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Estratificando o Tempo em Espaços: Explorações e práticas em Escultura

Diana Cordeiro Seabra Pereira

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1 ESTRATIFICANDO O TEMPO EM ESPAÇOS Explorações e práticas em Escultura Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Relatório de Projecto Mestrado em Escultura Orientação: Professora Rute Ribeiro Rosas Diana Pereira Porto, 2014 2 3 Agradecimentos À minha orientadora, Rute Rosas, por conseguir fazer que eu expressasse o que tentava esconder, e que agora começo a perceber. À Xana, por todas as coisas boas de uma amizade longa. Mariana, Joana, Sofia e Elisa, pelas pausas bem passadas. Ao Reis e ao Ronald pela companhia e alegria nas refeições. Ao Acides Rodrigues, Carlos Lima e Tiago Cruz, pela ajuda disponibilizada no processo de trabalho. À familia pelo apoio e confiança sem medida. 4 5 RESUMO O Tempo enquanto Passagem, Memória, Fragmento, Profundidade e Sobreposição são conceitos que ajudam a definir os pressupostos deste projecto. Naquele jardim estabelecemse relações entre Vida e Morte: sendo importante a relação com o Espaço como local mutável, um contentor de Recordações. Estabelece-se um encontro com a Arqueologia, como uma investigação que se liga com a ideia de passagem de tempo, uma exploração do espaço e das suas formas como elementos da memória. Esta reflecte-se no trabalho por ser uma investigação que opera de forma amostral, a partir de vestígios do passado, analisando e interpretando esses testemunhos materiais. O processo parte da recolha de elementos com os quais se estabelece uma relação através da criação de discursos, fazendo uso de propósitos desta disciplina e moldando-os aos objectivos do trabalho. Partindo da relação entre espaços familiares, da memória e das recordações como ferramentas na criação de narrativas e ponto de cruzamento entre lugares. Com particular interesse nas diversas abordagens para representações plásticas apoiadas na ideia de procura e encontro, redescubrindo-se experiências vividas. 6 Time as Passage, Memory, Fragment, Depth and Superimposition are concepts that help define the basis for this project. In this garden connections are drawn between Life and Death: amplifying the relationship with Space as mutable, container of Memories. We establish an encounter with Archeology, as an investigation closely connected with the passage of time, in the exploration of space and its forms as elements of memory. This is reflected in the work through the sampling nature within which it works, from vestiges of the past, analyzing and interpreting these material testimonies. The process stems from the collection of elements with which we establish a relationship through the creation of discourses, making use of the purpose of such discipline and molding them according to the project’s objectives. We work from the relationship between familiar spaces and memory as tools in the creation of narratives and the intersections between places. With particular interest in the diverse approaches towards aesthetic representations supported by the idea of searching and finding, in order to rediscover lived experiences. ABSTRACT 7 ÍNDICE Resumo/Abstract 5 I – Introdução 9 II – O Jardim 13 II.I. – A arqueologia da procura 21 III – A Viagem 35 III.I – A arqueologia do tempo 43 IV – O Regresso 53 IV.I – A arqueologia do objecto 59 V – Após o Regresso 69 VI – Bibliografia 75 8 9 1 Frases como esta aparecem assim destacadas ao longo dos capítulos. São pausas minhas, são outro tempo no texto. Vão convivendo com o texto como momentos em que o pensamento se projecta para uma relação com a prática. E por isso, estas tanto convivem com o corpo de texto que vai sendo desenvolvido como vivem por si. 2 Vítor Jorge Oliveira (1948 - ), arqueólogo e escritor, Prof. Catedrático reformado da FLUP. URL: http://flup.academia.edu/VITOROLIVEIRAJORGE [Consult. 2014-07-22] 3 Gaston Bachelard (1884 - 1962), Filósofo epistimólogo francês. URL: http://www.infopedia.pt/$gaston-bachelard [Consult. 