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O conceito de cuidador analisado numa perspectiva autopoiética: do caos à autopoiése

Magda Oliveira,Cristina Queirós,Marina Guerra

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PSICOLOGIA, SAÚDE & DOENÇAS, 2007, 8 (2), 181-196 O CONCEITO DE CUIDADOR ANALISADO NUMA PERSPECTIVA AUTOPOIÉTICA: DO CAOS À AUTOPOIÉSE Magda A. Oliveira*1,2, Cristina Queirós2, & Marina Prista Guerra2 1Instituto Português de Oncologia, Porto 2Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade do Porto RESUMO: Partindo do acto de cuidar como algo intrinsecamente humano e crescente na sociedade actual, estuda-se a relação entre o cuidador e a pessoa alvo dos seus cuidados. Pretende-se que o conceito de “cuidador”, estudado já desde as décadas de 60/70, seja dissecado e posteriormente re-interpretado segundo a Teoria do Sujeito Auto-poiético de Cândido Agra (1990, 2001). Adopta-se uma perspectiva que contempla as dinâmicas geradas entre os doentes e os seus cuidadores (formais e informais), sugerindo diferentes posturas face à doença e suas manifestações, bem como um clima relacional gerado pelo produto da interacção concordante ou dissonante entre cuidador e doente. Verifica-se que mesmo em situações potencialmente desestruturantes é possível intervir de modo a que esta relação de inter-ajuda, dependência e compromisso estabelecida entre as duas pessoa s, seja autopoiética e biopsicossocialmente ajustada, conduzindo a um maior bem- -estar do cuidador e do doente alvo dos seus cuidados. Palavras chave : Autopoiése, Cuidador, Relação cuidador-doente. THE CAREGIVERS CONCEPT ANALYSED IN AN AUTOPOIETIC PERSPECTIVE: FROM THE CHAOS TO THE AUTOPOIESIS ABSTRACT: Having as starting point the act of care as something intrinsically human and growing in the present society, the relationship between the caregivers and those who are the target of the cares has been studied. We intend that the concept of ”caregiver”, studied since the sixties and seventies, be dissected and lately reinterpreted according to the “Autopoietic Subject Theory” of Cândido Agra (1990, 2001). For that purpose, it was adopted a perspective that contempl ates the dynamics generated between patients and caregivers (formals and in formals), suggesting different attitudes to face the disease and its manifestations, as well as different relational environments that emerge from the product of the concorda nt or dissonant’ caregiver-patient interactions. It was observed that even in situations that are potentially disruptive it was possible to intervene, so that caring, dependence and compromise relationships established between the two persons could be autopoietic and biopsychosocially adjusted, leading to a higher well-being of the caregiver and the patient. Key words: Autopoiesis, Caregiver, Caregiver-patient relationship. Recebido em 11 de Janeiro de 2007 / aceite em 18 de Setembro de 2007 Ao longo do tempo podemos constatar que a vida humana cada vez tem sido mais prolongada, não só em consequência dos progressos científicos e *Contactar para E-mail: [email protected] tecnológicos da Medicina, mas também das transformações socio-económicas que proporcionaram uma melhoria geral da qualidade de vida e do bem-estar das pessoas. Este fenómeno, conjuntamente com a diminuição da fecundidade, está na base do envelhecimento demográfico suscitado pelo aumento da longevidade, aumento esse que nem sempre é sinónimo de uma vida funcional, independente e sem problemas de saúde. Pelo contrário, o número de indivíduos com perda de autonomia, invalidez e dependência não pára de aumentar, devido à maior prevalência de doenças crónicas e incapacitantes (Santos, 2004). Cuidar é então por natureza um acto inerente à condição humana (Leite, 2006), uma vez que à medida que vamos ultrapassando as grandes etapas do ciclo vital vamos sendo alvo de cuidados ou prestadores dos mesmos. Este acto de prestação de cuidados é uma experiência