A conciliação trabalho-família em casais de duplo-emprego
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963 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 A conciliação trabalho-família em casais de duplo-emprego Marisa Matias1, Anne Marie Fontaine1, Cláudia Simão1, Egídio Oliveira1 & Marina Mendonça1 1Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto A conciliação entre a família e o trabalho é frequentemente referida como uma fonte de conflito. Contudo, a maioria das famílias mostra-se capaz de lidar com as múltiplas exigências do papel familiar e profissional, pelo que uma análise das estratégias adaptativas e bem sucedidas utilizadas por estas famílias é cada vez mais relevante. Adicionalmente, esta temática está relacionada com mudanças sociais, como a integração das mulheres na força laboral e uma alteração dos papéis de género, tanto no trabalho como na família. Através de uma metodologia qualitativa, este trabalho pretende analisar quais as estratégias de conciliação ao nível individual, de casal, familiar, profissional e contextual, utilizadas por casais de duplo-emprego, diferenciando-as por género. Evidenciaram-se oito grandes domínios de conciliação e vinte categorias de estratégias. As diferenças de género encontradas são discutidas no enquadramento do tema em Portugal e são apontadas implicações para diferentes profissionais. Palavras-Chave: casais de duplo-emprego, estratégias de conciliação, género. 1. INTRODUÇÃO No decorrer das últimas décadas, a presença em grande número de mulheres no mercado de trabalho tem vindo a alterar modos de funcionamento quer na esfera laboral, quer na esfera familiar. As famílias onde só um elemento do casal trabalha fora de casa foram dando lugar a famílias de duplo emprego. Este padrão familiar recente suscitou novos desafios e mudanças nos papéis de género tradicionais que despoletam nos casais a necessidade de conciliar as tarefas profissionais com as tarefas familiares. Apesar de, actualmente, predominarem os casais de duplo emprego, alguns dados apontam-nos para uma maior sobrecarga das mulheres na acumulação de tarefas. Frequentemente, as mulheres que estão inseridas no meio laboral, tendem a fazer mais trabalho doméstico do que os homens na mesma situação (e.g., Fontaine, Andrade, Matias, Gato & Mendonça, 2007). Ao nível familiar, as mulheres são consideradas as principais responsáveis pelo cuidado dos filhos e pela realização da maioria das tarefas domésticas, enquanto que, ao nível profissional, são também as mulheres que fazem mais interrupções na carreira e que reestruturam a actividade profissional em prol das
964 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 exigências familiares (Eby, Casper, Lockwood, Bordeaux & Brinley, 2005, para revisão). Tendo em conta as mudanças sociais referidas, o objectivo deste estudo foi o de caracterizar, através de uma metodologia qualitativa, diferentes tipos de estratégias de conciliação empregues por casais de duplo emprego com filhos em idade pré-escolar. Esta análise permite identificar estratégias que, na óptica dos actores, sejam eficazes e produzam benefícios para a gestão da vida profissional e familiar. Para além de poder fornecer sugestões úteis para ajudar outros casais e famílias a gerir os seus múltiplos papéis, este trabalho pretende também fornecer pistas para empresas, comunidades e técnicos de intervenção familiar sobre como apoiar as famílias neste desafio. 2. O ESTUDO DA CONCILIAÇÃO Tradicionalmente, o estudo da gestão de papéis profissionais e familiares tendeu a assumir uma perspectiva negativa e de conflito, investigando-se os factores que dificultavam o adequado desempenho num e noutro contexto. As famílias de duploemprego eram vistas como famílias com elevados índices de stress e falta de tempo. Os estudos centraram-se, assim, sobre o impacto (negativo) do emprego feminino nos filhos (ver Gottfried, Gottfried & Bathurst, 2002; Scarr, Philips & McCartney, 1989), assim como nos sentimentos de preocupação e culpa das mães trabalhadoras, por “optarem” por este estilo de vida. Defendia-se, então, a hipótese da escassez que postulava que os recursos individuais, como o tempo, a atenção e a energia, são limitados. Assim, o confronto com as exigências dos papéis profissionais e familiares conduziria, inevitavelmente, à experiência de conflito. Só mais recentemente, os aspectos positivos e os benefícios decorrentes da participação em diferentes domínios foram