2014-07-22] Palavras que enquadram o princípio de um projecto Este projecto parte da memória como potenciadora para a criação de narrativas e ponto de cruzamento entre experiências, apoiando-se na Arqueologia, no seu interesse pela procura e de um do trabalho em torno do fragmento. Esta recolha é encarada sobre uma lógica que se relaciona com a reconstrução de memórias, de referentes que estão associados à ideia de passagem de tempo, do que se vai sobrepondo e transformando à sua passagem. Importa referir o ponto de partida do trabalho: o meu jardim. Para além da constante transformação da natureza e vida cíclica das plantas, este jardim apresenta-se como um testemunho vivo mas silencioso onde se encerram recordações e fortes ligações familiares. O Aramis vai sempre deitar-se ao pé do avô, e depois vem todo cheio de terra.1 A partir desta ideia e deste local mutável no tempo e contentor de recordações, emoções e sentimentos orientou-se o desenvolvimento deste projecto. Este relatório de projecto estará dividida em três capítulos: O Jardim; A Viagem; e O Regresso, que estabelecem uma linha evolutiva do processo de trabalho e da investigação, relacionando-se e complementando-se. Ao longo do texto recorre-se frequentemente ao arqueólogo e escritor Vítor Oliveira Jorge2 por se considera que a forma como este pensa a Arqueologia tem afinidades com o meu pensar artístico. Também existe um apoio com temas abordados por Gaston Bachelard3 no livro a Poética do Espaço, que são importantes para o pensamento e leitura do trabalho, por este estabelecer uma relação entre casa e espaços da intimidade, no que se vive entre o sótão e porão ao segredos das gavetas. Muitos elementos convergem do diário de campo para o desenvolvimento do processo de trabalho, e por isso ao longo dos capítulos vão-se encontrando afinidades de diversas origens INTRODUÇÃO 16 17 18 19 A MINHA ARQUEOLOGIA No jardim que não era o nosso eu partia, às escondidas, as conchas que decoravam o muro só para ver a forma do cimento que as segurava. Depois escondia os pedaços para que não fosse descoberta. Também gostava muito de uma pedra branca que ficava na prateleira da sala, a minha mãe explicava-me que era um fóssil. Em todas as viagens que fazíamos eu trazia ‘pedras fosseis’: assim eram mais especiais. Quando tive que fazer um trabalho de história obriguei os meus pais a levarem-me às ruínas mais próximas, ali todos os edifícios nasciam do chão. Havia ainda uma parte vedada onde um grupo ia penteando a terra e onde nasciam todas as minhas fantasias romantizadas sobre aquilo que ia sendo descoberto. Numa parte interior os objectos encontrados, e a valorização dos fragmentos. Toda a história estava ali mas parecia ser intocável. Gosto da ideia da procura e do encontro. Por vezes encontra-se porque já se procurava, outras vezes pelo acaso. Na arqueologia cada descoberta tem o seu tempo de revelação, e tudo vai sendo posto a nu com todo o cuidado. Eu tenho a minha área isolada. Como vou ao fundo? Sei que raiz é importante se queremos que as coisas sobrevivam noutro sítio. Nunca pensei em trazer muitas coisas, eu preferia trazer-me de lá. Os meus artefactos são pequenos, são tudo o que eu posso transportar e guardar. Então escavámos, e ao som do cedro que abanava com o vento voltámos a tapar. tentamos sempre coleccionar o tempo as formas partem de um espaço para o outro talvez os meus trabalhos preservem uma frieza científica 20 21 II.I - ARQUEOLOGIA DA PROCURA 8 procurar, in Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-012] URL: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/procurar A procura vem do desejo de encontrar. Uma busca por algo desconhecido. Verbo transitivo – Fazer diligências para encontrar; Buscar Verbo Pronominal – Buscar-se8 Muitas vezes reduz-se a Arqueologia à ciência da antiguidade mas esta é, na sua essência, uma ciência da procura. Uma procura que não tem fim e que reside no que está fragmentado. É nessa ideia que o meu projecto se apoia. Procuramos, buscamo-nos a partir de um jardim. Se procuramos sem mapa, dependemos da intuição, então vamos deixando-nos guiar pelo espaço, pelo que vemos e pelo que nos chama. Aí a atenção prende-se e a descoberta começa. A noção de Arqueologia é importante neste projecto porque funciona como um elemento que aglutina e transporta em si conceitos essências deste trabalho. Não se pode dissociar da concepção de Memória e passagem de Tempo, porque busca essa Memória e o que resta dela no tempo. É uma procura que vai sendo escavada e depois meticulosamente catalogada. A investigação caminha lado a lado com passagem do Tempo e morte, partindo do espaço e explorando as suas formas como elementos da Memória. Inicia-se com a procura, da acção que o tempo exerce sobre as coisas que se vão sobrepondo e transformando à sua passagem. Assim como o fóssil, que é um vestígio deixado de algo que fica acumulado numa superfície. A procura, parte daquilo que se foi deixando, que com o tempo se vai inevitavelmente transformando. Quer-se resgatar esse tempo, essa transformação e, percebê-la. O trabalho faz-se da recolha de elementos com os quais se criam discursos, moldando-se os propósitos da disciplina aos objectivos pessoais. A arqueologia da procura é entendida como orientadora e estruturante no processo da prática artística e, portanto, sabe-se que é necessário atravessar várias camadas e níveis de informação até chegar ao encontro de algo. Aqui esse encontro parte de mim. 22 9 Andrei Tarkovsky (1932 - 1986), cineasta russo, no seu livro Esculpir o Tempo reflecte sobre os conceitos que alimentavam o seu cinema. 