scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Natureza e cultura no Porto do século XIX

Madureira, Helena,Pimenta, José Ramiro

Abstract

A estruturação social de uma cidade pode inferir-se da morfologia e estrutura dos espaços verdes. Partindo de uma carta da cidade do Porto (Portugal), de 1892, procedeu-se ao reconhecimento dos contextos tipológicos e espaciais da estrutura verde em finais do século XIX: i) cidade intramuros; ii) a área de expansão extramuros, de forte ampliação nos séculos XVIII e XIX iii) anel periférico rural, suporte do desenvolvimento urbanístico ao longo do século XX. A modernização da cidade resulta no encontro e conflito entre a produção do espaço e da natureza, a representação das suas paisagens e a prática concreta dos seus lugares.

Full text

Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 73 Natureza e cultura no Porto do século XIX Helena Madureira1, 2 José Ramiro Pimenta1, 3 1 CEGOT – Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território 2 hmadureira[email protected]m; 3 [email protected] RESUMO A estruturação social de uma cidade pode inferir-se da morfologia e estrutura dos espaços verdes. Partindo de uma carta da cidade do Porto (Portugal), de 1892, procedeu-se ao reconhecimento dos contextos tipológicos e espaciais da estrutura verde em finais do século XIX: i) cidade intramuros; ii) a área de expansão extramuros, de forte ampliação nos séculos XVIII e XIX iii) anel periférico rural, suporte do desenvolvimento urbanístico ao longo do século XX. A modernização da cidade resulta no encontro e conflito entre a produção do espaço e da natureza, a representação das suas paisagens e a prática concreta dos seus lugares. ABSTRACT The social structure of a city may be inferred from the morphology and arrangement of green areas. Drawing on a 1892 map of Porto (Portugal), typological and spatial contexts of its green structure were delineated: i) the walled medieval city core; ii) the outer-wall expansion area (18th-19th cs.); iii) a peripheral rural belt, where 20th c. urban growth occurred. The modernization of the city is therefore related to the asserted and contested relation between production of space and nature, landscape representation and places of social practice. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 74 Introdução Este estudo sobre o Porto oitocentista privilegia a estruturação social da cidade, a sua vida de relação e as expressões de representação que se podem inferir da morfologia e estrutura dos espaços verdes (Cosgrove 1998). A «Carta Topographica da Cidade do Porto» publicada em 1892 sob a direcção de Telles Ferreira e considerada a primeira planta rigorosa, com levantamento à escala 1:500, que abrange a totalidade do concelho (CMP 1992), constitui o ponto de partida para o reconhecimento da estrutura verde do Porto em finais do século XIX. A planta de Telles Ferreira (Figura 1) ilustra uma forte presença da natureza na cidade, podendo-se evidenciar três principais anéis que, com centro no núcleo central da cidade, vão evidenciando contextos tipológicos e espaciais bem contrastados, associados a diferentes épocas de desenvolvimento: um núcleo central densamente construído, correspondente à cidade intramuros; a área de expansão extramuros, de forte ampliação nos séculos XVIII e XIX; e o grande anel periférico, ainda profundamente rural, que constituirá o suporte do intenso desenvolvimento urbanístico ao longo do século XX. Independentemente deste núcleo em expansão, a franja marítima da cidade e sobretudo o núcleo urbano de S. João da Foz encontravam-se também densamente edificados. Figura 1 – ‘Carta Topographica da Cidade do Porto’ de Telles Ferreira (escala original:1:5000) 1. Cidade antiga O núcleo central da cidade, densamente edificado, encontra-se praticamente desprovido de cobertura vegetal, destacando-se apenas pequenos e íngremes quintais nas traseiras dos edifícios, nas cercas de alguns conventos e seus respectivos terreiros e na declivosa encosta do Douro. Correspondendo genericamente à antiga cidade muralhada, este núcleo reproduz uma secular relação entre a cidade e a natureza baseada numa íntima relação espacial e funcional entre o espaço urbano sucessivamente densificado e uma envolvente rural que assegurava o fornecimento diário de frescos à cidade. Junto das portas da cidade localizam-se os “campos”, locais de mercado e de encontro, que sobreviverão ao progressivo crescimento urbano, Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 75 transformando-se nos principais jardins públicos do centro da cidade da actualidade. A Praça do Infante emerge como o único espaço verde público, ocupando as antigas cercas dos conventos de S. Francisco e S. Domingos (Figuras 1 e 2). 