Nos primórdios da Literatura em Cabo Verde: A Prosa Menor de Guilherme da Cunha Dantas
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FACULDADE DE LETRA S UNIVE RSIDADE DO PO RTO Tânia Solano Ardito 2º Ciclo de Estudos em Estudos Literários, Culturais e Interartes Nos Primórdios da Literatura em Cabo Verde: A Prosa Menor de Guilherme da Cunha Dantas 2013 Orientador: Professor Doutor Francisco Topa Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva
TÂNIA SOLANO ARDITO NOS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA EM CABO VERDE: A PROSA MENOR DE GUILHERME DA CUNHA DANTAS Faculdade de Letras da Universidade do Porto Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes Orientador: Prof. Doutor Francisco Topa 2013
Índice Nota de apresentação 5 I. Guilherme da Cunha Dantas nos primórdios da literatura em Cabo Verde 7 1. Um autor a descobrir 9 2. Uma biografia com lacunas 11 3. A obra 22 II. O modelo da edição 41 1. Orientação global 43 2. Normas de transcrição dos textos 44 3. Apresentação do texto e das notas 47 III. CONTOS SINGELOS 49 1. Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava 51 2. Cenas de Mafra 85 IV. OUTROS TEXTOS EM PROSA 101 A. Publicados em vida do autor 103 1. Frei José e o diabo 105 2. O dinheiro em Cabo Verde 107 3. A cidade da Praia em Cabo Verde 108 4. Milho falante 109 5. Desgraçado nariz! (Fragmento duma cena cómica, inédita) 110 6. Amor! Ai! Quem dera 112 7. A morte de D. João: Memórias do hospital 117 8. A ilha Brava 123
4 | B. Publicados postumamente 127 1. Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago 129 2. Os intrujões 182 3. O sonho (Memórias dum doido) 188 V. Bibliografia 201
NOTA DE APRESENTAÇÃO O presente trabalho procura superar algumas das lacunas relativas ao conhecimento daquele que, no estatuto atual da historiografia literária, pode ser considerado o primeiro escritor cabo-verdiano: Guilherme da Cunha Dantas. Nascido em 1848 na ilha Brava, viveu na metrópole pouco mais dez anos, a maior parte dos quais em Mafra, em cuja Escola Real fez estudos secundários. Regressado a Cabo Verde em 1869, parece ter tido dificuldade em adaptar-se a um meio agora sentido demasiado estreito, vindo a morrer – desamparado e infeliz – em 1888, na Praia. Tendo-nos deixado uma obra relativamente extensa e diversificada – a maior parte da qual viria a ser publicada postumamente, já no século XX –, Guilherme Dantas só começou a ser tido em conta pela historiografia literária cabo-verdiana nas últimas décadas, designadamente depois do artigo que em 1984 Félix Monteiro 1 lhe dedicou. Seguiu-se, em 1996, a publicação da sua poesia, organizada por Arnaldo França 2 a partir de um caderno manuscrito inédito, mas incluindo também os poemas que saíram no Novo almanach de lembranças luso-brazileiro e noutros periódicos. Mais recentemente, Manuel Brito-Semedo editou em livro o romance Memórias dum pobre rapaz 3 que tinha sido publicado em folhetins em A voz de Cabo Verde. A este mesmo antropólogo devemos a divulgação eletrónica de outros textos do escritor, através do blogue Esquina do tempo: magazine cultural online 4 . Apesar destes trabalhos, cremos que ainda não foi feita justiça a Guilherme Dantas: determinados aspetos da sua biografia e da sua formação escolar permanecem por explicar; falta perceber a sua formação literária e o seu enquadramento geracional; nem toda a sua obra foi ainda reunida em livro; para ser bem compreendida e valorizada, a obra precisa de ser anotada e estudada, independentemente da sua relação temática com Cabo Verde. 1 «Páginas esquecidas de Guilherme Dantas». Raízes. Praia. 21 (1984) 123-192. 2 Poesias. Organização e prefácio de Arnaldo França. Praia: Instituto Cabo-verdiano do Livro e do Disco, 1996. 3 Memórias dum pobre rapaz. Organização, prefácio e notas de Manuel Brito-Semedo. Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007. 4 Disponível em WWW: <http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/> [consult. 19 ago. 2013].
6 | É um pequeno contributo nesse sentido que este trabalho procura dar. Por um lado, revemos e sistematizamos a informação biográfica disponível sobre o autor, acrescentando elementos documentais inéditos, designadamente os provenientes da consulta do seu processo escolar em Mafra e dos movimentos na administração pública sinalizados pelo Boletim official do Governo Geral da Provincia de Cabo Verde. Por outro lado, reeditamos cuidadosamente, corrigindo uma série de lapsos – mas cometendo, eventualmente, outros – aquilo a que chamamos a prosa menor de Guilherme Dantas, isto é, a totalidade dos seus textos mais curtos, ainda não recolhidos em livro: os contos, as crónicas e uma narrativa de viagens. Esta edição é acompanhada de uma série de notas que, facilitando o entendimento do texto, ajudam também a esclarecer as referências literárias e culturais do autor, corroborando assim – esperamos – a tentativa de enquadramento e contextualização que previamente fizemos do autor e dos textos. Foi nosso propósito sugerir – e parcialmente demonstrar – que estamos perante um escritor e uma obra de algum modo excecionais: estreando, demasiado jovem, dois anos depois do início da chamada Questão Coimbrã, Guilherme da Cunha Dantas acusa contudo grande afinidade – pelos temas e motivos, pela linguagem e pelo estilo – com a segunda geração do romantismo português; apesar disso, com base na leitura de autores da primeira geração, como o Garrett das Viagens ou um clássico do século anterior como Laurence Sterne, consegue nas suas melhores obras superar, pelo humor e pela ironia, alguns dos clichés românticos, ao mesmo tempo que põe em causa as fronteiras entre géneros e subgéneros, designadamente o conto e a crónica. Resta-nos esperar que este trabalho estimule outros olhares críticos sobre a obra do autor da Brava, retirando-a de uma penumbra de menoridade que não merece.
I. Guilherme da Cunha Dantas nos primórdios da literatura em Cabo Verde
14 | hábil professor português.» (p. 59). Mas é no romance Memórias dum pobre rapaz 10 , publicado postumamente, que a relação filial é revelada de modo mais claro: depois de uma série de referências ao «nosso amado professor», ao «nosso velho professor» (p. 99), ao «sábio director» (p. 129) – agora claramente nomeado como Vitorino Dantas, padrinho do narrador em segundo grau, José Roberto –, o narrador em primeiro grau, identificado apenas pela inicial D., nomeia-o como seu pai (p. 157). Independentemente da assunção ou não das suas responsabilidades parentais, a Vitorino Dantas se deveu certamente a vinda de Guilherme para Mafra, em 1860. Segundo o registo escolar, aquando da sua chegada, Guilherme Augusto «Lia regularmente, escrevia mal lettras, e sommava e diminuia.». Isso não o impediria contudo de ter um percurso destacado, pontuado pela obtenção de uma série de prémios, logo a partir do ano seguinte. O corolário desse percurso foi o exercício das funções de aluno-mestre nos dois últimos anos em que frequentou a escola. Esta fase da vida do nosso autor é frequentemente referida ao longo da sua obra. Em «Nhô» José Pedro ou cenas da ilha Brava, o narrador comenta assim a dor da separação familiar: Oh! não pode compreender a dor imensa que então oprimia os corações daqueles que se separavam, quem ainda não experimentou a indefinível tristeza, o desalento, os prantos, o martírio da separação! Já provei deste cálix d’amargura, eu! Quando me separei de minha pobre mãe para vir, aqui em terra longínqua, buscar o pão do espírito, os meus poucos anos não me permitiam avaliar a grandeza da minha quase desgraça: – mas chorei!… (p. 61) Num registo risonho, na crónica Frei José e o diabo, recorda a figura divertida de um antigo ocupante do convento e as tardes agradáveis passadas a ouvir as suas histórias. De forma idêntica, na narrativa de viagens Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago, lembra a fruta colhida sem autorização das hortas do Palácio: Desta vez, aceitando os factos consumados, o amigo Luís não se fez melindroso nem rogado; e até me recordou com prazer o tempo, em que éramos o terror das hortas de Mafra, especialmente daquelas que destinavam seus frutos à mesa de sua majestade fidelíssima, legítimo senhor e possuidor das sobreditas hortas… Como eram deliciosas as tangerinas do tio 10 Publicado em A voz de Cabo Verde entre 1913 e 1915 e, mais recentemente, em livro, já citado.
| 15 Bonifácio, as nêsperas do sr. Abílio, e as belas peras e os doces morangos do António da horta, caseiros de sua majestade!… Aquilo, só para rei… ou estudantes!… (p. 144) Outra nota importante, presente nas Memórias dum pobre rapaz, tem a ver com o reconhecimento do ambiente familiar que se vivia na escola. Depois de uma estadia prolongada em Lisboa, o narrador em segundo grau, regressando a Mafra para assistir à entrega dos prémios, comenta: Oh! a magia da casa paterna… da nossa casa!... quando a tornamos a ver, depois de longa permanência entre estranhos, coabitando em sórdidas mansardas, comendo em mesas em que preside o Ganho, servido pelo Desmazelo!... Tudo me admirava e enternecia, ao gozar novamente o conforto da casa a que podia chamar o meu lar. (p. 134) Em várias passagens dos Bosquejos, percebe-se que as férias escolares seriam passadas em passeios agradáveis a Lisboa e arredores (Oeiras, Sintra) ou em estadias nas praias da Ericeira (que servem de pano de fundo ao conto Cenas de Mafra): Eu, que até então apenas havia percorrido em cómodas carruagens o espaço de sete léguas que separa Mafra e Lisboa, por uma estrada plana, concorrida e pitoresca, limitando-se as minhas excursões extraordinárias às clássicas jornadas para os banhos de Ericeira ou de Ribamar, nas circunvizinhanças de Mafra, em pacíficos e bucólicos orelhudos (…) (p. 130) A importância da impressão deixada por algumas das paisagens que então frequenta torna-se mais visível aquando do regresso a Cabo Verde: Não sei contudo como explicar as dulcíssimas e saudosas impressões que ainda hoje sinto, eu um pobre e rude africano, ao lembrar-me das formosas tardes passadas nalguma vetusta quinta do nosso velho Portugal como a Cerca do Convento em Mafra, a Quinta do Pombal em Oeiras, etc.! (Bosquejos, p. 135) Ou ainda: A mesma penosa impressão, que então sentia, se apoderara de mim quando, em regresso de Lisboa, avistara as costas escalvadas destas ilhas. E como não ser assim, se havia passado largos e melhores anos da vida em Mafra, terra tão rica de alamedas, tapadas e jardins frondosos! E se visitara Sintra, a formosíssima Sintra[,] o eterno paraíso de verdura, um daqueles lugares em que, na terra e com os nossos pobres olhos humanos de tão estreito alcance, nos parece ver o Criador de todas as maravilhas
16 | do Universo sentado sobre um trono de esmeraldas; e onde, pelos troncos antigos, pelas escuras abóbadas de folhagem rumorosa e sempre virente, sussurram tão vagas saudades dum passado ignoto, e – quem sabe? – talvez duma outra existência já olvidada, do céu talvez… nalgum outro planeta melhor! (ibid.) No fim do ano letivo de 1866/67 – de acordo com o seu processo –, Guilherme «(…) sahiu da eschola, e em Setembro de 1867, retirou-se com sua familia para Lisboa.». Que “família” seria esta? A mãe? O pai? Para além dessas duas figuras, o nosso autor tinha pelo menos uma irmã: por aquilo que é possível perceber através de alguns dos poemas publicados por Arnaldo França 11 , chamava-se Mariana Olímpia Dantas, vindo a adotar o apelido Ferreira pelo casamento com António Pedro Silves Ferreira, um antigo companheiro de Guilherme na Escola de Mafra, referido em Memórias dum pobre rapaz e em Bosquejos. Falecida antes de 1880 – data da coletânea de poemas do irmão que inclui um texto dedicado à sua morte –, Mariana teria perdido um filho e teria dado à luz um outro, uma menina chamada Ana. Processo de Guilherme Augusto da Cunha na Escola Real de Mafra 11 Poesias, ed. cit., p. 65-66 e 14-127.
| 17 Para além dessa irmã, é possível que Guilherme tivesse também um irmão: numa portaria de 31 de março de 1880 12 , vem a referência a um José Augusto da Cunha Dantas, dado como 1.º substituto do cargo de juiz ordinário do julgado da ilha Brava. A coincidência do nome – Augusto da Cunha Dantas – e a procedência geográfica obrigam a pensar que se trate de um irmão de Guilherme, apesar de nenhum biógrafo o indicar e de não haver nenhuma alusão a ele na obra do nosso autor. Outra possibilidade seria a de se tratar de um primo, filho de António Pedro Dantas Pereira, que durante alguns anos acompanhou o irmão como professor na Brava. O certo é que 1867 representa o fim dos estudos de Guilherme Dantas e de uma época da sua vida marcada pela felicidade, mesmo que relativa. Como se depreende de uma passagem de Bosquejos, a causa do infortúnio terá sido a morte do pai: Havia três meses que eu me achava na cidade da Praia, de regresso à pátria, concluídos… ou, para melhor dizer, interrompidos os estudos em Portugal, e fugindo aos vendavais da vida airada e tempestuosa de Lisboa. É o que frequentemente acontece a muitos de nós outros, pobre[s] filhos do ultramar, que, pela morte súbita dum protetor, ou por qualquer incidente inesperado (sem o que deixava de ser incidente), não podemos completar o desbastamento a que fomos, e voltamos com algumas ilusões de menos, alguns vícios de mais, muitas pretensões, muito janotismo, e, para cúmulo de desditas e de ridículo, penteados com essa meia instrução, que, no dizer de certo fisiologista, é pior do que uma completa ignorância. (Bosquejos, p. 130) A par desse, terá surgido também um problema de saúde que deixará fundas marcas: a surdez. É José Lopes, que conheceu Guilherme Dantas em 1887, quem refere o episódio: Foi em Mafra que o Dantas contraiu, como consequência de um banho frio, a surdez, fatal enfermidade que, como a Beethoven, lhe encheu de amargura a existência e determinou sombrias alterações no seu carácter. 13 Segundo Bosquejos, o regresso de Guilherme a Cabo Verde ocorreu apenas em 1869 (ou em finais do ano anterior), sendo de admitir que tenha passado pouco mais de um ano entre os «(…) vendavais da vida airada e tempestuosa de Lisboa.», entrevistos nas Memórias dum pobre rapaz. Por aquilo que pudemos apurar, a sua carreira profissional terá sido marcada também pela 12 Boletim official do Governo Geral da Provincia de Cabo Verde, 3-IV-1880, p. 93. 13 «Guilherme Dantas». Vida contemporânea. Lisboa. 15 (jun. 1935), p. 497.
18 | desilusão, decorrente certamente do desajuste face ao meio que veio encontrar e da frustração das expectativas que os estudos na metrópole lhe terão suscitado. Com uma forte dose de ironia, o autor dá conta no início dos Bosquejos dos seus esforços para obter uma colocação no funcionalismo público: Um dia, porém, fiz a agradável descoberta de que os memoriais eram estéreis, os selos do Tesouro muito caros, e intransponível a porta dos empregos, pelo menos para os que não atassem algum padrinho suculento à chocha certidão de primeiras letras, vacina e folha corrida… Pousei a pena a meio do quinto memorial, acendi um cigarro com o último requerimento, despedi-me dos meus cuidados, montei a cavalo, e parti. (Bosquejos, p. 131) O lugar deve ter tardado. Do primeiro emprego, na ilha de Santiago, não conseguimos encontrar notícia no Boletim official do Governo Geral da Provincia de Cabo Verde, mas o autor refere-o nos Bosquejos: Eu, demorei-me apenas um mês na freguesia de Santa Catarina, onde conseguira empregar-me na administração do concelho. Foi, pelo governo-geral, determinada a mudança da sede do concelho para o porto do Mangue do Tarrafal, medida que se levou a efeito com aquela celeridade à militar, que o conselheiro Albuquerque imprimia à execução das suas melhores resoluções, o que por vezes, como no caso presente, não pouco as prejudicava. (p. 166) Em 1872, como já foi notado por Arnaldo França 14 , Guilherme Dantas publica um anúncio no Boletim official oferecendo serviços de tradução e secretariado. Mas só em 1877 15 encontramos nessa publicação a primeira referência a funções públicas atribuídas ao nosso autor: entre esse ano e 1886 16 , ele assina, como encarregado, sucessivas relações de livros entrados na Biblioteca e Museu Nacionais. Aproveitando a referência a esta instituição, valerá a pena destacar o ingresso da edição francesa das obras completas de Sterne, autor que exerceu clara influência sobre Guilherme Dantas. A notícia, integrada na «Relação de algumas obras offerecidas pelo Ex.mo Sr. Commendador Ovide Urbain, entregues em Bissau a um membro da Comissão Directora», surge no Boletim de 20-VII-1872, p. 154: «Œuvres complétes (sic) de Sterne, Œuvres choisies de Goldsmith, nouvelle édition revue et augmentée de notices bio14 «Prefácio» a Poesias, ed. cit., p. 11. 15 Boletim official, 1-IX-1877, p. 156. 16 Ibid., 27-III-1886, p. 77.
| 19 graphiques et littéraires par Walter Scott, traduites par M. Francisque Michel. Paris, 1864, 1 vol.». É possível que Guilherme Dantas tenha lido Sterne mais cedo, durante a sua permanência na metrópole, e até em inglês. Se tal não aconteceu, a leitura pode ter sido feita em francês, a partir de 1872. Seja como for, Dantas dominaria certamente o inglês, tanto mais que dez anos depois oferece à mesma biblioteca um livro do autor de The Farmer’s Boy: «The Poems of Robert Bloomfield» 17 . De acordo com as nossas pesquisas no Boletim official, a restante carreira de funcionário público desenvolve-se também na Praia e é bem modesta. Por portaria de 19 outubro de 1877 18 , Guilherme Augusto da Cunha Dantas é nomeado para exercer interinamente o cargo de amanuense da junta da fazenda de Cabo Verde, que estava provisoriamente vago. Dois anos depois, mediante portaria de 12 de setembro 19 , é-lhe concedida uma primeira licença médica (tema de que fala com humor e ironia no conto A morte de D. João), por sessenta dias, «(…) para se tratar convenientemente em um dos pontos mais salubres do archipelago.». Esta licença seria depois prorrogada por mais um mês 20 . Em 1880 21 , Guilherme Dantas beneficia de uma licença de 40 dias para «mudança de ares». A 16 de maio de 1885, ocupando o cargo de amanuense interino da contadoria da junta da fazenda, é nomeado para exercer interinamente o lugar de 2.º escriturário da mesma repartição 22 , sendo a nomeação transformada em promoção por portaria de 11 de junho 23 . Pouco depois, mediante portaria de 5 de agosto 24 , são-lhe concedidos «(…) tres meses de licença para se tractar n’uma das ilhas mais salubres do archipelago (…)». No ano seguinte, através de portaria de 31 de março 25 , é provido a título definitivo no cargo de amanuense da junta da fazenda pública 26 , que exercia interinamente desde 1877. A 30-X-1886 27 é castigado com oito dias de suspensão por ter deixado de cumprir uma ordem que lhe foi dada pelo contador da junta de 17 Ibid., 7-I-1882, p. 2. 18 Ibid., 27-X-1877, p. 189. 19 Ibid., 13-IX-1879, p. 215. 20 Ibid., 22-XI-1879, p. 204. 21 Ibid., 18-IX-1880, p. 214. 22 Ibid., 16-V-1885, p. 120-121. 23 Ibid., 13-VI-1885, p. 145. 24 Ibid., 8-VIII-1885. 25 Ibid., 3-IV-1886, p. 79-80. 26 O que parece significar que a promoção anterior não tivera caráter definitivo. 27 Ibid., 30-X-1886, p. 226.
