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Variação e evolução: O caso do português europeu e do português brasileiro

Enoe Cristina Amorim Rodrigues

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FACULDADE DE LET R A S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Enoe Cristina Amorim Rodrigues Mestrado em Linguística Variação e evolução: o caso do português europeu e do português brasileiro 2012 Orientador: Prof.ª Dr.ª Clara Barros Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva II III AGRADECIMENTOS Tantas coisas aconteceram durante esta trajetória que será difícil, em um simples agradecimento, abranger a todos que merecem estar aqui. Aos velhos, que já estavam comigo desde as etapas anteriores, e aos novos que, no momento oportuno, entraram em minha vida. Os acontecimentos durante este período, embora muito difíceis, deram um brilho especial à vida e, principalmente, me fizeram ver o valor dos poucos – ou nem tão poucos assim - que sobraram. Na proporção que os desafios surgiam, apareciam pessoas para me estender a mão: com um carinho, com uma palavra e com tudo o que eu precisava para que esta etapa fosse finalizada. Assim, paulatinamente, meu coração voltou a sorrir. E, embora este trabalho ainda seja um grão de areia no universo da Linguística, ele saiu. E sei que, se não fosse cada um de vocês, ele não teria sido concluído. Antes de mais, agradeço à minha mãe, Fátima Amorim, pelo amor e pela dedicação, embora breves devido às circustâncias da vida. É a minha referência de amor verdadeiro! À minha família materna. À Luiza Helena Amorim, pelo apoio e pelo exemplo de profissionalismo. Às minhas irmãs, Gabriela e Graziela Ribeiro. Ao meu tio José Potiguar, que foi e é um verdadeiro pai, sabendo a hora de falar e de calar. Obrigada, tio, por me ensinar o que é ter coragem na vida. À minha primeira sobrinha, Aléxia, porque me ensinou que a beleza da vida reside na infância. A todos os meus tios e primos, obrigada por confiarem em mim. À minha família paterna, aos meus irmãos Rui (e sua esposa Ana Oliveira) e Bruno Brás Gomes, pelas conversas, pelo apoio prático, pela confiança e por me mostrarem o quão bom é ter uma família do lado de cá do Atlântico. À Ancila Moreira, um verdadeiro exemplo de dedicação e amor, que abriu o seu seio familiar e me pôs lá, fazendo com que eu me sentisse em casa. Nunca me esquecerei que, nos domingos “chuvosos”, era ela a minha companhia, fazendo com que as lágrimas se transformassem em riso. Obrigada por tudo! Não tenho palavras para expressar a minha gratidão. Agradeço, também, à minha sobrinhazinha Margarida que, mesmo tão pequenina, era (e é) a “luz dos meus olhos”. IV Não posso deixar de agradecer ao meu tio António Brás Gomes, exemplo de homem e de pai, e à sua esposa Maria da Glória Brás Gomes, tão virtuosa quanto ele. Foram horas de telefonemas, de carinho e de preocupação. O varão da família deixou de ser varão para ser o único, o que não me deixa triste, mas lisonjeada por saber que tenho o amor de um homem digno. A vida pode ter-me tirado muitas coisas, mas deixou o que era verdadeiramente importante. Obrigada, tios. Assim como da Ancila e dos meus irmãos, eu nunca me esquecerei de vocês e do que fizeram por mim. Agradeço, ainda, aos amigos que estiveram verdadeiramente presentes: Alessandro Vaccaro e Rita Guerra, pelos passeios, pelo carinho, pela amizade. Agradeço, imensamente, aos grandes portugueses – e não só – que conheci aqui, Silvio Moreira, Tiago Cação, Inna Kravchenko. Aos brasileiros, Luís Arthur Silva e ao José do Carmo, pela amizade incondicional. À Melissa Moreira e à Sofia Oliveira pela partilha e pelo carinho. Ao Giancarlo Pace, pelos abraços calorosos e pelas lições de otimismo. Ao Vasco Neves e à sua família, pois foram essenciais durante este processo. Agradeço por todo o apoio prático, pelo carinho e pela confiança nas minhas capacidades. Da mesma forma que sei que tens orgulho de mim, eu tenho orgulho de ti. Aos meus velhos amigos de Fortaleza e de Porto Alegre, mas que, graças ao virtual, estiveram sempre presentes, acompanhando todos os passos deste processo: André Fabre, Angela Braga, Rossana Cristófoli, Davi Lopes, Rubia Wildner, Carmen Machado, Ana Gabriela Medeiros, Rebecca Cordeiro, Rafael Ferreira, Agnes Braga, Helen Freitas, Núbio Vidal, Alan Dantas e todos os outros que estiveram torcendo por mim. Finalmente, e não menos importantes, agradeço à professora Ana Maria Brito por todo o apoio dado durante o Mestrado em Linguística e à minha orientadora, Maria Clara Barros, pela dedicação e atenção no último ano e, principalmente, por me mostrar a grande pessoa e a excelente profissional que é. Bem hajam! V ÍNDICE LISTA DE QUADROS ...................................................................................... VI LISTA DE FIGURAS ........................................................................................ VI RESUMO ......................................................................................................... VII ABSTRACT .................................................................................................... VIII INTRODUÇÃO ................................................................................................... 1 1. HISTÓRIA DO PORTUGUÊS EUROPEU (PE) ................................ 6 2. HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO (PB) ................ 14 3. VARIAÇÃO E MUDANÇA: CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS ........... 21 4. ALGUNS ASPETOS FONOLÓGICOS ........................................ 28 4.1 A redução do vocalismo átono no PE versus a articulação das vogais átonas no PB ......................................................................................................... 28 4.2 A palatalização das consoantes nas duas variedades .............................. 34 5. ALGUNS ASPETOS MORFOSSINTÁTICOS ................................ 39 5.1 O caso das formas de tratamento ............................................................... 39 5.2 Os diferentes paradigmas verbais .............................................................. 41 5.3 Algumas consequências já visíveis da evolução das formas de tratamento ............................................................................................................. 45 5.4 O caso dos clíticos ........................................................................................ 46 5.5 Gerúndio: um fenómeno específico do português brasileiro?............... 50 CONCLUSÃO ................................................................................................... 55 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................ 61 VI LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Propostas de periodização da História da Língua Portuguesa .................................... 7 Quadro 2 — Paradigma Verbal do PE de cinco posições ........................................................... 41 Quadro 3 — Paradigma Verbal do PE de seis posições .............................................................. 42 Quadro 4 — Paradigma Verbal do PB de quatro posições ......................................................... 42 Quadro 5 — Paradigma Verbal do PB de três posições .............................................................. 43 Quadro 6 — Paradigma Verbal do PB de duas posições ............................................................ 43 LISTA DE FIGURAS Figura 1 — Representação do Sistema Vocálico Tónico do PB e do PE .................................... 29 Figura 2 — Representações do Sistema Vocálico Átono do PB e do PE ................................... 30 VII RESUMO Este trabalho de investigação, enquadrado na área de Linguística Histórica, intenta observar e descrever aspetos contrastantes do português brasileiro (PB) e do português europeu (PE). Observando, ainda, o vasto passado da língua portuguesa e a forma como poderá ter evoluído em alguns aspetos específicos, quer da fonologia quer da morfossintaxe. No entanto, para a análise dos aspetos contrastantes, ao contrário do que tem sido feito em muitos trabalhos, esta investigação procura ter em consideração, também, as variedades e a pluralidade das duas normas em questão. Quer para a descrição dos aspetos sincrónicos, quer para a análise do passado linguístico, a investigação partiu do estudo de uma extensa bibliografia sobre os temas. Além disso, o trabalho beneficiou de um conhecimento e contacto direto com diversas variedades das duas normas. Numa investigação, há sempre cortes e delimitações na escolha do objeto tratado, e assim aconteceu neste trabalho, em que houve uma seleção dos aspetos observados. Há, no entanto, um contributo que é também importante: dar a perceber que as duas variedades (o PB e o PE) não são sempre tão contrastantes como se costuma pensar e expor. E, apesar de as duas normas terem pontos de distanciamento, há razões para crer que, realmente, têm alguns pontos de contacto. Palavras-chave: Linguística Histórica, português europeu, português brasileiro, variação. VIII ABSTRACT This research work, in the framework of historical linguistics, aims to observe and describe the contrasting features of Brazilian Portuguese (PB) and European Portuguese (PE), also studying the historical path of the Portuguese language. The investigation that led to the present work also attempts to follow different paths which have led to the evolution of the language with regard to, for instance, phonology or morphosyntax. However, in the analysis of the contrasting features (and in a different way from the traditional approach in the field), this study takes also into account the non-standard varieties and the plurality of the two Portuguese norms. Both the synchronic description and the analysis of the historical paths have been based on historical documents from Portugal and Brazil, going beyond the usual bibliographic research on the theme. Moreover this work has benefited from a personal direct contact with different varieties of the two norms. The most important contribution of this work is to show that the differences between the Portuguese PB and PE varieties are not as far apart as is usually assumed: although the two varieties have some features that differentiate themselves from each other, they also present a large number of similarities. Key words: Historical linguistics, European Portuguese, Brazilian Portuguese, variation. 