única e singular (Aneshensel et al., 1995, citados por Leite, 2006), vivenciada de um modo personalizado e mais ou menos dificultado, dependendo ainda da interacção dinâmica entre um conjunto de variáveis (Leite, 2006), evidenciando-se entre estas as características pessoais do cuidador e da pessoa alvo dos seus cuidados. Neste contexto, torna-se cada vez mais necessário um apoio consistente e integrado a estes indivíduos, quer por parte dos profissionais de saúde, quer por parte dos seus familiares. Estes, são cada vez mais chamados e orientados para colaborar na continuidade da prestação dos cuidados, passando a realizar um conjunto de tarefas que até então tinham sido desempenhadas pelos profissionais dos serviços de saúde (Santos, 2004). Pelo que acabamos de referir, é fácil compreender a emergência e o progressivo interesse científico sobre os conceitos de cuidador, cuidador formal e cuidador informal. Tentando distinguir estes conceitos, a designação de cuidador informal surge por contraste à de cuidador formal. Entendemos como cuidador formal o profissional de saúde que assume formalmente o exercício de uma profissão, pela qual optou de livre vontade e para a qual teve preparação académica e profissional. Já o cuidador informal é concebido como o familiar ou amigo que é solicitado a assegurar a maior parte dos cuidados que o doente requer quando retorna ao seu contexto familiar (Anderson, Linto, & Stewart-Wynne, 1995; Elmtâhl, Malmberg, & Annerstedt, 1996, todos citados por Santos, 2004; Schulz & Quittner, 1998). Tomando como ponto de partida a distinção entre cuidador formal e cuidador informal, e no âmbito do Mestrado em Psicologia da Saúde organizado na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, decidimos aprofundar esta diferenciação do tipo de cuidador à luz da Epistemologia. Assim, num primeiro momento reflectimos sobre a análise do discurso sobre o cuidador, para em seguida verificarmos se a este conceito se pode aplicar a Teoria do Sujeito Autopoiético (Agra, 1990, 2001), tal como Guerra e Agra (1997), Manita et al. (1997) e Queirós (1997a) já o fizeram, embora no âmbito de outras temáticas. 182 M.A. OLIVEIRA, C. QUEIRÓS, & M.P. GUERRA DO CAOS À AUTOPOIÉSE 183 ANÁLISE DESCRITIVO-QUANTITATIVA DO DISCURSO SOBRE O CUIDADOR Para esta análise, e dada a dificuldade em acedermos a todos os trabalhos (sobretudo pela dificuldade de disponibilização do texto completo), optamos por utilizar a base de dados Psycinfo (da American Psychological Association, que contém resumos da literatura mundial no domínio da Psicologia e áreas afins) com o objectivo de conhecer o modo como o conceito do cuidador tem sido estudado e o que acerca dele tem sido produzido. A pesquisa na base de dados foi efectuada em Julho de 2005, remetendo por isso para os trabalhos disponibilizados na base até então. Contudo, uma pesquisa efectuada em Novembro de 2006 demonstrou que apesar do número de textos ter aumentado, a lógica da sua distribuição manteve-se1. Segmen - tamos a nossa análise em dois momentos distintos: o primeiro baseado na obtenção de dados que discriminem o formato das referências bibliográficas e o segundo direccionado para a exploração dos conteúdos teóricos relevantes para um maior conhecimento do tema. Assim, num primeiro momento a pesquisa revelou a existência de 16.872 registos nos quais constavam palavras com o início comum de “caregiv” (ex: “caregiver”, “caregiving”, etc.). Estão incluídas neste número 7.953 referências nas quais a palavra “caregivers” surge com Descritor. Debruçamo-nos então apenas sobre estes documentos, considerando que são os que mais valorizam o cuidador enquanto conceito principal (uma vez que aparece como descritor ou palavra-chave na base de dados). A análise do resumo, título e palavras-chave destes documentos permitiu-nos utilizar simultaneamente diferentes grelhas de leitura, e tendo em conta as categorias predominantes2, verificamos quanto ao tipo de documento