma experiência multimédia que os consumidores tanto procuram. A riqueza de associar a um texto a hiperligações, fotos e vídeos que permitem uma leitura pautada pelo interesse do leitor, altera significativamente a experiência de leitura. Os desafios digitais constituem excelentes oportunidades para a conceção de campanhas de comunicação blended, que conjuga a componente física com a digital e aproveita as potencialidades do multimedia para aliciar consumidores e potenciais leitores, bem como para editores e livreiros. Este tipo de estratégia poderá ser aproveitada para favorecer a segmentação, promovendo a criação de bases de dados de consumidores de leitura, por gostos e hábitos de consumo. A comunicação digital é, pois, um caminho com grande potencial de exploração, já que aproveita o potencial das redes sociais e coloca os leitores no papel de promotores dos livros, encarando o livro, produto com alto potencial de recomendação, catalisador de emoções e experiências. Em suma, a utilização dos meios digitais originou desafios mas também novas oportunidades passíveis de serem aproveitadas por aqueles que souberem ver nelas os pontos fortes e não apenas as fraquezas de um mercado em evolução. 6. Livros impressos vs. e-books: realidade antagónica ou simbiótica? Com o surgimento do livro eletrónico diversos autores têm vaticinado o desaparecimento da cultura impressa. Frank Smith, através da sua obra livro Leitura Significativa afirma “uma reação em favor dos livros tem tanta possibilidade de sucesso como o abandono de aviões e automóveis em favor do transporte a cavalo. Isto significa o final dos livros? Hesito em dizer que sim, porque como milhões de outras pessoas, tenho um sentimento especial por eles.” (Smith, 1999, p. 157). Nesse sentido, na transição de um suporte para outro, acredita-se no surgimento de outras práticas de leitura, diferentes das atualmente existentes. Penso que os computadores estão a difundir uma nova forma de cultura, ainda que sejam incapazes de satisfazer todas as necessidades intelectuais que estimulam. Outros acreditam, no entanto, na coexistência do suporte tradicional com as novas tecnologias. Tom Wilson (2004), do Departamento de Estudos da Informação da University of Sheffield elaborou um trabalho que apresenta adequadamente as diferenças entre a plataforma electrónica e a impressa. As publicações eletrónicas 33 produzem-se e difundem-se com grande velocidade, diferente do que acontece com o livro impresso. Se forem necessárias correções, um texto eletrónico pode ser atualizado ou corrigido com igual rapidez, enquanto um livro em papel deve passar por uma segunda edição ou, se o erro for descoberto a tempo, registado em erratas. Pode ser difundida em todo o mundo sem necessidade de negociações, ou custos de distribuição ou reimpressão. Porém, esta publicação eletrónica exige o acesso a uma tecnologia relativamente avançada, tanto do produtor como do consumidor da informação. Na atualidade, o acesso a essas tecnologias continua a ser caro para alguns cidadãos. Os Pc’s, notebooks e outros equipamentos poderão ser inadequados para serem usados em todos os lugares nos quais se poderá, com mais facilidade, ler um livro em papel. A tecnologia continua a ser também, para um grande número de pessoas, difícil de aprender e utilizar. O livro, pelo menos no momento atual, atende a várias necessidades pessoais e sociais que não podem ser satisfeitas pelo computador. O exemplar impresso, entre outras coisas, não precisa de eletricidade ou de atualização, podendo o leitor utilizá-lo sem a mediação de uma máquina. Há que ter consciência que o comportamento de procura de informação para a seleção de um livro pode seguir diferentes processos, dependendo do tipo de livro e do fim a que se destina. Um estudo elaborado por Leemans e Stokmans (1991) aborda este processo de decisão segundo três estratégias