Avaliação de bem estar animal em bovinos de leite na região norte de Portugal.
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i Joaquim Orlando Lima Cerqueira Avaliação de bem-estar animal em bovinos de leite na região Norte de Portugal Tese de Candidatura ao grau de Doutor em Ciências Veterinárias submetida ao Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto. Orientador – Doutor João José Rato Niza Ribeiro, Professor Auxiliar Convidado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto. Co-orientador – Doutor Jan Tind Sorensen, Investigador Sénior no Centro de Investigação Foulum da Universidade de Aarhus, Dinamarca. Co-orientador – Doutor José Pedro Pinto Araújo, Professor Adjunto da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viana do Castelo.
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iii TRABALHOS REALIZADOS NO ÂMBITO DA TESE Ao longo da realização desta tese fomos divulgando os resultados obtidos através de vários suportes: Artigos publicados ou em publicação em revistas nacionais e internacionais com arbitragem científica: - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Sorensen, J.T., Niza-Ribeiro, J., 2011. Alguns indicadores de avaliação de bem-estar em vacas leiteiras – revisão. Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias, 110 (577-580): 5-19. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P.P., Vaz, P.S., Cantalapiedra, J., Blanco-Penedo, I., NizaRibeiro, J.J.R., 2013. Relationship between zoometric measurements in Holstein-Friesian cow and cubicle size in dairy farms. International Journal of Morphology, 31(1): 55-63. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P.P., Blanco-Penedo, I., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T., Niza-Ribeiro, J.J.R., 2012. Relationships between stepping and kicking behaviour and milking management in dairy cattle herds. Livestock Science (submetido em março de 2012). Artigos publicados em revistas técnicas nacionais: - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2009. Perspectivas dos sistemas de produção e de bem-estar em bovinos de leite na Dinamarca. Revista “Vaca Leiteira”, janeiro a março, 106:11-18. Associação Portuguesa de Criadores da Raça Frísia (APCRF), Samora Correia. - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Alonso, J.M. e Niza-Ribeiro, J., 2009. Indicadores dos sistemas de produção de leite na região de Entre Douro e Minho e preocupações de bem-estar em vacas leiteiras – I. Revista Campus Lácteo, junho a setembro, 1:20-23. Federação Nacional das Cooperativas dos Produtores de Leite (FENALAC), Porto. - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Alonso, J.M. e Niza-Ribeiro, J., 2009. Indicadores dos sistemas de produção de leite na região de Entre Douro e Minho e preocupações de bem-estar em vacas leiteiras – II. Revista Campus Lácteo, outubro a dezembro, 2:14-17. Federação Nacional das Cooperativas dos Produtores de Leite (FENALAC), Porto. - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Abilheira, J., Granja, J., Martins, A., Sorensen, J.T. e NizaRibeiro, J., 2010. Medidas corporais da vaca Holstein Frísia e sua adequação ao regime de estabulação com cubículos. “Vaca Leiteira”, outubro a dezembro, 113: 18-24. Associação Portuguesa de Criadores da Raça Frísia (APCRF), Samora Correia. - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P., Martins, A., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2011. A importância da higiene da vaca leiteira na contagem de células somáticas no leite. “Vaca Leiteira”, outubro a dezembro, 117: 49-55. Associação Portuguesa de Criadores da Raça Frísia (APCRF), Samora Correia. - Cerqueira, J.L., Araújo, J.P. e Niza-Ribeiro, J., 2012. Medidas baseadas nos animais para avaliação de bem-estar em vacas leiteiras. Revista “Produtores de Leite”, outono - inverno 2012, Ano III, Nº6: 26-27. Associação dos Produtores de Leite de Portugal (APROLEP), Alcobaça.
iv Publicações em atas de congressos: - Cerqueira, J.L., 2009. Fatores de risco e mensurações indirectas na avaliação de bemestar em vacas leiteiras – A experiência dinamarquesa. Comunicação oral por convite nas IV Jornadas de Bovinicultura. 19 e 20 de março de 2009, UTAD, Vila Real. Livro de resumos, 31-32. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Granja, J.H.C., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Evaluación de indicadores de bienestar en vacas lecheras en el Norte y Centro de Portugal. XV Congresso Internacional de Medicina Bovina, 9 a 11 de junho de 2010, Granada – Espanha. Livro de comunicações, pp. 225-228. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Abilheira, J.A.S., Granja, J.H.C., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Relación entre medidas corporales de vacas de raza Holstein Friesian y el tamaño de los cubículos. Aplicación en la valoración de su bienestar. II Congresso de Zootecnia, 28 e 29 de outubro de 2010, Lugo – Espanha. Livro de actas, pp. 162-166. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, Granja, J.H.C., J.P., Abilheira, J.A.S., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Influencia de las instalaciones en el bienestar de vacas lecheras de alta producción. II Congresso de Zootecnia, 28 e 29 de outubro de 2010, Lugo – Espanha. Livro de actas, pp. 210-213. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cunha, J.P.S., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2011. Hiperqueratosis del pezón en vacas lecheras y sus efectos. XIV Jornadas sobre Producción Animal, 17 e 18 de maio de 2011, Zaragoza – Espanha. Tomo II, 807-809. ISBN Tomo II: 978-84-615-0065-9. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cunha, J.P.S., Vaz, P.S., Cantalapiedra J., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2011. Comportamiento de vacas lecheras en la sala de ordeño de explotaciones en el Norte de Portugal. XIV Jornadas sobre Producción Animal, 17 e 18 de maio de 2011, Zaragoza – Espanha. Tomo I, 88-90. ISBN Tomo I: 978-84-615-0064-2. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cantalapiedra J.; Sorensen, J.T.; Niza Ribeiro, J., 2011. Milking systems and welfare in dairy cows. V Congresso de Ciências Veterinárias, 13 a 15 de outubro de 2011, Santarém. Livro de resumos: pag. 238, ISBN: 978-989-20-2675-6. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cantalapiedra J.; Sorensen, J.T.; Niza Ribeiro, J., 2011. Association between hygiene scores and somatic cell in dairy cows. V Congresso de Ciências Veterinárias, 13 a 15 de outubro de 2011, Santarém. Livro de resumos: pag. 239, ISBN: 978-989-20-2675-6. - Cerqueira, J.L., 2012. Protocolos de bem-estar em vacas leiteiras e sua quantificação na região Norte de Portugal. Comunicação oral por convite nas V Jornadas de Bovinicultura. 30 e 31 de março de 2012, UTAD, Vila Real. Livro de resumos: 101 a 104. - Niza-Ribeiro, J.; Gomes, C.; Sorensen, J., Araújo, J.P., Cerqueira, J.L., 2012. Is there a place for welfare scoring systems of dairy cows in udder health. In Abstract book of the XXVII World Buiatrics Congress 2012, Lisbon, Portugal, 3 – 8 june, OC:8, p. 83 - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Blanco-Penedo, I., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2012. Hyperkeratosis characterization and welfare in dairy cows. In Abstract book of the XXVII World Buiatrics Congress 2012, Lisbon, Portugal, 3 – 8 june, OC:9, 83-84.
v Comunicações orais e posters: - Cerqueira, J.L., Milk production systems in Portugal. Comunicação oral por convite no seminário “Safe Science Day”. 30 de janeiro de 2009, Foulum, Denmark. - Cerqueira, J.L., Fatores de risco e mensurações indirectas na avaliação de bem-estar em vacas leiteiras – A experiência dinamarquesa. Comunicação oral por convite nas IV Jornadas de Bovinicultura. 19 e 20 de março de 2009, UTAD, Vila Real. - Cerqueira, J.L., Sistemas de Produção de leite na Dinamarca. Comunicação oral por convite para técnicos do setor leiteiro. 3 de abril de 2009, nas instalações da União das Cooperativas de Produtores de Leite de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes U.C.R.L. (AGROS) - Vila do Conde. - Cerqueira, J.L., Instalações animais e aplicação de indicadores de bem-estar em bovinos de leite. Comunicação oral por convite nas Jornadas Técnicas. 22 de abril de 2009, Escola Profissional Agrícola Conde de São Bento – Santo Tirso. - Cerqueira, J.L., Bem-estar animal – Indicadores de avaliação em vacas leiteiras. Comunicação oral por convite no Seminário “A Agricultura do Futuro”. 4 de julho de 2009, Centro Cultural de Paredes de Coura – Paredes de Coura. - Cerqueira, J.L., 2010. Instalações e técnicas de maneio com influência sobre o bemestar de vacas leiteiras. Comunicação oral por convite no Colóquio bem-estar animal em vacas leiteiras, na Feira Agrícola da Trofa 2010. 5 de março de 2010, Trofa. - Cerqueira, J.L., 2010. Potencialidades dos transgénicos em vacas leiteiras de alta produção e sua implicação no bem-estar animal. Comunicação oral por convite nas Jornadas de Engenharia Química e Biológica 2010. 12 a 16 de abril de 2010, Instituto Superior Técnico, Lisboa. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Granja, J.H.C., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Evaluación de indicadores de bienestar en vacas lecheras en el Norte y Centro de Portugal. Comunicação oral no XV Congresso Internacional de Medicina Bovina, 9 a 11 de junho de 2010, Granada – Espanha. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Abilheira, J.A.S., Granja, J.H.C., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Relación entre medidas corporales de vacas de raza Holstein Friesian y el tamaño de los cubículos. Aplicación en la valoración de su bienestar. Comunicação oral no II Congresso de Zootecnia, 28 e 29 de outubro de 2010, Lugo – Espanha. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Granja, J.H.C., J.P., Abilheira, J.A.S., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T. e Niza-Ribeiro, J., 2010. Influencia de las instalaciones en el bienestar de vacas lecheras de alta producción. Comunicação em póster no II Congresso de Zootecnia, 28 e 29 de outubro de 2010, Lugo – Espanha. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cunha, J.P.S., Martins, A., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2011. Hiperqueratosis del pezón en vacas lecheras e sus efectos. Comunicação oral nas XIV Jornadas sobre Producción Animal, 17 e 18 de maio de 2011, Zaragoza – Espanha. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cunha, J.P.S., Vaz, P.S., Cantalapiedra, J., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2011. Comportamiento de vacas lecheras en la sala de ordeño de explotaciones en el Norte de Portugal. Comunicação oral nas XIV Jornadas sobre Producción Animal, 17 e 18 de maio de 2011, Zaragoza – Espanha. - Cerqueira, J.L., 2011. Instalaciones y bienestar en bovinos de leche. Comunicação oral por convite para técnicos da Junta da Galiza. 29 de setembro de 2011, Santiago de Compostela, Espanha.
vi - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cantalapiedra J.; Sorensen, J.T.; Niza Ribeiro, J., 2011. Milking systems and welfare in dairy cows. Comunicação em póster no V Congresso de Ciências Veterinárias, 13 a 15 de outubro de 2011, Santarém. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Cantalapiedra J.; Sorensen, J.T.; Niza Ribeiro, J., 2011. Association between hygiene scores and somatic cell in dairy cows. Comunicação em póster no V Congresso de Ciências Veterinárias, 13 a 15 de outubro de 2011, Santarém. - Cerqueira, J.L., 2011. Bienestar en vacas lecheras – cubículos, camas e higiene de los animales. Comunicação oral por convite nas Jornadas de calidad de la leche, reducción de costes en las explotaciones lecheras. 18 de outubro de 2011, Lugo - Espanha. - Cerqueira, J.L., 2012. Protocolos de bem-estar em vacas leiteiras e sua quantificação na região Norte de Portugal. Comunicação oral por convite nas V Jornadas de Bovinicultura. 30 e 31 de março de 2012, UTAD, Vila Real. - Niza-Ribeiro, J.; Gomes, C.; Sorensen, J., Araújo, J.P., Cerqueira, J.L, 2012. Is there a place for welfare scoring systems of dairy cows in udder health. Comunicação oral em XXVII World Buiatrics Congress 2012, Lisboa. - Cerqueira, J.O.L., Araújo, J.P., Blanco-Penedo, I., Sorensen, J.T., Niza Ribeiro, J., 2012. Hyperkeratosis characterization and welfare in dairy cows. Comunicação oral em XXVII World Buiatrics Congress 2012, Lisboa. - Cerqueira, J.L., 2012. Influencia del estrés térmico en la producción de vacas lecheras. Comunicação oral por convite nas Jornadas Técnicas en Producción Ecológica Animal. 23 e 24 de novembro de 2012, Lugo, Espanha. No cumprimento do disposto no nº2 do Artigo 8º do Decreto Lei nº388/70, como autor desta dissertação, declaro que participei na conceção, execução e interpretação dos resultados dos trabalhos que estiveram na base destes artigos. Retenho todos os direitos de autor relativos a esta dissertação e o direito de a usar em trabalhos futuros (como artigos ou livros). Este trabalho foi realizado com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tendo o autor auferido de uma bolsa de doutoramento SFRH/BD/36151/2007, no período de 01/10/2008 a 30/09/2009 e posteriormente no período de 01/10/2009 a 30/09/2012 de outra bolsa de doutoramento SFRH/PROTEC/50056/2009, com o apoio conjunto da FCT e do Instituto Politécnico de Viana do Castelo.
vii DEDICATÓRIA Dedico esta dissertação à minha família, especialmente à minha esposa, Lúcia e filhas, Ana Carolina, Matilde e Inês, que nos últimos quatro anos abdicaram muitas vezes da minha presença, permitindo a realização deste trabalho. Gostaria ainda de fazer referência com sentimento muito profundo a duas mulheres aguerridas, que influenciaram decisivamente o meu percurso académico, e que apesar de não estarem presentes fisicamente, estarão para sempre no meu imaginário, a minha avó paterna, Carolina Fernandes e particularmente a minha mãe, Adelaide Lima (in memoriam).
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ix AGRADECIMENTOS Ao concluirmos esta Tese de Doutoramento, queremos deixar expresso o nosso reconhecimento a pessoas e instituições pelo auxílio que nos prestaram e que, de uma forma decisiva, contribuíram para a sua realização. Que todos, sem exceção, encontrem nestas palavras a expressão dos nossos mais sinceros agradecimentos. Ao apresentarmos este trabalho gostaríamos de manifestar o nosso profundo agradecimento a todos aqueles que contribuíram para a sua realização: Ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo e à Escola Superior Agrária, a nossa instituição de trabalho, pelas facilidades concedidas no acesso à bolsa de doutoramento da FCT e PROTEC e pela dispensa parcial de serviço docente nos últimos quatro anos; Ao Professor Doutor João Niza-Ribeiro, nosso orientador científico, pelo seu constante empenho no reunir das condições necessárias à realização desta tese, pelo acompanhamento do trabalho, pelos conhecimentos transmitidos e pela atitude crítica nos momentos decisivos; Ao Professor Doutor José Pedro Pinto de Araújo, nosso co-orientador, pela preciosa ajuda e disponibilidade, principalmente no tratamento estatístico dos dados, mas também pelo inesgotável apoio em todos os momentos de realização desta tese, pela revisão minuciosa e crítica do texto, nunca esquecendo a amizade e o companheirismo com que sempre nos distinguiu; Ao Doutor Jan Tind Sorensen, nosso co-orientador, pelo precioso apoio durante a estadia no Centro de Investigação Foulum na Dinamarca, assim como pela participação ao longo deste trabalho; Ao Professor Doutor Severiano Silva, Professor Doutor Mário Silvestre, Doutora Isabel Blanco Penedo, Doutor Jesus Cantalapiedra e Dra Carla Gomes pela preciosa ajuda na abordagem do tratamento estatístico dos dados, na cedência de bibliografia, na revisão de textos e pelas sugestões de melhoria; À Fundacao para a Ciencia e a Tecnologia (FCT) pelo suporte financeiro concedido através das bolsas com as referências SFRH/BD/36151/2007 e SFRH/PROTEC/50056/2009; À AGROS (União das Cooperativas de Produtores de Leite de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, U.C.R.L.) pelas facilidades concedidas na cedência de viatura de transporte para recolha de dados de campo, em especial ao grande humanista, Comendador Fernando da Silva Mendonça (in memoriam); À ABLN (Associação para o Apoio à Bovinicultura Leiteira do Norte), ao Eng. António Ferreira e em particular ao Eng. António Lima Martins, por nos ter auxiliado na seleção das explorações alvo de estudo e pela sua constante disponibilidade e rapidez na
xvi CAPÍTULO 6. COMPORTAMENTO DE VACAS LEITEIRAS NA SALA DE ORDENHA CONVENCIONAL E EFEITOS SOBRE O BEM-ESTAR E A PRODUTIVIDADE 205 6.1 Introdução 207 6.2 Comportamento da vaca leiteira 208 6.2.1 Influência do piso no comportamento 208 6.3 Comportamento na ordenha 209 6.4 Comportamento de defecar e urinar 212 6.5 Sobreordenha 213 6.6 MATERIAIS E MÉTODOS 215 6.6.1 Material animal 215 6.6.2 Metodologia 216 6.6.3 Análise estatística 216 6.7 RESULTADOS 219 6.8 DISCUSSÃO 225 6.9 CONCLUSÕES 229 6.10 BIBLIOGRAFIA 231 CAPÍTULO 7. INDICADORES AMBIENTAIS E FISIOLÓGICOS NO STRESSE TÉRMICO DOS ANIMAIS 237 7.1 Introdução 239 7.2 Stresse térmico 241 7.3 Temperatura ambiente 242 7.4 Humidade relativa 243 7.5 Índice de temperatura-humidade 244 7.6 Ventilação 244 7.7 Luminosidade 245 7.8 Temperatura retal 245 7.9 Frequência respiratória 246 7.10 Efeito do ambiente na produção 247 7.11 MATERIAIS E MÉTODOS 249 7.11.1 Escolha das explorações 249 7.11.2 Medição de temperatura e humidade relativa 249 7.11.3 Cálculo do índice de temperatura-humidade 249 7.11.4 Indicadores fisiológicos de stresse 249 7.11.5 Indicador de condição corporal 250 7.11.6 Análise estatística 250 7.11.6.1 Parte I 250 7.11.6.2 Parte II 250 7.11.6.3 Parte III 250 7.12 RESULTADOS 253 7.12.1 Parte I 253
xvii 7.12.2 Parte II 257 7.12.3 Parte III 258 7.13 DISCUSSÃO 263 7.14 CONCLUSÕES 267 7.15 BIBLIOGRAFIA 269 CAPÍTULO 8. MODELO DE AVALIAÇÃO DE BEM-ESTAR EM VACAS LEITEIRAS 275 8.1 Introdução 277 8.2 Pressupostos e finalidade do modelo 278 8.3 Estrutura do modelo 279 8.3.1 Medidas baseadas nas instalações 281 8.3.1.1 Dimensões dos corredores de passagem 281 8.3.1.2 Cubículo 281 8.3.1.3 Manjedoura 282 8.3.1.4 Bebedouro 282 8.3.1.5 Máquina de ordenha 282 8.3.1.6 Ambiente do estábulo 282 8.3.2 Medidas baseadas nos animais 283 8.3.2.1 Medidas corporais 283 8.3.2.2 Comportamento 283 8.3.2.2.1 Relação homem-animal 283 8.3.2.2.2 Teste de comportamento na sala de ordenha 284 8.3.2.2.3 Comportamento de deitar e levantar 284 8.3.2.3 Saúde 285 8.3.2.3.1 Condição corporal 285 8.3.2.3.2 Claudicação 285 8.3.2.3.3 Higiene da coxa e flanco 285 8.3.2.3.4 Índice de saúde do úbere 286 8.3.2.3.5 Hiperqueratose dos tetos 286 8.3.2.3.6 Lesões 286 8.3.2.4 Indicadores fisiológicos 287 8.4 Implementação do modelo 288 8.4.1 Formação 288 8.4.2 Reflexos da avaliação de BEA 289 8.5 CONCLUSÕES 291 8.6 BIBLIOGRAFIA 293 CAPÍTULO 9. DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÕES 295 9.1 DISCUSSÃO GERAL 297 9.2 CONCLUSÕES 303 9.3 BIBLIOGRAFIA 305 ANEXO 1. INQUÉRITO REALIZADO AOS PRODUTORES DE LEITE 307
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xix INDICE DE QUADROS Capitulo 1 Quadro 1.1 Sistema de estabulação para vacas e novilhas 23 Capitulo 2 Quadro 2.1 Dimensões dos cubículos a partir de proporções estimadas, com base nas medidas corporais de vacas leiteiras (cm) 39 Quadro 2.2 Distribuição dos inquéritos realizados nos diferentes concelhos 45 Quadro 2.3 Efetivo, dimensões dos estábulos, dos corredores e das manjedouras (m) 50 Quadro 2.4 Número e dimensões dos bebedouros nas explorações em estudo (m) 51 Quadro 2.5 Medidas dos elementos constituintes dos cubículos (m) 53 Quadro 2.6 Dimensões de elementos das salas de ordenha e de espera (m) 54 Quadro 2.7 Caraterísticas dos sistemas de ordenha nas explorações em estudo 55 Quadro 2.8 Indicadores de produtividade por animal e desempenho do ordenhador 55 Quadro 2.9 Caraterísticas do fosso de ordenha 56 Quadro 2.10 Quantidade de alimento distribuído às vacas em produção (kg/dia) 57 Quadro 2.11 Indicadores de bem-estar por classe de dimensão das explorações 60 Capitulo 3 Quadro 3.1 Medidas biométricas de raças de aptidão leiteira (média±DP em cm) 84 Quadro 3.2 Índices biométricos de raças autóctones da região Norte de Portugal (cm) 85 Quadro 3.3 Bovinos leiteiros e produção em alguns países (WHFF, 2010) 87 Quadro 3.4 Medidas biométricas de vacas da raça Holstein Frísia (cm) 89 Quadro 3.5 Distribuição da amostra para os animais mensurados 91 Quadro 3.6 Estatística descritiva das alturas em função das classes de lactação 96 Quadro 3.7 Estatística descritiva dos comprimentos em função das classes de lactação 99 Quadro 3.8 Estatística descritiva das larguras em função das classes de lactação 101 Quadro 3.9 Estatística descritiva dos perímetros em função das classes de lactação 103 Quadro 3.10 Estatística descritiva de índices etnológicos em vacas da raça Holstein Frísia 104 Quadro 3.11 Estatística descritiva de índices funcionais em vacas da raça Holstein Frísia 105 Quadro 3.12 Correlações entre índices corporais 106 Quadro 3.13 Medida de adequação da amostra KMO e teste de Bartlett 106 Quadro 3.14 Correlações fenotípicas entre as medidas biométricas 107 Quadro 3.15 Componentes principais das medidas corporais (n=1054 vacas) 108 Quadro 3.16 Estatística descritiva das alturas em função das classes de produção 110 Quadro 3.17 Estatística descritiva dos comprimentos em função das classes de produção 111 Quadro 3.18 Estatística descritiva das larguras em função das classes de produção 111 Quadro 3.19 Estatística descritiva dos perímetros em função das classes de produção 112 Quadro 3.20 Correlações entre medidas corporais e dimensões dos cubículos (n=992) 112 Capitulo 4 Quadro 4.1 Valores de CC em diferentes fases produtivas de vacas Holstein Frisia 133 Quadro 4.2 Percentagem da pontuação de higiene 3 e 4 para cada região anatómica de vacas leiteiras, para o tipo de cama (adaptado de Cook, 2004) 139 Quadro 4.3 Distribuição das explorações visitadas, efetivo animal e número de animais observados 141 Quadro 4.4 Pontuação da claudicação e critérios de avaliação dos animais 142 Quadro 4.5 Efeito da fase de lactação na classificação de condição corporal 147 Quadro 4.6 Efeito da paridade na pontuação de claudicação 148 Quadro 4.7 Correlações entre diferentes regiões para o grau de higiene dos animais (n=3427) 150 Quadro 4.8 Relação da pontuação de higiene com o Linear Score de CCS 151 Quadro 4.9 Resultados do modelo multinível univariado 152 Quadro 4.10 Coeficientes de efeitos fixos e valor de P para LSCCS no modelo linear misto em 82 explorações 153
xx Capitulo 5 Quadro 5.1 Descrição dos critérios de avaliação das caraterísticas dos tetos e tamanho do úbere para vacas leiteiras 174 Quadro 5.2 Distribuição das explorações visitadas, efetivo animal e número de animais observados 183 Quadro 5.3 Descrição da extremidade do teto 184 Quadro 5.4 Descrição e pontuação dos níveis de hiperqueratose e calosidade dos tetos 184 Quadro 5.5 Classificação dos diferentes tipos de calosidades dos tetos 185 Quadro 5.6 Estatística descritiva de parâmetros das explorações em estudo 187 Quadro 5.7 Distribuição do tipo de hiperqueratose e calosidade dos tetos 188 Quadro 5.8 Frequência de hiperqueratose de acordo com a localização e tipo de tetos 189 Quadro 5.9 “Odds ratio” de hiperqueratose severa (≥1B) utilizando a produção de leite (Kg/dia) de vacas observadas durante a ordenha em 43 explorações 191 Quadro 5.10 Coeficientes de efeitos mistos e valor de P para hiperqueratose severa (≥1B) no modelo de regressão logística utilizando o linear score de células somáticas de vacas observadas durante a ordenha em 43 explorações 192 Quadro 5.11 Coeficientes de efeitos mistos e valor de P para hiperqueratose severa (≥1B) no modelo de regressão logística utilizando o comportamento na ordenha de vacas observadas em 43 explorações 193 Capitulo 6 Quadro 6.1 Distribuição das explorações visitadas, efetivo animal e número de animais observados 215 Quadro 6.2 Distribuição das observações (n=2903) de acordo com as variáveis incluídas nas análises de associação entre passos e coices em 44 explorações leiteiras 216 Quadro 6.3 Estatística descritiva das explorações em estudo 219 Quadro 6.4 Estatística descritiva de fatores associados aos animais em estudo (n=2903) 220 Quadro 6.5 Coeficientes de efeitos fixos e valor de P para passos no modelo de regressão linear utilizando dados de vacas observadas durante a ordenha em 44 explorações 222 Quadro 6.6 “Odds ratio” de coices utilizando dados de vacas observadas durante a ordenha em 44 explorações 222 Quadro 6.7 Coeficientes de efeitos fixos e valor de P para a produção de leite (Kg/dia) em dois modelos de regressão linear utilizando dados de vacas primíparas (modelo 3) e vacas com três ou mais partos (modelo 4) 223 Capitulo 7 Quadro 7.1 Escala de classificação de animais ofegantes 242 Quadro 7.2 Explorações visitadas, efetivo animal e número de animais observados 249 Quadro 7.3 Efeito da estação do ano nos indicadores ambientais dos estábulos durante o período experimental (ano de 2011) 253 Quadro 7.4 Efeito da localização, da estação e do período do dia nos fatores ambientais 254 Quadro 7.5 Efeito da exploração e da estação do ano na produção média diária de leite (Kg/dia) nos períodos do dia das 0 às 11 horas e das 11 às 17 horas 257 Quadro 7.6 Coeficientes de regressão para as equações lineares simples entre a produção média diária e o ITH no período entre as 11 e as 17 horas 257 Quadro 7.7 Efeito da exploração e da estação do ano nos indicadores fisiológicos (temperatura retal e frequência respiratória) 258 Quadro 7.8 Correlações entre indicadores ambientais e fisiológicos 260 Quadro 7.9 Influência da classe de ITH, número de lactação e fase da lactação, na produção, na CC e nos indicadores fisiológicos (n=212) 261 Capitulo 8 Quadro 8.1 Dimensão da amostra para efeito de medidas baseadas nos animais 283 Quadro 8.2 Principais grupos, indicadores, medidas e procedimento de apreciação de BEA na exploração de vacas leiteiras 288
xxi INDICE DE FIGURAS Capitulo 1 Figura 1.1 Fontes de informação para avaliação do bem-estar animal (Sorensen, 2001) 9 Figura 1.2 Evolução da produção, quota e número de produtores dos últimos anos (adaptado de FENALAC, 2011) 17 Figura 1.3 Evolução dos escalões de produção de leite em Portugal e o peso relativo por escalão de produção nas campanhas 2005/06 e 2009/2010 18 Figura 1.4 Distribuição regional dos produtores e da produção de leite na campanha 2009/2010 19 Figura 1.5 Evolução da produção de leite por vaca aos 305 dias, dos últimos 13 anos em Portugal continental (adaptado de ANABLE, 2011) 20 Figura 1.6 Tipo de piso existente nas explorações da bacia leiteira (adaptado de POBLP, 2007) 24 Capitulo 2 Figura 2.1 Ilustração dos principais componentes do cubículo (adaptado de Drissler et al., 2005) 35 Figura 2.2 Dimensão (área em ha) das explorações e número de parcelas por exploração 47 Figura 2.3 Tamanho do agregado familiar e estrutura etária dos produtores de leite 48 Figura 2.4 Nível de habilitações literárias e cursos técnicos dos produtores 48 Figura 2.5 Antiguidade da exploração e tipo de trabalho do proprietário 49 Figura 2.6 Forma de exploração da terra e número de trabalhadores por exploração 49 Figura 2.7 Altura do estábulo e largura dos corredores de passagem 50 Figura 2.8 Frequência do tipo de manjedoura e respetivo piso 51 Figura 2.9 Tipo e nível de higiene dos bebedouros 52 Figura 2.10 Número de vacas por bebedouro e espaço disponível por vaca 52 Figura 2.11 Tipo de material utilizado na cama dos cubículos 53 Figura 2.12 Tipo de ordenha e sua localização no estábulo 54 Figura 2.13 Piso da ordenha e tipo de ventilação do espaço 56 Figura 2.14 Piso do fosso de ordenha e periodicidade de substituição de tetinas 57 Figura 2.15 Frequência de distribuição de alimento e de sal às vacas em produção 58 Figura 2.16 Utilização de pedilúvio, escova rotativa e corte de cauda nas explorações em estudo. Periodicidade de manutenção das úngulas 58 Figura 2.17 Temperamento e necessidade de tratamento clínico dos animais 59 Capitulo 3 Figura 3.1 Pontuação morfológica em Portugal (adaptado de ANABLE, 2011) 80 Figura 3.2 Ilustração das dimensões de uma vaca da raça Holstein Frisia (cm) 83 Figura 3.3 Indicação das medidas biométricas realizadas nos animais 93 Figura 3.4 Idade média das vacas em função da classe de lactação 95 Figura 3.5 Representação da linha dorso-lombar, nas diferentes classes de lactação 97 Figura 3.6 Histogramas de frequências das medidas corporais de altura 98 Figura 3.7 Histogramas de frequências das medidas corporais de comprimento 100 Figura 3.8 Histogramas de frequências das medidas corporais de largura 102 Figura 3.9 Histogramas de frequências das medidas corporais de perímetro 103 Figura 3.10 Projeção das variáveis originais sobre os eixos definidos pelos dois primeiros componentes principais 109 Figura 3.11 Produção média de leite em função das classes aos 305 dias 109 Capitulo 4 Figura 4.1 Ilustração das diferentes classes de condição corporal (Ferguson et al., 2006) 133 Figura 4.2 Ilustração da pontuação de avaliação da higiene dos animais (Cook, 2002) 143 Figura 4.3 Distribuição da condição corporal por escalões nos animais em estudo 147 Figura 4.4 Frequência de claudicação por categoria nos animais em estudo 148
xxii Figura 4.5 Distribuição dos animais por categoria de claudicação em função da ordem de lactação 149 Figura 4.6 Frequência de distribuição de fatores associados ao maneio dos animais 149 Figura 4.7 Grau de higiene dos animais em estudo para as diferentes regiões 150 Figura 4.8 Distribuição das lesões nos animais pelas diferentes regiões corporais 152 Figura 4.9 Resposta da variável células somáticas no modelo aos 60 dias de lactação 154 Capitulo 5 Figura 5.1 Ilustração dos tipos de extremidade dos tetos 175 Figura 5.2 Sistema de classificação da hiperqueratose dos tetos (Neijenhuis et al., 2000) 185 Figura 5.3 Classificação da forma da extremidade dos tetos 187 Figura 5.4 Frequência de hiperqueratose grave nas explorações em estudo 188 Figura 5.5 Frequência de hiperqueratose dos quartos anteriores e posteriores 189 Figura 5.6 Proporção de hiperqueratose ≥1B em função do tipo de extremidade do teto 190 Figura 5.7 Frequência de hiperqueratose em função da fase de lactação 190 Figura 5.8 Distribuição da produção diária de leite por fase de lactação em função do nível de hiperqueratose 191 Capitulo 6 Figura 6.1 Distribuição da frequência dos escalões de ordenha por vaca 220 Figura 6.2 Distribuição da frequência de passos na ordenha por vaca 221 Figura 6.3 Prevalência de passos e coices durante a ordenha em 44 explorações 221 Capitulo 7 Figura 7.1 Variação da humidade, temperatura e ITH ao longo do ano de 2011 255 Figura 7.2 Variação do ITH ao longo do dia por estação 255 Figura 7.3 Variação do ITH ao longo das estações do ano para seis períodos do dia 256 Figura 7.4 Distribuição dos valores de ITH de acordo com a localização das sondas 256 Figura 7.5 Distribuição dos animais por escalões de frequência respiratória (n=206) 259 Figura 7.6 Distribuição dos animais por escalões de temperatura retal (n=206) 259 Figura 7.7 Regressão linear entre a frequência respiratória e a temperatura retal 260 Capitulo 8 Figura 8.1 Diagrama de indicadores de BEA para vacas leiteiras 280 Figura 8.2 Diagrama ilustrativo da integração de estratégias de melhoria de BEA 289
xxiii INDICE DE ABREVIATURAS E SIMBOLOS ABEBED - Altura do bebedouro ABLN - Associação para o Apoio à Bovinicultura Leiteira do Norte ACER - Altura à cernelha ACUBCC - Altura do cubículo cabeça com cabeça ACUBCP - Altura do cubículo contra a parede AFORD - Altura do fosso da sala de ordenha AGAR - Altura à garupa AISQ - Altura isquiática ALIP – Associação Interprofissional do Leite e Laticinios ALTBORPC - Altura do bordo posterior do cubículo ALTEST - Altura do estábulo ALTSESP - Altura da sala de espera AMANJD - Altura da manjedoura por dentro AMANJF - Altura da manjedoura por fora AMDO - Altura a meio dorso APCRF - Associação Portuguesa de Criadores da Raça Frísia AREASESP - Área da sala de espera ASORD - Altura da sala de ordenha AVCUBCC - Avanço do cubículo cabeça com cabeça AVCUBCP - Avanço do cubículo contra a parede BEA - Bem-estar animal CBEBED - Comprimento do bebedouro CC - Condição corporal CCAB - Comprimento da cabeça CCS - Contagem de células somáticas CCUBCC - Comprimento do cubículo cabeça com cabeça CCUBCP - Comprimento do cubículo contra a parede CEE - Comunidade Económica Europeia cél. - célula CFORD - Comprimento do fosso da sala de ordenha CGAR - Comprimento da garupa cm - Centimetro CMANJ - Comprimento da manjedoura CN - Cabeça Normal CSORD - Comprimento da sala de ordenha CTRO - Comprimento do tronco
xxiv CV - Coeficiente de variação d - Dia DL - Dias de lactação DP - Desvio padrão DRAEDM - Direção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho EABL - Estação de Apoio à Bovinicultura Leiteira EDM - Entre Douro e Minho EFSA - European Food Safety Authority EPM - Erro padrão da média EUA - Estados Unidos da América Expl. – Exploração F. - Fase FAWC - Farm Animal Welfare Council FENALAC - Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite Freq. resp. - Frequência respiratória GL - Graus de liberdade GLMM - Generalized Linear Mixed Model Gord. - Gordura h - Hora ha - Hectare IC - Indice corporal ICAR - International Agreement on Recording Practices ICEF - Indice cefálico ICL - Indice de claudicação ICR - Indice corporal de vantagem IDC - Indice dáctilo-costal IDT - Indice dáctilo-torácico IECN - Indice de espessura relativa da canela IH - Indice de higiene INE - Instituto Nacional de Estatística IP - Indice pélvico IPL - Indice pélvico longitudinal IPRP - Indice de profundidade relativa do peito IPT - Indice pélvico transversal IT - Indice torácico ITH - Indice de temperatura-humidade Kg - Kilograma
xxv KMO - Kaiser-Meyer-Olkin Kpa – Kilopascal Lact. - Lactação LBEBED - Largura do bebedouro LBIIL - Largura biiliaca LBIIL - Largura biiliaca LBIISQ - Largura biisquiática LCAB - Largura da cabeça LCORD - Largura do corredor de ordenha LCPAT - Largura do corredor de passagem atrás LCPJM - Largura do corredor de passagem junto à manjedoura LCUBCC - Largura do cubículo cabeça com cabeça LCUBCP - Largura do cubículo contra a parede LFORD - Largura do fosso da sala de ordenha LMANJ - Largura da manjedoura LOG - Logaritmo de base 10 LPASORD - Largura da porta de acesso à sala de ordenha LPEITO - Largura do peito LS - Linear Score LSCCS - Linear score de contagem de células somáticas m - Metro m2 - Metro quadrado MADRP - Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas min - Minuto ml - mililitro mm - milímetro N - Número NBEBED - Número de bebedouros P - Probabilidade P. 305 - Produção de leite aos 305 dias P. dia - Produção de leite no dia P. ord. - Produção de leite da ordenha P1 - Periodo do dia das 0 às 4 horas P2 - Periodo do dia das 4 às 8 horas P3 - Periodo do dia das 8 às 12 horas P4 - Periodo do dia das 12 às 16 horas P5 - Periodo do dia das 16 às 20 horas
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7 1.1 Introdução Elevados padrões de bem-estar animal têm sido e continuam a ser importantes para o setor da produção de leite. É uma questão incontroversa que o estado de saúde equilibrado do animal é fundamental para o seu bem-estar. Os indicadores de saúde utilizados concentram-se geralmente em doenças, lesões e índices reprodutivos. As elevadas taxas de mortalidade são por norma associadas a deficiente qualidade de vida dos animais. No entanto a morbilidade e mortalidade devem ser considerados apenas indicadores gerais de saúde e bem-estar animal. A avaliação da saúde animal deve ser efetuada através de indicadores mais sensíveis, adequados à monitorização dos animais previamente a estes se apresentarem clinicamente doentes ou atingir a morte, porque dessa forma é possível reduzir significativamente o risco de sofrimento em resultado da doença (Keyserlingk et al., 2009). Um decréscimo na produção de leite pode ser indicativo de doença. As oscilações de curto prazo na produção de leite, também se têm revelado úteis para avaliar as respostas das vacas a episódios stressantes. O stresse agudo, tal como a exposição do animal a um ambiente novo leva à redução da secreção de ocitocina, baixando consecutivamente a produção de leite (Bruckmaier e Blum, 1998). No entanto é necessário ressalvar que um elevado nível de produção não é garantia de adequado bem-estar e produção reduzida também não será necessariamente sinal de deficiente bem-estar. Os normativos de bem-estar animal são cada vez mais exigentes e inclusive estão associados à concessão de ajudas por parte da UE, que se encontram completamente condicionadas ao cumprimento de boas práticas referentes ao bem-estar animal. O bem-estar dos animais está muito condicionado pela utilização das instalações como habitat para o desenvolvimento de todas as suas funções (produtiva, reprodutiva e social). As vacas leiteiras foram selecionadas para a produção intensiva tendo sofrido ao longo deste processo significativas alterações morfológicas e fisiológicas, que contribuíram para o aumento das produções, mas menorizaram outras aptidões dos animais, nomeadamente a resistência a doenças. A atual vaca leiteira não é um animal selecionado para percorrer grandes distâncias ou permanecer em pé durante períodos muito prolongados de tempo, em parte devido ao incremento do seu tamanho e peso corporal (EFSA, 2012). O objetivo do presente capítulo consistiu em efetuar uma abordagem aos conceitos de bem-estar, fazer referência às preocupações da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar no BEA e às estratégias da União Europeia para os próximos quatro anos nesta matéria. E ainda fazer o enquadramento geral da produção de leite de vaca em Portugal e mais especificamente na bacia leiteira primária de Entre Douro e Minho.
