O Crowdsourcing aplicado ao Jornalismo. O caso do P3
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Sara Maria Catarino Vilela Sampaio O Crowdsourcing aplicado ao Jornalismo: o caso do P3 Relatório Final de Estágio realizado no âmbito do Mestrado em Ciências da Comunicação orientado pelo Professor Doutor Paulo Frias Faculdade de Letras da Universidade do Porto outubro de 2015
3 O Crowdsourcing aplicado ao Jornalismo: o caso do P3 Sara Maria Catarino Vilela Sampaio Relatório Final de Estágio realizado no âmbito do Mestrado em Ciências da Comunicação orientado pelo Professor Doutor Paulo Frias da Costa Membros do Júri Presidente: Professora Doutora Helena Laura Dias de Lima Faculdade de Letras - Universidade do Porto Vogal: Doutora Amanda Francisca Alves Ribeiro Especialista – Jornal Público Vogal: Professor Doutor Paulo Frias da Costa Faculdade de Letras - Universidade do Porto Classificação obtida: Dezasseis valores
4 À minha avó Alice
6 Sumário Agradecimentos………………………………………………………………………… 8 Resumo…………………………………………………………………………………. 9 Abstract………………………………………………….…………………………… 10 Índice de gráficos............................................................................................................ 11 Índice de tabelas ............................................................................................................. 12 Introdução ....................................................................................................................... 13 Capítulo 1: A Internet – um meio aberto de comunicação ............................................. 16 1.1. O Jornalismo online: um novo meio de comunicação ......................................... 16 1.2. A Cultura de Convergência e a Web 2.0 .............................................................. 22 1.3. A Inteligência Coletiva ........................................................................................ 28 Capítulo 2. – A participação do público nos media online ............................................. 32 2.1. O “Jornalismo cidadão” ....................................................................................... 32 2.2. User generated content ........................................................................................ 39 2.3. Crowdsourcing ..................................................................................................... 44 Capítulo 3. – O papel do jornalista atual: Gatekeeper ou Gatewatcher? ....................... 53 Capítulo 4. – O P3 – Público .......................................................................................... 62 4.1. Três meses no P3 – Público: Uma retrospetiva ................................................... 62 Capítulo 5. – Metodologia adotada................................................................................. 67 Capítulo 6. – Análise e Discussão de Resultados ........................................................... 69 Considerações finais ....................................................................................................... 81 Referências bibliográficas .............................................................................................. 82 Anexos ............................................................................................................................ 86 Anexo 1 ....................................................................................................................... 87 Anexo 2 ....................................................................................................................... 88 Anexo 3 ....................................................................................................................... 89 Anexo 4 ....................................................................................................................... 90 Anexo 5 ....................................................................................................................... 91 Anexo 6 ....................................................................................................................... 92 Anexo 7 ....................................................................................................................... 93 Anexo 8 ....................................................................................................................... 94
7 Anexo 9 ....................................................................................................................... 95 Anexo 10 ..................................................................................................................... 96 Anexo 11 ..................................................................................................................... 97 Anexo 12 ..................................................................................................................... 98 Anexo 13 ..................................................................................................................... 99 Anexo 14 ................................................................................................................... 100 Anexo 15 ................................................................................................................... 101 Anexo 16 ................................................................................................................... 102 Anexo 17 ................................................................................................................... 103
8 Agradecimentos Os agradecimentos em torno deste trabalho de mestrado vão, antes de mais, para os meus pais e avó Alice, que, durante o período de trabalho, sempre me apoiaram incondicionalmente e me incentivaram para que o resultado final deste trabalho ficasse o melhor possível. Ainda agradeço, em especial, ao meu namorado Tiago, cujos conselhos e troca de impressões me ajudaram também na concretização deste relatório que foi sendo desenvolvido de uma forma progressiva. Também dirijo os meus agradecimentos a toda a equipa do P3 – Público, aos editores Andreia Azevedo Soares e Luís Octávio Costa, às jornalistas Amanda Ribeiro, Ana Maria Henriques e Mariana Correia Pinto e a todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para a concretização do meu estágio. Devo um agradecimento, em particular, ao Diretor Amílcar Correia, não só pelos conselhos e conversas que partilhamos, mas também por me ter aceitado neste projeto, permitindome um aumento de experiência na área do jornalismo e ainda um crescimento pessoal significativo. Agradeço também ao meu orientador, o Professor Doutor Paulo Frias, pela paciência, dedicação, conselhos e disponibilidade constante, fatores esses que me foram ajudando a desenvolver o presente trabalho de uma forma crescente, melhorando sempre as versões apresentadas com as suas críticas e comentários muito pertinentes. Gostaria ainda de agradecer aos Professores Doutores Benjamim Fonseca e João Matias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, pela ajuda “extra” que me concederam na resolução de um problema que poderia ter comprometido o meu trabalho. Muito obrigada por me terem “salvo” a mim e ao meu relatório final de estágio. Por último, mas não por isso menos importante, a todos os meus amigos que me acompanharam em sessões de trabalho, ou que foram mostrando interesse pelo meu trabalho que fui desenvolvendo durante este ano de 2015, concedo a todos o meu “muito obrigada!”
9 Resumo A Internet tem vindo a tornar-se um meio de comunicação com vantagens surpreendentes para o jornalismo. Vários profissionais de comunicação têm vindo a tirar proveito de um meio no qual vários indivíduos, com acesso à Internet, se manifestam, partilhando uma variedade de conteúdos. Uma dessas estratégias é denominada de crowdsourcing, uma forma de concurso aberto que convida as audiências a participarem mais ativa e diretamente no processo informativo. O papel do jornalista continua, ainda assim, a ter a sua importância, na medida em que este é visto pelo público como sendo um guardião da informação, confirmando ou desmentindo determinadas informações. Neste trabalho visamos analisar, durante um determinado período temporal, vários conteúdos publicados no P3 (projeto associado ao jornal Público), observando as origens dos conteúdos, verificando em que secções e subsecções prevalecem os conteúdos de crowdsourcing e analisando que tipo de conteúdos o P3 – Público conseguiu publicar com a ajuda da colaboração do público. Palavras-chave: Jornalismo online, P3 – Público, Crowdsourcing.
16 Capítulo 1: A Internet – um meio aberto de comunicação É inegável o papel e impacto da Internet na forma de praticar jornalismo. Vários autores já mencionaram o seu impacto na área de comunicação, nomeadamente no fluxo das notícias, na rotina dos jornalistas, na relação com as audiências e também no levantamento de uma série de novas questões de natureza ética. Certo é que o jornalismo tradicional sofreu mutações e teve que se adaptar a um novo meio de comunicação o qual trouxe consigo, não só várias mudanças neste campo, como também novas possibilidades de acesso a toda a informação à nossa volta. É o caso do jornalismo online que, graças à ascensão da cultura de convergência e da Web 2.0, teve oportunidade de explorar novas características provenientes do meio digital, bem como de se adaptar a uma realidade participativa. 1.1. O Jornalismo online: um novo meio de comunicação A tecnologia e os órgãos de comunicação social andam de mãos dadas há vários anos, desde a criação da imprensa até aos dias de hoje. Foi através de avanços tecnológicos que chegaram até nós meios de comunicação, tais como a rádio e a televisão. Pavlik (2008) explica que, ao longo da história, a tecnologia e os meios de comunicação públicos percorreram caminhos que, muitas das vezes, os ligavam. As novas tecnologias invadiram a sociedade e os “media leaders”, em muitas situações, abraçaram as tecnologias e tiraram proveito dos benefícios que as mesmas trouxeram para a área. Ainda assim, alguns dos comunicadores mantiveram as tecnologias longe de si próprios, mesmo quando as oportunidades que as mesmas apresentavam permitiam estender o alcance, aumentando o impacto e a qualidade dos media. Contudo, foi com o crescimento da popularidade da Internet, bem como o aumento do número de internautas, que se começou a apontar este mesmo meio como sendo algo a que os órgãos de comunicação teriam, inevitavelmente, que se adaptar por forma a sobreviver. King (2010) faz uma retrospetiva relativamente à forma como os media tiveram que se harmonizar com a Internet. Durante os anos 90, com o aparecimento da World Wide Web e também com a revolução “dot.com”, abriu-se uma variedade de novas possibilidades para várias organizações. A Internet começou a
17 tornar-se cada vez mais fácil de usar e, progressivamente, foi começando a ser vista como um “mass medium” que podia ser utilizado de várias formas. Muitas organizações começaram, em crescendo, a explorar e a ter noção das potencialidades graduais deste meio de comunicação. Os órgãos de comunicação social tradicionais não foram exceção: este meio tinha potencial como ferramenta noticiosa, bem como para ser um veículo para divulgação de notícias. Com a passagem para um novo século, a mudança era evidente: vários órgãos de comunicação social prestigiados tinham adotado o meio online e investiam cada vez mais na produção de conteúdos para a Web (King, 2010). Pavlik (2001), citado por Zamith (2013), enumerou três fases na evolução do jornalismo: na primeira apareceu shovelware, uma medida na qual vários media, simplesmente, inseriam os conteúdos das suas versões impressas num website; na segunda fase já existiu produção de conteúdos para a Internet com hipertexto e multimédia já envolvidos no processo; por fim, a terceira fase refere-se ao desenvolvimento de conteúdos exclusivamente destinados para o meio online, desta vez tirando partido de mais características na criação de conteúdos. A convergência dos media é muito mais do que uma mudança tecnológica. Esta altera a relação entre tecnologia, indústria, mercado e audiências que existiam previamente. Esta noção veio alterar a lógica pela qual as indústrias mediáticas funcionavam, assim como a forma como o público consome notícias e produtos de entretenimento. A convergência mediática é referente a um processo e não a um fim (Jenkins, 2006). Tendo em conta este ponto de vista, podemos entender a “convergência” como sendo um processo contínuo que veio alterar várias regras existentes em comunicação social. Lévy (2002) salienta que, tendo em conta o facto de que são os media quem dá uma forma à opinião pública, o surgimento do chamado “ciberespaço” implicou uma mutação da conversação coletiva, mais especificamente da criação e do espalhar de opiniões. O autor refere, ainda, que os meios de comunicação sofreram transformações sob três aspetos: (1) o carácter territorial dos media (referente aos meios de comunicação como os principais difusores de informação) decaiu, passando estes a
