Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica
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REABILITAÇÃO DE EDIFÍCIOS DA PRIMEIRA METADE DO SÉC. XX: DISCUSSÃO METODOLÓGICA ESMERALDA MARIA DIAS DE CASTRO PAUPÉRIO VILA POUCA Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL — ESPECIALIZAÇÃO EM ESTRUTURAS Orientador: Professor Doutor Xavier das Neves Romão JULHO DE 2015
MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL 2014/2015 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL Tel. +351-22-508 1901 Fax +351-22-508 1446 [email protected] Editado por FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Rua Dr. Roberto Frias 4200-465 PORTO Portugal Tel. +351-22-508 1400 Fax +351-22-508 1440 [email protected] http://www.fe.up.pt Reproduções parciais deste documento serão autorizadas na condição que seja mencionado o Autor e feita referência a Mestrado Integrado em Engenharia Civil - 2014/2015 - Departamento de Engenharia Civil, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, 2015. As opiniões e informações incluídas neste documento representam unicamente o ponto de vista do respetivo Autor, não podendo o Editor aceitar qualquer responsabilidade legal ou outra em relação a erros ou omissões que possam existir. Este documento foi produzido a partir de versão eletrónica fornecida pelo respetivo Autor.
Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica i Deus está nos detalhes Mies van der Rohe
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Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica iii Agradecimentos Ao meu orientador, Xavier Romão, por toda a paciência, estímulo, confiança e pelas frutuosas discussões; Ao Aníbal Costa e António Arêde pela oportunidade que me deram de integrar o Núcleo de Reabilitação do IC-FEUP e da confiança que em mim depositaram, a qual me permitiu coordenar os trabalhos que deram origem aos dois casos de estudo aqui apresentados; A todos os que desde o ano 2000 foram colaboradores no IC-FEUP e me ajudaram a crescer, em particular à equipa envolvida no trabalho de inspeção do Mercado do Bolhão e na obra do Teatro Nacional São João: Ana Gomes, Alexandre Costa, André Monteiro, Bruno Quelhas, Catarina Costa, Diogo Coutinho, Filipe Neves, João Milheiro, Ricardo Santos, Tiago Ilharco e Valter Lopes; À restante equipa da FEUP com quem trabalhei no Mercado do Bolhão: António Topa Gomes, António Viana da Fonseca, João Miranda Guedes, Miguel Castro e Nelson Vila Pouca; Aos colaboradores do LESE-FEUP Valdemar Luís, André Martins, Luís Noites e Nuno Pinto por todo o apoio prestado aos trabalhos do IC-FEUP; Aos colaboradores do IC-FEUP que logisticamente apoiam todos os trabalhos Maria de Lurdes e Maria Amélia e em particular ao Manuel Carvalho pela sua dedicação ao apoio técnico na execução dos desenhos e imagem gráfica dos relatórios do IC-FEUP; À Ana Luísa Velosa da Universidade de Aveiro, pela sua disponibilidade e companheirismo ao longo da obra do Teatro Nacional São João; À Paula Araújo da Silva e aos técnicos da Direção Regional da Cultura do Norte por toda a amizade e conhecimentos trocados ao longo dos muitos anos de trabalho em conjunto; À minha família que me permitiu, desde sempre, dispor do tempo necessário para todos os trabalhos e desafios da profissão.
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Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica v Resumo A noção de património tem vindo a alargar-se, integrando “novos patrimónios” como, por exemplo, as construções do final do século XIX e início do século XX, o conjunto patrimonial mais jovem da história, pouco valorizado e pouco conhecido. Associado ao surgimento de novos materiais e dos avanços tecnológicos, o património cultural desta época que deverá ser protegido representa ainda a imensa obra pública, a funcionalidade das construções e o cariz social da evolução construtiva. À Teoria da Conservação competirá agora enquadrar a definição de linhas de orientação que permitam estabelecer critérios para a identificação, proteção e intervenção deste património. Neste contexto, a dissertação irá apresentar dois casos de estudo correspondentes a dois edifícios do início do século XX, emblemáticos para a cidade do Porto, em que serão abordadas várias questões associadas à sua preservação, conservação e reabilitação. Os dois casos são a inspeção estrutural do Mercado do Bolhão e as obras de conservação das fachadas do Teatro Nacional de São João, trabalhos efetuados pelo Instituto da Construção da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. A análise apresentada no caso do Mercado do Bolhão irá discutir a importância da informação obtida através das inspeções estruturais e o seu potencial contributo para a avaliação da segurança estrutural. No caso do Teatro Nacional de São João, a análise apresentada irá no sentido de discutir a abordagem à intervenção de conservação dos elementos escultóricos e decorativos em betão armado que compõem a fachada, elementos estes que se encontram degradados e têm autoria de escultor. Apoiada nestes casos práticos, serão sintetizadas questões fundamentais, analisando-se e destacando-se alguns pontos que merecem uma reflexão adicional de modo a contribuir para a definição duma metodologia conceptualmente mais adequada para a conservação e reabilitação das construções em betão armado do final do século XIX e início do século XX. Palavras-Chave: betão armado, século XIX-XX, conservação, reabilitação, elementos decorativos, inspeção.
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Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica vii Abstract The concept of heritage is currently being extended in order to integrate "new heritages" such as, for example, constructions from the late nineteenth century and from the early twentieth century, the youngest heritage set in history, usually undervalued and less known. The cultural heritage of this period that needs to be protected, which is associated to the development of new materials and technological advances, also embodies the significant number of public constructions, the functionality of the constructions and the social nature of the evolution of the construction practice. The Conservation Theory now needs to establish guidelines that will allow the definition of criteria for the identification, protection and intervention of this heritage. In this context, the dissertation will present two case studies corresponding to two buildings from the early twentieth century, symbols of the city of Porto, in which several issues related to the preservation, conservation and rehabilitation will be addressed. The two cases are the structural survey of the Bolhão Market and the conservation works of the façades of the National Theatre of St. John, both involving work carried out by the Institute of Construction of the Faculty of Engineering of the University of Porto. The analysis presented for the case of the Bolhão Market will discuss the importance of the information obtained from the survey inspections of the structure and its potential contribution to the assessment of structural safety. In the case of the National Theatre of St. John, the analysis will address the problems related to the conservation of the reinforced concrete sculptures and decorative elements of the façade that are severely degraded and have the signature of the sculptor. Supported by the analysis of these case studies, fundamental questions will then be summarized. In order to provide additional inputs for the development of a conceptually more appropriate methodology for the conservation and rehabilitation of late nineteenth century and early twentieth century reinforced concrete constructions, several aspects will be analysed and highlighted for further consideration. Keywords: reinforced concrete, XIXth-XXth century, conservation, rehabilitation, decorative elements, inspection.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 1.2 classificaçãoearapidezcomqueseclassificamedifíciosrecentes(eatédeautoresaindavivos)deixa cairaquestãodo“valordaantiguidade”,umvalorconsideradoatéagoranoscritériosdeproteção.Se ovalordaantiguidadedeummonumentoresidenaperceçãodasmarcasdotempo,numedifícioda arquiteturadoséculoXXnãopodemosaceitaressasmarcasdotempo,poisnuncaoconhecemosdessa forma.GeraldoMingo(Mingo,2011)deixaaquestão:ATeoriadaConservaçãoéagoradiferente?Se algunsedifíciosdoséculoXXseconverteraminstantaneamenteemíconesdeumadeterminada cidade,entãotodososedifíciosquecompõemascidadesnecessitamdeumareflexãoemtermosdo seuvalorculturalantesdoprocessodeintervenção(deconservaçãooudeproteção).Nocasodos edifíciosdoMovimentoModerno(deconstruçãoexperimentalista),aintervençãopoderáserbastante maispolémicadevido“aogéniocriativodoautor”associadoaotipodeconstrução,vãoseesbelteza desecções.NumaalusãoaMiesVanderRohe,GeraldoMingovoltaaperguntar:PerderemosDeusse alterarmososdetalhes? Noqueserefereaocasoparticulardasconstruçõesdebetãoarmado,quenofinaldoséculoXIXe iníciodoséculoXXtêmumcarácterexperimentalista,énecessáriocompreenderanaturezadoseu material:obetãoarmado. Obetãoéummaterialcomposto,cujamatéria‐primasãoumligante(umcimento),euminerte(brita ougodo)aosquaisseadicionaáguaparaamistura,eobetãoarmadoéumbetãoaoqualse incorporamvarõesmetálicos(vulgoarmaduras)paraseobterummelhordesempenhoestruturaldas construções.Atualmenteasmatérias‐primasdobetãoarmado(queroligante,queroaço),por evoluçãotecnológica,têmvindoasersistematicamentealteradosaolongodotemponassuas característicasmecânicasemateriais.Pode‐seassimconcluirquejánãoexistemosmateriaisoriginais dobetãoarmadodoiníciodoséculoXXetalveznemdequalqueroutradécadadesseséculo.Equanto aosistemaconstrutivo?Nemesseéomesmo.Atualmenteaconstruçãoembetãoarmadoestá regulamentadaporregulamentosnacionais(oueuropeus)nãohavendolugararecriações.As questõesdesegurançaestruturalederesponsabilidadeobrigamaquesejadestaforma.Podeassim concluir‐sequenãohátécnicastradicionaisdeconstruçãodebetãoarmado,àsemelhançadas técnicastradicionaisexistentesparaapedraouamadeira,nemartesãosdebetãoarmado.Em estruturasportantesdeedificações,nemaregulamentaçãodesegurançaestrutural,nemaformade executar,nemmesmoasmatérias‐primassãoouserãoasmesmas. 1.2 Objetivos Comaintroduçãodenovosmateriaisnaconstrução,osedifíciosdoiníciodoséculoXX1pautam‐sepor umadiversidadeconstrutivaexperimentalistanãosóaoníveldossistemasestruturais,mastambém aoníveldosmateriaisutilizados.NoiníciodoséculoXX,erausualautilizaçãoconjuntadosmateriais 1AreferênciaaedifíciosdoiníciodoséculoXXaolongodapresentedissertaçãoincluinaturalmenteedifíciosdo finaldoséculoXIXcomcaraterísticasconstrutivassemelhantes
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 1.3 ditostradicionais(alvenariasemadeiras)comosmateriaisemergentes(oferroedepoisoaçoeo betãoarmado)numamesmaconstrução.Atéaosanos50‐60doséculoXX,noPorto,erafrequenteos edifíciosseremexecutadoscomparedesexterioresresistentesemalvenariadepedradegranito,com ospilaresinterioreseaestruturahorizontaldepisosembetãoarmadoecomascoberturasem estruturademadeira.Emalgunscasos,ospilaresinterioreseramexecutadosemferrofundido. Associadaaestadiversidadeconstrutiva,existeaindaumoutroaspetodegrandevariabilidadenestas construções,especialmentenasdoiníciodoséculoXX,aqualestáassociadaaogostodecorativoeque aquisedesignapor“fingimentodasestruturas”.Estes“fingimentosdasestruturas”nãoestãoapenas associadosaofingimentodemateriais(porexemploestruturasdemadeiracujaformaerevestimentos imitamestruturasdebetão),mastambémaofingimentodesecçõesresistentes(vigasepilarescom revestimentosemestafeouestuquesqueinduzemumamaiorsecçãodaspeças).Seosfingimentos decorativossãofáceisdereconhecerparaumconhecedor,aidentificaçãodofingimentodas estruturasrequer,naturalmente,umestudomaisaprofundadodoedifício.Considera‐se,assim,quea problemáticadaconservaçãodosedifíciosdoiníciodoséculoXXéparticularmentecomplexa,querna suateorização,quernasuaaplicaçãoemobra,equeparaintervireparaconservaréprecisoconhecer. Nestecontexto,apresentedissertaçãoiráapresentardoiscasosdeestudocorrespondentesadois edifíciosdoiníciodoséculoXX,emblemáticosparaacidadedoPorto,emqueserãoabordadasvárias questõesassociadasàsuapreservação,conservaçãoereabilitação.Osdoiscasosdeestudos analisadossãooMercadodoBolhãoeoTeatroNacionalSãoJoão.Aanáliseapresentadanocasodo MercadodoBolhãoirádiscutiraimportânciadainformaçãoobtidaatravésdasinspeçõesàestrutura eoseucontributopotencialparaaavaliaçãodasegurançaestrutural.NocasodoTeatroNacionalde SãoJoão,aanáliseapresentadairánosentidodaproblemáticaassociadaàconservaçãodoselementos escultóricosedecorativosquecompõemafachada,elementosestesque,paraalémdeestarem tambémfortementedegradados,têmaassinaturadoescultor. 1.3 Organizaçãodadissertação Apresentedissertaçãoécompostaporseiscapítulos.Opresentecapítuloestabeleceo enquadramentodosaspetosrelacionadoscomaconservaçãoereabilitaçãodasconstruçõesembetão armadodoséculoXXqueserãoabordadosnadissertação.Ocapítulo2analisaediscuteos documentosecartasinternacionaisconsideradosmaisrelevantesparaatemáticadaconservaçãoe reabilitaçãodeconstruçõesembetãoarmadodoséculoXX.Ocapítulo3apresentaumabrevenota históricaacercadaevoluçãoedesenvolvimentodobetãoedobetãoarmadonaconstruçãoatéao iníciodoséculoXXcomvistaaenquadraralgunsaspetosdoscasosdeestudoaabordar.Ocapítulo4 apresentaoprimeirocasodeestudoqueconsistenoMercadodoBolhãonoPorto.Estecapítuloirá abordarosprocedimentosdeinspeçãoquepermitemobterinformaçãoacercadasestruturas portantesembetão.Adicionalmente,estecapítuloiráaindaabordaraproblemáticadaavaliaçãoda segurançadeestruturasdestetipoconstruídasnofinaldoséculoXIXenoiníciodoséculoXXno
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 1.4 contextodasuareabilitação.Ocapítulo5apresentaosegundocasodeestudoqueconsistenaobra dereabilitaçãodasfachadasdoTeatroNacionalSãoJoãonoPorto.Estecapítuloabordaa problemáticadoplaneamentodeintervençõesdereabilitaçãoemelementosescultóricosdecimento armadosendopropostoumíndicedeintervençãoquecombinadiferentesfatorespresentesna intervençãorealizadanoTeatroNacionalSãoJoãoequefuncionoucomoumauxiliarnatomadade decisão.Finalmente,ocapítulo6sintetizaasquestõesfundamentaisabordadasnoscapítulos anteriores,analisandoedestacandoalgunspontosquemerecemumareflexãoadicionaldemodoa estabelecerumametodologiaconceptualmentemaisadequadaparaaconservaçãoereabilitaçãodas construçõesembetãoarmadodoséculoXX.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.1 Capítulo2 Aintervençãonopatrimónioculturaledificadoàluzdascartase convençõesinternacionais 2.1 Introdução Opresentecapítulotemcomoobjetivofazerumabreveintroduçãoaosconteúdosteóricose metodológicosdaschamadascartaseconvençõesinternacionaissobrepatrimóniocultural.Apesarde nãoteremumcarácternormativo,estesdocumentospretendemestabelecerumalinguagem uniformizadasobrepráticasadequadasnasáreasdapreservaçãoeconservaçãodopatrimónio cultural.Nestecontexto,apresenta‐senestecapítuloumainterpretaçãoeumenquadramentode algunsdocumentosmaisrelevantesnoâmbitodapreservaçãodasconstruçõespatrimoniaisembetão armado. 2.2 Cartaseconvençõesinternacionais:umpoucodehistória Ascartaseconvençõesinternacionaisreferentesàintervençãonopatrimónioculturalsurgirampela necessidadedeexistiremdiretizesdeâmbitointernacionalqueestabelecessemosprincípios fundamentaisaosquaisdeveriamobedecerasintervençõesempatrimónioculturalcomvistaàsua salvaguarda.SegundoLopeseCorreia(2014),asnormasdeâmbitointernacionalsobreopatrimónio arquitetónicoearqueológico,produzidaspelaUNESCO,peloConselhodaEuropaepeloInternational CouncilonMonumentsandSites(ICOMOS),podemagrupar‐sedaseguinteforma: • Convenções,tratadosoupactos,aprovadospelosEstados(existemcercade15) • Recomendaçõesquedefinemprincípiossemcaráctervinculativo(existemcercade45) • ResoluçõesdoConselhodaEuropaque,apesardenãoteremcaractervinculativo,podem servirdemodeloparaaadoçãoderecomendaçõesedeconvenções(existemcercade20) • Restantesdocumentos,comocartas,orientações,princípioseconclusõesdeencontrosque definemprincípioseconceitossobredeterminadoassunto,equenãotêmcaractervinculativo (existemcercade50) OprimeirodocumentointernacionalexclusivamentededicadoaopatrimónioculturaléaCartade Atenasde1931queabordaorestaurodosmonumentos.EstaCartafoiredigidacombasenas conclusõesgeraisdaConferênciaInternacionalsobreaProteçãoeaConservaçãodosMonumentosde
