O SOM E O RUÍDO NOS JARDINS DO PORTO António P. O. Carvalho, Ricardo Cleto Laboratório de Acústica, Faculdade de Engenharia, Universidade do Porto R. Dr. Roberto Frias, 4200-465 Porto, Portugal [email protected],
[email protected] Resumo Este trabalho aborda a paisagem sonora de dez parques e jardins urbanos do Porto, analisando os seus ambientes sonoros através de duas abordagens: avaliação acústica do interior e exterior dos jardins (L Aeq , L A10 , L A50 e L A90 ) e por inquérito aos visitantes. Os níveis sonoros no interior dos jardins variaram entre 47 e 61 dB(A). O L Aeq no exterior face ao interior variou entre +3 e +19 dB(A). Os jardins mais ruidosos são de menor dimensão e estão localizados em zonas mais centrais da cidade. Apresenta-se uma nova classificação "acústica" de jardins urbanos quanto à sua capacidade de "isolamento" e ao ambiente sonoro. É feita uma comparação com medições feitas em 1990. O inquérito sócio-acústico concluiu que estes jardins são visitados por uma população envelhecida que se encontra habituada/conformada ao tipo de ruído dominante, classificando estes espaços como tranquilos. Palavras-chave: Acústica, Ruído, Jardins, Parques urbanos, Ambiente. Abstract This work concerns the soundscape of ten urban gardens and parks in Porto, Portugal. It characterizes and analyzes their noise levels through two approaches: acoustic characterization of the inside and outside of the gardens through the parameters L Aeq , L A10 , L A50 and L A90 ; socio-acoustic survey to the visitors. The results concluded that the gardens’ noise levels ranged between 47 and 61 dB(A). The difference between the exterior and the interior L Aeq was between +3 and +19 dB. The noisiest gardens are the smaller ones, located near the city’s centre. An “acoustic” classification for gardens/urban parks was proposed regarding their “isolation” capacity and acoustic ambience. A comparison with the measurements made in 1990 is presented. The socio-acoustic survey concluded that Porto’s gardens and parks are visited mostly by an elderly population accustomed to the dominant noise, classifying these spaces as pleasant and quiet. Keywords: Acoustic, Noise, Gardens, Urban parks, Environment. PACS no. 43.50.Rq, 43.50.Qp 1 Introdução Este trabalho teve como objectivos a caracterização e a análise dos níveis sonoros dos jardins e parques urbanos mais significativos da cidade do Porto por meio de duas abordagens: caracterização acústica do interior e exterior dos jardins através de medições do nível de ruído; questionário a visitantes dos jardins para aferição da sua percepção da qualidade acústica e da tranquilidade transmitida por estes locais [1]. Foi também efectuada uma comparação com medições feitas em 1990, para perceber a evolução dos níveis de ruído em 21 anos.
António P. O. Carvalho, Ricardo Cleto 2 Este estudo foi também um pretexto para a proposta de criação de uma classificação "acústica" de jardins e parques urbanos quanto à sua capacidade de "isolamento" do ruído urbano envolvente e à capacidade de fornecer bem-estar e tranquilidade aos seus visitantes. 2 Metodologia de análise 2.1 Parâmetros acústicos O critério de escolha dos jardins/parques urbanos foi baseado na sua localização e importância no meio urbano onde se insere, havendo a preocupação de inserir na amostra locais de pequena e grande extensão, localizados no centro da cidade e/ou em zonas periféricas, onde pudessem ser estudadas variáveis como a densidade urbana, a proximidade a vias com grande volume de tráfego e a diversidade de usos e funções que disponibilizam à cidade. Para ser possível obter uma comparação e analisar a evolução ao longo dos 21 anos dos jardins portuenses analisados em 1990 foram medidos, para além do L Aeq , os parâmetros L A10 , L A50 e L A90 . Foi analisada a variação do nível sonoro dos vários parâmetros medidos do interior face à envolvente exterior que rodeia o jardim através da medição de alguns pontos no interior, bem como no exterior. Para as medições in situ foi utilizado um sonómetro Brüel & Kjær 2236 com microfone 4188. 2.2 Inquérito sócio-acústico Foi utilizado um sistema de entrevista pessoal nos jardins e parques urbanos deste estudo, permitindo obter respostas subjectivas à exposição do ruído por parte dos visitantes desses locais. As pessoas foram abordadas aleatoriamente durante a sua actividade dentro dos jardins, solicitando o autor que se voluntariassem para a pesquisa. Para evitar respostas induzidas, não foi mencionado em qualquer circunstância que a pesquisa tinha como objectivo analisar a paisagem sonora ou o conforto acústico do local. Em vez disso, foi explicado que o inquérito era sobre a qualidade ambiental do parque, fazendo passar uma imagem do âmbito mais geral. O questionário utilizado nas entrevistas consistiu em dez perguntas fechadas e uma pergunta aberta, que foram divididas em três secções. A primeira secção foi composta por campos identificação do inquirido (faixa etária e género), a segunda abordou a percepção da qualidade da paisagem sonora e ambiental do parque e a terceira envolveu o perfil do visitante em termos de seu uso do parque, importância de alguns aspectos e uma avaliação final. A segunda secção do inquérito foi elaborada com base numa metodologia normalizada [4] e testada por Pereira [2], com adaptações para o presente caso e consistiu em oito questões fechadas (nºs 1-5, nºs 7-9) numa escala de Likert e uma questão aberta (nº 6): • Questão 1: Os sons que ouço hoje no jardim/parque são esperados? • Questão 2: Gosto desses sons que ouço? • Questão 3: O volume desses sons incomoda-me? • Questão 4: Considero este jardim/parque agradável? • Questão 5: Considero este jardim/parque tranquilo? • Questão 6: Identifique três sons que ouve neste jardim/parque. • Questão 7: O que o traz de visita ao jardim/parque? • Questão 8: Qual o aspecto do jardim/parque que acha mais importante? • Questão 9: Indique como avalia este jardim/parque. A questão 3 visava saber qual opinião dos visitantes sobre a qualidade estética dos sons que eles ouviam. A importância desta questão reside no facto de saber se esses sons devem ou não ser preservados na paisagem sonora dos locais em estudo. Na questão 6, foram registados todos os sons
Acústica 2012, 1 a 3 de Outubro, Évora, Portugal 3 identificados pelo inquirido para que na análise global sejam inventariados e divididos de acordo com os seus aspectos de referência, com base na classificação de Schafer [3]: a) trânsito, b) sons humanos, c) sons naturais, d) sons de aves, e) maquinaria, f) música, g) sinalética/semáforos e h) outros. Com a questão 7 pretendeu-se identificar os motivos que traziam os inquiridos aos jardins. Na questão 8 o inquirido foi convidado a classificar a importância, escolhendo apenas um, de alguns aspectos dos jardins, tais como a vegetação, o ar puro, a limpeza, a segurança e o silêncio. Por fim, foi solicitado ao inquirido na questão 9 uma avaliação geral do jardim. 2.3 Procedimento para medições Desenvolveu-se o seguinte o procedimento para as medições in situ: • Foram tidas em consideração as condições meteorológicas, não sendo possível fazer medições em dias de precipitação e de intensidade do vento superior a 5 m/s; • Com o objectivo de comparação com estudo de 1990 (seis jardins incluídos nesse estudo) usou-se um período horário (entre as 15 e as 18 h) semelhante no presente estudo; • Nos restantes jardins estudados, o período horário (entre 10 e as 12 h) usado foi escolhido para que as medições permitissem avaliar a paisagem sonora fora das horas de ponta; • Foram traçados dois eixos perpendiculares, transversais à planta do jardim/parque em estudo, sempre que possível orientados com os principais pontos cardiais, obtendo desta forma quatro pontos nos limites do jardim/parque e dois pontos no interior; • Foram tomados intervalos de tempo de medição de 10 a 20 minutos, procurando obter valores representativos dos parâmetros analisados; • Para cada medição foi escolhido um local onde o sonómetro não impedisse a circulação dos visitantes e estivesse a, pelo menos, 3,5 m de distância de potenciais superfícies reflectoras; • Em cada medição, o sonómetro foi posicionado entre 1,2 e 1,5 m de altura do solo com tripé. 3 Caracterização da amostra A selecção dos jardins e parques urbanos para a amostra seguiu um critério de representatividade quer em tamanho, quer em uso por parte dos cidadãos (tabela 1). Tabela 1 - Jardins e parques urbanos estudados. Jardins/Parques Área (ha) Freguesia Perímetro 1 Jardim de São Lázaro 0,7 Bonfim Totalmente gradeado 2 Praça do Marquês de Pombal 0,8 Santo Ildefonso Livre 3 Quinta do Covelo 8,0 Paranhos Com muro e gradeamento 4 Jardim de João Chagas (Cordoaria) 1,6 Vitória Livre 5 Jardim Teófilo Braga (Pr. República) 1,3 Cedofeita Livre 6 Jardim da Casa de Serralves 18,0 Lordelo do Ouro Totalmente murado 7 Parque de São Roque 4,5 Bonfim Totalmente murado 8 Parque Ocidental da Cidade 83,0 Aldoar Parcialmente murado 9 Pr. Mouzinho Alb. (Rot. Boavista) 3,1 Cedofeita Livre 10 Praça Velásquez 3,0 Bonfim Livre
António P. O. Carvalho, Ricardo Cleto 4 4 Análise de resultados nos parques/jardins urbanos do Porto 4.1 Resultados da avaliação acústica Analisando os valores do L Aeq obtidos no exterior e no interior dos jardins/parques estudados (figuras 1 e 2) é possível verificar uma redução efectiva do L Aeq do interior dos jardins face ao exterior em todos os casos analisados neste estudo. Tal poderá ser justificado pelo facto das fontes sonoras com influência no ruído analisado estarem localizadas na periferia dos jardins, levando a que exista uma atenuação sonora, mesmo que ligeira, com o afastamento progressivo da fonte emissora de ruído. Figura 1 - Valores médios obtidos no exterior dos jardins/parques urbanos da cidade do Porto. Figura 2 - Valores médios obtidos no interior dos jardins/parques urbanos da cidade do Porto. Analisando a figura 1, é possível verificar que, relativamente ao ambiente sonoro que rodeia os jardins/parques da cidade do Porto, o ambiente mais ruidoso foi registado no exterior do jardim da Praça Mouzinho de Albuquerque (Rot. da Boavista), secundado pelo exterior do Parque da Cidade,
Acústica 2012, 1 a 3 de Outubro, Évora, Portugal 5 com o valor L Aeq mais alto (67 dB) e o ambiente mais silencioso foi registado no exterior do Parque de São Roque com o valor L Aeq mais baixo (54 dB). O facto do ambiente mais ruidoso ter sido registado na envolvente da Praça Mouzinho de Albuquerque é justificado pela malha urbana onde está inserido o seu jardim ser propícia à concentração de trânsito, e consequentemente ao surgimento de ruído, pois essa zona é um dos pólos centralizadores da cidade, onde proliferam serviços públicos e privados, desembocando nela importantes avenidas e ruas da cidade que escoam por ela o seu tráfego compacto. Relativamente à malha urbana onde está inserido o Parque de São Roque, caracteriza-se por ser uma zona residencial sem movimento de tráfego significativo, o que justifica a diferença de ruído. O interior mais ruidoso dos jardins/parques urbanos da cidade do Porto foi registado nos jardins da Praça do Marquês de Pombal e de São Lázaro (L Aeq = 61 dB), o que pode ser justificado pela sua reduzida área ajardinada, bem como pela concentração de utilizadores no seu interior que fazem usufruto das instalações diariamente, e de forma intensiva, para lazer. Por outro lado, o interior mais sossegado foi verificado no jardim de Serralves com um L Aeq de 47 dB. Tal registo pode ser justificado pela sua extensa área e inserção em zona residencial, afastado de grandes vias de tráfego. É possível observar uma variação máxima, em média, de 15 dB(A) nos vários parâmetros entre o jardim mais ruidoso e o jardim mais silencioso. Comparando os parâmetros obtidos no exterior e no interior, por forma a analisar a capacidade de “isolamento” dos jardins/parques quanto aos ruídos de ponta (L A10 ) face aos ruídos de fundo (L A90 ), é possível verificar a existência de uma diferença entre os ruído de ponta e de fundo em média de 10 dB(A), sendo que a maior diferença foi registada no Parque da Cidade (17 dBA) e a menor na Praça da República (6 dBA). Estas diferenças, tendo sido medidas no exterior dos jardins/parques, podem ser explicadas, quando elevadas, pelo tráfego rodoviário possuir um número baixo de viaturas em circulação, fazendo prevalecer o ruído de fundo; quando estas diferenças são baixas, indicam que o tráfego é mais intenso e compacto, conseguindo desta forma mascarar o ruído de fundo. Existe também uma diferença entre o ruído de ponta e o ruído de fundo em média de 5 dB(A), sendo que a maior diferença foi registada no jardim de São Lázaro (6 dBA) e a menor no Parque de São Roque (3 dBA). Estas diferenças são pequenas, contudo a diferença no jardim de São Lázaro será mais elevada devido à presença concentrada de utilizadores em lazer. A menor pode ser justificada pela estabilidade e regularidade nos valores dos parâmetros medidos, fruto do jardim possuir uma menor utilização e estar inserido numa zona residencial sem vias de tráfego influentes. De notar que os restantes valores são próximos da média (5 dBA) o que faz crer que, sem elementos ruidosos influentes no seu interior, esta será a diferença esperada, em média, no interior de um jardim/parque entre o ruído de ponta e o ruído de fundo. Verificou-se a existência de quatro parques urbanos onde há uma diferença superior a 8 dB entre os L Aeq exterior e interior: Parque da Cidade (19 dBA), Jardim de Serralves (17 dBA) e Quinta do Covelo (11 dBA). O Jardim da Rotunda da Boavista foi marginalizado pelo simples facto do valor L Aeq interior aí obtido ser superior ao valor L Aeq exterior obtido no Parque de São Roque, traduzindo-se numa presença de ruído de fundo diferente da ordem de grandeza dos outros locais em análise. Verifica-se também que os jardins com menor extensão apresentam uma menor variação entre L Aeq exterior e L Aeq interior tais como jardim da Praça da República (3 dB(A)), jardim da Praça do Marquês de Pombal (4 dB(A)), jardim da Cordoaria (7 dB(A)), jardim de São Lázaro (3 dB(A)) e jardim da Praça Francisco Sá Carneiro (6 dB(A)). Excepção feita ao Parque de São Roque, inserido em zona residencial e sem influência de vias com grande volume de tráfego, o que leva a que o L Aeq exterior seja muito próximo do L Aeq interior e, por consequência, muito próximo do “ruído de fundo”, obtendo-se desta forma um diferença apenas na ordem dos 6 dB. De salientar, os casos do Jardim de São Lázaro e da Praça da República que apresentam uma variação baixa entre a envolvente e o interior (∆L A = 3 dB), talvez justificada, no caso do Jardim de São Lázaro, pela cota superior onde se encontra (em média, cerca de 1 m), relativamente à cota da via com maior
António P. O. Carvalho, Ricardo Cleto 6 tráfego, e ao grande volume de tráfego que circula nas vias periféricas. O facto de existirem alguns núcleos espalhados pelo jardim de visitantes reformados a jogar cartas também é um factor influenciador do valor final do L Aeq interior desses jardins. Avaliando a estabilidade do ruído no interior dos jardins, sem intrusões de ruídos emergentes do “ruído de fundo” que perturbem o usufruto do “ambiente sonoro” calmo (Tabela 2), é possível verificar que o jardim de Serralves, o Parque da Cidade e a Quinta do Covelo são os locais do estudo que possuem variações de ruído mais elevadas, indicando que estes espaços possuem a capacidade de atenuar esses ruídos de alta intensidade e de curta duração. Apesar dos três parques serem circundados por vias com grande volume de tráfego, a sua extensão parece permitir a atenuação desse ruído, não devendo ser descurada existência de muros no perímetro destes parques urbanos, mesmo que parcialmente, funcionando também como barreiras acústicas. No extremo oposto encontram-se os jardins da Praça da República, da Praça do Marquês de Pombal e de São Lázaro revelando uma incapacidade de atenuar e reduzir significativamente os ruídos de ponta, devido à sua reduzida extensão, proximidade às vias de tráfego e inexistência de qualquer tipo de perímetro murado, que permita atenuar significativamente os ruídos provenientes do meio exterior. Dde salientar o valor nulo obtido na variação face ao ruído de fundo no Parque de São Roque, justificado pelo ambiente sonoro relativamente constante quer no exterior e no interior do parque, motivada pela sua inserção em zona maioritariamente residencial e com pouca influência de grandes vias de tráfego. Tabela 2 - Variações dos valores médios de ruído de ponta (∆L A10 ), mediano (∆L A50 ), e de fundo (∆L A90 ), obtidas no exterior e no interior dos jardins/parques urbanos da cidade do Porto. Jardins ∆L A10 (dB) (=L A10 ext. – L A10 int. ) ∆L A50 (dB) (=L A50 ext. – L A50 int. ) ∆L A90 (dB) (=L A90 ext. - L A90 int. ) Praça da República 3,6 3,5 2,6 Praça Marquês de Pombal 5,1 4,0 2,6 Pr. Mouz. de Alb. (Rot. Boavista) 9,6 7,9 6,0 Jardim da Cordoaria 7,4 6,5 3,5 Jardim de São Lázaro 3,5 2,6 0,9 Jardim de Serralves 18,8 13,5 7,9 Parque da Cidade 21,8 16,0 9,5 Quinta do Covelo 12,4 10,1 6,9 Parque de São Roque 7,3 2,3 0,0 Praça Fr. Sá Carneiro (“Pr. Velas.”) 7,0 4,8 3,1 4.2 Resultados do inquérito sócio-acústico A amostra englobou 85 inquéritos realizados nos vários jardins/parques a visitantes. Os inquiridos foram 66% do sexo masculino. Do total, 26% tinha entre os 46 e 65 anos e 36% mais de 65 anos o que revela que o utilizador comum dos jardins e parques urbanos do Porto é, na sua grande parte, idoso (só 14% tinham menos de 18 anos). Quando questionados sobre se os sons que ouviam seriam esperados quando visitavam o jardim, a grande maioria (51%) respondeu que concordava muito ou totalmente (15%), sendo pouco significativo os que se mostravam indiferentes (2%) ou que discordavam de alguma forma (13%) (figura 3); Sobre se gostavam dos sons que ouviam, a maioria respondeu que concordava muito (49%), sendo que os restantes mostraram alguma indiferença (13%) ou até alguma forma de desagrado (21%) (figura 4); quando questionados sobre se o “volume” desses sons provocava incómodo, a maioria respondeu que discordava muito (32%) ou totalmente (21%), sendo que uma parte dos visitantes se mostrou indiferente (16%) e o restante concordou (25%) de alguma forma sentir-se incomodado com o
Acústica 2012, 1 a 3 de Outubro, Évora, Portugal 7 “volume” dos sons do ambiente em redor (figura 5); quando questionados sobre a tranquilidade proporcionada pelo jardim, a maioria dos visitantes concorda pouco (19%) ou muito (52%), havendo uma fracção que discorda de alguma forma (14%) (figura 6). Foi solicitado aos visitantes que identificassem três sons no local. Usando a classificação de Schafer [3] os sons identificados adquirem a seguinte classificação: trânsito (34%), sons humanos (28%), sons naturais (10%), sons de aves (24%), maquinaria (2%), música (0%), sinalética (2%) e outros (1%). Quando questionados sobre o motivo de visita ao jardim, a maioria respondeu que seria por recreio (53%), seguido por desporto (17%) e pela vegetação (17%). Figura 3 - Respostas da globalidade dos inquiridos à pergunta se os sons ouvidos nos jardins eram esperados. (1: Discordância, 7: Concordância) Figura 4 - Respostas da globalidade dos inquiridos à pergunta sobre se gostavam dos sons ouvidos nos jardins/parques. (1: Discordância, 7: Concordância) Figura 5 - Respostas da globalidade dos inquiridos à pergunta sobre se o “volume” dos sons no jardim/parque seria incómodo. (1: Discordância, 7: Concordância) Figura 6 - Respostas da globalidade dos inquiridos à pergunta sobre a tranquilidade dos jardins/parques. (1: Discordância, 7: Concordância) Assim que questionados sobre o aspecto do jardim que maior importância mereceria, na perspectiva do visitante, o ar puro surge destacado (32%), seguido pela sua vegetação (28%) e limpeza do jardim (24%). Só 2% dos visitantes referiram que procuravam o silêncio quando visitavam os jardins/parques. Por fim, foi solicitada uma avaliação global dos jardins entre péssimo e óptimo. Avaliaram como bom 35% dos inquiridos, havendo uma fracção semelhante que considera suficiente (34%) (figura 7).
