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Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT - Parque Arqueológico do Vale do Terva

Sónia Patrícia Gomes Magalhães

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FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 1 Resumo A destruição e o aumento da fragmentação do habitat são as maiores consequências da ação humana na paisagem e duas das mais relevantes ameaças para a biodiversidade. Emys orbicularis, de nome comum cágado-de-carapaçaestriada, apesar de possuir uma ampla distribuição a nível global, em Portugal é considerada uma espécie “Em perigo” (EN) pelo Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal. Geralmente, esta espécie ocorre em lagoas e zonas húmidas bem conservadas, apresentando uma distribuição fragmentada e concentrada essencialmente a sul do rio Tejo. No norte de Portugal existem apenas algumas populações isoladas, estando a mais importante localizada no extremo norte de Boticas, onde ocorrem num grupo de lagoas pertence ao PAVT - Parque Arqueológico do Vale do Terva. Este estudo pretendeu avaliar a situação, estrutura e dinâmica desta população, bem como a ocorrência de migração entre lagoas e os respectivos padrões de movimentação. Foram usadas técnicas de captura – recaptura com armadilhas não só para compreender a estrutura desta população, como também para compilar dados espaciais com o objectivo de identificar, utilizando software SIG, possíveis corredores ecológicos. Neste estudo foi possível confirmar a ocorrência de movimentos entre as diferentes lagoas, comprovando a existência de uma metapopulação interconetada neste local. No total capturaram-se 194 animais, tendo a amostra uma composição de 70% adultos, 27% juvenis, 3% neonatos e um sex ratio de 2,2:1 (macho: fêmea). A metapopulação revelou-se estável com um efetivo populacional de N =317 ± 34 e uma densidade de 74,6 ind/ha. Mais ainda, identificaram-se as distâncias de menor custo entre as lagoas e os corredores ecológicos que permitem a conetividade da metapopulação do PAVT, compreendendo uma área de aproximadamente 6,4Km2. Os dados obtidos neste estudo revelam a extrema importância da gestão desta área, através da aplicação de medidas concretas de proteção destes corredores ecológicos, bem como das lagoas, culminado na proteção desta valiosa população. Palavras-chave: Emys orbicularis, PAVT Boticas, metapopulação, estrutura populacional, efectivo populacional, conetividade, corredores ecológicos. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 2 Abstract Habitat destruction and increasing fragmentation two of the most relevant threats to biodiversity. Despite its global wide distribution, Emys orbicularis, commonly known as European pond turtle, is considered an endangered species in Portugal (EN), according to the Red Book of Vertebrates of Portugal. Usually, this species occurs in well conserved ponds and wetlands, exhibiting a fragmented distribution and being mostly concentrated at the south of the Tejo river. In the north of Portugal there are only a few isolated populations, being the most important one located at the northern extreme of Boticas, in a group of ponds belonging to the PAVT – Archaeological Park of the Terva Valley. This study aimed to evaluate the situation, structure and dynamics of this population, as well as the occurrence of migration between ponds and the respective movement patterns. In order to understand the structure of this population and to gather spatial data to identify potential ecological corridors we used capturerecapture techniques, together with traps, and SIG software. Using these methods, it was possible to confirm the occurrence of movements between the different ponds, therefore demonstrating the existence of an interconnected metapopulation in this region. A total of 194 individuals were captured, being the sample composed by 70% adults, 27% juveniles and 3% neonates, and showing a sex ratio of 2.2:1 (male:female). With an effective population size of N = 317 ± 34 and a 74.6 ind/ha density, the metapopulation was considered stable. In addition, the least cost distances between ponds and the ecological corridors allowing the connectivity of the PAVT metapopulation were identified, comprising an area of approximately 6.4 Km2. Altogether, the data obtained in this study revealed the extreme importance of the management of this area, through the application of specific protection measures for these corridors, as well as for the ponds, ultimately culminating in the protection of this unique population. Key words: Emys orbicularis, PAVT Boticas, metapopulation, population structure, effective population, connectivity, ecological corridors. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 3 Agradecimentos Chegado o fim deste percurso ficam muitos agradecimentos a ser ditos. Ao Dr. José Teixeira por ter aceite a orientação cientifica desta dissertação, pela orientação nos últimos quatro anos. Ao Dr. Pedro Segurado pela co-orientação desta dissertação, pela disponibilidade e aconselhamento. Á Câmara Municipal de Boticas, bem como ao PAVTParque Arqueológico do Vale do Terva, por todo o apoio, sem o qual a realização deste trabalho não seria possível. Ao Ernestino e Lynda Maravalhas, pela estadia pela companhia pela simpatia e por sempre me terem feito sentir em casa, um obrigado muito especial. Ao Dr. Pedro Segurado, Dr. Guillermo Velo-Antón e Dr. Adolfo Cordero Rivera pelos dados fornecidos. Ao Dr. Armando Alves pela ajuda com a produção de alguns mapas da área de estudo. A Marta, Ninhas, Paula, Cátia, Lúcia, Jael, Irene, Jean, Bira, e desculpem se me esqueci de alguém, que por mais ou menos tempo me acompanharam no trabalho de campo ao longo destes 3 anos. Obrigado pela companhia no sol, no frio, nas quedas, nos carros avariados ou atulados. Aos amigos que tiveram paciência para me ouvir falar sobres esta dissertação durante tantos meses, em especial para a Paula a Ninhas e a Diana. Aos meus pais e irmã por me permitirem chegar até aqui. Por fim a algumas pessoas que marcaram e foram essenciais para o meu percurso, Tiago, Nuno, Joana, Ninhas, Diana, Diogo, Paula, Miguel Catarina, Claudia Catarina, José Ponce, Ricardo, ao outro Nuno, João, Lúcia e peço desculpa pois com certeza me esqueci de alguém igualmente importante. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 4 Índice 1.Introdução ...................................................................................................................... 9 1.1 Carateristicas gerais de Emys orbicularis ...................................................... 9 1.2 Distribuição ................................................................................................... 12 1.3 Conetividade e corredores ecológicos em tartarugas de água doce .......... 14 1.4 Objetivos ....................................................................................................... 16 2.Metodologia ................................................................................................................. 17 2.1 Área de estudo ............................................................................................. 17 2.2 Recolha de dados ......................................................................................... 22 2.3 Estimativa do efetivo populacional ............................................................... 25 2.4 Movimentação entre lagoas ......................................................................... 26 2.5 Padrões de movimentação ........................................................................... 27 2.6 Corredores ecológicos .................................................................................. 30 3.Resultados ................................................................................................................... 30 3.1 Estimativa populacional ................................................................................ 30 3.2 Fenologia da metapopulação ....................................................................... 