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Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto - proposta de exposição e roteiro

Carlos José Furtado Ferreira

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Carlos José Furtado Ferreira Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto – proposta de exposição e roteiro Relatório de Estágio realizado no âmbito do Mestrado em História e Património – Mediação Patrimonial, orientado pela Professora Doutora Inês Amorim e coorientado pela Professora Doutora Paula Menino Homem, pela FLUP, e Dr. Paulo Amaral, pela Direção Regional de Cultura do Norte Faculdade de Letras da Universidade do Porto Setembro de 2015 Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto – proposta de exposição e roteiro Carlos José Furtado Ferreira Relatório de Estágio realizado no âmbito do Mestrado em História e Património – Mediação Patrimonial, orientado pela Professora Doutora Inês Amorim e coorientado pela Professora Doutora Paula Menino Homem, pela FLUP, e Dr. Paulo Amaral, pela Direção Regional de Cultura do Norte Membros do Júri Professora Doutora Maria Helena Cardoso Osswald Faculdade de Letras – Universidade do Porto Professor Doutor António Manuel Ponte Faculdade de Letras – Universidade do Porto Professora Doutora Maria Inês Ferreira de Amorim Brandão da Silva Faculdade de Letras – Universidade do Porto Classificação obtida: … Valores 3 4 Sumário Agradecimentos……………………………………………………………………....… 6 Resumo…………………………………………………………………………………. 7 Abstract………………………………………………….……………………………… 8 Introdução .......................................................................................................................... 9 Metodologia ..................................................................................................................... 12 Fontes e Bibliografia ....................................................................................................... 15 Estrutura do Relatório ...................................................................................................... 19 1. Capítulo 1 – Estágio .................................................................................................... 21 1.1 Instituição de acolhimento. Direção Regional de Cultura do Norte: espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar ........................................................ 21 1.2 Integração nas atividades e funções da instituição de acolhimento ...................... 23 1.3 Objetivos propostos, aprendizagens e dificuldades .............................................. 28 2. Capítulo 2 – D. Pedro IV e o Cerco do Porto: História e Património ......................... 31 2.1 História: Antecedentes e Conjuntura .................................................................... 31 2.1.1 A propagação do Liberalismo pela Europa .................................................. 31 2.1.2 O início do século XIX em Portugal ............................................................ 32 2.1.3 D. Pedro IV e a Carta Constitucional ........................................................... 35 2.1.4 “Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar” ............................ 38 2.1.5 O fim da Guerra Civil e a morte de D. Pedro IV ......................................... 43 2.2 Património e Memória: a Cidade Liberal ............................................................. 46 2.2.1 Património, Memória e Identidade ............................................................... 47 2.2.2 O Liberalismo............................................................................................... 49 2.2.3 D. Pedro IV e o Cerco .................................................................................. 51 3. Capítulo 3 – Projeto: roteiro/exposição “D. Pedro IV e o Cerco do Porto” ................ 58 3.1 Roteiro/exposição: conceito e objetivos ............................................................... 58 3.1.1 Roteiro/exposição: 1ªfase ............................................................................. 59 3.1.2 Roteiro/exposição: 2ªfase .............................................................................. 62 3.2 Os locais ................................................................................................................ 64 3.3 As vantagens de se assinalarem datas históricas .................................................. 66 5 3.4 Viabilidade na continuidade do projeto ................................................................ 67 Considerações finais ........................................................................................................ 71 Fontes .............................................................................................................................. 74 Bibliografia ...................................................................................................................... 75 Recursos Eletrónicos ....................................................................................................... 79 Legislação ........................................................................................................................ 80 Anexos ............................................................................................................................. 81 Anexo 1 ....................................................................................................................... 82 Anexo 2 ....................................................................................................................... 85 Anexo 3 ....................................................................................................................... 86 Anexo 4 ....................................................................................................................... 87 Anexo 5 ....................................................................................................................... 88 Anexo 6 ....................................................................................................................... 89 Anexo 7 ....................................................................................................................... 90 Anexo 8 ....................................................................................................................... 91 Anexo 9 ....................................................................................................................... 92 Anexo 10 ..................................................................................................................... 93 Anexo 11 ..................................................................................................................... 94 Anexo 12 ..................................................................................................................... 96 Anexo 13 ..................................................................................................................... 98 Anexo 14 ..................................................................................................................... 99 Anexo 15 ................................................................................................................... 103 6 Agradecimentos À minha família, em especial aos meus pais e irmãos, pelo apoio sempre dado e por terem acreditado sempre que valia a pena chegar até aqui. Aos colegas, hoje amigos, que me acompanharam neste percurso que agora finda, pelo apoio e vivências que me proporcionaram, desde 2009 e até hoje, desejando que assim permaneça. Um agradecimento muito especial à minha Madrinha de Curso, a Mestre Cátia Melo, pelos conselhos e incentivos dados ao longo deste percurso. Não poderia deixar de mencionar dois nomes que me acompanharam em todo este percurso, o João Marques, o amigo que foi durante estes anos, pelo que é e será, e o Ricardo Lopes, pela amizade e pelo colega que foi em todas as circunstâncias do meu percurso académico. Um agradecimento ao Dr. Paulo Amaral, pela orientação dada no estágio, pelo empenho e disponibilidade demonstrados. Não posso deixar de endereçar ainda um agradecimento também a toda a equipa do espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, que me acolheu com grande simpatia e disponibilidade. Queria agradecer ainda a disponibilidade e contributo dados pelos diferentes espaços durante o desenvolvimento deste projeto, de um modo especial à Dra. Alexandra Anjos, à Dra. Maria Lobato Guimarães, à Dra. Manuela Rebelo, à Dra. Paula Cunha, ao Dr. Manuel Graça e a tantas outras pessoas que de alguma forma se cruzaram comigo no desenvolvimento deste projeto e com as quais muito aprendi. Como não poderia deixar de ser dirijo um agradecimento muito especial às orientadoras Professoras Doutoras Inês Amorim e Paula Menino Homem pela orientação, incentivo, contributo, disponibilidade e interesse demonstrados ao longo deste projeto e estágio. 7 Resumo O presente Relatório é o resultado do trabalho realizado no estágio, desenvolvido no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, no âmbito do Mestrado em História e Património – ramo de especialização em Mediação Patrimonial, assim como da investigação que suportou as exposições organizadas ao longo do ano e a proposta de um roteiro. O projeto nele desenvolvido tem como título Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto, proposta de exposição e roteiro, pressupondo uma recriação da memória, no ano em que se assinalam 180 anos desde a entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto (18352015). Este projeto pretende, deste modo, contribuir para a gestão do património, no sentido de valorizar, ao interpretar, os traços materiais e imateriais contemplados pela Memória. A História contextualiza, e escava mais fundo, a divulgação aproxima os púbicos e acrescenta conhecimento. A propósito do referido episódio e da ligação de D. Pedro à cidade do Porto que dele resultou, procurou-se envolver várias entidades, o espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, o Museu Militar do Porto, o Museu Nacional de Soares dos Reis, a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e a Câmara Municipal do Porto, e mediar vontades, no sentido de valorizar o espólio que se encontra sob a sua tutela e as ligações históricas que os mesmos têm entre si, encontrando aqui objetivos e interesses comuns. Neste sentido, em duas fases e partindo sempre do local de estágio, o Mosteiro da Serra do Pilar, o visitante será convidado a “revisitar o Porto”, visitando vários locais que aderiram a este projeto. Esta visita fez-se ora pela via de organização de exposições, sob uma narrativa concertada, ora pela proposta de roteiros que interpretam o espaço atual, cruzando-o com o Porto de D. Pedro e do Cerco . Palavras-chave: Mediação, Exposição, Roteiro, D. Pedro IV, Cerco do Porto. 