que 6.492 registos estavam assinalados como trabalhos de conteúdo empírico e 1.461 como trabalhos de conteúdo não empírico. No que se refere ao formato do documento, encontramos 1.128 registos referenciados como artigo de periódico, 818 como dissertação, 460 registos como capítulo e 56 como livro. Existe ainda um vasto número de registos que se referem a formatos variados como relatórios de investigação, actas de congressos, comen tários de publicações, etc. Da convergência destas duas análises parece-nos que o conceito de cuidador é fundamentalmente abordado numa perspectiva prática e de contextualização num determinado domínio, em detrimento de uma conceptualização puramente teórica. Relativamente à população, 5.621 registos foram apresentados como elementos integrantes da categoria população humana, por contraste aos diminutos 52 registos que se referem a documentos 1Dos 16.862 registos disponibilizados em Julho de 2005 passou-se para 21.770 em Novembro de 2006; dos 7.953 passou-se para 10.221 registos. Note-se que este aumento não reflecte apenas uma maior existência de novos documentos publicados sobre o tema, mas também uma maior acessibilidade dos conteúdos publicado s. Assim, em pesquisas sucessivas é possível encontrar não só documentos recentes mas também documentos mais antigos e posteriormente disponibilizados nas bases de dados consultadas. 2Por vezes o somatório das categorias descritas não atinge o total dos 7.953 documentos por incluir outras categorias que pela sua variedade e reduzida representatividade omitimos nesta análise. desenvolvidos sem a participação desta população e aos restantes que são documentos de tipo teórico. Esta diferença numérica, sem dúvida expressiva, leva-nos a crer que este conceito na sua aplicabilidade científica adquire significância e constitui uma mais-valia quando observado à luz de uma população com características e problemáticas distintas. Com outro tipo de população e desprovido de um enquadramento particular, este conceito esvazia-se e anula-se em si mesmo. Fundamentamos ainda esta interpretação no facto de numa abordagem teórica anterior à pesquisa informática não termos conseguido encontrar uma definição clara e estruturada do conceito de cuidador. Ou seja, quase sempre, quando uma definição era sinalizada, era notória a inclusão de componentes muito singulares e particulares da problemática a ser estudada (National Alliance for Caregiving, 1997; Paul, 1997, todos citados por Leite, 2006; Aneshensel et al., 1993, citados por Shewchuk, Richards, & Elliott, 1998; Wight, LeBlanc, & Aneshensel, 1998; Williamson, Walters, & Shaffer, 2002). Parece-nos então que vão assomando definições à medida que o conceito vai sendo sobreposto às mais variadas temáticas da saúde, o que sugere que é um conceito que quando desprovido de um âmbito devidamente balizado e debatido enquanto entidade isolada em si mesma, perde relevância. Em suma, o cuidador só existe quando cuida de alguém. Num segundo momento reanalisamos os 7.953 registos, verificando que a palavra-chave “caregivers” surge como descritor principal em 5.673 referências e como descritor secundário em 2.280 registos. Verificamos ainda que em sobreposição com o conceito de cuidador pode surgir a palavra-chave “caregiving”, que foi identificada em 5.107 registos, constando em 1.395 destes como uma das palavras pertencentes ao seu título. Ao dissecarmos os registos em que o conceito de “caregivers” é usado como descritor (principal ou secundário), evidenciou-se o facto de surgirem frequentemente as palavras-chave “health-caredelivery” (com 6.843 registos na categoria descritor principal) e “burden” (com 2.363 registos na categoria descritores). Constatamos ainda que no que respeita ao “burden”, dos 2.363 registos acima mencionados só em apenas 815 é que o conceito “caregivers” não aparece conjuntamente como descritor. Parece-nos então que o “burden” ganha expressividade quando contextualizado na problemática do