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.2 ArteedeHistóriaquedecorreuemAtenasemOutubrode1931enaqualparticiparamrepresentantes de24países.Outraconsequênciadestaconferênciafoiacriação,em1933,daComissãoInternacional dosMonumentosHistóricosque,apesardeterdeixadodeexistirdurantea2ªGuerraMundial(1939‐ 1945),pode,decertaforma,serconsideradacomopercursoradoICOMOS.Édesalientarqueem1933 serealizouumanovaconferênciaemAtenasduranteoqualfoielaboradaaCartadeAtenassobreo urbanismomoderno.Verifica‐seentãoqueexistem2CartasdeAtenasquenãodevemser confundidas:ade1931dedicadaaorestaurodemonumentoseade1933dedicadaaourbanismo moderno. Apartirde1948surgemopiniõescontráriasàspráticasexpeditasderestauroourenovaçãosurgidas nopós2ªGuerraMundial.OessencialdacríticadeCesariBrandi(1906‐1988)àsanterioresteoriasda conservaçãocentrou‐senasobrevalorizaçãodosaspetoshistóricosrelativamenteaosaspetos artísticospresentenosdocumentosdoutrináriosdadécadade30doséculoXX.SegundoBrandi,esta sobrevalorizaçãoconduziaapráticasdenaturezamuseológicasouarqueológicas,oquepoderia resultarnaincapacidadedecomunicarosvaloresestéticosnecessáriosàinterpretaçãodomonumento enquanto“obradearte”(Aguiar,2002).A“TeoriadelRestauro”,publicadaporCesariBrandiem1963 eelaboradaprincipalmenteparaasobrasdearte,foidetalmodoabrangentequepermitiuestender osseuspostuladosaopatrimónioedificado(arquitetónicoeurbano).SegundoBrandi,peranteuma obradearte,oseuladofuncionalnãorepresentamaisdoqueumladoconcomitanteousecundário, faceaoutrosaspetostomadoscomoprimordiais,respeitantesaessaobraenquantoobradearte (Aguiar,2002.). Apósa2ªGuerraMundial,enasequênciadadefiniçãoem1954daConvençãodaHaiaqueresultou dainiciativadaOrganizaçãodasNaçõesUnidasparaaEducação,CiênciaeCultura(UNESCO),esta privilegiaacooperaçãocomentidadesnão‐governamentaisapoiandoacriaçãodeumaorganização dedicadaaosmonumentosesítios.Surgeassim,em1964,eduranteo2ºcongressointernacionalde arquitetosetécnicosdemonumentoshistóricosrealizadoemVeneza,acomissãoprovisóriaqueum anomaistardecriaoficialmenteoICOMOS.NestecongressofoiaindaaprovadaaCartaInternacional sobreaConservaçãoeoRestaurodeMonumentoseSítios,maisconhecidacomoCartadeVeneza elaboradanalinhadorestaurocríticodeCesariBrandi.Tendosidatraduzidaparadezenasdelínguas, aCartadeVenezamantémumaatualidadenotáveleéumdosmaisimportantesdocumentos doutrináriosqueservedebaseàrestanteproduçãonormativadoICOMOS(LopeseCorreia,2014). 2.3 Cartaseconvençõesinternacionaisnocontextodareabilitaçãoestrutural ApesardareabilitaçãoestruturalsótersidoabordadadeformaexplícitapelaprimeiraveznaCartade Cracóvia(2000)(LopeseCorreia(2014),muitosdosconceitosepráticasparaaconservaçãoerestauro, aparentementeescritosnocontextodaarquiteturaedasartesdecorativas,sãoaplicáveisaos elementosqueexecutamasestruturasportantesdosedifícios.Pararelembrarconceitoseprincípios geraisdeintervenção,apresenta‐se,emseguida,umabrevereferênciaàscartaserecomendações
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.3 internacionaiscujoâmbitoédedicadoaopatrimónioarquitetónico,peloque,naturalmente,também oéparaasestruturasportantes. Salienta‐seaindaque,nadescriçãoquesesegue,ostermosreabilitação,conservaçãoerestauro aparecemmuitasvezescomomesmosentidoquandoaplicadosàsestruturasportantes,podendodar aideiadeconfusãodetermos.Apesardostermosconservaçãoerestauroseremusualmenteaplicados emintervençõesarquitetónicasouestilísticas,estestermospodemtambémseraplicadosem intervençõesdeíndoleestrutural,jáquemuitasvezesaarquiteturaeaestruturasefundem.Nas “RecomendaçõesparaaAnálise,ConservaçãoeRestauroEstruturaldoPatrimónioArquitetónico” (ISCARSAH,2003)encontram‐seasseguintesdefinições: Conservação–Operaçõesquemantêmaconstruçãotalcomoelaéhoje,aindaqueintervenções limitadassejamaceitesparamelhorarosníveisdesegurança. Reabilitação–Processoparaadaptarumaconstruçãoaumnovousooufunção,semalteraraspartes daconstruçãoquesãosignificativasparaoseuvalorhistórico. Restauro–Processoderecuperaraformadeumaconstruçãodeacordocomaimagemde determinadoperíododetempocomrecursoàremoçãodetrabalhosadicionaisousubstituiçãode trabalhosposterioresemfalta. Dadefiniçãodosdoisprimeirostermos,ecruzando‐oscomadefiniçãodemonumento(paraoqual facilmentesereconhecequetodasaspartessãosignificativasparaoseuvalorhistórico),pode‐se concluirqueconservaçãoereabilitaçãopoderãoseromesmoconceito.Noentanto,anoçãode restauropodenãoserconsensualdeacordocomasváriasdisciplinasimplicadasnasquestõesdo património.SegundoJorge(2005),restaurosignificarestabelecer,regressaràsituaçãoprimitivaideal. Seesteconceitoaoníveldosrestaurosestilísticosouatéespecificamentederepintes(emtelasou pinturasmurais)podeseraceite,aoníveldoedificadopodeterleiturasadversas.Se,paraBrandi, numapintura(restauroestilístico)oremoverdaspartesacrescentadaspodeseraceiteporque adulteramoobjetodearteemsi(Aguiar,2002),numedifícioosacrescentosfazempartedahistória dopróprioedifícioeasuaremoçãopoderásersimilaràremoçãodepartedahistóriadessemesmo edifício.Assim,nocontextodasquestõesestruturais,irãousar‐seostermosconservaçãoe reabilitação,considerando‐sequeestesrepresentamomesmoconceito.Orestauroéumconceitoque temevoluídoaolongodostemposequenaCartadeCracóviaaparececomumsentidomaislato:‐ “umaintervençãodirigidasobreumbempatrimonial,cujoobjetivoéaconservaçãodasua autenticidadeeasuaapropriaçãopelacomunidade”. Talcomoreferido,apresenta‐se,emseguida,umenquadramentodascartas,convençõese recomendaçõesinternacionaisquefocamouquediretamenteserelacionamcomasquestõesde intervençãoestrutural.Osdocumentosabordadospodemserconsultadosem(LopeseCorreia,2014) comaexceçãodaRecomendaçõesparaaAnálise,ConservaçãoeRestauroEstruturaldoPatrimónio Arquitetónico(ISCARSAH,2003)edoDocumentodeMadrid(ISC20C,2011).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.4 2.3.1 CartaInternacionalsobreaConservaçãoeRestaurodosMonumentoseSítios–CartadeVeneza Comojáreferido,estacartafoielaboradaem1964eéumadasmaisimportantesreferênciasno domíniodarecuperaçãoevalorizaçãodopatrimónio,alargandoadefiniçãodemonumentohistórico dadoquenoartigo1ºdesdelogoconsideraque“Asobrasmodestasquecomotempoadquiriramum significadoculturalsãotambémmonumentoshistóricos.” Noartigo2º,estacartareconheceque“Aconservaçãoerestaurodosmonumentosexigea colaboraçãodetodasasciênciasedetodasastécnicasquepossamcontribuirparaoestudoeparaa salvaguardadopatrimóniomonumental”,considerandoportantoquequalqueraçãosobreos monumentosémultidisciplinareabrindoportasàintroduçãodenovastecnologias.Estamesma filosofiaéreforçadanoartigo10ºquereferequese“…astécnicastradicionaisserevelarem inadequadas,aconsolidaçãodeummonumentopodeserasseguradaatravésdorecursoaoutras técnicasmodernasdeconservaçãoedeconstrução,desdequeasuaeficáciatenhasidocomprovada pordadoscientíficosegarantidaexperiência.”Porseulado,oartigo3ºrefereque“Aconservaçãoeo restaurodosmonumentosvisamsalvaguardar,queraobradearte,querotestemunhohistórico”, podendoserintegradosnestecontextonãosóoselementosarquitetónicosedecorativoscomo testemunhoshistóricosdeumaépoca,mastambémosmateriaiseastécnicasconstrutivasutilizadas. Oartigo6ºreferequeummonumentoéinseparáveldahistóriadequeétestemunhoedomeioem queestáinseridopeloqueserecusamasremoçõesdetodooudepartedomonumentoexcetopor exigênciasdeconservação.Noartigo7ºorestaurodeveterminarnopontoemqueasconjeturas comecem. AindadeacordocomaCartadeVeneza,apráticadorestauroeabeneficiaçãocorrentedeverãoadotar umametodologiadeintervençãoessencialmentebaseadanapreservaçãodoexistente,adaptando‐o aumafunçãoútilàsociedade,sendoestafunçãoumelementofundamentalparagarantirasua preservação.Anoçãodeconservaçãodeummonumentoestáassociadaànecessidadedemanutenção permanentedomesmo,doselementosqueoconstituemedosqueaeleestãoassociados.Acarta estabeleceaindaumaforterelaçãoentreomonumento,asuahistóriaeolocalondeesteestáinserido, admitindo‐se,noentanto,serpossíveladeslocaçãodeummonumento,notodoouemparte,doseu localdeorigemparaumoutrolocal,pormotivosdeinteressenacionalouinternacional. 2.3.2 CartaEuropeiadoPatrimónioArquitetónico PoriniciativadoConselhodaEuropa,oanode1975foiproclamadocomooAnoEuropeudo PatrimónioArquitetónico.Nesteâmbito,foramrealizadosesforçosparacriarumavisãocomumnos váriospaíseseuropeusesensibilizaropiniõesparaosvaloresculturais,socaiseeconómicosdos monumentos,conjuntosesítios,nomeiourbanoerural,herdadosdopassado.Comesteobjetivo,o ConselhodaEuropaestabeleceuotextodaCartaEuropeiadoPatrimónioArquitetónicoquefoi adotadapeloComitédeMinistrosdoConselhodaEuropaesolenementeproclamadanoCongresso sobreoPatrimónioArquitetónicoEuropeuquetevelugaremAmsterdãoemOutubrode1975.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.5 ACartaEuropeiadoPatrimónioArquitetónicoreferenoseuartigo1.ºqueopatrimónioarquitetónico europeuéformadonãoapenaspelosmonumentosmaisimportantesmastambémpelosconjuntos queconstituemascidadesantigaseasaldeiascomtradiçõesnoseuambientenaturalouconstruído. Acartareconheceque,durantemuitotempo,apenasseprotegeramerestauraramosmonumentos maisimportantessemteremcontaoseuenquadramentoeconstataqueestespodemperderuma grandepartedoseucarácterseesseenquadramentoforalterado.Estedocumentoreconheceassim aimportânciapatrimonialdosconjuntosedificadosedasuaconservação,mesmonaausênciade edifíciosexcecionais,afirmandoqueopatrimónioarquitetónicotestemunhaapresençadahistóriae asuaimportânciananossavida. Estacartaapresentaváriospontosquereferemaimportânciadumavisãointegradadoprocessode reabilitaçãodeedifíciosecidades.Emparticular,destacam‐seosartigos6º,7ºe9ºqueaseguirse referem.Oartigo6.ºintitula‐se“Estepatrimónioestáemperigo”ondeéreferidoque“Eleestá ameaçadopelaignorância,pelavetustez,peladegradaçãosobtodasassuasformas,peloabandono. Umcertourbanismotorna‐sedestruidorquandoasautoridadessãoexageradamentesensíveisàs pressõeseconómicaseàsexigênciasdacirculação.Atecnologiacontemporânea,malaplicada, deterioraasestruturasantigas.Osrestaurosabusivossãonefastos.Finalmenteesobretudo,a especulaçãofinanceiraeimobiliáriatirapartidodetudoeaniquilaosmelhoresplanos.”Oartigo7.º temcomotítulo“Aconservaçãointegradaafastaasameaças”econsideraque“Aconservação integradaéoresultadodaaçãoconjugadadetécnicasderestauroedaprocuradasfunções apropriadas.Aevoluçãohistóricaconduziuqueoscentrosdegradadosdasgrandescidadeseao mesmotempoasaldeiasabandonadassetornassemreservasdealojamentobarato.Oseurestauro deveserfeitonumespíritodejustiçasocialenãodeveseracompanhadodoêxododetodosos habitantesdecondiçãomodesta.Aconservaçãointegradadeveser,porconseguinte,umdos pressupostosimportantesdaplanificaçãourbanaeregional.Convémnotarqueestaconservação integradanãoéexclusivadetodaaarquiteturacontemporâneaemconjuntosantigos,masestadeverá teremmaiorconsideraçãooquadroexistente,respeitarasproporções,aformaeadisposiçãodos volumes,bemcomoosmateriaistradicionais.”Porfim,oartigo9ºexplicitaqueaparticipaçãodetodos éindispensávelaosucessodaconservaçãointegrada,referindoque“Sebemqueopatrimónio arquitetónicosejapropriedadedetodos,cadaumadassuaspartesestáàmercêdecadaum.Aliás, cadageraçãonãodispõedopatrimónioarquitetónico,senãoatítulotransitório.Elaéresponsávelpela suatransmissãoàsgeraçõesfuturas.Ainformaçãodopúblicodevesertantomaisdesenvolvidaquanto oscidadãostêmodireitodeparticiparnasdecisõesquedizemrespeitoaoseuquadrodevida.”A análisedestes3artigospermiteaindaobservarquesalientamaideiadequeopatrimónioéalgoque nãosepossui,masquesetransmite.Paraalémdeumavisãogeraldecidade/patrimóniocomouma mescladepessoasdeváriosextratossociais,faz‐seumachamadadeatençãoaosperigosinerentesà especulaçãoimobiliáriaque,decertaforma,poderãoviraconduzirarestaurosabusivose,nolimite, àprópriadestruiçãodopatrimónio.Porfim,étambémsalientadaaimportânciadoconceitode
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.6 compatibilidadedetécnicasedefunções(doquesetemedoquesepretende)eaimportânciadouso demateriaistradicionais. 2.3.3 ConvençãoparaaSalvaguardadoPatrimónioArquitetónicodaEuropa–ConselhodaEuropa, Granada,3deOutubrode1985 NestaConvenção,estabelecidapeloConselhodaEuropaemGranadaemOutubrode1985,adefinição depatrimónioarquitetónicointegraosseguintesbensimóveis:Osmonumentos,osconjuntos arquitetónicoseossítios.Paraalémdoscompromissosdeinventariação,odocumentotornaexplícito quecadaestadomembrodeveimpedirqueosbensprotegidossejamdesfigurados,degradadosou demolidos,criandomecanismosdecontroloatravésdeumaautoridadecompetenteàqualsejam submetidosprojetosdeintervençõesqueafetemopatrimónioarquitetónico,talcomodefinido. Simultaneamente,estecontrolodasintervençõesdeveráavaliarainterferêncianomeioambiente. Alémdestesaspetos,atravésdestedocumento,osestadosmembroscomprometem‐seagarantira puniçãodasinfraçõesqueafetemopatrimónioarquitetónico,avalorizaraconservaçãodopatrimónio arquitetónicojuntodaopiniãopúblicaeapromovercomaçõesdeformaçãoasdiversasprofissõese ofíciosquecontribuemparaaconservaçãodopatrimónioarquitetónico. 2.3.4 CartaInternacionalsobreaSalvaguardadasCidadesHistóricas‐CartadeWashington EstaCarta,estabelecidaem1987,salientaanecessidadedasalvaguardadosconjuntoshistóricos,a qualdeveserprecedidadeestudospluridisciplinarese,parasereficaz,serenquadradacompolíticas sociaiseeconómicas.Estedocumentorefereaindaqueosvaloresapreservarincluemadefinição urbana,arelaçãoentreosdiferentesespaçosurbanos,aformaeoaspetodosedifícioseasdiferentes funçõesqueumacidadepodeter.Relativamenteàformaeaoaspetodosedifícios,éexplicitamente referidaanecessidadedepreservarosaspetosexterioreinteriorquesãodefinidospelovolume,estilo, escala,materiais,coredecoração,sendotambémreconhecidaaimportânciadamanutenção permanentenaconservaçãodosconjuntosurbanoshistóricos. Nocasodehaveranecessidadedetransformaçõesemedifíciosoudeconstruçõesnovas,deve‐se atenderàorganizaçãoespacialexistente,respeitando‐seaqualidadeeovalordasconstruções existentes,aescala,adimensãoeformadolote.Salienta‐seaindaque,nocontextodestacarta,é aceiteque“aintroduçãodeelementoscontemporâneos,desdequenãoprejudiqueaharmoniado conjunto,podecontribuirparaavalorizaçãodeumconjuntourbanohistórico”. 2.3.5 RecomendaçãonºR(91)13doComitédeMinistrosdoConselhodaEuropasobreaProteçãodo PatrimónioArquitetónicodoSéculoXX Estedocumento,adotadopeloComitédosMinistrosdoConselhodaEuropaemSetembrode1991,é oprimeiroareconhecerqueaarquiteturadoséculoXXéumaparteintegrantedopatrimóniohistórico daEuropaequeapreservaçãoevalorizaçãodosseuselementosmaissignificativosprosseguemos
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 2.7 mesmosobjetivoseprincípiosdaconservaçãodopatrimónioarquitetónicocomoumtodo.Esta recomendaçãosalientaqueafaltadeinteressenaconservaçãodestepatrimóniopoderálevaraperdas irreparáveiseàprivaçãodesteperíodoàsgeraçõesfuturas.Odocumentorecomendaassimos governosdosestadosmembrosadesenvolveremestratégiasparaaidentificação,estudo,proteção, conservação,restauroeconsciencializaçãopúblicadaarquiteturadoséculoXX. Umadasquestõesimportantescolocadasnestedocumentoéadefiniçãodecritériosparaa identificaçãodopatrimóniodoséculoXX.DesdeofinaldoséculoXIX,aarquiteturaeoplaneamento urbanosofreramprofundasalteraçõesdevidoàindustrialização,àintroduçãodenovosmateriais,à transformaçãodastécnicasdeconstruçãoeaosnovosusos.Estatendênciafoiganhandoespaçocom oprogressotecnológicotendocomoprincipalfinalidadeadeatenderàsnecessidadesdasociedade contemporânea. OsedifíciosdoséculoXXsãoemnúmeroelevado,possuemcaracterísticasvariáveiserefletem simultaneamenteosvalorestradicionaisemodernistas.Comaexceçãodotrabalhodearquitetosde renome,osedifíciosdoséculoXX,deumaformageral,nãosãoreconhecidoscomotendoumvalor patrimonialnecessárioparaincentivarummelhorconhecimentoecompreensãodestepatrimónio. Faceaograndenúmerodeconstruçõesdestaépoca,seránecessáriodefinircritériosdeseleçãoque, entreoutros,tenhamemconsideraçãoosseguintesaspetos: • Ovalordavariabilidadedeestilos,tiposeprocessosconstrutivosdasconstruçõesdoséculo XX • Anecessidadedeseprotegeremnãosóasobrasdosarquitetosfamososnumdeterminado períodoouestilodearquitetura,mastambémdeexemplosmenosconhecidoscom importânciaparaaarquiteturaeahistóriadesseperíodo • Aimportânciadeincluirentreosfatoresdeseleção,nãosóosaspetosestéticos,mastambém acontribuiçãoemtermosdehistóriadatecnologiaedodesenvolvimentopolítico,cultural, económicoesocial • Anecessidadedealargaraproteçãoaoselementosdecorativosexterioreseinteriores,bem comoaosacessórioseaomobiliárioquesãoprojetadosaomesmotempoqueaarquiteturae dãosignificadoaotrabalhocriativodoarquiteto Estedocumentorefereaindaadegradaçãofísicadosedifícioscausadapelapoluiçãoatmosféricaeo envelhecimentodosmateriais,considerandofundamentalasuaconservaçãoerestauro.Nocontexto destedocumento,considera‐seimportante: • Promoverestudoscientíficos,teóricosepráticosdosprocessosdeconstrução,conservaçãoe restaurodestasestruturasecorrespondentesartesdecorativas • Respeitarosmesmosprincípiosfundamentaisquesãoaplicadosaosoutroselementosdo patrimónioarquitetónicoemaçõesdeconservaçãoerestauro
