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Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe. Desafios para a sua conservação e reabilitação, e o seu potencial para o desenvolvimento

Ana Silva Fernandes,Manuel Fernandes Sá,Rui Fernandes Póvoas

Abstract

"Every culture defines itself at least in part by what it cherishes of its past heritage. The built environment is an important if not essential part of this legacy, though in many cities of the developing world it is being destroyed" [Serageldin, 1997].Em contextos de escassos recursos económicos, o património construído é recorrentemente transferido para segundo plano na escala das prioridades, não considerando o seu possível papel enquanto catalisador para o desenvolvimento. Esta situação é agravada em territórios colonizados, onde a ruptura ideológica da auto-determinação e a fuga das elites coloniais de gestão arrastaram também o esvaziamento de meios técnicos especializados, reduzindo assim os meios para produção e manutenção de recursos. Mais de três décadas depois, numa época assumidamente rendida à mundialização, o reconhecimento da multiplicidade de afiliações e referências na construção identitária, surge já de forma mais natural, e é com interesse e curiosidade que se investigam mecanismos de assimilação e de mútua influência, de que o património edificado é também testemunho.O luso-tropicalismo constitui uma ideia intensamente relacionada com a obra de Gilberto Freyre [Castelo, 1998], nascida do estudo da construção do território Brasileiro e da percepção da actuação do português no mundo através de uma estratégia de miscigenação, de mútua influência e de síntese entre a portugalidade e os novos contextos onde se implanta. O território São-Tomense materializa também essa abordagem: forte exportador mundial de cacau entre o fim do século XIX e os primeiros anos do século XX, constituiu o cenário de implantação de uma extensiva missão de reorganização territorial e socioeconómica, da qual resultaram estruturas produtivas - roças - de relevante valor funcional e arquitectónico [Figura 1]. A compreensão dos seus mecanismos de implantação, estratégias e sistemas construtivos [Figura 2], assim como a análise de relações e transposições a partir de diferentes influências arquitectónicas ou o seu estado de conservação, poderão contribuir para a percepção do potencial destas estruturas enquanto motores para o desenvolvimento, não só do ponto de vista cultural e da produção de conhecimento, mas também socioeconómico, de forma a transpôr os extensos desafios que se colocam neste contexto de escassos recursos . As dificuldades estendem-se a vários níveis, partindo de uma frágil situação socioeconómica: a escassez de recursos financeiros, materiais e técnicos, a falta de preparação especializada e de meios, a pluralidade de agentes de intervenção e de decisão, e a dificuldade em assegurar a continuidade e sustentabilidade dos esforços e investimentos introduzidos, contituem alguns dos factores mais preocupantes. Estas condições agravam-se ainda com as questões territoriais: o clima, a intensa pluviosidade e a invasiva vegetação (que contribuem para a aceleração da degradação do edificado), a micro-escala e a insularidade (que dificultam a circulação de materiais e recursos humanos), a topografia, as frágeis infra-estruturas e acessibilidades, ou as dúbias questões de propriedade, constituem ainda um desafio adicional.Através do presente estudo, pretende-se contribuir para o conhecimento e documentação das estruturas existentes, assim como para a discussão do seu potencial e de mecanismos de intervenção.

