Práticas de consumo de vestuário em Jovens: O vestuário como expressão de sentido e de integração social
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FACULDADE DE LETRA S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Luciana Guilhermina Leite de Oliveira 2º Ciclo de Estudos em Sociologia Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 2013 Orientador: Professora Doutora Dulce Maria Graça Magalhães Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social I Resumo O presente trabalho encontra-se desenvolvido sob o principal objetivo de identificar as dinâmicas inerentes à apresentação de si que se realizam por via da indumentária. Neste sentido, procurou-se dar conta de traços de interação objetivados na manipulação e uso do vestuário - o vestuário, portanto, como expressão de sentido. Este estudo sobre o vestuário enquanto simbologia alicerça-se num grupo específico - os jovens. Com efeito, os jovens e as suas juventudes têm-se afirmado como uma das mais importantes categorias sociais, sendo alvo de variadas investigações que procuram intensificar o conhecimento relativo a esta etapa da vida. Neste trabalho procuramos também dar conta das propriedades relativas aos jovens tomando-os como objeto estudado ao nível do vestuário, pretendendo compreender como este objeto é manipulado na exteriorização de identidades sociais significativas e significantes. Na verdade, o vestuário apresenta-se como ferramenta importante ao serviço da apresentação do sujeito, funcionando como plataforma de significação colocada em ação nos diversos mundos da vida quotidiana, no seio dos quais as práticas encontram lugar e propriedade. Nos seus espaços de significação o vestuário joga um importante papel porque possibilita ao corpo expressar-se, sob todas as formas de que é capaz. Em termos metodológicos optamos como técnica estruturante do trabalho pelo inquérito por questionário. A técnica da entrevista está também presente em termos complementares - através dela procurou-se aprofundar a relação/impacto que o vestuário apresenta nas dinâmicas de interação juvenis. Palavras-Chave: apresentação de si, consumo, jovens, vestuário, estratégias de distinção, integração social.
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Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social III Abstract The current paper was developed with the goal of identifying the dynamics that are inherent to self presentation that are carried out through clothing. In this line of thought, we tried to acknowledge traits of interaction that are commonly objectified in the manipulation and styling of clothing - clothes as an expression of self. This study on the clothing while symbolism is founded on a specific group - young people. In respect to this, young people and their youth days are repeatedly being regarded as one of the most important social groups, and as such are the main subject of study of many papers. Also in this study, we sought to characterize the qualities that relate to this social group - mainly through clothing, and as this social behavior can represent an outing of a social identity that is both singular and meaningful. In all truth, clothes are an important tool to present one-self, regardless of age, working as a significant platform that comes to life in the different worlds that populate daily life. Here, one’s presentation through clothing find their place and importance. In their particular playground of significance, clothing plays an important role as it enables the body to express fully. In methodological terms, we chose as technical structuring of work by questionnaire survey. The interview technique is also present in additional terms - through this technique we tried to study further the way clothing impacts on the dynamics of interaction among youngsters. Keywords: self presentation, consumption, young, clothing, strategies of distinction, social integration.
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Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social V Resumé Le présent travail est développé sous l'objectif principal d'identifier les dynamiques inhérentes à la présentation de soi qui sont détenues par les vêtements. En ce sens, nous avons essayé de réaliser des traits d’interaction ciblés dans la manipulation et l'utilisation de vêtements - vêtements, de sorte que l'expression de sens. Cette étude sur le vêtement tandis que le symbolisme est fondé sur un groupe spécifique - les jeunes. En effet, les jeunes et leur jeunesse s'imposent comme l'une des catégories sociales les plus importantes, la cible de diverses enquêtes qui visent à améliorer les connaissances concernant cette étape de la vie. Dans ce travail, nous donnons également compte des propriétés relatives aux jeunes en les prenant comme objet d'étude en termes de vêtements, faisant semblant de comprendre comment cet objet est manipulé dans l'externalisation des identités sociales significatives et pertinentes. En fait, le vêtement se présente comme un outil important au service de la présentation du sujet, que fonctionne comme une plate-forme de sens mis en action dans les différents univers de la vie quotidienne, dans laquelle les pratiques ont lieu et propriété. Dans leurs espaces de signification le vêtement joue un rôle important car il permet au corps de s'exprimer, sous toutes les formes qu’il est capable. Sur le plan méthodologique, nous avons choisi de structuration technique du travail par questionnaire. La technique d'interview est également présent dans les modalités supplémentaires - à travers cette technique nous avons cherché à approfondir la relation/l’impact que le vêtement présente dans les dynamiques d'interaction juvéniles. Mots-clés: présentation de soi, consommation, jeunes, vêtements, stratégies de distinction, intégration sociale.
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Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social VII Agradecimentos O meu agradecimento inicial encontra destinatário na pessoa da minha orientadora - Professora Doutora Dulce Magalhães - pela disponibilidade, carinho e dedicação que sempre demonstrou para comigo e para com o meu trabalho. Agradeço também a todos os jovens que contribuíram para que este trabalho se tornasse realidade. Não poderia deixar de agradecer às minhas amigas de todas as horas, Joana Coutinho, Lúcia Atilano e Teodora Costa pelo apoio e incentivo em todos os momentos de desassossego e inquietação. E aos meus pais, pelo incentivo, dedicação e apoio incansáveis.
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Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 1 Introdução O desenvolvimento de uma dissertação de Mestrado apresenta-se como um trabalho de permanente questionamento e dúvida. Efetivamente, não podemos questionar uma dada realidade se sobre ela não possuirmos uma pequena dúvida que seja, embora seja certo que indagar sobre uma realidade que se apresenta aos nossos olhos como um todo organizado e ordenado não se afigura tarefa fácil. Tanto mais que o indivíduo, que se lança no processo de inquirição e elucidação empírica, necessariamente incorre num árduo labor. Sendo nós seres socializados nesta realidade que dia a dia nos é confirmada pelos outros, sentindo-nos nela completamente integrados, é complexo o processo de duvidar. Nesta dissertação, por forma a facilitar o difícil processo de interrogação do social, valeu-nos todo o trabalho teóricoempírico desenvolvido por diversos autores que nos orientaram nesta demanda académica e pessoal. Para este trabalho de investigação, com o objetivo de obtenção do grau de Mestre em Sociologia, propusemo-nos abordar um tema relacionado com o vestuário e com os jovens. Neste sentido, procuramos aprofundar a forma como o vestuário se interrelaciona com os jovens e os seus quotidianos de ação. Partimos do princípio de que a indumentária se assumia como uma componente importante no universo juvenil, considerando, a priori, que através dela se realizam importantes processos de estetização dos quotidianos, assim como subtis dinâmicas de integração/exclusão grupal. Por outro lado, a própria juventude é em si um tema que nos fascina. Os jovens apresentam-se como uma das categorias sociais sobre as quais a sociologia mais se tem dedicado. Os sociólogos têm procurado compreender, entre outros aspetos, formas de apropriação da realidade social pelos jovens, os seus quotidianos de interação, os valores e representações juvenis, as dinâmicas da sexualidade juvenil, etc. Com base nestas premissas iniciais elaborámos um conjunto de objetivos que cumprissem o propósito de desvendar essa realidade social que ambicionávamos compreender. Entre outros aspetos, pretendíamos identificar o sentido impresso nos objetos que medeiam as relações que os indivíduos estabelecem uns com os outros, na sua vida de todos os dias; sendo que, no nosso caso, o objeto de que falamos é a roupa, ou melhor, a indumentária como expressão de sentido e integração social. Propúnhamo-nos também dar conta de formas de expressão e de interação que se desenvolvem em torno da manipulação do vestuário, assim como compreender os usos da indumentária, as representações que dela os jovens fazem possibilitando e desencadeando formas de interação social. Grosso modo, procurávamos compreender os reais impactos da apresentação de si, o sentido atribuído aos
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 2 objetos - no caso o vestuário - e a forma como moldam os quotidianos dos indivíduos imprimindo significado às trocas sociais. Tendo em conta estes propósitos de análise da realidade social optámos, em termos metodológicos, pelos instrumentos que melhor proporcionassem as clarificações que procurávamos. Assim, optámos pela aplicação do inquérito por questionário, na medida em que se equacionou como o instrumento mais apto ao cumprimento dos objetivos do trabalho. O inquérito por questionário funcionou como suporte de captação das principais tendências aquisitivas de vestuário por parte dos jovens, permitindo identificar quais os centros de consumo fundamentais, a principal quantia despendida nas compras de indumentária, assim como a clarificação das principais relações entre o vestuário e os quotidianos sociais de interação dos jovens - desvendando relações entre a classe de origem e a quantia despendida nas compras de vestuário, a importância do vestuário para os jovens, a relação entre o vestuário e a própria organização dos grupos amicais. Por outro lado, e porque compreendemos que a entrevista se afigura como instrumento muito importante ao nível do aprofundamento das questões relativas às dinâmicas subjetivas das práticas sociais optámos, também, por realizar algumas entrevistas. As entrevistas funcionaram como instrumento fundamental na apropriação e concetualização da juventude por parte dos atores sociais que tomámos como objeto de análise. Possibilitaram lançar luz sobre a forma como os jovens se percecionam a si próprios, como acham que os adultos os veem, como equacionam o vestuário enquanto instrumento performativo ao serviço da composição estilística dos seus visuais. Este trabalho encontra-se organizado por forma a dar destaque a cada uma das componentes que se entendeu serem importantes considerar. Neste sentido, dedicamos o primeiro capítulo à teorização relativa ao consumo e apresentação das suas distintas correntes de análise, no sentido de tornar claro qual a preposição teórica que norteou esta investigação. Também no primeiro capítulo teorizamos sobre a importância da socialização - componente fundamental na compreensão da forma como os sujeitos sociais se interrelacionam e se apropriam da realidade social, por meio desse processo dialético de interiorização da estrutura e de exteriorização da interioridade. Este capítulo inicial conta ainda com os contributos teóricos de Bourdieu e Goffman, ferramentas fundamentais no equacionamento do próprio trabalho. Bourdieu pela importância teórica relativa às práticas distintivas enquanto instrumento ao serviço da transmissão de diferentes estilos de vida, independentemente dos sujeitos assim o desejarem ou não. Goffman, pela teorização relativa às situações de interação social e aos padrões comportamentais que em cada situação os sujeitos desenvolvem - a
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 3 consideração de que os espaços sociais são percebidos em função de diferentes códigos, assim como disponibilizam áreas nas quais o sujeito se sente mais à vontade e áreas onde assume o desempenho performativo do seu papel social. O segundo capítulo encontra-se desenvolvido em torno da problematização teórica sobre a juventude, o corpo e o vestuário. Sobre a juventude, destacamos os importantes contributos de Machado Pais e Teixeira Lopes, autores fundamentais na compreensão relativa aos processos identitários dos jovens. Como parte integrante deste capítulo consta também uma leitura teórica relativa ao corpo - procura-se destacar as diferentes interpretações e conceções que ao longo dos tempos o corpo - enquanto imagem construída, vivida e sentida - vem sofrendo, assim como se relacionou esta componente com os jovens. A leitura teórica relativa ao vestuário centra-se, essencialmente, nas suas capacidades enquanto objetosímbolo. Pretende-se dar conta que este há muito perdeu as propriedades iminentemente utilitárias e funcionais que outrora admitia. O vestuário assume-se hoje como instrumento estilístico por meio do qual se operam diferenciações e categorizações sociais, tendo evoluído como conceito e objeto expressivo, acentuando-se enquanto componente altamente trabalhada nos processos de interação social. O terceiro capítulo encontra-se organizado no sentido de cumprir o objetivo de identificar os caminhos metodológicos da ação, assim como os motivos associados a essas escolhas. Registam-se também aqui as dificuldades e as perceções relacionadas com a recolha dos dados. Por último, o quarto capítulo em que se escrevem os resultados obtidos através do tratamento e análise dos dados empíricos. Aqui recuperamos as hipóteses teóricas no sentido de as testar, confirmando ou infirmando o que havíamos avançado. No quarto capítulo são assim expressos os resultados de todo este trabalho de investigação, procurando compreender se as hipóteses por nós avançadas encontram veracidade empírica ou se, contrariamente, se encontram padrões diferenciados daqueles que esperávamos verificar. Neste último capítulo agregam-se, entre outros, os resultados relativos ao equacionamento dos jovens e das suas juventudes, as principais práticas de vestuário por eles realizadas, assim como se identificam as formas através das quais este instrumento estilístico permite impregnar de sentido as dinâmicas sociais de interação que os jovens desenvolvem nos espaços constituintes dos seus mundos de vida quotidiana. Como última nota importa registar que: este trabalho de dissertação afirma-se apenas como um pequeno contributo relativo aos jovens e à forma como o vestuário adquire relevância e significado nos seus quotidianos. Por isso, muitas perguntas ficarão ainda por
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 4 responder, na medida em que se compreende a complexidade dos fenómenos sociais. Apesar dos esforços no sentido de atingir os objetivos a realidade social não é de resposta fácil. Certamente existirão nas páginas que se seguem lacunas que não conseguimos ultrapassar. Certamente que ficarão por tratar assuntos que poderiam ter adquirido profundidade. Ainda assim, e pese embora as limitações impostas, nomeadamente económicas e temporais, acreditamos que este trabalho cumpre o objetivo maior a que nos propúnhamos - identificar como o vestuário se assume como fator importante nos quotidianos juvenis e como através dele se realizam dinâmicas que estão para além da sua mera visualização enquanto instrumento imediatamente acessível ao olhar. É preciso olhar para além das aparências e é essa operação, difícil e complexa, que a Sociologia nos permite concretizar.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 5 Capítulo I - A construção sociológica de um mundo de vida “Porque a sociedade, seja de que forma se constituir, ao constituir-se, fala1. Fala porque se constitui e constitui-se porque começa a falar. Quem não sabe ouvi-la falar onde quer que ela fale, ainda que sem usar palavras, passa por essa sociedade às cegas: não a conhece, portanto, não pode modificá-la”. Eco, 1989; in Monteiro, 1997: 9 1.1 - O consumo enquanto prática social O trabalho de dissertação que nos propusemos desenvolver parte de um conceito fundamental que funciona como base estruturante do trabalho: referimo-nos a práticas de consumo de vestuário em jovens imanentes à apresentação de si. Não se esgotando aqui, em termos teóricos fomos mobilizando outros conceitos correlacionados e que contribuíram fortemente para a compreensão da problemática em estudo. Desses, destacamos, entre outros, socialização, juventude, corpo-imagem, habitus de classe. Como relembra Isabel Cruz, o consumo adquire cada vez mais importância nas sociedades contemporâneas (Cruz, 2009a); as sociedades atuais “(…) são, por excelência, sociedades de consumo” (Cruz, 2010: 167). Embora seja certo que a sociologia tem-se dedicado na atualidade a uma maior investigação nesta temática é também certo que o consumo aparece como uma área de interesse sociológico ainda muito recente (Cruz, 2000). Não obstante, a crescente importância que a sociologia tem vindo a dedicar ao consumo denota-se, desde logo, nas abordagens teóricas de diversos autores que centralizam e/ou circunscrevem as suas leituras da contemporaneidade no conceito de sociedade de consumo (Barbosa, 2008). Há que notar, contudo, que definir uma sociedade sob esta noção - tornando-a característica específica a partir da qual parte do trabalho teórico se desenvolverá - poderá colocar alguns problemas concetuais (idem, ibidem). Por um lado, é facto que todas as sociedades, desde sempre, consumiram para a sua reprodução física e social mas, por outro lado, é também verdade que as sociedades consumiram e consomem como necessidade assente em fins de diferenciação, de distinção, de pertença (Barbosa, 2008). Na verdade, nas sociedades atuais, ditas de consumo, a dinâmica envolvente do consumo alargou-se cumprindo, realmente, outras funções (Cruz, 2010). Se assim é, importa compreender, como salienta Barbosa, qual o verdadeiro significado do ato de consumir sob este novo rótulo - sociedade de consumo (Barbosa, 2008). 1 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 6 Autores como Baudrillard e Bauman, entre outros, desenvolvem um olhar mais pessimista da realidade; este último, por exemplo, entende que a sociedade se organiza e orienta sob a ótica de um consumo exacerbado, descrevendo-o como algo desagregador, que apenas cumpre uma função de satisfação, consumindo-se pelo prazer de consumir (Bauman, 2007b); segundo o autor, “a passagem para uma sociedade de consumidores é muitas vezes referida como representando o triunfo final do direito do indivíduo à autoafirmação, entendida enquanto sabedoria indivisível do sujeito libertado, o homo eligens2” (Bauman, 2008: 89; in Cruz, 2010: 180). Neste sentido, “a nova obrigação, a obrigação de eleger ou de escolher, é apresentada como liberdade de opção3” (Bauman, 2008: 105; in idem, ibidem: 180). Como explica Isabel Cruz, Bauman entende que nas sociedades contemporâneas, por via da cultura do consumo, o indivíduo é levado a abdicar da sua identidade pessoal e dos laços interpessoais em favor da sua liberdade individual (Cruz, 2010): “a identidade, simultaneamente caracterizada pela gratuitidade e pela obrigatoriedade, constitui um processo permanente de construção e de destruição (…). A cultura de consumo exerce uma pressão permanente sobre os indivíduos no sentido de mudarem de identidade, de se despojarem do passado e de renascerem” (Cruz, 2010: 180). Cruz adianta ainda que, para Bauman, “as vidas dos consumidores são vidas de experimentação contínua” (Cruz, 2010: 180). O que parece sobressair desta interpretação é precisamente o caráter moralista que Bauman lhe emprega, parecendo que a função que o consumo cumpre, na ótica do autor, assenta na mera satisfação de consumir - entendida, pela sua parte, como algo despropositado tendo em conta a racionalidade característica dos seres humanos. Esse aspeto poderá ser entendido como um paradoxo na medida em que os autores que se orientam sob o prisma de análise da sociedade estetizada, no qual Bauman se inclui, desenvolvem uma teorização assente na “(…) quase total ausência da visão dos agentes sociais sobre os seus atos e uma postura teórica universalizante sobre o significado e o papel do consumo na vida das pessoas, que não distingue tipos de consumo, grupos sociais e os múltiplos significados da atividade de consumir” (Barbosa, 2008: 11). Para estes autores, portanto, a sociedade assim entendida, apenas poderá resultar no desenvolvimento das noções de perda de autenticidade das relações sociais, materialismo e superficialidade. Autores como Bourdieu, Mary Douglas ou Colin Campbell chamam a atenção, por outro lado, para a necessidade de compreender o consumo como uma realidade a estudar sob diversos pontos de interesse, que permeiam e se desenvolvem na sociedade com o objetivo 2 Itálico do autor 3 Itálicos do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 7 último de melhor a compreender sociologicamente. Trata-se de equacionar, como nota Magalhães, “O que se consome? Porque é que se consome? Onde se consome? Com quem se consome?” (Magalhães, 2005: 14). Ou, como salienta Cruz, é necessário ter em conta que “a análise do acto de consumo pressupõe que o mesmo seja conceptualizado enquanto prática relacional, isto é, do actor por relação aos contextos e espaços sociais (de pertença, quotidianos); do actor por relação aos outros actores (outro significativo / outro generalizado); do actor por relação à sua própria trajectória (horizontal, ascendente ou descendente); do actor por relação aos objectos de consumo e ao seu significado simbólico” (Cruz, 2009a: 17). Portanto, o consumo, segundo esta abordagem, deverá ser equacionado sob uma perspetiva relacional - do eu por relação ao(s) outros. De facto, os indivíduos movimentam-se em espaços diferenciados, são socializados em ambientes distintos o que se traduzirá em diferenciações ao nível das práticas de consumo. Como exemplo do exposto, podemos considerar que para Bourdieu a estrutura de consumo é tida como componente fundamental para a reprodução das relações de classe (Duarte, 2010). Como esclarece Alice Duarte um dos mais importantes contributos de Bourdieu, relativo à problemática do consumo, remete para a desmistificação da naturalização do sentido estético (idem, ibidem). Por outras palavras, Bourdieu permite, através da sua teorização sobre o habitus e a sua implicação ao nível da construção de estilos de vida, a compreensão de que o gosto não se pode entender como compósito biologicamente incorporado nos genes do indivíduo, chamando a atenção para o facto de que o gosto tem que ser olhado como uma das disposições do habitus (Duarte, 2010). Segundo Duarte, na tese de Bourdieu, as particularidades dos objetos são vistas como importantes na identificação das dinâmicas objetivas por meio das quais as pessoas procuram distinguir-se (Duarte, 2010). Se, por ventura, pretendêssemos exemplificar, num breve parenteses, quais as diferenças reais que esta duplicidade concetual envolve poderíamos salientar o seguinte, pensando no conceito de Amor: Bauman, autor que se inscreve na primeira perspetiva que identificámos - relativa a uma visão mais pessimista e estetizada da sociedade de consumo - desenvolve toda uma construção sociológica remetendo e integrando nas suas temáticas de estudo as características inerentes à cultura das sociedades contemporâneas - passando-se, por isso, o mesmo quando o autor estende a análise sociológica às componentes que, na contemporaneidade, definem o Amor. Tal é perfeitamente visível no seu livro o Amor Líquido (Bauman, 2007a). As relações entre os seres humanos encontram-se em estado líquido, não são mais relações sólidas as que, Hoje, se desenvolvem entre os indivíduos. Bauman fala mesmo em descarte, como se as
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 8 relações amorosas se consumissem pelo prazer de se ter. Para o autor as mesmas adquirem o caráter de voláteis e efémeras (Bauman, 2007a). Atrevemo-nos a referir que as entende, às relações amorosas, como relações de circunstância. Já Daniel Miller, autor que se orienta sob o prisma teórico da segunda perspetiva identificada - relativa ao equacionamento do consumo enquanto ato relacional - considera que o consumo é um ato de Amor. Esclareça-se que o amor identificado por este autor não remete para o ideal romântico, referindo-se antes ao amor entendido como “(…) fundamento ideológico subjacente às relações entre os membros da família (…)” (Duarte, 2002: 372). Este é, claro, um amor de sentido distinto daquele que nos aparece em Bauman. Não obstante, a decisão da inclusão destes exemplos remete única e exclusivamente para o objetivo de explicitar de que forma as perspetivas, distintas, de análise da sociedade de consumo teoricamente diferem, por extensão, na análise que os autores desenvolvem sobre as componentes constituintes dessa sociedade, que é a contemporânea. Como escreve Duarte, Miller desenvolve uma teoria sobre o consumo na qual as compras são identificadas como atos de amor (Duarte, 2002). Miller argumenta que é através das compras que “(…) se desenvolvem e imaginam relacionamentos familiares e sociais e com os quais os compradores procuram contribuir para a criação de sujeitos desejados” (Duarte, 2002: 371-372). Argumento que se consubstancia na constatação, por parte do autor, de que as compras não são atos singulares ou individuais, querendo isto significar que a pessoa, ao efetuar as compras, não as orienta para seu próprio proveito, sendo este orientado para outras pessoas (um filho, um marido, entre outros) (idem, ibidem). O consumo teoriza-se, portanto, em termos relacionais, surge como ato que se realiza com outros e para os outros. Pelo que atrás se expôs é possível, quase em perspetiva de epílogo, argumentar que o consumo surge na sociologia, nos tempos que correm, com destaque. Entre outros aspetos porque permite a identificação de hábitos próprios de cada cultura (Cruz, 2009b) - não podemos esquecer que o consumo - os objetos que consumimos - são indicadores de modos de vida, de condições sociais de existência, componentes estruturantes das próprias práticas sociais do sujeito em interação, nos diversos mundos da vida quotidiana em que se movimenta (idem, ibidem); os bens de consumo tornaram-se objetos por meio dos quais os indivíduos estabelecem ritos e interações sociais. Como salienta Isabel Cruz, a análise dos atos de consumo permite identificar a relação entre a estrutura do consumo e o nível de desenvolvimento socioeconómico de um país, revelando assim a influência das condições objetivas de vida enquanto determinantes dos gostos e dos estilos de vida (Cruz, 2009b).
