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DISLIPIDEMIAS: Conhecimentos e Atitudes dos Profissionais de Saude do ACeC Santos Tirso/Trofa

Ângela Ofélia Lopes Correia Valongo

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DISLIPIDEMIAS: Conhecimentos e Atitudes dos Profissionais de Saúde do ACeS Santo Tirso/ Trofa Estudante: Ângela Valongo Orientadora: Dra. Conceição Outeirinho Mestrado Integrado em Medicina Porto, 2012 Universidade do Porto Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar DISLIPIDEMIAS: Conhecimentos e Atitudes dos Profissionais de Saúde do ACeS Santo Tirso/ Trofa Dissertação de Candidatura ao grau de Mestre em Medicina, submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto por: Ângela Ofélia Lopes Correia Valongo Aluna do 6º Ano do Mestrado Integrado em Medicina Número de aluno: 061001064 Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar Email: [email protected] Orientadora: Dra. Maria da Conceição da Costa Outeirinho Assistente Graduada de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar Garcia de Orta – ACeS Porto Ocidental e Professora Auxiliar Convidada de Medicina Geral e Familiar do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto Página I Resumo Introdução: As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal. São uma importante origem de morbilidade e invalidez na população portuguesa. A dislipidemia é um fator de risco cardiovascular bem estabelecido. Para uma correta prevenção e controlo da progressão da doença é fundamental a sua deteção precoce e tratamento adequado, os quais dependem das atitudes e conhecimentos dos profissionais de saúde e doentes. Objetivos: Identificar o nível de conhecimentos e atitudes dos profissionais de saúde - médicos, do Agrupamento Centros de Saúde de Santo Tirso/Trofa (ACeS), relativamente às dislipidemias e ao seu tratamento. Material e Métodos: Realizou-se um estudo observacional e transversal numa amostra de conveniência dos médicos, que exercem profissão no referido ACeS. A recolha de dados efetuou-se através de um questionário de autopreenchimento. Procedeu-se à análise dos dados através do programa informático SPSS versão 20.0.0 com aplicação da estatística descritiva e analítica. Resultados: Dos médicos inquiridos, 42,9% referiu ter 25-49% dos doentes com diagnóstico de dislipidemia. Aproximadamente metade dos médicos afirmaram realizar o rastreio do perfil lipídico nas mulheres e nos homens antes dos 18 anos. A maioria dos médicos referiu que 60% dos doentes, com diagnóstico de dislipidemia, seriam tratados pela associação da modificação de estilos de vida e da terapêutica farmacológica. A percentagem média de respostas em conformidade com as orientações clinicas foi de 65,1% (± 9,8), sendo que os médicos mais jovens apresentaram uma média significativamente superior à obtida pelos médicos mais velhos (p=0,007). Discussão: Na percentagem média de respostas em conformidade com as orientações clinicas, foram demonstradas variações nos resultados obtidos. Embora a maioria desenvolva a sua prática em consonância com as recomendações clínicas, uma proporção considerável não o faz. Assim, dado tratar-se da abordagem e controlo de um fator de risco cardiovascular, torna-se necessária a revisão e atualização de conhecimentos com consequente uniformização dos procedimentos dos médicos, para uma maior rentabilização de custos (físicos e financeiros) e melhor saúde das populações. Palavras-chave: Dislipidemia, Hiperlipidemia, Conhecimentos e atitudes, Médicos, Normas de Orientação Clinica, Cuidados de Saúde Primários. Página II Abstract Introduction: Cardiovascular diseases are the leading cause of death in Portugal and an important source of morbidity and disability in the Portuguese population. Dyslipidemia is a cardiovascular risk factor well established. For a correct prevention and control of the disease progression is critical an early detection and appropriate treatment, which depends on the attitudes and knowledge of health care providers and patients. Objectives: Identify the knowledge and attitudes of health care providers regarding dyslipidemia and its treatment in a Group of Health Centers (ACeS) from Santo Tirso/ Trofa. Material and Methods: It was conducted a cross-sectional observational study on a conventional sample of care-providers, doctors, working in that ACeS. In collecting data was used a self-administered questionnaire. The data analysis was conducted using the SPSS software version 20.0.0 with the application of descriptive and analytical statistics. Results: Of the physicians surveyed, 42.9% indicated that 25-49% of patients had the diagnosis of dyslipidemia. Approximately half of the physicians performed lipid profile screening on women and men before age 18. Most of the health providers said that 60% of their patients diagnosed with dyslipidemia would be treated by the combination of lifestyle modification and drug therapy. The average percentage of responses according with the guidelines was 65.1% (± 9.8). The average number of correct answers obtained by younger health care providers was significantly higher than that obtained on older health care providers (p = 0.007). Discussion: The average percentage of responses according with the guidelines demonstrated variations in the results obtained. Although most develop their practice according with clinical recommendations, there is still a considerable proportion that do not. What, since it is the approach and control of a cardiovascular risk factor, makes mandatory the need to revise and update knowledge with the consequent standardization of medical procedures for costeffectiveness (physical and financial) and better health care populations. Key words: Dyslipidemia, Hyperlipidemia, Knowledge and Attitudes, Health Care Providers, Guidelines, Primary Health Care. Página III Agradecimentos Gostaria de agradecer a todos os que contribuíram para que fosse possível elaborar o trabalho que está subjacente nesta tese, sem vocês tudo teria sido muito mais difícil. Estou profundamente grata à minha orientadora, Dr.ª Conceição Outeirinho, pelo encorajamento, orientação e apoio durante todo o percurso, muitos vezes tortuoso, que conduziu à elaboração desta tese. Ao Doutor Rui Magalhães pela ajuda preciosa na análise estatística. Esta tese não teria sido possível sem a colaboração dos Diretores do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) Santo Tirso/Trofa e dos médicos coordenadores dos diferentes serviços pertencentes ao referido ACeS. A todos os elementos constituintes das Unidades de Saúde Familiar e Centros de Saúde que de diversas maneiras possibilitaram a realização deste trabalho, o meu mais profundo agradecimento. Uma palavra especial de agradecimento à minha família, pela compreensão e pelo estímulo ao desenvolvimento desta tese. Quero agradecer também aos meus amigos, pelo apoio incondicional, nos bons momentos e nos menos bons. Página IV Abreviaturas ACeS – Agrupamento de Centros de Saúde ARS – Administração Regional de Saúde CES – Comissão de Ética para a Saúde CT – Colesterol Total DALYs – Disability-Adjusted Life Years DCI – Doença Cardíaca Isquémica DCV – Doença Cerebrovascular DGS – Direção Geral da Saúde HDL – Lipoproteina de alta densidade LDL – Lipoproteina de baixa densidade NOC – Normas de Orientação Clínica OMS – Organização Mundial de Saúde SCORE – Systemic Coronary Risk Estimation SPSS – Statistical Package for Social Sciences UCSP – Unidade de Cuidados Personalizados de Saúde US – Unidade de Saúde USF – Unidade de Saúde Familiar Página V Índice Página 1. Introdução .................................................................................................................... 1 2. Material e Métodos ...................................................................................................... 5 3. Resultados ................................................................................................................... 7 4. Discussão .................................................................................................................. 14 5. Bibliografia ................................................................................................................. 16 Anexos ........................................................................................................................... 