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CLME’2011 | 6º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, 2011 Ref.: CLME’2011_2101A PATRIMÓNIO LUSO-AFRO-TROPICAL: O EXEMPLO DAS ROÇAS DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE. DESAFIOS PARA A SUA CONSERVAÇÃO E REABILITAÇÃO, E O SEU POTENCIAL PARA O DESENVOLVIMENTO. Ana Silva Fernandes, Manuel Fernandes de Sá, Rui Fernandes Póvoas Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto Porto, Portugal. Email: ana.sferna[email protected] RESUMO: Em contextos de escassos recursos económicos, o património construído é recorrentemente transferido para segundo plano na escala das prioridades, não sendo considerado o seu potencial enquanto catalisador para o desenvolvimento. Esta situação é agravada em territórios colonizados, devido a factores que se estendem das alterações socioeconómicas e territoriais decorrentes da colonização, descolonização e independência até às lacunas técnicas e infra-estruturais. O presente artigo tem como intuito contribuir para a reflexão em torno do património e dos sucessivos contributos nele impressos. Apresentam-se como caso de estudo as Roças de São Tomé e Príncipe, empresas agrícolas criadas essencialmente para culturas extensivas como o café e o cacau, que constituem relevantes assentamentos e elementos estruturantes do território, analisando os desafios que enfrentam assim como o seu potencial para o desenvolvimento. 1. INTRODUÇÃO “Every culture defines itself at least in part by what it cherishes of its past heritage. The built environment is an important if not essential part of this legacy, though in many cities of the developing world it is being destroyed” [Serageldin, 1997] A memória do passado assenta num legado múltiplo, de que o ambiente construído constitui parte integrante e, neste enquadramento, a noção de património tem vindo a ser expandida para albergar vertentes mais amplas, estendendo-se do edifício ao conjunto e à paisagem, assim como do legado físico à vertente imaterial. O património material tem também usufruído dessa tendência para uma compreensão ancorada em princípios mais abrangentes, enquadrando-o no seu contexto espácio-temporal, e assumindo que é desenhado não só pelas obras de excepção – como monumentos ou referências religiosas – mas também por edifícios correntes, onde transparecem as intenções estratégicas de “fazer cidade” e onde se impregnam os fundamentos culturais, económicos e sociais da sociedade. Assim, vários princípios têm ganho maior visibilidade no processo de discussão e tendem a reflectir-se também nos mecanismos de sensibilização e protecção: como o reconhecimento de que o património constitui um testemunho vivo e portanto um processo em constante transformação, ou de que é plural e decorre de múltiplos contributos e da diversidade cultural. Do ponto de vista operativo, estes princípios surgem nas sucessivas linhas condutoras de intervenção no património: mencionando apenas algumas, a Carta de Atenas de 1931 da Sociedade das Nações indica que as novas intervenções deverão ser reconhecíveis e Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe | Fernandes, A.S.; Sá, M.F.; Póvoas, R.F. reversíveis; em 1964 a Carta de Veneza estabelece o ICOMOS, defende a afectação dos monumentos a uma função útil à sociedade e reconhece como válidos os contributos de diferentes épocas. Já em 2000, a Carta de Cracóvia preconiza a intervenção no património através de um projecto onde se articulem os diversos contributos, áreas disciplinares e famílias de elementos físicos, assim como uma postura proactiva onde se contemplem o enquadramento socioeconómico e flexibilidade para futuras mutações [Dias, 2008]. Assim, a discussão global em torno do património tende não só a abranger temas mais alargados, mas principalmente a aproximar-se mais da sociedade civil, das suas necessidades contemporâneas e aspirações futuras, num entendimento do património não só como peça de relevante valor simbólico, mas também enquanto catalisador funcional, social e económico. A discussão global de linhas estratégicas de intervenção no património, assim como a sensibilização para os seus desafios e potenciais, pretendem orientar o reflexo em mecanismos e legislação nacionais e internacionais. E se este processo caminha para a consolidação