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Torre de Moncorvo - a riqueza do património imaterial e o desenvolvimento local e turístico

Júlio Filipe Seixas da Rocha

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FACU L DADE DE LET RA S U N I V E R SI D A D E D O P O R T O Júlio Filipe Seixas da Rocha 2º Ciclo de Estudos em Turismo Torre de Moncorvo – A riqueza do património imaterial e o desenvolvimento local e turístico 2014 Orientador: Professora Doutora Natália Azevedo Dissertação Versão definitiva i Resumo O presente trabalho é o resultado de uma recolha de informação documental, oral e etnográfica, centrada na Via de Torre de Moncorvo, na sua população e tradições/costumes, bem como no conhecimento dos modos de viver e reagir ao quotidiano que desta feita constroem um património imaterial importantíssimo, digno de ser revelado e valorizado. A investigação centrou-se em conhecer o património imaterial de Torre de Moncorvo, o seu contributo enquanto fator identitário de populações e o papel que este mesmo património pode ter na atratividade turística e consequentemente na construção e desenvolvimento de infraestruturas de apoio ao turismo e ao turista. Para isso, primeiro foi necessário conhecer as características da população moncorvense, de seguida fez-se um levantamento dos vários eventos e tradições ligadas a parte imaterial do património e por fim para perceber as perspetivas dos atores locais e entidades turísticas sobre a importância deste tipo de património para Moncorvo, procedeu-se a entrevistas semidiretivas, feitas neste caso específico, aos proprietários de várias Quintas e alojamentos turísticos e ao Posto de Turismo. Foi também feita uma entrevista a um emigrante natural de Torre de Moncorvo para que fosse possível perceber a relação entre este património e o fator identidade individual. Procedeu-se ainda a recolha bibliográfica, a testemunhos orais de naturais desta vila e à observação direta de acontecimentos importantes ligados a tradições e festejos. Palavras-chave: Património Imaterial; Identidade; Turismo; Turismo Rural; Turismo de Habitação; Agroturismo ii Abstract This work is the result of a collection of documentary information, oral and ethnographic, centered in the town of Torre de Moncorvo, its people and traditions / customs, as well as its empirical knowledge of habits, customs and ways of living and reacting to adversity and happiness that made this building an important, worthy to be valued and disclosed Intangible Heritage. The investigation focused on knowing the intangible heritage of Tower Moncorvo, its identity while contributing factor populations and the role it can play in the same heritage tourist attractiveness and consequently in the construction and development of infrastrcture to support tourism and tourist. For this, we must first know the characteristics of the population moncorvense, then do an overview of the various events and traditions connected part of the immaterial heritage and finally to understand the perspectives of local stakeholders and tourism entities on the importance of such heritage for Moncorvo, proceeded to the semi-directive interviews, made particular to the owners of several estates and tourist accommodation and the Tourist Office. Was also made an interview to a natural emigrant of Torre de Moncorvo it possible to see the relationship between this heritage and individual identity factor. Also proceeded bibliographic collection, the oral testimony of this natural village and finally to direct observation of important events related to traditions and festivities. Keywords: Intangible Heritage; identity; Tourism; Rural tourism; Manor house; agritourism iii Resumé Ce travail est le résultat d'une collecte de l'information documentaire, orale et ethnographique, au centre de la ville de Torre de Moncorvo, ses habitants et les traditions / coutumes, ainsi que sa connaissance empirique des habitudes, coutumes et façons de vivre et de réagir à adversité et le bonheur qui fait de ce bâtiment un rôle important, digne d'être évalués et communiqués du patrimoine immatériel. L'enquête a porté sur la connaissance du patrimoine immatériel de la Tour Moncorvo, son identité tout en contribuant populations des facteurs et le rôle qu'elle peut jouer dans la même attractivité touristique du patrimoine et par conséquent dans la construction et le développement de l'infrastructure touristique et touristique . Pour cela, nous devons d'abord connaître les caractéristiques de la moncorvense de la population, puis faire une vue d'ensemble des diverses manifestations et traditions partie connectée du patrimoine immatériel et enfin de comprendre les points de vue des parties prenantes locales et les entités touristiques sur l'importance de ce patrimoine pour Moncorvo, a procédé à des entretiens semi-directifs, réalisés notamment aux propriétaires de plusieurs domaines et d'hébergement touristique et l'Office de Tourisme. A également fait une entrevue pour un émigrant naturel Tour Moncorvo il possible de voir la relation entre ce patrimoine et le facteur de l'identité individuelle. Également procédé collection bibliographique, le témoignage oral de ce village naturel et enfin à l'observation directe des événements importants liés aux traditions et festivités. Mots-clés: le patrimoine immatériel; identité; Tourisme; Le tourisme rural; Manoir; Agritourisme iv Agradecimentos Queria agradecer a todos o que contribuíram para este meu trabalho, em particular: À professora Doutora Natália Azevedo, minha orientadora, pela excelente orientação e por todo o apoio que me prestou, mesmo quando eu julgava o meu trabalho inglório. A todos aqueles que contribuíram diretamente para o meu trabalho não só no trabalho de pesquisa, nas entrevistas e no trabalho de campo. Finalmente, agradeço à minha família, em especial aos meus pais, tios maternos, ao meu irmão Bruno, ao meu primo Pedro, à minha avó materna e aos meus afilhados e sobrinhos por serem fonte da minha inspiração. Sem eles este trabalho não seria possível. Obrigado por acreditarem em mim e no meu trabalho. Agradeço também à minha namorada, por todo o apoio, dedicação e paciência. E aos meus amigos Sara Alves e José Pestana por todo o apoio no trabalho de campo. A todos o meu reconhecimento e o meu muito obrigado. v Índice Índice de tabelas………………………………………………………………………...vii Índice de figuras………………………………………………………………………. ..ix Lista de siglas…………………………………………………………………………….x Introdução………………………………………………………………….……...……1 Capítulo I - Torre de Moncorvo – O Património imaterial, o turismo e a identidade……………………………………………………..…………..…………3 1.1.Património imaterial e turismo……………………………………………..………...3 1.2.Património imaterial e identidade…………………………………………..………...5 Capítulo II - Torre de Moncorvo - Percurso teórico-metodológico em torno do património imaterial…………………………………………………………..……….8 2.1. Objeto de estudo, hipóteses e modelo de análise……………………………………..8 2.2. Apresentação e justificação de métodos e técnicas……………………………...….10 2.3. Torre de Moncorvo – Caracterização histórico-patrimonial, geográfica e sociodemográfica…………………………………………………………………….....13 Capítulo III - Tradições e festividades de Torre de Moncorvo………………………………………………………………………………23 3.1. Inventário de festividades e tradições de Torre de Moncorvo…………………........23 3.2. Perspetivas dos atores locais…………………………………………………..........53 Considerações Finais………………………………………………………………….68 Referências Bibliográficas……………………………………………………….........70 Anexos………………………………………………………………………………….76 Anexo 1 - Guião das entrevistas …………...…………………………………………....76 Anexo 2 - Categorias de análise da observação direta………………………..………....79 Anexo 3 - Quadras natalícias…………………………………………………………...80 vi Anexo 4 - Versos do Primeiro de Janeiro………….…………………………………….81 Anexo 5 – Versos e músicas relativas ao Entrudo……………………………………….83 Anexo 6 - Orações da Páscoa…………………………………………………………....84 Anexo 7 - Cartaz da Semana Santa de Torre de Moncorvo de 2014…………………......85 Anexo 8 - Versos e quadras de São João…………………………………………….......86 Anexo 9 - Partitura da banda Filarmónica do Felgar……………………….....................87 Anexo 10 - Passos da dança das fitas………………………………………....................88 Anexo 11 - Versos e quadras da dança dos pretos………………………….....................89 Anexo 12 - Canções usadas nos trabalhos agrícolas……………………….....................90 Anexo 13 - Exemplo de poesia popular……………………………………....................91 Anexo 14 - Oração a Santa Bárbara para afastar a trovoada……………………………..92 Anexo 15 - Exemplo de orações ligadas à superstição……………………......................93 Anexo 16 - Cartaz do sabor douro Summer Fest Wine 2014……………………………94 vii Índice de Tabelas Tabela 2.1. Densidade Populacional (nº/km) por local de residência (à data dos Censos de 2001).……………………………………………………………………………..…15 Tabela 2.2. Densidade Populacional (nº/km) por local de residência (À data dos Censos de 2011).………………………………………………………………………………..16 Tabela 2.3. Índice de dependência de idosos (nº) por local de residência (à data dos Censos 2001).…………………………………………………………………………...16 Tabela 2.4. Taxa de Atividade (%) da População residente por local de residência (à data dos Censos de 2001).……………………………………………………………………17 Tabela 2.5. Taxa de atividade (%) da população residente por local de residência (à data dos Censos de 2011)…………………………………………………………………….17 Tabela 2.6. População empregada (nº) por local de residência (à data dos Censos de 2011).…………………………………………………………………………………...18 Tabela 2.7. Taxa de analfabetismo (%) por local de residência (à data dos Censos de 2011).…………………………………………………………………………………...18 Tabela 3.1. Festividades anuais de Torre de Moncorvo comparação anos 50/60 e ano 2013/2014 (Dezembro a Agosto)……………………………………………………….23 Tabela 3.2. Outras Tradições Importantes de Torre de Moncorvo…………………........32 Tabela 3.3. Outras Tradições de Moncorvo Ligadas às Atividades Agrícolas, à Religião, Crença e à Sabedoria Popular Empírica…………………………………………………33 Tabela 3.4. Atividades tradicionais de Torre de Moncorvo……………………………..39 Tabela 3.5. A alimentação em Torre de Moncorvoos horários ligados ao trabalho no campo……………………... …………………………………………………………...46 Tabela 3.6.A gastronomia típica de Torre de Moncorvo…………………….................46 Tabela 3.7. Utensilio ligados à gastronomia tradicional de Torre de Moncorvo……………………………………………………………………………….50 Tabela 3.8. Traje típico popular moncorvense...……………………………..………….51 viii Tabela 3.9. Eventos importantes no contexto do património imaterial realizados em Torre de Moncorvo no ano de 2014………………………..……………………….................56 Tabela 3.10. Investimentos recentes em infraestruturas turísticas……………………...58 5 Estes tipos de turismo em Moncorvo têm sofrido alterações positivas ao longo dos anos, e servem essencialmente como fator e motor de desenvolvimento regional, de valorização de aspetos culturais e promovem o fortalecimento do património material e imaterial, dando força, deste modo às identidades individuais e de grupo das gentes de Moncorvo. 1.2 O Património Imaterial e Identidade A formação de identidade dos grupos culturais depende da legitimação dos seus elementos culturais, da sua memória e da sua representação perante os seus detentores. As identidades individuais são importantes para construção de relações que justifiquem a construção de grupos que partilham sentimentos e reconhecimento social. A identidade é o poder de impor uma visão do mundo social através dos princípios que se impõem a um conjunto e realizam o sentido do mesmo e da identidade comum. A identidade é fundamental para a legitimação de um ser, mas algo deve nortear essa identidade como a nacionalidade, regionalidade, etnia, religião ou práticas sociais e culturais. Sem estes pontos comuns a identidade não pode ser legitimada. Esta funciona como fator de inclusão mas também de exclusão, pois esta identifica o grupo e o indivíduo. Assim, diferem as diferentes culturas, sendo que a identidade cultural aparece como uma modalidade de categorização para a distinção baseada na diferença cultural. A formação da identidade faz com que o indivíduo se sinta parte integrante da cultura onde está inserido. Portanto, para as diferentes perceções culturais é necessária a construção de diversos significados simbólicos identitários. Quando perdemos o sentido espacial das identidades a complexidade cultural aumenta. O património é um processo simbólico de legitimação social e cultural de determinados objetos que conferem ao grupo um sentimento coletivo de identidade. Neste sentido, toda a construção patrimonial é uma reconstrução simbólica de uma dada identidade. O património cultural assim sendo, compreende todos os elementos que fundam a identidade de um grupo e que o diferenciam dos outros. O elemento determinante que define património é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade, é através desta, que nos reconhecemos coletivamente como iguais. 