18 estarem dependentes de comunidades virtuais; (2) a convergência de suportes mediáticos (imprensa, rádio e televisão); (3) a emergência dos “automedia”, nos quais se nota uma tendência de adoção de funções mediáticas por parte dos atores sociais (este aspeto será mais aprofundado mais adiante, no Capítulo 2 deste trabalho). Fosse como fosse, a adaptação a esta nova realidade era essencial para a sobrevivência dos media. As implicações no que toca à adaptação do jornalismo tradicional, bem como do jornalismo digital a este meio revolucionário são aprofundadas por Frias e Lima (2014). Em relação a este assunto, estes autores são de opinião que o jornalismo digital teve que redefinir os seus conteúdos e estruturas narrativas, criar e explorar novos formatos. A conexão entre as funções redatoriais e os fluxos de informação provocou mudanças em estruturas existentes, o que, por sua vez, levou a novos desafios em termos de gestão de conteúdos e temáticas, gerando, assim, novos processos de seleção e publicação. Este conjunto de fatores implica uma inovação na prática de jornalismo, sendo fulcral a adaptação a este meio para a sua sobrevivência. Briggs (2007) salienta que a habilidade de “pensar online” é a capacidade mais importante que um jornalista pode, hoje em dia, adquirir ou desenvolver. Além de procurar estratégias para atrair visualizações, os profissionais de informação poderão explorar novas formas de dar notícias. Hoje em dia, os jornalistas cujo trabalho consiste em reunir, interpretar e divulgar informação, têm vários meios para o concretizar. Os jornalistas online poderão usufruir de ajuda gratuita. Num meio instável e arriscado, a necessidade que o público tem de informação e da sua análise e interpretação, parece ser algo cada vez mais necessário (Haak et al., 2012). Podemos salientar que a Internet representa uma série de novas oportunidades para o jornalismo. Apesar de existirem vários autores que se opõem vivamente à integração do meio online como meio de comunicação, existem aqueles que veem o meio online mais como uma “libertação”, do que como uma “ameaça”. Alguns autores apresentam uma perspetiva positiva relativamente a este fenómeno, ao afirmarem que o jornalismo em rede não é uma ameaça à independência e qualidade do jornalismo profissional. Pelo contrário, poderá representar uma libertação do controlo rigoroso corporativo (Haak et al., 2012). É de realçar o que Haak e outros (2012, p. 6) afirmam, a
19 este propósito, que entendem ser uma “(…) opportunity for journalists to each excel in a unique way, and for society to benefit, both from an endless expansion of information, and from meaningful interpretation of this information in a world characterized by informed bewilderment”. Existem várias formas de o jornalismo online tirar proveito das potencialidades da Internet. Zamith (2013) apontou algumas das características mais relevantes do ciberjornalismo: a primeira característica referida é a interatividade que permite que a interação humana seja potenciada pela máquina, por intermédio da tecnologia; em segundo lugar temos a hipertextualidade, definida como sendo um conjunto de “nós”, ligados entre si por conexões e podendo, os mesmos, serem várias coisas (imagens, palavras, páginas, gráficos, sequências sonoras, documentos, etc.); uma outra característica é a multimedialidade que se refere à capacidade possibilitada pelo suporte digital de combinar numa mensagem pelo menos três elementos: texto, imagem e som; a quarta característica é a instantaneidade, ou seja, a possibilidade de publicar instantaneamente qualquer conteúdo informativo sem ter os constrangimentos dos media tradicionais; a ubiquidade é outra das características apontadas e é referente à possibilidade de uma notícia publicada online ser acedida e lida por várias pessoas, independentemente da sua localização no planeta Terra; temos ainda a memória, referente à capacidade da Internet de acumular conteúdos de uma forma praticamente ilimitada, disponibilizando os seus conteúdos numa espécie de arquivo, acessível a qualquer hora e em qualquer local; por fim, a personalização que se apresenta como sendo uma possibilidade de um utilizador da Internet configurar, a seu gosto, os seus conteúdos. Não só a Internet apresenta mais vantagens face aos meios de comunicação tradicionais, como ainda permite que os interessados explorem características inovadoras e únicas. Bradshaw e Rohumaa (2011) apresentam algumas características similares às defendidas por Zamith (2013) que associam ao “jornalismo online”, as chamadas hiperligações, ligações que permitem que a informação flua através da Internet; o uso de uma narrativa não-linear; o uso de elementos multimédia em vários formatos (texto, imagens, áudio e vídeo); a possibilidade de uma história ser publicada em tempo-real,
20 sendo disponibilizada a todos os que tiverem interesse em consultá-la; a interatividade que existe entre jornalistas e leitores no meio; a facilidade de acesso à informação em todo o mundo e a qualquer hora; por fim, a transparência, na medida em que é possível aos jornalistas o uso de hiperligações para dar acesso aos seus leitores a informações que considerem relevantes. Este meio traz consigo, portanto, características potenciais que podem ajudar o jornalista a fazer o seu trabalho de uma forma diferente da dos meios tradicionais. Salientamos o aspeto da multimedialidade como sendo uma das características mais importantes da Internet. A Web pode ser entendida como sendo “(…) por excelência, o meio multimédia” (Canavilhas, 2008, p. 163). Tudo isto porque as notícias poderão ser disponibilizadas do mesmo modo que os media tradicionais disponibilizavam a informação: texto com imagem (imprensa), som (rádio) e vídeo (televisão). É a sua característica relevante como meio multimédia que permite que tenha sucesso e desperte a atenção dos utilizadores da Internet. Vários profissionais de comunicação referiram alguns prós que advêm do uso da Internet na sua profissão, entre os quais se destacam: a sua utilidade como meio para aceder a informação útil (documentos governamentais, empresariais e a informações de serviço); a sua conveniência, enquanto recurso, para a atualização de informação; a abertura a novas possibilidades para as emissoras; a importância da Internet em várias funções profissionais, mais especificamente, na obtenção de notícias o mais rapidamente possível; a capacidade deste meio chegar a um público o mais alargado possível; o assinalar de novas tendências e ideias; e, por fim, a possibilidade de manter contacto com a audiência (Bastos et al., 2013). Este meio é, então, entendido como sendo útil e facilitador da prática de jornalismo, pois não só permite que a informação chegue a um público mais abrangente, como ainda lhes facilita um acesso a novas informações disponibilizadas para consulta. Naturalmente, este meio não é algo “perfeito”, apesar das vantagens que já vimos que traz para o jornalismo. Pese embora as primazias indicadas, existem também alguns aspetos negativos apontados por alguns jornalistas portugueses. Bastos e outros (2013) referem que a Internet contribui para um jornalismo mais sedentário, ou de
21 “secretária”, existe uma maior dificuldade em diferenciar informações falsas ou incertas, há diminuição do rigor da notícia, bem como um afunilamento dos temas noticiosos. O jornalismo online acabou, assim, por ter repercussões no jornalismo clássico, apesar das vantagens que este trouxe. No entanto, os jornalistas, no exercício da sua profissão, necessitarão de compreender e “abraçar” as novas tecnologias por forma a delas tirarem maior partido. Bradshaw e Rohumaa (2011) referem algumas das razões relevantes para as quais os jornalistas necessitam de “compreender” a tecnologia. Destacam o uso da tecnologia como uma grande ajuda para o jornalista realizar o seu trabalho de uma forma mais eficaz, os websites que permitem ao jornalista ter uma noção de quantos “hits” a sua página teve (quais as notícias mais lidas e mais partilhadas), entre outras razões apontadas. Briggs (2007) apresenta uma perspetiva otimista, afirmando que nunca houve melhor altura para se ser jornalista como a que vivemos atualmente. Apesar de, desde 2000, vários jornalistas terem perdido os seus empregos, Briggs (2007) salienta que aumentaram as “formas” de fazer jornalismo e que quem adora esta profissão, certamente adorará ter mais ferramentas auxiliares à sua disposição, maior possibilidade de interação com as audiências e um esbater de constrangimentos de tempo e espaço. Pavlik (2008) entende que os novos media que procurem uma oportunidade num mercado noticioso que está modificado (e, supostamente, em risco de desaparecer) deveriam prestar maior atenção às novas tecnologias e encará-las como uma oportunidade de experimentarem e chegarem a novas audiências. Caso contrário, o papel social do jornalismo reduzirá perante o poder que o ciberespaço tem ganho. O jornalista acaba por ser colocado numa posição na qual tem que ser detentor de várias capacidades pertinentes por forma a sobreviver neste meio. Marques (2008) é de opinião que, tendo em conta a entropia e confusão causadas pelo excesso de informação, o jornalista é uma figura que tem várias responsabilidades, nomeadamente a de hierarquizar, organizar e apresentar as informações que interessam a cada pessoa. A autora ressalta que o jornalista do século XXI, não só se deve adaptar às circunstâncias atuais do jornalismo online (adiantando-se às necessidades e exigências da audiência, usar fontes online para apurar a veracidade de certas informações), como
22 se deve apresentar como uma figura que tem o dever de fortalecer os princípios éticos e deontológicos, característicos desta profissão. Deve também fornecer à audiência as informações mais importantes de um determinado momento e deve ter uma forte preparação, não só em Ciências Sociais, como ainda na área da Informação. Um aspeto importante que surgiu com este meio online diz respeito à possibilidade de participação do público, bem como as vantagens que advém dessa prática. Este fator, relevante para este trabalho, será mais aprofundado no capítulo que se segue. 1.2. A Cultura de Convergência e a Web 2.0 Como vimos antes, o meio digital representa novas facilidades e novos desafios para os jornalistas que escolham trabalhar neste meio. Haak e outros (2012) salientam as consequências e potencialidades que deste meio advêm, salientando o ambiente digital onde há novos factos que estão a ser divulgados diariamente. Há cada vez maior feedback e participação da parte das audiências. Crescem as vozes que são “ouvidas” e as diversas perspetivas sob as quais as histórias noticiosas são apresentadas. A quantidade de notícias aumentam e as mesmas ficam arquivadas num meio “público”, sendo facilmente encontradas com recurso a um simples ato de pesquisa. Contudo, é no fator “participação do público” que nos debruçaremos nesta secção. A participação do público foi devidamente estudado por Jay Rosen em 2006, quando escreveu um texto falando das pessoas anteriormente conhecidas como audiência (Rosen, 2006). Esse tipo de audiência é referido como “writing-readers”. Durante muito tempo o elemento preponderante na cadeia informativa foi o jornalista. Apesar de terem em conta as audiências, o jornalista, enquanto emissor, teve a sua superioridade durante muito tempo. A Internet veio alterar esse sistema, colocando a audiência numa posição que lhe permite ser também emissor: podem comentar notícias, contactar diretamente os jornalistas, escrever em blogs, entre outras possibilidades que o meio providencia a todos. Portanto, podemos concluir que as pessoas anteriormente conhecidas como audiência são, simplesmente, o público que consome a informação, só que mais “real”, menos “ficcional”, mais “capaz” e, sobretudo, menos “previsível” (Rosen, 2006).