1 INTRODUÇÃO Este trabalho, intitulado Variação e evolução: o caso do português europeu e do português brasileiro, foi realizado no âmbito do Mestrado em Linguística da Universidade do Porto. A área de investigação é a da Linguística Histórica, mais especificamente a da Variação e Mudança em duas variedades do português: o português brasileiro (PB) e o português europeu (PE). Tal escolha, que pode ser limitadora por haver outras variedades do português que poderiam ser estudadas no âmbito de um estudo sobre a variação e mudança, se deveu ao facto de ter vivido em várias regiões do Brasil e de Portugal durante a minha vida. O contacto com diversos falares, em diferentes locais, aguçou a minha perceção da diferença e tornou-me sensível à variação. A escolha do tema se fez, definitivamente, quando cheguei a Portugal para os estudos do Mestrado e percebi, mais uma vez, a grande variação de falares que há em um país tão pequeno como Portugal, face à imensidão do Brasil. Os Seminários do Mestrado em Linguística, especialmente os de Sintaxe, Fonologia, Semântica e Linguística Histórica, também foram de essencial importância para a escolha e investigação do tema e ajudaram a compor um trabalho multifacetado, que abrange diversas áreas e, assim, pude escolher certos aspetos e pensá-los sob a ótica da variação e da mudança. O trabalho tem como maior objetivo a descrição e explicação de aspetos contrastantes das duas normas em questão, mas de forma diferente do que tem sido feito, uma vez que tem havido, sobretudo, descrições em termos absolutos e que deixam de fora formas, sons e estruturas que é parte integrante e viva da língua, mas que não estão na norma-padrão de cada uma das duas variedades. A norma-padrão de uma língua é a norma que é mais prestigiada e, normalmente, está ligada a uma cidade ou região específica. É comumente designada como “o modo correto de falar a língua”, mas muitos são os fatores que fazem uma norma ter prestígio e outras normas serem estigmatizadas: o poderio económico, social e político de certas cidades ou regiões parece ser o fator de maior influência para a definição de uma norma-padrão. Como já foi dito, e por a norma-padrão ser extremamente limitadora quanto à diversidade de uma língua, uma vez que se trata de apenas uma das suas variedades, este trabalho tenta 8 O latim propagou-se através dos soldados e comerciantes que serviam de veículo de propagação linguística ao circularem pelas estradas levando as novidades da cultura romana, “pois com as coisas iam as palavras que as nomeavam” (Silva Neto, 1979, p. 79). O teatro e a escola eram meios de familiarização com a língua, visto que o teatro representava, de forma semelhante à vida, os costumes e a mentalidade dos romanos. Sendo o latim uma língua que era meio de ascensão social, a escola tinha papel fundamental na educação ao modo romano, além de que a adoção da língua permitia a cidadania romana. Como sabemos, o português nasce a partir do latim vulgar, que é a língua falada comum às pessoas de todas as classes, caracterizada por uma pronúncia menos cuidada, diferente. Essa língua mais flexível e variável trazia em si uma grande possibilidade de evolução. Essa língua que evoluía livremente modificou as regras de pronúncia, alterou o léxico e agrupou as palavras de forma diferente na frase. Por isso, as línguas românicas são basicamente desenvolvimentos do latim – na variante falada e coletiva, diferente da língua escrita, que se caracteriza por ser individual. A língua literária é mais conservadora e resiste às inovações, enquanto a língua falada é móvel e flutuante: “nela se entrechocam tendências e inovações, em permanente busca de equilíbrio.” (Silva Neto, 1979, p. 115) Na Península Ibérica, surgiram diversos dialetos românicos, nomeadamente de ocidente para oriente: o galego-português, o asturo-leonês, o castelhano e o aragonês-catalão. Esses dialetos foram expandidos até o sul da península com o movimento da Reconquista Cristã. No caso específico do português, Ivo Castro (2006, p. 74) diz que a Reconquista Cristã foi essencial para a formação da língua e, principalmente, para a formação de uma língua nacional, pois ela resultou da interação entre a língua do norte (o galego-português) e os dialetos do sul (os dialetos moçárabes meridionais). Silva Neto (1979, p. 390) também mostra como a língua padrão de fixou a sul: a evolução da língua portuguesa faz-se no sentido da ‘desgaleguização’, ou seja, perdem-se certas características linguísticas da Galécia, no sentido romano, a área que abrangia Entre-Douro-e-Minho, Galiza e talvez Trás-os-Montes. Onde, paulatinamente, se vai perdendo o caráter primitivo do galego-português em prol 9 das inovações do sul, do centro-litoral, mais precisamente de Lisboa, que difunde uma “língua comum”, que nasce a partir de contactos linguísticos de norte a sul do país, a partir das deslocações de pessoas a Lisboa. Sendo ela uma língua mista, em que participam ativa ou passivamente um grande número de elementos, dos mais variados que é possível, a fala de Lisboa passa a ser uma média de falares do norte e do sul. Mas por quê Lisboa? Primeiro porque com a implantação da Universidade na cidade, esta torna-se um centro cultural. Além disso, era a residência oficial da corte, sendo, portanto, o centro político e o centro de poder e decisão. Finalmente porque Lisboa passou a ser um grande centro urbano de prestígio social, onde foi proporcionada a criação de uma cultura nacional. A capital passou, assim, a sintetizar essa pluralidade de culturas e a remodelá-las. Segundo Silva Neto (1979, p. 393), a precipitação de vida intensa nas cidades, principalmente em Lisboa, a partir do final do século XIV, teve duas grandes consequências: a rapidez da evolução nos grandes centros de Portugal e a estagnação nas províncias isoladas, inclusive no conservadorismo linguístico. Mas o mais importante facto histórico e social é a crise de 1383-1385. Portugal entra em crise após a morte de Dom Fernando. Disputam o trono Dona Beatriz que, estando casada com o rei de Castela, poria em perigo a separação dos dois estados e Dom João, mestre de Avis, filho bastardo de Dom Pedro. Enquanto Dona Beatriz era apoiada pela nobreza (proveniente sobretudo do norte do país), Dom João era apoiado pela nova burguesia lisboeta. Em 1385 com Dom João I coroado Rei de Portugal, é o triunfo da burguesia. No seu reinado formou-se um conselho do rei, composto por dois representantes de cada um dos grupos sociais: o clero, a nobreza, os letrados e o povo. A partir da vitória de Dom João I, a corte ficou muito mais diversificada e centralizada. Como resultado da centralização, a língua deslocou-se da região da Galiza e do norte de Portugal e a norma prestigiada se tornou a de Lisboa, mais moderna e mais próxima da burguesia e do povo, já que o grupo de prestígio havia mudado. Sendo assim, a primitiva língua do norte torna-se, progressivamente, uma língua regional e estereotipada, sendo sentida como arcaizante, muito conservadora e desprestigiada. Com forte nivelamento linguístico, intensa convivência e diminuição da variação diatópica, Lisboa torna-se o centro de difusão da norma mais prestigiada – a norma-padrão. Da importância da cidade de Lisboa como centro de poder e de 10 decisão, dão testemunhos diversos trechos da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes (1450/1873), como: “Perdida Lisboa, perdido era todo o reino.” “Forte esteio e coluna que sostem Portugal.” “Vida e coraçom deste reyno.” Devido a essa expansão de Lisboa, estabeleceu-se uma grande oposição entre a língua comum e os falares regionais. Então, ao passo que se purgava os elementos setentrionais e galegos da língua, que era predomínio do norte do país, o português construía o seu próprio sistema com forte nivelamento linguístico resultante de intensa convivência de diversos grupos sociais e com a diminuição da variação diatópica. No caso do galego, a mudança de estatuto sociolinguístico foi mesmo radical. Segundo Teyssier (1982, p. 40), o galego, que nas origens da língua tanto contribuiu para a norma literária, veio, no século XVI, a encontrar-se no oposto a essa norma. “A rusticidade da Galiza opõe-se, agora, à urbanidade de Lisboa.” Também os primeiros gramáticos e ortógrafos dão conta da importância crescente de uma norma da Estremadura e assinalam o desprestígio e o conservadorismo das variedades nortenhas. Como Fernão D’Oliveira em 1536 na Grammatica da Lingoagem Portuguesa, João Barros em 1540 na sua Grammatica da Lingua Portuguesa e Duarte Nunes de Leão em 1576 na Orthographia da Lingoa Portuguesa. Mais recentemente, a respeito do modelo de língua da Estremadura como exemplar, Maia (2010, p. 491) diz: Em sucessivos momentos da história concorreram na zona centrolitoral um conjunto de circunstâncias de caráter político, social e cultural que contribuíram para o reconhecimento da primazia linguística do falar dessa região. A autora diz que, de facto, Coimbra, Santarém e Lisboa foram cidades que desempenharam um importante papel na aglutinação de Portugal nos séculos XIII e XIV. “E, é em torno desses núcleos urbanos que se formará o Portugal moderno pela língua, pela cultura, pela política, convertendo-se o espaço delimitado por 11 essas cidades no eixo fundamental de vida no País.” (Maia, 2010, p. 492) Assim, o antigo galego-português e os dialetos setentrionais perderam, muito rapidamente, o caráter de prestígio, que foi transferido, devido a inúmeros fatores socioeconómicos e culturais, para os novos dialetos do centro-sul de Portugal. O latim tinha, então, ficado praticamente de lado, exceto na linguagem literária, na linguagem jurídica e na da igreja, que têm por natureza, uma norma mais cuidada e conservadora e que, muitas vezes, se inspiram em modelos latinos, importando léxico e até estruturas. Porém, no século XVI, segundo Silva Neto (1979, p. 445), o latim erguera-se à categoria de língua da ciência. Era, então, a língua do povo culto, dos doutos. Cardeira (2005, p. 21) diz: “Em Lisboa estão o rei, a corte, o poder, o comércio; para Lisboa convergem as populações, os interesses; de Lisboa sairá o movimento expansionista dos Descobrimentos.”