32 3.3 Estrutura da metapopulação ........................................................................ 32 3.3 Movimentações na metapopulação ............................................................. 54 3.4 Distância de menor custo / corredores ecológicos ...................................... 58 4. Discussão ................................................................................................................... 64 4.1 Efetivo populacional ..................................................................................... 64 4.2 Fenologia da metapopulação ....................................................................... 64 4.3 Estrutura da metapopulação ........................................................................ 65 4.4 Movimentação entre lagoas ......................................................................... 68 4.5 Distância de menor custo/ corredores ecológicos ....................................... 69 5. Considerações finais .................................................................................................. 70 6. Referências Bibliográficas .......................................................................................... 72 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 5 Índice de Figuras Figura 1Exemplar adulto de Emys orbicularis, cágado-de-carapaça-estriada. ............ 9 Figura 2Distribuição global de E. orbicularis (Loureiro et al., 2010). .......................... 13 Figura 3Distribuição de Emys orbiculris em Portugal (Loureiro et al., 2010). ............ 13 Figura 4Localização da área de estudo, PAVT-Parque Arqueológico do Vale do Terva. .............................................................................................................................. 18 Figura 5Localização das lagoas e da rede hidrográfica na da área de estudo. ......... 19 Figura 6Lagoa das Batocas (1). ................................................................................... 20 Figura 7Lagoa das Batocas (2). .................................................................................. 20 Figura 8Lagoa do Poço das Freitas. ............................................................................ 21 Figura 9Lagoa Limarinho . ........................................................................................... 21 Figura 10Lagoa do Calvão. .......................................................................................... 21 Figura 11Lagoa Rio Terva. .......................................................................................... 21 Figura 12Lagoa do Brejo. ............................................................................................. 21 Figura 13Locais de amostragem na área de estudo, constituídos por 7 lagoas (a azul) e 2 linhas de água (a verde)........................................................................................... 22 Figura 14Rede de encarte. .......................................................................................... 23 Figura 15Código numérico utilizado na marcação de cágados. ................................. 24 Figura 16Mapa de uso do solo, classificado em 10 categorias de resistência, conforme a correspondência indicada na tabela 1, em que (1) verde – escuro corresponde a reduzida resistência e (10) vermelho escuro corresponde a forte resistência. ...................................................................................................................... 29 Figura 17 - Mapa de declive, com diferentes categorias de resistência entre o verdeescuro (declive suave, (declive suave, resistência reduzida) e o vermelho escuro (declive acentuado, forte resistência). ........................................................................... 29 Figura 18Fenologia da metapopulação. ...................................................................... 32 Figura 19Frequência de adultos, juvenis e neonatos na amostra da população de E. orbicularis na área de estudo. ........................................................................................ 33 Figura 20Frequência total de capturas e recapturas por ponto de amostragem........ 34 Figura 21Frequência do peso (g) dos indivíduos adultos na amostra da população total, n=136. .................................................................................................................... 35 Figura 22Frequência do Comprimento da carapaça SCL (cm), apenas adultos na amostra da população total, n=136. ............................................................................... 36 Figura 23Frequência da idade (anos) para a amostra da população total. ................ 36 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 6 Figura 24Diagrama representativo das percentagens de adultos, juvenis e neonatos na lagoa das Batocas (1). .............................................................................................. 37 Figura 25Frequência do peso (g) na lagoa das Batocas (1). ...................................... 38 Figura 26Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa das Batocas (1). ................................................................................................................................... 38 Figura 27Frequência da idade (anos) na lagoa das Batocas (1). ............................... 39 Figura 28Diagrama representativo das percentagens de adultos juvenis e neonatos na lagoa das Batocas (2). .............................................................................................. 39 Figura 29Frequência do peso (g) na lagoa das Batocas (2). ...................................... 40 Figura 30Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa das Batocas (2). ................................................................................................................................... 40 Figura 31Frequência da idade (anos) na lagoa das Batocas (2). ............................... 41 Figura 32Frequência do peso (g) na lagoa do Limarinho. .......................................... 41 Figura 33Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa do Limarinho. ........................................................................................................................................ 42 Figura 34Diagrama representativo das percentagens de adultos, juvenis e neonatos na lagoa do Poço das Freita .......................................................................................... 43 Figura 35Frequência do peso (g) na lagoa do Poço das Freitas. ............................... 43 Figura 36Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa do Poço das Freitas. ............................................................................................................................ 44 Figura 37Frequência da idade (anos) na lagoa do Poço das Freitas. ........................ 44 Figura 38Frequência do peso (g) na lagoa do Calvão. ............................................... 45 Figura 39Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa do Calvão. 46 Figura 40Frequência da idade (anos) na lagoa do Calvão. ........................................ 46 Figura 41Frequência do peso (g) na lagoa do Brejo. .................................................. 47 Figura 42Frequência do comprimento da carapaça SCL (cm) na lagoa do Brejo. .... 47 Figura 43Frequência da idade (anos) na lagoa do Brejo. ........................................... 48 Figura 44Diagrama representativo das percentagens de adultos juvenis e neonatos na lagoa do Rio Terva. ................................................................................................... 48 Figura 45Frequência do peso (g) na lagoa do Rio Terva. .......................................... 49 Figura 46Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa do Rio Terva. ........................................................................................................................................ 49 Figura 47Frequência de idade (anos) na lagoa do Rio Terva..................................... 