23 Pavlik (2008) também partilha do mesmo ponto de vista salientando que a ideia do público, como sendo um recetor passivo de mensagens mediatizadas, está a ficar cada vez mais antiquada. A propósito deste aspeto, o autor afirma que “(…) they are no longer passive couch potatoes, at least not much of the time” (Pavlik, 2008, p. 56). Este autor salienta ainda dois termos que definem atualmente os consumidores dos media: o user (o utilizador) e o producer (o produtor), ou seja, o público, hoje em dia, pode ser consumidor de media e ao mesmo tempo produtor de conteúdos de media. Tendo em conta esta vasta possibilidade de participação que o público agora possui, podemos atentar que estamos inseridos dentro daquilo a que Jenkins (2006) chamou de “cultura de convergência” – uma cultura na qual os velhos e novos media colidem e onde o poder dos produtores dos media e o poder dos consumidores dos media interagem de forma imprevisível (Jenkins, 2006). A Internet promoveu essa mesma colisão entre os meios tradicionais e o meio online, permitindo um esbater de barreiras entre meios e audiências que dantes eram pouco intransponíveis. Esta extensão do ciberespaço acabou por nos trazer, mais liberdade (mais especificamente, liberdade de expressão e de comunicação que em nada se comparam aos media anteriores) e maior comunicação e interdependência. O livre acesso a várias informações, bem como a possibilidade de nos associarmos e comunicarmos, desenvolve-se de forma surpreendente nas várias comunidades virtuais existentes (Lévy, 2002). Contudo, que tem esta noção de convergência a ver com o que referimos até agora relativamente à importância da inovação da parte dos media de modo a adaptarem-se a esse meio? Jenkins (2006), neste aspeto, partilha uma opinião similar à de Pavlik (2008), salientando que a convergência requer que os media companies repensem velhas noções relativamente ao que entendem como “consumir meios de comunicação”. Aliás, algumas das transformações por que os media terão que passar implicam, precisamente, uma adaptação a este público “novo” com características muito distintas das de um público tradicional. Jenkins (2006) faz uma comparação entre os “velhos” e “novos” consumidores. Os velhos eram passivos, enquanto os novos são ativos. Os velhos eram previsíveis e ficavam onde os media lhes diziam para ficar (nomeadamente fiéis a um único meio de
24 comunicação), enquanto os novos são consumidores mais migratórios, tendendo a mostrar uma lealdade facilmente mais decadente. Os velhos consumidores eram mais isolados, os novos consumidores estão mais ligados socialmente (ou através do meio online). Dantes o trabalho e o manifesto dos consumidores tradicionais era silencioso e invisível, o que não é o caso dos novos consumidores, cujo trabalho e manifesto é agora mais “barulhento” e público. O que esta comparação procura apontar é o facto de as audiências modernas estarem mais ligadas às atividades dos media, terem maiores opções de escolha face ao que preferem consumir, estarem mais ligados mesmo que não seja através de uma ligação física e ainda por terem a possibilidade e a capacidade de se manifestarem mais vezes. Tendo em conta o que foi referido, podemos afirmar que a Internet se tornou um meio que permite a manifestação e participação de várias pessoas, mesmo que elas não estejam ligadas a um meio de comunicação social. Dantes a Internet era um meio similar aos meios de comunicação tradicionais na medida em que permitia a consulta e consumo de informação por parte das audiências, não lhes possibilitando a flexibilidade que atualmente detêm. Aqui aludimos à chamada “nova geração da Internet”, entendida como “Web 2.0”. Atualmente é possível a qualquer indivíduo com uma ligação à Internet tirar proveito deste novo meio, partilhando vários e diversos tipos de conteúdos. Bradshaw e Rohumaa (2011) explicam que, graças ao crescimento “fenomenal” de banda-larga que se tem notado, milhares de leitores têm agora acesso à Internet de alta-velocidade. Estes serviços permitem-lhes, não só receber informação, mas também dar-lhes a possibilidade de participarem num meio que lhes proporciona uma variedade de ações, algo que dantes era impensável. Os internautas desta geração de Internet podem criar sites grátis, fazer upload de e partilhar fotografias, responder a jornalistas, criar publicidade para wikis, enviar mensagens de texto, assim como imagens, sons e vídeos que poderão ser vistos em todo o mundo numa questão de minutos. A possibilidade de participação, interação e partilha de conteúdos por vários indivíduos com ligação à Internet é uma das características mais relevantes que o meio online trouxe consigo. Essa transparência, flexibilidade e facilidade de utilização em relação a outros meios,
25 levaram a que surgisse um novo termo que refletisse o quão aberto este meio é para todos – falamos da chamada “Web 2.0”. A Web 2.0, referida pela primeira vez por Tim O’Riley, pode ser considerada como sendo uma “segunda geração” da Internet, na qual os utilizadores não só consomem a informação que leem, como ainda podem ter uma forma de participação neste meio, produzindo inclusive os seus próprios conteúdos. Hirst (2011) explica que a diferença da Web 2.0 face à velha “Web 1.0” tem a ver com o nível de interação entre utilizadores: a Web 1.0 remetia para uma Internet mais estática e “read-only”, ou seja, os utilizadores apenas podiam visualizar os conteúdos da Internet e nada mais, o que tornava a lógica deste meio similar à dos media tradicionais. No caso da Web 2.0, esta adota uma lógica mais de “read-write”, no sentido de que qualquer internauta pode criar e fazer upload de conteúdos em vários formatos. Este termo de “read-write” remetenos, portanto, para um meio no qual podem ser partilhados, livremente, conteúdos oriundos da mão de várias pessoas, independentemente da sua origem. Briggs (2007, p. 26) especifica essa noção, ao afirmar que “It’s all about open – open-source software allowing users control and flexibility, open standards to allow new creation. Web publishers are creating platforms instead of content”. Com esta nova geração da Internet, os seus utilizadores têm nas mãos um poder que nunca se imaginou ser possível: o poder de participação e colaboração, disponível a todos os interessados. O público atual começou a adquirir novas características desde que as ferramentas da Web 2.0 possibilitaram que este colaborasse, participasse e até produzisse os seus próprios conteúdos. Os veículos de fonte aberta estão relacionados com o aumento do número de emissores, que atingem um público cada vez maior (Vieira et al., 2011). A forma como a audiência consome as notícias, bem como a possibilidade de participação, atingiram níveis inimagináveis com a Web 2.0. Atualmente vive-se numa “cultura de participação”. Dantes a audiência consumia produtos produzidos pelos media. Hoje em dia os próprios membros dessa “multidão” podem criar os seus próprios conteúdos (Metzger, 2007). Tendo em conta o facto de este meio ser algo “aberto”, isto permite uma extensão ao papel dos consumidores, na medida em que estes podem
32 Capítulo 2. – A participação do público nos media online No capítulo anterior procurámos referir o impacto que a revolução tecnológica e a popularização da Internet, como meio de comunicação, tiveram no jornalismo tradicional. A Web 2.0 introduziu-nos numa nova geração da Internet, na qual há a possibilidade de participação através de várias formas por parte de qualquer indivíduo. Isto levou-nos a procurar dirigir as nossas leituras para temas relacionados com a participação do público na rotina de determinados órgãos de comunicação. Assim, neste capítulo, faremos referência à noção de “jornalismo cidadão” e, finalmente, abordaremos o conceito de Crowdsourcing. 2.1. O “Jornalismo cidadão” A participação do público nos meios de comunicação social não é um tema novo. Vários meios de comunicação introduziram secções que permitem a participação do seu público. Alguns exemplos em Portugal incluem as cartas ao leitor (como é, por exemplo, a secção das cartas ao leitor do Jornal de Notícias), ou os programas televisivos que permitem que os seus espectadores telefonem por forma a dar a sua opinião sobre um determinado tema em discussão (como é, por exemplo, o caso do programa “Opinião Pública” do canal televisivo SIC Notícias ou o programa “Fórum” da estação de rádio TSF). A participação do público não é novidade, mas ganhou novos contornos com a Internet. Correia (2008) refere que este meio praticamente impede o público de ter um papel de recetor passivo, visto que fornece formas de debater, refutar ou contradizer uma determinada notícia, não de uma forma morosa, como se nota nos exemplos dados anteriormente, mas de uma forma imediata. Correia (2008) especifica este panorama notando que antigamente o poder de transmitir informação estava reservado apenas a um pequeno nicho de entendidos e que, atualmente, este pertence a todos aqueles que tiverem a disponibilidade e a vontade de informar. Antigamente eram poucos os cidadãos que tinham a possibilidade de gerar informação e de transmitir notícias. Hoje em dia “a informação pertence a quem a encontra e pode ser transmitida por todos, necessitando, para tal, apenas de uma ligação à Internet” (Correia, 2008, p. 5).
33 Esta atividade participativa, que tem ganho contornos graças à popularidade da Internet, é a atividade que é, frequentemente, referida como “jornalismo cidadão” (“citzen journalism”). Trata-se de um fenómeno que ganhou algum destaque durante os anos 90, com o aumento de espaços que permitiram a participação social nos meios de comunicação. Apesar de o aumento deste fenómeno ser, muitas vezes, associado ao aumento de utilizadores com acesso à Internet, existiram eventos que vieram a constatar aquilo que Rosen (2006) opinou, relativamente às audiências atuais. O ataque terrorista às Torres Gémeas a 11 de setembro de 2001, por exemplo, é um dos eventos que suscitou uma grande reação da parte do público, quer nos blogs, quer no envio de conteúdos relativos aos momentos angustiantes vividos naquela manhã. Outros eventos, tais como o tsunami na Tailândia em 2004, ou as explosões de bombas no metro de Londres em 2005, também foram eventos que propulsionaram uma grande reação do público, especialmente no envio de imagens ou vídeos das circunstâncias trágicas passadas nesses locais (Marques, 2008; Kelly, 2009; Wall, 2012). Contudo, o que se entende como “jornalismo cidadão”? Bowman e Willis (2003), citados por Kelly (2009), referem-se a esta noção como sendo o ato, da parte dos cidadãos, em desempenhar um papel ativo no processo de reunir, analisar, noticiar e disseminar informação noticiosa. Wall (2012) refere que existem vários pontos de vista que entendem o “jornalismo cidadão” como sendo um ato de atenção cívica, no qual pessoas, em geral, podem participar nas suas próprias sociedades, dando esta atividade uma voz àqueles que, tradicionalmente, eram ignorados ou até demasiado vistos. Marques (2008) entende que o “jornalista cidadão” é alguém sem formação em jornalismo, mas que tem vontade de participar na esfera pública, apresentando conteúdos informativos (em vários formatos), exprimindo novas perspetivas e informações que, de outro modo, não seriam dados a conhecer. Aroso e Correia (2007) reconhecem a existência de várias noções de “jornalismo cidadão”, referindo que todas coincidem na base segundo a qual o cidadão, seja ele profissional de jornalismo ou não, desempenha a tarefa de transmitir e difundir informação. Bruns (2010), baseando-se na expressão de Rosen (2006), define o “jornalismo cidadão” como sendo algo que é