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.2 Figura3.1–Pavimentoembetãodatado de7000ACemYiftah’el,suldaGalileia, adaptadode(Wikipedia,2015a). Figura3.2–VistadeLepenskiVir,Jugoslávia, adaptadode(Hitchcock,2015)ereconstituiçãodas suashabitações,adaptadode(Stanley,1982). Obetão,jáusadopelosgregos,foiamplamenteusadoedivulgadonoImpérioRomano(BCA,1999). FoiomaterialbasedeváriasconstruçõesemblemáticasdoimpérioRomanocomooPanteãodeRoma, construídonoanode125ouoAquedutoPontduGardemNimes,construídonoano150,Figura3.3. Estasestruturasconstruídasembetãoforamdepoisforradasapedra.OPanteãodeRoma,quefoi construídoduranteoreinadodoimperadorAdriano,possuiumacúpulade43mdediâmetronabase e43mdealtura(dabasedacúpulaaoóculo)eéúnicoedifícioconstruídonaépocagreco‐romanaque, atualmente,seencontraemperfeitoestadodeconservação,Figura3.4. Figura3.3–PontduGard,Nimes, adaptadode(Wikipedia,2015b). Figura3.4–Panteão,Roma,adaptadode(ROSA, 2015). Paraosromanos,obetãofoiummaterialrevolucionárioquepermitiuestabelecerumnovoestilode construções,comestruturasmaiscomplexasedemaioresdimensões.NoseuLivroDoisdosDezLivros daArquitetura(Rua,1998),Vitrúviofalanasvantagensdasargamassasedousodaspozolanas(cinzas vulcânicasdazonadePozzuoli,próximodeNápoles)referindoque“…produzemumamassadetal maneirasólida,queasondasdomarnãoconseguemquebrarnemdissolver.”ComaquedadoImpério Romano,perde‐seoconhecimentodestatecnologiadeconstruçãoquesóvoltaaser“redescoberta” em1756quandooengenheirocivilJohnSmeatonestudaaspropriedadeshidráulicasdediferentes ligantes(Heinemann,2013).NasequênciadumaviagemàHolandaonderealizaváriasexperiências sobreautilizaçãodetufosvulcânicosdaregiãodeEifelparaaconstruçãodeestruturasemzonas marítimas,é‐lhepedidoparaseroresponsáveldareconstruçãodofaroldeEddystonenaInglaterra
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.3 (BCA,1999).Esteprojetoémuitasvezesconsideradocomoopontodepartidadautilizaçãoe investigaçãodosliganteshidráulicosmodernosdadoquefoiapartirdasváriasexperiênciasrealizadas porSmeatonqueoligantehidráulicodosromanosfoi“redescoberto”(Heinemann,2013).Noentanto sóapartirdasexperiênciasdeJamesParker,umpadreinglês,sedescobreumtipodecalcárioargiloso que,apósserqueimado,permiteobterumligantehidráulicoquemostrouserdepresarápida,fortee durável(MallinsonandDavies,1987).Em1796,JamesParkerpatenteouasuadescobertacomonome de“CimentoParker”mas,em1798,passouadenominá‐lodecimentoromanopoispensavasereste otipodeligantequeosromanosusavamnaAntiguidade(Hewlett,2004). Ostermos“ligantehidráulico”ou“calhidráulica”nãoforamusadosporSmeatonoupelosseus contemporâneos;emvezdissoidentificavamosligantesqueendureciamdebaixodeáguapor“calde água”(waterlime)(MallinsonandDavies,1987).Aterminologia“calhidráulica”foiintroduzidapor LouisVicat,umengenheirocivilfrancêsquededicouavidaàpesquisadoscimentos.Aoserencarregue daconstruçãodapontedeSouillacsobreorioDordogne(1812‐1822),acomplexidadedaconstrução dasfundaçõesdaobralevou‐oainvestigaracomposiçãoquímicadeligantescapazesdeendurecer debaixodeágua.Nodecorrerdasuainvestigação,Vicattambém“redescobre”oefeitodascinzas pozolânicasnobetãoeestabeleceassuaspropriedadesquímicas.Dasuainvestigaçãoresultama definiçãodumíndicedehidraulicidadeededoisprocessosdeproduçãodecalhidráulicaartificialque envolvemamisturadecalcárioeargila(Espion,2010).Osresultadosdassuaspesquisassãopublicados em1818(Vicat,1818). Em1824,oconstrutoringlêsJosephAspdinpatenteouumamistura(quedescobriuempiricamente) deargila,calcárioeáguaqueformavaumapasta,aqual,depoisdesecaecozidanumfornodecal,era reduzidaapó.Estepóassociadoaáguaformavaumligantequedepoisdeendurecidoformavaum materialcomcor,durabilidadeeresistênciaparecidascomasrochasdailhabritânicadePortland. JosephAspdinreivindicaquedescobriuocimentoPortlandem1811(antesdoengenheiroLouisVicat terpublicadoosseusestudos),(BCA,1999).Apesardapatente,oprocessodefabricodocimentode JosephAspdinépoucoexplícitoeasuacomposiçãoquímicacontinuaaserdesconhecida.Em1843,o filhodeJosephAspdin,William,abreumafábricadecimentoPortlandcujodonoéJ.M.Maude,Son& Co.,evaialterando(empiricamente)acomposiçãoeofabricodocimentodopaiparamelhorarassuas característicasresistentes.Em1843,algunsresultadosdeensaiosderesistênciaindicamqueocimento deWilliamébastantemaisresistentequeamaioriadoscimentosromanosexistentesnomercado (MallinsonandDavies,1987). Nessamesmaaltura,IsaacJohnson,gestordaprodutoradecimentoromanoWhiteandSons,tenta reproduziremelhorarocimentodeWilliamAspdine,em1845,conseguecriarumcimentoPortland compropriedadesmelhoresdoqueasdocimentodeAspdinequeenvolveumaproporçãomais adequadadeargilaecalcário,bemcomoumatemperaturadequeimamaiselevada(Kurdowski,2014). Assuasexperiênciasparamelhorarassuascaracterísticasresistentescontinuamnoentantoelevam aqueem1872estabeleçaumapatenteparaumprocessodefabricomuitopróximodoatual.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.4 Obetãomodernodiferedobetãodosromanosem2aspetosfundamentais: • Aconsistênciadamisturaémaisfluídaehomogénea,oquepermitequesejadespejadoem cofragensemvezdesermoldadoàmãoemcamadasjuntamentecomacolocaçãodos agregados • Oliganteéartificial(cimentoPortland)comumacomposiçãoefabricocontrolados,oque permiteobterresistênciamaiselevada 3.3 Dobetãoparaobetãoarmado Combasenosregistosencontrados,osromanosterãosidoosprimeirosatentaroreforçodobetão comelementosmetálicos(Hornbostel,1991;BCA,1999).Oreforçofoiexperimentadocomelementos embronze,nãotendo,noentanto,tidosucessodadoqueocoeficientedeexpansãotérmicadobronze ésuperioraodobetão:obronzecausavaassimafissuraçãodobetão.Apósoimpérioromanoeaté aoséculoXIXnãoseencontraramregistosdemaistentativasdereforçodobetão. Curiosamente,asprimeirasexperiênciasnoséculoXIXqueenvolveramacombinaçãodebetãocom ferronãopretendiammelhorarocomportamentodobetão,massimprotegerasestruturasemferro dacorrosãoedofogo(Colby,1909;Cusak,1981).Numaoutravertente,atecnologiadobetãoarmado foitambémsendodesenvolvidaparareduzirafragilidadedobetãoenãoparaaumentarasua resistência.Essasexperiênciasforamfeitasemvasos,caixas,barcosporpessoascomformaçãomuito variadaqueforammostrandoqueseobtinhaumaboaligaçãomaterialentreobetãoeoferro, formandoassimummaterialmonolítico(Cusak,1981).Foiaindanestecenárioexperimentalistaque seveioaverificarqueobetãoeoferropossuíamcoeficientesdeexpansãotérmicacomvaloresmuito próximos(Cimbéton,2009),constataçãoqueveioresolverasdeficiênciasidentificadaspelosromanos. Amaioriadossistemasconstrutivosembetãoarmadoqueforamdesenvolvidosaolongodasegunda metadedoséculoXIXforamestudadoseexperimentadosemInglaterra,emFrançaeaténosEstados UnidosdaAmérica.Observa‐sequeodesenvolvimentodessessistemasocorreuquaseemsimultâneo e,aparentemente,semhavertrocasdeinformaçãoentreosseuscriadores(Cusak,1981).Apesar destesdesenvolvimentosaoníveldatecnologiadobetãoarmado,aconstruçãodeedifíciosnestenovo materialteveumaevoluçãolentaduranteamaiorpartedoséculoXIX.Noentanto,entreofinaldo séculoXIXeoiníciodoséculoXX,aconstruçãodeedifíciosembetãoarmadoteveoseuexpoente máximocomoModernismoqueexplorouaspotencialidadesdestenovomaterialdeconstrução, conjugandoanecessidadedevencergrandesvãoscomaesbeltezadoselementosportantes, podendo‐seassimcaracterizarestaconstruçãocomotendoumcariziminentementeexperimentalista.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.5 3.3.1 Cronologia Deformaailustrarbrevementeaevoluçãodobetãoarmado,apresenta‐seemseguidaumacronologia queenglobaosaspetosconsideradosmaisrelevantescombasenasrecolhasdeChristophe(1902), Jones(1913),Cusak(1981),BCA(1999)eHellebois(2013). Em1833,JohnClaudiusLoudon,jardineiroearquitectoinglês,publicaumartigona “EncyclopaediaofCottage,FarmandVillaArchitecture”emqueafirmaqueumagrelhadebarras deferropoderiaserembebidaembetãoparacriarumpisocomresistênciaaofogo. Entre1829e1833,HenryFox,ummédicoinglês,desenvolveuumasoluçãoparapisoscom resistênciaaofogoqueenvolviabetãoevigasdeferroemTinvertidas(Figura3.5).Estasolução foiaprimeiraaserusadanoReinoUnido,tendosidoesteosistemaconstrutivousadoparaos pisosnaconstruçãodosanatóriodeGloucestershireentre1833e1834. Figura3.5–SistemaestruturalparapisoscomresistênciaaofogodesenvolvidoporHenryFox, adaptadode(Hurst,1999). Em1845,JosephLambot,umagricultorfrancês,desenvolveucaixasecontentoresparalaranjas queusavamredesmetálicasembebidasembetão(materialaoqualdeuonomedeferrocimento). Em1848construiuumbarcousandoamesmatecnologia(Figura3.6).Estebarcodeferrocimento éreconhecidopormuitoscomosendoaobramaisantigaemcimentoarmado. Figura3.6–BarcodeferrocimentoconstruídoporJosephLambot,adaptadode(Wikipedia,2015c).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.6 Em1850,JosephMonier,umjardineirofrancês,construiuvasosparaflorescommalhasdeferro embebidasembetão,invençãoquepatenteouem1867.Dandocontinuidadeàssuasexperiências comestenovomaterial,desenvolveupatentesparatubagensetanquesdeágua(1868),painéis parafachadasdeedifícios(1869)epontes(1873). Em1853,FrancoisCoignet,umindustrialfrancês,construiuaprimeiracasadebetãoreforçado comferro,sistemaaquechamoubétonarmé(Figura3.7).Usoubarrasdeferronospisoscomo tirantesqueligavamasparedesexteriores.Coignettambémusoubetãopararealizarascornijas emoldurasdevãosdacasamisturandobetãocommateriaispétreosmenosnobres. Figura3.7–Vistade2010dacasadebetãoreforçadocomferroconstruídaporFrancoisCoignet, adaptadode(Wikipedia,2015d). Em1854,emInglaterra,WilliamWilkinsonpatenteouumsistemaconstrutivoparapisosemque obetãoseriareforçadocombarrasdeferroefiodearame(Figura3.8).Wilkinsonfoioprimeiro aformular(empiricamente)queoferrodereforçodeveriasercolocadoemzonassujeitasa tensõesdetração.Apósapatente,Wilkinsonconstróiaprimeiracasa(umahabitaçãocomdois pisos)comestesistemaapenasem1865. Figura3.8–EsquemadosistemaconstrutivodesenvolvidoporWilliamWilkinson,adaptadode (BarbisaneGuardin,2008).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.7 FrançoisCoignetcontinuouadesenvolveroseusistemaconstrutivoe,em1861,descreveno seulivroBétonsagglomérésappliquésàl'artdeconstruire(Coignet,1861)ummétodode combinarvigasdeferroempisosdebetãoparaaumentaroseuvãoegarantirumaproteção aofogoadequada.FrançoisCoignetcontinuouadesenvolveroseusistema,sendo posteriormentesucedidopeloseufilhoEdmondCoignetqueestabelecepatentespara diferentestiposdeelementosestruturais(Figura3.9). Figura3.9–Detalhesdevárioselementosestruturaisdosistemaconstrutivoembetãoarmado desenvolvidoporEdmondCoignet,adaptadode(Jones,1913). Em1875,JosephMonierprojetaaprimeirapontedebetãoreforçadocomferroconstruídano CastelodeChazelet(Figura3.10).Em1878,Monierobtémumapatenteparavigasembetão reforçadocomferro. Figura3.10–PontedoCastelodeChazeletprojetadaporJosephMonier,adaptadode(APB,2015). Em1879,ofrancêsFrançoisHennebiqueusaobetãonumacasanaBélgicaparagarantir resistênciaaofogo.Aolongodos13anosseguintes,elerealizaestudosparadesenvolverum sistemaconstrutivocompleto(pilares,vigas,lajes,fundações)embetãoarmado,oqualé
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.8 patenteadoem1892sendoumdossistemasmaisconhecidosedisseminadopelomundointeiro (Figura3.11).OsucessodeFrançoisHennebiqueesteveassociadoaumaconceçãoepreparação daexecuçãodasobrasquepermitiaumagranderapidezequalidadedaconstrução,comcustos competitivosquandocomparadoscomosobtidosparaoutrosmateriais.Em1910temmaisde40 000obrasjárealizadasnomundoentreedifícios,pontes,reservatóriosenavios. Figura3.11–Detalhesdevárioselementosestruturaisdosistemaconstrutivoembetãoarmado desenvolvidoporFrançoisHennebique,adaptadode(Jones,1913). DuranteasúltimasduasdécadasdoséculoXIXeaprimeiradécadadoséculoXX,umelevado númerodesistemasconstrutivosembetãoarmadofoidesenvolvidoepatenteadoemvários países.Atítuloilustrativo,salienta‐sequeColby(1909)refereaexistênciade144sistemas construtivosdiferentespatenteadosemváriospaíseseuropeus.Essessistemassãoorigináriosda França,Inglaterra,Alemanha,Áustria,Hungria,Suiça,Itália,HolandaeEstadoUnidosdaAmérica, EspanhaeNoruega.Asdiferentespatentesdestessistemasconstrutivosindicavamafunçãode cadatipodeelemento,descreviamalocalizaçãoeotipodearmaduras(armadurasuperior, inferior;barrasretilíneas,curvas)e,porvezes,tambémajustificaçãoparadeterminadas configuraçõesdearmadura(pararesistiratrações,esforçotransverso,eoutros). 3.3.2 Daspatentesparaaregulamentação OssistemasconstrutivosdesenvolvidosnofinaldoséculoXIXenoiníciodoséculoXXforamcriados antesdeserestabelecidaateoriaformaldocomportamentodobetãoarmado.Averificaçãoe validaçãodofuncionamentodestessistemasconstrutivoseraefetuadaatravésdeensaios experimentaisrealizadospelosseuscriadores(Bolleetal.,2011).Odimensionamentobaseava‐seem fórmulasempíricassimplificadas,tabelaseregraspráticas,asquaiseramdiferentesdesistemapara sistema(Cimbéton,2009).Estessistemaseramassimbaseadosemhipótesesteóricasmuitodiferentes dasquesãoconsideradashojeemdianocálculoedimensionamentodeestruturasdebetãoarmado.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.9 Énoentantonestecenárioemqueautilizaçãodobetãoarmadoseencontravaemfrancaexpansão queseverificaumamaiorfrequênciadeacidentesecolapsos.Norescaldodessesacidentes,a identificaçãodascausasdoscolapsosconsistianomaiordesafio.Aimportânciadaidentificaçãodessas causaserasalientadapelospróprioscriadoresdossistemasconstrutivos,poispermitia‐lhesmelhorar osseussistemas(Hellebois,2013).Noentanto,épossívelidentificarnestaépocaumarelaçãodireta entreaocorrênciadestesacidenteseoestudoteóricomaisaprofundadodocomportamentodobetão armado(Hellebois,2013).CombasenolevantamentoefetuadoporHellebois(2013),observa‐seque osacidentesecolapsosocorreramcomtodootipodesistemaspatenteados,sendoquemaisde50% sederamemedifíciosdehabitação,industriaisoupúblicosequecercade60%tiveramcomocausa deficiênciasaoníveldodimensionamentodasoluçãoconstrutiva. Àmedidaqueaocorrênciadestesacidentesecolapsossefoiverificando,começaasurgira necessidadederegulamentarautilizaçãodobetãoarmadonaconstrução.Énoentantoocolapsoda pontepedonalGlobeCéleste,projetadaporHennebique,noespaçodaExposiçãoUniversaldeParis de1900eenquantoaindaseencontravaemconstruçãoquefazcomqueseestabeleçaaindanesse anoaCommissionduCimentArmé,umacomissãofrancesaencarreguededefinirumanormaparaa construçãoembetãoarmado(Badinetal.,2008;Hellebois,2013).Nasequênciadocolapsodum edifício(curiosamentetambémprojetadoporHennebique)em1901nacidadedeBâle,Suíça,também aSociedadePrivadadeEngenheiroseArquitetosSuíços(SIA)começaadesenvolverumanormapara aconstruçãoembetãoarmado(Badinetal.,2008).Odesenvolvimentodessaregulamentaçãoapoiou‐ senainvestigaçãoteóricaquevinhajáaserdesenvolvidaemváriospaísescomoaFrança,Suíça, BélgicaeAlemanha(Badinetal.,2008;Cimbéton,2009;Hellebois,2013).Em1906,acomissão francesapublicaa“Circulairedu20octobre1906,concernantlesinstructionsrelativesàl'emploidu bétonarmé”(Lévy,1907)aquesepodechamaroprimeiroregulamentodebetãoarmado.Este documentofoitraduzidoparaportuguêsepublicadoem1907pelaRevistadeObrasPúblicaseMinas daAssociaçãoPortuguesadosEngenheirosCiviscomotítulo“AsInstruçõesFrancesasparaoFormigão Armado”,(ROPM,1907),salientando‐sequeatraduçãoutilizouadesignaçãoespanholadeformigão paradefinirbetão.Apartirdestaaltura,aregulamentaçãodaconstruçãoembetãoarmadocomeçaa surgiremváriospaísesdaEuropa.NocasodePortugal,em1918éaprovadooprimeiroregulamento portuguêsnodomíniodobetãoarmadodesignadopor“InstruçõesRegulamentaresparaoEmprego doBétonArmado”(IREBA,1918)quetevecomobaseasnormasfrancesasde1906.Em1935,este regulamentoéatualizado,surgindoentãooRegulamentodoBetãoArmado(RBA,1935)queviriaa vigoraraté1967.Comaevoluçãodoconhecimentoteóricosobreobetãoarmadoeodesenvolvimento deregulamentaçãoquesustentasseasuautilizaçãonaprática,observa‐sealiberalizaçãodousodo betãoarmado,queatéentãoera“propriedade”doscriadoresdossistemasconstrutivospatenteados. Assim,opapeldominantedossistemasconstrutivospatenteadosnaconstruçãovaisendo gradualmentereduzidoapartirdaprimeiradécadadoséculoXX.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.10 3.4 OaparecimentodobetãoarmadoemPortugal Atítulocomplementar,apresentam‐seemseguidaumasbrevesreferênciasaobrasecasos particularessobreasprimeirasaplicaçõesdebetãoarmadoemPortugal.Osexemplosmencionados dizemrespeitoaalgumasconstruçõesconsideradascomoreferênciasparaocenárionacional,sendo aindaabordadasoutrasaplicaçõesdebetão(ecimento)armadoquesurgemnestaépoca. FrançoisHennebiqueregistouapatentedoseusistemaconstrutivoemFrançaem1892eapartirdesse anocriouumarededeconcessionáriosemváriospaíses.EmPortugal,aprimeirapatentedosistema Hennebiquefoiregistadaem1895atravésdeJacquesMonet(Araújo,2011;Tavares,2011)quefoio primeiroconcessionárioemPortugaldestesistema.Em1910,Hennebiquepossuíamaisde40000 obrasespalhadasportodoomundo. MonetapareceligadoàsprimeirasobrasembetãoarmadoconstruídasemPortugalatravésda empresadeconstrução“Monet&Fils”.Em1894realizoutrabalhosemLisboaparaacompanhiado gáseparaumafábricadeóleos.Em1897JacquesMonetconstruiuoedifícioMoagemdoCaramujo (Figura3.12a))(CovadaPiedade1898)consideradooprimeiroedifíciointegralmenteembetão armadoemPortugal.SegundoCerqueira(2009),dosengenheirosconstrutoresradicadosemPortugal nosfinaisdoséculoXIXenoiníciodoséculoXX,registam‐seosnomesdeJacquesMonet,Vieillard, JeanDucasse,Touzet,PierreTeissiereJeanCassé.AponteLuizBandeirasobreorioVougaemSejães (1907)(Figura3.12b)),queficousubmersanoúltimotrimestrede2014aquandodaconstruçãoda BarragemRibeiradio‐Ermida,foiconstruídacomosistemaHennebiquepelaempresaMoreiradeSá& Malevezque,àdata,possuíaaconcessãodestesistemaemPortugal.Com44mdevão,apontefoi executadaem3mesese4diascontandocommulheresparatransportarobetãoparaaobra(Figura 3.13)(Tavares,2011). (a)(b) Figura3.12–EdifícioMoagemdoCaramujo,adaptadode(Appleton,2011)(a),ponteLuizBandeira (b)
