Relações intergeracionais: significados de adolescentes sobre avós e idosos
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Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1038 Relações Intergeracionais: Significados de Adolescentes sobre Avós e Idosos1 Cunha, Bebiana1 & Matos, Paula Mena2 1 Casa da Juventude de Santa Cruz do Bispo – Câmara Municipal de Matosinhos 2 Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação - Universidade do Porto Num mundo paradoxalmente mutável, as relações humanas, os sistemas e papéis familiares têm-se redefinido. Neste estudo com 316 netos adolescentes, entre os 13 e os 21 anos (M=15.5; DP=1.54), de ambos os sexos, pretendeu-se aceder às significações da relação com os avós no geral e da figura preferida em particular. Face a todas as exigências da sociedade, de aparente culto da juventude e de suposta tolerância face aos idosos, procurou-se igualmente analisar em que medida a qualidade da relação com os avós se associava à natureza das crenças sobre os idosos em geral. Os resultados do estudo revelam que a relação parece variar de acordo com a dimensão a que se pretende aceder, ao mesmo tempo que variáveis sóciodemográficas parecem interferir. A avó materna surge como figura preferida, a qual parece ter uma função charneira na medida em que conecta os netos à história familiar e sócio-cultural. Na generalidade, os idosos são descritos favoravelmente, e estas descrições aparecem associadas à qualidade das relações com os avós Palavras-chave: Netos adolescentes, relações intergeracionais, idosos; 1. INTRODUÇÃO No plano macrossocial, vivenciam-se factos, transformações sociais, que contribuem para a redefinição de papéis familiares, designadamente o prolongar da juventude, a massificação do acesso ao ensino superior, o desemprego, o consequente adiar da constituição da sua própria família, os pais tornarem-se um suporte financeiro durante muito mais tempo e o aumento da esperança média de vida (Pais, 2003; Pappámikail, 2004). Parece haver um potencial implícito no aumento da longevidade dos membros da família, quer para as gerações mais novas (Bengston, 2001; Coutrim; 2006; Crosnoe & Elder, 2002; Kemp, 2005; Rani & Sharma, 2004; Relvas, 2004), quer para as gerações mais velhas (Ferland, 2006; Triadó & Villar, 2000). Inevitavelmente emergem novas formas de família, que devem ser tidas em conta para uma perspectiva holística e sistémica das relações intergeracionais (Alarcão, 2006; Relvas, 2004). As relações entre
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1039 netos e avós persistem desde há muito tempo, mas só recentemente atraíram a atenção de investigadores (Kornhaber, 1996). Coimbra de Matos (2006) refere que todo o universo existente entre netos e avós pode denominar-se de grã-parentalidade. As alterações sóciodemográficas têm conduzido à diluição da imagem do avô velhinho sentado na cadeira a contar histórias, para um avô ainda no activo: até porque tornar-se avô é um fenómeno ocorrido quer na adultez média, quer na madura (Pinazo, 1999). De acordo com Pinazo (1999), os estudos realizados relativamente à perspectiva dos netos sobre a grã-parentalidade e as suas relações com os avós são muito mais reduzidos do que os referentes à perspectiva dos avós, cujo foco se tem vindo a alargar a partir da década de 90 (Barbosa & Queirós, 2004, Kornhaber, 1996). Aliás, a existência de poucos estudos inclusive sobre o papel de neto, pode levar a questionar se será um papel sem papel, com ausência de definição, ou falta de validação. Num estudo recente com adolescentes, Céldran, Osuna, Solé, Triadó e Villar (2006) pediram aos netos adolescentes para caracterizarem a figura do avô/ó. Estes condensaram-na nas características da própria relação (eg: compreensão, afecto), em vez de se basearem em aspectos pessoais do avô. Pelo contrário, os avós, quando solicitados para descreverem a figura do neto, fizeram-no recorrendo a características pessoais do neto, o que permite aos autores concluírem que o papel de neto está pouco definido (em oposição ao de avô). Contudo, o papel de neto pode ser simbólico, tendo em conta a teoria do interaccionismo simbólico, que explica que os indivíduos atribuem significado aos papéis simbólicos desempenhados por si e pelos outros com quem mantêm relações (Ingoldsby, Miller & Smith, 2004 in Robila, Seung-Lee & Taylor 2005). De acordo com Stella (2004), a pesquisa sobre as percepções, atitudes, relações e significações que os netos têm dos avós parece ser escassa em Portugal. Não obstante, os estudos realizados revelam que as percepções e atitudes dos netos face aos avós parecem variar consoante a idade, o género e a filiação (Dias, Dias & Silva, 1999). À medida que a criança cresce, a relação com os avós evolui, na infância tende a ser mais centrada em si e mediada, valorizando mais a indulgência dos avós. A partir da adolescência, a relação entre o neto e os seus avós torna-se cada vez mais directa, pois não necessita da presença dos pais, para que se mantenha (Dias, Dias & Silva, 1999; Ferland, 2006; Kahana & Kahana, 1970). No que diz respeito ao género do neto, vários estudos sugerem que há um maior envolvimento
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1040 das netas adolescentes com os avós (Dias, Dias & Silva, 1999; Martinez, Triadó & Villar, 2000; Rani & Sharma, 2004). Relativamente à filiação, a preferência parece recair sobre os avós maternos, sendo a avó materna eleita como a preferida (Dias, Dias & Silva, 1999; Hawstorne & Manaster, 1982; Roberto & Stroes, 1982, Osuna, Pinazo, Solé, Triadó & Villar, 2005). Num estudo de Dias, Dias e Silva (1999) os adolescentes referiram que os preconceitos sobre os idosos não eram transferidos para as relações com os seus avós. Johnson, Kite Stockdale e Whitley (2005) justificam este facto com a teoria do papel social, que explica que quando olhamos os outros, vemo-los através do papel que desempenham, associando o papel ao indivíduo e não o oposto. Não obstante, não se pode ignorar que há uma herança cultural e científica que veicula mensagens negativas acerca do envelhecimento em geral e do idoso em particular (Lima, 2004). Assim sendo, este estudo teve como objectivo primordial conhecer o modo como os adolescentes significam a relação com a figura grã-parental preferida. Paralelamente pretendeu-se aceder à interpretação construída pelos adolescentes relativamente aos senescentes e consequentemente de que modo estas representações se associam à qualidade das relações mantidas com os seus avós. Do mesmo modo, foram também tidas em conta as diferenças nestas escalas, em função de variáveis estruturais e sóciodemográficas, designadamente o agregado familiar, a proximidade geográfica, presença de doença crónica, percepção da frequência de doença, percepção do quanto a figura gosta de si, frequência de contacto, importância da relação e outras variáveis do adolescente e da figura preferida, como o género, a idade e as habilitações literárias. 2. MÉTODO 2.1 Participantes A amostra definiu-se por conveniência, sendo constituída por 159 participantes do género masculino e 157 participantes do género feminino, residentes na Área Metropolitana do Porto. Os participantes têm idades compreendidas entre os 13 e os 21 anos (M = 15.5; DP = 1.54), frequentam o 8º ano (23.4%), 9º ano (26.3%), 10º ano (26.0%) e 11º ano (24.4%). Relativamente ao agregado familiar definiram-se quatro categorias: reside com os pais na presença ou não de outros familiares (76.3%); reside
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1041 apenas com um dos pais por motivo de divórcio ou viuvez (14.9%), reside em família de recasamento (5.1%) e outras formas de agregado familiar (3.2%). Relativamente ao tempo que demoram entre as residências (neto-avô), também se definiram quatro categorias: até 10 minutos (38.0%), de 20 a 30 minutos (31.3%); de 30 minutos a uma hora (4.7%); mais de uma hora (13.6%). Dos participantes em co-residência com avós (21, 6%), a maioria reside com o seu avô preferido (18.0%). 