enfatizados, tendo-se verificado que a maioria de homens e mulheres percepciona mais benefícios do que custos pela sua participação simultânea em papéis profissionais e familiares (Barnett & Rivers, 1996 in Haddock & Ratenborg, 2003; Torres, 2004). Postula-se a hipótese da expansão ou promoção do papel (Grzywacz & Marks, 2000) de acordo com a qual, a participação em múltiplos papéis proporciona recompensas e competências que contribuem para a gestão das diversas responsabilidades. Parece assim que apesar das dificuldades inerentes à gestão de múltiplos papéis, muitas famílias de duplo-emprego desenvolvem as competências necessárias para lidar com os desafios da conciliação, demonstrando ainda satisfação com este estilo de vida
965 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 (Torres, 2004; Haddock, Ziemba, Zimmerman & Current 2001). De facto, o modelo da “doméstica” é cada vez menos valorizado e o trabalho remunerado é apresentado como a via real para atingir uma nova identidade e uma maior autonomia. As famílias de duplo-emprego não só são maioritárias como representam um modelo desejado por homens e mulheres. De acordo com as duas abordagens referidas, podemos assumir que as estratégias de conciliação individuais podem tanto ser ineficazes e ter efeitos negativos, como ser eficazes e ter efeitos positivos. Deste modo, os indivíduos não são passivos mas pró-activos na gestão dos papéis profissionais e familiares. O conceito de estratégia de conciliação (desenvolvido por Moen & Withington, 1992) situa o indivíduo ou a família no centro do processo, considerando as famílias como unidades de tomada de decisão que activamente escolhem padrões de comportamento e não se limitam a acomodar-se ou submeter-se às pressões externas. Neste sentido, as estratégias de conciliação são processos emergentes e fluidos que variam ao longo do ciclo de vida e também com o género (Moen & Yu, 2000). Becker & Moen (1999) através de um estudo qualitativo evidenciaram três tipos de estratégias para diminuir o conflito trabalho-família: “colocar limites” (e.g., reduzir o número de horas de trabalho); “emprego vs carreira” (um dos parceiros investe num emprego mais flexível, mas com satisfação essencialmente extrínseca e o outro numa carreira, mais exigente e com maior satisfação intrínseca); e alternância ao longo do ciclo de vida entre as duas estratégias referidas. Também numa linha de investigação qualitativa, Haddock et al. (2001) identificaram outras estratégias: focalização na relação; extracção de significado da profissão; manutenção das fronteiras profissionais; ser produtivo no trabalho; dar prioridade ao lazer em família; ter orgulho da condição de duplo-emprego; viver modestamente; tomar decisões proactivamente e valorizar o tempo. Algumas das estratégias evidenciadas nestes estudos parecem, contudo, relacionadas com o contexto sócio-cultural Norte-Americano, nomeadamente com a distinção entre emprego e carreira. Em Portugal esta distinção não é óbvia. Para muitos casais o investimento maior ou menor de um dos membros na sua profissão parece estar mais associado ao argumento económico do que às exigências, flexibilidade ou satisfação intrínseca da profissão: investe mais aquele que ganha mais. Ao nível de estudos quantitativos, o estudo de Hall (1972) estabeleceu uma tipologia de estratégias de coping. Foram definidos, a partir de um racional teórico, três tipos de coping para a gestão do papel profissional e familiar: i) Redefinição estrutural
966 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 do papel; ii) Redefinição pessoal do papel; e iii) Comportamento reactivo. Subsequentemente, com base nesta tipologia, Kirchmeyer (1993), evidenciou um único factor que corresponde a uma boa organização pessoal e uma atitude positiva. Finalmente, Skinner e McCubbin (1987) identificaram 48 comportamentos específicos. Apesar do número de sujeitos ser relativamente reduzido, os autores utilizaram a análise factorial para identificar quatro padrões de coping: i) Manutenção do sistema familiar; ii) Procura de apoio; iii) Modificação de papéis e padrões; e iv) Perspectiva positiva face ao estilo de vida e redução de tensões. Dada a diversidade dos resultados destes estudos, a abordagem quantitativa parece evidenciar pouca consistência. Verificamos que enquanto um dos estudos identifica três tipos de coping para a conciliação, outros identificam somente um factor e ainda outros identificam quatro. Adicionalmente, enquanto o