200 m0 verde associado à edificação jardins públicos verde agrícola verde arborizado ou arbustivo ruas arborizadas 01Km Rio Do uro Figura 2 – Porto: a ‘cidade antiga’. (Fonte: Madureira 2001-2002, adaptado) No século XIX, o centro da cidade, que fora a cidade medieval dentro dos muros que se haviam grandemente desmantelado com as obras dos Almadas, não possuía quase nenhuma expressão de natureza vegetal. Essa, de resto, era uma condição que não era nova, pois o elemento de natureza que se lhe associa mais intimamente (se quisermos usar da classificação materialsimbólica de Schama [1995] – água, madeira e pedra) sempre havia sido o elemento mineral. Em termos de representação simbólica da paisagem urbana (Cosgrove, Daniels 1988), tal não significa uma “ausência de natureza” mas antes a sua expressão liminar. O sítio genético do Porto, comparável a tantos outros que existem na Europa de povoamento mais antigo, mais mediterrâneo do que continental, e como quase todos os principais núcleos urbanos importantes em Portugal, é um sítio de “acrópole”, uma localização original alcandorada numa elevação de acesso difícil, com propósitos de defesa e salubridade, distanciado um pouco do mar que lhe fica perto mas a que não pertence e dominando visualmente um rio de que depende em muitos sentidos, entre os quais o de direito de portagem não é decerto o de menor importância, e a cujo “porto” se liga por azinhagas que descem a encosta íngreme para pôr em contacto o centro de poder e a vida vibrante do comércio – um pouco como o modelo que a polis grega havia perpetuado. De que natureza podemos então falar em relação a esta área central da cidade, sobretudo no contexto da modernização do século XIX? Em certo modo, o mesmo sentido que ainda hoje esse espaço cumpre na cidade actual; uma natureza liminal, indómita, uma penha ventosa com escassa cobertura vegetal a que a gemoforfologia impede maior exuberância e que nessa condição se mantinha ao longo de todo o século XIX como que rememorando uma muralha primitiva que isolava o burgo fortificado do espaço que lhe era exterior, um espaço de wasteland que antecipava o ager que alimentava o centro e se organizava além dele mas por ele. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 76 2. Cidade nova A “cidade nova” corresponde ao anel envolvente do núcleo antigo da cidade, resultando genericamente da consolidação da malha urbana desenvolvida pelos Almadas em finais do século XVIII, densificada ao longo do século XIX, e do crescimento urbano espontâneo ao longo dos eixos de ligação regional. Nesta “cidade nova” surgem significativos espaços com cobertura vegetal de características tipicamente urbanas: os mais representativos jardins públicos e o verde associado à edificação, englobando os logradouros do interior dos quarteirões e os jardins das residências unifamiliares. Na envolvente desta “cidade nova”, já em contacto com a periferia rural, onde têm o máximo da sua representatividade na cidade, surgem alguns exemplos de quintas de recreio (Figuras 1 e 3). 500 m verde associado à edificação jardins públicos verde agrícola verde arborizado ou arbustivo ruas arborizadas 01Km 0 Rio Douro Figura 3 – Porto: a ‘cidade nova’ (Fonte: Madureira 2001-2002, adaptado) 2.1 Jardins públicos e ruas arborizadas Os jardins públicos, entendidos como elementos morfológicos com identidade e desenho bem definidos, predominantemente revestidos por vegetação e aptos para a prática generalizada de actividades de lazer, definem, em conjunto com as ruas arborizadas, o sistema verde de utilização pública de uma cidade. Ao longo dos séculos XVIII e XIX a cidade tinha assistido à criação de variadas alamedas, espaços