6 O passado dá-nos um sentido de pertença e faz-nos conscientes da nossa continuidade como pessoas através do tempo. A nossa memória coletiva não é mais que uma viagem pelo passado revisitada e materializada no presente por um legado material. Hoje, modelos de identificação outrora estabelecidos sob a forma de tradição perdem continuidade e o património representa para a sociedade uma necessidade, por outro lado, apesar da homogeneização de diversos aspetos do quotidiano verificamos hoje uma afirmação das identidades e aumento da importância da preservação do património como elemento de afirmação das singularidades locais. O património é assim, um elemento fulcral para a indústria turística com implicações económicas e sociais. O programa de incremento do turismo cultural ao propor a divulgação do nosso património cultural procura contribuir para o fortalecimento das identidades culturais e para o desenvolvimento das comunidades locais (Silva, 2000, p. 223). O património imaterial de Moncorvo confere à vila um reconhecimento e autenticidade e podemos destacar sob um ponto de vista geral as suas tradições anuais, a tradição da amêndoa coberta, o ferro que constitui a alma moncorvense e de um ponto de vista de património imaterial (do ponto de vista espiritual) e um pouco versando a vertente arquitetónica, a sua igreja. Mas o ferro, com a sua memória e presença, sem qualquer concorrência da parte de outro município constitui sem dúvida o maior pilar identitário de Torre de Moncorvo. Torre de Moncorvo foi formando a sua identidade desde que surgiu, não podemos portanto descurar das suas raízes medievais, na primitiva vila de Santa Cruz da Vilariça, antes da população se mudar para a encosta do Reboredo e formar a vila que hoje conhecemos, com a sua localização entre o Douro e o Sabor, as reformas administrativas que se foram fazendo ao longo dos séculos e as formas de sentir e de atuar da sua população, bem como a forma que reagem as dificuldades do clima, das crises agrícolas, as doenças, as necessidades sociais e biológicas. Todos estes fatores foram constituindo uma imagem e uma forma de estar construindo a identidade cultural de Moncorvo. As realizações culturais sempre tiveram grande ênfase em Moncorvo e já em 1897 foi criado em Moncorvo um espaço cultural chamado Sociedade Artístico-comercial, mas com o nome oficial de Grémio da Fraternidade. Produziam-se espetáculos de lazer e sociabilidade religiosa e profana como era o caso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário que organizava a Dança dos pretos que se fazia no dia 5 de janeiro de cada ano, na véspera do dia de reis, esta dança com várias interrupções voltou a ser realizada em 7 1935 tendo o seu fim em 1964 até à atualidade. A esta se junta a dança das fitas, as duas fazem parte do verdadeiro teatro tradicional moncorvense. Outras realizações houve em Moncorvo, por exemplo em 1904 a mancha florestal do Reboredo é declarada Mata Nacional. O Celeiro (local onde realizavam espetáculos de recreação, onde anteriormente tinha havido um armazém de cereal) e o cineteatro funcionaram também como espaços de dinamização cultural. O cineteatro foi palco de muitas peças de teatro amador dinamizando a vida teatral importantíssima da vila, os amadores eram atores de uma outra organização de cultura, o Clube Moncorvense. Contudo, a esta época quase não havia intervenção municipal a não ser nas festas e procissões de cariz religioso, grande parte organizadas pela população crente. Todos estes fatores e as várias manifestações culturais, sociais, políticas e religiosas foram constituindo uma imagem e uma forma de estar construindo não só a identidade cultural de Moncorvo, mas também a sua riqueza histórica. 8 Capitulo II – Torre de Moncorvo - Percurso teórico-metodológico em torno do Património Imaterial 2.1. Objeto de estudo, hipóteses e modelo de análise A investigação centrou-se na população tradicional de Torre de Moncorvo e procurou dar conta das representações culturais, sociais, religiosas e etnográficas que constituem a identidade desta mesma população, formando um património imaterial resistente que pode ser apelativo para o turismo e desenvolvimento regional. Numa fase inicial, definiram-se alguns objetivos centrais para esta investigação, que passavam essencialmente, por analisar a região sob o ponto de vista populacional, etnográfico, turístico e patrimonial; consequentemente o segundo objetivo passava perceber a relação existente entre o património (imaterial) e o turismo nesta região. Esta investigação, tendo em conta objetivos mais específicos, pretendeu ainda analisar de que maneira a estrutura sociodemográfica pode influenciar tradições/costumes; perceber de que modo o património, principalmente o património imaterial atrai o turismo a Moncorvo e finalmente, é também objetivo, perceber de que modo é que tudo isto tem fomentado o aparecimento de novas unidades hoteleiras e a realização de eventos ligados ao património imaterial. A pergunta de partida para este trabalho foi: “Será o património imaterial, capaz de atrair turistas e retirar algumas áreas de baixa densidade, como Torre de Moncorvo, do marasmo? “ O desenvolvimento de uma pesquisa de cunho científico resulta de uma vontade de conhecer algo. Isto deve ser sistematizado e seguir rigorosos procedimentos. A pesquisa em ciência não pode ser limitada à busca de uma solução técnica para um problema. O foco principal reside na tentativa de melhor entender o problema. Daí a importância da pergunta de partida enquanto linha orientadora. Segundo Quivy e Champenhoudt, (1992, p.31), a pergunta de partida funciona como fio condutor para que o investigador se possa guiar. Esta tem de obedecer a uma série de critérios para que tenha sucesso, esta funciona como clarificação do que se procura e põe em prática uma das dimensões do processo científico: a rutura com as noções prévias. Uma boa pergunta de partida é aquela que permite trabalhar eficazmente a partir dela e permite resumir o campo de análise a uma dimensão mais concreta e menos vasta. Esta deve ser exequível e pertinente, devendo abordar o estudo do que existe ou existiu e 9 não daquilo que não existe. Deve ainda visar o conhecimento dos fenómenos estudados e não a sua mera descrição. Agora no campo das hipóteses, a primeira hipótese prende-se com o facto de o património imaterial de Torre de Moncorvo ser importante para a sua população residente e não residente, sendo que poderá funcionar como fator identitário de pessoas ou grupos; a valorização deste mesmo património irá funcionar como fator atrativo e de desenvolvimento regional; esta valorização vai levar ao aparecimento de novas atividades turísticas e de novas unidades hoteleiras, redirecionadas para um novo tipo de turista. As hipóteses foram feitas tendo em conta uma questão fulcral para esta investigação “será o património imaterial, capaz de atrair turistas e retirar algumas áreas de baixa densidade, como Torre de Moncorvo, do marasmo?” foi esta questão que suscitou mais interesse pela temática em questão, pois numa era em que assistimos a massificação do litoral acompanhado por uma progressiva perda de população do interior, como podemos não deixar que estas regiões caiam no marasmo? Numa altura em que temos um interior envelhecido e com baixas taxas de alfabetização e por vezes com parcos recursos económicos, talvez o importante seja oferecer ao turista o que estas áreas têm de melhor, a hospitalidade, a gastronomia e toda uma panóplia de tradições desconhecidas de muitos e que não sendo esquecidas, nem menosprezadas podem constituir uma grande riqueza patrimonial. A formulação de hipóteses num trabalho científico é fulcral, pois estas permitem conduzir o trabalho com rigor, pois constituem um fio condutor fornecendo o critério para a recolha de dados que confrontará as hipóteses com a realidade (Quivy e Campenhoudt, 1992, p.135) A hipótese atualmente funciona como uma antecipação da relação entre dois tipos de fenómenos ou entre dois conceitos. De seguida, apresenta-se o modelo de análise da investigação, este teve como objeto central a população de Torre de Moncorvo, as suas características tradicionais, sociais e demográficas tendo em conta de que modo estes atores sociais encaram e contribuem para a construção e preservação de património imaterial e posteriormente de que forma este contribui para a atração turística em Torre de Moncorvo e para o desenvolvimento regional. 10 Figura 1.1. O Modelo de Análise 2.2. Apresentação e justificação de métodos e técnicas A metodologia aborda criticamente as práticas de investigação, esta alimenta-se dos diferentes caminhos de investigação feitos através dos métodos, sistematizando de forma critica essas práticas. Assim sendo, “a metodologia integra-se num estudo sistemático sobre as práticas de investigação utilizadas aludindo aos métodos e técnicas de investigação”. (Almeida e Pinto, 1981, p. 88). Neste contexto, numa investigação científica, o método pressupõe uma série de etapas e procedimentos que orientam a investigação, possibilitando a escolha das técnicas mais adequadas para obter da melhor forma os objetivos de cada investigação. Estas técnicas são por sua vez uma espécie de instrumentos operativos para a obtenção de dados empíricos durante a recolha de informação. Assim, passamos a apresentar a metodologia utilizada, bem como os métodos e técnicas de recolha de informação empírica. A investigação metodologicamente seguiu o método qualitativo, e a análise intensiva “finalidade última de obter uma ampla compreensão do fenómeno na sua totalidade” (Almeida e Pinto, 1981, p.95) e baseia-se na presença ou ausência de uma característica onde os elementos do discurso estão articulados. População de Torre de Moncorvo Reações Motivações Comportamento Expetativas Identidade Património Imaterial Atração turística Desenvolvimento regional 11 Num primeiro momento procedeu-se a pesquisa e recolha bibliográfica que permitiu construir da melhor forma uma base teórica para a investigação e perceber qual o papel do património imaterial em Moncorvo, bem como fazer um inventário do património e tradições existente na mesma vila. A entrevista semidiretiva foi outra técnica utilizada para obtenção de informação. Segundo Quivy e Campenhoudt, (1992, p.192) “Os métodos de entrevista, pelas suas características de proximidade entre entrevistado e investigador, permitem a obtenção de informações e elementos de reflexão muito mais ricos do que com o uso do método por questionário”. O fato da entrevista decorrer frente-a-frente e a conversa poder ser conduzida e orientada pelo investigador, facilita que o entrevistado exprima perceções, relate acontecimentos e experiências e, que o investigador consiga centrar os seus esforços nas hipóteses de trabalho. Assim, "o conteúdo da entrevista será objeto de uma análise de conteúdo sistemática, destinada a testar as hipóteses de trabalho"(Quivy e Campenhoudt, 1992. P. 192). A entrevista, segundo Quivy e Campenhoudt (1992,p.192), tem como vantagens o grau de profundidade para obtenção de informação e a flexibilidade e permitem-nos perceber a opinião, ainda que disfarçada, do entrevistado acerca de determinado tema. Também é apontada pelos referidos autores, como desvantagem para o uso das entrevistas o facto de, contrariamente ao método por questionário, as informações recolhidas não se apresentarem prontas para efetuar análises particulares. Deste modo, os métodos de recolha e de análise das informações devem ser construídos conjuntamente. Uma das desvantagens desta técnica é a espontaneidade que permite ao entrevistado e que por vezes nos pode induzir a erro. Ao utilizarmos esta técnica, temos de retirar da entrevista o máximo de informação possível, sem querer maçar o entrevistado, usando o conhecimento teórico conseguido anteriormente nas recolhas bibliográficas ou o seu conhecimento prático que tem do tema abordado. Por conseguinte, a entrevista semidiretiva é a mais utilizada. Aqui o entrevistador dispõe de perguntas-guias, relativamente abertas, sobre as quais o investigador tenta receber uma informação por parte do entrevistado. As perguntas-guias são colocadas pela ordem e rumo da conversa, mediamente informal. Através desta técnica, pretendeu-se recolher várias informações, principalmente junto ao Posto de Turismo de Torre de Moncorvo, e diversas Unidades Hoteleiras (Casa 12 da avóTurismo de Habitação; Quinta das Aveleiras-Agroturismo; Quinta da Serra do ReboredoTurismo Rural) e ainda a um emigrante natural de Torre de Moncorvo, acerca dos eventos realizados em Moncorvo ligados ao Património Imaterial; a procura turística e oferta em Torre de Moncorvo e os serviços prestados pelas Unidades Hoteleiras ao Turista e a relação entre o Património Imaterial e a Identidade. Tudo isto foi integrado em questões-guia nas várias entrevistas realizadas durante o mês de Agosto de 2014. 