2.2 Instrumentos O protocolo é composto por três partes: (a) Escala de Crenças Generalizadas Sobre Idosos (CGSI), utilizada para aceder às representações dos adolescentes sobre os mais velhos. Para a construção deste instrumento partiu-se de dois estudos (Buchanan & Holmbeck, 1998; Buchanan & Hughes, 2006) que avaliam a percepção dos mais velhos sobre os adolescentes, tendo o instrumento sido adaptado quer por eliminação de alguns itens, quer por inclusão de outros, ao mesmo tempo que a escala de resposta também foi alterada; (b) Escala dos Significados da Grã-Parentalidade (GSM), elaborada para avaliar as percepções dos adolescentes relativamente à relação com o/a avô/ó preferido/a, baseada tradução adaptada do instrumento de Osuna, Pinazo, Solé Triadó e Villar (2005). Por se pretender aceder aos significados dos adolescentes relativamente à experiência de ser neto e aos processos de luto integraram-se também algumas questões abertas; (c) o questionário sócio-demográfico, que tem por objectivo a recolha dos dados do participante (género, idade, habilitações literárias, nacionalidade, localidade onde reside, proximidade geográfica da figura preferida). Antes de se partir para aplicação do protocolo à amostra, concretizou-se uma reflexão falada com 13 adolescentes (dos 13 aos 20 anos), que se revelou útil para afinar alguns aspectos de tradução, de compreensão dos itens e do formato de resposta. 2.3 Procedimentos Os conselhos executivos de diversas escolas foram contactados no sentido de colaborarem com o estudo, ao que 3 escolas da Área Metropolitana do Porto aceitaram participar. A recolha dos dados ocorreu no grupo-turma (14 turmas), no período lectivo de 45 minutos. Inicialmente, foram explicados aos adolescentes os objectivos do estudo,
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1042 sendo o preenchimento voluntário e anónimo, não se registando desistências. Ao longo do preenchimento foram esclarecidos nas dúvidas circunstanciais. 3. RESULTADOS No tratamento de dados, utilizou-se o programa de análise estatística de dados SPSS versão 15. Para análise dos dados foram utilizados procedimentos estatísticos diferentes, que permitiram testar a estrutura factorial dos instrumentos, a consistência interna das dimensões, as associações entre dimensões e diferenças em função de variáveis diversas. Estrutura factorial e consistência interna dos instrumentos No que diz respeito à GMS, ao longo da análise factorial em componentes principais (rotação varimax), suprimiram-se 16 itens factorialmente complexos. A escala ficou constituída por 30 itens, que se agrupam nas seguintes dimensões, explicando 58.79% da variância total: (1) confiança (9 itens, α = .88) explica 29.34% da variância total; (2) desfrutar da relação (6 itens, α = .87) explica 8.59% da variância total; (3) ligação com o passado (3 itens, α = .81) explica 6.81% da variância total; (4) distância (5 itens, α = .61) explica 5.50% da variância total; (5) mediação (5 itens, α = .73) explica 4.60% da variância; (6) indulgência (2 itens, α = .65) explica 3.95% da variância total da escala. Importa referir que estas dimensões foram nomeadas tendo em conta o estudo original dos autores e a consonância com os itens que as constituem. De ressaltar que as dimensões estão próximas do instrumento original, sendo os itens totalmente coincidentes com o original na dimensão ligação com o passado. No que diz respeito à CGSI, são quatro os factores que explicam 45.41% da variância total. Ao longo da análise factorial em componentes principais (rotação varimax), foram-se eliminando os itens factorialmente complexos. Desta forma, restaram 31 itens descritores de crenças generalizadas sobre idosos, agrupando-se em quatro dimensões teoricamente interpretáveis como: (1) amigabilidade (10 itens, α = .84), explica 18.80 % do da variância total; (2) alienação (7 itens, α = .79), explica 13.37% da variância total; (3) actividade (8 itens, α = .76), explica 7.99% da variância total; e (4) externalização (6 itens, α = .71), explica 5.26% da variância total. Apesar das alterações
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1043 ao instrumento, os itens que se mantiveram são no geral coincidentes com o instrumento original, sendo totalmente coincidentes na dimensão alienação, que diz respeito a aspectos que podem conduzir à exclusão social dos idosos. Associações entre a GMS e variáveis estruturais e socio-demográficas dos avós Na análise das variáveis estruturais e sócio-demográficas dos avós que podem interferir nas relações netos-avós, observaram-se os seguintes resultados: (1) agregado familiar, não se encontraram diferenças significativas entre netos que habitam numa família intacta e netos com outras formas de família; (2) a co-residência com avós apresenta diferenças significativas entre netos que residem com avós e os que não residem [F(6, 262) = 