no contexto ocidental, numa grande parte dos países em desenvolvimento encontra-se ainda em fase embrionária. Os factores que contribuem para este desequilíbrio são diversos (e por vezes sobrepostos), começando pelas extensas lacunas infra-estruturais e económicas, e portanto as limitações ao nível do Estado para a sensibilização, o apoio técnico, a aquisição de bens e a intervenção, num tema que é muitas vezes remetido somente para a agenda cultural e a que é atribuído um papel acessório. Adicionalmente, muitos desses países detêm um passado de colonização, tendo sofrido processos de alterações radicais na sua estrutura territorial, política, social, cultural e económica, e herdado sistemas e construções por vezes desadequadas às suas necessidades, que perpetuam ou acentuam as disparidades. Acresce ainda a questão regulamentar, especialmente em Nações mais jovens, em que a legislação quer patrimonial quer do próprio ambiente construído poderá ser inexistente, incipiente, insuficiente ou com dificuldades de implementação e fiscalização. Neste enquadramento, apresenta-se neste artigo o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe, complexos agrícolas tropicais para a cultura extensiva de produtos como o café e o cacau. Demonstra-se assim um exemplo de um legado que é testemunho do quotidiano no tempo: estruturas que, não sendo idealizadas como monumento, mas como resposta a propósitos funcionais específicos, a exigências de produção económica e enquadrados numa estrutura social própria, adquirem relevância enquanto elementos estruturantes do território, marcos de qualidade arquitectónica e laboratórios de interacção socioespacial. Este texto inicia-se com uma contextualização temática da discussão em torno das múltiplas afiliações que contribuem para a construção da identidade e do território, o que vem a construir um legado plural e multicultural. Descreve posteriormente o contexto de São Tomé e Príncipe e o processo de criação das suas Roças, para apresentar a investigação em curso e a sua metodologia. Numa parte de análise, foca diversos aspectos da configuração actual das Roças: a sua implantação e papel territorial, as alterações sofridas e a forma como os espaços são vividos, as suas características arquitectónicas e construtivas, assim como o estado de conservação. Seguidamente, reflecte-se sobre os desafios que enfrentam e o seu potencial para o desenvolvimento, terminando com notas conclusivas de remate das temáticas abordadas. 1.1. Um “Luso-Afro-Tropicalismo” O luso-tropicalismo constitui uma ideia intensamente relacionada com a obra do sociólogo Gilberto Freyre, nascida do estudo da construção do território Brasileiro e da percepção da actuação do Português no mundo através de uma estratégia de miscigenação, de mútua CLME’2011 | 6º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, 2011 influência e de síntese entre a portugalidade e os novos contextos onde se implanta [Castelo, 1998]. Defende que desse processo resultam assim obras cuja matriz poderá ser portuguesa, mas que sofrem assimilações e apropriações, moldando-se ao meio de influência e reunindo contributos de diversas fontes. Esta ideia é partilhada por outros autores: Sérgio Buarque de Hollanda [1995] designa o português de “semeador”, que encara um novo território como terreno onde se poderão dispor livremente os eixos e pólos que necessita para o exercício dos seus objectivos. Afirma ainda que a própria escolha dos locais de implantação das cidades de fundação, recorrentemente em locais elevados ou em reentrâncias litorais, parece não denotar preocupações de expansão nem uma perspectiva de planeamento a longo prazo, mas antes um estrito e pragmático investimento para a exploração de recursos e potenciais do local. Contrapõe esta atitude a uma postura hispânica de “ladrilhador”, que cria a cidade de fundação pela implementação de modelos regulares com traçados ortogonais, onde até a escolha do local de implantação obedece já a essa perspectiva. Acrescenta que para o povo espanhol a paisagem é moldada segundo esse propósito de impor uma nova ordem no mundo conquistado, num “esforço determinado de vencer e retificar a fantasia caprichosa da paisagem agreste: é um ato definido da vontade humana. As ruas não se deixam modelar pela sinuosidade e pelas asperezas do