4 Uma outra técnica utilizada foi a observação direta, segundo Quivy e Campenhoudt (1992, p.166), a observação direta capta os acontecimentos no momento, sem intermedio de documentos, nem testemunhos. O observador capta diretamente os acontecimentos sem intervenção dos sujeitos observados. Este faz-se acompanhar geralmente um índice ou categorias de análise sobre todos os indicadores que sejam pertinentes, são estes que designam o que é importante ou não observar e registar. É especialmente utilizada, para reportar aquilo que não é verbal, que tem a ver com códigos de comportamento, modos de vida, traços culturais e organização espacial dos grupos e da sociedade. Nas suas vantagens, conta com a espontaneidade da recolha no momento específico do acontecimento. Nas dificuldades revelam-se algumas como: problemas de aceitação pelo grupo observado, sugerindo uma certa desconfiança ao que o observador está a realizar e por vezes é um fator até de intimidação para o grupo que está a desenvolver o que o observador regista. Neste trabalho, utilizamos esta técnica de observação direta, para festividades como a Páscoa (procissão do Enterro do Senhor e Procissão de Domingo de Páscoa) e para a festa anual de Nossa senhora da Assunção, numa cronologia que compreende Abril e Agosto de 2014. 5 Aqui, as maiores dificuldades registadas prenderam-se com o facto dos intervenientes nestes eventos acharem estranho o facto de estarem a ser observados; nas vantagens destacamos que foi possível obter informação muito mais concisa e em tempo real. Finalmente, neste trabalho foi realizada também uma recolha de testemunhos a populares de Torre de Moncorvo, a fim de conseguir fazer uma seleção anual de várias festividades e tradições adormecidas no tempo e de outras que ainda se festejam. 4 Anexo 1guião das entrevistas. 5 Anexo 2 – categorias de análise da observação direta. 13 A minha recolha oral foi feita junto de dois naturais de Torre de Moncorvo. O primeiro do sexo feminino, na faixa etária dos 85-90 anos, que me cedeu relatos das festividades anuais de Torre de Moncorvo relativos à segunda metade do século XX, bem como me cedeu alguns versos, poesia, músicas do cancioneiro popular e dados de salientar relativos a gastronomia típica de Torre de Moncorvo. O outro interlocutor, do sexo masculino, na faixa etária dos 20-25 anos, cedeu-me relatos de algumas festividades de Moncorvo nos últimos anos, ligados essencialmente à música, bandas filarmónicas locais, eventos ligados ao património, cultura e gastronomia, essencialmente tendo em conta o ano 2013 e 2014. 2.3. Torre de Moncorvo – Caracterização histórico-patrimonial, geográfica e sociodemográfica A vila de Torre de Moncorvo é de origem medieval e obteve carta de foral em 1285 concedida pelo rei D. Dinis. Na confluência com o rio Sabor e Douro, Moncorvo ficou dotado de uma posição estratégica razão pela qual se construíram desde logo fortes muralhas e um castelo, do qual hoje apenas sobram as muralhas e as portas principais. No século XVII Moncorvo começou a crescer para lá das muralhas, aparecendo nesta altura autênticas obras de arquitetura renascentista existentes ainda hoje na vila e que constituem a grandeza do seu património edificado. Esta Vila apresenta vários arruamentos que partem da praça central fazendo uma malha urbana irradiando em forma de estrela. Moncorvo começou por se constituir de três praças com três funções diferentes: a praça civil, a religiosa e a comercial, patentes ainda hoje em dia também. Ligando os dois núcleos urbanos (o medieval e o renascentista) temos a praça civil, o grande espaço de reunião popular. Nos séculos XV e XVII, Moncorvo conheceu uma prosperidade inigualável devido a riqueza agrícola do vale da Vilariça. Também a expansão da cultura do linho cânhamo, da vinha, do azeite, da seda, da lã, da amêndoa, cereais e ferro, fez de Moncorvo um local com o dinamismo comercial muito elevado e um nó de comunicação entre Trásos-Montes e a Beira. No século XVI, Moncorvo passa a sede de uma das quatro comarcas de Trás-os-Montes. Graças à produção de linho cânhamo, vão surgir em finais do seculo XVI os armazéns reais de cordoaria. Devido à larga produção de azeite, instala-se também em 14 Moncorvo por esta altura, uma fábrica de sabão. Esta prosperidade económica de Moncorvo de então explica a construção da majestosa igreja matriz (cuja construção durou cerca de 100 anos, passando por ali inúmeros artistas e pedreiros até à sua conclusão) e a renovação urbana da vila. Para percebermos melhor a região de Moncorvo, as suas atividades e ocupações, torna-se importante que conheçamos a vila e a região sob o ponto de vista geográfico e geológico, esta geologia influencia a paisagem, as práticas agrícolas, os modos de vida e de resiliência das suas gentes que trabalham solos ingremes e irregulares, contudo férteis. Assim, Torre de Moncorvo localiza-se Entre-Os-Rios Douro e Sabor, na província de Trás-os-Montes, numa latitude de 41ᵒ11”Norte e numa longitude de 6ᵒ 59” Oeste. Tem uma área de 542,77 km2 incluindo todo o concelho. São os seus limites a Norte Vila flor, Alfandega da Fé e Mogadouro, a Sul o rio Douro, a Este Freixo de Espada à Cinta e a Oeste por Carrazeda de Ansiães, a Noroeste por Vila Flor e a Sudoeste por Vila Nova de Foz Côa. Moncorvo faz parte da sub-região agrícola nº 13 (a terra quente transmontana) e tem como freguesias: Açoreira, Adeganha, Cabeça Boa, Cardanha, Carviçais, Castedo, Felgar, Felgueiras, Horta da Vilariça, Larinho, Lousa, Maçores, Mós, Torre de Moncorvo, Peredo dos Castelhano, Souto da Velha e Urros. A região de Moncorvo integra-se no Nordeste Português e a sua região delimita uma série de plataformas e altitudes médias que pendem para o Douro com valores entre os 400 e 500 metros. Os seus vales têm orientação Norte/Sul, em contacto com o graben da Vilariça – Longroiva, enquadrada na fratura BragançaVinhais. A nível geológico, em Moncorvo dominam os xistos metamorfizados do complexo xisto-grauváquico (CXG). A estes se juntam também manchas de granitos e depósitos aluviões antigos e recentes no Vale da Vilariça. Moncorvo tem clima próprio da região subcontinental, que corresponde à terra quente. A temperatura média anual do solo da Terra Quente Transmontana é da ordem do 14º C, sendo que a temperatura média anual nos planaltos situa-se entre os 16ºC e 18ºC e superiores a 20ºC nos vale do Douro e do Sabor. A precipitação anual média em Moncorvo é inferior no Vale do Douro, Vale da Vilariça e Sabor, sendo mais elevada na Serra do Reboredo. 21 A sequência das casas em ascendência já que a quinta está situada numa encosta, inicia-se na Casa Branca, Casa da Serra, Pombal e Por último a Casa do Retiro. Na Quinta encontra-se uma pequena capela, construída em honra de Santa Teresa D'Avila que remonta ao século XVIII, assim como uma fonte da mesma época. No espaço envolvente existe uma densa zona florestal, com árvores centenárias: castanheiros, pinheiros, medronheiros, zimbros, sobreiros e camélias. Todo este cenário convida ao contato com a natureza, através de longas caminhadas desfrutando de uma paisagem admirável; dispõe também de um campo de ténis, piscina, parque infantil e bicicletas. Entre a zona florestal e a zona agrícola situa-se o jardim Romântico, original desse período e caracterizado pelo lago e pela pérgula, assim como pela vegetação selecionada. Usufruir desta quinta passa por acompanhar e conhecer a atividade agrícola, dedicada essencialmente à viticultura e à olivicultura, e tantas outras atividades tais como passear na zona florestal, jogar uma partida de ténis e dar um mergulho na piscina. O agroturismo da Quinta das Aveleiras é então constituído por quatro casas: a Casa Branca, que é uma típica casa do Douro. O primeiro andar era utilizado para a casa do feitor da quinta, responsável pela exploração agrícola; no piso térreo guardavam-se os animais de trabalho, burros e outros animais; a Casa da Serra, assim chamada devido ao facto de se situar no seguimento da serra do Reboredo e foi construída para uso exclusivo do guarda-florestal e da sua família, o qual vigiava e tratava da zona florestal da propriedade. Anexo a ela temos o jardim de Camélias, a fonte do séc. XVIII e uma pequena albufeira; a Casa do Retiro cujo nome deriva de inicialmente ter sido o abrigo de um eremita no lugar da capela dedicada a Santa Teresa d'Avila. Posteriormente (séc. XIX) o aspeto exterior do edifício contíguo foi alterado de acordo com a arquitetura de época, pintada em listas de duas cores e um beiral em madeira rendilhado. Mais tarde a casa é restaurada e passa a ser o alojamento de trabalhadores de atividades agrícolas da quinta. Foi restaurada de forma a ficar com uma imagem típica rural, aproveitando as paredes de xisto à vista, bem como um alpendre de características transmontanas. Por fim, o Pombal, os pombos tinham grande importância nesta região para suprir as necessidades alimentares. Este edifício foi recuperado e aumentado mantendo a estrutura original com as típicas paredes em xisto do interior do pombal. A produção de vinho e azeite é o ex-líbris da quinta. Destacamos o azeite cabanilho, designação atribuída no Douro Superior ao muro em forma de círculo 22 construído em pedra à volta do tronco da oliveira. O Cabanilho é aplicável sobretudo em oliveiras colocadas em declives servindo assim de suporte às mesmas. Relativamente ao vinho, é cor rubi, com um aroma intenso a mirtilos, especiarias e ameixa preta, é um vinho volumoso mas macio e agradável a degustação. Estes três tipos de alojamento foram estudados de acordo com bibliografia préexistente e seguidamente foi realizada uma entrevista aos seus proprietários e/ou funcionários, tendo como objetivo perceber de que modo cada unidade contribui para a divulgação do património de Moncorvo aos turistas. 23 Capítulo III – Tradições e Festividades de Torre de Moncorvo 3.1. Inventário de festividades e tradições de Torre de Moncorvo Este trabalho contemplou o levantamento e inventário de várias tradições em Torre de Moncorvo, tendo em conta o calendário anual. Muitas destas foram alvo de observação direta do acontecimento outras surgiram e foram relatadas tendo em conta bibliografia pré-existente sobre o tema. Neste ponto torna-se importante salientar também tradições ligadas ao trabalho no campo, em eras que a maior parte da população era agrícola; tradições gastronómicas e tradições pagãs que em muitos casos se foram perdendo no tempo. Os eventos anuais relatados compreenderam uma faixa cronológica de Dezembro de 2013 a Agosto de 2014. Assim, começamos por salientar em tabela os eventos e festividades anuais, sendo que as que foram alvo de observação direta serão a frente relatadas mais pormenorizadamente. Tabela 3.1. Festividades anuais de Torre de Moncorvo comparação anos 50/60 e ano 2013/2014 (Dezembro a Agosto) Até meados anos 50/60 2013/2014 Natal O Natal era festejado de maneira simples, o mais importante era a união familiar e a construção do presépio comunitário na vila. O momento mais esperado desta festividade era a missa do galo e a fogueira que se fazia de seguida no adro da igreja matriz, onde, toda a noite as pessoas se aqueciam e conviviam, cantando quadras alusivas a época natalícia.6 Na noite de natal fazia-se também a representação da Pastorada que consistia na visita ao menino Jesus e a sua adoração. Quase todas estas tradições se perderam. No natal de 2013 houve pela vila uma exposição de presépios feitos de maneira tradicional com materiais pobres, das várias freguesias que foram depois alvo de um sorteio para o melhor presépio. Fez-se também no adro da igreja matriz de Moncorvo a fogueira do galo. Contudo, perdeu-se o encanto de outros tempos, e estas tradições diferem em muito dos tempos idos. 6 Anexo 3 -Quadras Natalícias. 