3.73, p < .001].na dimensão confiança [F(1, 267) = .531, p < .001, eta² = .058]. A confiança é mais elevada entre netos e avós que co-residem (M = 2.85; DP = .84) do que nos que não co-residem (M = 2.31; DP = .89); (3) a idade do/a avô/ó preferido/a apresenta correlações negativas significativas com as dimensões: confiança (r = -198, p < .001) mediação (r = -121, p < .005) e indulgência (r = -171; p < .005), isto é, quanto mais velhos os avós, mais baixos os valores destas dimensões; (4) as habilitações literárias do avô não se encontram significativamente correlacionadas com nenhuma das dimensões; (5) o género da figura preferida não apresenta diferenças ao nível das dimensões; (6) doença crónica, não se encontram diferenças significativas entre os netos que têm avós com doença crónica e os que não têm; (7) a frequência de vezes que o/a avô/ó está doente correlaciona-se negativamente com as seguintes dimensões: confiança (r = -.119; p < 0.05); desfrutar (r = -.144; p < 0.05); ligação ao passado (r = -.166; p < 0.05); mediação ( r = -.214; p < 0.001) e indulgência (r = -.180; p < 0.05); (9) a percepção do quanto o avô gosta de si correlaciona-se positivamente com as dimensões confiança (r = .294, p < 0.01), desfrutar (r = .365, p < 0.01); ligação ao passado (r = .273, p < 0.01); mediação (r = .260, p < 0.01) e indulgência (r = .316, p < 0.01), não se correlacionando com a distância; (8) proximidade geográfica, encontrou-se uma correlação negativa entre a distância e a dimensão confiança (r = -.133; p < 0.05), ou seja há menor confiança percebida quando a distância geográfica entre netos e avós é maior; Relativamente aos avós no geral, a frequência de contacto apresenta-se superior a 4 com todos os avós, num intervalo de 1 a 5. (M = 4.32 DP = .76) A frequência de
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1044 contacto com o avô materno correlaciona-se positivamente com a dimensão confiança (r = .180, p <0.05) e a frequência de contacto com a avó materna correlaciona-se positivamente com as dimensões confiança (r = .166, p < 0.05) e mediação (r = 155, p < 0.05). Os avós paternos não apresentam correlações significativas. A importância percebida da relação com os avós apresenta-se superior a 3, numa escala de 1 a 4 ( M = 3.18, DP =.63). Associações entre a GMS e variáveis sócio-demográficas do adolescente Na análise dos efeitos das variáveis sócio-demográficas do adolescente sobre as relações netos-avós, observaram-se os seguintes resultados: (1) quanto à idade do participante (dois grupos: 13-16; 17-21) não se encontraram diferenças significativas na GMS; (2) habilitações literárias (2 grupos: 8º-9º ano; 10º-11º ano) não se encontraram diferenças significativas [F =(6, 263) p = 1.24]; (3) género, identificaram-se diferenças significativas ao nível do género [F (6, 263) =3.67, p < .005, Wilk’s Lambda =.923, eta² =.97], nas dimensões desfrutar da relação [F (1, 268) = 15.28, p < .001, eta² = .054]; e ligação ao passado [F (1, 268) = 9.57, p < .005, eta² = .034]. A dimensão confiança ultrapassou ligeiramente o limite [F (1, 268) = 7.18, p = .008, eta² = .026]. A leitura das médias permite observar que as netas têm valores mais altos. Na selecção da figura preferida, a maioria dos adolescentes revela preferência pelas avós no geral e a avó materna em particular (cf. Quadro 1). Quadro 1. Filiação e género da figura preferida Filiação Figura preferid a Frequência Percentagem Avô - neto 21 6.7 % Paterna Avô - neta 14 4.4% Avó - neto 29 9.2% Avó - neta 38 12 .0 % Avô - neto 35 11. 1% Materna Avô - neta 25 7. 9% Avó - neto 74 23. 4% Avó - neta 80 25. 3% Associações entre a CGSI e variáveis socio-demográficas dos avós e dos adolescentes A idade a partir da qual os participantes consideram uma pessoa idosa oscila entre os 45 e os 80 anos (M = 64.4; DP = 6.6; Mo = 65). Esta não parece correlacionar-se