34 desempenhado pelas pessoas anteriormente conhecidas como a audiência, pessoas essas que agora se envolvem ativamente no processo jornalístico de uma forma direta. Wall (2012) e Kelly (2009) mencionam vários termos através dos quais se pode definir o “jornalismo cidadão”: grassroots journalism, networked journalism, civic journalism, do-it-youself journalism, participatory journalism, audience material, community journalism, crowd-sourced journalism, open-source journalism, entre outros. Contudo, estes termos procuram reter a ideia de se tratar de uma atividade na qual pessoas, não somente profissionais treinados, conseguem recolher e distribuir informação relativamente a acontecimentos de forma a contribuírem para o conhecimento público. O público atual tem nas suas mãos uma variedade de possibilidades que permitem a sua participação, tais como a de criar um blog numa determinada página noticiosa (Citzen blogs), a de enviar para essa organização noticiosa conteúdos com vários formatos, a de submeter textos da sua autoria (Citizen media e Citizen stories), a de deixar uma forma de feedback ou discussão face a um determinado assunto (Comments, Content hierarchy e Forums), entre outras (ver Tabela 1). Kelly (2009) expõe algumas das razões que poderão levar o público a participar ou a praticar o dito “jornalismo cidadão”. Algumas dessas motivações envolvem o desejo de reconhecimento ou melhoria da reputação do indivíduo; o desejo de exposição das ideias do indivíduo; o ativismo; o procurar criar uma sensação de comunidade (tendo em conta que a Internet permite que várias pessoas, com interesses comuns, se encontrem mais facilmente); e, por fim, a “alegria” de criar algo, elevando o indivíduo do estatuto de observador ao de criador. O público quer participar de várias formas e, conforme referiram anteriormente Meikle e Young (2012), a Internet dá um estímulo ao impulso que várias pessoas têm de colaborar, cooperar e sociabilizar, transparecendo isso no ambiente digital. Existem opiniões bastante favoráveis relativamente a “jornalismo cidadão”. Marques (2008) refere que o cidadão pode ser uma fonte ou uma testemunha, distinguindo-se pelo facto de não ser passivo, contribuindo, ativamente, para o panorama informativo com conteúdos produzidos por si mesmo. Kelly (2009) aponta
35 benefícios tais como: a possibilidade de envolver pessoas mais experientes no processo noticioso para que as notícias sejam mais precisas; a possibilidade de existir cobertura de eventos nos quais os media não consigam estar presentes; o facto de ajudar a poupar dinheiro; a existência de blogs que poderão ter temas que podem influenciar as agendas noticiosas de uma forma positiva, ou até, “ressuscitar” determinados temas noticiosos; pode ajudar a desmistificar o processo jornalístico, no sentido de “partilhar” com o público o “processo” de fazer jornalismo, bem como o de forçar o consumidor a adotar uma certa responsabilidade pelo seu papel no mercado noticioso; e, por fim, o “jornalismo cidadão” poderá ajudar a construir uma sensação de comunidade, aumentando a perceção que os jornalistas têm dessa comunidade, assim como da sua participação na vida cívica. Tanto Bruns (2010), como Kelly (2009), evidenciam a possibilidade de cobertura de eventos nos quais o jornalista não possa estar presente, assim como o facto de ajudar a aprofundar a cobertura jornalística, apresentando uma avaliação detalhada de certos pormenores e explorando outras “vozes” e fontes. Por fim, também referem o facto de ajudarem a estender o processo contínuo de cobertura de temas noticiosos, bem como de poderem utilizar as tecnologias para compilar dossiers de informação sobre tópicos específicos (por exemplo: Wikipédia). Os autores enunciam ainda o número crescente de pessoas dispostas a contribuir com os seus diversos pontos de vista e o facto de não terem uma “verdadeira” responsabilidade para com uma organização específica como elementos que lhes permitem envolver-se neste processo de uma forma mais aprofundada e extensa em relação a vários jornalistas profissionais. No entanto, esta prática também tem as suas limitações. Bruns (2010) aponta o facto de os cidadãos, em muitos casos, terem um acesso limitado à informação em primeira mão, com a exceção de temas “locais” ou áreas nas quais um “cidadão jornalista” seja especialista. Wall (2012) refere algumas questões que podem ser vistas como inconvenientes, a saber: o facto de ser uma atividade que não é praticada por jornalistas profissionais coloca em causa a sua credibilidade, assim como a qualidade ou interesse dos conteúdos que produzem. Além disso, essa falta de “profissionalização”
36 poderá significar que esses conteúdos são tão “crus” e “reprocessados”, que os poderá tornar “difíceis de entender”. Apesar de a Web 2.0 permitir a participação do público através de várias formas, existem autores que consideram erróneo que estas atividades sejam equiparadas às de praticar jornalismo. Rosen (2004), citado por Correia (2008), é defensor dos blogs, apesar de expor que fazer blogging, não é o mesmo que fazer jornalismo. Reconhece, ainda assim, a existência de ambas as atividades no meio online, achando que existem bloggers que conhecem melhor as propriedades e possibilidades que a Internet tem, estando em vantagem em relação a muitos profissionais de comunicação. Blood (2004), citado também por Correia (2008), salienta que existe uma diferença entre participatory media e jornalismo, contudo o facto de ambos coexistirem no ciberespaço acaba por criar várias sinergias entre ambos. Aproveitamos para salientar que o termo “jornalismo cidadão” talvez não seja o mais correto para nos referirmos à participação de vários indivíduos em atividades mediáticas. Quem o diz é Canavilhas (2008), que considera que o termo parte de um pressuposto errado segundo o qual um cidadão pode produzir notícias; este autor, apesar de valorizar a participação do público e de achar que este deve ser, nos tempos atuais, uma das partes envolvidas no processo de produção de notícias (desde que este seja um processo que seja regulado por um sistema com códigos e regras próprias), considera que aquilo que o cidadão produz é informação e não notícias. Quem também considera que “cidadão jornalista” não é a noção mais correta é Marques (2008), que prefere chamar-lhe de “cidadania para e da informação”. A autora vê o suposto cidadão colaborador como uma testemunha e/ou fonte de informação, salientando que, não faz sentido, referir-se a estes indivíduos como “jornalistas”, apesar de os reconhecer como sendo elementos fundamentais para apresentarem novas perspetivas sobre certos assuntos, bem como para credibilizarem determinadas informações. O que acaba por ser relevante são os conteúdos que estas pessoas produzem, participando, assim, ativamente na sociedade quando criam determinados materiais expondo as suas opiniões e visões face ao mundo que os rodeia.
37 Existem ainda opiniões bastante negativas relativamente a este conceito. A jornalista Márion Strecker (2007), citada por Correia (2008), discorda fortemente que qualquer individuo com acesso à Internet e, por conseguinte, a várias ferramentas de publicação de conteúdos, seja automaticamente “transformado” em jornalista. Strecker (2007), citada por Correia (2008), não concorda também com o facto de vários jornais aceitarem conteúdos do público, sob o pretexto de serem mais “democráticos”. A jornalista Márion Strecker deprecia o tipo de conteúdos recebido pelo público, criticando-os por serem conteúdos datados (muitas vezes publicados com vários dias de atraso) e mal escritos. Existem autores que, apesar de aceitarem a noção de “jornalismo cidadão”, ainda assim não depreciam o papel do jornalismo contemporâneo. Aroso e Correia (2007) entendem que, apesar dos erros cometidos pelo jornalismo contemporâneo, o “jornalismo cidadão” nunca conseguirá tomar controlo sobre o jornalismo, devido ao facto de faltar uma marca de credibilidade e rigor na transmissão de informação que, somente, o jornalismo profissional detém. Wall (2012) é de opinião que o “jornalismo cidadão” pode coexistir com o jornalismo profissional, considerando-o uma faceta do futuro da profissão, ao invés de ser um indicador do seu renascer ou declínio. Wall (2012) aproveita ainda para citar Jan Schaffer (2005) 3 , um dos fundadores do site J-Lab, que, por sua vez, comenta que os conteúdos vindos dos cidadãos podem ajudar a enriquecer o jornalismo tradicional, classificando os cidadãos tanto como “cães de guia”, como “cães de guarda” (uma noção que será referida, novamente, mais à frente neste relatório). A presença do público na Internet e, de certa forma, nos meios de comunicação poderá ainda significar uma transformação naquilo que Habermas (1984), citado por Dourado (2009), denomina como a “Esfera Pública”. Este conceito refere-se a uma prática coletiva de reflexão crítica através de debates que, antigamente, se davam entre membros da burguesia em salões, cafés, entre muitos outros espaços de convívio. Estas discussões eram referentes a temas relacionados com a regulação da sociedade e críticas ao Estado e a outras questões que fossem consideradas relevantes nessa altura. Foram 3 Disponível em: http://niemanreports.org/articles/citizens-media-has-it-reached-a-tipping-point/ (Consultado a 16 de abril de 2015)
38 originalmente estes debates que transformaram a imprensa numa das principais instituições de argumentação pública. No entanto, no século XIX, os jornais, tendo em conta que se tratavam de empresas, passaram a defender os seus próprios interesses políticos e económicos. Tudo isto teve influência no conteúdo que chegava ao conhecimento do público, visto que as notícias passaram a ser “mercadorias de consumo espetacularizadas” e “produtos uniformizados na aparência e nos conteúdos” (Dourado, 2009, p. 3), procurando agradar e apelar a um público geral. Conforme Almeida (1998), citado por Dourado (2009), salienta que em vez de intermediarem a opinião pública, os media passaram a desenvolver técnicas para moldar essas opiniões. No entanto, conforme Dourado (2009) salienta no seu artigo, esse panorama tem vindo a mudar, tendo em conta que na Internet todos podem atuar como “emissores”. O autor evidencia que este aspeto abre espaço para novas vozes e atores sociais, propondo mais pluralismo, assim como uma maior diversidade informacional. Os internautas podem, assim, utilizar a Internet como uma ferramenta de promoção de cidadania passando a ser tratados como indivíduos ativos e pensantes ao invés de meros consumidores de informação. Há potencial para criar um público mais crítico neste ambiente em que as possibilidades de divulgação de conteúdo são ampliadas, bem como a interatividade entre utilizadores. Tal gera cruzamentos e embates entre opiniões e informações publicadas (Dourado, 2009). Na nossa opinião, apesar de o público colaborar e de se manifestar bastante no meio online, achamos que isso não faz com que qualquer pessoa, automaticamente, se torne jornalista. Os conteúdos vindos do público já demonstraram ser, de facto, úteis, convenientes e permitem a apresentação de uma nova perspetiva face a certos temas noticiosos. Contudo, muitos desses “cidadãos jornalistas” não seguem as normas deontológicas características do jornalismo e nem sempre têm a formação, preparação ou experiência que um jornalista tem, o que faz com que o rigor dos seus conteúdos possa ser questionável. Os conteúdos vindos do cidadão podem, mesmo assim, ser encarados como uma entre várias fontes para as quais o jornalista se pode dedicar. Vários meios de comunicação que exercem as suas atividades no meio online aperceberam-se das vantagens que podem advir da participação do público. Assim,
39 foram surgindo vários sites que, não só permitem a participação das audiências, como lhes dão a possibilidade de terem uma “voz”. A ideia essencial do “jornalismo cidadão” é a de que há conteúdo noticioso produzido por indivíduos comuns que não tem tido qualquer prática em jornalismo formal. À medida que mais e mais cidadãos entram no universo online e se dedicam a criar os seus conteúdos, vai crescendo o número de sites que promovem o “jornalismo cidadão” (Wall, 2012). Muitos destes meios incentivam o público a participar de várias maneiras, usando por exemplo, mensagens persuasivas apelando à participação coletiva num determinado portal (Correia, 2008). Com esta estratégia de incentivo à participação, os media visam tirar proveito da colaboração das suas audiências. Vieira e outros (2011), por sua vez, notam que os media comerciais são um ator particularmente relevante no sentido de promover a colaboração das audiências. As ferramentas de interação poderão servir como complemento para os conteúdos disponibilizados pelos media e essa interação (seja pelo envio de conteúdos ou por comentários com sugestões) contribui para que, assim, seja construída uma nova relação com o recetor. Em suma, atualmente, o público é praticamente incentivado a colaborar com os meios de informação que tendem a ver as ferramentas de interação como uma maisvalia, encarando a audiência como uma vantagem poderosa ao recorrer à sua colaboração. Conforme veremos mais adiante, há vantagens em recorrer à inteligência coletiva, especialmente num meio de comunicação tão “aberto” como a Internet. 2.2. User generated content Como já referimos anteriormente na Tabela 1, o público tem várias formas de participar na Internet. O recetor inserido na Web 2.0 pode ser muito mais do que um recetor de informação, participando de várias formas, seja para produção de informação ou para causar “ruído” (Aroso & Correia, 2007). É com o objetivo de tirar proveito da “Inteligência Coletiva” da multidão que muitos órgãos de comunicação oferecem espaços que convidam à colaboração do leitor, incentivando-os a enviar os seus próprios conteúdos, conforme Correia (2008) referiu no seu artigo e que citamos na Secção anterior.