24 Em termos gastronómicos em Torre de Moncorvo, nesta altura, destacava-se o bacalhau cozido e o polvo também cozido. Primeiro de Janeiro O início do festejo fazia-se com uma eucaristia em latim. Depois disto, Os mais jovens passeavam pelo povoado fazendo jogos populares. Estes festejos duravam até ao dia de Reis, os jovens corriam a terra porta a porta pedindo fumeiros e outras iguarias com as quais faziam posteriormente verdadeiros banquetes. Este cortejo era sempre acompanhado por versos que eram cantados ou recitados de porta em porta.7 Esta tradição foi uma das que se perdeu mais facilmente nas malhas do tempo. Em 2014 apenas se pôde constatar a realização do cortejo de Reis por parte das escolas primárias e preparatórias de Torre de Moncorvo, bem como do lar de terceira idade. Entrudo (Carnaval) Em Torre de Moncorvo, fazia-se por esta altura aquilo que se chamava de “ correr o Entrudo”, consistia em correr a terra porta a porta contando os segredos dos moradores. Entre o domingo gordo e o dia de entrudo, as atividades eram variadas e iam-se sucedendo numa panóplia de jogos populares, partidas e brincadeiras. Exemplo disso são as “ cacadas” em pequenos grupos, os jovens da vila disfarçados e sem grande alvoroço, abriam portas e janelas daqueles vizinhos com quem não simpatizavam e atiravam para dentro das casas com “ cacos” de barro, pedras e cascas de frutos secos. Outra tradição era a Serração da Velha, tratava-se de uma cerimónia de passagem do inverno para o verão. “ A serração da velha” é um cortejo com figuração de uma velha através de um fardo de palha e eliminação deste através de fogo ou serração final. Normalmente Também estas tradições caíram em desuso, hoje apenas assistimos a desfiles de mascarados das escolas préprimárias, primárias e preparatória da vila. Em tempos, chegou a fazer-se na praça central o prémio para a melhor máscara, mas numa terra onde os jovens não dominam as tradições acabam também por morrer. 7 Anexo 4 - Versos do Primeiro de Janeiro. 25 estas atividades eram acompanhadas por músicas e cantares.8 A festa da Amendoeira em Flor A amendoeira em flor em Moncorvo desde há longos anos que trás as terras de Moncorvo numerosas excursões de todo o pais. Entre o mês de fevereiro e março, Moncorvo enche-se de pessoas que querem não só ver a amendoeira coberta de flor, igualando-se quase a um manto branco de neve visto da serra do Reboredo, mas também provar o diamante da terra - a amêndoa coberta. Apesar de não se saber qual a data do início da sua comercialização sabemos que já em 1886 na exposição universal de Paris e na feira internacional de Filadélfia, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, fazia grande figura com este produto. Em 2014 a amendoeira em flor foi festejada com a habitual feira de artesanato e outras festividades oferecidas ao turista. Foi inaugurada da XXV Feira de Artesanato de Torre de Moncorvo. A VIII Feira dos Produtos da Terra e Stocks realizou-se de 3 a 5 de Março, também no Pavilhão Municipal. A comemoração da XXV edição da Feira de Artesanato teve como principal novidade este ano a alteração da estrutura da feira, nomeadamente a disposição dos stands e também a presença de novos artesãos. A feira de artesanato pretende promover o artesanato não só nacional mas também local e daí que as atividades tradicionais deste concelho não tenham sido esquecidas, pois em destaque estiveram além das amêndoas, estiveram patentes as rendas, cobertas e a cestaria. 8 Anexo 5 -Versos e músicas relativas ao Entrudo. 26 Páscoa Época de meditação e oração, a Páscoa era repleta de atividades tradicionais, desde o domingo de ramos que iniciava a dolorosa Semana Santa até ao domingo de Páscoa. Neste período, fazia-se a via-sacra pela vila, a encomendação das almas, o sábado de aleluia e o domingo de Páscoa. Uma das tradições mais importantes desta época é o encomendar das almas, tratava-se de uma devoção às almas do purgatório e aos familiares e amigos que haviam partido.9 Neste dia a gastronomia era variada, tanto em casa dos mais abastados como dos mais humildes comia-se cabrito ou borrego, abria-se o folar acompanhado sempre com vinho. No que tocava a doçaria faziam-se os doces da Páscoa, os económicos e acompanhavamse com licor de canela. Atualmente a Páscoa em Moncorvo continua a ter o mesmo espirito para os católicos, contudo algumas diferenças se notam nos seus festejos como se pode constatar na observação direta. Seguidamente a este quadro iremos proceder a descrição mais pormenorizada da Páscoa em 2014. Santos Populares Celebrava-se com grande empenho a festa de S. João em Moncorvo, organizada pela população em conjunto com a Confraria dos Cavaleiros. Nesta altura faziam-se pela vila as cascatas de S. João. No dia de S. João, da parte da manhã fazia-se a Mourisca (dança dos Mouros) a cavalo, onde só participavam os nobres da vila. Na parte da tarde faziase um espetáculo de comédia para todos. À noite, faziam-se bailes com a juventude da terra que saltavam fogueiras com rosmaninho e bela-luz a arder para que purificasse quem saltava a fogueira e os protegesse de males durante todo o ano. A noite era passada entre jogos de roda, bailes, anedotas em roda da fogueira, e versos cantados por todos.10 Em 2014, a comissão de festas de Nossa Senhora da Assunção organizou uma sardinhada para angariar dinheiro para a romaria anual. Uma iniciativa nova este ano foi a exposição das cascatas das várias freguesias de Moncorvo por toda a vila. Estas cascatas estiveram expostas o mês todo de junho. Também no museu do ferro, foram montadas exposições alusivas aos santos populares na vila de Moncorvo. Ficaram para trás os bailes, as fogueiras e a alegria de outros tempos. 9 Anexo 6 - Orações de Páscoa. 10 Anexo 8 - Versos e quadras de São João. 27 Festa de Nossa Senhora da Assunção Esta festa/romaria é relativamente recente em Torre de Moncorvo. Era festejada em meados dos anos 40 apenas em Vila Flor, onde a santa tem o seu Santuário. Atualmente e desde meados do século XX festeja-se simultaneamente em Vila Flor e Torre de Moncorvo. Relativamente a festa de Nossa Senhora da Assunção, serão relatados de seguida os dados obtidos na observação direta. Durante o trabalho de observação direta, foram observados três momentos importantes das tradições anuais de Moncorvo, foram eles a procissão do Enterro do Senhor, a procissão de Páscoa e a Festa/ Romaria de Nossa Senhora da Assunção. No que toca à Páscoa, a primeira atividade ligada a esta festividade é o Enterro do Senhor sendo depois seguida da procissão de Páscoa. Assim, o Enterro do Senhor foi celebrado com uma procissão pelas ruas da Vila. A procissão realizou-se no dia 18 de abril de 2014, na Sexta-feira Santa, sendo precedida por uma missa na matriz de Moncorvo. Nesse dia a vila estava coberta por panos roxos, principalmente nos edifícios públicos como a Câmara Municipal. Nas casas particulares sucediam-se velas nas varandas, janelas e sacadas principalmente nas ruas onde passaria a procissão. A procissão começou as 17h depois da eucaristia e na vila vivia-se um ambiente de tristeza e silêncio, as pessoas, cerca de 200, que participavam na procissão estavam visivelmente emocionadas em clima de luto, silêncio e dor. Também a indumentária dos mesmos era ténue, escura apresentando respeito e luto pelo Senhor que ia a enterrar. A procissão saiu da igreja da misericórdia e tinha uma organização própria: à frente duas bandeiras, uma levada por crianças e outra maior levada por adultos, na posição horizontal; de seguida iam as pessoas que fazem parte da direção da Santa Casa da Misericórdia (conhecida como Irmandade da Santa Casa) e também, o presidente da Câmara, os párocos e sacerdotes. Posteriormente, segue-se o esquife de Jesus debaixo do Pálio e o andor de Nossa Senhora das Dores. Entre os andores vão pessoas vestidas de personagens da vida de Jesus. Após os andores, vai uma banda filarmónica, tocando marchas fúnebres e finalmente, as pessoas que acompanham a procissão. A faixa etária dominante na procissão era dos 45 anos e mais e não faltaram os ilustres da terra e respetivas famílias à cerimónia. A procissão teve um percurso longo, ao qual os moncorvenses chamam de “Volta Grande” que pressupôs: Igreja da Misericórdia, Praça Francisco Meireles, Largo General 28 Claudino, Largo de Stº António, Praça francisco Meireles, Rua dos Sapateiros, Rua da Misericórdia, acabando na Igreja da Misericórdia. Esta teve o seu término às 18h30, novamente na Igreja da Misericórdia. Figura 3.1. Locais de observação direta da Procissão do Enterro do Senhor 1º Momento de Observação direta – Igreja da Misericórdia 2º Momentos de observação direta – Praça Francisco Meireles De seguida, assistimos no Domingo de Páscoa à procissão de Páscoa, esta começou às 11h da manhã de dia 20 de abril de 2014, foi antecedida pela arruada da banda filarmónica do Felgar, é aqui que começa novamente a música até então desaparecida pelo luto. O ambiente já não é tao pesado, há leveza nos rostos e no espirito da população. A procissão partiu da Igreja Matriz e a hierarquização da mesma é um pouco diferente: Escuteiros, Cruz e duas lanternas, representantes da Câmara Municipal, padre com a santa custódia nas mãos e pálio, banda filarmónica e finalmente a população. Neste dia o percurso da procissão é bem diferente, percurso este chamado pela população de “Volta Pequena”: Igreja Matriz, Largo de Stº António, desceu de seguida até à Praça Francisco Meireles, Largo General Claudino e acabou na Igreja Matriz. A indumentária já era mais alegre, as pessoas iam vestidas com a roupa domingueira, ainda 29 usual no interior transmontano. O término deu-se na igreja matriz por volta das 11h30, onde iria celebrar-se a missa de Páscoa. 11 Figura 3.2. Locais de observação direta da Procissão de Páscoa 1º Momento de Observação direta – Adro da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo 2º Momento de observação direta – Praça Francisco Meireles 3º Momentos de observação direta – Largo General Claudino Pimentel De 12 a 20 de Abril a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e a Santa Casa da Misericórdia de Torre de Moncorvo encetaram um programa de promoção das tradições da Semana Santa. As primeiras cerimónias tiveram início no dia 12 de Abril com a bênção dos ramos na praça Francisco Meireles; missa e vigília dos escuteiros. No dia seguinte houve uma representação ao vivo da via-sacra pelas 21h pelo grupo de teatro Alma de Ferro. A procissão teve início na Igreja da Misericórdia, onde Jesus toma a Cruz, a primeira representação das nove estações da vida de Jesus Cristo. A via-sacra terminou na Praça Francisco Meireles quando Jesus é pregado na Cruz. Na quinta-feira Santa, dia 17 de Abril, realizou-se a Ceia do Senhor, e a procissão dos Passos, pelas 21h00. 11 Anexo 2 - Categorias de análise da observação direta 30 No dia 18 de Abril fez-se a Procissão do Enterro do Senhor. No dia de Páscoa a Missa da Ressurreição realizou-se na Igreja Matriz pelas 11h e às 12h00 deu-se a procissão da Aleluia, seguindo durante a tarde a visita pascal. A população aderiu às celebrações quer participando nas atividades religiosas e culturais, mas também através da colocação de candeeiros, velas e colchas nas janelas e varandas das suas habitações, durante as procissões. 12 Relativamente ao segundo momento de observação direta, a festa de Nossa Senhora da Assunção, conseguimos perceber a complexidade da organização da festa e procissão. O programa da festa de 2014 compreende três dias de eventos. Na praça central (Francisco Meireles) começam a montar-se os palcos e as tendas no dia 13 de Agosto, este dia amanhece acompanhado por o lançamento de 13 morteiros a assinalar o dia de início dos festejos, nesse dia as atividades são essencialmente atuações de ranchos, gaiteiros, e algumas bandas musicais. No dia 14, mais uma vez ao amanhecer lançam 14 morteiros e o programa da festa não difere muito do dia anterior. O dia 15, feriado nacional, é o dia da majestosa procissão em honra de Nossa Senhora da Assunção. Marcam o início dos festejos 15 morteiros. Às 9 horas começa a arruada da banda filarmónica de Carviçais pelas ruas da vila. Às 10 horas dá-se o hastear das bandeiras de Portugal e do município nos Paços do Concelho com a presença do Presidente da Câmara e do seu executivo, Corpo dos Bombeiros Voluntários, Comando da Guarda Nacional Republicana, Direção da Santa Casa da Misericórdia de Torre de Moncorvo, Presidente do Agrupamento de Escolas e os vários presidentes das Juntas de Freguesia do Concelho. As 10h30 chega a banda filarmónica Felgarense e às 11 horas começa a missa solene em honra de Nossa Senhora da Assunção pelos párocos da vila. As 16 horas as bandas filarmónicas iniciam um concerto no adro da igreja pelas bandas do concelho e as 18 horas inicia-se a majestosa procissão. Às 18 horas da tarde, a temperatura do ar rondava ou 36º e a procissão sai das portas principais da igreja, o adro estava repleto de populares com olhar de comoção e em silêncio esperando a aproximação dos andores de sua devoção para depositarem as suas ofertas. 12 Anexo 7 - Cartaz da Semana Santa de Torre de Moncorvo de 2014. 