cuidador, sendo definido como um estado psicológico resultante da combinação do trabalho físico, da pressão emocional, das restrições sociais e das exigências económicas que surgem do cuidar de um doente (Dillehay & Sandys, 1990; England, 2000, todos citados por Santos, 2004; Newson & Schulz, 1998; Schulz & Quittner, 1998). Na análise dos 7.953 registos encontramos a palavra-chave “formal caregivers” em apenas 44 referências, e “informal caregivers” em 289. Pensamos que estes números indicam que só recentemente se começou a fazer apologia de uma visão dos profissionais enquanto cuidadores; isto é, deixam de ser vistos como pessoas com obrigações meramente tecnicistas e padronizadas, passando a acumular a necessidade de intervenções simultaneamente 184 M.A. OLIVEIRA, C. QUEIRÓS, & M.P. GUERRA DO CAOS À AUTOPOIÉSE 185 humanizadas e mais “cuidadas”, o que até aqui seria tipificado apenas pelas pessoas dos ambientes de inserção. Num terceiro momento desta análise, acedemos a alguns dos registos em documento integral, constatando que surgia ainda a palavra-chave “burnout”. Efectuamos então em Janeiro de 2006 uma nova pesquisa (Quadro 1). Os dados revelaram que em cerca de meio ano o número de registos com a palavra-chave “caregivers” aumentou notoriamente, bem como aqueles em que são mencionados os conceitos “formal caregivers” e “informal caregivers”. O “burden” parece estar mais associado ao cuidador informal do que o “burnout”. Considerando a proporção dos valores nos cuidadores formais e nos cuidadores informais, o “burden” predomina nos cuidadores informais, mas o “burnout” não apresenta valores significativos nem superiores no grupo dos cuidadores formais. Quadro 1 Número de registos por cruzamento de palavras-chave Caregivers (9.231 registos) Formal caregivers (447 registos) Informal caregivers (790 registos) Caregivers & burden 02.265 Formal caregivers & burden 111 Informal caregivers & burden 271 Caregivers & burnout 92.000 Formal caregivers & burnout 003 Informal caregivers & burnout 007 Uma análise mais refinada demonstrou que em 1.501 registos surge associada ao “burden” a palavra-chave “família”, por oposição apenas a 136 registos que associam “burnout” e família. Concluímos então que existe uma maior pertinência na relação “família-cuidador informal-burden”. Numa outra análise verificamos que o “burnout” surge mais associado a “grupos profissionais”, o que nos leva a pensar que o “burnout” remete mais para questões de ordem institucional e o “burden” parece ser a exacerbação da dimensão exaustão emocional do “burnout”. Debruçando-nos sobre o impacto a que os dois grupos de cuidadores estão sujeitos por desempenharem este papel, não são visíveis diferenças quanto à ordenação das dimensões mais referidas. Uma nova pesquisa (Quadro 2) demonstrou que as consequências de ordem física são as mais referidas, por oposição às de tipo cognitivo. Entre estas encontra-se a categoria “impacto emocional”, tendo a leitura dos documentos revelado que a ansiedade e a depressão são as sintomatologias mais mencionadas e estudadas. Quadro 2 Número de registos por dimensão do impacto e tipo de cuidador Dimensão do impacto Cuidador informal Cuidador formal Física 147 71 Emocional 096 51 Cognitiva 060 45 No que se refere às áreas de aplicação do conceito de cuidador, verifi - camos que este tema tem sido estudado sobretudo em quatro grandes campos que por ordem decrescente de número de registos são as demências (destacam-se nitidamente como a área mais referenciada, dando particular destaque às doenças de Alzheimer e Parkinson), as etapas extremas do ciclo vital (em que as crianças – doentes – e idosos são alvo de cuidados mais intensivos pelas suas limitações resultantes da reduzida funcionalidade e da incapacidade de se auto-dirigirem), as doenças crónicas de foro mental (sendo as mais mencionadas a esquizofrenia e doença bipolar respectivamente) e as doenças crónicas de foro físico, sobretudo as que evoluem para uma