20 DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 1 1. Introdução As doenças cardiovasculares, das quais a mais comum é a doença cardíaca coronária, são as principais causas de morte nos doentes de meia-idade e idosos na maioria dos países desenvolvidos e em alguns países em desenvolvimento.1-3 De acordo com o relatório de 2002 da Organização Mundial de Saúde (OMS),4 mais de 50% da mortalidade e incapacidade resultantes da doença cardíaca isquémica (DCI) e dos acidentes vasculares cerebrais poderia ser evitada pela implementação de medidas simples e custo-efectivas a nível individual e nacional (desenvolvimento de políticas e programas promotores da saúde populacional).5 Igualmente importante é o fato de grande parte do potencial benefício decorrente da implementação destas intervenções possa ser obtido num curto espaço de tempo (cerca de 5 anos), uma vez que a progressão da doença cardiovascular é passível de ser interrompida com relativa facilidade.5 Em Portugal, como nos restantes países da União Europeia, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte, envolvendo direta e indiretamente elevados custos económicos.3,6 Estas são uma importante origem de morbilidade, de invalidez e anos potenciais de vida na população portuguesa.6 A dislipidemia é um fator de risco de doença cardiovascular epidemiologicamente bem estabelecido,6 chegando a prevalência desta doença a ser superior à da hipertensão arterial.5 A sua deteção precoce e tratamento adequado são fundamentais para uma correta prevenção e controlo da progressão da doença.6 Deste modo, trata-se de um problema real da sociedade portuguesa, em relação ao qual doentes, profissionais de saúde e governo devem estar fortemente empenhados em melhorar.5 As dislipidemias são alterações metabólicas das lipoproteinas decorrentes de perturbações funcionais em qualquer fase do metabolismo lipídico e que levam a alterações nos seus níveis séricos,7 pela produção em excesso ou em deficiência da referida lipoproteina.8,9 Esses distúrbios podem, por si só, ou em interação com outros fatores de risco cardiovasculares, provocar o desenvolvimento de aterosclerose.8 As dislipidemias podem estar relacionadas com outras doenças (dislipidemias secundárias) ou com a interação entre a predisposição genética e os factores ambientais.8 Estas doenças manifestam-se pela elevação da concentração do colesterol sérico total (CT), do colesterol de lipoproteina de baixa densidade (LDL-C) e dos triglicerídeos, e pela diminuição do colesterol de lipoproteina de alta densidade (HDL).9 A elevação de CT e das LDL-C tem recebido particular atenção, pois esta situação pode ser modificada pela associação da alteração de estilos de vida e/ou com a terapia farmacológica.8 Existem mesmo estudos que demonstram que a redução destes tipos de colesterol possibilita a prevenção da doença cardiovascular.8,10,11 As dislipidemias podem ter um significado diferente consoante o subgrupo de doentes envolvidos. Este pode estar DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 2 relacionado com a predisposição genética e/ou com a presença de comorbilidades nesses doentes. É pois, uma situação que requer particular atenção no controlo do risco cardiovascular.8 No contexto das dislipidemias, o risco cardiovascular baseia-se na probabilidade de um individuo desenvolver um evento cardiovascular aterosclerótico num determinado período de tempo. Atualmente as NOC existentes recomendam, na prevenção da doença cardiovascular, a avaliação do risco cardiovascular porque, na maioria das pessoas, a doença cardiovascular aterosclerótica é o resultado de diversos fatores de risco. Muitos sistemas de avaliação estão disponíveis,12,13 no entanto a maioria das orientações clínicas utilizam como sistemas de avaliação de risco, as escalas de Framingham ou do SCORE (Systemic Coronary Risk Estimation).14,15 Na prática clínica, na prevenção das doenças cardiovasculares, as sociedades europeias de cardiologia (ESC) e de aterosclerose (EAS) nas suas diretrizes atuais, recomendam o uso do sistema SCORE.8 Os doentes com história de Síndrome Coronário Agudo ou de Acidente Vascular Cerebral possuem um elevado risco de ocorrência de um novo evento semelhante. Deste modo, estes doentes