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Contar Histórias: refletir sobre a memória cultural de Timor-Leste

Xisto Viana

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UNIVERSIDADE DO PORTO FACULDADE DE LETRAS CONTAR HISTÓRIAS: REFLETIR SOBRE A MEMÓRIA CULTURAL DE TIMOR-LESTE XISTO VIANA Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes Novembro, 2012 Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos para a obtenção do grau de mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes realizada sob a orientação do Prof. Dr. Gonçalo Vilas-Boas DEDICATÓRIA Para o desenvolvimento e preservação da literatura oral como um recurso para o desenvolvimento da literatura escrita em Timor-Leste. À memória do meu pai, Eugénio Viana, que, sendo uma pessoa analfabeta, teve o caráter e a personalidade capaz de fornecer modelos para minha vida, especialmente na educação. À minha esposa, Domingas Cardoso da Silva Soriano, e aos meus queridos filhos, Eugénio, Joaquim, Nívio, Nicócio, Crisanta e Crisanto, que sempre me deram apoio moral e espiritual para que eu continue fascinado em aprender até a conclusão deste trabalho. Para todos os professores que orientam e dão apoio moral e material e contribuírem para que eu possa concluir os meus estudos na Universidade do Porto. v AGRADECIMENTO Este trabalho final só pôde ser terminado graças às contribuições de muitas pessoas a quem eu não posso esquecer de agradecer. Em primeiro lugar, agradeço infinitamente ao professor orientador, Prof. Dr. Gonçalo Vilas-Boas, que com toda a paciência me orientou desde o início até à conclusão deste trabalho. Obrigado por me acompanhar neste processo, e eu sei que às vezes áspero, mas sempre me serviu com genuíno e sincero apoio. Agradeço os meus professores que eu posso mencionar: Drª Maria Luisa Malato da Rosa Borralho Ferreira da Cunha, Drª Celina Silva, Drª Maria de Lurdes Rodrigues Morgado Sampaio, Dr. Luís Fernando Adriano Carlos, e Dr. Belmiro Fernandes Pereira, que me orientaram e ajudaram em várias dificuldades. Aproveito ainda para agradecer à UNTL, que me deu a oportunidade de continuar meus estudos no curso de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes na Universidade do Porto, e também para à IPAD, que forneceu apoio financeiro para bolsas de estudo. Um agradecimento especial ao Bispo D. Carlos Filipe Ximenes Belo, que me ajudou nalgumas dificuldades. Gostaria de agradecer também aos Serviços da Ação Social da Universidade do Porto, por me ter disponibilizado o alojamento, e um obrigado especial aos agentes de serviço da Residência Universitária Alberto Amaral, pela simpatia e amizade que têm demonstrado ao longo da minha estadia na residência. vi Um obrigado especial à minha família, principalmente à minha mãe e à minha esposa, pelo carinho, amizade, apoio, confiança e incentivo. E, finalmente, vai o meu profundo e sentido agradecimento a todos os amigos e colegas que sempre me apoiaram e me incentivaram, tornando possível este trabalho. vii Resumo Na era dos antepassados, antes dos portugueses terem pisado o solo de TimorLeste, ou seja, antes do século XVI, a população de Timor-Leste prestava culto a uma religião animista. Como um culto religioso de animistas, eles acreditavam em pedras e madeiras ou lugares considerados sagrados. Como afirma Frédéric Durand, as sociedades tradicionais atribuíram uma grande importância ao sagrado, devendo o mundo encontrar um equilíbrio entre as forças do universo e o mundo dos homens. As pedras, as árvores e as fontes eram considerados como a origem dos espíritos e das forças sobre-humanas (Frédéric Durand, 2010, p. 42). A existência da tradição do culto das pedras e madeiras ou lugares sagrados, deram origem a mitos, lendas, fábulas herdadas, transmitidos oralmente de geração em geração. A narração de mitos, lendas e fábulas mostra como a tradição da cultura oral é criada, mantida e preservada até hoje. Esta pesquisa tem por objetivo explorar e desenvolver a funcionalidade e usabilidade daquelas, que forneceram diretrizes para as pessoas que viveram nos tempos antigos em Timor-Leste. Ao serem incorporados em valores nobres, as populações antigas, através daquelas formas de narrativas, fazem com que este estudo seja um esforço para manter e preservar as tradições culturais da população de Timor-Leste. Além disso, este estudo também tem como objetivo fazer uma introdução à tradição da cultura oral do país, com as expetativas de esta sobreviver e continuar a ser desenvolvida. Também se espera que a investigação seja continuada por outros pesquisadores, e assim se torne num documento escrito contendo o texto histórico e antropológico. viii Introdução Sabemos que cada etnia ou cada país tem sua cultura. Timor-Leste como os outros países, também tem a sua própria cultura. Para tal temos que conhecer a sua história, pois, nunca se poderá compreender uma época ou período da história de um país, se não se estudar a respetiva sociedade e as suas formas de vida. Em face destas afirmações, Frédéric Durand defende que, uma história não se pode limitar aos factos e aos acontecimentos, devendo igualmente preocupar-se em compreender a cultura e as tradições, de modo a evitar trair, tanto quanto possível, os espíritos dos povos (Frédéric Durand, 2010, p. 19). Portanto, o que interessava era escrever a História dos costumes, das instituições, das ideias, para se poder compreender uma época. Por isso, para compreender a organização social e política do povo timorense, é preciso entender o país na época colonial. Timor-Leste foi colonizado por Portugal no século XVI e era conhecido como Timor Português, até à descolonização do país. Podemos dizer que a colonização teve uma duração de 450 anos. Durante esse tempo, para fins administrativos, Timor era dividido em circunscrições. Estas dividiam-se em postos e os postos em “sucos”. O suco é a unidade fundamental da organização social timorense. Segundo Frédéric Durand, a noção de “casa” (uma) era muito forte, e integrada numa estrutura piramidal em secções: da localidade de 4 a 10 casas (aldeia ou knua), ao agrupamento de aldeias (suku), até ao reino (Frédéric Durand, 2010, p. 42). Vários sucos formam um reino, o regulado, sob a autoridade de um chefe invariavelmente designado nos antigos textos portugueses por rei; eram chamados “liurai”. A sociedade Timorense é constituída por grupos étnicos distintos, a maioria dos quais é uma mistura de malaio-polinésio e da Melanésia. O maior grupo étnico são os Tétum, principalmente no litoral norte e à volta de Díli, os Mambae, nas montanhas centrais, os Tokodede, na área em torno de Maubara e Liquiçá, os Galoli, entre as tribos de Mambae e Makasae, os Kemak no centro de ilha de Timor, e os Baikeno, na área em torno de Pante Macassar (vd. http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C%Dnguas de TimorLeste). 1 As principais tribos da Papuásia incluem o Bunak, no interior central da ilha de Timor, a Fataluku, na ponta leste da ilha, na área de Lospalos, e a Makasae, em direção ao extremo leste da ilha. Além disso, como outras ex-colónias Portuguesas, onde o casamento inter-racial era comum, há uma população menor de pessoas de origem timorense mista e Português como mestiços; também existe uma pequena minoria chinesa. A população de Timor-Leste é predominantemente católica romana (97%), embora as tradições locais animistas tenham uma forte e persistente influência sobre a cultura. Além da religião católica também existem algumas minorias como os muçulmanos, os protestantes, os hindus, os budistas. Em relação às religiões existentes, a constituição reconhece o papel da Igreja entre os povos de Timor-Leste, embora também preveja um Estado laico que garanta liberdade de religião para todos. O catolicismo entrou em Timor-Leste juntamente com os colonizadores portugueses, a partir do estabelecimento dos missionários em 1556 (quarenta anos depois dos primeiros mercadores), mas o seu incremento foi principalmente devido à atividade de dominicanos sediados em Solor desde 1562 (http://www/humanismolatino.online.pt/vl/pdf). A nível religioso, as populações praticavam religiões tradicionais, não se verificando quaisquer influências hindus ou muçulmanas. Tradicionalmente, o culto timorense é dirigido aos espíritos dos antepassados e aos objetos sagrados (lulik), que pode ser materializado, sendo sempre considerado como tendo poderes sobrenaturais, inexplicáveis. Todas as etnias ainda têm casas sagradas consideradas como santuários. Assim, como afirma Frédéric Durand, cada aldeia possuía duas casas sagradas (umalulik). Estas práticas continuam hoje, apesar de catolicismo se ter difundido fortemente nas últimas décadas (Frédéric Durand, 2010, p. 42). Além disso, há também lugares e objetos que são considerados sagrados, como árvores, cavernas e montanhas. A adoração desses locais de culto e outros objetos é feita não só pelos animistas, mas também por aqueles que se tornaram cristãos e a entrega das orações é muitas vezes feita por pessoas que são consideradas especialistas. A pessoa que é capaz de recitar a oração, deve ser alguém que realmente entende os meandros da casa sagrada, ou as genealogias dos ancestrais. Isso também acontece porque cada etnia ou cada descendência teve tradições diferentes das outras. Assim, as orações ou formas de culto só são entendidas pela respetiva etnia. 2 Segundo Mircea Eliade, na maior parte dos casos, cada etnia singulariza-se por um comportamento diferenciador, pela posse de poderes ocultos, pelas ligações pessoais e secretas com os seres divinos e demoníacos, por um género de vida, uma maneira de as pessoas se vestirem, insígnias e idiomas que só a eles pertencem (vd. Mircea Eliade, 1957, p. 67). Podemos considerar que os lulik (sagrados) são intermediários entre Deus e o Homem, e são geralmente conservados nos locais de culto, as uma-lulik (casas sagradas). Como afirma Edmund Leach, as «pessoas» metafísicas a quem se destina a atividade ritual, estão ligadas a estes lugares sagrados (vd. Edmund Leach, 2009, p. 116). Na religião tradicional timorense, o ente supremo, Deus, é designado em tétum por Maromak, que significa ”o brilhante”, a que não se presta nenhum culto especial. Os ritos da religião tradicional foram designados por estilos, e consistem essencialmente em sacrifícios. O estilo mais exuberante é o do funeral (hakoi-mate) e destina-se a alimentar a alma do morto. Acontece isto, porque segundo a cultura tradicional de Timor-Leste, o mundo dos vivos permanecia em relação com os mortos (Frédéric Durand, 2010, p. 42). Alem disso, Edmund Leach também afirma, em relação ao ritual funerário, é uma questão de dogma considerar a morte apenas como uma passagem para a vida futura (vd. Edmund Leach, 2009, p. 113). O mesmo autor afirma ainda que há a ideia de que uma oferenda sacrificial feita aos deuses pode ser um presente, um tributo ou uma multa. A própria linguagem que as pessoas usam para descrever os sacrifícios reforça esta ideia. O ato expressa o princípio da reciprocidade. Se os deuses recebem presentes, têm a obrigação de retribuir algo ao homem (Edmund Leach, 2009, p. 118). Assim, os antepassados são vistos como santos, seres comuns que encarnaram divindades. Estes morreram de uma morte sem história e acabaram por se tornar deuses imortais. De facto, na tradição oral em Timor-Leste, a alma do falecido é considerada como um segundo deus, de modo que quando uma pessoa passa num cemitério, deve sempre fazer o sinal da cruz ou colocar algo como oferenda. Tais tradições correspondem ao facto de que, como afirma Cascudo, no local onde alguém foi sepultado é colocada uma cruz de madeira. Quem passa, reza ou benze-se, depositando, infalivelmente, uma pedrinha ou um galho verde ao pé do madeiro (Cascudo, 1971, p. 63). Além disso, Edmund Leach acrescentou que os antepassados divinos tornam-se inevitavelmente, modelos patriarcais de santidade (vd. Edmund Leach, 2009, p. 106). 3 É importante também referir que a finalidade da recolha de contos populares de circulação oral em Timor-Leste serve essencialmente para que o povo possa conhecer e reconhecer as tradições orais e as culturas de vários grupos étnicos no país. É essencial reconhecer as tradições étnicas e culturais, para dar consciência ao povo da sua própria identidade, para que os timorenses tenham um forte sentido de nacionalismo como cidadãos. A sociedade de Timor-Leste consiste em vários grupos étnicos em que cada um tem uma tradição diferente. Dadas as diferenças nestas tradições, há necessidade de uma forte unidade, porque com as diferenças muitas vezes aparecem lacunas, a divisão e a separação, e facilmente o sentimento comum é quebrado. Há necessidade de haver esforços de unificação, além da consciencialização necessária para respeitar as tradições de grupos étnicos que existem. Assim, é necessária a compreensão, o respeito e a valorização das diferenças de opinião, as diferenças nas atitudes e comportamentos causados pela presença de cada uma dessas tradições. A consciência da unidade e integridade, e amor pela tradição e culturas orais diferentes, devem ser incorporadas e enraizadas mais profundamente na vida do povo de Timor-Leste. OBJETIVOS 1. GERAL Este trabalho é um estudo sobre uma recolha de mitos, lendas e fábulas, com o objetivo de explorar e divulgar o folclore, a fim de apoiar o estabelecimento e desenvolvimento da cultura nacional de Timor-Leste. A nossa proposta consiste em identificar os mitos, as lendas e fábulas que circulam nas vidas de vários grupos étnicos que há em Timor-Leste. Assim, em geral, este estudo tem como objetivo descrever os valores morais contidos nos textos do folclore da região, a fim de elevar e desenvolver a literatura oral como um esforço para a criação da literatura escrita. Pois, como sabemos, os contos populares tal como os mitos, as lendas e as fábulas, são uma forma de erudição, de saber e também de mensagem de arte traduzida pela palavra e pelo conjunto de obras literárias. 4 Através da literatura o homem pode pensar a realidade e a imaginação, em que as ideias expressas são o resultado de reflexão e do pensamento profundo. As sociedades tradicionais muitas vezes canalizam os seus sentimentos através de expressões verbais. Isso significa que elas criaram cânticos populares, adivinhas, e contos populares como uma forma de entrega de aspirações. O povo precisa de meios de expressão e crítica que são as narrativas folclóricas. As narrativas folclóricas, para além dos contos populares, não têm caraterísticas individuais. De modo que, embora estas narrativas sejam expressas por alguém, elas não podem ser identificadas com essa pessoa. Às vezes, na vida quotidiana, as pessoas vêem e sentem o comportamento dos outros que são menos agradáveis, e isso pode acontecer em termos de serviços públicos à comunidade. É claro, haverá sentimentos de discórdia, ou de não-aceitação. É preciso a correção de erros praticados pelos elementos da comunidade. Para corrigir o comportamento que é considerado menos justo, é necessária uma crítica ética, sem ofender o criticado. Segundo Danandjaya, denunciando alguém usando as expressões orais tradicionais, é mais aceitável e acerta mais no alvo, em vez de uma censura direta (Danandjaya, 1991, p. 32). Numa sociedade tradicional, os sentimentos são mais profundos, são canalizados através de canções populares ou através de mitos, lendas e fábulas em circulação. Isto está de acordo com uma das principais caraterísticas dos contos populares que têm utilidade como ferramenta educacional, consolo, protesto social, e como projeção do desejo latente (Danandjaya, 1991, p. 4). A sociedade escolheu esta forma de criticar ou mostrar desagrado contra os erros respetivos, ao invés de denunciar alguém diretamente. Assim, a crítica que é feita por meio do conteúdo do conto popular é uma forma de educação que não é considerada um elemento de reprovação, e não tem nenhuma intenção de menosprezar a autoridade dos outros. O modo de criticar referido é uma caraterística da educação literária e obtém valor educativo em comunidades que ainda defendem a existência de uma cultura oral literária, e isso aplica-se à sociedade primitiva e até à moderna. 11 Neste sentido, podemos dizer que, para a sociedade tradicional, embora ainda não muito avançada no seu pensamento, a personalidade, o caráter e a simplicidade criaram os fundamentos da vida e da civilização. A.L. Kroeber afirma o termo «civilização» inclui geralmente as culturas maiores, mas todas as sociedades humanas possuem igualmente culturas, maiores ou menores, avançadas ou atrasadas (A.L. Kroeber, 1993, p. 234). Dentro desta perspetiva, a sociedade tem uma consciência moral, ou comportamento ético que é considerado bom. A ética pode ser definida como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta conduta, quando se julga do ponto de vista do Bem e do Mal. O brasileiro Eugênio Bucci, um professor da Ética Jornalística, revela isso em seu livro Sobre Ética e Imprensa, descrevendo a ética como um saber escolher entre "o bem" e "o mal”, levando em conta o interesse da maioria da sociedade. Ao contrário da moral, que delimita o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos justo diante de possíveis escolhas (http://wwwsejaetico.blogspot.pt/2009/10/doutrina_13.html). É aqui que vemos um importante papel dos contos populares como material de literatura oral. Neste contexto, estamos a viver agora, continuando a modificar alguns aspetos para nos ajustarmos à vida real. Em seu sentido mais abrangente, o termo "ética" implicaria um exame dos hábitos da espécie humana e do seu caráter em geral, e envolveria até mesmo uma descrição ou história dos hábitos humanos em sociedades específicas e em diferentes épocas. Como afirma Edmund Leach, conseguimos criar abstrações na mente (por exemplo, a oposição bom/mau) e, em seguida, dar forma visível a estas abstrações, através da sua projeção no mundo exterior (para exemplificar, bom/mau surge como branco/negro) (Edmund Leach, 2009, p. 55). Independentemente das relações éticas e morais, segundo William R. Bascom, Professor emérito na ciência do folclore, da Universidade da Califórnia em Berkeley, o folclore tem quatro funções a saber: (a) como um sistema de projeção (projective system), ou seja, como uma reflexão de um coletivo; (b) como um instrumento de ratificação das instituições culturais; (c) como um meio de educação (pedagogical device); e (d) como meio de coerção e fiscalização das normas, para que os membros de um coletivo respeitem sempre as normas da sociedade (Bascom, apud Danandjaya, 1991, p. 19). 