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 3.11 Figura3.13–MulheresquetrabalharamnaconstruçãodaponteLuizBandeira,adaptadode (Tavares,2011) Doquefoipossívelapurar,nãoexistemregistossignificativosacercadautilizaçãoemPortugalde outrossistemasconstrutivosquenãoosistemaHennebique.NoprocessodaconstruçãodoLyceu PassosManuel(Lisboa,1908)foramanalisadasecomparadasduassoluçõesembetãoarmadoparao “GymnásioeLaboratórioChimico”eparaospavimentosetabiquesnoLyceuNacionalCentralde Lisboa(AppletoneRibeiro,2011).Estassoluçõesdeprojectoeconstrutivasforampedidasàempresa debetóndecimentarmédePierreTeissiereàempresaConstruçõesembétondecimentoarmado “SystemaHennebiquePriveligiado”deMoreiradeSá&Malevez.Tambémaspesquisasfeitassobrea construçãodoMercadodoBolhãonoArquivoHistóricodoMunicípiodoPorto(CasadoInfante,no Porto)nãopermitiramencontrarelementosreferentesaoprojetodeestruturasdoedifícioouà soluçãoconstrutivaadotada.Noentanto,foiencontradooprojetoembetãoarmadodasolução alternativaàconstruçãodosarcosemalvenariadepedrasobaruadeSádaBandeira.Estasoluçãoem betãoarmadoédaresponsabilidadedaempresaconstrutoraJeanDucasse,comsedeemLisboa.Na propostaapresentadaàCâmaradoPorto,datadade17deoutubrode1911,opapeltimbradorefere JeanDucasse–Constructor‐SucessordePierreTeissier&deJeanCassé(Figura3.14).SegundoSantos (1996),quelistaalgumadadocumentaçãoexistentenoarquivodacasaDucasse,existemneste arquivodiversosregistosdaobradosArmazénsNascimentonoPorto(1914)bemcomoocontratoda suaconstruçãoutilizandoosistemaHennebique.OsArmazénsNascimento,daautoriadoilustre arquitetoportuenseMarquesdaSilva(1869‐1947)queestudounaÉcoledesBeauxArtsdeParis, tinhamumaarquiteturainteriormuitosemelhanteaosGrandesArmazénsdeParis(Figura3.15)(FIMS, 2015a).Ointeriordesteedifíciofoicompletamentedemolidoparauma“remodelação”deespaços, tendo‐seperdidoumdosexemplosmaisnotáveisdaarquiteturadoiníciodoséculoXXnoPorto.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.2 (Costaetal.,2009).Adicionalmente,seráabordadaaproblemáticadaavaliaçãodasegurançade estruturasdebetãoarmadoconstruídasnofinaldoséculoXIXenoiníciodoséculoXXnocontextoda suareabilitaçãodeacordocomascartaseconvençõesinternacionais,sendoanalisadasasdificuldades emrealizarestaavaliaçãodasegurança. 4.2 DescriçãodoMercadodoBolhão 4.2.1 Enquadramentohistórico OMercadodoBolhão,edifíciodereferênciadacidadedoPorto,constituiumparadigmadaherança culturalarquitetónicaeurbanísticadoséculoXX.Cemanosdevocaçãocomercialinseremoedifício numconceitomaislatodepatrimónio,muitoalémdaconservaçãodassuascaracterísticas arquitetónicasoriginais,abrangendoprincipalmenteamemóriavivadaspráticascoletivastradicionais easuafunçãosocialenquantoobrapública.OBolhãoéumespaçodeusodiáriosituadonumdosmais importantesquarteirõesdecomérciodabaixaportuense,sendoestalocalizaçãoprivilegiada fundamentalparaosignificadoeaimportânciaquealcançounacidadedoPorto. AorigemdoMercadodoBolhãoremontaa1838,quandoaCMPdecidiuconstruirummercadoque funcionouaoarlivreaté1914(Figura4.1)numterrenoondeexistiaumlameiro,atravessadoporum regatoquealiformavaumabolhadeáguaequedeuorigemaonome“Bolhão”.EmplenaPrimeira GuerraMundial,entre1914e1917,primeiropelamãodoEngenheiroXavierEsteves,figuraderelevo nacionalquefoivereador,presidentedaCMPeministrodoComércioedasFinançasdoGovernode SidónioPaisedepoispelamãodovereadorElísiodeMelo(Ferreira,2013),omercadoétransformado noedifícioatual.EsteprojetoinovadordoArquitetoAntónioCorreiadaSilva(Figura4.2),comante‐ projetodoEngenheiroCasimiroBarbosa,conjugouautilizaçãodobetãoarmadocomestrutura metálica,alvenariadegranitoecoberturasemmadeira.Oprojetoincluíaaindaumacobertura metálicadazonainteriorquenãochegouaserexecutada. Figura4.1–MercadodoBolhãoaté1914(PostalIlustrado).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.3 a) b) Figura4.2–ProjetodoMercadodoBolhãodoArquitetoCorreiadaSilva,1914‐ArquivoHistórico MunicipaldoPorto,Guia19/2003nº317:a)cortetransversal;b)cortelongitudinal. 4.2.2 Descriçãoarquitetónica OedifíciodoMercadodoBolhãoocupaumquarteirãodefinidopelasruasFormosa,deSádaBandeira, FernandesTomáseAlexandreBraga,emplenabaixadacidadedoPorto.Asuaimplantaçãoadapta‐se àtopografiadolocal,condicionadapeladiferençadecotasentreasruasqueodelimitamaNorteea Sul(cercade6.0m)epelaconsequentependentedasruasaNascenteePoente(Figura4.3).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.4 Figura4.3–LocalizaçãodoedifíciodoMercadodoBolhão(http://www.bing.com/maps). Oedifícioapresentadoispisosemaltura,executadosdeformaaserempossíveisduasentradasde nível:umaàcotadaRuaFormosaparaopiso0(cotadoterrado)eoutraàcotadaRuaFernandes Tomásparaopiso1(cotadagaleria).ExistemoutrasduasentradaspelasruasdeSádaBandeirae AlexandreBragaaumnívelintermédio,permitindooacessoporescadariasaambosospisosdo mercado.Dadaainclinaçãodasruas,acérceadoedifícionafachadaSulédecercade15m, sensivelmenteodobrodadafachadaNorte,oqueconfereàprimeiraumamaiormonumentalidade tornando‐anaentradaprincipaldoedifício(Figura4.4).Aencimaraentradaprincipal,encontra‐se umaesculturapersonificandoocomércioeaagriculturadaautoriadoescultorBentoCândidodaSilva (1895‐1915).Estaesculturaéexecutadaemargamassadecimento(Luxanetal.,1997). Ocomércioassociadoaoedifíciodomercadoencontra‐searticuladodeduasformas:lojasabertas paraoexteriordasruasenvolventesseguindoapendentedasruas;nointerior,omercadodefrescos àcotadoterrado(piso0)comalgumaslojasabertasparaointerioràcotadagaleria(piso1).A diferençadecotaseaimplantaçãodoedifíciolevamaqueexistamlojasviradasparaointeriorapenas naparteSuldopiso1,ficandoarestantepartefechadaporparedescegas.Existemaindazonasde apoioaofuncionamentodomercado,comoostanquesdamarmeladaouomatadouro,quesesituam, respetivamente,noscriptopórticossobaRuadeSádaBandeiraenazonaemlajesobaRuaFernandes Tomás.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.5 a)FachadaPoentevistadaRuadeSádaBandeira.b)EntradadaRuadeSádaBandeiraparaonível intermédio. c)TorreãonaesquinadaRuaFormosacomaRua AlexandreBraga. d)FachadaSuleentradaprincipaldoedifíciocom esculturaaencimaraentrada. e)FachadaNascentevistadaRuaAlexandreBraga.f)EsquinadaRuadeSádaBandeiracomaRua FernandesTomás. Figura4.4–FachadaseenvolventedoedifíciodoMercadodoBolhão NaFigura4.5enaFigura4.6apresentam‐seasplantasdearquiteturadacotadoterrado(piso0)eda galeria(piso1),indicandoasdimensõesglobaisdoedifícioeassuaszonasprincipais.Asfotografias queseapresentamnaFigura4.7ilustramomercadoàcotadoterrado.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.6 Figura4.5–Plantadearquiteturadopiso0. Figura4.6–Plantadearquiteturadopiso1. EDP 53.5 142 89.5 70 Rua Alexandre Braga Rua Formosa Rua Fernandes Tomás Lojas Exteriores Matadouro Galerias em arco Entradas Laterais 139 53.5 142 Rua Sá da Bandeira Rua Alexandre Braga Rua Formosa Rua Fernandes Tomás Lojas Interiores Galeria Passadiço Entradas Laterais RuaSádaBandeira [m] N [m] N
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.7 a)RuacentralvistadaentradaSul.b)Fontanário. c)Bancasdevenda.d)Vistainferiordagaleriaerualateralinterior. e)Zonadomatadouro.f)CriptopórticosembetãosobaRuadeSádaBandeira. Figura4.7–Piso0doMercadodoBolhão. Opiso1domercado(Figura4.8)éconstituídoporumagaleriacobertaemtodooperímetrodoedifício, comumapassagemtransversal,alinhadacomasentradasdasruasdeSádaBandeiraeAlexandre Braga,dividindoagalerianasmetadesNorteeSul.Estapassagem(Figura4.8b)foiconstruídaem1938
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.8 parapermitirumamelhorcirculaçãoentreasduasalasnascenteepoente,justificadaporum congestionamentodecirculaçãonasgalerias. a)ZonaPoentedagaleria.b)Passagemcentralaoníveldagaleria. c)ZonaNortedagaleriavistadopassadiço.d)Galeriadopiso1. Figura4.8–Piso1doMercadodoBolhão. 4.3 Cronologiadeintervençõeseestudosanteriores OMercadodoBolhão,construídonumlocalderecolhasdeáguasteve,desdeoinício,problemasde estabilidadeestrutural,tendosidoobjetodeinspeçõeseintervençõespontuaisaolongodosanosque visaramamanutençãodasuaintegridadeestrutural.Apresenta‐se,emseguida,umacronologiados elementosaquefoipossívelteracessosobreasquestõesdeestabilidadeestruturaldoMercadodo Bolhão.Numprimeiropontoapresentam‐seoselementosexistentesnoArquivoHistóricoMunicipal doPortoedeseguidaoselementosfornecidospelaCMPparaoestudodoIC‐FEUP(Costaetal.,2009). 4.3.1 ElementosdoArquivoHistóricoMunicipaldoPorto Aquandodaconstrução,em1938,dopassadiçosuperiorembetãoentreasalasnascenteepoente, daautoriadoEngenheiroCorreiadeAraújo(Figura4.9eFigura4.10),foinecessáriorecorrerà
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.9 utilizaçãodeestacariademadeiranasfundaçõesporimpossibilidadedeseexecutaremasfundações talcomoestavamdefinidasemprojeto.Asfundaçõesprevistaseramconstituídasporquatrosapatas nervuradasdebetãoarmado,tendosidonecessárioexecutar17estacasdemadeiraparacadauma dasfundaçõesdosquatropilares,oquecorrespondeuaumtotalde68estacas.Alémdisso,foiainda necessáriodesviarumcoletordeáguaspluviaisprofundocujaexistênciaeradesconhecidados projetistas(Ferreira,2013). Figura4.9–ProjetodePassagemeGaleriadeVendaaconstruirnoMercadodoBolhão(alçado)‐ ArquivoHistóricoMunicipaldoPorto,Guia19/2003,nº316,rolo2. Figura4.10–Obrasdaexecuçãodopassadiço‐ArquivoHistóricoMunicipaldoPorto,PastaF‐02‐ GBB:01‐67/8. OsproblemasdeestabilidadenoMercadodoBolhãocontinuarame,em1939,odiretordosServiços deSanidadeeAbastecimentosnotificaosServiçosdeObraseUrbanizaçõesquesesentiuumaforte explosãosobopavimentodoterrado,daqualresultouoseualuimento.Estanotificaçãorefereainda que,comoconsequênciadestaocorrência,umadascolunasinferioresdesuportedagaleriaabateu,o quelevouàdeformaçãodagaleriaassimcomodeduasdascolunasdesuportedacoberturadagaleria.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.10 Ainspeçãodecorrentedesteacontecimentoregista“(…)numerosasfendasemtodooedifícioque atribuímosaabatimentosdasfundações,osquais,nasuamaiorparte,devemter‐seproduzidoem largosanosenãoprenunciamperigoiminente”(Ferreira,2013).Nasequênciadainspeçãoé recomendadaasubstituiçãodascolunasdeferroexistentesporoutrasembetãoouemaçolaminado, aconselhando‐se,noentretanto,quesejafeitooescoramentoconvenientedolocal.Alémdisso, consideramtambémurgentevistoriartodososornamentosemcimento,“(...)substituindo‐seaqueles quenãofôremaproveitáveisesegurando‐seosrestantes”(Ferreira,2013).Éaindareferido“(...)que alguns,pesandomaisde30quilos,têmcaídonaviapública,comgraveperigoparaostranseuntes” (Ferreira,2013).Destadescrição,entende‐sequeosreferidosornamentosemcimentoseriamos cachorros(oumísulas)queencimamafachadajuntoàplatibanda.Estescachorrossãofingidose executadosintegralmenteemargamassa,atingindosensivelmenteopesoreferido,eestavam encaixadosnaparedeatravésdedoisespigõesmetálicos.Emdataquenãoseconsegueprecisar,os referidoscachorrosforamretiradoseguardadosnoespóliodaCMP. Em1943éfeitaumainspeçãodoedifíciopelosengenheirosAvelinoMonteirodeAndrade,Guilherme BonfimBarreiroseLuísCarlosdeNoronhaeTávora,osquaiselaboramnovoparecer.Destainspeção concluemqueascolunasfraturadasnãodevemsersubstituídaspoisostrabalhosinerentesaesta substituiçãopodemagravarascolunasadjacenteseprovocarobrasemcadeia“(…)resultandoporém daíobranãosódispendiosa,massobretudorealizadademaneirapoucorecomendávelparaasua estabilidade,dadaanecessáriaimperfeiçãodasligaçõesdosdiversoselementosdaestrutura.Impõe‐ se,noentanto,desdejáarenovaçãoeampliaçãodoescoramentoexistente”(Ferreira,2013).No mesmopareceresobreproblemasdeestabilidadenaslojascomentradapelaRuaAlexandreBraganº 31eRuadeSádaBandeiranº345,foramidentificadosproblemasdedeformaçãonasvigasefissuração emlajes.Segundooparecer,émanifestooriscoderuínanestaszonaseosproblemasencontrados poderãosercomunsàtotalidadedoscorposondesesituamaslojasvistoriadas,concluindo‐se“(…) quesóensaiosdecargaarealizaremtodosospavimentoslhespermitirátirarconclusõesrelativamente atodooedifício.”(Ferreira,2013). Em1946foramrealizados“diversostrabalhosdecarácterexperimentalparaaconsolidaçãodeum pequenotroçodegaleriadoMercadodoBolhão”(Ferreira,2013).OengenheirochefedosServiçosde ObrasMunicipaispedeautorizaçãoparaaplicarestaconsolidaçãoatodosossuportesfraturados evitando,assim,asuademoliçãoereconstrução.Nãoseencontraramregistosquerefiramseestes trabalhosforamounãoexecutados.Em1947,aCMPlançaconcursoparaasubstituiçãodetodoo pavimentodoterradodevidoainúmerosregistosdealuimentosdopavimento,considerando‐seque abetonilhaestá“emfalsodesdequeforamfeitasasobrasdesaneamento.”(Ferreira,2013).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.11 4.3.2 ElementosfornecidospelaCMP ParaaexecuçãodainspeçãoediagnósticorealizadospeloIC‐FEUP(Costaetal.,2009),aCMPforneceu osseguinteselementos: “Relatóriodereconhecimentogeotécnico”–RelatóriodaTeixeiraDuarte,SA(Outubro1997). Desterelatórioresultouqueospilaresdeferrofundido,desecçãoocaeanteriormente designadosporcolunasdeferro,dazonasulfossemintervencionadosnadécadade1980com aexecuçãodemico‐estacasnassuasfundaçõeseenchimentodebetãonoseuinterior. “RestauracióndelMercadodoBolhãodoPorto(Portugal):Losmaterialesexistentesysus técnicas”–RelatóriodoInstitutodeCiênciasdelaConstruccionEduardoTorroja(Dezembro 1997).Esterelatóriointegraosestudosefetuadospeloprojetodereabilitaçãodomercadoda responsabilidadedoArquitetoJoaquimMassenaaprovadoem1992. “Derrocadadeblocosdeargamassa.RuaFormosa”–NotificaçãodoBatalhãodeSapadores BombeirosdoPorto(Janeiro2004).Estesblocosdeargamassareferem‐seaoscachorrosfalsos queencimamafachadajuntoàplatibanda,havendojáregistodaquedadesteselementosem comunicaçõescamaráriasde1939,comoreferidoanteriormente. “PatologiasnomercadodoBolhão”–RelatóriodaDivisãoMunicipaldeUrbanismo,Divisão MunicipaldeFiscalização,SalubridadeeSegurançadaCMPesubsequentescomunicações internassobreasavariasnoedifício(Janeiro2004).Nesterelatóriodeinspeçãosalienta‐sea degradaçãodeelementosemreboco,aexistênciadeanomaliasestruturais(desagregaçãode betãoecorrosãodearmaduras),bemcomoafragilidadedoscachorrosdobeiral,osquaisse sugeriuserempregadosouintegralmenteremovidos,factoqueveioaacontecer.Neste relatóriofoiaindaregistadoumassentamentodafachadaSuldoEdifício,associadoao aparecimentode“fissurasreveladorasdaexistênciadeumarotaçãoprogressiva”damesma que,indicativamente,foiassumidocomoresultantedealteraçõesdascaracterísticasdosolo e/oufundações.Orelatóriorecomendatambémaexecuçãodesondagensaosubsoloea monitorizaçãodasfissurasparaavaliaçãodaevoluçãodoreferidoassentamento. “AnomaliasestruturaisnoedifíciodoMercadodoBolhão.Medidasdeintervençãourgentes” –RelatóriodoLNEC(Abril2004). “EstudodeCaracterizaçãoSocial,económicaecontratualdoMercadodoBolhão”–Relatório daDHVTECNOPOR(Maio2005). “AditamentoànotatécnicaAnomaliasestruturaisnoedifíciodoMercadodoBolhão.Medidas deintervençãourgentes.”–AditamentodoLNEC(Julho2005). “Relatóriotécnico”–DivisãoMunicipaldeSegurançaeSalubridadedaDireçãoMunicipaldo UrbanismodaCâmaraMunicipaldoPorto(Julho2005).Esterelatóriotécnicoenumeraas váriaspatologiasdetetadasnoMercadodoBolhão.Alémdaspatologiasjáabordadas anteriormente,salienta‐se,desterelatório,asobservaçõesrelativasàperdadeverticalidade dospilareseaodesnivelamentodopassadiçoqueligaasduasalasdagaleria.Nesterelatório
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.18 Assimforamdesignadosporletras(AaJ)osalinhamentoslongitudinaisdaestruturadoedifícioepor números(1a23)osseusalinhamentostransversais. Figura4.15–Plantaestruturaldonível0doMercadodoBolhão. Figura4.16–Plantaestruturaldonível1doMercadodoBolhão. Oselementosresistentesemalvenariadegranitoconstituemagrandemaioriadaestruturavertical, encontrando‐sedistribuídosportodooedifícioecomcontinuidadedesdeasfundaçõesatéà cobertura(Figura4.15,Figura4.16).Asparedesdealvenariacriamamodulaçãodoedifício,nadivisão dosestabelecimentoscomerciaisexteriores,naseparaçãoentreesteseomercadointerior(ver N N