8 A estrutura deste capítulo compõe-se de duas partes, a primeira dedicada à revisão de questões de BEA em vacas leiteiras e a segunda ao sistema de produção de leite em Portugal, com referência particular ao tipo de intalações existentes na região Norte. 1.2 Bem-estar animal A gestão do bem-estar dos animais depende do seu grau de adaptação sem sofrimento, aos ambientes proporcionados pelo homem (Carpenter, 1980). É importante que o principal objetivo para promover o BEA seja atingido de uma forma metódica para evitar erros de longo alcance que afetam os agricultores, os animais e a sociedade em geral. Um pré-requisito necessário para atingir esse objetivo consiste na definição correta das caraterísticas associadas à qualidade de vida de um animal (Hurnik, 1988). O bem-estar de um animal pode ser definido como o seu estado, no que se refere às tentativas de lidar com o ambiente que o rodeia. Isto inclui o seu estado de saúde, condição física, fisiológico e estado emocional. A apreciação do bem-estar deve efetuarse preferencialmente, através de uma grande variedade de medidas. Embora uma única medida permite indicar se o bem-estar é pobre, estudos comparando bem-estar em diferentes sistemas, ou utilizando diferentes métodos de produção pecuária, deverão basear-se num conjunto de indicadores (FAWC, 1993). Três tipos de preocupações com o bem-estar animal são geralmente relatadas: as que envolvem a atividade biológica do animal, as que se referem com a forma como os animais sentem, relacionadas com o seu estado afetivo e emocional, e ainda as que abrangem a capacidade do animal para viver uma vida natural (Fraser, 2003, 2006). Existe uma ampla abordagem do bem-estar proporcionada pelo princípio das “Cinco Liberdades”. Liberdade de fome e sede, desconforto, dor, lesão ou doença, medo e angústia, a liberdade de expressar um comportamento normal (Webster, 2001). As cinco liberdades não descrevem os critérios a respeitar em qualquer tipo de sistema de estabulação e maneio animal para atingir um nível aceitável de bem-estar. Pelo contrário as cinco liberdades indicam uma forma de identificar os problemas e a direção a seguir para melhorar a assistência aos animais (Webster, 2001; Rushen et al., 2008). Desde a mais antiga tradição de cuidar dos animais, que o bem-estar animal é visto em grande parte, pela ausência de dor, doença ou lesão e focando a atenção sobre a proteção individual dos animais, sobretudo garantindo que animais doentes recebem tratamento atempado e eficaz. O mais recente interesse do bem-estar animal nas explorações, no entanto, decorre da preocupação da sociedade civil sobre algumas técnicas de exploração pecuária moderna, especialmente na pecuária intensiva (Rushen et al., 2008). O problema mais óbvio é que o conceito de bem-estar animal ignora ou pretende evitar referências a sentimentos, emoções ou consciência dos animais. Isso
9 normalmente é justificado pela afirmação de que a consciência animal é impossível ou de difícil enquadramento em estudos científicos. A resposta tem sido muitas vezes a redefinição do bem-estar animal de modo a tornar possível a abordagem pela investigação científica, designadamente através do estudo das ameaças que se colocam ao funcionamento fisiológico do animal (Barnard e Hurst, 1996). Preocupações sobre a objetividade e respeitabilidade científica também podem influenciar a seleção de variáveis para avaliação do bem-estar animal. Os cientistas geralmente centram-se na objetividade, no sentido de fazer as medições, que representam o objeto em estudo, e não o sujeito (pessoa) que faz a avaliação. Variáveis como taxa de crescimento, a sobrevivência e a incidência de doenças infeciosas em geral podem ser classificadas de forma objetiva, com forte concordância entre diferentes observadores, e aos investigadores em bem-estar animal tem sido recomendado o uso de tais medidas objetivas, sempre que possível (Fraser, 2003). Hurnik (1988) propôs que a longevidade poderia servir como avaliação global de bemestar, uma vez que todos os desafios prejudiciais ao BEA, em última instância, devem acelerar a morte. O pressuposto por trás deste conceito é que todos os reptos ao BEA acabarão por afetar o animal da mesma forma e, consequentemente, os indicadores de bem-estar permitirão medir o somatório dos efeitos das diferentes agressões no animal. Programas de garantia do bem-estar incluem diversos formatos e tipo de exigências. Estes dispõem de oportunidades para identificar as opções adaptadas a um determinado território, na sua organização, na indústria, associadas às suas necessidades específicas, como fatores culturais, do mercado, situação económica, e nível de envolvimento com o BEA como uma área de interesse social (Fraser, 2006). Figura 1.1 Fontes de informação para avaliação do bem-estar animal (Sorensen, 2001). O sistema Aplicação de sistemas Comportamento animal Doenças dos animais Avaliação de bem-estar
10 Governos de muitos países europeus responderam às preocupações públicas sobre bem-estar animal, através da aprovação de legislação que sanciona determinadas práticas, servindo também de base para criação de legislação no âmbito da União Europeia. A Convenção Europeia para a proteção dos animais nas explorações pecuárias de 1978 incidiu sobre a importância de evitar sofrimento, garantir abrigo, nutrição e sistemas de maneio adequados aos animais. O efeito de medidas legislativas de proteção dos bovinos nem sempre teve impacto positivo. Grande parte da investigação baseou-se em comparações referentes a diferentes tipos de estabulação, como os sistemas de criação de vitelos em grupo, versus em alojamentos individuais, uma vez que este era o interesse da legislação (Rushen et al., 2008). Uma abordagem complementar para a melhoria do bem-estar animal vem do reconhecimento de que o bem-estar animal, pode interferir com os hábitos de compra dos consumidores. Inquéritos realizados na União Europeia revelaram que os consumidores muitas vezes afirmam que o bem-estar animal, é um tema importante na tomada de decisão da compra de um determinado produto, embora por vezes seja de importância secundária, em relação à segurança dos alimentos, sabor e fatores nutritivos (Weatherell et al., 2003; Grunert et al., 2004). Muitos consumidores defendem que a informação sobre o sistema de produção, incluindo o bem-estar animal, deve ser incluída na etiquetagem dos produtos (Bernues et al., 2003). Curiosamente, a preocupação com questões de bem-estar animal parece ser uma das principais razões, que levam os consumidores a comprar produtos com origem no modo de produção biológica, sobretudo no Reino Unido (Grunert et al., 2004) e é um fator que alicia os consumidores a preferirem produtos alimentares considerados de produção local (Weatherell et al., 2003). 1.3 Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) Em junho de 2009, na sequência de um pedido da Comissão Europeia o painel de saúde e bem-estar animal da EFSA foi convidado a emitir um parecer científico sobre os efeitos globais de sistemas de produção animal no bem-estar em vacas leiteiras, considerandose os sistemas de produção atuais e o cumprimento das exigências de bem-estar patológicas, zootécnicas, fisiológicas e comportamentais. Em janeiro de 2012 a EFSA publicou novo documento reforçando a importância da adoção de protocolos de avaliação de bem-estar baseados nos animais. Devido à grande diversidade de temas e dados científicos, foi proposta a emissão de pareceres científicos nas diferentes temáticas, como sendo mais adequado e eficaz. O
11 relatório científico, foi organizado num parecer global com avaliações científicas de risco divididas em quatro secções (EFSA, 2009): 1. Distúrbios metabólicos e reprodutivos; 2. Perturbações do úbere e pernas; 3. Problemas de locomoção; 4. Distúrbios de comportamento, medo e dor. A produção leiteira da Europa baseia-se principalmente na agricultura intensiva especializada, no entanto existe uma grande diversidade de sistemas de maneio e estabulação dos animais. Na maioria dos casos as áreas de pastoreio são reduzidas e tendem a manter os animais em estabulação permanente, sem possibilidade de recorrer à pastagem. O sistema de produção por si só, é um importante fator nos problemas de saúde dos animais e outros aspetos de bem-estar, em parte focados na estabulação e tipo de equipamentos e, por outro lado, nas práticas de maneio adotadas. A seleção genética efetuada a longo prazo para alta produção de leite é o principal fator que afeta o bem-estar e a saúde das vacas leiteiras. A produção de leite tem aumentado progressivamente ao longo dos últimos trinta anos na Europa, com aproximadamente 50% deste aumento atribuível ao progresso genético. Esta seleção também alterou a forma e o tamanho dos animais e, portanto, exigências sobre o seu comportamento e outros mecanismos adaptativos. A necessidade de maior conforto para a vaca leiteira é fundamental, assumida a sua vulnerabilidade a choques mecânicos e feridas nas partes exteriores do corpo, da pele, membros e úngulas. A componente genética subjacente ao aumento da produção de leite também tem sido associada positivamente à incidência de claudicação, mastite, distúrbios reprodutivos e metabólicos. Com a finalidade de melhorar o bem-estar das vacas leiteiras é premente a promoção de mudanças nos critérios utilizados para a seleção genética dos animais. A seleção genética para melhorar a fertilidade, saúde e longevidade é suscetível de melhorar o bem-estar e conduzir a maiores rendimentos para o criador. Uma vez que o tamanho corporal das vacas aumentou durante os últimos 20 anos, os cubículos devem possuir as dimensões adequadas, para minimizar as dificuldades de movimento dos animais e a possibilidade de pisoteio dos tetos. Os cubículos e corredores devem ser projetados de tal forma que o movimento frontal da vaca não seja dificultado quando esta se levanta da cama. A avaliação de risco confirmou que o menosprezo pelas condições do cubículo e a falta de espaço representam os maiores riscos no desenvolvimento de patologias nos animais. Áreas inferiores a 8,6 m2 por vaca em sistemas de estabulação livre com cubículos afetam negativamente o bem-estar. A largura do cubículo deverá ser de pelo menos 1,8 vezes a largura da garupa. Neste sistema de estabulação deverá providenciar-se disponibilidade de cubículos suficiente
12 para a totalidade do efetivo, ou seja um cubículo por animal. A área de repouso de pelo menos 2,7 m²/novilha (até 400 kg) é necessária para evitar o impacto negativo no seu desenvolvimento e bem-estar. No sistema de estabulação livre, a área em volta de cada local de alimentação é propício à ocorrência de agressividade, por isso a área de alimentação deve ser concebida com espaço suficiente para que todas as vacas se possam alimentar tranquilamente, minimizando as agressões ou outras interferências indesejáveis. As patologias podais são o principal problema que afeta as vacas de leite, questões como o dimensionamento adequado dos cubículos e o tipo de cama devem ser considerados. As vacas e as novilhas sempre que seja possível, devem ter acesso a pastagens ou parques ao ar livre, pelo menos durante o verão ou nas restantes estações do ano sempre que se verifique tempo seco. A estabulação presa restringe o movimento voluntário e o comportamento social dos animais. Quando existem períodos de exercício físico, alguns dos possíveis efeitos adversos são reduzidos. Portanto, os sistemas de maneio devem contemplar um período mínimo de circulação das vacas, para que estas sejam capazes de satisfazer as suas necessidades ao mostrar determinados comportamentos, como aliciamento, interação social e exercício físico. Mesmo em sistemas com estabulação presa permanente, as vacas devem ter a oportunidade de fazer exercício diário, como andar livremente dentro ou fora (exceto quando há condições climatéricas adversas) do estábulo e ter liberdade para realizar outros comportamentos naturais. Todas as vacas leiteiras devem ser alimentadas com uma dieta que fornece energia suficiente, nutrientes e fibras alimentares para suprir as exigências metabólicas da produção, sem colocar em causa a saúde animal. Quando se efetuam alterações na dieta, a alimentação de transição deve ser cuidadosamente controlada para evitar malestar. Os sistemas de alimentação implementados nas explorações devem permitir que cada vaca individualmente possa satisfazer as suas necessidades em quantidade e qualidade alimentar. As vacas devem ter acesso permanente a água potável. Esta água deve estar disponível em quantidade suficiente para evitar a desidratação e deve estar livre de odor e sabor repelente, não conter agentes infeciosos, não possuir substâncias tóxicas e contaminantes que podem acumular-se nos tecidos do corpo ou ser excretadas no leite. Tanto no interior como no exterior do estábulo, o acesso à água deve ser contínuo e facilitado através da instalação de bebedouros automáticos ou de nível e em número suficiente para a totalidade dos animais. Deve existir um sistema de monitorização da prevalência de claudicação, através da observação da locomoção e lesões das úngulas trimestralmente em todos os efetivos leiteiros. Devido ao alto risco de claudicação em bovinos de leite todos os criadores
13 devem implementar um programa de prevenção da claudicação. Em explorações com elevada prevalência de claudicação, igual ou superior a 10%, devem ser implementadas medidas de melhoria das condições de estabulação dos animais, programas de melhoramento genético e de práticas de maneio visando o decréscimo das patologias podais. Além das técnicas de seleção genética que podem conferir uma maior resistência intrínseca aos animais, é fundamental atuar na prevenção da transmissão da infeção entre animais ou por fatores ambientais. A minimização dos fatores de stresse reduz a incidência e a prevalência de mastites, que pode ser evitada ou reduzida através do tratamento da infeção clínica e subclínica, terapia da vaca seca e através da identificação e eliminação de vacas com doença crónica. O maneio adequado e controlo da dor nos animais devem ser tidos em consideração no tratamento da claudicação grave e da mastite clínica. Os produtores deverão receber formação para reconhecer sinais de doença, em estádios precoces e quando necessário recorrer ao aconselhamento de um veterinário numa fase inicial da doença. Estas diretrizes sobre bem-estar em bovinos de leite devem ser incorporadas nos códigos de boas práticas e protocolos de monitorização de potenciais riscos para a saúde dos animais. Segundo EFSA (2012) os protocolos de bem-estar do Welfare Quality (2009), abrangem a maioria dos principais riscos identificados no parecer científico da EFSA e as medidas baseadas nos animais são necessárias para determinar se as melhorias pretendidas são alcançadas. No entanto neste último parecer os peritos identificaram falta de especificidade em alguns perigos, como no desenho dos cubículos e em medidas baseadas nos animais (por exemplo condição corporal), o que significa que o resultado do bem-estar poderá ter mais que uma causa associada. Diversas medidas de bem-estar baseadas nos animais já se encontram completamente desenvolvidas, embora não sejam amplamente utilizadas (pontuação da locomoção, comportamento de ascensão, lesões nas pernas) e outras medidas de origem animal são utilizadas, mas não em contexto de avaliação do bem-estar (contagem de células somáticas, número de lactações completas). A maioria das medidas de bem-estar baseadas no animal está relacionada com a produção, saúde e comportamento animal. Algumas medidas são muito úteis, não apenas porque indicam problemas actuais de bem-estar no efetivo, mas porque funcionam como ferramenta de deteção precoce de uma potencial situação negativa no futuro. Em resumo as medidas baseadas no animal são suscetíveis de destacar os problemas de bem-estar mais importantes e dessa forma indicar as prioridades das ações corretivas a implementar. Os principais indicadores de bem-estar referenciados no relatório da
14 EFSA (2012) incluem pontuação de claudicação, lesões nas pernas, mastites, colisões com equipamentos nos movimentos ao deitar e levantar e condição corporal. 1.4 Estratégia da União Europeia para o bem-estar dos animais 2012-2015 Em fevereiro de 2012 a Comissão Europeia definiu a estratégia para a proteção e bemestar dos animais, para os próximos quatro anos, sobre as quais se fará uma breve abordagem, principalmente aquelas que se relacionam com as vacas leiteiras. Em 2006, o plano de ação comunitário relativo à proteção e ao bem-estar dos animais 2006-2010, adotado pela Comissão, reuniu pela primeira vez num único texto os vários aspetos da política da União Europeia (UE) em matéria de bem-estar dos animais, que rege a criação de milhares de milhões de animais para fins económicos na UE. As normas de bem-estar dos animais acarretam frequentemente custos adicionais, mas estes não são necessariamente repartidos de modo proporcional ao longo da cadeia alimentar. A UE fornece alguns instrumentos para compensar os produtores pelos custos de produção mais elevados. Um inquérito ao nível da UE mostra que o bem-estar dos animais é uma questão importante para 64% da população. No entanto, os estudos demonstram que a preocupação com o bem-estar dos animais é apenas um dos fatores que afetam a escolha dos consumidores e muitas vezes este aspeto não entra sequer em linha de conta, uma vez que os consumidores nem sempre estão devidamente informados sobre os métodos de produção e o seu impacto no BEA. Não existe legislação específica na UE para algumas espécies de produção animal (vacas leiteiras, bovinos de carne ou coelhos), apesar dos diversos problemas assinalados por cientistas e pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar. A Comissão Europeia pondera a viabilidade e a pertinência da introdução de indicadores de base científica assentes nos resultados em termos de BEA, em oposição aos indicadores até agora utilizados baseados nos fatores que afetam o BEA. Pretende também avaliar se esta nova abordagem é suscetível de conduzir a uma simplificação do quadro jurídico e de contribuir para melhorar a competitividade da agricultura na UE. Para além do quadro legislativo simplificado previsto, a Comissão propõe: - O desenvolvimento de instrumentos, incluindo, se for caso disso, planos de execução, com a finalidade de reforçar a conformidade por parte dos Estados-Membros; - O apoio à cooperação internacional; - O fornecimento de informações adequadas aos consumidores e ao público; - A otimização dos efeitos sinérgicos da Política Agrícola Comum em vigor. A Comissão pretende estudar a viabilidade da introdução de um quadro legislativo da UE simplificado que estabeleça princípios de BEA para todos os animais mantidos no âmbito de uma atividade económica, incluindo, se for caso disso, os animais de companhia,
15 prestando particular atenção à simplificação, à redução da carga administrativa e à valorização das normas de bem-estar dos animais como meio de melhorar a competitividade da indústria alimentar da UE, tendo em conta o valor acrescentado potencial desses normativos. É ainda intenção da Comissão, ponderar a utilização de indicadores de BEA de base científica, como meio de simplificar o quadro jurídico e de permitir a flexibilidade necessária para melhorar a competitividade dos produtores. Pretende implementar os indicadores desenvolvidos pelo projeto Welfare Quality, associados a um sistema de avaliação de risco tal como aplicado no domínio da segurança alimentar. No âmbito da análise das propostas relevantes de gestão dos riscos, pretendem ainda levar em linha de conta os pareceres científicos da EFSA sobre o desenvolvimento de indicadores de BEA. A Comissão deseja criar uma rede europeia de centros de referência para o BEA, em que o objetivo principal consiste essencialmente em assegurar que as autoridades competentes acedam a informações técnicas coerentes e uniformes sobre a forma como a legislação da UE deve ser aplicada, em especial no contexto de indicadores de BEA baseados em resultados. A rede teria a responsabilidade de refletir sobre a estrutura atual da legislação da UE, a fim de assegurar ao nível da UE: - A prestação de apoio técnico especializado à Comissão e aos Estados-Membros, especialmente no contexto da utilização de indicadores de BEA baseados nos resultados; - A realização de cursos de formação para as autoridades competentes e peritos de países terceiros; - A contribuição, conforme adequado, para a divulgação dos resultados da investigação e de inovações técnicas entre as partes interessadas da UE e a comunidade científica internacional; - A coordenação da investigação em colaboração, quando for o caso, com as estruturas de investigação existentes financiadas pela UE (CE, 2012). 1.5 Enquadramento da produção de leite de vaca em Portugal O setor da produção animal em Portugal representou, no período 2003-2005, 37,3% do valor da produção do ramo da agricultura e no seio do setor é a produção de leite que possui maior peso (28,1%). Representando cerca de 11,5% da produção agrícola nacional, o setor de laticínios nacional registou um desempenho notável no período pós adesão à Comunidade Europeia, traduzido por uma oferta crescente de leite e produtos lácteos e pela melhoria global da qualidade da matéria-prima e dos produtos transformados. A especialização das estruturas produtivas e industriais possibilitou a
22 de 2009. O presente diploma estabelece o exercício da atividade pecuária nas explorações pecuárias, entrepostos e centros de agrupamento, garantindo o respeito pelas normas de bem-estar animal, a defesa higio-sanitária dos efetivos, a salvaguarda da saúde, a segurança de pessoas e bens, a qualidade do ambiente e o ordenamento do território, num quadro de sustentabilidade e de responsabilidade social dos produtores pecuários. Estabelece, ainda, o regime a aplicar às atividades de gestão, por valorização ou eliminação, dos efluentes pecuários, anexas a explorações pecuárias ou autónomas, isto é, às unidades intermédias, aos entrepostos de fertilizantes orgânicos e às unidades de compostagem, de produção de biogás. Nestes últimos anos foram importantes as pressões externas no setor da produção de leite através de: a) políticas e mercados agrários; b) diretivas de proteção e bem-estar animal e ambiental; c) qualidade e segurança alimentar; d) conservação e valorização dos recursos e funções ambientais, que condicionam a sustentabilidade da atividade das explorações. Os fenómenos de peri-urbanização favorecem a visibilidade dos impactes ambientais e paisagísticos da atividade leiteira e da conflituosidade social a nível local. 1.6.1 Sistema de estabulação A escolha do tipo de alojamento a utilizar é influenciado por vários fatores entre os quais se destaca o tipo de sistema de produção. Os sistemas de produção intensiva caraterizam-se por possuir instalações complexas destinadas ao alojamento de um grande número de animais em espaços confinados. As instalações para vacas leiteiras e o sistema de estabulação devem garantir condições de bem-estar animal. A produção de leite resulta da conjugação de fatores como o maneio alimentar nas diferentes fases produtivas, a saúde do úbere, a reposição do efetivo, o controlo reprodutivo e o conforto. Uma vaca de leite, para além das atividades de se alimentar, ruminar, beber e ordenha deve ter uma cama confortável, onde tenderá a permanecer deitada, por um mínimo de 12 horas, durante o dia (Cortez e Cortez, 2006). Não sendo possível manter as vacas na pastagem (meio natural) e observando-se algumas desvantagens importantes nos sistemas de estabulação livre em parques (higiene), os cubículos são, atualmente o sistema de estabulação mais recomendado. O cubículo deve ser idealizado tendo em conta a morfologia, tamanho e peso dos animais a alojar, proporcionando um confortável local de descanso, onde se possam deitar e levantar sem dificuldades.