50 Figura 48Frequência do peso (g) na linha de água do Calvão. .................................. 50 Figura 49Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na linha de água do Calvão. ............................................................................................................................ 51 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 7 Figura 50Frequência da idade (anos), na linha de água do Calvão. .......................... 51 Figura 51Diagrama representativo das percentagens de adultos, juvenis e neonatos na linha de água de Ardãos. .......................................................................................... 52 Figura 52Frequência do peso (g) na linha de água de Ardãos. .................................. 53 Figura 53 - Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na linha de água de Ardãos............................................................................................................................. 53 Figura 54 - Frequência da idade (anos) na linha de água de Ardãos ........................... 54 Figura 55Mapa representativo das movimentações detetadas em 2014 entre pontos de amostragem para indivíduos capturados na área de estudo desde 2003. As setas representam as movimentações entre pares de lagoas e os valores o número de movimentações que chegam a cada lagoa e a sua proveniência. ............................... 56 Figura 56Mapa representativo das movimentações identificadas entre pares de lagoas para o período 2012/2014. Os valores junto às setas representam o número de animais que migram entre esses locais e a extremidade onde se encontra indica o local de chegada. ........................................................................................................... 57 Figura 57Matriz de resistência à movimentação para a espécie de estudo na área do PAVT, com um gradiente que varia entre o verde-escuro (menor resistência) até vermelho escuro (maior resistência). ............................................................................. 58 Figura 58Representação do corredor ecológico A, que liga as lagoas Batocas (1) e Rio Terva através da distância de menor custo ecológico. ........................................... 60 Figura 59Representação do corredor ecológico B, que liga a as lagoas das Batocas (1) e do Brejo através da distância de menor custo ecológico..................................... 60 Figura 60Representação do corredor ecológico C, que liga as lagoas Batocas (1) e Calvão através da distância de menor custo ecológico. ............................................... 60 Figura 61Representação do corredor ecológico D, que liga as lagoas Batocas (1) e Batocas (2) através da distância de menor custo ecológico. ........................................ 60 Figura 62Representação do corredor ecológico E, que liga as lagoas Poço das Freitas e Batocas (1) através da distância de menor custo ecológico. ......................... 61 Figura 63Representação do corredor ecológico F, que liga as lagoas Poço das Freitas e Rio Terva através da distância de menor custo ecológico. ............................ 61 Figura 64Representação do corredor ecológico G, que liga as lagoas do Poço das Freitas e Calvão através da distância de menor custo ecológico. ................................ 61 Figura 65Representação do corredor ecológico H, que liga as lagoas Rio Terva e Batocas (2) através da distância de menor custo ecológico. ........................................ 61 Figura 66Representação do corredor ecológico I, que liga as lagoas Rio Terva e Calvão através da distância de menor custo ecológico. ............................................... 62 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 8 Figura 67Representação dos corredores ecológicos e dos pontos de amostragem sobre o modelo digital do terreno (elevação) e a rede hidrográfica da área de estudo. ........................................................................................................................................ 63 Índice de Tabelas Tabela 1Grau de resistência por tipo de uso do solo definido por CORINE (Land Cover) (Ray et al., 2002; Pereira et al., 2011). .............................................................. 28 Tabela 2Historial de capturas de E. orbicularis, (niNúmero de indivíduos capturados na sessão i; miNúmero de indivíduos recapturados na sessão i; MiTotal de indivíduos marcados até a sessão i). ............................................................................. 31 Tabela 3Sumário das estatísticas relativas ao comprimento da carapaça, peso (g) e SCL (cm) para a amostra de animais adultos capturados, n=136. ............................... 35 Tabela 4Localização de indivíduos capturados em linhas de água previamente marcados. ....................................................................................................................... 55 Tabela 5Número de capturas sem deslocação desde 2012 por lagoa. ..................... 55 Tabela 6 - Tabela resumo para os 9 pares de lagoas com movimentação comprovada e respectivos corredores ecológicos. ............................................................................. 59 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 9 1.Introdução 1.1 Carateristicas gerais de Emys orbicularis E. orbicularis (Linnaeus, 1758) é uma de duas espécies de tartarugas de água doce autóctones em Portugal (Figura1). Réptil pertencente à família Emydidae, esta espécie, comummente conhecida como Cágado-decarapaça-estriada, tem uma longevidade de aproximadamente 30 anos no meio natural (Araújo et al., 1997). Morfologia A espécie E. orbicularis apresenta um conjunto de 14 subespécies (Rogner,2009) com diferentes padrões morfológicos e de coloração, cuja origem está relacionada com os períodos glaciares, que provocaram o isolamento entre populações e a formação de diferentes linhagens evolutivas. Geralmente o comprimento máximo da carapaça (SCL) desta espécie é de 230mm e o peso raramente ultrapassa os 1200g. Na região mediterrânica, como é o caso de Portugal, os indivíduos são por norma de menores dimensões, não ultrapassando os 160mm e 700g (Rogner, 2009). Coloração e padrões variam consideravelmente com a idade. No estado adulto E. orbicularis tem uma coloração escura (preto, castanho, cinzento) com pontos e listas amarelas que lhes atribuem um padrão particular (Ferrand et al., 2001). A carapaça é oval, sem quilha dorsal bem definida, a face amarela e com marcas escuras irregulares, corpo escuro com pontos amarelos essencialmente no pescoço (Ferrand et al., 2001). Não possuem escama inguinal, contrariamente a Mauremys leprosa, única espécie de tartaruga de água doce nativa em Portugal para além de E. orbicularis (Ferrand et al., 2001). Figura 1Exemplar adulto de Emys orbicularis, cágado-decarapaça-estriada. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 16 1.4 Objetivos Tendo em conta o que foi previamente apresentado, o presente estudo da população de E. orbicularis que ocorre num conjunto de lagoas dentro da área do PAVT (Parque Arqueológico do vale do Terva – Boticas, Norte de Portugal) teve os seguintes objetivos:  Analisar a estrutura e a dinâmica da populacional de E. orbicularis na área de estudo.  Estimar o efetivo populacional de E. orbicularis no total de todas as lagoas pertencentes ao PAVT.  Identificar possíveis padrões de movimentação dos animais entre lagoas.  