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.19 alinhamentosB,I,2e22daspeçasdesenhadas)enadelimitaçãodoperímetroexteriorenterradodo edifíciopormeiodasparedesdefundação.Asparedesdealvenariatransversaisdetravamento apresentamumaespessuradecercade0.60m,sendoqueasdeseparaçãoentreocomércioexterior einteriorapresentamumaespessuradecercade0.28mnametadeSuldoedifícioedecercade0.60m nametadeNorte.Juntoàsfundações,comousualmente,asparedessãomaisespessasecomvalores quevariamentre1.60me2.0m.Emtermosdeelementosportantesverticais,existemaindaospilares circularesemferrofundido(asjáreferidascolunas)desuportedopavimentodagaleriadonível1eos pilaresdeferrofundidodeapoioàcoberturametálicadagaleria. Aestruturaresistentehorizontaldoedifícioéconstituídaporpainéisdelajeevigasdebetãoarmado quematerializamtodaaestruturadonível1.Asvigassãodispostasortogonalmentenosentido longitudinaletransversal,criandoumreticuladoquedefineospainéisdelaje.Estaconfiguração estruturalaparecetantonospisosdaslojasexteriorescomonagaleriainteriordomercado(verpeças desenhadas1Fe2F;Figura4.15,Figura4.16)(Figura4.17). a)Vigaselajenopisodaslojasexteriores.b)Vigaselajedagaleriainteriordomercado. Figura4.17–EstruturareticuladadepisodoedifíciodoMercadodoBolhão. Ospainéisdelajetêmdimensãoretangulardeaproximadamente2.0x3.0m2nospavimentosdaslojas enquantonazonaemconsoladagaleriaapresentamumaconfiguraçãoquadradacomdimensõesde cercade2.0x2.0m2.Nazonadomatadouro,ospainéispossuemdimensõesmaisheterogéneas.Atítulo deexemplo,refere‐sequeestespainéissãoconstituídosporumalajemaciça,designadanaspeças desenhadasporL1,comcercade0.10mdeespessuraeumamalhaortogonaldearmaduradeØ4.76 (3/16’’)//0.10m. Asvigasdagaleriainteriordomercadononível1consistemessencialmentenumreticuladomodular definidoporvigasquevencemtodoovãotransversaldagaleria(cercade5.0m).Realça‐sea particularidadedealgumasvigasseremmistas,ousejapossuíremumperfilmetálicoem“I”embebido nasecçãodebetão.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.20 Analisandoadisposiçãodaestruturareticuladadagaleria(verpeçadesenhada2F;Figura4.16), verifica‐sequeexisteumamétricaregulardemódulosdelimitadospelasvigasV1,asdemaiorrigidez detodooconjuntoeportantocapazesdediferenciarocomportamentoestruturaldoselementos adjacentes.Ofuncionamentoestruturaléemgrelha,ondetodasasvigassedeformamconjuntamente etransmitemascargasverticaisparaoselementosestruturaisdefronteiraqueseencarregamdeas distribuirparaaestruturaresistentevertical. 4.5 Danosobservadosnaestrutura AestruturadoedifícioMercadodoBolhãoapresentapatologiasqueocorremdeumaformaalgo recorrentee,nalgunscasos,comumaintensidadeconsiderável.Doquefoiconstatadoem2009,as açõesdemanutençãopreventivaforamescassas,tendosidoefetuadasapenasintervenções localizadasemalgunselementosdasuaestruturaparacolmatarproblemaspontuaisque,comoatrás semostrou,foramsendorecorrentesnaestrutura.Daspoucasintervençõesrefere‐seadeâmbito maisgeralequefoioreforçodasfundaçõeseoenchimentocombetãonointeriordospilaresem ferrodeseçãoocaquesuportamagaleriainteriordoMercado,realizadahácercade20anosnazona sul,talcomojáreferido.Ageneralidadedaestruturahorizontal(excetuando‐seascoberturas)é constituídaporelementosestruturaisdebetãoarmado,talcomojáreferidoe,deummodogeral, encontra‐seembomestadodeconservação,namedidaemqueseencontraadesempenharassuas principaisfunçõesestruturais.Osprincipaisdanosobservadossãoosqueaseguirseapresentam. 4.5.1 Destacamentodobetãoderecobrimentoecorrosãodearmaduras Verificou‐seaocorrênciadedestacamentodobetãoderecobrimentoedecorrosãodearmaduras numnúmeroconsideráveldevigasqueexecutamaestruturaemgrelhadagaleriainteriordoMercado doBolhão.Asvigasmaisafetadasporestetipodedanosãoasvigasprincipaisdagaleria,designadas porV1eV21naspeçasdesenhadas1F,2F,3F,4Fe6F(verlocalizaçãonaFigura4.18),havendomesmo algumasdestasvigasqueapresentamoperfilmetálicoqueasconstituiàvista,comevidentessinais decorrosão(Figura4.19aFigura4.21).Algunsdesteselementosapresentam‐secomníveisde corrosãoalgoavançados,havendoumareduçãodasecçãodosvarões(Figura4.22).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.21 Figura4.18–LocalizaçãodealgumasvigasV1eV21.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.22 Figura4.19–Destacamentodobetãode recobrimentoecorrosãodearmadurasnumaviga V1dagaleria. Figura4.20–Destacamentodobetãode recobrimentoecorrosãodeelementosmetálicos numavigaV21dagaleria. Figura4.21–DestacamentodobetãoderecobrimentoecorrosãodeelementosmetálicosnumavigaV1da galeria. Figura4.22–Destacamentodobetãoderecobrimentoecorrosãodearmadurasemvigas.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.23 Alocalizaçãodoselementosmaisafetadossituam‐senazonaNortedagaleria,assinaladaaazulna Figura4.23.Nalgumasdestaszonasexistemvigasondeseverificaodestacamentodacamadade recobrimentoeacorrosãodasarmaduras(Figura4.24aFigura4.26),existindomesmocasosondea reduçãodasecçãodasarmaduraséevidenteeatingejáumaexpressãoconsiderável(Figura4.25e Figura4.26). Figura4.23–Plantadonível1comaszonasdagaleriainteriormaisafetadaspelacorrosãodearmadurase destacamentodobetãoderecobrimentoassinaladasaazul. Figura4.24–Destacamentodobetãoderecobrimentoecorrosãodearmadurasnumavigadacaixade escadas. N
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.24 Figura4.25–Destacamentodobetãode recobrimentoecorrosãodearmadurasnumaviga dacaixadeescadas,comumareduçãodasecção doaçoconsiderável. Figura4.26–Pormenordafiguraanterior. Salienta‐seaindaaexistênciadestedanoemalgumaszonaslocalizadasdoantigomatadouro(Figura 4.27).Emboraestedanonãoseverifiquedeumaformarecorrentenestazona,oselementosporele afetadosapresentamjáumgraudecorrosãorelevante. Figura4.27–Destacamentodobetãoderecobrimentoecorrosãodearmadurasnumavigadazonado antigomatadouro. Finalmente,refere‐seaexistênciadecasospontuaisdecorrosãodearmadurasnasgaleriassituadas sobaRuadeSádaBandeira,queremlajes(Figura4.28),quernosarcosqueexecutamaestrutura nessazona(Figura4.29).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.25 Figura4.28–Destacamentodobetãode recobrimentoecorrosãodearmadurasnum paineldelajeemabóbada,sobaRuadeSáda Bandeira. Figura4.29–Destacamentodobetãode recobrimentoecorrosãodearmadurasnoarco A2,sobaRuadeSádaBandeira. Odestacamentodobetãonosvárioselementosdescritostemorigemnasreaçõesexpansivasde oxidaçãodasarmadurase/ouperfismetálicosexistentesnoseuinterior,cujosprodutospodemocupar volumescercade6a8vezessuperioresaosdometaloriginal.Porsetrataremdeelementosdesecção reduzidamuitasvezescompequenaespessuraderecobrimento,apresençadeáguafavorecea corrosãocomoconsequentedestacamentodacamadasuperficialdebetão. 4.5.2 Deformaçãoestrutural Aestruturadebetãoarmadoqueexecutaagaleriainteriorapresenta‐sevisivelmentedeformadana zonasuldoedifício(zonasassinaladasavermelhonaplantadaFigura4.30),emtodaaáreaquese encontraatualmenteescorada.Apresentam‐senaFigura4.31enaFigura4.32algumasimagensonde épossívelobservarasdeformaçõesreferidas.Verifica‐seaindaadeformaçãodapassagemcentralque fazaligaçãoentreasduascaixasdeescadas(Figura4.30eFigura4.33),ondeépossívelobservaro elevadodeslocamentorelativoentreapassagemcentraleagaleria(verFigura4.33).
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.26 Figura4.30–Plantadonível1comindicaçãoavermelhodaszonasondeseverificamdeformaçõesestruturais doselementosdebetãoarmado. Figura4.31–DeformaçãoestruturaldagaleriainteriornazonasuldoMercado. Figura4.32–Deformaçãoestruturaldagaleria interiornazonasuldoMercado. Figura4.33–Deslocamentorelativonaligaçãodo passadiçocentralàgaleria. N
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.27 Aocorrênciadestasdeformaçõesestarárelacionadacomassentamentosaoníveldasfundações,tal comojáreferido.Estesassentamentoseassuascausassãodetalhadasnorelatóriogeotécnicoque integrouorelatóriodoIC‐FEUP(Costaetal.,2009)equereferequetodaazonaSuldoedifícioestará fundadaemzonadeaterrocomcercade15m.Deacordocomoanteriormentetranscrito,estes assentamentosnãosãorecenteseterãosidoosprincipaisimpulsionadoresdoreforçodasfundações dospilaresmetálicosdesuportedagaleriainterior,bemcomo,numafasemaisrecente,do escoramentoqueatualmenteseencontrainstaladoemtodaazonadeformada. 4.5.3 Humidade Apesardenãosetratardeumdanoestrutural,reporta‐seapresençadediversosfocosdehumidade noselementosdebetãoarmadodaestruturaumavezqueasuapresençainduz,amédioprazo,uma debilidadematerial,comimplicaçõesnoseufuncionamentoestrutural.Defacto,apresençade humidadeemelementosdebetãoarmadoéaprincipalcausadadelaminaçãodobetãoassociadaà corrosãodearmaduras.Aszonasmaisafetadaspelapresençadehumidadesãoaszonasdasgalerias (Figura4.34),doantigomatadouro(Figura4.35)eaindaazonadagaleriasobaRuadeSádaBandeira (Figura4.36). Figura4.34–Presençadehumidadenaparteinferiordagaleria. Figura4.35–Presençadehumidadenazonado antigomatadouro. Figura4.36–Presençadehumidadenagaleria sobaRuadeSádaBandeira.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.34 4.6.5 Avaliaçãodaclasseresistentedobetão Deformaaavaliarahomogeneidadedobetãoutilizadonomercadoe,decertaforma,validarovalor daresistênciaàcompressãodobetãoobtidonosensaiosdoInstitutodeCiênciasdelaConstruccion EduardoTorroja(Luxanetal.1997),foramefetuadosensaiosinsitucomesclerómetrodeSchmidt. Esteensaiomedeadurezasuperficialapartirdorecuodumamassaincidenteapósochoquecoma superfícieaensaiar(Figura4.44a),durezaessaquepodeserconvertidanumvaloraproximadoda resistênciaàcompressãodobetão.Oensaiodeveserefetuadosobresuperfíciesdebetão homogéneasdasquaisdeveserremovidaacamadasuperficialcarbonatadaatravésdaraspagemda mesma(Figura4.44b). a)b) Figura4.44–EnsaiocomoesclerómetrodeSchmidt Foramensaiadosvárioselementosescolhidosaleatoriamente,salientando‐sequealgunsdosvalores obtidoscomoesclerómetroultrapassaramolimitesuperiorindicadonascurvasdecalibração.Dado queosdiferentesresultadosobtidosnãomostraramterdispersãosignificativa,estesensaios permitiramconfirmarahomogeneidadeequalidadedobetãoutilizadoemobra.Atítuloilustrativo, apenasseapresentamaquiosresultadosdedoispilareseumavigalocalizadosnaproximidadedas zonasdeextraçãodecarotes.EstesresultadossãoapresentadosnoQuadro4.Iemostramser compatíveiscomoqueseriaexpectávelparaaclassedebetãoidentificadapeloInstitutoEduardo Torroja(Luxanetal.1997).Dadoqueoresultadoobtidoatravésdosensaiosdascarotesémaisfiável, considerou‐seovalordaresistênciaàcompressãodobetãode33MPaobtidoatravésdosensaiosdas carotespeloestudodoInstitutoEduardoTorroja.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.35 Quadro4.I–Valoresderesistênciaàcompressãodobetãonosdiferenteslocaisdeensaio(MPa). Valorescorrigidos PilaresVigas E1PE2PE1V 43.5639.0944.26 Média 41.3344.26 4.6.6 Determinaçãodaprofundidadedecarbonatação Paraacaracterizaçãodoestadodeconservaçãodobetãoefetuou‐seadeterminaçãodaprofundidade decarbonataçãoatravésdotestecomoindicadorquímicodefenolftaleína.Ocontactodeuma superfíciedebetão,imediatamenteapósasuafraturaoupicagem,comumasoluçãodefenolftaleína produzumacoloraçãorosafortecasoobetãonãoestejacarbonatado.Emcasocontrário,nãose obtémqualquercoloraçãonobetãonocontactocomafenolftaleína,traduzidopeladiminuição gradualdovalordopHdobetão. AdiminuiçãodopHdobetãoconduzàdestruiçãodapelícula“passivante”queprotegeasarmaduras ecomeçaassimareaçãoeletroquímicaquedáorigemàoxidaçãodoaço.QuantomaisbaixoforopH, maisaltaéaintensidadedacorrentee,consequentemente,maioréavelocidadedecorrosão.Este processocaracteriza‐sepelaexistênciadeumafrentedecarbonatação,traduzindoareaçãonuma certafaixadeprofundidadedependendodadisponibilidadededióxidodecarbono.Afrenteavança doexteriorparaointeriordobetãoeseparaduaszonasdepHbastantediferentes:umacompH inferiora9(carbonatada)eoutracompHsuperiora12(nãocarbonatada)ondeasarmaduras continuam“passivadas”. Aarmadura,quandoenvolvidaporbetãocarbonatado,podesofrercorrosãocomoseestivesse expostaàatmosfera,i.e.encontra‐sesemqualquertipodeproteção,comaagravantedenointerior dobetãoaarmadurapoderestarsujeitaàpresençadehumidadeporperíodosdetempobastante superiores.Acarbonataçãoéinevitável,apesardoseuavançosermaislentoembetõesmaisdensos, amenosquealgumaproteçãosejaaplicadademodoaimpediroacessododióxidodecarbono.A frentedecarbonataçãopoderáatingirvárioscentímetrosdeprofundidadenosprimeirosanosapósa execuçãodeumelementoembetão,progredindoposteriormentemaislentamente,jáqueos primeiroscarbonatosformadostravamadifusãododióxidodecarbono. Foramefetuadosensaiosinsitucomoindicadorquímicodefenolftaleínaemvigasdoedifícioem estudo.NaFigura4.45épossívelverificarosregistosfotográficosdealgunsdoslocaisondeforam realizadososensaios.Comoépossívelobservarnasfiguras,oselementosestruturaisensaiados
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.36 apresentamprofundidadesdecarbonataçãoinferioresa1cm,factoquesepodeconsiderarnotável faceàidadedobetãoeàsuaexposiçãoaosagentesatmosféricos. Figura4.45–Exemplosdotestecomoindicadorquímicodefenolftaleína. 4.7 AvaliaçãoEstrutural Apresentesecçãoabordaaquestãodaavaliaçãodascondiçõesdeestabilidadeesegurançados elementosestruturaisdoMercadodoBolhãoquesuscitarammaiorpreocupaçãoapósaanáliseda informaçãoobtidacomainspeçãoestrutural.Nesteâmbitofoianalisadaaestruturadebetãoarmado dagaleria,incluindo‐seaslajesevigas,bemcomoospilaresdeferrofundidodeapoio.Atendendoao contextodopresentecapítulo,apenasseabordamemseguidaasquestõesrelacionadascomaanálise desegurançadoreferidopavimentoembetãoarmado. Considerandoqueumaanálisesimplificadaeconservativadocomportamentodopavimentonãoiria garantiraobtençãoderesultadosfiáveisnoquerespeitaàavaliaçãodasuasegurançaestrutural, optou‐se,numaprimeiraabordagem,porconstruirummodelonuméricodomesmo,demodoapoder estabelecerumaestimativadacargamáximaadmissívelnopavimentobemcomodasuadeformação vertical.Nãosendoobjetodopresentetrabalhoadiscussãodosaspetosmaisrelacionadoscomas opçõestomadasnaconstruçãodoreferidomodelonumérico,salienta‐senoentantoqueexistia algumaincertezanadefiniçãodealgumascaracterísticasfundamentaisdemodoapodersimularo comportamentodopavimentodaformamaisrealistapossível.Porexemplo,nãofoipossíveldefinir
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.37 deformaobjetivaqualarealespessuraresistentedalaje,bemcomoacontribuiçãodoreticuladode vigasparaaresistênciaeparaarigidezdessamesmalaje(Costaetal.,2009).Alémdisso,salienta‐se aindaque,apesardasdiferentesopçõesquepodemsertomadasemtermosdemodelaçãonumérica, haverásempredificuldadesemrepresentarváriosfatorescujainfluêncianãopodeserdesprezada nestetipodeestruturasmaisantigas,comoporexemplooenvelhecimentoeadegradaçãomaterial ouaexistênciadedeformaçõesjáinstaladasnaestrutura.Apesardomodelonuméricoterpermitido obterumaleituraparcialdocomportamentoesperadodopavimento,ecomumaaproximação razoávelemcertoscasos,osresultadosobtidoscomasuautilizaçãonãoforamsuficientespara concluiracercadasuasegurançaestrutural.Assim,nasequênciadestaanálisenumérica,foiefetuado umconjuntodeensaiosdecargaquepermitiramestabelecercommaiorfiabilidadearesistênciado pavimentoparaumpatamardecargamáximaestabelecidaeacorrespondentedeformaçãovertical dopavimento. Osensaiosdecargaforamrealizadosemtrêslocaisdistintosdagaleria(piso1)etiveramporobjetivo avaliararespostaestruturalfaceacarregamentosestáticoscrescentesatéatingirumvalorde sobrecargapróximodoprevistonaregulamentação(RSAEEP,1983).TalcomoseilustranaFigura4.46, oslocaisescolhidoscorrespondemadoissectoresdaalaPoentedagaleria(umaSuleoutroaNorte‐ LocaisAeBrespetivamente)enointeriordeumalojadopiso1naalaNascente(localC). a) b) c) Figura4.46‐Locaisdeensaiodopavimentodopiso1:a)Implantaçãogeral;Esquemasestruturaisb)doslocais AeB(nagaleria)ec)dolocalC(lojanaalaNascente) Local A Local B Local C N CP 099. 23CP 099.3 3CP 099. 26CP 099. 28CP 099.2 8CP 099.31CP 099.34CP 099.32CP 099.3 0CP 099.34CP 099. 34CP 099.2 8 CP 099.2 6 CP 099.2 8 CP 099.2 2 CP 099.2 7 CP 099.1 9 CP 099. 18CP 099.23CP 099.20CP 099. 16CP 099.1 6CP 099.21CP 099.19CP 099.21CP 09 9.25CP 099. 26CP 099.21 CP 099.23 CP 096.3 2 CP 096.6 3 CP 096 .92 CP 097.16 CP 097 .69 CP 097. 90 CP 098.3 8 CP 098.7 3 CP 098.90 CP 099.10 CP 099.29 CP 099.36 CP 099.53CP 098. 95CP 098.42CP 097.02CP 097.5 2CP 097.28CP 097.03C P 096.63CP 096. 44CP 096.17CP 099. 20