20 | fazenda pública. No mês seguinte 28 , recebe dois meses de licença para convalescer na ilha Brava. A 6-V-1887 29 volta a ser nomeado para servir como 2.º escriturário na contadoria da junta da fazenda pública, sendo esta a última referência ao seu nome que encontrámos no Boletim official. Qualquer que seja a explicação, a carreira pública do nosso autor não deixa de surpreender pela modéstia. Podemos admitir o peso da falta de um padrinho, lamentada por Dantas em passagem já citada. Podemos admitir também a influência das limitações de saúde: a surdez, de que falámos atrás, e a miopia, reconhecida pelo próprio autor nesta passagem humorística de Os intrujões: «Olhei com mais atenção… cheguei o livrinho ao nariz… meti-o pelos olhos, por assim dizer, porque sou míope, e não podia capacitar-me do que via…» (p. 180). Mais grave do que isso era contudo o alcoolismo, causa ou consequência da impossibilidade de obter um posto que estivesse de acordo com a sua formação. Numa espécie de obituário, escreve o seu amigo Hipólito da Costa Andrade: Padecimentos physicos, a terrivel lesaõ cardiaca que elle reconhecera em si, impressões moraes que no seu temperamento excessivamente nervoso actuavam com a maxima intensidade, decepções successivas, repellões da sorte, e também um anciar indomito que nunca era satisfeito ou preenchido, tudo concorria para esse mal estar geral que lhe entenebrecia os dias, e o arrojava ao pendor onde a tentação das bebidas brancas enroscando-se-lhe na rasaõ e no animo, e fascinando-o, e dominando-lhe a vontade, lhe aproximaria o termo da existencia. 30 José Lopes, que conheceu Dantas em 1887, reconhece também esse problema, de modo mais eufemístico: «Há quem diga, há mesmo quem afirme que o poeta a procurava [a morte], afogando a vida naquilo a que Álvares de Azevedo, como êle discípulo de Musset, chamava “o sangue do génio”…» 31 . Outro obstáculo ao triunfo público de Guilherme Dantas terá sido a contundência do seu espírito crítico, bem patente na crónica Os intrujões. Atente-se na seguinte passagem da peça e confronte-se com a suspensão disciplinar que lhe foi aplicada em 1886: A maior parte dos intrujões, porém, são perversos, e, tendo muitas prendas que lhes são comuns, há uma que não falta a nenhum deles: a ESTUPIDEZ. 28 Ibid., 6-XI-1886, p. 251. 29 Ibid., 19-VII-1887, p. 91. 30 «Guilherme Dantas». Ibid., 7-IV-1888, p. 64. 31 «Guilherme Dantas». Vida contemporânea, cit., p. 499.
| 21 Um destes conheci, um chefe de repartição, que informava sobre as habilitações dos seus subordinados, escrevendo – habelitações – mas tinha a modéstia de aspirar a um consulado em Zanzibar, na Zululândia, ou em qualquer outro país cevilizado onde a sua bestialidade passasse desapercebida, à sombra de grossos proventos. Outro, mais avançado ainda do que eu, que me assino Banana e escrevo chouriço com c cedilhado, escrevia até ofreçe, pretençe, ofíçio, benefíçio, fáçil, dóçil, com uma prodigalidade espantosa de rabinhos negros! (p. 181) José Lopes, falando aparentemente de textos que não chegaram até nós, confirma esta faceta: «Foi também terrível polemista, menos suave que Augusto Barreto, menos contundente que Eugénio Tavares, porém mais ironista que os dois.» 32 . Uma ilustração aproximada pode ser encontrada na parte dos Bosquejos em que justifica a não concretização do seu projeto de poema herói-cómico intitulado Macaqueida: Quereis saber o que são – opiniões?… À porta de qualquer sujo botequim ou botica, improvisada em areópago, lê-se uma produção vossa, escutada com religiosa atenção por um grupo dos meus insetos-símios, constituídos em sessão magna para vos julgar, porque tendes o mau sestro de escrever para o público, e sois, talvez, redator dalgum jornal… Afora alguns zumbidos insignificantes dos minúsculos mosquitos, alguns murmúrios dúbios das insípidas abelhas e dos estúpidos grilos, e alguns sorrisos equívocos das cantáridas, absorventes, nada prenuncia a opinião do conspícuo sinédrio, porque se espera a sentença do oráculo, que é, de direito, o próprio leitor, o qual, ordinariamente, é um zangão… Estremeceis?… Sim, é mau sinal: os zangãos são rabugentos… Atendei, porém, a que as abelhas, que põem mel na ponta dos agudos ferrões, ou as baratas, essas harpias microscópicas, que sujam e infetam tudo aquilo em que tocam, ainda são piores… (p. 157) Guilherme da Cunha Dantas viria a falecer, de acordo com Manuel Brito-Semedo 33 , a 24III-1888, na Praia. Apesar de mal-amado, houve quem reconhecesse os seus méritos. Foi o caso do já referido Hipólito da Costa Andrade, que o considerou «(…) um dos mais formosos talentos que tenho admirado de perto.» 34 , acrescentando: «A inspiração bafejava-o perenne e ininterrupta. A toda a hora se encontrava aprestado para dedilhar na lyra afinada cantos suavissimos, ou para despedir a frecha certeira, penetrante, mortifera sobre preconceitos e ridiculos.». Na mesma linha se pronunciou João Augusto Martins: (…) o seu engenho, escapando a todos os dictames e a todas as formulas, revelou-se sempre sob uma apparencia inedita exclusiva e independente, ás vezes mordaz e ironico até á bruta32 Ibid., p. 503. 33 «Prefácio» a DANTAS, Guilherme – Memórias dum pobre rapaz, cit., p. 7. 34 «Guilherme Dantas». Boletim official, cit., p. 64.
22 | lidade, ás vezes audacioso e indisciplinado até á irreverencia, mas minucioso e amplo, como que poetisado pelas tristezas e pelas supplicas da sua existencia acabrunhada. 35 Sob a forma de poema acróstico, também José Lopes da Silva lhe rendeu homenagem, no Novo almanach de lembranças luso-brazileiro para o anno de 1889 36 : Tributo (Ao exímio poeta cabo-verdiano, Guilherme da Cunha) Porque és grande, hão de os vindouros Dar-te a sagração dos hinos. Tomás Ribeiro rande e altivo o teu estro se levanta. m brilhante porvir mostrando à pátria, nsigne artista, ó génio dos cantores, aureado homem que Cabo Verde espanta! á nos teus versos esse nobre encanto, ssa harmonia, que o leitor fascina. adiante acorda a maviosa lira, aravilhando a todos com teu canto. nflora a estrada que à glória conduz… iviniza, honra a tua excelsa pátria! musa tua é maviosa e meiga, larão infindo que entre nós reluz. m estro igual ao teu quisera ter. ão nasci, como tu, grande poeta; á apenas no meu canto o regozijo, ufania de teu patrício ser. 1887. José Lopes da Silva Sénior (Cabo Verde – S. Nicolau) Terminemos este breve apontamento biográfico com o retrato físico de Guilherme Dantas esboçado por José Lopes: Estou a vê-lo, bem presente, tez alourada, cabelo castanho claro e anelado, olhos da côr de certos topázios, tristes e vagos, a inseparável luneta, o chapéu de côco e o também insepa35 Madeira, Cabo Verde e Guiné. Lisboa, Livraria de Antonio Maria Pereira, 1891, p. 228. 36 Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1888, p. 302. u i l h e r m e a h n u C a d G
| 23 rável fraque, a bengala de cerejeira e as botas fortes… 37 3. A obra Antes de procederemos a um breve estudo da prosa menor de Guilherme da Cunha Dantas, vejamos de forma esquemática o conjunto da obra do autor, o qual, não sendo muito extenso, é bastante diversificado, na medida em que cobre diversos géneros. I. Textos publicados em vida do autor • Contos singellos por Guilherme da Cunha. Mafra: Typographia Mafrense, 1867. Leitura para rapazes. 96 p. 10,5 x 16 cm. 37 «Guilherme Dantas». Vida contemporânea, cit., p. 498.
30 | uma série de marcas convencionais. Prova-o também o recurso, neste livro e noutros textos, a epígrafes e citações, diretas e indiretas, de autores que são expoentes dessa geração: Pinheiro Chagas, Soares de Passos, Bulhão Pato, Mendes Leal (o irmão, António Joaquim) ou Castilho (vindo da 1.ª geração, mas figura tutelar do grupo). O livro de estreia de Guilherme Dantas é constituído por dois contos: «Nhô» José Pedro ou cenas da ilha Brava e Cenas de Mafra. Embora no título de ambos se destaque o espaço, o elemento estrutural de maior relevo é a ação, que está longe da singeleza anunciada no rótulo do volume, a menos que a tomemos como proclamação de pureza e veracidade. De facto, a ação dos dois contos é mais longa e complexa do que hoje estamos habituados a encontrar neste tipo de narrativa: no primeiro texto, cobre três gerações e contempla uma divisão em duas partes, separadas por uma distância de 20 anos; no segundo conto, o período de tempo é curto, mas também permite o desenvolvimento de uma série de peripécias. Apesar do que fica dito, o espaço – entendido numa aceção lata que ultrapasse a dimensão física – é uma categoria importante, sobretudo no primeiro conto. Note-se aliás que ele surge duplamente no título: através da referência à Brava, mas também mediante a convocação de uma forma de tratamento local, «Nhô». Situando-se longe da terra natal, numa metrópole que define como «terra estranha» (p. 56), nem por isso o narrador-autor deixa de se mostrar marcado pelo preconceito de quem está de fora. Isso é visível no modo como avalia o comportamento dos naturais, considerando-os «supersticiosos» quando, perante a queda de pedras, «(…) saem de suas frágeis casinhas invocando o sagrado auxílio, pois supõem ser aquilo obra do demónio.» (p. 56). Relativamente à crença no caráter pressagiador do canto de um pássaro, faz um comentário idêntico: «Mais uma superstição daquela pobre gente.» (p. 71). A mesma atitude de superioridade pode ser observada a propósito de um aspeto linguístico: «Coisas de meus patrícios! Como aqueles senhores não têm gramática, dizem na sua algaraviada: um baca, dois baca, por uma vaca, duas vacas; e assim também dizem batata inglês por inglesa.» (p. 57). Em contrapartida, há outros aspetos da cultura local que não merecem comentário negativo: é o caso dos festejos de Santo António e de particularidades da culinária, como o «xerém» e a «batanca». A história de José Pedro permite ao narrador mostrar a complexidade da sociedade local: para além dos naturais e dos portugueses de passagem, havia também espaço para estrangeiros, como o brasileiro António Pedro (pai do herói) e o paraguaio João Gay (amigo dele). Por
| 31 outro lado, tratava-se de uma sociedade baseada na distinção racial, em que a escravatura estava ainda presente: note-se que o narrador tem o cuidado de esclarecer que António Pedro «(…) chegou a enriquecer no comércio, não de pau d’ébano (escravatura), mas no tráfico honrado de produtos da terra.» (p. 57). Além disso, no decurso da ação, há a referência à atividade de escravos, tanto domésticos (veja-se a cena da chegada de uma carta do Brasil para António Pedro, p. 60), como externos, encarregados de serviços mais pesados (D. Elvira vai ter com o marido acompanhada de «alguns escravos», ao passo que José Pedro regressa a casa «(…) em uma cómoda cadeirinha levada por dois possantes escravos (…)», p. 73). Apesar disso, haveria alguma margem para o cruzamento inter-racial: António Pedro casa com Júlia de Lima, «(…) uma linda crioula cujo pai era português (…)» (p. 59). Ainda ao nível do espaço local, Guilherme Dantas tem o cuidado de mostrar que a sociedade da Brava era desigual, embora sugira que os efeitos negativos daí decorrentes eram temperados por uma caridade de tipo paternal: quando António Pedro parte para o Brasil, «Via-se a praia coalhada de povo, principalmente de pobres que debulhados em lágrimas se vinham despedir de seu benfeitor, de seu pai (…)» (p. 61). Apesar dessa relativa ingenuidade, o narrador não deixa de mostrar as injustiças a que a desigualdade abre caminho, designadamente através da violência dos poderosos contra os mais fracos: sobre Ricardo Galvão, «(…) moço pródigo e libertino, temido e odiado de todos, mas procurado e respeitado pelo seu ouro.» (p. 68), diz que «Este ouro, e os encantos naturais de sua pessoa haviam feito decair muitos anjos, correr muitas lágrimas.» (ibid.). A figura do camponês António Silvestre – cuja filha fora desonrada por Galvão e se suicidara depois – permite ao autor sugerir que há uma espécie de justiça divina que corrige a frágil justiça humana: Silvestre pune o agressor de sua filha com a morte, embora venha a ser sancionado com o degredo perpétuo para a Guiné. Não obstante, a visão maniqueísta do mundo, as demasiadas mortes, as excessivas peripécias e a falta de densidade das personagens retiram força a um conto a que falta o single effect de que falava Poe. Apesar disso, há aspetos positivos, como o retrato da sociedade local, a estruturação dos eventos narrativos e um ou outro apontamento estilístico, como este símile referente ao mar: «Porém esta segunda luta dos elementos foi como a cólera humana: tanto mais terrível quanto mais breve.» (p. 58). O segundo texto, Cenas de Mafra parece aproveitar a experiência pessoal do autor quando aluno da Escola Real. Trata-se de uma história de amor e ciúme juvenil, desenrolada entre
32 | Mafra e a Ericeira – nesta altura, como hoje, procuradas por famílias lisboetas no período estival 44 –, com uma série de lance dramáticos que incluem a morte da protagonista e o desafio para um duelo entre os dois rivais. A linguagem resvala para o mesmo tipo de convencionalismo, como se pode ver pelo exemplo seguinte: «É que Júlio pousou ao de leve os lábios na taça inebriante da ventura.» (p. 92). Assinale-se contudo uma certa destreza por parte do autor na montagem da história: começando com os preparativos para o duelo, abre depois para um flashback que permitirá o regresso ao ponto de partida e a conclusão da intriga. O terceiro conto, Amor! Ai! Quem dera, publicado em 1881, chegou até nós de forma incompleta, o que não nos permite percebê-lo e avaliá-lo completamente. Vê-se contudo que segue a mesma linha do texto anterior: uma intensa paixão amorosa marcada pelo infortúnio, desta feita localizada em São Vicente. A descrição da protagonista, Georgeta da Silva, revela a persistência dos clichés românticos: Saíra ela forçosamente dum beijo da virgem. Um rosto oval com as linhas mais perfeitas, alta como tenro e delicado arbusto que se baloiça ao sopro da brisa da manhã, a cintura podia cingir-se em um pequenino anel, a mão mais mignone que se pode imaginar, e um pé que se podia bem esconder na algibeira do colete. (p. 112-113) Bem mais interessante é A morte de D. João: Memórias do hospital, publicado no mesmo ano e também incompleto. Embora não se perceba completamente o enredo, parece tratar-se de um conto burlesco que nos apresenta um narrador em 1.ª pessoa fraudulentamente internado no hospital, com o objetivo – que vem a concretizar – de obter uma licença da junta de saúde. A sátira a esta prática é feita com humor, tanto mais que as tentativas de disfarce começam a converter-se em sintomas de doença: «O facto é, porém, que fui buscar lã e vi-me tosquiado, pois, efeito do purgante, provavelmente, na manhã do segundo dia acordei com falta de respiração e o fígado inchado… (…)» (p. 119). Além disso, o narrador, à semelhança do que acontece em Bosquejos e em Memórias dum pobre rapaz, recorre por vezes à ironia metanarrativa: «Já não se pode fazer fortuna, hoje, com surpresas de romances!! e decididamente… não conto mais!» (ibid.). O humor pode resultar ainda da paródia aos clichés românticos: 44 Veja-se o que escreveu Ramalho Ortigão em 1876: «A vida é extremamente cómoda na Ericeira. As casas alugam-se com mobília, e pode-se ter igualmente de alugar a loiça e a roupa de camas. Uma família de quatro pessoas aloja-se comodamente por seis libras por mês.» (As praias de Portugal: guia do banhista e do viajante. Lisboa: Frenesi, 2001, p. 123).
| 33 E Joaninha era uma botão de rosa desabrochado num sorriso da aurora… como diria o Artiaga, o mais descambado poeta que eu conheço. E eu, que não tenho asas, mas que sou tão guloso como qualquer abelha (e note o sr. Abelha que não se trata de s. ex.a)… eu gostaria… gostaria também de molhar a minha sopa… (p. 120) Na história do falso doente surge a certa altura encaixada uma outra história que não chega a perceber-se, dada a circunstância de o texto estar incompleto: a do amor entre Joaninha e D. João. O último conto, O sonho (Memórias dum doido), publicado postumamente, retoma o tema do amor infeliz. Partindo da sugestão do poema D. Branca de Almeida Garrett, o narrador conta à narratária (a mulher que se viu forçado a deixar de amar) a infelicidade em que vive e que se manifesta em dois planos: o do sonho e o da realidade. Diferentemente do que acontece na obra de Lopes de Mendonça 45 evocada no subtítulo, a responsabilidade pelo desfazer do sentimento é da mãe da narratária: (…) quando eu conheci que te amava como se ama a mulher, e não a criança, a filha… então a tua mãe ensinou-te umas coisas hediondas, ensinou-te até a desprezar-me, a mim, que te amava com toda a pureza, de meus loucos transportes! e, pouco a pouco, perdi os teus carinhos, perdi os teus beijos, perdi o teu amor, sumiu-se a luz da minha alma, caí de novo nesta tristeza horrível, e… fugi de ti… para não te matar como se mata o réptil que aquecemos no seio e nos morde o coração… (p. 192-193) Apesar desta orientação, o narrador faz por vezes comentários irónicos, quebrando a tensão do relato: «(…) os cortesãos conclamavam os meus louvores (não sei bem porquê, mas bastava serem cortesãos…) (…)» (p. 187). Em síntese, somos obrigados a reconhecer que os contos de Guilherme Dantas são desiguais e nem todos resistiram bem à passagem do tempo: se é verdade que revelam uma certa mestria na montagem da estrutura narrativa, não é menos verdade que caem com frequência no esquematismo de tipo sentimental característico da época. Percebe-se contudo, graças a um texto como A morte de D. João, que o autor tinha capacidade para superar, num outro registo, as limitações de escola. 45 MENDONÇA, António Pedro Lopes de – Memórias d’um doido: romance contemporaneo. Lisboa: Tip. de Costa Sanches, 1859.