40 Uma das designações que se atribui aos conteúdos oriundos da multidão foi a de “User generated content” ou “UGC”. Bradshaw e Rohumaa (2011) salientam que, apesar de este nome não ser muito bem visto devido ao seu “feio” enquadramento comercial, e pela minimização que estes tipos de conteúdos dão ao valor editorial de outros conteúdos, esta parece ser a designação que é mais utilizada para se referir aos conteúdos produzidos por vários internautas, apesar de outras alternativas de nomes que existem tais como: audience material, community curated works, participatory culture, indigenous content, ou mesmo entrepenurial generated content. O termo UGC é também um termo muito geral podendo não se aplicar diretamente a jornalismo. Aliás, como opinamos anteriormente, o facto de o público colaborar e se manifestar bastante no meio online, não faz deles “jornalistas”. Apesar disso, há conteúdos oriundos da audiência que poderão ajudar a definir a agenda noticiosa de alguns órgãos de comunicação que estiverem abertos à receção de conteúdos vindos da audiência. Há vários tipos possíveis de geradores de UGC que poderão ser oriundos de fontes inseridas na Tabela 1: os comentários e votos que se poderão inserir numa determinada notícia online, as galerias de imagens e vídeos, os grupos noticiosos inseridos em redes sociais, os blogs, os chats e fóruns nos quais os interessados poderão interagir, o uso de crowdsourcing (uma noção que será aprofundada na Secção seguinte) entre outras formas consideradas, comercialmente, atrativas por parte de vários editores (Bradshaw e Rohumaa, 2011). Relativamente aos tipos de conteúdos que poderão surgir dessas fontes, existem cinco, de acordo com um estudo levado a cabo por Claire Wardle e Andrew Williams (2009), citados por Bradshaw e Rohumaa (2011). Os dois investigadores procuraram averiguar de que forma a BBC lidava com o user generated content que lhes chegava diariamente, dividindo esses conteúdos em cinco tipos: (1) Audience content; referente a conteúdos noticiosos reunidos por parte do público, podendo também ser experiências, ou estudos de caso; (2) Audience comments; neste caso tratando-se de comentários inseridos numa notícia, manifestando uma reação à mesma; (3) Collaborative content; distingue-se do primeiro conceito, tratando-se este de conteúdos produzidos pelo público com um acompanhamento e apoio da parte de jornalistas profissionais; (4) Networked journalism; neste caso são iniciativas nas quais
41 os jornalistas procuram os conhecimentos de comunidades experientes numa determinada matéria de modo a procurar informações mais fiáveis para um determinado assunto noticioso; (5) Non-news content; conteúdos referentes a assuntos considerados irrelevantes como notícia (por exemplo, fotografias da vida selvagem, eventos locais, entre outros). Temos, assim, várias formas de incentivar o público a participar na agenda de um determinado órgão de comunicação social, formas essas que poderão dar origem a uma variedade de conteúdos considerados úteis, ou não, para os jornalistas profissionais. Dourado (2009) aponta que o público, hoje em dia, pode influenciar a esfera de produção de conteúdos informativos, interferir nesses mesmos conteúdos e nas grelhas de programação e proporcionar o aparecimento de novas linguagens, novos temas e novos enfoques a dar a um certo assunto. A mesma autora alude ainda a uma citação de Almeida (1998) que refere que o “jornalismo cidadão” se trata de uma ferramenta que reconfigura as esferas públicas. Os media deixaram de ser instrumentos de empresas privadas para serem ferramentas que promovem o estímulo do debate público. O User generated content pode surgir por várias razões e motivações similares às que foram dadas anteriormente por parte de Kelly (2009) e de Meikle e Young (2012): desejo de fama, diversão, partilha de experiências, desejo de partilhar conhecimentos úteis, exercitar a autoexpressão, melhoria da escrita, o appeal de um certo meio de comunicação online, sentimento de pertença a uma “comunidade”, entre outros (Bradshaw & Rohumaa, 2011). Seja como for, o desejo da parte do internauta em comunicar e expressar-se está interligado a estes motivos. O fotojornalismo, por exemplo, é uma prática que muitos “jornalistas cidadãos” têm vindo a enviar para as redações. Como referimos na Secção anterior, alguns dos eventos que levaram ao envio de várias imagens por parte de cidadãos para várias redações, tratavam-se de ataques terroristas cujas consequências marcantes propulsionaram uma grande atenção mediática (Marques, 2008; Kelly, 2009; Wall, 2012). Souza e Boni (2008) referem que o facto de um cidadão estar a apontar a câmara a um certo acontecimento, significa estar a atribuir-lhe valor, sugerindo um maior compromisso, assim como um importante passo de prática cidadã. Neste contexto atual,
48 colaboradores seria estimulado a acompanhar temas noticiosos atuais, consultando várias fontes referentes aos mesmos e elaborando textos sobre os mesmos); por fim, a terceira forma recorre a uma colaboração incentivada (na qual os participantes poderão obter lucros – neste caso 300 dólares mensais – durante três meses), estando essa colaboração vinculada ao cumprimento de um plano de pesquisa e publicação. Träsel (2009) identificou uma forma de Crowdsourcing em jornalismo, baseada no conceito de “Computação Distribuída”. Trata-se de um método de resolução de tarefas computacionais em que uma tarefa principal é dividida em várias “pequenas tarefas” que serão desempenhadas, em simultâneo, por vários computadores ligados em rede. Aplicando essa noção ao jornalismo, o autor deu ao seu próprio conceito o nome de “Apuração Distribuída”. Neste caso, os leitores ficarão a cargo de tarefas menores distribuídas pelos jornalistas. Estas tarefas serão parte de um processo de apuração que será levado a cabo por um grupo de leitores interessados em dar o seu contributo. Pegando nos exemplos que o autor dá (referentes a ações levadas a cabo pelos jornais The Guardian, Talking Points Memo, National Public Radio - NPR e BBC), este processo coloca os leitores a analisar documentos e não só, fornecidos pelos media; cada leitor enviará as suas descobertas ou conteúdos que reflitam as mesmas. De modo a sintetizarmos as noções dadas anteriormente relativamente à noção de Crowdsourcing, elaboramos uma tabela que abrange essas mesmas noções (Ver Tabela 2). Tabela 2: Formas de Crowdsourcing em Jornalismo 5 FORMAS DE CROWDSOURCING EM JORNALISMO AUTOR MÉTODO DESCRIÇÃO (Dias, 2013) Tarefa de produção de conteúdos. Jornalistas entregam ao público a “tarefa” de produzirem conteúdos de várias categorias, sendo eles próprios responsáveis pela monitorização desses mesmos conteúdos. 5 Tabela elaborada tendo em conta as noções de Cordeiro e outros (2013), Dias (2013), Metzger (2007), Träsel (2009) e Vieira e outros (2011).
49 (Metzger, 2007) Requisição de conteúdos para complementar com trabalho. Requisição ao público de conteúdos tais como: fotos, vídeos, entre outros conteúdos relevantes. (Metzger, 2007) Solicitação de conteúdos da autoria da audiência. Solicitação de conteúdos da parte da audiência para que estes formem as notícias, o visual do site, os comentários e, nalguns casos, tomadas de decisão editoriais. (Vieira et al., 2011) Observação. O jornalista recolhe dados em fóruns ou noutras plataformas disponíveis online, de modo a agregar essas informações a uma determinada notícia. (Vieira et al., 2011) Manchetes. Incentiva o público a enviar fotos, vídeos, ou declarações relativamente a acontecimentos que o jornalista não possa cobrir diretamente. (Vieira et al., 2011) Investigação. Procurar informações através dos leitores e cruzar essas informações com documentos oficiais e estatísticas existentes em relação ao(s) assunto(s) a serem tratados. (Cordeiro et al., 2013) Comentários. Leitores colocam comentários, apontado aspetos positivos e negativos sobre o projeto, bem como dando sugestões, propondo temas alternativos, ou simplesmente dando uma opinião pessoal sobre um tema. (Cordeiro et al., 2013) Colaboração regular. Um conjunto de colaboradores seria estimulado a acompanhar temas noticiosos atuais, consultando várias fontes referentes aos mesmos e elaborando textos sobre os mesmos (Cordeiro et al., 2013) Colaboração incentivada. Os participantes poderão obter lucros durante um certo período de tempo, podendo estar essa proposta vinculada ao cumprimento de um plano de pesquisa e publicação. (Träsel, 2009) Apuração distribuída. Envolve a delegação de tarefas menores constituintes de um processo de apuração a um conjunto de leitores interessados em desempenhá-las (análise de documentos, por exemplo). Tendo em conta os estudos anteriormente referidos, podemos mencionar que o Crowdsourcing é uma prática que valoriza e procura tirar o máximo de proveito da participação das multidões que, como já vimos, se pode manifestar de várias formas.
50 Haak e outros (2012) referem que o Crowdsourcing em jornalismo se estende para lá do “jornalismo cidadão”, cobrindo uma variedade de práticas que fazem uso da inteligência coletiva para reunir e verificar certas informações, contar histórias, ou fazer escolhas na produção de notícias. Os conteúdos dos utilizadores podem referir-se a fotografias, vídeos, comentários escritos, entre outros materiais fornecidos a uma certa organização por parte do público. Este aspeto leva-nos a encarar o Crowdsourcing em jornalismo como sendo uma evolução para esta área com potencialidades que poderão resultar se forem devidamente aproveitadas. Metzger (2007) é de opinião de que as notícias vindas de Crowdsourcing deveriam ser vistas como uma evolução do jornalismo tradicional, em vez de serem encaradas como uma revolução contra a profissão. É também uma forma de tirar proveito daquilo que a “multidão” sabe e pode oferecer. O Crowdsourcing poderá servir como uma ferramenta poderosa, especialmente tendo em conta que uma boa parte das notícias online são partilhadas nas redes sociais; além de poderem ajudar a enriquecer o conteúdo jornalístico, os internautas tenderão a compartilhar as notícias que ajudaram a produzir (Vieira et al., 2011). Hirst (2011) apesar de ser de opinião que o Crowdsourcing em jornalismo tem “uso limitado”, ressalta, ainda assim, que uma boa razão pela qual os media recorrem a este método, esperando que resulte, é o facto de este ser (na maioria dos casos) gratuito. Salienta ainda que as indústrias noticiosas se esforçam por integrar o Crowdsourcing nos seus modelos de produção de notícias, quer por uma questão de sobrevivência económica e cultural, quer por virem a beneficiar da inovação que pode surgir deste modelo que é similar e ao mesmo tempo distinto do modelo de “open-source”. Do nosso ponto de vista, considerando os formatos de se servir de Crowdsourcing em jornalismo, poderemos entender que esta atividade se pode manifestar de várias formas. O seu objetivo principal é o de promover a participação do público de forma direta ou indireta de modo a usufruir da chamada “Inteligência Coletiva”, quer seja para adquirir novos temas, quer seja para receber novas sugestões de possibilidades a serem adotadas.
51 Em jornalismo, acreditamos que há várias formas de tirar proveito daquilo que o público pode ter para oferecer a um determinado meio de comunicação que promova esta prática. Tendo em conta a Tabela 2 deste relatório entendemos que, em jornalismo, existem duas principais formas de tirar proveito da participação do público. Na primeira opção o jornalista pode distribuir várias tarefas ao público, como se pode ver nos exemplos apresentados por Träsel (2009). De seguida a tarefa do jornalista será a de ter em conta a diversidade de resultados que obteve das várias pessoas, interpretá-los e tirar proveito dos mesmos para divulgar informações que considere relevantes. Na segunda opção o jornalista poderá pedir ao público que envie os seus próprios conteúdos ou informações, seja para complementar com conteúdos previamente produzidos pela organização noticiosa, seja para dar aos leitores um espaço no qual vejam os seus próprios conteúdos a serem publicados com a devida autoria e/ou referência. No nosso entender, apesar de a observação, quer ela seja através de comentários deixados no site desse meio ou pesquisa, recorrendo a fontes que contam com a colaboração de várias pessoas, quer sendo também um procedimento por vezes posto em prática no jornalismo online, a mesma está um pouco longe de se inserir dentro da categoria de Crowdsourcing. Isto porque o conceito, segundo o próprio Howe (2006), remete para uma forma de “trabalho” (“Labor” na citação original), ou seja, requer um envolvimento mais direto da parte da audiência. Logo, no nosso caso, poderemos especificar que em jornalismo, Crowdsourcing tem um envolvimento mais direto da parte do público (embora, como referimos anteriormente, Open Source Reporting tem muito maior transparência para com as audiências participantes). Alguns media poderão recompensar as audiências reconhecendo a sua autoria no processo de elaboração de conteúdos e outros poderão até dar uma recompensa monetária aos colaboradores. Seja como for, a audiência que está envolvida neste processo não é apenas um grupo de pessoas que podem falar com o jornalista; esses utilizadores acabam por ser integrados no processo de elaboração de notícias (Bradshaw & Rohumaa, 2011). O público que resolve “ajudar” com conteúdos, fá-lo, voluntariamente, ao enviar os seus conteúdos ou conhecimentos para o órgão de comunicação que, num concurso aberto no qual explica todas as regras, recebe os
52 conteúdos, tirando proveito deles e constituindo, assim, uma potencial oportunidade de ter maior contacto com o seu público, bem como de ter em mãos mais uma “fonte de informação” que lhe trará novas vantagens que poderá ir explorando ao longo do tempo.