. Lisboa erguera-se, então, à categoria de cidade cosmopolita: nela habitavam os lisboetas da burguesia urbana e da nobreza; os camponeses dos arredores que vinham para negociar seus produtos agrícolas, que em geral eram descendentes de árabes e que continuaram no trabalho do campo após a Reconquista Cristã; os provincianos, geralmente das beiras e norte, que iam em busca de esplendor na cidade grande e suas características étnicas e linguísticas eram motivo de piada, dotados de uma fala recheada de características arcaicas (Silva Neto, 1979, p. 454); há ainda os negros, importados como escravos, que falavam rudemente, cuja fala é difícil de reproduzir por falta de dados. Um exemplo são os testemunhos de Gil Vicente em suas peças teatrais, que eram dotadas de falas arcaicas. Os rústicos vicentinos eram beirões do EntreDouro-e-Minho ou galegos.1 Enquanto Lisboa estava no auge de desenvolvimento económico e detinha variados falares, as províncias mantinham-se linguisticamente conservadoras. Silva Neto (1979, p. 494) diz que a Beira e o Minho eram altamente conservadores, mas diz também que Trás-os-Montes, até a data em que o livro foi escrito, era a região mais conservadora de Portugal, devido ao isolamento montanhoso, o que acarretava a manutenção de certos traços fonéticos antigos do galego-português, 1 Esta técnica atravessa toda a obra de Gil Vicente como, por exemplo, na peça A farsa do Juiz da Beira. 12 enquanto nos grandes centros esses traços (fonéticos e outros) se diluíam em meio a tanto contacto linguístico. Durante o século XVI o português passou por um período de relatinização, principalmente no domínio literário e científico, em que eram buscados termos latinos para “complementar” a língua portuguesa. Tal época da história foi muito importante para a construção da base da língua portuguesa moderna. Mas o que é, afinal, o português dos séculos XV e XVI? É essa língua, que já não é latim e que vai ser levada para as colónias portuguesas. É uma língua completamente multifacetada e oriunda de diversos contactos, mas com um certo grau de unidade e relativamente normalizada. Passando ao século XVII, a norma linguística se concentrava entre a Universidade de Coimbra e a corte em Lisboa, mas, por baixo da linguagem elaborada e requintada, havia a língua originária das províncias. Silva Neto (1979, p. 547) cita Álvaro Ferreira com sua obra Ortographia e que diz que a letra b tem muita semelhança com a letra v e que faz muitos portugueses, do Entre-Douro-eMinho, “errarem” a forma de falar, além dos castelhanos2. Nesse momento da história, a norma nortenha continua a ser mais próxima do castelhano. No século XVIII a norma mantinha-se em Lisboa e alguns autores também citam a excelência da norma da Estremadura, como Verney que em 1746 diz: “Em matéria de pronúncia, sempre se devem preferir os que são mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das outras províncias juntas.”3 Nesse período da história, a norma do português afastava-se cada vez mais da primitiva língua galego-portuguesa, afastamento que ocorreu desde o século XIV (Silva Neto, 1979, p. 569). Na linguagem literária desse século, é dominante a influência da literatura francesa, além do amor pela erudição. Segundo Teyssier (1982, p. 73), o período entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, no que diz respeito à sintaxe, à morfologia e ao vocabulário, parece ter sido uma época de transição entre o português clássico e português moderno. O vocabulário enriqueceu-se com um grande número de termos científicos e, em grande parte dos casos, o português foi buscar novas palavras às 2 A norma do castelhano da Idade Média se manteve como norma-padrão se manteve como norma prestigiada. Situação diversa do que se verificou para o português. 3 Citação de Luís António Verney na obre Verdadeiro Método de Estudar, presente na nota 38 de Paul Teyssier em História da Língua Portuguesa, 1982, p. 105. Também em Introdução à História do Português, 2006, p. 199, de Ivo Castro. 13 raízes greco-latinas. Ainda segundo o mesmo autor, os empréstimos às línguas europeias foram e continuam a ser numerosos, principalmente da língua francesa, mas também do italiano e espanhol. Porém, depois da última grande guerra, como em outras línguas, houve uma influência notória do inglês sobre o português. No português europeu atual há, ainda, grande variação: diastrática e diatópica. No norte ainda são mantidos alguns aspetos primitivos do português, seja na fonologia ou no léxico. A norma padrão, por sua vez, manteve-se nos dialetos do centro-sul, mais precisamente no centro-litoral do país. A variação atual do português vai ser abordada nos capítulos que se seguem. 14 2. HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO (PB) A história da língua portuguesa no Brasil é ainda assunto bastante polêmico. É certo que o território brasileiro é imensamente maior do que o território português, o que nos leva a refletir o modo como a língua portuguesa se tornou a língua de um país tão grande e tão diversificado. O ponto de partida do PB é o século XV, dado que a colonização do Brasil começou em meados de século XVI e é esse português dos séculos XV e XVI que está na sua origem. O pouco que se sabe dessa fase do português é que é de grande variação e, como já explicado, uma fase de grande clivagem do PE. A colonização portuguesa no Brasil só começou, efetivamente, a partir de 1532 com a atribuição de capitanias hereditárias (Teyssier, 1982, p. 75). O território brasileiro era habitado por índios e cada tribo tinha a sua própria língua. Pouco tempo depois foi importado da África um grande número de escravos, o que fez com que a população do Brasil no século XVI fosse basicamente composta por portugueses, índios e escravos de origem africana. A ocupação começou pelo litoral e só depois, com a fundação de São Paulo, o interior passou a ser colonizado. Posteriormente, a exploração do ouro determinou a ocupação do estado de Minas Gerais (Teyssier, 1982, p. 76). O Brasil-colónia é, porém, em todo o período, essencialmente rural. Um dado interessante cultural e linguístico, essencial para a história do português brasileiro, é que no século XVIII não há ainda nenhuma universidade no Brasil, o que pode ajudar a explicar o porquê de, nos dias atuais, o português brasileiro ser mais maleável quanto às normas da Gramática Tradicional, pois sabemos que no PB a educação, que foi bastante posterior à época da colonização, foi a principal responsável pela normatização da língua culta, principalmente da língua culta escrita. A situação linguística do Brasil na época em que era colónia, segundo Teyssier (1982, p. 76), é uma convivência entre o português europeu e o tupi, que era a língua mais falada nas regiões costeiras e era denominada ‘língua geral’, além das ‘línguas travadas’, que eram as línguas dos outros povos indígenas. Com o contacto linguístico, as populações indígenas e africanas aprendem o português, mas de forma algo irregular. 15 É facto que há pouca ou nenhuma descrição linguística de como seria essa língua geral, apenas se sabe que era uma língua franca, falada por índios e portugueses, que conviviam nas capitanias. O sistema de capitanias hereditárias, como já dito, foi o ponto inicial da colonização no Brasil em 1532 e durou até o século XVIII. Cada capitania tinha um donatário proveniente da metrópole que tinha de gerir a terra e distribuí-la a quem quisesse cultivá-la. O donatário tinha também total autoridade no campo judicial e administrativo. Em cada capitania, havia extenso convívio entre os habitantes, independentemente das origens. É importante observarmos que essa espécie de língua franca era falada na extensa região do litoral brasileiro, enquanto no interior as línguas travadas eram muitas, além de bastante diferentes. Não seria, então, a língua geral já resultado de uma europeização? Isto é, não seria apenas o léxico do tupi, mas com a estrutura do português da metrópole? Também interessa observar que nos finais do século XVIII, a língua geral começa a entrar em decadência e os principais fatores são: a chegada de muitos imigrantes portugueses que vinham em busca de ouro e de diamantes, além do diretório criado pelo Marquês de Pombal em 1757 que proibia o uso da língua geral e obrigava, oficialmente, ao uso da língua portuguesa. A decadência da língua geral somente após duzentos anos da entrada dos primeiros e muitos portugueses no país e depois da grande convivência linguística entre os portugueses (naturalmente a classe de prestígio, abrangendo donatários de capitanias, seus descendentes e familiares, além dos lavradores portugueses), índios e escravos, também nos leva a supor que a língua geral era já uma língua europeia, com léxico tupi. E a suposta decadência da língua geral estaria em curso, uma vez que até o léxico, que é a parte mais visível da língua, estava a deixar de ser prioritariamente constituído por termos do tupi. Em relação ao desaparecimento da língua geral, Teyssier (1982, p. 76) diz: A expulsão dos Jesuítas, em 1759, afastava da colónia os principais protetores da língua geral. Cinquenta anos mais tarde o português eliminaria definitivamente esta última como língua comum, restando dela apenas um certo número de palavras integradas no vocabulário português local e muitos topónimos. A reforma imposta pelo Marquês de Pombal deve ter tido como objetivo a normatização dos aspetos gerais da língua portuguesa. Se nesse momento da história o português ainda não fosse relativamente propagado e falado em todas as 16 classes sociais, a reforma não conseguiria impor uma nova língua aos povos que não eram descendentes diretos de portugueses. Provavelmente, viveu-se, durante algum tempo, em uma situação multilinguística. Portanto, no século XVIII a língua que era falada no Brasil já deveria ter a base europeia com alguns traços das línguas africanas e da língua geral (que também poderia já ser uma língua com estrutura europeia), que eram mais latentes no léxico. Então, a reforma do Marquês de Pombal não deverá ter tido como principal objetivo eliminar as línguas, já que elas já deveriam estar dissolvidas no português, mas deverá ter servido para normatizar e tentar eliminar os tais traços não-europeus da língua. Segundo Teyssier (1982, p. 77), o príncipe regente, que em 1816 se tornará o rei D. João VI, refugia-se no Brasil devido às invasões francesas, o que leva o Rio de Janeiro a tornar-se a capital da monarquia de Bragança. Entram, portanto, cerca de quinze mil portugueses na cidade, número provavelmente igual ao número da população local. Com o regresso de D. João VI a Portugal em 1821, o Brasil vêse pronto para a independência, que ocorre em 1822. Com a independência, segundo Teyssier (1982, p. 78), tudo o que é diferente da metrópole ganha valor, principalmente a cultura indígena. Há, também, a influência da cultura francesa, além do acolhimento de diversos povos, como os alemães e italianos, que se instalam principalmente no sudeste e sul do Brasil. Enquanto isso, o tráfego de escravos vindos de África diminui e os índios, com a mistura das raças, também vieram quase a desaparecer. Apenas duas gerações são necessárias para que os novos habitantes se integrem na sociedade e formem, assim, a própria sociedade