34 | Passemos agora às crónicas. Os sete exemplares que reunimos – e que, a avaliar pelo já referido comentário de José Lopes, corresponderão apenas a uma parte do trabalho do nosso autor neste domínio, dado que terá publicado no jornal O independente outros textos que não chegaram até nós – dão bem a medida da versatilidade do género: oscilando entre o apontamento e o artigo, a nota caricatural e o esboço ficcional, revelam-nos um escritor desenvolto, capaz de adequar o registo ao público do meio de comunicação em que escreve. De facto, as seis crónicas que publicou no Novo almanach de lembranças luso-brazileiro distinguem-se claramente da que ficou inédita: em lugar do tom crítico e satírico, privilegiam – não apenas ao nível do tom e do estilo, mas também quanto ao tema – um registo ameno, consentâneo com o vasto público do almanaque. Três delas são de tipo humorístico: Frei José e o diabo (1872), Milho falante (1876) e Desgraçado nariz! (Fragmento duma cena cómica original) (1877). A primeira evoca uma figura da juventude do autor, um divertido frade de Mafra, contando uma das suas anedotas: um pacto – bem-sucedido – com o diabo em troca de dois sacos de castanhas piladas, fazendo o protagonista lembrar a manha do herói de certos contos populares. A segunda explora lapsos linguísticos que chegaram ao conhecimento do autor: um rendeiro que justifica a baixa colheita de uma forma sui generis («(…) o milho que tinha dado a sua palavra faltou-me (…)») (p. 109) ou uma postura municipal que fala em «(…) velhos maiores de sessenta anos (…)» (ibid.). A terceira apresenta, em tom de caricatura, uma personagem de nariz descomunal que será retomada no romance Memórias dum pobre rapaz e inclui uma décima espinela em redondilha maior, também marcada pela hipérbole burlesca. Atente-se nos últimos quatro versos: «Nariz de massa infernal, / que, se o cálculo não erra, / posto entre o sol e a terra, / faria eclipse total!» (p. 110-111). As três outras são de teor mais informativo, próximo do artigo de almanaque: O dinheiro em Cabo Verde (1874), A cidade da Praia de Cabo Verde (1875) e A ilha Brava (1887). Esta última, contudo, afasta-se um pouco do estilo jornalístico, enveredando por um registo pessoal associado por vezes a uma nota de humor. Veja-se o primeiro parágrafo: Muito se tem escrito sobre esta encantadora ilha, com razão cognominada jardim, paraíso, Sintra, e até Suíça de Cabo Verde. Não conheço a Suíça, e muito menos o paraíso, mas posso afirmar que jardim e Sintra, com toda a certeza que é. (p. 123)
| 35 Ou a passagem em que o autor, comentando a semelhança entre as mulheres da Brava e as inglesas, conta o seguinte episódio: Aconteceu-me isto, entre outros casos, com as filhas dum gigantesco e bronco baleeiro, cor de tijolo. O desengano causou-me bastantes desapontamentos, mas, chegou ainda a tempo de impedir que as minhas costelas tomassem conhecimento íntimo com o cabo dum arpão passado à inatividade. (ibid.) A crónica publicada postumamente é de teor bem diferente: mais longa do que as anteriores, parte de um episódio particular, narrado com pormenor e graça, mas obtém um alcance mais vasto, justificando assim o subtítulo («Estudo crítico») e a ficcionalização do autor (convertido em «Venceslau Policarpo Banana»). O episódio é uma espécie de compra de gato por lebre: papel de mortalhas nacional, de nome Duque, vendido com a sugestão do original, o Duc francês. À primeira vista, trata-se de uma ocorrência que faz lembrar o que aconteceu há uma década com a denominação da mascote do Europeu de futebol de 2004: estava para se chamar Quinas, mas, existindo uma marca de fósforos com esse nome, adotou-se a designação de Kinas. O caso abordado por Guilherme Dantas é contudo bastante diferente, situandose no limiar da contrafação e da publicidade enganosa, ainda que o fabricante português tenha o cuidado de alertar o consumidor para a diferença do produto, através de um aviso que contém um lapso gramatical que o cronista não podia deixar passar: «(…) sem outra substância que prejudique o paladar do tabaco (sic) nem incomode a garganta (…)» (p. 180). É precisamente esta «(…) falsificação beata e hipócrita, sobre flagrante e brutal (…)» (ibid.) que justifica a reação explosiva do autor que nem o eufemismo consegue atenuar: «Limpem as mãos à parede, e permitam que lhes enderece este pigarro que o paladar do seu papel me puxou das fossas nasais.» (ibid.). Mais interessante ainda do que o episódio de base é a reflexão sardónica que Guilherme Dantas apresenta sobre o modo como os intrujões dominam todos os aspetos da vida. Isso permite-lhe, por um lado, acertar contas pessoais: O meu chefe… pois o homem também era chefe duma repartição importante, começa por isentar-se de todo o trabalho e de toda a responsabilidade, carregando uma e outra coisa aos ombros dos demais empregados. Ele não é propriamente o chefe, é o inspetor da sua repartição… Os outros trabalham, ele vê trabalhar. (p. 182)
36 | E, por outro, atingir um objetivo político com a denúncia de algumas das falhas da administração colonial: «Intrujões são os cabos chefes de galopins eleitorais, os alcoviteiros das sumidades políticas, os sabujos do poder: em uma palavra, os maus funcionários de que o governo da metrópole inunda as colónias (…)» (p. 181). Justifica-se deste modo a conclusão desalentada: Está averiguado que só assim se consegue alguma coisa neste, e talvez mesmo nos outros planetas irmãos, só assim se tira o pé da cepa torta, o ventre da miséria, a sardinha da brasa… com a mão do gato, o que é duplamente voluptuoso. (p. 183) Para terminar esta breve apresentação crítica dos textos em prosa mais curtos de Guilherme Dantas, falta fazer referência à narrativa de viagens Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago. Como o próprio autor tem o cuidado de esclarecer, trata-se de um texto que, tendo tido uma redação original em 1869 – contemporânea do passeio que lhe serve de base –, foi publicado, com falhas, em 1878, vindo a ser retomado e reelaborado para publicação em 1886, embora a edição só venha a concretizar-se postumamente. Trata-se assim de uma narrativa que nos oferece a rara oportunidade de acompanhar o processo de (re)escrita do autor – ou, talvez melhor, de encenação dessa reescrita –, cujos sinais se apresentam quase sempre sob a forma de auto-ironia: (…) volto aos meus bosquejos que, diga-se em abono da pena com que os tracei primitivamente, não dizem nem meia palavra dessas poesias: mas em compensação estendem-se em longas dissertações sobre a utilidade da arborização e sobre isto e mais aquilo da agricultura, terminando por estes dois períodos seguintes, que têm tanta ligação entre si como o nariz dum poeta com uma nota de cem mil réis! (p. 135) Outras vezes, os comentários desse tipo assumem uma dimensão metanarrativa que chega a fazer lembrar um dos hipotextos, para retomarmos o conceito de Genette, de que Guilherme Dantas se vale: as Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Atente-se na seguinte passagem de Bosquejos: Saltemos, pois, os tais capítulos rebarbativos: e não nos esqueçamos dos nossos viajantes, que deixámos embasbacados no caminho de S. Domingos. (p. 138) Confronte-se agora esse excerto com o penúltimo parágrafo do capítulo IX da obra de
| 37 Garrett: Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado à minha espera no meio da ponte da Asseca. Perdoa-me por quem és, demos de espora às mulinhas, e vamos que são horas. 46 Não se ficam por aqui as semelhanças entre as duas obras: tal como nas Viagens de Garrett, os Bosquejos de Dantas (mais modestos desde o título) valem não só pela viagem que contam mas também pelas digressões reflexivas que acompanham o relato e até pela abertura de um espaço para o «(…) romancinho obrigatório destas viagens (…)» (p. 133). Embora muito mais simples que a história da menina dos rouxinóis, Guilherme Dantas bosqueja um conto amoroso: o do enamoramento, conquista e casamento do seu amigo Luís com a morgadinha dos Picos. O final é feliz, ao contrário do que acontece na narrativa de Garrett, mas o significado das duas histórias tem algum ponto de contacto: se Carlos acaba como candidato a barão, Luís termina transformado em morgado, isto é, em representante de uma instituição que o narrador considera um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura e ao progresso de Cabo Verde. Mais demorada que a de Garrett, a viagem propriamente dita permite a Dantas descrever com algum cuidado a paisagem de Santiago e as suas principais localidades. É verdade que alguns aspetos são elogiados, como as árvores de fruto, espécies vegetais como a purgueira e a urzela, melhoramentos introduzidos pelas autoridades, a hospitalidade do povo ou a formosura de certas manhãs: Não sei se me cegará o amor pátrio; entretanto, direi que nunca vi manhãs tão formosas como estas do meu país, principalmente se gozadas em sítios, como os Picos desta ilha, e na Brava, onde haja cafezeiros em flor, baunilha, jasmins e outras plantas balsâmicas, e se essa evaporação da terra se condensa num como nevoeiro carregado de perfumes, ondas de incenso que parecem elevar-se lentamente da terra ao céu. (p. 165) Predomina contudo o elenco das falhas, que começam justamente na paisagem, devido à falta de vegetação: «Tudo nu, deserto, escalvado, árido… longe a perder de vista!...» (p. 134). 46 GARRETT, Almeida – Viagens na minha terra. Introd., fixação do texto e notas por António Cândido Franco. Lisboa: Guimarães Editores, 2001, p. 48.
38 | Outro elemento que merece o reparo do autor é o funco, a habitação tradicional da população comum: (…) atravessei a extremidade norte da cidade, onde ainda então se viam essas desgraçadas cabanas que por tanto tempo afearam e infetaram a principal povoação de Cabo Verde, e que já hoje vão sendo varridas de todas as localidades de maior vulto. (p. 131) Um pouco mais à frente, a crítica é retomada de forma mais violenta, embora matizada pelo humor: (…) o meu cavalo fatigado pela recente jornada e por outras anteriores, se obstinava igualmente em não querer sair da cidade parando a cada passo à porta dalguma das miseráveis choupanas de que atrás falei, como se as achasse apropriadas para estrebaria, no que não pecava (…) (p. 132). A viagem serve pois de pretexto à emergência de reflexões pontuais, mas também de digressões, à semelhança do que acontece em Almeida Garrett e num autor do século anterior que ambos admiram e referem: Laurence Sterne, tanto o de A Sentimental Journey Through France and Italy como o de The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman. Entre as reflexões pontuais destacam-se as notas políticas, contra o morgadio ou contra a ineficiência das autoridades: [Ribeirão Chiqueiro] Seria uma sofrível estação comercial entre a Praia e o interior da ilha… se houvesse comércio que mereça esse nome e se em Cabo Verde se soubesse aproveitar alguma coisa… (p. 134). Em alguns momentos, a crítica assume um alcance mais vasto. Falando do espírito conformista do povo e da forma como isso impede o progresso, escreve o autor: Não inculpemos, porém, unicamente a ignorância ou ingénua indiferença do povo: a culpa maior têm-na aqueles que o deixam nesta ignorância, que o trazem atado a ela, que com ela especulam… e dela vivem. (p. 137) Quanto às digressões, valerá a pena começar por destacar a que contesta a variedade de fruta do arquipélago (que aliás, noutros momentos, o autor parcialmente reconhece):
| 39 Há até quem nos inveje a riqueza[,] variedade e primor das frutas, quando a verdade é que ninguém tem pior sobremesa do que nós, pelo menos quanto a variedade: laranjas e bananas unicamente, senhores nos 365 jantares que Deus Nosso Senhor permite aos seus diletos filhos de Cabo Verde, com alternativas de falta de bananas, falta de laranjas e falta de jantares não poucas vezes… ora por falta de chuvas, e ora por falta de dinheiro!… (p. 139) Aproveitando o tema, o autor satiriza depois a proposta de reforma do calendário elaborada por Flammarion – segundo a qual uma semana poderia ter mais que um domingo –, apresentando uma paródia de regulamento provincial sobre a alimentação dos funcionários públicos. Outra digressão paródica surge no início do capítulo XII, com a apresentação de um suposto espólio de uma amanuense. Com uma finalidade provavelmente mais humorística que política, esta passagem retoma a tradição dos testamentos humorísticos ou satíricos, que ainda hoje permanece viva em festas e celebrações populares, sob a forma de testamentos de Judas, da Velha ou de diversos animais. Um último exemplo de digressão diz respeito ao projeto de um poema herói-cómico intitulado Macaqueida, o qual tomaria por tema a descoberta das ilhas de Cabo Verde. Embora se perceba que se trata de uma oportunidade para o autor dar a conhecer um esboço que não chegara a concluir e se reconheça o seu efeito humorístico, não fica claro o propósito desta longa digressão: haverá nela uma intenção política? E se sim, em que sentido? A resposta a estas perguntas requer um estudo mais aprofundado, não apenas dos textos de Guilherme Dantas que de momento estão em causa, mas da totalidade da sua obra. Aqui chegados, resta-nos concluir este breve roteiro de leitura crítica da prosa menor de Guilherme da Cunha Dantas, cujo modelo de edição será apresentado de seguida.
46 | xi. Pelos mesmos motivos, simplificámos de acordo com a norma moderna grupos em posição medial como -ct- (fructo > fruto); -gm- (augmentar > aumentar); -gn- (signal > sinal); -mn- (somno > sono); -pt- (escripto > escrito). Contudo, no caso de -sc-, optámos por manter enrubecido, admitindo flutuação na pronúncia. xii. Representámos as oclusivas velares segundo o uso moderno, pelo que passámos charo a caro e cincoenta a cinquenta. xiii. Regularizámos também a representação das fricativas. Assim: – a fricativa labiodental surda virá transcrita como f, o que implica a substituição do dígrafo helenizante ph em palavras como Rodolpho; – as fricativas alveolares virão grafadas segundo as normas atuais, pelo que pretenção ou horisonte passarão a pretensão e horizonte; – a fricativa palatal sonora virá transcrita como g ou j, de acordo com as regras de hoje, pelo que magestoso passará a majestoso. xiv. Conservámos certas formas arcaicas de tipo mais erudito (como espécimen ou regímen) ou popular (como nebrina, erriçar ou mui). xv. Respeitámos a grafia dos topónimos estrangeiros, mantendo portanto Algéria, Amsterdam e Strasbourg, e de vocábulos como sterlinas (libras). C. Aspectos morfológicos xvi. Separámos e unimos as palavras de acordo com o uso moderno, passando, por exemplo, em quanto (com valor de conjunção) a enquanto. D. Diacríticos xvii. Regularizámos o uso dos acentos. xviii. Regularizámos a utilização do apóstrofo, eliminando-o em contrações do tipo de n’um ou lh’a, mas mantendo-o em casos como d’alguns. xix. Regularizámos o emprego do hífen, designadamente para separar os pronomes enclíticos e mesoclíticos; E. Maiúsculas e pontuação xx. Respeitámos integralmente as formas de utilização da maiúscula, mesmo quando se
| 47 afastavam sobremaneira do uso atual. xxi. Atendendo ao reflexo da pontuação sobre o ritmo e a entoação da frase e ao nível da sintaxe e da semântica, preferimos mantê-la integralmente, tanto mais que daí não resulta nenhuma dificuldade significativa para o leitor atual. No escassíssimo número de casos em que nos pareceu útil acrescentar algum sinal (vírgula, travessão, aspas), essa intervenção vai devidamente assinalada. xxii. Mantivemos também sem alterações o uso do itálico, apesar de em muitos casos ele se afastar da normal atual e de ser usado de forma assistemática (é o que acontece com os topónimos, que tanto aparecem sob essa forma como em redondo). Adotámos idêntico procedimento em relação aos raros casos em que os testemunhos apresentam texto em negrito. 3. Apresentação do texto e das notas As 13 narrativas de Guilherme da Cunha Dantas serão apresentadas pela ordem da sua publicação, embora provavelmente esta não corresponda sempre à cronologia da redação. Virão assim em primeiro lugar os dois textos que integram o volume independente Contos singelos, seguindo-se as seis crónicas publicadas no Novo almanach de lembranças luso-brazileiro, intercalas pelos dois folhetins incompletos saídos em A imprensa. Surgirão em seguida as três narrativas publicadas postumamente: a narrativa de viagens Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago, a crónica Os intrujões e o conto O sonho (Memórias dum doido). Antes da apresentação de cada texto virá, em corpo menor, a indicação do testemunho que o transmite. Como dissemos, limitámos ao mínimo a intervenção sobre o texto: corrigimos, sem o assinalar, as gralhas óbvias e que não suscitam quaisquer dúvidas; as que podem levantar alguma reserva, mesmo que mínima, virão indicadas, ou no próprio texto (usaremos os colchetes para sinalizar as adições), ou nas notas de fim de capítulo ou de texto, cuja chamada será feita por meio de numeração romana. Serão mantidas sem alteração as passagens do texto que nos pareçam conter erros de outro tipo, não meramente mecânicos. Nestes casos, cuja responsabilidade tanto pode ser da edição original como do próprio autor, o facto será assinalado em nota de final de texto ou de capítulo, sempre que possível acompanhada de uma possibilidade de correção. Particularidades do texto tal como chegou até nós serão marcadas por meio de sinais específicos: a † indicará uma passagem ilegível (no final do conto Cenas de
48 | Mafra) e o □ marcará uma lacuna do texto (decorrente da impossibilidade de aceder a um número do jornal em que foi publicado). As notas que são da responsabilidade do próprio autor serão apresentadas em rodapé, sendo a chamada feita através de algarismos árabes. As nossas notas, como já dissemos, surgirão no final de cada capítulo ou texto respetivo e servirão, não apenas para assinalar gralhas e erros do testemunho e para justificar emendas que tenhamos feito, mas também – e sobretudo – para esclarecer qualquer aspeto do texto que nos pareça essencial à sua boa compreensão literal. Incluiremos assim: – Notas vocabulares (sobre palavras hoje menos comuns ou que são usadas num sentido atualmente arcaico, como jubilado 3 ou satélite 4 e ainda sobre termos e expressões estrangeiras, sobretudo de origem francesa, que já não são do domínio geral, mesmo se considerarmos um público universitário); – Notas que servirão para identificar (e às vezes corrigir) citações, figuras histórias, literárias ou mitológicas, acontecimentos e outras referências menos comuns. É possível que em alguns casos estas notas pareçam dispensáveis: pareceu-nos contudo preferível errar por excesso que não pode defeito. 3 No sentido de experimentado, consumado na velhacaria. 4 Na aceção de assalariado que acompanha outrem para feitos maus ou ações criminosas.
III. Contos singelos
Fonte: Contos singellos. Mafra: Typographia Mafrense, 1867. A MEU PAI
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 53 MEU QUERIDO MESTRE Desejara oferecer-lhe coisa mais condigna de si, e que fizesse honra às boas lições que me deu. Se a oferta é modestíssima, o profundo respeito e prazer com que lha faço, a tornam a meus olhos mui elevada. É o meu primeiro fruto literário. Julguei pois dever oferecê-lo como primícia a quem, depois de me dar a vida do corpo, me deu a da alma, cultivando meu espírito. E se a semente não frutificou como era de esperar, não foi à míngua de cuidados, mas pelo mau do terreno em que foi lançada. Não possuo a ciência e a experiência de fazer romances. Estes que agora escrevo, pequenos e singelos como as minhas pretensões, se algumas tenho, foram meditados e escritos d’alguns anos, e sob impressões reais. A maior ambição que me dominava escrevendo-os, era poder um dia oferecer a minha modesta obrinha ao meu amado pai e mestre, e dedicá-la aos meus colegas estudantes, como um fruto das «santas inspirações da mocidade» de que fala um dos mais belos ornamentos da nossa literatura. Aceite pois, meu prezado mestre, a oferta mui reverente, ditada pela piedade filial do Autor
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 55 NHÔ JOSÉ PEDRO ou CENAS DA ILHA BRAVA Primeira parte MOCIDADE DE JOSÉ PEDRO Devaneios que podem servir de prólogo Bastantes romances, contos, lendas, etc. tenho lido, e entre tantos escritos nenhum ainda encontrei que me falasse do ignorado cantinho da terra onde tive a dita de vir ao mundo, a não serem uns melancólicos versos de Hipólito Garcês I publicados num excelente jornalinho literário, e que começavam assim, se bem me lembro: A ILHA BRAVA Quando o sol brilha ardente II Sobre o cume deste monte, E no oceano resplendente Refletir vai a alta fronte, Eu afino a minha lira Com a brisa que suspira Agitando a tenra flor. E este mar que aos pés diviso Eu encaro c’um sorriso, Sem temer o seu furor. Ruja embora, em fúria embata Nos rochedos – imprudentes!