23 No âmbito do plano de ordenamento da bacia leiteira primária de Entre Douro e Minho realizaram-se 1978 inquéritos, nos anos de 2005 e 2006, tendo-se observado os seguintes resultados relativamente ao sistema de estabulação: Quadro 1.1 Sistema de estabulação para vacas e novilhas Sistema Vacas em produção Vacas secas Recria Nº Expl. % Nº Expl. % Nº Expl. % Presa 455 24,2 237 22,3 283 21,3 Livre com cubículos 987 52,4 434 40,9 280 21,1 Livre sem cubículos 429 22,8 367 34,6 724 54,6 Outra 11 0,6 23 2,2 39 2,9 Total 1882 100 1061 100 1326 100 Fonte: Araújo et al. (2007) Neste estudo observou-se a predominância do sistema de estabulação livre para todas as categorias de animais, predominando a modalidade de cubículos nas vacas em produção (52,4%) e nas vacas secas (40,9%), enquanto na recria prevalece o sistema livre sem cubículos (54,6%). A estabulação presa apresentava expressão importante, ligeiramente superior a 20%, o que poderá condicionar a liberdade de movimento dos animais (Quadro 1.1). A área coberta por vaca foi de aproximadamente 11m2, enquanto a área coberta por bovino com mais de 24 meses oscilou entre 8,8 m2 no concelho de Barcelos e 13,7 m2 no concelho da Maia. Relativamente à altura de pé direito das instalações para vacas em produção, verificou-se que 42,8% e 25,6% das mesmas apresentaram uma altura entre 3 a 4 m e 2 a 3 m respetivamente. Para a sala de ordenha as frequências observadas foram de 27,7% e 65,8% naqueles intervalos de valores respetivamente (POBLP, 2007). 1.6.2 Ventilação A qualidade do ar tem um papel muito importante na saúde e desempenho dos animais. Uma adequada ventilação do estábulo permite a manutenção das temperaturas dentro de limites desejáveis, a eliminação da humidade produzida pela respiração e transpiração dos animais, a remoção de gases nocivos e poeiras em suspensão e a renovação do ar no interior das instalações. O Anexo A, do Decreto-Lei n.º 64/2000, de 22/04, estabelece que as instalações e alojamentos dos animais devem dispor de condições de isolamento, aquecimento e ventilação que assegurem a circulação do ar, e que o teor de poeiras, a temperatura, a humidade relativa do ar e as concentrações de gases devem encontrar-se dentro dos limites que não sejam prejudiciais aos animais.
24 Na bacia leiteira mais de 90% das instalações para as vacas em produção e na sala de ordenha apresentaram ventilação lateral. Esporadicamente surgem estábulos com ventilação superior ou forçada. Os processos dinâmicos de ventilação e os estáticos verticais (por fresta de cumeeira ou por chaminés) têm expressão reduzida, o que poderá estar na base de uma deficiente ventilação. Esta condição dificulta, no inverno, a eliminação do excesso de humidade e no verão, a extração do calor libertado pelos animais (POBLP, 2007). Nos animais adultos, são as temperaturas elevadas (>25ºC) as que mais efeitos adversos causam (“stresse térmico”). Segundo Stilwell (2006) os efeitos de temperatura elevada são ainda mais prejudiciais se associados a altos níveis de humidade, que influenciam negativamente a produção de leite e a sua composição. 1.6.3 Piso As vacas permanecem em estação ou a deslocar-se pelo estábulo cerca de 10 horas por dia, pelo que o piso de uma vacaria é um dos elementos mais críticos em termos de conforto do animal (Guard, 2000). As superfícies demasiadamente duras, abrasivas ou escorregadias para as úngulas dos animais devem ser evitadas. 76,9% 18,7% 2,6% 0,7% 0,6% 0,1% 0,1% 0,4% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% Betão Ripado Terra Serradura Tapete Palha Mato Outros Frequência (%) Tipo de piso Figura 1.6 Tipo de piso existente nas explorações da bacia leiteira (adaptado de POBLP, 2007) No tipo de piso das instalações da bacia leiteira, apesar da sua diversidade, predomina o betão (77%), tendo o ripado importância mais reduzida (19%) (Figura 1.6). A análise do tipo de piso por compartimentos demonstra igualmente a predominância do betão relativamente aos outros materiais. Saliente-se, no entanto, o piso de ripado em cerca de 33% das instalações de recria. O piso do corredor de alimentação é também predominantemente de betão (90%), o que facilita as operações de maneio no interior do estábulo (Araújo et al., 2007).
25 1.7 CONCLUSÕES O bem-estar deve ser avaliado através de medidas objetivas, para conseguir dar resposta aos problemas que afetam os animais e às preocupações da sociedade civil sobre a forma como os animais são criados. A estratégia da UE para o BEA nos próximos quatro anos centra-se na possibilidade de utilização de indicadores de base científica para avaliação de BEA, passa pela introdução de um quadro legislativo simplificado ao nível da UE, que estabeleça princípios de BEA para todas as espécies animais e a criação de uma rede europeia de centros de referência para o BEA. A EFSA identificou as áreas temáticas de BEA em vacas leiteiras que devem ser tidas em consideração no futuro: os distúrbios metabólicos e reprodutivos, a incidência de mastites, a claudicação, os distúrbios comportamentais, medo e dor. A formação dos agentes técnicos e dos produtores para a problemática do BEA é outra das preocupações mencionadas no relatório da EFSA. A seleção genética realizada principalmente na raça Holstein Frisia alterou a sua estatura e morfologia, com efeitos diretos sobre o seu comportamento e sobre os requisitos em matéria de BEA. É atribuída grande importância à dimensão dos corredores e cubículos e também à área disponível por animal. A claudicação é identificada como um dos principais problemas de BEA e é reforçada a importância da existência de programas de prevenção desta patologia. Também é dado enfoque aos cuidados na alimentação dos animais, ao nível dos equipamentos (manjedoura e bebedouro) e à qualidade das matérias-primas. Ao nível da estrutura de produção de leite em Portugal, é evidente nos últimos anos, uma acentuada diminuição do número de produtores de leite, um aumento da dimensão média das explorações e da produtividade/vaca e uma ligeira diminuição da produção total de leite. A região Norte é a mais representativa, com 36% dos produtores e 38% da produção de leite nacional. Por outro lado a produção média por vaca aos 305 dias é atualmente de 9306 Kg em Portugal continental e nos últimos 10 anos sofreu um incremento de aproximadamente 2000 Kg. Na região Norte e mais especificamente na bacia leiteira primária de Entre Douro e Minho predomina o sistema de estabulação intensivo, onde as instalações determinam um impacte paisagístico, enquanto as caraterísticas da sua construção e utilização influenciam as condições ambientais, o maneio e o bem-estar do efetivo. Os sistemas de ventilação dos alojamentos por vezes são deficitários e o piso é maioritariamente constituído por cimento liso ou ripado (96%).
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27 1.8 BIBLIOGRAFIA ANABLE (Associação Nacional para o Melhoramento dos Bovinos Leiteiros), 2011. Publicação de resultados. Araújo, J.P., Cerqueira, J.O., Alonso, J.M., Mamede, J., Niza Ribeiro, J., Cantalapiedra, J., 2007. Algunos indicadores de los sistemas de producción de leche en la región de Entre Douro e Minho. In: I Congreso Nacional de Zootecnia, Proceedings, 120, Session2-B/46.pdf, 8p. Barnard, C.J. e Hurst, J.L., 1996. Welfare by design: the natural selection of welfare criteria. Animal Welfare, 5: 405–433. Bernues, A., Olaizola, A. and Corcoran, K., 2003. Labelling information demanded by European consumers and relationships with purchasing motives, quality and safety of meat. Meat Science, 65: 1095-1106. Bruckmaier, R.M. e Blum, J.W., 1998. Oxytocin release and milk removal in ruminants. J. Dairy Sci. 81: 939-949. Carpenter, E., 1980. Animals and EITHcs. A report of the working party convened by Edward Carpenter. Watkins & Dulverton: London, UK. CE (Comissão Europeia), 2012. Estratégia da União Europeia para a proteção e o bemestar dos animais 2012-2015. Site disponível: Comissão Europeia – agricultura, pesca e produtos alimentares (Última atualização: 20 de março de 2012), URL: http://ec.europa.eu/news/agriculture/120120_pt.htm. Consultado em 25/03/2012. Cortez, Albano e Cortez, Paulo, 2006. O conforto da vaca leiteira como fator do rendimento de uma exploração. In Revista Portuguesa de Buiatria, Nº 6: 31-40. DRAEDM (Direcção Regional de Agricultura de Entre Douro e Minho), Divisão de Estudos, 2006. A condicionalidade no âmbito da Politica Agrícola Comum. Braga. EFSA (European Food Safety Authority), 2009. Scientific Opinion on the overall effects of farming systems on dairy cow welfare and disease. EFSA, Panel on Animal Health and Welfare (AHAW). EFSA Journal 1143: 1-38. EFSA (European Food Safety Authority), 2012. Scientific Opinion on the use of animalbased measures to assess welfare of dairy cows. EFSA, Panel on Animal Health and Welfare (AHAW). EFSA Journal 10(1): 2554. FAWC (Farm Animal Welfare Council), 1993. Second Report on Priorities for Research and Development in Farm Animal Welfare. MAFF, Tolworth.
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31 CAPÍTULO 2 CARATERIZAÇÃO DAS INFRA-ESTRUTURAS FÍSICAS DAS EXPLORAÇÕES LEITEIRAS E SUA RELAÇÃO COM O BEMESTAR ANIMAL
38 Dimensões do cubículo É fundamental que todos os elementos do cubículo estejam corretamente colocados e dimensionados. Desta forma as vacas adaptam-se rapidamente a estes espaços e identificam-nos naturalmente como local privilegiado de descanso. Não existem medidas exatas para o cubículo, visto que o tamanho médio dos animais é diferente entre explorações, contudo Buxadé (2006) refere valores de comprimento, largura e altura de 2,5 m, 1,2 m e 1,15 m respetivamente para animais com peso vivo na ordem dos 650 a 700 kg. Segundo o mesmo autor, alguns pontos importantes referentes às medidas dos cubículos e relacionadas com o bem-estar dos animais são: - O bordo posterior do cubículo deve ser sempre inferior a 25 cm de altura, para que os animais não tenham lesões na canela das pernas e nas úngulas; - Adaptar o comprimento e largura do cubículo ao tamanho médio de cada lote de animais; - A barra limitadora do pescoço não deve estar em nenhum caso, a menos de 1,1 m de altura da cama; - Não colocar barras na parte frontal nem lateral do cubículo a partir de 30 cm de altura, pois não permitem aos animais investir de forma correta para se levantarem, manterem a cabeça livre, ou ficarem numa posição cómoda enquanto se mantém deitados. - Limitar o espaço de cama com um limitador de peito que tenha pelo menos 15 cm de altura, mas que não ultrapasse esta medida, para que a vaca esteja cómoda. - Em caso de colocação de material de enchimento na cama, deve instalar-se uma altura mínima de 15 cm para proporcionar uma superfície de descanso cómoda aos animais. O desenho e dimensionamento adequados do cubículo permitem obter um local de descanso confortável, repercutindo-se sobre o bem-estar dos animais e nos fatores técnico-económicos da exploração (Buxadé, 2006). Segundo Cook (2003), Veissier et al. (2004) e Anderson (2008) devido à variação de tamanho dos animais entre explorações, para o dimensionamento dos cubículos é fundamental recolher algumas medidas corporais de fácil obtenção, em 20 a 25% das vacas mais corpulentas do efetivo. O tamanho dos componentes do cubículo é estimado com base na proporcionalidade entre as medidas corporais das vacas leiteiras (Quadro 2.1).
39 Quadro 2.1 Dimensões dos cubículos a partir de proporções estimadas, com base nas medidas corporais de vacas leiteiras (cm) Dimensão do cubículo Veissier et al. (2004) Anderson (2008) Comprimento do cubículo contra a parede [(1,01 x CTRO) + 10] + (0,56 x ACER) 2,0 x AGAR Comprimento do cubículo cabeça com cabeça [(1,01 x CTRO) + 10] + (0,32 x ACER) 1,8 x AGAR Comprimento da superfície de repouso (1,01 x CTRO) + 10 1,2 x AGAR Comprimento do espaço livre anterior (0,56 x ACER) 0,7 x AGAR Altura da barra limitadora do pescoço (0,75 x ACER) 0,8 x AGAR Largura do cubículo (0,86 x ACER) + [0,7 x (LBIIL-68)] 2 x LBIIL CTRO – comprimento do tronco; ACER – altura à cernelha; LBIIL – largura bi-iliaca; AGAR – altura à garupa As vacas quando permanecem deitadas nos cubículos necessitam de aproximadamente 60 cm para estender a cabeça (Anderson, 2008), no entanto nos movimentos de deitar e levantar precisam de cerca de 1 m para o balanceio da cabeça (Cook, 2003). Em cubículos de grandes dimensões as vacas permanecem menos tempo em estação, com apenas os membros da frente no cubículo (“perching”) e principalmente menos tempo em estação nos corredores de passagem (Tucker et al., 2004). Piso do cubículo O comportamento das vacas leiteiras leva a que passem entre 10 a 14 h por dia em decúbito, sendo estes valores muito influenciados pelo tipo de cama utilizada (Cook et al., 2004; Tucker e Weary, 2004; Veissier et al., 2004; Munksgaard et al., 2005; Fregonesi et al., 2007). Segundo Nordlund e Cook (2003) a superfície é o fator mais importante na determinação do uso do cubículo. A superfície de descanso do cubículo requer revestimento capaz de proporcionar maleabilidade e conforto, influenciando simultaneamente o tempo de descanso dos animais. O período de tempo em decúbito foi o dobro (14 h/dia) em camas de palha profundas (15 a 20 cm) comparativamente a camas de cimento sem revestimento (7 h/dia). É importante que sobre as superfícies em colchão ou tapete de borracha seja adicionada uma camada de material (serrim, palha) com cerca de 2,5 a 5 cm para amortecer os choques e reduzir a humidade (McFarland et al., 2003). Tucker e Weary (2004) referem que as vacas registaram um acréscimo de 2,1 h/dia em decúbito e o ritmo de deitar aumentou 2,4 vezes/dia quando são disponibilizadas superfícies de cubículos acolchoadas com revestimento adicional de 7,5 kg de serrim por cubículo, relativamente ao sistema de colchão sem cama adicional. Os animais também
40 demonstraram maior preferência por superfícies em colchão comparativamente ao tapete de borracha. De acordo com Cook et al. (2004) o melhor revestimento para a cama dos cubículos é a areia, por ser um material inorgânico, capaz de inibir o crescimento microbiano, pela sua maior capacidade de proporcionar tração para os movimentos de deitar e levantar, por melhorar os índices de higiene dos animais e por prevenir lesões. As feridas, principalmente ao nível do curvilhão, onde se verifica a perda de pelo e quebra da pele, são mais evidentes e cerca de dez vezes superiores no sistema com cubículos de colchão do que nos cubículos com cama profunda de areia. 2.2.3 Corredores do estábulo As medidas adequadas dos corredores do estábulo permitem facilitar o movimento das vacas, auxiliam na manifestação do seu comportamento normal e facilitam na remoção dos detritos. A arquitetura dos corredores deve assegurar a livre circulação de todos os animais, sem espaços de bloqueio que possam prejudicar o bem-estar das vacas hierarquicamente inferiores. Os corredores dos cubículos devem ter pelo menos 3,65 m de largura e um corredor combinado com cubículos e manjedoura deve ter pelo menos 4,30 m (Greenough, 2007; McFarland, 2003). No entanto Ramos (2009) sugere que a largura do corredor que acede à manjedoura deve permitir que os animais se cruzem na zona traseira relativamente aqueles que se estão a alimentar sem os incomodar. E por isso a largura mínima é de 4,5 m ou de 5 m se este corredor também é utilizado para os animais entrarem e saírem de uma fila de cubículos. Os corredores de passagem permitem a movimentação das vacas entre os corredores de alimentação, bebedouros e corredores de cubículos. Para minimizar a distância entre as áreas de alimentação e de descanso os corredores de passagem devem ser instalados a cada 15 a 20 cubículos, com larguras de pelo menos 2,4 m para facilitar o tráfego de vacas nos dois sentidos e no caso de possuírem bebedouros, a largura aumenta para cerca de 5 m, por forma a permitir o abeberamento dos animais e garantir o trânsito de outros animais no corredor (Graves et al., 2006). 2.2.4 Manjedoura As vacas devem dispor de uma superfície lisa, não porosa e facilmente higienizada para alimentação (McFarland, 2003). Atualmente a maioria das explorações possui sistema de guilhotinas automáticas, que ameniza os confrontos entre animais ao alimentar-se. É importante disponibilizar pelo menos um lugar por vaca à manjedoura, no entanto a situação ideal seria a instalação de guilhotinas em 10% acima dos animais existentes no estábulo (Buxadé, 2006).
41 O murete da manjedoura deve ter uma altura de 55 cm, e a manjedoura situar-se 10 a 15 cm acima do piso interior e com uma inclinação pendente para o murete de aproximadamente 10º. É fundamental que o piso da manjedoura seja de fácil limpeza, evitando que se acumulem restos de alimento que ao decompor-se originam odores desagradáveis e fomentam o afastamento da vaca do seu local de alimentação (McFarland, 2003; Buxadé, 2006). Os materiais mais utilizados são o cimento polido, tijoleira, piso sintético em plástico e revestimento em inox. A zona da manjedoura deverá estar suficientemente resguardada da chuva, evitando que a entrada de água provoque fermentações indesejáveis e maus odores ao alimento (Buxadé, 2006; Ramos, 2009). Segundo McFarland (2003) e Ramos (2009) a superfície de alimentação deve possuir uma largura entre 80 a 90 cm, para evitar que o alimento seja desperdiçado. O espaço de acesso à manjedoura por animal é variável, 60 cm (Grant e Albright, 2001), 70 a 76 cm (McFarland, 2003) e 60 a 70 cm (Buxadé, 2006), devendo ser de 80 cm quando não existem guilhotinas, tendo somente uma barra fixa delimitadora (Ramos, 2009). A manjedoura deve estar dividida em espaços individuais que permitam às vacas um acesso cómodo ao alimento, evitando movimentos bruscos do pescoço e da cabeça passiveis de intimidar as vacas contiguas, impedindo também o desperdício de alimento. DeVries e Keyserlingk (2006) verificaram que as vacas com maior espaço de manjedoura aumentaram a distância entre si, reduzindo os comportamentos agressivos e consequentemente demonstraram períodos superiores de atividade alimentar. O espaço necessário por vaca também pode ser estimado através da largura do peito dos animais, multiplicando este valor por 1,15, no entanto é recomendado um acréscimo de 10% de espaço disponível por animal quando o peso da vaca ultrapassa 650 kg de peso vivo. Quando o espaço disponível na manjedoura diminui, observa-se maior competitividade entre animais e estes adaptam-se ingerindo alimento mais rapidamente, permanecendo menos tempo à manjedoura e visitando este local mais frequentemente. Simultaneamente verifica-se maior ingestão durante a noite. No entanto quando se limita a quantidade de alimento fornecido, as vacas dominantes podem consumir cerca de mais 14% do que as hierarquicamente inferiores, valor que atinge os 23% quando conjuntamente se limita o espaço disponível na manjedoura (Ramos, 2009). 2.2.5 Bebedouro Os bebedouros devem ser dimensionados de forma a permitir, que pelo menos 5 a 7% do efetivo, tenha acesso simultaneamente a este equipamenro, devendo existir pelo menos dois pontos de abeberamento por grupo de 10 animais, para reduzir a ação das vacas dominantes e evitar agressões entre animais (McFarland, 2003; Buxadé, 2006; Ramos,
42 2009). O fornecimento de água limpa e fresca é fundamental para a produção de leite, controlo da temperatura corporal, e manutenção de funções vitais das vacas leiteiras. Estas despendem aproximadamente 30 min/dia no abeberamento (Grant e Albright, 2001). A estimativa do consumo de água de uma vaca leiteira ronda os 10 litros por cada 100 kg de peso vivo, acrescido de 3 litros por cada litro de leite produzido. É essencial ainda que cada vaca consiga beber a um ritmo de 6 a 13 litros por minuto (Buxadé, 2006). O espaço de acesso aos bebedouros por animal deve ser de 10 a 12 cm (McFarland, 2003), 8 a 10 cm (Buxadé, 2006) e de pelo menos 4 a 6 cm (Welfare Quality, 2009). A altura de colocação dos bebedouros varia entre 60 a 90 cm, não devendo ultrapassar 61% da altura à cernelha do animal (Ramos, 2009). Os bebedouros devem ter uma profundidade entre 10 a 20 cm e o nível da água deve situar-se 5 a 10 cm abaixo do bordo do bebedouro. À volta dos bebedouros é importante que exista um raio livre de 4,60 m para permitir a passagem de vacas em ambos os sentidos, enquanto outras vacas se encontram a beber, ou de pelo menos 3,35 m para permitir a passagem num único sentido (McFarland, 2003). Para evitar que os animais urinem e defequem nos bebedouros, ou mesmo que se coloquem sobre estes, é conveniente colocar uma barra de proteção à volta do mesmo, sem dificultar o acesso dos animais ao bebedouro. Os bebedouros não devem ser estreitos, com bordos angulosos ou colocados demasiadamente altos. E todos devem possuir um orifício ou válvula que permita o seu esvaziamento completo, ou ainda ser possível efetuar o seu volteio para posterior limpeza (bebedouro basculante). A acumulação de sedimentos de alimento, material de cama e de fezes é suscetível de contaminar a água, sendo necessário proceder à sua limpeza diariamente. Quando a água apresenta odores e sabores anormais, as vacas reagem diminuindo o seu consumo ou inclusivamente recusando a sua ingestão, com as implicações produtivas e sanitárias que este fator acarreta. E associado a este tipo de problemas surgem também os biofilmes, que são comunidades complexas de microrganismos recobertas por um polímero extracelular que contribui para a retenção de nutrientes e proteção de agentes tóxicos. Os microrganismos dos biofilmes fixam-se fortemente às superfícies, desencadeiam contaminações cruzadas, são mais resistentes aos agentes antimicrobianos, pela sua estrutura tridimensional e por isso são um grave problema na higienização dos bebedouros (Ramos, 2009). 2.2.6 Sistemas de ordenha A ordenha mecânica desempenha um papel muito importante na quantidade do leite ordenhado e da sua qualidade, sendo uma área fulcral quando se consideram os custos
43 de investimento, o conforto da vaca e do operador de ordenha (Wagner et al., 2001). O dimensionamento das salas de ordenha é um fator muito importante por afetar a eficiência global da sala de ordenha e a rentabilidade da exploração. O investimento mais dispendioso de uma exploração leiteira centra-se no equipamento de ordenha (Smith et al., 1997). Investigação diversa tem sido realizada sobre os custos e eficiência de diferentes sistemas de ordenha, em que o tamanho do efetivo, a força de trabalho, o tempo disponível para a ordenha e os custos de investimento têm influência na escolha da sala de ordenha mais apropriada para cada exploração. Bennett et al. (1991) menciona que a sala de ordenha com melhor custo benefício para efetivos de grande dimensão é a paralela. E que a sala em espinha (2x4) apresentou melhor custo benefício para efetivos inferiores a 100 vacas, ao passo que o modelo espinha (2x6) revelou ser mais eficiente para efetivos superiores a 200 vacas em lactação. A arquitetura da sala de ordenha e a sua distância ao estábulo pode influenciar o número de vacas ordenhadas por hora, vacas por operador/hora e o leite ordenhado por posto de ordenha. Armstrong et al. (1990) constataram que as salas de ordenha em paralelo contribuíram para melhor segurança dos operadores, adaptação mais rápida da vaca e desempenho geral da ordenha relativamente ao sistema em espinha. A instalação de salas de ordenha em paralelo apresentou um maior custo de investimento por unidade de ordenha do que o sistema em espinha. A ordenha em tandem mostrou-se menos eficiente em número de vacas ordenhadas por trabalhador/hora relativamente à espinha e paralela. Os produtores com ordenha em paralelo sentiram maior satisfação nos fatores tempo de ordenha, conforto físico e segurança do ordenhador, no entanto a ordenha em espinha apresentou desempenhos muito semelhantes em vacas ordenhadas por hora (Wagner et al., 2001). A ordenha não deve ser prolongada por mais que uma hora e 30 minutos, pois uma duração excessiva fatiga o operador e acarreta riscos de menores cuidados, diminuindo também a sua performance.
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45 2.3 MATERIAIS E MÉTODOS As 83 explorações da amostra pertencem à região Norte e Centro de Portugal, efetuam contraste leiteiro e possuem número superior a 30 vacas em lactação. Foram selecionadas aleatoriamente, e são proporcionais à dimensão dos efetivos por concelho. Para a caraterização do sistema produtivo da raça Holstein Frisia elaborou-se e validouse um inquérito aos produtores (Anexo 1), com animais inscritos no Livro Genealógico da respetiva raça, tendo como objetivo a análise de parâmetros socio-económicos e produtivos. O inquérito dividido em diferentes capítulos, estruturais (identificação do produtor e da exploração), sociais (produtor e agregado familiar, idade, nível de instrução, tempo de atividade e valorização profissional), estrutura fundiária, instalações pecuárias e equipamentos (caraterísticas dos estábulos, corredores, cubículos, manjedoura, bebedouros e sala de ordenha), efetivo animal na exploração e maneio (alimentar e sanitário), realizou-se no período de Maio de 2009 a Fevereiro de 2010. No quadro 2.2 apresenta-se o número de inquéritos realizados por concelho e as freguesias abrangidas em cada localidade. Quadro 2.2 Distribuição dos inquéritos realizados nos diferentes concelhos Concelho Freguesias Inquéritos Águeda 1 1 Arouca 2 2 Aveiro 1 1 Barcelos 10 13 Braga 3 3 Chaves 2 2 Esposende 1 1 Estarreja 3 3 Famalicão 4 5 Guimarães 1 1 Ílhavo 1 1 Maia 3 3 Matosinhos 3 4 Miranda do Douro 2 3 Mogadouro 2 3 Murtosa 1 3 Oliveira de Azeméis 3 4 Ovar 3 3 Paredes de Coura 1 1 Ponte de Lima 3 3 Póvoa de Varzim 3 4 Santo Tirso 2 2 Trofa 1 2 Vagos 1 2 Valongo 1 2 Viana do Castelo 2 2 Vila do Conde 5 7 Vila Verde 2 2 Total 67 83
46 Para a avaliação do temperamento dos animais recorreu-se à metodologia de Rousing e Waiblinger (2004), através da realização do teste de abordagem forçada dos animais, tendo-se classificado em agressivos, mansos e muito mansos. Em que a distância de evasão dos animais poderá refletir o nível de relacionamento homem-animal. A necessidade de tratamento clínico dos animais foi avaliada através da observação dos animais no estábulo, identificando sinais de lesões no corpo, animais prostados, com muita dificuldade de locomoção e com descarga vulvar, nasal, ocular e com diarreia. O inquérito foi realizado nas explorações leiteiras, onde uma parte consistiu na realização de questionário aos criadores e os restantes dados foram recolhidos através da realização de medidas com fita métrica e pela observação dos animais. Os dados foram registados no questionário e posteriormente procedeu-se ao lançamento dos mesmos em folha de excel. Posteriormente procedeu-se à validação dos registos existentes. O tratamento estatístico dos dados foi realizado recorrendo aos programas excel 2010 (MICROSOFT) e SPSS para Windows versão 19 (SPSS.Inc.). Para além da determinação de valores médios, analisou-se o efeito da dimensão da exploração nos parâmetros de bem-estar animal, com recurso à análise de variância (ANOVA) e ao teste Tuckey para comparação entre médias.
47 2.4 RESULTADOS Os resultados dos inquéritos demonstram grande diversidade na dimensão, estrutura e caraterísticas produtivas das explorações, que resultam da diferenciação espacial e temporal do meio onde se inserem, das caraterísticas e da evolução dos fatores económicos, sociais e culturais que as envolvem. Todas as explorações possuem área agrícola, quase exclusivamente para a produção de forragem, que constitui o principal componente da alimentação dos efetivos leiteiros. 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% <10 [10;20] ]20;30] ]30;40] ]40;50] >50 Área (ha) 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% 50% <10 [10;20] ]20;30] ]30;40] >40 Número de parcelas Figura 2.2 Dimensão (área em ha) das explorações e número de parcelas por exploração As explorações apresentam uma superfície agrícola utilizável (SAU) média de 31 ha. Na maioria das explorações a SAU é equivalente à superfície forrageira (28,4 ha). Cerca de 63% das explorações situa-se entre 10 a 30 ha (Figura 2.2). A estrutura parcelar é muito fragmentada e dispersa, distribuída por diferentes parcelas com um número médio de 27 por unidade produtiva, o que nos indica uma dimensão média por parcela de 1,1 ha. Saliente-se que cerca de 17% das explorações possui um número superior a 40 parcelas.