8 Abstract This report is the result of the work developped in the internship, which was took place in Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, for the masters degree in História e Património – specialization in Mediação Patrimonial, as well as the research which supported the exhibits made throughout the year as well as a tour itinerary. The project aforementioned is titled Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto, suggesting the recreation of the memories, in the year in which we commemorate 180 years since the delivery of D.Pedro’s heart to the city of Porto (1835-2015). This assignment aims to contribute to the management of heritage, seeking to value by interpreting the material and immaterial traces contemplated by Memory. History contextualizes and digs deeper, and the diffusion approximates the public and adds knowledge. Regarding the previously cited episode and the connection of D.Pedro to the city of Porto that resulted of it, we aimed to involve various entities such as: place Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, the Museu Militar do Porto, the Museu Nacional de Soares dos Reis, the Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa and the Câmara Municipal do Porto, by mediating their aspirations, in order to value the assests under their tutelage and the historical connections they share, thereby finding similar purposes and interests. In this sense, in two phases and always from the place of internship, Mosteiro Serra do Pilar, the visitor will be invited to revisit Porto, by visiting the various locations that joined this project. This tour was conducted either by the organization of exhibitions, under a narrative, or by suggesting tours which interpret the current space, intersecting it with the period of Porto’s Siege. Keywords: Mediation, Exhibition, Tour, D. Pedro IV, Siege of Porto. 9 Introdução O presente Relatório de Estágio é resultado do projeto desenvolvido no âmbito do Mestrado em História e Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no ramo de Mediação Patrimonial. O estágio, integrado no plano curricular do referido Mestrado, foi realizado no espaço da Direção Regional de Cultura do Norte, Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar. O tema do projeto escolhido, em torno das marcas patrimoniais do Cerco do Porto, encontrou, no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, um local de cruzamento com os objetivos do projeto de estágio, pelas razões que apontaremos. Ao longo de 400 horas, entre janeiro e abril de 2015, aquela instituição foi a base de trabalho de contacto com um ambiente profissional e de oportunidade de investigação em mediação patrimonial. “Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto” foi o título escolhido para o projeto desenvolvido, por significar uma reflexão, uma comemoração, ou seja, uma recriação da memória, no ano em que se assinalam 180 anos desde a entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto (1835-2015). É, ainda, uma proposta que pretende contribuir para a gestão do património, através da organização de exposições e roteiros que promovam e traduzam um processo de interação institucional, no sentido da fruição e comunicação entre as marcas da história, o seu conhecimento, a sua preservação e a valorização do que ontem tinha um significado que se descodifica no presente para o futuro – este é o sentido do património, esta é uma das funções dos gestores do património. Este projeto pretendeu, assim e a propósito daquele episódio, envolver várias entidades, mediar vontades, no sentido de valorizarem espólio que se encontra sob a sua tutela, expondo evidências materiais que ganhariam uma interpretação se inseridas numa exposição e num roteiro temático. De início, o Projeto de Estágio consistia, muito concretamente, na elaboração de um roteiro intitulado de “D. Pedro IV e o Cerco do Porto”, sendo composto pelos principais locais durante o Cerco (1832-33), quer a nível de combate e defesa, quer ao nível simbólico, quer no que ao quotidiano de D.Pedro diz respeito. Visto que no ano de 2015 se comemoram 180 anos da transladação do coração de D. Pedro para a cidade do Porto este roteiro integrar-se-ia nas comemorações do mesmo, daí o facto de pretender dar destaque aos locais que se tornaram mais importantes na estadia de D. Pedro na cidade. Contudo, na preparação do roteiro começou a 16 Príncipe18. Sendo na primeira o lado mais pessoal destacado e na segunda enquanto príncipe herdeiro, imperador e rei, assim como depois regente de Portugal. Estas obras, para este projeto, completam-se, pois importam ambas as perspetivas do monarca, a pessoal e a pública, enquanto figura de Estado. Foram ainda consultados, no que a D. Pedro diz respeito, alguns artigos, nomeadamente os que resultaram do Congresso Internacional D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal do Absolutismo ao Liberalismo19, principalmente o artigo de Francisco Ribeiro da Silva, D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto20, que fornece importantes dados acerca da ligação de D. Pedro à igreja da Lapa, que resultou na escolha, por parte da rainha D. Maria II, deste local para depositar o coração, assim como vários aspetos relacionados com o coração, como a entrega deste e permanência neste local. Quanto ao Cerco do Porto destacam-se duas obras que se revelaram essenciais ao estudo do Cerco do Porto, com particular incidência em locais e marcas que permaneceram na cidade até aos nossos dias. Aqui O Cerco do Porto. A Cidade Invicta21 de David Martelo e As fortificações do Cerco do Porto, 1832-183322 de Sérgio Veludo Coelho são importantes contributos neste sentido. A obra de David Martelo, de uma forma bastante sintetizada, aborda questões respeitantes ao Cerco do Porto com destaque dado essencialmente aos aspetos mais militares, como é o caso das localizações, táticas, principais batalhas e armamento, importantes no que ao projeto diz respeito, especialmente no que respeita aos dois locais mais relacionados aos aspetos militares da primeira fase do projeto, o Mosteiro da Serra do Pilar e o Museu Militar do Porto. Aborda também o papel dos vários protagonistas do conflito e marcas ou mudanças deixadas na cidade por este conflito e pelo reconhecimento de D. Pedro ao Porto e aos portuenses. Quanto à obra de Sérgio Veludo Coelho, a par dos relevantes contextos políticos, sociais e militares, traz-nos um importante inventário de todas as fortificações, baterias e redutos do Cerco do Porto, revelando, sempre que possível, as suas localizações exatas e as marcas que ficaram até aos nossos dias, fornecendo-nos, deste modo os limites das linhas de 18 RAMOS, Luís A. de Oliveira – D. Pedro, Imperador e Rei. Experiências de um Príncipe (1798-1834). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007. 19 D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal do Absolutismo ao Liberalismo. Porto: Universidade do Porto, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998. 20 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, pp. 254-281. 21 MARTELO, David – O Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001. 22 COELHO, Sérgio Veludo – As fortificações do Cerco do Porto, 1832-1833: seminário de licenciatura em Património Construído. Porto: Universidade Portucalense, 1994. 17 defesa e ataque e localizações das batalhas. Aqui, como na primeira obra, importa o relativo às localizações, ao armamento, às batalhas e a outros aspetos militares expostos nesta obra. Tanto no que diz respeito a D. Pedro como ao Cerco do Porto, o contributo dos testemunhos deixados por figuras como Hugh Owen, Luz Soriano, Charles Napier (cujo perfil se verá à frente) e anónimos revelam-se essenciais no que a factos respeitantes a D. Pedro e ao Cerco dizem respeito, sendo importantes memórias dos mesmos. Estas fontes são escritas por autores que vivenciaram este período da História da cidade do Porto e, por isso, nos anos seguintes ao Cerco e ainda na segunda metade do século XIX, relatando o Cerco do Porto do interior da cidade do Porto cercada, assumindo, deste modo, um papel muito relevante neste projeto: os sitiados e a figura de D. Pedro, igualmente sitiado. Contudo, é preciso ter em conta que todos estes autores são liberais, do lado vencedor da guerra. Sendo liberais e acérrimos defensores da causa liberal é natural perceber-se uma tendência em defender a causa liberal, o que não lhes retira importância como fontes históricas, antes requer algum cuidado, não devendo o leitor, como refere Francisco Ribeiro da Silva na introdução de um desses livros, “perder o espírito crítico”23 quando lê ou trabalha com estas obras como fontes para um determinado trabalho. Embora todos liberais, importa salientar que eram figuras de diferentes origens e meios profissionais. Assim sendo, Hugh Owen era coronel e Charles Napier era almirante, ambos ingleses integrantes dos exércitos liberais à época do Cerco do Porto, Simão José da Luz Soriano era médico de formação, mas também político, jornalista e dedicado à História, escrevendo algumas obras, embora ingressasse nas fileiras liberais como militar, e o autor da terceira obra referida é um anónimo portuense, embora também os dados que fornece ao nível militar indiquem que possa ser também um militar, o que era natural, face ao recrutamento feito na cidade aquando do episódio de guerra vivido. Estas fontes oferecem importantes contributos numa investigação histórica acerca de D. Pedro IV, nomeadamente no que respeita ao quotidiano do mesmo no Porto, à sua personalidade e à sua liderança, sempre tendo em conta a parcialidade dos autores já anteriormente referida, e o mesmo acontece no que respeita, por exemplo, a resultados e baixas, numa determinada batalha, que requer algum cuidado, pela tendência liberal dos autores e consequente tendência em heroicizar as ações liberais. Contudo, sobretudo ao nível descritivo, e no que respeita a 23 SILVA, Francisco Ribeiro – O Cerco do Porto em 1832 para 1833 por um portuense. Porto: Universidade do Porto, 2010. 