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 9 Pela sua complexidade e abrangência sociológica a problemática do consumo e das suas implicações sociais desenvolve-se em torno de duas correntes fundamentais que, tendo pontos de perspetiva distintos, abordam diferentes aspetos, componentes do tema central. Assim, autores como Bauman e Baudrillard analisam as práticas de consumo identificando os objetos como signos - a questão do consumo do signo. Por outro lado, autores como Bourdieu ou Mary Douglas abordam a questão enaltecendo os constrangimentos associados à incapacidade de aceder a determinados bens de consumo e ligando os objetos a práticas e estratégias de distinção social. Não obstante estas abordagens distintas à problemática do consumo, ambas as correntes teóricas partem de um argumento principal e fundamental: a consideração que o consumo adquiriu, na atualidade, um espaço e papel bastante distinto do desempenhado nas sociedades primitivas; as práticas de consumo encontram-se hoje “(…) impregnadas de sentidos e de valores que se reportam a desejos, a sonhos e às necessidades relativas à compreensão, à realização pessoal e à transcendência” (Cruz, 2010: 167). Assim, colocados os pressupostos teóricos, podemos deixar claro que norteámos a nossa leitura da realidade pelos contributos teóricos da segunda perspetiva, uma vez que nos importava compreender de que forma o consumo, as práticas que lhe estão associadas, orientam e estruturam as vivências dos sujeitos. Explicitando, pretendíamos compreender a relação e/ou o impacto que o consumo de vestuário tem na estrutura quotidiana das práticas sociais dos jovens tendo em conta, entre outros aspetos, o seguinte: i) Por um lado, o facto da questão das possibilidades económicas nas “escolhas” de consumo ter deixado, na contemporaneidade, de ser fator determinante. Como nota Barbosa, os produtos similares ou, por outras palavras, “a pirataria das marcas” permite o acesso a produtos que de outra forma as pessoas, com menos posses económicas, não poderiam aceder (Barbosa, 2008). Interessou-nos compreender formas de expressão e de interação que se desenvolvem em torno da manipulação do vestuário, entendido como significado da ação individual em interação, numa cultura que assenta cada vez mais em diversas possibilidades de individualização. Por este motivo também se entende a importância da obra de Pierre Bourdieu, que mobilizamos no nosso trabalho. Nos meandros desta complexa rede de consumo que caracteriza as sociedades contemporâneas, as noções de gosto - do “bom ou mau gosto” - tornam-se centrais na própria interação desenvolvida entre os indivíduos, nos contextos da vida quotidiana. Será caso para referir que quanto mais alargada a possibilidade/ “liberdade de escolha” maior a exposição e a responsabilidade individual, interpretada e manifestada, em interação social, nos conceitos de diferenciação, inclusão e exclusão que, tão
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 10 meticulosamente, Bourdieu desenvolve em A Distinção (Bourdieu, 2010). A identificação das práticas de consumo de vestuário pelos jovens, entendido enquanto objeto ao serviço da composição da imagem do eu em interação, afigura-se uma ferramenta importante no nosso estudo possibilitando compreender de que forma o vestuário poderá condicionar e estruturar as vivências dos jovens tendo sempre em linha de conta que hoje as realidades de consumo são mais dinâmicas e fluidas, mas também mais complexas e abrangentes. ii) Por outro lado, é facto que, como característica das sociedades contemporâneas, vivemos sob o domínio dos detalhes (Barbosa, 2008). Na verdade, a efemeridade das tendências da moda não poderia consubstanciar-se senão nesta imperatividade. Não se tratam, neste pressuposto, de mudanças radicais, da introdução de novíssimas variedades, mas de variações; do novo sobre a perspetiva da introdução de up loads, se assim o poderemos designar. Segundo Cruz, “nesta sociedade, o tempo de necessidade dá lugar ao tempo de oportunidades4. Um tempo aleatório, aberto à experiência do novo, transitório, constituído por instantes, por episódios com prazo fixado e por inícios ininterruptos” (Cruz, 2009a: 12). Este aspeto não deixou de ser importante para o nosso trabalho. Neste império da transformação há sempre quem seja ultrapassado. Quais serão as consequências para quem não consegue acompanhar a novidade, para quem não consegue, no imediato (pois são também imediatas as transformações), aceder às novidades estilísticas definidas, em dado momento, como prática vigente? Como último apontamento importa referir que o estudo das práticas de consumo de vestuário orientando a leitura para o grupo social dos jovens não se desenvolve ao acaso. Os jovens, nos dias que correm, têm a possibilidade de participar de uma forma mais efetiva no consumo (Ritzer, 2000; Roberts, 2003), para além de que, não esqueçamos, o consumo encontra-se, em grande parte, orientado para as novas gerações (Ritzer, 2000; Pina, 2006) - “nos últimos anos, as crianças e adolescentes [e os jovens] têm-se convertido em consumidores cada vez mais importantes (…)5” (Ritzer, 2000: 44). Esta questão não deixa de estar relacionada com a participação, cada vez mais antecipada, dos jovens em certas decisões de domínio privado: modo de vestir, sexualidade, escolha de atividades desportivas, etc. (Tedesco, 2000). Face ao exposto concordamos com Abrantes quando explica que, contrariamente ao que anteriormente se pensava, hoje sociólogos, psicólogos e antropólogos têm entendido a socialização como um processo no qual o indivíduo tem um papel mais ativo, desde os primeiros anos de vida, na interpretação das mensagens (interiorização da estrutura) 4 Itálico da autora 5 Tradução nossa
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 17 posições nesse espaço (idem, ibidem). Por outro lado, este espaço social pode também definirse como um campo de forças (idem, ibidem) - “(…) um conjunto de relações de força objectivas impostas a todos os que entram nesse campo de forças (…)” (Bourdieu, 2011: 136). Cada espaço disponibiliza, então, um conjunto de propriedades, socialmente definidas, vinculadas a uma definição social dos agentes. Será em função das componentes que dispõem para o jogo social que os indivíduos serão “arrumados” nesse mesmo espaço circunstancial. Esclareça-se que as propriedades necessárias à definição da posição do indivíduo num dado espaço de atuação são as propriedades actuantes (Bourdieu, 2011). Noutras palavras, os indivíduos encontram-se distribuídos no espaço social, ocupando esta ou aquela posição, em função das diferentes espécies de poder, ou capital, movimentadas em cada campo (idem, ibidem); “o capital (…) representa um poder sobre um campo (num dado momento) e, mais precisamente, sobre o produto acumulado do trabalho passado (…)” (Bourdieu, 2011: 136). São as diferentes espécies de capital que definem as propriedades de ganho num determinado campo - “(…) de facto, a cada campo ou subcampo corresponde uma espécie de capital particular, que ocorre, como poder e como coisa em jogo, neste campo” (Bourdieu, 2011: 137). Então, será a posse e o volume de cada um dos diferentes tipos de capital (económico, cultural, relacional e simbólico) que determinará as possibilidades de ganho, a força necessária a possuir para o jogo social no qual esse capital é chamado determinante (Bourdieu, 2011). Grosso modo, “pode-se descrever o campo social como um espaço multidimensional de posições tal que qualquer posição actual pode ser definida em função de um sistema multidimensional de coordenadas cujos valores correspondem aos valores das diferentes variáveis pertinentes: os agentes distribuem-se assim nele, na primeira dimensão, segundo o volume global do capital que possuem e, na segunda dimensão, segundo a composição do seu capital - quer dizer, segundo o peso relativo das diferentes espécies no conjunto das suas posses” (Bourdieu, 2011: 137-138). Os sujeitos distribuem-se diferentemente nesse espaço de disposições e relações sociais porque possuem diferenciadas proporções, em termos de posse e volume, de capitais. São estas propriedades actuantes (Bourdieu, 2011) que definem as possibilidades de atuação suscetíveis de serem mobilizadas pelos indivíduos em cada campo. Por isso, a prática de apropriação, qualquer que ela seja (de consumo de vestuário, vínico, de leitura, de uma obra de arte ou de uma música) entendida individualmente, num primeiro ponto, e relacionalmente, num segundo, não se desvincula desta posição invisível, tornada manifesta pelas disposições para agir que orienta e determina (idem, ibidem). Noutros termos, o uso e apropriação que os jovens realizam do vestuário não se desloca das diferentes
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 18 posições que, por descendência, ocupam no espaço social. Assim, se pretendíamos compreender os usos do vestuário, as representações que dele os jovens fazem e as manipulações que, através dele, possibilitam formas de interação não poderíamos deslocar da nossa análise a noção de que as práticas, enquanto manifestações objetivas de sistemas de apropriação diferenciados, são, também elas, dissonantes, porque reflexo de propriedades de ação divergentes. Como esclarece Magalhães, a noção de “espaço social remete-nos, portanto, para a abordagem dos lugares de classe, uma vez que o espaço social funciona como que constituído por cantos específicos. A estes cantos específicos10 - os lugares de classe - correspondem posições sociais, que irão condicionar os seus comportamentos no que respeita a tomadas de posição, isto é, a disposições precedidas por predisposições para acções, independentemente da dimensão em que se situem: acções materiais, económicas, culturais, sociais ou simbólicas” (Magalhães, 2010: 27-28). Com efeito, estas disposições para agir não se encontram deslocadas dos lugares de classe, das posições objetivas que os indivíduos ocupam no seio do espaço social por via dos capitais que possuem (e do volume em que os possuem). Novamente se regista a importância do processo de socialização, como matriz de aprendizagem para ação, uma vez que este processo de interiorização da disposição não é realizado senão pelo processo de socialização ou (re)ssocialização, se considerarmos as componentes intrínsecas ao processo de interiorização/exteriorização que se desenvolve ao longo da vida, (a esfera e importância dos grupos de pares, amigos, colegas de trabalho, grupos associativos, etc.) contribuindo para a contínua (re)formulação das estruturas mentais de ação e apropriação do mundo social (Magalhães, 2010). É nesta perspetiva de análise da realidade social constituinte que consideramos neste trabalho como premissa e hipótese teórica a identificação das práticas de consumo enquanto práticas de classe, isto porque não se pode deslocar da prática, da apropriação concreta de uma dada realidade social, as componentes primárias que possibilitaram ao sujeito a construção das estruturas mentais de leitura e de atuação nessa mesma realidade. Por outro lado, é também neste propósito que surge neste trabalho o contributo teórico de Bourdieu, na medida em que alerta para o facto de que a perceção que os indivíduos possuem do espaço social não é, de todo, desconectada da posição, diferenciada, que ocupam nesse mesmo espaço. Tal torna-se possível por meio de um conceito essencial - a noção de habitus. Clarificando: porque dispostos de maneira distinta os indivíduos são expostos, através do 10 Itálico da autora
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 19 processo de socialização, a condições objetivas de vida que serão, em função do volume e tipo de capitais que os sujeitos dispõem, diferenciadas. Ora, como afirma o autor “a relação que se estabelece, de facto, entre as características pertinentes da condição económica e social (o volume e a estrutura do capital apreendidos sincrónica e diacronicamente) e os traços distintivos associados à posição correspondente no espaço dos estilos de vida só se torna inteligível através da construção do habitus como fórmula geradora que permite levar em conta, em simultâneo, práticas e produtos classificáveis e juízos, eles próprios classificados, que constituem essas práticas e essas obras em sistema de sinais distintivos11” (Bourdieu, 2010: 270). O habitus poderá, então, entender-se como um sistema de disposições, de sentidos para agir, que orienta e esquematiza a matriz objetiva da existência individual. Por outras palavras, determinadas condições objetivas de vida permitem o desenvolvimento de um determinado conjunto de disposições - habitus - que funcionarão para o indivíduo como um farol funciona para os pescadores no mar noturno. Mais, “estrutura estruturante que organiza as práticas e a percepção das práticas, o habitus12 é também estrutura estruturada: o princípio da divisão em classes lógicas que organiza a percepção do mundo social é em si mesmo produto da incorporação da divisão em classes sociais” (Bourdieu, 2010: 271-272). O habitus funciona como uma espécie de guia para a ação, orientando o indivíduo nas suas práticas quotidianas, permanentemente acionando, nas diversas situações compósitas da realidade social envolvente do sujeito, o sistema de disposições apreendidas e, por isso, interiorizadas como o ponto a partir do qual todas as leituras, interpretações e perceções sociais se realizam. Na verdade, a realidade circundante ao indivíduo de tão interiorizada, tornou-se naturalizada, e, por essa via, não questionada. É precisamente por esta razão que Bourdieu chama a atenção para a dificuldade de questionar o mundo social - porque este encontra-se aos nossos olhos naturalizado, percecionado de uma dada forma, na medida em que não o poderíamos fazer de outra maneira; sendo seres socializados nesta realidade que dia a dia nos é confirmada pelos outros, sentindo-nos nela como peixes na água, é complexo o processo de duvidar (Bourdieu, 2010). O habitus operacionaliza as perceções, torna-as objetivas através do gosto - “o gosto (…) é a fórmula geradora que está na base do estilo de vida, conjunto unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um dos sub-espaços simbólicos 11 Itálicos do autor 12 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 20 (mobiliário, vestuário, linguagem ou hexis 13 corporal), a mesma intenção expressiva” (Bourdieu, 2010: 274). Como salienta Cruz, “(…) Bourdieu afirma que este [o gosto] depende da herança socio-cultural interiorizada do indivíduo (…) o gosto constitui um mecanismo central na organização e na distribuição de recursos simbólicos” (Cruz, 2009: 33). Ora, é este sistema de disposições apreendidas que, dia a dia, frequentemente, o indivíduo coloca em ação - os gostos, os hábitos, os gestos são mecanismos utilizados para interpretar e agir sobre a realidade social e não estão, de forma alguma, deslocados da consideração inicial e ulterior a todo o processo de interiorização - a classe social de origem (Magalhães, 2010). O mesmo será então referenciar que as práticas de consumo de vestuário que são realizadas pelos jovens dependerão, primariamente, da família e das suas circunstâncias pessoais de atuação (Jones e Martin, 1999; in Roberts, 2003). Partilhamos a noção de que a forma como os jovens constroem os seus estilos, a forma como definem as propriedades expressivas operacionalizadas pelo gosto constituinte da figura do eu em interação, não se desloca destas particularidades sociais que se edificam no seio dos espaços sociais de origem. De facto, “(…) «o habitus é uma subjectividade socializada»” (Bourdieu e Luc Wacquant:101; in Magalhães, 2010: 32). José Luís Casanova, conceptualizando sobre este conceito tão caro à teoria Bourdiana, escreve que o habitus “concorre para uma conjugação, por uma parte, e para uma superação, por outra, de dois conceitos muito próximos ao de «habitus», em termos teóricoepistemológicos, que são o de «hexis» (mais associado a dimensões incorporadas), muito utilizado a partir de Aristóteles e também por Marcell Maus, e o de «èthos»14 (mais associado a dimensões simbólicas e valorativas) (…)” ( Casanova, 1995: 48). Esclarece este autor que os habitus, sendo sistemas de disposições, não estão apenas na origem e produção específica das práticas estão, também, na origem e produção de representações sociais - “(…) em especial, das representações sobre as próprias práticas. Tendem a impor-se como esquemas geradores de práticas e de percepção e apreciação das práticas sociais (dimensão última esta a que P. Bourdieu chama «o gosto»), ambos definidores de estilos de vida particulares” (idem, ibidem: 51). O habitus engendra então as propriedades de atuação dos indivíduos assim como as propriedades de apropriação simbólica dessas mesmas práticas atuantes. Neste entendimento teórico se esclarece que os indivíduos apreendem por meio deste sistema de reconhecimento a identificar os que lhe são próximos assim como os que deles se encontram distantes na esfera social. Ora, este sistema operativo 13 Itálico do autor 14 Itálicos do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 21 de reconhecimento social - do eu por relação ao nós ou do eu por relação aos outros - nunca é tão visível, esclarece Bourdieu, como na endogamia de classe, em que se assiste a um reconhecimento do habitus pelo habitus (Bourdieu, 2010). Do exposto podemos retirar que o habitus se assume como mecanismo unificador das práticas, sendo esta característica entendida como facto - este conceito, na teorização de Bourdieu, funciona como ponto a partir do qual todas as práticas se constituem. Contudo, esclarece Casanova, tal afirmação não significa “que as práticas não possam assumir realizações distintas em situações diversas” (Casanova, 1995: 51). Bourdieu fala em transponibilidade para dar conta da capacidade do habitus como matriz operativa em situações diferentes, sem que com isso, o sistema de disposições que lhe é intrínseco, perca o âmago da sua implicação objetiva enquanto origem prática de uniformização e equivalência (Casanova, 1995). Por outro lado, importa registar que o habitus, enquanto matriz operativa implica não só a regularização dessas práticas mas, também, a introdução do novo - “as experiências da vida social são interpretadas, julgadas e assimiladas através do sistema de disposições em vigor, que constitui, igualmente, uma «gramática» que está (Casanova, 1995: 51) “no princípio da percepção e da apreciação de toda a experiência ulterior”15” (Pierre Bourdieu citado em Renato Ortiz (org.), Pierre Bourdieu op. cit., p. 64; in Casanova, 1995: 52). Sobre a questão da capacidade de integração do novo como componente intrínseca do habitus encontramos também referências em Dulce Magalhães. A autora entende este conceito numa dupla perspetiva: enquanto mecanismo que possibilita, simultaneamente, a atualização e a reprodução das condições sociais originais (Magalhães, 2010) - “assim, a possibilidade de mudança está presente, apesar da existência de um «filtro múltiplo de disposições adquiridas e activas ao longo da trajectória biográfica do agente, assim como através da história estrutural desta posição no espaço social»” (Bourdieu e Wacquant, 1992: 110; in Magalhães 2010: 48). Para Magalhães, na concetualização que Bourdieu desenvolve sobre o habitus a capacidade de introdução do novo está presente - o habitus possibilita a introdução do novo; não obstante fá-lo mediante os limites das suas fronteiras (Magalhães, 2010). É necessário que ocorra “(…) uma adequação do novo elemento às disposições (pré)existentes. A liberdade de escolha, de opção e de adopção está assim garantida, pela existência de uma margem de actuação construída, é um facto, na senda das condições sociais de existência; (…) é desta forma que se podem conceber mudanças de valores, gostos e 15 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 22 atitudes, por inerência, por sua vez, de novos e diferentes contactos sociais, de ressocializações e/ou de mobilidades classistas” (Magalhães, 2010: 48). Sobre a capacidade de integração do novo o próprio Bourdieu esclarece que “(…) o habitus tem parte ligado com o leve e o vago” (Bourdieu, 1986: 40; in Magalhães, 2010: 49). Numa breve sumarização da problemática bourdiana sublinhe-se o próprio entendimento do autor sobre a sua obra. Este escreve que desenvolver uma teoria na qual a identificação da noção de espaço social seja central implica orientar o nosso olhar sob um prisma relacional, multidimensional. De facto, remete para a consideração que jogamos um jogo no qual múltiplas peças têm lugar e destaque. Por isso, não basta, por exemplo, equacionar a posse de capital económico; implica ter em linha de conta que este tipo de capital relaciona-se com outros e é dessa mesma relação que outras se desenvolvem (Bourdieu, 2010); os capitais não são propriedades estáticas, eles multiplicam-se despoletando um conjunto de teias relacionais que, por sua vez, norteiam os possíveis universos de atuação. Esta perspetiva relacional de pensar e conceber o mundo social implica, também, ter em consideração que o espaço social adquire significado e representatividade para os que nele se movem e existem (idem, ibidem). A perspetiva de análise relacional bourdiana remete, em última instância, para a noção de que existem múltiplos espaços de preferência (Bourdieu, 2010), tantos quantos os universos de possibilidades (o universo dos automóveis, o universo das bebidas, ou mesmo, o universo do vestuário) (idem, ibidem). Estes universos de possíveis estilísticos (Bourdieu, 2010) ao funcionarem como sistemas de diferenças, ou possibilidades, permitem aos indivíduos desenvolverem práticas distintivas, diferenças objetivas que, por sua vez, objetificam pertenças sociais (Bourdieu, 2010). O universo de possibilidades e o conhecimento que dele os indivíduos possuem necessariamente categoriza os consumos, recriando espaços de diferenciação que se tornam visíveis, que tornam material uma subjetividade distintiva. Bourdieu coloca, por isso, a ênfase na maneira (Bourdieu, 2010), entendendo-a como apropriação específica de uma dada realidade social, enquanto manifestação simbólica, percecionada, subjetivamente, quer pelo sujeito produtor quer pelo sujeito recetor (idem, ibidem). Neste sentido se entende que a maneira de utilização, apropriação de um dado bem de consumo, do qual o vestuário é um exemplo, possa funcionar como instrumento de excelência de estratégias de distinção, enquanto marcador privilegiado de identificação classista. Dito de outro modo, assim se clarifica e se entende que um par de calças de ganga, por exemplo, transporte em si uma propriedade que é mais do que funcional - adquirem
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 23 propriedade simbólica, de classe. Assim, as calças de ganga, não são apenas um objeto de tecido que se usam para proteção do frio; são as calças de ganga desta ou daquela marca, que se adquirem neste ou naquele espaço de consumo e que se usam nesta ou naquela situação de interação. De facto, lembra Bourdieu, o efeito do modo de aquisição nunca é tão marcado como nas escolhas mais vulgares da vida quotidiana como sejam as que se relacionam com o mobiliário ou, mesmo, com o vestuário - “[objetos] particularmente reveladores das disposições mais profundas e antigas porque, situados fora do campo de intervenção da instituição escolar, devem ser enfrentados, se assim se pode dizer, pelo gosto nu, fora de qualquer prescrição ou proscrição expressas (…)” (Bourdieu, 2010: 144). Mediante esta concetualização teórica da realidade social Bourdieu defende que a lógica do sistema produtivo não está deslocada da lógica do sistema de consumo (Bourdieu, 2010). Os bens de consumo são produzidos em função de um determinado público que os irá consumir (idem, ibidem); neste sentido, “a homologia mais ou menos perfeita entre os campos de produção especializados nos quais se elaboram os produtos e os campos (campos das classes sociais, ou campo da classe dominante) nos quais se determinam os gostos faz com que os produtos elaborados nas lutas de concorrência travadas em cada campo de produção, e que estão na base da alteração incessante desses produtos, encontrem, sem necessidade de a demandarem expressamente, a procura que se elabora nas relações objectivas ou subjectivamente antagónicas que as diferentes classes e frações de classe mantêm a propósito dos bens de consumo materiais ou culturais ou, mais precisamente, nas lutas de concorrência que as opõem a propósito desses bens e que estão na base da mudança dos gostos” (Bourdieu, 2010: 347-348). Será este campo de produção a garantir a objetivação dos gostos, possibilitando que o indivíduo “escolha” mediante um universo de possíveis que lhe é disponibilizado. Entenda-se, como de resto o autor o clarifica, que “(…) o universo dos produtos oferecidos por cada um dos campos de produção tende a limitar o universo das formas de experiência (estética, ética, política, etc.) subjectivamente possíveis num momento dado do tempo” (Bourdieu, 2010: 348). Assim, poderemos identificar que a oferta de bens de consumo acaba por funcionar como matriz reguladora por meio da qual o indivíduo procede à operacionalização prática do seu lugar de classe; operacionaliza, por via do objeto, “(…) um gosto que foi levado da semiexistência vaga do vivido meio formulado ou não formulado, do desejo implícito e até inconsciente, à plena realidade do produto acabado (…)” (Bourdieu, 2010: 349). O produto tem, portanto, a força de objetivação de um dado estilo de vida porque os produtos, por via da