54 A maioria das explorações (80%) possui apenas quatro tipos de cama, serrim (28%), colchão com serrim (22%), colchão simples (21%) e tapete de borracha (9%) (Figura 2.11). 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% espinha tandem paralelo robot carrossel Tipo de ordenha 0% 20% 40% 60% 80% topo do estábulo lateralmente ao estábulo edifício independente centro do estábulo Localização da ordenha Figura 2.12 Tipo de ordenha e sua localização no estábulo Predomina a ordenha em espinha (69%), que em muitas explorações foi convertida para esta tipologia quando se verificou um acréscimo do efetivo animal nas explorações, tendo evoluído principalmente do tipo tandem (16%). Depois surge a ordenha em paralelo (8%), robot (5%) e carrossel (2%) (Figura 2.12). A maioria dos equipamentos de ordenha está localizada num dos topos do estábulo (75%), facilitando a disposição dos restantes equipamentos e o maneio dos animais durante a operação de ordenha. Quadro 2.6 Dimensões de elementos das salas de ordenha e de espera (m) Parâmetros N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) Nº VACAS 6811 82,153,3 16,0 320,0 65,0 LPASORD 78 1,10,2 0,8 1,8 18,4 CSORD 77 10,1±2,7 5,5 18,0 26,5 ASORD 81 3,21,0 2,0 7,0 32,1 LCORD 77 2,0±0,7 0,8 5,0 37,5 ALTSESP 51 3,6±1,1 2,3 7,0 29,2 AREASESP 51 96,6±64,6 22,5 351,0 66,9 LPASORD – largura da porta de acesso à sala de ordenha; CSORD – comprimento da sala de ordenha; ASORD – altura da sala de ordenha; LCORD – largura do corredor de ordenha; ALTSESP – altura da sala de espera; AREASESP – área da sala de espera. Normalmente as portas de acesso à ordenha são estreitas, com largura de 1,1 m (Quadro 2.6). O comprimento da sala de ordenha oscila entre 5,5 e 18 m em função do número de pontos de ordenha e a largura do corredor de ordenha entre 0,8 e 5 m, correspondendo
55 os valores mais elevados às ordenhas em paralelo. A altura da sala de ordenha cifrou-se em 3,2 m e 14% apresenta altura inferior a 2,5 m, o que associado à falta de ventilação poderá ser bastante desconfortável para os animais e operários de ordenha, principalmente nos meses de verão. Constatou-se também que foram as infra-estruturas mais antigas que apresentaram altura inferior e espaços mais exíguos, que dificultam a circulação e conforto dos animais. A altura da sala de espera apresenta valores ligeiramente superiores (3,6 m), contudo a área disponível por animal é inferior ao desejável (1,2±0,8 m2/animal), considerando que na maioria das explorações os animais são alojados de uma só vez no referido espaço. Quadro 2.7 Caraterísticas dos sistemas de ordenha nas explorações em estudo Tipo de ordenha N Pontos de ordenha por exploração Vacas por ponto de ordenha Produção por ponto de ordenha Espinha 57 13,8±4,6 5,3±1,9 147,0±68,8 Tandem 13 6,2±1,8 8,2±2,6 222,5±93,5 Paralelo 7 25,4±11,1 6,6±2,2 187,5±62,7 Robot 4 2,3±1,0 58,8±2,0 1545,8±141,0 Carrossel 2 22,0±5,7 6,1±0,1 165,8±16,9 O número de pontos de ordenha por exploração é superior no sistema em paralelo (25,4±11,1) contrastando com a ordenha em robot (2,3±1,0) (Quadro 2.7). Constatou-se que o sistema em espinha apresenta menor número de vacas por ponto de ordenha (5,3±1,9) e consecutivamente menor volume de leite (147,0±68,8 kg) ordenhado, enquanto a ordenha voluntária apresenta valores mais elevados (58,8±2,0 vacas e 1545,8±141,0 kg respetivamente). Cerca de 42% das explorações ultrapassaram o período de 2 horas de ordenha, prejudicando o bem-estar dos animais em espera. Quadro 2.8 Indicadores de produtividade por animal e desempenho do ordenhador Tipo de ordenha N Número de ordenhadores Tempo médio de ordenha por vaca (minutos) Produção de leite de uma ordenha (kg) Kg de leite por minuto Kg de leite por ordenhador à hora Espinha 32 2,0±0,6 15,2±5,1 13,4±4,8 0,95±0,42 271,9±78,0 Tandem 7 1,9±0,3 11,7±2,8 14,1±4,5 1,25±0,48 283,4±121,6 Paralelo 4 2,0±0,0 12,3±1,4 14,0±5,0 1,16±0,45 311,1±25,9 Na maioria das explorações a ordenha é realizada por dois operadores e o tempo de ordenha por vaca oscila entre 11,7±2,8 na ordenha em tandem e 15,2±5,1 minutos na ordenha em espinha, com produções de leite de 14,1±4,5 e 13,4±4,8 kg respetivamente (Quadro 2.8). A ordenha em paralelo foi a mais eficiente com 311,1±25,9 kg de leite por ordenhador à hora e a menos eficiente foi o tipo em espinha com 271,9±78,0 kg. Isto poderá estar relacionado na ordenha em paralelo com o elevado número de animais ordenhados de uma só vez, ao contrário da ordenha em espinha, que normalmente
56 contempla menor número de animais, e quando comparado com o sistema em tandem, pelo facto de um animal mais lento aumentar a duração da ordenha, pois todos os animais ficam retidos no corredor de ordenha impedindo a entrada de outros e assim diminuindo o rendimento de cada operador. 0% 10% 20% 30% 40% 50% cimento tijoleira tapete borracha cimento frisado Piso da ordenha 62,7% 26,5% 10,8% Tipo de ventilação na ordenha natural por janelas e portas natural sem teto artificial Figura 2.13 Piso da ordenha e tipo de ventilação do espaço O piso da ordenha é maioritariamente em cimento (48%) e tijoleira (34%), encontrando-se uma pequena fasquia de superfície em tapete de borracha (15%) e apenas 3% em cimento frisado. Predomina a ventilação natural na sala de ordenha (89%), existindo apenas 11% das explorações com ventilação dinâmica (Figura 2.13). Quadro 2.9 Caraterísticas do fosso de ordenha Parâmetros N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) CFORD 83 8,52,6 4,8 16,0 31,2 LFORD 1,8±0,4 0,8 2,8 20,8 AFORD 0,9±0,1 0,8 1,1 8,0 CFORD – comprimento do fosso da sala de ordenha; LFORD – largura do fosso da sala de ordenha; AFORD – altura do fosso da sala de ordenha. O comprimento do fosso de ordenha (8,5±2,6 m) é proporcional ao comprimento da ordenha (Quadro 2.9). A largura (1,8±0,4 m) sendo ampla permite maior liberdade de movimentos na preparação dos animais e colocação das tetinas. Em cerca de 20% das explorações a largura do fosso é inferior a 1,5 m, o que prejudica as condições de trabalho e contribui para uma menor produtividade dos operadores de ordenha.
57 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% tijoleira cimento plástico Tipo de piso 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% 50% semestral anual > 1 ano < 1 ano Periodicidade de substituição tetinas Figura 2.14 Piso do fosso de ordenha e periodicidade de substituição das tetinas O piso do fosso de ordenha é constituído maioritariamente por tijoleira (54%) e cimento (29%), à semelhança dos materiais utilizados no corredor de ordenha dos animais, e apenas 17% das explorações possui placas de plástico, que são muito confortáveis para os operadores de ordenha (Figura 2.14). As tetinas são substituídas na maioria das explorações antes de completarem um ano de utilização (86%). Quadro 2.10 Quantidade de alimento distribuído às vacas em produção (kg/dia) Alimentos N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) SILAGEM MILHO 80 29,24,2 15,0 40,0 14,3 PALHA 77 1,81,5 0,3 10,0 81,4 CONCENTRADO 80 8,4±2,5 2,0 13,5 30,1 ROLO DE ERVA 21 4,82,8 1,5 15,0 57,9 FENO 8 7,3±6,0 1,0 20,0 82,6 DRECHE 8 6,0±2,3 2,0 10,0 37,8 Na maioria das explorações a alimentação base diária é constituída por silagem de milho (29,2 kg), palha (1,8 kg) e alimento concentrado (8,4 kg) e alguns produtores também incorporam na dieta dos animais rolo de erva (silagem), feno e dreche (bagaço de cerveja). Algumas explorações de Trás-os-Montes, impossibilitadas de efetuar o cultivo de milho, englobam apenas na dieta diária o feno de aveia (20 kg) e concentrado (13,5 kg) por animal (Quadro 2.10).
58 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% manhã e à noite manhã noite 3 vezes ao dia Periodicidade distribuição alimento 0% 10% 20% 30% 40% 50% adlibitum restringido na ração ausente Administração de sal Figura 2.15 Frequência de distribuição de alimento e de sal às vacas em produção A distribuição de alimento aos animais é efetuada através do unifeed e na maioria das explorações esta operação é realizada ao início da manhã e ao final do dia (63%), embora 35% dos inquiridos apenas façam a administração de alimento uma vez ao dia, maioritariamente de manhã (30%) e alguns à noite (5%) e somente 2% reparte o alimento em três momentos diferentes do dia, normalmente ao início da manhã, ao meio dia e à noite. A maioria dos produtores também coloca sal grosso à disposição dos animais (71%), cerca de 45% adlibitum e apenas 30% admite não disponibilizar este ingrediente aos animais (Figura 2.15). 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% Pediluvio Escova rotativa Corte cauda Operações de maneio 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% Periodicidade Manutenção das ungulas Figura 2.16 Utilização de pedilúvio, escova rotativa e corte de cauda nas explorações em estudo. Periodicidade de manutenção das úngulas.
59 Cerca de 92% dos produtores possuem pedilúvio nas instalações animais, principalmente à entrada ou saída da sala de ordenha, com periodicidade de utilização muito diferente, desde semanal a semestral. Metade das explorações inquiridas dispõe de escovas rotativas nos corredores de passagem, que permite aos animais satisfazer as suas necessidades comportamentais. Apenas 6% das explorações admite ter efetuado o corte de cauda dos animais, com o objetivo de melhorar o maneio animal e a sua higiene, principalmente durante a operação de ordenha. A manutenção das úngulas é uma operação muito importante para o bem-estar dos animais e na prevenção de incidência de claudicações, e nesse sentido 35% dos produtores efetua tratamentos mensais, 24% trimestrais e apenas 6% admite fazê-lo uma vez no ano, na fase de secagem. As restantes periodicidades de tratamento das úngulas cifraram-se em 35% (Figura 2.16). 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% 50% agressivos mansos muito mansos Temperamento animal 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 1 animal 2 animais ≥3 animais nenhum animal Necessidade de tratamento Figura 2.17 Temperamento e necessidade de tratamento clínico dos animais Em todas as explorações inquiridas foi possível a aproximação aos animais no estábulo, para recolha de indicadores de bem-estar, sendo possível classificar sumariamente o seu temperamento. Apenas 10% demonstraram agressividade e relutância ao toque de um operador estranho. Igualmente identificou-se a necessidade de intervenção veterinária, estimando-se, na maioria das explorações (83%) que nenhum animal carecia de intervenção (Figura 2.17).
60 De seguida efetua-se a análise de diversos parâmetros (produção; equipamentos; níveis de bem-estar) nas explorações em estudo, com a finalidade de observar o seu efeito em função da dimensão das unidades produtivas. Quadro 2.11 Indicadores de bem-estar por classe de dimensão das explorações Classe (vacas leiteiras) 20 a 60 61 a 100 >100 Total Nº de explorações 28 31 24 83 Vacas 50,3±9,4 a 76,910,7 b 177,8±74,1 c 97,1±66,5 CN/hectare 3,6±1,9 a 5,6±2,5 b 6,3±2,7 b 5,1±2,6 Produção/vaca/dia (kg) 24,7±3,6 a 27,1±3,1 b 28,4±2,4 b 26,7±3,4 Área/vaca no estábulo (m2) 11,2±5,0 a 8,4±3,3 b 8,5±4,2 b 9,3±4,3 Cubículos 50,6±19,7 a 56,525,4 a 134,5±59,6 b 77,1±52,2 Nº cubículos - Nº vacas (%) 18,3±22,5 a -0,9±22,1 ab -6,0±15,7 b -0,4±21,5 Comprimento cubículo (m) 2,22±0,13 a 2,23±0,14 a 2,27±0,10 a 2,23±0,13 Largura cubículo (m) 1,12±0,06 a 1,11±0,06 a 1,13±0,05 a 1,12±0,06 Altura do bordo posterior cubículo 0,22±0,04 a 0,22±0,05 a 0,24±0,04 a 0,22±0,04 Cama: colchão; serrim; tapete; areia; cimento 8;8;5;3;2 14;8;4;1;0 13;7;3;0;0 35;23;12;4;2 Comprimento manjedoura/vaca (m) 0,84±0,24 a 0,64±0,23 b 0,49±0,14 c 0,66±0,25 Comprimento bebedouro/vaca (cm) 7,01±4,66 a 5,89±3,44 b 5,84±3,52 b 6,25±3,90 Área/vaca na sala de espera (m2) 1,30±0,68 a 1,50±1,15 a 0,85±0,45 b 1,20±0,77 Vacas/ponto de ordenha 5,2±1,9 a 5,3±1,7 a 7,9±2,5 b 5,9±2,3 Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b≠c) são significativamente diferentes (P<0,05) Constatou-se um acréscimo do encabeçamento à medida que aumenta a dimensão das explorações, o que revela maior intensificação dos sistemas produtivos, acompanhado pela produtividade dos animais que aumenta de 24,7±3,6 kg na classe de 20 a 60 vacas, para 28,4±2,4 kg na classe superior a 100 vacas (Quadro 2.11). A área disponível por vaca e o número de cubículos é satisfatória na classe de 20 a 60 vacas, no entanto para a classe superior a 100 vacas, decresce a área disponível por animal (8,5±4,2 m2/vaca), mas o mais prejudicial reside no facto de aproximadamente 11 vacas (6%) não possuírem cubículo para se deitarem. Não se encontraram diferenças significativas (P>0,05), nas principais dimensões dos cubículos entre classes de dimensão das explorações, comprimento (2,22 a 2,27 m), largura (1,11 a 1,13 m) e altura do bordo posterior (0,22 a 0,24 m), o que demonstra que o desenho dos cubículos é realizado independentemente das necessidades e medidas corporais das vacas leiteiras. No material utilizado na superfície dos cubículos verificou-se diversidade de opções, principalmente nas classes de 20 a 60 animais e nas superiores, uma tendência para a utilização de dois tipos de camas, colchão ou serrim. No comprimento de manjedoura e bebedouro disponível por vaca, observaram-se diferenças (P<0,05) entre classes de dimensão das explorações, em que as explorações de menor dimensão apresentaram rácios mais elevados por animal, quer para a
61 manjedoura (0,84±0,24 m) como para o bebedouro (7,01±4,66 cm), relativamente às explorações de maior dimensão (manjedoura - 0,49±0,14 m e bebedouro - 5,84±3,52 cm). A área por vaca na sala de espera é reduzida em todas as explorações, sendo muito inferior nas explorações de maior dimensão (0,85±0,45 m2/vaca), problema que poderá ser atenuado através da constituição de diferentes grupos de animais, que entram separadamente na sala de espera. Na classe de maior dimensão, cada ponto de ordenha suporta um número superior de vacas (7,9±2,5), do que nas classes inferiores, permitindo uma maior rentabilização do equipamento, justificado pela dimensão do efetivo.
62
63 2.5 DISCUSSÃO As condições naturais, a concentração de serviços de apoio técnico e o forte setor cooperativo de representação e organização da atividade leiteira contribuíram para a atual dimensão económica e a importância social das explorações leiteiras na região Norte e Centro de Portugal, apesar da acentuada descida do preço do leite ao produtor a partir de 2009. Como tendência geral verifica-se um aumento da concentração das explorações e simultaneamente uma diminuição crescente do número de explorações, aumento do número de animais por exploração e da produtividade por vaca. Mas estas transformações não foram acompanhadas por um aumento proporcional da superfície agrícola útil (SAU), que se cifrou em 31 ha por exploração, em que a maioria das explorações (63%) possui área inferior a 30 ha. Contudo são valores superiores aos relatados por POBLP (2007) e INE (2011) na ordem de 10 a 12 ha por exploração. A problemática da estrutura minifundiária da propriedade e o caráter disperso das parcelas de terreno leva a que cada exploração tenha em média 27 blocos por unidade produtiva, dificultando e onerando financeiramente o conjunto de tarefas agrícolas levadas a efeito na exploração. A elevada representatividade da SF na SAU, justificada pela especificidade das culturas de Primavera-Verão (milho-silagem) e Outono-Inverno (azevém), base importante da alimentação dos efetivos, evidencia a elevada especialização da produção leiteira nesta região. A população agrícola familiar é formada maioritariamente (76%) até três elementos, em que na maioria dos casos o produtor e seu cônjuge trabalham na exploração, indo de encontro aos valores referidos por INE (2011), em que os produtores contribuem com 45%, seguindo-se os respetivos cônjuges (31%). Nas explorações em sociedade de grupo (40%), na maioria dos casos os elementos que constituem a sociedade exercem atividade a tempo inteiro na exploração. A faixa etária da maioria dos produtores (35 a 55 anos), em que apenas 7% possui idade superior a 65 anos é reveladora do grau de rejuvenescimento deste setor produtivo. A formação escolar da maioria dos produtores (67%) é descrita essencialmente ao nível do 1º e 2º ciclos de escolaridade, surgindo também cerca de 20% de criadores com o 9º ano de escolaridade, indicador importante do rejuvenescimento e qualificação dos quadros ativos deste setor de atividade. Além da formação de base o grau de especialização dos criadores na produção de leite é evidenciado pelo elevado número de cursos específicos na produção agrícola e maneio animal que a grande maioria detêm (73% com 3 ou mais cursos de formação profissional de curta duração) e estará também associado à grande diversidade de tarefas exigidas no setor da produção de leite. A maioria das explorações (74%) iniciou atividade há mais de 20 anos e apenas 8,5% possui menos de 10 anos, o que é compreensível pelo elevado investimento de capital
70
71 2.6 CONCLUSÕES - A amostra estudada é representativa das explorações do Norte e Centro de Portugal em contraste leiteiro. - A maioria das explorações possui entre 10 a 30 ha e a estrutura parcelar é muito fragmentada e dispersa (27 parcelas/exploração), em que os titulares das unidades produtivas dedicam-se exclusivamente ao trabalho na exploração e possuem maioritariamente entre 35 a 55 anos de idade e com formação profissional relevante. - Cerca de 75% das explorações exercem atividade há mais de 20 anos, principalmente em terrenos próprios e alugados, sobretudo à base de mão-de-obra familiar. - A altura média do estábulo foi de 3,65 m, o corredor de passagem junto à manjedoura de 3,86 m e na parte de trás de 2,58 m. - A largura da manjedoura foi de 77 cm e a altura de 52 cm e 42 cm nas secções interna e externa ao recinto dos animais respetivamente, sendo o espaço disponível por vaca à manjedoura de 66 cm. Cerca de metade das explorações apresentaram manjedoura tipo fosso e piso em cimento e tijoleira maioritariamente. - O número médio de bebedouros por exploração foi de 3,43 e 64% das explorações apresentou um rácio superior a 20 vacas por bebedouro, resultando em 6,3 cm de espaço disponível por vaca, com altura interior do bebedouro de 26 cm. A maioria dos bebedouros é de aço inox (41%) e cimento (25%) e apenas 20% foram considerados devidamente higienizados. - Os cubículos apresentaram uma altura do bordo posterior de 0,22 m e o comprimento e largura foi de 2,23 m e 1,13 m para cubículos cabeça com cabeça e de 2,27 m e 1,11 m para cubículos contra a parede. A cama dos cubículos reveste-se de serrim (28%) e de colchão com serrim (22%), destacando-se também colchão simples (21%) e tapete (9%). - A maioria dos sistemas de ordenha é em espinha (69%), localizados preferencialmente no topo do estábulo (75%). No entanto dos diferentes sistemas estudados, o paralelo revelou-se mais eficiente, com 311 kg de leite por ordenhador/hora. - A alimentação das vacas consistiu em 29,2 kg de silagem de milho, 1,8 kg de palha e 8,4 kg de concentrado, distribuído por unifeed duas vezes ao dia (63%), embora 35% das explorações administraram apenas uma vez ao dia, principalmente ao início da manhã. - Na análise de alguns indicadores produtivos e de bem-estar por classes de dimensão das explorações verificou-se que as grandes explorações revelaram maior produção de leite por vaca/dia (28,4 kg), cubículos insuficientes (-11 cubículos/exploração), menor comprimento da manjedoura/vaca (0,49 m) e menor comprimento de bebedouro/vaca (5,84 cm), assim como a área por vaca na sala de espera (0,85 m2). Não se encontraram diferenças entre classes de dimensão das explorações no dimensionamento dos diferentes componentes dos cubículos.
72
73 2.7 BIBLIOGRAFIA Anderson, N., 2008. Free stall dimensions for dairy cows. Site disponível: Ontario Ministry of Agriculture, Food and Rural Affairs, Canadá (Última atualização: 31 de janeiro de 2008), URL: http://www.omafra.gov.on.ca/english/livestock/dairy/facts/info_tsdimen.htm. Consultado em 14/11/2011. Armstrong, D.V., Gamroth, M.J., Smith, J.F., Welchert, W.T. e Weirsma, F., 1990. Parallel milking parlor performance and design considerations. Paper # 904042. Am. Soc. Agric. Eng., Summer Mt. Columbus, OH. Bennett, M., Osburn, D., Steevens, B. e Young, R.D., 1991. Milking parlors: design, size, efficiency and cost. MP-664. Missouri Univ. Agric. Exp. Stn., Columbia, MS. Bickert, W.G., 2000. Dairy Freestall Housing and Equipment, MWPS-7, Seventh Edition. Ames, Iowa, Midwest Plan Service, Iowa State University, Chapter 4. Milking herd facilities, 27-45. Buxadé, C.C., 2006. Bienestar animal y vacuno de leche: mitos y realidades. Ediciones Euroganaderia. Espanha. Cook, N.B., 2003. Prevalence of lameness among dairy cattle in Wisconsin as a function of housing type and stall surface. J. Am. Veterinary Medical Association, 223: 1324-1328. Cook, N.B., 2007. Makin Me Dizzy-Pen Moves and Facility Designs to Maximize Transition Cow Health and Productivity. Proceedings of the Western Dairy Management Conference, Reno, NV., 7-9 Março 2007. Cook, N.B., Bennett, T.B. e Nordlund, K.V., 2004. Effects of free-stall surface on daily activity patterns in dairy cow with relevance to lameness prevalence. J. Dairy Sci. 87: 2912-2922. DeVries, T.J. e Von Keyserlingk, M.A.G., 2006. Feed stalls affect the social and feeding behavior of lactating dairy cows. J. Dairy Sci. 89: 3522-3531. Drissler, M., Gaworski, M., Tucker, C.B. e Weary, D.M., 2005. Freestall maintenance: effects on lying behavior of dairy cattle. J. Dairy Sci. 88: 2381-2387. Fraser, A.F., Broom, D.M., 1998. Farm Animal Behaviour and Welfare, CAB International, New York Fregonesi, J.A., Vieira, D.M., Von Keyserlingk, M.A.G. e Weary, D.M., 2007. Effects of bedding quality on lying behavior of dairy cows. J. Dairy Sci. 90: 5468-5472. Grant, R.J. e Albright, J.L., 2001. Effect of animal grouping on feeding behavior and intake of dairy cattle. J. Dairy Sci. 84: 156-163.
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77 CAPÍTULO 3 MEDIDAS CORPORAIS DE VACAS LEITEIRAS DA RAÇA HOLSTEIN FRISIA E SUA RELAÇÃO COM A DIMENSÃO DOS CUBÍCULOS
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79 3.1 Introdução A valorização morfológica dos indivíduos selecionados e da sua descendência, constituem práticas zootécnicas importantes nos programas de melhoramento genético. Por isso um dos principais critérios na implementação dos programas de seleção consiste na definição racial, através de todas as caraterísticas etnológicas, incluindo as medidas biométricas e a avaliação de índices morfológicos. Dentro da apreciação individual, os detalhes relativos à zoometria ocupam um papel muito importante, realçado por dois aspetos fundamentais no reconhecimento morfológico, por um lado o efetuado na identificação do animal, sendo comum exigir-se o registo de certas medidas, e outro, na observação do animal do ponto de vista da sua aptidão, em que diferentes medidas de diâmetro, alturas, comprimentos, larguras e perímetros, proporcionam bases seguras para a execução de índices, por sua vez determinantes de certas funcionalidades (Soltner, 1985). As medidas corporais providenciam informação complementar aos programas de melhoramento, sendo úteis para descrever tendências evolutivas nas raças. A biometria utiliza-se como elemento de apreciação e identificação da morfologia, do biótipo da espécie, raça ou indivíduo. As medidas biométricas realizam-se de forma sistemática nos programas de seleção, pela sua utilidade para determinar tendências em função do tempo, em função da sua origem geográfica, para investigar a semelhança fenotípica entre raças ou a sua aptidão funcional (Sanchez et al., 1992). As medidas biométricas permitem além do seu agrupamento em conjuntos subespecíficos, deduzir proporções que por sua vez, indicam aptidões, como considera Cuenca (1949), apontando o interesse de correlações em carateres interessantes de produção e de intensificação da sua utilização. As relações entre as diversas medidas corporais, designados por índices biométricos, estruturam-se no conceito de que medidas de largura e espessura variam em sentido direto e medidas de comprimento em sentido inverso, considerando-se, pois, que tal como descreve Cuenca (1949), os animais compridos são estreitos e magros, os animais largos são espessos e curtos. A adequação das medidas biométricas, do peso e da conformação em cada genótipo é um processo em desenvolvimento desde a criação dos livros genealógicos e da aplicação dos programas de seleção nas raças europeias (Weclarz et al., 2000). Neste capítulo os principais objetivos consistiram na análise de medidas biométricas, índices etnológicos e funcionais, assim como análise das medidas corporais através de componentes principais na raça Holstein Frísia. Realizou-se também a avaliação da adequação das dimensões dos cubículos às mensurações animais.
86 (Alemanha). Esta raça, inicialmente de aptidão mista, restringiu-se aquela região até ao final do século XVIII, e foi alvo de cruzamentos entre raças. Caraterizava-se por ter uma pelagem preta e branca, ou vermelha e branca, com esqueleto de grandes dimensões, bastante fino e com chifres curtos, ao mesmo tempo que demonstrava excelente aptidão leiteira e simultaneamente capacidade para engorda. O desenvolvimento deste genótipo holandês permaneceu relativamente modesto até ao final do século XVIII, principalmente devido às grandes inundações, guerras e doenças que afetaram a região naquela época (Gillespie e Flanders, 2010). O primeiro livro genealógico da raça foi criado na Holanda em 1873, onde havia separação dos ecótipos preto e vermelho, contudo verificou-se sempre maior preferência pelos animais de pelagem preta e branca. Em 1882 foi fundada a Sociedade de Livro Genealógico dos Países Baixos, substituindo os dois anteriormente fundados em 1873 (Netherlands Herd-Book) e 1879 (Friesland Herd-Book). A raça começou a ser exportada através das grandes expedições dos navegadores holandeses a partir do século XIX. Milhares de animais são levados para o Canadá onde a raça é batizada de Holstein Friesian e para os Estados Unidos da América, simplesmente apelidada de Holstein e rapidamente se desenvolve o genótipo específico destes países, em que o melhoramento da raça incidiu sobretudo no aumento da produção de leite. Desde então a seleção e melhoramento da raça é efetuada sem o contributo de outras raças. A raça conquista rapidamente a América Central e do Sul e a Europa, fazendo a sua aparição em França, começando pelo Norte, rapidamente se espalha por todo o país, conhecida pelo nome de “Hollandaise” e especialmente explorada pelas suas qualidades na produção de leite. A raça conquistou toda a Europa, em que a orientação no melhoramento foi para animais de aptidão mista, para produção de leite e carne. No final da segunda guerra mundial, na América intensificou-se a seleção da raça para produção de leite e caraterísticas do úbere, enquanto na Europa o trabalho de melhoramento recaiu fundamentalmente no melhoramento do teor butiroso do leite e na morfologia animal (Oltenacu e Broom, 2010). No continente Americano após algumas gerações surgiram animais mais altos, mais esqueléticos e angulosos, enquanto os animais europeus, embora demonstrando forte aptidão leiteira, possuíam melhor qualidade de carcaça. Durante a década de 1970 foram importados animais da raça Holstein Frisia dos Estados Unidos da América com o propósito de melhorar a produção de leite, o que resultou em animais mais corpulentos e com caraterísticas marcadamente leiteiras. Em Portugal os animais com este padrão reportam-se inicialmente à região limítrofe de Lisboa. Lentamente foi-se espalhando por todo o país, tendo encontrado na foz do rio Vouga, em Aveiro o espaço ideal para o seu desenvolvimento. O Livro Genealógico
87 Português da Raça Bovina Frísia foi instituído em 1959, enquanto o contraste leiteiro iniciou-se de forma organizada em 1960. Atualmente a raça encontra-se disseminada por todo o país, com maior densidade no noroeste português e região Autónoma dos Açores, em que os efetivos de maior dimensão por exploração situam-se na região sul de Portugal continental. Associado ao incremento na produção e consumo de leite em Portugal, o número de animais da raça também aumentou, substituindo nalguns casos as raças autótones tradicionalmente utilizadas para a produção de leite, e conquistou regiões (Trás-osMontes) que tradicionalmente não eram consideradas como de produção bovina leiteira. Além do aumento do efetivo da raça Holstein Frisia, verificou-se também uma evolução genética substancial, por via da introdução de novas tecnologias como a inseminação artificial na década de 1970 e mais recentemente, década de 2000, os transplantes de embriões. Outro fator que contribuiu muito para a holsteinização dos bovinos Frísios do país, foram os abates sanitários devido à peripneumonia contagiosa dos bovinos, e a consequente importação em grande número de animais provenientes da Holanda, França, Alemanha e Dinamarca. De seguida apresenta-se o Quadro 3.3 com o panorama dos efetivos leiteiros globais e da raça Holstein Frisia em alguns países, assim como os valores médios de produção de leite, gordura e proteína. Quadro 3.3 Bovinos leiteiros e produção em alguns países (WHFF, 2010) Pais Vacas leiteiras Holstein Frisia (N) Holstein Frisia (%) H. Frisia em contraste Leite (kg) Gordura (%) Proteína (%) África do Sul 125.151 55.575 44,4 29.004 9.567 3,78 3,20 Alemanha 4.181.679 2.551.200 61,0 2.254.548 8.923 4,02 3,35 Austrália 1.600.000 1.072.000 67,0 353.966 7.087 3,93 3,27 Áustria 532.735 58.600 11,0 43.778 8.335 4,09 3,25 Bélgica 223.452 184.285 82,5 63.854 6.941 4,14 3,34 Canadá 981.000 912.330 93,0 661.983 9.970 3,75 3,18 Dinamarca 572.707 419.221 73,2 381.833 9.576 4,09 3,36 Espanha 933.025 913.045 97,9 516.172 9.202 3,62 3,18 Finlândia 283.231 100.324 35,4 75.760 9.366 3,93 3,37 França 3.700.000 2.500.000 67,6 1.700.044 7.746 3,91 3,28 Holanda 1.477.000 1.400.196 94,8 676.156 8.832 4,25 3,45 Inglaterra 1.847.000 1.718.000 93,0 967.000 8.841 3,93 3,18 Irlanda 1.016.875 959.850 94,4 368.163 6.744 3,89 3,43 Itália 1.900.000 1.450.000 76,3 1.113.859 9.125 3,70 3,36 Nova Zelândia 4.396.675 1.846.604 42,0 856.914 5.881 4,10 3,50 Polónia 2.538.000 2.385.700 94,0 562.960 7.138 4,11 3,27 Portugal 302.800 298.000 98,4 76.879 9.246 3,65 3,33 Suécia 275.715 147.950 53,7 140.173 9.736 4,07 3,36
88 3.4 Caraterísticas étnicas e morfológicas da raça Holstein Frisia A raça Holstein Frísia também conhecida em Portugal por turina, é uma raça de elevada estatura, caraterizada por possuir malhas pretas e brancas, que em alguns casos poderão ser vermelhas e brancas devido a um gene recessivo. É um animal precoce de grande corpulência, podendo atingir 1,54 m de altura à garupa e 600 a 700 Kg de peso vivo. Possuem uma morfologia nitidamente de aptidão leiteira, facilmente observado pelo grande desenvolvimento do sistema mamário e com uma capacidade corporal que lhe permite consumir grandes quantidades de forragem. Uma vaca leiteira deve evidenciar estilo e harmonia, com cabeça feminina e pescoço longo e magro, pele fina, solta e elástica. A garupa deve ser angular, quando observada quer de cima quer de lado, com um ligeiro desnível entre os íleons e os ísquions. O úbere deve ter um perfil retangular, bem ligado, com os tetos colocados no centro de cada quarto, em posição vertical e corretamente espaçados, com um forte ligamento suspensor. Os membros posteriores devem ser paralelos quando observados por trás, ângulo dos curvilhões moderado, quartela forte e pés com ângulo inclinado e talão vertical. É importante que a vaca revele uma adequada locomoção (APCRF, 2004). 3.4.1 Descrição do fenótipo - Cor: malhadas de preto e branco ou vermelho e branco; - Cabeça: comprida e dolicocéfala, altiva, fronte ampla e moderadamente côncava, olhos salientes, orelhas horizontais, chanfro reto, focinho amplo com narinas bem abertas, mandíbulas fortes que exprimem o estilo imponente e vivacidade própria da raça; - Pescoço: comprido e delgado, com barbela pouco pronunciada, que se une suavemente na linha superior ao ombro; - Peito: largo com costelas arqueadas e profundas; - Dorso: comprido, reto, forte e linha lombo-dorsal levemente ascendente no sentido da cabeça; - Garupa: comprida, larga, com ossos ilíacos bastante salientes e ligeiramente desnivelada no sentido da ponta da nádega; - Coxas: retas, delgadas e ligeiramente côncavas, bem separadas entre si, cedendo amplo lugar para o úbere simétrico, largura e profundidade moderado e fortemente inserido ao abdómen e na base do osso da bacia; - Pernas: finas e de movimentos funcionais que termina em patas de quartelas fortes e úngulas bem torneadas; - Pele: fina e pregueada de pelo fino e macio; - Úbere: volumoso com ligamentos fortes e a pele macia e fina, coberta de pelos sedosos e curtos.