estudo de Skinner e McCubbin identificou diferenças de género quer na quantidade como no tipo de estratégias de coping usadas; o estudo de Kirchmeyer (1993) não as detectou. O facto das amostras serem dissemelhantes e um dos estudos ter decorrido em 1972 e o outro em 1993 poderá estar na base da disparidade de resultados, já que a relação entre o domínio profissional e familiar é dinâmica e sensível às condições do meio envolvente. No contexto português salienta-se o estudo de Andrade (2007) que procurou conhecer as estratégias de conciliação de papéis antecipadas por jovens adultos. Foram identificados dois factores: um associado a estratégias de concessão ao nível pessoal, familiar e profissional e outro associado a estratégias de negociação no casal e partilha de papéis. Contudo, este estudo foca-se na análise das percepções dos jovens acerca de uma situação esperada e não sobre experiências reais de conciliação. Desta pequena revisão de estudos podemos verificar que existe uma variedade de estratégias de conciliação utilizadas pelas famílias, não havendo acordo relativamente ao modo como estas se organizam. Adicionalmente, parece que homens e mulheres podem não usar o mesmo tipo de estratégias, nem com a mesma frequência. Tendo em conta as especificidades do contexto português, observar quais as estratégias usadas pelas famílias e indivíduos para gerir trabalho e família é essencial. Actualmente, a maioria das famílias portuguesas são de duplo rendimento. De facto, 84% das mulheres em Portugal trabalha a tempo inteiro (INE, 2005), sendo que Portugal é também um dos países da União Europeia com a maior taxa de mulheres com filhos menores de 5 anos a trabalhar fora de casa (71,8%; Eurostat, 2005). Contudo e apesar desta mudança na divisão do trabalho laboral, no seio familiar a repartição das
967 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 responsabilidades mantém-se ainda desigual e tradicional. Estudos efectuados em Portugal, têm verificado uma clara assimetria na divisão do trabalho familiar, sendo que, as mulheres são as principais responsáveis por estas tarefas (Fontaine et al., 2007; Perista, 2002; Poeschl, 2000) despendendo mais tempo que os seus companheiros na sua execução. Parece assim que apesar das mudanças evidenciadas nos papéis de género em geral, estas ainda não são significativas no domínio intra-familiar. De facto, o que parece distinguir os diferentes contextos europeus não é tanto a taxa de emprego feminino, pois esta apresenta-se em crescimento em praticamente todos os países, mas antes a resposta que os indivíduos, a família, a organização social e o estado estão a dar a este novo facto social (Tobio, 2001). A velocidade a que algumas mudanças sociais têm ocorrido explica a contradição entre a nova posição da mulher na economia e a manutenção da organização social ainda tradicional. Deste modo, este trabalho pretende explorar o carácter proactivo das famílias e dos indivíduos expresso nas estratégias de conciliação família-trabalho que utilizam. Dada a relação íntima entre o género e as questões da gestão dos papéis profissionais e familiares, foi também efectuada uma análise diferencial. 3. MÉTODO 3.1. Participantes A amostra utilizada neste trabalho é proveniente do estudo Europeu Famwork que em Portugal foi desenvolvido pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto em colaboração com 8 países Europeus2. Para a constituição da amostra foi definido a priori um conjunto de critérios de selecção: ambos os elementos do casal deveriam viver juntos, exercer uma actividade profissional remunerada, trabalhando, no mínimo 15 horas por semana e possuir pelo menos um filho com idade compreendida entre 1 e 5 anos. No caso de existirem irmãos, estes não deveriam ter mais do que 12 anos. Os casais foram contactados através do telefone, internet ou pessoalmente, no decorrer de reuniões em creches e jardins-de-infância, bem como em organizações desportivas, empresas e cursos de pós-graduação Este método de recrutamento dos sujeitos pretendia abranger um leque diversificado de situações, no que diz respeito ao nível sociocultural dos pais e ao modo de guarda das crianças. A maioria dos casais vivia no Norte e Centro do país. Nestes primeiros contactos, foram especificados quer os objectivos da investigação, quer as condições de participação. A amostra portuguesa