lineares com alinhamentos de árvores geralmente vedados e implantados estrategicamente sob o ponto de vista cénico, às quais não se aplica propriamente o conceito de jardim público (Andresen e Marques 2001). Como exemplos destes primórdios dos jardins públicos destacam-se as alamedas enquadradas na malha urbana – Olival, Lapa, Aguardente, Bonfim, Prado do Repouso – e aquelas implantadas como varandas sobre o Douro – Virtudes, Fontainhas, Massarelos. O surgimento dos jardins públicos no Porto, tal como na generalidade das cidades europeias, enquadra-se no contexto das amplas transformações decorrentes da Revolução Industrial. Argumentos de cariz social e higienista concorrem para a apologia do jardim público enquanto elemento da forma urbana capaz mitigar os problemas ambientais e sociais que se vinham a colocar nas cidades, perspectivando-o como um instrumento de reforma social. O jardim público era visto como elemento mitigador das condições insalubridade em que vivia a Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 77 crescente população urbana e, simultaneamente, como elemento moralizador dessa mesma população, cada vez mais consciencializada das suas próprias más condições de vida. A popularização do jardim público é também o reflexo da ascensão de uma burguesia dotada de poder financeiro e político, com grande influência nas transformações urbanas da época, e que visava reproduzir hábitos de lazer até então confinados à aristocracia. Horácio Capel descreve essa profunda alteração patente tanto nos modos de produção como de usufruto dos jardins (2002, p.5): Hasta el siglo XVIII los jardines eran, de hecho, paraísos privados, construídos por la realeza, la aristocracia y, más tarde, la burguesía, para su uso particular. Lugares para el descanso y el retiro deleitoso, para la alegría privada y el juego amistoso, para la ostentación y el reposo. Y será ése precisamente el paraíso que en el siglo XIX será accesible para todos, convirtiéndose en el jardín municipal. O período temporal do surgimento dos primeiros jardins públicos no Porto coincide com novas dinâmicas espaciais e uma noção mais alargada da escala da cidade, reflexos nomeadamente da necessidade de acomodar uma sempre crescente população residente e do desenvolvimento dos transportes urbanos. A cidade foi-se desprendendo do seu núcleo originário centrado na Praça da Ribeira e no rio e incorporando novas áreas de expansão para onde progressivamente convergiam a vida social e económica (Oliveira 1973). É nesta “cidade nova” que se implanta a quase totalidade dos principais jardins públicos, normalmente resultando do ajardinamento dos antigos locais de feira ou de exercícios militares, os campos, que se localizavam junto das portas da cidade ou ao longo das principais vias de ligação à envolvente regional. Na planta de Telles Ferreira é visível, logo nas imediações do núcleo central da cidade, um sistema relativamente consistente de praças ajardinadas, onde se destacam os jardins públicos de S. Lázaro e da Cordoaria. O jardim de S. Lázaro, antigo campo de feira arborizado, foi inaugurado em 1834 e concluído em 1841. A sua construção terá ficado a dever-se à intenção de D. Pedro IV de fundar uma biblioteca no antigo Convento de Santo António, reconhecendo-se a necessidade de melhorar o espaço que o defrontava. Projectado por João José Gomes, caracterizava-se por uma composição geométrica rígida limitada por um gradeamento. Em finais da década de sessenta do mesmo século o jardim sofreu alterações de Emílio David, conferindo-lhe as características de irregularidade do traçado observáveis na actualidade. O jardim de S. Lázaro emerge como elemento fundamental no desenho de um pequeno sistema de verde público na área oriental da cidade, articulando-se com a Alameda e Passeio das Fontainhas, sistema que será fortemente reforçado, já no século XX, pela arborização dos arruamentos resultantes do loteamento dos Campos de Cyrne. O jardim da Cordoaria, também um antigo campo, o Campo do Olival, e onde tinha existido a primeira alameda da cidade, foi inaugurado em 1867. Projectado por Emílio David, o jardim da Cordoaria é o elemento central de um dos sistemas de verde público estruturalmente mais consistentes em finais de oitocentos, englobando o Mercado dos Anjos e todo um conjunto de pequenos espaço ajardinados, articulados por uma pequena rede de ruas arborizadas da Restauração aos Clérigos. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 78 Os jardins da Praça da República, do Marquês e da Boavista, antigos os campos de feira ainda em processo de ajardinamento, inserem-se já na estrutura urbana de desenvolvimento oitocentista e, portanto, numa área que se encontrava relativamente “desdensificada”, não tanto pela escala do espaço público mas pela grande dimensão dos quarteirões. Todos estes jardins se encontram intimamente relacionados com o espaço urbano envolvente e na encruzilhada de várias artérias viárias, a que não será alheio o facto de quase todos esses espaços resultarem do ajardinamento de antigos campos de feira situados nas vias de ligação com a envolvente regional, lugares por excelência de centralidade. Associados aos jardins da Praça da República e da Boavista surgem exemplos representativos de arruamentos projectados durante o século XIX que reflectem, ainda que precariamente, a difusão da experiência francesa dos boulevards. A Avenida da Boavista, ligação de natureza estratégica e militar realizada durante a década de sessenta, sobressai como importante eixo continuamente arborizado. No panorama geral dos jardins construídos no século XIX, o jardim do Palácio de Cristal destaca-se pelas suas características bem diferenciadas. Embora também localizado numa área da cidade já então fortemente urbanizada, a sua implantação, a sua dimensão e as suas características formais aproximam-no da concepção de um “parque urbano”, com um claro isolamento do contexto urbano envolvente. O Palácio de Cristal, pensado para albergar exposições e outros eventos, e os seus jardins ficariam concluídos em 1865, sendo inaugurados com a Exposição Internacional Portuguesa. Emílio David, responsável pelo projecto do jardim, aplica-lhe “as novas modas que corriam pela Europa nos domínios do ordenamento e arranjo de espaços recreativos (...) estruturando-o a partir de dois elementos fundamentais: a alameda, e um bosque com circuitos passando por recantos pitorescos a justificarem o arranjo de outros tantos ‘sítios de estar’ ligados entre si por caminhos ou veredas” (Araújo 1979, p. 14). Substancialmente alterado ao longo dos tempos, nomeadamente pela demolição do antigo palácio de cristal e sua substituição pelo pavilhão dos desportos (1956) e pelas múltiplas alterações nos jardins, o jardim do Palácio de Cristal permanece na actualidade como um dos espaços verdes públicos mais importantes da cidade. Os jardins públicos permitem compreender a evolução do Porto do século XIX como um processo não apenas de progressiva dominação do espaço mas também como este se acompanha de uma equivalente dominação social. Max Weber usava o conceito werk para designar esta capacidade de intervir, transformar e produzir activamente a sociedade e a natureza pelas instâncias do poder, termo que passaria a Habermas para caracterizar também uma época epistemológica, muito especialmente a modernidade, de conhecimento activo e transformador. E em que sentido nos pode ser útil este conceito neste estudo sobre o Porto do século XIX e da sua respectiva modernização? Do ponto de vista do carácter simbólico da paisagem, a produção de espaço e natureza associada aos jardins públicos remete para três qualidades – natureza, tempo e género. Desde logo, uma expressão de dominação da natureza, os jardins públicos exibem as espécies e associações vegetais numa ordem que não a que regula a produção do ager cuja intenção é a produção alimentar que garanta funcionalmente a sobrevivência. Neste sentido, um jardim é uma “inutilidade funcional” e garante a sua identidade justamente pela intensidade de apelo ao sublime. Isto envolve uma produção de espaço e de natureza que contempla espécies que Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 79 evoquem e despertem o delíquio dos sentidos, a variedade das cores florais, a intensidade de aromas inesperados, o poder táctil dos elementos vegetais, tudo curvado ao prazer da contemplação e do uso estético – portanto a um