18 descrição do espaço, técnicas militares e até descrição social da época do Cerco, importantes factos se podem retirar destes testemunhos. A tese de mestrado de Paulo Moreira, A Batalha de Ponte Ferreira (Campo, Valongo): um processo memorialista e de valorização patrimonial24, traz consigo um forte contributo no que aos processos de construção memorialista do episódio bélico diz respeito, estando nestes processos incluídos os testemunhos anteriormente referidos. De modo a realizar contextos, por exemplo no que respeita a propagação e implantação dos ideais liberais em Portugal procedeu-se à consulta de obras de História gerais. No que à História de Portugal diz respeito destaco duas obras entre as consultadas, a Nova História de Portugal25, dirigida por Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, em particular o volume IX Portugal e a Instauração do Liberalismo26. Fornecendo a conjuntura da época, tanto internacional como interna, e, ainda, a História de Portugal, dirigida por José Mattoso, em especial o quinto volume27 da mesma, que aborda toda a questão do Liberalismo e implantação do mesmo em Portugal. Sendo a cidade do Porto central no desenvolvimento deste projeto, importa dar especial atenção à cidade do Porto e à sua História. De entre a bibliografia a este respeito, algumas das mais consultadas foram a História do Porto, em particular os volumes de Jorge Alves28 e Gaspar Martins Pereira e Maria do Carmo Serén29. No primeiro, A Cidade Liberal acaba por ser revelador da identidade liberal que o Porto foi intensificando ao longo dos anos, e aqui o Cerco do Porto merece o devido destaque. Já no segundo, é todo o Porto do século XIX que merece o destaque, oferecendo-nos assim uma revisão de O Porto Oitocentista, de implantação do liberalismo e a Guerra Civil, onde a cidade é palco de grande parte desse conflito, o Cerco. Sendo que numa Guerra Civil existem dois polos antagónicos, importa estudar, também, o outro lado das lutas, neste caso o lado absolutista, de D. Miguel. A obra D. Miguel, de Maria 24 MOREIRA, Paulo – A Batalha de Ponte Ferreira (Campo, Valongo): um processo memorialista e de valorização patrimonial. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012. 25 SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal e a Instauração do Liberalismo. Nova História de Portugal. Vol. IX. Lisboa: Presença, 2001. 26 MARQUES, A. H. de Oliveira – A Conjuntura in SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal e a Instauração do Liberalismo. Nova História de Portugal, Vol. IX, Lisboa: Presença, 2001. 27 TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (coord.) – O Liberalismo in MATTOSO, José – História de Portugal, vol. V, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. 28 ALVES, Jorge Fernandes – A cidade Liberal: da revolução à estabilização do regime in História do Porto n. 10. Matosinhos: Quidnovi, 2010. 29 PEREIRA, Gaspar Martins; SERÉN, Maria do Carmo – O Porto Oitocentista in “História do Porto”. Porto: Porto Editora, 1994. 19 Alexandre Lousada e Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira30, definem a figura deste príncipe e monarca absoluto, especialmente no período que respeita ao seu governo e sua ação, sendo que o tema militar é abordado na generalidade das restantes obras. No que às questões relacionadas com o Património diz respeito entre as obras consultadas encontram-se Alegoria do Património31, de Françoise Choay, e A Política do Património, de Marc Guillaume32. Na primeira importa a relação entre História e Património, assim como a relação de Património com a Memória, bem como as diferentes noções, sendo este projeto exemplo prático disso mesmo. A segunda obra também evidencia a relação entre os objetos e a memória, assim como o caso das marcas, memórias, heranças do passado e as formas de o gerir, as políticas que o tutelam, formal e informalmente. A obra Como as Sociedades Recordam33, de Paul Connerton, revelou-se de bastante utilidade no que respeita a testemunhos, que são utilizados como fontes neste projeto, e às questões respeitantes à memória social, a diferença entre o que é memória social e o que é reconstituição histórica, bem como o trabalho do historiador perante uma fonte que consiste num testemunho – a noção de que as sociedades esquecem e recordam, é um processo seletivos, frequentemente ativado, e muito inventado. A História terá que avaliar estes movimentos seculares e averiguar as invenções de cada sociedade, em cada tempo. Estrutura do Relatório O presente relatório divide-se em três capítulos que são resultado do projeto desenvolvido, a fim de responder os objetivos a que este projeto se propôs, os quais já foram enumerados nesta primeira parte do relatório. No primeiro capítulo deste relatório de estágio é abordado o estágio desenvolvido no âmbito deste projeto, desde a instituição de acolhimento, ao porquê da escolha da mesma para o desenvolvimento do projeto, ao trabalho desenvolvido neste espaço, tendo em conta os objetivos propostos e conseguidos, e às aprendizagens que dele resultaram. Este capítulo fornece o enquadramento acerca do meio em que o projeto é desenvolvido e como é desenvolvido. 30 LOUSADA, Maria Alexandre; FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Melo – D. Miguel. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006. 31 CHOAY, Françoise – Alegoria do Património. Lisboa: Edições 70, 2010. 32 GUILLAUME, Marc – A Política do Património. Porto: Campo das Letras, 2003. 33 CONNERTON, Paul – Como as Sociedades Recordam. Oeiras: Celta Editora, 1993. 20 No segundo capítulo é feito um contexto ao nível histórico e patrimonial no que a D. Pedro e ao Cerco do Porto e restante processo de implantação do liberalismo em Portugal diz respeito, sendo dado bastante destaque, à cidade do Porto. Este segundo capítulo resulta da consulta feita à bibliografia e às fontes já mencionadas para a elaboração deste projeto. Face ao tema do projeto e objetivos do mesmo, importa enquadrar o tema do projeto, tanto ao nível histórico como patrimonial. Importa ainda demonstrar as marcas que o Cerco do Porto e D. Pedro deixaram na cidade, o quanto se mantem na memória da cidade e o quanto fazem parte da identidade da cidade. Por fim, o terceiro e último capítulo diz respeito ao projeto em si, a ideia, os objetivos, as instituições envolvidas, o modo como se desenvolveu, completando-se com os anexos deste relatório, e o resultado final, assim como as dificuldades encontradas e as perspetivas de continuidade, principalmente no que respeita à viabilidade deste tema e relação do mesmo com a cidade do Porto e V. N. de Gaia, em torno do Mosteiro da Serra do Pilar. 21 Capítulo 1 – Estágio No âmbito do Mestrado em História e Património – Mediação Patrimonial, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, optou-se por realizar um estágio, integrado no segundo ano do Mestrado. Acolheu-nos a Direção Regional de Cultura do Norte, no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, tendo sido assinado um protocolo entre a Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a Direção Regional de Cultura do Norte. O protocolo previa a realização de um estágio de 400 horas no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, sob orientação profissional do Dr. Paulo Amaral (DRCN)34, e foi desenvolvido entre os dias 7 de janeiro e 30 de abril de 2015, seguindo a normal dinâmica do espaço, desempenhando funções como qualquer outro funcionário daquele espaço, respeitando os horários estabelecidos, e realizando, ao mesmo tempo, o projeto proposto. 1.1. Instituição de acolhimento. Direção Regional de Cultura do Norte: espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar A Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) é um organismo da Secretaria de Estado da Cultura, dividido em várias unidades35, criado em 200636, atuando na região norte do país. Cabe, deste modo, à DRCN criar condições para o “acesso aos bens culturais”, fazendo o “acompanhamento das atividades” e levando a cabo a “fiscalização das estruturas de produção artística” financiadas pela Secretaria de Estado. À DRCN compete, ainda, “o acompanhamento das ações relativas à salvaguarda, valorização e divulgação do património arquitetónico e arqueológico”, assim como o apoio aos museus37, no Norte do país. Este organismo acaba por ter um importante papel no que compete à valorização e preservação do património cultural do norte de Portugal, no qual se insere a cidade do Porto, no caso dos monumentos sob tutela do organismo, e o Mosteiro da Serra do Pilar, onde funciona o 34 Profissional da Direção Regional de Cultura do Norte e responsável pelo espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar. 35 DIREÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO NORTE. Vila Real: at. 14 de agosto de 2015.. Disponível em: http://www.culturanorte.pt/pt/drcn/ [consultado a 17 de agosto de 2015]. 36 Decreto-Lei nº205/2006 37 DIREÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO NORTE. Vila Real: at. 14 de agosto de 2015.. Disponível em: http://www.culturanorte.pt/pt/drcn/ [consultado a 17 de agosto de 2015]. 22 espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, local da realização do estágio e respetivo projeto. O espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar funciona num edifício que é propriedade do Estado Português, desde a nacionalização dos mosteiros e conventos, logo em 1833, onde todos os “conventos, hospícios e mosteiros abandonados por religiosos ou religiosas na cidade e seus bens” foram “incorporados nos Bens Nacionais”38, embora já com as Invasões Francesas tenha servido para aquartelamento de tropas, pela sua importância estratégica no que refere ao território portuense. Sendo todo o complexo de estruturas que compõem o mosteiro da Serra do Pilar propriedade do Estado Português, o mesmo está integrado nos bens que estão sob tutela do Exército Português, que é como quem diz, do Ministério da Defesa, estando nele instalado o Quartel da Serra do Pilar. Todo o mosteiro está, à exceção do Claustro Redondo, da igreja, do zimbório e algumas outras dependências, ocupado pelo Exército Português. A DRCN tem, desde o final do ano de 2012, uma parceria com o Exército que permite manter os espaços não ocupados para fins militares abertos ao público, disponíveis, assim, para visitas. Foi então aberto ao público o espaço da DRCN que, além de permitir a visita a algumas das dependências do antigo mosteiro, tem como objetivo a divulgação do património da região norte, sob sua tutela, e o fomento do turismo cultural. Neste local pode ser obtida informação qualificada sobre o “Património a Norte” de Portugal. Dá especial destaque aos quatro Patrimónios da Mundiais da região (Porto, Guimarães, Douro e Vale do Côa), mas também aos diversos monumentos classificados de toda a região Norte de Portugal, sendo, deste modo, um divulgador de todo o património sob tutela da Direção Regional de Cultura do Norte. O Exército Português tem, também, algumas dependências cedidas à Comunidade Cristã da Serra do Pilar, como é o caso da igreja, da sacristia e outras dependências, que resultam na cedência de espaços comuns à Comunidade Cristã e à DRCN, como a igreja, obrigando a que as visitas sejam conciliadas, por exemplo, no que respeita a horários de celebrações. Este Mosteiro está inscrito na Lista do Património Mundial pela UNESCO desde 199639, ganhando aqui um motivo acrescido para a sua abertura ao público e consequente divulgação e valorização. Fundado em meados do século XVI, resulta da transferência de uma comunidade da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho para junto da cidade do Porto, estrategicamente junto à principal travessia do rio Douro, por decisão de D. João III e de Frei 38 ALVES, Jorge Fernandes – A Cidade Liberal. Da revolução à estabilização do regime. Matosinhos: Quidnovi, 2010, p. 65. 