89 Apesar de alguma dificuldade na obtenção de referências relativamente às medidas corporais de vacas leiteiras da raça Holstein Frísia, apresenta-se de seguida (Quadro 3.4) alguns trabalhos publicados. Quadro 3.4 Medidas biométricas de vacas da raça Holstein Frisia (cm). Medidas Batra e Touchberry (1974) Ali et al. (1984) Yerex et al. (1988) Sieber et al. (1988) Enevoldsen e Kristensen (1997) N 45 3193 193 (1ª lact.) 1898 431 Altura à cernelha 136,0 139,1±4,2 132,8 134,4 - Altura à garupa - 140,2±4,0 - - 142,0 Altura isquiática - 130,0±4,2 - - - Profundidade do peito 74,0 - 68,8 74,4 - Comp. do tronco 160,0 - 136,8 158,3 - Comp. da garupa - 43,2±2,7 - 53,7 - Largura bi-iliaca - 37,6±2,8 - 54,2 57,0 Largura bi-isquiática - 20,2±1,9 - - - Perímetro torácico 201,0 202,5±9,9 184,3 194,8 -
90
91 3.5 MATERIAIS E MÉTODOS 3.5.1 Material animal No estudo biométrico procedeu-se à recolha de catorze medidas corporais em 1054 vacas adultas em fase de lactação inscritas no livro genealógico da raça Holstein Frisia. Os animais eram provenientes de explorações do Norte e Centro de Portugal, previamente selecionadas em função de se encontrarem registadas no livro genealógico da raça, com contraste leiteiro e salvaguardando a recetividade dos produtores para o estudo. Todas as explorações são comuns às 83 selecionadas inicialmente. De um universo de 4630 animais, as vacas estudadas pertencem a dezoito concelhos, repartidos igualmente pela área de influência da Associação para o Apoio à Bovinicultura Leiteira do Norte (ABLN) e da Estação de Apoio à Bovinicultura Leiteira (EABL) em 55 explorações. Quadro 3.5 Distribuição da amostra para os animais mensurados Área de influência Concelho Nº de explorações Efetivo em produção Biometrias (Nº animais) ABLN Barcelos 12 1299 267 Braga 3 160 59 Famalicão 4 200 42 Paredes de Coura 1 82 37 Ponte de Lima 3 157 69 Póvoa de Varzim 2 344 18 Viana do Castelo 2 115 38 Vila do Conde 7 599 111 Vila Verde 1 56 22 EABL Águeda 1 120 28 Arouca 2 72 29 Aveiro 1 180 19 Estarreja 3 475 73 Ílhavo 1 53 16 Murtosa 3 139 62 Oliveira de Azeméis 4 264 74 Ovar 3 226 54 Vagos 2 89 36 Total 18 55 4630 1054 Foram consideradas três classes de lactação, tendo como referência para a sua descriminação, as datas de realização das mensurações e de parto, ficando divididas em 1: 1ª lactação, 2: 2ª e 3ª lactação e 3: ≥4ª lactação.
92 Consideraram-se três classes de produção de leite aos 305 dias escalonadas da seguinte forma: 1: <9000, 2: [9000 - 10500] e 3: >10500 kg. 3.5.2 Instrumentos de medida Utilizou-se o hipómetro para a realização das medidas de altura, profundidade e largura do peito. O hipómetro é um varão em aço inox, com 130 cm de altura que possui no seu interior um êmbolo quadrangular regulável em altura e escalonado em centímetros. No exterior do varão existem dois orifícios retangulares para a regulação de varetas amovíveis uma na parte superior e outra a meio do varão, permitindo ajustar ao corpo do animal e obter medidas exatas. Para a obtenção das restantes medidas recorreu-se a fita métrica, dividida segundo o sistema métrico decimal. 3.5.3 Metodologia 3.5.3.1 Medidas biométricas As medidas dos animais realizaram-se entre Maio a Setembro de 2009, sendo normalmente os animais presos no sistema de guilhotina à manjedoura, em superfícies planas para facilitar as operações de medição. O estudo biométrico realizou-se mediante a recolha de catorze medidas corporais (Figura 3.3) e onze índices de conformação nos animais. As medidas lineares obtidas foram as seguintes: - Altura à Cernelha (ACER) - distância perpendicular desde o ponto mais elevado da cernelha até ao solo. - Altura a Meio Dorso (AMDO) - distância perpendicular entre o ponto de ligação do dorso e lombo e o solo. - Altura à Garupa (AGAR) - distância perpendicular desde a garupa, ao nível do terço médio do sacro, até ao solo. - Altura Isquiática (AISQ) - distância perpendicular desde o ponto mais elevado do isquion até ao solo. - Profundidade do Peito (PRPEITO) - distância perpendicular entre a linha dorsal e o esterno. - Comprimento do Tronco (CTRO) - distância reta entre a ponta da espádua (ponto mais saliente da articulação escápulo-humeral) e a tuberosidade isquiática. - Comprimento da Garupa (CGAR) - distância reta entre a ponta da anca (ilíaco) e da nádega (tuberosidade isquiática). - Comprimento da Cabeça (CCAB) - distância existente entre a protuberância do occipital até à extremidade do lábio superior.
93 - Largura da Cabeça (LCAB) - distância reta entre as arcadas zigomáticas, ao nível das arcadas orbitárias. - Largura do Peito (LPEITO) - largura reta do tronco do animal, medida imediatamente antes das espáduas. - Largura Bi-ilíaca (LBIIL) - distância reta entre as pontas dos ilíacos. - Largura Bi-isquiática (LBIISQ) - distância reta entre as pontas dos ísquions. - Perímetro da Canela (PCAN) - contorno medido no terço médio do metacarpo anterior. - Perímetro Torácico (PTOR) - contorno medido à volta do tronco, imediatamente atrás das espáduas. Figura 3.3 Indicação das medidas biométricas realizadas nos animais 1ACER, 2AMDO, 3AGAR, 4AISQ, 5PRPEITO, 6CTRO, 7CGAR, 8CCAB, 9LCAB, 10LPEITO, 11LBIIL, 12LBIISQ, 13PCAN, 14PTOR A partir destas medidas estimaram-se os seguintes índices: - Índice Corporal (IC) = CTRO/PTOR x 100 - Índice Torácico (IT) = LPEIT/PRPEITO x 100 - Índice Cefálico (ICEF) = LCAB/CCAB x 100 - Índice Pélvico (IP) = LBIIL/CGAR x 100 - Índice Pélvico Transversal (IPT) = LBIIL/ACER x 100 - Índice Pélvico Longitudinal (IPL) = CGAR/ACER x 100 - Índice de Profundidade Relativa do Peito (IPRP) = PRPEITO/ACER x 100 - Índice Corporal de Vantagem (ICR) = ACER/CTRO x 100 - Índice Dáctilo-torácico (IDT) = PCAN/PTOR x 100 - Índice Dáctilo-costal (IDC) = PCAN/LPEIT x 100 - Índice Espessura Relativa da Canela (IECN) = PCAN/ACER x 100 13 1 2 3 4 7 8 9 10 14 5 6 12 11
94 3.5.3.2 Tratamento estatístico O tratamento estatístico dos dados foi efetuado por análise de variância pelo programa SPSS para Windows versão 19 (SPSS.Inc.), através do procedimento GLM (General Linear Models Procedure). Para determinar eventuais diferenças entre classes de lactação e de produção nas medidas biométricas, utilizou-se o teste de comparação de médias Tuckey. Foram utilizados os seguintes modelos: a) Efeito fixo com um fator MBij = µ + Cli + eij [1]– N= 1054 Em que: MBij = observação das variáveis medidas biométricas (ACER, AMDO, AGAR, AISQ, PRPEITO, CTRO, CGAR, CCAB, LCAB, LPEITO, LBIIL, LBIISQ, PCAN e PTOR). µ - Média geral Cli = efeito da classe de lactação (1= 1ª lactação; 2= 2ª e 3ª lactação; 3= ≥4ª lactação) eij = erro aleatório associado a cada observação yij b) Efeitos fixos a dois fatores com interação MBijk = µ + ClPri +Parj + (ClPrPar)ij + eijk [1]– N= 1054 Em que: MBijk = observação das variáveis medidas biométricas (ACER, AMDO, AGAR, AISQ, PRPEITO, CTRO, CGAR, CCAB, LCAB, LPEITO, LBIIL, LBIISQ, PCAN e PTOR). µ - Média geral ClPri = efeito da classe de produção (1 - <9500 kg; 2 - [9500 - 10500 kg]; 3 - >10500 kg) Parj = efeito da paridade (1 - 1ª lactação; 2 - 2ª lactação; 3 - 3ª lactação, 4 – 4ª lactação; 5 – 5ª lactação; 6 - ≥ 6ª lactação). eijk = erro aleatório associado a cada observação yijk Procedeu-se à determinação de correlações nas medidas e nos índices biométricos. Realizou-se uma análise de componentes principais, a partir da matriz de correlações entre as medidas biométricas, através do referido programa para determinar o número de variáveis independentes que concentram a maior parte da variação fenotípica. Os fatores selecionados foram submetidos ao método de rotação Varimax. Nesta análise incluíramse 1054 vacas, distribuídas pelas três classes de lactação anteriormente referidas. Realizou-se o teste de Bartlett e obteve-se a medida de adequação da amostra de KMO para as medidas.
95 3.6 RESULTADOS Os resultados da estatística descritiva de medidas biométricas em função das classes de lactação e de produção aos 305 dias apresentam-se descriminadas em número de animais mensurados (N), valor médio das medidas, desvio padrão (DP), mínimos, máximos e coeficiente de variação (CV %). 3.6.1. Efeito classe de lactação Na figura 3.4 encontram-se representados os animais estudados em função das classes de lactação e idade no momento da realização das medidas biométricas. Dos 1054 animais, 38% das vacas incluíam-se na primeira lactação, com idade média de 2,8 anos, 44% na segunda e terceira lactação, cuja idade média foi de 4,5 anos e 18% dos animais encontravam-se na quarta ou mais lactações com 7,3 anos de idade. 2,8 4,5 7,3 0 1 2 3 4 5 6 7 8 1ª 2ª e 3ª ≥4ª Idade (anos) Lactação Figura 3.4 Idade média das vacas em função da classe de lactação Os animais mensurados incluem-se principalmente nos grupos até três lactações (82%), refletindo de alguma forma a realidade da maioria das explorações leiteiras portuguesas contrastadas, em que os animais completam em média 2,4 lactações, conforme constatado por ANABLE (2011).
102 14 870 170 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 15 - 18 19 - 22 23 - 26 Nº de animais Largura da cabeça (cm) 27 253 455 269 40 10 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 36 - 40 41 - 45 46 - 50 51 - 55 56 - 60 61 - 77 Nº de animais Largura do peito (cm) 8 97 370 440 131 8 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 41 - 45 46 - 50 51 - 55 56 - 60 61 - 65 66 - 73 Nº de animais Largura bi-iliaca (cm) 22 532 466 34 0 100 200 300 400 500 600 17 - 20 21 - 25 26 - 30 31 - 34 Nº de animais Largura bi-isquiática (cm) Figura 3.8 Histogramas de frequências das medidas corporais de largura Para as frequências de larguras (Figura 3.8) verificou-se que a largura da cabeça revela reduzida variabilidade, incluindo-se 82,5% dos animais na classe de 19 a 22 cm, para a largura do peito 68,7% no intervalo entre 46 a 55 cm, na largura bi-iliaca 76,9% entre 51 a 60 cm e na largura bi-isquiática 94,7% compreendidos entre 21 a 30 cm.
103 3.6.1.4 Perímetros Quadro 3.9 Estatística descritiva dos perímetros em função das classes de lactação Medida Lactação N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) PCAN 1ª 403 19,14a0,79 17,00 22,00 4,13 2ª e 3ª 460 19,47b0,78 17,50 22,00 4,01 ≥4ª 191 19,42b0,79 17,50 21,50 4,07 Sig. *** Total 1054 19,330,80 17,00 22,00 4,14 PTOR 1ª 403 200,57a9,78 173,00 231,00 4,88 2ª e 3ª 460 209,70b8,79 186,00 235,00 4,19 ≥4ª 191 213,00c8,53 193,00 238,00 4,00 Sig. *** Total 1054 206,8110,43 173,00 238,00 5,04 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS: não significativo PCAN – perimetro da canela; PTOR – perímetro torácico. Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b≠c) são significativamente diferentes (P<0,001). As vacas de primeira lactação apresentaram um valor de perímetro da canela significativamente inferior (P<0,001) às restantes classes de lactação. No perímetro torácico encontraram-se diferenças significativas (P<0,001), entre todas as classes de lactação, verificando-se um incremento da primeira até à quarta ou mais lactações de cerca de 13 cm (Quadro 3.9), indicando que esta região se desenvolve até pelo menos à quarta lactação. Esta medida evidencia-se em consequência da elevada profundidade do peito. 100 858 96 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 17 - 18 19 - 20 21 - 22 Nº de animais Perimetro da canela (cm) 7 55 220 386 288 84 14 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 170-180 181-190 191-200 201-210 211-220 221-230 231-240 Nº de animais Perimetro torácico (cm) Figura 3.9 Histogramas de frequências das medidas corporais de perimetro Observou-se que 81,4% dos animais apresentam um perímetro da canela na classe de 19 a 20 cm e 63,9% um perímetro torácico no intervalo entre 201 a 220 cm (Figura 3.9).
104 No quadro 3.10 apresentam-se os resultados dos índices etnológicos (índices corporal e torácico) de vacas Holstein Frisia. 3.6.1.5 Índices Etnológicos Quadro 3.10 Estatística descritiva de índices etnológicos em vacas da raça Holstein Frisia Índice Lactação N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) IC 1ª 403 83,31a4,23 69,09 106,49 5,08 2ª e 3ª 460 82,67a3,82 70,70 93,01 4,62 ≥4ª 191 81,58b4,47 68,97 96,92 5,48 Sig. *** Total 1054 82,724,15 68,97 106,49 5,02 IT 1ª 403 63,455,48 45,00 95,27 8,64 2ª e 3ª 460 63,395,51 46,75 91,36 8,69 ≥4ª 191 62,866,38 49,38 93,90 10,15 Sig. NS Total 1054 63,325,67 45,00 95,27 8,95 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS: não significativo IC – índice corporal; IT – índice torácico. Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b) são significativamente diferentes (P<0,001). Apenas para o índice corporal se constataram diferenças significativas (P<0,001), da quarta ou mais lactações relativamente às duas primeiras classes, que não se revelaram distintas. Os valores do índice torácico não diferiram entre o número de lactações. Os coeficientes de variação oscilam entre 4,62% e 5,48% e 8,64% e 10,15% para os índices corporal e torácico respetivamente. Os índices funcionais calculados, representam-se no quadro 3.11, observando-se valores de coeficiente de variação mais elevados nos índices dáctilo-costal (9,08), pélvico (6,35), pélvico transversal (6,31) e cefálico (5,44), sendo os restantes inferiores. O índice cefálico não revelou diferenças significativas (P>0,05) entre as três classes de lactação. Os índices pélvico, pélvico transversal, de profundidade relativa do peito e dáctilo-torácico apresentaram diferenças significativas (P<0,001), entre todas as classes de lactação, registando incrementos de acordo com o acréscimo das lactações, apenas com exceção para o índice dáctilo-torácico em que se verificou o cenário oposto. Nos índices pélvico longitudinal, corporal de vantagem e dáctilo-costal encontraram-se diferenças (P<0,001) entre a primeira classe de lactação relativamente às restantes e no índice de espessura relativa da canela entre a primeira e a terceira classe, tendo esta última exibido o valor mais reduzido.
105 3.6.1.6 Índices Funcionais Quadro 3.11 Estatística descritiva de índices funcionais em vacas da raça Holstein Frisia Índice Lactação N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) ICEF 1ª 403 41,262,28 34,31 48,00 5,53 2ª e 3ª 460 40,96 2,17 34,62 46,81 5,30 ≥4ª 191 41,342,27 35,85 48,08 5,49 Sig. NS Total 1054 41,142,24 34,31 48,08 5,44 IP 1ª 403 100,28a6,14 70,69 119,15 6,12 2ª e 3ª 460 104,36b5,98 80,65 135,19 5,73 ≥4ª 191 105,78c6,57 87,93 127,06 6,21 Sig. *** Total 1054 103,066,54 70,69 135,19 6,35 IPT 1ª 403 38,10a2,17 30,04 45,83 5,70 2ª e 3ª 460 40,38b2,19 31,43 50,87 5,42 ≥4ª 191 40,87c2,29 34,90 46,81 5,60 Sig. *** Total 1054 39,602,50 30,04 50,87 6,31 IPL 1ª 403 38,03a1,53 32,33 42,60 4,02 2ª e 3ª 460 38,73b1,64 34,01 44,29 4,23 ≥4ª 191 38,69b1,79 31,72 45,78 4,63 Sig. *** Total 1054 38,461,66 31,72 45,78 4,32 IPRP 1ª 403 53,38a1,69 47,90 57,97 3,17 2ª e 3ª 460 54,35b1,84 49,66 59,12 3,39 ≥4ª 191 54,98c1,71 50,00 59,70 3,11 Sig. *** Total 1054 54,091,86 47,90 59,70 3,44 ICR 1ª 403 83,41a3,60 68,27 94,84 4,32 2ª e 3ª 460 82,33b3,47 73,74 94,41 4,21 ≥4ª 191 82,34b3,65 71,74 93,58 4,43 Sig. *** Total 1054 82,753,59 68,27 94,84 4,34 IDT 1ª 403 9,55a0,42 8,33 10,75 4,40 2ª e 3ª 460 9,29b0,42 8,12 10,58 4,52 ≥4ª 191 9,13c0,42 8,00 10,83 4,60 Sig. *** Total 1054 9,360,45 8,00 10,83 4,81 IDC 1ª 403 40,97a3,61 28,37 53,95 8,81 2ª e 3ª 460 40,00b3,53 27,03 51,39 8,83 ≥4ª 191 39,77b3,88 25,00 48,84 9,76 Sig. *** Total 1054 40,333,66 25,00 53,95 9,08 IECN 1ª 403 13,78a0,55 12,41 15,65 3,99 2ª e 3ª 460 13,68ab0,55 12,16 15,44 4,02 ≥4ª 191 13,62b0,53 12,16 15,24 3,89 Sig. ** Total 1054 13,700,55 12,16 15,65 4,01 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS: não significativo ICEF – índice cefálico; IP – índice pélvico; IPT – índice pélvico transversal; IPL – índice pélvico longitudinal; IPRP – índice de profundidade relativa do peito; ICR – índice corporal de vantagem; IDT – índice dáctilo-torácico; IDC – índice dáctilocostal; IECN – índice espessura relativa da canela. Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b≠c) são significativamente diferentes.
106 Os índices funcionais ou de apreciação de aptidões analisaram-se para determinar o tipo de animal associado à produção de leite. No quadro 3.12 apresentam-se as correlações fenotípicas entre os índices e respetivas significâncias. Quadro 3.12 Correlações entre índices corporais Índices IT ICEF IP IPT IPL IPRP ICR IDT IDC IECN IC -0,34** -0,02NS -0,07* -0,03NS 0,07* -0,26** -0,62** 0,46** 0,41** -0,02NS IT 0,12** -0,11** 0,01NS 0,18** -0,10** 0,03NS -0,24** -0,86** 0,11** ICEF -0,09** -0,03NS 0,09** 0,05NS -0,14** -0,02NS -0,07* 0,15** IP 0,77** -0,34** 0,15** -0,03NS -0,07* 0,07* 0,04NS IPT 0,34** 0,35** -0,34** -0,20** -0,07* 0,16** IPL 0,29** -0,45** -0,19** -0,21** 0,17** IPRP -0,35** -0,37** -0,17** 0,25** ICR 0,03NS -0,01NS -0,26** IDT 0,63** 0,58** IDC 0,23** Nível de significância ** P<0,01; * P<0,05; NS: não significativo IC – índice cefálico; IT – índice torácico; ICEF – índice cefálico; IP – índice pélvico; IPT – índice pélvico transversal; IPL – índice pélvico longitudinal; IPRP – índice de profundidade relativa do peito; ICR – índice corporal de vantagem; IDT – índice dáctilo-torácico; IDC – índice dáctilo-costal; IECN – índice espessura relativa da canela. Os valores das correlações entre os diferentes índices estudados, foram reduzidos, e 22% revelaram-se não significativas. A maioria das correlações indicou valores inferiores a 0,50 (93%). As correlações mais elevadas verificaram-se entre o índice torácico e dáctilo-costal (-0,86), entre o pélvico e pélvico transversal (0,77), entre o dáctilo-torácico e dáctilo-costal (0,63), entre o corporal e corporal de vantagem (-0,62) e entre o dáctilotorácico e de espessura relativa da canela (0,58). 3.6.1.7 Componentes Principais Com o teste de Bartlett obteve-se um valor elevado e significativo, revelando a existência de correlações importantes entre as medidas biométricas. Para comparar os coeficientes de correlação observados com os coeficientes de correlação parciais, utilizou-se a medida de adequação da amostra de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO), tendo-se obtido um valor satisfatório para as medidas (0,807) e reduzido para os índices (0,302) (Quadro 3.13). Perante estes resultados, a matriz de dados das medidas biométricas é adequada para a realização da análise de componentes principais. Quadro 3.13 Medida de adequação da amostra KMO e teste de Bartlett. Indicador Medida de Kaiser-Meyer-Olkin Teste de Bartlett 2 aproximado GL Sig. Medidas (1054 vacas) 0,870 9565,17 91 0,001 Índices (1054 vacas) 0,302 11542,43 55 0,001
107 No quadro 3.14 apresentam-se as correlações fenotípicas para o conjunto das 14 medidas biométricas analisadas, em 1054 vacas da raça Holstein Frisia. Quadro 3.14 Correlações fenotípicas entre as medidas biométricas Medidas AMDO AGAR AISQ PRPEITO CTRO CGAR CCAB LCAB LPEITO LBIIL LBIISQ PCAN PTOR ACER 0,87 0,76 0,61 0,68 0,50 0,57 0,41 0,14 0,22 0,55 0,38 0,44 0,59 AMDO 0,85 0,61 0,61 0,44 0,54 0,37 0,13 0,21 0,46 0,35 0,39 0,52 AGAR 0,76 0,51 0,45 0,51 0,32 0,09 0,15 0,38 0,34 0,41 0,41 AISQ 0,40 0,43 0,38 0,30 0,07 0,09 0,34 0,29 0,35 0,31 PRPEITO 0,56 0,56 0,40 0,21 0,34 0,58 0,40 0,46 0,80 CTRO 0,60 0,41 0,31 0,17 0,54 0,31 0,38 0,49 CGAR 0,46 0,30 0,34 0,55 0,34 0,36 0,59 CCAB 0,42 0,16 0,40 0,26 0,27 0,39 LCAB 0,19 0,19 0,17 0,21 0,31 LPEITO 0,24 0,21 0,24 0,62 LBIIL 0,48 0,41 0,59 LBIISQ 0,33 0,43 PCAN 0,47 ACER – altura à cernelha; AMDO – altura a meio dorso; AGAR – altura à garupa; AISQ – altura isquiática; PRPEITO – profundidade do peito; CTRO – comprimento do tronco; CGAR – comprimento da garupa; CCAB – comprimento da cabeça; LCAB – largura da cabeça; LPEITO – largura do peito; LBIIL – largura bi-iliaca; LBIISQ – largura bi-isquiática; PCAN – perímetro da canela; PTOR – perímetro torácico. Nível de significância: *** P<0,001 As correlações foram todas significativas (P<0,001), sendo a maioria de valor reduzido a médio, apresentando 71% destas valores inferiores a 0,50. Apenas 5,5% são consideradas elevadas (R≥0,70), seguindo por ordem decrescente a seguinte ordem de grandeza: entre a altura à cernelha e a altura a meio dorso (0,87), entre a altura a meio dorso e a altura à garupa (0,85), entre a profundidade do peito e o perímetro torácico (0,80), entre a altura à cernelha e a altura à garupa (0,76) e entre a altura à garupa e a altura isquiática (0,76). Das correlações obtidas entre as diferentes mensurações com valor mais elevado, destaca-se a relação entre alturas e perímetros, traduzindo um desenvolvimento harmonioso entre as diferentes regiões do bovino. É de realçar o relacionamento próximo entre as alturas à cernelha, meio dorso, garupa e isquiática. No Quadro 3.15 apresentam-se os resultados da análise de componentes principais das diferentes medidas corporais. Quando considerados os dois componentes no seu conjunto expressam 58,0% da variabilidade total.
108 Quadro 3.15 Componentes principais das medidas corporais (n = 1054 vacas). Carateres Componente 1 Componente 2 Comunalidades ACER 0,840* 0,334 0,817 AMDO 0,873* 0,241 0,821 AGAR 0,917* 0,115 0,854 AISQ 0,826* 0,043 0,685 PRPEITO 0,534* 0,629* 0,682 CTRO 0,467* 0,535* 0,504 CGAR 0,469 0,616* 0,599 CCAB 0,288 0,538* 0,372 LCAB -0,083 0,610* 0,379 LPEITO -0,022 0,647* 0,419 LBIIL 0,430 0,601* 0,546 LBIISQ 0,335 0,448 0,313 PCAN 0,409 0,440 0,361 PTOR 0,347 0,806* 0,770 Valores próprios 6,548 1,573 %variância explicada 46,78 11,24 %variância acumulada 46,78 58,01 ACER – altura à cernelha; AMDO – altura a meio dorso; AGAR – altura à garupa; AISQ – altura isquiática; PRPEITO – profundidade do peito; CTRO – comprimento do tronco; CGAR – comprimento da garupa; CCAB – comprimento da cabeça; LCAB – largura da cabeça; LPEITO – largura do peito; LBIIL – largura bi-iliaca; LBIISQ – largura bi-isquiática; PCAN – perímetro da canela; PTOR – perímetro torácico. * Valores superiores a 0,50 O primeiro componente representa 46,8% da variabilidade, sendo dois coeficientes de valor negativo (LCAB e LPEITO). As variáveis mais correlacionadas com este fator são as alturas à cernelha, meio dorso, garupa e isquiática, profundidade do peito e comprimento do tronco. O segundo componente representa 11,2% da variabilidade total, sendo as medidas mais importantes o perímetro torácico, os comprimentos, larguras e a profundidade do peito. Foi possível constatar também que as medidas de altura e o perímetro torácico apresentam uma forte relação (comunalidades elevadas) com os componentes analisados. Na projecção das variáveis no plano definido pelos dois primeiros componentes principais (Figura 3.10), salienta-se a existência de dois valores negativos (larguras da cabeça e do peito) no segundo componente principal. O conjunto das medidas de altura consegue distinguir-se sobre o primeiro componente principal afastado da origem. Um segundo grupo composto pela profundidade do peito, largura bi-iliaca, comprimentos da garupa e do tronco encontra-se afastado da origem e do primeiro componente principal. Por outro lado as variáveis correspondentes aos perímetros torácico, da canela, largura biisquiática e comprimento da cabeça aproximam-se do segundo componente principal, explicando uma causa independente de variação.
109 Figura 3.10 Projeção das variáveis originais sobre os eixos definidos pelos dois primeiros componentes principais 3.6.2 Efeito da classe de produção de leite Os animais foram divididos em três classes de produção de leite (Figura 3.11), para avaliar o seu efeito nas medidas corporais das vacas leiteiras. 7780 9708 11762 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 1 2 3 Leite (kg) Classe de produção de leite aos 305 dias Figura 3.11 Produção média de leite em função das classes aos 305 dias Observaram-se produções aos 305 dias de 7780, 9708 e 11762 kg de leite para a 1ª, 2ª e 3ª classe respetivamente.
110 3.6.2.1 Alturas Quadro 3.16 Estatística descritiva das alturas em função das classes de produção Medida Classe prod 305 D N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) ACER <9000 357 140,42a4,61 124,00 155,00 3,28 [9000 - 10500] 342 140,87a 4,61 129,00 154,00 3,27 >10500 355 142,13b4,77 129,50 158,00 3,36 Sig. *** Total 1054 141,144,72 124,00 158,00 3,34 AMDO <9000 357 141,34a4,74 123,00 155,00 3,35 [9000 - 10500] 342 141,83a4,66 129,00 160,00 3,29 >10500 355 143,16b4,72 129,00 157,00 3,30 Sig. *** Total 1054 142,114,77 123,00 160,00 3,36 AGAR <9000 357 143,37a4,61 125,00 156,00 3,22 [9000 - 10500] 342 143,97a 4,30 130,00 160,00 2,99 >10500 355 145,13b4,30 132,00 162,00 2,96 Sig. *** Total 1054 144,164,47 125,00 162,00 3,10 AISQ <9000 357 138,88a5,19 119,50 152,50 3,74 [9000 - 10500] 342 139,41a4,55 125,00 153,00 3,26 >10500 355 140,60b4,36 126,00 151,50 3,10 Sig. *** Total 1054 139,634,77 119,50 153,00 3,42 PRPEITO <9000 357 75,48a3,69 64,00 87,00 4,89 [9000 - 10500] 342 76,22a3,36 66,00 85,00 4,41 >10500 355 77,34b3,37 65,00 88,00 4,36 Sig. *** Total 1054 76,343,56 64,00 88,00 4,66 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS: não significativo ACER – altura à cernelha; AMDO – altura a meio dorso; AGAR – altura à garupa; AISQ – altura isquiática; PRPEITO – profundidade do peito. Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b) são significativamente diferentes (P<0,001). Para todas as medidas de altura (Quadro 3.16) não se verificaram diferenças significativas (P0,05) entre as duas primeiras classes de produção, apesar da superioridade, em valor absoluto, das vacas mais produtivas. No entanto encontraram-se diferenças significativas (P<0,001) entre as duas classes mais baixas relativamente à mais elevada, ou seja animais com produções superiores a 10500 kg de leite são os mais altos.
111 3.6.2.2 Comprimentos Quadro 3.17 Estatística descritiva dos comprimentos em função das classes de produção Medida Classe prod 305 D N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) CTRO <9000 357 168,95a8,59 142,00 197,00 5,08 [9000 - 10500] 342 170,18a7,90 148,00 197,00 4,64 >10500 355 173,38b7,80 152,00 194,00 4,50 Sig. *** Total 1054 170,848,31 142,00 197,00 4,86 CGAR <9000 357 53,84a2,79 47,00 62,00 5,18 [9000 - 10500] 342 54,00a2,90 43,00 65,00 5,37 >10500 355 54,97b2,71 48,00 64,00 4,93 Sig. *** Total 1054 54,272,84 43,00 65,00 5,23 CCAB <9000 357 51,77a2,19 46,50 57,00 4,23 [9000 - 10500] 342 51,80a1,93 46,00 58,00 3,73 >10500 355 52,12b2,12 46,00 59,00 4,07 Sig. * Total 1054 51,902,09 46,00 59,00 4,03 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS não significativo CTRO – comprimento do tronco; CGAR – comprimento da garupa; CCAB – compimento da cabeça; Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b) são significativamente diferentes. As medidas de comprimento (Quadro 3.17) mostraram idêntica tendência, com diferenças (P<0,001) em todas as medidas, entre as duas primeiras classes relativamente à terceira, destacando-se o comprimento do tronco ao registar uma diferença superior a 4 cm em média, em que animais mais produtivos (>10500 kg) são também os mais compridos. 3.6.2.3 Larguras Quadro 3.18 Estatística descritiva das larguras em função das classes de produção Medida Classe prod 305 D N MédiaDP Mínimo Máximo CV (%) LCAB <9000 357 21,291,24 17,00 25,00 5,82 [9000 - 10500] 342 21,301,20 18,00 25,00 5,63 >10500 355 21,431,23 17,00 25,00 5,74 Sig. NS Total 1054 21,341,22 17,00 25,00 5,72 LPEITO <9000 357 48,234,88 37,00 77,00 10,12 [9000 - 10500] 342 48,034,59 36,00 73,00 9,56 >10500 355 48,664,24 36,00 70,50 8,71 Sig. NS Total 1054 48,314,58 36,00 77,00 9,48 LBIIL <9000 357 54,78a4,26 41,00 73,00 7,78 [9000 - 10500] 342 55,54a3,98 45,00 67,00 7,17 >10500 355 57,37b3,84 47,00 68,00 6,69 Sig. *** Total 1054 55,904,17 41,00 73,00 7,46 LBIISQ <9000 357 25,04a2,64 17,00 34,00 10,54 [9000 - 10500] 342 25,19a2,45 18,00 34,00 9,73 >10500 355 25,99b2,42 19,00 33,00 9,31 Sig. *** Total 1054 25,412,54 17,00 34,00 10,00 Sig.: Nível de significância *** P<0,001; ** P<0,01; * P<0,05; NS não significativo LCAB – largura da cabeça; LPEITO – largura do peito; LBIIL – largura bi-iliaca; LBIISQ – largura bi-isquiática Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b) são significativamente diferentes (P<0,001).