fase terminal (sobressaem o cancro, que se destaca claramente, o VIH/Sida, as doenças vasculares cerebrais e cardiovasculares, os transplantados e a esclerose múltipla). Por fim, nesta análise dos registos, verificamos ainda que as palavras- -chave “qualidade de vida”, “bem-estar”, “morte” e “luto” surgem com muita frequência nos 9.231 registos em que é assinalado o conceito de cuidador. Antes de passarmos para a análise do conceito de cuidador à luz da Epistemologia e, visto termos utilizado como ponto de reflexão a Teoria do Sujeito Autopoiético (Agra, 1990, 2001), consideramos pertinente descrever esta teoria. A TEORIA DO SUJEITO AUTOPOIÉTICO Esta teoria foi desenvolvida por Agra (1990) e remete-nos para a influência da Teoria dos Sistemas e para o modelo da Epistemopsicologia (Agra, 1986a,b,c). A teoria dos sistemas surge nos anos 60/70 e defende que nem tudo pode ser visto na lógica da unidade. É então necessário um quadro conceptual com uma lógica mais complexa na qual diferentes elementos de uma realidade estabelecem relações entre si. Nesta óptica, cada indivíduo deve ser perspectivado como um sistema com outros sub-sistemas e como parte de sistemas mais abrangentes, sendo o comportamento humano ilustrado de um modo dinâmico e reflector do seu carácter biopsicossocial (Agra, 1986d; Queirós, 1997b). Todos estes pressupostos podem ser entendidos como pilares para uma biopsicossociologia menos causal e mais processual (Agra, 1993, 1997). À luz da grelha de leitura da Teoria do Sujeito Autopoiético, o sujeito psicológico (ou individualidade psicológica) é em si mesmo um sistema constituído por outros três sistemas (sistema da personalidade, sistema etoético e sistema de significação) que interagem entre si de uma forma organizada e hierarquicamente estratificada que tem como função principal a autopoiése (Agra, 1995a,b), isto é, a criação da ordem a partir do ruído ou da desordem (Agra, 1998). No que se refere ao sistema da personalidade, Agra (1986a,b,c, 1990, 2001) concebe-a como um sistema complexo e auto-organizador do qual fazem parte sete sub-sistemas ou estratos que se configuram numa organização 186 M.A. OLIVEIRA, C. QUEIRÓS, & M.P. GUERRA DO CAOS À AUTOPOIÉSE 187 hierárquica que possibilita que uns estratos se desenvolvam a partir de outros. Assim, por sucessão, os estratos vão prestando serviços uns aos outros, através das múltiplas e complexas conexões que estabelecem entre si, o que leva a que do inferior para o superior vá havendo um ganho progressivo de autonomia e uma perda gradual de dependência e, a que, da integração destes resulte a personalidade. Hierarquicamente os estratos são descritos como neuropsi co - lógico, psicossensorial, expressivo, afectivo, cognitivo, experiencial e político. A este último sub-sistema, como não depende dos anteriores, cabe a função de regê-los de modo a que funcionem como um todo organizado promotor de desenvolvimento, tendo o papel fundamental de nos momentos de crise, articular a personalidade com o meio exterior (através do interestrato psico-social que nele se estrutura). O estrato experiencial também tem um papel relevante, na medida em que estabelece ligações entre a experiência do poder, o saber, o saber-fazer e as formas de subjectivação em relação aos objectos de poder e de saber. A importância do estrato cognitivo ou epistémico também é de realçar, uma vez que através das conexões que estabelece entre os elementos perceptivos, empíricos e formais possibilita a redução fenomenológica. Visto que o estrato epistémico se prende com o saber, é ainda relevante acrescentar que este tem uma configuração que reflecte ela mesma uma natureza sistémico- -comunicacional-informacional (Agra, 1986d, 1990, 2001). Estão aqui então expressas duas características de qualquer sistema: a constante comunicação (que implica a passagem de informação de um sistema para outro ou entre elementos de um mesmo sistema) e o equilíbrio entre a abertura e o fecho do sistema. Estas