53 Capítulo 3. – O papel do jornalista atual: Gatekeeper ou Gatewatcher? Como vimos anteriormente, atualmente, as audiências têm um grande poder e possibilidade, quer de participação, quer de colaboração nos meios de comunicação social. Trata-se de algo que tem vindo a ser promovido por parte dos próprios media (como exemplo principal, temos o uso de Crowdsourcing em jornalismo que referimos na Secção 3 do Capítulo anterior). Tudo isto fez-nos refletir e pensar numa nova questão: – que papel acabam por ter os jornalistas num meio de comunicação sobre o qual eles não têm o total controlo? Frias e Lima (2014) aludem a uma variedade de fatores que foram já referidos anteriormente, nomeadamente o facto de a Internet ter permitido a emergência de conteúdos que não são produzidos pelas redações, mas sim pelo público. Os autores salientam que essa realidade vem colocar o papel tradicional do jornalista em causa, visto que a autoimagem de um jornalista tradicional residia (e, de certo modo, ainda reside) nessa capacidade de selecionar e publicar os temas que considere como sendo de interesse público, bem como de providenciar uma ação de vigilância sobre a sociedade, servindo como meios de denúncia e correção, ou seja, à chamada função de watchdogging – noção segundo a qual o jornalista é visto como sendo um “cão de guarda da sociedade”, ou seja, uma figura credível cujo objetivo passa por informar o público com a verdade. A prevalência da Internet, bem como das novas tecnologias, na rotina diária de milhares de pessoas em todo o mundo, permitiu que a interatividade, neste meio, se tornasse possível de variadas formas. A colaboração e participação de milhares de pessoas vieram a colocar em causa o papel tradicional do jornalista que já não é o total detentor de controlo sobre qual a informação que deve, ou não, ser dada a conhecer ao público em geral. Neste capítulo colocaremos em questão dois termos referentes ao papel do jornalista face ao seu controlo sobre a informação: o primeiro diz respeito ao termo de gatekeeping e o segundo é ao de gatewatching.
54 Stanoevska-Slabeva e outros (2012) são de opinião que o conceito de gatekeeping se refere ao papel tradicional que os jornalistas têm de selecionar e narrar determinados acontecimentos. O papel do jornalista, dentro deste contexto, consiste, em grande parte, no acesso privilegiado dos profissionais de comunicação aos meios de produção e disseminação de informação. Stanoevska-Slabeva e outros (2012) citam e baseiam-se em Bruns (2003) para apresentarem três etapas características desta noção de gatekeeping: o Input, o Output, e a Response. Na primeira fase são os jornalistas que escolhem as histórias que irão cobrir. Recolhem as informações necessárias a partir de várias fontes, sintetizando depois essa mesma informação num texto, ou peça, que depois é publicada como um produto (embora dê crédito às fontes originais de informação). Na fase de output, cabe aos editores a decisão final de selecionar as histórias que serão produzidas e publicadas pelos jornalistas. Por fim, na terceira etapa, contrariamente ao que se nota atualmente no meio online, as respostas dadas pela audiência face à notícia em questão são escolhidas de forma restrita. No entanto, esse papel tradicional de “guardião da informação” foi um pouco minado pelas tecnologias de media digitais que permitem que os utilizadores, quer individualmente, quer em grupo, criem e distribuam informação baseada nas suas próprias informações ou pontos de vista (Singer et al., 2011). Tendo em conta alguns tópicos que abordamos relativamente à Web 2.0, nota-se que o jornalista da atualidade não tem o poder de filtrar a informação que chega diariamente às audiências a uma velocidade muito maior do que por outros meios de comunicação. Dias (2013) aponta que, por um lado, os meios de comunicação ainda têm a sua predominância no terreno mediático. Por outro, nota-se que o público aumentou a sua força, visto que várias pessoas que têm acesso a meios tecnológicos e os sabem manusear, acabam por “fazer a balança pender um pouco mais para o seu lado” (Dias, 2013, p. 48). Quer isto dizer que o público tem nas mãos um poder similar ao dos media de produzir e divulgar, rapidamente, determinada informação. Contudo, o papel de gatekeeping, no entender de vários profissionais de comunicação, está a mudar e não a desaparecer. É o caso de Singer (1998), citado por Aroso e Correia (2007), que refere que, numa altura em que a Internet estava a começar
55 a ser um elemento comum em várias salas de redações de jornais, existem jornalistas que veem o seu papel como sendo similar ao de intérpretes credíveis de uma grande quantidade de informação que está disponível sem precedentes. É certo que os jornalistas ainda detêm controlo sobre o que publicam, mas já não têm o papel tradicional em que controlavam a informação que chegava ao conhecimento das audiências. Bruns (2011) procurou uma nova definição para o tipo de papel que o jornalista atual tem, tendo em conta o alargamento e partilha de informação entre o campo jornalístico e a participação dos utilizadores em rede: em vez de gatekeeper, o jornalista atual é visto como um gatewatcher. Tendo em conta a variedade de canais disponíveis na Internet, é impossível aos jornalistas conseguirem controlar tudo o que passa pelos portões destes canais. Contudo, o que os jornalistas podem e o que têm condições de fazer, é de participar num esforço que consiste em observar/acompanhar quais as informações que passam por estes canais, tais como: – que comunicados de imprensa foram feitos pelos “atores públicos”; – que relatórios são pesquisados, quer por investigadores académicos, quer por organizações da indústria e quais as intervenções que são feitas por lobistas e políticos (Bruns, 2011). Apesar do jornalista não ser atualmente aquele que determina quais os temas que se tornam do conhecimento público, poderão, ainda assim, observar o que passa pelos “portões”, analisando assim o tipo de informação que por aí atravessa. Stanoevska-Slabeva e outros (2012) salientam que, enquanto o gatekeeping surgiu devido à escassez de meios de comunicação convencionais, o gatewatching reflete as mudanças e as novas possibilidades que a audiência tem para participar no processo de geração de notícias que é permitido pela Internet e pelos novos media. Mais uma vez recorreremos às noções que Stanoevska-Slabeva e outros (2012) consideraram com base nas noções dadas por Bruns (2003), citado por estes autores. Tal como o gatekeeping, também o gatewatching tem as mesmas três fases, havendo, contudo, diferenças na forma como estas são executadas. Neste caso, focar-nos-emos no mesmo processo, relativo desta vez ao gatewatching. No Input, em vez dos jornalistas, são os próprios utilizadores a escolherem livremente o que noticiar a partir das fontes
56 online disponíveis e tendo em conta aquilo que, na perspetiva de cada utilizador, é assunto noticioso, ou não. Como este conceito se refere a um meio no qual não há limites para o que pode ser publicado, há uma maior liberdade relativamente aos conteúdos produzidos. Frequentemente os utilizadores escolhem temas que não coincidem com aqueles que são escolhidos pelos media convencionais. No Output há um rigor menor, visto que grande parte dos conteúdos, ou são publicados sem passar pelas mãos de editores, ou passam por uma edição à base de colaboração. Por fim, na Response, há uma maior participação da parte do público que lê essas notícias, comentando-as, discutindo-as e classificando-as num processo que permanece transparente (Stanoevska-Slabeva et al., 2012). A tabela que se segue mostra, ambos os processos, tanto referente ao gatekeeping, como ao gatewatching, efetuando a comparação entre eles de acordo com Bruns (2003), citado por Stanoevska-Slabeva e outros (2012). Tabela 3: As três fases em Gatekeeping e Gatewatching. 6 STAGES GATEWATCHING INPUT OUTPUT RESPONSE Gatekeeping (Bruns, 2005), citado por StanoevskaSlabeva e outros (2012, p. 8) – Newsgathering only by staff journalists Closed editorial hierarchy Editorial selection of letters/calls to be made public Citizen Journalism (Bruns, 2008), citado por StanoevskaSlabeva e outros (2012, p. 8) Gatewatching of news sources open to all users Submission of gatewatched stories to all users Instant publishing or collaborative editing of stories Discussion and commentary open to all users 6 Tabela adaptada de Stanoevska-Slabeva e outros (2012, p.8).