10 Tarkovsky, Andrei, o tempo impresso in Esculpir o Tempo, Martins fontes, São Paulo, 1998, p.64 11 Bergson, Henri, Em que sentido a duração é memória in Memória e Vida, Textos escolhidos por Gilles Deleuze, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2006, p. 48 12 Tarkovsky, Andrei, o tempo impresso in Esculpir o Tempo, Martins fontes, São Paulo, 1998, p.71 13 Tarkovsky, Andrei, “(...) a partir de um “bloco de tempo” constituído por uma enorme e sólida quantidade de fatos vivos, corta e rejeita tudo aquilo de que não necessita, deixando apenas o que deverá ser um elemento do futuro filme, o que mostrará ser um componente essencial da imagem cinematográfica”, Ibidem, 1998, p.72 Numa relação entre Memória e Tempo, está a importância do sentido da duração. No trabalho parte-se de lembranças/recordações individuais que se tornam numa memória. O que se pretende é criar um vestígio dessa memória. Segundo Andrei Tarkovsky9, o tempo é um estado e a memória um conceito espiritual. E por isso um anda lado a lado com o outro. “O tempo e a memória incorporam-se numa só entidade; são como dois lados de uma medalha”10: temos algo que nos afecta e que se vai imprimir nesse tempo. A ideia de recordar como algo que define os nossos vínculos com o passado e as vias pelas quais o recordamos definem o nosso presente. O presente é entendido na medida em que o passado se encontra contido nele da mesma forma que entendemos o passado por ele já conter o devir de algo. O passado move-se e faz-nos mover. “O nosso passado, pois manifesta-se-nos integralmente no seu ímpeto e na forma de tendência, embora apenas uma ténue parte dele se torne representação.”11 Os meios com que se vai recordando é que definem o vestígio que se deixa. O vestígio é o que damos a ver. Ao expor-se, o vestígio torna-se parte do imaginário colectivo. O cinema é exemplo desta apropriação do tempo, dá “uma impressão do tempo”.12 O que se vê vive da montagem, encontra-se sempre sobre um ponto de vista. As imagens são um momento de suspensão, congelamento de uma ideia/lugar, desde aquilo que se encontra expresso até à forma como foi enquadrado. Trata-se de uma escolha, marcar um ponto de vista sobre a realidade. Enquadrar é ficcionar. O título do livro de Andrei Tarkovsky, Esculpir o Tempo, é bastante sugestivo desta ideia do tempo como matéria que se vai construindo e moldando. Evoca a imagem clássica de um bloco que se vai esculpindo, formando uma figura numa pose congelada.13 No projecto anda-se através e no tempo, as coisas escavam-se e reanimam-se num novo momento. Revolvemos as recordações nessa procura, e elas materializam-se numa memória que se partilha. 23 24 14 Benjamin, Walter, Escavar e Recordar in Imagens do Pensamento, Lisboa : Assírio & Alvim, 2004, pp. 219-220 15 Bachelard, Gaston, A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana in A Poética Espaço, São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 203 16 Ibidem, 1978, p. 209 É necessário perceber que a Arqueologia é vista aqui como elemento construtor de uma estrutura poética. Fazendo sentido no âmbito do projecto por se entender como uma metodologia ficcionada, onde eu decido as várias camadas de informação, as suas transparências e opacidades. Pois este apoia-se numa procura e na possibilidade de encontro. Então, Ciência e Arte talvez não se diferenciem em termos de necessidades de procuras, mas sim nas suas verdades. E aqui, a arte tem mais certezas do que a ciência: o artista decide até onde quer ir e onde param as suas verdades. Aqui parte-se à procura de algo que pode não ser encontrado ou que nem se sabe se existe. E se numa investigação arqueológica todos os fragmentos são tratados com cuidado, aqui tudo o que se acha tem a sua definição e revelação definida por mim. Parte-se de uma realidade individual para a construção de uma verdade artística. Tudo se vai descobrindo à medida que se