62 | Contos singelos Saudades da esposa amada, do filho estremecido, do lar tranquilo e feliz! – Olá, Rodolfo! disse súbito o brasileiro. – Pronto, capitão! respondeu na câmara imediata uma voz de criança, bocejando. – Já estavas dormindo, maroto? tornou o brasileiro. – Já passam das 10 horas! murmurou o rapazinho. E, tonto de sono, entrou no camarim, foi abrir um armariozinho colocado em frente do lugar onde se achava sentado o esposo de D. Júlia, dele tirou um pequeno frasco e um copinho que encheu de cristalina água, e cabeceando veio depor tudo em cima da mesa; depois, foi buscar uma colherzinha de prata que quase mergulhou no copo, e começou a deitar-lhe do líquido contido no frasquinho. – Avias-te daí?! disse António Pedro, o qual tinha recaído nas suas tristes meditações. A voz severa de seu chefe fez despertar de todo o rapazinho. Tirou a colher de fora d’água, tornou-a a encher, e vazou o conteúdo no copo, que em seguida apresentou ao brasileiro. – Está bom! disse este, podes-te ir deitar. O juvenil pajem não esperou segunda ordem, e dando as boas noites ao capitão, fechou sobre si a porta do camarim. Catástrofe Na seguinte manhã espantoso tumulto reinava a bordo da Carolina. Os rostos dos marinheiros, onde na véspera se viam estampadas a satisfação e alegria, exprimiam agora o terror e a desesperação duma grande dor. Os bravos filhos do mar, que mil vezes encararam a morte destemidos, choravam como crianças, corriam dum lado para outro do navio, sem tino, como loucos. E por vezes, entre pungentes soluços, soavam lugubremente estas tristes palavras: «Morreu o capitão!» Às 10 horas desta mesma manhã, admirado o contramestre de não ter visto ainda António Pedro aparecer sobre a tolda V , como mui cedo costumava, entrara na câmara contígua à do brasileiro, a fim de interrogar Rodolfo, e saber se o capitão se achava incomodado. Rodolfo era filho do contramestre. Disse a seu pai, que não havendo sido chamado ainda, não se atrevera a entrar no camarim do capitão. Então o contramestre foi bater devagarinho à porta do camarim. Não obteve respos-
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 63 ta. Bateu mais de rijo; o mesmo silêncio. – Dá licença, capitão? perguntou ele. Nenhuma resposta! Como a porta apenas estivesse no fecho, o pai de Rodolfo, já algum tanto dessossegado, abriu-a com precaução, e entrou. Dirigiu-se para o leito onde jazia imóvel o seu chefe, sem que os seus passos nem a sua voz o acordassem. O brasileiro tinha os olhos meio cerrados, e dir-se-ia que dormitava tranquilamente. Mas o seu rosto estava pálido como o dum cadáver, e de um cadáver era a imobilidade de todo o seu ser. Uma das mãos pendia-lhe para fora do beliche. O contramestre pegou-lhe nela. Recuou aterrado. Aquela mão estava fria e inerte. Tacteando-lhe o pulso que já não batia, escutando-lhe a respiração extinta, o pobre homem, louco de dor, acabou de se convencer da terrível realidade. José Pedro era órfão de pai!! Rodolfo O que esta triste e fatal nova produziu de penosa impressão no espírito dos marinheiros, vimo-lo no princípio do capítulo precedente. Imediatamente, todos invadiram o fúnebre camarim; e os que de lá saíam, vinham lavados em prantos, estorcendo as mãos, e dando gemidos de dor. Tal era o desvelo e carinho com que o honrado brasileiro tratava os seus subordinados, que não se poupava a despesas para lhes proporcionar todos os meios indispensáveis à vida, e mesmo todas as comodidades. Assim, havia a bordo um cirurgião. Conhecendo que já eram inúteis os socorros da ciência àquele que fora seu superior e amigo, tratou de indagar a causa de tão fatal morte. Nenhum sinal ou indício exterior lho dava a conhecer. Também não fora nem suicídio, nem envenenamento. António Pedro era um cristão exemplar, e amado de todos. – O capitão queixava-se ontem dalgum padecimento? perguntou o médico ao contramestre. – Não senhor, respondeu este. – Quem esteve com ele até ao último momento? – Foi meu filho Rodolfo. – Chame-o. Daí a poucos momentos entrava o pequeno pajem no camarim para onde se haviam retirado o contramestre e o cirurgião. Seu belo rosto vinha pálido e sulcado de lágrimas. A pobre criança tinha pelo brasi-
64 | Contos singelos leiro a afeição dum filho. Ele, da sua parte, quase não fazia diferença entre José Pedro e Rodolfo. O cirurgião dirigiu-lhe a mesma pergunta que fizera ao pai. A mesma resposta obteve. – Conta-nos o que passaste com ele à última hora, continuou ele. – Esperei até às 10 horas que o capitão me chamasse, como costumava, para lhe dar as dormideiras VI … – Ah!! interrompeu o cirurgião estremecendo. Lembrava-se de que, sendo o brasileiro frequentemente atacado de grande insónia, ele mesmo lhe aconselhara tomasse nestas ocasiões uma pequena porção de certa espécie d’ópio mui subtil, misturada com água. – E tu[,] continuou o médico para Rodolfo, que porção de dormideiras lhe deste? – Creio que foi uma colherzinha… respondeu Rodolfo assustado pela súbita mudança que se operara no semblante do cirurgião. – Mais nada? – Eu estava com muito sono… parece-me que… antes de encher a colherzinha…. deitei mais dormideira no copo. O médico soltou um grito espantoso. – Desgraçado! exclamou o médico, mataste-lo!! – Eu ?!… matei-o!… o capitão… tão meu amigo!… E a pobre criança caiu semimorta nos braços do pai. O infeliz marinheiro sentia a alma repassada da mais pungente angústia, por ver que fora seu filho a causa, ainda que inocente, de tão desastroso acontecimento. – Pois provado estava que o haver Rodolfo subministrado ópio em demasia ao brasileiro, fora a causa de seu sono se prolongar eternamente. …………………………………………………………………………………………… Na ilha Brava Quatro dias depois do infausto acontecimento que acabámos de narrar, a Carolina reentrava no pequeno porto da Furna. O seu vogar parecia mais vagaroso e triste. No topo do mastro de popa tremulava funebremente uma bandeira preta. Nas vergas não se via um só marinheiro saudando alegre a terra natal, e os amigos que de braços abertos o esperavam. Depois de o navio lançar ferro e haver sido visitado pelo escaler da alfândega, fezse participar o óbito de António Pedro às autoridades competentes, para que do caso
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 65 fossem tomar conta e lavrar o respetivo auto, e igualmente se mandou aviso à família do finado. António Pedro, ao partir da terra onde deixava as suas mais caras afeições, quis também deixar nela um peito amigo em quem se pudesse confiar, e que protegesse e consolasse estes entes queridos durante a sua ausência. Este amigo era João Gay. Como no dia em que o brasileiro recebera a funesta carta de seu tio, a sua família se achava reunida; porém à cabeceira da mesa via-se vago um lugar. Era o dele. D. Júlia, triste e abatida, conversava com João Gay sobre a viagem de seu marido, deixando entrever mil receios e presságios funestos, que João Gay não conseguia dissipar. De repente, entrou na sala um homem trajando de preto, o qual logo à primeira vista se conhecia ser marinheiro. D. Júlia e João Gay levantaram-se ao mesmo tempo, como se fossem movidos por uma mola. Acabavam de reconhecer naquele homem que trajava de luto um dos marinheiros da Carolina. – Que há de novo, Pancrácio? perguntou o paraguaio com voz trémula. Ao cumprimentar a infeliz esposa de seu defunto capitão, duas grossas lágrimas se escaparam dos olhos do marinheiro rolando-lhe pelas faces tostadas. – Meu marido!… meu marido!… bradou a pobre senhora. – Morreu!… soluçou Pancrácio. Como se um raio a tivesse fulminado, D. Júlia caiu redondamente no pavimento, dando um grito sufocado. Transportaram-na inanimada para cima dum leito. Os mais assíduos cuidados conseguiram reanimá-la. Porém a infeliz só teve tempo para depor na fronte do filho um ósculo ardente, longo e apaixonado, um ósculo de mãe, o derradeiro. E nos seus braços, sentindo o rosto orvalhado das suas lágrimas, deu a alma ao Criador! …………………………………………………………………………………………… Pobre José Pedro! Tão moço e já tão infeliz! Eis-te órfão, só no mundo!… Quem te guiará no mar proceloso da vida? Quem livrará tua frágil mocidade de encalhar nos escolhos terríveis e imensos das paixões? Quem?… Ainda te resta um amigo, um segundo pai – João Gay, a quem tua mãe te confiou na sua hora derradeira. Quanto ao infeliz Rodolfo, que poderia a justiça fazer contra uma pobre criança, que não teve consciência do mal que fez? Porém seu pai, oprimido de dor por haver, embora indiretamente, levado a desgraça ao seio de uma família a quem devia tantos e repetidos benefícios, entendeu que se
66 | Contos singelos devia impor, e a seu filho, a pena dolorosa de não tornar a aparecer na ilha, enquanto nela durasse a memória de tão infausto sucesso. Alistou-se com seu filho num navio mercante inglês que se achava no porto, e poucos dias depois afastavam-se, talvez para sempre, da terra natal. O tio de António Pedro morreu sem ter a consolação de o abraçar, instituindo-o seu universal herdeiro. Tríplice luto para o desditoso adolescente! I Não pudemos confirmar esta informação. A Hipólito Garcês faz referência Cristóvão Pinto («A colonização portuguesa da Índia». In A Índia portuguesa. Vol. I. Nova Goa: Imprensa Nacional, 1923, p. 168), dando-o como filho de Caetano Francisco Pereira Garcês, que foi contador-geral da Junta da Fazenda da Índia e, já em Lisboa, deputado e secretário permanente do Tribunal de Contas. Segundo o mesmo autor, Hipólito Garcês era «exímio cultor da arte dramática». Pela consulta do Boletim official do Governo Geral da Provincia de Cabo Verde, apurámos que Hipólito Cassiano Pereira Garcês, apresentado como amanuense do Tribunal de Contas, passou uma temporada em Cabo Verde, em Comissão na Junta da Fazenda da Província do arquipélago (8-VI-1861, p. 97). Essa comissão terminaria em fevereiro do ano seguinte (Boletim official. 1-XI-1862, p. 26). Quanto a textos seus, localizámos um poema intitulado «Saudade», vindo a público em A illustração lusobrazileira (n.º 44, vol. III, 5-XI-1859, p. 352). Na mesma revista, publicou «De Goa para Lisboa pelo Cabo da Boa-Esperança» (vol. III, n.º 46, 19-XI-1859, p. 363-366; n.º 48, 3-XII-1859, p. 379-382; n.º 49, 10-XII-1859, p. 386). Por aí se percebe que o autor nasceu em Goa e que aí viveu até 1854, data da viagem para Lisboa. Identificámos ainda, no Almanach de lembranças luso-brasileiro para o anno de 1860 (Lisboa: Typographia Franco-Portuguza, 1859, p. 356), um poema intitulado «Goa». II No testemunho, por gralha, radente. III Alusão ao romance de Bernardin de Saint-Pierre Paul et Virginie (1787). IV A quarta parte ou quarta vigília da noite vai das três horas da madrugada até à aurora. V tolda – o mesmo que toldo, cobertura, geralmente em brim, destinada ao abrigo da embarcação, passageiros e guarnição. VI dormideira – planta herbácea com propriedades medicinais, em tempos usada como soporífero.
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 67 Segunda parte JÚLIA Vinte anos depois Vinte anos são decorridos depois dos acontecimentos que fizeram o objeto da primeira parte desta verídica história. De então para cá importantes mudanças tiveram lugar na vida do nosso herói, as quais cumpre-nos não esquecer. Guiado no bom caminho pela solicitude paternal de João Gay, seu tutor e amigo, José Pedro tornou-se um mancebo varonil de esmerada educação. Saindo da escola aos quinze anos, entendeu que não devia esbanjar no ócio e em falsos deleites as imensas riquezas que de seu pai herdara, nem votar ao ostracismo os importantes conhecimentos que adquirira, as noções de honra, trabalho e caridade que recebera de seu pai, seu mestre e seu tutor. Bem abonado pelo seu comportamento exemplar, atestado pelas principais pessoas da terra que sabiam apreciar os dotes raros do mancebo, José Pedro alcançou um lugar de escrevente nas repartições da alfândega da I ilha Brava. E como árvore tão bem cultivada devia dar bons frutos, aos vinte anos era ele um distinto amanuense, honrado de seus superiores que lhe tributavam grande deferência, estimado e respeitado dos seus iguais e inferiores. Então resolveu o mancebo dar o primeiro passo para a realização do mais ardente voto da sua vida. Dotado duma alma terna e sensível, acessível a todos os bons sentimentos, José Pedro amava. Amava com a paixão sincera e pura dos vinte anos, do primeiro amor. Chamava-se Elvira o objeto dos seus castos amores. O pai da donzela era o superior do moço amanuense, o diretor da alfândega. Feitos um para o outro, o pai de Elvira entendeu que devia unir estes dous corações pelos sagrados laços do himeneu. E três semanas depois de haver pedido a seu chefe a mão de sua filha, José Pedro conduzia sua noiva aos pés do altar, e com o coração trasbordando do mais inefável júbilo e amor, jurava fazer a felicidade daquela a quem estremecia mais do que à própria vida. Desta sagrada união resultou um fruto, o complemento da felicidade dos dois espo-
68 | Contos singelos sos. José Pedro foi pai duma encantadora menina, a qual quis que se chamasse Júlia, em memória de sua sempre chorada mãe. Neste meio tempo teve José Pedro a desdita de perder seu segundo pai, João Gay. Júlia Como era bela aos quinze anos a filha de José Pedro! Seu belo rosto levemente moreno, dum aveludado igual ao do pêssego, era emoldurado por uns cabelos pretos, compridos e acetinados, que se lhe espalhavam pelas costas, dum contorno admirável, em tranças opulentas e lustrosas como o azeviche. Seu corpo donairoso, alto e flexível como a palmeira, parecia não se poder suster sobre uns pezinhos encantadores, escondidos nuns sapatinhos de criança. E seus olhos negros e rasgados, duma expressão indefinível, que assombreados por bem desenhadas pestanas, lançavam às vezes daqueles reflexos que são o espelho da alma e a sua voz, que falam muito na sua mudez, e parecem dizer ao imprudente que se atreve a fitá-los, a palavra mágica – amor! Mas o amor ainda não fizera palpitar aquele juvenil coração. – Quantos corações porém não palpitavam já por ela, tímidos e receosos? Entre os mancebos, alguns dos quais bem distintos, que requestavam a formosa filha de José Pedro, fazia-se notar um certo Ricardo, de apelido Galvão, moço pródigo e libertino, temido e odiado de todos, mas procurado e respeitado pelo seu ouro. Este ouro, e os encantos naturais de sua pessoa haviam feito decair muitos anjos, correr muitas lágrimas. José Pedro, que não ignorava os precedentes do mancebo, de quem até se contavam crimes inauditos, vigiava a filha com a solicitude com que um bom pastor guarda a ovelhinha querida que teme ver cair nas garras do lobo voraz. A casa de Ricardo Galvão era contígua à de José Pedro na mencionada povoação de Sant’Ana. Apesar desta circunstância, e das arrojadas pertinácias do mancebo, nas poucas ocasiões em que via Júlia, jamais lhe pudera surpreender uma palavra, um olhar, um gesto sequer. Todavia, as dificuldades e resistências não fizeram mais do que irritar a sensibilidade pouco delicada do mancebo; e o sentimento inteiramente sensual que dantes experimentara pela filha de José Pedro, foi-se convertendo pouco a pouco em amor – se este sentimento casto e puro pode penetrar num coração corrompido pelo vício das paixões. O amor que o libertino Galvão experimentava pela angélica Júlia era um amor profano,
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 69 por assim dizer, desesperado, furioso, insensato. Pedido em casamento Estavam as cousas neste ponto, quando certo dia anunciaram a José Pedro a visita de seu vizinho Ricardo Galvão. O honrado pai de Júlia não deixou de estremecer pensando no que motivaria aquela visita inesperada e fora de comum nos hábitos de seu vizinho. Disse que o introduzissem na sala, onde logo o foi receber. Ricardo vinha esmeradamente trajado. Suas maneiras tinham então uma certa distinção e elegância. E Galvão, cremos tê-lo já dito, era de si mui bem-apessoado. Depois dos cerimoniosos cumprimentos do estilo, José Pedro perguntou-lhe a que devia a honra da sua visita. Ricardo, procurando dar à fisionomia hipócrita um certo ar de virtude e modéstia que estava bem longe de ter, expôs ao pai de Júlia o seu amor pela sua filha, terminando por lha pedir em casamento. José Pedro, interiormente indignado, mas sempre grave e político, respondeu ao pretendente com voz firme e resoluta: – Senhor… a mão de minha filha só a concederei a quem dela for digno! Galvão levantou-se de pulo; e, com os olhos chamejantes, os punhos crispados, pegou no chapéu e dirigiu-se para a porta, lançando ao mesmo tempo ao esposo de D. Elvira um olhar de ódio mal contido e de vingança certa. Cumprimentando ironicamente José Pedro, medonho sorriso lhe contraía os lábios. Este sorriso era ao mesmo tempo uma ameaça e uma advertência para o pai de Júlia. – Deixa estar, meu bigorrilhas!… rosnava Ricardo ao sair corrido da casa de José Pedro, tu verás que Ricardo Galvão nunca foi ofendido impunemente. Ele!… rejeitar para a filha o meu nome, quando muitas o aceitavam, beijando-me os pés!… Pois eu a possuirei! Não como esposo, tolo que fui!… Obrigado, meu amigo… muito obrigado. Eu a possuirei. Possuirei Júlia, as suas riquezas, e… a vingança! E os olhos do libertino brilhavam, mostrando o prazer insensato que nele despertava o sentimento de vingança. A emboscada Entretanto passam-se cinco dias, sem que da parte de Ricardo se note o menor movimento agressivo contra José Pedro.
70 | Contos singelos Neste meio tempo, o pai de Júlia que não deixara o emprego depois de casado, é pelos seus deveres de oficial da alfândega chamado a inspecionar um navio inglês que acaba de entrar em Fajã II d’água, outro porto da ilha Brava, mais espaçoso que o da Furna. O segundo piloto da galera inglesa é um rapaz bem-apessoado e robusto, de bigodes fartos e pretos, cabelo também preto e comprido, fisionomia leal e simpática. Todo o seu exterior, a sua mesma pronunciação denota não pertencer ele à mesma nação que o resto da equipagem. Este homem parece não poder despregar os olhos do pai de Júlia. Porém José Pedro não repara na visível comoção do mancebo, que ao contemplá-lo sente marejarem-lhe as lágrimas nos olhos. Concluído que foi o seu trabalho, José Pedro regressou para terra. É noite fechada. A lua que nasce desenha na estrada formas fantásticas, penetrando através dos densos renques de purgueira que orlam o caminho. Preocupado como vai em seus pensamentos, o esposo de D. Elvira não repara num homem que embuçado em ampla japona III o segue a uns trinta passos de distância, sem contudo o perder de vista. Ao passar por um sítio despovoado onde o caminho era muito estreito e sombrio, seis homens armados de possantes manducos IV o cercam, e antes que José Pedro tenha tempo de fazer o menor movimento, furiosas cacetadas o prostram do cavalo abaixo. Então um sétimo homem sai da emboscada. Nas mãos lhe reluz um ferro. Ergue o braço para ferir o pai de Júlia já inanimado. Súbito, ouvem-se passos precipitados, e um tiro de pistola ressoa a dez passos de distância. O assassino cai ao lado da sua vítima, tendo-lhe a bala varado um ombro. Os seus cúmplices dando-o por morto e julgando-se perseguidos, o desampararam. Chega o salvador de José Pedro. Apalpando-o ansioso, reconhece que está mal ferido, mas não morto. Carrega com ele nos possantes braços, e como conhecedor do trilho, veloz o transporta. O homem que tão covardemente pretendera assassinar o pai de Júlia, era, já os nossos leitores terão adivinhado, o infame Galvão. E aquele que o salvou – o moço piloto do navio inglês. O salvador de José Pedro Caminhando com a pressa que lhe permitia o mau caminho e o seu pesado fardo, o
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 71 generoso mancebo vê a alguma distância bruxulear uma luz. Dirige-se nesta direção. Vem-lhe abrir a porta da casa um camponês que mostra ter os seus cinquenta anos, porém ainda forte e robusto. Trajava de luto. Informado pelo valoroso marinheiro do sucedido, o aldeão exclama benzendo-se: – Santo Deus!… Foi ele! Foi o maldito Ricardo! Vai para dez anos que nenhum crime se comete nesta pobre terra, que não seja obra dele e dos seus infames satélites V . Há um mês que o bat-tu 1 passou à noite por sobre a minha casa. E daí a três dias… ah! minha filha, minha filha!… E o aldeão volta-se para esconder as lágrimas que lhe correm em fio pelo rosto. Esta súbita explosão de dor passou desapercebida aos olhos do moço piloto, ocupado em pousar cuidadosamente sobre um leito que o camponês lhe indicara, o corpo daquele a quem acabava de salvar a vida. Imediatamente, parte o aldeão para Sant’Ana a chamar o facultativo, enquanto o ferido fica entregue aos cuidados do seu salvador. Pela madrugada, graças aos cuidados do facultativo que prestes acudira, e daqueles a quem poderemos chamar seus amigos, José Pedro foi quase completamente abandonado da febre que ao princípio o acometera, resultado de um ferimento algum tanto grave na cabeça. Reabrindo os olhos, voltou-os ao princípio incertos sobre as pessoas e os objetos que o rodeavam. – Onde estou eu? perguntou ele enfim com voz fraca. – Entre amigos, responderam-lhe os seus três enfermeiros. – Ah!… sim… agora me recordo! Fui atacado inopinadamente, caí do cavalo, desmaiei… depois… parece-me ter ouvido um tiro, e em seguida muitos passos de pessoas que fugiam… senti-me transportado… A quem devo eu a vida? – A este senhor, respondeu o médico apresentando-lhe o jovem marinheiro, o qual chorava de alegria vendo salvo aquele por quem momentos antes arriscara a própria vida. – Quem sois, meu amigo? perguntou o pai de Júlia, estendendo afetuosamente a mão ao mancebo. Este caiu aos pés do leito, cobrindo de beijos e de lágrimas a mão que lhe estendiam. Depois, prorrompeu comovido: – Não me conhece? Já se não lembra de… Rodolfo?!… Perdão, perdão José Pedro! Deixei-te órfão!… – Rodolfo?!… Pois és tu, meu amigo?!… Sim, fui bem desgraçado; mas tu não ti1 Pássaro marinho, noturno, semelhante ao corvo pequeno. O seu canto lúgubre pressagia desgraças àqueles por cuja morada passou. Mais uma superstição daquela pobre gente!
78 | Contos singelos riso. …………………………………………………………………………………………… Já a noite desdobrava sobre a terra o seu manto de trevas. A mocidade da aldeia passava alegremente o tempo em danças e folgares na residência de Rodolfo, que fora eleito mordomo para o ano seguinte. Escusado será dizer que Júlia também ali se achava com seu pai. D. Elvira, sentindo-se um pouco incomodada, não saíra de casa em todo o dia. Neste momento, isto é, duas horas depois de Ricardo haver deixado o seu posto d’observação, dois homens montados em robustos cavalos caminhavam pela já mencionada estrada. Chegados em frente da casa de José Pedro, os desconhecidos apearam, e conduzindo os cavalos à mão internaram-se num bosque que lhes ficava à esquerda, onde amarraram solidamente as suas cavalgaduras. Depois de escrupulosa revista aos pontos circunvizinhos, e tanto quanto a escuridão o permitia, os dous foram saindo do bosque, chegaram à estrada, pararam, tornaram a observar e escutar e afinal, vendo que não eram observados, escalaram o muro do quintalinho; e caminhando protegidos pelas trevas e pelo chão relvoso que abafava seus passos, em breve chegaram debaixo das janelas da casa. Uma destas janelas, creio tê-lo já dito, era assombreada por uma frondosa goiabeira. Observando precauções ainda mais rigorosas do que as tomadas na estrada, os dous salteadores noturnos – que outra cousa não podiam ser – treparam àquela árvore, e pela janela que o descuido ou a confiança dos habitantes da casa deixara soaberta, penetraram nela, exatamente no quarto de dormir da filha de José Pedro. Às 10 horas da noite Rodolfo acompanhava seu tio e sua noiva que regressavam a casa. Depois da cena quase violenta do terreiro, o pobre moço sentia-se possuído de vaga tristeza, e um como pressentimento de desgraça iminente lhe enlutava o coração. Ao entrar no seu quarto, vendo Júlia que a janela se achava aberta, dirigiu-se a fechá-la. No mesmo instante, dous homens saindo mansamente de sob um leito se acercaram dela, e enquanto um a enlaçava pela cintura, e a levantava do solo, o outro lhe tapava a boca com um lenço, de sorte que a donzela não pôde nem gritar, nem fazer o menor movimento. O castiçal que ela segurava escapou-se-lhe das mãos, caindo sobre o sobrado com estrondo. Esta bulha, e a que fizeram os malvados fugindo precipitadamente atraiu a atenção de José Pedro, que no andar inferior conversava com a esposa. Chamou a filha; e como
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 79 esta não lhe respondesse, subiu acima para indagar a causa de tal motim. O aposento de Júlia estava vazio, via-se a janela aberta, o castiçal derribado. – Júlia! minha filha! bradou o desgraçado pai. Respondeu-lhe o ruído do galopar de dous cavalos que se afastavam aceleradamente, e os soluços de sua infeliz esposa que entrava no quarto. A justiça de Deus – Chamem Rodolfo! ordenou José Pedro aos domésticos que haviam acudido. – Aqui estou, meu pai! bradou esbaforido o mancebo, entrando. – Sei tudo. Retirando-me para casa, senti um grande ruído na estrada, a alguns passos de mim, e dirigindo-me nessa direção, percebi um vulto informe que se internava rapidamente no bosque, e ao mesmo tempo ouvi um gemido… gemido que me chegou ao coração!… Precipitei-me sobre os bandidos, porém estes tinham desaparecido na espessura do bosque. Depressa!… depressa, meu pai! a cavalo!… Dez minutos depois, o tio e o sobrinho montados em dous fogosos ginetes, tinhamse precipitado em perseguição dos fugitivos. A noite estava escuríssima. Nem uma estrela brilhava no céu. O caminho era áspero e em declive para a montanha. Entretanto os dois cavaleiros galopavam com a velocidade do raio. Por vezes as pedras soltas da estrada faiscavam fogo sob as patas dos dois ginetes; e o ruído de seus passos era o único que vinha interromper o lúgubre silêncio que pesava sobre os bosques sombrios. Mas os dois viam nas trevas, – que mais espessa era a que lhes cerrava os corações. Chegados a uma encruzilhada, Rodolfo e José Pedro trocaram breves palavras, e sempre galopando, tomaram por duas estradas diferentes. Cada uma destas estradas ia dar a uma propriedade de Galvão. Assim havia mais probabilidade de o encontrarem. Não duvidavam que fosse ele o autor do infame atentado. …………………………………………………………………………………………… Ricardo conduzindo a donzela raptada tinha chegado à sua propriedade do Incião. Caminhara quase tão rápido como os que sem ele o suspeitar o perseguiam. Confiava em que primeiro o procurariam em Sant’Ana e outros pontos distantes, caso houvessem suspeitas dele. Porém Ricardo não contara com a firme convicção de José Pedro e Rodolfo sobre a sua criminalidade, e o haverem sido vistos, ele e o seu cúmplice, por Rodolfo, que adivinhara a direção provável que tomariam os raptores. O ar fresco da noite e os balanços produzidos pelo galopar rápido do cavalo tinham
80 | Contos singelos feito tornar a si a donzela desmaiada. Ao entrar o portão da quinta para onde a conduziam os seus raptores, Júlia, reanimada, reparou no homem que o viera abrir, o qual tinha uma lanterna na mão. Certamente ela o reconheceu, porque lhe estendeu as mãos suplicante; no que Galvão não reparou, entretido em se apear, e em dar algumas instruções concernentes à situação àquele que parecia caseiro da quinta, e ao seu cúmplice. Ao gesto de súplica que fez Júlia respondera o aldeão levando um dedo aos lábios como recomendando-lhe silêncio e prudência, e assegurando-lhe por um sinal expressivo a sua proteção. Poucos momentos depois, o cúmplice de Ricardo, tornando a montar, desaparecia pela mesma estrada que haviam percorrido. Não tinha andado uns cinquenta passos, que um vulto… um furacão lhe passou ao lado, quase derribando-o do cavalo. Ricardo entrando em casa tinha conduzido a sua vítima para uma sala ao rés-do-chão, cuja porta fechou cuidadosamente, depois do que acendeu uma luz. Júlia achando-se em liberdade, tirou o lenço que a emordaçava, quase sufocando-a. Certa de ter não longe de si um amigo protetor, a donzela não tremeu pela sua posição desesperada. Cruzou os braços sobre o seio lindo que lhe arfava com violência, e fitando no seu infame raptor seus belos olhos negros em que fulguravam a cólera e o desdém, disse-lhe com voz vibrante: – Sois um miserável, senhor! O bandido contemplava-a com enlevo, calculando na alma sórdida um mundo de infernais delícias. Júlia estava tão bela de comoção!… Ouvindo-a, o malvado soltou uma gargalhada cínica. – Recriminações, minha bela? disse ele. – As crueldades aqui são inúteis. E quis tocar com mão profana na filha de José Pedro. – Senhor!! bradou a casta virgem, resplandecendo-lhe no semblante tal expressão de dignidade e altivez, que o ousado libertino recuou, mau grado seu. Porém este movimento d’hesitação foi rápido. O monstro, encorajando-se com a formosura da donzela indefesa, avançou para ela ainda com maior ousadia, cingindo-a pela cintura, enquanto seus lábios impudicos procuravam aqueles tão castos e tão belos! Então a pobre menina, louca de terror, bradou. – Socorro!… Rodolfo! meu pai! – Júlia!… respondeu de fora uma voz forte e bem conhecida da donzela. Ao mesmo tempo, a porta estalava, cedendo, forçada por ombros robustos.