39 ABREU, Susana – Mosteiro da Serra do Pilar. Direção Regional de Cultura do Norte, 2014, p.1. 23 Brás Barros, que trabalhavam na reforma da Ordem. É um dos raros exemplares renascentistas em Portugal e dos raros, se não único, exemplo da aplicação de modelos de construção civil do teórico e arquiteto italiano Francesco di Giorgio em edifícios monásticos40. Já em 1809 o mosteiro foi ocupado pelas tropas de Wellington, com o objetivo de atacar a cidade do Porto, então ocupada pelas tropas de Napoleão. Alguns anos mais tarde volta a ser ocupado, no contexto da Guerra Civil portuguesa, entre liberais e absolutistas. No dia seguinte à sua chegada à cidade do Porto o exército liberal ataca a margem de Gaia e conquista a Serra do Pilar, aquartelando no mosteiro tropas, por se considerar ser um local estratégico, ao nível militar, de relevante importância41. No período entendido entre julho de 1832 e agosto de 1833, que ficou conhecido por Cerco do Porto, o aquartelamento de tropas foi constante, assim como os ataques ao mesmo, o que deixou o mosteiro em ruínas. Depois de um longo período de abandono, em 1925, com a criação do Grupo de Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, iniciaram-se as obras de recuperação do mosteiro, isto no que respeita às dependências que não eram ocupadas para fins militares. O restante mosteiro ficou, desde cedo, ocupado para fins militares, e logo em 1834 a Serra do Pilar é tornada, por decreto da rainha D. Maria II, fortaleza e, em 1835, praça de guerra de 1ª classe, igualmente por decreto, sendo a partir daqui utilizada como Unidade Militar42. Tendo em conta os aspetos anteriormente referidos, quer no que respeita às funções atuais do espaço quer no que à sua história diz respeito, o espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar justifica a escolha para o desenvolvimento do projeto de estágio, por reunir as condições histórias e técnicas para a sua concretização. Assim, os objetivos do projeto cruzamse com os objetivos da instituição, principalmente no que respeita à divulgação e valorização do património, isto para além de todo o simbolismo do local em que este espaço se encontra. 1.2. Integração nas atividades e funções da instituição de acolhimento Durante as 400 horas de estágio, distribuídas por quatro meses de terça a sexta, para além do desenvolvimento do projeto de estágio ficou clara a necessidade de integração no funcionamento do espaço, assim como na sua equipa de trabalho. Procurando ser um membro da equipa igual aos restantes, e capaz de levar a cabo as mesmas funções, pude cumprir um dos objetivos do estágio, o de me integrar numa estrutura de 40 Idem, Ibidem, p.12. 41 MARTELO, David – O Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001, p.14. 42 ABREU, Susana – Mosteiro da Serra do Pilar. Direção Regional de Cultura do Norte, 2014, p. 2. 24 trabalho na área profissional, experiência que me dará a preparação técnica necessária para lá da conclusão do Mestrado. Após alguns dias acompanhando os restantes colaboradores do espaço, as duas principais tarefas nele desenvolvidas começaram a ser, também, da minha competência. Tratava-se de visitas guiadas, realizadas hora a hora, e da receção aos visitantes e respetivo atendimento, intercalados com os trabalhos respeitantes ao projeto de estágio. Assim se pautou o estágio ao longo do referido período. Começando pelo atendimento, este assume um papel preponderante na receção dos visitantes. A comunicação, divulgação do espaço então realizada, assim como a atenção às condições de acesso, são muitas vezes o primeiro contacto com a realidade do espaço, pois os canais de divulgação podem não ter chegado ao visitante e vice-versa. Sendo, por isso, muitas vezes o primeiro contacto do espaço com o visitante, procurei ter redobrada atenção a uma correta apresentação do mesmo, através de um acolhimento de simpatia, disponibilidade e rigor nas informações prestadas. Esta postura é tanto mais necessária quanto verifiquei que muitas vezes os visitantes não tinham nenhum conhecimento do que se oferecia, consequência de uma possível escassa divulgação do espaço e das suas funções, esclarecimento que abriria o interesse em relação a outros monumentos e regiões do norte do país mencionados aos visitantes. A ideia de rede informativa era o objetivo a concretizar: o espaço era a base que projetaria outras saídas pelo Norte Cultural do País. Aqui tornou-se essencial saber responder às várias questões que pudessem surgir nesse âmbito, nomeadamente, em termos de localização, horários, e um básico enquadramento histórico. Para responder a esta que considero ser uma exigência, e face ao grande número de locais nele divulgados, que resulta num natural desconhecimento pelo menos no que respeita a alguns deles, procurei aprofundar conhecimentos em relação aos mesmos, sobretudo através dos canais de divulgação dos diferentes espaços e mesmo dos da própria DRCN. Este espaço possui ainda uma pequena loja de produtos, relacionados com a área, (livros, por exemplo), os monumentos ou locais e ainda algumas personalidades, aqui revelou-se necessário conhecer os produtos, a fim de poder atender às necessidades do visitante. A outra grande função a que está sujeito um colaborador do espaço, depois da receção e atendimento ao visitante, é a de conduzir as visitas, de forma guiada, ao claustro, sala do capítulo e igreja do mosteiro. Nesta função tornam-se indispensáveis alguns conhecimentos específicos: o conhecimento acerca do edifício, desde a sua construção, a sua história, assim como do lugar de implantação, inserção na região, no período histórico em questão, a fim de 25 conseguir transmitir uma perspetiva do que foi o edifício ao longo dos anos e de o enquadrar no espaço em que se insere, conseguindo do mesmo modo fazer ligações entre factos, assim como comparações, tantas vezes necessárias às visitas e a um fácil entendimento por parte do visitante. Partindo dos contextos gerais, que transportam o edifício desde a sua fundação até à atualidade e o enquadram no espaço e na conjuntura local e nacional, passava-se aos aspetos mais específicos. Nos aspetos mais específicos a tratar e a saber importa, de igual modo, e especialmente no que respeita aos 3 espaços visitáveis, ter alguns conhecimentos no que respeita à Arquitetura e à História da Arte, isto porque o que está à vista dos visitantes é o que mais suscita a atenção dos mesmos. Este domínio ganha especial relevo num edifício como o do Mosteiro da Serra do Pilar, pelas suas características únicas e pela convivência de vários estilos que suscitam múltiplas questões. O conhecimento da História do Cristianismo revela-se, de igual modo essencial por nos encontrarmos num edifício monástico, onde importa revelar um pouco daquilo que era o modo de funcionamento do mesmo, as funções do espaço religioso, o quotidiano dos cónegos regrantes de Santo Agostinho. O facto de se visitar também a igreja obriga a que se tenham conhecimentos básicos principalmente no que respeita às funcionalidades e características essenciais da mesma, não só no passado mas também atualmente, por esta ser uma igreja ativa, cedida pelo Exército a uma comunidade cristã que nela celebra, a Comunidade Cristã da Serra do Pilar, o que acaba por criar algumas dúvidas nos visitantes, mesmo no que respeita a questões do foro litúrgico. Por fim, é importante conhecer a situação atual do edifício, no que respeita a tutelas e funções atuais. A complexa situação do edifício a isso obriga. Da propriedade do Exército Português, incluindo a própria igreja, à convivência de três instituições num mesmo edifício, DRCN, Comunidade Cristã da Serra do Pilar e Quartel da Serra do Pilar, tudo isto coloca dúvidas às quais se deve procurar saber responder. Nas visitas devemos ter, a meu ver, sempre atenção ao perfil do público que atendemos, de modo a tentar ir ao encontro dos seus interesses e expetativas. O exemplo a que mais me refiro, pelo número significativo de visitantes e pela relação com o meu projeto, é o dos visitantes provenientes do Brasil. A estes torna-se indispensável fazer não só a natural relação do edifício com a Guerra Civil e o Cerco do Porto, mas também com D. Pedro (IV de Portugal e I do Brasil), o que, face às experiências que tive, leva a que o interesse e consequente curiosidade destes pelo edifício aumentem consideravelmente, assim como a relação com a sua 32 mesmo, sendo o liberalismo “um dos grandes acontecimentos que o século XIX domina inteiramente”51. A expansão do liberalismo acabava por ser, por um lado, dificultada pelos estados despóticos, que reprimiam todos quantos simpatizavam com os ideais de liberdade, mas, por outro lado, era esse mesmo despotismo que acabava por fazer com que o liberalismo estivesse em constante crescimento, conquistando mais “adeptos” pela “ânsia de liberdade”52 dos mesmos. Um pouco por toda a Europa os movimentos de luta pelo liberalismo, mesmo não existindo um “organismo internacional”53, multiplicam-se, havendo muitas trocas e relações entre os vários movimentos liberais espalhados pelos diferentes países. À medida que as revoltas liberais se iam sucedendo nos diferentes países tornou-se comum soldados que lutavam pela causa liberal ficarem disponíveis para aderirem à mesma causa noutros países, o que ajudou também à expansão dos regimes liberais, como veio a acontecer em Portugal na Guerra Civil, onde se juntaram ao exército liberal combatentes franceses e ingleses, por exemplo. Os regimes constitucionais já existentes na América e na Europa exerciam, de igual modo, influência em países ainda presos a regimes absolutistas. No caso português, os próprios exilados políticos acabaram por ter um papel importante no que respeita à difusão do liberalismo pois, estando em ligação direta com os ideais liberais, principalmente em França e Inglaterra, lançam as bases para a reforma do país, no caminho da implantação do liberalismo em Portugal. Percebe-se, entre estes vários factos, que as bases do liberalismo português são lançadas e fermentadas ao longo de todo o início do século XIX, sendo depois aceleradas pelo descontentamento interno em relação ao comportamento dos governantes e do rei, D. João VI. 2.1.2. O início do século XIX em Portugal Tendo em conta a conjuntura europeia e as influências da Revolução Francesa, assim como a consequente propagação dos ideais liberais, Portugal não foi exceção e o século XIX 51 RÉMOND, René – Introdução à História do Nosso Tempo. Do Antigo Regime aos Nossos Dias. Lisboa: Gravida, 2011, p.145. 