brasileira. Devido à miscigenação e às influências de diversas línguas que conviviam no território brasileiro, além do afastamento geográfico de Portugal, o português do Brasil tornou-se uma língua diferente da língua da metrópole. É facto que o PB é muito diversificado ao longo dos seus vinte e seis estados e um Distrito Federal, sendo, inclusive, uma língua falada por mais de 190 milhões de habitantes. Os fatores são muitos e, por isso, há muitas teorias e muita discordância no que diz respeito às origens do PB, quando visto de um modo global. É certo que o PB herdou das línguas indígenas muitas palavras que designavam nomes de alimentos, nomes de animais típicos, nomes de rios e nomes da cultura indígena, já que a língua do colonizador (naturalmente mais forte) não tinha designação para elementos tão particulares do Brasil. E das línguas africanas 17 também herdou um certo número de palavras referentes ao modo de vida, às comidas e à vida nas lavouras de cana-de-açúcar, como no caso do Quimbundo, língua angolana que serviu para muitos empréstimos à língua portuguesa no Brasil e que hoje se encontram perfeitamente integrados na língua. (Teyssier, 1982, p. 88) Seria, então, em todos os domínios linguísticos, o português do Brasil uma língua resultado da fusão entre a língua do colonizador, as línguas indígenas (mais expressivamente o tupi), as línguas africanas que vieram com os escravos e da influência superficial das línguas dos ocupantes posteriores (principalmente franceses, holandeses, alemães e italianos)? É evidente que todos esses fatores são importantes para a análise do português brasileiro, mas é consenso que os ocupantes posteriores foram pouco significativos na formação do português do Brasil, contribuindo pouco para a língua que se estava a formar. Em relação à influência africana na língua do Brasil há muito para dizer. Enquanto alguns autores acreditam que restaram apenas alguns traços lexicais, outros acreditam que o português brasileiro é resultado de um processo de crioulização. Silva Neto (1979, p. 594), admite a formação de crioulos e semi-crioulos decorrentes do aprendizado imperfeito do português por falantes africanos, mas nega a sua influência na constituição do PB, e explica: Rigorosamente falando, uma língua não age sobre outra, visto que as línguas não têm existência fora dos homens que a falam: a interferência linguística é um dos aspetos de aculturação, isto é, de fatos que decorrem do contacto dos homens que possuem culturas (e portanto línguas) diferentes. Contrariamente, na década de 80, surge a teoria de Guy (1981, 1989) que diz que o PB atual nasce de um processo de crioulização seguido de um processo de descrioulização, que surge em função do contacto com o português culto e da escolarização mais abrangente, descrioulização que reaproximaria o português brasileiro do português europeu (que Holm, 2011, designa como ‘língua alvo’). Mais tarde, Tarallo (1993) afirma que o PB continua a afastar-se do português europeu, contrariando o possível aspeto de descrioulização. Há, ainda, a teoria proposta por Faraclas (2012). O autor diz que a crioulização ou não de uma língua deriva da forma de colonização. A ideia inicial foi de Chaudenson, mas Faraclas desenvolveu e apurou a teoria. Dividiu, assim, as formas de colonização em dois grupos: sociétés de plantation e sociétés de 24 Em 1916 surge o estruturalismo linguístico com Saussure como seu expoente máximo. Mattos e Silva (1980, p. 91) sobre Saussure, diz: Colocando Saussure que a língua é um sistema em que tudo se equilibra e que preexiste ao homem e lançando bases para uma metodologia de análise sincrónica que demonstrou ser extremamente frutífera, Saussure cria o impasse teórico para a explicação linguística da mudança. Transfere para a fala, a mudança. Sendo para ele a linguística a ciência da língua, do sistema e não da fala, a mudança linguística, de acordo com a teoria, estava excluída da linguística. E continuará a entender a mudança como a entenderam os neogramáticos de quem recebeu a sua formação de linguista. Alguns estruturalistas permaneceram sem se preocupar com a mudança linguística, outros, no entanto, os estruturalistas europeus, procuraram explicar a mudança como parte do próprio sistema. Surgem, então, os fonólogos diacrónicos. Jakobson, em 1931, mostra uma perspetiva nova entre os estruturalistas: observa os mecanismos que o sistema cria para continuar funcionando equilibradamente. Isto é: “todo sistema fónico tende para uma harmonia entre elementos” (Mattos e Silva, 1980, p. 91). Jakobson tenta teorizar sobre a mudança e propõe alguns mecanismos sobre ela: fonologização, que é quando um elemento se torna fonema; desfonologização, que é o oposto, isto é, quando um fonema desaparece do sistema; e refonologização, que é quando um fonema muda de posição no sistema. Outro estruturalista que trata de algumas questões da mudança é André Martinet que em 1955 parte do princípio que a mudança acontece no sistema a partir dos seus pontos fracos. Também acredita que o rendimento ou não do sistema está relacionado com a estabilidade (ou falta dela) de um determinado fonema no sistema. Isto é, quanto maior o rendimento do fonema no sistema, mais estável ele será na língua. Para ele, quanto mais integrados e mais económicos estiverem os fonemas no sistema, mais equilibrados estes serão e, consequentemente, menos passíveis de mudança. O facto é que Martinet foi muito importante para os estudos da mudança, pois foi o único entre os estruturalistas, quer americanos ou europeus, a apresentar uma teoria geral para a mudança linguística. Bloomfield, importante estruturalista americano, considerou impossível determinar a causa da mudança, já que ela não seria observável. Os estruturalistas americanos trabalharam com a reconstrução de línguas indígenas que não tinham 25 documentação escrita, por isso, de alguma forma, ajudaram fornecendo um método para a descrição e reconstrução de línguas. O resultado dos estudos era unicamente a descrição de línguas. Já Sapir é o único estruturalista americano a apresentar alguma reflexão sobre os mecanismos de mudança linguística: “Para ele a mudança linguística não é errática nem casual, obedece uma deriva que pode ser determinável a partir da análise do próprio sistema” (Mattos e Silva, 1980, p. 93) Com o surgimento das perspetivas gerativistas em 1957, cujo maior expoente é Chomsky, a preocupação voltou-se para a sincronia e, segundo Mattos e Silva (1980, p. 94), “depois dos neogramáticos a história da língua, a mudança linguística tem sido uma preocupação marginal, em termos da incidência de linguistas por ela primacialmente interessados”. No entanto, Halle, também gerativista, reflete sobre alguns pontos de mudança linguística, mais precisamente sobre a transmissão entre família, de geração em geração. Para os gerativistas, a mudança linguística é entendida como mudança de regras da gramática. Para eles, quando tratam da variação, ela pode ser explicada pela adição ou reorganização de regras. Depois de 1957, nota-se uma tentativa de aperfeiçoamento da teoria gerativista, aumentando, assim, a generalização e a abstração. O mesmo também ocorre no nível da mudança linguística. Muito generalizante, Folley (nível fonológico) e Lakoff (nível sintático) acreditam que a mudança acontece pela repetição de regras que faziam parte da língua em seus estados anteriores ou até de línguas aparentadas. Lakoff propõe que se considere uma metacondição teórica, que seria a responsável pela mudança história numa determinada direção ou deriva. Mais recentemente, os estudiosos no quadro da Gramática Gerativa têm encarado a evolução linguística como um processo de alteração de parâmetros universais, em que Lightfoot é o principal representante. No entanto, já na década de 60, nos Estados Unidos, surge a Sociolinguística, cujo principal representante é o linguista norte-americano William Labov. A Sociolinguística vai contrapor os dois modelos linguísticos mais difundidos: o estruturalismo e o gerativismo, que buscam descrever um sistema homogéneo, isto é, que sabem que a língua tem heterogeneidade, porém, não veem sistemacidade nas variações. A sociolinguística, segundo Oliveira (2006, p.45), ocupa-se da diversidade das línguas, estudando a variação dentro da estrutura social da comunidade em que ocorre, identificando e prevendo processos de 26 mudança em curso, que são, naturalmente, decorrentes dessa variação. Contrariamente à tradição norte-americana, os sociolinguistas acreditam que o problema da mudança deve ser explicado e não apenas descrito. O objetivo desta corrente é integrar a variação no objeto de estudo linguístico, que antes era descartada e vista como extralinguística. Labov (1972) propõe o termo “Sociolinguística Quantitativa” pois, para o autor, é através de modelos quantitativos que se pode estabelecer as relações entre os factos linguísticos e socioculturais, proporcionando uma melhor visibilidade da variação da língua. Para a Sociolinguística, há muitas variáveis nos fatores sociais que podem levar à mudança: um deles é a idade do falante, pois pode indicar se uma certa variável está estável ou em progresso. Também se pressupõe que os falantes mais velhos são mais conservadores no que diz respeito à língua, enquanto os mais jovens mais inovadores. Outro fator social importante para a sociolinguística é a escolaridade. É evidente que há fenómenos que são resultantes do ensino escolar, pois este contrapõe as variantes estigmatizadas da língua, que não fazem parte do que é tido como correto e ensinado pela Gramática Tradicional, julgando, assim, certos usos como errados. Por isso, na pesquisa sociolinguística, muito interessa saber a escolaridade que também pode se aliar ao nível social do falante e, segundo os estudos labovianos, as inovações linguísticas surgem em pequenos grupos e podem se propagar, ou não, para grandes grupos até se tornarem parte da norma. Porém, é certo que, para perceber uma mudança linguística que ocorreu ou que pode ocorrer, precisaríamos de ter acesso à fala de determinadas épocas e obter mais dados sobre as condições sociais em que as comunidades viviam. Para superar ou contornar essa questão, Labov (1994) diz que para resolver problemas históricos, visto que os dados normalmente são insuficientes, pode-se utilizar a observação do presente e a utilização de conceitos para esclarecer sobre o passado, além de utilizar o passado para explicar o presente. O que, nesta ótica, ajuda bastante a pesquisa linguística, podendo-se, então, levantar hipóteses sobre variados casos. O fundamental da proposta Sociolinguística é que a partir de análises concretas sobre a mudança, principalmente com um método bem definido. Os fenómenos linguísticos, que antes eram tidos como fora do sistema ou exceção às regras, passam a ser mais claros e passíveis de explicação, também sendo possível 27 determinar o porquê de certas mudanças em determinadas línguas, para além da determinação do espaço e do tempo das mudanças. Ao longo deste trabalho têm vindo a ser utilizados conceitos próprios desta teoria, pois, nesta perspetiva, qualquer parâmetro de variação social é significativo para a análise da variação e da mudança que poderá vir a ocorrer. Por isso, neste estudo, para a análise de casos específicos de mudança linguística no português europeu e no português brasileiro, são levados em consideração parâmetros sociais, para além das relações de prestígio que podem resultar em mudança, próprios da teoria sociolinguística. 