118 esta medida entre todas as classes de lactação, com um incremento de 9 cm e de 3 cm da primeira para a segunda e desta para a terceira classe de lactação respetivamente, assinalando que os animais se mantêm em crescimento até pelo menos à quarta lactação. O aumento do tamanho das vacas traz vantagens à produção de leite, apesar do consequente efeito negativo na longevidade, fertilidade e bem-estar animal. Poderá todavia, ao longo do desenvolvimento do indivíduo, contrariar-se essa tendência, através de uma idade à primeira inseminação mais precoce e sistema de alimentação uniformizado. Sob o ponto de vista produtivo, a fêmea recomendada terá tamanho grande, no entanto não demasiadamente elevado que venha a comprometer parâmetros reprodutivos de saúde e bem-estar animal. Para uma melhor caraterização morfológica da raça Holstein Frísia procedeu-se ao cálculo de onze índices (etnológicos e funcionais), a partir das catorze mensurações recolhidas, relacionando as medidas de altura, largura, comprimento e perímetro dos animais estudados. O índice corporal (Quadro 3.10) foi de 82,72% e apresentou diferenças (P<0,001) entre as duas primeiras classes de lactação relativamente à terceira, com tendência decrescente de valores absolutos, que poderá ser explicada por um forte acréscimo do perímetro torácico, que não foi acompanhado pelo proporcional incremento do comprimento do tronco em função da idade dos animais. Esta circunstância leva a que a vaca leiteira da raça Holstein Frísia seja considerada de proporções longilíneas e tido como um animal esguio e anguloso, com boa capacidade respiratória enquadrado perfeitamente na descrição de aptidão galactófora, com valor compreendido entre 78 a 88, conforme referido por Aparício (1947). Este índice corporal é inferior ao observado por Araújo (2005) para a raça Minhota (87,36%), cujo melhoramento genético tem sido essencialmente dirigido para a produção de carne. O índice torácico (63,32%, Quadro 3.10) apesar de apresentar uma ligeira diminuição em função da idade (1%), não revelou diferenças (P>0,05) entre as classes de lactação, mostrando neste caso um crescimento proporcional entre a largura do peito e a sua profundidade, com valores ainda assim ligeiramente inferiores à raça Minhota (64,61%) (Araújo, 2005), o que vem demonstrar um formato de tórax elíptico nos biótipos leiteiros, comparativamente aos biótipos de carne que são mais circulares. E segundo Sánchez (2002) vai de encontro ao animal carateristicamente de aptidão leiteira e confirma o tipo longilíneo. Os índices funcionais (Quadro 3.11) ou de avaliação de aptidões foram calculados para visualizar a capacidade para produção de leite da raça Holstein Frísia.
119 O índice cefálico (Quadro 3.11) não revelou diferenças (P>0,05) entre classes de lactação, uma vez que a variação quer da largura como do comprimento da cabeça é reduzida entre animais, mesmo em função da idade, tendo-se cifrado em 41,14%, valor que revela, tal como já foi mencionado cabeça do tipo dolicocéfala. O índice com maior destaque e com valor mais elevado (103,06%) na raça Holstein Frisia foi o pélvico, que relaciona largura e comprimento da garupa, tendo apresentado diferenças (P<0,001) entre todas as classes de lactação. O melhoramento genético efetuado na raça Holstein Frísia ao longo de décadas tem contribuído para o aumento da largura entre os ossos ilíacos, o que consubstancia maior capacidade do animal em albergar um úbere de maiores dimensões com reflexos notórios na produtividade da raça e ainda na facilidade de parto. Este índice é 11% superior ao encontrado por Araújo (2005) na raça Minhota. O índice pélvico transversal que também revelou diferenças (P<0,001) entre todas as classes de produção, demonstra que a largura da garupa se mantém em crescimento até pelo menos à quarta lactação, tendo-se cifrado em 39,6%, ligeiramente superior à raça Minhota, atestando também a evidência de facilidade de parto nesta raça, mesmo quando cruzada com raças de aptidão cárnea. Por outro lado o índice pélvico longitudinal, que relaciona o comprimento da garupa com a altura à cernelha, apenas apresentou diferenças significativas entre a primeira classe de lactação e as restantes, mas revelou-se interessante (38,46%), indicando tratar-se de animais longilíneos e portanto enquadrados no protótipo morfo-funcional do bovino leiteiro. Os índices de profundidade relativa do peito e corporal de vantagem, com valores de 54,09% e 82,75% respetivamente na raça Frísia, ligeiramente superiores à raça Minhota, resultam de valores bastante elevados quer para a profundidade do peito como para a altura à cernelha, demonstrando grande amplitude da cavidade torácica, indiciando boas caraterísticas para a produção de leite, assim como extremidades muito desenvolvidas, possibilitando a caraterização da Frísia como alta, comprida e de elevada corpulência. A raça possui uma excelente profundidade do peito e a altura do tórax (76,34 cm) é superior à altura entre a extremidade do esterno e o solo (64,8 cm). Um índice corporal de vantagem elevado evidencia a importância da altura à cernelha dos animais desta raça, quando o comprimento do tronco é simultaneamente um vetor principal dos programas de seleção e melhoramento genético. Por fim os índices que relacionam o perímetro da canela com outras medidas (dáctilotorácico, dáctilo-costal e de espessura relativa da canela) são todos inferiores à maioria das raças de carne, em virtude do perímetro da canela ser também inferior na raça Frisia, em média cerca de 1 cm, quando comparado com Araújo (2005) para a raça Minhota. O IDT, utilizado para a valorização da aptidão leiteira, relacionando a proporcionalidade entre os metacarpos e a capacidade torácica (maior em animais de pastoreio) revela uma
120 raça Frísia proporcionalmente mais favorável para sistemas intensivos e confere uma ideia da “finura” do esqueleto do animal, dado que o valor obtido (9,36%) é próximo de 10 (Queinnec e Darre, 1971). Relativamente às correlações entre os índices (Quadro 3.12), constatou-se que 22% não são significativas e nas que mostraram significância os valores dos coeficientes de correlação são baixos, indicando a independência entre os índices morfológicos, em que 93% destas correlações são inferiores a 0,50. As correlações fenotípicas mais elevadas produziram-se entre o índice torácico e dáctilocostal (-0,86), entre o corporal e corporal de vantagem (-0,62), sendo estas negativas e também entre o pélvico e pélvico transversal (0,77), entre o dáctilo-torácico e dáctilocostal (0,63) e entre o dáctilo-torácico e de espessura relativa da canela (0,58). Araújo (2005) na raça Minhota com 503 animais obteve igualmente correlações mais importantes entre estes índices, mas com valores ligeiramente inferiores: IT/IDC = - 0,79; IC/ICR = - 0,59; IP/IPT = 0,73; IDT/IDC = 0,64; IDT/IECN = 0,69, à exceção dos dois últimos, que resultaram um pouco superiores. Na análise de componentes principais e começando pelas correlações fenotípicas entre as medidas corporais observadas (Quadro 3.14), a raça Frísia denota de um modo geral uma forma pouco harmoniosa. Todas as correlações são significativas, contudo 71% apresentam valores inferiores a 0,50. As correlações mais elevadas destacam-se entre a altura a meio dorso e a altura à garupa (0,85), entre a profundidade do peito e o perímetro torácico (0,80), entre a altura à cernelha e a altura à garupa (0,76) e entre a altura à garupa e a altura isquiática (0,76). As relações encontradas, especialmente as existentes entre as alturas dos animais (altura cernelha, meio dorso, garupa e isquiática) e a capacidade torácica (perímetro torácico, largura do peito) revelam-se interessantes quando estamos perante uma raça bovina melhorada para sistemas produtivos de caraterísticas intensivas, criada em ambientes controlados, implicando menores necessidades motoras dos animais para obtenção de alimento. Será de realçar também correlações superiores a 0,50 entre o comprimento da garupa e a largura bi-iliaca, assim como entre aquele, a altura à cernelha e perímetro torácico, indicando um desenvolvimento integrado das diferentes regiões, tendo em vista a capacidade reprodutiva da fêmea e mais especificamente a facilidade de parto. As correlações relativamente baixas, entre as diferentes alturas e o perímetro torácico (0,31 a 0,59) poderão traduzir um desenvolvimento pouco proporcional do corpo dos animais. O indicador que eventualmente contradiz esta afirmação, situa-se ao nível do tórax, ao observar-se que o coeficiente de correlação é elevado, entre a profundidade do peito e o perímetro torácico.
121 As correlações obtidas, apesar de significativas (P<0,001) são baixas entre medidas de altura, perímetro e comprimento da garupa, o que reforça a ideia de um desenvolvimento pouco harmonioso entre as diferentes partes constituintes do bovino. A análise de componentes principais veio demonstrar a importância das medidas de altura e comprimento do tronco na compreensão do estudo biométrico de fêmeas da raça Holstein Frisia em diferentes classes de lactação. Os dois componentes principais em conjunto expressam 58,0% da variabilidade total (Quadro 3.15). O primeiro fator representa 46,8% da variabilidade, revelando dois coeficientes de valor negativo (LCAB e LPEITO) e todos os outros positivos, podendo desta forma considerarse como um fator de conformação. As variáveis mais correlacionadas com este fator são as alturas à cernelha (0,84), meio dorso (0,87), garupa (0,92) e isquiática (0,83), profundidade do peito (0,53) e comprimento do tronco (0,47). Em trabalhos citados por Araújo (2005), o primeiro eixo representa na maioria dos casos o tamanho corporal, o perímetro torácico e o peso vivo e em que a variabilidade explicada oscila entre 65% na raça Minhota e 81% na raça Rubia Gallega, portanto superiores aos valores por nós obtidos. O segundo fator que representa 11,2% da variabilidade total expressa fundamentalmente perímetro torácico (0,81), largura do peito (0,65), profundidade do peito (0,63) e comprimento da garupa (0,62). As comunalidades observadas na altura à garupa e no perímetro torácico indicam uma forte relação com os dois primeiros componentes principais, facto extremamente importante na fiabilidade e representatividade de estudos biométricos, baseados nestas duas medidas com recurso a fitas métricas. A seleção realizada pelos criadores, ao longo dos anos, em muito baseada na envergadura e constituição morfológica dos animais, influencia, certamente, estes resultados, privilegiando mais caraterísticas de tipo morfológico a outras, marcadamente étnicas. Na representação gráfica das medidas (Figura 3.10), observa-se nitidamente quatro agrupamentos distintos: 1medidas de altura, que conforme relatado, têm elevadas correlações entre si; 2perímetro torácico, que surge isolado, 3 – Larguras da cabeça e do peito, com valores negativos e 4 – restantes medidas avaliadas, com um subgrupo composto por: profundidade do peito, largura bi-iliaca, comprimentos da garupa e do tronco e outro subgrupo com comprimento da cabeça, largura bi-isquiática e perímetro da canela. A evolução em tamanho dos animais da raça Holstein Frísia estará certamente relacionada com a importação de animais de grande porte e simultaneamente com o melhoramento genético praticado na maioria das explorações leiteiras portuguesas, que encaram o maneio reprodutivo de uma forma muito profissional recorrendo a técnicas de
122 inseminação artificial, transferência de embriões, emparelhamento reprodutivo e utilização de sémen sexado. Outros fatores que poderão ter influenciado a maior corpulência da raça estará relacionado com o maneio na recria, principalmente ao nível da alimentação e a idade dos animais ao primeiro parto. No estudo do efeito da classe de produção de leite nas mensurações das vacas leiteiras foi possível observar, para todas as medidas realizadas, com exceção da largura da cabeça e do peito, a existência de diferenças significativas (P<0,001) entre as duas primeiras classes de produção relativamente à terceira, associando maior produção de leite a animais com maior corpulência. Estes resultados vêm de encontro ao esperado, pois animais com maior capacidade abdominal, sendo geneticamente melhorados para a produção leiteira serão capazes de alcançar melhores produções do que animais com menor estatura. Estes resultados corroboram o mencionado por Roche et al. (2007) e Berry et al. (2007) quando referem que as vacas mais corpulentas do efetivo manifestaram maior produção de leite. E simultaneamente o referido por Sieber et al. (1988) e Bayram et al. (2006), quando referem que vacas maiores e nomeadamente mais altas produziram maior quantidade de leite comparativamente aos animais de menor estatura. As correlações calculadas entre as dimensões dos cubículos e as medidas corporais (Quadro 3.20) foram reduzidas e algumas não significativas (P>0,05). A única correlação significativa, entre a largura do cubículo e a largura bi-iliaca, apresenta valor muito reduzido (0,09), levando-nos a afirmar que os cubículos são construídos de uma forma padronizada, sem ter em conta as caraterísticas morfológicas dos animais de cada efetivo. Perante estes resultados depreende-se que não existe adequação do dimensionamento dos cubículos ao tamanho corporal dos animais, podendo este fator ter influência negativa sobre a qualidade do descanso dos mesmos, principalmente das vacas de maior corpulência. O estudo biométrico permitiu efetuar uma caraterização da raça Holstein Frisia, em diferentes classes de lactação e classes de produção de leite, revelando ser um método interessante na estimativa de distâncias entre animais e mais especificamente no enquadramento da raça face à sua evolução. Esta metodologia assume maior importância na medida em que os animais são criados maioritariamente em sistemas intensivos, permanentemente estabulados, em que as mensurações animais alcançam crucial valor no dimensionamento das instalações animais, nomeadamente na arquitetura dos cubículos. Por outro lado, caraterísticas de conformação e peso têm especial preponderância no estudo biométrico da raça, em nítida vantagem sobre as caraterísticas étnicas, permitindo uma redução das variáveis estudadas e a sua adaptação a cada uma destas.
123 3.8 CONCLUSÕES - A raça Holstein Frisia revelou um incremento em todas as suas medidas corporais, principalmente ao nível da garupa, que evidenciou também menor inclinação, justificando a tendência em selecionar animais com um terço posterior muito alto e largo. - Por classes de lactação verificaram-se diferenças significativas (P<0,001) na maioria das medidas, apresentando as vacas de primeira lactação valores inferiores, atribuídos ao desenvolvimento corporal dos animais. - A altura isquiática revelou-se inferior nas vacas com quatro ou mais lactações, o que poderá estar relacionado com o encurvamento da linha superior dos animais com o decorrer da idade. - A altura à garupa (144,16±4,47 cm) e o comprimento do tronco (170,84±8,31 cm), sendo mensurações facilmente recolhidas e pela proporcionalidade que apresentam relativamente a outras medidas, são referências muito importantes em estudos biométricos e no dimensionamento de cubículos nas instalações pecuárias. - O índice corporal obtido (82,72±4,15%), e as diferenças (P<0,001) observadas entre as duas primeiras classes de lactação comparativamente à terceira, que decresce ligeiramente, demonstra a falta de proporcionalidade entre o perímetro torácico e o comprimento do tronco. - O índice pélvico observado (103,06±6,54%) denota grande capacidade da garupa, principalmente em largura e o índice corporal de vantagem (82,75±3,59%) bastante elevado, traduz a importância da altura à cernelha na raça Holstein Frisia. Os índices obtidos permitem confirmar a aptidão marcadamente leiteira da raça Holstein Frisia. - As correlações fenotipicas mais elevadas (0,70 a 0,87) observaram-se entre as diferentes medidas de altura e entre a profundidade do peito e o perímetro torácico. - Na análise dos componentes principais o primeiro componente representa 46,8% da variabilidade, em que as medidas mais correlacionadas são as alturas, profundidade do peito e comprimento do tronco. O segundo componente representa 11,2% e expressa-se através do perímetro torácico, comprimentos e larguras. Nas comunalidades as medidas de altura revelaram uma forte relação com o perímetro torácico. - Encontrou-se um efeito da classe de produção de leite nas medidas biométricas, em que as vacas com produções aos 305 dias inferiores ou iguais a 10500 kg são significativamente (P<0,001) menos corpulentas, comparativamente a animais com produções superiores aquele limite. - As correlações entre as dimensões dos cubículos e as medidas corporais das vacas foram reduzidas, nomeadamente entre o comprimento do cubículo e do tronco dos animais.
124
125 3.9 BIBLIOGRAFIA Ali, T.E., Burnside, E.B. e Schaeffer, L.R., 1984. Relationship Between External Body Measurements and Calving Difficulties in Canadian Holstein-Friesian Cattle. J. Dairy Sci. 67: 3034-3044. Almeida, J.C.M., 1987. Contribuição para o estudo da raça bovina Maronesa. Relatório final de estágio, UTAD, Vila Real. Alves, V.C., 1993. Estudos sobre “A raça bovina Maronesa” Situação atual e perspectivas zootécnicas. Tese de Doutoramento. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Vila Real. ANABLE (Associação Nacional para o Melhoramento dos Bovinos Leiteiros), 2011. Publicação de resultados. Anderson, N., 2008. Tie stall dimensions for dairy cows. Site disponível: Ontario Ministry of Agriculture, Food and Rural Affairs, Canadá (Última atualização: 31 de Janeiro de 2008), URL: http://www.omafra.gov.on.ca/english/livestock/dairy/facts/info_tsdimen.htm. Consultado em 14/11/2011. Aparício, G.S., 1947. Exterior de los grandes animales domésticos. Ed. Imprensa Moderna. Córdoba. APCRF, 2004. I Manual de classificação morfológica. Cofinanciado no âmbito da Medida 10 - Programa AGRO. Araújo, J.P., Machado, H., Correia, N., Fontes, R., Cantalapiedra, J., Iglesias, A., Sanchez, L., 2004. Caraterísticas zoométricas de vacas de raça Minhota. IV Congresso Ibérico Sobre Recursos Genéticos Animais. Ponte de Lima. Araújo, J.P.P., 2005. Caracterización etnológica, genética y productiva de la raza bovina Minhota. Tese de Doutoramento. Universidade Santiago de Compostela. Batra, T.R. e Touchberry, R.W., 1974. Weights and Body Measurements of Purebred Holstein and Guernsey Females and Their Crossbreds. J. Dairy Sci. 57: 842-848. Bayram, B., Guler, O., Yanar, M. e Akbulut, O., 2006. Relationships among Body Weight, Body Measurements and Estimated Feed Efficiency Characteristics in Holstein Friesian Cows. Journal of Tekirdag Agricultural Faculty, 3 (1): 64-67. Berry, D.P., Buckley, F. e Dillon, P., 2007. Body condition score and live-weight effects on milk production in Irish Holstein-Friesian dairy cows. Animal, 9: 1351-1359. Brito, A.N., 2002. Contribuição para o estudo de algumas raças bovinas autóctones do Noroeste de Portugal: análise do sistema produtivo e caraterização biométrica, produtiva,
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237 CAPÍTULO 7 INDICADORES AMBIENTAIS E FISIOLÓGICOS NO STRESSE TÉRMICO DOS ANIMAIS
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239 7.1 Introdução As condições ambientais nos alojamentos para vacas leiteiras são de grande importância para o conforto e bem-estar dos animais estabulados, sendo uma condição necessária mas não suficiente para que possam expressar todo o seu potencial produtivo. O stresse térmico resulta do conjunto de condições externas adversas ao animal homeotérmico, provocando um desequilíbrio entre fatores ambientais e o animal que alteram a temperatura corporal do estado de repouso, ou seja, a condição de homeostasia. Os fatores ambientais são um dos principais problemas que prejudicam a produção de leite, sobretudo em vacas de alta produção, que necessitam de maior ingestão de alimentos e consequentemente originam maior produção de calor metabólico. As condições ambientais, nomeadamente temperatura e humidade relativa elevadas provocam nos animais um impacto negativo sobre a produção leiteira, comportamento, saúde e bem-estar. A elevada produção de calor e de vapor de água das vacas leiteiras, tendo em conta o seu tamanho e nível de produção, assim como a grande quantidade de excrementos produzida, que por sua vez fomentam o calor, vapor de água e gases nocivos, são passíveis de prejudicar o conforto térmico dos animais, cuja eficácia dependerá do sistema de eliminação de dejetos instalado. O clima quente e húmido quando associado a instalações deficientemente higienizadas, são fatores que em conjugação se tornam extremamente stressantes para vacas leiteiras e afetam de forma significativa o desempenho produtivo dos animais. As condições climáticas ideais para produção de leite ocorrem em ambientes com temperatura entre 5º e 25ºC, e por isso esta é considerada a zona de conforto térmico da vaca leiteira. A tolerância das vacas a temperaturas abaixo de 5ºC depende da idade e do nível de produção de leite. Uma vaca adulta no pico da lactação é mais tolerante ao frio em função do calor produzido pela fermentação ruminal e metabolismo de nutrientes. Por outro lado, o desempenho das vacas decresce rapidamente à medida que a temperatura ultrapassa os 27ºC, independentemente da idade, fase de lactação e humidade relativa do ar. Na generalidade, é possível afirmar que os animais criados em sistemas intensivos, não possuem os mecanismos fisiológicos necessários para enfrentar o excesso de calor proveniente da combinação de dietas de alta densidade energética (alimento concentrado) e verões com elevadas temperaturas, comparativamente a épocas do ano mais frias de outono e inverno. O stresse térmico desencadeia um balanço energético negativo, reduz a produção de leite e a eficiência reprodutiva, conduzindo a prejuízos para os produtores de leite.
246 A temperatura retal é um indicador de equilíbrio térmico, utilizada para avaliar a influência do ambiente térmico no crescimento, lactação e reprodução de vacas leiteiras (Johnson, 1980; West, 1999). O aumento da temperatura retal até 1ºC é suficiente para reduzir o desempenho na maioria das espécies pecuárias (McDowell et al., 1976), em que a temperatura do corpo, um indicador sensível da resposta fisiológica ao stresse térmico é praticamente constante, em condições normais. Para vacas leiteiras de alta produção em equilíbrio térmico a temperatura retal é independente da temperatura do ar, mas relaciona-se com o metabolismo energético (Martello et al., 2009). Em estudos sobre os ciclos diurnos de temperatura e ingestão de alimento em vacas leiteiras da raça Holstein Frísia, Scott et al. (1983) referem que o arrefecimento noturno é bastante benéfico para o conforto térmico dos animais e também abordaram uma relação negativa entre o consumo de alimento concentrado (kg/dia) e elevadas temperaturas retais. Em climas quentes o arrefecimento noturno pode funcionar como um método natural para aliviar as limitações de termorregulação, contudo raramente é suficiente (Kadzere et al., 2002). Existem diferenças importantes entre raças na sua capacidade de regulação da temperatura retal, sendo em média superior em Bos taurus do que em bovinos Bos indicus, por isso os primeiros são mais sensíveis ao stresse térmico (Finch, 1986). Quando os mecanismos de termólise dos animais homeotérmicos não são eficientes, o calor metabólico conjuntamente com o calor recebido do ambiente torna-se maior que a quantidade de calor dissipado para o ambiente, e em resposta observa-se um aumento da temperatura retal. Com a temperatura corporal mais elevada, o organismo reage aumentando a sudorese e a frequência respiratória para eliminar o excesso de calor. A produção de leite, diminui quando a temperatura do corpo ultrapassa 38,9°C e para cada 0,55ºC de acréscimo da temperatura retal, a produção de leite e a ingestão de alimento sofrem um declínio na ordem de 1,8 e 1,4 kg, respetivamente (Johnson, 1985). 7.9 Frequência respiratória Não existem evidências de diferenças entre raças na resposta respiratória a baixas temperaturas, mas para temperaturas elevadas, Kibler e Brody (1954) mencionam que vacas da raça Jersey, apresentaram taxas de respiração muito mais elevadas do que vacas da raça Holstein Frísia, atribuindo à Jersey maior capacidade para dissipar o calor. Temperatura ambiente elevada induz ajustamentos fisiológicos, incluindo aumento da taxa de respiração (Coppock et al., 1982). Johnston et al. (1959) referem acréscimos de 20 respirações por minuto em condições normais, para 100 respirações por minuto, quando a temperatura ambiente é de 32ºC. Em vacas leiteiras de alta produção em clima subtropical a frequência respiratória foi superior em 50-60 respirações/minuto, quando a
247 temperatura ambiente era superior a 25ºC (Berman et al., 1985). No entanto a humidade relativa também revelou influência na frequência respiratória. Por outro lado Milam et al. (1985) demonstraram que o ato de molhar os animais com água permitiu reduzir a frequência respiratória de 90 para 81 movimentos/minuto. Nos bovinos o aumento da frequência respiratória é acompanhado de incremento da secreção salivar, que também contribui para a evaporação, no entanto esta eliminação de saliva, quando em excesso pode provocar acidose metabólica, pela perda dos tampões de fosfato e de bicarbonato. O aumento da transpiração também provoca perdas elevadas de potássio através do suor (Reece, 2009). 7.10 Efeito do ambiente na produção Os fatores climáticos, como a temperatura do ar, radiação solar, humidade relativa, ventilação e suas interações, muitas vezes limitam o desempenho animal. O ambiente demasiado quente é um fator importante que pode afetar negativamente a produção de leite em vacas leiteiras, especialmente em animais de elevado mérito genético (Kadzere et al., 2002) e apresenta efeitos negativos sobre o bem-estar (Jacobsen, 1996). Torna-se difícil quantificar os efeitos ambientais diretos na produção de leite, tendo em conta que a produtividade dos animais também é afetada por outros fatores, como a alimentação, que pode ser apontado como um dos mais relevantes (Fuquay, 1981). A atividade física também aumenta a temperatura através do calor produzido pelos músculos esqueléticos e tecidos corporais, sendo esta superior para as vacas lactantes, uma vez que a produção de leite está associada a uma grande produção de calor metabólico, tendo estes animais maior dificuldade em dissipar calor (West, 2003). A produção de leite origina o incremento de calor metabólico, devido ao metabolismo de grande quantidade de nutrientes, fazendo com que as vacas de alta produção sejam mais vulneráveis ao stresse térmico do que os animais menos produtivos (Kadzere et al., 2002). Consequentemente, no início da lactação as vacas leiteiras de alta produção são muito sensíveis ao stresse térmico e a sua produção de leite decresce significativamente quando expostas a elevadas temperaturas (Igono e Johnson, 1990), devido aos mecanismos homeostáticos destinados a arrefecer o organismo, refletidos no menor consumo de alimento e aumento da ingestão de água. O stresse calórico afeta o centro de arrefecimento do hipotálamo, responsável pelo centro de saciedade, que por sua vez inibe o centro de apetite e consequentemente reduz a produção de leite (Kadzere et al., 2002). Vários autores mencionaram quebras na produção de leite e na gordura como resultado direto de elevadas temperaturas ambientais. O stresse térmico tem efeitos negativos sobre a função secretora do úbere (Silanikove, 1992) com consequências na capacidade
248 de produção (Kadzere et al., 2002). A este propósito McDowell et al. (1976) referem que a produção de leite decresce cerca de 15%, acompanhado por um decréscimo de 35% na eficiência de utilização de energia para fins produtivos, quando uma vaca Holstein Frisia é transferida de uma temperatura ambiente de 18 para 30ºC. Para além da produção há também alteração da qualidade do leite. Por exemplo McDowell et al. (1976) apontam que a percentagem de gordura e proteína no leite, decresceram 39,7%, e 16,9% respetivamente. O momento da curva de lactação em que a vaca é afetada pelo stresse térmico também revelou influência na produção total de leite, sendo mais sensíveis ao efeito do calor na fase inicial da lactação. O trabalho de Sharma et al. (1983) ilustra muito bem este efeito. Estes autores mencionam que as condições climáticas parecem ter influência máxima durante os primeiros 60 dias de lactação, coincidindo com a fase em que as vacas de alta produção se encontram em balanço energético negativo, compensado através da mobilização de reservas corporais. Também Johnson et al. (1987) observaram que as vacas a meio da lactação, foram as mais sensíveis ao calor em comparação às suas homólogas no início e no fim da lactação. As vacas a meio da lactação, mostraram um maior declínio na produção de leite (-38%) após exposição ao calor. Vacas sob condições climáticas mediterrânicas, paridas no verão demonstraram menor produção de leite por lactação, comparativamente às que fizeram o parto no inverno (Barash et al., 1996). Ao longo dos anos têm sido publicados vários trabalhos que relacionam e quantificam a redução de produção com o aumento de temperatura e de humidade. Por exemplo Ingraham et al. (1979) estimaram uma redução na produção de leite de 0,32 kg por unidade de aumento de ITH, já Ravagnolo et al. (2000) apontam uma redução de 0,2 kg por aumento unitário de ITH acima de 72. A elevação do ITH na redução da produção tem um efeito rápido. De facto Reiczigel et al. (2009) e Solymosi et al. (2010) mostraram que um único dia em que os animais são sujeitos ao stresse térmico, é passível de provocar uma quebra média de 1,5 a 2,0 kg de leite/vaca/dia (5 a 10% da produção diária). No entanto há diferenças da raça na redução de produção de leite em situação de stresse térmico. É o que apontam Sharma et al. (1983) relativamente a vacas da raça Jersey, que se mostraram mais resistentes ao stresse térmico do que vacas da raça Holstein Frisia. Por seu lado Ragsdale et al. (1953) referiram que a produção de leite da raça Holstein Frisia, Jersey e Parda Suíça, quando expostas a temperaturas de 34ºC foi de 63%, 68% e 84%, respetivamente, comparativamente a condições de termoneutralidade.