57 Os mesmos autores referem ainda que através do processo de gatewatching uma história noticiosa torna-se num organismo vivo nascido da informação existente e do interesse dos utilizadores. Esse tipo de conteúdos pode ser publicado com uma forma inicial, podendo ser desenvolvida e enriquecida através das classificações, comentários e discussões que surgem como reações do público (os internautas) face ao conteúdo em questão. Estamos, portanto, a falar de um processo que está praticamente colocado nas mãos de vários internautas, muitos dos quais, provavelmente, não estão envolvidos, de forma alguma, num meio de comunicação social. Bruns (2011) salienta que, atualmente, os jornalistas são um entre muitos grupos que estão envolvidos com as notícias, podendo as audiências ignorar as suas informações, por forma a voltarem-se para outras fontes de informação. Isso implica que os jornalistas têm que se esforçar de modo a mostrarem o valor agregado que fornecem às suas audiências através de trabalhos de investigação profissional, curadoria e comentários. Bruns (2011) ressalta ainda que, atualmente, nada do trabalho de um jornalista ocorre mais num ambiente “isolado”, devendo ser feito à vista de e em cooperação e colaboração com as audiências. Os jornalistas deverão pôr de parte a postura altiva que tinham no passado em relação às suas audiências. Atualmente, o jornalismo é uma atividade que convive com a participação em massa (Bruns, 2011). Tendo em conta o poder que o público contemporâneo tem, claramente, na elaboração de uma notícia através do meio online, aqui levantam-se uma série de questões quanto à importância que os jornalistas continuam a ter numa era em que a informação pode ser vista, editada e partilhada por todos. Curiosamente, o papel do jornalista ainda é valorizado e tido em conta por vários autores que consultamos. Bruns (2011) salientou que tem que existir um esforço para que os profissionais de comunicação colaborem com as audiências participativas que prevalecem na Internet hoje em dia. Dias (2013) é de opinião que na Internet, a multidão pode ser sabedora devido à possibilidade de, no meio desse público vasto, existirem pessoas especializadas em vários assuntos. Face a uma multidão com uma certa sabedoria, o jornalista terá que mediar a informação “(…)uma vez que, se é verdade que os especialistas sabem mais do
64 japonesa Yoko Ishida (ver Anexo 4), a cosplayer Aleksandra “Shappi” Tora (ver Anexo 5), a artista Maria Borges da revista Banzai (ver Anexo 6) e elaboramos o nosso primeiro trabalho fotográfico aos cosplayers que predominavam no local (ver Anexo 7). No Get Set Art festival conhecemos o artista de imagem e som luso-descendente Bruno Ribeiro (conhecido como Nohista – ver Anexo 8). No Comic Con dedicamo-nos a uma reportagem em que se comparou o ponto de vista de artistas portugueses cujo sucesso se fez sentir lá fora com o dos mais jovens aspirantes a artistas e a trabalhar para tal (ver Anexo 9). Além disso, conhecemos o costumer Simon Wilkie, cujo fato do icónico C3PO da saga “Guerra das Estrelas” lhe valeu um trabalho em part time na Disney/Lucasfilm (ver Anexo 10), e pudemos ainda conhecer um novo jogo português que, na altura, estava a ser desenvolvido pela ImmersiveDouro (ver Anexo 11). Este estágio também permitiu experimentar outras formas de entrevista, algumas das quais, não sendo cara-a-cara com o entrevistado, mas através de entrevistas por telefone e por e-mail. Experimentamos um modo de praticar um jornalismo mais “sentado”, mas apesar disso também nos permitiu tirar algum proveito em questões de tempo, visto que com este género de entrevista não existe a questão da deslocação a um certo lugar. Contudo, por vezes, quando não existiu a possibilidade de gravar uma chamada, estar a tomar notas enquanto o entrevistado vai falando, exigiu da nossa parte uma atenção redobrada. No caso da entrevista por e-mail, apesar de nos parecer mais “fácil”, por vezes acontecia o entrevistado demorar o seu tempo a responder, ou nem sempre dar as respostas mais esclarecedoras ou completas. Contudo desses métodos de entrevista também conseguimos fazer alguns dos nossos trabalhos favoritos, de entre os quais constam a entrevista feita a Miguel Oliveira, jovem português que está a desenvolver um jogo nos E.U.A. (ver Anexo 12) e Tiago Torres Campos, finalista do concurso de arquitetura “Vision42” (ver Anexo 13). Estes são dois exemplos de entrevistas via e-mail que nos forneceram as devidas informações sobre o assunto noticioso. Foi, ainda, no P3 – Público que nos pudemos estrear no campo de fotografia, que por coincidência era um dos tópicos que mais acompanhava no site antes do início do estágio. Ao todo foram três os trabalhos fotográficos realizados: um debruçado sobre
65 Cosplay (já referido anteriormente), outro sobre o Sanatório de Mont’Alto (ver Anexo 14) e um último focado na intensidade do futebol americano (ver Anexo 15). Nestes três trabalhos pudemos experimentar três formas distintas de fazer fotografia. O primeiro trabalho permitiu fotografar várias pessoas com diversos fatos, bem como entrevistar o presidente da Associação Portuguesa de Cosplay. O segundo trabalho teve uma notoriedade de que não estávamos à espera, nomeadamente devido ao facto de se tratar de um local próximo da cidade do Porto e muito falado devido ao seu passado e às lendas e mitos que cercam esse lugar. No terceiro caso, este permitiu, pela primeira vez, a experiência de fotografar desporto ao vivo, algo que nunca tínhamos feito antes. No geral, os trabalhos correram bem, embora, como é natural, tenham existido alguns momentos inoportunos, tais como, entrevistas interrompidas a meio, artigos escritos com necessidade de revisão mesmo após a sua publicação e exigência por parte dos entrevistados do conteúdo das respetivas entrevistas. Uma das coisas que temos pena de não ter explorado um pouco mais foi a possibilidade de podermos fazer edição de vídeo, apesar de na primeira semana termos tido a oportunidade de elaborarmos um trabalho para o Público (ver Anexo 17) em conjunto com o fotojornalista Manuel Roberto. Gostaríamos de ter tido maior oportunidade para explorar e melhorar esta vertente de edição de vídeo, visto que é uma habilidade que também temos e que convinha ser colocada mais vezes em prática. Apesar do que referimos no parágrafo anterior, são mais as razões que nos levaram a gostar do período que foi passado no P3 – Público. Se nos dessem a oportunidade de repetir o estágio aceitá-la-íamos, especialmente pela possibilidade de conhecer e entrevistar pessoas. Este estágio permitiu-nos enveredar numa área de que gostamos bastante, permitiu-nos colocar à prova as aptidões que tínhamos ganho, quer da licenciatura, quer de outras atividades em que estivemos envolvidos. Também aprendemos bastante sobre a forma como o jornalismo online funciona, aprendemos a trabalhar rápido e sob pressão e percebemos o poder que a partilha de conteúdos, nomeadamente nas redes sociais, pode ter. Em suma, a satisfação foi um sentimento com que ficamos pela oportunidade de, ainda que por um período de tempo limitado, ter podido fazer algo que nos deu prazer,
66 numa área na qual gostaríamos de trabalhar um dia. Conhecemos várias pessoas interessantes e pudemos fazer uma variedade de trabalhos que nos deram gosto durante o período deste estágio.
67 Capítulo 5. – Metodologia adotada De modo a tirarmos maior proveito da nossa experiência de estágio, durante esse período centramo-nos em algumas características relevantes no modo de trabalhar do P3 – Público, nomeadamente, na forma como lidam, filtram e classificam os conteúdos que lhes vão sendo enviados por parte do público. Após termos tido acesso aos dados que especificavam quais os conteúdos publicados no P3 – Público durante um certo período de tempo, tivemos que optar por escolher uma amostra relativa a uma parte desse período temporal. A opção tomada foi a do mês de outubro de 2014, devido ao facto de este período estar incluído no período do estágio realizado no P3 – Público. De seguida procedemos a uma análise de conteúdo focada, quer no total da amostra eleita, quer nos conteúdos dessa amostra cuja origem veio do uso de Crowdsourcing. O primeiro procedimento efetuado em relação à amostra escolhida foi o recurso à observação, seguindo-se uma análise quantitativa e uma análise qualitativa dos conteúdos pertencentes à amostra considerada. Para esta análise optamos pela metodologia do estudo de caso com recurso à técnica de análise de conteúdo popularizada por Bardin (2009), a qual é definida como sendo um método empírico e é um conjunto de instrumentos metodológicos que se aplicam a discursos diversificados. O próprio Bardin (2009) refere que uma análise de conteúdo, em geral, é realizada percorrendo diferentes fases organizadas em torno de três etapas principais: (1) a pré-análise; (2) a exploração do material; e, por fim, (3) o tratamento dos resultados: a inferência e a interpretação. Também a análise de conteúdo é dividida em dois tipos: a análise qualitativa e a quantitativa. A pré-análise abrange uma seriação dos objetos de estudo para que o analista possa conduzir as operações sucessivas da respetiva análise. Assim, no plano deste trabalho, o nosso objetivo é, além da escolha da amostra que será submetida à análise, também a formulação de hipóteses com vista à elaboração de indicadores para várias interpretações finais. A amostra que optamos por analisar corresponde ao mês de outubro de 2014, tendo em conta que este período de tempo corresponde à primeira parte do estágio
68 realizado no P3 - Público. Durante este intervalo de tempo foram publicados 451 artigos ao todo e distribuídos por várias temáticas. No final, debruçamo-nos sobre 312 artigos, excluindo, desse total de artigos, os artigos relacionados com a modalidade desportiva de Râguebi, visto se inserirem numa área que não corresponde àquela na qual estivemos envolvidos no período de estágio. Neste estudo efetuou-se uma análise quantitativa com base numa série de fatores que nos levaram a explorar os seguintes aspetos dos dados, tendo em conta várias características: a origem do total dos conteúdos (de forma a perceber a quantidade de conteúdos distribuída por diferentes origens); a quantidade de conteúdos de Crowdsourcing que foram publicados em cada semana do ao mês em análise; a quantidade de conteúdos de Crowdsourcing por secção; a origem do total de conteúdos pertencentes à secção de Multimédia (tendo em conta o peso dos conteúdos oriundos de Crowdsourcing nesta secção); e a quantidade de conteúdos de Crowdsourcing por subsecção. Essencialmente a análise quantitativa efetuada teve em conta um aspetobase: – a origem dos conteúdos publicados durante o período em análise. A análise qualitativa foi utilizada no tratamento dos dados, tendo-se recorrido à análise de conteúdo dos respetivos conteúdos, formulando algumas categorias de análise para o efeito. Nalgumas análises mais específicas tendo em conta o nosso objetivo, elaboramos uma categorização dos conteúdos oriundos de Crowdsourcing (notícias, crónicas, etc.), sendo de seguida necessária a determinação da quantidade de conteúdos que se inserem nessa categoria. Tendo em conta a divisão anterior em categorias de análise, nesta nova etapa da análise dos dados decidimos dividir os artigos caracterizados como sendo “Crónicas” (tendo em conta o seu destaque na nossa análise de categorias de conteúdos), a fim de determinarmos a que secções e subsecções pertenciam. Este trabalho teve o suporte e a inspiração da parte dos trabalhos realizados por Dias (2013) e por Frias e Lima (2014) que efetuaram uma análise similar à nossa à mesma entidade que será abordada no estudo que se segue.
69 Capítulo 6. – Análise e Discussão de Resultados Este capítulo será dedicado à análise dos dados recolhidos para este relatório e culminaremos o capítulo com uma breve discussão dos resultados que obtivemos. Começamos esta parte do nosso estudo, introduzindo os conteúdos que analisaremos ao longo deste relatório. Dos 312 artigos tidos em conta, 115 pertencem à secção “Actualidade”, 73 a “Cultura”, 65 a “Multimédia” e a “Vícios” estão associados 59 artigos. De seguida foi feita a divisão dos conteúdos em categorias, desta vez tendo em conta a sua origem/tipo de autor. As categorias escolhidas foram “Crowdsourcing”, “Fonte Externa”, “Redação do P3” e “Trabalho Pedido”, as quais passaremos a descrever. À categoria “Crowdsourcing” corresponderam todos os artigos recebidos pelo P3 – Público da parte do público no âmbito do concurso aberto que propõem normalmente e é dirigido à sua audiência. Dentro da categoria “Fonte Externa” estão inseridos os conteúdos que foram copiados de outras fontes. Essas fontes envolvem, nomeadamente, o Público, o Jornalismo|PortoNet (JPN), o Ciência 2.0, a Agência Lusa, a Agência Reuters, entre outros nomes de pessoas pertencentes a alguma dessas entidades. Dentro da categoria “Redação do P3” foram considerados os conteúdos que emergiram do trabalho das pessoas diretamente envolvidas na redação do P3 – Público (sejam os jornalistas que aí exercem as suas funções, ou os estagiários). Por fim, na categoria “Trabalho Pedido”, temos os trabalhos nos quais o P3 – Público solicitou a uma entidade específica um determinado tipo de trabalho particular. Este procedimento não deve ser confundido com a noção de “Crowdsourcing”, estando a sua diferença principal no facto de a presente categoria envolver um trabalho “encomendado” a uma entidade específica, enquanto a noção de “Crowdsourcing” remete para trabalhos que tenham sido enviados ao P3 – Público da parte de membros da sua audiência efetuado de um modo voluntário. Numa primeira análise (ver Gráfico 1) notamos que a maioria dos conteúdos provinha de uma fonte externa, correspondendo nomeadamente a 39,10% (122 artigos) dos conteúdos registados nesse mês. Apesar disso notamos ainda que os conteúdos
70 provenientes de Crowdsourcing cerca de 30,1% (94 artigos) e da Redação do P3 (29,2% – 91 artigos) também tiveram um peso relevante ao longo deste período de tempo. Os trabalhos pedidos apenas corresponderam a 1,3% dos conteúdos analisados (4 artigos). É de notar que existiu um artigo em particular (correspondente a 0,3% dos conteúdos analisados) que surgiu das mãos de uma Fonte Externa e da Redação do P3 (um trabalho entre o próprio P3 – Público e a Agência Lusa). Gráfico 1: Origem dos conteúdos do P3 – Público durante o mês de outubro de 2014 8 A análise seguinte debruçar-se-á sobre os conteúdos oriundos de Crowdsourcing. Numa primeira análise, tendo em consideração este elemento dos dados anteriormente analisados, decidimos examinar o calendário do mês de outubro de 2014, de modo a ter uma ideia relativamente a quais as semanas nas quais o P3 – Público publicou conteúdos oriundos vindos do seu público. O P3 – Público publica a maioria dos seus conteúdos durante todos os dias úteis da semana, excluindo, assim os sábados e domingos, salvo algumas exceções. O período temporal que registou maior número de conteúdos publicados vindos de Crowdsourcing foi de 20 a 24 de outubro, registando-se 24,5% dos conteúdos aqui abordados. O segundo lugar corresponde ao período de 12 a 8 Fonte: P3 – Público. 94 122 91 4 1 0 20 40 60 80 100 120 140 Crowdsourcing Fonte Externa Redação P3 Trabalho pedido Redacção + Fonte Externa Gráfico 1: Origem dos Conteúdos
71 17 de outubro (22,3%) e em terceiro lugar temos o período compreendido entre 27 e 31 (21,3%) inclusive. Os restantes 31,9% dos conteúdos foram publicados de 1 a 3 e de 6 a 10 de outubro. A Tabela 5 contém os dados relativos à categoria de Crowdsourcing no período temporal escolhido e as suas respetivas percentagens. Tabela 5: Data correspondente ao lançamento de conteúdos oriundos de Crowdsourcing Mês de outubro de 2014 Número de conteúdos oriundos de Crowdsourcing % total Semana 1 14 14,9% Semana 2 16 17% Semana 3 21 22,3% Semana 4 23 24,5% Semana 5 20 21,3% Total 94 100% Após a análise do período temporal correspondente a outubro, durante os quais o P3 – Público publicou conteúdos oriundos do seu público, resolvemos debruçamo-nos sobre as secções às quais pertencem os conteúdos em questão. Para esta parte da nossa análise, tivemos em conta as quatro secções nas quais o P3 – Público publica os seus conteúdos: “Cultura”, “Actualidade”, “Vícios” e “Multimédia”. “Multimédia” e “Actualidade” registaram os valores mais altos, sendo que à primeira correspondem 46% (43 artigos) desses conteúdos e à segunda 41% (39 artigos). No caso de “Cultura” e “Vícios”, estas registaram percentagens notavelmente menores. À “Cultura” correspondem 9% (8 artigos) dos conteúdos e a “Vícios” 4% (4 artigos). O Gráfico 2, que se apresenta a seguir, espelha estes resultados.