distintas: através da resolução extensiva do problema, aplicada muitas vezes a produtos com elevado grau de envolvimento e de preço elevado; da resolução limitada do problema, que se verifica quando o produto/serviço é altamente diferenciado dos demais e a seleção requer menos tempo do que na primeira estratégia; e ainda a resposta rotineira, baseada numa compra rotineira de produtos básicos de compra repetida. Leemans e Stokmans defendem que a estratégia que mais se assemelha à utilizada na procura de informação aplicada à compra de um livro é a rotineira. No entanto, apesar do produto em causa, o livro, ser considerado um produto de compra tendencialmente regular e de baixo preço, uma estratégia rotineira é suscetível de alterações de acordo com o tipo de livro em análise. Em Portugal, como noutros países, o mercado livreiro é um setor em clara mudança, provocada pela emergência das novas tecnologias. Se, por um lado, os novos avanços tecnológicos têm permitido às editoras processos de edição mais facilitados, com todas as vantagens subsequentes como a redução de custos, por outro lado a mesma tecnologia permite hoje aos consumidores do produto livro novas formas de aceder ao seu conteúdo de forma mais fácil, barata e nem sempre legal. 34 Teremos de encontrar dentro do nosso mercado, ainda que no meio de tantas dificuldades, formas de equilibrar a presença dos dois tipos de livros. O mercado global, porém, e os consumidores encarregar-se-ão de encontrar também (ou não) um meio termo para tornar esta convivência possível. Os livros virtuais não alcançaram certamente o seu ponto mais alto na escala de desenvolvimento, da mesma forma que o livro passou por várias alterações até ser o que é hoje. É difícil, para já, prever o que resultará dessa (r)evolução, mas certamente que os livros eletrónicos terão lugar garantido na história, pois o leitor, ao utilizá-los, vai perceber que as tecnologias são diferentes e têm propósitos distintos, sendo que ele é quem pode efetivamente decidir qual será o formato de livro a predominar na nossa era. 7. Orientações do Estudo O presente capítulo pretende descrever o conjunto de procedimentos através dos quais o modelo de análise (constituído por conceitos e pressupostos) será submetido ao teste dos factos e confrontado com dados observáveis (Quivy, 1992). Segundo Gil (2004, p.17) “podem definir-se método de pesquisa como procedimentos racional e sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos.” A pesquisa, por sua vez, é desenvolvida mediante o concurso dos conhecimentos disponíveis e a utilização cuidadosa de métodos, técnicas e outros procedimentos científicos. Ao longo deste trabalho, recorri primeiramente ao procedimento técnico de cariz bibliográfico. Segundo Gil (2004,p.44) “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente por livros e artigos científicos”, tendo sido essa uma das opções que tomei na elaboração deste trabalho. Pretendo, posteriormente, guiar o meu estudo pela utilização de uma técnica padronizada de recolha de dados – o inquérito, que registará, analisará e classificará os factos em questão de modo a conseguir correlacioná-los com a realidade. Este inquérito subordinado ao tema dos hábitos de leitura de e-books e da tendência de compra dos consumidores agora e no futuro, afigura-se como um meio eficiente de obtenção de informação sobre a leitura e o livro, impresso ou eletrónico, para todos os que virem nele um meio fundamental para o desenvolvimento intelectual e cultural da 35 sociedade. No início deste Relatório tive ainda a oportunidade de indicar, a nível geral, o objetivo a que me propunha: o esclarecimento da situação atual do livro num mundo cada vez mais tecnológico. Pretendo contribuir para a compreensão da realidade no setor em causa e tentar clarificar, com o meu estudo de caso, hábitos de leitura e tendências de mercado no contexto atual, tão difícil para as editoras, sobretudo para as pequenas que trabalham fora dos grandes grupos. Para o meu estudo já referido, antevejo duas hipóteses de investigação: 1) a maioria dos inquiridos já leu e-books e 2) essa maioria fá-lo pela facilidade de utilização. 