52 MARQUES, A. H. de Oliveira – A Conjuntura in SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal e a Instauração do Liberalismo. Nova História de Portugal. Vol. IX. Lisboa: Presença, 2001, p. 546. 53 RÉMOND, René – Introdução à História do Nosso Tempo. Do Antigo Regime aos Nossos Dias. Lisboa: Gravida, 2011, p.145. 33 foi, de igual modo, um século de fortes mudanças. Por esta altura, ainda Portugal, ao contrário de França e Espanha, estava preso às convenções do Antigo Regime. O início do século XIX foi um tempo de conturbadas relações externas. O país via-se deparado com França de um lado e Inglaterra do outro, oscilando entre as duas potências rivais, embora mostrando-se a segunda indispensável54. Logo em 1801 França e Espanha declaram guerra a Portugal e, embora tenha durado apenas três meses, revelou-se “desastrosa”55 para o país, com o exército português a ser derrotado. Aqui os portugueses, além da pesada indeminização a pagar, vêm-se obrigados a entregar Olivença a Espanha e a fechar os portos aos navios de guerra ingleses. Em 1806 é a vez de Napoleão declarar o Bloqueio Continental, que significava o fim do comércio e de qualquer tipo de relações com Inglaterra. O tardar de uma posição portuguesa acaba por levar Napoleão a lançar um ultimato ao rei português, exigindo obediência ao que por ele fosse definido. O rei optou por não aceitar o Bloqueio, sujeitando-se à invasão de Portugal, por França e Espanha. Napoleão cumpre a ameaça e, em novembro de 1807, invade Portugal. Perante esta realidade a família real decide mudar-se para o Brasil, embarcando juntamente com o governo e centenas de pessoas, tornando-se o Rio de Janeiro a capital do Reino. Durante os quatro anos que se seguiram, Portugal ficou mergulhado em guerra que deixou o país uma situação “miserável”56, com a agricultura, o comércio e a indústria profundamente afetados. A juntar às consequências da guerra está a nova condição que Portugal passou a ter, funcionando quase como uma colónia do Brasil sob proteção inglesa. Finda a guerra, a família real não demonstrava intenções de regressar ao país, o que provocou ainda maior descontentamento nos portugueses, que sentiam que o rei parecia “ter abandonado a familia Portugueza”57. É neste contexto de descontentamento, e sem sinais de se desprender dos ideais do Antigo Regime, que se começam a cultivar os ideais revolucionários, ao mesmo tempo que as perseguições aos liberais se sucediam. Acontece então a revolução liberal de 1820. No dia 24 de agosto de 1820, no Porto, um levantamento militar, aproveitando a conjuntura favorável, interna e externa, tenta implantar o liberalismo no país, embora o grande motivo da revolta acabasse por ser a questão da condição do Brasil e o regresso do rei, tanto que 54 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p.396. 55 Idem, Ibidem, p. 395. 56 Idem, Ibidem, p.400. 57 SILVA, Francisco Ribeiro – O Cerco do Porto em 1832 para 1833 por um portuense. Porto: Universidade do Porto, 2010, p.2. 34 os objetivos expostos pelos revolucionários “estavam longe de representar uma rutura, um corte revolucionário com o passado”58. Bem sucedida a revolta, é então criada a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, para assumir a regência do reino e adotar uma futura Constituição. Pouco tempo depois é a vez de o sul, Lisboa, lhe seguir os passos, resultando numa Junta conjunta e ao nível nacional, evoluindo a situação num sentido favorável em relação aos revoltosos. Feitas as eleições e compostas as Cortes, estas obrigam o já rei D. João VI a regressar a Lisboa, sendo este, como já referido, um dos objetivos da revolta. Aceitando tudo quanto lhe era imposto, e jurando os pilares base da futura Constituição, pois só em 1823 jura solenemente o documento, D. João VI regressa a Portugal, em 1821, deixando como regente do Brasil o seu filho mais velho, D. Pedro. Com ele regressam também D. Carlota Joaquina e D. Miguel, que sempre ficaram associados ao absolutismo, recusando-se mesmo a rainha a jurar a nova Constituição, acabando por se converter “num polo aglutinador dos sectores absolutistas” que resultaram nas “futuras conspirações”59. A ala liberal ficou, desde os seus inícios, sempre notavelmente dividida por uma fação mais radical e revolucionária e outra mais conservadora, com diferentes motivações, isto “consoante o grupo profissional e social a que pertenciam”60. Este facto viria a revelar-se um obstáculo na implantação, em definitivo, do liberalismo. A própria Constituição nunca alcançou a recetividade esperada pelos seus mentores, por vários pontos do país registaram-se “manifestações de desagrado” e “incidentes violentos”61 no que à aceitação do documento diz respeito. Estes factos acabam por confirmar a fragilidade do regime liberal, que à mais pequena crise poderia desabar. O primeiro grande abalo dado ao regime liberal é a declaração da Independência do Brasil, pelo príncipe herdeiro português D. Pedro, à altura regente do Brasil, em setembro de 1822, falhando aqui o grande objetivo da revolução de 1820, que unia as fações liberais, de fazer regressar o Brasil à condição de colónia62, isto numa altura em que o Reino Unido era já uma “ficção”63, com a evolução dos acontecimentos do Brasil neste sentido, onde em já em janeiro do mesmo ano D. Pedro, futuro Imperador do Brasil, perante a exigência das Cortes para que regressasse ao país, decide-se pelo célebre “fico”, permanecendo no Brasil. 58 VENTURA, António – Da Revolução Vintista à Guerra Civil (1820-1834). in MEDINA, João (dir.) – Portugal Liberal. História de Portugal I, vol X, Lisboa: Edita Ediclube Lda., 2004, p. 157. 59 Idem, Ibidem, p. 161. 60 Idem, Ibidem, p. 158. 61 Idem, Ibidem, p. 166. 62 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p.448. 63 VENTURA, António – Da Revolução Vintista à Guerra Civil (1820-1834). in MEDINA, João (dir.) – Portugal Liberal. História de Portugal I, vol X, Lisboa: Edita Ediclube Lda., 2004, p.164. 35 O contexto agora criado é favorável aos partidários do absolutismo, e é neste ambiente interno favorável ao absolutismo, acompanhado do externo como os acontecimentos em Espanha no sentido do regresso ao absolutismo, que se dá, em 1823, a Vilafrancada, um levantamento militar com o intuito de regressar ao absolutismo, para os absolutistas, ou, no caso dos liberais moderados que se juntaram à revolta, tornar o regime menos radical, como é o caso do liberal Mouzinho da Silveira, que viria a ser um importante membro da governação de D. Pedro, assim como Saldanha, Sá da Bandeira, Palmela e Vila Flor, todos eles colaboradores ou cúmplices do golpe e futuros apoiantes de D. Pedro e das suas causas, todos estes estavam agora mais preocupados em “travar os perigos do radicalismo”64. Daqui saem vitoriosos os absolutistas e moderados, que contam com o apoio de D. Miguel e D. Carlota Joaquina. Face a estas circunstâncias D. João VI decide juntar-se a estes mas não regressar ao absolutismo, antes procurou encontrar uma solução que evitasse revoltas da parte vencida, a liberal, prometendo apenas modificar a Constituição e dissolver as Cortes. Os absolutistas mais radicais, chefiados por D. Miguel e D. Carlota Joaquina, não aceitam este desfecho, até pelo facto de considerarem que muitos liberais continuavam a rodear o rei, e decidem levar a cabo mais uma revolta, a Abrilada, em 1824, onde pretendem uma viragem mais acentuada ao absolutismo. Aqui D. Miguel é obrigado a deixar o país. Desde então, e até ao final do reinado de D. João VI em 1826 com a sua morte, Portugal é governado através de um “absolutismo moderado”65, onde ao mesmo tempo que a prometida Constituição não se concretizou alguns liberais foram sendo afastados do governo e, por sua vez, alguns destes, acabam mesmo por abandonar o país. 2.1.3. D. Pedro IV e a Carta Constitucional Já em 1826, mas ainda antes do falecimento de D. João VI e com o agravamento do seu estado de saúde, procede-se à nomeação de uma regência do reino presidida pela Infanta Isabel Maria, uma situação provisória, pelo facto de o herdeiro do trono, D. Pedro, se encontrar no Brasil e ser já Imperador do mesmo e de D. Miguel estar exilado em Viena de Áustria, consequência do anteriormente referido. Até ao falecimento do monarca a questão da sua sucessão não havia sido questionada, não sendo, por isso, posta em causa a sucessão de D. Pedro ao trono português, contudo nem 64 Idem, Ibidem, p.169. 65 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p.449. 36 portugueses nem brasileiros iriam aceitar, à partida, um mesmo rei para as duas coroas, contudo havia, entre os portugueses, aqueles que depositavam esperanças nesta união, voltando, em parte, o Brasil à sua antiga condição. A regente do reino, Infanta Isabel Maria, reconhece D. Pedro como rei de Portugal, enviando logo uma delegação ao Brasil a fim de o fazer assumir o poder. O agora D. Pedro IV depressa decide abdicar, face às circunstâncias já referidas, em sua filha D. Maria, mas não sem antes outorgar a Carta Constitucional. Depois de algumas hesitações, a Carta outorgada foi jurada pela infanta-regente, D. Isabel Maria, e pelos restantes membros da Regência, dando novo alento aos liberais portugueses. Já no que aos absolutistas diz respeito, estes levaram a cabo alguns levantamentos militares, que foram sendo controlados, realizando-se as eleições num clima de “perturbação”66. A Carta Constitucional de 1826, importante documento que vem a ser, anos mais tarde e juntamente com a defesa do trono de D. Maria, uma das grandes causas liberais por que D. Pedro lutou na Guerra Civil, era mais moderada que o anterior documento de 1822. A grande novidade era a divisão em quatro poderes: executivo, moderador, legislativo e judicial. O moderador cabia ao rei, era como que um papel de árbitro, com o objetivo de “reparar” ou “preservar”67. Quanto ao legislativo este ficava dividido em duas Câmaras, a dos Pares, nomeados pelo rei de forma vitalícia e hereditária, e a Câmara dos Deputados, eleita por sufrágio indireto e restrito. Em suma, este documento revela-se mais moderado, reforçando o poder do rei em relação ao anterior e revelando-se como mais facilmente conciliador entre liberais moderados e absolutistas. Consciente das divisões existentes em Portugal e de modo a evitar um confronto e conciliar, de vez, os partidários do absolutismo e do liberalismo D. Pedro decidiu nomear D. Miguel, absolutista, regente do Reino, fazendo-o jurar a Carta, que era considerada uma “constituição conservadora”68 e, por tanto, mais moderada que a anterior e com maior probabilidade de consenso. Assumia ainda o compromisso de casar a sua filha, D. Maria, assim que esta atingisse a idade. A proposta foi aceite e, em 1828, D. Miguel regressa do exilio, onde se encontrava por ter “traído o regime constitucional nos episódios da Vilafrancada (1823) e da Abrilada (1824)”69, e jura a Carta, aceitando as condições propostas pelo seu irmão. D. Pedro 66 VENTURA, António – Da Revolução Vintista à Guerra Civil (1820-1834). in MEDINA, João (dir.) – Portugal Liberal. História de Portugal I, vol X, Lisboa: Edita Ediclube Lda., 2004, p. 173. 