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 81 Ao mesmo tempo também uma janela de vidraças voava em estilhas, e por ela penetrava um homem. Com o ímpeto do raio precipitou-se na sala um homem, pálido, desgrenhado, ameaçador, empunhando em cada mão uma pistola. Este homem era Rodolfo. Júlia caiu desmaiada nos braços de seu amante. O anjo da sua guarda não a desamparara. Galvão mal teve tempo de saltar pela janela aberta. Atrás dele, como se fosse a sua sombra, saltou aquele que pela janela se introduzira tão abruptamente, agarrando-o na queda pelo pescoço. – Misericórdia!, gemeu o desgraçado, louco de terror, e meio estrangulado. – Misericórdia contigo, cão?! troou uma voz rude. Ricardo, sentindo afrouxar a cadeia de ferro que lhe apertava a garganta, tentou falar. – Quem sois? balbuciou ele. – A justiça de Deus! – respondeu o desconhecido com voz retumbante. – Ah! exclamou o bandido, sentindo percorrer-lhe o corpo todo um calafrio mortal. Porém, restabelecendo-se súbito ante a iminência do perigo, levou a mão ao bolso furtado da casaca, e nas trevas lampejou a lâmina dum punhal. Mas, rápido como o pensamento, o desconhecido segurara-lhe no pulso, apertandolho com tanta força, que o assassino soltou um grito de dor, caindo-lhe das mãos o ferro homicida. Neste momento, a lua que até ali estivera encoberta mostrou a sua face pálida. – António Silvestre!!… bradou aterrorizado Galvão, reconhecendo o seu inimigo. – Sim, sou eu, miserável! respondeu o montanhês. Sou eu que hoje te venho pedir contas da morte de minha filha que não pôde suportar a sua desonra e a minha!… Desgraçado!… Há um ano que estou próximo de ti, que te vigio, que tomo nota de tuas menores ações, sempre esperando a hora determinada por Deus para o teu castigo e minha vingança. Soou ela alfim!… Ricardo Galvão, está cheia a taça das tuas iniquidades! Uma gota d’água a fez trasbordar… Morrerás!… Assim falando, António Silvestre fora-lhe vergando os braços, a ponto de o prostrar a seus pés. Ricardo quis gritar. Porém o aldeão pondo-lhe um joelho no peito, sufocou-lhe a voz na garganta. – Oh! não me mate, senhor!… gemeu o miserável, transido de medo. – Quereis dinheiro? Dou-vo-lo, todo, tudo quanto possuo!… A resposta de António Silvestre foi uma gargalhada estridente.
82 | Contos singelos – De que me serve o teu oiro, miserável? – Cada peça desse oiro é uma taça de lágrimas de inocentes desgraçados que ora clamam a Deus vingança contra ti. Cumpra-se a justiça de Deus! Morre, Ricardo Galvão!!… Os ossos do desgraçado rangeram estalando sob a pressão de joelhos do robusto camponês. Um grito d’angústia se confundiu com um estertor d’agonia sufocado por uma golfada de sangue que espadanando-lhe dos olhos, boca e ouvidos, borrifou a cara de seu matador. – Estás vingada[,] minha filha! bradou António Silvestre com feroz alegria. – O sangue de teu sedutor e assassino encobre o pejo que me coloria as faces!!…… Epílogo Seis semanas depois dos acontecimentos que levamos dito, Rodolfo, transportado ao cúmulo da felicidade, esposou sua prima, a bela e angélica Júlia. Ainda hoje vive sossegado na sua encantadora vivenda de Pé da Rocha nhô José Pedro, rodeado de seus filhos e netos, nos quais feliz se revê, e sendo o esteio dos desgraçados. António Silvestre, metido em processo, foi condenado a degredo perpétuo para as Costas de Guiné. – Vinguei minha filha e a nossa desonra! dizia o desditoso velho. – Perdoai-me, meu Deus! Fim I Na publicação original, certamente por gralha, está de. II No testemunho, Feijão. III japona – agasalho curto, geralmente de lã grossa e com feitio de jaquetão. IV manduco – cacete, em tempos usado como arma de ataque e defesa do camponês do Fogo. Originariamente manufaturado com a madeira da árvore medicinal da Guiné que apresenta o mesmo nome, podia também ser feito de marmeleiro. V satélite – no sentido, registado por Morais na edição de 1889 do Diccionario da lingua portugueza, de assalariado que acompanha outrem para feitos maus ou ações criminosas.
Nhô José Pedro ou cenas da ilha Brava | 83 VI No testemunho, por lapso, tivestes. VII No testemunho, Feijão. VIII Teófilo Braga (O povo português nos seus costumes, crenças e tradições. Vol. II. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1986, p. 210-211) cita um artigo publicado no Almanach de lembranças luso-brazileiro para 1881 que descreve em pormenor os festejos de Santo António noutra ilha, a de Santiago. Embora o relato de Guilherme Dantas seja muito sucinto, é possível detetar algumas semelhanças entre as celebrações. IX jubilado – no sentido, hoje obsoleto mas registado por Morais, de experimentado, consumado na velhacaria. X bolso furtado – bolso escondido, escuso.
AO SEU PARTICULAR AMIGO EDUARDO DE BARROS E MATOS O. D. e C. I O AUTOR
86 | Contos singelos
Cenas de Mafra | 87 Meu jovem amigo Perdoar-me-á meu Pai, se lhe roubo um cantinho do livro, a ele expressamente dedicado, para to oferecer a ti, meu mestre também – na sublime arte de Guttemberg. Falando eu no seguinte romancezinho com tanto amor da Ericeira, tua cara terra natal, além dos motivos superiores de amizade e reconhecimento, julgo quase um dever meu o dedicar-to. Aceita-o pois, não como valioso presente – que o mérito pouco é – mas como um testemunho da mais sincera amizade que te consagra o Teu do C. Guilherme da Cunha
94 | Contos singelos que na praia riam a bom rir. Júlio, levado dos impulsos do seu bom coração, deixou Eugénia com o seu escudeiro aquático, e foi em socorro do amigo. Este porém, mal se pôde ter firme, repeliu-o desabridamente e lançando-lhes um olhar ferino, retirou-se envergonhado da água. Como para se vingar dos fracos pulsos do seu banheiro, Henrique no dia seguinte mimoseou-o com o seguinte pasquim, afixado na sua barraca chic, e que fez bulha na praia: Venham todos a esta barraca, Que é de Francisco Regalão: Cada banho uma pataca, Cada real um trambolhão. O tio Regalão regalou muito os encovados olhos. Ao ler o quarteto homicida, protestou lá consigo quebrar o espinhaço ao seu autor, se acaso o chegasse a descobrir. Felizmente para Henrique que tal não sucedeu. VI Regresso Veloz corria o tempo para os dois ditosos amantes naquela terra tão sossegada e feliz. Viam-se na praia, ao alvor do dia; à tardinha no passeio de Santo António, donde a vista pode espraiar-se pela ilimitada imensidade do oceano; e à noite, na própria residência da donzela. Porque os pais de Eugénia, tendo em conta e sabendo apreciar os raros dotes do mancebo, e a particular deferência que por eles mostrava, o haviam admitido na sua intimidade. Que se julgue do desapontamento do pobre Henrique, quando apesar de todos os seus esforços para suplantar o seu rival, ou pelo menos alcançar uma dita igual à sua, viu frustrados os seus intentos, e o seu antigo companheiro e amigo cada vez mais elevado nas boas graças dos pais de Eugénia, e no amor desta. Enfim, estando a terminar o mês de outubro, era chegado o momento de regressarem a Mafra. Mas Júlio e Eugénia, como ingratos que eram, separavam-se alegres e risonhos daqueles sítios onde foram tão felizes: porque criam que igual ou maior ventu-
Cenas de Mafra | 95 ra os esperava em Mafra. …………………………………………………………………………………………… ..………………………………………………………………………………………….. A tarde estava bela e amena, o ar puro e embalsamado. Tudo enfim convidava à distração, do desterro da negra tristeza, aos prazeres e à alegria. Mas em Mafra onde é que se pode encontrar tudo isso, a não ser nos passeios? Eis os motivos porque os domínios do sr. Abílio, hábil jardineiro real, haviam sido invadidos por um enxame de abelhas (de ambos os sexos), entre as quais também se viam alguns zangãos rabugentos. Um grupo composto de dois velhos e dois jovens, isto é, o sr. Henrique Nunes, sua esposa, Júlio, e Eugénia, dirigiam-se para os toscos bancos de cortiça colocados pelo génio pitoresco do jardineiro sob frondosas árvores, através das quais mal podem penetrar alguns raios mais curiosos, do sol. – Sr. Júlio, disse o pai de Eugénia, as poltronas são para os velhos. A mocidade gosta das flores, do ar, dos passarinhos e de outras coisas que o sr. deve saber e entender, porque é poeta. Ande, vá saltar para aí com esta rapariga. Como é de supor-se, Júlio aceitou logo convite tão desejado; e dando o braço àquela que podemos chamar sua desposada, ambos radiantes de felicidade, ébrios de amor, desapareceram por entre as áleas de flores, cada qual orgulhoso da sua ventura aos olhos dos demais passeantes, e procurando a solidão. – Eugénia, minha querida Eugénia! dizia Júlio, é possível que se possa disfrutar tanta felicidade na terra? – E nada mais desejas? – Se desejo, Eugénia!… – Sim?!… disse por detrás deles uma voz. Voltaram-se, e viram Henrique. – Senhor! disse Júlio sem se encolerizar, o seu procedimento tem sido, na verdade, indigno. – Incomodativo, quer o sr. dizer?… Está bem, retiro-me. Redarguiu o estouvado rindo, mas com o fel do ciúme no coração. – Que mal fizemos nós a este senhor, Júlio? Ele que outrora era tão teu amigo!… Disse Eugénia consternada. – Sim[,] Eugénia. Era meu amigo, meu companheiro de infância, meu irmão. Hoje porém, quase maldigo o destino que nos uniu. Mas não te aflijas. Breve nos veremos livres dele. Triste conjuntura! Ver-me obrigado a odiar o meu melhor amigo!…
96 | Contos singelos VII Infeliz Eugénia! Pobre Júlio! O dia 6 de novembro amanhecera triste e chuvoso. Parecia que o silêncio que de ordinário pesa sobre Mafra se tornava naquele dia mais sombrio e lúgubre. Júlio, às horas do costume, foi para a repartição onde era empregado. Quem visse o pobre moço naquele instante, não creria ter ante si aquele Júlio tão alegre apesar da sua melancolia, e feliz, que uma semana antes passeava orgulhoso no real jardim, tendo pelo braço Eugénia, a bela filha de Henrique Nunes, a sua desposada. Suas faces macilentas e cavadas do pranto, seus olhos inchados e vermelhos, e cujo brilho haviam amortecido as lágrimas, atestavam que profunda dor viera turbar aquela felicidade nascente e já no seu apogeu, exacerbar aquele juvenil e nobre coração. Encostado à sua banca, com a cabeça apoiada nas mãos, insensível a tudo quanto em torno dele se passava, o infeliz derramava copiosas lágrimas. Súbito, o jovem amanuense levantou-se como se fora impelido por uma mola. Ouvia-se distante um certo cadenciado murmúrio, o qual se foi alteando até que se ouviram distintamente vozes de padres salmeando. Júlio levou as mãos ao coração, como se os cânticos sagrados aí lhe vibrassem dolorosamente, nova torrente de lágrimas lhe inundou o rosto, e tornou a cair sobre a cadeira de que se tinha levantado. Como os cânticos se tornassem cada vez mais distintos, o mancebo murmurou com voz sufocada: – Quero vê-la… ainda uma vez! E com passos vacilantes, quase encostado às paredes, dirigiu-se para a porta. Defronte desta passava neste momento funéreo cortejo. Ao encarar com o caixão mortuário, o desventurado soltou um doloroso grito, como se nele lhe fosse a alma, e segurando-se maquinalmente às batentes da porta, caiu de joelhos murmurando o nome da sua amada. Rangiam-lhe os dentes, parecia-lhe ter a cabeça em brasa, apesar da chuva que açoutando-lhe as faces, por ela corria misturada com as lágrimas e o suor que lhe aljofrava da fronte. Assim esteve por espaço de meia hora, ou mais. Afinal, as mesmas lágrimas lhe aliviaram o coração aflito, e a chuva contribuiu para lhe refrescar a fronte abrasada. Levantou-se ainda impressionado pela terrível comoção por que acabava de passar,
Cenas de Mafra | 97 murmurando sempre por entre soluços e gemidos: [–] Eugénia! Eugénia!… Tão nova… e morrer!… Dirigiu-se mais sossegado para o seu lugar, procurando estancar as lágrimas, e vencer a dor que o oprimia. Como tivesse diante de si uma folha de papel, em branco, sobre ela escreveu, correndo-lhe a mão por sobre o papel com um movimento febril: Lá fora ruge o vento, Cai a chuva caudalosa: A natureza veste de luto, E assim Mafra saudosa. Do sagrado bronze distante Tristes sons me faz V o vento: Anunciam-me que os seus restos Baixam à campa neste momento. Em minha alma se repercuta A voz plangente do brônzeo sino; Em minha alma que verga ao peso De inumano, fatal destino! Anjo do céu, que à terra baixaste, Para o céu voltaste, pátria tua. Oh! pede a Deus, se as penas minora De quem te chora em mágoa crua!… VIII O duelo Pouco tempo é preciso para que o destino faça desaparecer da superfície da terra os homens e as coisas; como o vento varre um átomo de areia. A florzinha mimosa que ontem se ostentava viçosa e bela, hoje jaz prostrada, murchas as folhas, as cores desbotadas; que por ela passou o tufão, dando-lhe a morte no seu hálito quente. Eugénia, em seguida ao passeio no cerco, fora acometida por uma febre tifoide, que
98 | Contos singelos em sete dias a levou à sepultura! Pobre criança! Arrebatada dos braços carinhosos de teus pais, colhida na flor da idade pela mão devastadora da morte, quando o futuro se antolhava risonho, e cheio de venturas nos braços do amor, ao lado de um esposo adorado. Mas teu esposo era Deus. Sim, Deus que te mandou à terra para nos dar uma ideia da beleza, candura e bondade dos seus anjos. Chamou-te a si, porque a tua missão era cumprida. A dor que Júlio experimentou pela morte de sua desposada igualou, se não excedeu à dos desolados pais da infeliz donzela. No mesmo dia em que a terra recebeu e cobriu o corpo daquela a quem ele mais amara neste mundo, Júlio caiu delirante de cama, a razão quase que lhe fugira, e a vida teve-a em perigo por espaço de duas semanas. Aos carinhosos desvelos de seu pai e principalmente de sua irmã, que, qual anjo de caridade se lhe sentara constantemente à cabeceira do leito, deveu o mancebo a vida. E também ainda a ela o prendia a afeição destes dois entes queridos, a quem a sua morte acarretaria profundos desgostos. Estava Júlio já quase completamente restabelecido, quando um dia lhe entregaram uma carta. Era de Henrique. Esperando encontrar nela consolações afetuosas de amigo, Júlio só encontrou desafios e insultos, tanto mais graves, quanto eles ofendiam a memória imaculada daquela por quem o seu coração ainda sofria. Era um cartel VI , cheio de ameaças e injúrias. Júlio ao princípio sorriu-se da ideia disparatada de Henrique, mas quando as suas palavras injuriantes vieram, como outros tantos ferros agudos traspassar-lhe o coração, exacerbar-lhe a dor da ferida ainda não cicatrizada; no primeiro ímpeto de dor e cólera, resolveu lavar no sangue daquele que fora seu amigo, tamanha afronta. Eram 7 horas da manhã. Henrique havia-o emprazado para as 8, no jardim, dizendolhe que «tudo estava preparado para o duelo». Júlio estava num estado de exaltação impossível de se descrever. O sangue subindolhe à cabeça refervia-lhe em cachão, tresvariando-o. Era o manso cordeiro tornado leão. Num dos seus passeios agitados chegou-se casualmente à janela, e viu defronte Henrique, o qual praticava com alguns mancebos que o rodeavam. A um rápido sinal do estouvado, Júlio soltou um terrível rugido, precipitando-se para a rua. – Para o jardim, para o jardim! bradaram os outros rapazes, impedindo que os dois
Cenas de Mafra | 99 se travassem de luta aí mesmo, tal foi a sanha com que Júlio se tinha precipitado sobre o grupo. …………………………………………………………………………………………… Agora, caro leitor, vamos ao jogo da bola encontrar os nossos seis misteriosos embuçados, que não eram outros, senão Júlio, Henrique e os respetivos padrinhos. Estes senhores, muito práticos na matéria pela leitura de romances, ao cabo de cinco minutos tinham dado por terminadas as praxes usuais, e Júlio e Henrique achavam-se em frente um do outro, a trinta passos de distância, de pistola em punho. Como o insultado, era a Júlio que cabia atirar primeiro. Apontou a pistola, mas o braço ficou imóvel; depois descaiu, a arma mortífera fez explosão, dando no solo. No momento supremo, serenara súbito a alma do mísero. À cólera sucedeu a reflexão rápida. – Antes morrer! murmurou soluçando. Atira, Henrique! – Não, Júlio! exclama este arrojando para longe de si a arma homicida, vive. Vive para teu pai, para tua irmã… para me perdoares. O desgraçado tinha-se prostrado aos pés do mancebo banhado em lágrimas. O seu coração ainda não estava corrompido pelo crime. Tocou-o a dor sublime do que havia sido seu segundo irmão, e naquele momento amaldiçoava o estúpido ciúme que o havia cegado, os pérfidos conselhos, a má companhia de falsos amigos, que o haviam levado à beira do abismo do crime. Que havia de fazer Júlio? Eram tão francas as lágrimas de Henrique, tão sincera a sua dor e arrependimento, tão comovente a expressão de sua voz suplicando perdão!… A cena de ternura que então se passou, que pena a poderia descrever fielmente? Não teve ela espectadores, que os promotores do recontro que podia ser funesto, e cujas consequências temiam haviam saltado VII os muros do jardim logo à primeira denotação VIII , cujo verdadeiro motivo ignoravam. A verdadeira amizade é eterna. Hoje Júlio e Henrique são felizes. E vivendo em Lisboa, vêm passar todos os verões a Mafra, visitando estes lugares que lhes recordam a sua feliz infância, os seus amores, o seu, felizmente malogrado duelo, e a sua reconciliação, à qual devem a sua felicidade presente. IX Capítulo avulso Da precipitação com que o presente livro entrou no prelo, resultou um grande número de erros e incorreções, de composição e impressão.
100 | Contos singelos Esperando da benevolência e inteligência do leitor supra e releve o que por falta de tempo e espaço †, lhe consagramos aqui nosso ardente reconhecimento, e esta X FIM I Oferece, dedica e consagra. II Trata-se, com variantes, de uma passagem do canto II do Poema da mocidade de Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (*1842 †1895): «E as folhas seccas caiam / com leve bulha no chão! / era o hymno da saudade! / era a voz da solidão!» (Poema da mocidade seguido do Anjo do lar. Lisboa: Livraria de A. M. Pereira, 1865, p. 66). Como é bem sabido, o volume de Pinheiro Chagas saiu com uma carta-prefácio de António Feliciano de Castilho que suscitaria a reação de Antero do Quental através do opúsculo Bom senso e bom gosto, dando assim início à chamada Questão Coimbrã. III jogo da bola – forma mais antiga do atual bowling, praticada num recinto previamente preparado. A bola e os dez pinos eram de madeira. Sobre a popularidade do jogo, escreve Mário Gonçalves Viana, citando Alberto Pimentel: «Nas grandes quintas de recreio, e nas cercas dos conventos, havia vastos recintos apropriados aos jogos da bola. Em Mafra, onde tudo era bom, foi construído sòlidamente um amplo tabuleiro contornado por extensas bancadas de pedra, para uso dos frades quando assistiam às partidas do jogo da bola.» (Pedagogia geral. 3.ª ed. revista, melhorada e actualizada. Porto: Figueirinhas, d.l. 1956, p. 432). IV Dione – na mitologia grega, mãe de Afrodite, a deusa do amor. V Parece haver gralha no testemunho, sendo a forma correta traz. VI cartel – carta que se envia a alguém a desafiá-lo para duelo. VII No testemunho, certamente por gralha, salvado. VIII Parece haver falha no original, sendo a forma correta detonação. IX Devido à tintagem deficiente, algumas palavras deste e do parágrafo seguinte só podem ser percebidas pelo contexto. X Seguia-se uma errata, em que se dava conta da necessidade de acrescentar uma linha no final da p. 13.
IV. Outros textos em prosa
A. Publicados em vida do autor
110 | Outros textos em prosa Fonte: Novo almanach de lembranças luso-brazileiro para o anno de 1877, p. 231-232. Desgraçado nariz! (Fragmento duma cena cómica, inédita) O meu amigo Boaventura Jeremias Pascoal, é um desses entes infelizes a quem a natureza parece haver formado a capricho, tornando-os renegados das belezas primitivas da mãe Eva. Ilustração que acompanhava o texto no Novo almanach de lembranças Não é coxo, marreca, nem calvo, o pobre moço. Mas possui um nariz!… Nariz… «Nariz, nariz, e nariz, nariz que nunca se acaba; nariz que se ele desaba, fará o mundo infeliz: nariz que Newton não quis descrever-lhe a diagonal; Nariz de massa infernal, que, se o cálculo não erra,
Desgraçado nariz! | 111 posto entre o sol e a terra, faria eclipse total!» Nariz descomunal, estapafúrdio, estrombótico!… Nariz escandaloso, híbrido, acéfalo, anómalo!!… Nariz que, ao contemplá-lo, sentimo-nos tomados dum piedoso horror, e arrancamos do fundo d’alma esta exclamação compungente: – Desgraçado nariz!!! Nariz sem precedente nos fastos da pencuda humanidade, descrevê-lo não cabe na possibilidade das coisas!… Basta que lhes diga, senhores meus, que em cada uma das verdadeiras cavernas nasais do malfadado Jeremias, caberia a caixa de rapé de minha avó, veneranda relíquia do século XVII, que religiosamente conservo (a caixa, já se vê), e que do seu malfadado possuidor (do nariz, entende-se), se diria com mais propriedade que ele – não vê as coisas um palmo adiante do nariz, mas vê o nariz… um palmo adiante das coisas!!… Para o ano, se tiver saúde e esturrinho I , contarei aos leitores do Almanach uma das mil e uma aventuras deste, sobre todos, desgraçado nariz! I esturrinho – espécie de rapé.
112 | Outros textos em prosa Fonte: A Imprensa, n.º 44, 28-IV-1881, p. 1-2 [incompleto, dada a impossibilidade de localizar outros números do jornal]. Amor! Ai! Quem dera (Oferece a ***) Concede-me um olhar, um só olhar fagueiro. E que me importa o mais? (Shakespeare, Romeu e Julieta, trad. de B. Pato) I Há criaturas nascidas para se amarem. Se lhes perguntarem desde quando se principiaram a estimar, não o saberão dizer, por mais que busquem ou inquiram, parece-lhes mesmo que antes de virem ao mundo tinham sido inscritas no livro do destino que ata e desata. Um escritor espanhol diz que há convénios tácitos que dão um éden de desconhecidos gozos d’alma ao homem e à mulher que se amam em segredo. O século atual crismou esses amores de assolapados, mas ainda hoje de vez em quando aparecem esses amores puros e santos que nós veneramos, por isso que nossos pais nos contavam as histórias ao serão das serenatas às portas dos conventos aonde os motes e as glosas mais finas se trocavam através daquelas grades que prendiam tão formosas damas brilhando pelas suas virtudes e pelo seu espírito. Os tempos que correm são outros, mas desgraçada da regra se não fosse a exceção. ____________ Em 1870 na ilha de S. Vicente existia uma formosa e elegante menina possuidora de mais duas formosas e elegantes irmãs. Deus querendo formar com elas um perfeito bouquet deu a cada uma a sua cor. Uma era branca qual perfumado lírio; a segunda era morena e a terceira era trigueira. As duas primeiras realizaram os seus castelos de cartas, os seus sonhos dourados. Ambas casaram muito bem, depois de leves oposições. Restava a terceira que conheci naquela ilha, e vos posso afiançar[,] caras leitoras e leitores, ser o ente mais perfeito que o criador formou. Saíra ela forçosamente dum beijo da virgem. Um rosto oval com
Amor! Ai! Quem dera | 113 as linhas mais perfeitas, alta como tenro e delicado arbusto que se baloiça ao sopro da brisa da manhã, a cintura podia cingir-se em um pequenino anel, a mão mais mignone que se pode imaginar, e um pé que se podia bem esconder na algibeira do colete. No seu rosto espelhava-se a graça da bondade e a melancolia da ternura. Não sei mesmo dizer se os anjos lhe não teriam inveja. Um dia festejava-se um aniversário duma senhora muito conhecida na ilha, e toda a sociedade mais escolhida aparecera nos salões da nobre dama. Entre as senhoras mais formosas encontrámos Georgeta da Silva a quem oferecemos o nosso braço em recompensa da primeira quadrilha. Durante o resto do tempo observámos que o seu par constante era Rodrigo Monteiro, um rapaz belo, sonhador de idílios, e capaz de diligenciar apanhar uma estrela ao firmamento para oferecer à mulher a quem amasse. Até ali tinha sido virgem o seu coração. Rodrigo Monteiro era um dos meus mais prediletos amigos, conversava comigo as suas confidências mais pequenas. Era uma alma d’oiro. Seis horas da manhã batiam e um dourado horizonte dava os prenúncios de que o rei do dia vinha visitar-nos. Os últimos sons da orquestra era[m] como que um dobre para muitos corações. Eu e Rodrigo Monteiro subimos pelo braço um do outro e fomos para a nossa casa, deitando-se ele em cima dum sofá. – Dá-me um livro para fazer sono – disse-me Rodrigo. Dei-lhe um livro de poesias de Mendes Leal. Poucos momentos depois sentia-o a chorar e indo ler o livro encontrei: «Ao ver-te a vez primeira nesse baile, Radiante de galas e de amor, Perdi-me a contemplar-te transportado, E ceguei-me do teu rosto no fulgor.» II Eu tinha direito a pedir explicações daquela abertura dos selos do coração do meu jovem amigo. Soube então que dous olhares se abraçaram e que dançaram até ao fim e ainda mais que houvesse. Seguiram-se os dias aos dias, as semanas passaram, os meses aos meses, os anos uns aos outros, os dous jovens namorados levantavam-se com os passarinhos; Rodrigo passava por defronte de casa da Georgeta, sem terem durante esse tempo dirigido uma
114 | Outros textos em prosa única carta um ao outro. São estes os amores espirituais para os quais é desnecessária a matéria. Ambos escreviam dia a dia o seu diário, com as mais pequenas impressões d’alma que se agitavam entre um e outro. Não pensavam no futuro, liam sobre o presente, a felicidade hauriam-na com a esperança dum dia se reunirem e cambiarem os mais santos afetos. Rodrigo Monteiro pensou um dia em que a carreira mais nobre que tinha a escolher era a militar, porque com os conhecimentos que tinha podia vir a ser oficial. Assentou praça na companhia da ilha aonde seguiu até ao posto de primeiro sargento, sendo despachado alferes para S. Tomé. Os parentes empenharam-se e conseguiram a transferência do jovem oficial para caçadores 1, sendo nomeado comandante da ilha. Romeu e Julieta amavam-se como no primeiro dia em que se tinham visto. Em 1879 era agitada a cidade da Praia pela triste notícia da morte de 50 dos nossos soldados nas praias de Bolor. Estes acontecimentos determinaram o ser decretada a transferência do Batalhão para a Guiné. Derramaram-se lágrimas de despedida III e lá se foi por esse mar fora a bordo IV da corveta Duque da Terceira o simpático batalhão. A canhoeira Rio Lima foi a S. Vicente e trouxe o resto da força. Rodrigo Monteiro não tivera tempo para despedidas. Enviara pelos ares um beijo a Georgeta e caíram-lhe as lágrimas ao embarcar no escaler. Georgeta soube da partida de Rodrigo só ao meio-dia, ajoelhara aos pés da virgem da Conceição e orara. * * * Rodrigo Monteiro desembarcara em Bissau e essa noute escrevera compridas páginas no seu diário, interrompido pela viagem, por isso que durante a travessia padecera bastante do mal do mar. Os seus companheiros d’armas achavam-no mudado, triste, afastado, rabugento, hipocondríaco. Não tinha a alma ainda temperada na desventura e sentira somente dela os ressaibos. O Batalhão esteve V em Bissau pouco tempo, embarcou novamente na corveta e desembarcou no dia 2 de maio na capital debaixo da primeira chuva da estação pluviosa.
Amor! Ai! Quem dera | 115 Rodrigo foi hospedado pelo capitão Fonseca que lhe deu um esplêndido quarto e uma mesa opípara. O nosso alferes sentia-se morrer; cada dia que passava causava visíveis estragos naquela débil organização. Ele não se queixava mesmo porque não tinha de que. Admirava a soberba vegetação que orla as margens do rio, surpreendia-o a soberba majestade do altivo e sempervirente VI poilão, misteriosa árvore que se deixa despir da sua folhagem, para como para VII encanto se cobrir dela, mais mimosa e esmeráldica. Surpreendia-o ainda esses bosques umbrosos, frescos, extensos, sem fim, formados das mais ricas e copadas árvores aonde se engrinaldam formosas e elegantes trepadeiras com as suas flores iriadas debruçadas da ramagem. E os bandos de grandes aves de miríade de cores, que estendem no espaço as suas compridas asas ou poisam nas praias de areia? E os mil passarinhos em ranchos alegres, em famílias, que cantam e chilreiam as mais harmoniosas melodias, saltitando de árvore para árvore e de ramo para ramo alando-se ao sentirem os mais leves passos no mato? Rodrigo Monteiro ia todos os dias à caça, mas trazia sempre a arma carregada. Um livro que o acompanhava trazia porém soberbas impressões que a alma sente e jamais esquece. * * * Quando vinha o vapor das ilhas e nele pessoa conhecida, o alferes Monteiro informava-se de Georgeta, da mãe, nobre e distinta senhora. Nas noutes de luar, chamava ele ao arruinado e velho satélite sua madrinha, via o molho de couves tradicional naquelas VIII manchas escuras, e encarregava aos raios luminosos daquele astro de serem portadores dos seus sonhos e pensamentos à ilha que guardava o seu encanto. (Continua.)
116 | Outros textos em prosa I Raimundo António de Bulhão Pato (*1828 †1912) traduziu na íntegra duas peças de Shakespeare: Hamlet (1879) e O mercador de Veneza (1881). De Romeu e Julieta verteu apenas a cena II do ato II, incluindo esse trabalho em Flores agrestes (Porto: Viuva Moré, 1870). A passagem em causa surge, com ligeiras variantes, na p. 107. II Trata-se dos v. 5-8 da I parte do poema «Impropérios», publicado no vol. XV, n.º 6 de O panorama, de 6-II-1858, p. 46 (com variante de pontuação) e depois incluído no livro Poesias (Lisboa: Typ. do Panorama, 1859). O autor, António Joaquim Teodorico Mendes Leal (*1831 †1871), era irmão de José da Silva Mendes Leal. III No testemunho por gralha, despedido. IV No testemunho, por lapso, borda. V No testemunho, por falha, estave. VI Não encontrámos esta forma dicionarizada, sendo talvez de admitir que se trate de gralha (sempre virente). VII Parece haver gralha no original, sendo a forma correta por. VIII No testemunho, por lapso, naqueles.
A morte de D. João | 117 Fonte: A Imprensa, n.º 52, 23-VI-1881, p. 1-2 e n.º 54, 07-VII-1881, p. 1-2 [incompleto, dada a impossibilidade de localizar outros números do jornal]. A Morte de D. João Memórias do Hospital Ao meu amigo Francisco Xavier Crato Em vão! em vão ansiamos a ventura! Somos na terra qual viajante exausto! Que ouve o sussurro d’escondida fonte E morre à sede sem poder tocá-la!… (Soares de Passos) I (Continuação.) II * * * No dia seguinte, ou fosse efeito da singular predisposição d’espírito que de nós se apodera ao entrarmos no hospital, ainda mesmo de perfeita saúde, ou que realmente me não desse bem com aqueles ares, amanheci com a cabeça torva e pesada, nervoso, sentindo um incómodo geral e uma irritação de espírito que aumentou com a entrada do servente dos quartos, com o qual comecei por embirrar solenemente por me levar chá em lugar de café, a que estava habituado pela manhã. – São as ordens! disse-me o tratante com a maior placidez, poisando a bandeja em cima duma cadeira à cabeceira da cama. – Pois chame já o sr. enfermeiro! – Presente! disse uma voz de falsete. Era o tio Olifo II , que tinha deslizado no quarto atrás do servente. – Faça favor de mandar-me trazer café.
118 | Outros textos em prosa – É preciso pedir primeiro ao doutor. A sua dieta é de chá… Ouvindo isto, acabei de perder as estribeiras. – Levem os diabos o chá, mais a dieta e o doutor!… O senhor bem sabe… – Chiton III !… fez-me o enfermeiro com um gesto expressivo, indicando o servente. Engoli em seco… e para disfarçar fui IV também engolindo o chá, com as competentes fatias. O criado saiu levando a bandeja, e eu comecei a queixar-me ao enfermeiro da indisposição que sentia. – Parece-me que estou realmente doente! concluí, com voz lamentosa. – Tanto melhor! respondeu-me o tio Olifo, sacudindo a cinza do cachimbo. Pois não era o que o senhor queria?… – Não, sr…. entendamo-nos! o que eu quero é a licença. – Não se pescam trutas a bragas enxutas… É preciso pelo menos que o sr. se queixe dalguma coisa ao doutor… – Sem dúvida, mas… – Mas… que mais quer o sr. Cunha?… Segundo os sintomas que dá, temos doença pronta, uma gastrite magnífica!… – Hein?!… exclamei eu, assustado. – Deixe lá as calças, homem!… Olhe que não deve levantar-se antes da chegada do doutor… – Mas, sr. sargento… isso de gastrite… – E então?… Cura-se logo, e depois apanha a sua licença, um mês pelo menos, para tomar águas férreas na Brava… Com esta perspetiva, resignei-me à duma gastrite, tanto mais que só o anúncio dela como que me curou por milagre das veleidades nervosas que sentia. Chegou a hora da visita clínica, e tendo o enfermeiro dado conta do caso ao facultativo… bem entendido, somente o caso da gastrite… o doutor formulou, contentando-se apenas com tomar-me o pulso, olhando-me de revés com aquela vista d’águia de certos facultativos, que parecem dizer-nos nas bochechas: – Ah! seu maganão!… você o que tem é uma grande manha no corpo: mas espere, que já lho digo… Zás! um purgante que nos põe logo fracos e mansinhos, que nem uns cordeirinhos. Abstenho-me de contar ao leitor as demais peripécias deste primeiro dia do hospital, empregado exclusivamente em não fazer coisa nenhuma e em aborrecer-me de morte, com a única distração da palestra dalguns enfermeiros meus conhecidos e a visita de um ou dois dos meus amigos e colegas que foram saber da minha importante saúde e causticar-me com fartos epigramas, pois acreditavam tanto na minha doença como nos
A morte de D. João | 119 milagres de Mafoma. O facto é, porém, que fui buscar lã e vi-me tosquiado, pois, efeito do purgante, provavelmente, na manhã do segundo dia acordei com falta de respiração e o fígado inchado… o que fez esfregar as mãos de contente ao maroto tio Olifo. – Bravo! disse ele. Agora temos hipertrofia do fígado! O amigo não apanha menos de dois meses de licença… – Dois dardos que o atravessem, malvado! gritei eu, exasperado. Se você sabia que o purgante me faria mal, por que mo deixou tomar?… – Para o limpar… é boa! Pois um purgantezinho faz lá algum mal?… Tive tentações de esganar aquele maldito, mas contive-me, esperando não ter de aturá-lo senão uns três dias, tempo suficiente para poder apresentar-me à junta. Desta vez, o doutor fez-me deitar a língua de fora e receitou cataplasma de linhaça, e outra coisa… que rejeitei redondamente no nariz do tio Olifo. – Basta de brincadeiras! disse-lhe eu. Antes quero ir-me embora e ficar sem licença, do que deixar a vocês embutir-me no buxo toda a trapalhada, e afinal apanhar alguma doença a valer… Nada! nada!… E depois, já estou morto de aborrecimento! Se ao menos pudesse levantar-se e passear levantar-me baforadas por aí… V O velho diabo expeliu umas poucas de baforadas do seu inseparável canhoto VI , e retorquiu-me com toda a placidez: – Como quiser… Mas sempre lhe digo que o sr. tem muito medo e se aborrece muito depressa… Olhe, se estivesse aqui há três meses, sempre de cama, e de mal a pior, como esse pobre D. JOÃO… – Ora até que afinal entra em cena o D JOÃO! exclamará neste ponto o leitor, atalhando o meu espanto e as explicações do tio Olifo. Que prespicácia a do leitor! e há que tempos não terá ele adivinhado que D. João era meu vizinho de quarto, e que mais hora ou menos hora havíamos de travar conhecimento, e chegar às confidências!… Já não se pode fazer fortuna, hoje, com surpresas de romances!! e decididamente… não conto mais! (Continua.)