8. O Estudo 8.1 Amostra e recolha de dados A amostra do estudo engloba todos os indivíduos dos 18 aos 24 anos que responderam de forma válida ao inquérito proposto, nos espaços por mim escolhidos para o efeito. Os inquéritos por questionário foram aplicados nas últimas duas semanas de Abril, na minha presença, em locais onde me desloquei para trabalhar no Relatório ou até propositamente: na Biblioteca Municipal de Vila Real, no Instituto Português da Juventude de Vila Real, na Biblioteca da UTAD, bem como no Departamento de Letras, Artes e Comunicação. Tendo em conta que resido na cidade de Vila Real, a acessibilidade foi um critério fundamental para que o inquérito fosse realizado nestes espaços. Esta faixa etária foi escolhida por ser minha intenção analisar uma amostra jovem, ligada à era tecnológica, numa altura da vida em que a entrada no mercado de trabalho e a Universidade estarão na mente de muitos. São os membros pertencentes a esta faixa etária a base de sustentação do setor num futuro não muito longínquo, ao mesmo tempo que já contribui para o mesmo no presente.O preenchimento de cada questionário demorou, em média, cerca de três minutos. No total, foram impressos 250 inquéritos de preenchimento presencial. O questionário utilizado apresenta um total de 11 questões fechadas, o que assegura a utilização de uma nomenclatura uniforme. A primeira parte destina-se à recolha de dados pessoais, contribuindo para a filtragem da faixa etária e para a caracterização da amostra em si. Divide-se, posteriormente, nos campos da leitura, compra de e-books, motivação (de compra), satisfação e utilização futura. 36 11,80% 21,10% 36,50% 30,60% 1 2 a 4 Mais de 4 Nenhum Ao abranger não só os hábitos de leitura do universo estudado, mas também as suas opções de compra e gostos, pretendo conseguir mais informação sobre o tema e descobrir a tendência desta amostra que poderá funcionar como uma referência daquilo que o mercado realmente deseja. 8.2 Análise de resultados Os resultados dos inquéritos foram recolhidos, analisados e tratados estatisticamente, com recurso a valores percentuais e gráficos. Dos 250 inquéritos impressos, 186 foram dados como válidos, constituindo esse número o real universo da amostra. Os 64 que foram dados como inválidos não reuniram, assim, todas as condições para serem validados, sobretudo devido à idade dos inquiridos, que ultrapassava os 24 anos, ou então porque alguns dos inquiridos simplesmente não quiseram responder. Logo após a abordagem à primeira questão apresentada, “Leu algum ebook até ao momento?”, foi possível comprovar a primeira hipótese de investigação que tinha colocado antes de iniciar o estudo. Como é possível verificar no Gráfico 1, apenas 30,6% dos inquiridos nunca leram e-books, o que demonstra que uma larga maioria (69,4%) já o fizeram. Gráfico 1 - Leu algum ebook até ao momento? Dos que leram livros eletrónicos, 36,5% leram mais de quatro, sendo a opção menos representativa a dos que leram apenas um e-book, com 11,8%. Estes resultados não causaram grande surpresa, não só pelo facto de estarmos perante uma amostra jovem, nativa da era tecnológica, mas também pela crescente popularidade dos livros eletrónicos. 