12 Face a estas funções, por exemplo, como protesto social, alguns sábios imperadores chineses antigos, como o imperador da dinastia Hsia Yui e o imperador Wen Whang da dinastia Chow, tinham pessoal especializado, cuja função era recolher canções folclóricas que eram cantadas em tabernas no seu reino. Estas coleções eram então classificadas e arquivadas, uma vez apreendido o seu conteúdo. A partir do conteúdo dessas canções populares, o imperador conhecia a opinião do povo contra o governo. Os imperadores chineses antigos recorreram ao folclore para valorizar o sucesso ou fracasso na realização de políticas governamentais (ibidem). Tendo em conta estes exemplos, pode-se dizer que a função do folclore, tal como os contos populares e a tradição oral, desempenha um papel muito importante. A razão fundamental é que a tradição oral como “património imaterial, passado oralmente de geração em geração, representa não só um mecanismo de afirmação e preservação identitária, mas também um processo de transmissão de valores simbólicos, por vezes de carácter apenas lúdico, mas também e frequentemente de intuito normalizador e moralizador, tendente a implementar e reforçar princípios éticos e de conduta imprescindíveis à dinâmica e à sobrevivência da comunidade.” (http://tradicao.com.sapo.pt/historia.htm, visto em 6 de julho de 2012). Com base nestas razões, o nosso objetivo é a recolha e arquivo de contos e fábulas, de modo a difundir a tradição oral no apoio à criação e ao desenvolvimento da cultura nacional, ou seja, a literatura nacional. 1.3 Valores contidos nos contos populares A tradição oral também pode veicular alguns valores morais, educação, dialetos, valores estéticos, valores religiosos, o nível de capacidade ou a natureza da mente e visão da vida que a sociedade possui. O folclore existe desde os tempos em que os humanos não estavam familiarizados com a escrita, portanto, na época em que a linguagem oral desempenhava um papel importante como ferramenta de comunicação e de partilhadas experiências que ocorrem na sociedade e, em seguida, desenvolveram-se histórias de heroísmo, histórias de eventos naturais, e outras histórias. 13 Segundo Aguiar e Silva, a língua é de natureza supra-individual e contratual: constitui um «código social», um «sistema de sinais», um «modelo coletivo», um «depósito» ou um «tesouro» de formas existente em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade linguística (Aguiar e Silva, 2009, p. 145). Reafirmamos que a língua é uma ferramenta de comunicação que é criada e compartilhada. Numa sociedade a língua é considerada como uma convenção que pode ser utilizada para tornar possível a comunicação entre os seus membros, bem como um meio de unificação do povo de uma nação. Mais do que isso, ela também é usada para criar regras e normas que devem ser respeitadas por todos os membros da sociedade. As pessoas utilizavam a língua para criar histórias sobre a existência de um procedimento aplicável na vida da sociedade. O folclore é desenvolvido não apenas em histórias, mas na poesia, em canções, na música e nos instrumentos, nas danças tradicionais, nas cerimónias tradicionais, nas roupas tradicionais, nas jóias, e outros meios. As histórias têm sido compartilhadas em todas as culturas e localidades como um meio de entretenimento, educação, preservação da cultura e para incutir conhecimento e valores morais. A literatura oral é frequentemente considerada como sendo um aspeto crucial da humanidade. De facto, os contos tradicionais contêm mensagens essenciais e são um magnífico veículo de impulsionar uma educação para os valores. Nesta dissertação pretende-se perceber de que modo os contos tradicionais são veículo de transmissão de valores numa educação promotora do desenvolvimento pessoal e social de um povo que defende os valores e normas de vida através de suas histórias populares como uma fonte da literatura oral. Falamos de literatura, mas é a mesma coisa se dissermos arte. Diderot diz que literatura é uma arte e é também o conjunto de manifestações desta arte, isto é, um conjunto de textos que se singulariza pela presença de determinados valores estéticos (Aguiar e Silva, 2009, p.6). Se assim for, então é certo que a história popular ou os contos populares, o mito, a lenda, e fábula contém elementos literários, não se separando de elementos estéticos, o que significa que contém valores da beleza como um símbolo dos sentimentos reprimidos dentro de nós. Os contos, as histórias são potencializadores de valores cívicos, e desenvolvem não só a imaginação do homem através da linguagem simbólica, como também transmitem valores morais nas suas mensagens; 14 os valores contidos nos contos são revelados de um modo personificado pela simbologia mágica transmitida pelas palavras e pela descrição dos acontecimentos existentes nas histórias. Segundo Fish, a literatura é uma categoria convencional, não delimitável nem caraterizável mediante propriedades formais existentes em determinados textos, mas estabelecida em função de decisões de uma comunidade interpretativa que lê e julga como literários certos textos: quer dizer que é o leitor que “faz” a literatura, mas um leitor configurado e, pode-se dizer, determinado por uma comunidade interpretativa (Fish apud Aguiar e Silva, 2009, p.40). A obra literária é significativa não só porque ela atrai leitores mas porque ela está mais ou menos próxima da experiência do leitor. Os leitores são convidados a interpretar a mensagem e o significado que são revelados a partir das palavras transmitidas. Se assim for, a literatura tem um valor educacional e didático porque oferece ao leitor o conhecimento sobre a natureza das virtudes morais e vícios, também sobre encontros pessoais que revelam a relação entre o homem e o Criador (religioso). Como Aguiar e Silva afirma, a obra literária, como o próprio lexema “obra” denota, constitui o resultado de um fazer, de um produzir que, sendo embora também um processo de expressão, é necessária e primordialmente um processo de significação e de comunicação (Aguiar e Silva, 2009, p.75). Quintus Horácio Flaco, em seu artigo intitulado “Ars Poetica” ou “Arte da Poética”, o poeta nascido em Itália, sugere o termo "dulce et utile" para a dupla função da literatura, ela não é apenas entretenimento (dulce) para exibir a beleza, mas também dá sentido (utile) à vida (miséria, morte, feliz e prazer) ou dá a libertação para o mundo da imaginação. Dito isto, a literatura responde às necessidades emocionais das pessoas (leitores) por felicidade, prazer, ou mesmo dor e lágrimas. A literatura não só desempenha um papel em reviver a palavra, mas também nos dá a distância de um momento para admirar a beleza e a elegância. Estas são as duas coisas que caraterizam a base de uma obra literária. Que ela não só pode servir de entretenimento (função estética), mas também capaz de participar como um mensageiro que é muito pessoal para o leitor. Não é necessário, para ilustrar a utilidade da arte, ir ao ponto de lhe atribuir como objetivo uma lição moral, como o objetivo que Hegel via na sua tragédia favorita, Antigone. 15 «Útil» é equivalente a «não perda de tempo» e não uma forma de «passar o tempo»: é qualquer coisa que merece que se lhe dedique atenção séria, «doce» é equivalente a «não maçador», «não imposto pelo dever», «algo que é prémio de si próprio» (René Wellek e Austin Warren, 1955, p. 33). Os textos dos contos populares como os mitos, as lendas, e as fábulas não são apenas leituras para diversão, mas para nutrir, para formar o caráter do leitor ou do público que ouça a obra da literatura oral, incluindo as crianças como sementes das gerações futuras que devem ser estabelecidas desde cedo. Para o povo de Timor-Leste a formação da moral, mental, espiritual através das mensagens do conto ou das histórias populares foi necessária e útil. Hoje há uma tendência das gerações mais jovens em não querer aprender, e muito menos compreender os valores literários contidos na literatura oral. O exame precedente deverá ter revelado que não existe estrutura fora das normas e dos valores. É-nos impossível compreender e analisar qualquer obra de arte sem referência aos valores. O próprio facto de uma pessoa reconhecer uma certa estrutura como «obra de arte» implica um julgamento de valor (René Wellek e Austin Warren, 1955, p.189). Com base nesta afirmação, reconhecemos que numa obra literária o mais importante são os valores que nela contêm. Neste sentido, os valores são úteis e benéficos para a vida humana (os valores artísticos éticos, religiosos, filosófico, culturais e outros são utilizados como base). Os contos populares de Timor-Leste são considerados como objeto da literatura oral, sendo o conteúdo e a linguagem utilizada muito simples, fácil de compreender. Isto não significa que não tenham valor literário, como o que foi considerado por Aguiar e Silva como "infraliteratura" ou "subliteratura" ou não que têm capacidade crítica. O conto popular é considerado como bíblia do povo (the bible of folk), porque, embora os valores e as normas descritas no conto popular não estejam escritos, nem veiculam valores em que a sociedade acredita fortemente. Segundo a lenda, quando Adão foi apanhado em flagrante por Deus, quando comeu o fruto proibido no Jardim do Éden, uma fruta ficou presa na sua garganta. O resultado é que o homem tem maçã-de-adão (Brunvand apud Danandjaya, 1991, p. 70). Uma história semelhante também está contida na lenda de Édipo que lembra o mito bíblico do pecado original: Adão comeu a maçã e toda sua descendência herdou, não apenas a pena, mas também a culpa! 16 Outro tema importante é o da catarse, a purificação pela dor, o sofrimento como condição indispensável para a felicidade. Portanto, “enquanto alguém deixar esta vida sem conhecer a dor, não pode dizer que foi feliz”. Assim, os conteúdos dos contos que são como «sabedoria popular», como afirma Victor Jabouille, são importantes para o estabelecimento da formação pessoal e social, moral e crítica. Referindo de novo o material dos contos populares como obras literárias que contêm uma lição de moral, René Wellek e Austin Warren afirmam que numa obra de arte bem realizada, os materiais encontram-se completamente assimilados na forma: o que era «mundo» converteu-se em «linguagem». Os materiais de uma obra literária são, num plano, as palavras; noutro, a experiência do comportamento humano; noutro ainda, as ideias e atitudes humanas (René Wellek e Austin Warren, 1955, p.302). Também os contos de Timor-Leste contêm mensagem morais que são benéficas para a vida humana, dependendo da sociedade ou do indivíduo como os utilizadores da literatura oral. Isto significa que, se um indivíduo lê uma obra de um conto popular, com o único objetivo apenas de diversão, então a função tomada é "dulce". De facto, muitos leitores lêem o conto popular com a finalidade de entreter-se, o que significa sem um propósito. Por outro lado, um indivíduo que lê, a fim de apreciar e desejar uma lição de moral, então a função é dulce e utile. A partir daqui, podemos dizer que as pessoas realizam atividades que dão vantagens, além de proporcionarem entretenimento. Isto é, através da leitura então as pessoas obtêm ensinamentos morais, espirituais, mentais, e o senso crítico que pode ser impregnado. Neste sentido, quando uma obra literária exerce com êxito a sua função, os dois fatores referidos – prazer e utilidade – devem não só coexistir, mas fundir-se (René Wellek e Austin Warren, 1955, p. 33). As obras de literatura, como resultado da divulgação de ideias humanas geradas através dos mitos, lendas e fábulas serão assim uma fonte para reforçar e apoiar outras práticas. Estas narrativas não podem ser ignoradas, porque são parte da vida humana. 17 CAPÍTULO II O MITO Uma vez que falamos das sociedades humanas, falamos de antropologia. Esta abrange todas as dimensões da humanidade, seja nos seus aspetos físicos, na sua relação com a natureza, seja na sua especificidade cultural. Para o saber antropológico o conceito de cultura inclui várias dimensões, a saber: universo psíquico, os mitos, os costumes e rituais, suas histórias especiais, a linguagem, valores, crenças, leis, relações familiares, entre outros tópicos. Neste sentido, a existência do mito revela as circunstâncias em torno da vida humana, ajuda-nos a lidar com as circunstâncias problemáticas humanas, como revelado por Karen Armstrong, o mito ajuda as pessoas a descobrir o seu lugar no mundo e a sua verdadeira orientação (Karen Armstrong 2005, p. 11). O mito ajuda o homem a se situar no mundo dando-lhe uma explicação da origem das coisas e de si próprio; além disso, oferece modelos exemplares para o seu comportamento e ação no mundo. Na vida humana, nenhum aspeto da vida humana pode ser revelado totalmente pela lógica, e os mitos mostram o poder da imaginação humana. Portanto, há razão para que os mitos como património cultural tradicional sejam mantidos e preservados. Nos mitos em que personagens são os deuses e estes têm a capacidade supranatural eles têm atitudes, comportamentos, morais e espírituais que podem ser emulados pelo povo que neles acreditam. Por esta razão o mito como património cultural tradicional é mantido pelo povo até hoje. Segundo Victor Jabouille, “os mitos podem obedecer quanto ao seu conteúdo a uma tipologia que, em termos gerais, se pode apresentar do seguinte modo: 1) Mito teológico – relata o nascimento dos deuses, os seus matrimónios e genealogias; 2) Mito cosmogónico – debruça-se sobre a criação e o ordenamento do mundo e os seus elementos constitutivos; 3) Mito antropogónico – apresenta a criação do homem; 4) Mito antropológico – prolonga o anterior, descrevendo as caraterísticas e o desenvolvimento do género humano; 18 5) Mito sotereológico – apresenta o universo da iniciação e dos mistérios, das catábases e dos percursos purificatórios; 6) Mito cultural – narra as atividades dos heróis que, tal como Prometeu, melhoram as condições de vida do homem; 7) Mito etiológico – explica a origem das pessoas e das coisas; pesquisa as coisas por que formou uma tradição, procurando em especial encontrar episódios que justifiquem nomes; 8) Mito naturalista – justifica miticamente os fenómenos naturais, telúricos, astrais, atmosféricos; 9) Mito moral – relata as lutas entre o Bem e Mal entre anjos e demónios, entre forças ou elementos contrários; 10) Mito escatológico – descreve o futuro, o homem após a morte, o fim do mundo” (vd. Victor Jabouille 1994, p. 39). O termo mito é frequentemente utilizado coloquialmente para referir uma história falsa, mas o uso académico do termo não refere geralmente um julgamento quanto à verdade ou falsidade. É essencial sabermos que o mito procura explicar a realidade, os principais acontecimentos da vida, os fenómenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semideuses e heróis. Segundo o historiador francês Pierre Grimal, o mito tem por finalidade apenas a si mesmo. Acredita-se ou não nele, conforme a própria vontade, mediante um ato de fé, caso pareça ”belo” ou verosímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. O mito, atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento humano, por sua própria natureza (http://materialdidatico.blog.terra.com.br). Assim, Roland Barthes afirma “o que o mundo fornece ao mito é um real histórico, definido, remontando tão longe quanto seja necessário, pela maneira como os homens o produziram ou utilizaram; e o que o mito restitui é uma imagem natural deste real” (Roland Barthes, 2007, p. 295). Admite-se que o mito seja o resultado da imaginação humana, ela é a faculdade que gera a religião e a mitologia. Hoje o pensamento mítico entrou em descrédito, sendo possível que alguém o rejeite como irracional e apenas servindo os desejos de cada um. Isto não significa que a imaginação transmita sentidos absurdos mas uma coisa que existe na ideia e que não foi infrutífera. Aristóteles apreciava o mito, considerando-o como base de um ensino que não podia desprezar. 