duas características tornam possível o processo de auto-organização. Relativamente ao sistema etoético, Agra (1990, 2001) conceptualiza-o como um sistema de natureza material e pragmática, que embora autónomo, é paralelo ao de personalidade. Tem na sua constituição cinco estratos também denominados de actos. Seguindo a lógica precedente, encontramos do inferior para o superior o acto psicobiológico (acto com uma espécie de ética implícita geneticamente, de onde advêm os comportamentos motores, sensoriomotores e instintivos, ou seja, actos com ligação directa ao sistema nervoso), o acto simbólico-expressivo (simbolização da experiência obtida na interacção entre o sistema e o mundo interior/exterior e a expressão desta simbolização), o acto afectivo (interacção e ligação relacional entre o sistema e o outro), o acto cognitivo (acto de raciocínio) e o acto crítico (distanciamento crítico e descentração da experiência vivida no exercício dos diferentes actos). Os actos que integram esta estrutura estratificada e hierarquizada não são estanques em si (apesar de terem uma certa autonomia), emergindo das ligações múltiplas e complexas que estabelecem e do serviço que prestam uns aos outros, a ética e o psíquico (que funciona como uma espécie de fronteira delimitadora, de distanciamento, entre os níveis de integração biológica e social). Nesta grelha conceptual o sistema etoético traduz um progressivo afastamento do sujeito em relação ao seu acto, culminado na projecção activa deste sobre o seu mundo e preenchendo o vazio entre o corpo biológico e o corpo social com o seu espaço psíquico. Assim, se este sistema não é consequência de determinismos biológicos e sociais (estando assente numa lógica baseada em processos endocausais), o seu interior encerra em si uma estrutura auto-organizadora capaz de criar ordem a partir da desordem. Neste sistema autopoiético cada acto segue uma sequência (acto substância etológica, acto afecto, acto expressão, acto saber, acto poder e acto projecto) que na sua totalidade constitui a genealogia subjectiva e psicológica da moral. Esta genealogia por sua vez pode ser entendida num espectro de quatro estádios (Agra, 1990, 2001), respectivamente o estádio etológico (é o mais simples, e traduz-se nos costumes e hábitos, sendo o acto substância ou fazer), o estádio etológico-ético (implica que o sujeito se volte para si próprio para conhecer as circunstâncias e regras do acto, adquirindo saber sobre o seu fazer), o estádio ético-etológico (através do saber fazer sobre si mesmo, emerge o poder) e o estádio ético (o acto torna-se objecto de uma política geral do fazer e do agir, havendo liberdade e inscrevendo o acto num projecto). Embora este espectro não reflicta uma lógica de continuidade, é clara uma evolução do simples para o complexo, do particular para o universal e do concreto para o abstracto. Por sua vez, o sistema de significação configura-se como o produto da interacção entre o sistema de personalidade e o sistema etoético (Agra, 1990, 2001). Assim, o sistema de personalidade enquanto forma ou estrutura constitui a matriz de produção do sistema etoético (de acção ou dinâmica), definindo as condições de possibilidade deste. Já o sistema etoético constitui o processo de materialização do sistema de personalidade, definindo as condições da sua operacionalidade. É então desta relação de circularidade e complementaridade entre personalidade e acção que emerge a significação, também ela assumindo-se como um sistema com vários níveis ou planos de significação que são o plano ontológico (resulta das relações entre o estádio etológico e os níveis neuropsi - cológicos e psicossensorial, sendo o mundo interpretado através dos seus factos, através daquilo que é; é um modo de significação muito positivista e factual de si e do mundo), plano deontológico (resulta das relações entre estádio etológico-ético e os níveis expressivo e afectivo, percebendo o sujeito, através da simbolização