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.38 Emboraoobjetivoidealdosensaiospassassepelaavaliaçãodarespostaglobaldecadaumdoslocais comoumtodo,limitaçõesdematerializaçãodecargaededisposiçãodamesmaobrigaramaque fossemfeitasavaliaçõesparciaisdopaineldelajeedasvigasemcondiçõesmaisdesfavoráveis.Além disso,oplanodeensaiosinicialmenteprevistotambémfoisendoajustadoàmedidaquesefoi conhecendoarespostadopavimentoemtermosdasuadeformação.Defacto,osreduzidosníveisde deslocamentosregistados,bemcomoaslimitaçõestemporaisedecustosdaestruturaprovisóriade apoioaoensaio,levaramaqueonúmerodeensaiosselimitasseaquatro. Osensaiosdecargaforamrealizadosatravésdecarregamentosdereservatórioscúbicossobreasáreas aensaiarcomredehidráulicaentresiqueforamsendoprogressivamentecheioscomáguaquefoi sendomedidacomumcaudalímetro.Paramedirosdeslocamentosverticaisforamutilizados transdutoresdedeslocamentodevaretadotipoLVDT(LinearVariableDisplacementTransformer)e outrosdefiodotipopotenciómetroelétrico,colocadossobopavimento(nosensaiosdagaleria)e sobreomesmoparaoensaionaloja.Oscarregamentosforam,deformageral,efetuadosem patamaresdecercade100kg/m2,sendoasuadescargafeitaempatamaresdecercade150kg/m2.Os sucessivoscarregamentosforamfeitossomenteapósaestabilizaçãodasleiturasdostransdutoreseo níveldecargamáximovariouparaosdiferentesensaios.Nãofoiconsideradoopesodosreservatórios vaziosnemdasplataformaseestruturametálicaondeestesestavamapoiadas,admitindo‐seassim queestacargafariapartedopesoprópriodaestrutura,umavezqueasdeformaçõescorrespondentes estavamjácontabilizadasnasleiturasiniciais.Relativamenteaosefeitosdatemperaturanos resultados,háasalientarqueasvariaçõestérmicasnãoforamtaisquelevassemaalterações significativasdosresultados.DaFigura4.47àFigura4.54ilustram‐sediferentesfasesdoensaiocomo sistemadereservatóriosadotadoeaestruturametálicadeesperasobopavimento,coma instrumentaçãodemediçãodedeslocamentosinstalada. Figura4.47–Transdutoresdedeslocamento.Figura4.48–Enchimentodosreservatóriosno ensaio1nolocalA.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.39 Figura4.49–Enchimentodereservatóriosnoensaio2 nolocalA. Figura4.50–Suportesdostransdutores. Figura4.51–Enchimentodereservatóriosnoensaio3 nolocalB. Figura4.52–Disposiçãodosreservatóriosno ensaio4nolocalC. Figura4.53–Escoramentodeespera.Figura4.54–Aquisiçãodedados.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.40 Demodoasintetizarosresultadosobtidosdosensaiosdecarga,refere‐seque,comaexceçãodo ensaio4,todososensaiosatingiramumníveldecargasemelhanteousuperioràsobrecarga regulamentar(4kN/m2,segundooRSAEP,1983),tendo‐seobtidorespostasessencialmenteemregime linearelásticocomvaloresdedeslocamentoextremamentebaixos,mesmonocontextoda regulamentaçãoatual.Apesardasdificuldadestécnicasqueocorreramduranteoensaio4eque impediramquefosseatingidooníveldecargapretendido,arespostaestruturalobtidapermiteno entantoconcluirqueosdeslocamentossãobastantebaixose,portanto,queasegurançaestá igualmenteasseguradaparaoníveldecargaregulamentar.OQuadro4.IIapresentaumasíntesedos resultadosdosensaioscombasenosquaisseconfirmaareservaderesistênciadaestruturadebetão armadoquepermiteconcluirqueserápossívelmanteroselementosdebetãoarmadocomgarantias debomdesempenhoestruturalnofuturo,desdequeseprocedaàrealizaçãodemedidasde reabilitaçãodaestrutura.Apesardesteresultado,sãodesalientarasdificuldades,quertécnicas,quer conceptuais,quesurgemduranteaavaliaçãodasegurançaestruturaldestetipodeestruturaseque poderãocondicionarasuasobrevivência. Quadro4.II–Resultadosdosensaiosdecarga. EnsaioElementoestruturalFlecha (mm) Carga máxima 1PaineldelajeL10.113530kg/m2 2VigaV20.7101100kg/m 3VigaV20.432950kg/m 4PaineldelajeL1‐315kg/m2 4VigaV160.118360kg/m 4.8 Notasfinais Emboramantendoafunçãoparaaqualfoiprojetado,temsidonotóriaadiminuiçãodaimportância doMercadodoBolhãocomomercadocentraldefrescosdoPortonosúltimosanos,reflexodasua inadaptaçãoaosnovoshábitossociaisdecompra,àstécnicasmodernasdecomercializaçãoeàs maioresexigênciasderigorsanitárioedeconforto.Aestesaspetosjuntam‐seaindaoscontínuos problemasdeestabilidadeestrutural,emparticulardaalasul,eafaltademanutençãopreventivaque oconduziramàinevitáveldegradaçãomateriale,naturalmente,estrutural.Apesardesteestadogeral dedegradaçãoque,decertaforma,envelheceoedifícioelhetiradignidade,oconhecimento adquiridonotrabalhodeinspeçãoediagnósticoefetuadopermitedizerqueoedifíciodoMercadodo Bolhãoseencontra,deformageral,emrazoáveiscondiçõesdopontodevistaestrutural,devendo,no entanto,seralvoderequalificaçãoacurtoprazo.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.41 Comojáreferido,ograndedesafiodareabilitaçãodaestruturadoMercadodoBolhão,assimcomoo deoutrasinúmerasconstruçõesdebetãoarmadodoiníciodoséculoXX,égarantirasuasegurança estruturalsemasdescaraterizar.ComoseviunoCapítulo2,odesafiodareabilitaçãodestesedifícios paraapreservaçãodasuaautenticidadepassarámaispelamanutençãodassuasfunçõessociais associadasaosavançostecnológicosdaépoca,doquepelamanutençãodemateriaiseprocessos construtivosoupelaimportânciadapátina.Assim,nareabilitaçãodesteedifício,surgemduasgrandes questões:anecessidadedeconheceroqueestáefetivamenteconstruídoanívelestruturalparase conseguirgarantirasegurançadepessoasebens,muitasvezesfortementecondicionadapelaescassez deregistosdaépoca,eanecessidadedemanteraformacomoequilíbriodesecçõesevãosque caracterizamestetipodeconstruçãodecarizeminentementeexperimentalista,eparaoqualoseu envelhecimentonãofazpartedamemória. AsaçõesdeinspeçãoediagnósticoestruturallevadasacabopeloIC‐FEUPnoedifíciodoMercadodo BolhãoseguiramorecomendadopelaCartadeCracóvia(2000)epelasRecomendaçõesparaaAnálise, ConservaçãoeRestauroEstruturaldoPatrimónioArquitetónico(ISCARSAH,2003).Esteconhecimento científicoobtidopelorigordoslevantamentosepeladeterminaçãodascaracterísticasmecânicasdos materiaispermitem,nomínimo,uma“reconstrução”daslinhasgeraisdoprojetodeestruturasinicial, sendoesteumconhecimentopreciosoparaumaabordagemeficazàavaliaçãodasegurançadas estruturas.Ofactoéquesemconhecimentodoqueestáefetivamenteconstruídoeseminformação acercadascaracterísticasdosmateriaisnãoépossívelavaliarocomportamentoestruturalatravésdos modelosdecálculoatuais.Semessesdados,asabordagenspossíveisserãonecessariamentemais conservativase,comotal,potencialmentepenalizadorasparaaestrutura.Qualquerintervenção baseadanumaabordagemsemqualquertipodeinformaçãosobreaestruturalevaráinevitavelmente asoluçõesextremamenteintrusivasanívelestruturalepoderálevaraalteraçõesdassecçõese, eventualmente,daformadoselementosestruturais,modificandoportantoasproporções arquitetónicase,consequentemente,aimagemdoedifícioqueseconsideraumdosvaloresa preservar.Salienta‐se,noentanto,queapesardeconceptualmenteserpossívelobterototal conhecimentotécnicoecientíficodasconstruçõesatravésdosprocessosdeinspeçãoestrutural,em algunscasos,oconhecimentoobtidopoderánãosersuficientementecompletoamenosqueseopte porabordagensmaisintrusivas(e.g.sondagensdestrutivas),contrariandoassimoobjetivoinicialque consisteempreservaressamesmaconstrução. OMercadodoBolhãoéumcasoemquenãofoipossívelencontraremarquivonenhumainformação deprojetorelativaàestruturaportante.Relembra‐seque,nestaépoca,osante‐projetosapenas definiamotipodeedifíciopretendidoeosmateriais,sendoasoluçãoestruturaldaresponsabilidade doconstrutorqueescolhiaumsistemaestruturalpatenteadoefaziaasuaencomenda.Nestetipode casos,ainspeçãoestruturaléumelementofundamentalparapoderrealizarumaprimeiraanáliseda segurançaestruturalcombasenaqualsedeveráavaliarqueabordagensadicionaispoderãoser necessáriasparadefinirdeformaobjetivaessasegurança.Emmuitoscasos,querpelacomplexidade daestrutura,pelaescassezdeinformaçãonecessáriaparaconstruirummodelonuméricofiávelda
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 4.42 estrutura,oupeladificuldadeemsimulardeterminadascaracterísticasdaestruturaexistente(e.g.a degradaçãomaterialoudeformaçõespré‐existentes),aanálisedasegurançapoderáserapenas possívelcomrecursoaensaiosdecarga,talcomoaconteceunocasodoMercadodoBolhão.Nestes casos,importaigualmentesalientaraimportânciaqueamonitorizaçãodasestruturaspodeterna medidaemquepodefornecerinformaçãoqueajudeacompreenderocomportamentoestruturalde construçõescomplexasepodefundamentarosresultadosdumaanálisedasegurançaparauma construçãoemquenãosejapossívelrealizarensaiosdecarga. AdiscussãodareabilitaçãodosedifíciosdoiníciodoséculoXXnãopode,naturalmente,limitar‐seà questãodaestabilidadeestruturaldevendoenvolvernovosconceitosdeconservaçãoerestauroque terãodeseradaptadosaestesnovospatrimónios.Comoanteriormentereferido,paraalémdos valoresestéticosehistórico‐documental,outrosvalorestaiscomoovaloreconómico,ovalorfuncional eovalorafetivoterãotambémdesertidosemconta(Zancheti,2014). TambémcomojáreferidonoCapítulo3,obetãoarmadodestaépocanãopodeserreabilitadocomos materiaisiniciaisnemcomastécnicasoriginais,obrigandoaqueasnovasintervençõessobreestas estruturasexerçamumimportanteexercíciodecompatibilidademecânicaequímicaentremateriais. Apósoseuinício,acorrosãodasarmadurasdificilmenteétravadaeacompatibilidadequímicaentre, porexemplo,inibidoresdecorrosãoeobetãooriginalédifícildepreveretestaremtempoútil.A questãodadurabilidadedaintervençãoterádesercolocadae,inevitavelmente,associadaaocustoda obra,aoprazodaobra,àdurabilidadepretendidaparaaobraeàexistênciademanutenção preventiva.FaceàescassezdeobrasdereabilitaçãonasestruturasdebetãodoiníciodoXXeàfalta deretornodaexperiênciaadquiridaemalgumasobrasexecutadas,oconhecimentotécnicoaindanão estáconsolidado.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.1 Capítulo5 Casodeestudo2–FachadasdoTeatroNacionalSãoJoão 5.1 Introdução Oplaneamentodeintervençõesdereabilitaçãoempatrimónioculturallevantaalgumasquestõesque têmdeseratendidasemfasepréviaparaque,emobraesobpressão,nãosesejaconduzidoa implementarsoluçõesmenosrespeitosasdopatrimónio.Àsquestõesdeintervençãomínima, autenticidade,valoresignificadoculturalpodemopor‐sequestõesdesegurança,durabilidadeda intervenção,cumprimentodosprazosedocustodaobra.Demodoapesardeformamaisobjetiva esteseoutrosparâmetrosquedevemserconsideradosnumaintervençãoempatrimóniocultural,o presentecapítulodiscuteocasoparticulardaobradereabilitaçãodasfachadasdoTeatroNacionalde SãoJoão(TNSJ),edifíciodoiníciodoséculoXXclassificadocomoMonumentoNacionalemjulhode 2012,paraaqualfoipropostoumíndicedeclassificaçãodaintervençãoparaoselementosescultóricos edecorativosexecutadosemargamassadecimentoarmado.Esteíndicecombinaosdiferentesfatores relevantesparaestaintervençãoefuncionoucomoumelementoauxiliarparaatomadadedecisão. Ocasodeestudoqueaseguirseapresentarefere‐seàobradereabilitaçãodasfachadasdoTNSJmas centra‐sesobretudonaintervençãodeconsolidaçãodoselementosescultóricosedecorativosem cimentoarmadoqueasornamentam,sendoquegrandepartedesseselementostêmaautoriade importantesescultoresdacidade. 5.2 OTeatroNacionalSãoJoão OedifíciodoTNSJnoPortofoiinauguradoem1920apósoanteriorteatro,daautoriadeVicenzo Mazzoneschielocalizadonomesmosítio,tersidoreduzidoacinzasnumincêndioqueocorreunanoite de11para12deAbrilnoanode1908.OatualedifíciodoTNSJestáclassificadocomoMonumento NacionaleédaautoriadoArquitetoJoséMarquesdaSilva(1869‐1947),ilustrearquitetoportuense comformaçãonaÉcoleNationaleSupérieuredesBeaux‐ArtsemParisquemarcoudefinitivamenteo urbanismoeafacedacidadedoPorto.Terãosidoospadrõesitalianosefrancesesainspirarasalade espetáculos(dispostaemformadeferradura)eadecoraçãodasfachadasexterioresedosavant‐foyer efoyer,daautoriadosescultoresportuensesHenriqueAraújoMoreira(1890‐1979)(UP,2015a),Diogo deMacedo(1889‐1959)(UP,2015b)eJoséFernandesdeSousaCaldas(1894‐1965)(UP,2015c).Diogo deMacedo,consideradocomoumdosmaisimportantesescultoresdaprimeirageraçãodeartistas
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.8 5.3.2 Danosnasfachadas Paraalémdosdanosnoselementosdecorativosqueforamsendoreferidosaolongodasuadescrição nopontoanterior,foramaindaobservadosoutrostiposdedanonasfachadasdoTNSJ.Assim,serão abordadosnestepontoosdiversosdanosregistadosnasfachadas,dando‐seespecialênfaseaosdanos noselementosdecorativosporseremosquesuscitarammaiorpreocupaçãodeintervenção.O levantamentogeraldosdanosfoifeitoemduasfases:em2010,semlimpezadasfachadas,durante umaavaliaçãovisualdaqualresultouorelatóriodoIC‐FEUP(CostaePaupério,2010)e, posteriormente,noiníciodaobraem2013,numaavaliaçãoemqueaequipadeconservaçãoe restauroregistoucomrigoroestadodealgunsdoselementosescultóricosapósaprimeiralimpeza geraldasfachadaseaaplicaçãodebiocida. OsdanosregistadosnasfachadasdoTNSJem2010peloIC‐FEUPforamentãoosseguintes: A.DanosEstruturais Fissuraçãoassociadaamovimentosestruturaisnaalvenaria. B.Danosnoselementosdecorativos: Lacunascomperdadematerial; Fissuração/fraturaemelementosdecorativos; Destacamentodematerial; Carbonataçãoedelaminaçãodeargamassas; Corrosãodeelementosmetálicos; Colonizaçãoedepósitosbiológicos(guano); Plaquetas,filmesoucrostasnegras. C.Danosemrebocosexteriores: Fissuraçãoderetraçãonasargamassas; Colonizaçãobiológica; Plaquetas,filmesoucrostasnegras. ParacadatipodedanoA,BeCserãoapresentadasemseguidaalgumasconsiderações,comoasua descrição,aidentificaçãodepotenciaiscausasparaasuaocorrênciaealgumasrecomendações. A.DanosEstruturais Afissuraçãoassociadaaosdanosestruturaiscaracteriza‐seporserumafissuraçãoverticallocalizada nosalçadosNascenteePoentedoedifício,sobretudonasextremidadesdoedifício.Estafissuração estáassociadaàtransiçãodezonasmaisrígidasparazonasmenosrígidasdoedifício,funcionando assimcomojuntasdedilataçãodoedifícioenãoinspirando,nestescasos,grandescuidados.NaFigura 5.22apresenta‐sealocalizaçãodasduaszonasdefissuraçãoestruturalequeésimétricanosdois alçados.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.9 Figura5.22–AlçadoNascente:Localizaçãodefissuraçãoestrutural. B.Danosassociadosaoselementosdecorativos: Apesardeseobservaremquasetodososelementosdecorativosfissurasemesmojáfraturascom destacamentodematerial,oestadogeraldasargamassasqueexecutamoselementosdecorativos nãofoiconsideradoparticularmentepreocupantenaszonasondenãoexistiamarmaduras.Alguns elementosqueseencontrammenosexpostos(Figura5.23eFigura5.24)apresentavamumrazoável estadodeconservação,enquantonoutrosjáexistiampedaçosdeargamassacompletamentesoltose prestesacairnaviapública(Figura5.25).Noentanto,mesmonaproximidadedelocaisondea argamassaapresentavaalgumadegradação,foramefetuadosensaioscomindicadorquímicode fenolftaleínatendo‐seobtidoumaprofundidadedecarbonataçãopraticamentenula. Figura5.23–Bandadeelementosdecorativosemzona menosexpostaecomaparentebomestadode conservação. Figura5.24–Toqueparaprimeiraanálisedo estadodasargamassas.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.10 Figura5.25–Fraturaedestacamentodoselementosdecorativos. Apresentar‐se‐ãoseguidamentedaFigura5.26àFigura5.34fotografiasilustrativasdosdanos observadosnoselementosdecorativosdeacordocomalistagemdedanosanteriormenteenunciada, sendoaslegendasdessasfigurasexplicativasdosdanosvisualizados. Figura5.26–Corrosãodearmadurasedestacamentodacamadaderecobrimento. Figura5.27–Destacamentodacamadade argamassaecorrosãodearmaduraembeiral. Figura5.28–Pormenordearmadurasdobeirale presençademusgos.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.11 Figura5.29–Destacamentodeargamassafissuradacomauxíliodeespátula.Carbonataçãodasargamassase corrosãodearmaduras. Figura5.30–Depósitosdeguano.Figura5.31‐Depósitosdeguano. Figura5.32–Fissuraçãoedestacamentodeargamassasporcorrosãodearmaduras.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.12 Figura5.33–Fissuraçãoedestacamentodeargamassasporcorrosãodearmadurasemelementosfigurativos (caras). Figura5.34–Fissuração/fraturanoselementosdecorativosvegetalistas. Comoexemplodoestadodasargamassasnumelementodecorativoemqueafissuraçãonão aparentavagrandeexpressãomasondeaargamassasedestacounoimediatocomamãoesem esforço,apresenta‐sedeformasequencialnaFigura5.35essadelaminaçãojuntoaumafissura localizadanonarizdeumelementoescultórico.Nesteselementos,emqueoconceitodeautenticidade eamãodoartistasãofundamentais,adegradaçãomaterialémuitopreocupante,salientando‐seque, nestescasos,apátinaésinaldemaudesempenhodomaterialnãopodendo,naturalmente,ser valorizada.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.13 Figura5.35–Delaminaçãodeargamassasporcorrosãodearmaduras. Atítuloilustrativo,apresenta‐senaFigura5.36olevantamentodedanosfeitopelaequipade conservaçãoerestauroparaumdoselementosdecorativosapósaprimeiralimpezageraldasfachadas eaaplicaçãodebiocida. Figura5.36–Levantamentodedanosemelementoescultóricoapósaprimeiralimpezageraldasfachadasea aplicaçãodebiocidaexecutadopelaempresaCaCO3. 5.4 Metodologiadeintervenção Demodoaauxiliaroprocessodedecisãoacercadotipodeintervençãoaexecutarnaconsolidaçãode umdeterminadoelementodecorativo,foinecessárioefetuarumaponderaçãoadequadadosdiversos fatoresqueintervieramnessadecisão.Adiversidadedetiposdeelementosdecorativos,adiversidade dosdanos,odiferentegraudedegradação,adiversidadedosprocessosconstrutivos,adificuldadede umaobservaçãocontínuadasfachadas,apreocupaçãocomaquedadeelementosdafachadaeda consequentesegurançadostranseuntesnaviapública,arepetibilidadeouocarácterexclusivodeum elementoforamfatoresqueinfluenciaramatomadadedecisãoacercadotipodeintervençãoa efetuaremcadaumdesteselementos.Deformaacontribuirparaoprocessodedecisãoacercadessas 4 fissura colonização biológica depósito de sujidade levemente concrecionado crosta negra empolamento desagregação granular delaminação por corrosão lacuna lacuna com armadura visível plaquetas associadas a desagregação granular placas plantas superiores eflorescência armadura visível sem dano aparente