968 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 seleccionada para este estudo é assim composta por 217 sujeitos com idades compreendidas entre os 24 e os 56 anos de idade, com uma média de 35 anos e com uma relação de duração média de 12 anos. A maioria das famílias tem apenas uma criança (moda de filhos por casal=1). Apesar da diversidade de métodos de recolha da amostra utilizados, cerca de 72,2% dos indivíduos apresentam uma escolaridade acima do 12º ano. 3.2. Instrumentos Neste estudo analisou-se o conteúdo das respostas obtidas através de uma questão aberta incluída no questionário do estudo. Nesta questão era pedido aos participantes para enumerarem as suas “receitas” pessoais para conciliar trabalho e vida familiar (máximo de 8). Para além desta questão foi também utilizada a informação recolhida com a secção sócio-demográfica, nomeadamente sexo, idade, habilitações literárias e número de filhos. 3.3. Procedimento de análise As respostas obtidas na questão aberta referida foram alvo de análise de conteúdo, sendo a sua categorização realizada através do programa de software NVivo7. A análise do conteúdo foi orientada pelo conteúdo semântico das respostas dos sujeitos e não por critérios formais gramaticais como o número de palavras ou frases (Vala, 1986). Uma primeira categorização procurou sistematizar as estratégias em 5 grandes domínios: estratégias ao nível individual, do casal, familiar, comunidade e profissional, em função das redes implicadas na sua implementação. Dado o carácter exploratório deste trabalho, esta versão provisória foi refinada ao longo do processo de categorização de modo a contemplar a especificidade do material recolhido e tornar a análise mais parcimoniosa. Três juízes independentes foram envolvidos na categorização do discurso de todos os sujeitos, tendo sido categorizadas 751 frases. Referências que não indicavam qualquer estratégia para gerir o trabalho e a vida familiar foram excluídas das análises. As categorias finais obtidas resultaram de um consenso entre os três juízes de modo a garantir uma consistência inter-juízes superior a 75%. Numa segunda fase procedeu-se a uma análise diferencial das categorias em função do género. Para isso usaram-se tabelas de frequência e testes de independência de qui-quadrado.
969 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 4. RESULTADOS A codificação das respostas dos sujeitos permitiu definir oito grandes domínios de conciliação, subdivididos em 20 categorias de estratégias (Tabela 1). Os domínios de conciliação definidos foram: 1) Individual; 2) Casal; 3) Familiar; 4) Articulação Família-Trabalho; 5) Profissional; 6) Apoios e Recursos; 7) Planeamento; e 8) Geografia. Na tabela 1 é feita uma breve descrição de cada categoria, bem como o seu agrupamento em termos de domínio de conciliação. Tabela 1. Estratégias de conciliação distribuídas por domínios, categorias e as respectivas frequências. Domínio/ Categoria Descrição da Categoria Freq Indiv idual Características individuais Utilizar a importância de características individuais, como a personalidade, para promover a conciliação entre as responsabilidades familiares e profissionais (e.g., ser paciente, ser compreensivo) 75 Actividades e tem po dedicados ao próprio Reunir tempo e energia para executar actividades de realização pessoal, satisfação e de bem-estar (e.g., praticar desporto) 12 Cedências ao nível pessoal e social Desistir de objectivos ou actividades para que seja possível conciliar a esfera familiar e profissional (e.g., não investir muito na vida social) 8 Casal Apoio emocional mútuo Trocar apoio emocional entre os membros do casal (e.g., atitudes e sentimentos positivos de um em relação ao outro) 16 Articulação com o(a) companheiro(a) das responsabilidades familiares e profissionais Compatibilizar estratégias que permitem a ambos os membros do casal gerir as responsabilidades familiares e profissionais (e.g., combinar horários com o(a) companheiro(a) 20 Familiar Promover o bem - estar familiar Dedicar tempo e energia de modo a promover e fortalecer os laços familiares (e.g., organizar e participar em actividades familiares) 85 Gestão e divisão das tarefas domésticas Organizar e/ou dividir as tarefas domésticas entre os membros da família (e.g., distribuir diferentes tarefas pela família) 56 Comunicação Utilizar estratégias de comunicação de modo a negociar, articular, organizar e gerir as actividades da família e da profissão (e.g., dialogar, comunicar com os membros da família) 18 Gestão de Fronteiras Família - Trabalho Segmentação Separar as esferas da família e do trabalho 36 Hierarquização Estabelecer prioridades entre a família e o trabalho (e.g., dar prioridade às tarefas familiares em prol das tarefas profissionais ou vice-versa) 14 Envolvimento Envolver a família nas tarefas profissionais ou vice - versa 11 Profissional Flexibilidade horária Flexibilizar o horário de trabalho (e.g., flexibilidade para as horas de entrada ou de saída no local de trabalho) 60