vai escavando, e chegando mais fundo. A procura é sempre necessária. “Quem procura aproximar-se do seu próprio passado soterrado tem de se comportar como um homem que escava. Fundamentalmente é que ele não receie regressar repetidas vezes à mesma matéria - espalhá-la, tal como se espalha a terra, revolvê-la, tal como se revolve o solo. Porque essas ‘matérias’ mais não são do que estratos dos quais só a mais cuidadosa investigação consegue extrair aquelas coisas que justificam o esforço da escavação.”14 Assim que se revolve a terra, como sugere Walter Benjamin, vai-se fazendo aproximações e revelando caminhos. À medida que se escava, vai-se iluminando aquilo que se quer trabalhar. A escavação é algo inseparável da arqueologia, e talvez seja o procedimento mais idealizado. O acto de ir tirando a terra e descobrindo o que se encontra por baixo, cria um imaginário de achado (tesouros de outros dias?) e recuperação. Aquilo que se encontra escondido na profundidade. A exumação daquilo que se encontra estratificado. “Ao lado da terra cavada, os sonhos não têm limite.”15 Na noção de casa com um espelho das imagens da intimidade e dos seus esconderijos defendida por Gaston Bachelar, em A Poética do Espaço, o sótão e o porão (os extremos da casa) representam dois medos: o primeiro onde se encontram perto da racionalização e o segundo do inconsciente.16 Então o porão na sua profundidade é como a terra com os seus segredos. E como o próprio afirma, entra-se no espaço íntimo das intrigas subterrâneas.17 É um momento decisivo por se determinar o 25 32 29 Castro, Lourdes, in Pelas sombras, Conversa com: Maurício Pestana Reis, Lourdes Castro,Catarina Mourão e João Fernandes, Funchal, 2011 URL: http://www.porta33.com/eventos/content_eventos/lourdes_castro/lourdes_castro_ pelas_sombras.html [Consult. 2014-08-20] 30 Lourdes sobre o que a levou a começar a trabalhar com as sombras, Ibidem [Consult. 2014-08-20] 31 Zimbro, Manuel, Coisas de nada in Sombras à volta de um centro, Assírio & Alvim, 2003, p.98 32 Zimbro, Manuel, “A montante disso, muito antes do desenho ser gesto e do traço ser resultado, antes mesmo de intersecção ser causa, desenhar é um estado que, antes de qualquer coisa, assinala e designa o campo interior das nossas considerações.”, base do mundo in Sombras à Volta de um centro, Assírio & Alvim, 2003, p.30 família, cadernos com recortes de exposições, fotografias, desenhos, e trabalhos de artistas que admirava, que catalogam o que foi vivendo. É através de uma vivência pessoal que se vê o trabalho de Lourdes Castro, e se entende a sua relação com a vida, com o vivido. Como um tempo que se vai transformando e revelando diferentes sombras (Sombras à volta de centro, 1980-87). O filme mostra a essência de um processo que não é transportável, porque ele mora naquele espaço. A procura e o que pode ser encontrado na vivência do espaço. E se o seu trabalho estabelece uma relação de proximidade com as plantas, é porque estas, como a própria afirma, são da mesma natureza que nós, também têm as suas próprias relações e ciclos.29 O jardim tem as suas relações de intimidade. As plantas também têm o seu tempo e as suas formas de revelação, têm as suas dualidades, não só precisam de luz como também precisam do escuro. E no início do filme, Pelas Sombras, Lourdes Castro mostra-nos essa dualidade abrindo um dos seus armários e mostrando aquelas que desabrocham na escuridão. A catalogação da natureza através das suas sombras (Grand Herbier d’Ombres, 1972) é o fixar de um tempo que é mais efémero que o nosso. Lourdes Castro diz que, estas a atraíram por ser algo ao qual não se dava importância, algo que se deita fora, mas transporta em sim uma individualidade, porque cada um tem a sua.30 São mutáveis com o tempo e o movimento (Teatro de Sombras, 1970 ). São um gesto no tempo. Os seus trabalhos vão contornando esse tempo, e transportam a relação com o que vai acontecendo, “a atenção diária no que não-pode-deixar-de-ser-feito, impele à descoberta de novos significados – sempre. Deixando pressupor das nossas possibilidades interiores uma riqueza infinita de introspecção e subtileza”.31 Vivem da mão de quem não tem pressa, de quem se vai desenhando.32 Então é algo que vai sempre crescendo, e deixando cair o seu tempo numa superfície (Montanha de flores, 1998 - ), mapeando os vestígios de um “jardim interior”.33 Um espaço 33 33 Lima Pinharda, João, Fora do Centro/Fora do Corpo in Sombras à Volta de um centro, Assírio & Alvim, 2003, p.137 34 Zimbio, Manuel, Coisas de nada in Sombras à Volta de um centro, Assírio & Alvim, 2003, p.72 35 M. Tavares, Miguel, geometria,pensamento in Atlas do Corpo e da Imaginação, editorial Caminho, 2013, pp.26-27 que vai crescendo como aquele que se planta. As sombras são vestígio de uma ausência, e pelas sombras tem-se o sentido de outro caminho. “O sentido do caminho é o de se estar a caminho. É o movimento desse trabalho que aqui se trata. Por isso, doravante, tudo o que ela fará será tudo o que ele é: um só significado.”34 O caminho vive dos espaços que se criam no interior e de uma relação dialogante entre o que está no exterior. “Compreender é puxar para dentro,”35 é reconhecermo-nos na viagem. 