21,10% 36,50% 30,60% 11,80% 1 2 a 4 Mais de 4 Nenhum 37 52,70% 47,30% Sim Não 23,80% 20,40% 30,60% 25,20% 1 2 a 4 Mais de 4 Nenhum Tratados os resultados da segunda pergunta “Comprou algum ebook nos últimos 4 meses?” (Gráfico 2), pude observar que os resultados foram relativamente equilibrados. Ainda que 52,7% da amostra indique que não comprou nenhum e-book no espaço de tempo referido, 47,3% responderam afirmativamente. Apesar do “Não” continuar em maioria, todo o estudo anterior indicia que este seja um mercado em crescendo, afetado pela crise económica que retira poder de compra ao consumidores, pais e filhos, e certamente influencia decisões referentes a compras dentro deste setor. Gráfico 2 – Comprou algum nos últimos 4 meses? Atentando ao Gráfico 3, relativo à pergunta “Quantos ebooks adquiriu nos últimos 4 meses?” é curioso verificar que o grupo mais frequente, 30,6%, adquiriu mais de quatro – 30,6% - sendo que a percentagem dos que não leram nenhum consegue ser superior à dos que leram entre dois e quatro, com 25,2% e 20,4% respetivamente. Isto poderá indiciar que há consumidores que fazem da compra e utilização de e-books um hábito adquirido, tendo-se tornado utilizadores fieís. Gráfico 3 - Quantos ebooks adquiriu nos últimos 4 meses? Interessa também focar que, apesar de 25,2% dos inquiridos nunca terem comprado nenhum e-book, 30,6% já leram algum livro eletrónico, tal como foi demonstrado na análise à primeira pergunta deste inquérito. Esta diferença pode, em 38 20,80% 51% 7,90% 17,20% 3,10% Literatura Técnicos Ensino Infanto-Juvenil Outros parte, estar ligada à questão dos downloads ilegais e dos direitos de autor que são violados com esse tipo de práticas. Mesmo não comprando nenhum e-book, existe a possibilidade de obtê-los no meio virtual, tal como é possível observar pelos resultados. Relativamente à pergunta 4, “Se adquiriu, quais as áreas dos ebooks em causa?”, obtive conclusões reveladoras ligadas à amostra em estudo: 51% dos inquiridos responderam que a maior parte dos e-books adquiridos se encaixa na área “Técnicos” (Gráfico 4). Tendo em conta a faixa etária do grupo analisado, maioritariamente estudante (67%), este valor indica que os e-books que utilizam estão ligados ao seu estudo, remetendo a “Literatura” para segundo lugar, com 20,8%. Os estudantes, inevitavelmente obrigados a procurar informação sobre as áreas em que se especializam, procuram os e-books para o efeito. Ainda assim, 17,2% parece adquirir este tipo de livros com ligação à área “Infanto-juvenil”, mais do que os que o fazem pela procura ligada à categoria “Ensino” – 7,9%. Estas percentagens provam que as crianças estão também ligadas às novas tendências, fazendo com que os pais, alheados ou não dos utensílios tecnológicos, estejam em constante adaptação aos novos meios. Os e-books serão certamente para elas, que começam a habituar-se desde cedo a novas possibilidades. Gráfico 4 - Se adquiriu, quais as áreas dos ebooks em causa? Os resultados da pergunta 5 (Gráfico 5), “Se leu ebooks, porque o fez?”, enfatizam a ideia descrita anteriormente. Tendo em conta que 50,3% dos inquiridos indicou que leu e-books por “Motivos Profissionais”, podemos supor que o fizeram para investigar sobre as suas áreas de estudo. Este valor percentual vem, porém, refutar a minha segunda hipótese de investigação, que indicava que a maioria dos que 39 1,50% 50,30% 4,40% 17% 26,80% Facilidade de utilização Preço Inovação Motivos Profissionais Outro 3,70% 14% 28% 54,30% Prefere livros em papel Preço Pouco familiarizado com o meio digital Outro tinha por hábito ler e-books o fazia devido à “Facilidade de Utilização”. Este motivo foi precisamente o segundo a ser indicado, com 26,8% das respostas, seguido do “Preço”, com 17%. Gráfico 5 - Se leu ebooks, porque o fez? Seguindo para a pergunta 6 “Se não leu ebooks até ao momento, porque não o fez?”, obtemos os resultados mais elevados na resposta “Prefere livros em papel”, com 54,3% (Gráfico 6). Podemos estar novamente perante uma questão de fidelização. Se é possível especular que os que lêem livros eletrónicos o fazem por hábito, então os que não o fazem continuam a preferir livros em papel, possivelmente também por uma questão de gosto e manutenção de práticas. Não é com surpresa que se constata ainda que apenas 