desnovelamento do tempo. O domínio do tempo, e a sua expressão em momento de ócio, é uma das expressões mais características da modernização capitalista da cidade e os jardins são também a sua expressão. Apenas acessíveis a uma classe robustecida pelo comércio e pela indústria, esta disponibilidade do tempo encontra nos jardins a sua plena efectivação, pois é aqui que o ócio da classe burguesa se exibe exteriormente na cidade. Os horários de trabalho de um novo funcionalismo público, o robustecimento de uma nova classe média, que os magasins revestem de toilettes de exibição e que suporta e se define pelas novas relações de trabalho – tudo se reunindo no resultado esperado de produção e uso do espaço urbano que são os jardins públicos. Finalmente, este uso obedece a uma distinta organização de género no âmbito do fortalecimento desta nova classe nascida da urbanização capitalista. As relações domésticas, entre homens e mulheres, adultos e crianças, recompuseram-se, quando comparadas com as do século que terminara em 1800, e de um certo modo estabelecem uma organização da vida doméstica e de relação entre géneros que serão a matriz do século a que pertencem mas também as do masculinismo funcional que penetrará quase todo o século XX. Os jardins públicos são, por isso, o espaço produzido, a paisagem de representação e o lugar de práticas das relações entre os géneros na sua expressão pública. Quando vemos as gravuras que os representam, e que certamente se reavivavam no recolhimento das paredes de casas particulares desta nova classe média que o século fortalecia, vemos não raramente imagens de enamoramento entre homens e mulheres jovens, ou cenas de amas e jovens mães com os carrinhos-de-bebé, réplicas de pequenos coches; ou crianças, os rapazes equilibrando um pequeno veleiro nas águas quietas de um lago, as meninas, mais pacatamente, empurrando as bonecas numa réplica de réplicas das mães e das amas. Assim, este espaço, que é um espaço produzido para recolher a metade feminil da vida doméstica, é ao mesmo tempo um espaço de “oclusão” – não era tolerada a mobilidade feminina pelas ruas da cidade – e um espaço que, pela prática, refrescava, nas rotinas das horas do dia e do curso das estações, os atributos masculinistas do cortejamento, da família, da vida doméstica – naturalizando assim a interdição da mulher à sensualidade, à independência e ao trabalho. Desde os escritos de Baudelaire, e a sua revisita por Benjamin (1997), que o boulevard e a sua correspondente ideia de natureza são de comum referência em trabalhos sobre a cidade e a sua modernização. O Porto do século XIX não é com certeza comparável a Paris de fin-de-siècle e, embora tenha recebido múltiplas expressões desse mal de cité que habita os versos de Baudelaire, ou de Cesário em Lisboa, é uma cidade incompleta na produção do espaço de flânerie. Aliás, como em muitos outros elementos da sua modernidade, a cidade do Porto do século XIX (e também em fases mais recentes) é uma cidade de metamorfoses incipientes, subitamente truncadas e sem a radicalidade da transformação a penetrar verdadeiramente a estrutura da cidade. Porém, com as Virtudes, e outros elementos semelhantes, e mais tarde com as ruas arborizadas dos seus quarteirões mais recentes, também a cidade do Porto aderiu, com o Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 80 século da modernização liberal, ao gosto transeunte pelo cénico e adoptou o gosto e o hábito do “passeio” que o era já de nome. Basta um olhar pelo mapa da cidade dos fins do século XIX, para compreendermos que estes elementos detêm uma expressão mínima na estrutura verde da cidade, como mínimo é também o poder associado dos elementos cénicos edificados. São exíguos os traçados de ruas e os levantamentos de alçados que promovam activamente a distracção deambulante dos habitantes da cidade. Ao longo do século, e apesar da enorme transformação a que a morfologia da cidade é submetida, o mundo rural ainda a penetra profundamente e são de uma aldeia muitas das suas expressões para quem a percorre. Contudo, existe um elemento novo da cidade em que se concentra este novo modo de débil melancolia em relação à cidade transformada – os cemitérios. Os grandes