28 4. ALGUNS ASPETOS FONOLÓGICOS 4.1 A redução do vocalismo átono no PE versus a articulação das vogais átonas no PB No domínio fonológico, o português diferencia-se das outras línguas descendentes do latim por alguns aspetos muito específicos. Mira Mateus (2005, p. 2) lista uma série desses aspetos. Um deles é a supressão do /l/ e do /n/ latinos intervocálicos, enquanto no espanhol ou mesmo no leonês, que são línguas próximas, há a sua manutenção, como em: só/solo, mau/malo, cor/color. Outra diferença é que o português tem as vogais ɛ e ɔ, resultantes das vogais breves latinas ӗ e ŏ, enquanto, ainda contrastando com o espanhol, houve uma ditongação dessas vogais breves, como em sete/siete, porta/puerta. Como consequência o português tem muitos ditongos orais e nasais de formação moderna. No português também podem ocorrer consoantes palatais em todas as posições da palavra. No entanto, ao passar para o contraste no domínio fonológico das variedades do português que nos interessam, quando nos deparamos com as descrições do português europeu e do português brasileiro, sempre encontramos descrito que o PB articula mais distintamente as vogais e que no PE existe um fenómeno chamado "redução do vocalismo átono", o que é naturalmente evidente quando ouvimos um português ou um brasileiro a falar. Mattos e Silva (2001, p. 1) diz que um estrangeiro ao ouvir as duas variedades acredita que o PE é mais consonântico, enquanto o PB é mais vocálico. Impressão reforçada pelo facto de o PB, na maior parte das variantes, enfraquecer as consoantes em posição final da palavra, muitas vezes reduzindo-as a zero, enquanto no PE, geralmente, o final da palavra apresenta articulação forte. O que vai ao encontro do que Mira Mateus (2005, p. 18) assume: o acesso a uma língua dá-se diretamente pelo seu nível fonético. Veja-se, por exemplo, que no sistema vocálico tónico do português brasileiro há, em princípio, sete vogais assim como no sistema vocálico do 29 português europeu7 (figura 1). No entanto, em algumas palavras do português, embora raras, ocorre o som de [ɐ]8, como em c[ɐ]ma, c[ɐ]mara tanto no PB como no PE, além de algumas que somente ocorrem no PE, como a palavra c[ɐ]da e a preposição p[ɐ]ra. E, embora tal vogal seja muitas vezes interpretada por muitos autores como um alofone de /a/, será representada aqui como parte do sistema vocálico tónico do português europeu. Veloso (2012) propõe que no PE existem duas vogais centrais não-baixas, /ɨ/ e /ɐ/, e mostra que /ɨ/ é uma vogal não marcada nesta variante, sendo, portanto, uma vogal vazia. Apesar de o sistema vocálico tónico do PB ser semelhante ao do PE, no sistema vocálico átono há diferenças consideráveis, tanto no pretónico, no póstónico não final e no átono final (ver figura 2) 7 Mattoso Câmara (1977, p. 33) para a representação do sistema vocálico do português brasileiro e Mateus (2003, p. 991-992) in Gramática da Língua Portuguesa (2003) para o sistema vocálico do português europeu. 8 Para melhor compreensão das vogais centrais no português europeu contemporâneo (PEC) ver artigo Vogais centrais do português europeu contemporâneo: uma proposta de análise à luz da fonologia dos elementos, de Veloso (2012). ɐ alto baixo anterior posterior Tónico (PB e PE) a ɛ e i ɔ o u Figura 1 — Representação do Sistema Vocálico Tónico do PB e do PE 30 Como se pode ver, o sistema átono da norma-padrão do PB é consideravelmente diferente do sistema do PE. As vogais do português europeu são, indiscutivelmente, mais fechadas/altas do que as do português brasileiro. ɨ ɐ alto baixo anterior posterior Átono pré-tónico (PE) i u alto baixo anterior posterior Átono pré-tónico (PB) a e i o u ɨ ɐ alto baixo anterior posterior Átono pós-tónico não final (PE) i u alto baixo anterior posterior Átono pós-tónico não final (PB) a e i u ɨ ɐ alto baixo anterior posterior Átono final (PE) u alto baixo anterior posterior Átono final (PB) a i u Figura 2 — Representações do Sistema Vocálico Átono do PB e do PE 31 Segundo Mateus (2003, p. 1012), o sistema vocálico átono do português europeu realiza-se da seguinte forma: (a) ɐ (b) (c) ɔ Então, podemos nos questionar, em termos históricos e variacionais, por que razão o PB articula as vogais átonas, muito mais que o PE, mesmo sendo esta a ‘língua alvo’. Então, surgem os questionamentos: o que fez, então, o PB abrir as vogais não acentuadas? Ou seria o PE que as fechou? Para o falante comum das duas variantes é provável que pareça que o PE sempre reduziu as vogais átonas e que o PB apresente evolução. Porém, ao analisarmos textos e documentos históricos, podemos ter outra visão deste fenómeno. Fernão de Oliveira, em 1536, na sua Gramática da linguagem portuguesa (Paiva, 2002), diz: E porque aqui e tempo como de caminho quero dizer deste auerbio até o qual antre nos responde ao que os latinos dizem vsqz este auerbio digo, alghũs o pronunçião cõforme ao costume da nossa lingua que He amiga d”abri”La boca: & danlhe aquella letra.a.que digo no começo. (OGR035, 47, 9–14) Se no ano de 1536, a língua portuguesa é “amiga de abrir a boca”, tal trecho leva-nos a concluir que no século XVI as vogais não acentuadas não eram reduzidas, mas abertas e mais distintamente pronunciadas, diferentes da norma culta atual do português europeu, em que as vogais não acentuadas tendem à redução e muitas vezes são reduzidas a zero fónico, fragilizando mesmo a integridade da sílaba. Ou, para Veloso (2012), o ɨ, vogal do sistema átono do PE, se caracteriza por não ter abertura, palatalidade e labialidade, sendo, portanto, uma vogal inteiramente vazia. Contudo, Revah (1975, p. 10) mostra a partir de exemplos desde a Crónica Geral de Espanha, de 1344, passando pelo texto de João de Barros, de 1532, 32 Ropicapnefma, que há palavras que remetem ao fechamento das vogais. Neste último caso, como cuberta e cumunicar, talvez por influências metafónicas. Dado isto, poder-se-ia pensar que as duas formas, tanto a mais aberta como a mais fechada, de alguma forma, conviviam e era uma mudança que estava a se processar, muito lentamente, na língua. A respeito da elevação das vogais átonas, diz Cardeira (2006, p. 79): Uma mudança que se generalizou no Português foi a elevação e centralização das vogais átonas. Em contexto átono final, desde cedo (talvez ainda no Português arcaico), a vogal grafada <o> seria realizada como [u] (arcaico arcaic[u]) e esta tendência atingirá também as vogais <a> , que centraliza para [ɐ] (palavra palavra[ɐ]) e <e> que se eleva para [i] (ponte pont[i], elevação atestada pelo Português do Brasil e que acaba por centralizar para [ɨ] (ponte pont[ɨ]). Finalmente em contexto pretónico medial, as vogais médias e baixas /a/, /o/ e /ɔ/, /e/ e /ɛ/ passaram a ser realizadas, respectivamente /ɐ/ (palavra pal[a]vra mas palavrinha pal[ɐ]vrinha), /u/ (tolo t[o]lo mas tolice t[u]lice, mole m[ɔ]le mas moleza m[u]leza e /ɨ/ (pelo p[e]lu mas peludo p[ɨ]ludo, pedra p[ɛ]dra mas pedreira p[ɨ]dreira). Este é um fenómeno exclusivo do Português Europeu: a conservação vocálica no Português do Brasil que desconhece a vogal central [ɨ] permite-nos pensar que esta mudança se terá processado num período posterior à língua na América. O que nos faz chegar à conclusão de que o português europeu articulava claramente as vogais átonas9 e as tónicas, apesar de haver uma possível tendência de elevação das vogais. Para tal poderá ter havido influências da deslocação da norma no PE.10 A mudança deve ter ocorrido, pelo menos com todas as suas consequências, em algum momento após a conquista do território brasileiro, já que o PB manteve as vogais mais abertas. Decerto, a língua que entrou no Brasil era realmente mais vocálica e menos consonântica. Porém, enquanto o PB manteve a articulação do vocalismo igual desde a época da colonização, o PE evoluiu para outra direção: para a redução das vogais átonas e muitas vezes, além de serem reduzidas, não são sequer pronunciadas, como no caso da palavra [tl'fon], onde, geralmente e principalmente na norma culta do português europeu, apenas a vogal tónica é pronunciada pela maioria dos falantes. 9 Nas átonas finais, como se pode ver em Cardeira (2006), talvez ainda no português arcaico, já haveria a tendência de elevação das vogais. 10 Ver o exposto no capítulo 1, História do português europeu. 33 A esse respeito, Celso Cunha (1986) diz: O português era uma língua de base vocálica, e assim continua na modalidade brasileira. Há cerca de dois séculos começou o português europeu a seguir outra deriva, ou seja, a fortalecer as consoantes e obscurecer as átonas. Teyssier (1982, p. 61) diz que as vogais alteadas se generalizaram no PE durante a segunda metade do século XVIII. Porém, provavelmente esta mudança já estaria em curso no território português há algum tempo. Uma prova disso são as palavras de Luís Monte Carmelo (citadas por Teyssier, 1982), ortógrafo, que em 1767 condena grafias como cutuvelo e murar. Convém lembrar que, naquela época, a escrita era uma representação mais direta da fala. O facto de haver "condenação" mostra que o fenómeno já existia na fala em certas localidades e/ou em algum grupo restrito da comunidade. O fenómeno poderia propagar-se ou não, pois o seu uso provavelmente não era, ainda, generalizado e não fazia parte da norma culta da época. Tais factos nos levam a perceber que o fenómeno de alteamento das vogais, como toda e qualquer mudança da língua, já deveria existir em pequena escala e, aos poucos, foi sendo difundido até se tornar norma. Certamente, a evolução deste fenómeno da língua portuguesa que anteriormente era conotado negativamente também estaria relacionada com regiões específicas, possivelmente o centro-sul de Portugal e, no princípio, também estaria relacionada com classes sociais particulares. Porém, somente a partir do século XVIII, que este fenómeno tornouse uma especificidade do PE, abrangendo a maior parte das classes sociais em grande parte do território português. Facto que não significa que no português europeu não existam vogais menos alteadas. Essas vogais um pouco mais abertas existem em certas regiões de Portugal, sobretudo nos dialetos setentrionais, mas não fazem parte da norma-padrão. Já no PB observa-se, em algumas regiões, um certo alteamento de vogais, mas em quantidade muito inferior ao PE, como na palavra f[u]gão, enquanto na maior parte da norma do PB é f[o]gão ou c[i]bola em vez de c[e]bola. Formas como c[ɔ]rreu/c[o]rreu, f[ɛ]liz/f[e]liz também ocorrem em regiões distintas. No interior do nordeste do país é mais comum ouvir as formas c[ɔ]rreu e f[ɛ]liz, enquanto no centro-sul predomina as formas mais alteadas c[o]rreu e f[e]liz e, nestes dois casos específicos, a forma aberta é extremamente desprestigiada. 