solo; impõem-lhe antes o acento voluntário da linha reta” [Hollanda, 1995: 96]. Também Nuno Portas, arquitecto e urbanista, refere que a implantação da cidade portuguesa no ultramar obedece à ideia de que “o desígnio precede o desenho” [Portas, 2004: 17], afirmando que a manipulação lusa do território assenta mais em princípios estratégicos do que em modelos pré-concebidos a implementar directamente no terreno. Desta forma, essa materialização assume contornos mais plásticos e adaptáveis à especificidade local, numa maior flexibilidade ao imprevisível. Reforça que, ao contrário das hispânicas Ordenanzas de descubrimiento nuevo y población de 1563, conjunto de regras de regulação do espaço urbano colonial, não haverá conhecimento de guiões normativos no contexto português, pelo que a cidade portuguesa é com frequência equivocadamente confundida com uma ocupação “espontânea” e sem regras. Os princípios estruturantes seriam pois definidos caso a caso no terreno, pelos arruadores, “homens que soubessem do rumo da agulha e partissem as terras com pragmatismo mais… prospectivo” [in Portas, 2004: 17], numa estratégia definida pela sensibilidade às características do terreno e não por uma lógica de imposição e de domínio. O projecto colonial, e em especial o português, é fruto de extensas mutações e miscigenações, não só pelo reflexo de alterações na ideologia da potência colonizadora, mas principalmente por essa adaptação à especificidade de cada contexto e pela assimilação da cultura onde se implanta ou da sociedade que cria. Portugal exerce o seu projecto colonial numa extensa diversidade de territórios, que variam em termos geográficos, climáticos e culturais, e cujos factores e características definem portanto linhas de actuação que partilham entre si pontos comuns mas que se distanciam noutros: uma “especialização” produtiva ou a escolha de cada cultura agrícola específica impõe extensas repercussões na organização fundiária, na estrutura social, no povoamento e na construção local. E o continente africano constitui um amplo e riquíssimo laboratório, onde foram testadas diversas abordagens e estratégias, e onde se assimilaram contributos e mutações ao longo de cinco séculos de colonização em que se estabeleceram ligações para Oriente e Ocidente. Mais de três décadas após a independência dos territórios ultramarinos portugueses no contexto africano, numa época assumidamente rendida à mundialização, o reconhecimento da multiplicidade de afiliações e referências na construção identitária, surge já de forma mais natural, e é com interesse e curiosidade que se investigam mecanismos de assimilação e de mútua influência, de que o património edificado é também testemunho. Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe | Fernandes, A.S.; Sá, M.F.; Póvoas, R.F. 1.2. São Tomé e Príncipe O território de São Tomé e Príncipe, localizado no Golfo da Guiné sob a linha do Equador, atravessou diversas mutações desde a situação de relevante entreposto comercial e exportador mundial de cacau à sua actual condição de micro-Estado em desenvolvimento. A chegada dos portugueses em 1470 à ilha de São Tomé e no ano seguinte à do Príncipe iniciou o longo processo de cinco séculos de colonização. A sua implantação geoestratégica, como plataforma para as rotas do atlântico e a costa africana, ditou o seu uso como entreposto comercial, em especial para o tráfico de mão-de-obra escrava. A fisionomia acidentada das ilhas [Figura 1A], em que a altitude ascende a 2000m na ilha de São Tomé e a 950m na do Príncipe, determina uma ocupação tendencialmente costeira e nos plateaus nordeste, tendência que se estende até à actualidade. A exploração económica do pequeno arquipélago inicia-se com a cultura de cana-de-açúcar, através da ocupação da faixa litoral e da implantação de engenhos a partir do final do séc. XV e durante o séc. XVI [Figura 1B]. Com a descoberta do território brasileiro, oferecendo melhores condições para a produção desta cultura, São Tomé e Príncipe atravessa um período em que a influência colonial se limita à manutenção do comércio esclavagista, cuja abolição em 1842 obriga à reorientação estratégica do projecto colonizador. A planta do café já tinha sido introduzida nos primeiros anos do século XIX, e a do cacau duas décadas mais tarde, pelo que é neste contexto que surge um forte investimento nestas culturas e uma extensiva missão de reorganização territorial e socioeconómica para esse fim, da qual resultaram estruturas produtivas – as roças – criadas para a maximização da produção [Figura 1C]. Com a extensão das terras de cultura, o pequeno arquipélago torna-se um forte exportador mundial de cacau entre o fim do século XIX e os primeiros anos do século XX, vindo a produção a decair a partir de 1930. No seguimento de mudanças na ideologia colonial nas décadas de 50 e 60, foram gerados investimentos em planos reestruturadores do território, processo interrompido pela auto-determinação do arquipélago. (A) topografia (B) ciclo do açúcar (C) ciclo do café e cacau (D) actualmente Fig 1. Esquemas da ocupação de S. Tomé e Príncipe: (A) topografia [IMVF, CEGOT-UC]; (B) séc.XVI, implantação dos engenhos e área costeira de plantações de cana-de-açúcar (há registos da existência de engenhos na ilha do Príncipe, embora não se tenham encontrado mapas) [ASF, baseado em Tenreiro, 1961]; (C) sécs. XIXin.XX, implantação das Roças e progressão para o interior das áreas de cultura [ASF, baseado na Carta de 1958, JIU-UM e Tenreiro, 1961]; (D) distribuição da população em 2001 [ASF baseado em IMVF, CEGOT-UC, INE]. À data da independência, cerca de 86% da terra pertenceria a proprietários residentes no exterior [PNUD, 2008: 54] e, num contexto de alinhamento socialista do novo Estado, foi implementada a nacionalização de terras. Posteriormente, com a mudança para um CLME’2011 | 6º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, 2011 enquadramento político multipartidário, a privatização de algumas das propriedades foi permitida, realizando-se também a subdivisão em talhões e redistribuição. Actualmente [Figura 1D], o modelo fundiário é híbrido, contemplando terras sob tutelas diferentes e com regimes de propriedade que variam do privado à concessão ao Estado. Muitas das antigas roças transformaram-se em assentamentos improvisados, utilizando as estruturas herdadas para colmatar as necessidades contemporâneas. A República Democrática de São Tomé e Príncipe pertence actualmente ao grupo de Países Menos Desenvolvidos (LDC – Least Developed Countries) e aos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS – Small Insular Developing States), encontrando-se cinquenta porcento da sua população abaixo do limiar de pobreza. Todos estes factores e mutações marcam o território o moldam o presente legado arquitectónico, e é nestas circunstâncias que o seu papel enquanto catalisador para o desenvolvimento se torna essencial. 1.3. A Roça Tendo a colonização do território de São Tomé e Príncipe sido direccionada para culturas agrícolas extensivas - cana-de-açúcar, café e cacau como centrais, mas também para produtos como copra, quina, coconote ou azeite de palma - que ocupam vastas áreas de cultivo e exigem mão-de-obra intensiva, o projecto de maximização da sua produção reflecte necessariamente estas exigências: pelo sucessivo domínio de terras conquistadas à floresta interior, pela estrutura laboral baseada em trabalho escravo e mais tarde contratado, e ainda pela sua dispersão no território e configuração dos complexos de produção. A Roça forma portanto um conjunto agrícola constituído pelas terras de cultivo e por complexos funcionais de suporte à produção. Muitas destas estruturas operavam em rede, segundo uma organização em sede e dependências [Figura 2], estabelecendo portanto uma hierarquia de funcionamento e de gestão interna. Em alguns dos exemplares, as extensas áreas de cultivo eram servidas por uma rede ferroviária interna para transporte de mercadorias e de trabalhadores [Figura 3]. Num território acidentado e de densa vegetação, a ligação à costa constituía também uma necessidade e uma mais-valia para facilitar o escoamento de mercadorias, optando-se com frequência por uma implantação costeira [Figura 4]. Da mesma forma, também os complexos agrícolas são desenhados de forma a assumir o maior grau possível de autonomia, como uma micro-cidade que encerra em si as funções necessárias ao seu pleno funcionamento a todos os níveis [Figura 5]. Embora variando nos exemplares e no tempo, podem englobar estruturas de processamento da matéria-prima (secadores, armazéns e até fábricas), de manutenção do complexo (oficinas, serrações, serralharias, cocheiras, currais), de habitação (do proprietário, de trabalhadores coloniais e de serviçais separadamente) e de apoio social (hospital, enfermaria, escola, cozinhas e sanitários). \ Fig 2. Esquema da organização das Roças do Príncipe em sede-dependências (ligações a vermelho) [ASF]. Fig 3. Exemplo de caminho-de-ferro para transporte de trabalhadores e mercadorias, Roça Uba-Budo [IICT]. Fig 4. Exemplo de implantação costeira, de modo a escoar a mercadoria por via marítima, Roça Água Izé [IICT]. Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe | Fernandes, A.S.; Sá, M.F.; Póvoas, R.F. Há que salientar não só que o projecto colonial não é uno no tempo - sofrendo diversas alterações ideológicas e reacções a ciclos económicos - como se encontra em constante diálogo com o contexto onde se implanta e com as restantes potências colonizadoras, usufruindo também de bens internacionalmente comercializados. O ambiente construído reflecte estas influências, com a importação de desenhos e sistemas construtivos que são tidos como inspirados no “chalet” europeu [Fernandes, 2005: 42-3], nomeadamente na grande inclinação das coberturas, no tratamento das madeiras, nas varandas ou torreões. A tabela da “Natureza, valor e procedência das mercadorias importadas nas alfandegas de S. Thomé e Príncipe no anno de 1905” [Mantero, 1910] regista a importação de vários produtos relacionados com a construção civil, como “cal e cimento” a partir de Portugal e Ilhas Adjacentes, Alemanha, Bélgica, França e Inglaterra, assim como “madeira em obra” de Portugal, Bélgica e um pouco da Alemanha, e ainda “tijolo, ladrilho e cantaria” essencialmente de Portugal e em pequena parte de Inglaterra. Com a independência, processa-se a alteração dos pressupostos que deram origem à organização colonial da sociedade e do território em São Tomé e Príncipe. A herança de uma estruturação agrícola tendencialmente de monocultura, e a perda da sua relevância para a fragmentação em cultura de subsistência, assim como a alteração da estratificação laboral e social, introduzem desfasamentos ao nível da utilização das estruturas existentes, da sua adequação às necessidades contemporâneas e das expectativas a elas vinculadas, surgindo neste contexto a investigação que se apresenta. Fig 5. Roça Agostinho Neto (antiga Rio do Ouro), Ilha de São Tomé [IICT, GoogleEarth]. 2. INVESTIGAÇÃO EM CURSO O relevante valor das Roças de São Tomé e Príncipe reside não só no seu papel enquanto elemento estruturante do território – como complexo equipado das mais variadas funções para prover a sua auto-suficiência – e fundador de grande parte dos actuais assentamentos humanos, mas também na qualidade arquitectónica e na inovação dos desenhos e tecnologias utilizadas. A compreensão dos seus mecanismos de implantação, estratégias e sistemas construtivos, assim como a análise de relações e transposições a partir de diferentes influências arquitectónicas, o seu estado de conservação e as formas de utilização e apropriação do espaço, poderão contribuir para a percepção do potencial destas estruturas enquanto motores para o desenvolvimento, não só do ponto de vista cultural e da produção de conhecimento, mas também socioeconómico, de forma a ultrapassar os extensos desafios que se colocam neste contexto de extensas carências socioeconómicas. CLME’2011 | 6º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, 2011 2.1. Metodologia O estudo das Roças de São Tomé e Príncipe insere-se num trabalho de investigação mais alargado1, e parte da revisão literária tanto de fontes históricas como de interpretações de outros autores para a construção de um quadro interpretativo de base, complementado por extensos levantamentos arquitectónicos, funcionais e de estado de conservação, permitindo a realização da análise em curso. A componente prática de levantamento é constituída por uma primeira fase de amostragem mais alargada que tem por base um inquérito de 112 Empresas Agrícolas realizado em 1987 por João Abreu Lima, Manuel Sousa Guedes e Sebastião Sousa Guedes, às quais se acrescentam alguns exemplares que assumiram entretanto relevância, perfazendo um total de 118 unidades. A utilização de uma listagem pré-existente, ainda que não contemplando todos os parâmetros que se pretende analisar na actualidade, permite comparar as mutações introduzidas ao longo do tempo e acompanhar a evolução do estado de conservação das estruturas estudadas. Adicionalmente, a percepção de uma larga extensão de exemplares permite a realização de uma visão de conjunto e a identificação de padrões, recorrências e divergências, para serem exploradas em maior pormenor. Posteriormente e numa segunda fase, pretende-se que uma análise mais detalhada de temas, tipologias e sistemas construtivos permita a interpretação, explicitação e ilustração de relações, mutações, desafios e potenciais. 3. ANÁLISE EM CURSO O trabalho de levantamento encontra-se em curso (entre Junho e Agosto de 2011), pelo que a informação abaixo apresentada constitui ainda uma pequena parte da totalidade dos dados recolhidos. O presente texto aponta algumas destas questões, que serão desenvolvidas com maior extensão e profundidade com o decorrer da investigação. Através do presente estudo, pretende-se contribuir para o conhecimento e documentação das estruturas existentes, assim como para a discussão do seu potencial e de mecanismos de intervenção. 3.1. Implantação e organização Para além de entreposto comercial das rotas atlânticas, a colonização de São Tomé e Príncipe baseia-se num sistema agrário de latifúndio - a cultura rendeira extensiva – quer numa fase inicial das plantações e engenhos para a cana-de-açúcar (essencialmente no século XVI) quer no ciclo do café e do cacau (que se concentram na segunda metade do século XIX e início do século XX). As extensas áreas territoriais necessárias a uma produção de escala, ditam a estratégia de implantação dos complexos de produção: a sua dispersão pelo território e as suas vastas áreas de influência, assim como as dificuldades de mobilidade acentuadas pela topografia acidentada e a densidade da vegetação são possivelmente os factores que ditam a necessidade de assegurar a autonomia dos complexos enquanto unidades praticamente autosuficientes. Desta forma, a existência de uma ampla diversidade de funções e equipamentos dentro do complexo de produção da Roça constitui não só uma característica recorrente, como também dinâmica no tempo: a adição de valências ao sistema, acompanhando a identificação de novas necessidades – como a provisão de equipamentos sociais ou de instalações sanitárias 1 É integrado na pesquisa da primeira autora [ASF] sobre iniciativas ascendentes nesse território, ao abrigo do Programa Doutoral em Arquitectura da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, e com orientação do segundo e do terceiro autores. Partilha ainda a componente de criação de uma base de dados conjunta e de levantamentos arquitectónicos com o Arquitecto Hugo Machado da Silva [HMS], Doutorando da mesma Instituição com orientação de Sérgio Fernandez, que se dedica à investigação da génese e mutações destas empresas agrícolas sob uma perspectiva histórica. Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe | Fernandes, A.S.; Sá, M.F.; Póvoas, R.F. e de apoio – é perceptível na evolução da configuração do conjunto e identificável nos seus edifícios e sistemas construtivos. Fig 6. Retalhamento do solo na Ilha de S. Tomé, Fig 7. Exemplo da implantação e organização onde é perceptível a área das roças [Tenreiro, 1961]. do complexo da Roça Bombaim [ASF, HMS, 2010]. A maior parte dos edifícios actualmente existentes nas Roças de São Tomé e Príncipe datam provavelmente dos últimos anos do século XIX e das primeiras décadas do século XX, embora existam complexos mais recentes e os próprios edifícios dentro de cada complexo possam corresponder a datações diversas, num processo dinâmico de adaptação e de sucessivo investimento [Figuras 8 e 9]. Fig 8. Exemplo de parte da Roça Bombaim, Ilha de São Tomé. Habitação de feitor (no cunhal, com dois pisos), sanzala (habitação dos serviçais em construções lineares) e instalações sanitárias (num volume anexo, mais recente). (A) montagem fotográfica, (B) alçado. [HMS, ASF, 2010]. roças área dos “filhos da terra” cidade de São Tomé edifício de sanitários módulos de habitação dos trabalhadores módulos de habitação dos trabalhadores habitação de feitor curral armazém secadores casa grande oficina habitação de técnicos sanzala hospital e enfermaria habitação de feitor armazéns armazéns CLME’2011 | 6º Congresso Luso-Moçambicano de Engenharia, Maputo, 2011 Fig 9. Exemplo da Roça Rio do Ouro (actual Agostinho Neto), em que apresenta uma primeira fase de construções em madeira (A) [IICT], posteriormente substituídas por novos edifícios de alvenaria (B) [ASF]. Desta forma, grande parte das estruturas actualmente existentes enquadram-se na categoria de “edifício antigo”, que pode ser definido como “aquele que foi construído antes do advento do betão armado como material estrutural dominante, ou seja, antes do aparecimento do cimento Portland, recorrendo portanto a materiais e tecnologias tradicionais para a construção dos diferentes elementos constitutivos” [Appleton, 2003: 2]. 