67Idem, Ibidem, p.172. 68 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p.450. 69 ALVES, Jorge Fernandes – A cidade Liberal: da revolução à estabilização do regime in História do Porto n. 10. Matosinhos: Quidnovi, 2010, p. 27. 37 nomeou ainda os primeiros Pares do Reino, tanto absolutistas como liberais, dando continuidade à “política de compromisso”70 de D. João VI. Acreditava D. Pedro ser este o remédio, que foi geralmente aceite, para o fim dos conflitos entre liberais e absolutistas, o que não se veio a verificar. D. Miguel depressa se apercebeu do grande apoio que tinha nos diferentes sectores da população, chegando a ser aclamado rei em diferentes pontos do país. Neste mesmo ano de 1828 começam as perseguições aos liberais, substituindo os governadores militares de tendências liberais e todos os que se determinavam em cumprir a Carta. É “pressionado pelos seus partidários”71 que dissolve as Câmaras e convoca as Cortes à maneira antiga, por Ordens. São entretanto suspensos organismos e símbolos do liberalismo. Face às falhadas tentativas de resistência liberal, levadas a cabo com diversos levantamentos um pouco por todo o país, muitos destes começam a abandonar, em grande número, o país, sendo muitos dos que ficam presos, assassinados ou executados. Ao mesmo tempo, D. Miguel reforça o seu regime absolutista, estabelecendo um “clima de intolerância extrema”72 para com aqueles que davam sinais de apoio à causa liberal. Um desses levantamentos liberais aconteceu, no mesmo ano de 1828, na ilha Terceira, revolta que faz renascer nos liberais exilados a esperança na recuperação do regime liberal português. Depois desta revolta muitos vão regressando ao país, reunindo-se na Terceira para prepararem a resistência e uma nova revolta. Após o desembarque falhado das tropas miguelistas na Terceira, os liberais foram tomando outras ilhas do Arquipélago ao longo de 1829, mantendo viva e ganhando força a causa liberal. O governo absolutista de D. Miguel caraterizou-se por insucessos, tanto ao nível das suas políticas internas como das externas. Ficou marcado pelo conservadorismo e pela “escassa actividade legislativa”73. Como consequência, ao nível interno a situação económica e financeira piorou com o absolutismo e, ao nível externo, foi perdendo muito do apoio estrangeiro conseguido. Se inicialmente a conjuntura era desfavorável à causa liberal, a partir de 1830 a conjuntura internacional torna-se favorável, especialmente por parte de Inglaterra e França, 70 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p. 450. 71 VENTURA, António – Da Revolução Vintista à Guerra Civil (1820-1834). in MEDINA, João (dir.) – Portugal Liberal. História de Portugal I, vol X, Lisboa: Edita Ediclube Lda., 2004, p.175. 72 MARTELO, David – O Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001, p. 13. 73 MARQUES, A. H. de Oliveira – A Conjuntura in SERRÃO, Joel; MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal e a Instauração do Liberalismo. Nova História de Portugal. Vol. IX. Lisboa: Presença, 2001, p.578. 38 levando a que as condições sejam reforçadas. No Brasil, o evoluir dos acontecimentos acaba também por levar à disponibilidade total de D. Pedro para a causa liberal portuguesa. São, deste modo, os dois grandes fatores que vieram dar um novo impulso à causa liberal, a viragem no plano internacional e a situação brasileira. D. Pedro vive períodos de dificuldade e contestação ao seu governo do Império. Em 1831 abdica em favor do seu filho D. Pedro II, retomando para si o título de Duque de Bragança. Posto isto, regressa à Europa e dirige-se a Inglaterra e França a fim de recolher apoios para retomar o poder e devolver o direito ao Trono Português a sua filha D. Maria. Em França, organiza a expedição que desembarcaria na Terceira, em 1832, onde se juntaria à resistência liberal, já organizada e espalhada pelas ilhas do Arquipélago. Aqui substitui Palmela na regência, tomando ele próprio o papel de Regente do Reino de sua filha, formando um governo composto por Palmela, Agostinho José Freire e Mouzinho da Silveira. O último logo começou a legislar em grande escala, lançando a legislação que viria a ser mais tarde aplicada no reino. Controlada toda a ilha, prepara a entrada dos liberais em Portugal continental, numa “posição de tudo ou nada”74. Depois de assumir o papel de protagonista na Independência do Brasil prepara-se, agora, para ser o protagonista da causa liberal portuguesa e da Guerra Civil que então se avizinhava. 2.1.4. “Não me obrigueis a empregar a força para vos libertar” A 7 de julho de 1832 a esquadra das tropas liberais, acompanhadas por D. Pedro, alcançam a costa portuguesa e desembarcam na praia do Pampelido, em Matosinhos, já na tarde de 8 de julho, local estrategicamente escolhido para que o Porto se tornasse o centro das operações75. A expedição que organizara a partir da Terceira contava com cerca de 8000 homens, entre os quais 800 estrangeiros ingleses e franceses, assim como com cerca de 50 navios76. As tropas formaram na praia antes de seguir para o Porto, D. Pedro esperava não ter de impor a liberdade no país à força, contando com uma forte adesão popular à sua causa, o que não aconteceu, pelo menos numa fase inicial. Avançam em direção ao Porto sem que as tropas 74 ALVES, Jorge Fernandes – A cidade Liberal: da revolução à estabilização do regime in História do Porto n. 10. Matosinhos: Quidnovi, 2010, p. 37. 75 RAMOS, Luís A. de Oliveira – D. Pedro, Imperador e Rei. Experiências de um Príncipe (1798-1834). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007, p.80. 76 TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (coord.) – O Liberalismo in MATTOSO, José – História de Portugal, vol. V, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p.90. 39 absolutistas mais próximas lhes fizessem frente. Santa Marta, responsável pela guarda da costa em causa, retira-se em direção ao Porto, abrindo, assim, caminho ao avanço das tropas liberais, sendo presumível que a ideia fosse cercar depois as tropas liberais no Porto, como defendem alguns autores77, e não que estivessem a fugir de uma “mortandade que julgavam certa”78. Estas avançam na direção do Porto e lá entram, no dia 9 de julho, sem conflito nem resistência, pois Santa Marta havia evacuado a cidade, concentrando as tropas na margem de Gaia e desfazendose da Ponte das Barcas. Os liberais ocupam, assim, a cidade do Porto. Entram na cidade sem oposição, “hasteando, no cano das espingardas, hidranjas colhidas nos arredores do Porto”79, estas flores azuis eram já desde os tempos da ilha Terceira, a flor símbolo do cartismo. Ao mesmo tempo, são deparados com a “frieza e indiferença”80 dos portuenses, que não esperariam. Esta reação, mesmo partindo de simpatizantes do liberalismo, justificar-se-ia, em parte, pela desconfiança ou falta de esperança num sucesso da causa liberal, que causou “susto” aos liberais do Porto “quando souberam das pequenas forças que vinham”81. O exército liberal, pouco numeroso, entra na cidade com pouco armamento, a artilharia estaria resumida a um obus e duas peças82, e sem cavalaria, um só garrano transportava D. Pedro, oferecido durante a viagem. Hugh Owen afirma mesmo que, perante todas estas evidências, alguns soldados do exército liberal abandonam a luta83. O exército de D. Pedro logo percebe que deveria atacar o quanto antes as tropas miguelistas que se concentravam na outra margem do rio, de maneira a não permitirem a concentração de mais efetivos no exército miguelista. No dia seguinte à chegada ao Porto, o Exército Libertador, como ficou conhecido, ataca a margem sul do Douro e faz com que os absolutistas recuem alguns quilómetros para sul, conquistando um importante local a nível estratégico, a Serra do Pilar, garante da defesa da cidade do Porto, ao mesmo tempo que se começam a instalar as tropas e fortificar os terrenos ocupados, preparando a sua defesa. 77 Idem, Ibidem, p.90. 78 OWEN, Hugh – O Cerco do Porto contado por uma testemunha. Porto: Renascença Portuguesa. 1915, p. 156. 79 RAMOS, Luís A. de Oliveira – D. Pedro, Imperador e Rei. Experiências de um Príncipe (1798-1834). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007, p. 81. 80 PEREIRA, Gaspar Martins; SERÉN, Maria do Carmo – O Porto Oitocentista in História do Porto. Porto: Porto Editora, 1994, p. 469. 81 História do Cerco do Porto – Suplemento “Pyrilampo”, nº 36, p.2. 82 MARTELO, David – Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001, p. 14. 83 OWEN, Hugh – O Cerco do Porto contado por uma testemunha. Porto: Renascença Portuguesa. 1915, p.157. 