14% dos indivíduos referiram que o motivo de não lerem e-books é “Pouco familiarizado com o meio digital”. Anormal seria que esta geração não estivesse familiarizada com as tecnologias que tanto utiliza no seu quotidiano. Gráfico 6 - Se não leu ebooks até ao momento, porque não o fez? 40 8,70% 26,30% 34,40% 30,60% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Muito Satisfeito Satisfeito Nada Satisfeito NS/NR 32,70% 31,70% 5,00% 30,60% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Muito Satisfeito Satisfeito Nada Satisfeito NS/NR Sobre o ponto 7 (Gráfico 7), “Relativamente ao preço dos ebooks encontrase...”, o grupo mais frequente encontra-se “nada satisfeito”: 34,4%. São mais os que “Não sabem/Não respondem” do que os que estão “satisfeitos” com os preços dos livros, com 30,6% e 26,3% respetivamente. Podemos falar, mais uma vez, ao difícil contexto económico, em que quase nenhum preço é aceitável, pois todos se encontram acima da média para os que vêem o seu poder de compra diminuir a cada ano. O e-book, apesar de representar uma menor pegada ecológica, tem o IVA taxado a 23%, ao contrário do livro impresso, que conta com apenas 6%. Estas circunstâncias não ajudam a que as opiniões se invertam. Gráfico 7 - Relativamente ao preço dos ebooks encontra-se... Sobre a pergunta 8 (Gráfico 8) “Relativamente aos ebooks disponíveis encontra-se...”, 32,7% dos inquiridos responderam que se encontram muito satisfeitos com os que têm à disposição. Este resultado foi próximo dos que se encontram apenas “satisfeitos”, com 31,7%. Apesar disso, a apreciação geral é positiva e aqueles que se dizem “nada satisfeitos” representam uma minoria acentuada: 5%. Assim, ainda que os preços praticados não sejam do agrado da amostra, como foi possível verificar pelo Gráfico 7, os livros eletrónicos presentes no mercado são variados, têm qualidade e parecem satisfazer as necessidades dos utilizadores. Gráfico 8 – Relativamente aos ebooks disponíveis encontra-se... 47 QUIVY, R. & Campenhoudt, L.V. (1992). Manual de Investigação em Ciências Sociais. Gradiva. Lisboa. SANTOS, M. L. L. (coord.) (2007). A Leitura em Portugal, Lisboa, Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE) – Ministério da Educação. SMITH, Frank (1999). A leitura na era da eletrônica. In: Leitura significativa. Porto Alegre: Artmed. SOUSA, M. L. D. (1999), Condições Sociais de Produção de Leitores, in Revista Portuguesa de Educação, pp. 127-148. WILLIAMS, Emily (2011). Copyright, Ebooks and the Unpredictable Future, Publishing Research Quarterly. WILSON, T.D. (2004). La publicación electronica y el futuro del libro. In Congresso Internacional sobre Ciência do Livro. Consultado em: 24 Março de 1013. Disponível em http://www.ldc.usb.ve/~abianc/hipertexto.html. 48 ANEXOS 49 Inquérito Hábitos de Leitura: ebooks Nome___________________________________ Idade______ Profissão ____________________ 1. Leu algum ebook até ao momento? 1 2 a 4 +4 Nenhum 2. Comprou algum ebook nos últimos 4 meses? Sim Não 3. Quantos ebooks adquiriu nos últimos 4 meses? 1 2 a 4 +4 Nenhum 4. Se adquiriu, quais as áreas dos ebooks em causa? Literatura Técnicos Ensino Infanto-Juvenil Outros 5. Se leu ebooks, porque o fez? Facilidade de utilização Preço Inovação Motivos Profissionais Outros 6. Se não leu ebooks até ao momento, porque não o fez? Prefere livros em papel Preço Pouco familiarizado com o meio digital Outros 7. Relativamente ao preço dos ebooks encontra-se... Muito Satisfeito Satisfeito Nada satisfeito NS/NR 8. Relativamente aos ebooks disponíveis encontra-se... Muito Satisfeito Satisfeito Nada satisfeito NS/NR 9. Daqui a 4 anos prevê adquirir livros em papel e ebooks? Muito provável Provável Pouco provável 10. Daqui a 4 anos prevê adquirir mais ebooks? Muito provável Provável Pouco provável 11. Daqui a 4 anos prevê adquirir mais livros em papel? Muito provável Provável Pouco provável 50