19 Os mitos, vindos de idades muito antigas, encerram um saber sobre a verdadeira natureza dos elementos (vd. Victor Jabouille 1994, p. 46). Através do mito o homem pode revelar coisas que não podem ser expressas em lógica. Mas a imaginação é também a faculdade que torna cientistas aptos a trazer a lume um novo conhecimento e a inventar uma tecnologia que fez de nós indivíduos incomensuravelmente mais eficientes. O poder da imaginação dos cientistas tornou-nos capazes de viajar no espaço sideral e caminhar na Lua, façanhas que, dantes, só eram exequíveis no reino do mito. Neste contexto, como afirma Karen Armstrong, como a ciência e a técnica, a mitologia não é um processo de não nos fazer participar neste mundo, mas sim de nos tornar capazes de viver nele mais intensamente (vd. Karen Armstrong, 2006, p. 9). Neste sentido, o mito pode revelar-nos o que devemos antecipar e efetuar com a medida da nossa capacidade e da nossa experiência. No entanto, também devemos imaginar o que está além da nossa capacidade, podemos efetuar através da nossa imaginação. Devemos usar esta vida da melhor forma possível, para nos dar a felicidade. Aristóteles afirma que «o mito é imitação de ações; e, por “mito”, entendo a composição dos atos; por “carácter”, o que nos faz dizer das personagens que elas têm tal ou tal qualidade; e por “pensamento”, tudo quanto digam as personagens para demonstrar o quer que seja para manifestar sua decisão» (Aristóteles, 2003, p. 111). Acrescentou ainda que o mito postula um saber, um passado, uma memória, uma ordem comparativa de factos, de ideias de decisões (ibidem, p. 270). Segundo um americano folclorista, antropólogo, o mito é a história de um povo com os personagens de deuses e semideuses, que é considerada verdadeira e sagrada pelo proprietário da história, com eventos ocorridos no passado em outro mundo, ou no mundo que não é como nós o conhecemos hoje (Bascom, apud Danandjaya, 1991, p. 50). Um mito é uma narrativa sagrada que tenta explicar como o mundo e a humanidade veio a ser da forma que é atualmente. Muitos estudiosos em outros campos usam o termo "mito" de forma um pouco diferente. Em um sentido muito amplo, a palavra pode-se referir a qualquer história tradicional. Os mitos são, geralmente, histórias baseadas em tradições e lendas feitas para explicar o universo, a criação do mundo, fenómenos naturais e qualquer outra coisa a que explicações simples não são atribuíveis. Mas nem todos os mitos têm esse propósito explicativo. 20 Para além destas expressões, o ensaísta e sacerdote português Manuel Antunes, na sua Teoria da Cultura, defende que o mito pode ser entendido como uma história de fundo lendário, em que determinada sociedade ou grupo faz assentar as suas concepções do mundo e da vida, os seus sentimentos, os seus usos e costumes, as suas instituições. Devemos ter em conta que uma lenda não significa uma mentira, nem tampouco uma verdade absoluta, o que devemos considerar é que uma história para ser criada, defendida e, o mais importante, ter sobrevivido na memória das pessoas, deve ter, no mínimo, uma parcela de factos verídicos. As lendas passam oralmente de geração a geração e assim podem ser recontadas. A lenda geralmente tem uma natureza migratória, muda-se de um lugar para o outro, de modo que é amplamente conhecida em diferentes áreas; assim, devido à sua natureza, as lendas frequentemente sofrem alterações no seu conteúdo. Lenda é tal, como o mito, uma história que é considerada pelo proprietário da história como um evento que realmente aconteceu. Ao contrário do mito, a lenda é secular (mundana), não tendo a ocorrência sido ainda muito antiga. Segundo Claude Rivière, a transferência de um elemento cultural de uma sociedade para outra é sempre ocasião de perdas, de acréscimos e de remodelações (vd. Claude Rivière, 1995, p. 41). Além disso, dada a sua natureza, há um ditado que diz “Quem conta um conto aumenta um ponto”. De facto, a lenda é uma narrativa de cunho popular que é transmitida, principalmente de forma oral, de geração para geração. Por esta razão, as lendas não podem ser comprovadas cientificamente, pois são frutos da imaginação das pessoas que as criaram. Contudo, deve ser notado que com exemplos bem definidos em todos os países do mundo, as lendas geralmente fornecem explicações plausíveis, e até certo ponto aceitáveis, para coisas que não têm explicações científicas comprovadas, como acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Podemos tomar como exemplo o mito do Crocodilo Timorense. Para conhecer a história veremos no Capítulo V, páginas 38 – 40. Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, afirmam que, no campo da literatura tradicional de transmissão oral, lenda designa uma narrativa em que um facto histórico aparece transfigurado pela imaginação popular: não se trata, pois, de uma reconstituição objetiva e «documental» de um facto ocorrido num passado remoto, mas sim de uma narrativa de caráter ficcional, que foi sendo transmitida de geração em geração. (vd. Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, 2002, p. 224). 27 A ação aparece normalmente localizada no espaço e/ou no tempo, ao contrário dos contos, situados num passado indefinido e num espaço indeterminado e a história contada é sempre modelada pelo maravilhoso; as lendas de mouras encantadas, os milagres de santos ou a lenda cristã do milagre da Nazaré ilustram bem este tipo de narrativa. Se entendermos e explorarmos as narrativas das lendas, então finalmente, chegamos à ideia de que todo o material da lenda geralmente toma as lições que alimentam os aspetos de nossa vida. Dizemos isso, porque somos mais propensos a imitar os temperamentos das personalidades dos personagens que aparecem em contos populares no lugar onde vivemos. Neste caso, aplica-se às comunidades de uma etnia que ainda mantêm a sua cultura oral tradicional, imitando os temperamentos das personagens de uma história, bem como imitando os comportamentos dos ancestrais. Assim, cria-se uma vida harmoniosa desejada pela comunidade. É verdade que a vida harmoniosa de uma sociedade depende fortemente de uma consciência profunda de todos os membros. A razão de que, a vida de nossa sociedade é determinada a partir de formas: como pensar, como agir, como se comunicar, como comportar e como conviver com outros seres humanos, e assim por diante, como diz Claude Lévi-Strauss; cada um de nós utiliza uma certa porção do seu poder mental para satisfazer as necessidades ou alcançar as coisas que o interessam (Claude Lévi-Strauss, 2010, p. 30). Os contos populares, como as lendas, constituem um tesouro coletivo, armazenado na mente de uma comunidade que irá fornecer direção e orientação, para esta ser capaz de se adaptar à vida quotidiana. A lenda é parte da literatura tradicional de transmissão oral: as lendas circulam oralmente de geração em geração, assegurando a manutenção de um património cultural que escapa à sanção dos mecanismos institucionais. A oposição escrita versus oralidade reveste-se de acentuada importância: sem suporte material de fixação, o conto popular é literalmente promovido à existência na e pela oralidade. Relativamente a essa expressão, o Romantismo com a sua propensão para valorizar elementos provenientes da cultura nacional e popular foi um período literário especialmente vocacionado para o culto das lendas. Registe-se a este propósito o caso exemplar de Garrett, cuja Dona Branca tem uma origem lendária, e também os Lusíadas de Camões (que é, tal como a Dona Branca, uma narrativa versificada) se alimenta de elementos lendários, neste caso envolvidos pelo halo mítico que rodeia o herói. 28 Assim as lendas são estórias contadas por pessoas e transmitidas oralmente através dos tempos. Misturam factos reais e históricos com acontecimentos que são frutos da fantasia. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais misturam-se com factos da realidade para dar sentido à vida e ao mundo (http://www.suapesquisa.com/mitos/, visto em 11 de agosto de 2012). O folclorista e antropólogo William R. Bascom argumenta que a lenda é figurada por seres humanos, embora haja momentos em que estes ajudados por criaturas mágicas. O local de ocorrência está no mundo como o conhecemos agora, porque o tempo não é muito antigo (Bascom apud Danandjaya, 1991, p.50). As lendas, os mitos e as fábulas tornamse parte do folclore, tópico de pesquisa desta dissertação consideramo-las como uma fonte de consulta, dando sentido às atitudes e aos comportamentos, à introspecção, à violação das normas. Estes objetos têm influências positivas ou negativas na vida de uma pessoa, desde as tribos mais primitivas até aos tempos mais modernos. Como mostra Kant, todo o conhecimento começa por um ato, isto é, por uma decisão de agir e por uma escolha pela qual o sujeito se afirma perante a realidade que o cerca, falando do ato, como se fala sobre as atitudes e os comportamentos. Estas são inseparáveis do aspeto moral. Pois o ser humano tem a capacidade e conhecimento para controlar seu comportamento. No entanto, é preciso que haja algumas orientações que o possam apoiar. Assim, um individuo manifesta as atitudes e os comportamentos de acordo com as normas. O que significa que cada indivíduo deve agir de acordo com as regras estabelecidas. Mas devemos estar conscientes de que um indivíduo pode agir e se comportar bem, graças à recomendação memorial. Esta é contida numa história, onde é revelada pelas personagens, de modo que se torna uma diretriz. Neste sentido, a existência desta diretriz é transmitida, através das narrativas dos contos populares bem como as lendas. No entanto, a lenda não é um conjunto de regras legislativas, mas sim uma doutrina que dá os princípios básicos que foram crenças arraigadas na mente humana. É verdade que a questão da confiança é um aspecto das nossas preocupações pessoais que vêm do coração e da alma. Depende de como o homem julga que algo é bom ou não. 29 Nesse sentido, o homem obtém o poder da razão, e a força espiritual através da coragem na determinação de sua confiança. Isso acontece porque os nossos sentimentos não podem ser enganados. A pessoa humana nasce como ela é, contudo, ela irá evoluir e é moldada pelo ambiente em que ela reside. Há outra opinião que diz que o homem é a medida de todas as coisas. Nesse caso, cada um de nós é, por assim dizer, o juiz daquilo que é e daquilo que não é. Com essas afirmações podemos concluir que as lendas, mitos e fábulas, como parte do folclore, bem como a literatura oral, é um produto nascido da sociedade tradicional, onde a sua existência pode afetar a vida da sociedade, em termos de formação de caráter, moral, e ético dessa sociedade em conformidade com os aspetos sociais e culturais. 30 CAPÌTULO IV A FÁBULA Depois de falarmos sobre o mito e a lenda nos capítulos anteriores, discutiremos a noção de fábula neste capítulo. Lenda, mito e fábula são tanto uma parte do folclore como são produtos da imaginação. Segundo Maria Luisa Malato, ainda que se narrem os acontecimentos verídicos já passados, a memória relata, não os próprios acontecimentos que já decorreram, mas sim as palavras concebidas pelas imagens daqueles factos, os quais, ao passarem pelos sentidos, gravaram no espírito “uma espécie de vestígio” (Maria Luisa Malato, 2008, p. 45). De facto, criar obras na forma de fábulas, lendas e mitos é uma forma de herança da literatura oral, através do poder da imaginação. Fábula vem da palavra latina que significa "história, jogo, narrativa, conta, conto", literalmente "o que é dito" é composição literária em que os personagens são animais que apresentam caraterísticas humanas, tais como a fala, os costumes, etc. Estas estórias terminam com um ensinamento moral de caráter instrutivo. Segundo Aguiar e Silva, em dados contextos socioculturais, o escritor cria os seus heróis na aceitação perfeita de certos códigos: o herói espelha os ideais de uma comunidade ou de uma classe social, encarnando os padrões morais e ideológicos que essa comunidade ou essa classe valoriza (Aguiar e Silva, 2009, p.700). A fábula bem como a lenda contém material para a transferência de conhecimento e, portanto, o seu valor é didático, para além de ter caráter lúdico e caricatural, pois pode criticar a sociedade e seus costumes. Em geral, podemos dizer que estes três conceitos, são produtos da imaginação, são uma parte da literatura oral. Segundo Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, a fábula designa um relato quase sempre breve, de ação relativamente tensa, mas não muito sinuosa, interpretada por personagens também não excessivamente complexas (personagens que são muitas vezes animais irracionais), apontando para uma conclusão de dimensão ético-moral (vd. Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, 2002, p. 158). Na fábula não há elementos intrínsecos como noutras obras literárias, tais como poesia, romance, epopeia e outras. A fábula faz parte da literatura, neste caso da literatura oral, mas sem grande preocupação com ritmo, métrica, rimas, aliterações e outros elementos sonoros. 31 A natureza da fábula é simples, para as pessoas entenderem o seu conteúdo. Os fundamentos históricos que os acontecimentos relatados revestem estão articulados a conceitos morais e atos exemplares que funcionam como modelos de comportamento. A título de exemplo, em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente os seus leitores. Também Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes afirmam que, talvez mais do que qualquer outro género, a fábula existe em função do intuito claro de moralizar, exercendo sobre o receptor uma ação que confirma as potencialidades perlocutórias que na narrativa se reconhecem. Essas potencialidades não são, naturalmente, afetadas por opções básicas técnico-estilísticas como a escrita em verso ou em prosa; de facto, a fábula assenta numa tradição literária que maioritariamente perfilha o discurso versificado, podendo até verificar-se que uma tal opção decorra do conhecimento das expetativas do leitor, dos seus hábitos e disponibilidades culturais, assim se reforçando a mencionada eficácia perlocutória da fábula (ibidem). As fábulas são histórias curtas e compactas que contém mensagens e ensinamentos de moral, o que podemos denominar apólogo. As personagens são muitas vezes animais que podem falar, cantar e até mesmo agir como seres humanos, com caráter que simboliza uma caraterística humana. Tomemos um exemplo: a fábula de origens culturais vetustas provindo de Esopo, no século VI a.C., e de Fedro no século I d.C., fábulas que são consideradas as mais antigas do mundo literário. As personagens de animais utilizados por Esopo têm por objetivo transmitir uma verdade sobre as circunstâncias do povo daquela época e que se encontrava em condições difíceis. Além disso, as fábulas também contêm uma descrição de atitudes morais dos seres humanos na vida quotidiana, incluindo os problemas que existem na vida das pessoas. Estas são algumas caraterísticas que as fábulas possuem; as ações praticadas pelos personagens da fábula recordam a vida passada como guias da vida no presente e no futuro. Outras vezes a fábula é usada para descrever uma situação política em uma região ou um país; é o caso em que uma sociedade é oprimida, devido a guerra prolongada. Sendo assim, a sociedade considera que o uso destas fábulas é adequado e que pode ser aceite pelas autoridades no local onde uma guerra ou uma situação de colonização ocorreu. 32 Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, consideram que em épocas de imitação classicizante, como ocorreu com La Fontaine, no Classicismo francês, a fábula ocupou um lugar importante, deslizando por vezes para o domínio da reflexão filosófica de recorte literário. Em Portugal também escritores como Garrett e João de Deus, de forma notoriamente episódica, cultivaram com propriedade a fábula (Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, 2002, p. 159). Na antiga Grécia, Esopo inventava histórias em que os animais eram as personagens. Por meio dos diálogos entre os bichos e as situações que os envolviam, ele procurava transmitir sabedoria de caráter moral ao homem. Assim, os animais, nas fábulas, tornam-se exemplos para o ser humano. Cada bicho simboliza algum aspeto ou qualidade do homem como, por exemplo, o leão representa a força; a raposa, a astúcia; a formiga, o trabalho. É uma narrativa inverosímil, com fundo didático. Quando as personagens são seres inanimados, objetos, a fábula recebe o nome de apólogo como já foi mencionado na página anterior. A temática é variada e contempla tópicos como a vitória da fraqueza sobre a força, da bondade sobre a astúcia e a derrota de presunçosos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fábula). Com os caráteres destes animais, os líderes de uma sociedade muitas vezes recebem a alcunha de acordo com os personagens animais. Como exemplo: um líder que é valente e corajoso para enfrentar qualquer tipo de ameaça, tem a alcunha de leão; o que é solidário e muitas vezes trabalha em ajuda mútua, é a formiga; e que para pessoas que têm hábito de presunçoso e fraudulenta chamado de lebre; assim por diante. Com os caráteres desses animais, muitos dos modelos são normas de conduta na medida em que servem de guias para orientar a ação em circunstâncias particulares de tempo, lugar e situação. É por exemplo o caso das regras de boa educação, de protocolo, das regras que regem cerimónias, ritos, e de grande número de normas que guiam as ações da vida quotidiana (Guy Rocher, 1977, pp.130-131). É aí que reside a utilidade da fábula. A vida em sociedade não é apenas estar no mundo, mas é relacionar-se com os próximos. Nesta vida, existem várias relações, como as de coexistência, de convivência, de colaboração, de conflito, de confronto, etc. Estes aspetos de relações sociais podem trazer à tona a necessidade de regras, normas, padrões e valores que devem ser respeitadas pelo povo, de modo a possibilitarem e harmonizarem ações muito distintas. 