34 35 A Viagem 36 37 A VIAGEM E EU Fui pelo o caminho que atravessa as nuvens e que não me deixava adormecer. Na cidade que passava o dia a ouvir tudo sem entender nada, caminhava e perdia-me só pela felicidade de ter chegado. Contar o dinheiro era o meu quebra cabeças inicial, mas a moeda da sorte já a tinha. Deu-me um rapaz no primeiro mês, quando a minha cara dizia que as coisas não estavam a correr bem. Depois quando encontrei casa tive a maior aranha sem se mexer à minha porta. A minha piedade fez com que ela ao fim de dois dias se transformasse numa moeda que encontrei ao sair de casa. Era o início dos meses frios onde o quarto era o lugar mais seguro. Havia tudo a descobrir, num tempo que andava sempre adiantado em relação ao de minha casa. Que o som do vento nas arvores era algo que também existia, mas minha sombra era algo que dificilmente me acompanhava. Quando a cidade se cobria de neve eu ficava a admirar todas as suas linhas simplificadas e escondidas sob um grande camada de branco. Nos meios passeios pelo parque ia deslocando objectos e abrindo buracos escuros pelo caminho. Eu guardava a flor de papel ou o balão rebentado que tinha ficado no chão do meu quarto, e à minha frente um mapa vazio do tamanho da parede, para ir preenchendo e me situando. Vivi numa cidade cinzenta, visitei uma ainda mais cinzenta e outra onde o sol reflectia em todo o lado. Eu dançava num barco, andei entre ruínas reconstruídas, perdi-me entre minerais, e atravessei o oceano a correr com medo de ficar fechada nele. Tudo o que queria era pensado em ser transportado, em ocupar pouco espaço e peso, por isso trouxe colada a mim uma estátua. No envelope trago as paisagens que me ajudaram a regressar. comecei no jardim e acabo numa viagem a mim? 38 39 40 41 AO LADO DA MEMÓRIA E DO ESQUECIMENTO A memória da minha avó ia-se desfazendo de dia para dia. A cabeça do meu avô estava na escuridão, e apenas recebia um pequeno ponto de luz, que vinha dos olhos. O meu avô era como uma noiva sentada ao sol a quem a minha mãe punha o véu branco para proteger dos insectos. A minha avó era uma erudita, que lia poemas escritos pelo o meu pai sobre o bem que a água fazia. Não sabíamos o que se passava no escuro, só podíamos imaginar pelo o que víamos. Não podíamos contar a história toda, mas a canção ela nunca se esquecia. 48 50 Pedrosa, Adriano in Voilá mon coeur, 1995. Ainda no texto Adriano pedrosa menciona a relação de Leonilson com a honestidade e a ideia de oferecer o seu coração, tendo como pano de fundo a obra Voilá mon coeur, 1990. URL: http://www.projetoleonilson.com.br/textos.php?pid=6 [Consult. 2014-07-17] 51 em entrevista, Eduardo Brandão e Leda Catunda falam sobre como Leonilson gostava de viajar. URL: http://itaucultural.org.br/leonilson/index.cfm/f/palavra/Viagem [Consult. 2014-07-17] 52 Harley, Karen, documentário de diários gravados de José Leonilson in Com o oceano inteiro para nadar, 1997 53 Harley, Karen, “Eu acho que fico tempo todo falando de mim, mas eu me preocupo com as pessoas. Eu acho que quando faço um desenho, uma pintura, eu quero passar um pouco dessa curiosidade sobre o mundo para as pessoas, para que elas sejam mais curiosas também.” José Leonilson, Ibidem, 1997 URL: http://itaucultural.org.br/leonilson/index.cfm/f/palavra/Viagem [Consult. 2014-07-17] 54 Eduardo Brandão, fotógrafo e curador brasileiro, amigo de José Leonilson. 55 Vicalvi, Cacá, documentário Leonilson: Tantas Verdades, Brasil, 2003 URL: http://tal.tv/video/leonilson-tantasverdades [Consult. 