devem ser monitorizados e controlados com base nesse risco. Atualmente, qualquer indivíduo com um risco, em 10 anos, de morte de origem cardiovascular igual ou superior 5%, classifica-se como possuindo alto risco global cardiovascular.8 Com o objetivo de diminuir a variação da prática clínica e apoiar o profissional de saúde têm sido publicadas normas de orientação clínica.16 No entanto, alguns estudos demonstraram lacunas no conhecimento e aplicação prática dessas orientações.17-20 As principais causas das doenças cardiovasculares são multifactoriais.8 Aproximadamente 75% da doença cardiovascular pode ser atribuída ao conjunto dos fatores de risco ditos modificáveis,5 como os estilos de vida, nomeadamente o tabagismo, a ausência da prática de exercício físico e os hábitos alimentares.8 Existem outros fatores de risco modificáveis, como a hipertensão arterial, a diabetes mellitus e as dislipidemias. São fatores de risco não modificáveis, a idade e o sexo masculino.8 A ausência da correção dos fatores modificáveis poderá ser responsável pela perda de cerca de 25% do conjunto de anos de vida saudáveis até ao ano de 2020.5 Foi comprovado que a redução do colesterol por diversos métodos, ao contrário das alterações alimentares apenas, resulta em maiores taxas de regressão e de estabilização das placas ateroscleróticas.21 Simultaneamente, o tratamento com terapêutica antidislipidémica parece ser acompanhado por uma redução no teor dos lípidos das placas ateroscleróticas, tornando-as mais estáveis e diminuindo a possibilidade da sua rutura.22,23 Apesar das controvérsias em torno da realização do rastreio e do tratamento dos níveis de colesterol, a maioria dos especialistas realça a importância de tratar a dislipidemia.9 Porém, DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 9 vezes por ano os seus doentes, com valores do perfil lipídico controlados; 68,2% mencionaram realizar a reavaliação dos doentes após 3 a 6 meses de tratamento. Quando questionados relativamente ao tempo médio de tratamento farmacológico das dislipidemias, 56,8% dos médicos afirmaram a vida inteira. Na questão referente ao tempo de terapêutica farmacológica necessário para diminuir ou normalizar o perfil lipídico, 53,5% dos médicos referiram 3 a 6 meses. Quando inquiridos relativamente a outras questões, 61,4% discordam parcialmente que apenas uma percentagem muito pequena dos doentes seguisse as prescrições medicamentosas; 93,2% concorda total ou parcialmente que o tratamento crónico traga benefícios para os doentes; 93,2% concorda total ou parcialmente que apenas uma pequena parte dos doentes siga as modificações do estilo de vida; 59,1% concorda total ou parcialmente que o tratamento farmacológico das dislipidemias deveria ser mantido indefinidamente (Quadro II). Concorda (%) Discorda (%) 1. Apenas uma percentagem muito pequena dos doentes segue as prescrições medicamentosas. 31,8 68,2 2. O tratamento crónico para manutenção dos níveis do perfil lipídico traz benefícios para o doente. 93,2 6,8 3. Apenas uma percentagem muito pequena dos doentes segue as modificações do estilo de vida. 93,1 6,8 4. O tratamento farmacológico das dislipidemias deve ser mantido indefinidamente. 59,1 40,9 5. Quando alcançados os níveis desejáveis do perfil lipídico, devo manter o medicamento prescrito inicialmente. 70,5 29,5 6. O objectivo clínico é a prevenção da ocorrência de eventos cardiovasculares. 97,7 2,3 7. A dislipidemia é tratada por prevenção. 75,0 25,0 8. A terapêutica farmacológica deve ser alterada, quando o tratamento terapêutico não atinge os valores do perfil lipídico desejáveis. 97,7 2,3 9. A dose da terapêutica farmacológica deve ser reduzida, quando o tratamento terapêutico atinge os valores do perfil lipídico desejáveis. 54,6 45,5 10. As modificações no estilo de vida são um importante objectivo a atingir nos doentes com factores de risco para Doença Cardiovascular. 95,5 4,5 11. Quando o tratamento terapêutico permitiu atingir os valores do perfil lipídico desejáveis, a terapêutica farmacológica deve ser substituída por outro fármaco da mesma classe, mas menos potente. 39,5 60,5 12. O tratamento da alteração do metabolismo dos lípidos modifica o percurso natural da doença coronária. 