40 empregue de forma generalizada, não mais para designar apenas os membros da corte, o que justificaria o corrente uso de você no Brasil nos dias atuais, principalmente em tratamento familiar, ficando o tu restrito a algumas variedades regionais. O autor ainda diz que em Portugal o processo de evolução do você parece ter estado relacionado a aspetos de variação linguística social e geográfica, pois esse item é uma forma que tem marcas negativas em algumas regiões rurais, o que leva a supor que teve origem urbana, possivelmente na fala informal da burguesia. Já em 1957, Luft também dizia que em algumas povoações de Portugal o tratamento você soava como pejorativo. Enquanto no Brasil, para o mesmo autor, o você era a forma de tratamento familiar, entre colegas e entre iguais. Fora disso, representava falta de respeito ou desprezo. Mais próximo dos dias atuais, Cunha (1985) diz que, no Brasil, o uso do tu restringe-se ao extremo sul do país (grande parte da região de Santa Catarina e e em quase todo o estado do Rio Grande do Sul) e a alguns pontos da região Norte não suficientemente delimitados. E que o você é o pronome que se emprega quando há intimidade entre os falantes e também no tratamento de igual para igual ou de superior para inferior. Muito mais recente, a partir de análise bibliográfica, Modesto (2005) postula que no Brasil as formas de tratamento estão reduzidas a duas: você, usado no tratamento familiar e o senhor como forma de respeito, usado no tratamento cerimonioso. Para ele, a forma tu é relativamente restrita, mas frequente em algumas regiões do Norte e extremo Sul do país. Não se pode negar, porém, o uso do tu em diversos contextos e regiões do Brasil. Mas, o facto que mais interessa observar, em relação ao uso, é que o tu, que é historicamente segunda pessoa, é usado na maioria das vezes como terceira pessoa. Isto é, sem a flexão histórica ou desinência verbal de segunda pessoa. Monteiro (1991, p. 222) diz que o sistema pronominal do português brasileiro está sofrendo uma reestruturação e que deve ter relação com a simplificação do paradigma da flexão verbal. Desse modo, Monteiro (1991) conclui que vocês ocupa a lacuna deixada pelo vós, que parece ter diminuído seu uso gradualmente há bastante tempo, para além de ameaçar a existência do tu. Interessa observar que a falta de oposição singular/plural do tu, que teria como oposição o vós, tem consequências no uso do pronome tu, pois mesmo que ele seja utilizado, raramente 41 (apenas em contexto extremamente cuidado) ele será utilizado com a flexão verbal histórica. Pode-se também questionar se o tu não começaria a estar ameaçado no PE, visto que a diminuição do vós e seus correspondentes também está a ocorrer, para além do uso restrito do tu, que exige uma relação igualitária e de proximidade entre os falantes. É interessante observar que no PE o estatuto de você nos dias atuais é muito variável e um pouco instável, este mostra, muitas vezes, a distância entre os interlocures e é tratamento de respeito, mas também pode ser cortês e próximo podendo, inclusive, ser sentido de forma muito negativa. Porém, mesmo que não seja expresso diretamente, muitas vezes é usado, também, como tratamento de respeito. Como contraste, temos no português do Brasil um você mais estável, que pode ser usado em mais contextos, isto é, como tratamento de respeito, de igual para igual e, principalmente, como tratamento familiar na maior parte do território brasileiro. 5.2 Os diferentes paradigmas verbais O português europeu atual apresenta uma redução no seu paradigma verbal de seis para cinco posições. Esta variação, resultante da redução da segunda pessoa do plural, vós, é evidente na maior parte dos falantes: Quadro 2 — Paradigma Verbal do PE de cinco posições Presente do Indicativo Imperativo Afirmativo eu falo - tu falas fala tu ele/ela fala fale você13 nós falamos falemos nós - - vocês/eles/elas falam falem vocês 13 Como será referido no ponto 5.3 Algumas consequências já visíveis da evolução das formas de tratamento, o modo Imperativo buscou novas formas no modo Conjuntivo, como supletivo, nomeadamente as terceiras pessoas fale você/falem vocês. 42 No entanto, neste momento, há no PE algumas variedades diatópicas com grande número de falantes que utilizam as seis posições verbais, como a seguir: Quadro 3 — Paradigma Verbal do PE de seis posições Presente do Indicativo Imperativo Afirmativo eu falo - - tu falas fala tu ele/ela fala fale você nós falamos falemos nós vós falais falai vós eles/elas falam falem vocês Para o português brasileiro, Mattos e Silva (2001) diz que devido à expansão do uso do você e de a gente e com a diminuição gradual do uso do tu e do vós no português brasileiro, a terceira pessoa se generaliza podendo haver diferentes paradigmas verbais, chegando a ter apenas duas posições. Há o paradigma de 4 posições, que é parte de uma fala mais cuidada, principalmente de falantes com maior grau de escolaridade e pertencente aos grandes centros urbanos: Quadro 4 — Paradigma Verbal do PB de quatro posições Presente do Indicativo Imperativo Afirmativo14 eu falo - - - tu/você/a gente/ele fala fale tu/você/a gente/ele nós falamos falemos nós - - eles/vocês falam falem eles/vocês 14 As reflexões sobre o paradigma verbal do modo Indicativo foram baseadas no texto O português brasileiro de Mattos e Silva (2001). Já a descrição do paradigma verbal do modo Imperativo foi desenvolvida pela autora deste trabalho durante o processo de investigação. 43 . Ou de três posições, que é próprio de uma fala mais familiar: Quadro 5 — Paradigma Verbal do PB de três posições Presente do Indicativo Imperativo Afirmativo eu falo - - - tu/você/a gente/nós/ele fala fale tu/você/a gente/nós/ele - - - - eles/vocês falam falem eles/vocês Ou simplesmente o paradigma de duas posições, que é fala dos menos escolarizados, principalmente dos pertencentes às zonas rurais: Quadro 6 — Paradigma Verbal do PB de duas posições Presente do Indicativo Imperativo Afirmativo eu falo - - - tu/você/vocês/a gente/nós/ele/eles fala fale tu/você/vocês/a gente/nós/ele/eles - - - - - - A diferença entre as duas variedades parece abissal, visto que o PE sofre poucas alterações, apenas relativas à diminuição do uso do vós, enquanto o PB pode ter apenas duas posições em seu paradigma verbal. Será que as duas normas são assim tão diferentes? Apesar dos quadros expostos mostrarem ser esse um retrato do sistema pronominal brasileiro há, ainda, segundo a autora, algumas áreas em que o tu é 44 usado (destacamos, por exemplo, alguns estados do nordeste e do sul do país, como o estado do Ceará, onde o tu não é utilizado exclusivamente e convive paralelamente com o você e como no Rio Grande do Sul, onde o uso do tu é quase exclusivo) e outras regiões, ainda mais restritas, em que o tu é usado com a flexão histórica (algumas cidades do estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, sempre tendo em consideração o nível de escolaridade do falante, sendo o tu, com a flexão histórica, aprendido na escola). Com isso, vê-se que além da variação diatópica, é evidente que o uso pronominal muito tem a ver com o nível de escolaridade do falante e com a situação comunicacional em que se encontra. A redução do paradigma número-flexional do verbo, evidente no Brasil, traz grandes consequências para a sintaxe do português brasileiro. A principal delas é que cada vez mais se faz necessário o preenchimento do sujeito pronominal, o que faz com que o parâmetro pro-drop, possível no PE, seja potencialmente perdido no PB. Eis uma grande diferença das duas variedades do português: de modo geral, no PB cada vez mais o sujeito se torna necessário devido à redução dos paradigmas verbais, enquanto no PE o sujeito pronominal pode ser omitido sem prejuízo para a compreensão, o que não é garantido no PB, visto que sem o sujeito pronominal há grande possibilidade de haver ambiguidade em relação ao sujeito. Além disso, devido à redução do paradigma verbal, a ordem da frase no português brasileiro se torna mais fixa, com menos possibilidades de variação, enquanto a ordem da frase no português europeu pode ser mais variável. No PE atual ainda se usa o tu com a flexão histórica e o pronome você tem grande difusão em algumas variedades diatópicas isoladas e é um pronome que está em progressão nos grandes centros. Mas, no contexto geral da norma-padrão, quase sempre a segunda pessoa é usada em situações de proximidade e esse facto é atestado pelos falantes, que sabem em que situação discursiva devem utilizar a segunda ou a terceira pessoa. Já a terceira pessoa costuma ser utilizada em situações mais formais, porém, muitas vezes anulando o você e utilizando senhor, senhora, título profissional (o professor vai entregar os exames?) ou até mesmo apenas o verbo, sem o pronome sujeito expresso (pode levar o livro?). Duarte (2010, p. 136) diz que a segunda pessoa do plural vós tem sido cada vez menos utilizada, restando apenas em algumas variedades diatópicas, sendo usado o pronome vocês em seu lugar. Com a redução do vós no PE, que tem como 45 correspondente o tu, não seria natural, tal como aconteceu no português brasileiro, a redução da segunda pessoa do singular? Apesar de ser possível notar a progressão do uso do você nos grandes centros de Portugal, tal facto só poderá ser atestado com um estudo com parâmetros quantitativos. Mattos e Silva (2001, p. 2) diz: O uso extensivo de você em lugar do tu, cria no Português Brasileiro uma ambiguidade para o seu, possessivo que pode referir-se ao interlocutor ou não, ambiguidade desfeita do discurso (…). Ambiguidade também desfeita, estruturalmente, pelo dele, que passa a adquirir a condição de pronome possessivo (Saramago escreveu um novo romance, o livro dele está sendo muito vendido). Ressalte-se que a segunda pessoa do singular tu no PE tem uso social muito restrito. No PB há de facto uma perda. E, embora não haja uma perda no PE, o seu uso social é limitado por critérios relacionados com a hierarquia e com a distância/proximidade nas relações interpessoais. Na realidade, o uso do tu exige um estatuto rigorosamente igualitário em que uma simples variação do parâmetro etário ou a relação de proximidade já traz impedimentos quanto ao seu uso. 5.3 Algumas consequências já visíveis da evolução das formas de tratamento Em ambas as normas observa-se uma diminuição do paradigma verbal, embora tal mudança esteja muito avançada no PB e seja muito tímida no PE. Como se viu, a descrição do uso das formas de tratamento é de extrema dificuldade devido a inúmeros fatores de natureza social. Com isso, vemos que as formas de tratamento estão em um processo evolutivo e não se sabe bem como evoluirão, seja no PB mas, principalmente, no PE. Como o uso do tu exige um estatuto igualitário, tal facto acarreta consequências no uso do modo verbal Injuntivo/Imperativo, que precisa do tu e do vós para que seja utilizado, pois tal como não possui a primeira pessoa, não possui as terceiras pessoas. Devido ao facto do uso da segunda pessoa do singular ser de uso restrito no PE e ser quase inexiste no PB (normalmente é sem a flexão histórica), a própria língua arranja modos de refazer o sistema. E, neste caso, vê-se que a nova forma 46 de dar ordens no português e, principalmente no português do Brasil é usando o modo Conjuntivo presente, que se tornou um modo supletivo do Imperativo. A língua, como sistema, reage de diferentes maneiras. No sistema ainda não alterado do PE, havia oposição entre a 2ª pessoa do singular e a 2ª pessoa do plural. Num segundo momento, com a diminuição do uso do vós, houve a substituição por vocês, que gerou a oposição tu/vocês. Desaparece, então, a oposição nítida entre, por exemplo, foste/fostes, mas, em variedades diatópicas que ainda conservam o paradigma na sua totalidade, com seis posições – e mesmo nos falantes que anularam a 2ª pessoa do plural – surgiu alguma flutuação na língua, fazendo com que a 2ª pessoa do singular oscile entre tu foste/tu fostes levando, assim, ao aparecimento de uma nova forma analógica para a 2ª pessoa do plural, como a forma fosteis ou fizesteis. Esse fenómeno que ocorre no PE parece ser uma reação do sistema para repor o equilíbrio. Como já não há oposição, a forma do plural aparece no singular e é criada uma nova forma para a 2ª pessoa do plural vós. Obviamente, tais reações causam variações. Porém, elas não estão generalizadas no PE, mas é inegável a sua existência. 5.4 O caso dos clíticos Segundo Brito (1999), o PB e o PE partilham de pronomes que, pela sua natureza, se colocam como clíticos, adjacentes ao verbo. Entretanto, há padrões diferenciados de colocação: de natureza enclítica, proclítica ou mesoclítica. No PE, segundo a autora, a ênclise, forma colocada posterior ao verbo, é usada em frases afirmativas declarativas não-marcadas, em frases imperativas e em subordinadas infinitas sem complementador. (1) Eu vi-o hoje.15 (2) Eu consegui cumprimentá-lo. 15 Exemplos retirados do artigo Português Europeu / Português Brasileiro: algumas diferenças sintácticas, de Brito (1999). 47 Já a próclise, posição anterior ao verbo, é usada com os chamados Atratores de próclise em frases negativas, subordinadas finitas e em frases infinitas iniciadas por um complementador proposicional, em orações relativas e interrogativas e sempre quando quantificadores, expressões de focalização ou quando outros argumentos verbais, diferentes do argumento sujeito, se colocam no início da frase. (3) Não o vi hoje. (4) Onde é que o viste? (5) Eu disse que o vi hoje. (6) Eu saí sem o ver. (7) Até nós o vimos. (8) Tudo o aborrece. (9) Dele se sabe pouca coisa. Por outro lado, a mesóclise, muito mais rara, é utilizada nas formas de futuro e de condicional. (10) Eu amá-lo-ei. (11) Eu amá-lo-ia. No PB, os contextos em que os pronomes ocorrem, segundo a gramática tradicional, são os mesmos do PE. Porém, sabe-se que a realidade da fala no Brasil é muito diferente da escrita. Para Mattos e Silva (2001), os pronomes clíticos, especialmente os de terceira pessoa, estão sendo eliminados do PB, e preferindo-se em seu lugar o sintagma nominal pleno ou o pronome sujeito correspondente ou é ainda utilizado, como estratégia de esquiva, o apagamento do pronome complemento. Castro (2006, p. 230) diz que no PB o pronome pessoal complemento (- o) é muitas vezes substituído pelo pronome sujeito (PE: Eu vi-o, PB: Eu vi ele). Para Cyrino (2003) os clíticos que “caíram” no PB são os que tem baixa referencialidade, nomeadamente os de terceira pessoa. A autora também diz que, apesar do aparecimento do objeto nulo, que ocorre no PB, estar a ser frequentemente associado à queda do clítico, é mais provável que a presença do 48 objeto nulo seja consequência do princípio “Evite pronome” referido por Chomsky, já que nem todos os clíticos caíram. O princípio faria parte da gramática natural do falante e teria como função não dizer mais do que é necessário ou estaria ligado a um princípio de recuperabilidade. Para Cyrino (2003), o princípio “Evite pronome” estaria relacionado com o parâmetro pro-drop para o sujeito e com o objeto nulo no PB. Isto é, a autora propõe que no PB há um generalizado princípio “Evite pronome” para a posição de argumento interno do verbo, ao contrário do que está ocorrendo na posição de sujeito, cujo preenchimento é, muitas vezes, obrigatório. Segundo Cyrino & Reich (2002, p. 9), objetos nulos linguísticos definem-se por uma carência na estrutura superficial da oração: “objetos previstos na projeção estrutural dos verbos não são expressos no enunciado linguístico”. O português brasileiro apresenta, frequentemente, frases com objeto nulo, fenómeno que não é tão extensivo no PE. Segundo Mattos e Silva (2001) o clítico canónico é adquirido primeiro na escrita e depois na fala, o que mostra ser um efeito da escolarização, não sendo adquirido naturalmente na infância. A autora também cita outro pronome complemento que merece atenção no PB, que é o pronome objeto –lhe. Pronome originalmente correspondente ao objeto indireto e que tem sido usado frequentemente como objeto direto, correlacionado ao pronome você e que varia com te. (Você gosta muito de cinema. Eu lhe vejo sempre no Multiplex.; Você gosta muito de cinema. Eu te vejo sempre no Multiplex)16. Embora esse seja um fenómeno alargado no PB, pode-se observar, esporadicamente, fenómenos análogos no PE na linguagem infantil ou mesmo adolescente, como nas frase O pai lhe educava ou Encontrou-lhe no cinema. Tais manifestações são, em geral, contidas pela educação, o que nos leva a crer que há uma tendência evolutiva face ao –lhe também no PE. O mesmo ocorre com os clíticos que não são de terceira pessoa. Castro (2006, p. 230) diz que o português do Brasil tem preferência estrutural pela próclise e há aceitação generalizada da posição inicial dos clíticos na sentença (como exemplo: Me faça um favor). Já o português europeu tem, cada vez mais, preferência pela ênclise, sendo a próclise utilizada em alguns contextos específicos. 16 Exemplos do artigo O português brasileiro de Rosa Virgínia Mattos e Silva, 2001, p. 3 49 O facto que interessa observar é que o PB, segundo Castro (2006, p. 230) conservou a colocação proclítica dos pronomes átonos nos termos em que ela se encontrava antes do século XVIII. Significa dizer que, potencialmente, o português que entrou no território brasileiro era essencialmente proclítico. Cyrino (1993) diz que no século XVIII e na primeira metade do século XIX, o PB registava casos de ênclise em alguns contextos, nomeadamente em orações gerundivas, de infinitivo pessoal e imperativo afirmativo. E, somente a partir da segunda metade do século XIX, a próclise começa a se fixar. Segundo a autora, é possível encontrar no PB do século XVIII, frases como: (12) João queria-lhe falar. (13) João lhe queria falar. Apesar de Cyrino (93) afirmar que no século XVIII e em meados do XIX, no PB, a ênclise ser utilizada em alguns contextos, pode-se questionar se esse uso não estaria relacionado com o ensino e com o nível social do falante, para além de uma certa imitação do falar da metrópole que estava a regressar ao uso maioritário da ênclise em meados do século XVIII. Ana Maria Martins (2002, p. 269) analisou documentos não literários dos séculos XIII-XVI e chegou à conclusão de que havia uma mudança em curso face aos clíticos no PE, já que no século XIII a ênclise mostrou-se dominante e foi progressivamente sendo substituída pela próclise no século XV, quando se tornou preferencial no PE. Teria, então, o português europeu, em uma fase posterior à colonização do Brasil, por meados do século XVIII, acentuado o uso maioritário de ênclise, sendo obrigatório em meados do século XIX, enquanto o português brasileiro teria evoluído muito pouco nesse sentido, conservando, assim, o padrão proclítico da língua que entrou no Brasil como quase único. Se fizermos um paralelo, percebe-se que a língua da colonização era proclítica e somente no século XVIII o PE manifesta o uso maioritário da ênclise, justamente quando no PB são registados alguns casos de ênclise. Esses casos não seriam uma imitação da língua culta vinda da metrópole? Tais factos nos ajudam a perceber que as duas normas são simultaneamente resultado de conservação e inovação linguísticas. 