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 24 relação direta entre procura e oferta, estão sempre associados a um determinado tipo de público (idem, ibidem). Por via da operacionalização prática do gosto realizam-se padrões e sequências de apropriação e uso semelhantes - processa-se um ajustamento do que só pode ser ajustável. Na verdade, é este processo de identificação “(…) que está na base das afinidades imediatas que orientam os encontros sociais, desencorajando as relações socialmente discordantes, encorajando as relações harmoniosas, sem que estas operações tenham alguma vez de se formular de outro modo que não na linguagem socialmente inocente da simpatia ou da antipatia” (Bourdieu, 2010: 364). Foi partindo deste pressuposto de análise que procurámos compreender como o vestuário poderia funcionar enquanto instrumento de formação dos grupos amicais. Foi nesta base de entendimento que sustentámos que as peças de roupa que os jovens envergam permitem o acesso/bloqueio a determinado grupo, procurando compreender se neste sistema de identificações/diferenciações sociais o vestuário, enquanto objeto imediatamente acessível ao olhar, possibilita essas práticas de organização social expressas nas relações de amizade juvenil que se desenrolam nos espaços sociais constituintes dos seus quotidianos de atuação. 1.3.2 - Contributos de uma sociologia do vivido: a importância dos contextos de interação quotidiana enquanto palcos de atuação social A obra de Bourdieu possibilita um entendimento teórico-concetual com densa riqueza relativa às implicações objetivas da pertença social. É neste espaço social que dia a dia são travadas lutas pela posse dos capitais, ditos mais valorizados, num determinado campo de atuação. Não obstante, estas lutas simbólicas pelo domínio dos capitais considerados mais importantes num dado campo ocorre num palco, que é o palco da realidade quotidiana - é na vida quotidiana, por meio de um conjunto de interações contínuas, que os indivíduos se afirmam como detentores de conjuntos de capitais, de recursos necessários para atuar num determinando campo. O jogo social só faz sentido porque se desenvolve em contextos de constante interação, nos quais os indivíduos assumem, necessariamente, posições de dominação e sujeição. O mundo da vida quotidiana aparece em consideração neste trabalho sobre a perspetiva da interação social - “vivemos «com» os outros e «para» os outros, orientando as nossas acções e a produção de sentido de acordo com as suas próprias acções e experiências construindo, assim, dialecticamente, a realidade da vida de todos os dias” (Magalhães, 2010:
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 25 66). Reorganizando esta dialética poderemos identificar que entendemos, neste trabalho, os jovens enquanto sujeitos de interação - como jovens com e entre outros jovens. Esta noção serve, entre outros aspetos, para assinalar a importância dos contextos sociais de interação quotidiana dos jovens (a escola e o fórum Vizela como espaços do quotidiano ordinário, e mesmo o bar, eventualmente como extraordinário, mas todos eles enquanto contextos de sociabilidade e lazer), nos quais interagem com outros agentes sociais (grupos de pares, amigos, professores, funcionários) que têm implicação direta na construção do seu sentido relativo ao mundo social. Porque se compreende a importância que os grupos de pares com os quais os jovens desenvolvem, no seu espaço de vida quotidiana, constantes interações, procurou-se com este trabalho identificar de que forma o vestuário poderia funcionar como objeto/instrumento, estudado ao nível de fenómenos de inclusão/exclusão grupal. Assumimos também a posição de que nos grupos de pares se desenvolvem verdadeiras aprendizagens, porque funcionam como espaços privilegiados de interação entre os jovens, substrato real de construção de experiências socializadoras de perceção e interpretação do mundo - “(…) é nas relações face-a-face, na experiência comum e directa do mundo, que o mundo intersubjectivo (comummente apreendido e partilhado) é construído, assumindo o seu carácter concreto e evidente” (Magalhães, 2010: 65). O mundo da vida quotidiana é um mundo dotado de sentido: um sentido que é subjetivo (porque construído pelo sujeito na (e em) relação com os outros de forma a atribuir sentido aos seus atos) e objetivo (porque construído pelo sujeito na (e em) interação com os outros de forma a dotar de sentido os atos dos outros) (idem, ibidem); partilhamos uma realidade com outros indivíduos, a realidade de um mundo de vida ao qual atribuímos um sentido que não se desloca dessas interações que com os outros realizamos, aqueles que, de forma direta ou indireta, connosco partilham essa realidade (Magalhães, 2010): “conhecemos as perspectivas dos outros e os seus horizontes de familiaridade e estranheza; sabemos que pertencem ao nosso mundo da vida e que eles sabem que pertencemos ao mundo da vida deles” (Shutz in Luckmann: 136-137; in Magalhães, 2010: 66). A reflexão relativa ao sentido atribuído ao mundo da vida quotidiana surge, assim, como propriedade explicativa e identificativa desse possível sentido atribuído aos objetos - no caso particular o vestuário - buscando compreender como enformam as práticas quotidianas dos sujeitos sociais - os jovens. Nos seus espaços quotidianos de interação (a escola, o fórum ou o bar) os jovens acabam por desenvolver códigos de leitura, de conduta, construindo preposições enquadradoras da realidade social circundante com outros - os iguais (nós), ou os diferentes (eles) - aprendendo a equacionar e interpretar as situações compósitas da realidade.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 26 Assumimos a premissa de que o vestuário não se desvincula desta construção de sentido e que no grupo se (re)formulam gostos, práticas de uso e códigos de categorização que se realizam nessa dialética do eu em relação aos outros, (o que não se afigura como paradoxo ao avançado acima, aquando da identificação teórica de Bourdieu - lembremos a plasticidade intrínseca ao habitus possibilitando a introdução do novo). Enquanto seres sociais estamos inseridos em grupos nos quais desenvolvemos códigos de categorização que se afirmam e definem na diferença do eu percebido por relação ao outro interpretado - “(…) uns e outros partilham um mundo comum [o que possibilita], portanto, o estabelecimento de relações de reciprocidade entre sujeitos e de partilha empática de sentimentos e de experiências. Uns e outros funcionam, reciprocamente, como espelhos uns dos outros, nos quais podem ver reflectidos os modos de constituição das suas experiências”( Schutz; in Magalhães 2010: 68). Estas categorizações, ou modos de apreensão, funcionam como o processo através do qual os sujeitos desenvolvem o seu entendimento sobre o mundo (idem, ibidem); um entendimento que “(…) é sempre um conhecimento da tipicidade16 dos seus objectos e eventos” (Shutz in Luckmann: 268-269; in Magalhães, 2010: 69). As tipificações não são mais do que padrões cujo sentido é reconhecido pelos indivíduos e que funcionam como orientadoras dos mesmos nas mais diversas atividades da vida quotidiana (Magalhães, 2010). São, portanto, estas tipificações que, cristalizadas, nos permitem traçar modos de atuação, nossos e dos outros, possibilitando o desenvolvimento do sistema assente nos conceitos de habituação, legitimação, institucionalização - processo através do qual se edifica a construção social da realidade (Berger e Luckmann, 2004). Por ouras palavras, é no decorrer das interações que realizamos no dia a dia, imbuídas de significação, que são construídos modos de fazer e esquemas de classificação dos outros e de nós mesmos aos quais nos vamos ajustando reciprocamente, possibilitando a construção da realidade social que nos rodeia, enquanto sujeitos entre outros sujeitos (idem, ibidem). Se “toda a actividade humana está sujeita a habituação” (Berger e Luckmann, 2004: 64), qualquer ação repetida com frequência acaba por moldar um padrão permitindo, deste modo, que a mesma possa ser reproduzida, no futuro, pelo próprio indivíduo isoladamente, na interação com outros ou, ainda, em situações que envolvam novos indivíduos. Por outro lado, a partir do momento em que o indivíduo habitua a sua ação, pode, a posteriori, passar a realiza-la sem que esteja, frequentemente, a pensar em todos os passos necessários para que a mesma se torne possível (idem, ibidem). Como exemplo, quando iniciamos a condução é 16 Itálico da autora
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 33 professores e funcionários percorrem, as esquinas que os pavilhões realizam e, em geral, as áreas mais afastadas da entrada e da escadaria centrais (idem, ibidem). De forma a esclarecer a sua argumentação teórica o autor introduz um exemplo: a prática de namoro na escola. Namorar numa região de fronteira será significativamente distinto de fazê-lo numa área de bastidores. Efetivamente, Teixeira Lopes chama a atenção para o facto de que nas regiões de fronteira os comportamentos são mais contidos, porque se realizam na presença de uma vasta audiência (Lopes, 1995). Já nas regiões de retaguarda as práticas de namoro revelam-se mais ousadas assistindo-se, mesmo, por vezes, à simulação do ato sexual (idem, ibidem). Não obstante, esclarece este autor, isto não significa que nas regiões de fronteira não se assista, também, a comportamentos desinibidos porque se relacionam com uma questão mais ampla, e até à primeira vista impercetível, - a imagem que cada um procura fazer passar para os outros (Lopes, 1995). João Teixeira Lopes, com base nos dados que lhe foi possível recolher sobre jovens em situações de copresença, identifica a “(…) criação efémera de micro regiões de retaguarda dentro das regiões frontais”18 (Lopes, 1995: 128). Como exemplo, refere a situação verificada aquando da aplicação do inquérito - à medida que os jovens iam acabando de preencher o questionário, viravam-se para trás, uns para os outros, falando entre si (idem, ibidem). Pela nossa parte, não se tratava de identificar comportamentos presentes em cada um dos compartimentos constituintes dos espaços de atuação social nos quais os jovens se movimentam, mas proceder a essa identificação, possivelmente divergente, de uso e manipulação do vestuário e da imagem em função do contexto de interação que é a escola/local de trabalho - entendendo estes espaços como constituintes dos quotidianos ordinários dos jovens nos quais desempenham o papel social de aluno/profissional - e o bar/pub - entendendo-o como espaço de lazer e sociabilidade de domínio mais eletivo e flexível. Partíamos do pressuposto de que as dinâmicas sociais de interação desenvolvem-se no seio de espaços sociais específicos nos quais os jovens se interrelacionam, assumindo um conjunto de papéis sociais articulados, na construção dos quais o vestuário se apresenta como instrumento fundamental. Por outro lado, estávamos em crer que os usos e apropriações, as maneiras de ser, estar e usar as componentes de um dado mundo social (nas quais o vestuário se insere) se apresentam como manifestações objetivas, imediatamente percetíveis, por parte daqueles que partilham, ou não, um mesmo universo de possibilidades estilísticas. 18 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 34 Em suma, o desenvolvimento teórico que nestas páginas se regista assenta nessa questão fundamental que assumimos como premissa base na presente dissertação: quer o saibamos ou não, o vestuário funciona como um código de leitura que permite aos outros, de uma forma direta e rápida, perspetivar possíveis comportamentos em relação a nós, em função de determinadas leituras pré-codificadas entretanto interiorizadas nesses espaços sociais de interação quotidiana.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 35 Capítulo II - Notas sobre a concetualização de entidades de sentido: os jovens e a(s) sua(s) juventude(s); o corpo como imagem; o vestuário como simbologia social “Mas a vida em sociedade (e portanto a vida da «cultura») compõem-se por um lado de actos de comunicação, de entidades gestuais ou sonoras que «dizem que», e por outro de coisas que «funcionam» isto é, que «servem para». O homem primitivo começa a fundar uma sociedade quando aprende a exprimir-se através de sons e gestos, mas por outro lado funda a sociedade e a cultura também no momento em que inventa um instrumento, descobre a gruta, vibra a sua primeira amígdala”. Eco, 1975: 13 2.1 - Considerações iniciais - a construção de um objeto de estudo Como foi referido na introdução, este trabalho desenvolveu-se em torno de um público específico que são os jovens. Porquê a escolha deste público? Primeiro pela necessidade própria de compreender, de uma forma mais profunda, as dinâmicas dos jovens, do ser jovem. Claro que, como bem sabemos, os jovens tomados como unidade de análise seria um trabalho complexo que muito dificilmente conseguiríamos desenvolver. Não possuímos recursos, a todos os níveis, para tal. Neste sentido, tomaram-se os jovens como público-alvo, estudado não como realidade concreta a conhecer nas suas diferentes vertentes mas, antes, sob a perspetiva de um aspeto em particular - o vestuário. Entendemos, portanto, este desenvolvimento teórico sobre as práticas de consumo juvenis como mais um paço na análise e problematização da juventude. Claro que é um contributo espacializado dado que o universo de estudo se reduziu a alguns jovens Vizelenses que frequentam a escola, o fórum e o bar, mas os processos sociais, sabemo-lo, são eles próprios espacializados. A realidade que a sociologia estuda é de tal forma complexa, que não pode ser multiplicada. Note-se que apesar das características inerentes aos fenómenos e problemáticas sociais haverá sempre pontos de discórdia, pequenas particularidades que não se desvinculam desse processo particular de ser e estar no mundo, porque em função das nossas vivências, dos contextos sociais em que nos movemos e existimos, em função da nossa trajetória e, mesmo, em função da nossa idade, ou das pessoas que cruzam o nosso caminho, a história que registamos no percurso que fazemos será diferenciada e irrepetível, porque única. Não obstante, não poderíamos desenvolver um estudo sobre os jovens - ainda que espacializado e assente num único ponto de análise - sem procurar “compreender” aspetos fundamentais sobre as vivências dos jovens e é precisamente esse trabalho de
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 36 desenvolvimento relativo às considerações fundamentais de ser jovem que procuramos, nas páginas seguintes, realizar. Luísa Schmidt escrevia à data de 1985: “os «jovens» e as suas «juventudes» são hoje em dia uma das mais desconcertantes categorias sociais do senso comum. Simultaneamente «interiores» e «exteriores» à sociedade, eles são lugar de tantas ambiguidades e diversidade, que a demarcação etária requer um trabalho complementar de análise dos conteúdos culturais dos jovens que demarca” (Schmidt, 1985: 1053). Como compreender, hoje, os jovens numa sociedade que se encontra em permanente mudança tendo em conta a diversidade e, mesmo, as ambiguidades de que falava Luísa Schmidt, quase há três décadas atrás? Das leituras que realizámos sobre este público uma ideia central parece surgir. Os jovens não podem ser entendidos como “unidade” de leitura - se é certo que poderemos descrever os jovens como um conjunto de indivíduos que se encontram numa mesma fase da vida, também será certo que a experiência da juventude será diferenciada entre os jovens. Ser jovem significará o mesmo para um membro da classe operária e para um membro da classe burguesa? Significará o mesmo ser-se jovem trabalhador ou jovem estudante? Com grande probabilidade de fiabilidade poderemos responder negativamente a estas perguntas, já que a vivência da juventude será diferenciada porque estes jovens se movimentam em contextos sociais distintos que dia a dia (re)afirmam práticas e disposições sociais. Estas considerações não aparecem neste trabalho ao acaso. Na verdade, pretende-se dar conta de que é esta a noção que compartilhamos: os jovens não podem ser entendidos como uma “unidade”, como um todo, mas como partes de um todo. Partes, essas, que são diferenciadas, porque diferenciados são os contextos sociais nos quais os indivíduos vivem e se movimentam. Por outras palavras, entendemos os jovens como sujeitos distintos - nas suas práticas e representações -, porque diferentes são os recursos que mobilizam na perceção do mundo que os rodeia. Foi esta noção de diversidade, de união na diferença, que norteou todo o trabalho de investigação. Contudo, se é certo que não podemos identificar a juventude enquanto um conjunto de indivíduos que, unanimemente, partilham valores, representações sociais, gostos, tal não significa, na perspetiva de Idalina Conde, que não seja possível concetualizar sobre uma identidade juvenil (Conde, 1990). Não obstante, e como explica a autora, esta identidade juvenil necessariamente deverá ser entendida numa perspetiva relacional - no âmbito da pluralidade de situações que os jovens estabelecem com os meios sociais nos quais se desenvolvem, assim como com os membros de outras gerações, com os quais imperativamente se relacionam (idem, ibidem). Neste sentido, a identidade juvenil “não
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 37 poderá significar unidade, mas deve constituir um conceito que recobre uma manifesta convergência19 dos jovens, polarizada em torno das dimensões e domínios que consideram nucleares na sua vida” (Conde, 1990: 676). Esta autora salvaguarda que não se pretende conceber a juventude numa perspetiva hegemónica - dado que são, inclusivamente, conhecidas as divergências significativas dos diversos grupos juvenis. Trata-se, portanto, de apresentar as expressões identitárias (Conde, 1990) - os “domínios nos quais existe uma generalizada adesão dos jovens” (Conde, 1990: 676). O trabalho que desenvolvemos no âmbito desta dissertação de mestrado procurou também, de certa forma, identificar se o vestuário adquire significância expressiva no quotidiano juvenil e se, eventualmente, poderemos considerar a apresentação do eu, ou a imagem pessoal, para a qual o vestuário claramente contribui, como uma dessas características da juventude, sem esquecer essa noção fundamental de diversidade que advém de diferentes apropriações do mundo social, porque os jovens vivem e movimentam-se em contextos diferenciados de ação que lhes possibilitam construções e perceções do mundo social significativamente distintas; aspeto que aliás temos vindo a reforçar. Esclareça-se que identidade e juventude são conceitos que não se sobrepõem nem recobrem (Conde, 1990). De facto, Conde identifica que “por juventude tem-se entendido o processo e a condição social de transição que decorre entre o final da adolescência e o acesso à condição adulta, adquirida com a autonomização em relação à família de origem, nomeadamente pela entrada na vida activa e conjugal” (idem, ibidem: 676). A identidade, por outro lado, como nota a autora, não se pode cingir a estas limitações, na medida em que poderão permanecer, mesmo depois do limite cronológico socialmente identificado para a juventude, valores e modos de vida juvenis (Conde, 1990); então, “a construção da identidade social faz-se necessariamente num contexto relacional onde as propriedades dos grupos e as respectivas auto-imagens resultam de um processo de interacção e de recíprocas comparações e categorizações sociais” (Conde, 1990: 681). Como refere Pierre Bourdieu “cada condição é definida, inseparavelmente, pelas suas propriedades intrínsecas e pelas propriedades relacionais que deve à sua posição no sistema de condições, que é também um sistema de diferenças, de posições diferenciais, quer dizer, por tudo o que a distingue do que ela não é e, em particular, de tudo o que a ela se opõe: a identidade define-se e afirma-se na diferença” (Bourdieu, 1979: 191; in Conde, 1990: 681). 19 Itálico da autora
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 38 Questão relacionada com o que acima identificámos são os resultados aos quais Idalina Conde, no estudo sobre a identidade nacional e social dos jovens, chegava à data de 1990. No seu estudo a autora conclui que os próprios jovens reconhecem as singularidades que se perpetuam por via de posições diferentes no espaço social, para utilizar a linguagem de Bourdieu. A verdade é que não prevalece uma visão unitária - os jovens identificam diferenças significativas, desde logo, económicas, sociais e culturais. Sobre as diferenças ao nível da forma como encaram a vida - os valores, interesses, expetativas e projetos, estilos e estratégias de ação - Conde argumenta que refletem o sistema de disposições incorporadas, decorrentes da posição ocupada pelos indivíduos no espaço social - relembre-se que “(…) é na maneira20 e só nela que se encontra a verdade social das disposições, quer dizer, o verdadeiro princípio da compreensão e da previsão das práticas” (Bourdieu, 1979: 70; in Conde, 1990: 682-683). Claro que se pode argumentar que desde esta data muitas foram as transformações operadas na realidade social portuguesa. Será, porventura, também certo que alguns aspetos não se terão alterado de forma tão significativa, porque entendemos que as mudanças de mentalidade/perceção não se constroem ou edificam de forma tão facilitada, sendo para isso necessário fortes alterações de base ou de estrutura. Por outro lado, a introdução do referido exemplo, serve o único propósito de dar conta das propriedades distintivas de apropriação da realidade social, que os próprios jovens aprendem a realizar. Ainda segundo esta autora, os polos de convergência, aqueles que conferem uma efetiva identidade juvenil, encontram-se nos consumos e conceções culturais, na esfera dos gostos. Sobre esta questão a autora utiliza um conceito de José Madureira Pinto, inspirado nos trabalhos de Bourdieu, - o conceito de inter-habitus com o principal objetivo de dar conta da “ (…) generalizada isoformia dos gostos e práticas culturais dos jovens (…)” (Conde, 1990: 683). Conde lembra ainda que “é pois em função dos respectivos pontos de intersecção e divergência que se detectam os tipos de experiência social dos indivíduos, a natureza e grau do seu enraizamento grupal, a construção de expectativas e as disposições para a mobilidade. Nesta perspectiva analítica, a identidade aparece tomada enquanto processo, um processo forjado no seio dos contextos soci[o]estruturais e interacções quotidianas nas quais os jovens elaboram as suas categorias de inclusão/exclusão. Trata-se de categorias que definem e integram o grupo de pares no espaço de «nós», distinguindo-o e confrontando-o com o espaço dos «outros21»” (idem, ibidem: 688). 20 Itálico do autor 21 Itálico da autora