2014-07-17] inseguranças e hesitações. No seu carácter autobiográfico, pode ser vista como metáforas para o coração50 (Voilá mon coeur, 1990). Que o coração é aquilo que trás sentir ao que se vive. O coração, farol, a ponte, vulcões, desenhos alusivos a rios ou a veias, são alguns dos símbolos encontrados recorrentemente nos seus trabalhos, orientadores de um corpo pulsante de comunicação. Nos seus símbolos o seu coração. Num coração com todas as suas ambiguidades. Os amigos dizem que gostava de viajar, de andar e descobrir a cidade, observar as pessoas, a arquitectura.51 Estas vivências e experiências sentem-se nos seus cadernos, com anotações, desenhos ou quando se ouve o seu diário gravado. Estes representam a viagem de Leonilson, o diálogo interno, que estabelece consigo, sobre os seus dias, o que vai vendo, pensando, os seus planos, trabalhos, viagens e sonhos. Todas estas vivências e inquietações são ramificações que convergem nas suas obras, e nos temas que evocava. “Eu quero que os meus trabalhos me levem a mim (...) Não posso fazer trabalhos fáceis se a minha vida é difícil, se a minha vida sentimental é complicada”.52 E nesta relação sobre o que se vê onde podemos ser levados existe uma dualidade nos seus trabalhos. Se por um lado somos levados a emergir no seu mundo, por outro é também uma forma do próprio se ver, numa visão de fora para dentro, como num espelho em que vê o seu reflexo. Sente-se a inquietude nas palavras que usa, uma inconformidade que o movia no seu trabalho, que mesmo sendo simples nas suas formas contém uma grande carga simbólica e poética. Frutos dessa observação constante sobre si e curiosidade sobre mundo.53 Eduardo Brandão54 descreve o trabalho de Leonilson como algo que estava entre o que ele era e o que ele queria ser, vivia no conflito entre essas duas partes,55 49 56 Leonilson, José, URL:http://itaucultural.org.br/leonilson/index.cfm/f/palavra/Ponte [Consult. 2014-07-17] 57 Resende, Ricardo, “A palavra é construtora de simbologias em sua obra. É como uma simplificação minimalista, reduz os objetos, as formas e as cores em poucas ou únicas palavras a darem um sentido ao estado da alma, em ações, em pensamentos. O uso da palavra seria uma forma simples de construir imagens ou narrativas visuais. As palavras não ficam paradas nos desenhos, pinturas e bordados do artista”, Carregar o mundo nas costas é o ouro do artista in Leonilson: Sob o peso dos meus amores, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre: Fundação Iberê Camargo, 2012, p. 20 58 M. Tavares, Miguel, contra a prudência in Atlas do Corpo e da Imaginação, editorial Caminho, 2013, pp.42-44 59 Leonilson, José, citado por Pedrosa, Adriano in Voilá mon coeur. URL:http://www.projetoleonilson.com.br/textos. php?pid=6 [Consult. 2014-07-17] (Isolado frágil oposto urgente confuso,1990). Os lados que procuram a sua estabilidade, ou que convivem na instabilidade. O espírito de viajante que vai desde o fascínio de juntar elementos do seu quotidiano até às metáforas que estes podem formar na relação com o ser. “Engraçado, porque a ponte é ligação, mas as bordas não se encontram nunca (...) acho que me refiro à distância que a gente mesmo estabelece. São barreiras colocadas propositadamente. É triste, bem triste, mas...”56, (O que nos une, o que nos separa, 1990). A palavra é um elemento central na sua obra, que alimenta ou se transfigura em imagens. São narrativas de poesia visual, que estruturam as sua realidades, e seduzem na sua subjectividade. E aqui os títulos das obras também exercem um papel importante pelo o que trazem ou deixam em aberto, não são uma descrição mas outro caminho.57 Pensa-se numa obra dialogante (São tantas as verdades, 1988), que espelha várias faces da mesma pessoa. E em tantas verdades, nos reflectimos e procuramos. O seu lado poético que deixa espaço. Que não fixa num ponto exacto, tão volúvel ou questionável como ser. A exactidão pode ser um caminho fechado para o outro. E sobre o cuidado com a exactidão, Miguel M. Tavares fala de como esta pode furtar caminhos e impossibilitar o pensar.58 E por isso a obra do Leonilson prende-nos tão bem na sua subjectividade. Existe uma intimidade nos assuntos que transbordam para a forma como estes são tratados. Há uma mão inconstante que pinta, desenha, escreve. Os tecidos, as lonas, os bordados, os pequenos objectos, podem remeter para a ideia de páginas soltas. São folhas mais demoradas, por vezes mais detalhadas, simples, que desfrutam de outro tipo tempo. São outras páginas de cadernos e de diários. “Os trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade directamente, mas mostram uma visão aberta.”59 Que a prudência impede de ir longe, e o pensamento mede-se entre aquilo que se diz e escreve até ao que é conhecido. 