B. Publicados postumamente
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 129 Fonte: A voz de Cabo Verde, n.º 22, 15-I-1912, p. 2; n.º 23, 22-I-1912, p. 2; n.º 25, 05-II-1912, p. 2; n.º 26, 12-II-1912, p. 2; n.º 27, 19-II-1912, p. 3; n.º 29, 04-III-1912, p. 2; n.º 30, 11-III-1912, p. 3; n.º 31, 18-III-1912, p. 4; n.º 34, 08-IV-1912, p. 3; n.º 36, 22-IV-1912, p. 3; n.º 39, 13-V-1912, p. 5; n.º 41, 27-V-1912, p. 3; n.º 42, 03-VI-1912, p. 3; n.º 43, 10-VI-1912, p. 3; n.º 44, 17-VI-1912, p. 5; n.º 45, 24-VI-1912, p. 3; n.º 46, 01-VII-1912, p. 3; n.º 49, 22-VII-1912, p. 3; n.º 52, 12-VIII-1912, p. 3; n.º 54, 26-VIII-1912, p. 3; n.º 56, 09-IX-1912, p. 3 ; n.º 61, 14-X-1912, p. 3; n.º 62, 21-X-1912, p. 3; n.º 63, 28-X-1912, p. 5 [Incompleto, dado que na coleção da Biblioteca Nacional de Portugal falta o n.º 38, de 06-V-1912, e não pudemos encontrá-lo noutra instituição; segundo informação do próprio autor, houve uma primeira publicação no jornal O independente, em 1878 – em vida, portanto, de Guilherme Dantas –, mas não se conservam (ou não pudemos achar) exemplares dessa edição]. Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago Duas palavras Isto, que se vai ler, foi escrito aí por 1869, achando-me eu na povoação do Mangue do Tarrafal, na extremidade norte desta ilha. Teve curiosas aventuras o folheto em que bosquejei estas impressões de viagem caseira! Tinha-o emprestado a um amigo de má morte, que se esquecera de mo restituir, o tempo suficiente para eu perder completamente de memória amigo e folheto. Folheto e amigo esqueceram-se de mim, até que um terceiro I amigo foi dar com os míseros Bosquejos no fundo… dum barril de papéis velhos!… Papéis num barril?!… Enfim… histórias da vida!… Cada um lá sabe as linhas com que se cose…. Estou certo que não há de faltar algum leitor benévolo, que, avaliando o caso por experiência própria, e compreendendo as sensações que eu experimentaria ao reaver este pobre filho da minha estéril imaginação, prófugo e perdido por tanto tempo no país das baratas, me desculpe o arrojo de apresentá-lo ao público, recentemente desembarrilado e sem tempo sequer para o espanejar devidamente. Não importa. É, para mim, apenas uma simples distração. Oxalá que o seja também, por um cantinho menos, para aqueles dos leitores que acima invoquei. …………………………………………………………………………………………… Tais foram as próprias palavras com que, cerca de dez anos depois de escritos, isto é, em 1878, introduzia eu os desalinhados Bosquejos nas colunas do jornal cabo-verdiano O Independente, onde apareceram tão deturpados, e com tais interrupções na publicação, que pouca gente os terá lido: não que valham a pena de ler-se; mas não
130 | Outros textos em prosa duvido que pudessem merecer algum apreço daqueles, que sempre gostam de ouvir falar das coisas da sua terra e da sua gente. Por isso, e ainda por simples distração, me resolvi hoje a compendiar o escrito num modesto folheto, retocando-o, e entressachando algumas anedotas e digressões que o amenizem um pouco, sem, contudo, alterá-lo, nem quanto à essência nem quanto à época determinada no plano primitivo. I Entre macacos Havia três meses que eu me achava na cidade da Praia, de regresso à pátria, concluídos… ou, para melhor dizer, interrompidos os estudos em Portugal, e fugindo aos vendavais da vida airada e tempestuosa de Lisboa. É o que frequentemente acontece a muitos de nós outros, pobre[s] filhos do ultramar, que, pela morte súbita dum protetor, ou por qualquer incidente inesperado (sem o que deixava de ser incidente), não podemos completar o desbastamento a que fomos, e voltamos com algumas ilusões de menos, alguns vícios de mais, muitas pretensões, muito janotismo, e, para cúmulo de desditas e de ridículo, penteados com essa meia instrução, que, no dizer de certo fisiologista, é pior do que uma completa ignorância. Paciência!… Já por várias vezes recebera convite dum amigo, natural desta ilha, e antigo condiscípulo de Mafra, para o visitar. O meu amigo, Silves Ferreira, residia no concelho de Santa Catarina, em Achada Falcão. Em primeiro lugar os meus negócios, que, seja dito, se reduziam a memoriais e requerimentos; e depois a distância, nada menos duma dezena de léguas bem estiradas, com os mil inconvenientes que previa anexos a uma tal viagem, me tinham feito hesitar. Eu, que até então apenas havia percorrido em cómodas carruagens o espaço de sete léguas que separa Mafra e Lisboa, por uma estrada plana, concorrida e pitoresca, limitando-se as minhas excursões extraordinárias às clássicas jornadas para os banhos de Ericeira ou de Ribamar, nas circunvizinhanças de Mafra, em pacíficos e bucólicos orelhudos: tinha agora de gandaliar II à usança da terra, isto é, bifurcado nalgum manhoso Rocinante do país, ir à aventura por aí fora, atravessando desertos, ladeando abismos, trepando montes intermináveis para logo me espenhar III do alto deles em
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 131 vales cuja profundeza causa vertigens, e enfim… morrendo de cansaço, de spleen, ou… dalguma queda!… Tal era a perspetiva, na verdade nada agradável, de semelhante viagem, que, todavia, é a coisa mais fácil do mundo para os indígenas, ou para os europeus aclimatados que residem no interior da ilha, os quais, uma vez a cavalo, rivalizam com os próprios Pampas IV americanos. Um dia, porém, fiz a agradável descoberta de que os memoriais eram estéreis, os selos do Tesouro muito caros, e intransponível a porta dos empregos, pelo menos para os que não atassem algum padrinho suculento à chocha certidão de primeiras letras, vacina e folha corrida… Pousei a pena a meio do quinto memorial, acendi um cigarro com o último requerimento, despedi-me dos meus cuidados, montei a cavalo, e parti. Acompanhado dum rapazinho, guia indispensável que o Silves tomara a precaução de me enviar juntamente com a cavalgadura, atravessei a extremidade norte da cidade, onde ainda então se viam essas desgraçadas cabanas que por tanto tempo afearam e infetaram a principal povoação de Cabo Verde, e que já hoje vão sendo varridas de todas as localidades de maior vulto. É este, incontestavelmente, um dos maiores benefícios que, não só a cidade da Praia, mas toda a província deve à administração enérgica do conselheiro Caetano Alexandre d’Almeida e Albuquerque V , o qual ao tempo a que me refiro, acabava de substituir no governo da província o benemérito e sempre lembrado governador Guedes (José) 1 VI , que tivera de lutar com tantas calamidades – e lutara valorosamente – durante o seu governo. Ao vigor inexcedível do sr. Albuquerque a VII que se deve, tanto a reedificação quase completa da moderna cidade da Praia, como para VIII que as medidas tomadas para a extinção das feias palhoças da capital se generalizassem a pouco e pouco a todas as povoações principais do arquipélago. Olvidaremos mesmo a precipitação e demasiado vigor com que tais medidas foram postas em prática; olvidaremos até de bom grado, alguns embelezamentos intempestivos ou excessivamente dispendiosos para as forças da província, para só vermos o benefício prático e real. As boas condições atuais da cidade da Praia são de todos tão conhecidas, e é tão sabido e manifesto o contraste que ela apresenta hoje com o que dantes era, que não me deterei na sua descrição… E aqui vou cortando à larga pelos primitivos bosquejos, que, pelo contrário, se obstinavam nesta descrição, chegando até a dar assalto às fortificações da cidade, e entrando na análise pela defesa do seu porto, dizendo o que havia e o que devia haver, segundo a costumeira inveterada de todas as viagens descritas e por descrever, e tudo isto 1 Depois, Conde da Costa, falecido.
132 | Outros textos em prosa com o pretexto plausível de que o meu cavalo fatigado pela recente jornada e por outras anteriores, se obstinava igualmente em não querer sair da cidade parando a cada passo à porta dalguma das miseráveis choupanas de que atrás falei, como se as achasse apropriadas para estrebaria, no que não pecava, e retrocedendo muitas vezes ao ponto de partida, como arrependido e saudoso… fenómeno que, seja dito em boa verdade, talvez fosse devido à consumada perícia do cavaleiro… Afinal, ajudado pelo criadinho companheiro, conseguira obter do bruto uma locomoção razoável, e havia já deixado atrás as últimas choupanas, quando, trotando no seu burrinho, se me reuniu o meu amigo Luís, também patrício e antigo condiscípulo. A primeira coisa [que] me ocorreu, logo que o pude reconhecer, foi gritar-lhe: – Olá, amigo! dás-me ares de Sancho pança bifurcado no seu rucio… – Salud a mi señor don Quijote! respondeu-me ele, rindo. Luís era também um manqué IX dos estudos. Sabia o espanhol, por exemplo, como eu sei o latim: a gancho X … Trocámos um cordial aperto de mão. Já tinha um companheiro de jornada, caso muito para atender-se em tais circunstâncias. Quando a gente se não alegra em viagem a dois, aborrece-se em comum, o que sempre é mais consolador do que a sós… – Então, amigo Luís, temos passeio… e a repartição às moscas?… – Qual repartição?… – Ora essa!… Já não estás na Secretaria? – Não… Veio um menino bonito de Lisboa, e eu fui posto em disponibilidade… – Sinto deveras, meu pobre Luís!… Neste caso, somos companheiros de martírio… – Deixemo-nos de lamúrias, que nada remedeiam. – Tens razão… E agora o que fazes? – Passeio, como vês… Vou ter com o morgado dos Picos, F., que me ofereceu emprego em sua casa. – Ein?… Tenho ouvido dizer que é um grande intrujão, o tal sr. F…. Luís sorriu-se. – Bem sei! disse ele. Mas tem uma linda filha, que é uma senhora e possuidora dum lindo par de olhos verdes… – Também ouvi falar dessa menina e celebrar esses olhos, assim como a ferocidade com que o pai os vigia… Nunca traz a filha à Praia, nem mesmo consente que a vejam os raros amigos que o visitam nos Picos, salvo algum caturra velhote… – Pois vi-a XI eu, mesmo sem ser velho nem caturra… verdade seja que foi a ocultas, e não sem perigo…
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 133 – E é realmente bonita?… – Divina!… – Bravo, Luís!… sempre com a caminha na água?… – Ela nem me conhece! Vi-a sem ser visto mas havemos de travar mais amplo conhecimento. Para isso é que me fiz amigo do pai na Praia, que o lisonjeei, que o reduzi a ponto de não poder passar sem mim; e como ele se aborrece mortalmente nos Picos, e eu estou desempregado, ofereceu-me o lugar de seu escriturário, com boa retribuição… Não pude conter uma gargalhada pois estava bem informado dos hábitos do homem, que era um perfeito morgado arruinado. Vivia de expedientes, e as promessas nada lhe custavam. – De que te ris? perguntou Luís, afetando seriedade. – Rio-me da tua ingenuidade… – Deveras?… Pois guarda o teu riso para melhor ocasião e melhor objeto… Se não fosse esta ingenuidade, teria eu engrolado o meu homem?… – Toma cuidado, Luís!… Dizem que ele é brutal… contam-se coisas extraordinárias… – Ora adeus!… disse o meu amigo, encolhendo os ombros com o heroico desdém e a filosófica indiferença de d’Artagnan quando viu que não podia contar senão consigo mesmo para raptar o terrível Monk XII do meio do seu exército vitorioso. Esse Luís, devo dizê-lo, sem ser propriamente um vagabundo nem um fura-vidas, era, contudo, uma espécie de boémio, sem família, vivendo ao Deus dará, sem dinheiro e sem cuidados; mas, de porte irrepreensível: um pobre rapaz, em suma, ou um bom em toda a aceção XIII da palavra. Como o amigo Luís é o herói do romancinho obrigatório destas viagens, espero que me serão relevados estes dois traços a crayon, do seu perfil. Mudámos de assunto, e, cavaqueando alegremente, prosseguimos a jornada. Sempre seguidos pelo pequeno embaixador do Silves que nos acompanhava a pé e sem nenhuma fadiga, em breve deixámos atrás a pequena aldeola do Mont’Agarro, composta apenas de meia dúzia de palhoças, mas bem conhecida por ser ali a única nascente de boa água, cuja canalização abastece os moradores da cidade da Praia onde há um belo depósito que a recebe, construído sob o governo do conselheiro Albuquerque. Começámos então a saborear os prazeres da digressão… eu, principalmente, que, segundo já disse, nunca me vira metido em tais cavalarias. O sol começava a queimar-nos deveras, e… nem uma casa!… nem uma árvore!…
134 | Outros textos em prosa Tudo nu, deserto, escalvado, árido… longe a perder de vista!… 2 Ora; eu adoro as árvores, essas primogénitas irmãs nossas, como lhes chama o príncipe dos poetas portugueses contemporâneos, o imortal Castilho XIV : e a primeira coisa que perguntara, na Praia, foi, se o caminho seria arborizado. Riram-se da pergunta; mas para me não desanimar, disseram-me que em S. Domingos, dali a três léguas, encontraria basta e luxuriante vegetação. E caminhávamos… como uns desesperados, sem avistar coisa alguma!… Só o nosso pequeno guia parecia ser indiferente ao sol e à fadiga. Dizendo guia, refiro-me às funções honoríficas do rapazito em relação à minha pessoa: porque o amigo Luís, esse conhecia a ilha aos palmos. Finalmente pelas nove horas da manhã avistámos Ribeirão Chiqueiro, a única étape regular no caminho que levávamos, embora seja outra aldeola pouco superior à do Mont’Agarro, mas em bonita situação para uma vilazinha ou aldeia mais regular e mais asseada… Seria uma sofrível estação comercial entre a Praia e o interior da ilha… se houvesse comércio que mereça esse nome e se em Cabo Verde se soubesse aproveitar alguma coisa… Começam em Ribeirão Chiqueiro as interseções de vales e planaltos da ilha, ou ribeiras e achadas. O sítio é elevado, com lindos e desafogados horizontes, bem lavado de ares… posto que não faltam ali os competentes chiqueiros para dar cor local e justificar o nome da povoação. As brisas, porém, atenuam o mal e preservam o olfato. Avistando Ribeirão Chiqueiro, posso pois dizer que respirámos… sem perigo. Até ali, em nada mudara a perspetiva desagradável da jornada. Atrás, algumas pobres cabanas, as do Mont’Agarro, que deixáramos. À direita e à esquerda, como na nossa frente, extensos terrenos baldios cobertos de restolho pardacento, do meio do qual, a espaços, elevam subitamente o voo alguns pombos bravos, e mais frequentemente feios corvos ou minhotos rapinantes que o ruído dos passos das nossas cavalgaduras assustava. Apenas, quebrando a monotonia da paisagem, à medida que avançávamos e conforme os acidentes do terreno, avistávamos ao longe sucessivas cordilheiras de montanhas, erguendo as formas denticuladas, cujos cumes se destacavam vigorosamente no azul puríssimo da atmosfera, esfumados por essa agradável meia-tinta que a distância espalha sobre os objetos. 2 Contudo, nos arredores da Praia há sítios deleitosos, como o aprazível retiro de S. Jorge, pertencente ao falecido comendador Henrique José d’Oliveira; a Caiada, do negociante Vítor José de Melo; Bom-Coio, a Trindade, S. Martinho, etc., verdadeiros oásis perdidos em áridas solidões, ou escondidos em negras furnas.
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 135 Vegetação: nenhuma. Somente, de vez em quando, víamos o terreno circunvizinho eriçado aqui e além dalguns tortolhos XV e outras plantas adstringentes, ou surgia, ao longe, algum solitário espinheiro, recurvando-se logo a pouca altura do solo e estendendo-se em posição horizontal, como um til enorme lançado no espaço. A contrastar, também um ou outro carrapateiro arrojava às nuvens, do seu largo pedestal de lanças, a frecha colossal, que, se a baloiça o vento, parece o mastro dum navio desarvorado. Se compararmos agora aquelas moitas de tortolhos, ou torta-olhos, às rare[a]das farripas duma caveira roída pela terra e pelos vermes, ver-se-á que tal paisagem não era das melhor delineadas para alegrar o espírito. A mesma penosa impressão, que então sentia, se apoderara de mim quando, em regresso de Lisboa, avistara as costas escalvadas destas ilhas. E como não ser assim, se havia passado largos e melhores anos da vida em Mafra, terra tão rica de alamedas, tapadas e jardins frondosos! E se visitara Sintra, a formosíssima Sintra[,] o eterno paraíso de verdura, um daqueles lugares em que, na terra e com os nossos pobres olhos humanos de tão estreito alcance, nos parece ver o Criador de todas as maravilhas do Universo sentado sobre um trono de esmeraldas; e onde, pelos troncos antigos, pelas escuras abóbadas de folhagem rumorosa e sempre virente, sussurram tão vagas saudades dum passado ignoto, e – quem sabe? – talvez duma outra existência já olvidada, do céu talvez… nalgum outro planeta melhor! Que se me não julgue visionário, panteísta, ou coisa pior… poeta, por exemplo!… Não sei contudo como explicar as dulcíssimas e saudosas impressões que ainda hoje sinto, eu um pobre e rude africano, ao lembrar-me das formosas tardes passadas nalguma vetusta quinta do nosso velho Portugal como a Cerca do Convento em Mafra, a Quinta do Pombal em Oeiras, etc.! Os próprios lisboetas, que nunca passaram do seu rococó Passeio Público, das suas miniaturas pretensiosas da Estrela e de S. Pedro de Alcântara, das suas solidões hipotéticas, dos seus bosques de convenção, das suas grutas que parecem cascas de ostras, das suas cataratas sequiosas, Niágaras que não dariam para um douche sofrível, e da sua poesia bucólica traçada a cordel… esses mesmos, não me compreenderam. Por isso… meto a lira no saco, e volto aos meus bosquejos que, diga-se em abono da pena com que os tracei primitivamente, não dizem nem meia palavra dessas poesias: mas em compensação estendem-se em longas dissertações sobre a utilidade da arborização e sobre isto e mais aquilo da agricultura, terminando por estes dois períodos seguintes, que têm tanta ligação entre si como o nariz dum poeta com uma nota de cem mil réis! ……………………………………………………………………………………………
142 | Outros textos em prosa também os copados mamoeiros e os elegantes acajus, cobrindo com a sombra de sua folhagem espessa grandes circunferências de terreno; os frutos de ambas as espécies constituem ótimos regalos, mas não dão para comércio nem para a indústria da destilação. Os marmeleiros, posto que exóticos, dão-se perfeitamente nesta e em várias outras ribeiras da ilha, e deles se faz excelente marmelada para o consumo doméstico; temo-la provado em várias ocasiões, principalmente na fazenda do Bom Jardim, desta mesma ribeira, em casa do nosso velho amigo e inteligente cultivador, o sr. João José Coelho de Mendonça, que nessa mesma fazenda possui também as melhores tangerinas e uma bela plantação de café, muito prometedora. As belas palmeiras, abanando indolentemente, ao sopro da brisa os seus graciosos leques perfumados e vergando ao peso dos amarelados cachos, e coqueiros gigantescos, elevando aqui e além seus troncos esguios e caprichosamente inclinados, tornavam mais pitoresca a paisagem. De longe em longe, algum solitário gigante da vegetação, esquecido pelos séculos e respeitado pelas gerações, perdido nalgum recôncavo afastado, arrojava às nuvens o seu majestoso domo de verdura: há assim, espalhados pela ilha, alguns belos exemplares de poilões, calabaceiras e figueiras seculares, que despertam a admiração de quantos os contemplam, e que, se fossem mais conhecidos, teriam sem dúvida, lugares de honra entre as maravilhas da vegetação, catalogadas pelos viajantes curiosos e instruídos: e na sobredita fazenda do Bom Jardim tivemos, mais tarde, ocasião de admirar por muitas vezes um poilão de tal corpulência, que o seu tronco daria para uma habitação razoável, com várias subdivisões, se estivesse todo escavado; mas é tão velho e tão singular, que, dum lado completamente ressequido, cai a pedaços, esboroando-se em pó[,] ao passo que do outro lado, olhando para o nascente, tem a cortiça perfeitamente vivaz, coroando-se a uma altura prodigiosa, da mais opulenta e verde folhagem; metade da árvore está morta, enquanto na outra metade circula com todo o vigor a seiva pujante! Gigantescas aves de arribação fazem o seu pousio predileto no cimo alteroso do poilão, por onde roçam as nuvens, conservando-lhe, nos eflúvios prolíficos da natureza, perene verdura e mocidade. Não é crível que jamais houvesse na ilha, nem em Cabo Verde, como se tem escrito, florestas compostas dessas árvores colossais, porque a sua devastação completa exigiria séculos muito mais numerosos do que os transcorridos desde a descoberta do arquipélago. A beleza da paisagem que contemplávamos (e de que insensivelmente nos íamos afastando), era porém um tanto prejudicada pelo aspecto contristador das habitações disseminadas por todo o vale, e na maior parte uniformemente cobertas de colmo denegrido, com as paredes em osso, negras e toscas.
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 143 Ainda não vi coisa mais triste do que essas cabanas do interior, onde parece impossível que se possa viver! Vistas do alto, em distância, calcinadas e pulverulentas, assemelham-se a enormes penedos espalhados na planície ou pendurados pela encosta dos montes. A única satisfação que se experimenta é se dentre habitações tão miseráveis sobressai uma casinha branca, por mais exíguo que seja o seu vulto. E se for azul… então?… Verde… nem falemos nisso!… Oh! é dum luxo fabuloso, dum encanto puramente oriental, o rebocar uma casa e dar-lhe uma demão de ocre ou vermelhão, quando se não possa pintá-la de amarelo ou encarnado; e ladear as avenidas, que vão dar a essas habitações de fadas, com algumas roseiras, ou, pelo menos, com Eloendro, conhecido pela designação vulgar e característica de Espirradeira (Nerium oleander), arvoreta muito vivaz, ramalhuda, de longos esgalhos povoados de bastas flores duma cor de rosa desmaiada, realmente lindas!… Ao entrar na ribeira de S. Domingos propriamente dita, isto é, onde começavam as hortas, alegrou-nos a vista, de longe, uma dessas habitações principescas, posto que não passasse dum simples, embora vasto, edifício à europeia. 3XXIV Estas são as habitações privilegiadas. As comuns, embora possam diferir interior e exteriormente, enquanto à vastidão, distribuição e mobília, segundo as posses dos proprietários, contudo, oferecem ao longe o mesmo aspeto mesquinho e miserável. Em toda a parte, porém, e qualquer que seja a habitação, há movimento, vida, alegria: e no decurso da jornada, como posteriormente em tantas outras ocasiões, não poucas horas agradáveis passámos no interior dalguns desses pobres tugúrios. Esperto, alegre, hospitaleiro, e sobretudo chistoso e picaresco, além de namorador consumado na quinta-essência do galanteio requebrado, é no seu interior doméstico, no seu home, que bem se pode conhecer e apreciar esse ente essencialmente ativo e laborioso, a que, por um gracejo de mau gosto, se convencionou chamar o vadio XXV ! Uma deliciosa brisa, bem diferente do vento impetuoso e abrasador, ou da calma plúmbea que por vezes reina e pesa sobre as achadas, trazia-nos os perfumes variegados da rica vegetação da ribeira, acamando na passagem os longos penachos argênteos das canas que ondeavam graciosamente como vagas prateadas. À beira da estrada, algumas copadas laranjeiras, vergando ao peso dos frutos, pareciam convidar-nos a saborear seus deliciosos dons. Muitas laranjas, caídas pelo próprio peso, pela força do vento, ou estado de maturação completa, juncavam o solo debaixo das árvores. 3 Esta casa, centro duma vasta e importante propriedade agrícola, pertence ao meu ilustre amigo, o comendador Hipólito Olímpio da Costa e Andrade XXIV.
144 | Outros textos em prosa – Que alma cristã, exclamei compungido, poderá deixar apodrecer tão belos pomos?… – Tu, certamente que não! observou Luís, rindo. Como para não deixar em falso o bom conceito do meu amigo, voltei-me para o nosso guia, e ordenei-lhe que apanhasse algumas daquelas frutas. O rapazinho, ou não me ouviu, ou fez ouvidos de mercador. Nova ordem: põe-se-me a assobiar sem mais cerimónias! – O maldito não entenderá o português? perguntei a Luís. O gaiato cessou imediatamente a sua extravagante melopeia, e pôs-se a rir, com ar sorrateiro e malicioso. – Bem vês… obtemperou Luís. Escusas de te cansar: os nossos patrícios respeitam escrupulosamente o sétimo dos mandamentos XXVI … (Aqui, tenho de cortar uma longa tirada laudatória; tanto mais, que houve não sei que maganão, talvez mesmo o tal amigo de má morte, que me anotou à margem, nos Bosquejos originais: – Mentira! ladrões como ratos!… – Estes patrícios, sempre gostam de afirmar o contrário do que a gente quer dizer!…) Sem prestar atenção às objurgatórias do amigo Luís, e praguejando contra o nosso escrupuloso ciceroni XXVII , apeei-me; e, ao mesmo tempo que o pequeno fugia, assustado com a previsão dalgum sacrílego corretivo à sua virtude, saltei o derrocado murozinho que se elevava quase até ao nível da estrada, pois esta domina as hortas, e colhi meia dúzia de ótimas laranjas, não das do chão, mas das que me contendiam imediatamente com a copa XXVIII do chapéu. Desta vez, aceitando os factos consumados, o amigo Luís não se fez melindroso nem rogado; e até me recordou com prazer o tempo, em que éramos o terror das hortas de Mafra, especialmente daquelas que destinavam seus frutos à mesa de sua majestade fidelíssima, legítimo senhor e possuidor das sobreditas hortas… Como eram deliciosas as tangerinas do tio Bonifácio, as nêsperas do sr. Abílio, e as belas peras e os doces morangos do António da horta, caseiros de sua majestade!… Aquilo, só para rei… ou estudantes!… Valha a verdade, porém, e apesar do que deixo dito em relação às nossas pouco variadas sobremesas, – nada melhor do que as soberbas laranjas desta ilha! e destas falo, pois as das outras, onde as haja, são mais que medíocres. O elogio desta nossa bela fruta acha-se consignado, segundo todas as induções, no Poema das glórias portuguesas, quando o grande Épico diz:
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 145 Àquela ilha aportámos, que tomou O nome do guerreiro Sant’Iago. ………………………………… ………………. E assi deixámos A terra onde o refresco doce achámos. XXIX Evidentemente, a frase – refresco doce – é mais parafrástica do que simples convenção do metro, ou figura poética. Pelo menos, levava ela determinada intenção do Poeta, que é impossível não saboreasse as nossas famosas laranjas, pois, no dizer de Francisco Maria Bordalo, o ameno autor d’ Um passeio de sete mil léguas: – «Camões, apesar de torto, gostava bem do que é bom…» XXX . V Capítulo dos burros Oh deuses imortais!… Aonde nos iam levando as divagações?… A sete mil léguas de S. Domingos!… Verdade seja, que lá estivemos a 96000 léguas… na Lua! Mas, não tenha o leitor pressa, que também os nossos viajantes a não têm, ou, pelo menos, parecem não tê-la, de sair da ribeira: não tanto de cativos pelas belezas desta, como pela vagarosa andadura dos animalejos em que montavam. O meu ginete não era dos mais fogosos, e além disso estava cansado, como creio ter já dito por efeito da recente jornada; mas o burro do amigo Luís… quero dizer, o burro em que montava o meu amigo, era… a pérola dos burros!… O Burro… que mistério!… Eia, sus! boémios da literatura ligeira, heróis de folhetim, cavaleiros andantes da Prosa! prestai mão forte, que temos assunto gigante!… O Burro! o Burro!… que espiga!… Ah! se eu pudesse descrevê-lo… historiá-lo… Quem me empresta a pena de César Machado XXXI , ou a de Augusto Joltrois?… Precisamente, e quer me acreditem, quer não, tenho na estante há dois dias, mas não li ainda, por falta de tempo, – O Burro através dos Séculos –, por Augusto Joltrois, trasladado por F. Guimarães Fonseca XXXII . Já se vê, contudo, que não poderia resistir à tentação de ler as primeiras páginas, tanto por antegosto da poderosa distração que o livro promete, como para me inteirar do plano da obra e intuito do autor.
146 | Outros textos em prosa O autor é… o próprio Burro! e trata, já se vê, da sua reabilitação perante a história, natural e profana, em face desse outro animal, supinamente parvo e teimoso, chamado – o homem; animal tão manhoso, que pretende carregar os seus próprios defeitos mais pesados, e as suas próprias manhas, às costas do pobre Burro; e assim é que faz as acusações capitais de – estúpido, preguiçoso, cabeçudo e manhoso!… Longe de mim agora a ideia de escrever a fisiologia e psicologia do Burro!… Entretanto, em que passe ainda por vaidoso, não posso deixar de notar a coincidência de haver eu às mãos a obra de Joltrois, exatamente quando, a propósito de um dos quadrúpedes que figuram obrigatoriamente nestes bosquejos e digressões, me acendiam à memória as seguintes linhas, que há muito esbocei nos meus desalinhados apontamentos literários: «O Burro é um animal de quatro pés, mais engraçado do que o macaco, mais inteligente do que o cão, mais sóbrio, mais laborioso, mais pacífico, e, sobretudo, mais útil do que o homem. Sim… mais útil!… O que seria do homem sem o burro?… E, pelo contrário, para que precisa o burro do homem, que o sobrecarrega de trabalho, e ainda por cima o maltrata e calunia?…» Nos meus apontamentos não julguei necessário, nem aqui vem a propósito, definir e sustentar os outros pontos da minha tese… burrical, se assim convém chamar-lhe. O leitor que leia Joltrois, como eu o vou ler, e estou certo de que encontraremos bem defendidas, e com sólidos argumentos, as proposições que deixo enunciadas. Como ignoro ainda, porém, se o autor do Burro através dos Séculos achou também engraçado o seu herói, e sem me prevalecer do testemunho insuspeito do filósofo que arrebentou de riso – morreu a rir –, por ver o seu burro comer uma pera XXXIII , sempre direi que prefiro a jovialidade natural do burro, tanto mais notável quanto contrasta com uma fisionomia naturalmente carrancuda e desgraciosa, ao rictos forçado e puramente bestial do macaco. Eram estas as reflexões que fazia comigo mesmo, contemplando as proezas e manhas do burro em que montava o amigo Luís, e cujos caprichos retardavam cada vez mais a jornada. Embora Joltrois sustente, na introdução ao seu Burro, que este animal não é teimoso, mas simplesmente sistemático e prudente, e apesar das nossas particulares simpatias por ele, não podemos deixar de conceder, contudo, que o burro é um tanto manhoso… verdade seja, que é mais maligno do que manhoso. Tenho lidado muito com ele, e conheço-o… em desconto de meus pecados!… Maligno, porém, não quer dizer mau, mas apenas – malicioso… E se quase posso dizer que não há quilómetro de estrada, em todas as ilhas de Cabo Verde, que não esteja regularmente abalizado pelas minhas costelas, graças às malícias do burro, tenho ra-
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 147 zões muito particulares para não falar de seus ligeiros defeitos sem começar por fazer justiça, reconhecido, às suas boas qualidades, e principalmente à solidez e firmeza de suas pernas, ao seu admirável instinto natural, talvez mesmo à sua heroica dedicação… Devo-lhe a vida, como terei ocasião de contar quando escrever o meu – Cabo Verde à vol d’oiseau XXXIV –, completamente XXXV indispensável destas maravilhosas viagens. Agora, se quereis provas da sua malícia, olhai… Caminhais de jornada, não já por uma estrada sofrível, mas pelos ínvios e escabrosos atalhos de qualquer destas ilhas. Acabais de descer, com o credo na boca, um imenso desfiladeiro, impossível para qualquer outro meio de transporte, que não seja o dorso e o pé seguro do burro. Na vossa frente, ergue-se agora basta sebe viva do purgueiral, tapando o caminho: mas, há nela uma estreita abertura, por onde se pode passar. Cuidado, porém, que a porta é baixa… Os ramos entrecruzados das purgueiras adjacentes, formam à clareira uma espécie de ogiva espessa de que me devo resguardar abaixando a cabeça até tocar o pescoço do burro… Pois bem! depois de me ter tirado, a salvamento, dum tão apertado lance como o anterior, o burro, que parece morto de cansaço, para um momento, arrebita as orelhas, e… ai de mim se não estou habituado! ei-lo que, a pretexto de livrar-se das moscas que o apoquentam, fazendo-as sacudir pelos ramos da estreita vereda, ei-lo que enfia de repente, como um foguete, por aquela espécie de furna vegetal, sem dar-me tempo de abaixar a cabeça nem firmar nos estribos, e, portanto, fazendo-me bater com o peito ou a cabeça na tal ogiva, e deixando-me estendido no meio do chão ou espetado no purgueiral como um Judas de palha!… O menos que acontece, é ficar-me o chapéu furado nalgum ramo, servindo de espantalho aos pardais!… E já me acontece[u] este acidente de todas as três maneiras, para variar… e aprender, pois é precisamente com os cavaleiros inexpertos que o maligno usa e abusa destas gracinhas. O burro!… o burro! Que pulha! O amigo Luís não tinha esporas. Eu tinha duas, que o Silves se lembrara, felizmente, de me enviar: e, portanto, cedi-lhe uma… Pior!… O nosso burro, que, depois de velho se tornava filósofo, ou gaiteiro, o que é a mesma coisa, se não me engano… era um burro d’aluguel: quer dizer que, depois de ter andado honestamente as suas duas léguas, da Praia ao Ribeirão Chiqueiro, sem trepidar, tanto por honra da firma como para comprazer ao dono: afinal, pusera-se XXXVI a refletir… Ora é sabida coisa que ninguém reflete a galopar… e o peso da reflexão é excessivo, além da carga de cuidados habituais, a gente vai então devagar… devagarinho… mesmo estacando a espaços, ruminando… como se costuma dizer. Assim, o nosso burro começou a refletir com as suas longas orelhas:
148 | Outros textos em prosa – Que diacho!… O bruto de meu amo (seria honra demasiada chamar-me burro), além de não me dar parte no salário (hein? era um burro socialista!), além de matar-me de fome, ainda em cima confia-me por uns poucos de dias, sem cuidados e sem remorsos, aos maus-tratos caprichosos e variados do primeiro desconhecido que lhe aparece, pouco se lhe dando se terei, ao menos, de comer e beber fora de casa… e Deus sabe a fome e sede que tenho passado neste mundo… não fome e sede de justiça, infelizmente, que para isso talvez os próprios burros achassem remédio… com a morte: mas, fome e sede de palha e água, que é pior!… Então… para que diabo afadigar-me?… Sou velho e trôpego, sinto-me cansado… toca a ruminar!… O resultado imediato desta ruminação do burro, era atrasar-nos cada vez mais. Ora, o sol queimava-nos deveras, estávamos apenas a meio da ribeira e não tencionávamos parar senão nos Órgãos, onde nos esperava o almoço… o verdadeiro almoço. Portanto, eu impacientava-me, zangava-se o Luís… e o burro pagava: maneira de falar, porque ele já não se pagava de bordoadas; em vez de andar mais depressa, como era nossa intenção e segundo a lógica das bordoadas, o animal, pelo contrário, estacava, fingindo uma cândida surpresa, ou, por demais, estendendo a dentuça aos longos folhedos das canas-d’açúcar, pendentes à beira da estrada. Afinal, eu, o Luís e o burro, perdemos todos a paciência! e foi então que as esporas e os coices começaram a trabalhar… Ora, o Burro não gosta de ser espicaçado, isto é inquestionável; principalmente, se vai meditando nalgum problema transcendental, tendo por objeto a alimentação da espécie asinina… – Este animal que levo em cima de mim… bem contra a minha vontade, e contra toda a justiça e razão… palavra de burro! este animal, o homem[,] prefere talvez o sumo da cana, e é por isso que me bate!… O seu alimento principal é a contradição; prefere a aguardente, que embrutece, ao □ VI Imagine-se um tapete como o que veste as escadas das casas ricas e de bom gosto, largo apenas de dois a três palmos, e tendo de comprimento dez a doze pés, mas com uns três dedos de espessura em toda a sua extensão, direito e liso à vista, como se fora talhado à tesoira, e amarelo vivo, vivíssimo, capaz de deslumbrar o próprio imperador da China! Partindo da beira da estrada, essa tira vegetal corria primeiro por sobre um penedo coberto de ligeira camada de terra, e continuava até perder-se em distância, nas verten-
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 149 tes duma ribeira coberta de densa vegetação, o que demonstrava não estar seco o leito dessa ribeira. O terreno, em roda, era acentuadamente argiloso, encorpado XXXVII e fresco, senão húmido. Mas onde nascia tão extraordinária planta, pois que o era realmente? Onde terminava?… Eis o que eu não saberia dizer!… Parecia estar aderente à terra em toda a sua extensão, mas dela se despegava facilmente em todo o comprimento, produzindo uma ligeira escoriação muito à flor do solo, à medida que, erguendo o braço, ia levantando essa espécie de tapete (já que não acho outro termo de comparação). Esta singular produção era composta, em toda a sua espessura, e em todo o comprimento e largura, uniformemente, dum inextrincável trançado de filamentos, florinhas e grânulos, amarelos à superfície, de cor menos viva no interior do tecido, e esverdeados no reverso ou face aderente ao terreno. Não querendo, nem podendo arrastar tudo aquilo atrás de mim, cortei-lhe a canivete uma tira, que poucos dias depois estava seca, mas mole, descolorida, apresentando absolutamente o aspeto e quase a elasticidade e consistência duma esponja. É natural, é mais que provável que a ciência já esteja de posse desta maravilha vegetal: mas o certo é que ninguém nesta ilha me soube dar notícia dela, ou reconhecê-la, mesmo à vista do espécimen ou amostra que por muito tempo conservei, nem mesmo um ilustrado amigo meu residente no interior da ilha e nela proprietário, ocupando as suas inteligentes horas vagas no estudo e colecionamento das curiosidades naturais da terra, e que há pouco tempo ainda havia acompanhado um ilustre naturalista francês numa exploração pelo interior. Ultimamente, porém, conversando eu sobre o assunto com um cavalheiro de subida ilustração e muita leitura[,] me disse ele que vira descrição parecida numa obra de Stanley XXXVIII , o qual tinha transcrito dum outro autor, que descobrira esta planta, ou coisa que o valha, na África equatorial. A circunstância do aspeto de musgo e de penedo coberto de ligeira camada de terra vegetal, mencionada pelo sobredito cavalheiro como lida em Stanley, sem que eu lha referisse na minha observação, acabou de me convencer de que efetivamente eu tivera a dita de ver e possuir um verdadeiro fenómeno vegetal e tão raro que nunca mais o vi reproduzido, nem mesmo no próprio sítio em que o descobri por acaso, e por onde tenho transitado frequentemente, em todas as quadras do ano! A verdade aí fica, sem glória nem vanglória para um mesquinho profano da ciência, completamente leigo no assunto.
150 | Outros textos em prosa Para cada país variou a natureza os seus prodígios, e a cada passo nos surpreende com o espetáculo de novas maravilhas. Dentre todas as ilhas de Cabo Verde, esta é talvez, a que mais vestígios apresenta da terrível comoção que as arrojou do fundo do mar, a dilatação dos gases no interior do globo. Daí, formidáveis depressões, levantamentos prodigiosos, esboroamentos, cavernas, cones colossais, alguns ostentando no cimo, como brincos de gigantes, penedos mantidos num equilíbrio realmente assombroso, e mil caprichosos recortes pela aresta das montanhas, como os que se observam na disposição dos montes, cuja configuração deu nome à região em que entrámos, – os Órgãos. Já de S. Domingos tínhamos observado um desses monólitos, que parecem suspensos entre o céu e a terra, o qual oferece o singular aspeto duma estátua monumental, tendo por base um monte. Mais ao diante dos Órgãos, nos Picos, denominação também assaz característica, há o monte da Galité, de não menos singular estrutura 4 . Alguns vales ou ribeiras da ilha oferecem, na configuração das bacias que formam, e nas anfractuosidades das suas muralhas, toda a conformação das galerias subterrâneas dum vulcão. Um destes vales vi eu depois no caminho de Santa Catarina para o Tarrafal cujos escarpamentos lhe davam muita semelhança com o célebre anfiteatro denominado Vale das Sete Cidades, que se admira na ilha de S. Miguel, Açores. A forma das montanhas não é menos singular. Dir-se-ia que o fogo do céu, desafiado pela medonha convulsão submarina, desceu fulminando e faiscando a capricho aqueles serros altíssimos e denegridos, em que sobressaem as projeções basalíticas. Todo esse conjunto é dum pitoresco e dum belo terrível: porque, na obra perfeita da criação, mesmo o terrível é belo. E todavia, apesar da sua aparência calcinada e estéril, poucas terras se encontrará, mais férteis do que esses vales e as encostas desses montes, quase todas cultivadas; porque só nas proximidades ao litoral, nas altas achadas batidas dos ventos, ou nas propriedades dalgum preguiçoso e tacanho morgado, é que se encontram extensos terrenos baldios, que nem eles cultivam, nem deixam expropriar, como já vimos. O que mais me admirou, porém, nesta primeira excursão ao interior da ilha foi, como pudesse haver comunicações entre tantas e tão rareadas povoações, disseminadas 4 Anos mais tarde, uma ascensão a este mesmo monte ia-me custando a vida. Tendo chegado perto das três agulhas que o cercam, resvalou-me um pé, deslocando-se a pedra em que o apoiava, mas valeu-me um tronco da previ[de]ncial purgueira, tão amiga dos pedregais, que por eles trepa até àquelas alturas!
Bosquejos dum passeio ao interior da ilha de Santiago | 151 por todo o país, através de montanhas que parecem inacessíveis, e de vales para cuja descida, à primeira vista, se careceria de cesto e roldana, como para um poço! Estas dificuldades, porém, são puras ninharias para o habitante do interior; e, eu mesmo tinha, malgré moi XXXIX , de operar tais prodígios mais duma vez no decurso desta jornada e doutras subsequentes já menos custosas. Fechava os olhos, encomendando-me devotadamente a todos os santos do calendário, e não poucas vezes também, com menos devoção, a todos os diabos do inferno; e de súbito, achava-me no fundo duma furna ou no pináculo dum monte, apalpando cuidadosamente a espinha dorsal em toda a sua extensão, e examinando se o meu cavalo teria, qual outro Pégaso, as propriedades do hipogrifo. E ainda dou graças a Deus, de não ter feito esta jornada na estação pluviosa, em que tais caminhos se tornam impraticáveis, escorregadios, cortados de barrancos e fossos cavados pelas enxurradas, obstruídos de penedos enormes, verdadeiros blocos erráticos postos a nu ou carreados pelas cheias, acrescendo, torrentes e lameiros a vadear, e a terrível praga das moscas, e os coices incessantes, as contínuas escorregadelas, e quedas não pouco frequentes das cavalgaduras, principalmente se levam cavaleiros inexpertos. E de noite?!… Horrível!!… Da Praia até aos Órgãos, a estrada pode-se dizer excelente; aberta através de montanhas, ou rodeando as suas encostas mais suaves, é sempre larga, plana, e limpa: por isso as descidas e subidas, apesar de frequentes, não se tornam demasiado incómodas, ou, pelo menos, perigosas. Dali até ao centro da freguesia de Santa Catarina, ainda é na maior parte boa; e na restante sofrível. Mas, de Santa Catarina ao Tarrafal era, e ainda é, péssima!… Já era quase meio-dia, a julgar pela altura do sol, cujos deslumbrantes jorros de luz não deixavam sombra a uma pedrinha, quando súbito, numa volta do caminho, demos cara a cara com o nosso amigo Silves Ferreira, que vinha ao meu encontro – ou à minha procura, como ele dizia maliciosamente. Apeados, abraçados, motejados e ridos, tornámos a montar continuando a jornada com mais desafogo, mesmo porque dali em diante o caminho descia em suave declive, embora com rodeios caprichosos e pitorescos, até à casa do nosso amigo. – Vês esta pontezinha de madeira? Perguntou-me o Silves. – Vejo, sim… – É o limite da minha propriedade. Tudo isso que aí vês, para além dessa ribeira, montes e vales… tudo me pertence. – Ah! bárbaro! Aposto que também és morgado!…