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 39 Estas considerações, desde logo, interconetam-se com a própria teorização utilizada para o desenvolvimento deste projeto. A prática só existe na e pela diferença, esclarece Bourdieu, mas esta diferença só se poderá efetivar no seio de interações que dia a dia se estabelecem com outros, nos espaços sociais nos quais os jovens se movimentam. A escola aparece, portanto, como um dos espaços de excelência, palco de interações diversas e diversificadas; aqui os jovens constroem novos universos de significação que se edificam nessa diferente pertença grupal - nós por relação aos outros. Por outro lado, na esfera do lazer, o bar/pub poderá também ser concetualizado como um importante espaço de interação social juvenil, porventura onde se jogam apresentações do eu diferenciado, porque mais liberalizadas, mas sob a mesma égide da diferenciação. Nestes quotidianos de interação os amigos adquirem importante significância afirmando-se como traves mestras, apoio na construção e crescente apropriação dos jovens com os espaços sociais que os rodeiam (Lopes, 1995; Dias e Lopes, 1996) Com efeito, um aspeto fundamental da juventude que nos leva a identificá-lo como uma das principais características da identidade juvenil, é o grupo de amigos - no estudo de Idalina Conde, 83,1% dos jovens consideravam como uma das variáveis mais importantes a relação com o grupo de amigos; Isabel dias e João Teixeira Lopes chegam a conclusões similares - os resultados do estudo sobre representações estudantis da família e dos amigos apontavam para uma percentagem de cerca de 90% de jovens a afirmar passarem grande parte dos seus tempos livres na companhia dos amigos (Dias e Lopes, 1996). Identificámos a importância de tomar a juventude como uma realidade, em si, diferenciada, o que não invalida o facto de conceber a juventude enquanto um conjunto de indivíduos aos quais se poderá atribuir uma identidade juvenil - uma identidade concetualizada numa perspetiva relacional, tomando em consideração aqueles que são os contextos estruturais - sociais e culturais - nos quais os jovens se movimentam. Sabemos hoje que a vivência da juventude será diferenciada tendo em conta um conjunto de objetividades que não podemos ignorar. Como salienta João Teixeira Lopes - “apenas podemos falar da juventude sexo por sexo, etnia por etnia, classe social por classe social e tendo ainda em conta os cenários de interacção onde estas variáveis quotidianamente se actualizam. Assim, defendo a superação de uma dupla ilusão da homogeneidade22, recusando quer uma visão unificadora da juventude no seu conjunto, quer ainda as pretensas sistematicidade e coerência das subculturas juvenis (…)” (Lopes, 1996b: 1-2). 22 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 40 Para este autor a juventude deve ser entendida como um “conjunto de indivíduos etariamente próximos, com uma consciência relativamente consistente de pertença a uma dado grupo ou quase-grupo distinto dos restantes grupos e partilhando, mais por oposição do que por identificação, uma ʽsérie de referências sociais e culturais (informação, valores, interesses, problemas, projectos, etc.)ʼ, referências essas que, em geral, se formam durante a juventude” (Lopes, 1996: 36; in Santos, 2007: 15). Considerando ainda Teixeira Lopes, registe-se que para este autor o conceito de condição juvenil permite constatar que “(…) «a pluralidade de situações e a multiplicidade de descontinuidades e estatutos híbridos e provisórios» são características inerentes ao estatuto de condição social juvenil e que o meio social de proveniência, o estatuto social, a cultura política, a profissão podem distinguir e individualizar uma série de «gerações sociais» ou «subculturas juvenis»” (Lopes, 1996: 38; in Santos, 2007: 15). Na mesma linha teórica, João Sedas Nunes argumenta sobre a necessidade de ter em conta, na leitura a realizar sobre os jovens, a consideração de variáveis como género, status ou classe social (Nunes, 1998). Percebemos, portanto, a necessidade de tomar os jovens como realidade, em si, distinta, a considerar sob diferentes pontos de análise e sempre tendo em conta variáveis estruturais de grande importância - a classe social, o género, assim como os espaços sociais do quotidiano nos quais nascem e se desenvolvem; na verdade, “ainda que a fase da vida rotulada como “adolescência” ou “juventude” seja estabelecida segundo critérios cronológicos e biológicos, ela deve ser conceptualizada em primeiro lugar como uma construção discursiva (Androutsopoulos e Georgakopoulou, 2003; Besley, 2005), social (Pais, 1993) e cultural (Lesko, 2003; Wyn e White, 1997), que denota o que é ser jovem em relação ao que é interpretado como ser criança ou adulto, em contextos históricos e culturais particulares (Fornäs, 1995)” ( Coelho, 2009: 362-363). Neste sentido, podemos, eventualmente, argumentar que o nosso trabalho poderá funcionar como mais um apontamento, uma pequena contribuição de sentido, no conhecimento relativo a esta etapa da vida que é a juventude. Por outro lado, foi também porque entendemos a necessidade de ter em conta que os jovens não crescem deslocados dos seus universos de vida e que imprimem sentido às apropriações e disposições com que interagem na realidade social, que incluímos na nossa análise a perspetiva de Bourdieu e o contributo de Goffman. Consideramos e entendemos que os processos de distinção não se realizam num vácuo da existência, ocorrem em contextos espaciais concretos, nos quais se desenvolvem complexas relações de interação que tornam visível o invisível, que projetam pertenças sociais e realidades distanciadas que os indivíduos aprendem a manipular, no
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 41 sentido de camuflar as propriedades intrínsecas do seu ser que menos que lhes interessa dar a conhecer. A conjugação destas duas correntes teóricas de análise nesta pesquisa ocorre porque as entendemos como ferramentas úteis ao serviço da explicação sociológica dos fenómenos sociais. Não partimos, portanto, da consideração da sua suposta oposição - estrutura versus ação social - mas da noção de que ambas, cada uma com suas estratégias e correntes de ação, funcionam como ferramentas complementares, no estudo da realidade social que, como bem o sabemos, é muito complexa e dinâmica. 2.2 - Contributos teóricos para concetualizar a juventude; a juventude em perspetiva O conhecimento social sobre a juventude, ao nível das ciências sociais, tem sido ao longo dos anos constante, e até crescente, desde logo, porque esta se apresenta como uma realidade social complexa e de difícil equacionamento (Pappámikail, 2010). Estas crescentes interpretações e teorizações sobre os jovens têm-se desenvolvido em torno de orientações analíticas e pontos de problematização teórica diferenciados. Como exemplo, na década de 80 autores como Cruz, Schmidt, Seruya, identificavam a juventude em torno da noção de hiato social (Santos, 2007). A juventude poderia, então, concetualizar-se como um período de espera - uma moratória - entre a infância e a adultez, estando associado a esta última etapa o marcador social de entrada na vida ativa. Nesta teorização a juventude é considerada “(…) uma situação intermédia, que medeia entre a capacidade social de emancipação e o seu efectivo exercício de carácter temporário e transitório, em que a combinação de aspectos característicos, quer da dependência infantil quer da maturidade em perspectiva, lhe conferem também uma natureza híbrida” (Cruz; Seruya; Reis e Shmidt, 1984: 285-286; in Santos, 2007: 14). Nesta corrente teórica os jovens são entendidos como adultos em futuro, considerada a juventude como um período de espera até à completa formação das faculdades físicas e sociais, socialmente construídas e aceites, que permitam aos indivíduos concretizar a adultez plena. Já na década de 90, a leitura sobre a juventude orienta-se para uma perspetiva de maior leitura sobre as práticas inscritas no quotidiano, com os estudos de Machado Pais a terem aqui grande importância (Santos, 2007). Pais apresenta-se, sem dúvida, como um autor que defende uma sociologia de vivência quotidiana, uma sociologia que seja capaz de captar, na primeira pessoa, práticas sociais de existência e de interpretação da sociedade. Como o mesmo argumenta “(…) «a sociologia da vida quotidiana tem de ser fluente em pelo menos duas linguagens (…) a linguagem da sociologia [e] a linguagem dos próprios indivíduos que investiga»” (Pais, 1993: 14; in Santos
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 42 2007: 14). Mais, para Machado Pais a sociologia da vida quotidiana apresenta-se como uma sociologia tão especializada quanto as outras. Na verdade, defende que se se apresenta tarefa difícil “(…) isolar a vida quotidiana da realidade social de que faz parte, então é lógico admitir que a sociologia da vida quotidiana é, acima de tudo, sociologia23, o mesmo se passando com todas as sociologias especializadas” (Pais, 1986: 8). A perspetiva sociológica que coloca a ênfase na vivência do quotidiano, na qual Pais se inscreve, tem contribuído de forma significativa para a compreensão das vivências, das experiências sociais e culturais dos jovens portugueses (Santos, 2007). A partir da estruturação das dinâmicas do quotidiano juvenil procuram-se identificar traços, características, perspetivas de vida e de relacionamento que enformam a(s) juventude(s). São traços de vida que se inscrevem no quotidiano, repetidamente escrevendo trajetórias plurais de significação. Mais do que uma mera entidade biológica ou etária os jovens são entendidos e encarados, também, como entidades sociais (idem, ibidem). Por outro lado, poderemos também considerar que a juventude tem sido encarada, em termos sociológicos, numa dupla dinâmica de análise. Explicitemos: alguns estudos sobre a temática da juventude procuram focalizar a análise na construção sociológica do termo, na identificação concetual da juventude à luz de determinadas correntes sociológicas, através da própria teorização relativa à evolução do conceito em si (Cruz et al., 1984; Pais, 1990a; Pappámikail, 2010); outros estudos procuram dar destaque às várias componentes que permeiam e preenchem as vivências dos jovens - por exemplo, procurando identificar e explicitar quais as relações que os jovens estabelecem com a política (Pais, 2005; Castro e Mattos, 2009), com a escola (Lopes, 1996b), com o corpo (Ferreira, 2004) e, até mesmo, colocando em destaque as idealizações/construções ideológicas que a própria sociedade, por exemplo através dos media, realiza sobre os jovens (Coelho, 2009). O objetivo será conseguir teorizar sobre essas diferentes formas segundo as quais os jovens se expressam procurando contribuir para um aprofundamento crescente relativo a esta fase da vida. Contudo, apesar dos contributos da própria sociologia para uma nova visão sobre os jovens estes aparecem, em vários escritos, como uma categoria social que tem sido histórica e socialmente identificada sob uma perspetiva negativista, digamos, problemática (Pais, 1990a; 1993; Coelho 2009; Pappámikail, 2010). Vários sociólogos têm chamado a atenção para o facto de que, quando se escreve sobre a juventude, questões relacionadas com a dependência dos jovens face aos adultos, as dificuldades crescentes de transição ao trabalho (Pais, 1990a; 23 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 49 casos aborrecida (Pais, 2000). Por isso, os jovens criam mundos e modos de vida alternativos que lhes permitam viver o presente, protagonizando-o, experimentando-o (idem, ibidem). Muitas vezes, a forma que encontram de se fazer ouvir é criando e (re)criando imagens, mensagens, apropriando-se dos espaços28 para lhes imprimir um significado, uma simbologia, fazendo falar o meio circundante sob todas as formas de que é capaz (Pais, 2000; 2005). Sobre a escola e as suas dinâmicas encontramos também contributos em Maria Emília Costa para quem “(…) o espaço escolar [se apresenta] como potencial motivador ou inibidor de identidades baseadas na exploração (…) e no investimento (…). Neste mesmo sentido joga a acentuada ritualização que atravessa estes espaços, assente numa forte estetização do quotidiano29, capaz de transformar o objecto mais banal num produto com valor simbólico acrescentado” (Costa, 1991: 153; in Lopes, 1995: 146). Na ótica desta autora neste jogo de significação ganham destaque as componentes da cultura-diversão e da apresentação de si. Teixeira Lopes corrobora, desde logo, esta enunciação: no estudo realizado nas escolas secundárias do Porto é a segunda componente que ganha mais destaque - a apresentação de si. Na verdade, “antes de se aventurarem a «aparecer em cena», os jovens querem sentir-se à altura da situação e saber que o seu aspecto corresponde ao papel que vão desempenhar. Isto poderá implicar vestuário apropriado e os penteados e a maquilhagem correctos” (Roberts e Parsell, 1990: 176; in Lopes, 1995: 147). Estes são, então, os símbolos de uma identidade que se pretende afirmar, que se pretende compreendida pelos pares (grupo) e, mais ainda, pelos não-pares (outros grupos) - “são estes os símbolos que conferem visibilidade aos “grupos” escolares, entrando, decididamente, no terreno da comunicação entre actores que interagem no mesmo cenário (…) e revelando especiais competências semânticas (no reconhecimento, por exemplo, dos significados inerentes a qualquer indumentária); cinésicas (na apropriada “gestão” de impressões que se transmitem, conscientemente ou não, através de uma panóplia de signos gestuais e de posturas); proxémicas30 (regulando a “gestão” dos signos e das distâncias interpessoais de acordo com o cenário de interacção, desde os mais vastos, até aos micro-territórios de representação e apresentação quotidianas) (…)” (Lopes, 1995: 147). Pelo exposto se compreende que a escola, enquanto espaço institucional do quotidiano ordinário dos jovens, adquire forte relevância aquando da concetualização em torno da juventude e das práticas que nela, e por ela, se desenvolvem. Na verdade, poder-se-á considerar a escola “uma segunda casa”, um local onde os jovens passam grande parte do seu 28Veja-se, a este título, os escritos de Machado Pais sobre os jovens skaters ou writers em Jovens e Cidadania (Pais, 2005). 29 Itálico do autor 30 Itálicos do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 50 dia e, por essa via, o seu tempo. Mas a escola parece encontrar-se, a mais das vezes, desajustada dos jovens aos quais procura chegar (Lopes, 1995; Pais, 2000; Relvas, 2000). Os jovens encontram-se muitas vezes presos num sistema que não compreendem a sua finalidade - serão as tiranias da sociedade (Relvas, 2000). Neste quotidiano orientado para um futuro os amigos funcionam como pontos importantes de conexão à realidade presente, sendo com eles que se jogam verdadeiras investigações sobre as práticas sociais do quotidiano, vivendo-se e aprendendo-se, (re)atribuindo sentido aos espaços sociais de convívio e interação quotidiana (Dias e Lopes 1996). Como salientam Isabel Dias e João Teixeira Lopes “(…) os amigos e as formas informais de convivialidade tornam-se num importante agente de socialização, correndo em linhas paralelas com a escola e a família, ora convergindo, ora apresentando visões do mundo alternativas (idem, ibidem: 86) Em suma, regista-se como ideia principal sobre a escola que: “para o adolescente, [e para o jovem] a escola, como instituição, representa o obrigatório, o não-voluntário, a “tirania” do social e respectivo sistema. Convenhamos que comporta, de novo, uma dimensão algo paradoxal: a componente associada à rigidez das normas colide com os esforços feitos no seu seio para que o indivíduo aprenda a utilizar, de modo responsável, a vontade própria” (Relvas, 2000: 91). Por outro lado, estando a escola tão orientada para o futuro como poderá dar atenção ao presente? Como poderá desenvolver verdadeiros intercâmbios entre o aluno e o espaço social mais amplo no qual se insere. As respostas não são tão fáceis, ou lineares, como possam parecer. Este tem sido um debate que ao longo dos tempos se tem vindo a desenvolver. Portanto, as respostas tardam e não se afiguram de fácil realização. Contudo, a questão equacionada parece-nos legítima. Quiçá, este poderá ser o mote para futura investigação (se, entre as linhas do destino, se proporcionar a realização do Doutoramento) já que o debate sobre a escola, as práticas nela veiculadas e, mesmo, as perspetivas desse futuro (cada vez menos exequível) que se procura iniciar pelo sistema de ensino estarão, com o evoluir dos tempos e das sociedades, em debate crescente. Apesar do nosso trabalho não se desenvolver em torno das funções manifestas e latentes da escola, nem tão pouco da escola em si, optamos por aqui desenvolver o pequeno trecho teórico acima identificado porque entendemos este espaço como determinante dos quotidianos juvenis - a escola são os jovens e os jovens são, eles próprios, reflexo da escola. Daí que ao teorizar sobre os jovens nos pareça importante escrever alguns apontamentos sobre a escola, instituição que permeia e ocupa grande parte do seu quotidiano.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 51 Como apontamentos finais desta teorização fiquemos com estas palavras de um jovem adolescente: “De manhã, quando acordo, só penso “para que é que a escola nos tira da cama?...”; mas não há nada a fazer, tenho que me levantar e ir para lá!31 (…) (Relvas, 2000: 91). 2. 3 - Do corpo como imagem ao vestuário como símbolo de pertença social 2.3.1 - O corpo como imagem: construída, vivida e sentida O corpo tem, nas sociedades atuais, ganho um destaque substancialmente distinto do de épocas passadas. Poderemos identificar que a identidade corpórea encontrou-se sujeita a um conjunto de transformações que, ao longo dos tempos, se foram edificando. Como exemplo, o conceito de corpo na Grécia antiga era, sem dúvida, distinto do conceito de corpo na Idade Média. No primeiro momento histórico - a Grécia antiga - o corpo era valorizado na sua forma, mais do que na sua função - “a imagem do corpo grego, ainda hoje atraente e considerada uma referência, é bastante revelador da existência e dos ideais estéticos veiculados na altura. Na verdade, este corpo era radicalmente idealizado, treinado, produzido em função do seu aprimoramento, o que nos indica que ele era, contrariamente a uma natureza, qualquer que ela fosse, um artifício a ser criado (…)” (Barbosa, Costa e Matos, 2011: 25). Já na segunda perspetiva histórica - a Idade Média - o corpo é percecionado como realidade (quase) amorfa, percecionado de forma muito direta com a componente força de trabalho; isto porque “a característica essencialmente agrária da sociedade feudal justificava o poder da presença corporal sobre a vida quotidiana; características físicas como a altura, a cor da pele e peso corporal, associadas ao vínculo que o indivíduo mantinha com a terra, eram determinantes na distribuição das funções sociais” (Barbosa, Costa e Matos, 2011: 26) mas, também porque a presença da Igreja, como doutrina influente do pensamento humano na Idade Média, influenciava as noções e idealizações do corpo enquanto instrumento de manipulação e estetização (idem, ibidem). Apesar da idealização corpórea estetizada já presente na Grécia antiga arriscamos referir que nunca o corpo adquiriu, como hoje, tanta substância, tanta propriedade (Ferreira, 2007). O corpo tornou-se veículo através do qual o indivíduo pode descrever a sua história (por exemplo, através do recurso à tatuagem), componente ao serviço da imagem pessoal que 31 Itálico da autora
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 52 manipulamos no sentido de uma adaptação às nossas expetativas socialmente construídas (idem, ibidem) - o corpo torna-se hoje instrumento de investimento, aspeto que não se desloca, assim o entendemos, das lógicas socialmente instituídas como aceites numa dada sociedade num momento histórico-temporal específico. O corpo tornou-se objeto de adoração, de incorporação (Ferreira, 2007), de molde, propriedade ao serviço do indivíduo que o trabalha em função dessa capacidade cada vez mais reivindicada socialmente que se afirma como a liberdade de uso do próprio corpo. Ora, a construção do objeto de estudo deste trabalho radicou também nesta noção de crescente importância do corpo enquanto entidade performativa. Partimos do princípio que a importância crescente que o corpo vem sofrendo nas sociedades atuais não passa despercebida aos jovens. Entendemos que o corpo, pela necessidade de o tornar apelativo para os outros, se afirma como um conceito importante no quotidiano juvenil, acreditando, na verdade, que os usos e apropriações do vestuário, a manipulação deste objeto de sentido, não se desvinculam dessa incorporação, socialmente interiorizada, que apresenta a corporeidade como instrumento crescente ao serviço da estetização da imagem pessoal e social. Como argumenta Vítor Sérgio Ferreira o conceito de incorporação tem-se desenvolvido como um conceito de grande importância sociológica, porque procura identificar os meios através dos quais a realidade social se encontra interiorizada (ou incorporada) no indivíduo (Ferreira, 2007). Neste pressuposto de entendimento, o corpo (a corporeidade) adquire designação simbólica, porque se enforma como símbolo, como entidade corporizada no espaço que transporta em si uma identidade: social, racial, de género, de classe (Ferreira, 2007). Então, o corpo permite, também, dar visibilidade, objetivar, uma realidade, à primeira vista, abstrata - o social (idem, ibidem). Como este autor esclarece, “o corpo assume assim o estatuto de operador social32, onde o social se torna possível e onde, consequentemente, se revela a eficácia do social sobre o indivíduo” (idem, ibidem: 292). Ora, esta concetualização do corpo implica um duplo movimento - o corpo enquanto interiorização da exterioridade (as condições objetivas de vida identificadas, desde logo, em Bourdieu) e de exteriorização da interioridade (sob a forma de apropriações do social) (Ferreira, 2007). O corpo afirma-se na manifestação de um ser e estar no mundo, como instrumento através do qual o sujeito existe e se apropria da realidade social - é o meio que possibilita ao Homem “pertencer ao mundo” (Bourdieu in Ferreira, 2007). Mas, este existir humano e social no mundo é distinto, diferenciado, porque distintas, e diferenciadas, são as condições 32 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 53 objetivas que corporiza - falamos de um corpo sobressocializado (Ferreira, 2007: 292) ou, mesmo, de um corpo domesticado (Lopes, 2002: 61; in Ferreira, 2007: 292). Não obstante, o corpo pode afirmar-se como lugar de oposição, de resistência, de emancipação social (idem, ibidem). É neste sentido que Ferreira defende que a corporeidade não pode ser entendida numa dimensão unilateral - o corpo dominado, prisioneiro de um ser e estar no mundo, resultado de um mais amplo pertencimento - uma pertença social e grupal (enquanto classe) (Ferreira, 2007). O corpo tem, pelo contrário, “(…) em potência, essa dupla capacidade de se revelar lugar de conformação e confrontação social33, de controlo e resistência, de autoridade e subversão, de contenção e excesso, (…) de subordinação e emancipação” (Ferreira, 2007: 293). De facto, o corpo é cada vez mais entidade socialmente reclamada, realidade construída que reivindica individualidade e pertença, envolvimento e dissidência. Aliás, como identifica Machado Pais, os direitos de cidadania que se relacionam com o uso e apropriação liberal do corpo, como o direito à individualidade, são, na atualidade, os que mais se defendem (Pais, 2005). Estes corpos construídos são também, cada vez mais, realidades que existem para os outros, porque componentes de “(…) exibição e ostentação pública (…) que materializam investimentos expressivos decorrentes de opções e decisões do sujeito, conscientemente ponderadas e planeadas, relativamente aos usos que faz do corpo” (Ferreira, 2007: 293). Falamos das tatuagens e das perfurações do corpo (piercings) (conhecimento sociológico para o qual o trabalho de Vítor Sérgio Ferreira muito tem contribuído), mas podemos falar, também, de opções estilísticas que se tornam possíveis através do vestuário - o estilo gótico, por exemplo, marcador social de uma identidade que se pretende fazer passar para os outros. Como lembra Eco, a linguagem que se expressa através do vestuário, tal como a linguagem das palavras, não assenta apenas nessa mera transmissão de significados, desdobra-se numa articulação mais complexa e intrincada que é a linguagem da mensagem ideológica servindo, então, a indumentária para a transmissão de sentidos metalinguísticos, segundo os padrões socio-históricos instituídos (Eco, 1975). Entendemos, portanto, que a linguagem do vestuário não se desloca de uma certa posição ideológica, assim como não se deslocarão, como mais à frente o registamos, de um sentido mais complexo os estilos construídos dos jovens que quotidianamente se infiltram nas relações sociais de interação; o vestuário não se desvincula dessa componente de afirmação 33 Itálicos do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 54 pessoal, dessa capacidade de fazer falar o corpo através de todas as formas de que é capaz, numa individualidade, reflexivamente, intervencionada e reivindicada. Como sugere Guiddens a reflexividade corporal (Guiddens, 1997 [1991]; in Ferreira, 2004) ganha destaque ao nível das camadas jovens da população (idem, ibidem). Na verdade, o corpo jovem tem vindo a adquirir, nas sociedades contemporâneas ocidentais, um valor sem par. É o corpo jovem, que vem sendo glorificado, venerado, símbolo de beleza e bem-estar (Ferreira, 2004). Ora, esta consideração liga-se, desde logo, ao que havíamos atrás avançado. Os jovens possuem hoje um papel distinto do desempenhado há umas décadas atrás - adquiriram mais protagonismo - “o corpo dos jovens passa, assim, a ser alvo de observação e contemplação, objecto de escrutínio e avaliação permanente, quer por parte do seu portador, quer dos que com ele se cruzam quotidianamente (…)” (Ferreira, 2004: 56). Dados de um inquérito nacional realizado a jovens com idades compreendidas entre os 15 e 29 anos, permite identificar aspetos importantes em termos da relação dos jovens com o corpo. Um dos aspetos que nos importa destacar, porque se relaciona, de forma direta, com a posição que assumimos neste trabalho, é a noção de que, em função de determinantes objetivas (classe social, grau de escolaridade, territorialização), os jovens experienciam relações com o corpo que são distintas - o que, mais uma vez, vem reforçar a necessidade de dar conta das singularidades mais do que das homologias, quando desenvolvemos apontamentos teóricos sobre a juventude. De facto, e de uma forma breve, podemos assinalar que é nos meios juvenis com maior capital escolar, com estatuto social mais elevado e residência urbana, que se encontram os jovens “(…) mais interessados nas tematizações mediatizadas do corpo, (…) bem como mais eclécticos e pormenorizados nos recursos convocados na composição dos seus visuais” (Ferreira, 2004: 57). Por outro lado, é nos jovens posicionados na base da hierarquia social, com recursos escolares elementares e residentes em meios rurais, que se verifica menos o interesse pelo corpo (idem, ibidem) enquanto, digamos, “instrumento performativo”. Registe-se, portanto, que nos contextos sociais mais favorecidos o corpo é entendido como “(…) território existencial privilegiado para a construção de uma identidade pessoal socialmente distintiva (…) [onde] a percepção do visual como forma de exprimir a individualidade34 (…) mais se acentuou” (idem, ibidem: 58). Anota-se, e corrobora-se, também, a ideia de espacialização das práticas que ao longo deste trabalho temos vindo a salientar. O corpo interage com um meio social específico agindo sobre ele e sendo dele, por conseguinte, resultado numa relação dialética de interiorização da 34 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 55 exterioridade e de exteriorização da interioridade. Com efeito, o corpo edifica-se enquanto sujeito e objeto (Silva, 2010) tornando-se propriedade tangível através da sua ligação a um espaço com o qual estabelece “(…) uma relação directa, de contacto, que não é senão uma maneira entre outras de estar em relação com o mundo” (Bourdieu, 1998: 119; in Silva, 2010: 298). O corpo é hoje palco de intervenções crescentes, intervenções que são reflexivas, conscientes e interessadas (Ferreira, 2004). O corpo veste-se como forma de transmitir uma individualidade, uma diferença que se reconhece enquanto grupo e não grupo. Esta importância crescente da imagem e da experiência do corpo enquanto “objeto” construído e que se constrói não é alheia à crescente dinâmica comercial e mediatizada que se desenvolve em torno dos jovens (Pina, 2006). Por isso, os jovens, acreditamos, não são, de todo, alheios, às representações sociais do corpo e da imagem, hoje, componentes socialmente valorizadas. Porque nos interessou também compreender essa significação, socialmente partilhada, sobre a imagem fomos levados a incluir no nosso inquérito algumas perguntas que se orientavam para esse objetivo. Interessou-nos compreender se a importância da imagem (mediatizada) não poderá contribuir, de forma direta, para a quotidianeidade e ritualização das práticas que com o corpo, ou melhor, com a apresentação do eu em interação, são mobilizadas pelos jovens. Como esclarece Vítor Sérgio Ferreira, “o reconhecimento do seu crescente [do corpo] valor de troca simbólica no espaço social, faz com que algumas das mais promissoras abordagens sociológicas do corpo o entendam como um recurso susceptível de ser capitalizado (…) sobretudo na sua dimensão expressiva, com estatuto equivalente ao objectosigno35. Universo de aparências, movimentos e sensações, o corpo contemporâneo é um corpo comunicante (…)” (Ferreira, 2004: 59); por isso mesmo, “no jogo da aparência (…), o corpo não só é questionado, desafiado e avaliado quando se observa reflectido no espelho - intracorporalidade - como se constrói em constante relação com os outros - intercorporalidade36 (…) (idem, ibidem: 60). Será caso para referir que o corpo ou, de forma mais lata, a imagem que construímos enquanto corporeidade, e que se edifica nas vivências quotidianas, encontra-se em transformação como, aliás, a vida que é também ela dinâmica e transitória, questão fundamental da existência que cada um de nós, a seu tempo, acaba por compreender. A introdução da noção de corpo neste trabalho não se realiza ao acaso. Na verdade, só através de uma compreensão mais ampla sobre a concetualização do corpo se pode entender a 35 Itálicos do autor 36 Itálicos do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 56 importância que o vestuário vem adquirindo na sociedade - uma importância que, entendemos, está assente na passagem do vestuário função para o vestuário forma (Eco, 1975) - mais do que mero objeto funcional, o vestuário apresenta-se, hoje, como expressão objetiva de um estilo de vida, identificador de pertenças sociais e de classe (Bourdieu, 2010). O vestuário é, no entanto, e apesar de toda a simbologia que transporta, um objeto inanimado, que só existe no corpo e pelo corpo. Estando nós a teorizar sobre o papel do vestuário para os jovens, não podemos esquecer que esta função exercida pela indumentária não se desloca da importância da imagem, não se desloca de noção corpórea que, no fundo, lhe dá vida. É o corpo que se veste, que se maquilha, que se coloca em posição de interação. É o corpo, afinal, que “fala”, portanto, “(…) suporte material de toda e qualquer acção humana” (Ferreira, 2004: 55). 