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1045 significativamente com as dimensões da escala, isto é, a caracterização do idoso é semelhante independentemente da sua idade. Já a idade dos participantes assume uma correlação negativa (r = -.144; p < 0.05) com a amigabilidade, isto é, quanto mais velhos os adolescentes, menos pontuam a amigabilidade. Relativamente ao ano de escolaridade, os adolescentes apresentam diferenças significativas [F (4, 267) = 9.95, Wilk’s Lambda = .87, p < 0.01, eta² = .13], ao nível da amigabilidade [F (1, 270) = .59, p < 0.01, eta² = .06]; e da actividade [F (1, 270) = .265, p < 0.01, eta² = .06]. Verifica-se que os estudantes do 10º e 11º pontuam menos as dimensões, comparativamente com os do 8º e 9º anos de escolaridade. o ano de escolaridade encontra-se significativamente correlacionado com a idade (r = .744, p < 0.01). Observaram-se igualmente diferenças nas crenças em função do género do participante [F (4, 267) = 2.63, p < .05, Wilk’s Lambda = .962, eta² = .04] na dimensão alienação [F (1, 270) = .256, p = .005], em que os rapazes apresentam os valores mais altos (M = 1.95; DP = 0.58). Por sua vez, o género da figura preferida não apresenta diferenças significativas, relativamente às dimensões [F (4, 267) = 237 , p = .917]. Associações entre GSM e CGSI As dimensões positivas da GSM, confiança, desfrutar, ligação ao passado, mediação e indulgência encontram-se correlacionadas com as dimensões positivas da CGSI, amigabilidade e actividade, bem como a dimensão negativa distância se encontra negativamente correlacionada com essas dimensões e positivamente correlacionada com a externalização, sendo porém a magnitude das correlações baixa (cf. Quadro 2). Quadro 2. Correlações entre a CGSI e a GMS GMS Confiança Desfrutar Ligação ao passado Distância Mediação Indulgência CGSI Amigabilidade . 249** .3 59 ** .279 * * .068 .163 ** .214** Alienação - .216** - .280** - .159 * * . 102 - . 033 - .137* Actividade .173** .167** .199** .091 .121* .132* Externalização - .134* - 0.95 0.17 .157** - 0.07 - .012 * p < 0.05; ** p < 0.01
Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 1046 4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS De acordo com o esperado (Dias, Dias & Silva, 1999; Osuna, Pinazo, Solé, Triadó & Villar, 2005; Roberto & Stroes, 1992; Robila, Seung-Lee & Taylor, 2005) a análise dos resultados aponta para a existência de uma relação significativa entre netos e avós, que só pode ser acedida numa perspectiva sistémica e multi-dimensional, sendo nesta perspectiva que se discutem os resultados. A relação com a figura preferida parece pautar-se pelo convívio intergeracional, no qual o adolescente desfruta e se sente bem, onde a figura preferida tem um papel de charneira entre o passado cultural, histórico, familiar e o presente, permitindo quiçá ao adolescente conhecer as suas origens familiares, contribuindo para o desenvolvimento de um sentido de filiação, em parte através das histórias que o avô conta (Ferland, 2006; Osuna et al. 2005). Esta figura preferida é, maioritariamente, a avó materna (Dias, Dias & Silva, 1999; Hawstorne & Manaster, 1982; Roberto & Stroes, 1982; Osuna et al. 2005) talvez por a maior esperança média de vida das mulheres permitir mais tempo de convívio intergeracional, mas também devido às características das avós como cuidadoras, que tendem a ser emocionalmente mais próximas dos netos (Dias, Dias & Silva, 1999; Dias & Silva, 2003; Robila, Seung-Lee & Taylor, 2005; Osuna et al., 2005; Robertson & Wood, 1976 in Roberto & Stroes, 1992). Note-se que frequência de contacto com os avós maternos poderia ser um aspecto a ter em conta para explicar a preferência pelos avós maternos no geral (Dias & Silva, 2003), mas neste estudo a frequência de contacto é elevada com os avós no geral. Contudo, pode pensar-se que a qualidade desta frequência de contacto seja diferente entre avós, até porque os dados associam esta variável a uma maior confiança estabelecida com os avós maternos. Os netos adolescentes parecem beneficiar da indulgência dos avós, que dão mimos, dinheiro, conselhos e enchem a relação de “algos” significativos, que são valorizados de acordo com a idiossincrasia de cada adolescente. Todavia, estas relações não parecem revestir-se de elevados níveis de confiança, apesar de na literatura alguns relatos de adolescentes terem denunciado a figura preferida como confidente (Ferland, 2006). A média na dimensão da confiança foi das menos elevadas, talvez por os adolescentes reservarem estas relações para o grupo de pares, focando a sua energia em relações fora da família e no seu desenvolvimento pessoal (Osuna et al. 2005; Roberto & Stroes, 1992). Por sua vez, a dimensão distância foi a menos pontuada, o que