Calcular as distâncias de menor custo que ligam as lagoas e utilizar estas redes e padrões de movimento para identificar possíveis corredores ecológicos. A relevância destes aspetos é reforçada pela ausência de estudos intensivos sobre esta espécie em Portugal e em particular nas populações isoladas do Norte do país, bem como pela necessidade de proteger e conservar estas populações e o seu habitat. O conhecimento sobre a situação actual e conetividade entre estas lagoas e as suas caraterísticas poderão apoiar a tomada de decisão e contribuir, por consequência, para a conservação do cágado-de-carapaça-estriada na área de estudo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 17 2.Metodologia 2.1 Área de estudo O Parque Arqueológico do Vale do Terva-PAVT situado no Município de Boticas, distrito de Vila Real (Figura 4) é uma região já referenciada com a presença da espécie E. orbicularis (Loureiro et al., 2010; Magalhães, 2012). O PAVT tem uma área de 56 Km2 e é composto pelas freguesias de Ardãos, Nogueira, Bobadela, Sapelos e Sapiãos. Esta área foi criada em 2013 com o intuito de promover a valorização e conservação dos valores Arqueológicos Naturais e Sociais da região (Fontes & Alves, 2014). O conjunto de 7 lagoas em estudo, com área total de aproximadamente 4,2ha (Figura 5), encontra-se dentro desta área. Esta área está integrada numa paisagem rural, com reduzida pressão humana, onde apenas pequenas aldeias pouco urbanizadas e com baixo número de habitantes estão encaixadas num mosaico de áreas florestais, agrícolas e de pastoreio, intercalado por uma densa rede hidrográfica. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 18 Figura 4Localização da área de estudo, PAVT-Parque Arqueológico do Vale do Terva. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 19 Figura 5Localização das lagoas e da rede hidrográfica na da área de estudo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 20 Todas as lagoas são providas de uma boa exposição solar e diversidade de espécies quer de fauna quer flora típicas de zonas húmidas. As lagoas Batocas (1) e Batocas (2) (Figura 6 e Figura 7) são áreas de turfeira, com vegetação abundante, que secam no pico do Verão. A lagoa do Poço das Freitas (Figura 8) apresenta água de forma permanente, reduzida vegetação de margem e aquática e elevada exposição solar. A lagoa do Limarinho (Figura 9), com as mesmas caraterísticas que o Poço das Freitas no que respeita à vegetação e exposição solar, é no entanto uma lagoa temporária que depende unicamente da água das chuvas, o que em anos secos significa a completa ausência de água. A lagoa do Calvão (Figura 10) e do Terva (Figura11), ladeadas por linhas de água, a ribeira do Calvão e o Rio Terva respetivamente, possuem abundante vegetação flutuante e de margem. A lagoa do calvão contém pequenas ilhas que aumentam a área de exposição solar para os cágados. A Lagoa do Brejo (Figura12), com abundante vegetação na margem e flutuante, seca no pico do Verão. À exceção da Lagoa do Brejo, as restantes encontram-se a uma considerável distância de zonas habitacionais, todas aparentam um bom estado de conservação, associadas a áreas florestais ou terrenos agrícolas, com produção geralmente de forragem. Entre este grupo de lagoas foi já demonstrado o movimento de indivíduos da espécie de estudo, uma vez que foram capturados indivíduos numa lagoa previamente marcados em outras (Magalhães, 2012), o que comprova existir nesta área uma única metapopulação. Figura 7Lagoa das Batocas (2). Figura 6Lagoa das Batocas (1). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 21 Figura 9Lagoa Limarinho. Figura 8Lagoa do Poço das Freitas. Figura 11Lagoa Rio Terva. Figura 10Lagoa do Calvão. Figura 12Lagoa do Brejo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 22 2.2 Recolha de dados Técnicas captura-recaptura Utilizaram-se técnicas de armadilhagem com capturarecaptura. As 7 lagoas dentro do PAVT foram sujeitas a 23 sessões de amostragem com pontos permanentes entre 9 de Abril a 12 de Setembro de 2014, período de atividade da espécie. Durante este período, foram também armadilhados diferentes pontos em linhas de água (Figura13). Figura 13Locais de amostragem na área de estudo, constituídos por 7 lagoas (a azul) e 2 linhas de água (a verde). L. a. Calvão L .a Ardãos FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 23 Ao contrário das lagoas, nas linhas de água não foram feitas sessões de armadilhagem permanentes, uma vez que estas foram secando ao longo do período de amostragem. O intuito destas armadilhagens foi verificar a existência de indivíduos a movimentarem-se através das linhas de água. Esta amostragem, no que refere as lagoas, é a continuação do trabalho efetuado durante os anos de 2012 e 2013, (Magalhães, 2012). Foram utilizados dois tipos de armadilhas durante os anos 2012 e 2013, redes de encarte e nassas. No entanto, visto não ter sido possível montar ambos os tipos de armadilhas em todas as lagoas, devido à estrutura das mesmas e as diferenças na capacidade de captura de cada tipo de armadilha, (Kotenko, 2000), optou-se, no ano de 2014, por utilizar apenas um tipo de armadilha, redes de encarte (Figura 14), garantindo assim um igual esforço de amostragem em todos os pontos, com apenas uma armadilha por lagoa. Redes de encarte: Armadilhas de pequenas dimensões, constituídas por arame em elipse revestido por rede que lhe confere uma forma cilíndrica. Com duas aberturas, uma por extremidade, em forma de funil que permite a entrada e dificulta a saída dos indivíduos. É colocada uma garrafa plástica vazia como é visível na figura 14 que permite que a rede flutue, impedindo assim que os animais morram pela impossibilidade de respirar. O isco é colocado num bolso que se encontra a meio da estrutura. O isco utilizado foi preferencialmente sardinha. Medidas e marcação: Aquando da captura dos exemplares, os indivíduos foram medidos, pesados, identificado o sexo e foi feita a sua marcação com um código individual para posterior reconhecimento. Os dados registrados foram o SCL (comprimento longitudinal da carapaça), o peso e a idade. Estes valores permitem avaliar a condição física dos indivíFigura 14Rede de encarte. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 24 duos. O sexo foi determinado com base em caracteres sexuais secundários, como a forma do plastrão e posição da cloaca. Foi também verificada nas fêmeas adultas a existência de ovos através da palpação na região inguinal, com o intuito de perceber se a espécie se está a reproduzir. A idade foi calculada através da contagem dos anéis de crescimento das escamas do plastrão. A marcação dos indivíduos foi realizada com o auxílio de uma serra com a qual se efetuaram pequenos cortes nas placas marginais da carapaça, seguindo um código numérico pré-estabelecido. Este tipo de marcação é permanente, permitindo identificar o indivíduo em posteriores capturas, tendo a vantagem de não interferir na atividade normal do animal. No entanto animais com idade inferior a 4 anos não foram marcados, uma vez que a sua carapaça é ainda mole e os referidos cortes podem provocar sangramento. Em cada recaptura apenas se anotou o código do animal e verificou se houve alteração de algum dos parâmetros referidos anteriormente. O código atribuído segue o esquema representado da figura 15, sendo que as escamas marginais inferiores esquerdas correspondem às unidades, as direitas às dezenas, as superiores esquerdas às centenas e as direitas aos milhares. Após marcação e medição, os animais capturados foram libertados. Figura 15Código numérico utilizado na marcação de cágados. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 25 Os dados obtidos acima foram alvo de tratamento estatístico, utilizando o programa SPSS Statistic 20 e o Excel. Construíram-se gráficos representativos da distribuição dos indivíduos quanto ao sexo, idade, comprimento da carapaça e massa corporal. Efectuaram-se testes de significância para avaliar as relações entre as variáveis, como o teste t de Student, análise de variância univariada e correlação de Pearson. Todos estes dados foram analisados sobre diferentes perspetivas: para cada uma das lagoas de forma isolada, para a população total e comparados com dados de outras populações estudadas. 