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.14 intervenções,foidesenvolvidoumíndicequeponderavaosdiferentesfatoresqueinfluenciama definiçãodaintervenção.Salienta‐sequeanecessidadedeterumíndicequeavaliassedeigualforma osdiferentesfatoreseparâmetrosqueinfluenciamadecisãodeintervençãosurgiujánodecorrerda obra,tornando‐seesteíndicenumimportanteinstrumentodeapoioàengenharia. Paraadefiniçãoeodesenvolvimentodesteíndicefoifundamentalobterumbomconhecimentodos elementosaintervir,bemcomodoseuprocessoconstrutivo.Assim,apósalimpezadasfachadaseda aplicaçãodebiocida,foipossívelrealizarumaavaliaçãomaisrigorosadoestadodasfachadaseem particulardoselementosdecorativos.Nestaavaliação,foramanalisadasasdiferençasdasargamassas dosdiversoselementosdecorativos(Velosa,2013)efoifeitaapossívelcaracterizaçãoconstrutiva. Refere‐se,noentanto,que,emalgunscasos,acaracterizaçãodoprocessoconstrutivonãofoiunânime entreoselementosdaequipadaáreadaengenhariaeosdaáreadaconservaçãoerestauro. Foiconstatado,jáemfasedeobra,quealgumasdasargamassasrecolhidasnainspeçãoefetuadapelo IC‐FEUP(CostaePaupério,2010)eanalisadaspelaUniversidadedeAveiro(VelosaeRocha,2010)não correspondiamàsargamassasoriginais,massimaargamassasderestaurodeumaépocanãodatada àsquaisforamadicionadosvarõesmetálicos,possivelmentenumatentativadereforçaroselementos decorativosemelhoraraaderênciaentreasdiferentesargamassas.Umadascarrancaslateraisquese encontravaemmuitomauestado,equefoiutilizadanestaobraderestaurodasfachadascomo“área laboratorial”paraummelhorconhecimentodoexecutado,mostrouteralgunsempastelamentosde argamassasquealteraramasuaexpressãofacialinicial(Figura5.37aFigura5.39).Nestacarranca foramextraídasduascarotesdediâmetroØ50:umanafaceenosentidotransversalàfachada(Figura 5.39),eaoutraverticalsobreacabeçajuntoàparededesuporteparaseaferirafixaçãodoelemento escultóricoaosuporte.Aobservaçãodaslacunasprovocadaspelosdanoseassondagensexecutadas permitiramconfirmarque:oselementosdecorativosdemaiordimensãosãomaciçoscontrariamente aoqueseesperava;ascarrancaslateraisforamexecutadasnolocaleencontram‐sefixasaosuporte atravésdeumavigadebetãoarmadoqueseencontraexecutadaaoníveldatestadoselementos;não existemarmadurasnointeriordascarrancastendo‐seconcluídoqueasarmadurasexistentesnazona superiordacabeçaresultaramdeumaaçãodeintervençãoanteriornãoregistadaenãodatada. Figura5.37–Sondagemque mostraoempastelamentode argamassasobreatesta. Figura5.38–Pormenorda sondagem. Figura5.39–Extraçãodecarote naface.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.15 Adicionalmente,foitambémextraídaumacarotedediâmetroØ50transversalmenteàesculturaÓdio dofrisodafachadaprincipalquepermitiuobservarqueaargamassaqueaexecutaébastante compactacomagregadosmuitofinos(Figura5.40).Quasenoalinhamentodaestátuacomosuporte, verificou‐sequeestapossuioqueaparentaserumaplacademadeiracomumarametorcidode fixaçãoaosuporte.Foramfeitasváriasinterpretaçõessobreoquefoireveladopelaextraçãodesta carote,nãotendonoentantoficadoclaraaformadeexecuçãodaesculturaedasuacolocaçãono local.Prevaleceadúvidasobreseestaterásidoexecutadaematelier,posteriormentefixaaosuporte poraramestorcidossendodepoisrematadaazonadeentregadaestátuaàparedecomargamassade cimentoouse,pelocontrário,estepaineldemadeirasegurariaomoldeinsituondeaestátuafoi preenchidacomargamassa.Refere‐seaindaque,nasestátuasdofrisodafachadaprincipal,épossível observaraexistênciadejuntasdetrabalhohorizontaiseverticaisequenãoépossíveldetetar,pela observaçãodoaspetofinaldasesculturasedacaroteextraída,qualquerestratigrafianosagregados daargamassaquepermitamentenderdireçõesdeenchimentodeeventuaismoldes.Naszonasde junta,existemtambémalgunsaramesmetálicosdotipogrampoquepoderiamservirparafixar possíveisdiferentesmoldesdeummesmoelemento. Figura5.40–SondagemnaimagemÓdio:a)extraçãodacarote;b)vistaapósalimpezadajuntadeexecução dapeça;c)caroteextraídacomdireçãodaextração. Jánocasodeelementosdemenoresdimensões,identificaram‐seosqueclaramenteforammodelados nolocal(elementospoucosalientes)eosqueforamexecutadoscommoldeematelieredepoisfixos aosuporteatravésdevarõesmetálicos,comoéocasodasrosasdasgrinaldasquesãofixascomum varãonoolhodecadaflor.Refere‐seaindaqueoselementosdecorativosemformaovalqueencimam
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.16 afachadaprincipalsãoocos,oquepressupõeuma“pré‐fabricação”eposteriorcolocaçãoinsitu. Tambémabandavegetalistaqueencimaocorpodateiaaparentatersidoexecutadaemateliere colocadaposteriormenteemobra,poisnoslocaisondeseobservaalgummovimentodestes elementos,esteédedestacamentoparaforadoseuplanocomaaberturadeumafissuraentreo suporteeoelementodecorativonazonasuperior.Nesteelementofoiaindapossívelidentificar algumasjuntasmodelaresdofrisodecorativo. Nocasodosvasosdecorativos(Figura5.41)queencimamafachadaprincipal(elementodecorativo2), osistemaconstrutivoconsisteemtrêspilaresinclinadosparaforaemquedoisdelesseapoiamsobre aparedeestruturaldafachadaeoterceiroseapoiasobreumcachorrosituadoaonívelinteriordo terraço(Figura5.42).Ostrêspilaresrecebemumavigacircularaoníveldomaiordiâmetrodovaso.Na zonacentraldovasoexisteumvarãometálicoverticaldediâmetroØ40queestácravadonaparede degranito(Figura5.43).Ospilaressãoexecutadoscomquatrovarõeslongitudinaisexistindoumarede degalinheiroaexecutaroperímetrointeriordestesvarõesequeseencontraamarradaaestespor arames.Porvezesaparecemaindaunsestribosespaçadoscomdistânciasvariáveisqueexecutamo perímetroexteriordosvarõeslongitudinais.Ovasoétambémumelementomaciço,sendoocas apenasasfolhaseascabeçasdecarneiroadossadasaospilares. Figura5.41–Vasoescultórico.Figura5.42–Pormenordopilar.Figura5.43–Varãoverticalno topodovaso. Relativamenteaoprocessoconstrutivodasmísulasexistentesaolongodacornija(Figura5.44), verificou‐sequeestassãoexecutadasemduaspeças:amísulaemsifixaaosuporteatravésdedois varõesmetálicosecomarames(tipoesticadores)fixosàcornijaparapermitiroseunivelamento,ea “gaveta”queentradefrenteelhedáorematesuperiorjuntoàcornija.Asmísulaspossuemvarões metálicoserededegalinheiroincorporadosnaargamassaeasgavetassãoexecutadasporargamassa armadacomrededegalinheirocomcercade3cmdeespessura(Figura5.45).Nestecaso,osistema construtivoedefixaçãofoifacilmenteidentificadotendosidoesteselementosexecutadosnum sistemade“pré‐fabricação”eposteriormentecolocadosnolocal.Noquerespeitaàcornija,ainspeção
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.17 doIC‐FEUPde2010apontavajáparaapossibilidadedesteelementopoderserfalsoearmadocom rededegalinheiro,factosustentadopelaestereotomiacomqueomusgocrescia,emtudosemelhante àtexturadaargamassaaplicadasobrearededegalinheiro(Figura5.46eFigura5.47). Figura5.44–Mísulasecornijafingidas.Figura5.45–Pormenorda“gaveta”deumamísulaedo arameesticador. Figura5.46–Musgosobreacornija.Figura5.47–Pormenordatexturadomusgo. CombasenoobservadoenaconsultadosarquivosdaFIMS,nãofoipossíveldefinircomrigoro processoconstrutivodetodososelementosdecorativosdoTNSJ.Nocasodoselementosfigurativos dofrisodafachadaprincipal,prevaleceuadúvidasobreseesteselementosforamounãoexecutados emateliereposteriormentefixosaosuporte.Nãocabenestadissertaçãoadiscussãodosprocessos construtivosutilizadosconsiderando‐se,noentanto,quenumprocessodereabilitaçãoeste conhecimentoéumimportanteauxiliarparaatomadadedecisãonareabilitaçãodesteselementos quedeixamdeterumcarácterunicamenteestético.Nasdecisõesenvolvidasnareabilitaçãodos elementosescultóricosdebetãoarmado,aengenhariadeverádeterumpapelpreponderantepela importânciadoconhecimentocientíficoenquantosuportedasintervenções.Esteconhecimento,
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.24 Aquedadoelementopodeporemriscoavidadaspessoasouoelementoestálocalizado numazonaquenãopermitequeoseuestadodeconservaçãosejaobservadoapartirdochão →C3=3 C4–OriginalidadedoElemento(fatordeponderaçãow4=4) Estecritériotendeaponderaraautenticidadedecadaelemento,ouseja,seesteelementoéooriginal, seéumaréplicaousejáfoiobjetodeumaintervençãoanterior.Quantomaiselevadoforovalorde C4,maisestecritériocontribuiparaquesejasugeridaasubstituiçãodoelementodecorativoem análise. Elementooriginal→C4=1 Elementopreviamenteintervencionado→C4=2 Elementopreviamentesubstituído→C4=3 C5–RepetitividadedoElemento(fatordeponderaçãow5=3) EstecritériodependedovalordoparâmetroP6eponderaseumdeterminadoelementoéúnicoou quantasvezesserepetenasfachadas.QuantomaiselevadoforovalordeC5,maisestecritério contribuiparaquesejasugeridaasubstituiçãodoelementodecorativoemanálise. SeP6=1→C5=1 SeP6>1→C5=3 C6–EvoluçãodoEstadodeDegradaçãodoElemento(fatordeponderaçãow6=1) Estecritériorefleteaevoluçãodoestadodedegradaçãodoselementosconhecendo‐seoseuestado anterior.Nestecasoparticular,aevoluçãodoestadodedegradaçãoéanalisadacombasenosdados existentesdainspeçãodoestadodasfachadasefetuadaem2010.Quantomaiselevadoforovalorde C6,maisestecritériocontribuiparaquesejasugeridaasubstituiçãodoelementodecorativoem análise.Noentanto,aimportânciarelativadestecritérioébastanteinferioràdosrestantespoisoseu fatordeponderaçãonaEq.(1)éapenas1. Seoestadodedegradaçãosemantevedesde2010→C6=1 Seaevoluçãodoestadodedegradaçãodesde2010édesconhecida→C6=2 Seoestadodedegradaçãopioroudesde2010→C6=3 C7–PotencialdeSubstituiçãodoElemento(fatordeponderaçãow7=5) Estecritériodependedeváriosparâmetros,masseoelementofororiginal(C4=1)estecritérioadota imediatamenteovalor0.Osparâmetrosenvolvidosnestecritériosãoainformaçãodoestadode fissuração/fraturadoselementos(P1),dotamanhodoelemento(P3),dascondiçõesdeexecuçãodo molde(P4),dascondiçõesdefixaçãodoelemento(P5),daquantidadedeelementosiguais(P6),do níveldecorrosãodasarmaduras(P7)edapercentagemdeintervençãonoelemento(P8).Quantomais
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.25 elevadoforovalordeC3,maisestecritériocontribuiparaquesejasugeridaasubstituiçãodoelemento decorativoemanálise.Àsemelhançadecritériosanteriores,aquantificaçãodeC7tambémrequera definiçãodumavariávelauxiliarnocasodeC4serdiferentede1.EstavariávelComb3écaracterizada pelaEq.(4)erepresentaainfluênciaacumuladadosparâmetrosP1,P7eP8.Noentanto,a quantificaçãodeC7apenasdependedofactodeComb3serigualoudiferentede1.Paraoscasosem queComb3édiferentede1,ocritérioC7éentãoestabelecidoporumamédiaaritméticaquepondera ainfluênciadosparâmetrosP1,P3,P4eP5emfunçãodovalordeP6.NadefiniçãodeC7,observa‐se aindaqueoparâmetroP1éconsideradocomumainfluênciainversaaoseuvalor(i.e.quantomenos fissuradoestiveroelemento,maiorseráasuacontribuiçãoparaadecisãodequeoelemento decorativoemanálisesejareparadoeconsolidado). SeC4=1→C7=0 SeC4≠1: Comb3 1 7 8PPP (4) SeComb3=1→C7=0 SeComb3≠1eP6=1→ 3451 C7 4 PPPP SeComb3≠1eP6>1→ 3450.51 C7 4 PPP P 5.6 Aplicaçãodoíndicedeclassificaçãodaintervenção Demodoapoderaplicarametodologiaproposta,foinecessárioumaidentificaçãopreliminardos elementosdecorativosindividuais,bemcomoasuanumeração.Estaoperaçãofoirealizadapela equipadeconservadoreseengenheirosenvolvidosnoprojeto.Emalgunscasos,estaidentificaçãonão foiumaoperaçãosimples,devidoaoelevadoníveldeinterligaçãoentreasformasdecorativas consecutivos(Figura5.48).Nestescasos,oselementosindividuaisforamselecionadoscombaseem critériosdesimetriaerepetibilidade. Figura5.48–Exemplosdoelevadoníveldeinterligaçãoentreformasdecorativasconsecutivas.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.26 Emboraoíndicepropostopretendaestabelecerumconjuntodecritériosobjetivosparacaracterizaro tipodeintervençãoquepoderáseraplicadanumdeterminadoelementodecorativo,aclassificaçãode algunsdosparâmetrosnecessáriospoderáenvolver,porvezes,umcertograudesubjetividade.Definir adificuldadedefazerummoldededeterminadoelementoparaoreplicar(parâmetroP4)oudefinir comabsolutacertezaaautenticidadedeumdeterminadoelementodecorativo(critérioC4)são exemplosdefatoresqueenvolvem,naturalmente,algumgraudesubjetividade.Talcomojá mencionadoanteriormente,asoperaçõesdelimpezadasfachadassãodecisivasparaosresultadosdo índicepoisnãoépossívelrealizarumaavaliaçãofiáveldoestadodedegradaçãodoselementos decorativosantesdesaberoverdadeiroestadodoselementosqueestá,muitasvezes,ocultosob váriascamadasdesujidade,vegetaçãoouatémesmotinta. Afimdeilustraralgunsdosresultadosobtidoscomaaplicaçãodametodologiapropostaparaos elementosdecorativosdasfachadasdoTNSJ,apresenta‐senaFigura5.49ovalorobtidoparaoíndice ICIaplicadoaseteelementosdecorativosrepresentativosdosdiferentestiposdeelementosexistentes. Comosepodeverpelosresultadosobtidos(eauxiliadopelacorvermelha),ésugeridaasubstituição doselementosnúmero3,6e7.Paraocasodoselementos5e6quesãoelementossemelhantes,o resultadodoíndicesugereasubstituiçãodoelemento6umavezqueesteapresentaumelevadonível dedegradaçãocomcorrosãoseveradasarmadurasedestacamentodaargamassa,oqueobrigaaque maisde75%doseuvolumesejaobjetodeconsolidação.Emcontraponto,oelemento5nãoapresenta corrosãodasarmaduras,nãopossuidestacamentodaargamassaemenosde25%doseuvolume requerconsolidação.Noquedizrespeitoaoelemento7,ascaracterísticasdecisivasqueapontampara quesejasugeridaasubstituiçãodoelementosãoograudecorrosãodasarmaduras,afissuraçãoda argamassa,anecessidadedeconsolidaçãodemaisde50%doseuvolumeeofactodejánãoserum elementooriginal.Nocasodoelemento3,alémdoelevadoníveldedegradaçãoedeconsolidação necessária,ofactodeserumelementopequenoedoseumoldeserdefácilexecuçãosãofatoresque contribuemdecisivamenteparaquesejasugeridaasuasubstituição. Figura5.49–Resultadosobtidosdaaplicaçãodoíndicedeclassificaçãodaintervençãopropostoaumconjunto dediferenteselementosdecorativosdoTNSJ.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.27 5.7 Notasfinais ComojáreferidoparaocasodoMercadodoBolhão,areabilitaçãodeedifíciosdebetãodoiníciodo séculoXXapresenta‐secomoumnovodesafionaáreadareabilitaçãoassociadaàsquestõesde conservação,consolidaçãoereparação.Adegradaçãonaturalcausadapelaexposiçãodosmateriaisàs condiçõesambientais,associadaaumainexistentemanutençãopreventivaeaumaconstruçãomuito experimentalista,conduzaoriscodeperdadaautenticidade(ouatémesmodobememsi)pelo aumentodasuavulnerabilidade.Verifica‐sequeinúmerosedifíciosdebetãoseencontramem situaçãodedegradaçãomaterialeestruturaleanecessitaremdeaçõesurgentesdeconservaçãoe reparação. Devidoàvariabilidadedosmateriaisdestasconstruções,nãoéfácilavaliaracompatibilidade,o comportamentoeaeventualintrusividadedosnovosmateriaisouprodutosaaplicarnumaaçãode conservação,talcomoépossívelparaasconstruçõestradicionaisdepedraedemadeiraondeo conhecimentoestájámaisconsolidado. Adificuldadedacaracterizaçãodosmateriaisusados,faceàsuavariabilidadenumamesmaobra (cimentoseaçosquepodemterdiferentesproveniênciasoutraços),assimcomoodesconhecimento acercadequaldosváriostiposdesistemasexistentesfoiutilizadonaexecuçãodedeterminada estruturadebetãoarmado(porexemplo,sistemaHennebique,sistemaCoignet,etc),conduzemaque asintervençõesemconstruçõesdoiníciodoséculoXXsetornemumdesafio.Naintervençãoem elementosescultóricos,àpreocupaçãodacompatibilidademecânicadasargamassasexistentesedas dereparação,terádeseassociaraindaapreocupaçãodatrabalhabilidadedanovaargamassaeoseu tempodepresa. Refere‐se,ainda,queestaépocafoitambémprofícuanofingimentodasprópriasestruturas,umpouco àsemelhançadoqueerausualnaépocacomosfingimentosdecorativos.Nestaaltura,muitosdos elementosdecorativosexterioresdosedifíciosqueeramusualmenteexecutadosempedrapassaram aserexecutadosemcimentoouatémesmoemcimentoarmado,materialconsideradoeternoparaa época.Esteselementosencontram‐semuitasvezesaencimarfachadas,peloqueasuadegradação materialcompotencialquedadeelementosemaltura,paraalémdaperigosidadequerepresentapara aspessoas,poderáconduziraimportantesperdaspatrimoniaiseàdescaracterizaçãodosedifíciostal comoosconhecemos. Oprincipalobjetivodoíndicepropostoéidentificardeformamaispragmáticaoselementosque apresentamanecessidadedeumaintervençãodereparaçãomaisseveracommaiorpotencialpara seremsubstituídos,tendoemcontaosconceitosinerentesàconservaçãoerestaurodasestruturasdo iníciodoséculoXX.Emboraoíndicepropostoenvolvaumconjuntodecritériosobjetivospara caracterizarumdeterminadoelemento,aclassificaçãodealgunsaspetos(e.g.afacilidadedeexecução demoldes)é,porvezes,subjetiva.Salienta‐seaindaqueumaavaliaçãofiáveldoestadodedegradação doselementosdecorativossófoipossívelapósasoperaçõesdelimpezaederemoçãodavegetação
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 5.28 combiocida,demodoaexporoverdadeiroestadodoselementosque,particularmentenestecaso, estavaocultosobváriascamadasdesujidade. Associadaaosconceitosdosnovospatrimónios,aconservaçãoereabilitaçãodeesculturasou elementosdecorativosembetãoarmadorequeremummaiorpesodaengenhariacivilnasdecisões deintervençãopromovendo‐seadefiniçãodesoluçõesdereparaçãosustentadasnoconhecimento científicodoexistente.Assim,asdecisõesdaintervençãonãoserãounicamentedependentesde critériosestéticosedeautenticidade,melhorandoadurabilidadedaintervençãonaturalmente associadaàimplementaçãodeumplanodemanutençãopreventiva. Porfim,salienta‐seaindaqueainspeçãoeodiagnósticoiniciais,acaracterizaçãodosmateriais existentesearealizaçãodeensaiosdecompatibilidademecânicaequímicaentreosmateriais existenteseosqueeventualmentevieremaseraplicadosdevemprecederaobracomantecipação suficientequepermitaasuavalidação.Destaforma,ostécnicospoderãousufruirdumconhecimento fundamentalnoauxíliodatomadadedecisãoemtempodeobra.