33 É importante um compromisso ético-moral em toda a pessoa humana. As fábulas ajudam-nos a cultivar este aspeto ético-moral. Sintetizando, elas distraem ao mesmo tempo o leitor, apresentando as virtudes e os defeitos humanos através de animais. Além disso, o objetivo principal da fábula é uma combinação de dois elementos: um divertido e um educativo. 34 CAPÍTULO V ANÁLISE DOS MITOS, LENDAS E FÁBULAS DE TIMOR-LESTE 1. Introdução Ao analisar os textos existentes, que foram tópicos de pesquisa, tomaremos como modelo as abordagens utilizadas por alguns especialistas, sobretudo Vladimir Propp, um académico estruturalista que analisou os componentes básicos do enredo dos contos populares. Segundo ele, a análise de todos os textos nem sempre é feita com rapidez e facilidade. Muitas vezes acontece que um elemento obscuro no texto torna-se claro num texto paralelo. Fazer a análise exata de um conto nem sempre é fácil. É necessário uma certa experiência, um certo savoir-faire (vd. Vladimir Propp, p. 154). Já dissemos nos capítulos anteriores que temos interesse pelo folclore como parte da literatura oral, em geral, e especialmente em Timor-Leste. Em cada narrativa procuraremos expressar os valores e as mensagens contidos em cada tipo de texto, explicando, relatando, e percebendo como é que estruturalmente a narrativa se constrói. As narrativas são simples, mas o mais importante para nós é perceber os valores morais contidos nas narrativas dos contos populares que aqui tratamos. Vladimir Propp afirma que se tem frequentemente dado grande importância ao papel da realidade na criação do conto. Só podemos resolver o problema da relação entre o conto e a vida corrente com a condição de não esquecer a diferença entre o realismo artístico e a existência de elementos provenientes da vida real (vd. Vladimir Propp, 1978, p. 210). Ele afirma que as coisas se complicam porque clareza, na estrutura dos contos, é próprio da rusticidade, e ainda mais de uma rusticidade pouco tocada pela civilização. De facto, os contos populares descrevem a vida de sociedades em que a oralidade é o único veículo de comunicação. Em tais sociedades tradicionais os pais contavam histórias, a fim de aconselharem os seus filhos a desviarem-se das más atitudes. Através dos contos populares a sociedade define as suas experiências, a sua imaginação criadora, uma imaginação coletiva e não apenas uma imaginação individual. O conto popular nasceu entre o povo anónimo, fazendo parte da tradição oral de uma comunidade e refletindo os sentimentos da alma de um povo. 35 Talvez esta seja precisamente a razão pela qual os especialistas primeiro analisam sociedades antigas ou primitivas, a evolução da linguagem, os objetos sociais; essas sociedades são consideradas mais autênticas e mais transparentes do que a sociedade dita civilizada, seja ela rural ou industrial. O motivo principal do folclore revela-nos, de forma consciente ou inconsciente, o modo como as pessoas pensam; além disso, o folclore perpetua o que é considerado importante (por um período), pela sociedade como protetor da cultura popular (vd. James Danandjaya, 1991, pp.17-18). Para fins de análise dos componentes básicos do enredo dos contos, Vladimir Propp descobriu que as funções das personagens são os elementos constantes e repetidos do conto maravilhoso (no total, estas funções são trinta e uma: afastamento, interdição e transgressão, interrogação e informação, engano e cumplicidade, malfeitoria (ou falta), mediação, inicio da ação contrária, partida, primeira função do doador e reação do herói, recepção do objeto mágico, deslocação no espaço, combate, marca do herói, vitória, reparação da falta, regresso do herói, perseguição e socorro, chegada incógnita, falsas pretenções, tarefa difícil, e tarefa cumprida, reconhecimento e descoberta do engano, transfiguração, punição, casamento) (vd. Vladimir Propp, 1978, p. 237). Na narrativa dos contos apresentam-se sempre as personagens, em torno dos quais a história gira. Além das funções acima apresentadas, Propp agrupa as personagens em sete esferas de ação: a esfera do agressor, a do doador, a do auxiliar, a da princesa e do seu pai, a do que manda, a do herói e a do falso herói (Vladimir Propp, 1978, pp. 1718). O próprio autor acredita que o número das personagens é limitado e a ordem em que surgem no desenrolar da ação é sempre a mesma. Ele afirma que as personagens não são o aspecto mais importante da história, mas o enredo. No entanto, consideramolas importante porque qualquer tipo de ação das personagens pode tornar-se num modelo para o leitor. Passaremos agora à análise das narrativas. As narrativas dos contos são originalmente de Timor-Leste, foram escritas em tétum, a língua nacional de TimorLeste, em seguida traduzido em Português, a língua oficial do país. O corpus é constituído por doze textos, a saber: 3 mitos, 4 lendas, e 5 fábulas. Os mitos são os seguintes “O Mito do Crocodilo Timorense”, “Uma Menina que Veio da Abóbora”, e “A Serpente Pagava a Sua Dívida”. 36 Este acrescentou e disse, ”sua excelência, ordena os soldados revistar casa em casa.” E assim, os soldados revistaram a casa do agricultor, e encontraram a sua filha mais nova, a Abu. Estes transportavam-na imediatamente para a casa do liurai, para lhe apresentar a jovem. O liurai nada demorou, e levou-a rumo ao jardim. Quando chegou lá, esta facilmente colheu o fruto e levou imediatamente ao filho do liurai. As pessoas que assistiram ficaram muito admiradas. O liurai também ficou muito satisfeito, e decidiu logo o dia do casamento dos dois. (6) Na véspera do casamento, o filho do liurai tinha uma desconfiança fraca à menina. Sendo assim, este confiava quando ele observava a coroa e o véu do vestido do casamento que ela tinha. A Abu foi encontrada por uma pessoa num deserto, e esta curava a ferida dela depois a transportou para casa. A sua irmã mais velha, Bui Laku na véspera do seu casamento, sofreu uma doença repentina que nada conseguia curar. E assim o dia do casamento se adiou, até que a doença fosse curada. O feiticeiro vaticinou que a sua doença só poderia ser curada, se ela comesse um fruto de amora. (7) O seu pai, o liurai orndenou a Bui Laku para que ela procurasse o fruto referido mas não conseguiu. A sua irmã mais nova, a Abu, obteve a sorte que foi dada pela serpente. Ela fez o milagre de fazer aparecer um cesto de amoras, e assim a Abu ordenava uma pessoa para as vender. O liurai perguntou se a Bui Laku queria comprar os frutos de amora e trocar com o seu vestido de casamento. Comendo estas frutas, a Bui Laku não conseguia melhorar. Então, o feiticeiro disse que ela ainda precisava de comer o fruto da palma. Com esta necessidade, a filha mais nova colheu os frutos da palma e encheu num cesto. Ela enviou estes à um empreiteiro e, disse que ela preferia trocar com uma carroça e coroa. A Bui Laku foi obrigada a trocar, porque ela queria ser curada. (8) Finalmente, a Abu conseguiu descobrir as suas coisas que foram roubadas pelas irmãs mais velhas. Ela vestiu o vestido de casamento, e atribuía-se a coroa e o véu, e dirigiu-se a casa do liurai transportada de carroça. O filho do liurai admirou-se com a chegada da rapariga. Este dizia que foi esta jovem que conseguiu colher o fruto de romã. “Agora temos que ir já ao casamento.” Quando as duas irmãs mais velhas ouviram que a Abu iria se casar, elas ficaram com medo, e foram pedir desculpa à Abu e ao liurai. Estas confessaram as atitudes que elas mostravam à Abu. O pai delas ficou furioso, mas a Abu era de bom coração e perdoou-lhes. 43 Ela preferia que as irmãs mais velhas vivessem felizes. As duas irmãs prometeram que não iam repetir estas maldades. 1.3. Análise do mito I O primeiro mito intitulado “O Mito do Crocodilo Timorense”. Em Timor-Leste, este mito é mais conhecido, e em tétum costumamos chamar “Lafaek Nakfilak an ba Rai-Timór”. Significa que o crocodilo que se transformou numa ilha de Timor. O 1º parágrafo ilustra-nos a existência de uma vida difícil. Descrevendo o ambiente natural que não pode suportar a existência de uma vida. Estas circunstâncias obrigam o ser humano a trabalhar duro para superar as dificuldades. Podemos observar a descrição destas imagens no desenrolar do enredo da narrativa. Neste caso, falamos sobre a “partida” do crocodilo. Conta o mito que durante o dia, o crocodilo nunca conseguiu nada. Atentemos o seguinte fragmento: “Por mais que tivesse aproximado daquela desolada povoação, nada conseguiu lograr”. O que foi desejado pelo crocodilo não pode ser alcançado. Na verdade, no ambiente onde ele estava lutando contra o destino, ainda mais mostrou o sofrimento. Além de sentir-se mais incerto, não sabia para onde ele deveria dirigir-se. Na luta da vida há, de facto, muitos desafios. O crocodilo está, sem dúvida, no meio de um labirinto. Neste sentido, o que podemos dizer é que o crocodilo se encontra desorientado. Trata-se de uma ilustração de vida de modo metafórico. Atente-se o seguinte fragmento: “O sol, que a sombra da velha árvore encobria, mitigando-lhe o ardor, ia já alto. Quando merencório, abandonou a frescura daquele sítio, era já meio-dia; fora, a terra escaldava; para chegar à foz da ribeira, ainda tinha muito que rastejar, e as margens eram só areia escaldante”. Por mais que o crocodilo se esforçasse de superar esta dificílima situação, cada vez encontra mais perigos que ameaçam a sua vida. Dito isso, em relação ao que revela neste seguinte fragmento: “Então tentou mover-se apressadamente; mas, a meio caminho, não podia aguentar mais, porque a areia queimava como fogo”. No 2º parágrafo, espelha-se um sofrimento profundo experimentado pelo crocodilo, como revelado na seguinte frase: “A sua angústia era imensa”! Mesmo assim, todo o problema que o crocodilo tinha enfrentado, poder ser superado com a ajuda do rapaz. De facto, foi um “socorro”, feito pelo rapaz. 44 Além disso, este que encontrava o crocodilo, também seria uma “chegada incógnita”. Porque o crocodilo nunca imaginava que alguém o possa ajudar. O 3º parágrafo revela-se que quando o rapaz viu o pobre animal prestes a morrer, ele exprime um sentimento de compaixão. Vemos isto no seguinte fragmento: “O rapaz disse para consigo, «Coitado deste netinho crocodilo, uns minutos mais e morrerias!» Como o rapaz sentiu pena com o crocodilo, então aquele tentou levantá-lo e, vendo que não pesava muito, transportou-o para a água. Neste caso o rapaz efetuou uma “tarefa difícil”, mas devido à compaixão, efetua outra tarefa, o que chamamos “tarefa cumprida”. Realmente, o rapaz realizou tudo isto como uma obrigação interior, ou como um dever moral. No 4º parágrafo, surge um “engano” feito pelo crocodilo. De acordo com a declaração do crocodilo que a partir de então eles se tornaram amigos íntimos. No entanto, o crocodilo teve uma intenção maliciosa por trás do laço de amizade que eles tinham feito. Isto, porque uma besta-fera nunca se priva de seus vícios. A razão é que o crocodilo é um animal carnívoro. Por isso além do “engano”, também houve uma “cumplicidade” feita pelo crocodilo. O que significa que o plano malvado que o crocodilo estava a planear, não foi conhecido pelo rapaz. Realmente, as palavras dirigidas ao rapaz são sempre de modo persuasivo. Veremos uma das palavras persuasivas do crocodilo: “Ai do crocodilo que ousar molestar-te!...Desejando passear pelas ribeiras ou pelos mares, basta que me chames e digas: amigo, lembra-te do bem que te fiz; e eu virei logo oferecer-te o meu dorso para viajares por onde te aprouver. Se for do teu agrado, partiremos agora mesmo.» Para além de persuadir, o crocodilo também manteve a “traição”. Ainda neste parágrafo, ocorre-se o “deslocamento no espaço”. Surge isto, quando o rapaz aceitou o pedido do crocodilo a fim de viajarem para o oceano. Na verdade, o plano maligno do crocodilo tinha sido planejado há muito tempo, desde que os dois se tornaram grandes amigos um do outro. Isto, podemos verificar no final do parágrafo que diz: “Foi assim durante muito tempo”. No 5º parágrafo, claramente vemos a pretensão do crocodilo a ser agressor de “malfeitoria”. Conta o mito que um dia o crocodilo deslizou com o amigo para o alto mar, e aí o seu instinto sentiu grande tentação. Teve ganas de tragar o seu amigo. Mas antes de realizar o seu desejo, ele resolveu aconselhar-se francamente com os peixes do mar e, por fim, também com um cachalote. Neste caso o crocodilo ainda tentava de obter uma “interrogação”. 45 Podemos observar isto no seguinte fragmento: «A uma pessoa que nos valeu, devemos fazer bem ou mal?» Todos responderam que devemos fazer bem. Assim, ele foi informado pelos outros animais sobre o que ele deveria fazer ao seu amigo, o rapaz. Em termos de função das personagens, esta ação é denominada de “informação”. O modo de atuar do crocodilo é uma maneira de evitar a censura de seus colegas. Relaciona-se esta questão com o que podemos chamar “iniciação da ação contrária”. Por mais que ele obtivesse as informações dadas pelos seus colegas, as más intenções nunca desapareceram. Todos os animais da terra responderam como os peixes. Pelo contrário, o crocodilo foi ainda mantendo as suas más intenções. Nota-se isto no seguinte fragmento: “Mas esta resposta não lhe satisfez os instintos, e a saliva começava crescerlhe na boca, embora no fundo do seu íntimo ele se esforçasse por resistir”. Na verdade, o crocodilo teve uma grande provação. Neste caso, surge “a primeira função do doador”. Isto é, se ele se pode controlar para não cometer um crime ou não. Embora o crocodilo tenha realizado várias consultas, mas nunca tomou uma decisão. Então deseja saber a opinião do macaco. Estas ações feitas pelo crocodilo são como uma justificação. Sendo assim, quando ele realizou a justificação, o crocodilo recebeu muitas críticas. Do macaco, ele recebeu críticas afiadas. A raiva era visível na expressão mímica ou nos gestos. O que podemos verificar do arregalar dos olhos do macaco, é como um sinal de admiração, ou de descontentamento. Além disso, o macaco também fez algumas perguntas retóricas. Vejamos como conta o mito: “O macaco pulando dum lugar para outro e arregalando muito os olhos, indaga estupefacto: «Que dizes tu?» Além desta, mais outra pergunta, «Tu não tens vergonha»?! Tu, a quem, um dia, estando prestes a morrer, à torreira do sol, este jovem desconhecido ergueu e transportou para o mar; tu queres agora, em paga, devorá-lo?!» O macaco fez uma série de perguntas. E isso faz com que o crocodilo se torne débil. Houve aqui um “combate”. Os dois tiveram uma grande discussão, embora o crocodilo só tenha dito uma frase. Todas estas censuras se tornaram como maldição para o crocodilo. Além disso, aquelas serviram como prova ao crocodilo. E, foi assim que o crocodilo superou a prova, o que denominamos de “reação do herói”. Pois, devido às censuras, em seguida, o crocodilo virou e cancelou todos os maus desejos. Em termos de função das personagens chamamos a “reparação da malfeitoria”. Ele mudou de atitude, como fosse uma pessoa que quererá arrepender-se. 46 Talvez, então se tenha lembrado do ditado que diz: “O nosso amigo mais fiel é aquele que pode nos ajudar em momentos de aflição mesmo num acidente”. Como conta o mito no 7º parágrafo que o crocodilo, confuso e transido de vergonha, não pensou mais em devorar o seu grande amigo. Até que certo dia o crocodilo reconheceu as suas maldades. Assim, ele resolveu agradecer ao seu grande amigo, o rapaz que serviu como seu salvador. O crocodilo diz: «Meu bom amigo, o favor que me fizeste jamais o poderei pagar». Então, para o recompensar, o crocodilo entregou-se totalmente à criança. O crocodilo sabia que iria morrer. Mas a morte do crocodilo contém um significado oculto. Isto é, antes de morrer, é transformado em uma ilha que pode ser habitada pelo rapaz, juntamente com todos os seus descendentes. Atente-se o seguinte fragmento: «Dentro em breve eu devo morrer; deves voltar para terra, tu, os teus filhos, todos os seus descendentes, e comer a minha carne em paga do bem que me fizeste.» Realmente o surgimento da “transfiguração” do crocodilo como “recepção de objeto mágico”, no sentido em que o crocodilo se transformou misteriosamente numa ilha. No 8º parágrafo, como conta o mito, os velhos afirmam que a ilha de Timor, principiando em Lautém e acabando em Cupão, é esguia como o corpo dum crocodilo, e a parte central assemelhe-se-lhe à barriga. Timor quer dizer Oriente; muitos timorenses chamam ao crocodilo antepassado ou avô. Baseando-se nesta afirmação, podemos dizer que houve uma “assimilação realista”. De acordo com esta história, a ilha de Timor foi formada pelo crocodilo que se transformou em ilha. Assim, é lógico que há muitos timorenses, consideram o crocodilo antepassado ou avô. Assim, em Timor-Leste, muitas pessoas estão relutantes em mencionar o nome do “lafaek” ou crocodilo, em lugares como no mar, num rio ou lago. Nesses locais, o título “lafaek” ou crocodilo é considerado tabu. Neste sentido, o que chamamos de “interdição”, além de uma recomendação moral herdada dos ancestrais. Foi uma cultura oral que permanece profundamente enraizada. Assim, em Timor-Leste, o crocodilo é um animal protegido. Com a assunção como ancestrais, as pessoas estavam com medo de falar mal do crocodilo, muito menos matá-lo. Com estas razões, como conta o mito que se qualquer crocodilo devora alguém, é porque, dizem, este lhe fez ou disse algo de mal. Ou quando uma pessoa é apanhada por aquele, costuma gritar: Antepassado ou avô! Maldição! Maldição! 