56 Como se viu no primeiro capítulo, História do português europeu, a normapadrão do português europeu deslocou-se do norte e se fixou a sul do país devido a muitos fatores histórico-sociais: a implantação da universidade em Lisboa, cidade que também era residência da corte. A coroação de Dom João I também se mostrou um facto de extrema relevância para a fixação da norma no centro-litoral, visto que a corte, a partir de então, passou a ser apoiada na nova burguesia lisboeta. Como o grupo de prestígio havia mudado, a norma do norte de Portugal, que até então era padrão, começou a ser sentida como arcaizante e desprestigiada, enquanto as inovações do sul e os variados falares da grande cidade passaram, paulatinamente, à norma culta do PE. No capítulo História do português brasileiro, fica visível a diversidade desta variante, tal qual como ocorre no PE, mas neste caso principalmente devido aos diversos contactos linguísticos no território brasileiro durante séculos. Tais contactos levantam a hipótese de que o PB seria uma língua resultante de um processo de crioulização. Porém, a partir de análise bibliográfica, o que parece ter havido seria uma certa semi-crioulização apenas na região nordeste do país explicada por circunstâncias socioeconómicas precisas dessa região e, posteriormente, uma semi-descrioulização. Apesar dessa hipótese parecer a mais adequada, apenas pesquisas mais aprofundadas e um trabalho mais alargado sobre o tema poderia confirmá-la. Neste trabalho, julgou-se que a teoria sociolinguística é a mais adequada para a análise da variação no passado e no presente, pois foram levados em consideração muitos aspetos da interação social para a explicação de mudanças linguísticas, como no caso da fixação da norma do português europeu a sul devido aos fatores já expostos acima. Para melhor compreender a evolução dos estudos linguísticos, foi feito um traçado histórico das teorias sobre a variação e a mudança, dando destaque à teoria sociolinguística de Labov. Percebeu-se, também, que há inúmeras zonas de interseção entre as duas normas do português em estudo, porém, não estão bem estudadas nem delimitadas, pois principalmente no PE elas fazem parte apenas do registo infantil ou adolescente, familiar, menos cuidado ou regional. É importante referir que se levarmos em consideração as variações regionais, sociais e etárias, teremos mais zonas de interseção entre as duas normas. Tal facto é exemplificado em alguns capítulos deste trabalho, como no caso do gerúndio, onde há um ponto de contacto 57 entre as duas variedades: a norma-padrão do Brasil juntamente com fala do Alentejo, onde o uso desta forma é amplamente utilizado, em contraste com a forma estar a + infinitivo, que é o registo da norma-padrão do PE. A redução do vocalismo átono, típica do PE atual, é um fenómeno relativamente recente na língua. Percebeu-se, através de análise bibliográfica, que há alguns séculos as vogais eram mais abertas, mais aproximadas da forma que são pronunciadas hoje no PB. Aparentemente, o PE evoluiu para um certo alteamento das vogais, enquanto o PB conservou tal traço na língua geral, havendo regiões onde as vogais são um pouco mais fechadas, mas nunca chegando ao nível de alteamento do PE. Também se percebeu que no PE, em alguns dialetos setentrionais, as vogais são menos alteadas do que as da norma-padrão, mantendo, assim um certo aspeto de conservação. Como se viu, o caso da palatalização de consoantes também se mostra interessante quanto ao conservadorismo versus inovação, visto que no PE as palavras grafadas com ch eram pronunciadas com som de /tʃ/, enquanto a grafia de x representava o som de /ʃ/. Até o século XVIII era essa a pronúncia dos que falavam bem. Somente em meados do século XVIII é que tal distinção começou a deixar de ser feita. Tal mudança não foi absoluta, visto que em certas regiões de Trás-os-Montes ainda existe a diferenciação entre os dois sons. Porém, nos dias atuais encontra-se no oposto da norma-padrão. Já o PB palataliza as consoantes /t/ e /d/ antes de /i/ na norma-padrão, apesar de haver muitas regiões onde não há tal palatalização. Viu-se, porém, que em ambas as normas há palatalização, mas de natureza diferente. O PE palataliza, na norma-padrão, as consoantes /s/ e /z/, o que foi uma mudança tardia e que atingiu a norma-padrão do Brasil, principalmente a do Rio de Janeiro devido principalmente ao facto da corte estar instalada nesta cidade. No PE, algumas variedades do norte de Portugal não palatalizam tais consoantes, conservando o aspeto antigo da língua. Vê-se, então, que a palatalização nas duas normas é uma mescla de conservadorismo e inovação, de contacto e distanciamento e dentro de cada norma há intensa variação, sendo, portanto, a análise da norma-padrão extremamente limitadora. Em relação ao uso dos clíticos, percebeu-se existir uma maior flutuação do que se pensava, mas, em termos gerais, o português do Brasil conservou o padrão proclítico que terá entrado no país com a colonização, enquanto o PE evoluiu para o uso alargado da ênclise. O uso da ênclise no Brasil parece ter sempre estado 58 relacionado com o ensino e com a classe social elevada do falante, sendo passível de ser encontrado na escrita e em situações de extremo cuidado linguístico. O uso da próclise no PE aparece em algumas variedades fora da norma-padrão, o que nos faz pensar, mais uma vez, que há inúmeros pontos de contacto entre o PB e o PE tendo em consideração os usos alternativos à norma-padrão. Da mesma forma que há pontos de contacto – e não são poucos – também há aspetos distanciadores, como os paradigmas verbais: enquanto o PB utiliza duas posições do verbo em uma fala não-padrão, na mesma fala não-padrão do PE são utilizadas cinco ou seis posições verbais. Tal característica pode vir a ser um importante ponto de distanciamento das duas normas, já que a redução dos paradigmas verbais traz consequências, como a menor flexibilidade da ordem da frase, além da maior obrigatoriedade de colocação do sujeito pronominal. Mas a redução – de seis para cinco pessoas - também é visível no PE, embora em menor escala. No futuro, com a diminuição do vós e a crescente utilização do você, além do uso restrito do tu, o paradigma verbal do PE também poderá vir a ser reduzido significativamente. Muito se fala sobre o uso das formas de tratamento nas duas variedades. Ao longo dos séculos, tornou-se cada vez mais complexo compreender seus usos, pois há inúmeros fatores históricos e sociais que interferem. Também convém referir que o estatuto das formas de tratamento mostra-se muito variável tanto no PB quanto no PE, mas a escolha ideal vai sempre depender do distanciamento ou da proximidade entre os falantes, da hierarquização de sua posição social e da situação de comunicação. É visível que no Brasil a maior parte dos falantes exclui o tu do vocabulário, deixando apenas o você para a segunda pessoa do singular, mas não se pode negar a grande autonomia do tu em algumas regiões do país. Como se viu, a evolução das formas de tratamento traz consequências visíveis na língua. O modo Imperativo está cada vez mais a ser substituído pelo modo Conjuntivo, que se tornou um modo supletivo, devido à exigência do estatuto igualitário da segunda pessoa tu. O sistema também reage às mudanças e cria, esporadicamente, novas formas para suprir a ausência de oposição verbal entre a 2ª pessoa do singular e a 2ª pessoa do plural, como a forma fosteis e fizesteis no PE. Diante do exposto, a polémica que normalmente é instaurada é se serão duas línguas diferentes. Na realidade, não existem respostas para tal dúvida, existem 59 suposições a partir de perceções. Se, no futuro, virão a ser duas línguas diferentes não se sabe. Porém, hoje parecem ser duas variedades de uma mesma língua, que é dividida apenas pelo oceano Atlântico e que pode vir a ser diferente, dependendo de inúmeros fatores evolutivos. Se há variação dentro de cada variedade, não é porque o PB tem alguns traços que se afastam do PE que se pode dizer que é outra língua. Aliás, parece haver muitos pontos de contacto entre as duas variedades. O problema se dá quando são contrastadas apenas as normas-padrão, pois aí há diferenças significativas. É importante, ao comparar as duas normas, perceber que cada uma delas é um conjunto linguístico multifacetado, com acentuada variação lexical, fonológica, semântica e sintática, como já explicitado. E, embora haja algum ponto de distanciamento, existem muitos pontos de contacto entre elas. A língua é viva, tem movimento próprio e, por isso, não se pode dizer que uma variante evoluiu a partir de outra, mas que estão em diferentes momentos de evolução. Sabendo da integração entre o social e o linguístico, há atualmente uma série de fatores que podem ser importantes para o que poderá vir a ser o futuro da língua portuguesa. Na primeira década dos anos 2000 houve imigração massiva de brasileiros para Portugal, que além de favorecer o contacto linguístico direto, trouxe muito da cultura brasileira. Por outro lado, após a crise instaurada na segunda década dos anos 2000, muito recentemente, muitos portugueses começam a fazer o caminho inverso à procura de melhores condições de vida no Brasil. Tais factos, num futuro próximo, podem vir a condicionar a evolução da língua. Por isso, após um período de aparente afastamento, as duas normas podem pontualmente estar a aproximar-se novamente, num movimento incessante – e lento – de afastamento e de aproximação. Embora haja a perceção das variações de aspetos que se afastam menos nas duas normas, a diferença não é tão nítida e supõe um grave problema metodológico, pois, não tendo disponível um vasto corpus, o trabalho limita-se à observação e à análise de outros trabalhos sobre os temas. Com uma abordagem sobre diversos temas, de diversos níveis linguísticos e de registos de língua, seria difícil a análise de um corpus restrito que evidenciasse dados de todos eles. Por isso, em uma próxima investigação, gostaria de desenvolver um trabalho mais alargado sobre este tema que se mostrou tão interessante e fascinante de estudar procurando manter-me numa área de investigação em que me seja possível 60 observar as duas normas nos aspetos sincrónicos e diacrónicos da língua portuguesa. O trabalho seria multifacetado e dividido em diferentes pontos para poder desenvolver todos os aspetos já estudados nesta tese. Visto a multiplicidade da língua portuguesa, tal trabalho tentou não se limitar a um só aspeto, pois julgou-se importante verificar diferentes casos que são comumente vistos como parte da língua “brasileira” ou parte da língua “portuguesa”, a fim de evidenciar que esses trabalhos são, na maior parte das vezes, limitadores. E para mostrar que, se tivermos em conta as variedades de cada uma das normas, não há tanta nitidez de fronteira, sendo elas um misto entre inovação e conservação, distanciamento e contacto. 61 BIBLIOGRAFIA ALI, S. (1975), Investigações Filológicas. Editora Grifo/MEC, Rio de Janeiro. AMARAL, A. (1955), O dialeto caipira. Editora Hucitec, São Paulo. BAGNO, M.(2000), Novela sociolingüística. 5ª. ed. Editora Contexto, São Paulo. BARROS, J. (1540) Grammatica da Lingua Portuguesa. Editor Luis Rodrigues, Lisboa. BRANDÃO, C. (1963), Sintaxe Clássica do Português. Imprensa da Universidade de Minas Gerais, Belo Horizonte. BRITO, A. M. (1999), Português Europeu / Português Brasileiro: algumas diferenças sintácticas, (Pré)Publications, Romansk Institut, Aarhus Universitet, nº 168, 1999, pp. 12-34. CAMARA, M. (1970), Estrutura da língua portuguesa, 2ª ed. Editora Vozes Limitada, Petrópolis. _______. (1976), História e Estrutura da Língua Portuguesa. 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