40 A desigualdade entre liberais e absolutistas era óbvia. Enquanto os liberais contavam com os exilados liberais e a ajuda da França e Inglaterra, os absolutistas contavam com um numeroso exército e com o apoio da esmagadora maioria da população. Reconhecendo esta inferioridade do exército liberal, 7500 ou 8000 homens, em relação ao exército absolutista, 80000 homens, e consequente moral das tropas em baixo, o exército liberal leva a cabo uma série de movimentações com a finalidade de impor algum respeito ao exército de D. Miguel, avançando sobre vários locais fora do Porto, tais como Penafiel, Valongo e Grijó, de onde saíram vitoriosos, mas também sofreram algumas derrotas, como é o caso de Souto Redondo. Contudo, mesmo com uma diferença tão acentuada de efetivos nos seus exércitos os liberais tinham a vantagem de “lutar por um ideal novo e puro”84, prometendo que um certo grau de propaganda diminuísse a natural moral em baixa das suas tropas e diminuísse os efeitos da mesma. Ao mesmo tempo o comando das tropas liberais foi superior, desde o início, ao absolutista, muito devido a chefes militares liberais como Saldanha, Vila Flor, Sá Nogueira, Napier, entre outros. Com a ocupação do Porto consumada dá-se início ao episódio mais significativo da Guerra Civil em Portugal (1832-1833), que opôs liberais e absolutistas, e que ficou conhecido como Cerco do Porto. Fixados no Porto, os liberais começam a tomar medidas administrativas, como a nomeação de um novo presidente para o Tribunal da Relação, novos deputados para os lugares vagos da Companhia Geral da Agricultura e das Vinhas do Alto Douro, nova administração municipal e nomeação de um novo governador para a diocese do Porto, em sede vacante. Foi concedida amnistia a todos os liberais presos, começou-se a publicar a Crónica Constitucional do Porto e começava-se a aplicar a legislação liberal, muita dela já pensada nos Açores e da qual é protagonista o já mencionado Mouzinho da Silveira. Logo no mês seguinte ao desembarque das tropas liberais é dada a ordem de fortificar a cidade do Porto, preparando a resistência ao Cerco. Face às circunstancias, também D. Pedro se fixa na cidade do Porto durante este período e, depois da estranheza inicial pelas diferenças existentes entre Portugal e o Brasil, D. Pedro logo se começa a integrar, “a conhecer bem a cidade e as suas gentes, a dialogar, beber, folgar e a misturar-se com quem lhe aparecia”85. Nos testemunhos de então, é atribuído, inclusive, um papel ativo a D. Pedro na tomada de posições e procura de soluções. Inicialmente D. Pedro começa por se instalar no Palácio dos Morais e Castro, mas depois acaba por se mudar, por 84 MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p.453. 85 SANTOS, Eugénio dos – D. Pedro IV: liberdade, paixões, honra. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p.229. 41 questões de segurança, para uma casa na rua de Cedofeita, menos exposta aos bombardeamentos absolutistas. Depois das desorientações iniciais do lado absolutista, o exército de D. Miguel organizase e fixa-se junto à cidade do Porto. Assim, a partir de outubro de 1832, o cerco ao Porto acentua-se, com a forte concentração de tropas junto à cidade, impedindo ou dificultando a circulação e a entrada de recursos na cidade, seguindo-se fortes e indiscriminados bombardeamentos à cidade e fortes ofensivas absolutistas, com o objetivo de entrarem na cidade, como é exemplo a do dia de São Miguel, que veio a dar nome à rua do Heroísmo, pela vitória dos liberais, e que deu oportunidade ao comentário do Coronel Owen que refere que os “miguelistas atacavam por datas”86. Depois deste episódio, que veio dar novo ânimo aos liberais, os absolutistas tinham a convicção de que ganhariam a guerra. Soriano refere que os absolutistas “olhando para o Porto” tinham como “segura a victoria” mas face a esta derrota chamaram “ás suas fileiras” mais soldados87, apertando o Cerco com o decorrer do conflito. Os liberais conseguiam resistir às ofensivas miguelistas e os recursos conseguiam entrar no Porto por mar, única forma de se abastecerem. É face a este cenário que os absolutistas optaram por outra estratégia, mais passiva, limitando-se à defesa das suas posições ao largo do Porto, tornando mais eficaz o bloqueio, e impedindo, também, a entrada de navios na barra do Douro, dificultando o abastecimento da cidade. À medida que o cerco ao Porto apertava, as dificuldades eram cada vez maiores, com a propagação de doenças, de fome, com os constantes e fortes bombardeamentos e com um consequente sobrecarregar dos habitantes com mais impostos. Em meados de 1833 a situação era, assim, “desesperada”88 para a resistência liberal. A capitulação começava a ser no que em muitos acreditavam, embora o desejo de vitória permanecesse, muito pelas fortes motivações existentes entre os liberais e que os seus dirigentes, em especial D. Pedro, sempre souberam manter presentes, comprovando-o o baixo número de deserções, excedendo-se generais e soldados no seu valor89. Durante o Cerco, D. Pedro assumiu o comando da resistência e, carecendo de preparação, faz-se rodear de prestigiados chefes militares. Os vários relatos escritos sobre o Cerco do Porto, 86 OWEN, Hugh – O Cerco do Porto contado por uma testemunha. Porto: Renascença Portuguesa. 1915, p.179. 87 SORIANO, Simão José da Luz – História do Cerco do Porto. Tomo II. Porto: A Leite Guimarães Editor, 1889, capítulo II. 88 TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (coord.) – O Liberalismo in MATTOSO, José – História de Portugal, vol. V, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p.91. 89 RAMOS, Luís A. de Oliveira – D. Pedro, Imperador e Rei. Experiências de um Príncipe (1798-1834). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007, p.82. 48 História, se aplica118, sendo os monumentos herança do passado e os documentos escolha do historiador. A História necessita de memórias para as reconstituições históricas, mas ambas são distintas119. No que ao Cerco do Porto diz respeito, são muitas as memórias que chegaram até aos nossos dias, a começar pelas obras, os testemunhos, do século XIX, que relatam o referido episódio, como é exemplo a obra de Hugh Owen120 ou Luz Soriano121, entre outras, como se referiu na Introdução. Estes testemunhos são, por isso, “vestígios” que permitem o “conhecimento” do passado122. O conceito de memória aplica-se nestas obras, de que nos servimos como importantes fontes/documentos históricos do Cerco do Porto, essenciais a todas as investigações acerca deste tema e importantes, mas sempre conscientes de que se trata de “memória” do Cerco, comprometidos com os intuitos glorificadores dos vencedores, como já observámos atrás. Outro exemplo de memória, no que ao Cerco do Porto, Guerra Civil e D. Pedro diz respeito, são os edifícios. Foram muitos os edifícios nos quais se preservou, na sua memória, este episódio histórico e a sucessão de acontecimentos então vividos na cidade e redondezas. A juntar-se a estes edifícios, e muitas vezes parte integrante dos mesmos, encontram-se os vários objetos relacionados com este tema, e que foram utilizados no desenvolvimento do projeto de estágio, desde a farda de D. Pedro, a mapas ou armas, todos eles carregando a memória do Cerco e de D. Pedro, como mediadores, porque servem para “materializar e simbolizar determinado acontecimento, determinado aspeto do passado, que eu decidi (…) valorizar”, possibilitando o “estabelecimento de uma memória e a construção de uma narrativa” 123. A prova da vinculação a essa memória encontra-se, sem dúvida, nas obras escritas no século XIX, como já foi referido, memórias do Cerco do Porto, parte integrante da identidade portuense, que se comprovam pelas várias indicações de episódios do mesmo na toponímia portuense e, também, pelo epíteto com que, até hoje, a cidade do Porto ficou associada, Antiga Mui Nobre Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. Por todas estas marcas que este episódio histórico deixou na cidade, podemos concluir que, em grande parte, este é parte integrante da identidade desta cidade, a juntar a todos os episódios no que à implantação do liberalismo 118 Idem, Ibidem, p. 103. 119 CONNERTON, Paul – Como as Sociedades Recordam. Oeiras: Celta Editora, 1993, p.16. 120 OWEN, Hugh – O Cerco do Porto contado por uma testemunha. Porto: Renascença Portuguesa, 1915. 121 SORIANO, Simão José da Luz – História do Cerco do Porto. Tomo I/II. Porto: A Leite Guimarães Editor, 1889. 122 CONNERTON, Paul – Como as Sociedades Recordam. Oeiras: Celta Editora, 1993, p.16. 123 GUILLAUME, Marc – A Política do Património. Porto: Campo das Letras, 2003, p.72. 49 respeita, como referido anteriormente. Os vários testemunhos que vão surgindo de partidários do liberalismo, vitoriosos, surgem também como forma de afirmar a implantação do regime liberal que precisava de criar raízes. Já na segunda metade do século XIX, aquando da Regeneração “num quadro de relançamento dos ideais do liberalismo e reforçando a ideia da reivindicação dos feitos gloriosos”124, Luz Soriano compromete-se a escrever a História da Guerra Civil125, no seguimento da afirmação do regime liberal em Portugal, podendo aqui levantar-se a questão da memória seletiva, pois não interessava contar tudo, tendo em conta os supostos objetivos de algumas obras e a parcialidade dos seus autores, comprovada, por exemplo, pelos rasgados elogios e glorificação de D. Pedro e pelos ataques ao lado vencido, o absolutista de D. Miguel, a quem a generalidade destes autores chama de “usurpador”. 2.2.2. O Liberalismo Parece claro, pelo que foi imediatamente escrito atrás, que a memória de um Porto Liberal foi escrita, em grande medida, na Regeneração. Mas também não há dúvida que a cidade do Porto está ligada à implantação do liberalismo, bem antes da Guerra Civil e, mais especificamente, ao Cerco do Porto. Foi nesta cidade que o liberalismo teve a sua primeira manifestação em Portugal, na revolução de 24 de agosto de 1820. Este descobrir, desde cedo, dos ideais liberais fica a dever-se a algumas das características da cidade, que acabam por facilitar o evoluir do espírito liberal. A começar pelo seu forte caráter mercantil, o elevado número de mercadores que contactavam com outras nações, onde os ideais liberais estavam já implementados ou em forte propagação, e ainda por os portos brasileiros deixarem de estar, exclusivamente, ao serviço de Portugal, abertos à concorrência europeia (tratado de 1810), fundamentalmente inglesa, desde a ida da Família Real para o Rio de Janeiro. Outro dos motivos que tornaria o Porto terreno fértil ao liberalismo foi o enraizamento da vasta comunidade inglesa, residente na cidade, o que facilitava o contacto com um modo de fazer comércio mais concorrente, ao mesmo tempo que os via como competidores. 124 MOREIRA, Paulo – A Batalha de Ponte Ferreira (Campo, Valongo): um processo memorialista e de valorização patrimonial. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012, p. 90. 125 Idem, Ibidem, p.92. 