47 Com os ensinamentos ou as recomendações morais tradicionais, se passarem num rio onde há crocodilos, as pessoas devem fazer algo. Neste caso como conta o mito no 9º parágrafo, que quando entram ou passam numa ribeira onde haja crocodilos, costumam atar uma fita verde de folha de palmeira na cabeça, numa perna e, algumas vezes, também na mão e chamam para junto de si um cão. Assim, o crocodilo sabe, e não os morde. Também é consistente com as noções das pessoas que mesmo um avô é mau, ruim, ou seja, criminoso, mas ele não poderia ter a intenção de prejudicar os seus netos. É evidente que, em outros países também existem pessoas que consideram alguns animais, que precisam de ser protegidos. Tem algo a ver com o que chamamos de totemismo. 1.4. Análise do mito II. O segundo mito intitulado “Uma Menina que Veio de Abóbora” ou “Feto ida Mai husi Lakeru”, em tétum. Se prestarmos atenção para a narrativa, (1º parágrafo), como situação inicial, faz-nos refletir sobre a vida da sociedade tradicional, seus comportamentos, modo de preparar o cultivo, como fazer um celeiro, como armazenar os alimentos para ser utilizado como semente etc,. Além disso, descreve-se também em que época se passa. Neste caso como conta o mito: “Chegava a época de abóboras, eles colhiam e guardavam num bambu rachado em cima duma árvore”. Note-se que, neste parágrafo, a intriga continua com a presença de outra personagem, “a suposta menina que veio de abóbora”. Neste caso, havia presença de uma “chegada incógnita”. A aparência da menina era desconhecida. Sendo assim, a menina seria uma “heroína” que trouxe “objetos mágicos”. A razão de que, quando o Maduan e os pais regressavam da horta, eles ficaram muito admirados por verem que o arroz estava cozido, e os pratos estavam limpos. Este foi o primeiro acontecimento que eles viram naquele momento. Será preciso apontar algum estranhamento que, na intriga o diálogo da mãe do Maduan, apareceu de repente. O motivo de que no início da narrativa do 1º parágrafo, a posição da mulher, a mãe do Maduan não foi mencionada. A fala da mãe apareceu de repente no diálogo. Neste sentido, a posição da mãe foi descrita implicitamente. Pode ser mostrado na seguinte frase: “A mulher perguntou ao marido: “Quem é que fez estes trabalhos? 48 O marido respondeu que ele não sabia. O marido admirado, disse a mulher que esta foi a primeira vez”. No dia seguinte, o episódio repetiu-se. O pai ordenou o Maduan, seu filho, que descobrisse quem foi o autor do suposto acontecimento. Neste caso o filho age como “mandatário”, o que significa que o Maduan é executor de uma ordem. Notemos o seguinte diálogo: “Não podes ir amanhã à horta, tu tens que procurar meios para saber quem é a pessoa que faz tudo isto!” (3º parágrafo). Seria uma “tarefa difícil”, mas o Maduan conseguiu descobrir quem era a suposta jovem. Além disso havia feito uma “perseguição”. Neste caso, aquele exerceu uma “tarefa cumprida”. Logicamente é difícil executar esta tarefa. Mas o jovem foi capaz de fazer graças à estratégia que tinha planejado. Ele escondeu-se em cima de uma árvore. Assim ele conseguiu identificar o suposto autor. Já no 3º parágrafo, o jovem viu que uma das abóboras que eles guardavam, se transformou numa menina branca e lindíssima. Neste sentido há uma “transfiguração” ou “substituição”. Ao ver aquele episódio, o Maduan dirigiu-se à banca de abóbora a correr. Este chegou, e levou aquela abóbora, a casca, e deixou-a lá na nascente. Podemos dizer que, a casca da abóbora é o poder mágico daquela jovem. Pois, sabemos que as personagens dos contos populares se transformam em seres humanos, animais, ou plantas. Como ser humano, bem como ser que tinha força sobrenatural, aquela jovem teve um senso mágico. Portanto, ela imediatamente percebeu que algo tinha acontecido com ela. Como podemos observar que, quando aquele jovem deixou a casca da abóbora lá na nascente, a jovem assustou-se e logo procurou a sua pele. Sobre este ponto, observamos que a detenção da casca que era o “objeto mágico” da jovem, seria uma “punição”. Isto significa que a jovem foi presa e não pode retornar à sua casa. Porque a casca servia como o poder sobrenatural para ela. Aquela “punição” foi feito pelo jovem, o Maduan que se tornou num “agressor” ou autor da “malfeitoria”. Sendo assim, o jovem volta a ser “doador”, no sentido em que ele devolveu o objeto mágico. Assim a jovem é libertada. Isto significa uma “reparação da malfeitoria”. Também no 3º e 4º parágrafo, revela-se a função de “perseguição e socorro”. Como podemos ver no diálogo: “De repente o Maduan aproximou-se e perguntou-lhe: ”Porque é que choras?” Ele acrescentou, ”sabes que já não podes voltar para o teu lugar?!” A menina ouviu estas palavras, e chorou muito. 49 Ela disse chorando ao Maduan: ”Se tiraste já a minha pele, não a estragues. Leva-a à nascente para que eu possa salvar-me.” De facto o jovem devolveu a pele daquela jovem, assim esta se salvou do perigo. Significa, se aquela não encontrasse a pele, não poderia voltar à sua casa. Ainda sobre o 4º parágrafo, vejamos a palavra “nascente”, que se refere ao mundo da deusa, a jovem que veio de abóbora. Ainda neste ponto, conta a narrativa que o Maduan ficou muito satisfeito por ter lhe aparecido uma menina branca e bela. O que podemos interpretar que o jovem apaixonou-se da bela jovem. No 5º parágrafo, conta o mito que, com o acontecimento em questão, os pais proibiram de comer abóboras, porque se comermos as abóboras é a mesma coisa que nos comemos a nós próprios. Esta afirmação é uma expressão de recomendação moral. Significa uma “interdição”. Sendo assim, podemos dizer que, na última sequência se apresenta uma “digressão”. Digo isso porque o conto não nos conta, como estavam os dois jovens após da reunião. Será que os dois se casaram? É uma “interrogação”, mas é assim que se termina a ultima sequência. 1.5. Análise do mito III. A situação inicial deste mito, intitulado “A Serpente Pagava a Sua Dívida” ou “Samea Selu nia Tusan”, fala da apresentação das personagens de um casal de agricultor e suas três filhas. Estas são denominadas respetivamente, a Bui Laku, a Asusai, e a Abu. Como agricultor, o pai estava sempre a trabalhar na horta, enquanto as filhas ficavam em casa. Conta o mito que o pai saiu de casa, já há dois dias. Isto é como um “afastamento”, onde o pai daquelas não comia durante estes dias. O pai foi abandonado devido a uma serpente que impediu as suas filhas de levarem comida para ele (1º parágrafo). Ainda neste parágrafo, encontramos como “interdição”, de que uma das filhas foi assustada por uma serpente no meio do caminho. Assim aquelas filhas adiaram a ida à horta, com receio de qualquer perigo. No 2º parágrafo, notamos a “transgressão”. Conta o mito que a filha chamada Abu teve a coragem de levar a comida para o seu pai, mesmo sabendo que no caminho estava uma serpente que poderia constituir um perigo para ela. Sendo assim, a Abu deixa as suas outras irmãs e seguiu ao rumo da horta levando a comida para seu pai. Refere-se aqui a função da “partida”. 50 Ainda neste parágrafo, encontramos a função da “recepção de objetos mágicos”. A serpente deu sorte a Abui de três formas, que serviram como objetos mágicos em questão. Vejamos o seguinte fragmento: “Ao acabar de comer, a serpente dizia, ” Abu, és uma pessoa de bom coração, eu hei-de dar-te sorte de três formas. ”Primeiro, quando chorares as tuas lágrimas se transformarão em ouro. Segundo, se chorares, as tuas lágrimas se transformarão em grãos brilhantes de romã de cor branca. Terceiro, se lavares as suas mãos, vários peixes hão-de aproximar-se de ti”. Vejamos isso como “transmissão de objetos mágicos”. No 3º parágrafo, surgiu uma “punição”, dada a Abu, por causa das acusações falsas que foram apresentadas pelas irmãs. Atente-se o seguinte fragmento: “As duas começaram a mentir, e comentaram ao pai que a irmã mais nova obteve “matan-helik”, que significa bruxaria. Quando o pai recebeu estas novidades, prendeu a menina num pequeno quarto”. No 4º parágrafo, verificamos que a Abui tinha recebido “objetos mágicos” da serpente. Assim, aqueles permitiam que Abui fosse uma jovem com caraterísticas mágicas, no sentido de que aquela deixava cair de sua boca, um grão brilhante de romã que fazia crescer misteriosamente uma romãzeira no quintal do liurai. Acontece isto, quando a menina achou graça ao ver o filho do liurai cair no jogo à frente da janela do quarto, onde ela estava presa. De facto, este acontecimento seria um “objeto mágico” que levará aquela menina a ser uma futura princesa. Ela não sentiu que um grão brilhante de romã caiu da boca para o jardim”. A romãzeira cresceu misteriosamente, logo produziu frutos, infelizmente nenhuma pessoa poderia colher os frutos. Aqui, vai a apresentação da “perseguição”. Esta teve o objetivo de descobrir quem era capaz de colher os frutos. Segundo um feiticeiro, aquela romãzeira só uma jovem poderia colher seu fruto. No 5º parágrafo, segundo o mito, o liurai ordena aos soldados, “os mandatários”, que revistassem todas as casas. Assim aqueles encontraram a filha do agricultor, a Abu, em sua casa. Os soldados transportaram-na imediatamente a casa do liurai, para lhe apresentar a jovem, o que representa um “deslocamento no espaço”. Quando chegou lá, a jovem facilmente colheu o fruto e levou imediatamente ao filho do liurai, uma “tarefa cumprida”. 51 Devido a tarefa que tinha sido efetuada por Abui, a filha do agricultor, o liurai ficou muito satisfeito, e decidiu logo o dia do casamento dos dois. Isto contece porque segundo o combinado que, quem possa colher os frutos, deverá casar com o seu filho. No 6º parágrafo, vemos o surgimento do “reconhecimento”. Conta o conto que na véspera do casamento, o filho do liurai tinha uma desconfiança face à menina. Sendo assim, este confiava quando ele observava a coroa e o véu do vestido do casamento que ela tinha. No 7º parágrafo, há uma “digressão”. Repare-se no seguinte fragmento: “A sua irmã mais velha, Bui Laku na véspera do casamento da Abu, sofreu uma doença repentinamente que nada conseguia curar. E assim o dia do casamento da Abu se alterou, até que a doença da sua irmã fosse curada. O feiticeiro vaticinou que a sua doença só poderia ser curada, se ela comesse um fruto de amora”. Por mais que a Bui Laku comesse aquele fruto, não conseguia melhorar. Sendo assim, a Bui Laku conseguiu curar graças ao milagre feito por sua irmã mais nova. Pois esta obteve o poder mágico que tinha recebido pela serpente. Isto é um surgimento de “transfiguração”. No 8º parágrafo, terminamos a narrativa com a realização do casamento entre a Abu e o filho do liurai. Notemos que, antes do casamento, as duas irmãs mais velhas reconheceram as suas faltas, e pediram desculpas à Abu e ao liurai. De facto, a Abu era uma heroína que sofreu tantas malícias, e falsas acusações de suas irmãs. Finalmente a Abu conseguiu superar estas dificuldades, assim ela alcançou a “vitória”. Assim observamos que o elemento estruturador do conto do exemplo – o antagonismo Bem versus Mal – conduz o desfecho para uma lição de moral, punindo, por vezes, com a morte os sentimentos negativos, nada altruístas, como a inveja e a ambição. Há a valorização do espírito de luta e da sagacidade, o fraco, o desprotegido, o simplório, porém sagaz, sempre sai vitorioso. Utiliza a sagacidade como arma contra os poderosos, sendo-lhe até mesmo permitido lançar mãos de expedientes poucos recomendáveis nos confrontos (http://ww3.fl.ul.pt, 31 de agosto de 2012). Ao observar a atitude de Abui que é capaz de resistir a todas as emoções, com toda a paciência, então consideramo-la como uma pessoa perdoadora. 52 Ela respondeu: ”Hoje venho buscar água, mas o meu jarro partiu-se. Por isso, fico aqui a espera de qualquer pessoa que me possa vender um jarro, e vou comprá-lo. Mas hoje ainda nenhuma pessoa veio a vender jarros. (3) Ao ouvir estas palavras, o crocodilo disse: ”Senta-te no meu dorso!” A Abui aceitou o pedido, e o crocodilo transportou-a para o mar. Lá chegaram à casa do crocodilo, e este disse a Abui: ”Ficas em casa e cuida da minha filha para que eu vá comprar um jarro para ti.” Quando o crocodilo saiu, a Abui cuidava da filha, dava de comer, e nunca deixava a criança brincar no chão. A criança estava sempre ao seu colo. A mãe quando chegou das compras, logo perguntou a sua filha. “Hoje ela bateu, ou não?” A filha respondeu: ”Hoje eu não brinquei no chão, porque estive sempre ao colo dela, e ela nunca me deixou. Depois disso, o crocodilo deu o jarro a Abui. O crocodilo ordenou novamente para ela se sentar na sua cauda. E assim, o crocodilo transportou-a de volta e deixou-a na praia. Depois o crocodilo entrou no mar e a Abui também regressou à sua casa. Quando esta chegava em casa, os pais ainda não tinham regressado da horta. Ela estava a ajudar a Maria em casa, quando os pais chegaram. (4) Certo dia, as duas foram novamente buscar água. Neste momento foi o jarro da Maria que partiu. A Abui chamou-a para casa mas ela não queria ir. Nesta altura apareceu do mar um crocodilo e perguntou-lhe: ”Porque é que estás a chorar?” Ela respondeu: ”Ontem vim buscar água, mas o meu jarro partiu-se. Por isso, fico aqui à espera de qualquer pessoa que me possa vender jarro, e vou comprá-lo. Ao ouvir estas palavras, o crocodilo disse: ”Senta-te na minha cauda!” A Maria aceitou o pedido, e o crocodilo transportou-lhe para o mar. Lá chegaram à casa do crocodilo, e este disse a Maria: ”Ficas em casa e cuida da minha filha para que eu vá comprar um jarro para ti.” (5) Quando o crocodilo regressou, esta perguntou logo a sua filha,”hoje ela bateu, ou não?” Ela respondeu chorando porque a Maria bateu nela. A criança queixava-se que a menina batia sempre nela. Ao ouvir isso, o crocodilo ficou furioso e chamou imediatamente a Maria e disse: “Minha querida, senta-te na minha cauda e vamos regressar à tua casa.” A Maria obedeceu e sentou-se na cauda, depois começaram a viajar até ao meio do mar. Lá no meio do mar, o crocodilo bateu a cauda na água, e a Maria caiu. Assim ela morreu afogada, pois o crocodilo voltava ao seu lugar. 59 1.8. Análise da lenda I A lenda I intitulada “Lua em Quarto Crescente”, ou “Fulan-sorin”, em tétum. Esta lenda descreve a vida da sociedade em Timor-Leste, particularmente no subdistrito de Tutuala, distrito de Lautém, Lospalos (parágrafo 1). Nesta pequena lenda, talvez seja necessário explicar mais, as expressões que se relacionam com o contexto da narrativa. Conta a lenda que, há muito tempo, vivia uma família com dez filhos. Em termos de cultura tradicional, as pessoas são obrigadas a terem muitos descendentes. Isto mostra as caraterísticas de uma sociedade tradicional, especificamente no distrito de Lospalos. Isso acontece porque as pessoas acreditam na existência dessas normas vigentes, consideradas como herança dos ancestrais. Falando sobre estes descendentes ou gerações, tornaram-se um objetivo especial, em termos de celebração de rituais. Ou seja, se há um casamento, segundo a tradição, deve celebrar um ritual nos santuários a orar para os ancestrais. Isto tem por objetivo que o novo casal tenha muitos filhos. Além das declarações acima, como também dito por Kreemer que, além de lendas sobre santos, há lendas pertencentes à promessa, através de oração, se tornar realidade e assim por diante (Kreemer apud Danandjaya, 1991, pp. 69-70). Este é um retorno aos dias de tempos pagãos. Os membros daquela sociedade, tiveram em média, numerosos filhos, como dito na lenda. Isto é consistente com o que é expresso por Danandjaya, que a cultura primitiva e a cultura dos agricultores rurais que ainda mantêm a sobrevivência dos elementos culturais antigos, ou selvagens, que ainda estavam vivos no momento da nossa civilização moderna (Danandjaya, 1991, p. 58). Em relação a esse raciocínio, pode acontecer que, alguns anos depois do casamento, o casal se não tiver qualquer descendência, o marido possa tomar uma nova esposa. Assim, até que conseguir ter um filho com outra mulher. Além disso, pode acontecer que a família tenha apenas meninas ou meninos, então com a autorização da mulher, o marido pode tomar uma nova esposa. Até que ele consiga uma filha ou um filho conforme as expetativas do cônjuge. Isto pode ser realizado, se houver um acordo entre o marido e a mulher de um casal. Esta pode ser uma cultura que raramente se encontra em comunidades que têm culturas diferentes. Ainda neste parágrafo, a matança tem muitas vezes a ver com a celebração do ritual. Como revelado por Edmund Leach, o sacrifício de animais é uma caraterística corrente do ritual religioso (Edmund Leach, 2009, p. 115). 