cemitérios públicos da cidade, então na sua periferia mas hoje engolfados após o crescimento da cidade ao longo do século XX, possuem vários elementos que permitem aproximá-los do espírito do século XIX, quando o cientismo e o romantismo tardio se associam para celebrar o sublime da natureza e a intransiência do tempo. Não é de estranhar a asociação próxima entre o romantismo e o cientismo que se poderiam julgar tão contrários – a ambos os anima uma perda da tranquilizadora presença divina que os séculos anteriores (Shapin 1991) haviam conhecido – e os dois, de certo modo, representam os extremos da relação cultural do século com o relativo sentimento de orfandade. Estes novos cemitérios possuem assim uma dupla qualidade – pela celebração do sublime da ciência, eles apresentam-se como os impecáveis organizadores da morte dos novos corpos sem alma, rotulando, recenseando e lacrando, numa réplica da cidade dos vivos, com suas ruas, casas e quarteirões, os corpos que a cidade moderna multiplica exponencialmente; contemporâneos das perturbações populares que acompanham o fim do enterramento tradicional nas igrejas e seus adros, os cemitérios do século XIX do Porto são para os mortos da cidade o que o grande hospital construído pelo Conde de Ferreira o é para os alienados, e o que a cidade nova é para os vivos – um espírito positivo de organização da nova ordem urbana, do número, do anonimato, da cidadania. Porém, os cemitérios são algo mais do que a celebração do sublime da ciência – eles são também, e isso os aproxima do boulevard, o lugar de flânerie (Tester 1995) e de experiência anónima da deambulação, o espaço produzido e representado da brevidade, melancolia e orfandade próprias da condição moderna. Produzido, porque nas ruas que desenha entre as casas-dos-mortos, com suas alamedas e pequenos bosques, promovem o passeio silencioso dos novos urbanitas, não apenas no contexto adequado de um evento fúnebre mas, e principalmente, na possibilidade quotidiana de aí aceder, passeando, como se de um quarteirão mais da cidade se tratasse. Representado porque, associado à produção de natureza vegetal, existe uma iconografia fúnebre que repete em temas diferentes iguais arquétipos que remetem para a condição moderna da nova cidade: a orfandade existencial de um deus já perdido, a intransigente anomia da vida urbana, a submissão inteira da persona ao opus. Não admira, portanto, que a cidade tenha conhecido nesta altura os seus mais notáveis suicidas. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 81 2.2 Jardins privados O século XIX foi também representativo em termos de construção de jardins privados. A observação da planta de Telles Ferreira dá-nos uma imagem da importância do verde associado à edificação, de propriedade privada, na estruturação global do sistema verde na cidade de oitocentos. Uma primeira categoria de áreas verdes associadas à edificação corresponde aos amplos logradouros do interior dos quarteirões. Correspondem a uma morfologia urbana característica do Porto, caracterizada por quarteirões de lotes estreitos e fundos que, albergando no seu interior esguios quintais, definem no seu conjunto amplas áreas verdes não percebidas a partir do espaço público da cidade. Esta forte presença dos quintais no interior dos quarteirões é um resultado directo da expansão urbana projectada pelos Almadas no século XVIII e da reprodução mais ou menos generalizada do modelo nas décadas seguintes. Tendo como objectivos da sua intervenção a definição de novas áreas de expansão da cidade, a construção de novas áreas residenciais no exterior do núcleo medieval para a burguesia mais abastada e melhorar as ligações entre o antigo centro da cidade e esses novos bairros, os Almadas acabaram por ter uma forte influência, ainda que indirecta, na estruturação das áreas verdes urbanas. A adopção de um padrão de loteamento regular, com base num lote de 5,5 metros de largura e geralmente muito comprido, atingindo por vezes os 100 metros (Teixeira 1996), não resultando de qualquer estratégia para o verde urbano, mas antes respondendo a requisitos técnicos e económicos, teve importantes repercussões para a evolução da cobertura vegetal da cidade. Estabelecendo