970 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Ges tão profissional Planear e decidir a própria carreira em função das responsabilidades familiares (e.g., mudar de actividade profissional ou desistir de determinadas responsabilidades profissionais) 32 Apoios e Recursos Institucional Recorrer a institui ções que prestam serviços de cuidados a crianças (e.g., infantários, escolas, actividades para tempos livres) 65 Familiar e/ou social Recorrer ao apoio que a família ou da rede de suporte social podem prestar a crianças (e.g., avós, tios, amigos) 63 Loca l de trabalho Utilizar recursos disponibilizados pelo local de trabalho para prestar cuidados a crianças 2 Novas tecnologias Utilizar novas tecnologias para facilitar a execução de determinadas tarefas (e.g., fazer compras online, uso do telemóvel) 4 Pla neamento Planeamento do dia - a - dia Planear, organizar, hierarquizar ou agendar rotinas e actividades diárias (e.g., fazer um horário para as actividades a realizar) 98 Geografia Localização geográfica Escolher uma localização geográfica específica pa ra viver ou trabalhar, que permita uma melhor articulação entre a família e a profissão (e.g., viver perto do local de trabalho) 21 Analisando a distribuição dos 8 domínios em função do género (Figura 1) podemos verificar que, quer para homens, quer para mulheres, as estratégias do domínio familiar são as mais mencionadas. Ou seja, o tempo passado em família, as actividades desenvolvidas no seio familiar e a relação familiar são percepcionados como o tipo de estratégia mais importante para conciliar os dois papéis. Já as estratégias relacionadas com mudanças geográficas dos membros da família são as menos utilizadas. De facto, estas últimas são estratégias que habitualmente implicam alterações significativas na vida da família pelo que são usadas menos frequentemente. Pela análise da figura é ainda possível registar uma grande diferença no uso dos apoios e recursos a favor das mulheres. Esta foi a única diferenciação significativa encontrada nos grandes domínios de conciliação [2 (1, 217) = 9.82, p < .05].
971 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Figura 1: Distribuição dos domínios de conciliação de acordo com o sexo 0 10 20 30 40 50 60 70 Familiar Apoio & Recursos Planeamento Profissional Individual Gestão de Fronteiras T-F Casal Geografia Homens Mulheres Numa análise mais fina dos domínios e das categorias que os compõem, foi possível, através dos testes de qui-quadrado, verificar quais as categorias em que havia uma diferenciação em função do sexo. Na medida em que um mesmo sujeito poderia referir diversas estratégias referentes a uma mesma categoria, uma recodificação dos dados foi necessária. Assim, as respostas dos sujeitos foram codificadas de forma dicotómica, isto é “há referência” vs “não há referência” a pelo menos uma estratégia de cada categoria. Com esta codificação o número de estratégias intra-categoria que o indivíduo refere não é considerado. Uma análise mais aprofundada das categorias de estratégias (tabela 2) mostra que apesar de não se terem manifestado diferenças substanciais nas dimensões globais, há aspectos intra-domínios que são diferentes para homens e mulheres. Assim, as categorias que demonstraram diferenças em função do sexo foram as categorias relativas à gestão da carreira (domínio profissional), à gestão e divisão das tarefas domésticas (domínio familiar) e ao uso de recursos, quer familiares e sociais, quer institucionais (domínio apoio e recursos). As mulheres referem mais a utilização destas estratégias do que os homens. Em certas situações não foi possível realizar a análise de qui-quadrado dada a inexistência de frequências esperadas superiores a 5 em algumas das células (caso das categorias actividades e tempo dedicados ao próprio e cedências ao nível pessoal e social do domínio individual e recursos do local de trabalho e uso de novas tecnologias no caso do domínio profissional). Tratam-se também das estratégias de conciliação menos valorizadas pelos sujeitos de ambos os sexos.