e expressão, que os actos têm efeito no mundo e que este tem efeito nos seus actos; é um plano de significação causal), plano lógico (resulta das relações entre o estádio ético-etológico e os níveis cognitivo e experiencial, sendo os actos do sujeito uma procura de coerência lógica consigo e com o mundo, procurando estar de bem consigo mesmo) e plano teleológico (resulta das relações entre o estádio ético e os níveis experiencial e político, verificando o indivíduo que o seu acto pode mudar as circunstâncias e que enquanto sujeito é simultaneamente determinado e indeterminado, produto e produtor, assumindo-se assim como autopoiético). Deste modo, o sujeito psicológico através dos seus sistemas personalidade, etoético e significação pode ser considerado do ponto de vista estrutural, 188 M.A. OLIVEIRA, C. QUEIRÓS, & M.P. GUERRA DO CAOS À AUTOPOIÉSE 189 funcional e temporal como estando organizado num contínuo que varia entre a heteronomia e a autonomia, entre o concreto e o abstracto, entre o singular e o universal, entre o simples e o complexo. Assim, ao dar um significado psicológico ao seu substrato biológico e ao seu superestrato sociocultural, o sujeito dá destino ao seu destino e a partir do exercício do poder e do saber sobre si, obedece aos contornos do novo paradigma (Agra, 1990) tornando-se autopoiético, ou seja, construtor de si mesmo. Agra (1998) advoga ainda nesta teoria que o ser humano tem capacidades criativas (cria-se a partir de si mesmo) e competências adequadas para transformar a desordem em ordem, para encontrar a organização no meio do caos. Esta lógica de criatividade universal não é mais do que uma forma superior do eterno processo de emergência do novo (Agra, 1997), através do qual o ser humano é capaz de se adaptar e integrar positivamente aspectos da vida diária que não prevê. Assume-se que o sistema está em constante transformação e re-organização, não havendo dois momentos iguais, mas sim a constante produção de sentidos e significações. Todavia, para que esta auto-organização seja possível é necessário conhecer a realidade e perceber como ela actua. Só deste modo é que o ser humano enquanto sistema superior é capaz de “pensar” a sua organização e “reagir” auto-organizativamente (ou auto-desorganizativamente) às metamorfoses do meio (Agra, 1997), bem como, de enquanto ser sofrente, ser “actor no seu sofrimento” (Agra, 2001, p. 165). APLICAÇÃO DA TEORIA DO SUJEITO AUTOPOIÉTICO AO CONCEITO DE CUIDADOR Socorrendo-nos então da Teoria do Sujeito Autopoiético como bússola epistemológica, pretendemos agora efectuar uma tentativa da sua aplicação ao conceito de cuidador. Contudo, convém ressalvar que esta é uma visão muito própria e que resulta da nossa grelha de leitura, tentando cumprir o princípio da objectivação (vertente do observador/académico), mas reconhecendo que o objecto poderá não resistir ao princípio da subjectividade (Agra, 1997) na vertente de cuidador formal e informal que somos, fomos e/ou poderemos vir a ser. Além disso, o conceito de cuidador enquanto entidade aqui estudada adquire dois modos de existência ou processos, pois pode ser visto como uma entidade integradora de outros elementos (modo microscópico) ou como elemento integrado noutros sistemas (modo macroscópico) e, enquanto realidade organiza-se segundo vários níveis e ordens dentro de uma ordem geral que emerge num determinado momento do universo biopsicossocial. Ao falarmos do cuidador é quase impossível destrinçá-lo daquele que é o alvo do cuidado. Os dois elementos desta relação interagem e inter-influenciam-se entre si, sendo ainda influenciados por sistemas mais abrangentes. Isto é, os referenciais, as significações e os sub-sistemas responsáveis por estas Agra, C. (1991). La recherche anthropologique sur la toxicomanie au Portugal. Retrovirus , IV (9), 33-34. Agra, C. (1993). Dizer a droga, ouvir as drogas . Porto: Radicário. Agra, C. (1995a). 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