50 51 52 60 Bachelard, Gaston “Subir a escada na casa da palavra é, de degrau em degrau, abstrair. Descer ao porão é sonhar” in A poética do Espaço, Martins Fontes, 1996, p.155, citado por M. Tavares, Miguel, casa-palavra in Atlas do Corpo e da Imaginação, 2013, pp. 45-46 O que está entre. É um diálogo constante de distâncias, e que estabelecemos na nossa narrativa, na forma como nos expomos. E se as palavras são como casas, com vários pisos (Escadinha, 1991) em que descer ao porão é sonhar,60 sobe-se e desce-se. Porque, tal como afirma Miguel M. Tavares, pensar também é mudar de posição, a linguagem também tem os seus vários perfis. Anda-se na casa da intimidade. Em Walter Benjamin e José Leonilson a viagem começa nos cadernos, embora estes se diferenciem na forma de busca e de como esta se materializa. Existem paralelismos no modo como se debruçam exaustivamente num procura que parece não ter fim. No entanto, em Walter Benjamin a palavra expressa-se na literatura vendo o mundo, enquanto que em José Leonilson a palavra concretiza-se de forma plástica e o mundo converge para ele. Ambos convergem para arquivos, mas, se em Walter Benjamin a viagem inicia-se e termina nos cadernos, na teoria, com José Leonilson os cadernos são meio para a sua prática. Ao espectador/leitor fica a possibilidade de fruir e construir de diferentes modos as imagens dessas viagens. A viagem revela o objecto. 53 O Regresso 54 55 ESCONDIDA E ESCONDER Quando comecei a trabalhar sobre o jardim foi sempre sobre algo que estava lá mas que não se via. Andava à volta de uma coisa que se encontrava mascarada por tudo. Eu que sou de natureza escondida, e sei que sempre que começo por procurar alguma coisa desvio-me daquilo que quero. Como quando preciso de arrumar o quarto e começo sempre pelas caixas que não precisam de ser mexidas. É uma forma de se processar aquilo pelo qual se começou, dando um passo atrás. O jardim e o que ele agora encerra foi ponto de partida para a procura daquilo com que não se quer confrontar. E eu não quero acumular, eu tenho medo da acumulação. as caixas são vazias, para aquelas coisas que eu nunca quis procurar, e aquelas que sempre quis que desaparecessem 56 57 64 65 77 Oliveira Jorge, Vítor, “( a ser trespassado) (...) regressando com a capacidade de narrar, isto é, de as fundir com a nossa vida anterior e posterior, de as integrar numa narrativa coerente do eu, numa autobiografia?”,Ibidem, 2003, p. 19 78 Ibidem, 2003, p. 21 79 Foucault, Michel, Arqueologia e as Histórias das ideias in Arqueologia do Saber, Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1987, pp.155160 deixa para trás, e no que tem de passado e futuro, estando sempre em constante mutação. Para Vítor Oliveira os arquivos pesam, podem controlar-nos como algo que se gostaria de esquecer, têm em si uma ideia de confissão, que se pode ou não transferir para o outro; “os objectos têm algo de peganhento”, eles vão desde de uma história a uma experiência, cabe a cada um perceber a até onde eles passam e até onde está-se disposto a passar;77 “objectos ocupam espaço”, existem no espaço e este existe devido a eles, são interdependentes. E aqui pensando no projecto, o espaço não é apenas físico, ele contem uma identidade. Ocupam espaço em nós. E assim, segundo o que autor explicita sobre as pretensões da arqueologia, pode-se estabelecer paralelismo com este projecto. Na medida em que se atribui significações a coisas do passado, que podem estar ou não visíveis, mas como frutos do mesmo presentificam-nos. Tenta-se assim reconstruir essas formas de espaço e tempo, em termos daquilo que implicam, no que diz respeito à sua materialidade e interpretação.78 O que posso referir sobre os trabalhos deste projecto é que estes são o resultado de experiências sentidas, são recordações que se materializam numa memória. Expõem-se recriações, reconstruções, que se cruzam em narrativas, oferecendo vestígios de espaços e tempos vividos. A recolha, os desenhos e objectos criados convivem juntos. Pensa-se na história das ideias como definia Michel Foucault, coisas que se decompõem ou reconstituem, que se cruzam, onde continuidades se estabelecem na obscuridade.79 E nesta ideia de obscuridade, não podemos deixar de estabelecer novamente uma relação com a prática arqueológica, que traz à luz o que se encontrava na escuridão, não apenas pelo o facto da exposição conter artefactos mas pela relação que esta impõe ao espectador. São organizações pessoais, que nas suas camadas tocam nas coisas que se mostram e escondem. Aquilo que se traz do fundo para a superfície. O que se esconde mostrando, à medida que nos vamos