2.3 Estimativa do efectivo populacional Para calcular o índice populacional existem duas abordagens diferentes, dependendo se se considera a população como aberta (com entrada e saída de indivíduos por mortalidade, recrutamento ou movimentos individuais) ou fechada (sem entrada e saída de indivíduos). Neste caso assumimos que temos uma população fechada. Embora na realidade a maioria das populações naturais esteja sujeita a entradas e saídas de indivíduos, quando nos referimos a estudos num curto período de tempo podemos desprezar o efeito dessas alterações e assim calcular o índice de forma mais simples, visto que não seria possível, nesta situação, obter os dados necessários para quantificar essas alterações e calcular os parâmetros exigidos pelos índices das populações abertas (e.g. taxa de mortalidade, migração, taxa de natalidade, etc). Uma vez que, como referido anteriormente, existem fortes indícios que o conjunto dos indivíduos encontrados nas lagoas formam uma única metapopulação, não realizamos uma estimativa do efetivo populacional para cada lagoa de forma isolada, mas sim para o conjunto de todas as lagoas em estudo nesta região. Para calcular o efetivo populacional utilizou-se o Índice de Chapman-Schnabel (ver fórmula abaixo), tendo-se em conta as 23 sessões de amostragem (S). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 32 3.2 Fenologia da metapopulação O gráfico da figura 18 representa o número de capturas de fêmeas e machos adultos, juvenis e neonatos ao longo do período de amostragem. É visível que os machos apresentam um pico de atividade mais cedo, entre Abril e Junho, enquanto as fêmeas apresentam o seu pico de atividade apenas em Julho. A captura de neonatos ocorreu essencialmente entre Abril e Maio e os juvenis apresentaram uma atividade mais ou menos regular ao longo de todo o período. 3.3 Estrutura da metapopulação Foram recolhidos 284 indivíduos, das quais 194 (68%) corresponderam a capturas e 90 (32%) a recapturas. Entre as 194 capturas, 136 (70%) foram adultos, dos quais 94 machos e 42 fêmeas, 53 (27%) juvenis e 5 (3%) neonatos (Figura 19). Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro 0 10 20 30 40 50 60 Mês Frequência Machos Fêmeas Juvenis Neonatos Figura 18Fenologia da metapopulação. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 33 O sex-ratio é de 2,2:1 (macho: fêmea) e verificou-se que existe uma diferença significativa entre o número de machos e fêmeas, uma vez que o valor de (teste de qui-quadrado, p<0,0001). Podemos observar a partir do gráfico da figura 20 a variação quanto ao número de capturas e recapturas nos diferentes pontos de amostragem. As lagoas do Limarinho, P. Freitas, Calvão e Brejo apresentam número de capturas bastante reduzidas enquanto as lagoas das Batocas se destacam das restantes pelo elevado número de capturas. É ainda importante chamar a atenção para as Linhas de água de Ardãos e Calvão. Comparativamente, os pontos de amostragem onde se registaram maior incidência de recapturas foram as lagoas das Batocas (2) e Poço das Freitas, seguidas pela lagoa das batocas (1). De salientar a proximidade na frequência de capturas e recapturas para as lagoas Limarinho, Poço das Freitas e Brejo que apesar da proximidade apresentam maior número de recapturas. Figura 19Frequência de adultos, juvenis e neonatos na amostra da população de E. orbicularis na área de estudo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 34 Figura 20Frequência total de capturas e recapturas por ponto de amostragem. Na tabela 3 podemos observar os valores médios (e respetivos desvios padrão), máximos e mínimos referentes às variáveis de peso e tamanho do total de indivíduos adultos capturados, machos e fêmeas da metapopulação do PAVT. Entre as variáveis SCL, peso e idade existe uma correlação significativa (Correlação de Pearson, p >0,01) quer para a população total quer dentro de cada lagoa. É também importante referir que não se verifica uma diferença significativa entre os sexos no respeita ao peso (p=0,124), tamanho (SCL) (p=0,237) e idade (p=0,154). A diferença de casos válidos (n da amostra) para a variável idade está relacionada com a impossibilidade de interpretar a idade do indivíduo em alguns casos, uma vez que o plastrão se encontrava por vezes demasiado desgastado. 0 10 20 30 40 50 60 Pontos de amostragem Frequência capturas recapturas FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 35 Tabela 3Sumário das estatísticas relativas ao comprimento da carapaça, peso (g) e SCL (cm) para a amostra de animais adultos capturados, n=136. Peso SCL População Machos Fêmeas População Machos Fêmeas Média 373,28 360,32 402,28 12,76 12,76 12,74 Desvio Padrão 157,98 162,3 202,4 2 2,04 1,92 Mínimo 94,1 94,1 184 10 10 10,4 Máximo 878,4 715,6 878,4 16,5 16,5 16,5 O gráfico da figura 21 representa a variação do peso dos indivíduos adultos (machos e fêmeas) capturados, bem como a sua frequência. Nota-se uma tendência para machos terem predominância de pesos mais baixos, entre 150 e 300g, enquanto os pesos mais elevados (acima dos 750g) são atingidos pelas fêmeas. 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 Peso (g) Frequência machos fêmeas N=136 Figura 21Frequência do peso (g) dos indivíduos adultos na amostra da população total, n=136. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 36 Relativamente ao comprimento da carapaça (SCL), observamos uma distribuição mais uniforme dos diferentes tamanhos em ambos os sexos (Figura 22). Figura 22Frequência do Comprimento da carapaça SCL (cm), apenas adultos na amostra da população total, n=136. 10 11 12 13 14 15 16 0 5 10 15 20 25 SCL (cm) Frequência machos fêmeas Figura 23Frequência da idade (anos) para a amostra da população total. N=136 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 37 A idade de E. orbicularis na metapopulação, incluindo também os juvenis, apresenta o seu máximo para 28 anos com apenas um registo (Figura 23). A frequência máxima, com 28 indivíduos, é registrada aos 21 anos. A maioria dos registos situou-se em idades inferiores a 20 anos. Acima dos 21 anos a frequência de animais encontrados foi muito reduzida. Lagoa Batocas (1) A lagoa das Batocas (1), com um total de 45 capturas, apresenta um elevado número de juvenis, que correspondem a cerca de metade (53%) dos indivíduos capturados neste local (Figura 24). Os machos representam 25% das capturas, enquanto as fêmeas apenas 13%. O menor número de captura correspondeu aos neonatos com 9%. Figura 24Diagrama representativo das percentagens de adultos, juvenis e neonatos na lagoa das Batocas (1). A partir do gráfico da figura 25 podemos verificar uma elevada frequência de indivíduos com peso inferior a 100g nesta lagoa devido ao elevado número de juvenis capturados. Não se detectaram registos entre os 450g e as 600g, obtendo-se apenas um registo acima desse valor, com 609g. Quanto ao tamanho da carapaça, verifica-se uma distribuição bimodal, sendo a classe de comprimento mais representada nesta lagoa (figura 26) de apenas 6,0 a 7,0 cm. A distribuição dos indivíduos por idade na lagoa das Batocas (1) possui representatividade ao longo de todas as classes de FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 38 idade, embora apresente maior frequência no intervalo entre os 3 e os 4 anos, com 13 indivíduos (Figura 27). SCL (cm) Figura 25Frequência do peso (g) na lagoa das Batocas (1). Figura 26Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa das Batocas (1). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 39 Lagoa Batocas (2) Foi possível capturar 56 indivíduos na lagoa das Batocas (2), dos quais 43 são adultos, 31 (54%) machos e 12 (21,5%) fêmeas, 12 (21,5%) juvenis e apenas 1 (2%) neonato (Figura 28). Figura 27Frequência da idade (anos) na lagoa das Batocas (1). Figura 28Diagrama representativo das percentagens de adultos juvenis e neonatos na lagoa das Batocas (2). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 40 Nesta população o peso apresenta uma tendência decrescente de frequência à medida que o peso aumenta com a exceção do intervalo de 200 a 300g (Figura 29). O comprimento da carapaça apresenta uma distribuição unimodal, com a frequência máxima no intervalo de 10 a 12 cm (Figura 30). No gráfico da idade (Figura 31) podemos observar a frequência máxima no intervalo dos 20 a 22 anos. A diferença no valor da amostra (N=48) para a variável idade em relação às capturas totais (N=56) deveu-se ao estado de desgaste do plastrão de alguns indivíduos e à dificuldade em contar os respectivos anéis de crescimento das escamas. SCL (cm) Figura 29Frequência do peso (g) na lagoa das Batocas (2). Figura 30 - Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa das Batocas (2). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 41 Lagoa do Limarinho A lagoa do Limarinho apresentou apenas 6 capturas, 3 machos e 3 fêmeas. Não se observaram juvenis nem neonatos. Apenas foi possível obter o registo de idade para dois indivíduos de 6 e 21 anos, uma vez que os restantes apresentavam o plastrão demasiado desgastado para que fosse possível estimar a idade. Figura 32Frequência do peso (g) na lagoa do Limarinho. Figura 31Frequência da idade (anos) na lagoa das Batocas (2). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 48 Lagoa do Rio Terva Na lagoa do rio Terva foram efetuadas um total de 32 capturas: 14 (44%) machos, 8 (25%) fêmeas, 10 (31%) juvenis e sem presença confirmada de neonatos (Figura 44). Figura 44Diagrama representativo das percentagens de adultos juvenis e neonatos na lagoa do Rio Terva. Figura 43Frequência da idade (anos) na lagoa do Brejo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 49 Podemos verificar que a distribuição do SCL apresenta uma distribuição bimodal com um pico entre os 8 e 10 cm e outro entre os 13 16cm (Figura 46). Em concordância, a idade tem 2 intervalos de maior frequência, entre os 5 e os 9 anos e o segundo entre os 21 e 23 anos (Figura 47). SCL (cm) Figura 46 - Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na lagoa do Rio Terva. Figura 45Frequência do peso (g) na lagoa do Rio Terva. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 50 Linha de água do Calvão Na linha de água da ribeira do Calvão foram capturados 7 indivíduos, 3 machos, 2 fêmeas e 2 juvenis. Relativamente à variável peso podemos verificar que se divide em 2 intervalos, de 0 a 200g e 600g a 800g (Figura 48). De igual forma, o comprimento de carapaça e a idade apresentam também uma distribuição bimodal (Figuras 49 e 50). Figura 47Frequência de idade (anos) na lagoa do Rio Terva. Figura 48Frequência do peso (g) na linha de água do Calvão. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 51 SCL (cm) SCL (cm) Figura 49Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na linha de água do Calvão. Figura 50Frequência da idade (anos), na linha de água do Calvão. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 52 Linha água ardãos Na linha de água próxima das lagoas das Batocas, foram capturados 14 indivíduos, 11 machos (79%), 1 fêmea (7%) e 2 juvenis (14%) (Figura 51). A maior parte dos indivíduos apresenta peso abaixo dos 400g (Figura 52) e o comprimento da carapaça (SCL) tem frequências muito próximas com a exceção do intervalo de 10cm a 12cm (Figura 53). A maioria dos indivíduos apresentou idade acima dos 10 anos (Figura 54). Figura 51Diagrama representativo das percentagens de adultos, juvenis e neonatos na linha de água de Ardãos. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 53 SCL (cm) Figura 52Frequência do peso (g) na linha de água de Ardãos. Figura 53 - Frequência do comprimento da carapaça, SCL (cm) na linha de água de Ardãos. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 54 3.3 Movimentações na metapopulação Durante 2014, foram recapturados 31 indivíduos que efectuaram movimentações entre os diferentes pontos de amostragem (representados a vermelho na tabela 1 do Anexo 1) com padrões de movimentação representados na figura 55. Se analisarmos em conjunto os dados de 2012 até 2014, do total de 114 indivíduos recapturados, verificou-se a movimentação de 46 indivíduos entre os diferentes pontos de amostragem, o que corresponde a 40% das recapturas. Estes animais realizaram um total de 58 deslocações, visto que alguns deles se deslocaram entre mais do que um local (ver tabela 1 do Anexo1). Os padrões de movimentação observados estão representados no mapa da figura 56. Os pontos de amostragem entre os quais se registaram maiores movimentações foram: Batocas (1) - Batocas (2), com 22 deslocações; Rio Terva - Poço das Freitas, com 10 deslocações; Batocas (1) - Rio Terva, com 6 deslocações e lagoa do Calvão - lagoa do Rio Terva, com 5 deslocações. Detetamos também que, entre os 21 indivíduos capturados nos pontos de amostragem em linhas de água, 4 foram previamente marcados nas lagoas de estudo, como podemos observar na tabela 4. O número de animais recapturados em cada lagoa para os quais não se detetaram movimentos está representada na tabela 5. Figura 54 - Frequência da idade (anos) na linha de água de Ardãos FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 55 Tabela 4Localização de indivíduos capturados em linhas de água previamente marcados. Nº ind. Lagoa de origem Ponto em linhas de água 10 Lagoa do Rio Terva L. água de Ardãos 75 Batocas (1) L. água de Ardãos 311 Batocas (1) L. água de Ardãos 348 Batocas (1) L. água de Ardãos Tabela 5Número de capturas sem deslocação desde 2012 por lagoa. Lagoa nº capturas s/ deslocação Batocas(1) 26 Batocas(2) 0 Limarinho 5 Poço das Freitas 14 Lagoa do Calvão 1 Brejo 5 Lagoa Rio Terva 14 Total 68 FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 56 2 1 3 19 3 1 1 3 Batocas (1) Batocas (2) L.a.Ardãos P.das Freitas 3 Terva Brejo 19 1 2 1 3 3 1 1 3 2 Figura 55Mapa representativo das movimentações detetadas em 2014 entre pontos de amostragem para indivíduos capturados na área de estudo desde 2003. As setas representam as movimentações entre pares de lagoas e os valores o número de movimentações que chegam a cada lagoa e a sua proveniência. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 57 Batocas (1) Batocas (2) L.a.Ardãos P.das Freitas Calvão 3 Terva Brejo 20 2 2 1 3 4 2 1 6 1 5 2 1 3 Figura 56 – Mapa representativo das movimentações identificadas entre pares de lagoas para o período 2012/2014. Os valores junto às setas representam o número de animais que migram entre esses locais e a extremidade onde se encontra indica o local de chegada. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 64 4. Discussão 4.1 Efetivo populacional Durante este trabalho foram recolhidos 284 indivíduos, das quais 194 corresponderam a capturas e 90 a recapturas. O valor de efetivo populacional obtido através do Índice Chapman-Schnabel durante o período de estudo foi N=317±33. Comparativamente, os resultados de 2012 e 2013 foram N=183±47 e N= 208±55 respectivamente. Apesar das variações verificadas entre os três anos, que podem estar relacionadas com as diferentes condições climatéricas ou diferenças no esforço de amostragem, comprova-se a existência de um efectivo populacional muito significativo e estável, onde não se verifica a tendência de declínio, presente em outras populações. É o caso de 3 lagoas na Ria Formosa, que foram alvo de estudo ao abrigo do projecto Life + Trachemys, onde segundo o mesmo índice os efetivos obtidos para a Lagoa das Dunas Douradas N= 25±14; a Lagoa do Garrão N= 16±4 e para a Lagoa de S. Lourenço N=22±12. Tendo em conta a área de cada lagoa, chegamos a uma densidade de 14,5ind/ha, 29,6ind/ha e 3,6ind/ha (Moreira.,2011), bem abaixo da densidade obtida em 2014 para Boticas de 74,6 ind/ha. No caso do sistema de lagoas da Longueira foi calculado em 2013 um efectivo populacional N=135,2±54,8 (Costa, 2014), que corresponde a valores igualmente inferiores mas mais próximos dos resultados obtidos para a metapopulação de Boticas. O bom estado de conservação desta meta população esta muito possivelmente relacionado com a sua localização, a reduzida pressão humana, e a ausência de tartarugas exóticas. É importante ter em conta que algumas lagoas, como por exemplo as Lagoas do Limarinho e do Brejo, apresentam um número de capturas reduzido e uma proporção de recapturas acima dos 50%, indicando provavelmente efetivos populacionais individuais muito baixos. Contudo, os cálculos de efetivos populacionais de cada lagoa não foram realizados, uma vez que se comprovou tratar de uma metapopulação com movimentação frequente entre lagoas. 