uma morfologia urbana que contempla nas traseiras das edificações amplas áreas livres onde se estabelecem profundos quintais particulares, rompia-se com a densidade de ocupação do núcleo intramuros e formulava-se um modelo que permitia um contacto estreito com a natureza. Ainda durante a segunda metade do século XIX muitos destes interiores de quarteirão foram alvo de processos especulativos pelos seus proprietários, que construiram habitação para a classe trabalhadora nos seus próprios quintais das traseiras (Matos, Rodrigues 2009). As “ilhas”, longas filas de casas estreitas de um só andar que se abrem apenas para corredores laterais de acesso construídos ao longo dos logradouros proliferavam em muitos dos interiores de quarteirão outrora ocupados por quintais privados. Os quintais das residências unifamiliares e as quintas de recreio constituem a outra categoria de áreas verdes associadas à edificação com ampla difusão ao longo do século XIX e evidenciáveis na planta de Telles Ferreira. Surgindo em várias áreas da “cidade nova”, como no interior dos quarteirões de Cedofeita, os exemplos mais notórios encontram-se nos extremos orientais e ocidentais da mancha urbana. Tendo em comum a presença de árvores raras e exóticas, ornamentais ou de fruto, os jardins diferenciavam-se de acordo com os seus proprietários. Júlio Dinis, no seu livro Uma Família Inglesa, descreve essas diferenças. Esta nossa cidade – seja dito para aquellas pessoas, que porventura a conhecem menos – divide-se naturalmente em tres regiões, distinctas por physionomias particulares. A região oriental, a central e a occidental. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 88 Cosgrove, D. (1998) Social Formation and Symbolic Landscape. Madison: Wisconsin University Press. Cosgrove, D., Daniels, S., eds (1988) The Iconography of Landscape. Cambridge: Cambridge University Press. Driver, F. (2004) ‘Imagining the Tropics: Views and visions of the tropical world’, Singapore Journal of Tropical Geography, 25(1), 1-17. Livingstone, D. N. (2002) ‘Race, space and moral climatology’. Journal of Historical Geography 28 (2): 159-180. Livingstone, D. N. (2003) Putting science in its place. Geographies of scientific knowledge. Chicago: Chicago University Press. Madureira, H. (2001-2002) ‘Processos de transformação da estrutura verde do Porto’. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 17-19: p. 137-218. Madureira, H., Andresen, T., Monteiro, A. (2011). Green structure and planning evolution in Porto. Urban Forestry & Urban Greening, doi:10.1016/j.ufug.2010.12.004 Martins, L. (1992). ‘Do passeio público ao “jogo de cartas”: apontamentos sobre os espaços ajardinados do Porto’. Actas do VI Colóquio Ibérico de Geografia, 627640. Matos, F. L., Rodrigues, R. (2009) ‘As ilhas do Porto, lugares de resistência’. Observatorium 1 (1): 33-57. McCormick, M. (2001) Origins of the European Economy. Communications and Commerce, 300-900. Cambridge: Cambridge University Press. Oliveira, J. (1973) O espaço urbano do Porto, condições naturais e desenvolvimento. Coimbra: Centro de Estudos Geográficos Pereira, G., Serén, M. C. (1994) – ‘O Porto oitocentista’. In O. Ramos (ed.). História do Porto. Porto: Porto Editora. Pimenta, J. R. (2010) ‘Portuguese colonial geographical tradition’. Africana Studia, 14: p. 313-322. Said, E. (1978) Orientalism. London: Routledge. Schama, S. (1995) Landscape and Memory. New York: A. Knopf. Shapin, S. (1991) ‘“The Mind Is Its Own Place”. Science and Solitude in SeventeenthCentury England’. Science in Context, 4 (1): 191-218. Revista Convergência Crítica Núcleo de Estudos e Pesquisas em Teoria Social – NEPETS ISSN 2238-9288 ISSN 2238-9288 Teoria Social na Atualidade V. 1 , Nº 2, 2012 89 Silva, F. (1994) ‘Tempos Modernos’. In L. O. Ramos (ed.). História do Porto. Porto: Porto Editora. Teixeira, M. (1996) Habitação Popular na Cidade oitocentista: as ilhas do Porto. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian e Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Tester, K. (1995) The flâneur. Routledge: London. Torgal, L. R., J. A. Mendes e F. Catroga, coord. (1998). História da História de Portugal. 1. A história através da história. S.l.: Temas e Debates.