72 Gráfico 2: Conteúdos de Crowdsourcing por secção durante o mês de outubro de 2014 9 Como se pode ver pelo Gráfico 2, é na secção de Multimédia que se nota o maior número de conteúdos oriundos de Crowdsourcing. Tendo em conta esse aspeto, resolvemos analisar a origem do total de conteúdos de Multimédia publicados durante o mês de outubro e os resultados obtidos estão apresentados no Gráfico 3. Gráfico 3: Origem dos conteúdos da secção de Multimédia do P3 – Público em outubro de 2014 10 9 Fonte: P3 – Público. 10 Fonte: P3 – Público. Multimédia 46% Actualidade 41% Cultura 9% Vícios 4% Gráfico 2: Conteúdos de Crowdsourcing por secção Multimédia Actualidade Cultura Vícios 43 16 51 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 Crowdsourcing Fonte externa Redação P3 Trabalho Pedido Gráfico 3: Origem dos conteúdos da secção Multimédia
73 Nessa análise concluímos que o Crowdsourcing tem um peso particularmente relevante na secção em questão. Cerca de 66,2% dos conteúdos (valor correspondente a aproximadamente 43 artigos) têm a sua origem em “Crowdsourcing”, ou seja, mais de metade dos conteúdos enviados e publicados em Multimédia vêm da mão da “multidão”. Os restantes 33,8% dos conteúdos são oriundos de “Fontes Externas” (24,6% – 16 artigos), da “Redação do P3” (7,7% – 5 artigos) e há ainda registo de um trabalho que foi encomendado (correspondente a 1,5% do total de conteúdos) e que se insere na categoria “Trabalho Pedido”. Aqui a nossa análise volta a ser mais abrangente, ao retomarmos o nosso foco para todas as secções do P3 – Público. Voltamos a debruçar-nos sobre as secções nas quais o Crowdsourcing prevaleceu, desta vez aprofundando um pouco mais a nossa observação. Desta vez observaremos em que subsecções (as secções dentro das quatro secções principais do P3 – Público) se notam maior prevalência de conteúdos originários de Crowdsourcing. Em “Multimédia” existem as subsecções: “Fotografia”, “Gallery” (uma tradução para inglês de conteúdos já publicados em “Fotografia”), “Ilustração”, “Instagram”, “Vídeo”, “Videoclipe” e “Webcomics”; em “Cultura” temos as subsecções: “Mp3”, “Filmes”, “Palcos”, “Livros”, “Exposições”, “Design” e “Arquitectura”; em “Actualidade”, as subsecções são: “Sociedade”, “Educação”, “Desporto”, “Política”, “Economia”, “Ciência”, “Ambiente” e “Media”; por fim, em “Vícios”, os conteúdos estão também ligados às subsecções: “High-Tech”, “Gula”, “Em trânsito”, “Espelho” e “Ecrã”. Em “Multimédia”, secção na qual existe o maior número de conteúdos de Crowdsourcing registados neste período de análise (46% desse valor total), observamos uma prevalência de conteúdos desse género na subsecção “Fotografia” (19 artigos), seguindo-se a subsecção “Instagram” com um total de nove artigos. As duas subsecções com conteúdos de vídeo (“Vídeo” e “Videoclipe”) registaram cinco conteúdos cada, ou seja, 10 conteúdos no total. “Gallery” e “Ilustração” foram aquelas que menos conteúdos registaram (três artigos no caso da primeira e dois artigos no caso da segunda).
80 consciência dos cidadãos e orientando-os para uma reflexão e debate sobre vários temas. O público do P3 – Público é um público que sente uma forma de “compromisso”, quer para enviar “mensagens” (visuais ou escritas) através de vários tipos de conteúdos informativos, quer para escrever a sua perspetiva face a um certo tema através de um texto opinativo devidamente estruturado. Este esquema resulta com a devida curadoria da parte dos responsáveis pelo projeto que cumprem, assim, os seus papéis atuais enquanto gatewatchers: como “curadores” da informação acabam por ter um papel regulador desse tipo de conteúdos, conforme foi referido por Frias e Lima (2014) e Kovach (2005), citado por Hirst (2011). O P3 – Público, através do Crowdsourcing, consegue criar uma relação mais “transparente” com a sua audiência, ajudando o público a fazer as suas próprias notícias e detendo um papel regulador sobre esses mesmos conteúdos.
81 Considerações finais Ao longo da nossa experiência de estágio e do estudo efetuado em torno do tema do Crowdsourcing, pudemos ficar a conhecer mais acerca deste conceito, bem como das várias experiências feitas em jornalismo online com base no “poder” que a “multidão” pode ter nesta área. A experiência de estágio foi para nós uma mais-valia, permitindonos um ganho de experiência valiosa na área, bem como proporcionando-nos uma série de experiências únicas, das quais procuramos tirar o maior proveito. Não só ficamos a conhecer melhor o funcionamento do P3 – Público, como pudemos, ainda que temporariamente, fazer parte do trabalho que caracteriza este projeto inovador. Há algumas formas relevantes de aplicar o Crowdsourcing ao jornalismo. Alguns órgãos de comunicação poderão solicitar tarefas de investigação ou de “apuração distribuída” à multidão. No estudo efetuado ao longo deste relatório, pudemos averiguar que o P3 – Público realmente põe em prática a noção de Crowdsourcing de Howe (2006) sendo um exemplo de uma entidade que está a tirar o máximo de proveito desta prática, ao propor o envio de conteúdos escritos pelo público. Durante o estudo de caso que abordamos, observamos que há vários tipos de conteúdos que o público pode criar. No caso de conteúdos publicáveis, observamos crónicas escritas, galerias de fotografias, notícias escritas, vídeos e ilustrações. É certo que notamos uma propensão mais acentuada para a criação de crónicas ou de galerias de fotografias. No entanto, assinalamos que a prestação do público consegue ser variada, fornecendo um novo tipo de conteúdos (especialmente, no que toca a multimédia), assim como apresentando uma outra abordagem face a um certo tópico. O jornalista atual é visto de várias formas: como um “intérprete”, como um “cão de guarda da democracia”, como um “curador da informação”, como um “árbitro”, entre outros. Contrariamente ao seu papel anterior enquanto gatekeeper, enquanto gatewatcher, o jornalista consegue ter uma ideia do tipo de conteúdos que o público pode fornecer, o que lhes permitirá a construção de uma relação mais aberta e transparente com as audiências, ao mesmo tempo que servem como “moderadores” da informação que lhes vai chegando através dessa nova fonte.
82 Referências bibliográficas Aroso, I. & Correia, F. (2007). A Internet e os novos papéis do jornalista e do cidadão, Revista Eletrônica Temática, 7. Acedido, abril 16, 2015, em http://www.insite.pro.br/2007/35.pdf. Bardin, L. (2009). Análise de Conteúdo. Lisboa, Portugal: Edições 70, Lda. Bastos, H. (2012). A diluição do jornalismo no Ciberjornalismo, Jornalismo & Jornalistas, nº 50. Acedido, janeiro 10, 2015, em http://www.clubedejornalistas.pt/uploads/JJ50.pdf. Bastos, H., Lima, H., Moutinho, N. & Reis, I. (2013). Os Jornalistas e a Internet: Como os Profissionais Avaliam o Impacto da rede no Jornalismo. Jornalismo & Jornalistas 54, 1016. Brabham, D. C. (2008). Crowdsourcing as a Model for Problem Solving: an introduction and cases. Convergence: The International Journal of Research into New Media Technologies, 14 (1), 75-90. Bradshaw, P. & Rohumaa, L. (2011). The Online Journalism Handbook. Essex: Pearson Education Limited. Briggs, M. (2007). Journalism 2.0: How to Survive and Thrive; A digital literacy guide for the information age. J-Lab: The Institute for Interactive Journalism, University of Maryland Philip Merril College of Journalism, Maryland. Briggs, M. (2010). Journalism Next: A practical guide to digital reporting and publishing. Washington D.C.: C Q Press. Bruns, A. (2010) News produsage in a pro-am mediasphere: why citizen journalism matters. In Meikle, Graham & Redden, Guy (Eds.) News Online: Transformations and Continuities. Londres: Palgrave Macmillan.
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86 Anexos
87 Anexo 1 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/cultura/mp3/14584/marde-sophia-uma-homenagem-de-ana-seara-poetisa
88 Anexo 2 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/actualidade/educacao/14467/marta-cunha-eleita-melhor-aluna-demba-do-mundo
89 Anexo 3 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/cultura/design/14047/quando-os-azulejos-encontram-vira-retro
96 Anexo 10 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/cultura/filmes/14928/simon-wilkie-construiu-um-fato-de-c3po-emquatro-anos
97 Anexo 11 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/vicios/hightech/14939/quotshroomsquot-um-jogo-em-que-tu-esaquilo-que-comes
98 Anexo 12 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/vicios/hightech/15071/escrava-isaura-e-protagonista-de-um-jogoquotportuguesquot
99 Anexo 13 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/cultura/arquitectura/14824/um-dos-finalistas-do-concurso-dearquitectura-vision42-e-portugues
100 Anexo 14 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/14027/os-fantasmas-do-sanatorio-de-valongo
101 Anexo 15 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/actualidade/desporto/14630/os-segundos-intensos-do-futebolamericano
102 Anexo 16 – Artigo original disponível em http://p3.publico.pt/vicios/emtransito/13962/bicicletas-moda-do-porto
103 Anexo 17 – Artigo original disponível em http://www.publico.pt/mundo/noticia/otempo-que-nao-existe-na-fronteira-do-rovuma-1670594