60 Na sociedade de Timor-Leste, as matanças de animais podem ser realizadas nos eventos, por exemplo, nas cerimónias de dar oferendas aos deuses, designado por “fó han lulik”; na festa de casamento tradicional, por vezes designado por “fetosaa-umane”; festa de um ano após a morte de um membro da família, designado por “kore-metan”; vigília durante a noite na casa de um falecido, designado por “hadeer mate-isin ou hadeer mate-biti”; ação de graças pela segurança da família; festa de aniversário (halotinan); cerimónia do nascimento de um bebé, designado por “fase-matan”; cerimónia de rapar os cabelos de um bebé, designado por “tesi-fuuk”; cerimónia de fraternização; celebração especial para os deuses ou os espíritos dos antepassados (matebian), entre muitas outras. Em vários eventos, muitas vezes são intercaladas danças tradicionais como o “bidu”, “tebedai”, para se divertirem, como podemos ver no seguinte fragmento: “Este casal fez uma festa e convidou muita gente para essa festa. Eles mataram animais, compraram peixes, vinho e muitas outras coisas. Comeram, beberam, dançaram como o “bidu, e tebedai” para se divertirem”. Além dos comentários acima, em relação ao inciso I, podemos dizer que esta lenda é antiga mas numa nova versão. É evidente que, com a mudança na vida humana, a história também se vai mudar. Mas as narrativas ainda têm aspetos educacionais. No sentido de que, além de refletir sobre a vida da sociedade, ela também contém elementos das questões tradicionais. Neste sentido, como diz Danandjaya, as questões tradicionais são conhecidas como adivinhas e, de qualquer maneira têm as respostas tradicionais (Danandjaya, 1991, p. 33). Ao expressar estas questões tradicionais, estimula-se o desenvolvimento da criatividade no pensamento. Vejamos que, no “afastamento”, quando as crianças saíram, olharam para o céu, e viram a lua em quarto crescente. Daí elas questionarem porque é que só viam a metade da lua. Seria uma expressão oral tradicional, e que precisava de uma resposta de modo tradicional. Para além das explicações acima, tentemos revisitar as outras funções que estão por trás desta narrativa. Pois, logicamente, não há nenhuma relação entre a lua e o cão, como conta a lenda. Tradicionalmente, os pais criaram deliberadamente respostas estranhas, de modo a motivarem as crianças a pensar. Caso contrário, é destinado a evitar as respostas dadas que ainda são duvidosas. Essa ação era um esforço para educar as crianças a pensarem criticamente. Conta a lenda que, quando as crianças saíram e viram a lua no céu em quarto crescente, elas questionaram-se imediatamente. 61 Daí, uma daquelas perguntou a sua avó espontaneamente: “Porque é só metade da lua”? A resposta da avó foi que a outra metade está na boca de um cão”. Insatisfeita, a criança perguntou de novo ”O que se pode fazer para a lua ficar inteira”? Neste caso existe uma “tarefa difícil”. A avó ficara apreensiva com a pergunta, então ordenou às crianças que fossem procurar latas. Neste caso, as crianças têm a função de “mandatário”, o que significa, as crianças obedeceram à recomendação da sua avó. Além disso, surge a existência da “reação do herói”. Atente-se o seguinte fragmento: “Vamos todas recolher muitas latas, bater nelas com muita força para assustar o cão e fazer com que ele abra a boca”. “Esta resposta serviu como um “engano”. No 2º parágrafo, vemos que com a resposta que a velha deu, logo as crianças fizeram o que a velha tinha ordenado. Significa a realização da “tarefa cumprida”. Portanto, aquelas bateram nas latas, cantaram, gritaram e expulsaram o cão, dizendo: ”Cão…não se engole a lua inteiramente porque ainda vivemos”. Assim, conta a lenda, o cão abriu a boca e a lua saiu inteiramente (“dádiva de objetos mágicos”). O cão surge como uma personificação do mal. Porque ele engoliu a lua, que é um símbolo da iluminação e também um símbolo de fertilidade para a vida humana. De acordo com a crença tradicional, as pessoas batem nos ferros, tocam tambores, ou qualquer coisa com gritos, em caso de um eclipse lunar. O objetivo é derrubar o monstro que estava a engolir a lua, e é muito popular na comunidade em Timor-Leste. A razão é que a lua é considerada como um dos membros da comunidade que foi “raptado” pelos deuses e deusas, ou outros monstros. Portanto, eles gritaram, dizendo: “Entrega-a de volta! Entrega-a de volta”! Estas ações continuam até que a lua volte a brilhar como de costume. Além disso, há outra lenda que é semelhante à da “Lua em quarto crescente”. O que se entende aqui é o terramoto. Segundo a tradição e a crença de algumas etnias em Timor-Leste os terramotos acontecem porque Deus queria saber se as pessoas na Terra ainda existiam. Portanto, quando um terramoto acontece, as pessoas ficam fora de casa, gritando: “Ainda estamos vivos! Ainda estamos vivos”. Assim Deus sabe que a sua criação ainda está lá e vive neste mundo. Esta lenda ainda é popular em Timor-Leste. Tais lendas são encontradas também em várias culturas, como a chinesa, a japonesa, a francesa e outras. No 3º parágrafo, conta a lenda que, com a lua brilhante, os jovens cantaram lindas canções, para atraírem e seduzirem as jovens. 62 Significa que há um “engano”. Na realidade, onde a cada lua cheia, os jovens realizaram várias atividades para se divertirem. Tais atividades são como hábitos da vida dos jovens que vivem nas áreas rurais. Os jovens aproveitaram esta ocasião para estabelecerem laços de amizade entre eles. Por isso, como revelado na lenda “os pais procuram as filhas que podem desaparecer nesta altura”. Neste sentido, a lua brilhante é como uma imagem de beleza. Como sabemos, muitas vezes as lendas narram sobre o amor. A lua brilhante pode causar efeitos sensíveis. Assim terá como efeito a elegância e a beleza das jovens. Isso fará com que os jovens se apaixonem. É por isso, que como conta a história, “Na época da lua cheia, esta brilha mais intensamente, o que leva as pessoas a pensar no amor no presente, no futuro e também nos tempos passados”. Além de todas as explicações acima, podemos dizer que a lua brilhante é um símbolo de sucesso ou insucesso de nossas vidas. Obviamente esta lenda é bastante curta, mas na minha opinião, ela tem tantos significados que podemos explorar, a fim de conhecer as formas de vida entre sociedades que têm culturas diferentes. Mas isto depende de nós, como podemos interpretá-los. Às vezes acontece a “digressão”, o que significa a falta de coerência entre os enredos. Mas isso, é uma das caraterísticas dos contos populares de origem timorense. 1.9. Análise da lenda II Esta lenda, intitulada "Amigo" ou “Belun” em tétum, fala sobre as vidas de duas pessoas que são amigas. Eles são nomeados, respetivamente, Sufa e Neno. O Sufa é um homem rico que tem uma certa quantidade de ouros. Um dia, o Sufa viajou para fora da região: "partida" ou "afastamento". Vejamos o seguinte fragmento: “Um dia Sufa viajou para outra região distante, então ele pediu a Neno para guardar sua riqueza”. Como conta a lenda: “O Neno teve o prazer de aceitar e armazenar com muito cuidado um número de ouro dado a ele por segurança” Neste sentido, existe também uma “tarefa cumprida”, feito por Neno. O Neno serviu a função de ser "mandatário". No 2º parágrafo, Sufa recebeu uma “informação” após a chegada da sua viagem. O seu amigo, Neno, informa-o de que tinha informações más para ele. A informação é o seguinte: "Enquanto você esteve viajando, os ouros foram transformados em areia". 63 Com base nessa afirmação, podemos dizer que, por trás daquela, está implícita uma fraude, o “engano”. Neno teve a intensão de esconder os ouros que lhe tinha confiado. Portanto, Neno tornou-se o agressor da “malfeitoria”. No 3º parágrafo, acontece a mesma coisa, com Neno a viajar para uma região distante. Antes da “partida”, Neno pediu ajuda a Sufa para tomar conta do seu filho, Kelo. Aproveitando a ausência de Neno, Sufa começou a conceber um plano. Ele comprou um papagaio, depois ensinou-o a falar. O papagaio sabia dizer: "Pai, você vê que o meu corpo mudou?" Ao chegar da viagem, Sufa verificou que o filho, Kelo, não estava. Neno perguntou ao Sufa ", onde que está meu filho, Kelo?" Sufa disse: "O seu filho está aqui", em seguida, mostrando o papagaio para o Neno. Pouco tempo depois, o papagaio falou: "Pai, você vê que o meu corpo mudou?" Ao verificar este acontecimento, o Neno questionou, se o seu filho se transformou em papagaio? Na verdade, é um “engano” criado por seu amigo, Sufa. Cada vez mais desconfiado o Neno ficava cada vez mais furioso. No entanto, ele soube que tinha sido enganado. Impaciente, o Neno pega no papagaio e mandou-o para fora. Esta é uma ocasião de “combate”, entre ambos. Neno prentendia que Sufa lhe indicasse o paradeiro do seu filho, Kelo. Em vez disso, Sufa também requer que Neno lhe devolvesse os seus ouros. Como conta a lenda, no 5º parágrafo: "Você também tem que me dizer onde estão os ouros. Se você me mostrar os ouros, então o seu filho vai-se apresentar para você. "Ouvindo estas palavras, Neno tomou os ouros e deu para Sufa, para que Sufa devolvesse o filho. A partir daí, eles são amigos de novo e viveram juntos em harmonia na sua região. Esta lenda, na verdade, retrata ”o mal pelo mal”. Duas pessoas que são bons amigos, mas, eventualmente, eles enganaram-se mutuamente. As suas atitudes violaram as normas, como diz o provérbio: "Amor com Amor se Paga". O que significa que, se deve retribuir o amor que se paga. 1.10. Análise da lenda III Segundo o título da lenda, consideramos esta uma lenda etimológica. Chamamos assim, porque esta teve a origem num lugar ou numa povoação. 64 Olhamos para o título, “Paz da Montanha de Ci’aru” ou “Dame iha Foho-Ci’aru”, em tétum, que fala sobre o nome de um lugar, ou uma montanha situada no interior de um dos subdistritos que faz parte do distrito de Lospalos, em Timor-Leste. Embora uma lenda etimológica, o foco narrativo centra-se sobretudo na vida de um liurai que vivia naquela área. A história começa com a introdução da “mediação ou momento de transição”. O liurai de Nari era muito gentil. Como conta a lenda no seguinte fragmento: “Durante o seu reinado, o liurai de Nari nunca oprimia o seu povo. Ele era muito gentil com o povo e todas as pessoas” (1º parágrafo). Ainda neste parágrafo, houve um “combate”, como é dito, que ele teve muitas vezes concorrentes e ninguém pode vencê-lo”, o que significa “vitória”. Se observamos, implicitamente, o liurai de Nari tinha um caráter agressivo, porque teve uma atitude desafiadora com os outros. Atente-se o seguinte enredo: “O liurai de Nari tinha hábito de criar um primeiro acordo coletivo. No entanto, se não houvesse um acordo, em seguida, ele desafiava e lutava”. Neste caso, o liurai poderia ser como um agressor de “malfeitoria”. Caso contrário, este aspeto de “malfeitoria” pode ser melhorado, o que entendemos por ”reparação da malfeitoria”, como podemos perceber através da expressão do liurai de Nari da seguinte forma: "A melhor maneira é governar em paz, assim eu posso pensar e resolver todas as tarefas” (ver parágrafo 1). Ainda neste, vejamos a “partida” do liurai, como conta o mito: “Ele chegava em todas as áreas em torno da região, e tinha falado com todas as pessoas que encontrava”. No 3º parágrafo, temos a “volta”, depois do regresso, o liurai foi para uma montanha sagrada. Nesta montanha há três nascentes, cada uma nomeada: Ucanira, umunira e Cenira, em fataluku. O liurai de Nari dava ofertas e orava de uma para outra. Nestas fontes, o liurai recitava as orações pelo seu povo. Além disso, se acontecesse uma briga ou guerra entre seu povo, ele chamava-os e levava-os a uma nascente para resolver o problema na frente dela” (5º parágrafo). Tais atitudes, representam a uma “tarefa cumprida”. Assim, pode-se dizer que, as três fontes são como uma instituição para resolver assuntos que surgem entre o povo. De modo que os três sítios são considerados como santuários. 65 As três fontes acima referidas, tem a sua história. Segundo a crença daquele povo que, a fonte denominada "ucanira", se houvesse um assassinato, a água muda de cor para vermelho. A fonte denominada de "umunira", se morresse um membro da comunidade, então a água daquela teria cheiro a cadáver. E a outra, é a fonte de água que o povo possa consumir, para beber, para a culinária ou para as outras necessidades. No 5º parágrafo, a narrativa mostra-se uma “tarefa difícil”. Conta a lenda que o liurai de Nari desejava construir um monumento na zona onde ele vivia. Na verdade, o liurai enfrentava dificuldades. Estas são reveladas no seguinte fragmento: “A partir dessas nascentes sagradas, o liurai de Nari olhava para as montanhas, pensando em como o monumento seria construído. O tempo passava, ele não apresentou nenhuma ideia”. No entanto, esta “tarefa difícil” torna-se numa “tarefa cumprida”, o que significa que o liurai de Nari conseguiu realizar a construção do monumento em questão, graças ao auxílio dos animais que apareceram repentinamente. Neste caso, o aparecimento súbito dos animais serviu como “recepção de objetos mágicos”. Os dois animais selvagens, foram eventualmente transformados em duas pedras enormes. Assim, as duas pedras enormes que estavam deitadas de lado a lado, então consideradas como o monumento a ser construído pelo liurai. Só que, a construção do monumento ocorreu em circunstâncias misteriosas. Atentemos, como a lenda narra o incidente para nós. Um dia, quando ele estava planejando como construir o monumento em questão, de repente, apareceu um cão e um porco correndo da floresta. O cão latia e o porco grunhia, mordiam-se um ao outro, e em não muito tempo a luta entre dois animais parou, mas ninguém ganhou. Depois, esses dois animais correram para o topo da montanha, o liurai de Nari ouve um som, depois viu uma fumaça que lentamente se afastava da montanha. Depois disso, o cão e o porco desapareceram instantaneamente”. A partir deste acontecimento, como uma “recepção de objetos mágicos”, na era atual, nós olhamos em direção ao topo da montanha, vemos dois pedaços de pedra situado no topo da montanha, o que significa dois animais, o cão e o porco, que se tornaram pedra. Este enredo, revela-se o elemento de “transfiguração”. Porque, ambas estas pedras são consideradas um monumento a ser construído pelo liurai de Nari. Mas isto foi realizado graças o auxílio de objetos mágicos, que provinham daqueles animais selvagens. 66 Neste vejamos a existência de “reconhecimento”. O que significa que, o liurai de Nari tinha atribuido um poder mágico que provém daqueles animais. Até agora as pedras estão localizadas lado a lado numa montanha na zona de aldeia Pairara, subdistrito de Lautém, distrito de Lautém, que reflete o símbolo da paz. Aquele sítio foi denominado “Ci’aru”. 1.11. Análise da lenda IV A lenda intitulada “O Crocodilo e as Duas Crianças” ou “Lafaek ho Labarik Na’inrua” em tétum. A narrativa inicia-se com um “afastamento”, onde as filhas saíram de casa. Esta partida foi ordenada por sua mãe. Aquelas exerceram as suas funções de acordo com o instruído por sua mãe. Neste caso a “tarefa cumprida”, que tem sido efetuada por aquelas. Segundo os ensinamentos morais dos pais nas sociedades tradicionais, qualquer trabalho deve ser realizado com total responsabilidade. Neste sentido, os filhos seriam capazes de manter a integridade do mobiliário. Isso exige atenção, cautela, para que o trabalho possa ser bem feito, sem erros fatais. Isso aplica-se a meninas e meninos. Segundo o mito, a Abui não quis regressar a casa, porque se sentiu culpada. Ela tropeçou numa pedra e o jarro partiu. Isto significa indiretamente que ela havia violado as regras aplicáveis da casa. Pois, há aqui a presença visível de uma “interdição”. Além disso, o delito é sempre comparado com uma pena ou “punição”. Se alguém desobedecer a uma recomendação é castigado. É a razão pela qual na vida tradicional, os utensílios são altamente adorados. Neste sentido, os utensílios são mantidos a ficarem duradouros. Este pode ser interpretado no esforço para reduzir a carga económica, ou seja algum tipo de poupança. (1º parágrafo). No 2º parágrafo, indica-se o caso de “tarefa difícil”. Nesse caso, a Abui não conseguiu realizar o seu desejado. Segundo a narrativa, naquela altura ninguém veio vender jarros. Então, apareceu do mar um crocodilo que queria ajudá-la. Neste caso o crocodilo comporta-se como se fosse um “herói”. Este logo a levou para o mar, onde se situa a sua casa. Ao chegar lá, este ordenou a Abui que cuidasse da sua filha. Assim, o crocodilo foi comprar um jarro para ela, como se fosse uma “dádiva de objeto mágico”. Porque com ele, aquela irá livrar-se da “punição” que pode ser dada pela sua mãe. Já no 3º parágrafo, quando o crocodilo saiu de casa, Abui tinha realizado uma “tarefa cumprida”. Ela cuidou da filha do crocodilo com toda a responsabilidade. 67 Dava de comer à filha do crocodilo, e nunca a deixava descer ao chão. A criança esteve sempre ao colo dela. Foi uma “demanda” que ela tinha feito. Como tal, podemos dizer que há um sentido oculto por trás dessa ajuda. Implicitamente o crocodilo tem um plano maligno. Esta maliciosa, podemos notar através do diálogo feito entre o crocodilo e a sua filha. Ao chegar da viagem, ele logo perguntou à sua filha se a jovem bateu nela ou não. Caso esta tivesse batido na sua filha, então o crocodilo poderá comê-la. Neste caso o crocodilo seria autor da “malfeitoria”. Mas o caso não aconteceu, devido ao verdadeiro testemunho que a filha apresentou. Assim, a Abui libertou-se daquela “malfeitoria”. Podemos dizer que houve uma “reparação da malfeitoria” feita pelo crocodilo. No 4º parágrafo, o episódio como narrado no primeiro parágrafo foi repetido. Desta vez foi com Maria. O que aconteceu com Abui também aconteceu com Maria. Apenas a diferença está no tempo do diálogo. No primeiro parágrafo, o momento de diálogo está no presente. Pode-se notar no dizer da Abui «Hoje vim buscar água mas o meu jarro partiu-se», e neste está no passado, como na fala da Maria «Ontem fui buscar água, mas o meu jarro partiu». No entanto, os acontecimentos vividos por Maria foram uma tragédia. Em conformidade com a narrativa (4º parágrafo) que, quando o crocodilo regressou, este perguntou logo a sua filha se a Maria bateu nela ou não. A criança respondeu chorando e, queixava-se que a menina batia sempre nela. Assim esta violou as expetativas do crocodilo. O crocodilo, na verdade, desejava que a menina exercesse a tarefa honestamente. Mas isto não aconteceu. Apenas surgiu uma “inversão”, uma infração feito por aquela, ou seja a desobediência de uma recomendação moral. Como consequência desta infração, então Maria torna-se a vítima. Nesse caso, em que após se ter informado, o crocodilo ficou furioso e acabou por transportar a menina para a matar afogada no mar. Como revelado no 5º parágrafo “Lá no meio do mar, o crocodilo bateu a cauda na água, e a Maria caiu. Assim ela morreu afogada, pois o crocodilo voltara ao seu lugar”. Neste parágrafo também se revelou a existência da “malfeitoria” feita pelo crocodilo. Além disso, existe também uma “informação”, feita por sua filha. A informação foi dada pela criança, sob a forma de uma queixa. Esta causou a morte da Maria. Podemos dizer que, apesar de ser “herói”, o crocodilo também foi como um “falso herói”. 