descobrindo. A passagem do tempo, fragmento, memória, sobreposição, no que se acha e é reconstruído e no que se enterra e desconstrói. Existem desenhos que estabelecem enquadramentos 66 67 80 Bachelard, Gaston, A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana in A Poética Espaço, São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 201 81 M. Tavares, Miguel, gavetas, conceitos in Atlas do Corpo e da Imaginação, editorial Caminho, 2013, p. 28 narrativos e desenhos que sobrepõem informação assim como as camadas de terra. Coisas enterram-se e outras deixam-se em patamares mais baixos, consoante as suas profundidades. Pensa-se em coisas que se guardam e naquelas que se desfazem. E por isso existe um interesse em matérias que se distingam nas suas efemeridades, na sua capacidade de conservar. Nas salinas de Rio Maior dizem que os pés dos marinheiros ainda podem ser encontrados debaixo da terra, conservados. Assim como as lembranças que guardamos têm as suas diferentes fragilidades, e diversas camadas. Neste projecto foi utilizado o açúcar, aqui este é a matéria frágil que guarda, e em contacto com a terra atrair bichos que andam no subsolo. Existem sequências de caixas em diferentes perspectivas, que partem da ideia de guardar e coleccionar, mas que pouco revelam daquilo que se preserva. E existem caixas para serem enterradas, construídas em açúcar e metal, demonstrando uma clara diferença de fragilidades, assim como é diferente tudo o que elas podem encerrar. Segundo Bachelard as coisas fechadas guardam as lembranças deixando -lhes os seus valores em imagens.80 As lembranças têm os seus esconderijos e todas as narrativas têm as suas fixações. O trabalho constituí-se assim por vários elementos que se intercedem e articulam, dialogando entre si em diferentes fases em comparação. “Organizar é arrumar o que existe, é limpar os obstáculos à utilização do já existe: é tornar eficaz a utilização do passado; de certa maneira é direccionar o que já se pensou, o que já se fez, o que já se falou; e direccionar significa dizer com acções: isto vai para aqui, aquilo vai para ali.”81 Eu sei que os objectos são pequenos, porque assim eu consigo controlá-los. Eles têm que ser mais controláveis que as coisas que penso. As minhas recordações ganharam forma. São agora o espólio das minhas experiências no tempo e em espaços distintos. São artefactos criados por mim, como uma mostra arquivista daquilo que foi procurado. Trata-se de procurar entender fragmentos diferentes que pertencem a um todo e se encontram organizados em espaços. Mais do que reconstruir algo que se encontre fragmentado, é uma forma de perceber e recriar o que me forma. 68 69 Após o Regresso 70 71 72 73 82 Bachelard, Gaston, A dialética do exterior e do interiror in A Poética Espaço, São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 342 Em Após o regresso pensa-se na ideia de intermitência de um própria do trabalho que reflecte sobre memórias e as suas narrativas. O após pertence a quem volta e percebe o lugar que ocupam as coisas e os lugares para onde ainda podem ir. Os artistas que foram estudados, as suas palavras em paralelo com os temas, distanciam-se em termos formais, mas os conceitos que abordam são um impulso que me faz questionar e aprofundar aquilo que procuro no meu percurso. Apanhar coisas pelo caminho, andar pelo que é novo, procurar no que é desconhecido. Aprender a ver e a viver nas coisas que se vão transformando. Certamente existem muitas hesitações e inseguranças, no sítio onde as coisas repousam. O subsolo é a essência daquilo que não se vê. Das camadas que se foram sobrepondo, e interligando. Penso na pressão que o pé exerce na terra. Ao percorrer-se várias vezes o mesmo sítio a pressão vai-se adensando. Os estratos vão-se justapondo cada vez mais, e vai sendo permitido, aos meus pés, enterrarem-se mais fundo. Assim como as intimidades, que se vão construindo e revelando com os dias. Os caminhos vão-se sempre renovando nas suas procuras e levando mais longe. De cada vez que se volta, com todos os regressos. “Então, na superfície do ser, nessa região onde o ser quer manifestar-se e quer esconderse, os movimentos de fechamento e abertura são tão numerosos, tão frequentemente invertidos, tão carregados também de hesitação, que poderíamos concluir com esta Fórmula: o homem é o ser entreaberto.”82 Por isso existem as caixas, vão haver caminhos, coisas pequenas, coisas que crescem, coisas que se podem desfazer, coisas que se podem enterrar: esse é hoje o espaço entreaberto. 80