249 7.11 MATERIAIS E MÉTODOS 7.11.1 Escolha das explorações Para este trabalho selecionaram-se quatro explorações em regime de produção intensiva livre com cubículos, localizadas na região de Entre Douro e Minho. Nenhuma exploração possuía qualquer sistema de ventilação artificial, pelo que as condições ambientais dos estábulos estavam sujeitas apenas a ventilação natural. 7.11.2 Medição de temperatura e humidade relativa Colocaram-se duas sondas (Tinytag ultra 2 - TGU-4500) por exploração para medição da temperatura e humidade relativa, tendo sido fixadas a uma altura de aproximadamente 2 m de altura, localizadas em duas zonas distintas do estábulo, na área dos cubículos e junto à manjedoura. As sondas registaram ambos os parâmetros ambientais com intervalo de tempo de uma hora, entre Janeiro e Dezembro de 2011. 7.11.3 Cálculo do índice de temperatura-humidade O índice de temperatura-humidade (ITH) calculou-se utilizando a equação de Kibler (1964): ITH = 1,8 Ta – (1-RH) (Ta-14,3) + 32, em que Ta é a temperatura ambiente média (ºC) e RH é a humidade relativa média, expressa em percentagem. Espinoza et al. (2011), referem que quando o ITH é superior a 72, as vacas leiteiras de alta produção são muito afetadas, e por isso classificam o ITH das variáveis de resposta em três categorias: <72, ≥72<78 e ≥78. 7.11.4 Indicadores fisiológicos de stresse Simultaneamente recolheram-se indicadores de stresse térmico em 53 animais, em quatro ocasiões diferentes em cada exploração (duas no Verão e duas no Inverno) sempre durante a realização da ordenha da tarde. A temperatura retal foi recolhida através de termómetro introduzido no ânus do animal previamente à realização da ordenha e na mesma altura registou-se a frequência respiratória de cada animal. No final da ordenha registou-se a produção de leite de cada animal. Ainda se obteve a produção total de leite de cada exploração, dos levantamentos de leite realizados durante o ano de 2011. Quadro 7.2 Explorações visitadas, efetivo animal e número de animais observados. Concelhos Efetivo em produção Animais observados Repetições Barcelos 240 13 4 Barcelos 48 16 4 Ponte de Lima 52 13 4 Viana do Castelo 56 11 4 3 396 53 16
250 7.11.5 Indicador de condição corporal A condição corporal (CC) dos animais foi avaliada tendo por base o sistema proposto por Ferguson et al. (1994), baseado numa escala de 0 a 5, subdividida em 0,25 centesimais, em que avalia o estado corporal, particularmente o tecido adiposo das zonas lombar e pélvica da vaca. Vacas muito magras são pontuadas com 1, vacas magras com 2, vacas médias com 3, vacas gordas com 4 e vacas obesas com 5. 7.11.6 Análise estatística Para a análise estatística recorreu-se ao programa SPSS para Windows versão 19 (SPSS.Inc.). Fez-se o cálculo da estatística descritiva, tanto de tendência central (média), como de dispersão (desvio padrão e coeficiente de variação) nos diferentes indicadores. Elaboraram-se gráficos e histogramas para melhor compreensão dos resultados obtidos. Aplicaram-se modelos de regressão linear, análise de variância simples, dupla e tripla, com interações e covariável em algumas análises. Para a comparação múltipla de médias aplicou-se o teste Tuckey. 7.11.6.1 Parte I Para além da análise descritiva foi aplicado um modelo de variância simples para estudar o efeito da estação do ano nos indicadores ambientais, temperatura média, humidade média e ITH nos estábulos, durante o período experimental. Procedeu-se ainda a uma variância tripla (com interações) para investigar o efeito da localização da sonda, estação e período do dia nos fatores ambientais ITH, humidade e temperatura. 7.11.6.2 Parte II Foram considerados os períodos do dia das 0 às 11 horas e das 11 às 17 horas. Esta divisão em dois períodos justifica-se pelo facto das condições de temperatura e humidade serem marcadamente diferentes, influenciando a produção média diária de leite. Para cada um dos períodos foi analisado o efeito da exploração e da estação na produção de leite, tendo-se introduzido o ITH como covariável. Foram ainda realizadas análises de regressão simples entre a produção de leite e o ITH no período entre as 11 e 17 horas e analisados os declives. 7.11.6.3 Parte III Para o estudo do efeito da exploração e da estação do ano nos indicadores fisiológicos foi aplicado um modelo de análise de variância dupla. Para o estudo do efeito da classe de ITH, número de lactação e fase de lactação nos indicadores de produção
251 (produção/ordenha, produção/dia, produção aos 305 dias, gordura e proteína), na condição corporal e nos indicadores fisiológicos (temperatura retal e frequência respiratória) foi aplicado um modelo de análise de variância tripla com a covariável dias de lactação e a interação entre dias de lactação e fase de lactação. A relação entre os indicadores ambientais (temperatura ambiente, humidade e ITH) e os indicadores fisilógicos (temperatura retal e frequência respiratória) foi alvo de uma análise de correlação. A relação entre os indicadores fisiológicos temperatura retal e frequência respiratória foi descrita por um modelo de regressão linear.
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253 7.12 RESULTADOS Os resultados são apresentados de acordo com a metodologia descrita, ou seja por partes para melhor perceção das pesquisas efetuadas. 7.12.1 Parte I Nesta parte apresentam-se os resultados de temperatura, humidade e ITH, nas diferentes estações do ano, em seis períodos do dia e também para a zona da manjedoura e dos cubículos, para as quatro explorações em estudo. Quadro 7.3 Efeito da estação do ano nos indicadores ambientais dos estábulos durante o período experimental (ano de 2011) Parâmetros primavera verão outono inverno N 17664 17664 17472 21106 Temperatura mínima (ºC) 7,4 11,2 3,7 0,6 Temperatura máxima (ºC) 34,4 37,1 33,4 26,5 Temperatura média (ºC) 19,5a±5,2 22,1b±4,9 15,8c±5,3 11,6d±4,2 Dias de temperatura >25ºC 16,3 24,4 6,9 0,3 Humidade mínima (%) 21,4 26,6 27,0 26,0 Humidade máxima (%) 98,1 95,3 99,3 98,9 Humidade média (%) 71,3a±18,6 70,1a±14,9 79,4b±15,0 80,4b±16,3 ITH 64,7a±6,7 68,8b±6,0 59,5c±7,6 52,8d±6,7 Nº de dias ITH>72 15,8 28,4 6,9 0,1 ITH – índice de temperatura–humidade; Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b≠c≠d) são significativamente diferentes (P<0,05). Constataram-se diferenças significativas (P<0,05) na temperatura entre todas as estações do ano. A temperatura mais baixa observou-se no inverno (11,6±4,2ºC), tendo este valor duplicado no verão (22,1±4,9ºC), com temperaturas máximas de 37ºC. Na primavera e outono apesar da temperatura média ser de 19,5 e 15,8ºC respetivamente, encontraram-se valores máximos de aproximadamente 34ºC. Ao longo de todo o ano contabilizaram-se 48 dias em que a temperatura subiu acima de 25ºC, com maior enfase para as estações do verão e da primavera com 24 e 16 dias respetivamente. Por outro lado a humidade relativa não revelou diferenças (P>0,05) entre primavera e verão e entre outono e inverno, tendo oscilado apenas cerca de 10 pontos percentuais entre estes dois grupos de estações, com valores de 70,1±14,9% e 80,4±16,3% no verão e inverno respetivamente. Como era esperado para o ITH encontraram-se diferenças (P<0,05) entre todas as estações, com o valor inferior no inverno (52,8±6,7) e o mais elevado no verão
254 (68,8±6,0). Este indicador foi superior a 72 em 51 dias do ano, tendo totalizado maior número de dias no verão (28 dias) e na primavera (16 dias). Quadro 7.4 Efeito da localização, da estação e do período do dia nos fatores ambientais Efeitos Indicadores N ITH Humidade Temperatura Local da sonda manjedoura 36953 61,5a 77,3a 17,2a cubículos 36953 61,4b 74,0b 17,2a Estação do ano primavera 17664 64,7a 71,3a 19,5a verão 17664 68,8b 70,1b 22,1b outono 17472 59,5c 79,4c 15,8c inverno 21106 52,8d 80,4d 11,6d Período do dia P1 12304 57,0a 85,4a 13,9a P2 12304 55,6b 85,6a 13,1b P3 12322 61,9c 73,5b 17,5c P4 12328 68,0d 60,8c 22,2d P5 12332 66,0e 67,0d 20,5e P6 12316 60,2f 81,5e 16,0f Probabilidade Localização da sonda 0,0109 <0,0001 0,6553 Estação 0,0001 0,0001 0,0001 Período do dia 0,0001 0,0001 0,0001 Sonda cubículos x estação <0,0001 <0,0001 <0,0001 Sonda cubículos x período do dia <0,0001 <0,0001 <0,0001 Estação x período do dia <0,0001 <0,0001 <0,0001 S. cubículos x estação x periodo dia <0,0001 <0,0001 <0,0001 EPM Localização da sonda 0,028 0,095 0,020 Estação 0,040 0,135 0,028 Período do dia 0,049 0,165 0,034 Sonda cubículos x estação 0,057 0,190 0,040 Sonda cubículos x período do dia 0,069 0,233 0,049 Estação x período do dia 0,099 0,330 0,069 S. cubículos x estação x periodo dia 0,141 0,466 0,097 ITH – índice de temperatura-humidade; EPM – erro padrão da média. Nas componentes analisadas valores de letra distinta (a≠b≠c≠d≠e≠f) são significativamente diferentes (P<0,05). Encontraram-se diferenças significativas (P<0,05) para o ITH e a humidade relativa relativamente à localização das sondas, com valores mais elevados na zona da manjedoura. Também se observou um efeito da estação do ano (P=0,001) para todos os parâmetros analisados, com valores mais elevados de temperatura (22,0ºC) e ITH (68,8) no verão e de humidade relativa (81,7%) no inverno. Os diferentes períodos do dia analisados também mostraram diferenças (P<0,05), com exceção do P1 e P2 para a humidade relativa. Os valores mais elevados de temperatura (22,2ºC) e ITH (68,0) ocorreram no P4 e de humidade relativa (85,6) no P2.
255 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez Valores Meses Humidade ITH Temperatura Figura 7.1 Variação da humidade, temperatura e ITH ao longo do ano de 2011 A humidade relativa oscilou entre 67% em junho e 87% em dezembro, enquanto a temperatura atingiu o valor mais baixo em dezembro (11,3ºC) e o mais elevado (22ºC) em julho e agosto. O ITH que depende diretamente dos dois parâmetros anteriores oscilou sobretudo em função da temperatura, tendo atingido os valores de 52,5 em dezembro e 69 em agosto (Figura 7.1). 45 50 55 60 65 70 75 80 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 ITH Horas do dia primavera verão outono inverno Figura 7.2 Variação do ITH ao longo do dia por estação Observou-se uma tendência de valores de ITH independente ao longo do dia para cada estação do ano. Em qualquer fase do dia o ITH é sempre inferior no inverno, seguindo-se o outono, primavera e tendo o verão apresentado os valores mais elevados para qualquer hora do dia (Figura 7.2).
262
263 7.13 DISCUSSÃO O bem-estar das vacas leiteiras e o seu desempenho produtivo estão muito relacionados com as condições ambientais do estábulo, principalmente nas épocas de maior calor. De facto como vários trabalhos mostram de forma clara, elevada temperatura do ar, sobretudo quando associada a alta humidade relativa e intensa radiação solar são responsáveis pela diminuição na produção de leite, com maior impacto em vacas de alta produção (Bouraoui et al., 2002; Kadzere et al., 2002; West, 2003; Bohmanova et al., 2007; Bryant et al., 2007; Rhoads et al., 2009; Wheelock et al., 2010; André et al., 2011). No geral os resultados encontrados no presente trabalho vão de encontro ao concluído por aqueles autores para as vacas leiteiras. Na verdade a elevada especialização destes animais na produção de leite, traduzida pela grande eficiência na utilização de alimentos, desencadeia alta produção de calor metabólico, tornando-se mais sensíveis e mais suscetíveis ao stresse térmico. Para além disso em consequência da sua ação sobre o consumo de alimentos, o stresse térmico provoca efeitos marcantes sobre o metabolismo da glândula mamária e na composição do leite. Os resultados encontrados neste trabalho, mostram um comportamento dentro do padrão típico das estações do ano para a temperatura do ar, em que os valores mais críticos (≥25ºC) para os animais ocorrem principalmente no verão e também na primavera. Contabilizaram-se 48 dias com temperatura superior a 25ºC durante o período de um ano, valor limite a partir do qual as vacas leiteiras entram em stresse térmico (McDowell et al., 1976; Fuquay, 1981; Roenfeldt, 1998; Kadzere et al., 2002; Overton et al., 2002). Os valores de humidade relativa que também influenciam as condições ambientais do estábulo, embora de uma forma menos gravosa do que a temperatura, foram mais elevados no outono e inverno (80,4%). Quando a humidade ultrapassa o valor de 70%, verifica-se uma diminuição do potencial de dissipação de calor, afetando a produção de leite dos animais (Reece, 2009). Outro indicador das condições ambientais do estábulo muito importante, que conjuga numa só as variáveis temperatura e humidade é o índice de temperatura-humidade (ITH). É um índice utilizado em todo o mundo para avaliar o impacto do stresse térmico em vacas leiteiras (Bouraoui, 2002). Quando este indicador ultrapassa o valor de 72 a produção de leite começa a diminuir (Johnson, 1985; Du Preez et al., 1990; Armstrong, 1994; Silva et al., 2002; Zimbelman et al., 2009), tendo-se revelado superior aquele limite em 51 dias do ano, com maior enfase no verão e primavera. Esta situação pode desencadear uma forte quebra na produção de leite, pois Ravagnolo et al. (2000) registaram uma redução na produção de 0,32 kg por unidade de aumento de ITH acima de 72. Ainda segundo Zahner et al., (2004) com o aumento do ITH diminui o tempo de
264 descanso das vacas, o que pode levar ao aumento da frequência de claudicação (Cook et al., 2004). O facto do ITH ter sido mais elevado na zona da manjedoura, relativamente aos cubículos poderá estar relacionado com a disposição dos equipamentos, pois a zona de manjedoura, por ser lateral aos estábulos estava mais exposta às condições climatéricas exteriores (radiação solar). Poderá ser interpretado também como um fator positivo tendo em conta que os animais permanecem mais tempo deitados nos cubículos do que a alimentar-se e por esse motivo menos expostos às condições climáticas mais adversas. Contudo como não se encontraram diferenças no ITH para a localização das sondas nas estações de primavera e verão (épocas mais críticas para os animais), acaba por não ter interesse analisar os diferentes compartimentos do estábulo separadamente, mas sim avaliar o problema do stresse térmico globalmente ao nível do estábulo. Na pesquisa efetuada para os períodos do dia, observou-se ITH mais elevado no P4 (entre as 12 e as 16 horas), pois é o período de maior intensidade de radiação solar e consequentemente de temperatura mais elevada. De acordo com estes resultados seria importante que principalmente neste período do dia o ambiente no estábulo fosse artificialmente controlado. Nesta linha de pensamento West (1999), refere que as alternativas para manter o desempenho e o bem-estar dos animais em épocas quentes envolvem necessariamente uma melhor adequação do maneio alimentar e uma capacidade de favorecer a dissipação de calor do animal para o ambiente. Este arrefecimento consegue-se através de sistemas de ventilação forçada, que poderá ser associado a nebulização ou aspersão de água sobre os animais. Num estudo realizado no Arizona, a utilização conjunta de nebulização e ventilação artificial permitiu baixar a temperatura do estábulo entre 8 a 12ºC (Shearer et al., 1991). A produção média diária de leite por vaca foi mais elevada na primavera e inverno (28 a 29 kg) e mais baixa no verão e outono (26 a 27 kg). No verão era expectável encontrar menor produção por animal, em virtude dos valores mais elevados de ITH, que afetam negativamente a produção de leite. No outono por sua vez os valores mais baixos de produção de leite, podem ser explicados pelo facto dos meses de setembro e outubro terem revelado temperaturas um pouco acima do padrão normal para aqueles meses e também de humidade, o que influenciou os valores de ITH. É possível ainda que existam fatores alheios às condições climatéricas, que possam ter influenciado a produção de leite, pois de acordo com Fuquay (1981) torna-se difícil quantificar os efeitos ambientais diretos na produção de leite, sabendo que a produtividade também é muito afetada pela nutrição animal. Contudo quando se analisa a oscilação da produção de leite por estações do ano, através de regressão linear simples no período do dia mais crítico de ITH (11 às 17 h) os
265 resultados corroboram o referido por West (1999), quando menciona que a produção de leite diminuiu 10 a 40% no verão relativamente ao inverno e no nosso caso no inverno registou-se um acréscimo da produção de leite por animal, exatamente quando o ITH é menor. Na mesma linha de pensamento Barash et al. (1996) referem que as vacas paridas no verão demonstraram menor produção de leite por lactação do que aquelas que fizeram o parto no inverno. Relativamente à resposta das vacas ao stresse térmico podem ser apontados vários indicadores hormonais como é exemplo o cortisol, indicadores de comportamento ou outros indicadores fisiológicos como a temperatura corporal e frequência respiratória (Rushen et al., 2008). Estes dois últimos são segundo Hemsworth et al. (2000) indicadores muito interessantes para serem utilizados como medida de conforto animal. Nas explorações em estudo registaram-se ligeiras diferenças nos valores de temperatura retal e frequência respiratória. Por outro lado ambos os parâmetros sofreram um incremento significativo na transição do inverno para o verão, por influência fundamentalmente da subida do ITH. Os valores por nós obtidos são bastante semelhantes aos referidos por Rhoads et al. (2009) e Wheelock et al. (2010), quando mencionaram que as vacas aumentaram a temperatura retal de 38,6 para 40,4ºC e passaram de 44 para 89 movimentos respiratórios/minuto quando entraram em stress térmico. Tanto a frequência respiratória como a temperatura retal revelaram-se importantes indicadores de stresse térmico nos animais, pois no verão em dias com temperatura ambiente superior a 34ºC, 82% das vacas demonstraram valor superior a 75 movimentos/minuto e 73% dos animais temperatura retal superior a 39,1ºC. Estes resultados vêm de encontro ao mencionado por West (2003) em que frequência repiratória e temperatura retal superior a 80 movimentos/minuto e a 39,1ºC respetivamente revelam que os animais se encontram em desconforto térmico. Também McDowell et al. (1976) referem que o aumento da temperatura até 1ºC é suficiente para reduzir o desempenho produtivo. Os valores elevados de frequência respiratória e temperatura retal no verão também podem ser explicados pela elevada correlação encontrada entre aqueles parâmetros e o ITH, que foram de 0,83 e 0,79 respetivamente. Nesta matéria Milam et al. (1985) recomendaram molhar os animais com água, o que permite reduzir a frequência respiratória de 90 para 81 movimentos/minuto. Sempre que seja oportuno recolher apenas um dos indicadores fisiológicos estudados, por questões de operacionalidade e maneio animal, sugere-se a observação da frequência respiratória, tendo em conta que a correlação entre ambas as variáveis é
266 elevada (r=0,90) e trata-se de um indicador mais facilmente monitorizado nas vacas leiteiras, na altura de realização da ordenha. Quando o ITH ultrapassou o limite de 78 observou-se um decréscimo de produção na ordem de 1,4 e 1,8 kg por ordenha e por dia respetivamente em cada vaca, o que representa no mínimo uma perda de produção de aproximadamente 200 kg de leite por dia num efetivo de 100 vacas em lactação. Estes resultados vêm de encontro ao referido por Johnson (1985) ao defender que a produção de leite diminui quando a temperatura ultrapassa os 38,9ºC e por cada 0,55ºC de acréscimo a produção de leite e a ingestão de alimento diminuem 1,8 e 1,4 kg respetivamente. Resultados semelhantes são relatados por Reiczigel et al. (2009), Solymosi et al. (2010), Wheelock et al. (2010) e André et al. (2011) ao referirem que o stresse térmico provoca uma quebra de produção na ordem de 1,5 a 2,0 kg/vaca/dia. Também Bouraoui et al. (2002) referiram que o aumento de ITH de 68 para 78 provocou uma diminuição na produção de leite de 21%. À semelhança dos resultados por nós obtidos, Aguilar et al. (2009) referiram que as vacas tornam-se mais sensíveis ao stresse térmico com o aumento das paridades e que a crescente sensibilidade ao stresse pode ser uma das razões para a deterioração da vida produtiva, especialmente sob condições climatéricas adversas. A condição corporal embora esteja muito relacionada com a fase de lactação revelou valores inferiores quando o ITH foi mais elevado (>78), o que poderá estar relacionado, conforme referido por West (2003), com a redução na capacidade de ingestão de alimento, que leva a perda de condição corporal. À semelhança do relatado por Scott et al. (1983), quando refere que elevadas temperaturas retais conduzem à diminuição do consumo de alimento.
267 7.14 CONCLUSÕES Em consequência do grande progresso em melhoramento genético para aumentar a produção de leite por vaca, torna-se evidente a sua maior suscetibilidade ao stresse térmico, que importa manter sob controlo, principalmente em épocas quentes do ano. - As temperaturas mais elevadas registaram-se no verão e na primavera, enquanto os valores mais altos de humidade relativa observaram-se no outono e inverno. E durante um ano contabilizaram-se 48 dias de temperatura superior a 25ºC. - Todas as estações do ano evidenciaram diferenças (P<0,001) no ITH, sendo inferior no inverno (52,8±6,7) e mais elevado no verão (68,8±6,0), tendo-se revelado mais critico para as vacas leiteiras (>72) em 51 dias no período anual. - Na zona da manjedoura registou-se ITH ligeiramente superior à zona dos cubículos, mas apenas nas estações de outono e inverno, não apresentando por isso grande influência sobre o desempenho produtivo das vacas leiteiras. - O período do dia mais suscetível de afetar o conforto térmico dos animais foi o P4 (12 às 16 horas), que registou um ITH de 68,0. - Nas estações da primavera, verão e outono observou-se um decréscimo da produção de leite, oposta à subida do ITH e no inverno um acréscimo de produção. - Na estação do verão verificou-se uma subida de 1ºC e de 40 frequências respiratórias/minuto relativamente ao inverno. No verão 82% e 73% das vacas evidenciaram mais do que 75 movimentos/minuto e temperatura retal superior a 39,1ºC respetivamente. - Quando o ITH passou da fasquia de <72 para >78 verificou-se um acréscimo de 1,3ºC e de 37,3 movimentos/minuto. - Encontrou-se uma correlação elevada entre a frequência respiratória e a temperatura retal e de ambas com o ITH, sendo estes indicadores fisiológicos excelentes preditores de stresse térmico nos animais. - Os animais expostos a ITH>78 revelaram uma perda de produção de leite de 1,8 kg/vaca/dia.
268
269 7.15 BIBLIOGRAFIA Aguilar, I., Misztal, I. e Tsuruta, S., 2009. Genetic components of heat stress for dairy cattle with multiple lactations. J. Dairy Sci. 92: 5702-5711. André, G., Engel, B., Berentsen, P.B.M., Vellinga, Th.V. e Oude Lansink, A.G.J.M., 2011. Quantifying the effect of heat stress on daily milk yield and monitoring dynamic changes using an adaptive dynamic model. J. Dairy Sci. 94: 4502-4513. Armstrong, D.V., 1994. Heat stress interaction with shade and cooling. J. Dairy Sci. 77: 2044-2050. Barash, H., Silanikove, N. e Weller, J.I., 1996. Effect of season of birth on milk, fat and protein production of Israeli Holsteins. J. Dairy Sci. 79: 1016-1020. Berman, A., 2005. Estimates of heat stress relief needs for Holstein dairy cows. J. Anim. Sci. 83: 1377-1384. Berman, A., Folman, Y.M., Kaim, M., Mamen, Z., Herz, D., Wolfenson, A. e Graber, Y., 1985. Upper critical temperatures and forced ventilation effects for high-yielding dairy cows in a tropical climate. J. Dairy Sci. 68: 488-495. Blackshaw J., e Blackshaw, A.W., 1994. Heat stress in cattle and the effect of shade on production and behaviour: a review. Aust. J. Exp. Agric. 34: 285-295. Bohmanova, J., Misztal, I. e Cole, J.B., 2007. Temperature-Humidity Indices as Indicators of Milk Production Losses due to Heat Stress. J. Dairy Sci. 90: 1947-1956. Bouraoui, R., Lahmar, M., Majdoub, A., Djemali, M. e Belyea, R., 2002. The relationship of temperature-humidity index with milk production of dairy cows in a Mediterranean climate. Anim. Res. 51: 479-491. Bryant, J.R., Lopez-Villalobos, N., Pryce, J.E., Holmes, C.W., Johnson, D.L. e Garrick. D.J., 2007. Environmental sensitivity in New Zealand dairy cattle. J. Dairy Sci. 90:15381547. Cook, N.B., Nordlund, K.V. e Oetzel., G.R., 2004. Environmental influences on claw horn lesions associated with laminitis and subacute ruminal acidosis (SARA) in dairy cows. J. Dairy Sci. 87(E Suppl.): E36-E46. Coppock, C.E., Grant, P.A., Portzer, S.J., Charles, D.A. e Escobosa, A., 1982. Lactating dairy cow responses to dietary sodium, chloride, and bicarbonate during hot weather. J. Dairy Sci. 65: 566-576.
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278 Quality” (2004 a 2009), também foi publicado um manual com protocolos de avaliação de BEA para vacas leiteiras, muito útil para investigadores, técnicos e produtores. Os estudos realizados anteriormente evidenciam problemas de BEA quer relativamente aos alojamentos, como ao maneio animal e inclusivé na esfera das competências dos agentes do setor. Estas repartem-se por três grandes áreas, que são as associadas às infra-estruturas físicas do estábulo, às medidas baseadas no animal e à formação de produtores e técnicos na área do BEA. Nos últimos anos tem havido um aumento da preocupação em BEA, especialmente em sistemas de produção intensivos. Diversos protocolos de avaliação de BEA foram desenvolvidos na Europa, com destaque para os animais estabulados. A inclusão de medidas baseadas nos animais, recentemente veiculadas pelo relatório da EFSA (2012) é assumida no sentido de melhorar os sistemas de avaliação de BEA. A avaliação deve servir como uma ferramenta de consulta, que permite ao produtor identificar, prevenir e solucionar problemas de BEA do seu efetivo. Uma avaliação periódica de indicadores de BEA, devidamente planeada e implementada de forma completa e permanente, é um instrumento essencial para a prevenção de episódios gravosos de BEA e para a saúde e produtividade dos efetivos leiteiros. A formação dos agentes envolvidos, produtores, técnicos e médicos veterinários é imprescindível para o sucesso de um programa de controlo de BEA generalizado. Esta formação deve ser integrada, para que todos recebam a informação necessária para desempenhar as tarefas no seu âmbito de responsabilidade. É extremamente importante todos os agentes do setor disporem de um conjunto de boas práticas para o BEA, de forma a melhor percecionar as falhas mais frequentes a este nível e facilmente implementar as ações corretivas que se ajustem aos problemas identificados. Um dos fatores que dificulta a utilização de protocolos com medidas baseadas nos animais para a avaliação rotineira de BEA está relacionado com o facto de serem demorados e dispendiosos. A aplicação do protocolo de Welfare Quality (2009) demora cerca de um dia por exploração. O objetivo deste capítulo foi construir um modelo de avaliação de bem-estar para vacas leiteiras, com base nos indicadores validados e noutros de comprovado interesse científico, para permitir ao produtor utilizá-lo como ferramenta de gestão. 8.2 Pressupostos e finalidade do modelo Se o produtor tem como objetivo melhorar o BEA, precisa de um método eficaz para fazer a sua avaliação ao nível da exploração. Um sistema de avaliação de BEA relevante deve possibilitar fazer um levantamento das condições de BEA no efetivo e permitir-lhe
279 acompanhar a situação ao longo do tempo para responder a alguma carência de forma rápida e eficaz. Um modelo de avaliação de BEA deve respeitar as seguintes premissas: - Basear-se no conhecimento científico e expressar as alterações ao longo do tempo; - Ser composto por indicadores mensuráveis na exploração de modo fácil e suficientemente rigoroso; - Ser relevante como sistema de apoio e assessoria para o produtor. Os indicadores selecionados devem fornecer informações objetivas sobre os principais problemas de BEA, de forma a indicar pistas para a sua resolução. Existe uma enorme diversidade de indicadores que podem ser incluídos num sistema de avaliação de BEA, contudo devem selecionar-se aqueles que revelam maior influência na saúde e produtividade dos animais. Um aspeto importante é conseguir reduzir o número de indicadores a introduzir no modelo. Para uma escolha correta de indicadores é fundamental efetuar a avaliação da informação de BEA fornecida por cada indicador individualmente mas também ao conjunto dos indicadores avaliados. A alguns indicadores pode sobrepor-se a importância de outros resultando num valor marginal baixo. Por consequência importa averiguar se dois indicadores se conseguem substituir mutuamente ou se a sua combinação reforça a validade da avaliação de BEA. A escolha dos indicadores deve assim ser realizada de forma a obter uma combinação daqueles que melhor se complementam. Outra componente muito importante refere-se à capacidade de aplicação dos indicadores sugeridos no modelo. Esta componente inclui o tempo necessário para a realização das avaliações e os consequentes custos associados. Por vezes a recolha de informação de um indicador é realizada diariamente e é parte operacional do sistema de funcionamento da exploração, ou pontualmente o médico veterinário assistente consegue facilmente obter informações complementares além das consultas obrigatoriamente realizadas. Também não será desejável incluir indicadores fisiológicos dispendiosos num modelo de avaliação de medidas indiretas de BEA. A aplicabilidade de um indicador foca-se igualmente na precisão e consistência da avaliação, ou seja os avaliadores deverão ser técnicos com experiência acumulada, de forma a obter-se uma elevada repetibilidade (variabilidade da classificação no avaliador) e reprodutibilidade (variabilidade da classificação entre avaliadores) dos índices avaliados. 8.3 Estrutura do modelo O modelo proposto está sistematizado na Figura 8.1. Contém medidas baseadas nas instalações e nos equipamentos, parte destas fixas e outra parte parametrizável, que através da sua avaliação é possível identificar possíveis anomalias suscetíveis de afetar
280 o bem-estar dos animais de uma forma indireta. As medidas baseadas nos animais possibilitam uma abordagem mais centrada na condição física e emocional da vaca leiteira e por isso fornecem informação relevante e objetiva sobre a condição de BEA dos animais. Figura 8.1 Diagrama de indicadores de BEA para vacas leiteiras Baseadas nas instalações e equipamentos Baseadas nos animais Dimensão dos corredores Dimensão dos cubículos Ambiente do estábulo Tipo de manjedoura Tipo de bebedouro Medidas corporais Relação homem-animal Comport. sala ordenha Comport. de ascensão Condição corporal Claudicação Higiene coxa e flanco Hiperqueratose dos tetos Lesões no corpo Frequência respiratória MEDIDAS Fixas Parametrizáveis Máquina de ordenha Espaço por animal e estado de higiene Vácuo e pulsação Temperatura, humidade relativa e ITH
281 Seguidamente efetua-se uma breve justificação da escolha dos indicadores e respetivos critérios de avaliação, fazendo referência a todas as medidas elencadas no diagrama anterior. 8.3.1 Medidas baseadas nas instalações O dimensionamento das instalações é de crucial importância para o bem-estar dos animais, de forma a evitar excessiva densidade animal no estábulo, que poderá perturbar o comportamento natural dos animais no que se refere aos atos de descansar, alimentação, movimentação e interação social. 8.3.1.1 Dimensões dos corredores de passagem Os animais devem possuir o espaço suficiente de forma a expressarem o seu comportamento natural. As medidas adequadas dos corredores do estábulo permitem facilitar o movimento das vacas e ajudam na remoção dos dejetos. A largura insuficiente dos corredores de passagem e a ausência de passagens transversais entre corredores, assim como o tipo de piso e sua inclinação são fatores suscetíveis de prejudicar o BEA. O corredor de passagem junto à manjedoura deve ter a largura suficiente para que as vacas em circulação consigam passar por trás daquelas que se estão a alimentar, sem serem perturbadas. O corredor de passagem da parte de trás deve possibilitar a livre circulação de animais, enquanto outros entram e saem dos cubículos. Propomos os valores de 4,2 m e de 2,4 m para os corredores de passagem junto à manjedoura e na parte de trás respetivamente. 8.3.1.2 Cubículo A utilização do cubículo é condicionada pelo seu desenho, conforto e densidade animal. Tendo as vacas leiteiras necessidades importantes de descanso, os cubículos são concebidos exclusivamente para esse fim. Em sistemas de estabulação livre com cubículos, o comportamento da vaca é condicionado pela disposição, dimensão e superfície do cubículo, assim como pelas suas divisórias, passíveis de causar lesões nos animais. O dimensionamento dos cubículos, principalmente o seu comprimento e a sua largura devem ser projetados de acordo com as medidas corporais dos animais da exploração. Contudo na sequência dos resultados por nós obtidos é possível propor valores padrão de comprimento e largura dos cubículos na ordem de 2,5 m e 1,12 m respetivamente, em que o número de cubículos deve ser pelo menos equivalente ao número de vacas leiteiras na exploração.