37 o meu casamento no dia de amanhã, fazia muito gosto que me viesse acompanhar” a resposta era variável, mas seria mais ou menos assim “ que Deus e Santa Maria te acompanhem”. Depois disto alguns iriam ao casamento outros apenas esperavam os noivos na igreja. A noiva levava um ramo de laranjeira, simbolizando a sua pureza. No que toca a indumentária só as noivas das classes mais elevadas levavam normalmente vestido de noiva, as mais pobres e remediadas levavam normalmente um fato de saia e casaco de cores ténues e sóbrias e pela cabeça levavam um véu cinzento ou esbranquiçado. O homem levava também um fato inteiro simples, com um lenço branco no bolso e uma gravata cinzenta. Outra tradição ligada ao casamento e à crença popular passava pela noite de núpcias, nessa noite diziam que quem apagasse primeiro o lampião a petróleo, morreria primeiro, assim a maior parte das pessoas deixava a luz do lampião morrer por ela. Tradições ligadas à morte e ao enterro A mortalha era celebrada também com regras bastante vincadas tradicionalmente. O velório era feito em casa onde se rezava a coroa, ou seja o rosário. Aos familiares cabiam cumprir várias obrigações, uma delas era partir um pão em três e dá-lo a alguém que estivesse por ali perto; vestia-se uma pessoa dos pés a cabeça com roupa do falecido/a; durante nove dias na igreja colocavam-se dois cirios acesos e um pano preto no chão, onde as pessoas deixavam as esmolas para que se rezassem responsos por alma do defunto. Depois da missa de saimento22, o padre durante três domingos fazia o acompanhamento que consistia em ir buscar a família e as pessoas amigas do defunto a casa e quando lá chegava rezava padre nossos em latim. Na missa de sétimo dia, à porta da Igreja, antes que toda a gente saísse, duas pessoas amigas ou familiares do falecido esperavam as pessoas que ao saírem recebiam uma moeda por alma do morto, este dinheiro era dado a toda a gente que fosse a missa, independentemente da condição social. Tal como no casamento, ao enterro ninguém faltava também. Jogos Populares Os jogos populares em Moncorvo ligam-se não só as crianças que poucos brinquedos tinham para brincar então inventavam variados jogos, mas também aos adultos e aos trabalhos no campo e com instrumentos agrícolas. 22 Missa de saimento – primeira missa após o falecimento. 38 Segundo Rocha (1990, p.16) os jogos populares valem como passatempo, descanso, recreio e divertimento, mas por detrás destes jogos houve sempre um sentido estético e pedagógico que reveste várias atividades culturais das gentes rurais. A juntar-se à função recreativa, os jogos preocupavam-se em transmitir aos mais jovens determinados conhecimentos e formas de vida que constituíam o saber coletivo das gentes de Moncorvo. Nos dias de hoje, os jogos deixaram de fazer parte do quotidiano coletivo e servem antes como ponto de referência tradicional e da necessidade de visibilidade cultural. A sua prática é circunscrita aos dias de festa ou a eventos ligados as tradições da vila ou de aldeias que pertencem a Moncorvo. Exemplos de jogos:  Anel ou lencinho – todas as crianças se sentavam numa roda e por detrás delas passava outra criança, que pousava o anel ou o lencinho nas mãos postas atrás das costas.  A barra – era uma espécie de jogo da malha, em que se tenta atirar a barra o mais longe possível.  Cabra cega – consistia num grupo de crianças, uma delas com os olhos vendados e bastante atordoada pelas voltas que lhe davam, que corria atrás do grupo até apanhar algum membro.  Cântaro – o jogo do cântaro, aplicava-se mais às crianças do sexo feminino. Consistia numa fila de meninas, cuja primeira menina possuía uma cântara de barro na mão, passando-a sempre para a criança de trás, quem a deixa-se cair e a partisse perdia o jogo e ia sendo eliminada. A que não fosse eliminada ganhava o jogo Mais ligados ao trabalho agrícola temos outros jogos tradicionais, eram jogos direcionados para os jovens e adultos e não tinham representação apenas em Torre de Moncorvo mas também em quase toda a região de Bragança:  Ferro bacelar – o ferro bacelar ou bacelo é usado para plantar a vinha. No fim da plantação os jornaleiros criaram este jogo para se divertirem. O jogo consistia em atirar o ferro mais longe possível.  Corrida dos cestos vindimos – mais um jogo ligado à vinha e mais especialmente às vindimas. Embora seja um jogo mais praticado na região demarcada do Douro, também se praticava nas inúmeras vinhas de Torre de Moncorvo, embora com 39 menor dimensão que as anteriores. O jogo teve origem na atividade do transporte da uva da vinha para o lagar e consiste essencialmente na rapidez de chegada de cada um dos trabalhadores.  Corrida de almudes – o caneco de almude é um recipiente feito de lata e com a base em madeira onde se transportava o mosto. O jogo consistia numa corrida parecida a dos cestos vindimos, o que chegasse mais depressa e sem derrubar o líquido, vencia.  Corrida de arcos – neste jogo usam-se os arcos que envolvem as pipas, aquando da sua desmontagem. O jogo consiste em guiar estes arcos com um ferro guia.  Varas – este jogo liga-se também ao trabalho rural e às estacas da vinha ou de qualquer outro terreno. Espetavam-se sempre menos estacas no terreno do que o número de jogadores. Depois em corrida os jogadores acorriam ao terreno procurando as varas espetadas, quem ficasse sem vara perdia o jogo. No fim ganhava quem conseguisse apanhar a última vara disposta no terreno.  Argolas – este jogo não se fazia apenas no campo, mas também em feiras e muitas delas usaram este jogo até bastante tarde, chegando quase aos nossos dias. Consistia numa vara espetada no chão e com uma certa distância o jogador, tentava colocar através de pontaria argolas na vara. Tabela 3.4. Atividades tradicionais e artesanato de Torre de Moncorvo A vida artesanal em Torre de Moncorvo A vida artesanal em Moncorvo e nas suas freguesias era muito rica, faziam-se verdadeiras obras de arte de maneira simples e muitos trabalhos aprendidos com métodos tradicionais e ancestrais. O artesão em Moncorvo, regra geral não vivia apenas do artesanato, vivia do campo e tinha nos intervalos da lavoura como entretenimento a vida artesanal, outros viviam apenas disto. Em primeiro lugar, os artesãos faziam peças para si e família, rocas, berços e flautas para os filhos, para a lide de casa e para as suas próprias casas, sendo as nossas aldeias autênticos museus a céu aberto. Brinquedos artesanais No mundo rural, cada recanto de outrora tinha uma criança e era nesses recantos da rua, de casa ou do quinteiro da casa que se desenvolviam as brincadeiras que embora atualmente nos pareçam de pouca significância, fizeram adultos com gosto pela 40 brincadeira e partilha dos escassos brinquedos que tinham com os vizinhos, primos, amigos e irmãos. O brinquedo rural infantil estava muito limitado pelo escasso poder de compra e pela distância dos principais centros urbanos e colocavam as crianças de há 50 e 60 anos atrás à margem de muitas das brincadeiras. Os brinquedos eram feitos pelas crianças ou pelos pais que tinham mais jeito para trabalhar a madeira e fazer um carrinho de bois e pelas mães que tendo jeito para a costura faziam bonecas de trapos. Claro que em Moncorvo muitos dos brinquedos eram comprados nas feiras e eram produtos de grande interesse, mas isto acontecia uma vez por ano, quando as famílias estavam mais desafogadas. Mesmo os mais abastados, tinham essencialmente brinquedos feitos à mão por um avô ou pai, ou comprados nas feiras de ano, nos tendeiros. Os primeiros anos de vida da criança rural era ausente de brinquedos. Era a partir dos 6 ou 7 anos de idade que o imaginário e criatividade das crianças desenvolvia o gosto por algo que os acompanhasse nas traquinagens e brincadeiras. É aqui que começam a surgir alguns brinquedos que conhecemos até hoje. Exemplos de brinquedos artesanais:  Pião – era mais direcionado para os rapazes que exibiam às meninas as suas habilidades, não só no que toca atirar o peão, mas também aos desenhos que faziam na terra, no seu imaginário autênticas obras de arte.  Piosca – quando feitas em casa, cortava-se uma das rodas dos carros de linhas, fazia-se um orifício no meio onde se enterrava um eixo e a piosca rodava não com um cordel mas com o movimento giratório dos dedos da criança, e estes ficavam a observar quase como que hipnotizados até a piosca parar no chão de soalho de casa ou em cima de uma mesa, formando intermináveis círculos. Por vezes faziam corridas de pioscas, vendo qual delas parava primeiro.  Flauta – era uma flauta rudimentar feita de cana com seis buracos. A música acompanhava os mais novos quando começavam a trabalhar no campo ou a guardar rebanhos para que o tempo passasse mais depressa.  Carrinhos – faziam carros em madeira com rodas em cortiça, de mais fácil manuseamento. O chão do carro era uma tabuinha lisa, as rodas de cortiça moldadas eram presas com pequenos preguinhos deixando folgas para que 41 as rodas girassem. Os mais engenhosos faziam não só carrinhos, mas carroças ou camiões com atrelados.  Carrinho de sabão – para os confecionar usava-se uma carreta de linhas, um pouco de sabão, um elástico e um pequeno pauzinho. Passava-se o elástico pelo buraco da carreta e do outro lado um pauzinho que funcionava como cavilha. Do outro lado da carreta sobre a roda colocava-se uma rodela de sabão furada no centro por onde passaria a outra extremidade do elástico. Neste buraco introduzia-se um pauzinho, este servia como alavanca. Posteriormente torcia-se o elástico. Colocado numa superfície inclinada, a própria força do elástico a desenrolar-se fazia andar o carrinho de sabão.  Voadeiras – era um brinquedo simples e de fácil angariação. Bastava um pau com pouco menos de um metro e na sua extremidade colocavam-se dois bicos de jornal, que girariam facilmente com o vento pois estavam espetados no pau com um pequeno prego ou mesmo com espinhos de silvas.  Castanholas – este brinquedo acompanhava as crianças diariamente a caminho da escola ou a caminho já do árduo trabalho do campo. Faziam-se atando duas superfícies côncavas de maneira para conseguirem um som que lhes soasse bem no ouvido e os distraísse.  Fisga – um instrumento que chegou até aos nossos dias e que qualquer criança ainda gostaria de experimentar. Nada mais era que um galho de uma árvore em forma de “V” com alguma dureza e um elástico nas duas extremidades superiores, onde eram colocadas pedrinhas que haviam de fazer alguns estragos não só em janelas, mas em candeeiros, animais, etc.  Armas.- Uma das armas de brincar mais conhecidas pelos rapazes de há 50/60 anos atrás era o arco feito de olmo. Era uma espécie de besta que servia para disparar contra o lado rival. Utensílios artesanais ligados à primeira infância Muitos outros instrumentos se faziam artesanalmente ligados à criança, como era o caso dos instrumentos que proporcionavam o seu repouso e facilitavam as lides domésticas de mães e avós que deles tomavam conta:  Tenedor – também conhecido como gaiolo. Tenedor vem do latim tenere (sustentar, amparar). Era uma espécie de gaiola, embora o termo nos pareça muito agressivo, comparando-se a grades de prisioneiros. Por 42 vezes forravam-se a pano e almofadões, onde se colocavam as crianças a brincar e onde por vezes até adormeciam, enquanto mães e avós, faziam a lida da casa, bordavam, teciam ou simplesmente conversavam com as vizinhas. Nas aldeias de Moncorvo e em Moncorvo mais propriamente havia pontos de reunião à sombra onde as vizinhas conversavam e onde os filhos mais crescidos brincavam e os mais bebés repousavam ou “ palravam” no gaiolo.  Berço – os berços variavam de acordo com as posses da família. Os mais abastados tinham berços fixos, muito comparáveis aos que conhecemos hoje. Os camponeses e os mais pobres faziam os próprios berços para os seus filhos. Devido à sua parecença com canastras havia mesmo quem assim lhe chama-se. Vamos abordar aqui os berços das famílias com menos posses, pois essas constituem o que de mais popular há no artesanato e na técnica de fazer berços com as próprias mãos. Tratavase de uma superfície côncava, com umas pernas também côncavas e com uma superfície para a mãe ou avó colocarem os pés e abanarem os bebés. Eram berços rudes e simples mas forrados com todo o amor a bons panos de linho almofadados para o maior conforto das crianças.  Carrinho de bebé – tratava-se de um carrinho, onde colocavam o bebé quando este já não queria gatinhar mas sim caminhar. Era feito de madeira tinha duas rodinhas à frente e uma espécie de volante onde o bebé se segurava para caminhar, era algo muito comparável aos atuais andadores que vimos hoje em dia em qualquer loja de criança, só que muito mais rudimentar e com menor segurança e conforto para o bebé.  Cocho – era uma espécie de parque onde colocavam a criança para estar sob vigília, este não tinha rodas, portanto não saía do lugar, era antecedente ao carrinho de bebé. A Olaria Com raízes pré-históricas neolíticas e castrejas, o trabalho de olaria teve um grande surto no nordeste transmontano entre os séculos XVII e XVIII. A época liberal marcou o início da sua decadência, pois levou à arrematação de muitos baldios, onde se arrancava o barro e se punha a louça a secar. Tratava-se de um trabalho duro, constituído por diversas fases. 43 A arranca do barro marcava a primeira fase do trabalho do oleiro, depois este era moído e peneirado pela peneira do pão. Depois desta fase, o barro ia para a roda do oleiro, de tração manual ou animal para que posteriormente fossem colocadas a secar ao sol. A última etapa era o enfornar para cozer e endurecer. A olaria tinha uma época específica no ano, preferencialmente no início do mês de maio, pois o calor ajudava os vasos a secar. Destacam-se peças de olaria como:  O cântaro – era um recipiente de barro confecionado pelos oleiros, que servia também de medida. O noivo de uma terra estranha pagava o vinho como uma espécie de medida de através do cântaro.  Talha – feita de cerâmica vermelha e as vezes preta, lisa normalmente. Tinha diversas serventias: servia para curar as azeitonas ou como reservatório de líquidos.  Talhoca – tratava-se de uma talha mais pequena  Panela – pode levar até cinco litros, só com uma asa ou também com duas que partem do rebordo do vaso.  Púcaros, alguidares, caçoilas, panelas de três pés que serviam para cozer as castanhas. Assim era o serviço de almoçar e jantar de luxo dos agricultores mais pobres O Arrôcho Era um utensílio de madeira que rondava os 30 cm de comprimento, era apresentado em cru ou então pintado de cores garridas de acordo com a preferência de quem os fazia. Destacavam-se não só em Moncorvo mas essencialmente nas freguesias vizinhas de Larinho e Felgar, onde tinham mais significado. Começaram como um utensílio que ajudava as mulheres a atar os molhos de cereal aquando das cegadas, passando mais tarde a ser quase uma peça de artesanato, feita pelos namorados, manualmente, para oferecer às raparigas. Apesar de serem peças ainda pouco conhecidas para a maioria das pessoas, achamos importante salientá-la para mostrar como muitas vezes os objetos que estão ligados aos trabalhos agrícolas, podem tornar-se verdadeiras peças de artesanato, que por vezes até caracterizam determinada povoação. 44 Não eram os homens que atavam, em fachas, os molhos de palha, eram as mulheres que se encarregavam deste serviço, mas por as julgarem menos fortes faziam-lhes os homens os arrochos para as auxiliar a apertar os fardos. Atando duas ou três hastes de centeio, trigo ou cevada - conforme o cereal ceifado - pelas espigas, com um nó de tecedeira, com o auxílio do arrocho consegue o desejado aperto. Como este objeto é de uso exclusivamente feminino aparece adornado de rústicos entalhes que os namorados nas horas vagas se entretinham a gravar, à navalha, sobre troncos de freixo ou buxo. A Cestaria A cestaria surge como resposta às necessidades dos camponeses de acomodar comida, flores e outros objetos. Tendo em conta a qualidade do material e a finalidade do cesto, dividia-se o trabalho da cesteira em obra fina e obra grossa. Na obra fina incluíam-se todos os objetos destinados a flores, pão, fruta. Para esta obra o vime é geralmente branco, descascado e a execução é pormenorizada. Os objetos destinados ao trabalho agrícola eram de obra grossa. Para isto, o vime, embora seja escuro normalmente, por descascar, também pode ser branco ou ainda mesclado. O processo de construção de um objeto de cestaria é complexo, começando pela base, a cesteira vai entrelaçando os vimes até ao topo do cesto, sempre com os vimes um pouco húmidos para os tornar mais maleáveis. Eram utensílios essencialmente rurais e que agora, apesar do marasmo em que se encontra esta atividade em Torre de Moncorvo, desperta cada vez mais interesse ao turista, que vê neles peças ornamentais. Exemplos de cestaria artesanal:  Cesto coleiro – servia para dar a comida aos animais  Cesto esterqueiro – servia para transportar uvas, nabiças, batatas e estrume  Cesto carreteiro – para transportar a uva na albarda do burro ou cavalo  Cesto vindimo – usava-se para o transporte de uvas aquando das vindimas  Canastra – aqui se transportavam figos e outra fruta dos terrenos para a vila/ aldeia.  Canastrão – usava-se para ir recolher folhas das árvores  Cesta das batatas – levava cerca de 7 a 8 kg de batatas 45  Cesta das castanhas  Cesta da merenda – para levar a comida aos segadores ao campo  Cesta de caçoulo – servia para levar comida ao pastor  Cesta de oferecer – cesta de formato oval para levar para a igreja na altura das missas por alma de alguém  Açafate – usava-se como recipiente para flores ou pão, era o único com cariz mais decorativo para embelezar os cantos da casa com flores ou para por na mesa com o pão e um paninho de linho bordado por baixo.  Baú - uma espécie de mala que servia para guardar a roupa do dia-a-dia. A Produção de Seda A seda e a sua produção tiveram anos de brilho no nordeste transmontano e em particular em Torre de Moncorvo. A seda em Torre de Moncorvo era fiada minuciosamente pelas suas tecedeiras e já desde longa data, “há relatos da existência de tecidos de seda de Trás-os-Montes na corte de D. Maria I, sendo que já em meados do seculo XIX Moncorvo produziu para todo o país cerca de 22000 peças de seda”. (PATRICIO, 1994, p. 176). O processo de produção de seda é moroso e feito em várias etapas: durante 30 dias o bicho-da-seda era alimentado por folhas de amoreira e iam tecendo os seus casulos nas traves dos “ baixos” das casas das tecedeiras. Depois dos casulos estarem completos, estes eram mergulhados em água quente para libertar os filamentos, estes apresentam uma cor brilhante característica da seda. Os filamentos são combinados para formar fios, que são enrolados e finalmente secos. Depois disto estão prontos para serem fiados e para fazer verdadeiras obras de arte. Esta atividade teve a sua decadência, no nordeste transmontano, devido essencialmente à morte das tecedeiras e ao facto da tradição não passar para a geração a seguir, mas essencialmente à disseminação das fibras e dos tecidos de menor qualidade que invadiram o nosso país a partir da segunda metade do século XX. 46 Tabela 3.5. A alimentação em Torre de Moncorvo – os horários ligados ao trabalho no campo Almoço Era feito muito cedo, mal os camponeses se levantavam para ir para o campo, normalmente comiam migas (açorda) de azeite, tomate, batata ou bacalhau, pão com queijo ou com sardinhas e torradas barradas com azeite ou unto. Parva A meio da manhã faziam uma refeição a que se chamava a “parva”, aqui consumiase pão com queijo, azeitonas, figos e bebia-se vinho Jantar Era feito entre as 11h e o meio-dia, aqui comia-se de “seco” normalmente caldo e pão com ovos, alheira, salpicão, presunto, toucinho frito, queijo, azeitonas, peixe frio e por vezes migas, quando o orçamento familiar não dava para mais. Ceia Fazia-se entre as 18 horas e as 19 horas da tarde, os pratos mais usados eram o arroz de feijão ou de tomate, com carne ou peixe frito, feijoada com carne de porco, caldeirada, guisados com carne, batatas com bacalhau e couve, grão ou grelos. A galinha e o galo comiam-se nas festas ou em situações de doença. Comiam-se saladas de agriões, beldroegas, azedas, tomate e merugem. Fazia-se em família, só em casos de trabalhos como a ceifa e a debulha, onde o homem ia trabalhar à noite, a sua mulher levava-lhe a ceia ao trabalho. Esta ceia em casa era sucedida do serão, onde todos os familiares no inverno se sentavam num escano junto a lareira para se aquecerem e no verão este serão era feito nas escadas, balcões e sacadas das casas, onde conviviam não só com a família mas também com os vizinhos, enquanto as crianças brincavam perto das mesmas escadas ou balcões até a hora de irem para a cama. Só no verão é que a hora de dormir era mais tarde, no inverno a hora normal do agricultor dormir seria logo após à ceia e serão, perto das 20 horas da noite. Tabela 3.6. A gastronomia típica de Torre de Moncorvo A gastronomia transmontana e em especial a de Moncorvo revela muito acerca da vivência das suas gentes, da falta de alimentos, do isolamento que não lhes dava acesso aos “comeres” requintados das grandes cidades, mas sim aos alimentos produzidos com o seu suor nos campos. A gastronomia transmontana é de matriz essencialmente feminina. A mulher reina na cozinha e nas iguarias que confeciona. O pão, batatas couves, enchidos dominam e dão refeições inigualáveis. Ainda hoje, a arca do pão tem um elevado sentido nestas terras, aqui se colocavam inteiras fornadas de pão cobertos com panos de linho. 53 necessidades mais facilmente e sem auxílio. Quando eram maiores os meninos usavam calções também abertos atrás ainda para facilitar a realização das suas necessidades. Andavam por vezes descalços ou com sapatos de borracha mal cosidos que pouco duravam. E na cabeça usavam uma boina espanhola que os livrava também do frio. 3.2. Perspetivas dos Atores Locais Neste ponto, para percebermos a perspetiva dos atores locais sobre o património imaterial de Torre de Moncorvo e a sua relação com a identidade e o turismo, procedemos a realização de várias entrevistas semidiretivas, nomeadamente: ao Posto de Turismo de Torre de Moncorvo, ao proprietário da Casa da Avó -Turismo de Habitação, à proprietária da Quinta da Serra do Reboredo-Turismo Rural, a uma funcionária da Quinta das Aveleiras – Agroturismo e finalmente a um emigrante do sexo masculino natural de Torre de Moncorvo e emigrado em Chartres, França. Relativamente à entrevista às funcionárias do Posto de Turismo, uma das primeiras questões era relativa ao comportamento do turismo ao longo do ano, aqui ficamos a saber que o turismo e a procura turística em Moncorvo não são lineares ao longo do ano, este aumenta em épocas festivas apesar do calendário festivo de Moncorvo anualmente não variar muito. Os meses de maior afluência turística em Torre de Moncorvo situaram-se nos meses de fevereiro e março, altura das amendoeiras em flor e no decorrer da recriação histórica (Feira Medieval) que trouxe à vila turistas de todas as partes do país e alguns estrangeiros. Sublinhe-se que o mês de maio foi ainda um mês particularmente, de elevada adesão e afluência turística, pois celebrou-se durante todo o mês a vida do artista moncorvense, internacionalmente reconhecido e famoso pela elaboração de fabulosos bouquets de flores artificiais, Constantino, o Rei dos Floristas. Entre os meses de Fevereiro e Maio registou-se a entrada de 1630 turistas, um valor total que engloba turistas nacionais e estrangeiros. Estes turistas, pelo menos os que procuraram o posto de turismo, procuravam essencialmente informações sobre percursos de atração turística ao nível das paisagens 54 da amendoeira em flor nos diversos concelhos da região, eventos, locais de interesse a visitar na vila de Torre de Moncorvo, unidades de restauração e alojamento, produtos locais e visitas guiadas aos núcleos museológicos. Uma outra questão prendia-se com o que esta vila tem para oferecer ao turista que tenciona conhecer mais das tradições, cultura e património de Torre de Moncorvo. Aqui obtivemos um inventário das principais atividades e monumentos de interesse, pois Torre de Moncorvo tem uma forte identidade histórica e cultural. É uma vila dotada de castelo do século XIII, do qual ainda restam vestígios na parte medieval. Aliás, neste contexto torna-se importante sublinhar a existência de dois núcleos distintos: núcleo medieval e núcleo renascentista. No primeiro, o turista poderá descobrir o Museu de Arte Sacra, Núcleo Museológico da Fotografia e o Núcleo Museológico da Casa da Roda. Todos estes espaços permitem ao turista/visitante descobrir a história local, identificar e usufruir de toda a riqueza do património; permite ainda que a comunidade se reconheça toda a história do seu município desde a sua fundação. Poderemos ainda nesta parte da vila tomar conhecimento da Porta da Vila que ainda se conserva intacta e onde nela se ergueu no século XVII a Capela de Nossa Senhora dos Remédios; a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, Capela do Sagrado Coração de Jesus e o Edifício do Paços do Concelho. Relativamente, ao Núcleo Renascentista aí podemos encontrar um conjunto de infraestruturas de notável e rico valor patrimonial, como por exemplo, a Igreja Matriz, as Casas Solarengas e Capelas que não deixam ninguém indiferente, pois primam pela beleza e transportam os ecos do passado histórico e social da Vila de Torre de Moncorvo. Era pretendido também provar se o perfil do turista que chega a Torre de Moncorvo se teria alterado ao longo dos anos e de facto isto corresponde à realidade. Se há bem poucos anos atrás, o turista procurava essencialmente gastronomia e em grande escala conhecer a amêndoa coberta e as amendoeiras em flor na sua época, bem como o património edificado, agora a situação é outra, o turista procura um espaço de riqueza etnográfica, de riqueza cultural imaterial e dá cada vez mais valor ao turismo rural e às unidades que o proporcionam da maneira mais natural e tradicional possível, procuram também o contato com a natureza e com as gentes acolhedoras e hospitaleiras. O perfil do turista tem evoluído a olhos vistos, a panóplia de turistas não se fica só ao nível dos nacionais. Há de fato um crescendo a nível da procura relativamente, a turistas estrangeiros. O Douro como património da humanidade tem sido um destino cada vez mais procurado por turistas que procuram não só, fruir a beleza e intensidade dos socalcos 55 vinhateiros, como também, a riqueza histórica e patrimonial dos concelhos que da Região do Douro Superior fazem parte. Torre de Moncorvo pertencendo ao conjunto de 19 concelhos da Douro Superior assume uma posição de destaque com forte carisma identitário e posição geográfica de excelência. Nesta sequência, queríamos saber o que havia de novos investimentos tanto no património edificado de Moncorvo como em termos de património imaterial. Os investimentos, principalmente camarários têm aumentado neste sentido e tornou-se importante dar a conhecer o melhor que esta Vila tem para apresentar, de onde salientamos a realização de um Núcleo Museológico na Casa da Roda onde no séc. XVIII onde eram colocados os “expostos”, ou crianças abandonadas e ilegítimas à luz do cânones e valores morais da época e onde se podem ver um conjunto de objetos referências das vivências e das condições de vida dessas crianças nessa altura; Museu de Arte Sacra situado junto à Igreja da Misericórdia de fundação e traça quinhentista e que possui um belo portal em estilo Renascença. O Museu de Arte Sacra apresenta um rico e variado recheio constituído por obras de arte pertencentes à Igreja Matriz e Igreja da Misericórdia. Houve também a preocupação não só pelas entidades responsáveis pelo turismo mas também pelo posto de turismo de dar a conhecer e direcionar os turistas para a parte mais imaterial das tradições moncorvenses valorizando os recursos locais tal como: o vinho, a amêndoa coberta, o fumeiro e toda a gastronomia. Moncorvo tentou dar a conhecer aos seus turistas as tradições ancestrais que são tão importantes na construção e promoção da identidade transmontana que muito influenciam a procura turística que se verifica na região. Para isto, as entidades responsáveis pelo turismo e património têm tido um grande empenho nos dias festivos da vila, na promoção de tradições e potencialidades atrativas locais que permitam projetar e dinamizar o concelho, numa perspetiva de desenvolvimento local e captação das energias nacionais e estrangeiras, de colaboração e de parcerias com outros municípios da Região do Douro e do Norte de Portugal. Ficamos também a saber que tem havido um grande investimento no reavivar de tradições antigas e que tem havido preocupação na realização de eventos que valorizem Moncorvo e que o projetem além-fronteiras. Alguns desses eventos serão apresentados de seguida em tabela. 56 Tabela 3.9. Eventos importantes no contexto do Património Imaterial realizados em Torre de Moncorvo no ano de 2014 Feira Medieval A iniciativa da Feira Medieval pertence ao Agrupamento de Escolas do Concelho de Torre de Moncorvo e contou com a colaboração do Município. Esta feira apesar de ser uma inovação nos eventos moncorvenses, já teve outras edições, sempre com bastante sucesso e adesão, não só por parte dos moncorvenses, mas também dos visitantes. A feira desenrola-se no Largo do Castelo e nas principais praças de Torre de Moncorvo: Praça Francisco Meireles e Largo General Claudino. Nas atividades participaram todos os alunos do Agrupamento de que estavam vestidos a rigor para representar várias personagens da época. O cortejo real dá início à feira medieval e de seguida realizam-se vários espetáculos. Este ano em concreto deu-se um espetáculo teatral com a peça “ O Milagre das Rosas”, “Cantiga de Amor”, seguidos de um torneio a cavalo e uma luta de guerreiros que contou com a presença do rei D. Dinis e da rainha Santa Isabel. Cascatas dos Santos Populares Nos santos populares, a freguesia de Moncorvo, organizou a sua própria cascata, ficando esta exposta no Largo da República. Uma iniciativa recente foi a exposição pelas ruas da vila das cascatas das várias freguesias de Moncorvo que seriam alvo de um concurso para a melhor cascata. Também no museu do ferro foram montadas exposições alusivas aos santos populares, acompanhadas por documentos e fotografias destes festejos ancestrais na vila. Constantino, rei dos floristas Constantino José Marques de Sampaio e Melo, célebre artista, imitava as flores naturais em tecido e papel e obteve a sua consagração em Paris, na exposição de 1844. Este ano, em homenagem a esta personalidade, fizeram-se na sua terra natal, Torre de Moncorvo, inúmeros eventos. Inicialmente, as várias juntas de freguesia e associações de freguesia empenharam-se 57 na realização de fitas feitas de flores de papel para decorarem as ruas de Torre de Moncorvo, fitas estas que permaneceram várias semanas a enfeitar as artérias da vila, pelo menos até aos santos populares. Também os moradores a título individual enfeitaram suas janelas e varandas com flores naturais, ficando a vila com uma vista inigualável. Devido a esta iniciativa individual, decidiu-se fazer um concurso para a varanda mais bem enfeitada da vila. É de salientar que ainda hoje na Igreja da Misericórdia se encontram dois ramos de flores artificiais feitos e oferecidos à vila por Constantino. Encontram-se num estado de preservação digno de ser visto. Festival de Migas da Foz do Sabor Nos dias 18, 19 e 20 de julho decorreu o Festival de Migas e Peixes do Rio na praia fluvial da Foz do Sabor, numa iniciativa da Douro Superior, Associação de Desenvolvimento em parceria com a Associação Comercial e Industrial de Moncorvo. O objetivo deste festival foi promover os pratos de peixes do rio e as migas tradicionais do Douro que representam uma das imagens de marca da gastronomia regional. As migas de peixe e os peixes fritos, assados e em molho de escabeche podem ser apreciados pela população local e visitantes nos típicos restaurantes da Foz do Sabor, Cabanas de Baixo e em Torre Moncorvo. Os peixes servidos são pescados nos rios Douro e Sabor, nos barcos tradicionais. De madrugada, os pescadores saem para o rio e os peixes apanhados nas redes são de seguida distribuídos pelos restaurantes locais. Este ano a grande novidade foram as provas de Fórmula 4 e Fórmula Futuro do Campeonato Nacional de Motonáutica, nos dias 19 e 20 de Julho. Estes eventos contaram também com o apoio financeiro do Fundo Baixo Sabor. Festival do Carviçais Rock A aldeia transmontana de Carviçais, em Torre de Moncorvo, recebeu nos dias 11 e 12 de Agosto mais uma edição do Festival Carviçais Rock, após seis anos de interregno. 58 Nos dois dias passaram pelo Carviçais Rock cerca de 2500 visitantes, sendo que alguns ficaram acampados no recinto do festival. O festival teve um grande impacto socioeconómico na freguesia de Carviçais e no concelho de Moncorvo, nomeadamente na restauração e no alojamento. Sabor D’ouro Summer Fest Wine Aproveitando o microclima mediterrâneo que permite a produção de excelentes castas de vinho, integrando Moncorvo na região do Alto Douro Vinhateiro, classificado como património da humanidade pela UNESCO, nos meses de setembro e outubro tendo em conta os trabalhos da vindima, nasceu uma iniciativa para lembrar e homenagear o fabuloso néctar. Este festival assinala o final do verão e pretende dar a conhecer os excelentes vinhos da região. Este teve lugar na praia fluvial da Foz do Sabor a partir de dia 13 de setembro. Aqui estiveram presentes mais de dez produtores de vinho, que no local venderam ao copo ou garrafa os néctares produzidos nas suas quintas. Aqui se fizeram representar: A quinta das Aveleiras; Quinta do Vale da Perdiz; Seis quintas Martué; Quinta do vale da pia; Quinta da Telhada; Quinta da Terrincha; Quinta da Silveira; Quinta Pedra d’Anta; Quinta Vila Maior; Quinta do Couquinho; Adega cooperativa de Torre de Moncorvo O festival teve início às 16h com a exposição de vinhos. Às 17h seguiu um concurso de vinhos e as 19h a cerimónia de apresentação dos vinhos e produtores. O festival contou ainda com a atuação do grupo de cavaquinhos da Escola Municipal Sabor Artes e outros concertos musicais.23 Tabela 3.10. Investimentos recentes em infraestruturas turísticas Casa Dona Maria Luiza – Turismo Rural Apesar de não estar presente nesta investigação, como alojamento a ser estudado, devido ao facto de ter aberto ao público muito recentemente, torna-se importante referi-la, tendo em conta que se trata de um investimento recente em infraestruturas turísticas de Torre de Moncorvo. 23 Anexo 16 - Cartaz do sabor douro Summer Fest Wine 2014. 59 A Casa Dona Maria Luiza localiza-se no limite do centro histórico da vila medieval de Torre de Moncorvo, oferecendo um conceito de alojamento moderno num espaço rural com fusão entre design, ruralidade, conforto e elegância. A Casa Dona Maria Luiza é um refúgio, com todas as condições de conforto, segurança e informalidade para fazer férias em família, em grupo, fins-de-semana ou simplesmente escapar da cidade e desfrutar do que melhor tem a região do Douro e Trás-os-Montes. É um espaço que proporciona, através da sua equipa e serviços, a possibilidade do despertar para as potencialidades emocionais, físicas e espirituais dos seus clientes. Durante a estadia os hóspedes podem deliciar-se com a gastronomia local, degustar os vinhos do Douro e Porto, visitar as vinhas, percorrer as ruas da vila de Torre de Moncorvo, visitar os seus monumentos, apreciar as belas paisagens sobre o vales da Vilariça e dos rios Douro e Sabor ou então aproveitar para pedalar, cavalgar ou caminhar, em percursos desenhados pela natureza e pelas populações. Aguardam pelo turista nesta unidade hoteleira uma variedade de enchidos caseiros e típicos da região acompanhados por deliciosos néctares do Douro. Esta casa não deixa também morrer os usos e costumes da região. A acessibilidade é um dos conceitos deste empreendimento turístico, pelo que todos os espaços foram cuidadosamente pensados para que os hóspedes os pudessem usufruir deles independentemente das suas limitações físicas. Apresenta rampas de acesso a deficientes e toda uma serie de infraestruturas interiores para o mesmo fim. Esta casa pratica preços entre os 60 e 75 euros por noite. São 4 os quartos temáticos com cama de casal disponíveis na unidade, nomeadamente Amendoeira em Flor, Azeitona, Mel e Amêndoa, elementos característicos deste território e que constituem o quadro gastronómico de excelência da região de Torre de Moncorvo. 60 Na suite Azeite, o cliente poderá usufruir de um espaço decorado ao pormenor com enfoque no azeite. Esta suite é dedicada às famílias, com capacidade para 4 pessoas. A identidade própria deste quarto é inspirada nas características e valores do território e nos seus produtos mais emblemáticos, neste caso o azeite. Na suite Vinho, o cliente poderá usufruir de um espaço decorado ao pormenor com enfoque no vinho do Douro. Seis Quintas Martué Douro Com localização em Torre de Moncorvo, este é outro dos investimentos que se fez neste ano em infraestruturas turísticas de Torre de Moncorvo. Falamos aqui de uma propriedade de uma família espanhola, com cerca de 65 hectares de exploração, que direcionou a exploração da quinta essencialmente para a parte vinícola, praticando o enoturismo. A par da produção de vinho a quinta dispõe também de quatro hectares de olival. É um investimento recente e sem precedentes em Torre de Moncorvo. Trata-se de um conjunto de seis quintas distintas mas que contribuem em conjunto para a produção de vinho. Cada uma destas quintas tem uma história e paisagem próprias. O grupo Martue foi o primeiro grupo espanhol a investir no Douro, mantendo a certificação de denominação de origem controlada (DOC), a denominação mais antiga do mundo e uma das mais recomendadas internacionalmente pela qualidade dos vinhos. Para que a qualidade dos néctares fosse de excelência a família Gonzalez esperou cerca de dez anos até que as uvas atingissem um nível de qualidade superior. A adega é construída em ardosia, tem uma dimensão de cerca de 1500 metros quadrados e conta com 15000 tanques, esta pode ser visitada, sendo que o turista se assim pretender pode acompanhar todo o processo de elaboração, assistindo a cada etapa do processo. As Seis Quintas Martue recorrem ainda a um método artesanal de colheita, ou seja as uvas são colhidas manualmente, de seguida selecionadas para caixas de vinte quilos. De seguida, a fermentação 61 dá-se em tanques de inox a uma temperatura controlada. O vinho é colocado em repouso durante dez meses em carvalho francês e só depois deste envelhecimento é engarrafado repousando depois seis meses até ser comercializado. O vinho aqui produzido é de alta qualidade e requinte com todos os predicados para uma ocasião especial e apresenta-se ao consumidor no mercado sob a marca Martué. Aquafixe Responsabilidade do grupo português sediado em Braga, o DST Group. Trata-se de um recinto de diversões aquáticas que ocupa cerca de 4 hectares de terreno e estará ao serviço não só dos locais e emigrantes, mas também turistas. Fomentado pelo facto desta região transmontana começar a estar dotada de eixos rodoviários que potenciam e tornam vantajosa a abertura deste tipo de negócios e infraestruturas turísticas nestas áreas do interior, este parque contribuirá para a melhoria da economia e desenvolvimento local e para a criação de postos de trabalho. Este parque aquático é constituído por uma piscina de lazer e um espaço destinado às crianças, denominado de Aqualândia infantil com três waterslides, um crazy river e quatro pistas rápidas. Inerente a este projeto estão também um restaurante, um espaço para concertos e um minigolf. Prevê-se também para 2015 a abertura do hotel de 4 estrelas, pertencente ao parque. Chama-se Douriuns Resort Hotel e a sua finalização está prevista para o verão de 2015 e só o resort prevê criar postos de trabalho para 25 pessoas. O investimento global é superior a 4,3 milhões de euros e terá capacidade para receber entre 1500 e 1800 utentes por dia. Nas preocupações principais deste projeto destacam-se a tentativa de harmonização das infraestruturas com o ambiente natural circundante, o aproveitar dos novos meios de acesso a Torre de Moncorvo para atrair pessoas de todo o país e também do estrangeiro, aumentando desta forma o turismo na região. 62 Recaindo novamente sobre as entrevistas para perceber as perspetivas dos atores locais, abordamos agora a que foi feita a um dos proprietários da Casa da Avó – Turismo de Habitação. Foi colocada em primeiro lugar a questão do que ofereceria a casa em termos de lazer, a resposta foi sucinta mas esclarecedora, dizendo que se pretendia fornecer aos hóspedes uma estadia em ambiente familiar numa casa com pergaminhos históricos, no contexto local e regional, proporcionando um ambiente recatado, cómodo, erudito, para que estes se sintam como se estivessem na casa da Avó, ou seja, descansar e retemperar forças, com todos os mimos inerentes. A casa tem como parceira uma empresa de animação turística, que oferece um pacote de serviços diversificado, natureza, arquitetónico, religioso, cultural, desportivo, gastronómico, enófilo, etc., sendo desenhados programas à medida das pretensões dos hóspedes, como: visitas às gravuras, passeios TT e fluviais, provas de vinho em quintas, visitas a museus, passeios pedestres e BTT em todo o território, eventos culturais e gastronómicos, que decorram na região. Numa outra questão, ficamos a saber que o hóspede pode conhecer na casa, sem sair à rua, a vila e o contexto da sua riqueza histórica através de toda a literatura existente, bem como pelas informações que os funcionários estão habilitados a prestar e ainda pela Internet. As atividades lúdicas proporcionadas pela casa da avó contam um pátio recatado e sóbrio onde predominam as cores da vegetação e árvores com os seus aromas inerentes conjugado por um jogo de água, que convida à meditação, leitura, conversa, degustação de um bom vinho local, refeição, etc. salão de jogos de mesa, TV e biblioteca. Os hóspedes podem também ser integrados caso desejem em trabalhos agrícolas, que a parceira da casa proporciona em várias quintas da região, de acordo com os gostos e pretensões dos hóspedes. Mais à frente em outra questão conseguimos saber que os pratos regionais são proporcionados na casa da avó, sob marcação. Quando isto não acontece e o turista pretende um prato regional de referência, este é encaminhado para os excelentes restaurantes da região a fim de degustar o que pretende. 69 chega, é um tipo de património que não se altera regularmente e que visto uma vez, se fica a conhecer. Por outro lado, o património na sua parte imaterial, num jogo entre as populações e as suas características culturais e o turismo, pode contribuir como solução para abandono, o despovoamento e a pobreza de algumas terras esquecidas nas malhas dos tempos. Esta valorização é também importante para as populações residentes, já não falamos no aspeto económico que o turismo traz, mas todas as populações gostam de sentir valorizado o que é seu, o que os constitui enquanto ser pertencente a um grupo de pessoas que partilham os mesmos gostos, cultura e tradições. Tudo isto constitui riqueza, constitui identidade e vontade de ser e de ter sangue moncorvense. Por fim, pensamos que seria interessante complementar a presente investigação com um estudo semelhante que comparasse a crescente visibilidade de Moncorvo no país e no mundo e os investimentos na cultura popular e tradições da mesma vila. Pois foi uma das questões levantadas em muitas das minhas entrevistas: será que Moncorvo seria mais apetecível se além dos investimentos se fizesse mais publicidade ao seu património? Fica então esta questão que não deixa de ser pertinente e de importante estudo. 70 Referências Bibliográficas AFONSO, Belarmino et al (1982) - Artesãos do Distrito de Bragança. Brigantia – Revista de Cultura. Volume II, nº 4. P. 385-407 AFONSO, Belarmino (1992) - A arte religiosa na Diocese de Bragança. BrigantiaRevista de Cultura. Volume I, nº3. P. 31-40 AFONSO, Belarmino (1996) - A cerâmica artesanal no distrito de Bragança, sua diversidade e extinção gradual. 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E neste ano em específico a afluência foi grande? Consegue indicar-me números concretos dos turistas que procuraram o posto de Turismo? 5. O que pretendiam encontrar esses turistas no Posto de Turismo? 6.Tem notado uma evolução no perfil do turista que vem visitar Moncorvo? 7.Atualmente quantas unidades hoteleiras dispõe Moncorvo? 8.O que tem o calendário festivo e tradicional de 2014 de diferente em relação ao dos outros anos? 9.Quem faz este calendário festivo e o que tem em atenção? 10.Que novos serviços/ instituições tem surgido neste último ano ligados ao património, turismo e cultura? 11.Nota que o Turismo tem tido um interesse crescente no conhecimento das tradições de Torre de Moncorvo? 12.Tem conhecimento de algumas tradições que com os anos caíram no esquecimento e agora têm vindo a ser reanimadas? Aos Alojamentos Turísticos. 1.O que oferece ao Turista esta unidade Hoteleira, ao nível do lazer? 2.Que serviços internos oferece? 3.Qual a capacidade máxima do hotel? 4.Um turista que pernoite aqui ou que permaneça alguns dias para conhecer a vila, pode conhecer os seus costumes, usos e tradições sem sair do hotel? Como? 77 5.E fora do Hotel, o que aconselha ao Turista visitar ou com quem o aconselha falar para saber mais dos usos, costumes e tradições da terra? 6.A nível de atividades lúdicas, o que oferece a unidade? 7.O turista pede para se envolver nas atividades agrícolas da Unidade hoteleira? Ou isso já é predefinido pelo hotel? 8.A nível gastronómico dá-se a conhecer o que a região tem de melhor? 9.Os alimentos fornecidos ao turista são de fabrico próprio da quinta/ unidade hoteleira? 10.A unidade hoteleira utiliza os recursos endógenos da vila para os dar a conhecer ao visitante? 11.Usa produtos da terra no seu estabelecimento? Porquê? 12.O Hotel tem algum produto de referência? (vinho, queijo, doçaria) que seja procurado pelo turismo e pelos locais? 13.A unidade turística vende os seus produtos para fora? 14.Se o desafio fosse dar a conhecer Moncorvo, tradições e costumes a partir da janela da sala do hotel, como passaria isso ao turista que nunca cá veio? 15.Quando é que o hotel tem mais procura? 16.Na sua opinião o que é que atrai o turista para a sua unidade hoteleira? 17.No último ano, quantos turistas estiveram no seu hotel? Entrevista a emigrante 1. Há quantos anos deixou Portugal? 2. Onde vive atualmente? 3. Quantas vezes vem a Portugal? 4. Porque é que após tanto tempo no estrangeiro ainda vem a Portugal? 5. Torre de Moncorvo é um fator identitário para si? Porquê? 6. Quando vem, leva produtos da sua terra para o seu país de residência? 7. Quando está longe o que é que o faz lembrar da sua terra? 8. Quais aspetos culturais/ tradicionais da sua terra lhe trazem mais saudades? 9. Vem de propósito para a festa anual da sua terra? Ou para outras? Porquê? 10. A festa da sua terra é algo com que ainda se identifica? Porquê? 11. Que tradições da sua terra tem mais valor para si? 12. Tem acesso a algum noticiário ou calendário sobre o que se vai passando na sua terra a longo do ano? 78 13. Quando volta, quais são as primeiras coisas que faz? Do que mata saudades em primeiro lugar, o que ou quem procura? 14. E vive fervorosamente as suas tradições mesmo no estrangeiro? 15. Tem gosto em dar a conhecer a sua cultura além-fronteiras? 85 Anexo 7 - Cartaz da semana santa de Torre de Moncorvo de 2014. Fonte: Página digital do Município de Torre de Moncorvo 86 Anexo 8 – Versos de São João. Fonte: recolha oral “São João para ver as moças, Ai fez um chafariz na praça, Ai as moças não vão a fonte, Ai São João todo se mata.” “Ó meu são João casai-me, Ai casai-me que bem podeis, O casar é aos catorze, Ai e eu já tenho dezasseis.” “ Ai repapoila repapoila repapoila, É São João a comer da caçoila, Ai repenica repenica repenica, É São João a beber da bica” “ São João e mais são pedro fizeram uma regata, Ai as moças já não vão a fonte, Ai são João todo se mata.” 87 Anexo 9 - Partitura da banda Filarmónica do Felgar. Fonte: Banda Filarmónica do Felgar 88 Anexo 10 - Passos da dança das fitas. Fonte: Júnior e Mourinho, 1983 Trespasse Encadeado Estribilho 89 Anexo 11 - Versos e quadras da dança dos pretos. Fonte: Júnior e Mourinho, 1983 “ Boas novas moncorvenses Dar a vos os preta vem; Que nasceu o redentor Que nasceu o redentor Eu não posso compreender Que jesus, tao santo e nobre Tivesse seu nascimento Num lugar humilde e pobre Bendita sejais senhora Cheia de graça e candura Dos pecadores salvadora Urna cheia de ternura….” “Que fale o monte Gólgota Que fale Jerusalém Que fale o túmulo de Lazaro Que fale a própria Belém Mas nos cheios de fé Oremos com todo o ardor Soltemos hinos e cantos Mas cantos de infindo amor” 90 Anexo 12 - Canções usadas nos trabalhos agrícolas. Fonte: recolha oral Marcela “Venho de apanhar marcela Marcela, marcelinha, Lá nos campos, verdes campos Daquela mais miudinha Daquela mais miudinha Daquela mais amarela Lá nos campos, verdes campos Eu fui apanhar marcela” Trabalhos na segada “ Não me mandes à segada Que não sei correr a eito Fala-me antes de amores Que para isso já tenho jeito” 91 Anexo 13 - Exemplo de poesia popular. Fonte: Fernandes, 2001 Paisagens de antigamente “ Saudades tenho do tempo Que andava por lá a cegar Amargurada e cansada Mas podia trabalhar Trabalhos passados Ao longo da vida Células mortas, Rugas no rosto Esperança perdida Nunca fui ao estrangeiro Nem nunca me lembrava a morte E agora vou partir E não preciso passaporte” 92 Anexo 14 - Oração a santa bárbara para afastar a trovoada: Fonte: recolha oral “Santa Bárbara bendita, Que tendes a torre na mão, Arramai este trovão, Para onde não haja eira nem beira, Nem raminho de oliveira, Nem bafo de alma cristã, Que ruido há no céu, Valha-me a divindade, A cruz de Santa Helena E a Santíssima Trindade” 93 Anexo 15 - Exemplo de orações ligadas à superstição. Fonte: recolha oral Oração para afastar o mau-olhado “ D’olhado ou mal de inveja, Ou mal fazer, vai-te daqui, Que o pau de sanguinho anda atras de ti Se dois to deram, Três to tirarão São pedro, são Paulo e são João Que todos três bem poderão Se to deram pela frente, Que to tire S. Vicente Se to deram por trás, Que to tire s. Braz, Se to deram pelo lado Que to tire o senhor crucificado” Oração para defumar doentes contra todos os males: “Eu te defumo e volto a defumar Para que possas comer e medrar E todas as malinas ruis de ti possa retirar E em nome de Deus possa curar Eu te defumo Em nome do Santíssimo Sacramento Que vá a moléstia para fora E o bem para dentro” 94 Anexo 16 - Cartaz do sabor douro Summer Fest Wine 2014. Fonte: Página digital do Município de Torre de Moncorvo