4.2 Fenologia da metapopulação FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 65 Os resultados da distribuição de indivíduos por meses, durante o período de actividade da espécie mostraram um maior número de machos no início do período de amostragem, que está de acordo com a procura por fêmeas para a reprodução. Este padrão muda no mês de Julho e Agosto, onde o número de fêmeas aumenta e a frequência de machos diminui de forma acentuada, esta situação verifica-se devido ao aumento de atividade das fêmeas, e diminuição da atividade dos machos uma vez terminada o período de acasalamento. Durante o mês de Setembro foram essencialmente capturados juvenis, no entanto todos os grupos apresentam baixas frequências, que estará associada a crescente ausência de água que se verificou desde meados de Agosto, onde 4 das sete lagoas se encontravam sem água. As capturas de juvenis mantêm-se semelhantes ao longo dos meses de amostragem, demonstrando maior estabilidade na sua atividade durante o período de amostragem. 4.3 Estrutura da metapopulação Os resultados obtidos mostram uma população com uma estrutura relativamente equilibrada, com valores dentro do esperado. Do total de 194 indivíduos capturados em 2014, 70% foram adultos, 27% juvenis e 3% neonatos. Estes resultados demonstram a existência de uma população essencialmente adulta, mas é possível que a taxa obtida não represente as proporções reais. Os juvenis de E. orbicularis estão normalmente associados a habitats de caráter temporário com uma elevada percentagem de vegetação aquática e de pouca profundidade (Ficetola et al.,2004), o que pode explicar em parte a baixa taxa de juvenis capturados. Por outro lado, os valores de 2012 e 2013 na mesma área de estudo apresentam variações na estrutura da metapopulação. No ano de 2012 as capturas foram compostas por 9% juvenis e 91% adultos e no ano de 2013 os juvenis representaram 40% das capturas e os adultos 60%. No entanto, a diferença no tipo e número de armadilhas utilizadas entre anos pode ser um factor importante para explicar esta diferença, já que diferentes armadilhas têm capacidades de captura diferentes. No Paul da Tornada as capturas registadas foram tão reduzidas para E. orbicularis que não foi possível efectuar um estudo da estrutura da população (Capinha et al., 2007). Resultados de estudos na Ria Formosa e região envolvente, em três lagoas, apresentaram capturas de juvenis apenas na Lagoa de S. Lourenço com 10,5%, encontrando-se contudo neste caso as populações de E. orbicularis em sintopia com Mauremys leprosa e com FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 66 a espécie invasora Trachemys scripta (Moreira, 2011). Com efeito, existem alguns indícios de que a presença de M. leprosa poderá afetar alguns parâmetros populacionais de E. orbicularis (Segurado & Araújo, 2008), sendo esse impacto possivelmente agravado no caso da presença de T. scripta (Cadi et al., 2004; Cadi & Joly, 2004). Trabalhos desenvolvidos numa série de Lagoas na Longueira, situadas no planalto costeiro do Sudoeste Alentejano, apresentaram 30,2% de juvenis (Filipe Serrano, dados não publicados). Alguns dados comparativos com populações de outros países (que em alguns casos correspondem a diferentes subespécies) mostram percentagens de juvenis na ordem dos 20 e 30% para o Parque Nacional de Doñana (Keller, 1997; Keller et al., 1998), 46% em Rhone-Alpes (Cadi et al., 2004), 11% em 11% (Sancho, 2007), 44% no Lake Yayle na Turquia (Ayas et al.,2008) e 55% numa outra população turca Auer & Taşkavak (2004). De forma geral os resultados em Portugal apresentam um baixo número de juvenis capturados (Araújo et al.,1997), encontrando-se o caso da área do PAVT em Boticas numa situação acima da média. No entanto importa realçar que não foram encontrados juvenis nem neonatos em três lagoas – Brejo, Limarinho e Calvão – e apenas um juvenil na lagoa do Brejo, o que pode indicar a ausência ou problemas de reprodução nestes locais. O sex ratio ao longo dos 3 anos apresenta também alguma variação; 1,5:1 (machos: fêmeas) em 2012; 2:1,3 (machos: fêmeas) em 2013 e 2,2:1 (machos: fêmeas) em 2014. Apesar das pequenas variações verifica-se mais uma vez uma certa consistência entre anos, com um predomínio de machos. Esta diferença entre machos e fêmeas pode ser explicada em parte pela armadilhagem que favorece a captura de machos, uma vez que estes são mais activos (Auer & Taşkavak, 2004). Por outro lado, temos de ter em conta a diferença no que respeita à taxa de sobrevivência, que se verifica ser menor nas fêmeas, já que estas necessitam de efectuar deslocações em terra para encontrar locais adequados de postura, ficando assim sujeitas a uma maior predação (Lebboroni & Chelazzi, 1998). A metapopulação das lagoas da Longueira apresenta um sex ratio de 1,2:1 (machos: fêmeas) (Serrano, 2014). Quando analisamos a situação noutras populações europeias os resultados apresentam grandes variações: 1,3:1 (machos: fêmeas) na Turquia (Ayas et al., 2008), 1,8:1 no Parque Nacional de Doñana em Espanha (Keller et al., 1998), 1,2: 2 (machos: fêmeas) em Itália (Mazzatti et al., 2007), contrariando neste caso específico a tendência geral do maior número de machos em relação a fêmeas verificada igualmente na população em estudo. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 67 Os histogramas, bem como as médias e os desvios padrão para as variáveis peso, tamanho (SCL) e idade na metapopulação são um indicador do estado da mesma. A metapopulação no PAVT registrou valores de peso de 360,32±162,3 para machos e 402,28±202,4 para fêmeas e SCL de 12,76±2,04 para machos e 12,74±1,92 para as fêmeas, não se detetando para ambas as variáveis variação significativa entre machos e fêmeas. Comparando com dados de outras populações podemos observar algumas variações. No Algarve, num trabalho na Ria Formosa foram recolhidos valores de SCL de 13,99 ± 0,57 para machos e 14,16 ± 0,81 para fêmeas, enquanto para o peso registaram-se valores de 475,13 ± 49,46 para machos e 539,01 ± 94,57 para fêmeas (Moreira, 2011). As médias mais elevadas (com desvios padrão reduzidos) quando comparados com a metapopulação do PAVT podem ser explicadas por diferenças morfológicas inerentes à localização geográfica das populações ou por diferenças no estado de condição física destas populações. Mais uma vez, quando se compara estes dados com outras populações europeias verifica-se uma grande variação. Sancho (2007) registou um SCL 11,4±1,18 e peso 237,08±67,87 para machos e SCL 12,35±1,75 e peso 335,35±129,91 para fêmeas. Outros exemplos são um estudo na Turquia que registou valores de SCL de 12,49±0.28 para machos e 14,05±0.40 para fêmeas (Ayas et al.,2008), uma população na Polónia que registou um SCL 18,27 ±0,80 para fêmeas e SCL 17,18 ±0,87 para machos (Mitrus & Zemanek., 2000). De forma geral, em todas as populações é possível observar diferenças notórias entre machos e fêmeas para a variável SCL e peso, o que não se verifica na metapopulação do PAVT. Tal fato não era esperado e pode-se dever a uma subamostragem de fêmeas devido à selectividade parcial dos métodos de captura ou a um eventual défice de fêmeas de maiores dimensões. Estrutura por lagoa Analisando os resultados da estrutura de cada lagoa, observamos que as lagoas das Batocas (1) Batocas (2) e do Rio Terva, com 45, 56 e 32 capturas, respectivamente, são as que contribuem em maior número para o efetivo populacional que se regista nesta metapopulação. De igual modo, estas lagoas são as que registam o maior número de juvenis, com percentagens de 53% para Batocas (1), 21% Batocas (2) e 31 % para a lagoa do Rio Terva. Em seguida surgem as lagoas do Poço das Freitas, com 17 capturas e 12% de juvenis e a linha de água de Ardãos, com 14 captura e 14% de juvenis. A ausência ou reduzida frequência de juvenis nas restantes 4 lagoas reforça a importância das lagoas das Batocas e do Rio Terva, uma vez que FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 68 estas parecem assim funcionar como locais de reprodução mais importantes e “fontes” de recrutamento para esta metapopulação. As lagoas que apresentam menor captura de juvenis, demonstram também um maior número de registos no extremo máximo dos valores registados para as variáveis SCL peso e