93,2 6,8 13. A Dislipidemia só deve ser tratada num doente com Colesterol Total superior a 320mg/dl. 2,3 97,7 14. A dose da terapêutica farmacológica deve ser aumentada quando não foram atingidos os valores desejáveis do perfil lipídico. 90,9 9,1 15. Quando foram atingidos os valores desejáveis do perfil lipídico, a terapêutica farmacológica deve ser suspensa e devem ser mantidas as modificações do estilo de vida. 25,6 74,5 Quadro II – Percentagem de respostas dos médicos em concordância/ discordância com as diversas questões. DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 10 0 20 40 60 80 100 L8 L2 L14 L12 L16 L21 L6 L19 L22 L5 L9 L15 L18 L4 L3 L7 L11 L10 L20 L1 L13 L17 Percentagem Questões Relativamente aos obstáculos que dificultam o alcance dos objetivos no tratamento de uma dislipidemia (Quadro III), 81,8% dos médicos referiram os efeitos secundários do medicamento como uma barreira importante ou muito importante, 88,7% afirmaram que a adesão do doente ao tratamento seria uma barreira importante ou muito importante, apenas 61,3% indicaram a presença de comorbilidades como uma barreira importante ou muito importante, 88,6% referiram o custo do medicamento como uma barreira importante ou muito importante, 63,6% indicaram o número de fármacos necessários para um adequado controlo dos valores dos lípidos como uma barreira importante ou muito importante e 65,9% afirmaram que a compreensão do doente em relação aos objetivos do tratamento seria uma barreira importante ou muito importante. Quadro III - Percentagem de respostas relativas à consideração das Barreiras no tratamento da dislipidemia Não é Barreira (%) Barreira Pouco importante (%) Barreira Importante (%) Barreira Muito Importante (%) A. Efeitos secundários do medicamento 6,8 11,4 59,1 22,7 B. Adesão do doente ao tratamento 0 11,4 52,3 36,4 C. Presença de comorbilidade 0 38,6 54,5 6,8 D. Custo do medicamento 2,3 9,1 47,7 40,9 E. Número de fármacos necessários para um adequado controlo dos valores dos lípidos 6,8 29,5 54,5 9,1 F. Compreensão do doente quanto aos objetivos do tratamento 0 34,1 50,0 15,9 Os resultados obtidos na terceira parte do questionário sobre a abordagem terapêutica das dislipidemias foram muito variáveis, oscilando entre valores de 2,3% e 100% (Figura 2). Figura 2 – Percentagem de respostas de acordo com as NOC nas diferentes questões do inquérito DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 11 No grupo de questões referentes ao diagnóstico, avaliação e abordagem terapêutica da dislipidemia (questões L1, L7, L10, L11, L13, L17 e L20 – Ver Anexo), a percentagem de respostas em consonância com as NOC foi superior a 90%. As questões relacionadas com modificações do estilo de vida, rastreio das dislipidemias, diagnósticos diferenciais, monitorização dos indivíduos com o diagnóstico de dislipidemia e tratamento farmacológico (questões L2, L8, L12, L14, L16, L21 – Ver Anexo), obtiveram uma percentagem de respostas de acordo com as NOC inferior a 50%. Na amostra em estudo (n=62), foi obtida uma média de respostas em conformidade com as NOC de 65,1% (± 9,8). (Figura 3). Figura 3 - Histograma para a percentagem de respostas em concordância com as NOC na amostra em estudo Relacionando a percentagem média de respostas de acordo com as recomendações clinicas, relativamente ao rastreio das dislipidemias, com as variáveis demográficas, verificouse que os médicos mais jovens (26,1%) apresentaram uma média significativamente superior à obtida pelos médicos mais velhos (18,6%) (p=0,007) (Quadro IV). Foram também verificadas diferenças estatisticamente significativas na percentagem média de respostas de acordo com as NOC no grupo de questões relativas ao rastreio e à monitorização das dislipidemias, nos médicos com menos anos de experiência e naqueles que tinham mais anos de experiencia (p=0,022 e 0,048, respetivamente) (Quadro IV). DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 12 Quadro IV – Relação entre a percentagem média de respostas de acordo com as NOC e as variáveis demográficas Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas, relativamente à percentagem média de respostas de acordo com as NOC (Figura 3), no rastreio e