68 (2) Dias depois, o macaco fingiu que dormia no chão, daí o galo aproximou-se e deulhe uma bicada no corpo. E assim o macaco acordou e logo agarrou o galo. O galo foi preso pelo macaco. Depois disso os dois ficaram amigos. O macaco perguntava ao galo: ”Porque é que as tuas penas têm a cor vermelha assim?” O galo perguntava também, ”queres também de ter os pêlos desta cor?” O macaco respondeu, ”eu gostava”. O galo disse ao macaco,” se quiseres, tens de guardar o segredo“. O galo aplicou tudo a que o macaco deveria obedecer. Este também ordenou que o macaco que viesse ter com ele pela manhã ao cantar dos outros galos. Ao responder a esta pergunta, o macaco disse, ”temos que procurar um lugar que as pessoas não devem conhecer”. Além disso os outros macacos e os galos também não o deveriam conhecer, salientou o macaco. (3) Certo dia, os dois conseguiram encontrar um sítio. Assim o galo disse ao macaco ”amanhã antes do cantar do galo, tu deverás estar cá”. O macaco obedeceu com prontidão. Já naquele sítio, o galo disse ao macaco, ”como você tem braços, vá buscar lenha para pôr o lume.” A tudo isto sempre o macaco obedeceu. Logo este arranjou uma lareira e fez um grande fogo. O galo disse ao macaco, ”você tem de arranjar uma panela para ferver a água.” O macaco respondeu, ”a água está a ferver.” (4) Seguidamente o galo disse ao macaco,” você deveria ter atenção ao que eu faço.” Assim o galo demolhou as penas de seu rabo, e estas tornaram-se em cor vermelha quando ele as tirou da água quente. Então o macaco perguntou-lhe, ”assim como tu fizeste?” O galo respondeu: ”Sim, claro.” O macaco disse ao galo, ”queria que a minha cabeça tivesse a cor vermelha como as tuas penas.” Segundo o pedido, o galo ordenou o macaco para que molhasse a cabeça na panela com água quente. Este tinha receio, mas o galo encorajou-o, dizendo que não morreria. Então o macaco obedeceu. (5) Devido à confiança, este resolveu molhar a cabeça na água quente, a qual o galo dizia-lhe para que ele ficasse mais calmo. Enquanto o macaco demolhava a cabeça, o galo encorajou-o, que a sua cabeça tornar-se-ia em cor amarela como a dele. O galo comentava que também seria brilhante como uma coisa nova, quando a olhasse de longe. (6) As palavras do galo atraiam o macaco, com que este quisesse experimentar mais. O macaco ficava mais curioso, e ele não queria que experimentasse só uma, duas ou três vezes. Ele queria experimentar frequentemente. Com a cobiça que o macaco tinha, ele resolveu realizar o último experimento. O que é que acontece a ele? Este último, foi uma isca. 75 Um azar se aconteceu-lhe. Assim que o macaco meteu a cabeça, a água quente queimou-o e morreu. Este acidente fez com que o galo ficasse muito satisfeito. Ele dizia que apesar de ser um animal pequeno, ele conseguiu vencer o outro que é maior do que ele. Fábula IV. O Macaco e o Rato (Lekirauk ho Laho) (1) Nos tempos idos, viviam um macaco e um rato que queriam fazer amizade. A certa altura, os dois combinaram fazer uma horta. Dias depois, os dois começaram a limpar as hortas e as partilharam entre eles. No primeiro dia, eles limparam a horta do rato e no segundo, a do macaco. (2) O macaco tinha um plano malvado. Ele queria matar o rato, para ficar com as duas hortas. Quando eles resolveram incendiar os capins que acabaram de limpar, o macaco disse ao rato, ”meu amigo rato, vais ficar por debaixo dos capins para eu incendiar em volta”. Depois de incendiar os capins da tua horta, vamos para a minha, disse o macaco. (3) Antes que o macaco começasse a incendiar os capins, o rato entrou e escavou o solo com muita pressa, onde o buraco havia sido afastado da pilha de grama. Depois ele escondeu-se lá dentro. O macaco chegou fogo ao capim. Ele pensava que o rato havia morrido, então as duas hortas seriam dele. As chamas queimaram todo o capim. Depois de alguns minutos, o rato não saiu. O macaco pensou que ele já estava morto. Ele ficou muito contente. Mas de repente o rato saiu das cinzas. (4) O rato escapou do fogo, daí ele desafiou o macaco, para que ele entrasse na banca dos capins, depois o rato começaria o fogo. O macaco foi corajoso e logo entrou imediatamente. Mesmo o macaco sendo capaz de saltar de um ramo para o outro das árvores, nada sabia que não seria capaz de escavar o solo. O macaco entrou e disse ao rato: ”Amigo rato, podes começar já!” O rato assim fez. Na realidade o macaco não foi capaz de escavar o solo, então ele morreu quando o rato incendiou os capins. O macaco que originalmente queria ficar com as duas hortas, foi finalmente vítima do seu plano maligno. 76 Fábula V. Um crocodilo de nome Tanuka (Lafaek-oan Ida Naran Tanuka) (1) Certo dia nasceu um crocodilo. A mãe deu-lhe o nome de Tanuka. Quando o Tanuka abriu os olhos, logo viu um objeto redondo de cor amarela. Este brilhava para ele. Ele perguntou à sua mãe: ”O que é este objeto?”. A mãe respondeu-lhe, ”o nome dele é “loro“, que significa “sol”. Ele dava a vida a todas as criaturas do mundo. Nós precisamos do “loro” para viver. Atraído com estas palavras, ele disse,”eu gosto do “loro”, depois começou a mexer-se. O Tanuka sentia frio e estava molhado. Ele repetia a pergunta, ”o que é este objeto?” Ele fez-me frio e eu estou molhado. A mãe respondeu, ”chama-se “bee”, que significa “água”. Ela cai das nuvens do céu que chamamos “udan”, que significa “chuva”. -Quando a água da chuva cai e se transforma num lago, as correntes das águas se juntam, e assim vertem-se para o mar. -Na nossa vida existe a lagoa. Havia os animais e outras plantas que viviam dentro das águas. Como também o ser humano que vivia na terra. Os peixes, os caranguejos, os sapos, as algas também viviam dentro da água. A água fornece de beber a toda a criatura. Ao ouvir esta história, o Tanuka responde: “Ai sim, é assim!?” Eu gosto da água, ele acrescentava. Em seguida a mãe dizia-lhe, ”vamos nadar!” (2) Quando o Tanuka estava a mergulhar, ele sentiu um objeto grosso dentro da água. O Tanuka fez de novo uma pergunta,”senti um objeto grosso. O que é isto?” A mãe respondeu-lhe, “este objecto chama-se “rai”, que significa “solo”. As árvores viviam por cima do solo, e estas davam sombra ao homem, os animais e outros seres vivos. O conjunto das árvores numa área chamamos “ai-laran”, que significa “mato”. No mato vimos os frangos selvagens, as serpentes, os macacos e os morcegos. Todos nós precisamos das plantas para viver, acrescentou a mãe. (3) O Tanuka e a sua mãe voltaram para o lago. Daí, a mãe disse a ele, ”agora tu tens que descansar, porque já andamos muito longe!” O Tanuka respondeu: ”Claro, estou cansado, mas sinto-me contente por aprender coisas boas sobre o universo.” Dizia ainda ele, “estas coisas são boas, elas suportam a nossa vida no universo. Nós devemos cuidar delas, porque queremos viver melhor.” 77 Depois disso, o Tanuka estende-se ao sol a beira da lagoa. Ele queria sentir o calor do sol que aquecia a suas costas. O Tanuka dormia, e sonhava com as coisas que o encontrava durante o dia. 1.14. Análise da fábula I Esta fábula intitulada “Uma cabra com a sua filha” ou “Bibi-inan ida ho nia oan”, em tétum. No 1º parágrafo vimos que, as personagens a serem designadas por nomes próprios, são todos animais, a saber: A Bi-Soi, que era a cabra, a Bi-Mesa que era a sua filha, e o tigre chamado Sam-Felu. A atribuição dos nomes às personagens, com o intuito de conhecer os personagens ou as atitudes que podem ser praticadas por aqueles. Por exemplo, a cabra, chamada Bi-Mesa, para lembrar ao leitor, que aquela cabra representa uma pessoa verdadeira. Assim é facil lembrar a atitude que ela teve. Através do nome das personagens, lembrar-se-ão ou reconhecerão a atitude das cabras ou a do tigre que podem agir como uma pessoa verdadeira. De modo que as mensagens que serão entregues, ficam facilmente gravadas na mente dos leitores que leram a narrativa das fábulas. Acontece que algumas pessoas têm alcunhas como: leão, crocodilo, lebre e outros. As pessoas recebem estas alcunhas devido às propriedades do bem e do mal, como exemplifiquei no capítulo IV, p. 33. Ainda sobre este parágrafo, reflete-nos a imagem de uma aldeia tão pobre, expresso na expressão “local seco”. Além disso, pode-se interpretar a existência das personagens como um retrato da vida de uma sociedade, que não é harmoniosa. Digamos assim, porque ambos aqueles animais, como Bi-Soi, a cabra, e a sua filha Bi-Mesa, a cordeira, eram animais que podem tornar-se presas do tigre. Assim o Sam-Felu, o tigre, é a personificação de um vilão. Porque ele é um animal que pretende comer os outros animais. Como conta a fábula que, “Um dia, o Sam-Felu tentou de várias maneiras comer a cordeira chamada Bi-Mesa”, a filha da Bi-Soi, a cabra. No 2º parágrafo, a Bi-Mesa, efetua uma “tarefa cumprida”, depois da “partida” da sua mãe. Vejamos o diálogo no seguinte fragmento: "Agora eu saio, e tu ficas em casa, mas deves fechar as portas e janelas de segurança. 78 Tu não te deves descuidar ao abrir a porta para ninguém. Se alguém vem chamando, não abra a porta antes que ele mostrar seus chifres para ti através do orifício da casa”. Como uma besta-fera, o Sam-Felu não conseguiu resistir às más intenções. Realmente, nesta lenda, o “engano” é introduzido no início da narrativa. Conta a fábula que “Um dia, o Sam-Felu tentou de várias maneiras comer a cordeira chamada Bi-Mesa”, a filha da Bi-Soi, a cabra. Por isso, como já mencionei acima, que o Sam-Felu é personificado como um criminoso, um vilão. Além disso, o tigre é um agressor da “malfeitoria” em termos de função de personagens. No 3º parágrafo, depois da “partida” da mãe da Bi-Mesa, o Sam-Felu sabia que a sua mãe já tinha saído, aproximou-se da casa para enganar a Bi-Mesa. O Sam-Felu, disse: "abra a porta, eu quero entrar, porque voltei do mercado". Ao ouvir a sua voz, BiMesa se aproximou da porta para abri-la. Na verdade, o Sam-Felu queria aproveitar a oportunidade para atacar a Bi-Mesa por meio de fraude. Neste caso vemos o surgimento do “combate”. Certamente, a cordeira, correria risco de ser atacada pelo tigre, como agressor da “malfeitoria”. Mas, devido à “interdição”, a Bi-Mesa conseguiu livrar-se do “engano”. No sentido de que, antes da mãe da Bi-Mesa sair de casa, deixou uma mensagem à filha. Eis a mensagem da mãe: “Tu não deves abrir a porta para ninguém”. Seria uma “interdição”, de que antes de abrir a porta, a criança se lembrou do conselho de sua mãe. Atente-se ao seguinte fragmento: “Antes de abrir a porta, ela de repente se lembrou da mensagem entregue por sua mãe. Ela parou de repente, e respondeu a voz. A Bi-Mesa disse: "se for verdade, mostra o chifre através das rachaduras da casa, para que eu possa abrir a porta para você" (4º parágrafo). Foi assim, que a Bi-Mesa se salvou daquela “perseguição” feito por Sam-Felu, o agressor da “malfeitoria”. Nesta última sequência, o que podemos comentar é que a Bi-Mesa, como uma criança, mas devido à sua inteligência, à sua prudência, à sua astúcia, conseguiu amenizar os problemas. O personagem Sam-Felu, é uma “substituição realista”, no sentido de que o tigre é mesmo um animal perigoso. O Sam-Felu, como o criador do mal, devido os seus vícios, os que provém do seu orgulho, seu egoísmo, de seus excessos em tudo. Tais aspetos do mal, são compartilhadas por ser humanos. Sendo assim, a cordeira, apesar de ser uma criança, conseguiu uma “vitória” sobre o Sam-Felu (combate e vitória). 79 A vitória foi alcançada por Bi-Mesa, com o “auxílio” do conselho que havia sido dado pela sua mãe. Apesar de ser uma criança, tinha a natureza do cuidado, porque embora alguém a tentasse enganar, com a natureza da prudência, ela não caía nas mãos de fraudadores, e assim ela podia escapar a todos os perigos. 1.15. Análise da fábula II Esta fábula fala dos dois amigos animais. Estes são “A Civeta e o Tourão”, ou em tétum chamado “Laku ho Meda”. Um dia os dois concordaram em ir roubar bananas num quintal de um agricultor. Naquele quintal, o tourão subiu a uma bananeira, enquanto a colega civeta ficava como vigilante. Sabe-se que o tourão não queria dar nenhuma banana a civeta, embora esta o pedisse persuasivamente. Ainda mais, o roubo só foi possível através da ajuda mútua entre os dois. Por causa da atitude do tourão, então, houve uma espécie de incompatibilidade. O tourão é um bicho egoísta e guloso, que só queria comer sozinho, e não se importava com a sua colega, civeta. Então os dois travam um “combate”. Como conta a fábula que, “A civeta pedia a banana mas o tourão só mandava a casca para ela”. Assim começaram a queixar-se um ao outro. A civeta disse ao dono do quintal: ”Venha cá depressa, porque o tourão está roubando as vossas bananas”. O tourão criou uma espécie de “transgressão”, o que significa que aquele não cumpriu o que os dois tinham concordado. Na verdade, as bananas que foram roubadas, deviam ser comidas juntos. Mas o tourão era um bicho de mau génio. Ele não tinha o sentimento de fraternidade, honestidade, sensibilidade, e sinceridade. Atente-se ao seguinte fragmento: “A civeta pedia a banana mas o tourão só mandava a casca para ela. Assim a civeta pedia de novo e disse, ”irmão tourão, dá-me uma fruta de banana”. No 2º parágrafo, o enredo introduz a “punição” da civeta na casa do dono. Quando o seu colega tourão soube que aquela estava presa, ele foi espreitá-la num lugar escondido. Nessa altura, o tourão é vítima do “engano”, feito pela civeta. Como conta a lenda no seguinte fragmento: ”Estive cá presa para que um belo chinês se case comigo.” Ouvindo estas palavras, o tourão disse, ”então poderia ser eu?” 80 A civeta respondeu espontaneamente e disse-lhe, ”se é isto que queres, desprende-me da corda.” Quando esta se libertou, ela amarrou o outro no tronco, e foi-se embora. Podemos dizer que, o tourão teve a ambição de ter tudo. Em vez disso, a sua amiga civeta sentiu-se orgulhosa por ter enganado o seu amigo. Isso significa que a civeta conseguiu alcançar o objetivo, ainda que injustamente. Porque o sucesso dela foi feito de maneira enganadora. Podemos dizer que o tourão, tanto como a civeta se tornaram como agressores da “malfeitoria”. No 3º parágrafo, notamos que o tourão planeou uma estratégia de “inicio da ação contrária”. Isto significa que o tourão queria libertar-se das condições inseguras. Porque, como conta a fábula a pessoa que o prendia, chegou com uma catana bem afiada, pegou no tourão e encostou-o a um tronco de uma árvore a fim de o cortar. Aquela pessoa não conseguiu matar o tourão, graças à astúcia dele. Neste caso, antes que a pessoa começasse a cortar, o tourão tinha traçado uma “cumplicidade”. Dizemos assim, porque o tourão tentou persuadir o dono do quintal, com o objetivo de o enganar: ”Podes-me cortar o pescoço, mas não o vais conseguir. Digo eu, que deveria colocar a minha cauda por cima do teu colo, depois cortas com mais força”. Quando aquele começou a cortar, aconteceu ao contrário, a catana feriu-o na coxa, e assim o tourão libertou-se e fugiu. Aqui, vemos também o “engano”, feito pelo tourão. No 4º parágrafo, a intriga introduzida com “transfiguração” do tourão. Conta a fábula que, “Dias depois, era uma tarde, o tourão transformou-se num homem, e voltou àquele lugar e viu o dono da horta que estava lá com a coxa ferida”. Neste caso a “volta” do tourão transformado num homem, ao mesmo tempo como uma “chegada incógnita”. Porque o dono da plantação de bananas não sabia quem era aquele homem. Na última sequência, surge o recorrer ao “engano” contra o agricultor, o possuidor das bananas. Assim, conta a fábula que “O tourão, transformado em homem, dizia para ele: ”Eu tenho uma receita para que possa curar a ferida. ”Ele argumentou, e disse-lhe, ”vais arranjar cocó de cavalo que ainda esteja quente, e mistura-o com piripiri. Em seguida, embrulha o tempero à ferida durante uma noite. Se você cumprir esta receita, acredite que a sua ferida vai ser curada”. Pode-se dizer que o dono do quintal teve um destino infeliz. 81 Estranhamente, aquele sempre seguiu os conselhos dados por aquela pessoa desconhecida. Portanto, depois de ter feito o que lhe foi recomendado, surgiram coisas surpreendentes ainda mais assustadoras. Atentemos o seguinte fragmento: “Este lhe fez o que o homem lhe disse. Chegou a manhã, quando o dono da horta abriu a ligadura, ele viu que a ferida estava cheia de lagartas. Ele ficou admirado, e também sentiu medo ao ver este acontecimento. O dono da horta foi enganado porque ele não foi cuidadoso em enfrentar e resolver o problema”. O filósofo, lógico e cientista da Grécia antiga chamado Aristóteles disse que a fábula era um dos muitos elementos que um falante usa para persuadir. Na verdade, este é o caso, porque, muitas vezes caimos numa fraude ou outro crime, só por causa da persuasão. Além disso, esta fábula também contém uma expressão satírica, no sentido de que o homem sofreu as consequências da sua má ação. Como podemos relembrar que aquele homem age tendendo para o mal. Ele queria cortar o bicho mas foi enganado pela astúcia dele, mas ironicamente, devido à “traição”, aquele homem leva as lesões mais graves. Mas o tourão malfeitor safa-se. Pois, vemos que o dono da plantação cai em tentação. O tourão conseguiu enganá-lo. As medidas persuasivas que o tourão aplicou ao dono da plantação representam uma traição, ao mesmo tempo serviu como uma "cumplicidade". Isto significa que o tourão planeou uma traição contra o homem, sem este dar-se conta. 1.16. Análise da fábula III A fábula III intitulada “O Galo do Mato e o Macaco,” em tétum chamada “Manutafui ho Lekirauk”. Esta fábula descreve dois animais que querem ser amigos. O macaco sabia que havia um galo do mato que cantava todos os dias no mato. Assim, o macaco resolveu ir encontrá-lo. O macaco não o conseguia, porque o galo sempre se desviava e se escondia quando pressentia a chegada do macaco. Neste caso há uma “interrogação”, em termos de função das personagens. Dizemos assim, porque o macaco teve o conhecimento que todos os dias andava um galo na floresta a cantar. Depois de obter esta “informação”, o macaco tentou planejar como se poderia aproximar daquele galo. Para tal objetivo, o macaco começou a organizar táticas. 82 No sentido de que o macaco tentou pegar o galo através do “engano”. Vejamos o enredo que revela o engano em questão: “Dias depois, o macaco fingia dormir no chão, daí o galo se aproximava e dava-lhe uma bicada no corpo. E assim o macaco despertava e logo agarrou o galo. O galo foi preso pelo macaco. Depois disso os dois ficaram amigos” (2º parágrafo). No 3º parágrafo, a narrativa introduz a “cumplicidade”. O que significa que, o galo vai enganar o macaco sem ele saber. Assim o macaco vai ser tentado pela sedução ou “traição” feita pelo galo. Acontece isso, por causa da curiosidade, da ganância, da ambição e outros. Uma vez que eles se encontraram, o macaco ficou imediatamente atraído pela beleza das penas do galo, como fosse um homem apaixonado por uma menina bonita. Vejamos a afirmação no seguinte fragmento: ”Porque é que as tuas penas têm a cor vermelha assim?” O galo perguntava também, ”queres também ter os pêlos desta cor? ”O macaco respondeu, ”eu gostava”. O galo disse ao macaco, ”se quiseres, tens de guardar um segredo“. O macaco gostaria de ser mais belo do que os outros. Para alcançar os seus desejos, o macaco estava disposto a obedecer ao que é ordenado pelo galo (“tarefa cumprida”). Vejamos como a lenda o conta: “O galo explicou tudo a que o macaco deveria obedecer. Este também ordenou ao macaco que viesse ter com ele pela manhã ao cantar dos outros galos. Ao responder esta pergunta, o macaco disse, ”temos que procurar um lugar que as pessoas não devem conhecer”. Além disso os outros macacos e os galos também não o deveriam conhecer, salientou o macaco". Os dois conseguiram encontrar um sítio. Assim ao macaco o galo disse, ”amanhã antes do cantar do galo, tu deverás chegar cá.” O macaco obedeceu com prontidão. Já naquele sítio, o galo disse ao macaco, ”como você tem braços, vá buscar lenha para pôr o lume.” O macaco obedeceu a tudo isto. Logo este arranjou uma lareira e fez um grande fogo. O galo ordenou de novo ao macaco: ”você tem de arranjar uma panela para ferver a água.” O macaco respondeu, ”a água está a ferver.” Tudo o que o macaco fez era uma “tarefa cumprida”. Infelizmente, todas as tarefas realizadas, seria como uma espécie de bumerangue. Isto significa que o que ele faz, o prejudica a ele próprio. Será mesmo uma “malfeitoria” ou “dano” para o macaco. No 4º parágrafo, observamos que, com a persuasão ou a “traição” do galo, o macaco estava disposto a sacrificar tudo, para a execução de todas as ordens do galo. 83 Uma vez que tudo está disponível, o galo dizia ao macaco, ”você deveria ter atenção ao que eu faço.” Assim o galo demolhou as penas de seu rabo, e estas tornaram-se em cor vermelha quando ele as tirou da água quente. Então o macaco perguntava-lhe, ”assim como tu fizeste?” O galo respondeu: ”Sim, claro.” O macaco disse ao galo, ”queria que a minha cabeça tivesse a cor vermelha como as tuas penas”. Segundo o pedido, o galo ordenou ao macaco que enfiasse a cabeça na panela com água quente. Este tinha receio, mas o galo encorajava-o, dizendo que nada aconteceria. Estas palavras do galo seriam como uma “transgressão”. Então o macaco obedeceu. Implicitamente, revela-se que o galo foi como o agressor da “malfeitoria”. Porque, de uma forma de persuadir, o galo convenceu o macaco a fazer tudo, mesmo que virtualmente como “tarefa difícil”. Como revelado no 5º parágrafo, o galo encorajava o macaco, afirmando que a sua cabeça se tornaria amarela como a dele. O galo comentava que também deveria ser brilhante como uma coisa nova, quando vista de longe. Estas palavras do galo são como “pretensões falsas”. Porque o galo em vez de ajudar o seu amigo a alcançar o que foi idealizado, pelo contrário, queria matá-lo de uma forma traiçoeira. Dada a ampla gama de persuasão ou mesmo “traição”, faz com que o macaco queira experimentar frequentemente. Assim, conta a lenda que, com a cobiça que o macaco tinha, ele resolveu realizar o último experimento. O que é que lhe acontece? Este último, foi uma isca. Assim que o macaco enfiou a cabeça na água quente morreu. Podemos dizer que o macaco morre por causa do “engano” ou “traição”, ou porque ele é ambicioso e vaidoso. Na verdade ele fez experiências que realmente superam a sua própria habilidade, que estavam fora do seu controle. O macaco foi motivado pelo desejo de obter algo que realmente não pode ter. Assim a morte do macaco, é além de “traição”, porque foi enganado pelo seu amigo, o galo, é também devido à ignorância, e à ambição. Contudo o galo tornou-se o agressor, ou o autor da “malfeitoria”. Assim ele era um amigo ingrato, porque atraiçoou um amigo até a morte. 1.17. Análise da fábula IV No 1º parágrafo desta fábula intitulada “O Macaco e o Rato”, ou “Lekirauk ho Laho”, retratra a existência de dois animais que eram bons amigos, organizando uma cooperação mutuamente benéfica. 84 Os aspetos que pretendemos mencionar são: o económico, o social, o político, o educacional, a religião, e outros que também são importantes. Estes aspectos estão relacionados com o contexto real do povo de Timor-Leste e também com a vida dos antepassados. a. Aspeto económico Como seres humanos, sempre enfrentamos o problema da economia. Para superar os problemas económicos, cada pessoa, depende de si e dos outros o que significa que, se as pessoas não têm capacidade para ganharem a vida, então são forçadas a alcançar algum meio de sobreviver. Há gente que vive com lentidão e preguiça, outros procuram roubar e atacar outras pessoas para sobreviver. A este propósito refira-se o mito I, “O Mito do Crocodilo Timorense”, e a fábula IV, “O macaco e o Rato”, ou “Lakirauk ho Laho”. No 5º parágrafo do mito, o crocodilo mostrou o seu mau instinto. Ele teve ganas de tragar o seu amigo, o rapaz, que o ajudou quando aquele estava quase a morrer de fome. A fábula conta que o macaco queria matar o seu melhor amigo rato para ficar com as duas hortas”. Na vida, todo homem deve trabalhar para atender as necessidades da vida diária. As maneiras de satisfazer as necessidades têm de ser tomadas legalmente. Não com a forma como os crimes realizados pelo crocodilo e o macaco. Portanto, as atitudes praticadas pelo crocodilo e pelo macaco não são aceitáveis. São questões de injustiça, de malícias, más atitudes, que na verdade não podemos fazer. Podemos dizer que o crocodilo passou fome porque não tem a iniciativa de trabalhar, mas que era forte fisicamente. Quanto ao macaco, tem marcas de egoísmo e foi ambicioso. Portanto, na vida humana acontece isto, por causa da necessidade económica, ou por outros motivos. b. Aspeto sociológico Falar sobre o aspeto sociológico relaciona-se com a questão de como podemos viver com os outros, como viver em grupo, em comunidades, em organização e em sociedades mais vastas. Neste aspeto, é essencial manter a comunicação com os outros. Os comportamentos das pessoas enquanto seres sociais são determinantes. 91 Neste caso tomemos o exemplo do “Mito do Crocodilo Timorense”. Este fala do crocodilo que tinha má intenção contra o seu melhor amigo. Isto acontece devido às demandas repentinas, ou por causa de dificuldades em satisfazer as necessidades da vida. De acordo com a história, o rapaz com toda a perseverança e responsabilidade ajudou o crocodilo, quando estava quase morrendo de fome. Com a ajuda do rapaz, o crocodilo foi salvo, que, por sua vez queria retribuir com maldade. Como conta o mito, certo dia o crocodilo tentou devorar o seu amigo. Dada a esta má conduta, o crocodilo foi condenado ou desprezado pelos outros animais. Não deveria trair um amigo que o salvou. Mas aquele tinha coragem de o fazer, o que significa que o crocodilo revela o seu individualismo, o egoísmo e a ambição de um ser animal que tinha mais força. O crocodilo desviou-se de um facto social, ou das normas sociais. Ele não pensava que não podemos viver sem a existência e a ajuda dos outros, como diz o ditado: Eu sou eu, e não sou outra pessoa, mas sem as outras não posso desenvolver-me. c. Aspeto político Usamos a política para entrar num acordo ou expressar as nossas opiniões. Um bom político é aquele que consegue convencer e fazer bons acordos a partir das suas convicções, o que não quer dizer que seja para beneficiar os seus interesses pessoais. Como ilustração do aspeto político, podemos referir a lenda III, intitulada “Paz da montanha de Ci’aru” ou “Dame iha foho Ci’aru”. Conta a lenda que existiu um liurai que nunca oprimia o seu povo. Ele dizia que “A melhor maneira é governar em paz, assim ele possa pensar e resolver todas as tarefas”. Ele usou o seu poder para influenciar e convencer o seu povo para poder viver em paz. A sociedade necessita de uma autoridade à qual todos os membros devem render o suficiente da sua liberdade natural, de modo que a autoridade possa assegurar a paz interna e a defesa comum. Em relação ao aspeto político, podemos também referir o “Mito do Crocodilo Timorense”. Conta o mito que os outros animais conseguiram convencer o crocodilo. Assim este decidiu não devorar o seu amigo que o salvara. Na verdade, pretende-se uma política que se orienta por uma atitude capaz de promover assuntos de interesse comum. Em termos de cultura, podemos usar os princípios de etnocentrismo como referência neste contexto. 92 d. Aspeto educacional Na Grécia antiga, o mito, assim como a religião, era uma maneira de ensinar aqueles que desrespeitassem ou tentassem enganar os deuses. Mais do que isso, ensinar os primeiros homens que habitavam na Terra. Tomamos o exemplo do mito de Prometeu. Na mitologia antiga, as pessoas não tinham conhecimento dos assuntos da terra e do céu. Eles encontravam-se num estado de desorientação. Não tinham conhecimento sobre a agricultura, a caça, o comércio, e também não entendiam como utilizar os utensílios necessários. Podemos dizer que os primeiros homens não tinham o conhecimento sobre as suas origens divinas. Assim vinha à Terra Prometeu, um titã dos deuses olímpicos, que tem o poder de ensinar em termos de desenvolvimento humano. Prometeu foi também um defensor da humanidade. Ele era conhecido pela sua inteligência, e foi responsável pelo roubo de fogo de Zeus, dando-o ao homem na Terra. Os contos que tratámos aqui também contêm este aspeto. Referimos a fábula V, intitulada “Um Crocodilo de Nome Tanuka” ou “Lafaek-oan ida Naran Tanuka”. Conta a fábula que, durante uma longa viagem, Tanuka teve a curiosidade e a ambição em conhecer tudo o que ele tinha visto. Então, a mãe explicou tudo com toda a paciência. Através do diálogo aquela mãe ofereceu algumas lições, de modo a educar o seu filho. Além disso, aquela mãe demonstrou os valores da personalidade, da honestidade, da bondade, da solidariedade, e da empatia. Ao cuidar de seu filho, a mãe era apropriadamente referida como uma educadora. Além daquela fábula, podemos também referir o “Mito do Crocodilo Timorense”. Este oferece uma mensagem que seria como ensinamento moral. Ao responder à pergunta do crocodilo que diz, «A uma pessoa que nos valeu, devemos fazer bem ou mal?». Todos responderam que «devemos fazer bem, a uma pessoa que nos valeu». e. Aspeto religioso Quando se fala sobre mitos, há sempre algo a ver com a religião. Os mitos contêm ensinamentos éticos, morais e crenças. Sabemos que na Grécia antiga o mito era considerado como uma religião. Isso também acontece em outras comunidades no mundo. 93 As pessoas acreditam em mitos, em lendas tal como acreditam na religião. A religião transmite valores éticos e morais, define o que é justo e reto, ou como agir de acordo com os costumes. Em relação a estes, tomemos o exemplo da lenda III, intitulada “Paz da Montanha de Ci’aru” ou “Dame iha Foho Ci’aru”. Esta lenda tem como personagem um liurai que muitas vezes orou pelo seu povo em sítios considerados como santuários, numa fonte, numa montanha, numa caverna ou nas casas sagradas (uma-lulik sira). Para sociedades de diferentes culturas, a oração pode ser feita de outras maneiras, de acordo com a cultura de cada região ou país. Assim terminamos a nossa análise sobre os mitos, as lendas, e as fábulas de TimorLeste expressos através de contos populares. Em nossas vidas surgem muitos desafios que temos de enfrentar. Como membro de uma sociedade é preciso preservar e obedecer às normas de acordo com os ensinamentos da religião e as exigências das normas culturais vigentes. O essencial é que a comunidade de uma região ou um país, particularmente a de Timor-Leste, considere os mitos, as lendas, e as fábulas como símbolos e referências em todas as formas da sua vida. Os conflitos morais contidos nos contos populares, mostram muitas vezes que o “Homo Homini Lupus Est”, o que significa “o homem é o lobo do seu companheiro”. Mas, simultaneamente, “Homo Homini Socius”, o que significa o homem é amigo de outros no mundo social. Homo Homini Socius é um comportamento que proporciona um espaço de solidariedade na vida social (https://isearch.avg.com). Os seres humanos precisam de outros para se desenvolverem. Precisamos de outros para ajudar a resolver os problemas que enfrentamos. A sobrevivência humana é determinada por sua versatilidade em jogar um papel na vida social. Temos que respeitar as ordens das instituições sociais existentes, assim, poderemos viver felizes lado a lado, em paz. Estas mensagens morais e de comportamento na vida social estão contidas nos contos populares timorenses. Os mitos, as lendas, e as fábulas de Timor-Leste analisados ao longo desta dissertação têm assim, uma mensagem moral que não pode ser ignorada. 94 BIBLIOGRAFIA ARISTÓTELES – Poética, trad. Eduardo de Sousa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2003. ARMSTRONG, Karen – Uma Pequena História do Mito, Tradução de Paula Reis, EDITORIAL TEOREMA, LDA, Lisboa, 2005 BARTHES, Roland – O Grão da Voz, Trad. de Teresa de Meneses e Alexandre Melo, Edições 70, Lisboa, 1981. BARTHES, Roland – INÉDITOS, Vol. 2 – Crítica, Tradução de Ivone Castilho Benedetti, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2004. BARTHES, Roland – Mitologias, trad. José Augusto Seabra, Edições 70, LDA, Lisboa, 2007. BARTHES, Roland – Ensaios Críticos, Edições 70, Lisboa, 2009. 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Gomes; SDB: http://untl-timorleste.blogspot/2009/02/e.html 97 ÍNDICE Dedicatória …………………………………………………………………………v Agradecimento…………………………………………………………………….vi Resumo…………………………………………………………………………...viii Introdução…………………………………………………………………………. 1 Objetivos : ………………………………………………………………………….4 1. Geral ……………………………………………………………………. 4 2. Específicos ……………………………………………………………….5 CAPÍTULO I. A IMPORTÂNCIA DO FOLCLORE NA SOCIEDADE TIMORENSE …………………………….... ……………………... 7 1.1. Tradição Oral Como uma Alma da Sociedade Timorense ……………..7 1.2. Função do Folclore na Sociedade Timorense …………………………. 9 1.3. Valores Contidos nos Contos Populares ………………………………13 CAPÍTULO II. O MITO ………………………………………………………….. 18 CAPÍTULO III. A LENDA ………………………………………………………..26 CAPÍTULO IV. A FÁBULA …………………………………………………….. 31 CAPÍTULO V. ANÁLISE DOS MITOS, LENDAS E FÁBULAS DE TIMOR LESTE ……………………………………………………………….. 35 1.1. Análise dos Mitos ……………………………………….................................. 37 1.2. Os Textos dos Mitos ………………………………………………………….. 38 1.3. Análise do Mito I ……………………………………………………………... 44 1.4. Análise do Mito II …………………………………………………………….. 48 1.5. Analise do Mito III …………………………………………………………… 50 1.6. Análise das Lendas …………………………………………………………….53 1.7. Os Textos das Lendas ………………………………………………………….54 1.8. Análise da Lenda I ……………………………………………………………..60 1.9. Análise da Lenda II …………………………………………………………….63 1.10. Análise da Lenda III ………………………………………………………...64 1.11. Análise da Lenda IV ………………………………………………………...67 1.12. Análise das Fábulas …………………………………………………………69 1.13. Os Textos das Fábulas ………………………………………………………72 1.14. Análise da Fabula I ………………………………………………………….78 iii 1.15. Análise da Fábula II ……………………………………………………... ...80 1.16. Análise da Fábula III ……………………………………………………….82 1.17. Análise da Fábula IV ……………………………………………………….84 1.18. Análise da Fábula V ………………………………………………………...86 CAPÍTULO VI. CONCLUSÃO …………………………………………………...90 a. Aspeto económico …………………………………………………………..91 b. Aspeto sociológico ………………………………………………………….91 c. Aspeto político ……………………………………………………………...92 d. Aspeto educacional …………………………………………………………93 e. Aspeto religioso …………………………………………………………….93 BIBLIOGRAFIA ………………………………………………………………….95 iv