idade, provando assim, não só a ausência de juvenis, como uma acumulação de indivíduos adultos com elevadas dimensões e idade, o que corresponde a populações envelhecidas e com insuficiente recrutamento. Em oposição, as 3 lagoas com elevado número de capturas, apresentam uma distribuição de valores para as variáveis de tamanho, peso e idade que, para além de mais ampla, tem uma menor preponderância dos valores mais elevados. Nos dois pontos de amostragem em linhas de água foram capturados no total 21 indivíduos da espécie de estudo. Foi encontrado um predomínio de machos no conjunto destes locais (sex ratio de 4,7:1), o que pode indicar um maior número de machos a movimentarem-se entre lagoas. Este facto está de acordo com o esperado, uma vez que são os machos que mais beneficiam com esta movimentação (Cadi et al., 2004). A captura de 2 juvenis em cada um destes locais é também uma forte indicação da importância destes corredores para a dispersão dos juvenis. Se observamos os gráficos de distribuição dos tamanhos dos indivíduos capturados nos 2 pontos de amostragem em linhas de água verificamos em ambos os casos um pico próximo dos 10cm, que corresponde ao comprimento que marca a passagem ao estado adulto e pode indicar um uso destes corredores preferencialmente por adultos jovens. No entanto, como o número de capturas é reduzido não podemos tomar estes resultados como definitivos. 4.4 Movimentação entre lagoas Durante o período de trabalho foram capturados 31 indivíduos em pontos de amostragem diferentes aos da sua marcação, evidenciando a sua movimentação entre diferentes locais e a interconetividade desta metapopulação. Entre estes animais, 4 indivíduos marcados em diferentes lagoas da área de estudo foram recapturados em linhas de água, apontando para a possibilidade de a movimentação nesta meta população ser efectuada essencialmente através de linhas de água. Embora 3 destes 4 indivíduos, capturados na Linha de água de Ardãos, FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 69 sejam provenientes da lagoa das Batocas (1), situada próxima da referida linha de água, o outro individuo tem a sua origem de marcação na lagoa do Rio Terva, localizada no extremo sul da área. No conjunto destes 31 indivíduos foi possível registar 39 movimentos, o que indica que vários animais movimentaram-se entre mais do que dois locais ao longo do tempo. Embora o maior número de movimentações (51%) ocorra entre as lagoas das Batocas, que apresentam distância reduzida, foram também registrados 7 movimentos entre as lagoas das Batocas e a lagoa do Rio Terva, que se encontram a aproximadamente 5km de distância. De igual forma, detetaram-se números significativos de movimentos entre Batocas e Brejo e Poço das Freitas e Lagoa do Rio Terva. Estes movimentos a larga distância sugerem que a movimentação nesta área seja efectuada preferencialmente através de linhas de água, já que a distância de deslocação por terra que E. orbicularis é capaz de percorrer não ultrapassa por norma 1km (Mitrus, 2010). Estes dados contradizem a ideia de que esta espécie não se movimenta mais do que 1km, demonstrando não só a existência de movimentações a longa distância como também o meio preferencial para efetuar as mesmas. 4.5 Distância de menor custo/ corredores ecológicos Através dos mapas de matriz de resistência foi possível identificar as distâncias de menor custo para a ligação entre pares de lagoas entre as quais se comprovaram movimentos de animais, isto é dos corredores ecológicos que as conetam. Verifica-se uma elevada sobreposição entre os diferentes corredores, bem como uma quase total sobreposição destes com as áreas de menor elevação e as linhas de água principais. A única excepção de um corredor que não se sobrepõe com uma linha de água é o corredor B, que liga as lagoas de Batocas e do Brejo, provavelmente por a distância física através de linhas de água ser aproximadamente do dobro. No entanto, mesmo com essa agravante da distância, do ponto de vista ecológico parece plausível que seja mantida a comunicação preferencial através das linhas de água. A confirmação desta situação em concreto poderia ser efetuada através da marcação de um conjunto de indivíduos da lagoa do Brejo com emissores para o seu seguimento à distância (por telemetria ou satélite). FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 70 Com a exceção dos corredores D e G, os restantes possuem um comprimento superior a 1km, atingingo perto de 6km entre as lagoas das Batocas (1 e 2) e a lagoa do Rio Terva. Como referido anteriormente, tais distâncias só se afiguram possíveis de movimentos desta espécie através de linhas de água. Uma outra possibilidade é algumas das lagoas funcionarem como um sistema “stepping stone”, funcionando as lagoas do Limarinho, Poço das Freitas e Calvão, ou mesmo algumas linhas de água afluentes dos rios principais como pontos intermédios nos corredores ecológico definidos. 5. Considerações finais Os resultados obtidos neste trabalho permitiram avaliar o estado e estrutura da metapopulação de E. orbicularis no PAVT. A captura de 284 indivíduos, dos quais 194 corresponderam a capturas e 90 a recapturas, permitiram calcular o efetivo populacional em N=317±33. Apesar das variações observadas ao longo dos anos, provavelmente devidas a fatores climatéricos ou diferenças no esforço de captura, esta área apresenta um efetivo populacional muito notável e com sinais de estabilidade, fugindo à tendência de marcado declínio e extinção local das populações desta espécie a norte do rio Douro. Além disso, a percentagem de juvenis encontrados representou 27% das capturas, realçando uma taxa de recrutamento significativo. Contudo, a não deteção de juvenis nem neonatos em duas lagoas – calvão e Limarinho – e apenas um juvenil na lagoa do Brejo, indica problemas de reprodução nestes locais. Esta preocupante situação merece um estudo mais aprofundado e a identificação das suas eventuais causas. A metapopulação apresenta um sex ratio que se enquadra com o previsto para espécie. Um dado interessante é a ausência de diferenças significativas nos resultados de tamanho (SLC) e peso entre machos e fêmeas. Apesar deste facto poder dever-se a limitações na amostragem, merece maior investigação. Foi possível confirmar não só a movimentação de indivíduos entre um número elevado de zonas húmidas desta área, como a ocorrência de migrações a grandes distâncias em alguns casos superiores a 5km. Uma vez que a capacidade conhecida de deslocação por terra raramente ultrapassa 1km, estes dados mostram que as movimentações nesta FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 71 área são efetuadas preferencialmente através da densa rede hidrográfica, servindo o complexo de lagoas como “stepping stones”. Concluiu-se que as distâncias de menor custo se encontram nas regiões de menor declive, nas linhas de água ou terrenos adjacentes onde foram traçados os corredores ecológicos, que coincidem com os resultados de movimentação recolhidos nos pontos de amostragem incluindo as capturas em linhas de água. Torna-se assim evidente a necessidade imperativa de assegurar a conservação deste conjunto de lagoas no PAVT, que albergam uma população muito importante de E. orbicularis, incluindo de uma área circundante de 1000m, para garantir a preservação de locais de reprodução, bem como das linhas de água de forma a possibilitar a continuidade destes corredores essenciais para a conetividade da metapopulação. Dada a relevância que as lagoas das Batocas (1 e 2), do Rio Terva e do Poço das Freitas representam na continuidade e sucesso desta metapopulação seria essencial garantir um esforço especial na sua conservação. Estes resultados constituem assim uma ferramenta de apoio à gestão do Parque Arqueológico do Vale do Terva-PAVT, na conservação e manutenção desta importante população de E. orbicularis. FCUP Estrutura, dinâmica, padrões de movimentação e corredores ecológicos na metapopulação de Emys orbicularis na área do PAVT. 72 6. Referências Bibliográficas Alcayde, V. C. 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