2.3.2 - O vestuário como simbologia social Umberto Eco defende que tudo é comunicação e assim o defendemos e partilhamos também nós. Partimos para este trabalho de investigação sociológica tendo esta premissa por base - o vestuário reflete-se culturalmente como instrumento ao serviço da transmissão de mensagens. Viver e existir no mundo implica esse processo vital de comunicar com outros, mas esta comunicação, sabemo-lo hoje, não se restringe às palavras que verbalizadas tornam os conceitos atos quantificáveis e tangíveis. A comunicação é também essa vertente ilustrativa do corpo em interação, das palavras aos gestos, às expressões; serão as idiossincrasias de um ser em relação com o mundo que o rodeia, que ele próprio ajuda, constantemente, a (re)edificar. Por isso, este trabalho talvez possa ser entendido como um pequeno contributo a juntar ao estudo sobre essa outra comunicação, a comunicação do corpo que se veste, que reflete a cultura em que está inserido, o tempo em que se movimenta, a história que incorpora e exterioriza. Como já identificámos, interessou-nos compreender a importância que a imagem, para a qual o vestuário necessariamente contribui, adquire nas vivências sociais e relacionais que os jovens experienciam; pretendíamos identificar até que ponto as relações entre os jovens se desenvolvem em torno da manipulação do vestuário - a questão da apresentação de si. Isto porque se considera que através do vestuário que usamos tentamos passar uma imagem, à qual atribuímos uma simbologia, sabendo que essa mesma simbólica é apreendida pelos outros. O vestuário é assim entendido como suporte de categorizações e codificações, ainda que irrefletidas, porque “(…) mesmo descontando os diferentes níveis de intencionalidade que
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 57 condensa, emite “sinais” e “significados” que os outros, na pluralidade das suas situações e operadores sócio-culturais (na pluralidade dos seus habitus37 ) reconhecem, a um nível explícito ou mais tácito” (Lopes, 1995: 149). Face ao exposto, uma ideia, desde logo, parece importante frisar - o vestuário apresenta-se como objeto da ordem do simbólico pois através do seu uso é possível identificar certas categorizações, embora estas leituras que realizamos não possam ser dissociadas dos contextos socioculturais específicos em que têm lugar. Nas sociedades contemporâneas a indumentária tem uma importância crescente funcionando como verdadeira extensão do eu - “(…) [a roupa] representa uma espécie de espelho de si mesmo [do Homem]” (Monteiro, 1997: 1). Claro que poderemos sempre entender o vestuário como um conjunto de peças que servem esse propósito último de proteção e funcionalidade, mas parece estar provado que esta função de utilidade não restringe essa outra função, de foro mais simbólico, que o vestuário acaba por também traduzir. O vestuário parece, então, retraduzir-se, multiplicar-se, ainda que não se desvincule dessa propriedade funcional que sempre representa e representará; mais do que se limitar à ordem do «serve para» o vestuário alarga-se a uma simbólica da ação, podendo também implicar a introdução do «diz que» (Eco, 1975). Veja-se, por exemplo, todas as categorizações que estão associadas ao vestuário. Porque utiliza o militar todo aquele manancial ritualizado e estereotipado de indumentária? Porque nos vestimos nós de forma diferente em função dos contextos sociais nos quais nos movimentamos? Como explicar o uso de fato e gravata por parte dos funcionários de uma agência bancária? Será tão só para se protegem das vicissitudes, inconstâncias temporais, que os indivíduos adotam este ou aquele estilo de vestuário ou, ainda que esta componente meramente funcional se verifique, se possa introduzir aqui uma outra: a capacidade da indumentária de operar a um nível simbólico que, porventura, ultrapasse até esse outro nível funcional? Como esclarece Sigurtá: “marcar a própria presença, chamar a atenção, pôr o acento, senão a ênfase, em determinadas partes do nosso corpo, denotar com uma linguagem clara e muitas vezes mesmo codificada com precisão alguns significados, e dar a conhecer outros de maneira explícita mas sempre sensível, eis o objectivo principal do vestuário” (Sigurtá, 1975: 23). Para Gilson Monteiro, a roupa tem mesmo a importante característica de diferenciar, socialmente, grupos de indivíduos - “a roupa, tanto modernamente quanto antigamente, serve para distinguir a classe social à qual o indivíduo pertence” (Monteiro, 1997: 1); com efeito, as “roupas fornecem um estímulo, uma insinuação visual para a cultura de classe do usuário. Ela 37 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 58 serve como um símbolo de diferenciação social porque dá ao usuário alta visibilidade” (Engel, Blackwell, Miniard, 1995; in Monteiro, 1997: 8). O próprio Bourdieu chama a atenção para esta questão ao relembrar que mais do que estilos de vida diferenciados os indivíduos vivenciam estilos de vida distintos. Esta capacidade de se distinguir dos demais torna-se possível através de um conjunto unitário de preferências de vida (Bourdieu, 2010), manifestas em todas as práticas e apropriações dos sujeitos. Neste pressuposto, os objetos tornam-se marcas, distintas, de um estilo de vida que se quer evidenciar - o mobiliário, o vestuário, o(s) automóvei(s) tornam-se extensões de um eu, diferenciado dos demais (idem, ibidem). Mas, neste jogo social as distinções são, também, identificações - distantes de uns, próximos de outros. Na verdade, é certo que o habitus, enquanto conjunto de disposições para agir, diferencia e distingue os sujeitos uns dos outros mas, será igualmente verdade que, no reverso da medalha, este sistema de códigos permite, também, que os indivíduos, porque possuidores de uma matriz de disposições semelhante - porque semelhantes são as condições objetivas de vida que lhe deram lugar - se reconheçam entre iguais. Só neste pressuposto se poderá entender a típica frase: temos gostos parecidos. Monteiro esclarece que desde sempre as roupas cumpriram esta função de diferenciação/identificação social. Ainda que na antiguidade o jogo social, assente nas práticas distintivas, não se recobrisse dos mesmos moldes em que hoje se inscreve, o facto é que “(…) na essência, os significados sofrem variação mas mantêm um núcleo praticamente imutável (…)” (Monteiro, 1997: 2). De facto, apenas neste sentido se poderá entender toda a divergência, em termos de indumentária, que distinguia as classes sociais nas sociedades de outrora. O vestuário adquiria aqui a capacidade e a funcionalidade de enquadrar os indivíduos em agregados que mais do que agrupamentos de classes, eram agrupamentos de comportamentos, atitudes e ações (idem, ibidem). O vestuário funcionava como uma verdadeira extensão do eu, como se através da vestimenta se pudessem adivinhar carateres, formas de ação, padrões de comportamento e educação. A indumentária, com todos os seus adornos, parecia cumprir uma “(…) outra necessidade fundamental do homem, a de poder reconhecer a pessoa que se lhe deparava através de sinais inequívocos, de maneira a classificá-la em determinadas categorias, a que a priori38 pudesse corresponder um seu comportamento especial, evitando portanto a ânsia intolerável da incerteza da escolha” (Sigurtá, 1975: 27). Assim, o vestuário categorizava, catalogava opções de funcionamento e de utilização das roupas, pois mais do que mero objeto-função o vestuário cumpria essa outra 38 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 65 Capítulo III - Apontamentos metodológicos “Em suma, a questão não é colocar a pesquisa qualitativa versus a pesquisa quantitativa, não é decidir-se pela pesquisa qualitativa ou41 pela pesquisa quantitativa. A questão tem implicações de natureza prática, empírica, técnica. Considerando os recursos materiais, temporais e pessoais disponíveis para lidar com determinada pergunta científica, coloca-se para o pesquisador e para a sua equipa a tarefa de encontrar e usar a abordagem teórico-metedológica que permita, num mínimo de tempo, chegar a um resultado que melhor contribua para a compreensão do fenômeno e para o avanço do bem-estar social”. Günther, 2006: 207 3.1 - Hipóteses teóricas, objetivos e modelo de análise Este trabalho de investigação sociológica desenvolveu-se por meio da concetualização de um conjunto de premissas, ou hipóteses teóricas, que tomámos como base estruturante na sua elaboração prática. Assim, foi na sequência das hipóteses teóricas de trabalho que podemos proceder ao desenvolvimento dos instrumentos de recolha de informação - inquérito por questionário e entrevista semidiretiva - e também traçar as componentes teóricas, ferramentas estruturais desta dissertação de Mestrado. Quanto às hipóteses teóricas registam-se as seguintes: 1ª: o vestuário é uma forma de os jovens se afirmarem perante os outros; 2ª: as peças de roupa que os jovens envergam permitem o acesso/bloqueio a determinado grupo; 3ª: os jovens vestem-se consoante o local para o qual se dirigem: na escola/local de trabalho envergam roupas mais práticas e desportivas, no bar/pub a elaboração do vestuário é mais marcada; 4ª: o vestuário funciona como meio através do qual se projetam pertenças de classe; 5ª: os jovens demarcam-se entre si consoante o estilo construído para se apresentarem em público. As hipóteses teóricas elencadas encontram-se desenvolvidas em função de um conjunto de objetivos por nós definidos. Podemos destacar, inicialmente, o intuito de contribuir para o conhecimento sociológico sobre as representações e práticas de consumo de vestuário pelos jovens. Dentro deste objetivo, de caráter mais abrangente, incluem-se outros: a interpretação do sentido impresso nos objetos que medeiam as relações que os indivíduos estabelecem uns com os outros, na sua 41 Itálico do autor
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 66 vida de todos os dias - sendo que os objetos dos quais falamos são as roupas, o vestuário, ou melhor, a indumentária como objeto de sentido e de integração social; compreender formas de expressão e de interação que se desenvolvem em torno da manipulação do vestuário, entendido como significado, numa cultura que assenta cada vez mais em diversas possibilidades de individualização; compreender as representações que os jovens fazem do vestuário; averiguar se através do próprio vestuário se expressam relações de integração/exclusão num dado grupo; interpretar a objetivação real através da qual poderá o vestuário funcionar como uma extensão do eu; deslindar essa espécie de marca, de característica distintiva, que permite aos jovens sentirem-se próximos ou distantes de outros; compreender de que forma o vestuário poderá condicionar e estruturar as vivências dos jovens. Em suma, desvendar os reais impactos da apresentação de si, o sentido atribuído aos objetos - no caso o vestuário - e a forma como moldam os quotidianos dos indivíduos imprimindo significado às trocas sociais. Figura 1: Modelo de análise Práticas de consumo em jovens: o vestuário enquanto instrumento interpretativo A importância das condições objetivas de vida: - as práticas enquanto sistemas de sinais distintivos; _o habitus enquanto sistema de disposições para agir; _o gosto enquanto manifestação subjetiva de um estilo de vida objetivo. A interação como palco de integração social: _os espaços sociais como espaços de interação; _ os espaços constituintes das dinâmicas de interação dos jovens como palcos onde se realizam os processos de identificação/diferenciação. O papel da socialização: _interiorização e apropriação de modos de ser e estar no mundo; _o contexto social como expressão objetiva de um ser e estar no mundo. Vestuário e significado(s) _Formas de apropriação e uso das roupas; _ instrumento performativo; _ manifestação subjetiva de uma objetividade interiorizada; _códigos e usos do vestuário. Os jovens como intervenientes diretos na ação: _ perspetivas sobre a juventude _ práticas e dinâmicas de consumo e apropriação social do vestuário: _tipos, modos e contextos de consumo; _implicação das condições objetivas de vida nas suas dinâmicas de consumo; _ estetização do quotidiano: _ importância do vestuário; _categorizações associadas à indumentária expressas nos quotidianos de interação.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 67 3.2 - Os caminhos da ação Em termos das componentes concretas relativas ao processo metodológico foi nosso objetivo desenvolver este estudo no contexto social onde residimos - Vizela. A escolha desta localidade e não de outra adquire sentido pela proximidade a que nos encontramos dela, numa primeira instância. A perspetiva de estudar esta pequena cidade era aliciante; e poder, com isso, desenvolver um estudo na cidade onde habitamos, ter oportunidade de desnudar alguns aspetos que se encobrem na realidade, que tantas vezes ninguém questionará. Ora, este facto, conduz-nos a outra justificativa. Podemos em Vizela encontrar estudos sobre a realidade económica e social, estudos sobre as instituições e seus projetos mas esta identificação de aspetos que se ligam com maior profundidade aos indivíduos, pareceu-nos, ser alvo de pouca consideração. O trabalho que pretendíamos desenvolver ao longo deste ano centrava-se numa população específica que eram os jovens. Tendo este primeiro ponto assente tornou-se necessário identificar o locus empírico para recolha de informação, isto é o local onde os jovens poderiam ser contactados. Para o efeito foram inicialmente pensados dois locais que poderiam funcionar como fonte de riqueza empírica: as escolas e bares/pubs locais. Relativamente à escola pensamos que este trabalho poderia encontrar a componente empírica numa das escolas secundárias do Concelho - a Escola Secundária de Caldas de Vizela. Em relação ao bar/pub o espaço privilegiado foi o Fórum d'Horas. A escolha de uma escola secundária como local de recolha empírica resulta da perspetiva de que estes meios sociais funcionam como espaços privilegiados onde as questões de manipulação associadas ao uso do vestuário, as estratégias de apresentação de si, adquirirem destaque no quotidiano juvenil ordinário. Por outro lado, importa explicitar o motivo pelo qual a escolha também recaiu, como local de recolha de dados, no espaço social que poderemos definir como bar/pub. O objetivo desta escolha resulta da consideração de que os bares, tendo em conta os jovens como público-alvo, poderão efetivar-se como espaços favorecidos em termos do desenvolvimento de situações de interação, onde o jogo social expresso na noção de apresentação do eu adquire relevância fulcral. Importa notar outro aspeto que com estes locais se relaciona. Enquanto a escola se apresenta, essencialmente, como local institucional onde os jovens se encontram, obrigatoriamente, durante o dia, nos bares, as práticas sociais e interações emergentes de presenças não obrigatórias, poderão desenvolver-se quer durante o dia quer durante a noite. Neste sentido, poderia também ser relevante esmiuçar esta problemática ao nível da apresentação de si que os jovens,
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 68 eventualmente, realizam na passagem do dia para a noite. Estas eram as componentes iniciais da nossa ação que pretendíamos cumprir. De facto, não se tornou impossível realizá-las tal qual as havíamos planeado, embora este caminho não se tenha revelado isento de obstáculos. Confrontámo-nos, efetivamente, com a necessidade de realizar alguns ajustes que mais à frente se esclarecerão. Aquando da definição do grupo-alvo da investigação e do local de realização da recolha de informação esclareça-se que nos reportámos a um universo de jovens cuja faixa etária a privilegiar se centrou nos 15-20 anos. Importa, ainda, referir o(s) método(s) de recolha de informação privilegiado(s). Na efetivação do trabalho de investigação é necessário identificar as técnicas que, no nosso caso, se afiguraram importantes para a recolha de dados empíricos. Como se sabe nenhuma problemática teórica encontra validade sem que uma correta exposição à realidade a estudar se desenvolva. Significa isto que toda a construção teórica tem que ser passível de confirmação ou infirmação, isto é, as hipóteses, anteriormente avançadas, necessitam de validade empírica. É no processo de confronto com a realidade social que as preposições teóricas se objetivam. Ao longo deste trabalho procurámos não nos guiar apenas por uma única corrente de análise da realidade que pretendíamos estudar. Efetivamente, se é verdade que procurávamos identificar práticas e/ou tendências de consumo nos jovens através da expressão objetiva que é o vestuário, também pretendíamos identificar o sentido, as interpretações que os sujeitos realizam, e que se expressam nas situações de interação com outros. Importa, portanto, perceber que na pesquisa sociológica não existe um caminho mais certo do que o outro. A escolha por um caminho ou por outro depende, desde logo, das considerações teóricas que pretendemos percorrer e do próprio objeto que pretendemos estudar. Por outro lado, as distintas técnicas de recolha de informação - quantitativa ou qualitativa - não têm necessariamente de se apresentarem como mutuamente exclusivas, podem complementar-se, dando corpo, cada uma por seu método, a uma investigação sociológica. Por outras palavras, os métodos de recolha de informação empírica devem ser entendidos como ferramentas possíveis de análise da realidade empírica, metodologias a serem acionadas em função dos fundamentos teórico-metodológicos definidos para a ação. Partilhamos, a este nível, da visão de Minayo e Sanches quando esclarecem: “nenhuma das duas [abordagens metodológicas], porém, é boa, no sentido de ser suficiente para a compreensão completa dessa realidade. Um bom método será sempre aquele, que permitindo uma construção correta dos dados, ajude a refletir sobre a dinâmica da teoria. Portanto, além
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 69 de apropriado ao objeto de investigação e de oferecer elementos teóricos para a análise, o método tem que ser operacionalmente exequível” (Minayo e Sanches, 1993: 239). Estes autores chamam atenção para a necessidade de se ter em conta a complexidade da realidade social - os sociólogos estudam fenómenos sociais que se organizam em inúmeras ramificações, que se desenvolvem em intrincadas e complexas relações e, nesse sentido, a mais das vezes verifica-se a necessidade de não se ficar por um ou por outro método de análise, sendo necessário a utilização de ambos, numa perspetiva de complementaridade (idem, ibidem). Nesta linha de pensamento, Minayo e Sanches defendem que “o conhecimento científico é sempre uma busca de articulação entre uma teoria e a realidade empírica; o método é o fio condutor para se formular essa articulação. O método tem, pois, uma função fundamental: (…) é a “própria alma do conteúdo”, como dizia Lenin (1965), e significa o próprio “caminho do pensamento”, conforme a expressão de Habermas (1987)” (Minayo e Sanches, 1993: 240). Assim sendo, e em função do que atrás redigíamos, a técnica principal de recolha de informação empírica foi o inquérito por questionário, embora reconhecendo e tendo sempre presente a premissa de que nenhuma técnica se afigura melhor do que outra. As técnicas utilizadas devem, essencialmente, cumprir os objetivos que são identificados como suporte do trabalho de investigação e no nosso caso específico o questionário afigurava-se como a técnica mais apta a cumprir o avançado em termos de premissas de ação. Como sugerem Quivy e Campenhoudt o questionário possibilita “(…) o conhecimento de uma população enquanto tal: as suas condições e modos de vida, os seus comportamentos, os seus valores e as suas opiniões; a análise de um fenómeno social que se julga poder apreender melhor a partir de informações relativas aos indivíduos da população em questão” (Quivy e Campenhoudt, 2003: 189). Ora, na nossa perspetiva, o questionário - aplicado aos jovens que se movimentam nos espaços empíricos identificados - funcionou como meio privilegiado de acesso à informação pretendida, possibilitando a expressão de práticas de consumo de vestuário, comportamentos inerentes ao uso e manipulação da indumentária, identificação de opiniões, modos de agir, etc. Como se compreende que um trabalho de investigação ganha tanto mais quanto se realizar através de uma estreita relação entre abordagens quantitativas e qualitativas, procurámos também realizar algumas entrevistas aos jovens como forma de aprofundar a relação/impacto que o vestuário apresenta nas dinâmicas de interação juvenis. Por último, procedemos à técnica de observação direta nos espaços definidos para a recolha de informação, com o intuito de obter uma perceção que permitisse a captação dos