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 6.1 Capítulo6 Interrogaçõesfinais OfinaldoséculoXIXeoiníciodoséculoXXforamresponsáveisporimportantesmudançassociais, tecnológicaseculturaisqueserefletiramdiretamentenaarquitetura(Paschoalin2012).Coma industrialização,aintroduçãodenovosmateriais,atransformaçãodastécnicasdeconstruçãoeos novosusos,aarquiteturaeoplaneamentourbanoforamsofrendoprofundasalteraçõescoma finalidadedeatenderemàsnecessidadesdasociedadecontemporânea.Afaltadeinteressena conservaçãodopatrimóniodestaépoca,queabrangeumalargadonúmerodeconstruçõescom característicasvariáveisequerefletesimultaneamenteosvalorestradicionaisemodernistas,poderá levaraperdasirreparáveiseàprivaçãodesteperíodoàsgeraçõesfuturas.Considera‐se,assim, imprescindívelodesenvolvimentodeestratégiasparaaidentificação,estudo,conservaçãoe consciencializaçãopúblicadaimportânciadaarquiteturadoiníciodoséculoXXedaimensaobra públicaquepermitirãoasuaproteção. OscasosdeestudoapresentadosrepresentamdoisedifíciosemblemáticosparaacidadedoPortoque seencontramjáclassificadosumcomoimóveldeinteressepúblicoemSetembrode2013(Mercado doBolhão)eooutroemJulhode2012comoMonumentoNacional(TNSJ)salientando‐seofactode queamboscontinuamamanterasfunçõesparaasquaisforaminicialmenteprojetados.Talvezpelo factodeteremmantidosempreasuafunçãosocial,oquelevouaqueasuapresençanavidadacidade fossemarcanteecomumimportantevalorafetivo,nãoexistemgrandesdúvidassobreaimportância dasuaclassificaçãoeinerenteproteção.NocasodoMercadodoBolhão,emparticular,estaproteção foifundamentalfaceaointeressequeasualocalizaçãosuscitouagruposimobiliáriosquepretenderam umaalegada“reabilitação”doedifíciosobolemadofachadismo.Faceàsinúmerasconstruções existentesdestaépoca,quemantêmounãoassuasfunções,ereconhecendoqueestasdiferemdos materiaistradicionaisemétodosdopassado,seráfundamentaldefinircritériosdeseleçãoque permitamasuaclassificaçãoeconsequenteasuaproteção. SegundoarecomendaçãodoConselhodaEuropade1991econformejáreferidonoCapítulo2,estes critérios,entreoutros,deverãoteremconsideraçãoosseguintesaspetos: • Ovalordavariabilidadedeestilos,tiposeprocessosconstrutivosdasconstruçõesdoiníciodo séculoXX;
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 6.2 • Anecessidadedeprotegernãosóasobrasdosarquitetosfamososdeumdeterminado períodoouestilodearquitetura,mastambémdeexemplosmenosconhecidoscom importânciaparaaarquiteturaeahistóriadesteperíodo; • Aimportânciadeincluirentreosfatoresdeseleçãonãosóosaspetosestéticos,mastambém contribuiçõesemtermosdehistóriadatecnologiaedodesenvolvimentopolítico,cultural, económicoesocial; • Anecessidadedealargaraproteçãoaoselementosdecorativosexterioreseinteriores,bem comoaosacessórioseaomobiliárioquesãoprojetadosaomesmotempoqueaarquitetura, quedãosignificadoaotrabalhocriativodoarquitetoerefletemosavançostecnológicosda época. AconservaçãodaarquiteturadoiníciodoséculoXXencontra‐seaindaemfasedereflexãoeestudo, nãohavendoaindamuitoretornodeexperiênciasdasuareabilitação.Considera‐sequeapartilhada informaçãodasintervençõesnestepatrimónioéextremamenteimportante,sendofundamentala inspeçãoeodiagnósticodestasconstruçõesquepossamviraserumauxiliardedecisãonas intervenções.Assim,edeacordocomojáreferido,considera‐seimportante: • Promoverestudoscientíficos,teóricosepráticosdosprocessosdeconstruçãoeconservação destasestruturasecorrespondentesartesdecorativas; • Respeitarosmesmosprincípiosfundamentaisquesãoaplicadosaosoutroselementosdo patrimónioarquitetónicoemaçõesdeconservação; • Criarumregistodasobservaçõesedasmedidastomadasnocontextodaconservaçãodestas construçõesedivulgarestasexperiências. Aosconceitosestabelecidospelascartaseconvençõesinternacionais,edecertaformaconsagrados deummodomaisabrangentenaTeoriadeRestaurodeCesariBrandi,terãodeseradicionadosnovos conceitosrelacionadoscomosnovospatrimónios,comoporexemploafuncionalidadedas construções,adurabilidadedasintervençõesouaimportânciadaobrapúblicasocial,eoutrosterão deseralterados,comoporexemploavalorizaçãodapátina,umavezqueparaasconstruçõesdoséculo XXapátinarepresentagrandepartedasvezesummaudesempenhomaterial. AautenticidadetalcomodefinidaaCartadeNaraterádeservistaagoraàluzdestesnovospatrimónios ondeamatériacomquesãofeitosjánãoexiste,talcomonãoexisteumprocessotradicionaldasua execução.Comojáreferido,apreservaçãodapátinanãodeveráserumindicadordeautenticidadee deintegridade,podendosersubstituídopelamanutençãodosignificadocultural,(funcionalidade associada)eaintençãooriginaldoprojeto(Paschoalin2012citandoPrudon(2008)).Tambéma durabilidadeassociadaàmanutençãopreventivaterádeseralvodeatençãoparticularnas intervençõesnosedifíciosdoiníciodoséculoXX.Aavaliaçãoestruturaldestasconstruções,e particularmentedasidentificadascomopertencendoaomovimentomoderno,estátotalmente condicionadapelobomdesempenhodobetãoarmadoenquantomaterialestrutural,pelofactodas
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 6.3 secçõesdoselementosestruturaisseremreduzidasàsuamenorexpressãopossíveledenãoterem sidoprojetadasdeacordocomconceitosdesegurançaimpostospelaregulamentaçãoemvigor. AsconstruçõesdebetãodoiníciodoséculoXXforamsobretudoconstruçõesexperimentalistas,tendo porbaseosdiferentessistemasconstrutivospatenteadosequenãoobedecemaumaregulamentação deâmbitodasegurançaestrutural.Àvariabilidadedosdiferentessistemaspatenteadosassocia‐sea variabilidadeassociadaàprópriaconstruçãoemsi,peloqueexistegrandedificuldadeemsaberoque estáefetivamenteconstruído,oquedificultaaaplicaçãodequalquerabordagemdeavaliaçãode segurançadessasconstruções.Aoníveldasintervençõesquepossamvirasernecessáriasneste edificadoequeinterfiramcomaestruturaexistente,salienta‐seofactodequalquerintervençãoa efetuarternecessariamentedecumprirosregulamentosestruturaisatualmenteemvigor,por questõesdesegurançaestruturalederesponsabilidadeprofissional.Nestecontexto,salienta‐seque aaplicaçãodaregulamentaçãoemvigorparaestruturasnovasàanálisedeestruturasantigaspode obrigaraintervençõesexcessivasrecomendando‐se,nestescasos,estudosespecíficostalcomoa monitorizaçãodocomportamentoestruturaleaexecuçãodeensaiosdecargaquepossamvira justificardiferentesabordagensparaaavaliaçãodasegurançaestrutural.Admite‐se,noentanto,que emdeterminadoscasospoderásernecessárioarealizaçãodetrabalhosdeconsolidaçãode emergência. Nestecontexto,aanáliseapresentadaparaocasodoMercadodoBolhãodiscutiuaimportânciada informaçãoobtidaatravésdasinspeçõesestruturaiseoseupotencialcontributoparaaavaliaçãoda segurançaestrutural.Conceptualmente,épossívelobterumconhecimentotécnicoecientífico profundodasconstruçõesatravésdasinspeçõesestruturaisquepermitarealizarumaavaliaçãoda segurançafundamentadarecorrendoamodelosnuméricos.Noentanto,aanálisedocasodoMercado doBolhãopermitiuobservarque,emalgunscasos,esseconhecimentopoderánãosersuficientemente completo,amenosqueseopteporabordagensmaisintrusivasqueprovoquemmaisdanosna construção,contráriasaoobjetivoinicialdepreservaressamesmaconstrução. Salienta‐seaindaque,anívelestrutural,areversibilidadeéumconceitodificilmenteaplicável,nãoo sendodetodoaplicávelàreabilitaçãodobetãoarmado.Assim,nãosendopossívelamanutençãodos materiaisiniciais,nemexistindotécnicastradicionaisdeexecuçãodobetãoarmado,nãorestasenão àarquiteturadoséculoXXaaproximaçãoaoseuprojetoinicialeàmanutençãodafunçãoparaaqual foiprojetada.Anívelestruturaléentãofundamentalobteromáximodeinformaçãopossívelsobreas estruturasconstruídasesobreoseuníveldedegradaçãomaterial,atravésdosprocedimentosde inspeçãoestrutural,parasedefinirumaabordagemadequadaàavaliaçãodesegurança.Noentanto, comojáreferido,estaavaliaçãodesegurançapoderá,porvezes,sóserconseguidaatravésdeensaios decarga,complementadaounãocomamonitorizaçãodocomportamentoestruturaldasconstruções. Deacordocomas“RecomendaçõesparaaAnálise,ConservaçãoeRestauroEstruturaldoPatrimónio Arquitetónico”(ISCARSAH,2003),cadaintervençãodeveserproporcionalaosobjetivosdesegurança estabelecidos,limitandoaintervençãoaummínimoquegarantaasegurançaeadurabilidadeda
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 6.4 estruturacomamenorintrusãopossível.Assim,énecessárioinvestigaredesenvolvermétodosde conservaçãoadequadosaosmateriaisetécnicasconstrutivasprópriasdestaépoca,salientando‐seque aaplicaçãodosregulamentosdesegurança(oudeacessibilidadeeconfortodasconstruções)necessita deabordagensflexíveisquepermitamaimplementaçãodesoluçõesdeintervençãopoucointrusivas equecontribuamparaaconservaçãodestepatrimónio. Àsemelhançadeoutrosmateriais,asseguraracompatibilidadequímicaefísicaéfundamentalnestas estruturas,poisosbetõese/ouargamassasdoiníciodoséculoXXnãopossuem,porexemplo, resistênciasmecânicassemelhantesàsresistênciasdealgumasargamassasatuaisquepodematingir valoresbastantesaltos.Anívelquímico,adificuldadeébastantemaiorpoisnãoexisteuma estandardizaçãodoscimentosutilizadosnessaépoca,sendomuitodifícilpreverainteraçãodo materialexistentecomnovosprodutosouanteciparse,nofuturo,determinadasreaçõesquímicas poderãoviraterefeitoscatastróficos. NocasodoTNSJ,verificou‐sequeasargamassaspossuíamdiferentescomposições,mesmoem elementossemelhantes,oquepermitiuconcluirdadiversidadeevariabilidadeconstrutiva.No entanto,paraseobteremrigoroconhecimentocientíficosobreosdiferentestiposdeargamassa presentesnummesmoelementoénecessáriorecolherváriasamostras,açãoessaquepodeser demasiadointrusiva.Naausênciadesteconhecimentoresta,assim,aprecauçãonadefiniçãode medidasdeconservaçãoaimplementar,devidoapossíveisincompatibilidadesquepossamocorrer entreosmateriaisantigosjáestabilizadoseosmateriaisnovos.NoTNSJ,foramaplicadasetestadas emobraváriaspossibilidadesdeargamassasdereparaçãodopontodevistadacompatibilidade mecânicaedatrabalhabilidade.Relativamenteàcorrosãodearmaduras,optou‐sepornãoaplicar qualquerprodutoquímiconatentativadediminuirestacorrosãopoisnãohaveriatemposuficiente paracomprovarasuaeficáciaecompatibilidadequímica.Semaexistênciadebibliografiaque reportasseefeitosdainteraçãoentrediferentesmateriaisequepermitissesustentaralgumas decisões,nãorestouàequipadeobraoutraalternativasenãoaprudênciaeaopçãoporuma intervençãomínima.Salienta‐seaindaqueasopçõesdeintervençãoforamalicerçadasnanecessidade deelaborarumplanodemanutençãopreventivacomperiodicidadeajustadaaessasopções. Naturalmente,ocumprimentodoplanodemanutençãopreventivaéumproblemaqueultrapassaas competênciasdaequipadaobra,masnãodeixadeserumfactoqueestasemantémresponsável independentementedequemdedireitovierounãoaimplementaroplanodemanutençãopreventiva. Verifica‐seassimquenestasintervençõeséfundamentaladefiniçãodotempodedurabilidadedaobra eaobrigatoriedadedocumprimentodoplanodemanutençãopreventivasobpenadasquestõeslegais deresponsabilidadeprofissionalecivilpoderemviraopor‐seaoscritériosdeintervençãomínimaede autenticidade.Aatitudedereabilitaçãoeconservaçãodaarquiteturamodernateráassimnovos desafiosque,segundoMoreira(2011),passamagora: Porreporafuncionalidadeparaquemuitasconstruçõesforamprojetadasequeagoraestão obsoletas;
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica 6.5 Pelanãoexistênciadetécnicastradicionaisconstrutivas; Pelosproblemasdecompatibilidadematerial; Pelaadequação,substituiçãoe/oumanutençãodeinfraestruturasdasconstruções(elétricas, canalização,aquecimento,…) Porimplementarregularmenteamanutençãopreventiva; Peladificuldadeemaceitarapátinaemedifíciosrecentesporqueaimagemdestes envelhecidosnãofazpartedamemóriaeapátinatorna‐seumindicadordedeficiente comportamentomaterial; Peladificuldadedeestabelecerprincípiose/ouformasdeclassificação/proteçãodo patrimóniodofinaldoséculoXIXeiníciodoséculoXX. OsnovosconceitosateremcontanareabilitaçãodosedifíciosdoiníciodoséculoXXterãoaindade teremcontaaimportância,porexemplo,dosprazosdeobraeadefiniçãodadurabilidadeda intervençãoassociadaàintervençãomínima,aumentandonecessariamenteopesodaengenhariana reabilitaçãodestasconstruções. Àobradereabilitaçãodasestruturasdestaépocaterãonecessariamentedeserassociadasasquestões (Zancheti,2014)Paraquê?,Porquantotempo?eEmquecondições?.Aacrescentaraestas interrogações,permaneceaindaadúvida:PerderemosDeussealterarmososdetalhes?
Reabilitaçãodeedifíciosdaprimeirametadedoséc.XX:Discussãometodológica A.2
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Reabilitação de edifícios da primeira metade do séc. XX: Discussão metodológica B.1 Anexo B Peças desenhadas