na monitorização das dislipidemias, no grupo de inquiridos que exercem a sua profissão em contexto urbano e rural (p=0,029, p=0,022 e p=0,029, respectivamente) (Quadro IV). N Média Sexo % média de respostas de acordo com as NOC Masculino 13 21,7 Mann-Whitney U p> 0,05 (p=0,925) Feminino 30 22,1 Idade % média de respostas de acordo com as NOC no Rastreio ≤54 anos 23 26,1 Mann-Whitney U p=0,007 ≥55 anos 21 18,6 Duração exercício na profissão % média de respostas de acordo com as NOC no Rastreio ≤26 anos 21 25,9 Mann-Whitney U p=0,022 ≥27 anos 23 19,4 Duração exercício na profissão % média de respostas de acordo com as NOC na Monitorização ≤26 anos 21 26,2 Mann-Whitney U p=0,048 ≥27 anos 23 19,2 Área % média de respostas de acordo com as NOC Urbana 21 26,6 Mann-Whitney U p=0,029 Rural 23 18,8 Área % média de respostas de acordo com as NOC no Rastreio Urbana 21 25,9 Mann-Whitney U p=0,022 Rural 23 19,4 Área % média de respostas de acordo com as NOC na Monitorização Urbana 21 26,6 Mann-Whitney U p=0,029 Rural 23 18,8 Interno % média de respostas de acordo com as NOC Sim 1 7,0 Mann-Whitney U p=0,318 Não 43 22,9 Formação específica em dislipidemias % média de respostas de acordo com as NOC Sim 8 21,8 Mann-Whitney U p=0,870 Não 36 22,7 DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 13 Figura 4 – Gráfico de percentagem de respostas em concordância com as NOC por área de exercício da profissão Não foram verificadas outras diferenças estatisticamente significativas nas comparações realizadas, nomeadamente na comparação feita entre os profissionais que tiveram formação pós-graduada específica em dislipidemias e aqueles que não mencionaram qualquer tipo de formação nesta área (Quadro IV). DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 14 4. Discussão Neste estudo, foi identificada uma alta percentagem de médicos que referiram uma prevalência de 25 a 49% de dislipidemia nos seus doentes. Tal percentagem é inferior ao encontrado por Costa, J. et al.31, que reporta um valor de 56,7%. Este diferencial poderá ser resultante de vários aspetos, entre os quais podemos apontar: a metodologia utilizada nos estudos para a obtenção dos resultados, não ser a mesma, tratar-se de populações com características diferentes, entre outros. Verificamos que a maioria dos médicos inquiridos realizaria o rastreio do perfil lipídico nas mulheres e nos homens com idades inferiores aos 18 anos de idade. O que não esta em conformidade com as orientações clínicas atuais que apontam os 40 anos para os homens e os 50 para as mulheres. Este fato poderá ser atribuído a eventual confusão com as recomendações no âmbito da Saúde de Infantil em que está determinado fazer a deteção precoce de dislipidemia nas crianças com risco familiar. A percentagem de doentes que os médicos percecionam ter colesterol total alto e triglicerídeos normais é inferior à prevalência na população demonstrada pelo estudo Hipócrates realizado por Perdigão, C. et al.32, o mesmo é identificado relativamente à perceção dos médicos no que concerne à hipertrigliceridemia. Na questão referente aos doentes com diagnóstico de dislipidemia, a maioria dos médicos referiram que grande parte dos doentes seria tratada pela associação da modificação de estilos de vida e da terapêutica farmacológica, o que vai de encontro ao constatado em outros estudos18 e está em conformidade com as recomendações clínicas nacionais e internacionais. Quanto á monitorização dos doentes com diagnóstico de dislipidemia, o estudo evidenciou uma elevada percentagem de respostas de acordo com as orientações clinicas atuais. No entanto, a variação existente no estudo, entre as respostas e as orientações em vigor pode, em parte, ser explicada pela recente publicação das normas de orientação clinica. Deste modo, permanece uma percentagem considerável (40%) de profissionais que não atendem a este pressuposto. Torna-se pois, necessário uniformizar os procedimentos com base nas presentes normas, com o objetivo de uma maior e melhor rentabilização de custos (físicos e financeiros). Relativamente ao tempo médio de tratamento farmacológico, a maioria dos médicos inquiridos referiram tratar os seus doentes a vida inteira. Uma vez que não existem orientações clinicas especificas nesta área, a decisão do médico em manter a terapêutica antidislipidemica dependerá do risco cardiovascular do doente e suas características biofísicas. Na análise dos resultados em relação à percentagem média de respostas em conformidade com as NOC o nível obtido (65,1%) é aceitável, uma vez que mais de metade dos indivíduos respondeu em concordância com as orientações clinicas. Por outro lado, foi DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 15 evidenciado que os médicos com idades mais jovens demonstraram mais conhecimentos em concordância com as orientações do que os médicos mais velhos, tal como foi encontrado por Doroodchi, H. et al. 26. Este fato é mais um alerta para a necessidade constante que os médicos têem, na revisão e actualização dos seus conhecimentos. Os resultados obtidos evidenciaram que os indivíduos que exerciam a sua profissão em contexto urbano demonstraram mais conhecimentos relativamente às NOC em relação aos médicos que exerciam em contexto rural, o que não vai de encontro ao estudos realizado por Cook, S. et al.18 que referem não existir correlação entre a localização geográfica e as escolhas da prática clinica. Deste modo, este estudo demonstrou a necessidade de uma melhor intervenção ao nível dos profissionais de saúde do meio rural. Foram identificadas diversas limitações ao logo do estudo. A utilização de uma amostra não aleatória dos médicos leva a que os resultados obtidos não possam ser necessariamente generalizáveis a todos os profissionais de saúde e aos dos diferentes ACeS. A inexistência de um questionário validado para a língua e cultura portuguesas, tornou necessária a estruturação de um novo questionário, o que levou a dificuldades posteriores na análise dos dados e subsequente comparação dos resultados obtidos nesta investigação com estudos internacionais que utilizaram questionários diferentes. Para além disso, a impossibilidade de entrega e recepção dos questionários aos médicos Coordenadores das Unidades de Saúde envolvidos, nos horários estabelecidos inicialmente, devido a incompatibilidades entre a investigadora e os mesmos, poderá ter introduzido enviesamento nos resultados do estudo, nomeadamente no que concerne à percentagem de participação dos profissionais de saúde de determinadas US em relação a outras. Os resultados deste estudo permitiram identificar diversas fragilidades, ao nível dos conhecimentos e atitudes dos profissionais de saúde do referido ACeS, relativamente à abordagem das dislipidemias e seu tratamento. Fato que, associado à constatação de que a formação prévia em dislipidemias não demonstrou um índice de conhecimentos aumentado nestes profissionais, evidencia a necessidade de apostar na otimização da formação pré, pósgraduada e continua. Este estudo poderá, assim, servir de orientação a formações futuras, na medida em que põe em evidência as áreas de conhecimento em que os médicos apresentam índices mais baixos, podendo a formação ser dirigida a essas fragilidades. Por outro lado, tendo em conta a existência de poucos estudos nesta área em Portugal, esta ação poderá ser o ponto de partida para futuras investigações relativamente a esta temática, nomeadamente no âmbito da Garantia da Qualidade. DISLIPIDEMIAS: CONHECIMENTOS E ATITUDES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO ACES SANTO TIRSO/ TROFA Página 16 5. Bibliografia 1. World Health Organization. Prevention of cardiovascular disease:guidelines for assessment and management of total cardiovascular risk. Geneva. WHO Library. 2007. 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O diagnóstico das dislipidemias realiza-se pela avaliação laboratorial, no sangue e em jejum, do Colesterol Total, Colesterol das HDL, Colesterol das LDL e dos triglicerídeos. V 44 (100%) 0 (0%) L2. É um importante objectivo a adesão pelo doente a modificações no estilo de vida, como, dieta redutora de lípidos e do risco cardiovascular, exercício físico anaeróbico regular, cessação dos hábitos tabágicos. F 2 (4,5%) 42 (95,5%) L3. Nos doentes com risco cardiovascular absoluto moderado, o objetivo é a adoção de estilo de vida saudável e controlo analítico de Colesterol Total inferior a 190 mg/dl e Colesterol das LDL inferior a 115 mg/dl. V 39 (88,6%) 5 (11,4%) L4. Nos doentes assintomáticos com risco global cardiovascular alto, o objectivo é obter um controlo analítico de Colesterol Total inferior a 175 mg/dl e Colesterol das LDL inferior a 100 mg/dl. V 39 (88,6%) 5 (11,4%) L5. Nos doentes com risco cardiovascular muito alto, o objectivo terapêutico é obter um controlo analítico de Colesterol Total inferior a 155 mg/dl e Colesterol das LDL inferior a 100 mg/dl. F 29 (65,9%) 15 (34,1%) L6. São objectivos terapêuticos secundários e influenciadores da opção terapêutica antidislipidemica escolhida, as concentrações de Colesterol das HDL inferior a 40 mg/dl no homem ou 45 mg/dl na mulher e de triglicerídeos > 150 mg/dl. V 25 (56,8%) 19 (43,2%) L7. Nos doentes com risco cardiovascular alto e muito alto, o tratamento precoce deve ser realizado com uma estatina. V 40 (90,9%) 4 (9,1%) L8. Como alternativa terapêutica, deve-se privilegiar a opção terapêutica de menor custo para maior eficácia, salvaguardando o cumprimento das orientações de boa pratica clínica. F 1 (2,3%) 43 (97,7%) 0 20 40 60 80 100 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 Percentagem de Respostas Questionário Percentagem de Respostas De acordo com as NOC Concordantes Discordantes L9. Em prevenção secundária, a terapêutica antidislipidemica com estatinas é fundamental, apenas nos doentes com risco cardiovascular igual ou superior a 10% e na maioria dos doentes diabéticos. F 30 (68,2%) 14 (31,8%) L10. Nos doentes com síndrome coronário agudo deve ser preferida uma terapêutica intensiva, com fibratos, tendo em conta a presença de comorbilidades e a terapêutica concomitante. F 42 (95,5%) 2 (4,5%) L11. Os doentes submetidos a terapêutica farmacológica antidislipidemica devem ser reavaliados em cada consulta quanto à sua adesão a estilos de vida saudáveis e a parâmetros laboratoriais em cada trimestre, nos doentes onde não foram atingidos os objectivos terapêuticos propostos. V 41 (93,2%) 3 (6,8%) L12. O rastreio de uma dislipidemia deve ser efetuado na coexistência de outros fatores de risco cardiovascular, em todos os homens com idade ≥ 40 anos e em todas as mulheres com idade ≥ 45 anos ou na pós-menopausa. F 10 (22,7%) 34 (77,3%) L13. A avaliação do perfil lipídico deve ser efectuada nas pessoas com evidência de aterosclerose, com diabetes mellitus tipo 2 ou com história familiar de doença cardiovascular prematura ou de dislipidemia familiar. V 44 (100%) 0 (0%) L14. Nos doentes submetidos a terapêutica farmacológica antidislipidemica e nos quais foram atingidos os objectivos terapêuticos propostos, deve ser efectuada reavaliação dentro de 6 meses quanto à sua adesão a estilos de vida saudáveis e aos parâmetros laboratoriais. F 4 (9,1%) 40 (90,9%) L15. O diagnóstico clínico deve ser confirmado por uma segunda avaliação laboratorial, realizada no intervalo mínimo de 3 semanas. F 32 (72,7%) 12 (27,3%) L16. No diagnóstico clínico não se devem excluir causas secundárias e frequentes de dislipidemias. F 14 (31,8%) 30 (68,2%) L17. A escolha de um fármaco antidislipidemico deve ter em conta a expressão das alterações laboratoriais da dislipidemia, o efeito farmacológico a prosseguir, a facilidade de administração, o perfil de efeitos adversos, o perfil de segurança a longo prazo, os efeitos nos objectivos vasculares e a mortalidade total e a relação custo-eficácia (efectividade). V 44 (100%) 0 (0%) L18. O uso de terapêutica antidislipidemica sem uma estatina só deve ser utilizado no caso de existir contra-indicações ou intolerância à estatina. V 33 (75%) 11 (25%) L19. A ezetimiba é indicada como terapêutica adjuvante em pessoas com hipercolesterolemia primária, mas não as resinas permutadoras de iões. F 26 (59,1%) 18 (40,9%) L20. Os fibratos estão indicados no tratamento das dislipidemias mistas com hipertrigliceridemia. V 43 (97,7%) 1 (2,3%) L21. O ácido nicotínico está indicado no tratamento da dislipidemia mista combinada e da hipercolesterolemia primária. V 21 (47,7%) 23 (52,3%) L22. O uso por rotina de alimentos ricos em estanóis e esteróis vegetais está recomendado na prevenção primária e secundária da doença cardiovascular. V 27 (61,4%) 17 (38,6%)