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 70 comportamentos tal qual acontecem, sem entraves - linguísticos, de tempo, de género, de idade (por parte do investigador e dos investigados) - que condicionassem as ações. A observação direta funcionou na nossa investigação como forma de ter acesso a questões não expressamente identificadas no contacto com a população; por exemplo, lançar luz sobre grupos que se formem em função do tipo de vestuário que os jovens enverguem ou, ainda, possibilitar a identificação das formas de uso/apropriação do vestuário em função do contexto social. Identifique-se que a observação direta é uma técnica muito rica no sentido em que se apresenta ao investigador com uma certa polivalência; por exemplo, poderá ser utilizada nas etapas iniciais da investigação - perspetivada como um instrumento de apropriação exploratória da população, possibilitando, inclusivamente, uma elucidação mais clara das questões a introduzir em outros instrumentos de recolha de informação, quer estejamos a falar de entrevistas ou questionários -, poderá também ser utilizada ao longo da etapa de recolha de informação propriamente dita, como forma de aprofundar determinadas questões que tenham ficado subentendidas, ou omissas, nos restantes instrumentos utilizados. Como sugerem Quivy e Campenhoudt “as observações sociológicas incidem sobre os comportamentos dos actores, na medida em que manifestam sistemas de relações sociais (…). Neste sentido, o investigador pode estar atento ao aparecimento ou à transformação dos comportamentos, aos efeitos que eles produzem e aos contextos em que são observados” (Quivy e Campenhoudt, 2003: 196). Sobre o procedimento de recolha de informação empírica propriamente dito registe-se inicialmente que ocorreu entre fevereiro e Abril. O procedimento amostral baseou-se na amostra de tipo intencional, ou seja os jovens foram abordados aquando da sua saída da escola, o mesmo se passando no bar - procurou-se realizar os inquéritos aos indivíduos que no momento ali se encontrassem. De forma a garantir uma maior abrangência em termos estatísticos os locais eram frequentados em horários diferenciados, valendo esta premissa essencialmente para a escola, visto que no bar procurámos obter informação preferencialmente no horário noturno, uma vez que nos importava também observar possíveis mudanças operadas na passagem do dia para a noite. Foram realizados um total de 100 inquéritos e 4 entrevistas. Como acima referíamos não se afigurou difícil realizar esta recolha de material, eramos geralmente bem recebidos e as resistências eram poucas, mas não inexistentes. Na verdade, apesar do trabalho de terreno se realizar sem mostra de grande resistência por parte dos jovens desenvolveu-se um pequeno contratempo que tivemos de contornar. Demos conta que os
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 71 jovens quando abordados à saída da escola mostravam alguma falta de tempo para poder proceder à inquirição. Apercebemo-nos que a escola desenvolveu um sistema, desde há já algum tempo, que impossibilita os estudantes de saírem do seu interior nos horários das aulas, a menos que os pais disponibilizem autorização. Significa isto que nos intervalos das aulas eram pouquíssimos os estudantes que saíam, o que complicava o nosso trabalho. É certo que poderíamos tentar recolher os dados nos períodos de saída mas isso levantava também a questão da falta de tempo - ou porque os pais estavam à espera, ou porque tinham que “apanhar” o autocarro e o questionário era muito grande, referiam (esta é realmente a grande crítica apontada ao instrumento de recolha de dados - o facto de ser um pouco extenso). Adivinhava-se importante resolver esta questão. A solução encontrada passou por introduzir um novo locus de recolha de informação. O espaço que introduzimos denomina-se Fórum Vizela e fica, em termos de proximidade, a escassos passos da escola secundária. Na verdade, a grande maioria da população ai inquirida era estudante na dita instituição escolar. Este espaço funcionou como um ponto importante no processo de recolha de dados, porque possibilitava que o processo se desenvolve-se de forma mais calma, visto que os jovens estavam mais disponíveis, com mais tempo. Em suma, apesar de todo o processo de recolha de informação ter decorrido sem grandes dificuldades foi necessário reformular o locus de recolha de informação. Inicialmente havíamos previsto a realização dos inquéritos em dois dos espaços entendidos como componentes fundamentais dos mundos de circulação quotidiana dos jovens - a escola secundária e o bar - mas, como a realidade é complexa e nem sempre se disponibiliza a idealizações, tivemos necessidade de alargar a análise e introduzir um novo espaço - o Fórum Vizela.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 72
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 73 Capítulo IV - Considerações sobre a apresentação de si nos quotidianos juvenis: o vestuário como expressão de sentido e de integração social “O homem é um ser criador de símbolos, antes de ser produtor de objectos e de instrumentos”. Fernandes, 1992: 94 4.1 -Vizela: uma pequena cidade entre o Douro e o Minho Como ponto inicial deste 4º capítulo valerá a pena dedicar alguns apontamentos relativos à identificação dos traços gerais do local onde a recolha de dados empíricos se desenrolou. Vizela é um Concelho do Norte do País, de pequena dimensão, constituído em 1998 após vários anos de luta e tentativas. Esta cidade faz fronteira com os Concelhos de Guimarães, Felgueiras, Lousada e Santo Tirso. Encontra-se sob a administração de Braga e está dividida em 7 Freguesias - Infias, Santa Eulália, Santo Adrião, São João das Caldas, São Miguel das Caldas, São Paio e Tagilde (Diagnóstico Social de Vizela, 2010). Em termos populacionais os Censos 2001 davam conta do recenseamento de 22.595 habitantes no Concelho de Vizela, dos quais 11.197 são homens e 11.398 são mulheres. Comparando os dados do recenseamento de 1991 com os de 2001 é possível verificar um aumento populacional de 12,9% (Diagnóstico Social, 2004). Ao longo da década seguinte a tendência verificada apontava para um aumento da população - as estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE) para 2008, identificavam um crescimento populacional a atingir os 24.477 habitantes nesta região do Norte de Portugal. Os dados de 2011 confirmam a tendência evolutiva - 23.736 habitantes dos quais 49,09% são do sexo masculino e 50,91% do sexo feminino (INE, resultados dos Censos de 2011) (Anexo IV, p. 136). Note-se que apesar de se verificar um acréscimo populacional por relação à data de 2001 o mesmo não se verifica em relação ao estimado para 2008, assistindo-se, contrariamente, a um decréscimo. A estrutura produtiva do Concelho de Vizela é essencialmente marcada pelos setores secundário e terciário. O setor secundário representava em 2008, segundo o anuário estatístico para a região do Norte, 78% das empresas com sede no Concelho (INE). O setor terciário aparece representado, na mesma data, por 22% de empresas sediadas em Vizela. Ao nível do setor secundário, domina a área têxtil e de confeção com 260 empresas, seguida pela indústria do couro e produtos de couro, destacando-se aqui o calçado (Diagnóstico Social de Vizela, 2010-2015). As indústrias metalúrgicas de base e de produtos metálicos e a empresa de pasta,
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 74 papel, cartão e seus artigos assumem também alguma relevância no sistema produtivo de Vizela (idem, ibidem). O setor secundário apresenta-se como o setor predominante em termos económicos. Os censos de 2011 dão conta de um total de 6.839 indivíduos empregues neste setor de atividade, ao passo que o terciário emprega 3.974 e o primário conta com cerca de 50 indivíduos (INE – X, XII, XIV e XV Recenseamentos Gerais da População; in PORDATA). É também ao nível do setor secundário que encontramos as taxas mais elevadas em termos de vagas de empregabilidade - o Instituto do Emprego e Formação Profissional apresentava para Vizela, à data de 2012, um total de 11,2 vagas, estando disponíveis, em igual período, apenas 3,1 vagas para o setor terciário e nenhuma para o setor primário. Importa registar que esta pequena cidade não escapa àquelas que são as tendências decrescentes de empregabilidade que se verificam a nível nacional. Veja-se que em 2010, para o setor secundário, estavam disponibilizadas 30,3 vagas de emprego, número que reduziu drasticamente (IEFP). Em termos educacionais importa registar que o Conselho de Vizela apresentava, à data de 1991, uma taxa de analfabetismo na ordem dos 10,3% (Diagnóstico Social de Vizela, 2010-2015). Em 2001, a população sem qualquer nível de escolaridade situava-se nos 7,9%, descendo em 2011 para os 5,0% (INE - X a XV Recenseamentos Gerais da População; in PORDATA). Em termos absolutos, significa que em 2001 a população sem qualquer tipo de escolarização em Vizela atingia um total de 1.537 indivíduos. Este número decresce em 2011 passando a assumir um total de 1.062 indivíduos sem instrução (idem, ibidem). Não obstante esta descida, sendo esta uma pequena cidade, o número de pessoas que não possuem qualquer tipo de escolarização é, ainda assim, elevado. O Concelho tem acompanhado a tendência observada a nível nacional no sentido do incremento da escolarização, embora seja importante registar que, em termos gerais, a população de Vizela apresenta ainda um nível baixo de instrução (Diagnóstico Social de Vizela, 2010-2015). Esta é uma cidade pequena, mas é possível observar as dinâmicas e a efervescência que nela também se vive. Não deixa de ser uma cidade que, como as outras, reflete as tendências gerais que se vivem em termos económicos e culturais. 4.2 - Apresentação e discussão dos resultados obtidos Todo o trabalho acima apresentado poderá ser entendido como uma das duas partes que compõem este trabalho de dissertação. A teoria funcionou como guia para ação pois foi nela que clarificámos todos os princípios teóricos de análise da realidade em estudo. Mas, como
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 81 que ser jovem é ser livre, ter oportunidade para aproveitar a vida, encontrar-se livre dos complexos problemas que afligem as gerações mais velhas - terão, segundo eles, tempo para se ocuparem com essas questões complexas, logo mais, quando forem mais velhos. A juventude é então principalmente definida em função da palavra liberdade, sem dúvida a mais pronunciada quando questionados sobre o que significa este ser e sentir jovem. “Bem ser jovem é… estudar, principalmente é estudar e sei lá… não ter tantas responsabilidades, pronto nós não temos que pagar nada, temos o miminho dos pais, (…) e também temos alguma liberdade” (Raquel, 16 anos) 42. “Eu acho que ser jovem é ser livre, pronto não ter tantas responsabilidades” (Carolina, 17 anos). Esta liberdade reivindicada é também a principal característica que apontam como diferença entre o ser jovem nos dias correntes e sê-lo na geração dos seus pais. Acreditam, assim lhes contam, que os tempos idos eram significativamente distintos, vivendo-se práticas mais fechadas de interação, maior controlo entre as gerações, etc.. Então, esta liberdade conquistada acaba por ser um das mais importantes aquisições, porque lhes permite desenvolver práticas que em outros tempos seriam impensadas - por exemplo, as saídas noturnas para as discotecas com os amigos. “A liberdade que se dá agora, dá-se muito mais liberdade agora do que se dava há uns anos atrás. Eu acho que sim, agora, por exemplo, vejo muita gente nova numa discoteca, antigamente aos dezasseis já era até às onze da noite e (…) a mãe do meu avô já foi muito liberal, porque senão horas para estar em casa eram horas para estar em casa”(Raquel, 16 anos). Ainda como principais diferenças apontadas entre as práticas da sua geração e a dos seus pais, ou avós, referem a educação dos filhos e o próprio uso do vestuário, isto é, a apresentação de si. Salientam que hoje os pais atribuem aos filhos outro papel, um papel que não era reconhecido em tempos idos - por exemplo, uma maior capacidade interventiva dos jovens nas questões familiares que se relacionam diretamente com eles. Quanto ao vestuário as dinâmicas de apresentação de si eram também diferenciadas. Hoje, o vestuário apresenta traços de maior liberdade de experimentação - quase tudo é permitido - o que não acontecia outrora. “[em termos de ] (…) educação os pais preocupam-se mais com a educação dos filhos (…) mas também são outros tempos agora, antigamente… agora também se vivem algumas dificuldades, certo? Mas antigamente as pessoas tinham os filhos… (…) por exemplo, a maior parte dos pais trabalhavam na agricultura (…) então os filhos serviam para continuar os seus trabalhos (….)”(Raquel,16 anos). 42 Todos os nomes atribuídos aos entrevistados são ficcionados
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 82 “O modo de vestir também é diferente. Segundo a minha irmã eles não se podiam vestir assim como nós, de forma mais liberta”. Entrevistadora: “Mais extravagante?” Entrevistada: “Sim, sim, eles naquela altura segundo o que a minha irmã me diz eles não usavam assim muitas saias curtinhas como nós agora usamos, nem calções, nem as camisas amarradas” (Ana, 17anos). Estes pequenos trechos permitem-nos constatar como os mais jovens percecionam estas diferenças de sentir e viver a juventude; eles entendem que vivem uma atualidade na qual os jovens têm um papel mais ativo, onde os jovens se tornam mais dinâmicos, mais integrantes nas relações familiares. Contudo, quando questionados sobre a sua opinião relativamente à forma como os adultos veem os jovens, reconhecem que estes têm dificuldade de entendê-los. A imagem que constroem é que os adultos têm muito mais em conta as diferenças significativas que entre as gerações se desenvolvem do que as semelhanças. “Agora os adultos é assim…ai os jovens de hoje em dia não fazem nada…principalmente (…) e também têm pena de nós, porque acho que cada vez mais eles estão a ver que os jovens não têm futuro nenhum… por causa da crise” (Raquel, 16 anos). “Eu acho que eles pensam que nós somos uns irresponsáveis (…) nós não somos assim tão irresponsáveis, nós pensamos naquilo que fazemos (…) claro que há jovens e jovens, nós não somos todos iguais” (Carolina, 17 anos). Como acima identificávamos aquando da construção teórica relativa à problemática da juventude, na sociedade parece ainda prevalecer uma visão pessimista relativa aos jovens e às suas dinâmicas. Por um lado, as gerações mais velhas tendem a importar as características apresentadas pelos jovens para traços assentes em questões de ociosidade e futilidade, por outro lado, as gerações mais novas, rejeitam esta catalogação - rejeitam que as preocupações com o corpo e com a imagem pessoal, ou a importância que os tempos livres adquirem no quotidiano juvenil, sejam reveladoras destes epítetos que lhes apontam (Ferreira, 1998). A este respeito, Vítor Sérgio Ferreira argumenta que “(…) o reconhecimento da importância central que as dimensões da ludicidade, da imagem e do prazer tem na sua vivência quotidiana, não os faz [aos jovens] adoptar uma atitude de rejeição ou de indiferença face aos valores do dinheiro, do trabalho e da educação formal. Daí que tendam a recusar, maioritariamente, a existência de diferenças importantes nas valorações destes planos em relação às gerações anteriores” (Ferreira, 1998: 172). Segundo o autor, o que poderá estar a ocorrer na sociedade Portuguesa, como de resto mais cedo se verificou noutras cidades ocidentais, é um processo de transição, de transformação simbólico-ideológica ao nível das perceções sobre a sexualidade, o trabalho, os “Eu acho que os adultos nos criticam muito porque não compreendem o nosso ponto de vista, eu acho que é mesmo isso” (Ana, 17 anos).
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 83 tempos livres, etc. Por outras palavras, mais do que afirmar que os jovens atribuem menos valor ao dinheiro, ou mesmo ao trabalho (valores importantes para as gerações mais velhas), trata-se de dar conta de que estes valores estão presentes nas gerações mais novas, tal qual estão nas mais velhas - as formas como estes valores se expressam é que são, elas sim, diferenciadas. Trata-se, portanto, de “(…) uma renovação nos modos de as valorizar, traduzida em novas atitudes face ao dinheiro, ao trabalho e à educação (…) tais dimensões vêm perdendo, com o tempo, a natureza materialista e de obrigatoriedade de que eram revestidas, readquirindo conteúdos de carácter mais expressivo, associado à realização pessoal e social” (Ferreira, 1998: 172-173). 4.2.3 - Práticas de consumo de vestuário em jovens Os jovens têm-se afirmado como um dos grupos de grande importância ao nível dos consumos (Ritzer, 2000; Miles, 2003). Neste sentido, o consumo surge como um dos pontos de interesse crescente entre as várias ciências, na medida em que contribui para o aprofundamento das questões relativas a este grupo social. Como argumenta Miles, o estudo dos jovens enquanto consumidores organiza-se e inscreve-se mais numa perspetiva de equacionamento dos constrangimentos estruturais da sua experiência subjetiva e objetiva do que na mera expressão de posse, ou não, de uma liberdade cultural (Miles, 2003). Miles argumenta que o consumo é em muitos sentidos a mistycal being (Miles, 2003: 174). Esclarece que nas nossas sociedades o consumo assume uma importância fulcral: consumir é pertencer, é justificar a nossa pertença, a nossa ligação às sociedades contemporâneas (Urry, 1990; in Miles, 2003). Consumir nas sociedades atuais surge como ato representado de uma pertença social, como componente importante no processo de integração, aliando a pertença social à capacidade estilizada que através do consumo a sociedade recria e constrói - “o consumo é tão importante para os jovens precisamente pela sua ávida preocupação em pertencer à sociedade, e o consumismo representa a primeira maneira de fazê-lo” 43 (Miles, 2003: 174). O estudo que realizamos sobre o consumo de vestuário em jovens permite constatar, desde logo, que para estes jovens o consumo se apresenta como uma prática bastante instituída. As idas às compras para adquirir vestuário desenvolvem-se com alguma frequência (Anexo XVII, p. 141). De facto, grande parte da população juvenil inquirida - 59% - afirma 43 Tradução nossa
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 84 que vai às compras com o objetivo de adquirir vestuário uma vez por mês. É possível também constatar uma significativa percentagem de indivíduos que afirma ir às compras para adquirir vestuário uma vez em cada duas semanas - 17% no total da amostra. Gráfico nº 4.1 - Periodização das idas às compras para adquirir vestuário pelos jovens N=100 Estes dados acabam por corroborar o que acima havíamos indicado sobre a importância do consumo para os jovens. A possibilidade de consumir acaba por se manifestar como forma de pertença a uma sociedade que, como inicialmente escrevíamos, se afirma, para vários autores, como sociedade de consumo (Barbosa, 2008). Com o objetivo de identificar possíveis diferenças na periodização das compras em função dos lugares de classe de família, colocamos estas duas variáveis em relação. Esta operação foi desenvolvida tendo em conta a consideração teórica que tomamos por base neste trabalho e que, continuamente, a relembramos - as práticas de consumo que os jovens desenvolvem não se deslocam de fatores estruturais de natureza complexa, sendo o lugar de classe um desses fatores. Como se esclareceu, é ao nível da posição no espaço social que se desenvolve o universo de possibilidades da ação individual. Como escreve Magalhães “daqui [da posição objetiva do sujeito no espaço social] são possíveis, por conseguinte, de decorrer automatismos, independentemente de uma tomada de consciência, mas inerentes à posição
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 85 que o agente social ocupa no espaço social e da qual lhe advém uma certa forma de pensar, sentir e agir. É esta, então, a razão imanente à emergência das práticas sociais e subjacente a estilos de vida diferentes inscritos no tecido social, comportando todo o tipo de práticas, gostos e hábitos que faz criar uma modalidade específica de vivência social” (Magalhães, 2010: 40). De entre os lugares de classe que estão considerados na amostra é possível verificar que as percentagens mais elevadas se localizam na categoria da ida às compras para adquirir vestuário uma vez por mês - 59 inquiridos no total da amostra - seguida pela categoria da ida às compras para adquirir vestuário uma vez em cada duas semanas - 17 inquiridos no total. Esmiuçando estes resultados constata-se, ao nível da categoria das idas às compras para adquirir vestuário uma vez por semana, que são os inquiridos pertencentes ao Operariado Industrial (OI) os que aqui têm mais expressividade, contando-se a frequência de 5 inquiridos. Por outro lado, é possível verificar que são também os inquiridos pertencentes a este lugar de classe os que se distribuem de forma mais equilibrada por todas as categorias relativas à variável periodicidade das idas às compras. Quanto a uma periodicidade de ida às compras mais longa no tempo - uma vez de seis em seis meses - os resultados identificados surgem associados à PBIP (Pequena Burguesia Independente e Proprietária) à PBPA (Pequena Burguesia Proprietária e Assalariada) e ao OI (Operariado Industrial) - 1 caso em cada um destes lugares de classe. Quanto à expressividade estatística da variável lugar de classe de família, em termos de distribuição percentual pelas categorias da variável periodicidade das idas às compras, identifica-se que são os inquiridos pertencentes à Burguesia Empresarial e Proprietária (BEP) juntamente com os inquiridos pertencentes à Pequena Burguesia de Execução (PBE) os que vão às compras para adquirir vestuário com uma periodicidade mais curta no tempo - 20% dos inquiridos realizam esta prática de consumo uma vez por semana tendo em conta que cada uma totaliza 5% - ou seja 5 inquiridos - no total da amostra. De entre as percentagens mais baixas o destaque vai para a Pequena Burguesia Técnica e de Enquadramento Intermédio (PBTEI) - 6,3% dos inquiridos inscritos neste lugar de classe vão às compras para adquirir vestuário 1 vez por semana - e para a Pequena Burguesia Proprietária e Assalariada com 8,3% de percentagem nesta categoria de análise. Por outro lado, em termos da sua expressão estatística - 40% no total amostral - está a classe social do Operariado Industrial (OI) contando apenas 2,5% de percentagem na categoria das idas às compras uma vez de seis em seis meses.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 86 Quadro nº 4.7 - Lugar de classe de família por periodicidade das idas às compras N=100 Periodicidade das idas às compras para adquirir vestuário 1 vez por semana 1 vez em cada duas semanas 1 vez por mês 1 vez de três em três meses 1 vez de seis em seis meses 1 vez por ano Total “n” (%) “n” (%) “n” (%) “n” (%) “n” (%) “n” (%) Total Lugar de classe de família Categorias BEP 5 1 20,0 1 20,0 2 40,0 1 20,0 0 0,0 0 0,0 100,0 BD 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 BP 2 0 0,0 0 0,0 2 100,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 BDP 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 PBIC 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 PBTEI 16 1 6,3 3 18,8 9 56,3 3 18,8 0 0,0 0 0,0 100,0 PBIP 6 1 16,7 0 0,0 4 66,7 0 0,0 1 16,7 0 0,0 100,0 PBA 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 PBPA 12 1 8,3 2 16,7 6 50,0 2 16,7 1 8,3 0 0,0 100,0 PBAP 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 PBE 5 1 20,0 1 20,0 3 60,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 PBEP 5 0 0,0 1 20,0 3 60,0 1 20,0 0 0,0 0 0,0 100,0 OI 40 5 12,5 7 17,5 24 60,0 3 7,5 1 2,5 0 0,0 100,0 OA 0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 OIA 1 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 100,0 0 0,0 0 0,0 100,0 OP 8 0 0,0 2 25,0 6 75,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 100,0 Total 100 10 10,0 17 17,0 59 59,0 11 11,0 3 3,0 0 0,0 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 87 Como principais companhias no momento de realizar as suas compras de vestuário surge com grande destaque a figura materna - 54% da população inquirida realiza as suas compras na companhia da mãe (Anexo XVIII, p. 141). Não podemos a este nível esquecer que falamos de uma franja populacional de estudantes situando-se a grande maioria entre os 15 e 17 anos. Os pais funcionam assim como peças fundamentais no ato de consumo. Quanto às quantias monetárias que, em média, os jovens despendem nas compras de vestuário os resultados indicam uma clara vantagem ao nível da quantia situada entre os 3150€. De facto, 39% da população inquirida afirma que numa ida às compras para adquirir vestuário gasta, em média, entre 31-50€. Com uma percentagem menos elevada, mas ainda assim significativa, está a categoria relativa ao valor 51-80€ - 29% dos jovens referem gastar nas compras de vestuário valores que se situam dentro desta referência. De entre a população juvenil que despende mais de +100€ nas suas compras de vestuário é possível verificar que estão associados, em termos de lugar de classe de família, à BEP (Burguesia Empresarial e Proprietária) (120€), à BP (Burguesia Profissional) (200€), à PBTEI (Pequena Burguesia Técnica e de Enquadramento Intermédio) (130€ e 200€), à PBPA (Pequena Burguesia Proprietária e Assalariada) (110€) e à PBE (Pequena Burguesia de Execução) (150€) (Anexo XIX, p.142). Gráfico nº 4.2 - Quantia despendida, em média, pelos jovens numa ida às compras para adquirir vestuário N=100
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 88 Uma análise mais fina aos resultados permite identificar diferenças importantes ao nível das percentagens da quantia gasta em compras. Comparando a variável situação na profissão do pai com a média monetária despendida numa ida às compras para adquirir vestuário é possível constatar que é ao nível da categoria dos patrões que se verificam os resultados mais uniformes na comparação com cada uma das categorias associadas à variável dinheiro gasto em compras de vestuário - de entre o total da população inquirida cujos pais são patrões registam-se os valores mais elevados nas categorias 51-80€ e 81-100€. Por outro lado, ao nível da categoria dos trabalhadores por conta de outrem a percentagem mais elevada situa-se na interceção com a categoria dos 31-50€ gastos, em média, numa ida às compras. Os valores percentuais ao nível da categoria dos trabalhadores por conta de outrem vão diminuindo à medida que aumenta a escala relativa à quantidade monetária despendida em compras de vestuário. Numa outra situação de interação entre variáveis - dimensão do agregado doméstico por dinheiro gasto, em média, numa ida às compras - observam-se também padrões de diferenciação importantes. É possível notar que, de entre as famílias reduzidas, verifica-se uma distribuição mais uniforme e estabilizada na interseção com as categorias compósitas da variável dinheiro gasto em compras - registando-se as percentagens mais elevadas ao nível da interação com a categoria dos 31-50€ (37,8%) e dos 51-80€ (32,4%). A mesma leitura pode ser realizada ao nível das famílias medianas, registando-se aqui valores percentuais de 40,9% e 22,7%, respetivamente. Por outro lado, ao nível das famílias numerosas, os resultados mais elevados surgem associados à primeira (até 30€) e à segunda categoria (31-50€) da variável dinheiro gasto, em média, numa ida às compras para adquirir vestuário - ambas com 50% de percentagem. Não se registam, portanto, valores associados às categorias mais elevadas desta última variável.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 89 Quadro nº 4.8 - Situação na profissão do pai por quantia despendida, em média, numa ida às compras para adquirir vestuário N=100 Quadro nº 4.9 - Dimensão do agregado familiar por quantia despendida, em média, numa ida às compras para adquirir vestuário N=100 Fonte: Mário Leston Bandeira – Demografia e Modernidade: família e transição demográfica em Portugal Mais uma vez, estes resultados parecem dar conta de como as situações estruturais de existência influenciam as práticas sociais que os sujeitos desenvolvem. As práticas de consumo de vestuário dos jovens realizam-se segundo determinados padrões de liberdade e a situação na profissão do pai, ou mesmo a dimensão do agregado familiar, aparecem como possibilidades/constrangimentos da ação. Então, o consumo enquanto estudo das dinâmicas de apropriação objetiva dos jovens, no caso expressas na relação com o vestuário, ao facultar a identificação das possibilidades estilísticas das ações juvenis proporciona, também, a compreensão desses elementos estruturais, tão objetivos como subjetivos, de apropriação da realidade social. Como esclarece Miles, “o consumo dos jovens relaciona-se com condições estruturais que inevitavelmente incidem sobre o seu sentimento de liberdade”44 (Miles, 2003: 44 Tradução nossa Quantia despendida, em média, numa ida às compras para adquirir vestuário (%) Total Total Até 30€ 31-50€ 51-80€ 81-100€ + 100€ Situação na profissão do pai Patrão 7,0 14,3 14,3 28,6 28,6 14,3 100,0 Trabalhador por conta própria com trabalhadores 12,0 8,3 16,7 58,3 8,3 8,3 100,0 Trabalhador por conta própria sem trabalhadores 4,0 25,0 0,0 25,0 0,0 50,0 100,0 Trabalhador por conta de outrem 77,0 15,6 46,8 24,7 10,4 2,6 100,0 Outra: Qual? 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 Total 100,0 15,0 39,0 29,0 11,0 6,0 100,0 Total Quantia despendida, em média, numa ida às compras para adquirir vestuário (%) Total Até 30€ 31-50€ 51-80€ 81-100€ + 100€ Dimensão do agregado familiar Isolados 1,0 0,0 100,0 0,0 0,0 0,0 100,0 Famílias reduzidas 74,0 14,9 37,8 32,4 12,2 2,7 100,0 Famílias medianas 22,0 13,6 40,9 22,7 9,1 13,6 100,0 Famílias numerosas 2,0 50,0 50,0 0,0 0,0 0,0 100,0 Sem informação 1,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0.0 100,0 Total 100,0 15,2 39,4 29,3 11,1 5,1 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 90 176). Também Bourdieu alerta para o facto de que a prática não se desloca da condição que a construiu e esta limita-a duplamente confrangendo-a “(…) pelos limites materiais que ela impõe à sua prática e pelos limites que impõe ao seu pensamento, logo à sua prática, e que lhe fazem aceitar e até amar esses limites” (Bourdieu, 2010: 366). As compras são essencialmente realizadas no centro comercial - com 72% de percentagem no total da amostra (Anexo XX, p. 142). As peças de vestuário mais adquiridas são as camisolas - 41%, seguidas pelas calças com 24% de percentagem no total da amostra. Com percentagens reduzidas estão as peças de vestuário como os vestidos (5%) e os calções/shorts (2%) (Anexo XXI, p. 143). Questionados sobre o porquê de adquirirem esta ou aquela peça de vestuário com mais frequência as principais respostas situam-se na ordem do gosto, assim como ao nível dos conceitos de utilização e funcionalidade - “é o que mais gosto”; “é a peça que mais utilizo, que faz mais falta” - contam-se aqui 45 e 43 respostas respetivamente, no total dos 100 inquéritos. Os dados de um primeiro grupo de análise estão assim expressos. Pretendíamos, num primeiro momento, compreender e identificar as principais práticas de consumo realizadas por estes jovens, assim como constatar possíveis constrangimentos/possibilidades de ação. Os resultados permitem notar que as práticas de consumo, aqui expressas através da aquisição de vestuário, são importantes para estes jovens - a periodicidade com que efetuam compras de vestuário demonstra como o consumo se enraíza nos quotidianos juvenis. Como Miles argumenta, para os jovens o consumo joga um papel importante na medida em que lhes permite sentirem-se parte integrante da sociedade a que pertencem (Miles, 2003). Não obstante, as práticas de consumo que realizam não se veiculam a livres dinâmicas de ação, encontram-se enraizadas em fenómenos culturais e estruturais mais complexos que se ligam, desde logo, com a própria capacidade aquisitiva dos bens aos quais aspiram (idem, ibidem). Assim, quando identificamos e mencionamos práticas de consumo de vestuário não podemos deslocar do conceito a consideração de dinâmicas mais amplas e abrangentes, como a pertença social. As práticas desenvolvem-se em contextos específicos, em tempos específicos, para além de objetivarem os sentimentos, as subjetividades, de indivíduos provenientes de diferentes pontos do espaço social - “as práticas, são, então, sistemas de ação (coletivos) regulados, codificados e significativos, desenvolvidos através do seu acionamento repetido por comunidades específicas e associados às suas condições de existência” (Abrantes, 2011a: 126). O consumo apresenta-se, então, como uma componente importante na vida destes jovens na medida em que possibilita compreender dinâmicas mais vastas de interação que se
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 97 Quadro nº 4.12 - A escolha do vestuário em função dos contextos sociais de interação quotidiana N=100 De facto, nos espaços inseridos no âmbito do seu quotidiano ordinário as calças de ganga, as t-shirts e camisolas ganham destaque. Por outro lado, no bar, definido como espaço de convívio com uma maior liberdade de ação corporal, ganham destaque os vestidos, as saias mais curtas, os calções, assim como os sapatos de salto alto. Os rapazes afirmam também que para uma ida ao bar usam roupa mais formal, com a introdução das camisas a realizar-se mais expressivamente a este nível. Para os jovens inquiridos esta diferença estilística relativa à apresentação pessoal devese à consideração de que os espaços de interação são diferenciados e, por isso, exigem códigos de conduta que são, também eles, distintos. A escola, ou mesmo o local de trabalho, aparecem, portanto, definidos como espaços nos quais é necessário um visual mais prático e confortável, enquanto que no bar, porque os códigos de ação que aí se realizam são percecionados como diferentes, é necessária uma elaboração mais marcada no visual, este torna-se, inclusivamente, mais liberal, mais pronunciado. Como salienta Goffman, os desempenhos sociais quotidianamente realizados, em espaços que são diferenciados, implicam que o indivíduo lance mão a todo um conjunto de acessórios importante na composição e definição dos seus papéis sociais - o vestuário assume-se como um desses acessórios (Goffman, 1993). Assim, sendo que estes jovens assumem diferentes papeis, nos espaços em que quotidianamente se inserem, necessário se torna que a composição estilística dos seus visuais seja diferenciada porque diferenciadas são as dinâmicas que nos espaços - escola/local de trabalho e bar - têm lugar. Face ao exposto confirmamos a terceira hipótese teórica avançada - com efeito, o vestuário cumpre esta função de adaptação social aos contextos percebidos como distintos, sendo mais prático e confortável nos espaços percecionados como componentes do quotidiano ordinário e mais expressivo e liberal nos espaços definidos como locais de diversão e entretenimento. A escolha do vestuário em função dos contextos sociais Opções de resposta “n” (%) Sim 65 65,0 A maior parte das vezes sim 27 27,0 Não 6 6,0 A maior parte das vezes não 2 2,0 Total 100 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 98 Como quarto ponto de análise procurávamos compreender se o vestuário funciona como um meio através do qual se projetam pertenças de classe. Sobre a influência do vestuário enquanto manifestação e identificação de lugares de classe os resultados indicam que 44% dos jovens inquiridos discordam com esta situação. Apenas 24% afirma concordar com a noção de que através do vestuário é possível identificar o lugar de classe de pertença. Gráfico nº 4.4 - Grau de concordância relativo à noção de que através do vestuário é possível identificar a classe social de pertença dos jovens N=100 Uma análise mais fina, que coloca em relação o lugar de classe com o grau de concordância relativo à noção de que através da imagem (ex. a roupa) é possível identificar a classe social de pertença, permite constatar que as percentagens mais elevadas surgem associadas à categoria relativa ao discordo. A única exceção verifica-se ao nível do Operariado Industrial (OI) na qual a percentagem associada à categoria do discordo é igual à associada à categoria do concordo - 32,5%. Não parecem, portanto, existir diferenças classistas associadas ao grau de concordância relativo à noção de que através da imagem, para a qual o vestuário contribui, é possível identificar a classe social de pertença.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 99 Em termos gerais os dados revelam que, em cada lugar de classe, a maioria dos inquiridos discorda com o facto de que a imagem permite identificar a pertença classista. Quadro nº 4.13 - Lugar de classe de família por grau de concordância relativo à noção de que através da imagem (ex.: roupa) é possível identificar a classe social de pertença N=100 Os resultados identificados poderão estar em parte relacionados com o facto de que por via da massificação e desenvolvimento do consumo - por exemplo através das grandes cadeias de produção, da imitação das marcas - os jovens consigam na atualidade aceder a novos padrões de consumo. Porventura poderá dar-se o caso de que as grandes cadeias de vestuário como Berska, Stradivarius, entre outras, que se afirmam como lojas de consumo mais direcionadas para os jovens, contribuam para uma tendência uniformizante dos estilos de vestuário juvenis. Lembremos que uma larga franja da população inquirida adquire as suas peças de roupa nos Centros Comerciais, locais onde estas cadeias de consumo se encontram essencialmente sediadas. Ao aprofundar esta questão através da entrevista é possível constatar que os jovens, apesar de reconhecerem que as possibilidades económicas jogam um papel importante ao nível das capacidades aquisitivas, acabam por colocar a tónica em outras questões como, por Grau de concordância relativo à noção de que através da imagem (ex.: roupa) é possível identificar a classe social de pertença (%) Total tTotal Grau de concordância Total Discordo totalmente Discordo Indiferente Concordo Concordo totalmente Lugar de classe de família Categorias BEP 5,0 0,0 80,0 20,0 0,0 0,0 100,0 BD 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 BP 2,0 0,0 50,0 50,0 0,0 0,0 100,0 BDP 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 PBIC 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 PBTEI 16,0 6,3 31,3 31,3 25,0 6,3 100,0 PBIP 6,0 0,0 50,0 33,3 16,7 0,0 100,0 PBA 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 PBPA 12,0 0,0 58,3 16,7 16,7 8,3 100,0 PBAP 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 PBE 5,0 40,0 40,0 0,0 20,0 0,0 100,0 PBEP 5,0 0,0 80,0 0,0 20,0 0,0 100,0 OI 40,0 7,5 32,5 27,5 32,5 0,0 100,0 OA 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 100,0 OIA 1,0 0,0 0,0 0,0 100,0 0,0 100,0 OP 8,0 12,5 62,5 12,5 12,5 0,0 100,0 Total 100 7,0 44,0 23,0 24,0 2,0 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 100 exemplo, o gosto pessoal - digamos a capacidade estilística de composição dos visuais e a criatividade a este nível. “É assim, depende, pode haver pessoas que se vestem muito bem e percebe-se que são de uma classe social mais elevada como também pode haver pessoas que apesar de ter dinheiro se vestem de uma forma menos vistosa…” (Carolina, 17 anos). “Eu acho que sim e que não. Eu acho que sim porque uma pessoa que não tem grandes possibilidades de comprar a roupa com tanta frequência ou como queria, enquanto que…sei lá…uma pessoa… não sei uma pessoa com um pouco mais de capacidades se veste um bocadinho melhor, eu acho que tem a ver um bocado com o nível económico… mas não … não é… o dinheiro não impede uma pessoa de se vestir bem… há o gosto (…). Porque, por exemplo, na feira às vezes consegue-se arranjar coisas mesmo giras e imitações (…) é só por não ter uma etiqueta a dizer uma marca qualquer” (Raquel, 16 anos). Por outro lado, é possível identificar através da entrevista que o uso de roupa de marca parece estar relacionado com a expressão classista através do vestuário. Por outras palavras, o código de perceção associado à identificação das classes sociais, quando realizado pelo vestuário, parece processar-se, essencialmente, através do uso, ou não, de roupa de marca. Entrevistadora: “Achas que através do que vestimos é possível identificar pertenças sociais?” Entrevistado: “Ah, isso sim, acho que se consegue…se tiver marcas muito caras acho que é logo, vê-se logo…” (João, 15 anos). Entrevistada: “Não, porque como eu já disse vestimo-nos mesmo quase todos iguais tipo nós não vamos estar a ver as etiquetas de alguma roupa, se esta é de marca, se esta não é, e não dá para ver a diferença” (Ana, 17 anos). A larga maioria dos jovens inquiridos afirma que através do vestuário não é possível identificar pertenças sociais. Face a esta questão infirmaríamos a hipótese teórica que havíamos definido. Não obstante é possível constatar, nas entrelinhas, que a identificação de pertenças classistas pela indumentária não deixa de estar, de alguma forma, relacionada com o uso de roupa de marca. Logo, acaba por ser possível notar que este processo de identificação/categorização social não está completamente deslocado das possibilidades do vestuário. Em sociologia sabemos da complexidade relativa às tomadas de posição - os fenómenos sociais são muito complexos, atravessados por dinâmicas bastante intrincadas entre si. Por isso, deixamos esta hipótese em ponto de reflexão, dado que uma resposta mais definitiva porventura necessitará de um maior aprofundamento teórico-empírico que neste trabalho não conseguimos desenvolver. De entre a população inquirida cerca de 45% concorda e 4% concorda totalmente com o facto de que a imagem adotada quotidianamente é uma forma de os jovens se distinguirem socialmente dos outros, contra um total de 20% que discorda com a afirmação. Por outro lado,
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 101 relativamente à afirmação “gosto de me diferenciar pela minha imagem a roupa é um meio privilegiado para o fazer” as percentagens mais elevadas surgem associadas à categoria do concordo com um total de 41% de percentagem no total da amostra. Os inquiridos que discordam somam um total de 20% (Anexo XXVII, p. 146). Importa, contudo, especificar que em segundo lugar, com maior percentagem, quer relativamente à primeira como à segunda afirmação, surge a categoria do indiferente com uma percentagem de 30% relativamente à primeira e 34% na segunda. Registe-se ainda que 55% dos inquiridos concorda e 13% concorda totalmente com a afirmação de que através da imagem expressamos características pessoais/ traços de personalidade, apenas 15% discorda e 1% discorda totalmente (Anexo XXVI, p. 145). Gráfico nº 4.5 - Grau de concordância relativo à noção de que a imagem adotada quotidianamente é uma forma dos jovens se distinguirem socialmente dos outros N=100 Estes resultados parecem confirmar o que havíamos anteriormente avançado, nomeadamente recorrendo aos contributos de Umberto Eco (1975) - o vestuário há muito que deixou de cumprir a característica funcional de proteção contra as particularidades da natureza, passando a adquirir um papel mais simbólico, integrador e distintivo nas sociedades contemporâneas, funcionando como instrumento privilegiado ao serviço da expressão de particularidades pessoais, assim como proporcionando aos jovens uma espécie de
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 102 individualização estilística da sua imagem pessoal. Como lembra Bourdieu, “a identidade social afirma-se pela diferença” (Bourdieu, 1979: 191; in Campenhoudt, 2003: 170). Na posse destes resultados estamos em crer ser possível identificar que, para a maioria dos jovens inquiridos, a imagem pessoal - para a qual o vestuário necessariamente contribui - funciona como possibilidade ao serviço da construção das suas individualidades, das suas idiossincrasias, contribui para demarcam-se entre si consoante o estilo construído para se apresentarem em público, confirmando-se assim a última hipótese em análise. Como lembra Machado Pais, recorrendo a Negrin, vivemos tempos que, em termos de moda, “o que conta é o cultivo da imagem de si, investida em toda a sua expressividade e sensibilidade” (Negrin, 1999; in Pais, 2005: 55). Registe-se, por último, que vestuário é percecionado por estes jovens como objeto de comunicação, através do qual os outros têm acesso a uma dada imagem de si (Anexo XXIX, p.147), uma imagem que não se encontra isenta de categorizações - ao vestuário estão associados estereótipos que os jovens aprendem a reconhecer. As práticas que se desenvolvem não se deslocam, portanto, dessa leitura social, que se aprende a descodificar e a compreender nos contextos em que as mesmas se inserem. Como avançam Cardoso, Novais e Costa, a noção de self relacionada com os objetos que compõem o quotidiano remete para a noção da transmissão de sinais (Cardoso, Novais, Costa, 2009). Ora, o vestuário permite o cumprimento de tal função (idem, ibidem). Entrevistadora: “Será que o facto de vestir-mos dadas roupas levam os outros a terem imagens de nós?” Entrevistada: “Eu acho que sim, por exemplo, neste caso das discotecas eu acho que os rapazes pela forma como nós nos vestimos eles podem dizer se somos mais daquelas que se entregam logo (…)” (Ana, 17 anos). Como palavras finais valemo-nos, mais uma vez, dos escritos de Umberto Eco registando que “(…) a vida em sociedade (e portanto a vida da «cultura») compõem-se por um lado de actos de comunicação, de entidades gestuais ou sonoras que «dizem que», e por outro de coisas que «funcionam», isto é, que «servem para». O homem primitivo começa a fundar uma sociedade quando aprende a exprimir-se através de sons e gestos, mas por outro lado funda a sociedade e a cultura também no momento em que inventa um instrumento, descobre a gruta, vibra a sua primeira amígdala. E a amígdala não comunica, «mas serve para». Ora a pele de urso ou de lobo com que o nosso homem se cobre pela primeira vez, não pode pertencer à categoria das coisas que «servem para», mas antes à das que «dizem que»?” (Eco, 1975: 13).
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 103 Considerações finais Ao longo deste trabalho de dissertação procurámos destacar os pontos de análise teóricos que nos permitiriam compreender de uma forma mais profunda a realidade que nos propusemos estudar. Neste sentido, escrevemos sobre o consumo procurando identificar autores que têm em muito contribuído para a sua expressividade académica, identificámos a socialização como fator importante, na medida em que consideramos que as práticas desenvolvidas nos quotidianos sociais de interação não se deslocam desses meandros mais complexos e estruturais que se prendem com as condições objetivas de vida que compõem os nossos quotidianos de ação. Porque a população alvo do nosso estudo eram os jovens, procurámos também desenvolver um entendimento teórico que cumprisse o objetivo de clarificar as linhas que orientam a juventude - como defini-la?, como interpretá-la?, no seio destas realidades de mudança em que vivemos. Escrevemos já anteriormente sobre o motivo da escolha deste grupo e não de outro: precisamente pela necessidade de compreender melhor a população juvenil e também porque este grupo se assumia como componente sociológica sobre a qual mais dúvidas e curiosidades tínhamos. Pretendíamos compreender os jovens enquanto realidade a conhecer mediante o uso e manipulação do vestuário, entendendo que este objeto adquire forte importância nos quotidianos juvenis. Neste trabalho abordámos também os contributos teóricos de Bourdieu relativamente às práticas enquanto expressões objetivas de estilos de vida diferenciados e de Goffman, considerando as suas teorizações sobre as interações que se desenvolvem nos quotidianos sociais. Por fim, em termos teóricos, não poderiam faltar neste texto as componentes de análise relativas ao vestuário - entendendo-o enquanto objeto símbolo, enquanto instrumento possibilitador de leituras sociais, que os sujeitos aprendem a reconhecer e identificar - e ao equacionamento do corpo enquanto construção, vivência e sentimento. O vestuário não existe por si só; apesar de todas as suas possibilidades comunicativas a roupa opera num corpo que tem sido, ao longo dos tempos, alvo de diferentes concetualizações. É, portanto, o corpo que se veste, que se coloca em situação de interação, é o corpo que dá expressividade ao vestuário enquanto instrumento ao serviço da imagem pessoal. A leitura que realizámos do vestuário enquanto ferramenta comunicativa não se poderia deslocar, assim nos apareceu, dessas transformações que se têm vindo a operar através do corpo. O corpo transforma-se e a forma como o “vestimos” tem-se também transformado ao longo dos tempos. Por isso, era nosso objetivo compreender as possibilidades do vestuário enquanto instrumento ao serviço da
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 104 imagem pessoal, procurando descortinar qual o seu papel nas dinâmicas sociais dos quotidianos juvenis e como, através dele, se realizam práticas que expressem processos de distinção e/ou de integração/exclusão num/de um dado grupo. Foi neste contexto que traçámos a pergunta de partida - de que forma o vestuário funciona como verdadeira extensão do eu, despoletando o desencadear de estratégias de distinção e/ou de integração grupal, por parte dos jovens? Ao longo deste projeto de dissertação uma questão ficou claramente visível. Para os jovens que inquirimos o vestuário apresenta-se como um importante instrumento ao serviço da imagem pessoal. Esta noção ficou, desde logo, subentendida aquando da realização das visitas exploratórias na escola secundária e no bar/pub. Era possível reconhecer como o corpo se “produz” nos espaços de interação, como o vestuário cumpre uma tarefa importante de composição estilística. Com efeito, os visuais, ou estilos, são construídos colocando-se ao serviço todos os objetos necessários - maquilhagem, composição dos cabelos, óculos de sol, dinâmica(s) das peças de vestuário. Como identificam João Teixeira Lopes (1995) ou Machado Pais (2005), na atualidade os visuais conseguem-se fazendo-se uso de todas as componentes necessárias à sua realização - o vestuário, a maquilhagem, e mesmo as tatuagens e os piercings, são componentes que se colocam ao serviço da estilização do quotidiano. Teixeira Lopes, referia mesmo que os visuais, as opções estilísticas, não serão mais do que as narrativas que os jovens contam acerca deles mesmos (Lopes, 1995). Mas estas realidades intervencionadas, chama atenção Machado Pais, sendo componentes da ação interativa do eu com o meio que o rodeia, são também componentes identificativas, e, nessa via, distintivas, do eu por relação ao nós e do eu por relação aos outros (Pais, 2005). Ora, o vestuário cumpre realmente esta função. Ele permite ao sujeito a identificação dos que fazem parte do seu mundo (nós), assim como possibilita o reconhecimento dos que não fazem parte do mesmo universo de significação (eles). Como Bourdieu (2010) também explica, as aproximações são também distâncias - a identidade afirma-se e reafirma-se na diferença, esclarece; distantes de uns, próximos de outros. Por isso, as práticas e dinâmicas de identificação são também práticas e dinâmicas distintivas, independentemente do grau de consciência que sobre esta questão tenhamos. Este estudo permitiu perceber que para estes jovens o vestuário cumpre essa função de transmissão de mensagens, assim como a compreensão de como através do seu uso se realizam categorizações. O vestuário possibilita, segundo argumentam, a transmissão de traços de personalidade que os outros, consciente ou inconscientemente, na pluralidade dos seus hábitos aprendem a reconhecer. Por outro lado, permitiu-nos compreender que esse
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 105 processo de identificação/diferenciação social realiza-se de forma quase impercetível - sem termos disso consciência, sabemos que gostamos desta ou daquela pessoa porque tem gostos parecidos com os nossos, falamos a mesma linguagem, construímos estilos de apresentação pessoal semelhantes. Vimos já como esse processo se desenvolve. É na base desta identificação quase intangível que os jovens reconhecem que o seu grupo de amigos tem um estilo parecido com o seu. Portanto, a apresentação de si cumpre esta capacidade de integração grupal nesta fase da vida e cumpre também, arriscamos referir, essa necessidade de integração social. Explicitávamos atrás que poderá funcionar como elemento de ansiedade para os jovens, elemento de pressão social, quando estes não conseguem aceder às dinâmicas estilísticas que, num dado momento, são consideradas importantes. Para além disso, estes jovens reconhecem que os espaços de interação quotidiana desenvolvem-se colocando ao serviço um conjunto de códigos que são diferenciados. O vestuário permite e possibilita essa articulação necessária aos espaços sociais do quotidiano. Como referem, a escolha da composição estilística que se consegue através do vestuário é realizada em função dos espaços sociais nos quais se movimentam. Para a escola, ou para o local de trabalho, as roupas necessitam de ser mais confortáveis, mais flexíveis, enquanto que no bar o uso do vestuário cumpre outras regras - torna-se mais dinâmico, mais aberto, desprendido e liberal. Também o corpo assume no espaço do bar uma posição mais liberta, torna-se mais fluido, mais interativo, mais vibrante. É possível também anotar que as práticas de consumo de vestuário que os jovens realizam não se deslocam de componentes estruturais que funcionam como possibilidades/constrangimentos de ação. Pela análise dos dados compreende-se que questões como a situação na profissão dos pais, ou mesmo, a dimensão dos agregados familiares influenciam os processos aquisitivos que se expressam nas compras de vestuário. Como Miles (2003) argumenta, as práticas de consumo dos jovens - das quais se realça o vestuário - não podem ser entendidas como processos livres, elas encontram-se subjacentes a questões estruturais que remetem, desde logo, para as capacidades aquisitivas dos bens aos quais pretendem aceder. Um outro ponto que se clarificou diz respeito à interpretação que os jovens desenvolvem sobre a sua juventude. Foi possível compreender pelas suas palavras o que para eles significa, afinal, ser jovem. Os resultados não se afiguraram de grande surpresa. Estes jovens interpretam a juventude como um período de tempo em que podem fazer um uso mais desprendido da palavra liberdade; a juventude é definida como um período da vida em que não existem tantas responsabilidades, em que os problemas dos adultos não fazem ainda parte do universo de prioridades. É um tempo, na sua ótica, para serem livres.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 106 Este estudo sobre as dinâmicas que se realizam em torno do vestuário não ficará completo com estas páginas que escrevemos. Em sociologia as realidades sociais que se tomam como estudo nunca são de fácil identificação ou teorização, porque elas se interrelacionam com uma pluralidade de fatores complexos, constituintes da realidade social. Portanto, este estudo afirma-se como uma pequena leitura relativa a essa complexa realidade social que se desenvolve entre os indivíduos e os objetos que compõem os seus quotidianos. Para além disso, importa notar que os resultados que foram possíveis alcançar através deste trabalho dizem respeito a uma realidade em particular. As dinâmicas que se desenvolvem em torno do vestuário pelos jovens Vizelenses porventura serão diferenciadas daquelas que outros jovens, noutros espaços sociais, realizam. Como lembra Sofia Silva (2010) a pertença a um lugar apresenta-se indissociável da noção de identidade, as práticas que nele os sujeitos realizam encontram fundamento na apropriação social que no espaço realizam, sendo nele operação e resultado. Esta é uma ressalva importante e que se liga com a necessidade de dar conta das especificidades dos quotidianos sociais em que as práticas têm lugar. Daí a introdução, no início do último capítulo, daquelas que eram consideradas as principais especificidades do território em que o estudo se desenvolveu. Pretendíamos com este trabalho colocar o enfoque nessa outra capacidade do corpo enquanto elemento de comunicação - a comunicação não-verbal - adotando como notas de base que a apropriação estilística do corpo em interação ou, de forma mais precisa, as dinâmicas de apresentação do eu nos contextos sociais do quotidiano não se deslocam dos espaços sociais em que nascemos e nos movimentamos. Como refere Umberto Eco “a sociedade ao constituir-se fala, fala porque se constitui e constitui-se porque começa a falar” (Eco, 1975: 20). Também o jovem ao vestir-se apresenta-se e ao fazer a apresentação de si fala. Perceber e descodificar as suas falas bem como o que a elas subjaz foi nosso propósito com este trabalho.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 113 MILES, Steven (2003) - Researching youth people as consumers: can and should we ask them why?. Researching youth. Editado por Andy Bennett, Mark Cieslik, Steven Miles. 1ª ed. New York: Polgrave Macmillaw. ISBN. 1-4039-0573-8. MINAYO, Maria Cecília; SANCHES, Odécio (1993) - Quantitativo – qualitativo: oposição ou complementaridade?. Caderno de Saúde Pública. [em linha]. Vol.9. Nº3. (Julh./Set.1993). p. 239 -262. [Consult. 10 jan. 2013]. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/csp/v9n3/02.pdf. MONTEIRO, Gilson (1997) - A Metalinguagem das roupas. [em linha]. p.1-11. [Consult. em 29 nov. 2012]. Disponível em http://www.bocc.ubi.pt/pag/monteiro-gilson-roupas.pdf. NUNES, João Arriscado (1993) - Erving Goffman, a análise de quadros e a sociologia da vida quotidiana. Revista Crítica de Ciências Sociais. Nº 37. (Junh.1993). p. 33-49. NUNES, João Sedas (1998) - Perfis sociais juvenis. Jovens portugueses de hoje. Oeiras: Celta Editora. p. 1-51. ISBN: 972-774-004-9. PAIS, José Machado (1986) - Paradigmas sociológicos na análise da vida quotidiana. Análise Social. Vol. XXII (9):7-57. PAIS, José Machado (1990a) - A construção sociológica da juventude - alguns contributos. Análise Social. Vol. XXV:139-165. PAIS, José Machado (1990b) - Lazeres e sociabilidades juvenis: um ensaio de análise etnográfica. Análise Social. Vol. XXV (108-109): 591-644. PAIS, José Machado (1993) - Culturas juvenis. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda. ISBN: 972-27-0548-2. PAIS, José Machado (coord.) (1998) - Gerações e valores na sociedade Portuguesa contemporânea. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa. ISBN: 972-96629-2-4.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 114 PAIS, José Machado (coord.) (1999) - Traços e riscos de vida. Porto: Editora Âmbar. ISBN: 972-43-0331-4. PAIS, José Machado (2005) - Jovens e cidadania. Sociologia - Problemas e Práticas. Nº 49. p. 53-70. PAIS, José Machado (2010) - Lufa-lufa quotidiana: ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana. Lisboa: Impressa Ciências Sociais: Universidade de Lisboa. ISBN. 978-972-671-2688. PAIS, José Machado; FERREIRA, Vítor Sérgio (org.) (2010) - Tempos e transições de vida: Portugal ao espelho da Europa. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa. ISBN: 978-972-671-275-6. PAPPÁMIKAIL, Lia (2010) - Juventude(s), autonomia e Sociologia: questionando conceitos a partir do debate acerca das transições para a vida adulta. Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Vol. XX: 395-410. PINA, Helena Figueiredo (2006) - Love brands juvenis: fortes relações de cumplicidade. [em linha]. p. 1-24. [Consult. em 7 jan. 2013]. Disponível em http://hdl.handle.net/10400.21/838. PINTO, Manuel; TEDESCO, Juan Carlos; PAIS, José Machado [et al.] (1999) - As pessoas que moram nos alunos: ser jovem, hoje, na escola portuguesa. Porto: Edições Asa. ISBN. 972-41-2303-0. QUARESMA, Maria Luísa; ABRANTES, Pedro; LOPES, João Teixeira (2012) - Mundos à parte? Os sentidos da escola em meios sociais contrastantes. Sociologia - Problemas e Práticas. ISSN. 0873-6529. Nº 70. p.25-43. QUEIROZ, Maria Cidália (2006) - “Classes perigosas” ou classes tornadas inúteis?. Le Monde Diplomatique - edição portuguesa. (Fev. 2006). p. 1-3. QUIVY, Raymond; CAMPENHOUDT, LucVan (2003) - Manual de Investigação em Ciências Sociais. 3ª ed. Lisboa: Gradiva.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 115 RITZER, George (2000) - El encanto de un mundo desencantado: revolución en los médios de consumo. 1ª ed. Barcelona: Editorial Ariel, S.A. ISBN. 84-344-1435-X. ROBERTS, Ken (2003) - Consumption and youth cultures. Researching youth. Editado por Andy Bennett, Mark Cieslik, Steven Miles. 1ª ed. New York: Polgrave Macmillaw. ISBN. 14039-0573-8. SANTOS, Maria Cecília Pereira dos (2007) - A escola não tem nada a ver. A construção da experiência social e escolar dos jovens do ensino secundário: um estudo sociológico a partir de grupos de discussão. [em linha]. Dissertação de Doutoramento. Braga: Universidade do Minho - Instituto de Educação e Psicologia. [Consult. em 7 jan. 2013]. Disponível em repositorium.sdum.uminho.pt. SCHMIDT, Maria Luísa (1985) - A evolução da imagem pública da juventude Portuguesa:197484. Análise Social. Vol. XXI (87-88-89): 1053-1066. SETTON, Maria da Graça Jacintho (2003) - A particularidade do processo de socialização contemporâneo. [em linha]. Tempo Social, revista de sociologia da USP. Vol.17. Nº2. p. 335350. [Consult. em mar. 2013]. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ts/v17n2/a15v17n2.pdf. SETTON, Maria da Graça Jacintho (2009) - A socialização como fato social total: notas introdutórias sobre a teoria do habitus. [em linha]. Revista Brasileira de Educação. Vol. 14. p. 296-394. [Consult. em mar. 2013]. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v14n41/v14n41a08.pdf. SILVA, Sofia Marques da (2010) - Da casa da juventude aos confins do mundo. Etnografia de fragilidades, medos e estratégias juvenis. Porto: Edições Afrontamento. ISBN. 978-361217-2. SIMÃO, José Veiga (2012) - Escola e estudantes da Europa. Sociologia - Problemas e Práticas. Nº 20. p.153-157.
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 116 VALA, Jorge; LOPES, Rui Costa (2010) - Youth attitudes toward difference and diversity: a cross-national analyses. Análise Social. Vol. XLV (195): 255-275. Websites http://www.ine.pt. [Consult. 18 de abril de 2013 às 16:50 horas]. http://www.iefp.pt. [Consult. em 18 de abril de 2013 às 17:30]. http://www.pordata.pt/. [Consult. 18 de abril de 2013 às 17 horas]. http://www.cm-vizela.pt/. [Consult. 10 de dezembro de 2012 às 14 horas].
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 117 Anexos
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 118 Anexo I - Inquérito por questionário Faculdade de Letras da Universidade do Porto Mestrado em Sociologia Inquérito por questionário subordinado ao tema Práticas de Consumo em Jovens: O Vestuário como Expressão de Sentido e de Integração Social O presente inquérito por questionário tem como principal objetivo dar conta de práticas de consumo em Jovens. Com a sua aplicação interessa-nos identificar qual o papel e importância que o vestuário adquire/desempenha na vida quotidiana dos jovens. Procuramos identificar dinâmicas de apresentação de si, formas de interação que se estabelecem em torno da indumentária, práticas distintivas, etc. Para que estes objetivos sejam possíveis precisamos da tua colaboração. Este questionário prende-se, exclusivamente, com a obtenção de dados para efeitos da investigação acima apresentada, ficando também garantido o anonimato. Pedíamos que respondesses com sinceridade a todas as perguntas. Obrigada. Grupo 1: Práticas de consumo em Jovens: enfoque no vestuário P.1.1: Costumas ir às compras para adquirir vestuário com frequência? (a) Sim, com bastante frequência (b) Sim, com alguma frequência (c) Raramente (d) Nunca
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 119 P.1.2: Em média, quantas vezes vais às compras para adquirir vestuário? (a) 1 vez por semana (b) 1 vez em cada 2 semanas (c) 1 vez por mês (d) 1 vez de 3 em 3 meses (e) 1 vez de 6 em 6 meses (f) 1vez por ano (g) Outra: Qual?…….. P. 1.3: Habitualmente, com quem costumas fazer as tuas compras de vestuário? (a) Pai (b) Mãe (c) Irmãos (d) Amigos (do mesmo sexo) (e)Amigos (de sexo diferente) (f) Sozinho (a) (g) Namorado(a) (h) Outra: Qual?…….. P.1.4: Em média, quanto dinheiro gastas em roupa quando vais às compras? (a) Até 30 € (b) 31-50 € (c) 51-80€ (d) 81-100€ (e) + de 100€
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 120 P1.5. Se respondeu mais de 100€ na pergunta anterior indica, por favor, um valor aproximado------ P.1.6: Habitualmente, onde costumas comprar a tua roupa? (a) No Centro comercial (b) Em lojas de marca nos centros comerciais (c) Em lojas de marca fora dos centros comerciais (d) Em lojas de roupa fora dos centros comerciais (e) Em Hipermercados (f) Em Outlets (g) Em feiras (h) Em feiras de artigos de 2ª mão (i) Em “lojas dos chineses” (j) Outra: Qual?……..´ P.1.7: Em geral, que tipo de peça de vestuário mais compras? (a) Camisolas (b) Casacos (c) Camisas/blusas (d) Calças (e) Vestidos (f) Saias (g) blusões (h) Calções/Shorts (i) roupa interior (j) Outra: Qual?
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 121 P.1.8: Porquê? ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- --------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Grupo 2: Avaliação da opinião dos jovens face ao vestuário P.2.1: Das seguintes afirmações, relativamente à importância do vestuário, refere o teu grau de concordância: Discordo totalmente (1) Discordo (2) Indiferente (3) Concordo (4) Concordo totalmente (5) (a) No meu grupo de amigos sou a pessoa que menos vezes compra roupa; (b) A roupa não é importante para min; (c) Sou bastante conhecedor(a) das tendências de vestuário; (d) No meu grupo de amigos estou entre as pessoas que tem menos peças de roupa; (e ) No meu grupo de amigos sou a pessoa a quem mais vezes recorrem para informações sobre vestuário e moda; (f) Compro roupa unicamente quando necessito; (g) Gosto de comprar roupa nova; (h) Em geral, pode dizer-se que sou um(a) apaixonado(a) por roupa/vestuário. (i) O estilo de vestuário utilizado pelos jovens permite a sua integração ou exclusão de um grupo
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 122 P.2.2: Quando vais para a escola/local de trabalho quanto tempo demoras, em média, a arranjar-te? (a) Menos de 30 minutos (b) Cerca de 30 minutos (c) Cerca de 1 hora (d) Cerca de 1h e 30 minutos (e) Cerca de 2horas (f) Outra: Qual?…. P.2.3: E quando vais sair à noite, por exemplo para um bar, quanto tempo demoras? (a) Menos de 30 minutos (b) Cerca de 30 minutos (c) Cerca de 1 hora (d) Cerca de 1h e 30 minutos (e) Cerca de 2horas (f) Outra: Qual?…… P.2.4: Escolhes a roupa que vais vestir em função dos contextos sociais (ex.: escola/local de trabalho, bar) em que te apresentas? (a) Sim (b) A maior parte das vezes sim (c) Não (d) A maior parte das vezes não (e) Outra: Qual?.…...
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 129 P:4.3: Qual a principal fonte de rendimento dos teus pais (e do inquirido se trabalhador) (atual ou última no caso de não estar a trabalhar mas já ter trabalhado ou falecido) (apenas 1 opção): Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) (a)Trabalho (b) Subsídio de Desemprego (c) Rendimentos (ex.: por via de arrendamentos) (d) Pensão de Invalidez (e) Assistência Social (ex.: ajudas de instituições de solidariedade social) (f) Ajudas de Terceiros (ex.: Familiares) (g) Remessas de Emigrantes (h) Rendimento Social de Inserção (i) Outra: Qual? P.4.4: Condição perante o trabalho dos pais (e inquirido se trabalhador) (atual ou última no caso de não estar a trabalhar mas já ter trabalhado ou falecido): Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) (a) Exerce profissão/trabalha (b) Ocupa-se exclusivamente das tarefas do lar (c) Incapacitado permanente perante o trabalho (d) Desempregado (e) Reformado (f) Outro: Qual?
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 130 P.4.5: Profissão principal exercida pelos pais (e inquirido se trabalhador) (atual ou última no caso de não estar a trabalhar mas já ter trabalhado ou falecido): Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) P.4.6: Situação na profissão principal dos pais (e inquirido se trabalhador) (atual ou última que exerceu no caso de não trabalhar mas já ter trabalhado ou falecido): Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) (a) Patrão (b) Trabalhador por conta própria com trabalhadores (isolado) (c) Trabalhador por conta própria sem trabalhadores (isolado) (d) Trabalhador por conta de outrem (assalariado) (e) Outra: Qual? P.4.7: (Só no caso de ser patrão ou de ter trabalhadores a cargo) Número de trabalhadores a cargo (indicar, mesmo no caso de não trabalhar mas já ter trabalhado ou já ter falecido) Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) (a)Menos de 6 (b)6 a 49 (c)50 a 99 (d) Mais de 100 (e) Não se aplica
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 131 P.4.8: (No caso de assalariados): Qual a função desempenhada na profissão pelos pais (e inquirido no caso de trabalhador) (atual ou última no caso de não estar a trabalhar mas já ter trabalhado ou já ter falecido)?: Pai (1) Mãe (2) Inquirido (3) (a)Dirigente/Gestor de Topo (b)Quadro ou gestor intermédio ( c)Chefia direta ou primeira chefia (d)Encarregado geral (e)Posição acentuada de autonomia (f)Executante sem lugar de chefia (g)Outra: Qual? P.4.9: Caracterização social dos irmãos: Número de irmãos (1) Idade (2) Sexo (3) Grau de ensino que frequenta (4) Fem. (a) Mas. (b) Não está em idade escolar (a) 1º Ciclo (b) 2º Ciclo (c) 3º Ciclo (d) Universidade ( e) Profissão que exerce (f) (a) 1 (b) 2 (c) 3 (d) Mais de 3:
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 132 P.4.10: Para além dos irmãos, qual o número de elementos que fazem parte do teu grupo doméstico (familiares e não familiares com os quais resides)? Parentesco com o Inquirido (1) Sexo (2) Idade (3) Masculino (a) Feminino (b) 1: 2: 3: 4: 5: Mais uma vez, obrigada pela tua colaboração! Se estiveres disposto a conceder uma entrevista para complementar a informação sobre a temática em estudo, por favor indica o contacto:
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 133 Anexo II - Entrevista semidiretiva Faculdade de Letras da Universidade do Porto Mestrado em Sociologia Guião de entrevista semidiretiva Grupo alvo: Jovens na faixa etária dos 15-20 anos 1: Apresentação: 1.1: Apresentação da entrevistadora; 1.2: Breve apresentação do tema da entrevista; 1.3: Informar sobre confidencialidade; pedir autorização para gravar a entrevista; colocar o entrevistado à-vontade para o esclarecimento de qualquer dúvida. 2: Questões a desenvolver: 2.1: Podes falar-me, um pouco, do que significa, para ti, ser jovem? Procurar que o jovem desenvolva uma definição de juventude (a sua definição de juventude); 2.2: “Ser jovem hoje é diferente de sê-lo há uns anos atrás”. O que achas desta afirmação? Concordas? Em que medida? (Quais serão as principais diferenças existentes, na tua ótica?) 2.3: Como é que achas que os adultos entendem/percecionam os jovens? 2.4: Colocando o enfoque no vestuário: fala-me um pouco acerca da tua perceção sobre o vestuário; por exemplo, achas que o vestuário te ajuda, enquanto jovem, a definir a tua
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 134 posição na sociedade, ou melhor, nos contextos sociais em que te moves (ex: na escola, no convívio com os amigos)? Procurar que desenvolva qual a imagem que pretende transmitir com o vestuário que usa; Procurar perceber se entende o vestuário como um meio privilegiado através do qual pode afirmar a sua de identidade pessoal e social (de pertença a uma classe social, a um grupo amical; enquanto jovem na sociedade); 2.5: O vestuário ajuda-te, ou melhor, permite-te realizar uma categorização dos outros? Em que medida o vestuário te ajuda a categorizar os outros? Procurar perceber qual o código de perceção dos outros que o jovem aciona em função do vestuário, enquanto objeto simbólico imediatamente acessível (identificação das categorias de perceção acionadas em interação social, por exemplo quando conhece alguém que leitura, desde logo, constrói da pessoa pela imagem. 2.6: Alguma vez ouviste algum tipo de comentário (pejorativo ou agradável) relativo à tua imagem (para a qual o vestuário contribui)? Se sim, podes identificar o que sentiste? 2.7: Costumas tecer comentários relativamente à forma como os outros jovens (amigos, colegas, conhecidos) se apresentam? 2.8: Consideras que há formas corretas e formas erradas dos jovens se vestirem? 2.9: Se sim, podes dar exemplos? 2.10: Consideras que os jovens de um grupo se devem apresentar com estilos idênticos? Obrigada pela colaboração!
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 135 Anexo III - Grelha de observação direta Grelha de Observação Direta 1.Local; 2.Caracterização do Local (disposição do espaço); 3.Hora da observação; 4.Data da observação; 5.Tempo da observação; 6.Condições meteorológicas; 7.O que se consome; 8.Como se consome; Relacionar com os géneros 9.Com quem se consome; 10.Vestuário utilizado: Características/tendências; 11.Marcas de vestuário privilegiadas; 12.Identificação de grupos: Características que se podem identificar em termos da imagem tendo em conta a questão do grupo; 13.Capacidade de uso/manipulação de vestuário, enquanto instrumento ao serviço da imagem pessoal (ter em conta as diferenças entre os géneros); 14.Apropriação do espaço (o corpo no espaço)_ forma de estar, 15.Relacionamentos dos jovens em grupo;
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 136 Anexo IV - Tendências populacionais em Vizela entre 2001 e 2011 Fonte: Diagnóstico Social de Vizela, 2010 -2015 e dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) Anexo V - Ganho médio mensal no Concelho de Vizela segundo o setor de atividade e o sexo Ganho Mensal em Euros Setor de Atividade Homens Mulheres Total Primário 475,17 417,57 460,77 Secundário 674,13 526,16 594,16 Terciário 757,47 671,74 710,04 Total 692,95 561,55 621,61 Fonte: Diagnóstico Social de Vizela, 2010 - 2015 :13 Anexo VI - Local de residência dos inquiridos Anexo VII - Perfil social dos inquiridos População residente Grupos etários (por ciclos de vida) Censos de 2001 (N) Estimativas a 31/12/2008 (N) Censos de 2011 (N) 0-14 4857 4204 3978 15-24 3598 3493 3258 25-64 12.195 14.145 12.020 65_e + anos 1945 2635 2621 Total 22.595 24.477 23736 Local de residência “n” (%) Guimarães 2 2,0 Infias 1 1,0 Lordelo 1 1,0 Lustosa 3 3,0 Moreira 1 1,0 Raimonda 2 2,0 Regilde 1 1,0 Santa Eulália 17 17,0 Santo Adrião 2 2,0 Tagilde 6 6,0 Vilarinho 1 1,0 Vizela 63 63,0 Total 100 100,0 Perfil social dos jovens “n” (%) Estudante 91 91,0 Trabalhador 6 6,0 Estudante/Trabalhador 2 2,0 À data da inquirição não se encontra nem a estudar nem a trabalhar 1 1,0 Total 100 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 137 Anexo VIII - Ano de estudo dos inquiridos Ano de estudo “n” (%) 1º Ano de Licenciatura 3 3,2 2º Ano de Licenciatura 1 1,1 3º Ano de licenciatura 2 2,2 10º ano 38 40,9 11º ano 22 23,7 12º ano 26 28,0 Sem informação 1 1,1 Total 93 100,0 Anexo IX - Condição perante o trabalho do inquirido (quando trabalhador) Inquirido Condição perante o trabalho do inquirido (quando trabalhador) “n” (%) Exerce profissão/trabalha 8 100,0 Ocupa-se exclusivamente das tarefas do lar 0 0,0 Incapacitado permanente perante o trabalho 0 0,0 Desempregado 0 0,0 Reformado 0 0,0 Outra: Qual? 0 0,0 Total 8 100,0 Anexo X - Situação na profissão do inquirido (quando trabalhador) Inquirido Situação na profissão do inquirido (quando trabalhador) “n” (%) Patrão 0 0,0 Trabalhador por conta própria com trabalhadores 0 0,0 Trabalhador por conta própria sem trabalhadores 0 0,0 Trabalhador por conta de outrem 8 100,0 Outra: qual? 0 0,0 Total 8 100,0
Práticas de consumo de vestuário em jovens: o vestuário como expressão de sentido e de integração social 138 Anexo XI - Pessoas com as quais os inquiridos, habitualmente, residem * 2= situação de reconfiguração familiar por entrada masculina (padrasto, mãe e irmãos; padrasto, mãe e avós) 1= Situação de coabitação com família de acolhimento 1= situação de coabitação com pai, mãe e primo Anexo XII - Idade dos pais *Idades que aparecem, em igual percentagem (11%), como moda da amostra “n” (%) Sozinho 1 1,0 Com os pais 18 18,0 Com os pais e irmãos 62 62,0 Com os pais e avós 3 3,0 Com os pais, irmãos e avós 5 5,0 Mãe 2 2,0 Pai 0 0,0 Mãe e irmãos 2 2,0 Pai e irmãos 1 1,0 Mãe e avós 2 2,0 Pai e avós 0 0,0 Outra: Qual? 4 4,0٭ Total 100 100,0 Pai Mãe Idade dos pais (por categorias etárias) “n” (%) “n” (%) 35-40 anos 14 14,0 27 27,0 41-45 anos 38 38,0 39 39,0 46-50 anos 27 27,0 26 26,0 51-55 anos 18 18,0 7 7,0 56-60 anos 2 2,0 1 1,0 61-65 anos 1 1,0 0 0,0 Total 100 100,0 100 100,0 Média 46,04 43,84 Moda 45 40 e 43*