282 8.3.1.3 Manjedoura A manjedoura deve permitir às vacas um acesso cómodo ao alimento. O maneio alimentar (adlibitum ou restringido) e a qualidade dos alimentos são caraterísticas que afetam o BEA. Os animais devem ter acesso individual suficiente à manjedoura, para que todo o efetivo se possa alimentar simultaneamente. A manjedoura poderá ter algum desnível no sentido da posição dos animais e deve evitar-se a existência de fosso, porque facilita a acumulação de alimento durante vários dias, sendo mais suscetível a fermentações indesejáveis, que prejudicam a sua qualidade. Cada animal deve dispor de um espaço à manjedoura de 60 cm e no caso da existência de guilhotinas é importante dispor de um número equivalente ao de animais presentes no estábulo. Os restos de alimento rejeitados pelos animais devem ser removidos diariamente. 8.3.1.4 Bebedouro Deve existir em cada estábulo um número suficiente de bebedouros, com abastecimento de água de qualidade. É muito importante proceder todos os dias à higienização dos bebedouros, evitando a acumulação de detritos que prejudicam a salubridade da água. Recomendamos que cada animal deve ter um espaço de acesso ao bebedouro de 11 cm. 8.3.1.5 Máquina de ordenha A máquina de ordenha é um equipamento de primordial importância numa exploração leiteira, devendo dar-se a devida relevância ao seu dimensionamento, manutenção dos equipamentos de desgaste, regulação dos componentes de vácuo e higienização. Por consistir numa rotina diária, realizada normalmente duas vezes ao dia o seu desadequado funcionamento poderá representar elevados prejuízos sobre a saúde do úbere e bem-estar animal. Recomenda-se a sua revisão periódica por técnicos especializados de acordo com as boas práticas de conservação e funcionamento. 8.3.1.6 Ambiente do estábulo Principalmente nos meses de primavera e verão, ou sempre que a temperatura ultrapassa os 25ºC, ou o ITH é superior a 72, é importante ativar o funcionamento de sistemas de ventilação artificial (ventiladores, nebulizadores) de controlo ambiental, evitando que os animais permaneçam muito tempo expostos a stresse térmico. Neste caso recomenda-se a medição da temperatura e humidade relativa no estábulo.
283 8.3.2 Medidas baseadas nos animais 8.3.2.1 Medidas corporais O dimensionamento das instalações e equipamentos animais devem ser ajustados ao tamanho e ao número de animais, de acordo com as indicações que foram sugeridas anteriormente. Por isso consideramos importante efetuar medidas biométricas, principalmente de altura à garupa e comprimento do tronco a aproximadamente 20% de animais presentes na exploração, dando preferência aos mais corpulentos, de forma a adequar o dimensionamento das instalações e principalmente dos cubículos ao tamanho corporal dos animais. 8.3.2.2 Comportamento A observação do comportamento dos animais é um importante indicador de BEA, quando comparado com o comportamento padrão da espécie. Assim as medições e ensaios de comportamento podem revelar se os animais estão adaptados ao sistema de produção em que se encontram inseridos ou se revelam algum sinal de stresse. No entanto é necessário ter muita atenção ao momento e à forma de realização das observações, para obter resultados fiáveis. Outro aspeto importante relaciona-se com a dimensão da amostra, para que os resultados obtidos sejam representativos do efetivo. À semelhança do referido por Welfare Quality (2009), a dimensão da amostra deve respeitar os seguintes critérios: Quadro 8.1 Dimensão da amostra para efeito de medidas baseadas nos animais Tamanho do efetivo (vacas em produção) Tamanho da amostra (%) ≤30 100 30 a 60 75 60 a 100 50 100 a 150 45 150 a 200 40 200 a 250 35 250 a 300 30 >300 25 8.3.2.2.1 Relação homem-animal Há evidências de que a qualidade da relação homem-animal tem uma grande influência no comportamento social de vacas leiteiras. O perfil genético dos animais, bem como a quantidade e qualidade do contacto humano são fatores que influenciam a relação homem-animal. Os animais medrosos são muito afetados pelo recorrente contacto com
284 humanos e reforçam a importância de uma adequada relação homem-animal. Além disso, animais medrosos são muitas vezes sujeitos a maneio agressivo, porque reagem inapropriadamente às instruções de maneio do operador, o que muitas vezes faz agravar uma difícil e prolongada relação homem-animal. Quando se realiza o teste de abordagem forçada do animal a percentagem de animais que evitam o operador a uma distância superior a 2 m não deverá ultrapassar 20% das vacas testadas. 8.3.2.2.2 Teste de comportamento na sala de ordenha O comportamento das vacas leiteiras durante a ordenha pode ser associado ao tipo de maneio e ao medo dos animais perante os operadores de ordenha. Normalmente a ordenha em sistemas convencionais possui sala de espera, onde os animais são concentrados previamente à sua realização. A ordenha é fundamentalmente um procedimento técnico, em que o contacto físico com o ordenhador é reduzido, que normalmente ficam restringidos ao trabalho no fosso de ordenha. No entanto como a ordenha é uma rotina diária, pode representar um importante problema de BEA. Normalmente as vacas que manifestam coices são aquelas que sentem dor ou desconforto na ordenha. A avaliação do comportamento durante a ordenha é um método importante de monitorização de problemas de BEA relacionados com a saúde do úbere, técnicas de ordenha, lesões na pele e qualidade do maneio nas vacas leiteiras. Recomenda-se que as vacas não permaneçam mais do que uma hora na sala de espera para a ordenha. Na avaliação do comportamento na ordenha deve ser dada a devida atenção a todo e qualquer animal que manifesta coices, devendo ser interpretado como um sinal de desconforto (clínico ou emocional), sendo extremamente importante identificar as causas da origem desta reação. Os passos na ordenha por vezes são comportamentos normais, no entanto sempre que num efetivo seja ultrapassada a fasquia de 20% de animais com uma frequência superior a 6 passos/ordenha poderão estar comprometidos os padrões normais de BEA. 8.3.2.2.3 Comportamento de deitar e levantar As vacas leiteiras deitam-se e levantam-se frequentemente. Um comportamento anormal ao deitar ou levantar (tanto em relação à sequência de movimentos como ao fator tempo) está associado a desconforto e aumenta o risco de lesões. A observação de vacas deitadas noutros locais, que não nos cubículos e de forma incorreta, pode ser um indicador de que estes são desconfortáveis. Os problemas poderão ter origem na inadequada dimensão dos cubículos e eventualmente no material da cama. A visualização de vacas a resvalar nos corredores de circulação, pode também fornecer pistas interessantes sobre como o tipo de piso afeta o BEA, pois um piso escorregadio
285 aumenta necessariamente o risco de lesões e restringe a expressão do comportamento natural dos animais. Sempre que os animais são estimulados a levantar-se dos cubículos, não deverão revelar longas pausas na posição de joelhos, mesmo que apresentem uma sequência normal de posturas. 8.3.2.3 Saúde A doença pode ser considerada um indicador importante de BEA, porque na maioria dos casos é associada a experiências negativas, como dor, desconforto ou sofrimento. Os distúrbios que têm maior impacto no BEA, são as doenças agudas, que causam sofrimento a longo prazo e que acarretam dor crónica. Um excelente indicador de avaliação de BEA ao nível da exploração relaciona-se com a incidência e prevalência de algumas patologias mais comuns em vacas leiteiras, descriminando-se de seguida alguns indicadores normalmente incluídos neste grupo. 8.3.2.3.1 Condição corporal A condição corporal é uma excelente ferramenta de auxílio do maneio alimentar. Quando desajustada do estado fisiológico do animal pode causar distúrbios metabólicos. A condição corporal ao parto tem um importante efeito sobre o desempenho da lactação. É por isso um parâmetro de crucial importância para a saúde e produtividade dos animais. A condição corporal oscila em função da fase de lactação, contudo deve situar-se no intervalo entre 2,5 a 3,5. 8.3.2.3.2 Claudicação É um indicador extremamente importante, pois tem-se revelado um problema de saúde, económico e de BEA para a maioria das explorações leiteiras. Atualmente a claudicação é uma das principais causas de refugo de vacas leiteiras. A claudicação é sinónimo de condição dolorosa principalmente ao nível dos membros posteriores, que afeta a liberdade de circulação do animal e dos seus comportamentos quotidianos. O sistema de pontuação da claudicação incide na postura e andamento do animal, atribuindo-se a classificação respetiva em função do desempenho observado. Um valor superior a 10% de claudicação (pontuação ≥3 na escala de Sprecher et al., 1997) no efetivo é indicador de problemas de BEA. 8.3.2.3.3 Higiene da coxa e flanco A higiene das vacas e do ambiente que as rodeia influencia o risco de mastite e a qualidade do leite. A falta de higiene na coxa e flanco dos animais foi associada a elevadas contagens de células somáticas, pelo que a sua monitorização é capaz de
286 fornecer informação muito revelante acerca da saúde do úbere. Os animais são considerados conspurcados quando apresentam classificações ≥3 no sistema de pontuação proposto por Cook (2002). Os animais nestas condições nunca devem ultrapassar 20% do efetivo. 8.3.2.3.4 Índice de saúde do úbere Propõe-se este indicador na sequência dos resultados alcançados no capitulo quatro, onde foi possível encontrar uma relação entre fracas pontuações de três indicadores medidos simultaneamente, condição corporal (≤2,5 e >3,5), claudicação e higiene da coxa e flanco (≥3) e contagens elevadas de células somáticas. Sempre que estes três indicadores sejam estimados conjuntamente na exploração e os seus resultados concordantes com os critérios enunciados existe uma forte probabilidade desses animais apresentarem mastite. Assim afigura-se possível usar estes indicadores para avaliar explorações leiteiras, tanto em termos de bem-estar geral do efetivo, como relativamente ao risco de saúde do úbere. 8.3.2.3.5 Hiperqueratose dos tetos Deteta-se através da visualização de um anel espesso no orifício da extremidade do teto, que enfraquece a capacidade estanque do esfíncter. As lesões nos tetos causam dor aguda e por vezes crónica, que pode ser agravado pela frequência das ordenhas diárias. A ação mecânica exercida pela máquina de ordenha e o maneio da ordenha são importantes fatores de risco da hiperqueratose. Esta no seu estado mais agudo pode resultar em mastite clínica, associada a inflamação da glândula mamária, dor e desconforto. De acordo com o sistema de classificação de Neijenhuis et al. (2000) os animais que apresentam classificação de hiperqueratose 1B (moderada com anel de calosidade suave) são considerados afetados. A percentagem de animais com hiperqueratose 2B (moderada), 2C (espessa) e 2D (extrema), com anel de calosidade rugoso nunca deve exceder 20% no efetivo. 8.3.2.3.6 Lesões As lesões na pele, inflamações e tumefações refletem o impacto que o ambiente provoca sobre os animais. Os ferimentos normalmente resultam de contactos com pisos agressivos, principalmente nos cubículos e arestas existentes nas manjedouras e bebedouros, ou outos elementos existentes nos estábulos, capazes de causar lesões aos animais. A região mais afetada por este tipo de lesão é o curvilhão, o boleto, a cernelha, a arcada costal e as tuberosidades isquiáticas. Estas lesões aparecem sempre associadas a um fator de risco, por isso a sua monitorização permite atuar
287 atempadamente na correção de anomalias que poderão evitar novas incidências. As lesões no curvilhão, avaliadas em diferentes níveis de gravidade, são muito utilizadas para aferir sobre o grau de conforto dos cubículos. As feridas e lesões no corpo são também um fator bem conhecido de dor e refugo de vacas leiteiras. Assim qualquer tipo de lesão observada nos animais deve ser interpretado como fator negativo para o bemestar animal, levando o produtor a identificar os fatores de risco associados a essa lesão, para que o efetivo na sua generalidade não seja reincidente. 8.3.2.4 Indicadores fisiológicos A observação da temperatura retal e da frequência respiratória são procedimentos muito simples de executar nas vacas leiteiras e permitem dar indicação do risco de stresse térmico em períodos mais quentes. É possível monitorizar o conforto térmico dos animais através da medição da frequência respiratória num grupo aleatório de animais na exploração. Em casos extremos de condições climatéricas o stresse térmico também pode ser avaliado pela classificação de animais ofegantes. As vacas leiteiras são afetadas pelo stresse térmico sempre que num grupo de 10 animais, pelo menos 7 revelarem valores de frequência respiratória superior a 80 movimentos/minuto. Assim para efeito de avaliação do stresse térmico, propomos a medição da frequência respiratória em grupos de 10 animais/exploração selecionados aleatoriamente, na altura de realização da ordenha da tarde. Por forma a facilitar a realização de avaliação de bem-estar de acordo com as medidas descritas, apresenta-se no quadro 8.2 os principais grupos, tipo de indicador, medidas específicas e sucinta descrição dos procedimentos de recolha de informação. Embora na abordagem das medidas foi sendo indicada metodologia específica de recolha de dados, não será estritamente obrigatório adotar aqueles níveis de pontuação das medidas, desde que as implementadas sejam equivalentes e principalmente metodologias validadas e publicadas em revistas científicas da especialidade, para permitir avaliações rigorosas, fiáveis e comparáveis entre países, regiões e explorações.
294 Sprecher, D.J., Hostetler, D.E. e Kaneene, J.B., 1997. A lameness scoring system that uses posture and gait to predict dairy cattle reproductive performance. Theriogenology, 47: 1179-1187. Webster, A.J.F., Main, D.C.J. e Whay, H.R., 2004. Welfare assessment: Indices from clinical observation. Animal Welfare 13: S93-S98. Welfare Quality, 2009. Assessment protocol for cattle. Uppsala, Suécia.
295 CAPÍTULO 9 DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÕES
296
297 9.1 DISCUSSÃO GERAL A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar, através do seu painel de saúde e bemestar animal vem alertando para a necessidade de adoção de protocolos de avaliação de bem-estar. Ao mesmo tempo, a estratégia da UE para o BEA centra a sua ação na possibilidade de virem a ser usados no futuro indicadores com suporte científico para a produção de legislação destinada à avaliação do BEA. Esta visão orientou a formatação do nosso trabalho, tendo a proposta de um modelo de avaliação de BEA sido objeto de estudo central deste trabalho. Até ao momento não tinha sido feita em Portugal uma avaliação global relativa ao estado do BEA em explorações leiteiras. Este trabalho foi realizado numa amostra representativa do setor no Norte e Centro do país, que são as zonas do continente que contribuem com 52% da produção nacional de leite de vaca. O objetivo central do trabalho era o de conceber um modelo de avaliação de BEA para vacas leiteiras, capaz de incluir os indicadores mais relevantes sem cair na tentação de propor um método excessivamente extenso e laborioso, difícil de implementar. Pensamos ter contribuído, decisivamente, para a resposta ao propósito inicial. Puderam ser identificados indicadores baseados nas instalações e nos animais que foram elencados no modelo proposto no Capítulo 8. Por vezes, em circunstâncias pouco adequadas aos sistemas produtivos, não é possível evitar problemas graves de BEA, que se vão acumulando na exploração. Recorrendo ao modelo por nós proposto será possível fazer a sua identificação, proceder à implementação subsequente de medidas corretivas de BEA e monitorização da evolução do nível de BEA na exploração. Daí decorrerão, por certo, não só vantagens para a saúde e bem-estar dos animais, como também a possibilidade de melhorias significativas de produtividade. A maioria das explorações das regiões estudadas apresenta constrangimentos ao nível das instalações, os quais prejudicam as condições de BEA. Identificaram-se alguns pontos críticos dos sistemas de produção que se forem corrigidos terão um forte impacto na melhoria do BEA e simultaneamente na eficiência e competitividade do setor. No nosso trabalho procurou-se caraterizar a situação atual do BEA nas explorações da amostra. Foi necessário identificar os riscos associados ao desconforto, às alterações de comportamento, às lesões, à dor e ao stresse. As instalações e equipamentos das explorações e o seu inadequado manuseamento são responsáveis por uma grande parte dos incumprimentos de BEA, que rapidamente se refletem em lesões, patologias e stresse nos animais. Desde logo as dimensões do estábulo foram um dos problemas detetados com extrema importância, dado que apresentam um grande impacto na densidade animal dentro das instalações e na sua capacidade de eliminação de gases e odores indesejáveis, assim como na qualidade ambiental das instalações. Outro
298 problema foi a existência de corredores de passagem insuficientemente dimensionados (estreitos) na maioria das explorações (60%). Estes não permitem aos animais circular com a liberdade necessária para expressar os seus comportamentos naturais, aumentando a conflitualidade entre grupos hierárquicos dentro do estábulo e impedindo o adequado acesso ao alimento e ao descanso. Também no que respeita ao espaço de majedoura e de bebedouro foram detetadas insuficiências (65%). Sempre que, por algum motivo é limitado o espaço necessário (McFarland, 2003; Welfare Quality, 2009) por animal à manjedoura e ao bebedouro, são colocadas em causa as condições básicas de ausência de fome e sede dos animais. No mesmo sentido é extremamente importante assegurar o regular funcionamento dos equipamentos, quer no que se refere ao caudal de água, como à limpeza dos bebedouros, sendo que apenas 20% dos bebedouros inspecionados se encontravam nas condições ideais de higiene. Foram as explorações de maior dimensão, as que evidenciaram maiores fatores de risco para o BEA, na medida em que o rácio de equipamentos fundamentais por animal foi inferior ao referido por McFarland (2003), Anderson (2008) e Welfare Quality (2009), nomeadamente número insuficiente de cubículos, espaço insuficiente à manjedoura e ao bebedouro e ainda elevada densidade animal na sala de espera para a ordenha. Demonstrou-se através do estudo biométrico, que as vacas da raça Holstein Frisia revelaram um incremento em todas as suas medidas corporais, principalmente ao nível da garupa quando comparadas com as suas congéneres do passado recente, em trabalhos realizados por Ali et al. (1984) e Sieber et al. (1988). As correlações reduzidas entre as medidas corporais das vacas e as dimensões dos cubículos levam-nos a concluir que estes equipamentos e instalações que atualmente equipam as explorações leiteiras da região estudada não estão adaptados às necessidades requeridas pelos animais, revelando principalmente insuficiente comprimento, o que certamente prejudica o descanso, a produtividade e o BEA das vacas nestas circunstâncias. Decorrente da correlação verificada entre as diversas medidas biométricas dos animais estudados, foi determinado que apenas com as medidas de comprimento do tronco e altura à garupa das vacas de uma exploração, é possível uma representação suficientemente adequada das mensurações das vacas. Assim, apenas com base na medição destas duas variáveis de uma amostra representativa das vacas leiteiras de uma exploração, consegue-se proceder a uma avaliação da adequação das intalações e equipamentos dessa exploração aos seus animais. Isto tem grande relevo e aplicação prática, na remodelação de instalações existentes e ainda muito maior importância em fase de projeto, para conceção de novas instalações animais, evitando erros de dimensionamento de espaço disponível por animal, quer no cubículo como à manjedoura e bebedouro.
299 A saúde do úbere é fator determinante não só de BEA mas também de produtividade e rentabilidade da exploração. Verificou-se através dos nossos resultados que esta é influenciada pelos fracos níves de higiene da coxa e flanco. Mas tentou-se fazer uma abordagem mais abrangente, utilizando simultaneamente os três principais indicadores de BEA na área da saúde animal: condição corporal, claudicação e higiene na avaliação dos animais e foi possível estabelecer uma relação estatística entre os níveis mais fracos destes três indicadores e a saúde do úbere, refletida na contagem de células somáticas do leite. A hiperqueratose, alteração morfológica e funcional grave da condição dos tetos, pela sua forte relação com o equipamento e maneio na ordenha e não menos importante, com o comportamento dos animais, é uma importante medida de avaliação de BEA. O impacto que tem sobre a saúde do úbere faz desta alteração uma fonte de problemas para as explorações, quando a sua incidência e prevalência aumentam nos efetivos leiteiros. No nosso trabalho, comprovou-se que o tipo de extremidade dos tetos exerce influência no nível de hiperqueratose, sendo os tetos pontiagudos e redondos os mais suscetíveis a esta patologia e que tetos anteriores manifestaram frequência e grau de hiperqueratose superior para todos os escalões apreciados comparativamente aos tetos posteriores, à semelhança do observado por Neijenhuis et al. (2000). A hiperqueratose afetou aproximadamente 70% dos tetos e destes, 25% apresentaram anel de calosidade rugoso, valores semelhantes aos observados em Inglaterra por Breen et al. (2009). Os níveis de hiperqueratose foram mais elevados em animais mais produtivos, expostos a sobreordenha, com elevadas contagens celulares, com maior número de lactações e a partir da segunda fase de lactação. À semelhança do comportamento de passos observado durante a ordenha, em que animais com seis ou mais passos também demonstraram maior grau de hiperqueratose. Pelo número de animais afetados este problema tem relevo nas explorações leiteiras portuguesas e merece atenção e correção futura, sendo a avaliação da hiperqueratose uma medida muito importante na prevenção da saúde do úbere. O comportamento dos animais durante a ordenha é um tema ainda pouco estudado, que no entanto revelou resultados curiosos. Os animais ordenhados no sistema em tandem, a ausência da prática de sobreordenha e aqueles que se encontravam na primeira e segunda lactação manifestaram inferior número de passos. Por outro lado a frequência de coices foi mais elevada no sistema de ordenha em paralelo, em animais de primeira lactação, com CCS elevada e sempre que a temperatura na sala de ordenha excedeu os 27ºC. A interação encontrada entre a CCS superior a 200.000 cél/ml e a frequência de coices, que revelou menor produção de leite, parece ser um indicador importante, na medida em que uma vaca com CCS acima do limite considerado aceitável, ao sentir
300 desconforto ou dor ao nível do úbere quando está a ser ordenhada, fará refletir esse incómodo através do comportamento de coices. E assim sendo torna-se percetível para o operador de ordenha que um comportamento anormal da vaca (coice) funciona como um sinal de alerta de stresse térmico ou de saúde do úbere. Em nossa opinião, as medidas comportamentais de passos e coices durante a ordenha são um teste de fácil execução, fiável e consistente na avaliação de BEA em vacas leiteiras. Pensamos que este tema carece de aprofundamento e merece continuar a ser estudado, nomeadamente pesquisar o tipo de relação existente entre diferentes níveis de infeção do úbere e o comportamento de passos e coices na ordenha. Em virtude das vacas leiteiras serem bastante sensíveis ao stresse térmico, principalmente aquelas com maior capacidade de produção (Kadzere et al., 2002), revela-se importante controlar este fator sempre que a temperatura do ar ultrapassa os 25ºC, que nas condições climatéricas caraterísticas de Portugal Continental incidem sobretudo na primavera e verão. O ITH manifestou-se superior a 72 (limite critico) em 51 dias durante um ano de monitorização da temperatura e humidade relativa. Não se encontraram diferenças relevantes deste parâmetro entre diferentes zonas do estábulo, pelo que a instalação de um único equipamento para monitorização ambiental nos estábulos parece adequado e perfeitamente aceitável. Tanto a temperatura retal como a frequência respiratória, indicadores de controlo do stresse térmico nos animais, evidenciaram elevada correlação entre si. No verão registou-se um acréscimo de 1ºC na temperatura corporal das vacas em lactação e de 40 ciclos respiratórios/minuto comparativamente ao inverno. Demonstrou-se ainda que ITH superior a 78 resultou numa perda de produção de aproximadamente 2 kg/vaca/dia. O nosso trabalho concluiu-se com o desenvolvimento de um modelo para avaliação de BEA em explorações leiteiras no sistema de produção intensivo, adequado à realidade Portuguesa. O modelo proposto, é composto por um conjunto de indicadores, em que um grupo está mais direcionado para as instalações e o outro para os animais, sem descurar a interligação entre ambos. Procurou-se um modelo com um número reduzido de indicadores (simples e cómodo) que seja fácil de executar. Apenas com as medidas baseadas nas instalações é possível obter uma avaliação prévia sobre o conforto dos animais e a satisfação das condições básicas de BEA. As medidas baseadas nos animais permitem efetuar uma avaliação relevante em indicadores de BEA, centrados principalmente na sua condição comportamental e de saúde dos animais. Esta proposta resulta da incorporação dos indicadores mais interessantes após o trabalho de investigação que se realizou e ainda da inclusão de outros indicadores, que nos parecem importantes e que complementam o leque de fatores avaliados.
301 Comparativamente ao protocolo de Welfare Quality (2009), procurou-se elaborar um modelo mais adequado à realidade das explorações desta região, centrado em indicadores quantificáveis e com critérios objetivos de avaliação de BEA, mais simples e portanto de mais fácil compreensão e com menor custo de implementação, sem perder o caráter de avaliação global do BEA na exploração.
302
303 9.2 CONCLUSÕES Sessenta por cento das explorações leiteiras da região Norte e Centro de Portugal encontram-se deficientemente dimensionadas para fazer face aos requisitos de BEA, principalmente as de maior dimensão. Entre as maiores deficiências estão, a existência de corredores estreitos, cubículos curtos e em número insuficiente, reduzido espaço de bebedouro e de manjedoura: menos de 6 cm de bebedouro/vaca e apenas 50 cm manjedoura/vaca. Com base nas correlações biométricas encontradas no nosso trabalho é possível propor que, utilizando apenas as medidas de comprimento do tronco e altura à garupa das vacas de uma exploração, se pode proceder a uma avaliação da adequação das intalações e equipamentos dessa exploração aos animais existentes. Este tipo de avaliação é de extrema importância para os critérios de BEA da componente fixa na exploração. Foi criado um modelo matemático, suportado estatisticamente, que relaciona a condição corporal, a claudicação e a higiene da coxa e flanco com a saúde do úbere. Este permite não só fornecer indicações sobre limites a adotar nas explorações como mostra de forma inequívoca a relação entre BEA e a saúde do úbere em vacas leiteiras. Verificou-se que a prevalência de hiperqueratose ocorre de forma preocupante nas explorações leiteiras. Com efeito a maioria dos efetivos leiteiros (70%), apresentam níveis exagerados de hiperqueratose principalmente naqueles que praticam a sobreordenha (52%). Com base nos dados do estudo feito é possível estimar que nas explorações leiteiras do Norte e Centro do país cerca de 12% dos tetos apresentem níveis de hiperqueratose aguda e 25% exibam anel de calosidade rugoso. Foi encontrada associação entre altas contagens celulares e aumento anormal do número de passos na ordenha e níveis elevados de hiperqueratose. Foi demonstrado que o comportamento de passos e coices poderá funcionar como indicador de infeção da glândula mamária e de deficiente maneio na ordenha. O comportamento de passos mostrou-se mais associado à produtividade e técnicas de ordenha, enquanto os coices surgem em resposta ao stresse térmico e a contagens celulares elevadas, prejudicando a produção de leite. As observações realizadas nas 4 explorações estudadas permitiram verificar e corroborar informação proveniente de diversos estudos realizados sobre a grande importância da temperatura e humidade relativa no BEA e na produção em vacas leiteiras.
1. Identificação do produtor Nome NIF produtor Morada Telefone/Telemóvel 2. Identificação e localização da instalação pecuária da exploração Lugar Código exploração Freguesia NIF empresa Concelho Área total Natureza jurídica Nº de blocos 3. Caraterização do produtor e do agregado familiar Grau de parentesco Sexo Data de nascimento Nível de instrução Tempo de atividade na exploração Antiguidade na exploração Valorização profissional Nº de cursos Produtor Cônjuge
4. Estrutura fundiária Área (SAU) Superfície Forrageira (SF) Forma de exploração Modo de produção 5. Instalações pecuárias e equipamentos Tipo de estabulação:__________________________________________________________________ Altura do bordo posterior do cubículo:____________________________________________________ Estado dos cubículos:_________________________________________________________________ Estruturas e equipamentos Número Localização Comprimento Largura Altura Tipo Piso Ventilação Iluminação Remoção de dejetos Frequência de limpeza Observações Corredor de passagem Corredor entre cubículos Corredor de alimentação Portas de acesso para animais Cubículos Parque coberto Parque ao ar livre Parque de vacas de transição Manjedoura
Estruturas e equipamentos Número Localização Comprimento Largura Altura Tipo Piso Ventilação Iluminação Remoção de dejetos Frequência de limpeza Observações Alimentadores Pontos de água ou Bebedouros Maternidade Quarentena Enfermaria Viteleiro Robot de ordenha Ordenha mecânica Sala de espera Sala de ordenha Fosso de ordenha Sala de leite Tanque do leite Estado de conservação das tetinas:_____________________________________________________________________________________________
6. Efetivo animal na exploração (listagem SNIRA) Tipo de animal Efetivo atual Produção de leite da última campanha Produção diária atual Quota / Direitos Formas de escoamento Perspetivas futuras Estratégia de crescimento Vacas em produção (>24 meses) Vacas secas (>24 meses) Vacas em pré-parto (maternidade) Novilhas (recria) Vitelos (<2 meses) Machos reprodutores Outras espécies animais
7. Maneio alimentar Tipo de animal Época do ano Tipo de alimento Quantidade Frequência de distribuição Sistema de alimentação Alimentador automático Blocos de sal Pastoreio Vacas em produção (>24 meses) primavera verão outono inverno Vacas secas (>24 meses) primavera verão outono inverno Novilhas (recria) primavera verão outono inverno Vitelos (<2 meses) Machos reprodutores
8. Maneio sanitário (equipamentos e maneio) Tipo de animal Programa de vacinação Pedilúvio (localização) Escovas Tratamento de unhas (frequência) Descorna Corte de caudas Vacas em produção (>24 meses) Vacas secas (>24 meses) Novilhas (recria) Vitelos (<2 meses) Machos reprodutores 9. Maneio sanitário (doenças; Nº/unidade de tempo; Nº/momentâneo; último ano) Tipo de animal Incidência de mastites Lesões na pele Cetose Deslocamento de abomaso Hipocalcémia Metrite Diarreia Retenção de secundinas Problemas de fertilidade Distúrbios respiratórios Sarna Piolho Problemas podais Mortes Refugo Vacas em produção (>24 meses) Vacas secas (>24 meses) Novilhas (recria) Vitelos (<2 meses) Machos reprodutores Existem animais agressivos no rebanho? _______________________________________________________________________________________________________ Existe algum animal em mau estado de saúde que se justifique necessidade de intervenção? ____________________________________________________________
10. ESQUEMA DA EXPLORAÇÃO: