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Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos

Jorge Miguel Carvalho Fernandes

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REDUÇÃO DE PERDAS APARENTES EM SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos JORGE MIGUEL CARVALHO FERNANDES Dissertação submetida para satisfação parcial dos requisitos do grau de MESTRE EM ENGENHARIA CIVIL — ESPECIALIZAÇÃO EM HIDRÁULICA Orientador: Professor Joaquim Manuel Veloso Poças Martins Coorientador: Engenheiro José António Soares Martins JULHO DE 2014 MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL 2013/2014 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL Tel. +351-22-508 1901 Fax +351-22-508 1446  m[email protected] Editado por FACULDADE DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO Rua Dr. Roberto Frias 4200-465 PORTO Portugal Tel. +351-22-508 1400 Fax +351-22-508 1440  [email protected]  http://www.fe.up.pt Reproduções parciais deste documento serão autorizadas na condição que seja mencionado o Autor e feita referência a Mestrado Integrado em Engenharia Civil - 2012/2013 - Departamento de Engenharia Civil, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, Portugal, 2013. As opiniões e informações incluídas neste documento representam unicamente o ponto de vista do respetivo Autor, não podendo o Editor aceitar qualquer responsabilidade legal ou outra em relação a erros ou omissões que possam existir. Este documento foi produzido a partir de versão eletrónica fornecida pelo respetivo Autor. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos À minha família e amigos. Se tens que lidar com a água, consulta primeiro a experiência, depois a razão. Leonardo da Vinci Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos i AGRADECIMENTOS A realização desta dissertação não seria possível sem a intervenção de um conjunto de pessoas indispensáveis na minha vida ao longo destes últimos meses. O esforço e dedicação existentes em muito se devem a essas pessoas, às quais gostaria de deixar uma palavra de gratidão e apreço. Em primeiro lugar, aos meus pais, que sempre me apoiaram em todo o tipo de decisões tomadas. Este agradecimento refere-se aos cinco anos de faculdade. As dificuldades sempre foram ultrapassadas graças a eles. Aos meus irmãos e amigos que se dispuseram a acompanhar-me em momentos difíceis. Um agradecimento especial à Ana Francisca Silva pelo apoio incondicional durante todo o período de realização da dissertação. Ao meu colega e amigo, Engenheiro Hugo Carvalho, por toda a ajuda e disponibilidade durante a realização do estágio na Empresa Águas de Gaia. Perante as adversidades passadas na realização da dissertação, foi sempre um ponto de equilíbrio fundamental. A nível profissional existe uma série de pessoas que merece, sem dúvida, uma palavra de gratidão. Refiro-me a todos aqueles que acrescentaram, nos últimos seis meses, conhecimento e experiência à minha vida profissional. Ao Prof. Joaquim Poças Martins, pelo acompanhamento e orientação no desenvolvimento desta dissertação. A transmissão dos seus pontos de vista e conhecimentos permitiram uma maior facilidade na integração ao tema em estudo. Agradeço, ainda, a oportunidade de realizá-la em ambiente empresarial, que, sem dúvida, acrescentou qualidade à minha formação profissional. Ao Eng.º Filipe Pires de Lima, pela disponibilidade no esclarecimento de dúvidas e pela atenção prestada durante todo o período de trabalho na Empresa Águas de Gaia. A sua ajuda foi essencial para a compreensão do funcionamento do sistema de Telegestão. Ao Eng.º Serafim Silva Martins, Presidente Executivo das Águas de Gaia, que permitiu o desenvolvimento desta dissertação na sede da Empresa em Vila Nova de Gaia. Ao Eng.º José António Martins, Diretor da Secção de Abastecimento de Água, pela atenção demonstrada e por facilitar sempre o acesso a qualquer tipo de informação. Aos Técnicos, Paulo Oliveira, Pedro Remelgado, Jorge Silva e João Gomes e ao Doutor José Cláudio, pelo apoio prestado durante o tempo de estágio dentro da Empresa, ajudando sempre a criar um bom ambiente de trabalho. A outros colaboradores da Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EM, SA, pela forma prestável como se disponibilizaram a ajudar nas tarefas que fui desempenhando. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos ii Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos iii RESUMO Dentro do contexto atual das Entidades Gestoras surge a problemática das perdas de água, um dos temas cruciais da atualidade. Com o passar do tempo e a evolução dos sistemas de monitorização, assim como dos aparelhos de leitura, o combate às perdas aparentes tornou-se um objeto de estudo obrigatório numa Empresa de Abastecimento de Água. O combate ao consumo não faturado possibilita a redução do preço exigido ao consumidor e o consequente lucro da Entidade Gestora, sendo uma mais-valia para a gestão municipal necessária na maioria das Empresas de Água. Nesta dissertação procura-se definir estratégias que coloquem um ponto final nas perdas de água aparentes. Este trabalho requer um enorme esforço por parte das Entidades Gestoras, nem sempre significa acabar, na totalidade, com essas perdas, mas sim reduzi-las até atingir o patamar desejado, ou seja, o Nível Económico de Perdas. Um dos objetivos específicos deste estudo passa por sensibilizar o leitor/consumidor para as diferentes formas de fraude a nível do abastecimento de água. Em primeiro lugar, distingue-se o que é ou não considerado fraude. Posteriormente, realiza-se um trabalho que permita a definição de critérios para identificação de fraudes. A ordem de trabalho numa Entidade Gestora deverá seguir então este procedimento, que será reflexão nesta dissertação. A imagem de marca de um Engenheiro é a procura por respostas claras e concretas num curto espaço de tempo. Este é o lema para qualquer tipo de serviço que um Engenheiro Civil venha a realizar, especialmente, num departamento como o do abastecimento de água. A evolução das tecnologias nas últimas décadas, aliada ao crescimento do setor da construção, permitiu a realização da maioria das obras de abastecimento e drenagem de águas em todo o país. O trabalho, que hoje é feito, passa por preservar essas obras, reabilitando e completando os sistemas, tendo o Engenheiro a capacidade de gerir e adaptar-se a essas novas circunstâncias. Telegestão e Contadores Inteligentes são temas aos quais um técnico de águas terá que se ir habituando. PALAVRAS-CHAVE: perdas aparentes, água não faturada, nível económico de perdas, consumos fraudulentos, telegestão. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos iv Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos v ABSTRACT Within the current context of the Management Entities, the issue of loss arises. In many of the cases it becomes a subject that doesn’t arouses interest, in others it is a subject of great importance . Over the years, the development of monitoring systems, as well as the reading devices, combating apparent losses became an object of study required in a Water Supply Company. The different possibilities of facing this reality emerge from a national overview not only of foreign studies as interim studies. As a result of combat the non-revenue water emerges the possible reduction of price demanded to the consumer and still creating profit in the Managent Entity. This last point is advantageous compared to municipal management required in most Water Companies. This dissertation will rely mainly on developing strategies that put an end to the apparent losses of water. It will be noticeable that this work of constant search isn’t easy, requiring a huge effort by the Management Entities. Putting an end to this does not mean ending, in total, with the apparent losses, but reducing them to a desired level. A concept that is becoming increasingly important within a Management Entity is to achieve a desired Level of the Economic Losses. One of the major objectives of this study is to move the reader to the various forms of fraud water supply level. Firstly, it must be able to distinguish what will be considered as fraud or not. After this, a study should be done that allows the definition of criteria to identify this types of fraud. The work order in the Management Entities shall follow this procedure, which will ultimately be reflected in this dissertation. The hallmarks of an engineer is the search for clear and concrete answers in a short amount of time. This is the motto for any kind of service that a Civil Engineer will perform, especially in a department as the water supply. The evolution of technology in recent decades, along with the growth of the construction sector, allowed the realization of most works of water supply and drainage throughout the country. The work that is done today involves preserving these works, rehabilitating and completing systems. This requires that the engineer is able to manage and adapt to these new circumstances. Technologies such as remote management and Smart Meters will be topics for which a water technician will have to be accustomed. KEYWORDS: apparent losses, non-revenue water, economic level of losses, fraudulent use, remote management. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xii Fig. 2.30 – Leitura de um contador por técnico especializado (http://www.rrcwater.org/meters) ......... 44 Fig. 2.31 – Contador de Água, Indicações Básicas (ERSAR, 2014) .................................................... 45 Fig. 2.32 – Pressão do grampo sobre o contador (http://www.daesbo.sp.gov.br/home_saiba_mais.php?cmpt=fraudes_nas_liga%E7%F5es) ............... 46 Fig. 2.33 – Exemplo de um furo através de um arame (http://www.jornalaqui.com/noticia.php?id=3567&idedit=11&banner=1)............................................... 46 Fig. 2.34 – Colocação de íman junto ao contador (https://www.youtube.com/watch?v=MX4HjOWoYvE) .......................................................................... 47 Fig. 2.35 – Inversão do sentido do contador (http://www.hometips.com/repair-fix/water-shutoffvalve.html) ............................................................................................................................................. 47 Fig. 4.1 – Rede de Distribuição de Águas em Vila Nova de Gaia (Águas de Gaia, 2014) ................... 53 Fig. 4.2 - R23, Valadares, Vila Nova de Gaia (Oliveira, P.S., 2012 – Águas de Gaia) ......................... 54 Fig. 4.3 – Rede Pública de Abastecimento de Água (Águas de Gaia, 2014) ....................................... 58 Fig. 4.4 Análise de Consumos Noturnos (Águas de Gaia, 2014) ......................................................... 63 Fig. 4.5 – Logger Acústico e Correlacionador Acústico (Águas de Gaia, 2014) ................................... 63 Fig. 4.6 – Curva de erros de um contador (janz.pt, 2014) ..................................................................... 69 Fig. 4.7 – Contadores alterados propositadamente pelos clientes (Oliveira, P. S., 2014 - Águas de Gaia) ...................................................................................................................................................... 72 Fig. 5.1 – Mapa dos Reservatórios das Águas de Gaia (Águas de Gaia, 2014) .................................. 76 Fig. 5.2 – Mapa de freguesias de Vila Nova de Gaia (google.pt, 2014) ............................................... 76 Fig. 5.3 – Bairro dos Cubos, Oliveira do Douro (googlemaps.pt, 2014) ............................................... 78 Fig. 5.4 – Urbanização Vila d’Este, Vilar de Andorinho (http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=590544) ................................................................ 79 Fig. 5.5 – Reservatório 9, Oliveira do Douro com identificação do Bairro Quinta dos Cubos .............. 84 Fig. 5.6 – Colocação de um contador de 80 mm para definir ZMC na Rua Quinta dos Cubos ............ 85 Fig. 5.7 – ZMC para identificação de Consumos Fraudulentos em Oliveira do Douro ......................... 85 Fig. 5.8 – Urbanização Vila d’Este ........................................................................................................ 86 Fig. 5.9 – Definição da Colocação de Contadores Vila d’Este, R21 ..................................................... 87 Fig. 5.10 – Alerta Contador Bloqueado (http://medindoagua.com.br/tag/tarifa-de-agua/) .................... 88 Fig. 5.11 - Instalação de SmartMeters no mesmo prédio (http://www.etandt.com/news/smart-metermeasurements-can-be-difficult-and-complex/) ...................................................................................... 89 Fig. 5.12 – Rede EPANET Póvoa Alta .................................................................................................. 90 Fig. 5.13 – Cartaz Publicitário Tarifário Social (Águas de Gaia, 2012) ................................................. 91 Fig. 5.14 – Sistema de Telegestão (Águas de Gaia, 2014) .................................................................. 93 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xiii ÍNDICE DE TABELAS Tabela 2.1 - Modelos de Gestão em Sistemas de Titularidades Estatal .............................................. 10 Tabela 2.2 – Modelos de Gestão em Sistemas de Titularidade Municipal ou Intermunicipal .............. 10 Tabela 2.3 - Consumo médio familiar estimado pela ERSAR .............................................................. 11 Tabela 2.4 – Balanço Hídrico (m³/ano) ................................................................................................. 13 Tabela 2.5 – Estrutura dos indicadores de desempenho ..................................................................... 15 Tabela 2.6 – Classes Contadores ......................................................................................................... 34 Tabela 2.7 – Exemplo teórico do efeito de escala numa EG ................................................................ 49 Tabela 4.1 – Balanço Hídrico de 2008 a 2012 (Águas de Gaia, 2014) ................................................ 54 Tabela 4.2 – Principais mudanças na Empresa entre 1998 e 2004 (Poças Martins, J., 2012) ............ 56 Tabela 4.3 – Progressão das perdas de água (m³, %) desde 2008 (Águas de Gaia, 2014) ................ 57 Tabela 4.4 – Rede Pública de Abastecimento de Água (Águas de Gaia, 2014) .................................. 58 Tabela 4.5 – Clientes com consumos médios mensais superiores a 500 m³ no ano de 2013 (Águas de Gaia) ...................................................................................................................................................... 65 Tabela 4.6 – Ligações diretas desde 2005 (Águas de Gaia, 2014) ...................................................... 74 Tabela 5.1 – Ligações ilícitas dos anos 2012 e 2013 por freguesias (Águas de Gaia, 2014) .............. 78 Tabela 5.2 – Contadores alterados por freguesias de Vila Nova de Gaia (Águas de Gaia, 2014) ...... 80 Tabela 5.3 – Custos instalação ZMC numa conduta de 90 mm ........................................................... 83 Tabela 5.4 – Um novo Balanço Hídrico esperado ................................................................................ 94 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xiv Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xv ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráf. 4.1 – Volumes de Água (m³) – Comparação (AAD, AF e ANF) (Águas de Gaia, 2014) ............. 55 Gráf. 4.2 – Comparação entre % de ANF e AF desde 1999 (Águas de Gaia, 2014) ........................... 55 Gráf. 4.3 – Decomposição da água não faturada (Águas de Gaia, 2012) ............................................ 60 Gráf. 4.4 – Distribuição das perdas reias pelas suas componentes (Águas de Gaia, 2012) ............... 60 Gráf. 4.5 - Exemplo teórico do ponto de equilíbrio na definição de NEPa ........................................... 64 Gráf. 4.6 - Caudal (m³/s) ....................................................................................................................... 67 Gráf. 4.7 – Volume acumulado (m³) ...................................................................................................... 67 Gráf. 4.8 – Velocidade (m/s) Contador de 50 mm ................................................................................ 68 Gráf. 4.9 – Velocidade (m/s) Contador de 40 mm ................................................................................ 68 Gráf. 4.10 – Velocidades Contador de 50 mm durante mês de Setembro ........................................... 69 Gráf. 4.11 – Velocidades Contador de 40 mm durante mês de Setembro ........................................... 70 Gráf. 4.12 – Velocidades Contador de 50 mm durante um dia de Setembro ....................................... 70 Gráf. 4.13 – Velocidades Contador de 40 mm durante um dia de Setembro ....................................... 71 Gráf. 5.1 – Distribuição das ligações ilícitas (Águas de Gaia, 2014) .................................................... 77 Gráf. 5.2 – Contadores alterados – Distribuição (Águas de Gaia, 2014).............................................. 81 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xvi Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xvii SÍMBOLOS, ACRÓNIMOS E ABREVIATURAS Q - Caudal Qmin – Caudal mínimo Qmax – Caudal Máximo Qn – Caudal nominal Qt – Caudal de transição ADD – Água Adquirida ou Água Entrada no Sistema AdP – Águas de Portugal AF – Água Faturada ANF – Água Não Faturada APDA – Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Água CEE – Comunidade Económica Europeia EG – Entidade Gestora EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres ERSAR - Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos ETA – Estação de Tratamento de Água et al – entre outros Fig. – Figura Gráf. – Gráfico INAG – Instituto Nacional da Água IRAR – Instituto Regulador de Águas e Resíduos IWA – International Water Association LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil MID – Measurement Instruments Directive NEP – Nível Económico de Perdas NEPa – Nível Económico de Perdas Aparentes NEPr – Nível Económico de Perdas Reais NP – Norma Portuguesa PEAASAR - Plano Estratégico de Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais PENSAAR - Plano Estratégico Nacional para o Setor de Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais PLC – Programmable Logic Controller Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos xviii PVC – Policloreto de Vinila RTU – Remote Terminal Unit SAA – Sistema de Abastecimento de Água SMAS – Serviço Municipalizado de Água e Saneamento ZMC – Zona de Medição e Controlo Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 1 1 INTRODUÇÃO 1.1. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA A prática corrente do consumo de água é um privilégio enorme para qualquer ser humano. Esta atividade permite a qualquer ser vivo a continuidade no planeta, remetendo desde logo a elevada importância deste elemento natural. Apesar da existência em abundância deste elemento na Terra, tornando-o num recurso inesgotável, o aumento da população mundial cria certas dificuldades para a sua entrega ao consumidor. Não significa que não exista água suficiente para abastecer todo um planeta, porque de facto existe. São, no entanto, problemas como a crescente urbanização e a procura de fixação nas grandes metrópoles que geram dificuldades no abastecimento atual. A procura por um Sistema de Abastecimento de Água que consiga responder a estas mudanças numa grande cidade é um grande objetivo por parte dos intervenientes responsáveis. As alterações nos planos e os crescentes gastos na realização das infraestruturas provocam um acréscimo no preço da água, que, apesar de ser um problema previsível a curto, médio e longo prazo, torna-se de difícil combate e praticamente impossível de responder corretamente. Neste ponto é crucial refletir sobre as componentes do Sistema de Abastecimento de Água que permitem a redução de despesas por parte da Entidade Gestora. Só assim será possível obter resultados significativos, os quais proporcionam a redução da fatura da água. A EG obtém a água a um certo preço e, posteriormente, vende a mesma a um preço mais elevado. No entanto nem toda a água adquirida é faturada; residindo aqui o grande problema de um SAA. As duas componentes principais da ANF são as perdas reais e as perdas aparentes. Se o combate a estas duas fontes for conseguido, tal como é pretendido, a busca de água por parte da EG reduz significativamente o que poderá conduzir a ganhos potenciais na economia. Nesta dissertação será o combate às perdas aparentes que tomará o lugar de destaque. No seio das perdas aparentes existe uma divisão da parte que é originada pelas falhas dos serviços da EG, da parte que é originada pela fraude dos clientes. Apesar de as duas partes serem retratadas nesta dissertação, é a fraude dos clientes que irá ganhar um maior relevo ao longo da mesma. O grande objetivo deste trabalho é, como o próprio título indica, a definição de critérios para identificar a fraude no abastecimento de água. Para que isto seja possível é necessário encontrar padrões temporais de ocorrências desses eventos; daí a importância de estudar o caso concreto da Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EM, SA. Do ponto de vista da EG existem questões que exigem respostas concretas, as quais tentarão ser respondidas ao longo deste trabalho: Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 2  Qual a importância do combate a este tipo de ANF no balanço hídrico e financeiro da Empresa;  Qual será o ponto de equilíbrio que coincide com o tão desejado Nível Económico de Perdas aparentes;  Quais as grandes vantagens dos novos sistemas informáticos na deteção de perdas aparentes;  Quais as vantagens em investir na substituição de contadores. Contudo, o combate às perdas aparentes não só se fixa na descoberta da fraude. Uma fatia grande é a subcontagem de contadores, principalmente, se forem medidores de grandes caudais. Interessa, por este facto, o estudo dessa parcela de ANF que começa cada vez mais a ganhar relevância no abastecimento de água. Analisada a importância deste tema na mecânica dos Sistemas de Abastecimento de Água, parte-se agora para uma pequena descrição da organização deste trabalho. 1.2. ORGANIZAÇÃO DA DISSERTAÇÃO Para melhor se entender o conteúdo do estudo realizado, esta dissertação será dividida em várias componentes. Para melhor interpretação do tema em estudo, realizou-se, numa primeira parte, um enquadramento, designado por pesquisa bibliográfica. De seguida, retiraram-se as respetivas conclusões, iniciando-se o desenvolvimento do caso em estudo. Por fim, e depois do estudo intensivo realizado, retiraram-se as conclusões devidas. Com a clareza necessária, proporciona-se de seguida a divisão por capítulos. Capítulo 1 Neste primeiro capítulo é realizada uma descrição geral do tema a abordar na dissertação. O objetivo primordial é enquadrar os objetivos pretendidos no ambiente atual da sociedade, acrescentando a importância do tema no contexto atual do Planeta. Ao mesmo tempo é realizada a organização da dissertação para melhor orientação do consumidor. Capítulo 2 Abre-se aqui um parêntese para uma reflexão do atual Sistema de Abastecimento de Água em Portugal. O atual panorama nacional será revisto assim como a polémica questão das privatizações. Definição de Balanço Hídrico. Abordagem da problemática das perdas de água num SAA. Interiorização do conceito de Água Não Faturada e consequências da mesma para a Entidade Gestora. Caracterização dos principais Indicadores de Desempenho numa Empresa de Abastecimento de Água, o que acaba por resultar numa pesquisa bibliográfica elaborada onde, o que se pretende é deixar no consumidor/leitor os principais conceitos técnicos de um Sistema de Abastecimento de Água. Neste capítulo explicar-se-á, também, o tema principal da dissertação. Definição de perdas aparentes e apresentação das principais causas para tal efeito. Consequências deste tipo de perdas no volume mensal de água não faturada. Estudo do peso desta componente no Balanço Hídrico de uma Empresa Gestora. Enquadramento do subtema: definição de critérios para identificação de consumos Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 3 fraudulentos. Comunicação dos principais tipos de contadores: vantagens e desvantagens. Abordagem ao tema da telemetria com maior predominância do sistema de telegestão. Capítulo 3 Capítulo onde se pretende definir claramente os objetivos provenientes do tema da dissertação. Em termos organizacionais, este capítulo serve para separar a pesquisa bibliográfica realizada, do caso de estudo realizado. Faz-se uma pequena conclusão dos capítulos anteriormente vistos, abrindo-se a janela dos próximos capítulos a ler. Capítulo 4 Após a análise teórica dos possíveis casos de perdas de água aparentes, no capítulo 5 estuda-se o caso específico da Empresa ÁGUAS e PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA, EM, SA. : caracterização da Empresa em si; contextualização no panorama nacional; análise da ANF e das suas componentes; estudo da subcontagem de contadores dos grandes clientes, introduzindo a importância das perdas aparentes na EG. Capítulo 5 Apresenta-se o caso de estudo, contendo os dados necessários para a análise de resultados. No caso de estudo, inicialmente, expõe-se a situação atual da Empresa em relação às perdas aparentes e, posteriormente, estudam-se as várias possibilidades de combate às mesmas. Assim, expõe-se a distribuição dos consumos fraudulentos pelo município de Vila Nova de Gaia, procurando-se depois definir critérios para identificação dos mesmos consumos. Capítulo 6 Neste último capítulo serão retiradas as conclusões provenientes da análise dos resultados obtidos assim como recomendações para futuros trabalhos dentro deste tema. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 10 Uma EG relacionada com a água trabalha hoje com as diferentes finalidades da mesma. Partindo do abastecimento, passando pelas águas pluviais e acabando nas águas residuais, uma empresa de Águas é obrigada a gerir todo este sistema para atingir o seu desejado grau de estabilidade. 2.1.2.1. Modelos de gestão Um modelo de gestão a seguir poderá variar de comunidade para comunidade. Existem fatores que poderão influenciar a escolha de um determinado modelo de gestão. Neste momento, existem no país cerca de quinhentas entidades gestoras. Face ao quadro legal, os serviços públicos essenciais de abastecimento de água e saneamento só poderão ter duas titularidades: ou estatal ou municipal. Tabela 2.1 - Modelos de Gestão em Sistemas de Titularidades Estatal MODELO ENTIDADE GESTORA PARCERIA Gestão Direta Estado (nenhum caso existente) Sem Parceria Delegação Empresa Pública (caso da EPAL) Sem Parceria Concessão Entidade concessionária multimunicipal Parceria Público-Pública, podendo evoluir a Parceria Público-Privada Tabela 2.2 – Modelos de Gestão em Sistemas de Titularidade Municipal ou Intermunicipal MODELO ENTIDADE GESTORA PARCERIA Serviços Municipais Sem Parceria ou com Parceria PúblicoPública no caso de serviços intermunicipais Gestão Direta Serviços Municipalizados Sem Parceria ou com Parceria PúblicoPública no caso de serviços intermunicipalizados Associação de Municípios Parceria Público-Pública Empresa Municipal Pública Sem Parceria Empresa Intermunicipal Pública Parceria Público-Pública Delegação Empresa Municipal ou Intermunicipal de Capitais Públicos Parceria Público-Pública Junta de Freguesia e Associação de Utilizadores Parceria Público-Pública Concessão Entidade Concessionária Municipal Parceria Público-Privada Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 11 2.1.2.2. Privatização do sistema público das Águas O assunto da ordem do dia no abastecimento de água é a constante questão da privatização dos sistemas municipais. Será que a privatização do sistema conduzirá a resultados satisfatórios para os clientes de um dado município? A pergunta remonta a 1993 e ainda hoje poderá ser feita. Nesse mesmo ano, a alteração da Lei de delimitação dos sectores permitiu criar concessões nos serviços de águas e resíduos. Com a revogação dessa mesma lei em 1997, a privatização das Águas ganhou uma importância imediata. Importa referir as diferenças entre privatizar e concessionar, que, por vezes, dificulta a interpretação da pessoa comum. Apesar de partilharem o mesmo objetivo, de transferir poderes de decisão para o fim de maximizar o lucro, a privatização envolve a venda de ativos como bens e equipamentos, enquanto a concessão não envolve esse tipo de venda. Segundo especialistas da área em questão, a privatização das águas requer um estudo pormenorizado. Os grandes municípios, face ao elevado número de clientes, deveriam garantir a eficiência dos seus sistemas. O mesmo não se pede aos pequenos municípios. Cerca de 200 Câmaras Municipais em Portugal têm menos de 20 mil habitantes, estando aquém da dimensão suficiente para poder ter um sistema sustentável. A agregação de municípios seria uma das soluções possíveis, no entanto esta ideia não é bem aceite por parte dos mesmos. Uma solução que foi tomada por alguns desses municípios foi a concessão, que como era de esperar, não deu resultados. (POÇAS MARTINS, 2012) De modo que se possa ter uma base fiável de preços e tarifas, a ERSAR definiu uma tabela que serve de exemplo de um custo médio mensal (Tabela 2.3). Esta tabela faz variar os preços da água por escalões de consumo. Tabela 2.3 - Consumo médio familiar estimado pela ERSAR Limites dos escalões Valor Unitário € (hipotético) Distribuição do volume consumido 20 m³ pelos escalões Valor final € (hipotético) 1º Escalão até 5 m³ 0,30 € 5 m³ 1,5 € 2º Escalão de 5 a 15 m³ 0,80 € 10 m³ 8 € 3º Escalão de 15 a 25 m³ 1,20 € 5 m³ 6 € 4º Escalão superior a 25 m³ 1,60 € 0 m³ 0 € Total 20 m³ 15,5 € Ao valor final estimado de 15,5 € junta-se uma taxa fixa, recomendada pela ERSAR, correspondente a um terço deste montante. Esta taxa fixa varia de município para município. Se se acrescentar o IVA de 23 %, o valor final a pagar será 25,50 €. Este será em média o valor pago a uma EG do setor público. Estima-se que o valor a pagar a uma Parceria Publico Privada é cerca de 30% superior. Uma boa gestão do sistema de abastecimento de água poderá ser o ponto de viragem numa EG. A redução das perdas de água poderá lançar o mote para a dinamização de um Sistema Público. Os casos Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 12 mais próximos são os de Vila Nova de Gaia e Porto. Os ganhos obtidos com o combate à ANF permitiu a existência de um fundo de maneio para a conclusão do sistema de saneamento e a obtenção de praias com bandeira azul. (POÇAS MARTINS, 2012) Desviando o olhar para alguns sistemas europeus, rapidamente se percebe que os melhores sistemas de abastecimento são públicos. Países como Alemanha e Holanda garantem com distinção a distribuição de água às suas populações, sem que o preço da água seja exorbitante. Isto para referir que o grande receio da privatização da Água é o aumento de tarifas aos clientes. 2.1.2.3. Um novo figurino no setor em Portugal O grupo Águas de Portugal cobre, com os seus serviços de captação, tratamento e distribuição de águas, cerca de 80% da população nacional. No entanto, esta Entidade Gestora tem, ao longo dos últimos anos, apresentado prejuízos avultados. Existe, por isso, uma necessidade de reestruturar o sistema, de modo a que se possa, num futuro próximo, ajustar o plano de investimentos em novas infraestruturas e na requalificação das já existentes. Para colmatar as discrepâncias tarifárias existentes entre o interior e o litoral do país e melhorar os níveis de eficiência do negócio, a Águas de Portugal colocou em andamento um processo de agregação dos 19 sistemas multimunicipais de abastecimento de água que integram o seu grupo. A ideia passa pela criação de 6 empresas: Águas do Norte, Águas de Lisboa e Vale do Tejo, Águas do Algarve, Águas de Santo André, Águas do Alentejo e Águas do Algarve. O grupo AdP viu-se obrigado a acomodar, nesta análise, não só a nova realidade económica do País, bem como as alterações regulatórias que foram introduzidas no setor. Espera-se que estas mudanças permitam reduzir uma série de custos ao nível da exploração, repartindo os custos entre o interior e o litoral. Prevê-se, por isso, um aumento das tarifas no litoral e uma redução no interior. (economico.sapo.pt, 2014) Não esquecer que a reforma do setor das águas implica a realização de novos contratos de concessão. Estas alterações no grupo AdP coincidem com a conclusão da privatização da Empresa Geral de Fomento, que é o braço das AdP para a área dos resíduos sólidos urbanos. O exemplo visto nos parágrafos anteriores referente à Águas de Portugal (maior EG de água no país) assenta bem naquela que é uma das maiores problemáticas dos sistemas de abastecimento de água: a gestão! As constantes mudanças no paradigma de uma Empresa criam uma certa instabilidade que poderá ter graves consequências a nível económico. Uma boa gestão permitiria equilibrar essa instabilidade e proporcionar lucros num curto espaço de tempo. 2.2. BALANÇO HÍDRICO A procura por um programa de gestão, que permite a uma dada EG a análise correta das componentes principais de um sistema de abastecimento de água, assenta, essencialmente, naquilo que é hoje chamado Balanço Hídrico (Tabela 2.4). Um balanço não é mais que uma análise económico-financeira onde são tidos em conta os pesos das componentes constituintes, ou seja, é um quadro comparativo de lucros e despesas. Num sistema de abastecimento que se aproxime da perfeição implica que a água paga pelo cliente/consumidor seja aproximadamente igual aquela que é comprada pela Entidade Gestora. Essa perfeição, ainda que teoricamente possível, é considerada unanimemente impossível. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 13 Tabela 2.4 – Balanço Hídrico (m³/ano) Água entrada no sistema (m³/ano) Consumo Autorizado (m³/ano) Consumo Autorizado Faturado (m³/ano) Faturado, Medido (m³/ano) Água Faturada (m³/ano) Faturado, Não Medido (m³/ano) Consumo autorizado Não Faturado (m³/ano) Não Faturado, Medido (m³/ano) Água Não Faturada (m³/ano) Não Faturado, Não Medido (m³/ano) Perdas de água (m³/ano) Perdas Aparentes (m³/ano) Consumo Não Autorizado (m³/ano) Erros de Medição (m³/ano) Perdas Reais (m³/ano) Fugas nos Reservatórios/Adutoras (m³/ano) Fugas na Rede (m³/ano) Fugas nas Ligações (m³/ano) Ruturas (m³/ano) Apesar de existirem várias componentes, todas elas importantes para o resultado final, o Balanço Hídrico assenta principalmente na análise de três partes fundamentais:  Água entrada no sistema, que representa a água adquirida (ADD) ou comprada pela Entidade Gestora;  Água Faturada em igual período (AF)  Água Não Faturada (ANF) 2.2.1. COMPONENTES DO BALANÇO HÍDRICO Partindo do conteúdo presente no quadro apresentado anteriormente é possível designar e descrever cada componente constituinte do balanço hídrico. a) Água entrada no sistema - Tal como o nome indica, será o volume de água que satisfaz as necessidades de um determinado número de clientes que são abastecidos pela entidade gestora em causa. b) Consumo autorizado – Volume anual de água, medido ou não medido, faturado ou não, fornecido a consumidores registados, a outros que estejam implícita ou explicitamente Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 14 autorizados a fazê-lo para usos domésticos, comerciais ou industriais e à própria entidade gestora. c) Consumo autorizado faturado – Volume de água, medido ou não medido, que é “vendido” aos clientes. Quando se fala em balanço económico esta é a componente que carrega os valores positivos para a entidade gestora. O que é faturado implica a obtenção de lucros, logo, é de interesse,que os valores desta componente sejam os mais próximos possíveis dos valores da água entrada no sistema. d) Perdas de água – Parcela da água não faturada que corresponde à diferença entre o volume de água entrado no sistema e o consumo autorizado. As perdas de água são, nos dias que correm, divididas em duas componentes: perdas aparentes e perdas reais. e) Perdas reais – Corresponde a todo o volume físico de água que se perde até ao contador do cliente, e que conta como água não faturada. Os mais conhecidos tipos de perdas reais são as fissuras na rede, as fugas nas ligações, as ruturas e as fugas nos reservatórios e adutoras. f) Perdas aparentes – Volume de água que representa as perdas não físicas, normalmente associado a furtos e usos ilícitos. Esta componente será posteriormente estudada ao detalhe. Poderá parecer prematuro falar já das componentes do Balanço, no entanto, é importante para o leitor ter um primeiro conhecimento dos campos que compõem o sistema e, ao mesmo tempo, das ligações existentes entre eles. Por exemplo, saber as componentes que perfazem a ANF e a AF. Referido anteriormente, este conhecimento acaba por ganhar maior relevância quando se pretende analisar economicamente os resultados da empresa. A ANF é o grande flagelo numa Entidade Gestora. Quando não respondida corretamente, os valores podem disparar de forma súbita, levando a perdas potenciais de lucros. Esta análise é relativamente fácil. Partindo do princípio que, tal como já referido, a Água de entrada no Sistema e a AF são medidos, o valor da ANF retira-se facilmente pela subtração das componentes anteriores. ANF = AAD – AF (2.1) 2.2.2. INDICADORES DE DESEMPENHO Mais que atingir os melhores níveis de faturação há que conseguir mantê-los. O que se pretende dizer é que, será mais difícil manter a qualidade do que atingi-la. Com base nisto as entidades reguladoras criaram os indicadores de desempenho. Deseja-se atribuir graus de desempenho e enquadrar a evolução do sistema de abastecimento de água de uma dada empresa. Segundo a IWA um indicador de desempenho é uma medida quantitativa de um aspeto particular do desempenho da Entidade Gestora ou do seu nível de serviço. É um instrumento de apoio à monitorização da eficiência e da eficácia da EG, simplificando uma avaliação que de outro modo seria mais complexa e subjetiva. (IRAR, 2012) Anualmente, as entidades gestoras são obrigadas a apresentar o estudo dos indicadores de desempenho, pelo menos dos mais importantes. Através deles é possível classificar o nível da empresa e atribuir uma qualificação para que se possam comparar face a outras empresas. Ainda que todos os indicadores apresentem o seu grau de importância, existem alguns que são recomendados para caracterização rápida da EG. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 15 Os indicadores são tipicamente expressos por rácios entre variáveis (dados da EG). Podem ser adimensionais (expressos em percentagem) ou intensivos (expressam intensidade como por exemplo em €/m³). A cada indicador corresponde uma regra de processamento, especificando todos os dados necessários ao cálculo, a unidade em que devem ser expressos e a respetiva combinação algébrica. Os dados para os cálculos podem ser gerados pela Entidade Gestora ou gerados externamente. (GUIA IRAR – INSTITUTO REGULADOR DE ÁGUAS E RESÍDUOS) Por forma a cumprir os objetivos da regulação foram definidos três grupos de indicadores de qualidade do serviço:  Indicadores que traduzem a adequação da interface com o utilizador: este grupo permite avaliar o serviço aos utilizadores em dois aspetos principais que são a acessibilidade do serviço aos utilizadores e a qualidade de serviço associada;  Indicadores que traduzem a sustentabilidade da prestação do serviço: pretende-se com este grupo de indicadores analisar a sustentabilidade económica do serviço, a sustentabilidade infraestrutural e a produtividade física dos recursos humanos;  Indicadores que traduzem sustentabilidade ambiental: visam avaliar os aspetos ambientais inerentes às atividades da Entidade Gestora ao nível da eficiência na utilização de recursos ambientais e da eficiência na prevenção da poluição. Apesar de parecer um sistema de controlo das Entidades Gestoras, os indicadores (Tabela 2.5) podem tornar-se bastante úteis para as mesmas. Além de permitirem uma melhor monitorização dos efeitos das decisões de gestão, facilitam uma melhor e mais oportuna resposta por parte dos gestores. Fornecem ainda informação-chave de suporte a uma atitude pró-ativa da gestão, em alternativa a uma atitude reativa, baseada nas disfunções aparentes dos sistemas. Tabela 2.5 – Estrutura dos indicadores de desempenho Grupo de Indicadores Código de Identificação Indicadores de Recurso Hídricos WR Indicadores de Recursos Humanos Pe Indicadores Infraestruturais Ph Indicadores Operacionais Op Indicadores de Qualidade de Serviço QS Indicadores Económico-Financeiros Fi Apresentam-se de seguida alguns dos mais importantes indicadores associados a uma EG, que servem de exemplo para o descrito anteriormente:  WR1 – Ineficiência na utilização dos recursos hídricos (%) – Perdas reais durante o período de referência / água entrada no sistema durante o período de referência *100  Pe1 – Empregados por ramal (n.º/1000 ramais) – Número total equivalente de empregados a tempo inteiro da entidade gestora / número de ramais *1000  Ph2 – Capacidade de reserva de água bruta (dias) – Capacidade de reserva de água bruta / água entrada no sistema durante o período de referência * duração do período de referência Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 16  Op4 – Controlo de fugas (%/ano) – (Comprimento de redes sujeito ao controlo ativo de fugas durante o período de referência * 365 / duração do período de referência) / Comprimento de condutas *100  QS3 – População servida (%) – População residente servida pela EG / população residente total * 100  Fi2 – Vendas (%) Proveitos de vendas / proveitos totais *100, durante o período de referência 2.2.3. NÍVEL ECONÓMICO DE PERDAS - NEP O NEP pode ser definido como a situação em que o custo marginal do controlo ativo de perdas equilibra o custo marginal da água perdida. Por outras palavras, a situação em que o custo de redução de perdas em uma unidade de volume é igual ao custo de produção dessa unidade de volume de água (ver Fig. 2.5). Para que ocorra o nível económico de perdas é necessário estar-se simultaneamente perante o nível económico de perdas reais e o nível económico de perdas aparentes. Isto deve-se ao facto dos procedimentos para minimização de erros de medição e de consumos não contabilizados serem independentes dos procedimentos para minimização de perdas reais. Para melhor interpretar a fase a que uma dada Empresa se encontra, é hoje possível determinar o nível atual de perdas. Poderá optar-se por duas abordagens: abordagem bottom-up ou top-down. Na abordagem bottom-up, utilizada numa fase intermédia, a EG poderá selecionar as primeiras áreas da rede a investigar com base em critérios empíricos, dos quais se salientam a frequência atual de roturas, a idade e materiais da rede, o tipo de solo, o nível freático e o tipo de ocupação sociodemográfica. A aplicação desta abordagem permite, sem grandes riscos de erro, selecionar algumas áreas da cidade claramente mais problemáticas e a necessitar intervenção urgente. A avaliação do nível de perdas será então efetuada para cada uma destas áreas. Uma vez cobertas as áreas onde a necessidade de intervenção é mais óbvia, é muito importante passar a adotar progressivamente uma abordagem estruturada, apoiada em estudos técnicos-económicos. Surge então a abordagem top-down, que consiste na avaliação das necessidades de intervenção, inicialmente para a globalidade do sistema, depois por grandes subsistemas, e progressivamente em menores áreas que abasteçam de 2000 a 6000 habitantes. Isto implica a determinação gradual das perdas atuais aos vários níveis de discretização. Conclusão, para estruturar corretamente uma estratégia global de controlo de perdas será conveniente vir a dispor dos meios que permitam avaliar separadamente as perdas relativas à rede de adução e à rede de distribuição. A evolução dos métodos de análise e controlo de sistemas de abastecimento de água nos últimos dez anos permitiu a aproximação ao conceito de nível económico de perdas. Este conceito passou a ser um tema de debate corrente nas principais Entidades Gestoras nacionais e internacionais. Interessa para cada uma delas saber até que ponto valerá o esforço de reduzir as perdas de água em face do balanço económico da Entidade. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 17 Fig. 2.5 - Nível Económico de Perdas (FARLEY, M., 2008) Poder-se-á pensar que seria de todo o interesse combater as perdas de água por forma a aumentar os lucros da Empresa e até mesmo baixar o preço de venda da água. Para muitos técnicos o ideal seria apresentar valores percentuais de perdas reais na ordem das unidades. Certamente que isso seria ótimo, se não existisse gastos com as reparações e substituições de condutas. Para que as perdas de água atinjam um nível extremamente baixo é necessário haver um investimento constante e cada vez maior. Haverá um ponto a partir do qual o custo de rebaixamento de um ponto percentual supera o lucro obtido por essa diminuição. Atinge-se aí o nível económico de perdas, sendo que é do maior interesse da Empresa manter esse nível durante o maior tempo possível. Importa então saber qual será o nível económico de perdas de uma dada EG. Este nível varia de Empresa para Empresa dependendo de vários fatores. Por exemplo, num local onde haja água em abundância, sem necessidade de ser paga pela sua aquisição (caso de existir uma nascente perto e o abastecimento ser por gravidade), é aceitável que hajam grandes perdas de água nas condutas. Todo o tipo de gastos com reparações e substituições de materiais, apesar de contribuírem para a redução das perdas, não traz ganhos absolutamente nenhuns a nível económico. Nestes locais o nível económico de perdas poderá mesmo atingir os 80%. Situação completamente oposta a esta última é o caso de locais onde a água é escassa e o preço da sua aquisição é elevado. Aqui torna-se importante para a EG reduzir ao máximo as perdas de água nas condutas. O ideal seria que a água adquirida fosse praticamente toda utilizada pelos clientes. O NEP poderá ser na ordem das unidades (5 a 10%). 2.2.4. DIFICULDADES DO SETOR - ÁGUA NÃO FATURADA Segundo as estatísticas do final do ano 2013, Portugal apresenta valores de Água Não Faturada na ordem dos 30%, em média, o que significa cerca de 170 milhões de euros por ano. Estes valores assustam, quando se sabe que é um valor médio. (ERSAR, 2013) Para se ter uma ideia do panorama internacional, são hoje aceites valores na ordem dos 15%, recomendados pelo IWA, o que torna o valor de Portugal preocupante. Mas o que mais preocupa é o facto de que, se a média aponta para os 30%, existirão operadores com valores aceitáveis (10 – 15%) e outros com valores completamente inaceitáveis (aproximadamente 70 a 80%). (BATISTA, 2013) Como seria de esperar os casos mais graves surgem nas áreas rurais, principalmente no interior do país, enquanto os melhores desempenhos se encontram juntos das zonas urbanas. Dos cerca de 850 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 18 milhões de metros cúbicos de água captada, tratada, transportada, armazenada e distribuída, aproximadamente 300 milhões não chegam a ser vendidos aos clientes. Estes valores exagerados de ANF são na maioria referentes a perdas físicas de água, devido a roturas e fissuras na rede, imprecisões nas medições e furtos de água, perdas comerciais devido a fornecimentos autorizados mas não cobrados (Bombeiros, regas municipais, fontanários, lavagens tubagens). Estes problemas aqui referidos remetem para uma falta clara de eficiência por parte dos municípios que são, na maior parte, responsáveis pelo abastecimento de água. Alargando este panorama a todo o país, nota-se que existe uma necessidade enorme de adquirir critérios e boas práticas de gestão nas EG’s. Esta gestão deverá conduzir a um contínuo progresso naquilo que se refere à redução da ANF. Os exemplos de alguns municípios deveriam ser seguidos por forma a obter-se a eficácia e eficiência pretendida. 2.3. PERDAS DE ÁGUA O grande flagelo de uma entidade gestora é o volume de água não faturada, que implica elevadas perdas de dinheiro. Como já foi visto anteriormente, o balanço hídrico e os indicadores de desempenho classificam os resultados de uma dada empresa. Valores elevados de água não faturada implicam uma regressão naquilo que é hoje chamado de sustentabilidade financeira. O principal problema prende-se, então, com as perdas de água. Aqui encontram-se as perdas físicas, aquelas em que se observa concretamente a perda de água, e as perdas não físicas (aparentes) que passam teoricamente despercebidas. O trabalho a realizar pelos responsáveis do abastecimento de água incide sobre a procura e resposta a estes dois tipos de perdas. Torna-se óbvio que este trabalho será mais difícil em redes com maiores dimensões que requerem uma maior análise e estudo. Por vezes, o grande problema não é reduzir as perdas mas sim mantê-las constantes. Este ponto é importantíssimo e foi já retratado num dos pontos anteriores como Nível Económico de Perdas. Esta questão constante da busca pelas perdas de água é pertinente quando se trata de grandes investimentos. A análise deverá ser bastante detalhada, pois é necessário ter em conta a dimensão da comunidade servida, os valores da água não faturada existentes e os investimentos previstos. Além destes fatores é preciso que a intervenção a realizar mostre resultados nos primeiros anos. Uma intervenção conseguida obtém resultados em 5-6 anos. (POÇAS MARTINS, J., 2012) 2.3.1. PERDAS REAIS Já foi visto o significado de perdas reais anteriormente. Interessa agora perceber a importância deste tipo de água não faturada no balanço hídrico e na parte financeira de uma EG. Primeiro, há que referir que é inevitável a existência de perdas reais, mesmo nas mais recentes e sofisticadas redes de abastecimento. As Entidades Gestoras sabem e já se adaptaram a viver com isso. O que lhes compete é mesmo trabalharem com o fim de as minimizarem. As perdas reais são caracterizadas pelo caudal libertado, duração média e frequência de cada fuga (Fig. 2.6). As condicionantes para o acontecimento de uma fuga são as mais variadas. As elevadas pressões na rede, o comprimento dos ramais de ligação e das condutas de distribuição, o desgaste das tubagens, o material constituinte assim como o tipo de solo envolvente são fatores que podem conduzir a perdas de água elevadas numa rede. (M. FARLEY, 2001) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 19 De forma a tornar coerente para o leitor a interpretação do Balanço Hídrico, opta-se por caracterizar os diferentes tipos de perdas reais provenientes do quadro já analisado. Sendo assim, existem as perdas de água devido a roturas, fugas nas ligações, fugas na rede e as fugas nos reservatórios e adutoras. O maior problema das fugas numa rede de abastecimento é que a maior parte delas não s visíveis, pois ocorrem nos ramais de ligação e nas condutas, que, como se sabe, encontram-se em zonas subterrâneas. Será impensável, numa rede de centenas ou milhares de quilómetros, procurar fugas de metro em metro. Fig. 2.6 – Fuga de água numa conduta (http://www.libelium.com/smart_water_wsn_pipe_leakages/) Segundo os dados disponibilizados pela ERSAR referentes ao ano de 2013, os sistemas de distribuição de água apresentam cerca de 50 roturas/fugas por cada 100 quilómetros. A mesma entidade refere que estes mesmos dados apontam para um deficiente estado das condutas e dos acessórios que constituem a rede. 2.3.1.1. Fugas e roturas em condutas As roturas estão associadas a perdas de água de grandes dimensões que são detetáveis facilmente. Como o volume de água é elevado, é com naturalidade que a água se encaminha até à superfície. Em casos de terrenos mais frágeis, a pressão da água é tanta comparada com a do terreno que poderá provocar o levantamento do mesmo. Apesar de tudo este tipo de perdas não é muito preocupante pois como é de fácil deteção também será de fácil intervenção. No caso de a fuga ser de pequena dimensão o problema é outro. Poder-se-ia pensar que as perdas de água seriam menores, mas tal não acontece na realidade. Ao ser uma perda pequena presume-se que não seja de fácil deteção. Deste modo, a água perde-se num maior espaço de tempo e o terreno envolvente não sofre grandes alterações (Fig. 2.7). A fuga ou rotura das condutas deve-se em muitos casos ao mau estado das mesmas. O desgaste provocado pela passagem da água ao longo dos anos aliado à possível corrosão cria roturas ao longo da conduta. A pressão da água posteriormente fará o trabalho restante conduzindo às fugas pela tubagem. A quantificação do volume perdido é estimada pelo número de reparações efetuadas. Esta estimativa resulta posteriormente em valores médios que se adotam para classificar o volume médio de fugas na rede. Volume total de fugas = nº de reparações * média caudal * duração média das fugas (2.2) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 26 Estas pequenas entradas de areias e outros grãos podem resultar de reparações nos ramais domiciliários. A acumulação de calcários é também natural nos contadores. Este facto aliado ao uso sazonal de água pode levar a uma maior dificuldade de rotação das peças móveis de um contador. Estando estas danificadas é natural que as voltas que estas dão não sejam contabilizadas o que conduz a uma não eficiência do contador. Um ponto importante que merece discussão é a utilização de contadores com diâmetros “sub” ou sobredimensionados. Existe sempre uma preocupação de utilizar diâmetros maiores devido às perdas de carga e ao possível aumento dos consumos, acabando por ser colocados diâmetros maiores que aqueles necessários. A grave consequência que o sobredimensionamento pode acarretar é a subcontagem dos contadores. Isto acontece porque o contador fica a trabalhar na parte inferior da sua escala de desempenho, provocando uma constante deterioração do mesmo. (RIZZO, S/ DATA) Por outro lado um subdimensionamento pode proporcionar muito rapidamente a deterioração do contador. Apesar de ter um registo com elevada precisão no momento da instalação e nos primeiros dias, existe uma grande tendência da rutura de algumas peças devido à pressão exigida pela água. De uma forma ou de outra existe uma necessidade enorme de dimensionar o contador de forma a responder a estes dois entraves possíveis. (ARREGUI, ET AL., 2005) 2.3.3.2. Erros humanos Apesar de todos os tipos de perdas analisados terem a “mão do Homem”, considera-se como erros humanos as leituras mal interpretadas numa Entidade Gestora. O cliente não apresenta qualquer tipo de culpa na fatura final apresentada, a não ser que seja ele a reportar as leituras mensalmente. O que acontece essencialmente é uma falta de coerência entre a informação recolhida pelo leitor com o valor realmente existente no contador. A perda de informação poderá acontecer de várias formas. Uma delas é a falta de visibilidade na leitura do contador assim como a dificuldade de acesso ao mesmo. Como a maioria dos contadores estão instalados ao nível do solo encontrando-se em condições de pouca visibilidade e até mesmo embaciados, devido à humidade, estes proporcionam erros de leitura com facilidade. Numa rede com um certo número de clientes é impossível avaliar todo esse conjunto mensalmente, daí a recolha de dados ser, normalmente, de dois em dois meses. Além disso é necessário um trabalho constante de aferição por parte dos leitores. É com naturalidade que o erro humano pode acontecer, como, por exemplo, na simples troca de números por parte do leitor. Mais uma vez a experiência do trabalhador é um aspeto fundamental que se deve ter em conta na análise. Para se ter uma ideia clara do modo de intervenção de um leitor explica-se de seguida detalhadamente o seu modo de trabalho. Uma Empresa de Abastecimento de Água tem normalmente técnicos especializados, que recebem formação para tal, que têm o conhecimento necessário para interpretar as leituras dos contadores. São acompanhados por um plano de trabalho definido na Empresa que indica o caminho a percorrer pelo técnico e os contadores a analisar. É evidente que essa ordem de análise deve ser estudada de modo a que o resultado diário apresente eficiência. Devido à recente modernização dos sistemas informáticos, o técnico é também acompanhado por um PDA que está ligado à base de dados dos clientes da EG. Além da morada associada a cada instalação (contador), o PDA transmite ainda informações sobre o tipo de tarifa e o período de tempo decorrido desde a última leitura. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 27 Para o maior controlo da situação contratual associada a cada instalação, o PDA pode apresentar também os últimos registos retirados quer pelo leitor quer pelo cliente. Desde logo poderá ser analisada uma possível situação de contador parado ou até mesmo vandalizado assim como ruturas inerentes ao contador. Como dá para perceber facilmente, este tipo de erros aparentam ser facilmente detetáveis, uma vez que a falta de coerência é suscetível aos olhos de qualquer técnico da Empresa. Na realidade, isto não acontece. Numa Empresa com milhares de dados de clientes é natural que estes pequenos erros de leitura passem despercebidos, o que se acaba por traduzir na emissão de faturas erradas. Todo o processo inerente ao balanço hídrico sofrerá as alterações devidas sem conhecimento pela parte da EG. Aliado à perda de água e ao aumento da ANF aparece o possível descontentamento dos clientes da Rede de Abastecimento. A alteração do preço da fatura poderá criar um certo desconforto que levará certamente a um mal-estar da EG perante a sociedade. 2.3.3.3. Consumo não autorizado A falta de honestidade no consumo de água de alguns cidadãos resulta numa problemática designada consumo não autorizado. A ligação à rede sem autorização por parte da EG, mais conhecido por furto ou ligação clandestina, compõe uma “grande fatia” do total das perdas aparentes. A grande diferença face às outras formas de perdas de água é a responsabilidade do cliente. Enquanto nos outros pontos, anteriormente vistos ,os erros se deviam à falta de capacidade da EG e a questões técnicas, neste caso, a Água Não Faturada provém da falta de civismo de alguns clientes. As ações propositadas de alguns clientes passam na maior parte das vezes por alterações no funcionamento normal do contador. As mais conhecidas formas de sabotagem são então:  Agulhas nos contadores  By-pass em paralelo ou em vez do contador  Contadores instalados ao contrário  Ramais clandestinos No caso das ligações clandestinas a água nem chega a passar pelo contador, sendo consumida diretamente da rede de distribuição. Além destas causas propositadas, existem ainda consumos em obras públicas de pequena dimensão provenientes de bocas-de-incêndio existentes nas proximidades. 2.3.3.4. Erros informáticos Os erros informáticos vêm de encontro aos já vistos erros humanos. O que caracteriza e distingue este tipo de erros é a falha no processamento de dados a nível informático. Apesar da constante evolução dos sistemas informáticos ainda é importante para uma EG procurar corrigir as possíveis falhas dos mesmos. Como já foi referido nesta dissertação, atualmente, estão a ser usados PDA’s que permitem a introdução direta das leituras realizadas pelos técnicos. Esta nova tecnologia reduz a probabilidade de ocorrência de erros mas não garante desde logo uma eficácia dominadora. Aliás, é pertinente que haja um constante trabalho de verificação de leituras por parte de técnicos informáticos de modo a analisarem a veracidade das mesmas. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 28 Posteriormente esses mesmos dados são colocados no sistema de faturação da Empresa. Os erros informáticos existentes serão encontrados na fatura da água enviada ao cliente. Torna-se óbvio que se o erro estiver contra o cliente, este apresentará de imediato um pedido de verificação da instalação. O mesmo não se passa se acontecer o inverso. Raro será o cliente que se queixará por pagar menos que o normal. E é aqui que reside a problemática dos erros informáticos. 2.4. TELEMETRIA Um tema da ordem do dia, no que diz respeito às EG’s que controlam sistemas de abastecimento de água, é a telemetria. O aparecimento deste novo sistema de gestão não surge só por uma questão de moda ou tendência, mas sim como uma solução que irá futuramente permitir às EG’s irem ao encontro de alguns aspetos fundamentais para a sustentabilidade do serviço, tais como uma gestão da água eficiente, a otimização dos serviços ao cliente, a melhoria da satisfação do cliente, as solicitações das entidades reguladoras e a conservação do recurso natural Água. (GUIA DE CONTADORES DE ÁGUA, APDA, 2012) A telemetria não é mais que a tecnologia que permite a medição e comunicação de informações de interesse do operador ou desenvolvedor de sistemas (Fig. 2.13). Tal como o nome indica, tele significa remoto e metria significa medida. Algumas empresas de água possuem contadores eletrónicos que enviam a informação do consumo para uma central ou visor individual, que gere toda a informação recolhida, podendo ,assim, ser efetuada a respetiva e correta faturação temporal. Isto permite a leitura sem que seja necessário a presença de um individuo, o que é uma grande ajuda numa EG com grande dimensão. (pt.wikipedia.org/telemetria) Fig. 2.13 – Sistema de telemetria (http://alfacompbrasil.wordpress.com/page/9/) Depois de uma breve descrição da função principal da telemetria, apresentam-se de seguida as grandes vantagens associadas à implementação deste sistema numa Empresa de Abastecimento de Água: Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 29  Fiabilidade dos dados recolhidos, que traz uma diminuição do trabalho administrativo. Um dos grandes ganhos do sistema é a possibilidade de evitar a ocorrência de erros associados à transição manual das leituras, quer para um terminal portátil, quer para o papel. Além disso, o facto de o tempo de trabalho administrativo e de leitura ser drasticamente diminuído, permite aumentar a frequência com que a leitura é efetuada. Consequência disso a possibilidade de redução dos tempos de reação por parte da EG quando existem consumos elevados (fugas), ou consumos reduzidos (contadores parados ou danificados).  Redução da faturação por estimativa. Com a possibilidade de realizar leituras mensais reias, já não existe a necessidade de se estimarem leituras e consequentes faturas por estimativa.  Redução das perdas. Através de datas fixas de leitura é possível efetuar o cálculo do consumo da rede de abastecimento de água e identificar as áreas críticas onde atuar.  Aumento da produtividade. O sistema de telemetria adapta-se a qualquer local, mesmo aqueles com difícil acesso, quase impossíveis de retirar leituras. Os exemplos maiores são os contadores instalados dentro de casas de cliente, poços ou valas, que estão submersos ou em condutas com acesso feito na via pública. Torna-se assim possível efetuar leituras fiáveis com menor periocidade e assegurar um maior rigor na faturação.  Deteção/alarme de fugas com definição da data e hora da ocorrência. Tanto para a EG como para os clientes, é possível ter uma ferramenta que detete possíveis fugas/ruturas no sistema de abastecimento. A telemetria oferece um sistema que controla os volumes de água que passam num dado local, possibilitando, assim, a análise permanente de perdas de água na rede.  Deteção de escoamento em sentido contrário. Existem duas possibilidades de ocorrer escoamento no sentido oposto ao normal: fraude ou introdução de água de origem não controlada no sistema de abastecimento da rede pública. Os sistemas de telemetria permitem identificar o escoamento inverso e ainda quantificá-lo. Assim é possível localizar a origem num curto espaço de tempo de forma a não existirem grandes perdas para a EG.  Identificação do perfil de consumo horário do cliente. Permite uma melhor gestão do consumo e da distribuição de água. Assim é possível compreender as necessidades reais de cada cliente e identificar anomalias (fugas e refluxos).  Caudais de alarme, com definição da data e hora da ocorrência. Permite perceber se o contador aplicado a cada um dos seus clientes está ou não corretamente dimensionado.  Programação de mais que uma data de fecho do mês. Funcionalidade que permite faturar clientes de segmentos diferentes em datas de fecho de mês diferentes, quer por conveniência da EG que por conveniência do cliente.  Gestão de tarifas bi-horárias ou sazonais. Apesar de em Portugal ainda não se falar em cobrança de água utilizando um sistema bi-horário, esta funcionalidade poderá tornar-se bastante útil no caso de clientes que apresentem picos de consumo elevados em determinados períodos do dia, o que obriga a EG a efetuar sobrecarga de pressão no sistema de distribuição de água. Uma tarifa sazonal, de valor superior em períodos de maior dificuldade de abastecimento, pode contribuir para atenuar os picos de consumo em determinados períodos do dia ou do ano.  Leitura do caudal instantâneo. Para um melhor estudo de possíveis situações com clientes, a análise do caudal instantâneo é muito importante. Antes da existência da telemetria só os dataloggers é que conseguiam registar esses dados. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 30  Data-logging com intervalos programáveis. Permite um acompanhamento mais detalhado de um determinado cliente. Apesar de o sistema de telemetria ainda estar a evoluir, ainda se apresenta bastante limitado no que toca a esta funcionalidade comparativamente aos datloggers.  Deteção de fraude através da deteção e alarme na maioria dos sistemas de telemetria. O sistema pode ser controlado para tentativas de remoção do módulo ou mesmo tentativas de colocação de ímanes nos módulos.  Deteção de contador parado, baseada numa parametrização prévia que pode ser personalizada em função do cliente. Isto permite à EG agir de forma mais rápida e substituir os contadores que vão ficando parados. (GUIA DE CONTADORES DE ÁGUA, APDA, 2012) Apesar de apresentar estas vantagens que contribuem para um aumento claro da eficácia e eficiência de um SAA, há que analisar com bastante cuidado os custos associados, não só à instalação como à posterior manutenção. Existe uma necessidade óbvia de acompanhar o funcionamento do sistema de telemetria; para isso há que formar técnicos que sejam capazes de responder devidamente às solicitações do sistema, sobretudo os sinais de alarme gerados. 2.4.1. TELEGESTÃO Devido ao grande desenvolvimento informático das últimas décadas, hoje é possível controlar um sistema de abastecimento de água a partir de um simples monitor. Apesar de parecer simples, é um processo que requer muito trabalho na sua elaboração. O que se pretende com este novo sistema de gestão da rede é proporcionar uma maior eficácia associada a um menor custo. O sistema de telegestão vem, de certa forma, responder aos problemas presentes nas grandes Entidades Gestoras, responsáveis pela distribuição de água, que se centram numa gestão de infraestruturas deficitária. Este sistema não é mais que um sistema de telemetria, anteriormente visto, no seu expoente máximo tecnológico (Fig. 2.14). O sistema de telegestão assenta em tecnologia de informação “de ponta”, apresentando uma série de vantagens na sua utilização como:  Segurança na exploração da rede, dado que o operador é avisado da ocorrência de possíveis anomalias, como, por exemplo, níveis dos reservatórios muito altos ou baixos, faltas de pressão, faltas de energia elétrica, avarias nos grupos de bombagem.  Conhecimento em tempo real do funcionamento das instalações.  Comando à distância de grupos de bombagem e válvulas.  Gestão da energia elétrica de todas as instalações de bombagem e tratamento.  Controlo de qualidade para verificação em tempo real dos parâmetros da qualidade da água.  Armazenamento de dados que são editados em forma de balanços ou estatísticas de funcionamento. (EPAL, 2014) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 31 Fig. 2.14 – Sistema Informático de Telegestão (ISA, 2013) O grande contra é o investimento que é necessário para implementar um sistema destes. Todavia, esse valor pode ser pago se o valor da ANF reduzir substancialmente, o que poderá acontecer mais rapidamente com um sistema de informação digital de topo. 2.5. CONSUMOS FRAUDULENTOS 2.5.1 CONTEXTUALIZAÇÃO Apesar de existir cada vez mais informação e até mesmo um maior controlo, os consumos fraudulentos não diminuem. Antes pelo contrário, tem-se registado um crescimento dos furtos e ligações ilegais. Talvez o aumento da informação não seja suficiente e, aquilo que, muitas vezes, se pensa ser ingenuidade, acabe por se tornar na tão conhecida esperteza. Este conjunto de fatores aliados à atual crise económica suscita as mais vastas ideias de sabotagem. No atual contexto da sociedade, este tema sugere um enorme interesse. Os consumidores, para evitarem o pagamento das faturas no final do mês, recorrem a métodos muitas vezes caricatos com o fim de ludibriarem a contagem real. Esta realidade não está apenas à vista no abastecimento de água como também na eletricidade. O combate à fraude é um objeto que requer uma análise elaborada dentro de uma EG. Antes de se partir para o estudo da fraude em si, é necessário analisar toda a envolvente. Este capítulo remete, então, para o estudo dos contadores, das suas medições e das possibilidades de alterar o seu normal funcionamento. 2.5.2. FRAUDES EM CONTADORES E LEITURAS / LIGAÇÕES ILÍCITAS Não é do conhecimento da maioria das pessoas, no entanto, é possível elaborar uma lista bem composta de formas de fraude nos sistemas de abastecimento de água. No decorrer deste subcapítulo descrever-se-ão essas mesmas formas, lançando sobretudo um olhar para os contadores de água. 2.5.2.1. Ligações ilícitas Antes de se abordar as alterações nos contadores em si, há que falar das ligações ilícitas realizadas por algumas pessoas que podem ser encontradas de duas formas diferentes no local: ligações clandestinas ou ligações por “by-pass”. As ligações clandestinas (Fig. 2.15) partem da rede de distribuição e não Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 32 apresentam qualquer tipo de contador, ou seja, existe um consumo de água direto da rede sem haver qualquer tipo de contabilização por parte da EG. Normalmente, essas ligações são realizadas por técnicos com alguma experiência, de modo a não causarem possíveis roturas na conduta principal que conduzam à descoberta da fraude. Fig. 2.15 – Ligação clandestina direta da rede (LÉDO, 1999) Muito parecido a este tipo de ligações, surgem as ligações por “by-pass” (Fig. 2.16). A forma de a água não passar no contador é obrigá-la a percorrer um caminho paralelo, ou seja, numa tubagem paralela. Neste caso, a deteção poderá ser mais fácil, pois o contador está instalado e não estará a contar. Surgirá então a dúvida da possível ligação “by-pass”. Fig. 2.16 – Ligação “by-pass” (LÉDO, 1999) Apesar destes casos acontecerem frequentemente, sendo algumas vezes detetáveis e outras vezes não, as mais comuns formas de fraude são as alterações no próprio contador. Se não fosse uma situação séria, a criatividade das pessoas na alteração do funcionamento dos contadores daria um belo livro de comédia. Como já foi referido, existem diversas formas de alterar os contadores manualmente. Porém antes de se abordar esse tema é necessário analisar toda a legislação envolvente à contagem da água assim como os tipos de contadores existentes. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 33 2.5.3. LEGISLAÇÃO NA MEDIÇÃO DE CONSUMOS De modo a que se compreenda o que é a medição de caudais, é pertinente abordar a questão pelo lado jurídico/legislativo, visto que, tudo o que se refira a medições, seja de água, luz, gás e afins, deverá estar regulamentado. Atualmente existem dois regimes legislativos aplicáveis:  A norma MID (Measurement Instruments Directive), consubstanciada pela Diretiva 2004/22/CE, também designada de “nova abordagem”. Esta diretiva foi transportada para a ordem jurídica portuguesa mediante a publicação do Decreto-Lei nº. 192/2006, de 26 de setembro.  A antiga abordagem com base na derrogação permitida pelo art.º 23 da MID, a qual autoriza a fabricação, comercialização e colocação em serviço dos contadores com aprovação de modelo obtida ao abrigo da Diretiva 75/337CEE, até ao fim da data de validade da respetiva aprovação. (janz.pt, 2014) Isto permite que Fabricantes e Entidades Gestoras possam adaptar-se, sem grandes problemas, à nova abordagem durante o período da mesma. Para facilitar a interpretação da nova legislação e a convivência dos dois regimes legislativos, foi publicada a Norma Portuguesa NP 2938:2008. (janz.pt, 2014) 2.5.3.1. Caudais característicos de um contador Um contador é capaz de ler em regimes muito diversos, desde o menor caudal que é possível medir (caudal mínimo) até ao maior caudal que poderá suportar (caudal máximo). Além destes dois extremos, as Entidades Gestoras atribuem uma grande importância ao caudal que origina o início do movimento do contador (caudal de arranque). Para melhor se entender estes conceitos apresentam-se algumas definições de caudais provenientes nas normas:  Caudal mínimo (Qmin ou Q1) – menor caudal ao qual o contador não deve exceder os erros máximos admissíveis (± 5%).  Caudal de arranque – menor caudal ao qual o dispositivo medidor entra e permanece em funcionamento contínuo.  Caudal de transição (Qt ou Q2) – caudal ao qual os erros máximos admissíveis do contador mudam de valor (de ± 5% para ± 2%, para água até 30ºC, ou ± 3%, para água a temperatura superior a 30ºC)  Caudal nominal (Qn) – caudal correspondente a metade do valor do caudal máximo. Pela antiga abordagem este caudal serve para designar o contador.  Caudal permanente (Q3) – caudal correspondente a 75% do caudal máximo. Pela nova abordagem este caudal serve para designar o contador.  Caudal máximo (Qmax ou Q4) – caudal mais elevado ao qual o contador deve poder funcionar sem deterioração, durante períodos de tempo limitados, e sem exceder os erros máximos admissíveis. Nota: As abreviaturas apresentadas podem variar,caso se esteja a falar pela nova ou antiga abordagem. Além destas definições, é ainda possível designar “gama de medição” como sendo o intervalo entre o caudal mínimo e o caudal máximo. Este intervalo está dividido em duas zonas de erro máximo Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 34 admissível – zona baixa (± 5%) e zona alta (± 2%) – cuja separação corresponde ao caudal de transição. (janz.pt, 2014) 2.5.3.2. Curva de erros Como se pode ver pelas definições anteriores, o erro relativo não é o mesmo para todos os caudais de funcionamento do contador. Pode-se definir a chamada curva de erros de um contador (Fig. 2.17) a partir da determinação dos vários valores do erro do mesmo. Basta, para cada valor de caudal, representar cada um num gráfico, ligando no fim com uma linha. Para um mesmo tipo e modelo de contador, existem curvas de erro muito semelhantes (curva de erros característica). (janz.pt, 2014) Fig. 2.17 - Curva de erros característica de um contador volumétrico DN15 (janz.pt, 2014) O conceito de classe de exatidão de um contador varia conforme os contadores pertençam à antiga ou nova abordagem. A capacidade que o contador tem de apresentar diferentes desempenhos ao longo da sua curva de erros pode ser avaliada pelas classes de exatidão. (janz.pt, 2014) Os contadores da antiga abordagem (Diretiva 75/33/CEE) dividem-se em três classes de exatidão: A, B e C. A norma NP 2468/2007apresenta uma outra classe mais precisa, designada Classe D. Apresenta-se, de seguida, uma tabela (2.6) com as principais características definidoras de cada uma das classes: Tabela 2.6 – Classes Contadores Classes Contadores Caudal Nominal (Qn) ˂ 15 m³/h ≥ 15 m³/h Valor de Qmin Valor de Qt Valor de Qmin Valor de Qt Classe A 0,04 Qn 0,10 Qn 0,08 Qn 0,30 Qn Classe B 0,02 Qn 0,08 Qn 0,03 Qn 0,20 Qn Classe C 0,01 Qn 0,015 Qn 0,006 Qn 0,015 Qn Classe D 0,0075 Qn 0,0115 Qn - - Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 35 A grande diferença entre as classes está essencialmente no ponto onde se dá a transição entre a zona de erro máximo admissível de ± 5% para a de erro máximo admissível de ± 2%. Analisando a tabela 3.1 é possível concluir que, para um determinado contador, a curva de erros depende da classe do mesmo. (janz.pt, 2014) Na nova abordagem (Diretiva 2004/22/CE – MID) são definidas duas zonas na curva de erros, zona inferior e zona superior. A zona inferior compreende desde o caudal mínimo (Q1) ao caudal de transição (Q2), e a zona superior que vai desde o caudal de transição (inclusive) ao caudal de sobrecarga (Q4). Os valores do erro máximo admissível são ± 5%, para água a qualquer temperatura, na zona inferior e ± 2 ou 3% (até 30 ºC e superior a 30 ºC respetivamente) na zona superior. Definidos os critérios que caracterizam os erros associados a contadores, é imperativo descobrir a utilidade desses mesmos critérios. De uma forma percetível para o leitor, o erro do contador não é mais do que a diferença entre o valor indicado pelo contador, quando um dado volume de água passa, e o verdadeiro valor de água que realmente passa. Obtém-se o valor absoluto do erro indicado em unidades de volume.Contudo, não é este o dado que é utilizado para caracterizar os erros do contador, mas sim o erro relativo (Ԑ) que é expresso em percentagem e é obtido por: Ԑ = Vi−Vc Vc (2.3) Vc – Valor verdadeiro do volume passado Vi – Volume indicado pelo contador quando é medido Vc 2.5.4. TIPOS DE CONTADORES De forma a enriquecer os conhecimentos sobre os medidores de caudal (Fig. 2.18), passa-se à abordagem desse mesmo tema. A técnica de medição de caudais e consequentemente volumes de água passa pela utilização de contadores. Seguindo os conceitos básicos de Hidráulica, para se registar o caudal, os contadores baseiam-se na medição da velocidade. Fig. 2.18 – Contador de Água (http://www.sertequi.com/index.php?id=4&prod=117) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 42 eficiência das redes, já que nessa MID é preconizada a utilização de novas tecnologias para os contadores de água, as quais vão concorrer em benefício das entidades gestoras e seus clientes, através da introdução de princípios de medida mais industriais, precisos e robustos, abrindo o mercado a novos parceiros tecnológicos, e acabando com o monopólio da tecnologia mecânica para contadores domésticos para água fria. (TECNILAB, 2014) Fig. 2.27 – SmartMeter – aplicação num sistema de telegestão (http://sh0rtlived.wordpress.com/2011/11/10/smart-meter-the-new-fatal-weapon/) 2.5.4.5. Contadores de diferencial de pressão Bastante utilizados internacionalmente, os contadores de diferencial de pressão distinguem-se por possuírem uma restrição na linha de fluxo. Nessa interrupção dá-se um aumento de velocidade que corresponde a uma queda de pressão. O caudal é medido consoante a diferença de pressão de montante para jusante (ver figura 2.28). Fig. 2.28 – Principio funcionamento contador diferencial de pressão (http://petroleoegascefetba.blogspot.pt/2007/05/medio-de-vazo-por-presso-diferencial.html) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 43 2.5.5. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DE CONTADORES E MEDIÇÕES (ERSAR) A existência do contador permite, por um lado, a aplicação do princípio do consumidor pagador e, por outro lado, a utilização mais eficiente da água pelo consumidor, o que é vital para a preservação do importante recurso natural que é a água. Poderiam não existir contadores, sendo a água simplesmente faturada por avença ou com base na área do local a ser abastecido ou, ainda, numa relação per capita dos consumidores desse local. Contudo, estes modos de faturar conduziriam certamente a situações de injustiça e, na maioria dos casos, a consumos desregrados. (ERSAR, 2014) A EG poderá cobrar uma taxa fixa, designada de tarifa de disponibilidade, que se reporta aos custos em que a mesma Entidade incorre pela mera disponibilização do serviço aos consumidores, em sede de dimensionamento de redes, equipamentos e infraestruturas. (ERSAR, 2014) No Anexo D surge o exemplo de algumas tarifas praticadas pela Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EM, SA. Como já foi atrás referido, cabe à EG dimensionar e definir o tipo de contador a instalar, face ao previsível perfil de consumo do local abastecer. A gama de diâmetros é grande dentro de cada marca, o que permite um maior leque de escolhas. No passado, a normalização dos contadores fazia uma correlação direta entre o calibre do contador e o seu caudal nominal. Existia uma tendência natural para escolher o contador com base no diâmetro nominal da canalização existente no local. Resultava, em muitos casos, na aplicação de um contador inadequado ao perfil do consumidor. A situação mais frequente conduzia a contadores sobredimensionados, do que resultava, para o consumidor, um maior encargo com a tarifa fixa, e, para a entidade gestora, a perda de contagem nos caudais reduzidos. Hoje, devido à legislação existente, o contador é definido pelas suas características metrológicas, independentemente do seu calibre. (ERSAR, 2014) Fig. 2.29 – Contadores a verificar (ÁGUAS E PARQUE BIOLÓGICO DE GAIA, EM, SA, 2014) Compete também à EG, segundo os regulamentos existentes, colocar, manter e substituir contadores, os quais devem ser periodicamente verificados por esta, para que as contagens se mantenham fiáveis. Para que isso venha a acontecer a EG deverá cumprir os prazos legais da verificação periódica. Muitas vezes o cumprimento destas metas implica uma boa prática no que toca à substituição do parque de contadores e ao combate às perdas por submedição. A mesma Entidade é obrigada a proceder à leitura Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 44 dos contadores, pelo menos duas vezes por ano, com um intervalo máximo entre leituras de oito meses. (ERSAR, 2014) Mas não é só a EG que tem responsabilidades sobre o contador. Os consumidores devem avisar a EG de eventuais anomalias que detetem no contador, nomeadamente, se se aperceberem que a respetiva selagem está em mau estado, ou que o mesmo não está a medir corretamente. Devem, ainda, comunicar caso reparem numa eventual violação ou desaparecimento do contador. Caso o contador esteja instalado num local fechado, o cliente é obrigado a permitir a acesso ao mesmo pelos funcionários da EG, com vista à retirada das leituras (Fig. 2.30). Fig. 2.30 – Leitura de um contador por parte de técnico especializado (HTTP://WWW.RRCWATER.ORG/METERS) Um contador moderno pode apresentar diversos tipos de mostrador: apenas com rolos, misto de rolos e ponteiros ou com visor eletrónico. Qualquer que seja o tipo de mostrador, a leitura de faturação é feita apenas nos elementos numéricos que contêm o valor inteiro dos metros cúbicos, ou seja, os que estiverem posicionados à esquerda da vírgula que aparece inscrita no mostrador. Estes elementos numéricos apresentam-se com algarismos brancos em fundo preto ou com algarismos pretos em fundo branco. Todas as restantes indicações de leitura encontram-se referenciadas em vermelho e destinamse apenas a leituras de ensaios laboratoriais. (ERSAR, 2014) A forma de registar e medir esses consumos é exemplificada na figura 2.31. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 45 Fig. 2.31 – Contador de Água, Indicações Básicas (ERSAR, 2014) Um contador do tipo mecânico, seja ele volumétrico ou de velocidade, e desde que esteja na situação de conduta cheia, só poderá ter movimento se houver efetiva passagem da água. No entanto, algumas tecnologias utilizadas em contadores eletrónicos podem registar contagens sem passagem de água, em consequências de correntes elétricas parasitas que circulem nas condutas. Poderá ocorrer, por vezes, uma passagem de ar no contador, devido a uma acumulação excecional de ar na rede predial, o que acontece quando, após a realização de uma intervenção na rede, não haja uma remoção total do ar das tubagens. Isto poderá provocar uma contagem suplementar num período de tempo determinado. O uso de ventosas na rede pública evita estes possíveis acontecimentos que são bastante problemáticos no caso de contadores de turbina. (ERSAR, 2014) O consumidor, se sentir que está a ser prejudicado, pode requerer a verificação extraordinária do contador. A EG retira, então, o contador e envia-o para o seu laboratório oficialmente acreditado para proceder a essa verificação, tendo o consumidor direito a receber uma cópia do respetivo boletim de ensaio. Caso não seja verificada alguma avaria, o consumidor terá de pagar os custos de verificação. Se o contrário acontecer, sendo detetados erros na medição de consumos, o montante pago pelo consumidor é restituído. (ERSAR, 2014) 2.5.6. FORMAS DE ALTERAR O NORMAL FUNCIONAMENTO DE UM CONTADOR Um dos sistemas mais utilizados por parte dos clientes é a chamada sabotagem dos contadores. Sabotagem é o ato de impedir o funcionamento de qualquer mecanismo, institucional ou não, que seja contrário ao interesse da pessoa que o executa. (Wikipédia, 2014) Em termos de contadores de água, este processo passa, exclusivamente, pela alteração do funcionamento do mesmo propositadamente, que conduz a uma redução imediata da sua contagem ou até mesmo à sua paragem. Desta forma a faturação do cliente diminui substancialmente, acabando muitas vezes por só pagar as tarifas do contrato. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 46 Apresentam-se, de seguida, as principais maneiras utilizadas pelos clientes para, de certa forma, “enganarem” o sistema de medição. 1. Introdução de um grampo. A pressão exercida pelo grampo sobre a cúpula do contador (Fig. 2.32) faz com que o mecanismo fique bloqueado. Desta forma, o contador deixa de funcionar normalmente. Fig. 2.32 – Pressão do grampo sobre o contador (http://www.daesbo.sp.gov.br/home_saiba_mais.php?cmpt=fraudes_nas_liga%E7%F5es) 2. Furo na Cúpula (Fig. 2.33). De todas as formas conhecidas, esta é aquela que mais vezes é encontrada pelos técnicos no local. O funcionamento do contador depende exclusivamente da facilidade de rotação das rodas dentadas. Se uma destas rodas for parada por um arame ou outro objeto fino, as voltas das outras rodas serão dadas em falso. Neste caso, a contagem será reduzida ou até mesmo nula. Fig. 2.33 – Exemplo de um furo através de um arame (http://www.jornalaqui.com/noticia.php?id=3567&idedit=11&banner=1) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 47 3. Colocação de um íman (Fig. 2.34). Os novos contadores, principalmente aqueles que são utilizados no sistema de telemetria, são concebidos com um mecanismo de funcionamento magnético. A rotação poderá ser parada através da introdução posterior de um íman com dimensões médias. O íman impede que o trajeto magnético se dê na sua normalidade. Fig. 2.34 – Colocação de íman junto ao contador (https://www.youtube.com/watch?v=MX4HjOWoYvE) 4. Colocação no sentido inverso do contador (Fig. 2.35). Uma das manhas utilizadas é a alteração da disposição do contador. Através da alteração do primeiro passador, é possível inverter o sentido do contador. Por exemplo, se o contador for instalado com a leitura 000 000, ao fim de um dia, em vez de apresentar 000 005, irá apresentar 999 995. Este é um dos tipos de erros mais fáceis de detetar. Fig. 2.35 – Inversão do sentido do contador (http://www.hometips.com/repair-fix/water-shutoff-valve.html) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 48 2.6. IDENTIFICAÇÃO DA FRAUDE Uma das maiores problemáticas com que uma Entidade Gestora se depara é a procura pela fraude. Neste ponto, é importante distinguir as grandes redes de abastecimento das pequenas. Numa rede com pequenas dimensões a nível de clientes é muito mais simples a procura pela fraude. Primeiro, porque as leituras são realizadas quase na totalidade por um técnico que se desloca ao local, e, em segundo, porque existe tempo para a verificação mais detalhada dos contadores. Um exemplo claro disso são as redes de abastecimento de municípios com população reduzida. Do lado oposto, encontram-se as grandes redes de abastecimento. Apesar das Entidades Gestoras contarem com mais técnicos, estes, para realizarem um bom trabalho, terão de ser rápidos e eficazes. O que acontece regularmente é o levantamento de leituras de dois em dois meses por parte de um leitor especializado. Desta forma, devido à elevada exigência técnica, é muito mais difícil a deteção de fraudes. A verdade é que, o volume de água não faturada também é mais preocupante nas Entidades Gestoras de grandes redes de abastecimento. A melhor forma de analisar contadores parados é recorrendo aos dados monitorizados na EG. O sistema que uma dada Empresa apresenta para realizar a faturação aos clientes é também o sistema que permite analisar os dados de todas as leituras realizadas desde que os contadores foram instalados. A partir desses dados poder-se-á observar os possíveis contadores parados. Como a análise detalhada no próprio sistema demoraria bastante tempo, o que se faz normalmente, é exportar os dados para uma folha de excel. Após este trabalho, são utilizadas ferramentas do próprio programa para elaborar uma lista de todos os clientes que apresentam contagens nulas. Findo o trabalho informático, são enviados técnicos para os locais indicados na lista, para observarem então os contadores parados. Duas possibilidades surgem então: contador parado por falha técnica do mesmo, sem que o cliente apresente qualquer tipo culpa; ou contador alterado (furtado), onde o cliente apresenta a totalidade da culpa. O método, anteriormente descrito, representa sucintamente aquele que deverá ser um dos trabalhos principais no combate às perdas aparentes numa Empresa de Abastecimento de Água. Sendo os dados de faturação mensais, é recomendado que a análise seja feita pelo menos uma vez por ano. 2.6.1. MÉTODOS EXPEDITOS Tal como foi descrito no ponto anterior, existe uma série de procedimentos que poderão conduzir à redução do número de fraudes. Este tipo de trabalho assenta, essencialmente, na pesquisa informática e no estudo da base de faturação da Empresa. No entanto, existem diversas formas de combater este tipo de fraude, que, de ano para ano, têm ganho forma dentro das EG’s. Por forma a evitar a ocorrência de tais situações é pertinente a criação de campanhas de mobilização que façam alertar as pessoas para a gravidade da situação, que é ,na verdade, uma ilegalidade. Tanto as ligações ilícitas como a alteração forçada do funcionamento dos contadores devem ser referenciadas para que não aconteçam casos constantes dessas mesmas situações. Tendo em conta que estas ocorrências se associam principalmente a famílias com baixos rendimentos e até mesmo com dificuldades sociais, deverá existir também uma tentativa de redução de tarifas ou uma ajuda através de ações provenientes do município. A instalação de uma ligação à rede de abastecimento de água pública, assim como a ligação à rede de drenagem de água residual são, nos dias de hoje, objetos primários dentro de uma sociedade. Este tipo de ações, apesar de se considerarem necessárias para o bem da saúde pública, implica ao cliente o seu pagamento. Para muitas famílias, esse gasto extra está fora dos seus orçamentos. Seria importante que Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 49 os municípios se chegassem à frente e estabelecessem novas reformas de apoio, que assentem essencialmente no bem-estar pessoal e coletivo, ausente de ilegalidades. 2.6.2. CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS NA FATURAÇÃO DE UMA EMPRESA A importância que este tipo de perdas tem numa EG varia consoante a percentagem de perdas aparentes presentes no Balanço Hídrico. A grande questão aqui é o chamado fator de escala. Está claro que, para uma Empresa com pequenas dimensões, não interessa muito a procura pelo volume de perdas aparentes, pois, no balanço final, esta componente tem um peso pequeno tanto a nível percentual como a nível de faturação. Uma gota de água no oceano é insignificante. Mas que seria do oceano sem as imensas gotas de água? Esta é a analogia correta para aquilo que são as perdas de água num SAA. Torna-se óbvio que a não contabilização de um cliente é uma questão irrisória face aos milhares de clientes que uma dada Empresa tem. No entanto, é necessário ter em conta o fator de escala associado ao número de clientes. Para rapidamente se compreender o cerne da questão, colocam-se, em seguida (tabela 2.7), números fictícios de uma dada Empresa de Água, também esta fictícia. Tabela 2.7 – Exemplo teórico do efeito de escala numa EG Preço da Água (valor teórico) (€/m³) 1 Nº de Clientes 100000 Estimativa de consumo por cliente (média) (m³/mês) 15 Clientes com contagem nula 700 Valor da venda de água sem perdas (teórico) (€) 1.500.000 € Valor das perdas devido contagem nula (€) 10.500 € (0,7 %) Valor de venda real de água (€) 1.489.500 € Os números cabem melhor na consciência das pessoas pois permitem uma análise espontânea e mais coerente. A conclusão que daqui se depreende é simples: os 0,7 % poderão, de facto, ser insignificantes, mas os 10 500 € preocupam. Esse valor, ao fim de um ano, representa 126 000 €. E aqui surge a questão: vale a pena combater as chamadas perdas aparentes? Os números respondem por si mesmos. De notar ainda que, estes valores foram, de certa forma, subestimados. Na realidade, falar-se-ia em valores que andam a rondar o dobro dos aqui apresentados. O fator escala leva as perdas de água para um patamar preocupante, onde todas as EG’s devem ficar alerta. 2.7. CONCLUSÃO DA PESQUISA BIBLIOGRÁFICA Como se poderá concluir pela análise da Pesquisa Bibliográfica, as perdas aparentes de água são um tema de extrema importância para uma Empresa de Abastecimento de Água. Acumulado ao preço de compra de água em excesso surge o preço de não venda da mesma. Em termos percentuais esta componente da ANF está abaixo claramente das perdas reais, no entanto, a nível de perdas económicas estas duas componentes estão num patamar muito próximo. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 50 O estudo de contadores atingiu um nível elevado, o que permite às Entidades Gestoras a aquisição destes dispositivos de medição a custos cada vez mais baixos e com a qualidade devida. A grande questão será qual o tipo de contador a escolher assim como a gama de caudais a que se adequa. Este estudo deverá ser realizado pela própria EG, atendendo ao tipo de cliente e aos consumos existentes. Pelo contrário, o trabalho realizado, até ao momento, no combate aos consumos fraudulentos é ainda reduzido, sendo pertinente estabelecer metodologias para enfrentar este problema, que tem vindo a crescer nos últimos anos. Este primeiro contacto com o mundo do abastecimento de água permite uma aproximação ao tema que verdadeiramente interessa nesta dissertação: o controlo das perdas aparentes, mais concretamente, os consumos fraudulentos. Depois de analisada parte da bibliografia existente sobre este tema, parte-se, então, para o estudo de caso na Empresa Águas de Gaia, que permitirá analisar detalhadamente estas realidades aqui referidas. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 51 3 ÂMBITO E OBJETIVOS 3.1. ÂMBITO Depois do enquadramento realizado com vista à melhor interpretação dos sistemas de abastecimento de água e toda a sua envolvente, é tempo agora de estudar ao pormenor as perdas aparentes, que são, como se sabe, uma preocupação em grande escala para as Entidades Gestoras. Devido à elevada informação existente sobre as perdas de água, pode pensar-se que é fácil a busca e combate das mesmas. Apesar de tudo, é, ainda hoje, um assunto muito discutido e que será aqui exposto ao pormenor no que diz respeito à parte dos consumos fraudulentos. A oportunidade de realizar parte do trabalho de pesquisa na Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, EM, SA proporcionou uma maior facilidade na adaptação ao “mundo do abastecimento de água” e às dinâmicas já existentes numa equipa de trabalho. O contacto com todo o tipo de técnicos ao nível do abastecimento de água garantiu um ganho enorme de experiência e sensibilizou, desde logo, para a grande problemática das perdas de água. De referir ainda, a possibilidade de trabalhar com dados reais, com os quais se deparam, todos os dias, os técnicos da Empresa. A análise desses dados permitiu, ainda, a elaboração de pequenas estratégias tanto a nível de perdas reias como aparentes. Indo de encontro à evolução dos sistemas informáticos, tornou-se importante uma abordagem pelo lado do sistema de telegestão. Daí ser um assunto bastante analisado ao longo desta dissertação. Interessa à EG aproveitar ao máximo as potencialidades existentes num sistema de telegestão. Apesar dos consumos fraudulentos serem um mau menor da ANF, existe receio que esta componente venha a ganhar forma no Balanço Hídrico. Desta forma, é necessário prevenir e sensibilizar as Entidades Gestoras para esta problemática. Como se pode verificar no último ponto do capítulo anterior, o combate à fraude no Abastecimento de Água poderá ter um peso significativo no balanço financeiro duma dada Empresa. A esperteza das pessoas pode, como já foi referido, levar ao engano num sistema de contagem. Compete às EG´s desenvolverem metodologias que resolvam esse tipo de problemas. E é com base nesse pressuposto que se parte para o desenvolvimento do caso em estudo. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 58 da Rasa que serve 30377 clientes num total de 147 quilómetros de extensão. Para se ter uma noção, o reservatório da Rasa representa em termos de clientes 17% do total. (aguasdegaia.pt, 2014) Fig. 4.3 – Rede Pública de Abastecimento de Água (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Tabela 4.4 – Rede Pública de Abastecimento de Água (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Ano Existente (km) Nova (km) Antiga Substituída (km) 2008 1469,0 6,4 2,4 2009 1470,9 1,9 2,4 2010 1474,8 3,9 1,1 2011 1476,4 1,6 2,1 2012 1480,4 4,0 6,5 A capacidade dos reservatórios instalados garante, durante 48 horas, o abastecimento de água às 24 freguesias do município. Além de atingir níveis de qualidade elevados ao nível do abastecimento, as Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 59 Águas de Gaia apresentam também níveis elevados no que toca à qualidade da água em si, cumprindo todos os requisitos exigidos. (AGUASDEGAIA.PT, 2014) 4.1.3. PREVISÕES PARA OS PRÓXIMOS ANOS Conforme planeado, concluiu-se em 2013 a instalação faseada dos órgãos fundamentais do Sistema de Telegestão e Análise de Dados para cada um dos reservatórios, estações elevatórias e grupos hidropressores do SAA. Estes órgãos fundamentais são constituídos por:  RTU (Remote Terminal Unit) para recolha de dados em tempo real, como teor de cloro nos reservatórios e seus níveis de água, caudais aduzidos e distribuídos e pressões nas redes;  PLC (Programmable Logic Contoller) para o armazenamento interno das instruções provenientes da RTU, que permite a implementação de funções específicas como o sequenciamento e a temporização das regras previamente definidas e enviadas ao Centro de Comando da Telegestão;  Centro de Comando da Telegestão, localizado na Sede da Empresa que, sendo dotado de um servidor independente, processa a gestão integrada do Sistema. A visualização do sinóptico com a totalidade dos reservatórios, estações elevatórias e grupos hidropressores, permite efetuar a gestão remota de toda a rede de água do concelho. (aguasdegaia.pt, 2014) O Sistema de Telegestão requer um enorme trabalho por parte dos técnicos da Empresa pois conjuga a mais recente tecnologia no que se refere à gestão de SAA. Torna-se, por isso, necessário realizar formações de técnicos especializados, assim como criar uma plataforma de acesso restrito, para que nem todos possam ter acesso aos dados disponibilizados pelo sistema. O ano de 2014 marca a entrada em pleno funcionamento de sistemas que permitirão a contínua monitorização e controlo da rede de água, tais como a telegestão, o controlo de consumos mínimos noturnos através de caudalímetros eletromagnéticos, e o controlo de caudais e pressões na rede por intermédio das Zonas de Medição e Controlo. Estas medidas, que vêm sido tomadas, têm como grande objetivo a redução das perdas de água bem como uma maior facilidade na deteção de consumos não autorizados. (aguasdegaia.eu) O grande objetivo é reduzir os valores da ANF para a ordem dos 20%. Na atualidade, as Entidades Gestoras das grandes cidades devem apresentar valores inferiores a esses 20%, e a cidade de Gaia não foge à regra. A Empresa apresenta, neste momento, condições e equipamentos, que permitem trabalhar nesse sentido. O ideal seria atingir o Nível Económico de Perdas, ou seja, a situação a partir da qual os custos dos investimentos ultrapassem os lucros provenientes pela redução das perdas. Mas, como qualquer outro ramo empresarial, o mais importante não é atingir um determinado nível, mas sim mantê-lo. E é neste ponto que se torna essencial falar de uma gestão sustentável. Uma gestão que garanta a aproximação ao NEP durante um longo período de tempo. 4.2. DECOMPOSIÇÃO DA ANF Como já atrás foi ilustrado, os valores da ANF apontam para os 27% da AAD no fim do ano de 2013. Para melhor se entender quais são as principais causas desse valor elevado, recorre-se a uma análise dos dados disponíveis pela Empresa. A decomposição da ANF foi realizada tendo em conta o Balanço Hídrico realizado pelos técnicos da Empresa no final do ano civil de 2012. O gráfico 4.3 representa a Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 60 distribuição da ANF nas diversas componentes: Consumo Não Faturado Não Medido, Perdas Reais e Perdas Aparentes. Gráf. 4.3 – Decomposição da água não faturada (ÁGUAS DE GAIA, 2012) O valor referente aos 37% nas fugas nas ligações é o resultado alocado à forma de cálculo da International Water Association (IWA) que considera toda e qualquer ligação – tubo a tubo, tubo a acessório, acessório a acessório, etc. – existente na rede na sua total extensão, ou seja nos 1480 Km. São várias centenas de milhares de ligações passíveis de fuga. A melhor forma de combate é a constante procura pelas fugas de água através dos sistemas de deteção acústicos. Mas como já se analisou anteriormente nesta dissertação, esta procura é extremamente difícil porque existem fugas que são dificilmente detetáveis. Para a Empresa, considera-se ser de maior eficácia e rapidez na obtenção de resultados, a atuação sobre os erros de medição, que representam 12 % do total de ANF. A melhor forma de combater estes valores é a renovação do parque de contadores. Este tema será tratado mais à frente de uma forma detalhada. As perdas reais representam cerca de 15% da Água Total de Entrada no Sistema (AAD). De seguida, apresenta-se a decomposição desse valor pelas componentes principais das perdas reais (Gráfico 4.4). Gráf. 4.4 – Distribuição das perdas reias pelas suas componentes (ÁGUAS DE GAIA, 2012) 31% 1% 12% 3% 13% 37% 3% Não Faturado, Não Medido Consumo Não Autorizado Erros de Medição Fugas nos Reservatórios/Adutoras Fugas na Rede Fugas nas Ligações Ruturas 6% 23% 66% 5% Fugas nos Reservatórios/Adutora s Fugas na Rede Fugas nas Ligações Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 61 No que se refere às perdas aparentes de água, a grande componente são os erros de medição. No entanto, existe uma componente que não é quantificável pela Empresa: o volume de água que é intercetado por alguns cidadãos, mais corretamente designado por consumo não autorizado. A Empresa acaba por considerar este volume de água como consumo não faturado não medido. Todavia, há todo o interesse em quantificar esse valor e ao mesmo identificar esses consumos não autorizados. É com base nesse pressuposto que surgiu, então, a possível solução da definição de critérios para identificar consumos fraudulentos. 4.2.1. ORIGEM DAS PERDAS DE ÁGUA A procura constante por respostas concretas sobre o aumento da ANF levou os técnicos responsáveis pelo SAA a estudarem as possíveis origens das perdas de água. Tendo em conta que a percentagem de volume de água perdida, devido a roturas e fugas nas condutas, é elevada, partiu-se, de imediato, para o estudo desse problema. Como qualquer outra EG que incida o seu trabalho no abastecimento de água às populações, também nas Águas de Gaia existem constantes fugas de água na rede. A maior parte delas não são visíveis a olho humano o que tende a dificultar a sua busca. Porém, são de pequena dimensão, o que acaba por minimizar o problema. Nota-se um forte crescimento de roturas nas condutas de diâmetro considerável. Coincidência, ainda, o facto de a localização geográfica dessas avarias ser em zonas onde o PVC é mais antigo e mais utilizado. Para se ter uma ideia, existem zonas onde a rede em PVC apresenta já mais de 40 anos. De acordo com as recomendações da ERSAR, deveria ser renovada a rede em cerca de 2% anualmente, situação esta que não se tem verificado na Empresa, pois falar-se-ia em substituir cerca de 30 km por ano. O que interessa saber, em primeiro lugar, é se a quantidade de ANF estará a ser consideravelmente afetada pelo número de roturas de condutas dos diversos diâmetros. Veja-se, então, a diferença, para as mesmas condições de funcionamento, entre as perdas numa rotura de conduta de 90 mm e uma de 315 mm: Segundo Quintela, o caudal escoado por um orifício numa tubagem pode ser calculado da seguinte forma: Q = C A √2gH (4.1) C – coeficiente de vazão = 0,95 A – área da secção da tubagem, m² g – aceleração da gravidade = 9,8 m/s² H – carga na rede = 5 Assim, para uma conduta de 90 mm, obtém-se para um período de derrame de 1 hora: Q = 216 m³/h e, para uma conduta de 315 mm: Q = 2520 m³/h. Como se pode verificar, perde-se cerca de 12 vezes mais, ou seja, basta uma única rotura de 315 mm para se atingir as perdas de 12 roturas de 90 mm. Esta verificação aparenta indicar que, caso exista um número de roturas em tubagens com diâmetros consideráveis, as perdas terão uma expressão que se aproxima das quantidades de ANF verificadas. Apesar de existir essa possibilidade, os dados e estudos Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 62 disponíveis na Empresa apontam que, para que esta premissa fosse verdadeira, seria necessário um tempo médio de derrame superior a 6 horas, o que se pensa ser impensável. Sendo assim, é possível concluir que, apesar de ser uma componente relativamente importante, não é por aqui que a Empresa apresenta valores elevados de ANF. A pergunta que se poderia colocar seria: pode o valor da ANF advir da existência de fugas constantes não referenciadas? Para se compreender e estudar este fenómeno é necessário analisar os perfis de consumo noturnos, ou seja, os consumos mínimos, que são um dos principais indicadores de roturas na rede. A análise desses valores permite concluir que os perfis de consumo se têm mantido constantes ao longo dos últimos 8 anos. Para se ter noção dos valores representativos, para 500000 m³ de água perdida por ruturas, seria necessária uma fuga equivalente com libertação constante de mais de 57 m³ por hora nas 24 horas do dia e nos 365 dias do ano. Daqui se conclui que o aumento da ANF não é devido à existência de fugas permanentes. O que se apreende diretamente desta análise é a dificuldade de interpretar a origem da ANF. A Empresa sabe à partida que não é fácil a identificação dessa mesma origem, pois, se isso acontecesse, de imediato se partiria para o combate direto a esse tipo de perda de água. No entanto, e para a elaboração do relatório anual assim como do balanço hídrico, a Empresa admite valores que andam relativamente próximos dos valores reais. Trata-se aqui não a origem fictícia das perdas mas sim o local exato onde essa perda estará a acontecer. Os erros de medição inerentes à subfacturação, devido a imprecisões dos contadores, representam também uma grande fatia da ANF. Para a Empresa os erros de medição são a componente que aparenta ser mais fácil de operar e que assegura a obtenção de resultados com maior eficácia e rapidez. 4.2.1.1. Combate às perdas reais As Águas de Gaia apresentam-se na linha da frente naquilo que se refere ao combate das perdas reais nos seus sistemas de distribuição de água. Apesar dos números serem representativos na componente da ANF e correspondente Balanço Hídrico, muito trabalho tem sido realizado para diminuir esse tipo de perdas. Uma das apostas foi a aquisição do, já referenciado, Sistema de Telegestão. Esta nova tecnologia permite aferir todos os caudais que são transportados nas condutas da rede e assim comparar com o que está verdadeiramente a ser consumido. Na Empresa o detalhe vai até cada reservatório existente, ou seja, em cada reservatório existe um medidor de caudal à saída, o que permite saber os consumos de uma determinada “sub-rede”. O estudo dos consumos e possíveis fugas de água torna-se, assim, mais facilitado. Apesar de existir um súbito crescimento no padrão normal de consumo, representado pelos gráficos de variação de caudais ao longo do dia, a melhor forma de analisar a possibilidade de fugas é a observação dos consumos noturnos. Como durante a noite os consumos são praticamente nulos, a passagem de um determinado volume de água poderá indicar uma perda de água numa das condutas daquela rede. (Fig. 4.4) A experiencia dos técnicos, que supervisionam o sistema de telegestão, acaba por ser importante do ponto de vista da existência de fugas. Por exemplo, o aumento do consumo poderá, muitas vezes, dever-se ao aumento das temperaturas, à sazonalidade de alguns clientes (fins de semana, férias) e, até mesmo, ao aumento da população. Um técnico, com algum conhecimento, consegue perceber este tipo de situações só de olhar para os gráficos com os padrões de consumo. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 63 Fig. 4.4 Análise de Consumos Noturnos (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Caso se venha a descobrir a existência de uma fuga, é necessário enviar para o local uma equipa de trabalho. Em primeiro lugar, procura-se o local exato da fuga/rutura. Para isso, a Águas de Gaia dispõe de aparelhos sofisticados de deteção de fugas: o correlacionador acústico, o logger acústico e o geofone (Fig. 4.5). Estas tecnologias permitem a aproximação, com elevada precisão, ao local da fuga, escusando assim de se “escavar” todo o terreno envolvente. Fig. 4.5 – Logger Acústico e Correlacionador Acústico (ÁGUAS DE GAIA, 2014) 4.2.2. PERDAS APARENTES – SUBCONTAGEM CONTADORES As perdas aparentes são, cada vez mais, discutidas nas Entidades Gestoras portuguesas. A crescente modernização de serviços aliada à evolução tecnológica dos sistemas de informação e faturação, permitiram às EG atingir níveis maiores de qualidade no combate às perdas aparentes. Como é fácil de perceber, a concorrência, existente no mercado ao nível da aquisição de contadores, introduziu nas Empresas um poder de escolha, que permite obter uma melhor relação qualidade/preço. Assim, é possível realizar uma renovação do parque de contadores com uma maior certeza de eficácia. A Águas de Gaia materializa este procedimento em campanhas de substituição de contadores. A grande vantagem é a aquisição de contadores com um maior rigor na medição, apresentando erros Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 64 menores. As recomendações, tanto das Entidades Reguladoras como dos próprios fabricantes, apontam para que o tempo de vida útil de um contador seja, em média, entre 8 a 9 anos. No entanto, essa idade é quase sempre ultrapassada devido à incapacidade financeira de qualquer EG em renovar o parque de contadores. Com isto, é natural que se obtenham valores de erros de medição mais elevados. A grande questão é saber até que ponto compensa a uma dada EG aumentar os gastos na aquisição e substituição de contadores, diminuindo os valores da ANF, para apresentar ganhos provenientes dessa diminuição. Importa, aqui, referir que o desejável seria encontrar um ponto de equilíbrio (Fig. 4.5), também designado como Nível Económico de Perdas aparentes (NEPa), onde se pudesse admitir valores associados a erros de medição, mas sabendo que, estar a apostar no seu combate, seria “perder dinheiro”. Claro que, as situações atuais das Empresas ficam afastadas desse tão importante ponto de equilíbrio. Repare-se no gráfico seguinte que exemplifica a procura pelo ponto de equilíbrio. Gráf. 4.5 - Exemplo teórico do ponto de equilíbrio na definição de NEPa Nota: O gráfico representa de uma forma exagerada a ideia de ponto de equilíbrio num modelo de gestão de Abastecimento de Água, contudo é importante para o leitor perceber o conceito em si e aproximá-lo o máximo possível com a matemática do dia-a-dia. As EG’s, na quase totalidade dos casos, encontram-se algures no lado ascendente da curva, muito longe do desejado ponto de equilíbrio. Existe uma preocupação grande das mesmas em mobilizarem campanhas de substituição de contadores, principalmente, nos chamados grandes clientes. A Empresa Águas de Gaia analisou os consumos dos seus clientes, nos últimos dois anos, para ter uma base fiável que permita começar o programa de renovação do parque de contadores. Para que o trabalho realizado comece a mostrar resultados a curto prazo, a Empresa decidiu começar pela análise dos grandes consumidores. Desta forma, definiu que, os primeiros contadores a serem analisados seriam os que apresentam um consumo anual superior a 6000 m³/ano (média superior a 500 m³/mês). O objetivo passa por substituir os contadores volumétricos existentes por contadores eletromagnéticos que apresentam uma precisão superior. Com isto, as leituras são mais exatas e irão representar com maior certeza os consumos dos clientes. Mas, muito antes de se realizar a troca, é necessário analisar contador a contador, pois a aquisição de um contador eletromagnético não fica barata. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 65 Recorrendo ao sistema de faturação da Empresa é possível ter conhecimento de todos os clientes que apresentam um consumo médio mensal superior a 500 m³ (ver tabela 4.5). Os números indicam que serão aproximadamente 80 clientes, que representam cerca de 11% da faturação total da Empresa. Por aqui se percebe que, o controlo de uma pequena parte dos consumidores pode representar um ganho enorme para a EG. Se o controlo for bem exercido, assim como a instalação dos contadores certos, é possível garantir uma melhoria naquilo que toca aos valores da ANF Tabela 4.5 – Clientes com consumos médios mensais superiores a 500 m³ no ano de 2013 (ÁGUAS DE GAIA) Instalação jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez Média Total 3 6139 8567 8316 7430 8300 8507 8797 9269 9087 8342 10130 8552 8453 101436 212 58 191 479 217 2578 338 1893 989 860 596 933 577 809 9708 1027 847 661 582 573 386 619 114 444 501 449 889 538 550 6603 2090 436 406 366 401 360 422 590 433 1340 4522 6423 653 1363 16352 3231 655 1386 709 364 706 714 777 485 596 426 493 122 619 7433 5758 578 45 942 476 587 540 626 565 496 585 515 228 515 6183 10700 450 374 450 99 450 0 495 864 450 1204 450 1467 563 6753 14315 3922 3562 3273 3362 3106 3387 2947 3208 3359 3311 3589 3207 3353 40233 135892 632 376 694 337 616 367 693 393 660 416 674 352 518 6210 150407 4079 1263 999 1174 1164 1353 1369 1235 1383 342 307 368 1253 15036 151063 174 168 204 412 209 535 248 1246 592 2313 1359 0 622 7460 153604 534 388 509 408 550 421 609 477 556 570 811 618 538 6450 170265 908 1131 906 1164 768 1486 917 1413 917 371 478 2265 1060 12724 211140 1466 1040 1303 1093 0 1005 0 969 258 108 1642 714 800 9598 215029 6456 1741 5742 1999 5904 2462 234 2249 308 1389 2075 1760 2693 32319 222961 767 553 1826 606 449 670 611 603 474 496 591 502 679 8148 224642 1104 863 559 829 685 843 559 752 544 714 0 355 650 7806 233380 3945 0 1144 0 1280 0 1863 0 3969 0 6010 0 1518 18211 233665 1712 730 1611 1557 1642 1490 1685 1476 1716 501 1073 1765 1413 16958 238033 1855 615 1845 684 1267 772 0 626 0 108 297 206 690 8275 35562 1383 976 1128 1137 1192 1273 1317 484 1177 983 1197 1258 1125 13505 242541 470 673 474 1902 635 0 622 35 345 1260 777 772 664 7964 243597 214 133 242 210 862 1615 3151 3421 2385 538 413 603 1149 13787 244027 4039 2779 4525 2774 5139 2988 3828 3300 3912 3778 2163 3066 3524 42291 244268 619 242 4880 494 619 552 431 587 1738 509 641 528 987 11840 244328 1022 -748 940 2990 998 1625 1080 1177 1250 965 1108 1068 1123 13475 245228 1100 1154 1518 1173 1837 1296 376 1336 708 990 5856 2934 1690 20278 247066 -659 773 -764 663 705 752 638 1528 2263 1745 1488 1770 908 10902 247267 -259 3272 5069 3103 4765 3693 5357 3989 4508 3974 -1310 2562 3227 38723 247604 570 501 543 541 576 649 592 730 597 693 590 740 610 7322 247867 364 301 340 413 556 625 661 778 827 788 578 349 548 6580 248361 2957 3456 2492 3195 3098 3239 3675 3171 7148 3830 3658 3810 3644 43728 252908 745 779 564 757 944 806 1166 723 1383 878 1200 857 900 10802 253142 572 245 475 314 761 360 772 438 904 433 505 541 527 6320 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 66 254267 6665 6518 7069 7955 8909 7718 7794 3197 8328 7793 8545 7858 7362 88349 261738 4296 5793 4083 3331 4299 4960 7460 7730 10124 5349 4739 4222 5532 66386 266328 612 781 209 746 492 689 510 677 654 669 933 867 653 7839 10002795 796 530 553 671 622 657 883 632 570 601 695 599 651 7809 10004575 2214 2045 1539 1479 1439 1442 1716 1563 1893 1485 1628 1441 1657 19884 10004606 770 140 602 299 692 407 702 1025 795 470 592 281 565 6774 10005532 0 1425 731 1757 3303 895 2559 0 1900 1733 1764 1728 1483 17795 10006299 2170 982 1880 1282 2379 1643 3936 0 4391 3866 1654 1411 2133 25594 10006585 1621 0 1049 0 930 0 1042 2345 1094 7565 3848 2308 1432 17186 10006875 499 481 639 485 839 493 509 607 290 434 832 502 551 6610 10007309 0 862 0 620 0 627 0 574 862 684 1024 955 517 6208 10008168 858 585 841 565 892 808 838 471 592 717 140 1693 750 9000 50102 3678 3588 3751 3945 4381 4895 5311 4000 4701 3939 4673 4680 4295 51542 50713 2744 2394 2270 2497 2362 2049 2592 1566 1658 1891 1753 997 2064 24773 53841 792 1083 792 1033 792 1606 891 2117 792 2271 792 2497 1288 15458 54828 670 436 488 383 629 469 582 392 630 385 632 421 510 6117 69700 747 479 773 556 707 535 733 407 615 477 503 712 604 7243 70780 0 0 1438 856 282 841 3082 901 2805 1315 618 819 1080 12956 75519 1181 807 1054 835 1142 852 1053 837 1113 755 669 621 910 10918 80347 1267 1065 1053 1327 1607 1785 2444 2998 2844 1513 1155 959 1668 20017 80685 430 409 374 411 550 610 962 1153 901 599 448 352 600 7199 83213 1134 860 1793 931 2030 1040 1061 936 1374 1194 1125 1100 1215 14577 85068 566 462 405 468 183 431 624 456 815 563 1133 936 587 7042 87329 948 1217 828 787 787 40 914 1098 990 684 700 457 788 9450 90232 308 491 572 470 494 563 680 382 684 539 645 506 528 6334 121921 1034 958 900 921 945 578 828 779 980 790 812 717 854 10242 125397 867 560 451 557 573 535 632 452 518 313 756 348 547 6562 Notas:  Os valores referentes à tabela foram retirados da base de dados da Empresa e são referentes ao período de Janeiro a Dezembro de 2013.  As contagens negativas representam as correções realizadas no sistema quando, nos meses anteriores, é realizada uma contagem superior ao verdadeiro valor consumido pelo cliente. 4.2.2.1. Estudo da subcontagem de um contador associado a um grande cliente Sendo os grandes clientes uma fatia importante na faturação, há uma grande necessidade de intervir, não só na substituição constante de contadores como na observação daqueles que já estão instalados. A Empresa começa a dar os primeiros passos numa nova estratégia: a telegestão dos grandes clientes, cujo grande objetivo é gerir os seus consumos. Os módulos de aquisição de dados no campo são os chamados dataloggers, que comunicam com o centro de comando através do envio de mensagens num intervalo de tempo de 15 minutos. Estas unidades recebem impulsos dos contadores, totalizando todo o consumo diário por cada hora do dia, permitindo, desta forma ,ver e disponibilizar, posteriormente Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 67 para análise, o perfil de consumo do cliente para as 24 horas do dia. A análise de caudais proporciona o estudo de velocidades ao longo do período de tempo em estudo. Deste modo, é possível analisar qual o melhor tipo de contador, assim como o diâmetro que melhor se adapta, por forma a obter contagens mais exatas. Por exemplo, existem situações em que os clientes têm contadores com diâmetros superiores àqueles que deveriam ter. Isto é, sem dúvida, vantajoso para o cliente. Cada cliente/instalação representa um ponto essencial de análise. Exemplo disso e uma situação real de um cliente da Águas de Gaia, é representado pelos gráficos anteriores. O cliente possui um contador de 50 mm e está a ser realizado um estudo para efetuar e justificar a alteração para um contador de 40 mm. Os dados foram recolhidos por um datalogger ao longo de cerca de ano e meio, num período de tempo que vai desde novembro de 2012 até abril de 2014. O gráfico 4.6 representa o caudal ao longo dos meses, enquanto no gráfico 4.7 é possível observar o volume acumulado durante esse mesmo período de tempo. Gráf. 4.6 - Caudal (m³/s) Gráf. 4.7 – Volume acumulado (m³) 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000 40000 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 74 4.2.4. LIGAÇÕES ILÍCITAS As ligações ilícitas, apesar de serem provocadas por intervenção do cliente, acarretam grandes perdas, não para o cliente, mas sim para a Empresa. No caso de Gaia, a preocupação é constante. Com o agravamento da crise económica existente no país, é natural que se descubram cada vez mais casos de furtos. A água não escapa a essa problemática. Além disso, a existência de um elevado leque de informações, disponíveis na internet, proporcionam aos clientes optarem pelo lado da desonestidade. Os casos, que se apresentam na tabela seguinte, são apenas aqueles que foram descobertos pelos técnicos da Empresa de 2008 a 2013. Haverá muitos outros escondidos, os quais não constam, nem poderão constar na tabela 4.6. Tabela 4.6 – Ligações diretas desde 2005 (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Ano Ligações ilegais 2005 72 2006 118 2007 141 2008 116 2009 139 2010 278 2011 254 2012 191 2013 145 Dos 135 000 clientes, as ligações ilícitas representam cerca de 0,15%. Grosso modo, poder-se-á pensar que é uma fatia muito pequena, que não merece o estudo e dedicação dos técnicos da Empresa. A questão que se é a seguinte: o que representa para a Empresa a descoberta da fraude dos clientes proveniente das ligações ilícitas? De uma forma rápida, pode perceber-se o efeito dessa descoberta. Por exemplo: se um cliente consumir, em média, 15 m³/mês, estaremos a falar de cerca de 20 €/mês (preço médio com tarifas fixas), sensivelmente, o que corresponde 240 € num ano. Alargando este número a uma média de 200 ligações ilícitas por ano, chega-se facilmente ao valor de 48 000 €/ano. A redução para, pelo menos, metade deste valor, representa um ganho de cerca de 25 000 €/ano para a Empresa. Tal como no caso de contadores alterados, visto anteriormente, também, aqui, é pertinente lançar campanhas de sensibilização para os clientes, por forma a serem chamados à responsabilidade. Para a EG é muito mais difícil detetar este tipo de perdas de água aparente, pois não existem registos de faturação que possam demonstrar os consumos. Os números da Tabela 5.6 representam as ligações que foram descobertas pelos técnicos da Empresa. Quantas serão aquelas que ainda não foram detetadas? Será o valor de 48 000 € fidedigno, ou será um valor encontrado por defeito? Estas perguntas são óbvias e claras. Se a intenção das pessoas é manter as ligações escondidas, haverá, certamente, centenas que não entram nas contas da tabela anterior. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 75 5 DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIAS PARA IDENTIFICAÇÃO DE CONSUMOS FRAUDULENTOS 5.1. IDENTIFICAÇÃO DE CONSUMOS FRAUDULENTOS Analisadas as principais formas, que as Águas de Gaia apontam como responsáveis das perdas aparentes, passa-se agora para a tentativa de identificação de consumos fraudulentos. Primeiramente, há que fazer uma distinção do que realmente é ou não um consumo fraudulento. A fraude designa-se como um esquema ilícito ou de má-fé criado para obter ganhos pessoais. (fonte: wikipédia) Dos casos anteriormente vistos contam como consumos fraudulentos as ligações ilícitas e também os contadores sabotados. A grande diferença existente entre os dois casos, a nível burocrático, é que os clientes com os contadores alterados têm, pelo menos, um contrato com a Entidade das Águas. Tanto num caso como no outro, a descoberta de fraude pode levar ao pagamento de multas elevadas, variando os preços consoante o tipo de cliente em causa (particular, comercial ou industrial). A dificuldade para a EG é encontrar uma metodologia que permita seguir um certo procedimento na busca da fraude. Nas grandes cidades existe uma tendência desta problemática se concentrar nos bairros sociais. É uma tendência que se adivinha devido à existência de problemas financeiros no interior da base familiar dos residentes desses mesmos bairros. No entanto, nem sempre é assim tão linear, daí a importância de definir critérios para identificar consumos fraudulentos. 5.1.1. CONSUMOS FRAUDULENTOS EM VILA NOVA DE GAIA O grande objetivo desta dissertação é a definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos. Para tal, utiliza-se o caso de estudo de Vila Nova de Gaia. O mapa seguinte é referente aos reservatórios existentes no município e serve, desde já, para estabelecer uma comparação entre os que estão situados numa zona mais rural e os que estão nas zonas urbanas. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 76 Fig. 5.1 – Mapa dos Reservatórios das Águas de Gaia (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Importa aqui referir que os reservatórios não estão associados a uma só freguesia. Todavia, a ligação entre as duas situações é muito próxima, o que facilita o trabalho da EG no que toca ao abastecimento de água. Fica mais fácil tratar de problemas no abastecimento numa freguesia, do que envolver várias freguesias. Para se compreender esta proximidade, apresenta-se o mapa de Vila Nova de Gaia dividido pelas suas freguesias. (Fig. 5.2) Fig. 5.2 – Mapa de freguesias de Vila Nova de Gaia (google.pt, 2014) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 77 Apesar de no mapa aparecerem 24 lugares definidos, neste momento, e, devido à recente união de freguesias, o município de Vila Nova de Gaia é composto por quinze freguesias. A zona mais a norte e centro do município é aquela que apresenta maior número de residências e habitantes, sendo também, por isso, o local onde se regista um maior número de clientes (Canidelo, Vilar de Andorinho, Oliveira do Douro, Mafamude, Canidelo, Vilar do Paraíso e Stª Marinha). A zona mais a sul representa os locais mais rurais do município (Sandim, Olival, Crestuma, Lever, Seixezelo e Grijó). 5.1.1.1. Aproximação das ligações ilícitas com zonas urbanas e bairros sociais A primeira ideia na identificação de consumos fraudulentos é a definição de zonas onde existe uma forte possibilidade de se encontrar fraude nos consumos. Como já foi exposto anteriormente, esta possibilidade é maior em zonas onde se encontram bairros sociais, em que a qualidade de vida é inferior à normalidade. Tomando como base o mapa do município, parte-se para a análise de dados referentes às ligações ilícitas nos últimos dois anos (2012 e 2013). Em arquivo da Empresa encontram-se os ficheiros associados às descobertas de ligações ilícitas e consequente retirada das mesmas. Os ficheiros indicam o local onde se deu o sucedido assim como a descrição da situação encontrada. Gráf. 5.1 – Distribuição das ligações ilícitas (ÁGUAS DE GAIA, 2014) O gráfico 5.1 representa a distribuição das ligações ilícitas dos últimos dois anos pelas diferentes freguesias do município. A Zona Urbana é refente aos locais de Mafamude e Sta. Marinha, que se situam no centro da cidade de Gaia. Para melhor se compreender os dados provenientes no gráfico, apresenta-se detalhadamente uma tabela (5.1) com todos os registos existentes. Zona Urbana Oliveira do douro Vilar de Andorinho Canidelo Vilar do paraiso Valadares Avintes Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 78 Tabela 5.1 – Ligações ilícitas dos anos 2012 e 2013 por freguesias (ÁGUAS DE GAIA, 2014) A principal intenção é associar a maioria das ligações ilícitas, criadas nos últimos dois anos, a zonas onde as dificuldades económicas e sociais são maiores. De facto, é o que realmente acontece. Olhando desde logo para duas das grandes fatias, Oliveira do Douro e Vilar de Andorinho, tanto num local como no outro existem bairros sociais que resultam do forte crescimento populacional que Vila Nova de Gaia apresentou nas últimas décadas. Em Oliveira do Douro o local mais preocupante é o chamado Bairro dos Cubos (Fig. 5.3), urbanização que foi concebida pelo município com o objetivo de realocar as famílias mais carenciadas. Dos 55 casos existentes cerca de 30 são provenientes dessa mesma zona. Fig. 5.3 – Bairro dos Cubos, Oliveira do Douro (googlemaps.pt, 2014) Zona Urbana 101 Oliveira do douro 55 Vilar de Andorinho 31 Canidelo 29 Vilar do Paraíso 22 Valadares 16 Avintes 14 Pedroso 12 Gulpilhares 11 Afurada 9 S. Félix Marinha 8 Perosinho 8 Madalena 7 Canelas 6 Serzedo 4 Grijó 4 Arcozelo 3 Sermonde 2 Olival 2 Sandim 1 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 79 No caso de Vilar de Andorinho, é em Vila d’Este (Fig. 5.4) que a situação é mais grave. Apesar de tudo, Vila d’Este é uma urbanização bastante grande, como se pode ver pela imagem seguinte, logo, é com naturalidade que se aceita o número de ligações ilícitas existentes. Fig. 5.4 – Urbanização Vila d’Este, Vilar de Andorinho (HTTP://WWW.SKYSCRAPERCITY.COM/SHOWTHREAD.PHP?T=590544) Dos 345 casos registados no decorrer dos dois anos, 101 (cerca de 30%) são provenientes da zona urbana da cidade de Gaia. Não existe uma lógica coerente que identifique uma dada rua ou uma zona residencial como locais com maior tendência de ocorrência de ligações diretas à rede de abastecimento de água. A verdade é que dos 302 295 habitantes de Vila Nova de Gaia (dados de 2011) cerca de 180000 são residentes urbanos, que se distribuem essencialmente por Mafamude, Santa Marinha, Oliveira do Douro, Canidelo e Vilar do Paraíso. Ou seja, cerca de 60% da população do município concentra-se nestas 5 zonas. Por aqui se compreende que a distribuição de casos é coerente com a distribuição de habitantes. Um aspeto importante a salientar, é a maneira como a Empresa deteta as ligações ilícitas. Grande parte dessas ligações é comunicada por vizinhos diretamente aos responsáveis por esse departamento nas Águas de Gaia. A pessoa em causa sente-se, de certa forma, injustiçada com a situação, e, em anonimato, comunica a fraude à Entidade Gestora. É interessante ver que, nas freguesias mais rurais, como Sandim, Crestuma e Lever, existem poucos ou nenhuns casos de ligações ilícitas. Nestes locais, além da existência de um número maior de poços e furos, há também uma maior ligação entre as pessoas que “impede” as denúncias entre elas. Quando o técnico se desloca ao local para retirar a ligação, muitas vezes, depara-se com situações similares em habitações próximas. Por isso, é normal, que se encontrem registos, do mesmo dia, onde o nome da rua é igual para os vários casos. Caso seja necessário, e tendo em conta a falta de sensibilidade dos moradores, em muitas situações é necessário existir acompanhamento policial para a realização das operações de retirada da ligação. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 80 5.1.1.2. Contadores parados por adulteração: distribuição pelo município Da mesma forma que se pretendeu estabelecer uma ligação entre as ligações ilícitas existentes com zonas mais debilitadas socialmente no município de Vila Nova de Gaia, também no caso dos contadores parados se tentará realizar uma comparação similar. O objetivo será analisar, partindo dos registos existentes de contadores parados, a possibilidade de os mesmos registos se verificarem, em maior número, num dado local. No ano de 2014, até ao fim do mês de maio, foram detetados 36 casos de contadores alterados, enquanto nos anos de 2013 e 2012 foram registados 84 e 43, respetivamente. (ver tabela 5.2) De notar que, para a Empresa conta como contador alterado aquele que é encontrado destruído ou com indícios de destruição. Por exemplo, existem situações de contadores roubados que não são consideradas. Essas situações são cada vez mais frequentes, tendo-se já registado, neste ano 2014 (até 31 de maio), cerca de 25 casos. Os contadores apresentam um valor de mercado elevado, como já deu para perceber, no entanto, quem os “rouba” não pretende vendê-los como contadores, mas sim como peças metálicas para fins que não os de contagem da água. Esses casos não entram nas contas dos consumos fraudulentos porque não são, de facto, casos de Água Não Faturada. Se o contador for retirado do seu local, ou é colocada uma pequena ligação direta entre os tubos, ou então, a água acaba por não passar para a habitação. Esta segunda situação acaba por acontecer com mais frequência. Tabela 5.2 – Contadores alterados por freguesias de Vila Nova de Gaia (ÁGUAS DE GAIA, 2014) 2012 2013 2014 (até 31/05) Totais Zona Urbana 11 27 9 47 Oliveira do Douro 3 10 1 14 Vilar de Andorinho 6 5 5 16 Vilar do Paraíso 2 5 2 9 Canidelo 3 5 5 13 Madalena 3 1 0 4 Gulpilhares 2 3 1 6 Crestuma 1 0 0 1 Avintes 1 3 1 5 Perosinho 1 2 2 5 Canelas 3 3 2 8 S. Félix da Marinha 1 3 3 7 Pedroso 3 2 0 5 Olival 1 4 2 7 Valadares 1 1 1 3 Serzedo 1 1 0 2 Grijó 0 2 0 2 Sandim 0 2 0 2 Lever 0 2 0 2 Arcozelo 0 1 0 1 Afurada 0 2 2 4 Totais 43 84 36 163 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 81 Tal como acontece nas ligações ilícitas, também a frequência de ocorrências de contadores alterados é maior na Zona Urbana da cidade. Como já se explicou, esta zona representa duas freguesias com um número elevado de residentes/clientes. Aproximadamente 30% dos casos de contadores alterados são encontrados nesta zona. Os outros casos estão divididos pelas restantes freguesias de Vila Nova de Gaia, sendo Oliveira do Douro, Canidelo e Vilar de Andorinho as freguesias com mais situações registadas. Para que se compreenda melhor esta realidade, observe-se o gráfico 5.2. Gráf. 5.2 – Contadores alterados – Distribuição (ÁGUAS DE GAIA, 2014) Mais uma vez, as freguesias de Vilar de Andorinho e Oliveira do Douro estão no centro das atenções dos consumos fraudulentos. Nota-se aqui uma grande semelhança com a situação das ligações ilícitas já anteriormente vistas. Isto implica que o padrão de análise para os dois casos poderá ser considerado o mesmo. 5.2. DEFINIÇÃO DE CRITÉRIOS PARA IDENTIFICAÇÃO DE CONSUMOS FRAUDULENTOS Depois de se analisar a proximidade entre as ligações ilícitas e zonas com carências sociais, há, agora, que encontrar a melhor forma de prever a ocorrência de irregularidades, para que seja a própria EG a descobrir onde está a fraude. Como já foi referido, não é tão linear quanto o que supostamente se estaria à espera. Muitas ligações ilícitas estão espalhadas um pouco por todo o município, apesar de haver uma tendência de estas se concentrarem em zonas urbanas de cariz social. O mesmo se passa no que se refere à sabotagem de contadores. Não existe uma coerência quando se pretende associar contadores parados com uma determinada zona do município. Existe por isso uma maior necessidade de encontrar um padrão que permita à Empresa uma forma rápida e eficaz de encontrar esses casos. De referir que, no caso de existirem contadores parados, a Empresa tem uma responsabilidade maior, pois o caminho para a sua descoberta é bem mais acessível quando comparado com as ligações ilícitas. O que se pretende é, única e exclusivamente, que a EG se encontre um passo à frente no combate às tentativas de fraude. Para isso, é conveniente que se estabeleçam critérios de intervenção. Num município tão grande, como é Vila Nova de Gaia, é praticamente impossível controlar todas as zonas com o detalhe necessário. Zona Urbana Vilar de Andorinho Oliveira do Douro Canidelo Vilar do Paraíso Canelas S. Felix da Marinha Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 82 5.2.1. ANÁLISE ATRAVÉS DAS ZONAS DE MEDIÇÃO E CONTROLO O avanço tecnológico no controlo de redes de distribuição de água permite que hoje existam ferramentas que conseguem controlar e medir os consumos de uma determinada zona dentro da rede definida por um reservatório. A Empresa Águas de Gaia dispõe de um sistema de Telegestão, que poderá incorporar o controlo dessas mesmas zonas, tornando a leitura e a gestão da rede mais facilitadas. Apesar de a implementação de Zonas de Medição e Controlo estar associada mais concretamente ao controlo de perdas reais, poderá tornar-se importante no estudo de casos como os consumos fraudulentos. Se uma determinada zona, com maior tendência de consumos fraudulentos, for controlada a partir de uma ZMC, é possível comparar os valores dos caudais que estão a ser faturados com os caudais que estão verdadeiramente a ser consumidos. Na pesquisa bibliográfica foram explicados os principais critérios de implementação de ZMC’s. Esta estratégia apresenta-se como uma boa solução, porém requer um investimento elevado. A instalação de um contador, com elevada precisão, à entrada de uma determinada zona irá relatar todos os consumos diários, semanais e mensais. A faturação mensal da mesma zona permitirá verificar se existem bastantes diferenças entre os consumos reais e os faturados. Não esquecer que a instalação de uma ZMC implica também a adaptação de um datalogger ao contador, por forma a servir de registo contínuo de dados. No caso das diferenças se apresentarem fora do normal, duas situações poderão estar a ocorrer: ou a água se está a perder nas condutas induzindo a perdas reais, ou existirão as perdas aparentes, que, de certa forma, já seriam esperadas. A equipa de trabalho da Empresa só irá ter a certeza de uma ou outra situação se se deslocar ao local. Atendendo a que a procura pelas fugas de água é um trabalho mais demorado, deve optar-se pela análise dos contadores ou das possíveis ligações ilícitas. O que acaba de ser explicado será, obviamente, uma solução a ser estudada pela EG. A principal vantagem é o maior controlo da rede em zonas que requerem uma maior atenção. Este trabalho poderá ser benéfico para a EG se for devidamente acompanhado e estudado na sua fase de exploração. Além de estar intimamente ligado à tentativa de identificação de consumos fraudulentos, a implementação de ZMC’s permitirá também um controlo maior no que se refere às perdas reais. O sistema de Telegestão das Águas de Gaia permite a monitorização constante e ao longo do tempo. Atendendo a que a aquisição desse produto foi um forte investimento no que ao abastecimento de água diz respeito, há que dinamizar e aproveitar todas as ferramentas do programa. Apesar de existirem vários pontos favoráveis à utilização desta solução, a EG deverá estudar a implementação de contadores nas novas zonas de medição e controlo definidas. O custo associado à aquisição de um contador, alargado ao custo da mão-de-obra e do respetivo trabalho informático, deverá ser superado pelos ganhos no combate aos consumos fraudulentos ao fim dos primeiros anos de exploração. Para melhor se compreender esta situação, foi realizada uma simulação que visa testar a implementação de uma zona de medição e controlo numa das zonas com maior predominância de consumos fraudulentos. Na simulação, estudou-se a possibilidade de instalação de um contador associado a um datalogger numa conduta de 90 mm. Comparam-se, ainda, os preços no caso de se instalar um contador mecânico (com menor precisão), ou um contador eletromagnético (grande precisão), ambos de 80 mm. Esta simulação poderá ser vista na tabela 5.3. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 83 Tabela 5.3 – Custos instalação ZMC numa conduta de 90 mm Contador Mecânico Contador Eletromagnético Custo aquisição do contador (€) 450 € 1220 € Custo mão-de-obra (€) 300 € 300 € Custo aquisição datalogger (€) 960 € 960 € Total 1710 € 2480 € A preferência pelo contador eletromagnético fica clara do ponto de vista da eficácia, apesar de representar um investimento maior. A precisão do contador dá uma maior segurança nos resultados; no caso de contadores mecânicos seria preciso realizar leituras diárias por parte de um técnico para obter uma precisão próxima de contadores eletromagnéticos. Necessário agora verificar se será ou não vantajoso, do ponto de vista das perdas aparentes, a instalação de uma ZMC numa zona com tendência a consumos fraudulentos. Admitindo que o consumidor/cliente não tem acesso a qualquer tipo de poço ou furo, este é obrigado a pagar toda a água que consome à Empresa, neste caso, à Águas de Gaia. Em média, um cliente consome cerca de 15 m³ por mês, que corresponde a uma fatura mensal (sem tarifas) de aproximadamente 15 euros. Num ano esse cliente deverá pagar à Empresa cerca de 180 euros. Segundo os dados referentes aos últimos dois anos das ligações ilícitas e dos contadores parados, as estimativas apontam para que nessa zona ocorram aproximadamente quinze a vinte casos por ano. Se este número (quinze) se vier a confirmar, significa que a Águas de Gaia poderá apresentar “ganhos” na ordem 2700 € anuais. Aparentemente, e depois de uma análise rápida, prevê-se que, a intervenção ao fim de ano e meio, dois anos, fique “paga”. No entanto, existe uma série de fatores e questões que convêm ser discutidos e que poderão colocar em causa o plano de instalação da ZMC. Primeiro, porque esta extrapolação foi realizada com base em dados dos últimos dois anos e, apesar de serem fidedignos, referem-se a uma amostra muito pequena. Segundo, há que ter em conta que, se esses dados existem, é porque foram descobertos consumos fraudulentos sem que qualquer investimento tenha existido. Como é óbvio, o controlo informático e técnico constante descobrirá mais rapidamente a fraude, no entanto, e “sem gastar um euro” que seja, a Empresa até hoje, consegue encontrar consumos fraudulentos, graças às denúncias feitas por vizinhos. Importa ainda referir que, este estudo foi realizado, única e exclusivamente, para uma obtenção de ganhos através da descoberta de consumos fraudulentos. A instalação de uma ZMC está também associada ao controlo de perdas reais. Ora, contabilizando os ganhos associados às possíveis descobertas de perdas físicas de água, conclui-se que a introdução de uma ZMC poderá implicar ganhos maiores, justificando por inteiro a opção. Tendo em conta o conhecimento e experiência existentes nos responsáveis pelo Abastecimento de Água na Empresa Águas de Gaia, a opção irá pela instalação de ZMC’s segundo os critérios já anteriormente vistos na pesquisa bibliográfica, que se prendem mais com o número de clientes e/ou o número de quilómetros de rede. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 90 consumo. Uma das possibilidades é definir as redes no sistema de Telegestão, facilitando assim a leitura do sistema implementado. Cada contador instalado estará caracterizado no sistema com o número de série e morada. Automaticamente, se algum sinal for emitido por falha do contador, o local de consumo é ilustrado com sinal de alarme. Os sinais de alarme serão emitidos se algo de anormal acontecer. Há que estipular e definir o que serão, então, esses acontecimentos anormais. No caso da fraude, o sistema será obrigado a detetar o acontecimento na hora, emitindo um alarme de urgência. Este, como se vê, não será o grande problema na definição dos dispositivos de alarme. A questão que se coloca é, como controlar os alarmes da subcontagem dos contadores. Para isso, os contadores deverão ser programados de modo a que, um funcionamento fora dos padrões normais de consumo seja um possível sinal de alarme. Primeiro, existe a necessidade de estabelecer esses padrões de consumo (mensais ou até mesmo anuais) de cada cliente, para que seja possível definir os limites condicionantes de alarme. Fig. 5.12 – Rede EPANET Póvoa Alta Ao mesmo tempo, a base de dados existente de contadores no sistema de Telegestão permite controlar a idade dos mesmos e assim conciliar com os padrões de consumo existentes. Ou seja, o trabalho de averiguação deverá ser permanente e cada caso deverá ser estudado individualmente. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 91 5.3. APOIOS SOCIAIS E CAMPANHAS DE SENSIBILIZAÇÃO Depois de analisadas as possibilidades técnicas para definir critérios para identificar a fraude no abastecimento de água, é necessário definir também estratégias que visem ajudar e chamar a atenção dos clientes para esta problemática. Os apoios sociais e as campanhas de sensibilização são duas maneiras de prevenir a ocorrência deste fenómeno. Uma estratégia que poderá ser implementada é a definição de diferentes tarifas referentes ao consumo e faturação da água. Na Águas de Gaia existe um tarifário que varia consoante o tipo de consumo (doméstico, industrial, público, etc.). Esse tarifário poderá ser visto no Anexo D. Na segunda página desse anexo é possível verificar uma tarifa própria para a beneficência e assistência. Para que o leitor não seja levado ao engano, explica-se: este tipo de beneficência não está aplicado a famílias com apoio social, mas sim a todo o tipo de instituições/ associações de cariz social, desportivo e cultural. Existem ainda tarifas diferentes consoante o número de elementos do agregado familiar. Para apoiar as famílias mais carenciadas residentes no município, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia aprovou uma nova tarifa social mensal que isenta na totalidade o pagamento das tarifas fixas de água, saneamento e resíduos sólidos urbanos e reduz de forma significativa as tarifas variáveis de água e saneamento (Fig.5.13). Este tarifário social abrange agregados familiares cujo titular do contrato se encontra em situação de desemprego de longa duração, sem cobertura de prestação social por parte do sistema de Segurança Social, com rendimento anual ilíquido inferior a 1.5 vezes o valor da retribuição mínima mensal garantida. Apesar de ser uma tarifa com grande efeito social, abrange poucas das milhares de famílias que necessitam de apoio social em Vila Nova de Gaia. Fig. 5.13 – Cartaz Publicitário Tarifário Social (ÁGUAS DE GAIA, 2012) Depreende-se que, não compete à Entidade Gestora definir esses apoios sociais, mas sim aos órgãos políticos, como o Estado Português e a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Sabendo do atual Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 92 estado do país e dos problemas financeiros existentes, esta é uma solução que não estará certamente aberta a discussão. O aumento do valor das coimas poderia ser também um ponto a modificar. Se o cliente souber que, caso venha a ser descoberto, terá de pagar uma multa elevada, pensará duas vezes na consumação da fraude. A Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia, quanto a isto, não poderá mudar muito a situação, pois este tipo de coimas está regulamentado. As campanhas de sensibilização poderão ser uma alternativa viável, ficando sempre ao alcance da EG. Por exemplo, o envio de “flyers” para as caixas de correio dos clientes, com a descrição do problema e os custos associados às possíveis multas, poderia fazer a diferença. 5.4. AVALIAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS IMPLEMENTADAS E A IMPLEMENTAR De um modo geral, foram encontradas três soluções que visam identificar e solucionar os consumos fraudulentos: alerta de contador bloqueado, definição de ZMC e a criação de apoios sociais. Todas estas soluções partiram do pressuposto que a fraude se encontra num certo estrato social. Não significa que não se possa encontrar fraude em outros clientes, porque isso de facto acontece. A chegada da crise económica proporcionou uma tendência para a desonestidade dos consumidores. Aquilo que até hoje só se encontraria em famílias carenciadas, poderá agora ser visto no seio de uma família aparentemente estável do ponto de vista financeiro. Segundo os responsáveis pelo abastecimento de água nas Águas de Gaia, o foco principal deverá ser a conclusão das Zonas de Medição e Controlo. Isto permitirá não só responder às perdas aparentes, aqui em estudo, como também às perdas reais de água, que representam mais de metade do volume de ANF da Empresa. O estudo realizado na dissertação sobre a implementação de novas ZMC’s teve um impacto positivo no controlo dos consumos das áreas socias do município. A instalação das ZMC’s é uma estratégia que a Águas de Gaia tem vindo a trabalhar, prevendo-se que, nos próximos anos, as redes associadas aos 32 reservatórios estejam cobertas inteiramente por este plano de controlo. Os resultados, daqui provenientes, são bastante encorajadores, o que entusiasma a continuação do trabalho nesta área. De notar que, nem todas as redes serão controladas por ZMC’s. A Empresa está a analisar os consumos noturnos associados aos diferentes reservatórios. Aqueles que apresentarem consumos baixos, tanto ao longo do dia como ao longo da noite (Reservatórios associados a redes com poucos clientes – exemplo: R14 Póvoa Alta), não justificam, economicamente, a instalação de ZMC’s. Estes consumos noturnos estão a ser analisados com a ajuda do sistema de Telegestão. Em relação à outra estratégia técnica, que se prende com a emissão de alertas quando um contador se encontra bloqueado, as perspetivas ainda estão aquém das expectativas. Isto resulta do facto de o investimento necessário ser bastante grande, implicando o esforço financeiro por parte da EG. O estudo realizado foi essencial para aprovar a eficiência desta estratégia, ficando claro que, estando o sistema de Telegestão instalado, é necessário dinamizá-lo ao máximo (Fig. 5.14). Além das estratégias técnicas já revistas, houve uma preocupação em aliar ao trabalho de identificação de fraude as campanhas de sensibilização e os apoios socias. Apesar de esta estratégia fugir um pouco do âmbito do tema em estudo, é importante para qualquer Engenheiro ou Técnico de Águas o contacto com as medidas socias a implementar. Melhor que ninguém, estas pessoas conhecem o cerne da questão e saberão a melhor forma de apelar à consciência do consumidor/cliente. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 93 Fig. 5.14 – Sistema de Telegestão (ÁGUAS DE GAIA, 2014) A esperança, em obter bons resultados, gera confiança nos responsáveis da EG. E se esses bons resultados se vierem a confirmar, maior será a dinâmica dentro do departamento de abastecimento de água. O grande entrave neste momento é a espera pelos dados referentes aos caudais anuais nos diversos reservatórios. A Empresa irá fazer o seu primeiro balanço de resultados após um ano de Telegestão. Após a análise desses dados anuais, começarão a ser implementadas estas novas estratégias, algumas aqui analisadas, com a intenção prioritária de reduzir os 27 pontos percentuais de ANF. Apesar disso, muitas medidas já foram tomadas com base no estudo de caudais noturnos. 5.5. A MUDANÇA PROVOCADA PELA REDUÇÃO DA ANF NAS ÁGUAS DE GAIA Através dos dados referentes ao balanço hídrico do final do ano de 2012, percebe-se que a redução da ANF é uma tarefa obrigatória para a Águas de Gaia. Numa fatura simples da água, a componente referente ao abastecimento é a mais importante. Atendendo a que o preço base da compra de um metro cúbico de água é aproximadamente 0,37 €, e que o preço médio de venda da mesma (sem tarifas) é aproximadamente 1 €, poderá perceber-se rapidamente a importância da redução das perdas aparentes. A perspetiva para os próximos anos é a redução das perdas aparentes, não só dos consumos fraudulentos como também da subcontagem de contadores. Estima-se que a percentagem de perdas aparentes se aproxime do valor de 1,3. Este valor proporcionará ganhos na ordem dos 500 000 €, ou seja, cerca de meio milhão de euros. Não esquecer que, atrás deste ganho existe, obviamente, a componente de investimento, que foi vista num dos subcapítulos anteriores. Tudo isto poderá ser visto na tabela 5.4. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 94 Tabela 5.4 – Um novo Balanço Hídrico esperado Água entrada sistema (m³) % Água Faturada (m³) % Perdas Aparentes (m³) % Consumos Fraudulentos (m³) % 2012 18.126.786 100 13.192.595 72,8 598.072 3,3 135.810 0,7 Custos (€) 6.706.911* - 13.192.595** - 819.359*** - 186.060*** - Perspetiva 18.126.786 100 13.558.836 74,8 235.648 1,3 36.254 0,2 Custos (€) 6.706.911* - 13.558.836** - 322.838*** - 49.668*** - * - Custo associado à aquisição da água, 0,37 €/m³ ** - Ganhos associados à faturação da água pelos clientes, 1 €/m³ *** - Custos associados à não faturação das perdas aparentes (aquisição + venda), 1,37 €/m³ Se este trabalho for completado, como é esperado, pela redução da componente das perdas reais, os ganhos serão maiores, podendo a Empresa atingir o patamar de equilíbrio desejado. A entrada em pleno funcionamento do Sistema de Telegestão é a “peça chave” neste grande processo de redução da ANF. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 95 6 Conclusões e Recomendações 6.1. CONCLUSÕES Depois de um estudo intensivo sobre a problemática das perdas de água e do volume de água não faturado, é necessário fazer uma síntese do que se viu e das principais noções que devem ficar na memória dos leitores. Este assunto, trabalhado ao longo destas páginas, continua a ser discutido nacional e internacionalmente, suscitando, por isso, o interesse do público em geral. Recorda-se que, a maneira como este tema é tratado, poderá ter grande influência na gestão económico-financeira de um município. A busca pelo equilíbrio numa Entidade Gestora depende muito daquilo que é, nos dias de hoje, conhecido pelo Nível Económico de Perdas. Este é o ponto de partida para qualquer sistema de gestão numa Empresa de Águas. Cabe aos responsáveis estabelecer uma meta que permita a mobilização de todos os técnicos afetos ao Abastecimento de Água. Mais uma vez se lembra que o trabalho não acaba quando se atinge o patamar desejado. Deverá existir um trabalho contínuo com o objetivo de manter os níveis de ANF e AF. No mesmo patamar de importância do NEP surge o balanço hídrico realizado anualmente pela EG. Tal como se pode verificar no caso de Vila Nova de Gaia, o balanço é imprescindível para se poderem criar estratégias de combate aos principais fatores da ANF. Ou seja, o predomínio de certas anomalias, como fugas de água nas condutas, consumos autorizados não faturados e, mesmo, perdas aparentes, poderão definir os principais passos a dar pela EG no combate a estes volumes de água existentes. Depois de tomadas todas as decisões no combate ao volume de ANF, é necessário que todo o tipo de estratégias sejam acompanhadas por profissionais qualificados, de modo a que haja credibilidade naquilo que se faz. No que se refere ao combate de perdas aparentes, verifica-se que existem diversas formas de minorar o problema. Um ponto comum em todas elas é a utilização do Sistema de Telegestão. As principais Empresas de distribuição de água estão, neste momento, a acompanhar o avanço tecnológico nessa área, que permitirá melhorar o controlo efetivo sobre toda a rede. A Telegestão permite a monitorização de toda a rede de distribuição, tornando possível observar a informação, a qualquer momento, de um ponto da rede, seja ele um reservatório, um contador numa zona de medição e controlo, um contador de um cliente, um marco de incêndio, etc.. No entanto, para que tudo isto seja visível num só monitor, que permita o controlo remoto de todo o sistema, é necessário um enorme investimento, que não está, certamente, ao alcance de todas as Entidades Gestoras. Os consumos fraudulentos são, como já seria de esperar, um problema que tem vindo a crescer no seio das perdas aparentes. A crise, que se instalou na sociedade portuguesa, e a grande quantidade de Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 96 informação nas redes informáticas, levam a aumento claro da fraude ao nível do abastecimento de água, que se destaca nas zonas de carência social do município. Depois de analisadas essas mesmas zonas, foi essencial analisar o terreno em si. As deslocações aos locais foram fundamentais para perceber a realidade das instalações existentes. As estratégias, definidas nesta dissertação, dão uma resposta simples àquilo que é urgente fazer. Tanto os consumos fraudulentos como as ligações ilícitas e os contadores alterados representam uma percentagem pequena da ANF no balanço hídrico da Águas de Gaia, necessitando tal como as outras fontes de perdas, de estratégias de combate. O combate à fraude nos consumos é um tema que suscitou todo o interesse de ser estudado. Primeiro, porque a informação existente era pouca ou nenhuma, propondo-se estratégias pioneiras nos serviços de abastecimento de água em Portugal. Segundo, porque este poderá ser o ponto de partida para um estudo mais aprofundado desta componente das perdas aparentes. Além disto, o estudo deste tema poderá sensibilizar as pessoas e minimizar o problema. Ao longo da realização deste trabalho, senti algumas dificuldades na recolha de dados dentro da EG, mais concretamente, com o timing da realização do estágio. Os dados provenientes, na sua maioria, do Sistema de Telegestão, não estão em consonância com o tempo limite de realização desta dissertação, pois o Sistema entrou em pleno funcionamento no final do ano de 2013, e os dados recolhidos são apenas dos primeiros cinco meses de 2014. Evidentemente que, a Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia está isenta de responsabilidades. Todos os estudos realizados foram acompanhados por Engenheiros e Técnicos responsáveis pelo abastecimento de água em Vila Nova de Gaia. Esses estudos (estratégias) serão posteriormente aplicados no Sistema de Telegestão. Por fim, acrescenta-se que, a oportunidade de realizar todo o tipo de pesquisas e de recolha de informação no interior de uma EG, proporcionou uma abertura de mentalidade em relação ao atual SAA em Portugal. 6.2. RECOMENDAÇÕES A necessidade de responder aos problemas do dia-a-dia numa Entidade Gestora afasta, de certa forma, as tentativas de implementação de um novo sistema e de novos métodos. Em muitos casos, o receio de avançar e apostar em novas tecnologias “atrasa” o caminho que a Empresa deve seguir. Não será, certamente, o caso da Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia que, pelo contrário, tem vindo a apostar numa mudança de paradigma ao longo dos anos, apostando essencialmente na modernização do sistema de distribuição de água. No âmbito do tema em causa existem ainda questões que envolvem muita ambiguidade. O combate às perdas aparentes é, ainda assim, um assunto discutido no seio das Entidades Gestoras. Contudo, existem áreas que mereciam uma maior atenção e desenvolvimento, como é o caso dos consumos fraudulentos. Entre os diversos assuntos que poderiam ser explorados, deixam-se aqui aqueles que possam despertar um maior interesse, tanto para futuros trabalhos como para estudos da própria EG:  Análise da implementação, em toda a rede municipal, do controlo de todos os contadores, para que seja possível a partir do sistema de Telegestão observar os consumos de todos os clientes.  Continuação do estudo da subcontagem de contadores associados a grandes clientes, visto que estes representam mais do que 10% da faturação da Empresa Águas e Parque Biológico de Gaia.  Finalizar a implementação das ZMC’s em toda a rede municipal de Vila Nova de Gaia, concluindo assim uma das etapas no combate à ANF. Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 97 Além destas pequenas recomendações, será importante lembrar que todo o trabalho que hoje se realiza numa EG, responsável pelo abastecimento de água à população, é bem diferente daquele que se realizava há dez, vinte anos atrás. A manutenção dos bens imóveis e a preocupação com o balanço financeiro da Empresa deverão manter-se tal como antes. No entanto, existe uma necessidade crescente dos sistemas de abastecimento de água se adaptarem às novas tecnologias e aos novos modelos de gestão. Mais que fazer de novo, há que saber gerir: é este o lema atual no seio de uma EG. Para que o leitor não perca a importância deste tema, destaca-se, por fim, a seguinte citação: “A água é um fator essencial para o desenvolvimento socioeconómico do país, devendo ser considerada um recurso estratégico, tendo necessariamente que se garantir uma elevada eficiência no seu uso.” (Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água, 2012) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 98 Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 99 BIBLIOGRAFIA Águas de Portugal, 2014. História. – 25 de abril de 2014. Disponível em: http://www.adp.pt/content/index.php?action=detailfo&rec=1757&t=Historia Águas e Parque Biológico de Gaia, EM., Distribuição de água – 12 de maio de 2014. Disponível em: http://www.aguasgaia.eu/pt/dados.php?ref=distribuicao Águas e Parque Biológico de Gaia, EM, SA (2014). 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Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 106 Anexo B – Vila d’ Este, Vila Nova de Gaia, Rede de Abastecimento de Água Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 107 Anexo C – Póvoa Alta, Vila Nova de Gaia, Rede de Abastecimento de Água Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 108 Anexo D - Tarifário Mensal de Água, Água e Parque Biológico de Gaia, EM, SA Eur Obs Consumo Doméstico 1º Escalão de 1 a 5 m³ 0,45 (1) 2º Escalão de 6 a 10 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 11 a 20 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 21 a 40 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 40 m³ 2,50 (1) Consumo Familiar 1º Escalão de 1 a 8 m³ 0,48 (1) Família 5 pessoas 2º Escalão de 9 a 14 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 15 a 24 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 25 a 45 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 45 m³ 2,50 (1) 1º Escalão de 1 a 10 m³ 0,48 (1) Família 6 pessoas 2º Escalão de 11 a 16 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 17 a 26 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 27 a 47 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 47 m³ 2,50 (1) 1º Escalão de 1 a 12 m³ 0,45 (1) Família 7 pessoas 2º Escalão de 13 a 18 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 19 a 28 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 29 a 49 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 49 m³ 2,50 (1) 1º Escalão de 1 a 14 m³ 0,45 (1) Família 8 pessoas 2º Escalão de 15 a 20 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 21 a 30 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 31 a 51 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 51 m³ 2,50 (1) 1º Escalão de 1 a 16 m³ 0,45 (1) Família com 9 ou mais pessoas 2º Escalão de 17 a 22 m³ 0,98 (1) 3º Escalão de 23 a 32 m³ 2,20 (1) 4º Escalão de 33 a 53 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 53 m³ 2,50 (1) Redução de perdas aparentes em sistemas de abastecimento de água: Definição de critérios para identificação de consumos fraudulentos 109 Eur Comércio e Indústria 1º Escalão de 1 a 10 m³ 2,00 (1) 2º Escalão de 11 a 750 m³ 2,50 (1) 3º Escalão de 751 a 1500 m³ 2,50 (1) 4º Escalão de 1501 a 3000 m³ 2,50 (1) 5º Escalão mais de 3000 m³ 2,50 (1) Serviços Públicos 1º Escalão de 1 a 1000 m³ 2,50 (1) 2º Escalão mais de 1000 m³ 2,50 (1) Município de Gaia e Juntas de Freguesia 0,48 (1) Beneficência e Assistência 0,45 (1) Cultura e Desporto 0,45 (1) Tarifa de Disponibilidade 3,95 (1) Outras tarifas Instalação Contador de Água 45,00 (2) Encargos com Deslocação e Corte de Fornecimento 32,00 (2) Aferição de Contadores 32,00 (2) (1) Estes preços são sujeitos a IVA à taxa de 6% (2) Estes preços são sujeitos a IVA à taxa de 23%