António P. O. Carvalho, Ricardo Cleto 8 Figura 7 - Distribuição da avaliação dos inquiridos quanto à classificação global dos jardins/parques. 4.3 Análise dos resultados do inquérito sócio-acústico As respostas dos 85 inquiridos no estudo revelam uma maior taxa de concordância com os aspectos agradáveis da paisagem sonora do que os desagradáveis. No entanto, geralmente a preocupação dos visitantes está virada mais para aspectos sociais do que propriamente para o melhoramento da paisagem sonora dos jardins. Analisando as respostas, pode ser entendido que o ruído do trânsito, assinalado mais vezes na questão 6, é identificado como constituinte da paisagem sonora dos jardins do Porto por uma minoria que se sente desagradada, havendo uma maioria que quando frequenta esses locais espera encontrar esse tipo som incluído na paisagem sonora. No que respeita à composição da paisagem sonora, em todos os jardins foi identificado o ruído proveniente do tráfego, sendo no geral o que teve mais ocorrências (34% do total). No entanto, grande parte os visitantes não se sentem incomodados (53%) com essa interferência na paisagem sonora, levando até a uma habituação. Surge o caso particular de certos inquiridos com mais de 65 anos, de forma informal, confidenciarem que visitam os jardins para ver movimento e ouvir “barulho”. Na questão 3 é solicitada a opinião sobre o incómodo do nível sonoro do ambiente do jardim/parque, sendo que a maioria mostrou discordar (59%) que o “volume” da paisagem sonora a incomodava, contra a minoria (25%) que concordavam sentir-se incomodados com o “volume”. No entanto, seis dos dez jardins e parques apresentaram valores médios no seu interior do L Aeq superiores ao limite proposto pela OMS de 55 dB [6]. A comparação dos dados obtidos nos inquéritos e os resultados das medições acústicas indicam que os visitantes dos parques e jardins têm uma certa tolerância relativamente a elevados níveis sonoros. Dos inquiridos apenas 25% afirmaram que o “volume” dos sons os incomodaria de alguma forma ("pouco", "muito" ou "totalmente"), enquanto a maioria (59%) discordou do incómodo. Outro ponto que reforça esta ideia, e justifica a falta de incómodo, é a avaliação que os inquiridos fizeram da paisagem sonora em termos de agradabilidade e tranquilidade: 84% concordaram que o jardim/parque era agradável e 81% concordaram que o jardim/parque era tranquilo. Estes resultados confirmam que, na presença de um som agradável, como o canto dos pássaros, por exemplo, o grau de incómodo do nível de som predominante na paisagem sonora é relativamente baixo. Assim, a presença de sons agradáveis, como os naturais, podem melhorar consideravelmente o conforto acústico, mesmo quando o nível de som é bastante elevado [2, 5]. Outro factor que pode ter influenciado a percepção do "volume" da paisagem sonora é paisagem visual dos parques, especialmente a sua vegetação, assinalada como um dos motivos de visita deste tipo de local por cerca de 28% dos inquiridos. Estudos anteriores mostraram que a mera presença de vegetação torna o ambiente mais agradável [3, 5] funcionando como elemento redutor da sensação de cansaço causada por elevados níveis sonoros. Com as respostas à questão 6 é evidente que mesmo em áreas como jardins públicos o ruído do tráfego é facilmente percebido, sendo 34% de todos os sons enumerados nos dez locais. No entanto, foi verificado que esse som não domina a paisagem sonora destes espaços, como faz na maioria dos ambientes urbanos, já que os inquiridos foram capazes de identificar sons diferentes. Isso demonstra a diversidade de sons que compõe a paisagem sonora, bem como a inteligibilidade desses ambientes, onde os sons podem ser ouvidos claramente. Por outras palavras, o ruído proveniente do tráfego que
Acústica 2012, 1 a 3 de Outubro, Évora, Portugal 9 circula à volta dos jardins não mascara outros sons gerados no interior destes locais, especialmente o canto das aves, os sons humanos e outros sons naturais (vento, água, árvores e outros animais). Por último, os resultados dos inquéritos indicam também que a maioria dos visitantes dos jardins e parques urbanos do Porto avaliam globalmente esses locais como suficientes (34%) ou bons (35%). A maioria mostrou-se satisfeita com o ambiente dos jardins e parques urbanos do Porto. 5 Classificação “acústica” de jardins urbanos Não existe um critério universalmente aceite para limite do nível de ruído nos parques urbanos. No entanto, a OMS recomenda um valor máximo de 55 dB para o L Aeq de áreas exteriores de recreio [6]. Este critério de ruído será adoptado na proposta de classificação, pois o diálogo entre visitantes dos parques e jardins urbanos do Porto demonstra ser das actividades mais executadas pelos utentes desses espaços. A literatura refere que a interferência na comunicação começa por volta dos 50 dB(A). Sabese que um discurso falado com um ruído de 45 dB(A) é positivamente inteligível, sendo ainda entendido com níveis de ruído de 55 dB(A). É pretendido, também, que esta classificação espelhe a capacidade que o jardim/parque urbano possui no “isolamento” do ruído face ao exterior, sendo que aquele que possuir uma maior capacidade de “isolamento”, oferece, tendencialmente, um ambiente sonoro melhor e com maior recolhimento acústico, caso a envolvente não seja exageradamente ruidosa, não incluindo a questão social. Combinando estes dois factores, inteligibilidade da voz e capacidade de redução de ruídos, é proposta a equação seguinte para classificação acústica de um jardim/parque urbano (CJ). 905010 .int *2,0*3,0*5,0 AAA ArefAeq LLL LL CJ ∆+∆+∆ − = em que CJ é a Classificação do Jardim urbano, L Aeq int. corresponde ao nível sonoro contínuo equivalente medido no interior do jardim; L Aref é o nível sonoro de ruído ao qual o discurso falado é positivamente inteligível, assumindo um valor de 45 dB; ∆L A10 , ∆L A50 e ∆L A90 são respectivamente a variação de cada parâmetro, do seu valor obtido no exterior face ao interior. Esta expressão traduz no numerador a importância dada à inteligibilidade da voz face ao ruído fundo, por isso foi assumido como valor de referência um L Aref de 45 dB que é subtraído ao valor de L Aeq obtido no interior do jardim, onde os visitantes permanecem nas suas actividades. O jardim/parque fornecerá uma boa inteligibilidade da voz tanto quanto menor for o valor desta diferença. No denominador é considerada a capacidade de “redução sonora” dos jardins, através de uma média ponderada já que os ruídos de ponta mostram ser mais incómodos. O jardim/parque terá uma boa capacidade de redução sonora tanto quanto for maior o resultado da média ponderada. A Tabela 3 apresenta a classificação do índice CJ através de uma escala subjectiva. O jardim/parque que obtiver um valor de CJ alto terá uma má inteligibilidade e baixa redução sonora no seu seio. Através dessa classificação é possível obter a Tabela 4 com a classificação dos jardins e parques urbanos do Porto. Tabela 3 - Proposta de escala para classificação de jardins (CJ) urbanos. CJ ≤ 0,2 ]0,2 – 1] ]1 – 2] ]2 – 3] > 3 Classificação Óptimo Muito bom Aceitável Mau Péssimo