3.2. Sistemas construtivos e materiais Os materiais mais utilizados são portanto a madeira, a pedra, o tijolo, a cal e a telha marselha, surgindo ainda com frequência reforços metálicos realizados com os carris dos caminhos-deferro, ocasionalmente estruturas metálicas, e de betão armado nos exemplares mais recentes. Os sistemas construtivos até agora identificados baseiam-se em combinações destes materiais, encontrando-se abaixo listados [Tabela 1] e ilustrados [Figuras 10 e 11], numa primeira e ainda incompleta sistematização destas características. Aproximam-se às técnicas utilizadas em território português, embora com adaptações à disponibilidade de materiais e às exigências climáticas dos trópicos. A sua preponderância, recorrência e distribuição temporal e geográfica estão ainda em estudo. Tab 1. Listagem de sistemas construtivos identificados nas Roças de São Tomé e Príncipe, através de referências bibliográficas e de observação directa [ASF, 2011]. USO DESIGNAÇÃO CARACTERIZAÇÃO fundação estaca e pau-a-pique sobreelevação da construção ao solo através de estacas ou pilares de madeira muro de fundação construção contínua de fundação pilar de fundação construção pontual de fundação, por vezes parede / muro aparelho regular de junta seca pedra talhada e aparelhada para encaixe sem ligamentos aparelho regular pedra talhada com junta de argamassa alvenaria irregular / pobre / ordinária pedra irregular ligada com argamassa alvenaria de tijolo tijolo maciço/vazado com junta de argamassa alvenaria de bloco bloco localmente produzido com pedra local e argamassa de cal alvenaria mista alvenaria de pedra irregular e tijolo, unidos com argamassa parede de frontal estrutura em madeira (horizontal e vertical com travamento diagonal), com enchimento em tijolo maciço (ou pedra) e argamassa tabique estrutura em tabuado vertical, recoberto a fasquios, ripas horizontais para fixação da argamassa tabique horizontal estrutura em madeira, recoberta com tábuas horizontais “em escama” (recobrindo a inferior) tabique a prumo com mata-juntas estrutura em madeira, recoberta com tábuas verticais e ripas sobre as suas juntas tabique a prumo sem mata-juntas estrutura em madeira, recoberta com tábuas verticais alvenaria de bloco alvenaria de bloco de cimento unido por argamassa de cimento betão armado betão aplicado sobre estrutura de ferro (usualmente carris de caminhos-de-ferro estrut. de cobertura asna estrutura de suporte da cobertura em madeira (pode ter reforços metálicos) vigamento de madeira estrutura em que as paredes limítrofes e (algumas) interiores se prolongam até à cobertura estrut. de piso vigamento de madeira estrutura de piso em viga de madeira laje betão sobre malha de ferro Património Luso-Afro-Tropical: o exemplo das Roças de São Tomé e Príncipe | Fernandes, A.S.; Sá, M.F.; Póvoas, R.F. [IICT] - Instituto de Investigação Científica Tropical. [JIU-UM] - Carta do Príncipe. Levantamento Aerofotogramétrico. Escala 1:25.000. Junta de Investigações do Ultramar, Ministério do Ultramar, Lisboa: 1962. [IMVF, CEGOT-UC] - Sistema de Informação Geográfica. São Tomé e Príncipe. Versão 1. Instituto Marquês de Valle Flôr e Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra, 2010. AGRADECIMENTO A presente investigação conta com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, sob a forma de Bolsa de Doutoramento da primeira autora, contributo sem o qual este estudo não teria sido possível. Agradece-se também o contributo do Arquitecto Hugo Machado da Silva (referenciado como [HMS]), Doutorando da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, na realização conjunta dos levantamentos arquitectónicos das Roças de São Tomé e Príncipe.