50 Por outro lado, o pensamento liberal entranhava-se através da leitura de obras proibidas, de ideais liberais e maçónicos, facilitada no Porto pelos mercadores de livros126. É, como já referido, em 1820, que se dá a primeira revolução liberal em Portugal, revolução que foi preparada pelo Sinédrio, que se reunia numa casa da rua do Bonjardim, onde atualmente se evoca o nome de José Ferreira Borges, no mercado, um dos protagonistas desta revolução. Juntamente com este, outros locais da cidade subsistem com evocações a este acontecimento, como é o caso do Campo 24 de Agosto, pois a revolução aconteceu neste mesmo dia. Existem ainda os topónimos que se foram perdendo ao longo do tempo, como é exemplo disso o Campo da Regeneração, atual Praça da República, onde se iniciou a revolta de 1820127. A evolução do liberalismo e da monarquia liberal em Portugal foi marcando a cidade do Porto, com vários episódios locais ou nacionais que deixaram as suas marcas. Logo em 1822, e já com D. João VI regressado a Portugal, é aprovada a Constituição, acontecimento evocado naquela que um dia foi Praça da Constituição e que hoje é Praça da Liberdade, mantendo, por isso, a sua ligação ao liberalismo, esta que é considerada por muitos “a praça” da cidade128. Mais tarde, em 1829, é também nela que são mortos aqueles que ficaram conhecidos como Mártires da Liberdade. Alguns anos depois, à chegada de D. Pedro à cidade e aquando do início do Cerco do Porto, é nela, e a partir da varanda do então edifício da Câmara que D. Pedro se dirige aos portuenses pela primeira vez, o que motivaria o nome atribuído então de praça de D. Pedro, a grande praça da cidade onde “acontecimentos cívicos, os lutos, as alegrias, as festas, as histórias da resistência e da repressão (…)”129 tiveram lugar. Num local onde tantos acontecimentos relacionados com a implantação do liberalismo português tiveram lugar nada mais apropriado do que lhe atribuir um nome que os evoque a todos: praça da Liberdade. Como já referido, outro dos episódios relacionados com a implantação do liberalismo em Portugal foi a execução daqueles que ficaram conhecidos como Mártires da Liberdade, executados na então Praça Nova, atualmente da Liberdade. Estes liberais condenados e decapitados pelo regime absolutista de D. Miguel, em 1829, estão hoje sepultados num mausoléu no cemitério do Prado do Repouso, sendo também considerado um dos símbolos do 126 RAMOS, Luís A. de Oliveira - Raízes do Liberalismo Portuense: Dados e Observações. In Separata da Revista de História, vol. I, Porto: Centro de História da Universidade do Porto, 1978, p.362. 127 FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e – Toponímia Portuense. Porto: Contemporânea Editora Lda., 1999, p.296. 128 PACHECO, Helder – Porto. Lisboa: Editorial Presença, Lda., 1984, p.160. 129 Idem, Ibidem, p.160. 51 liberalismo portuense, juntamente com o coração de D. Pedro130. Em evocação deste episódio de repressão para com os apoiantes do liberalismo foi dado o nome de Rua dos Mártires da Pátria a uma artéria portuense, que antes teve também um outro nome relacionado com este episódio da luta pela causa liberal, Rua 16 de Maio, em evocação à revolta anti-miguelista de 1828131, por ter sido por esta rua que os militares revoltosos se dirigiram para o Campo de Santo Ovídio (hoje Praça da República), que acabou por não conseguir acabar com o regime absolutista e, dias depois, fracassou132, sendo o motivo para a punição dos envolvidos, os Mártires da Liberdade. A referida punição aos liberais, consequência da revolta anti-miguelista de 16 de maio de 1828, foi levada a cabo apenas no ano seguinte, inicialmente por hesitações em aplicar punições e depois pelo facto de o processo decorrer de “forma secretíssima e lenta”133, sendo efetivada pelas forcas montadas propositadamente na Praça Nova para os liberais condenados. É nesta mesma praça que D. Pedro, em 1832, se dirige pela primeira vez aos portuenses, depois de anos de luta de muitos destes pela causa liberal. A estes símbolos ou evocações, numa cidade que viveu com intensidade a implantação liberalismo, que faz parte da sua história e duma memória que, por estes factos, não se pretende que se apague, juntam-se as marcas deixadas pelo Cerco do Porto e pela presença de D. Pedro na cidade. Todas estas marcas deixadas pela história da implantação do regime liberal e da monarquia constitucional em Portugal tornam a cidade do Porto indissociável do liberalismo português. 2.2.3. D. Pedro e o Cerco Com a escolha, por parte do exército de D. Pedro, do norte de Portugal para desembarque e ocupação da cidade do Porto e tendo em conta a desproporcionalidade das tropas liberais em relação às tropas absolutistas, tornou-se evidente que o Porto seria o centro das operações. Após movimentações iniciais, o Porto, e parte da margem sul do rio Douro, a Serra do Pilar, ficam cercados pelas tropas fiéis a D. Miguel, ficando as tropas fiéis a D. Pedro, em consequência 130 SILVA, Francisco Ribeiro da – Os Mártires da Liberdade e a Santa Casa da Misericórdia do Porto (1829-1878). Porto: Santa Casa da Misericórdia do Porto, 2014, p. 57. 131 CARDOSO, António Barros – Liberais e Absolutistas no Porto (1823-1829). In Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Marques. Vol. I, Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras, 2006, p. 274. 132 Idem, Ibidem, p.276. 133 Idem, Ibidem, p.279. 52 cercadas na cidade do Porto. A cidade que passou a ser conhecida como Invicta torna-se, assim, palco daquele que foi o mais intenso e emblemático episódio da Guerra Civil Portuguesa, o Cerco do Porto. Durante os 13 meses que o Porto foi palco do conflito, de julho de 1832 a agosto de 1833, e os quase 12 meses que D. Pedro habitou no Porto, cercado, entre 9 de julho de 1832 e 26 de julho de 1833, foram muitas as marcas e memórias deixadas na cidade, assim como as posteriores evocações. Este terá sido o evento de “mais profundas e duradouras consequências não só para a cidade mas para todo o Portugal oitocentista”134. Começando pela presença de D. Pedro na cidade, o nosso projeto, quer das exposições, quer dos roteiros, equacionou o local em que D. Pedro habitou durante este período. Inicialmente, instalou-se no Palácio dos Morais e Castro, ou Carrancas, mas depois acabou por se mudar para uma casa na Rua de Cedofeita, menos exposta aos ataques absolutistas que partiam da margem sul do rio Douro. Os dois edifícios ainda existem, e, no caso do Palácio dos Morais e Castro, funciona atualmente um Museu, o Museu Nacional de Soares dos Reis, cujo núcleo original é proveniente do Museu Portuense de Pinturas e Estampas, fundado por D. Pedro, durante o período do Cerco e cujo objetivo era recolher espólio proveniente de conventos extintos ou abandonados naquele período135. É neste Museu que se encontram muitos dos objetos de uso pessoal de D. Pedro, como a espada e a farda de Caçadores 5136. Principalmente depois de se mudar para o número 395 da rua de Cedofeita137, D. Pedro começa a frequentar, semanalmente, as missas militares, entre outras cerimónias como o Te Deum, eventos solenes de ação de graças a Deus, normalmente em aniversários, na Igreja da Lapa138. Prova disso, é a oferta de alfaias litúrgicas por parte de D. Pedro a esta igreja, provenientes dos conventos extintos ou abandonados139. Iria a esta igreja muito pela proximidade em relação à casa onde então habitava, em Cedofeita, e pelo facto de esta se 134 SILVA, Francisco Ribeiro da – “O Cerco do Porto em 1832 para 1833 – por um portuense.” A Guerra Civil dentro do Porto. In O Tripeiro, 7ª Série, Ano XXIX, número 12, dezembro 2010, p.380. 135 MUSEU NACIONAL DE SOARES DOS REIS. Porto: act. 2 de agosto 2015.. Disponível na internet em: http://www.museusoaresdosreis.pt/pt PT/menu_historia/HighlightList.aspx [consultado a 3 de agosto de 2015] 136 Anexo 15. 137 CABRAL, Luís – O Cerco do Porto (1832-1833). Um Livro da Comissão Administrativa dos Conventos Extintos ou Abandonados. In Associação Cultural dos Amigos do Porto, Boletim de 2013, 3ª Série, nº 31, p.4. 138 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p.256. 139 Idem, Ibidem, p. 256. 53 encontrar num local menos exposto aos bombardeamentos absolutistas, tal como Cedofeita, o que não aconteceria em igrejas próximas ao rio, como é o caso da Sé do Porto. Outro dos motivos que poderá estar relacionado com esta escolha do monarca desta igreja seria de ordem afetiva, pela relação desta igreja e Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa com o Brasil, isto porque, como já referido, o seu fundador, o missionário Pe. Ângelo Sequeira, nasceu e faleceu nesse país140. D. Amélia e D. Maria II acabam por confirmar esta ligação, e de alguma forma eternizar a mesma, escolhendo a Igreja da Lapa como local para que o coração do Duque de Bragança fosse depositado, segundo a vontade deste, de que o seu coração fosse separado do corpo e deixado à Cidade Invicta, embora não deixando expressa a sua vontade em relação ao local da cidade em específico. Atualmente este é, assim, outro dos locais que conserva esta memória e que nos reporta e evoca a figura de D. Pedro e a sua presença na cidade. À memória e presença dele na cidade junta-se o facto de ser também símbolo da especial ligação que este criou com a “muito nobre e muito leal cidade” e os portuenses, legando-lhes o seu próprio coração, “a melhor porção de si mesmo, este tão grande penhor do seu amor”141. Ainda a propósito do coração de D. Pedro IV, um dos factos que acaba por ser revelador da importância que muitos locais tiveram durante este período, e para D. Pedro, é a indecisão e as diferentes opiniões quanto ao local onde deveria ser colocado o coração, aquando da sua entrega, em 1835. A Câmara Municipal do Porto defendia que o coração do monarca deveria ser depositado na capela de São Vicente na Sé142, embora sem nenhum motivo aparente, no que respeita ao local escolhido, a não ser o facto de ser a principal igreja da cidade e Sede da Diocese. Outros havia que defendiam que deveria ser construído um mausoléu no Mosteiro da Serra do Pilar, para lá se encerrar o coração143, pela importância do local durante a resistência das tropas liberais no Cerco, embora este local fosse já fora da cidade do Porto, tendo sido o único reduto liberal a sul do rio Douro, como já referido. A rainha acaba por pôr um ponto final 140 Idem, Ibidem, p.281. 141 Inscrição do túmulo que encerra o coração de D. Pedro na igreja da Lapa. Autoria de José Rodrigues Paços. 142 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p.256. 143 SILVA, Francisco Ribeiro da – O Cerco do Porto em 1832 para 1833 por um portuense. Introd. de Francisco Ribeiro da Silva. Porto: Universidade do Porto, 2010, p. 178. 54 nas dúvidas criadas e no conflito de opiniões, decidindo que o coração ficaria na Igreja da Lapa, onde chegou no dia 7 de fevereiro de 1835 e onde permanece, 180 anos depois. No altar-mor desta igreja pode ser observado o mausoléu erguido pela Câmara Municipal do Porto para este efeito, que foi inaugurado em 1837, dois anos depois da entrega do mesmo à cidade. É da autoria de Costa Lima, em estilo Império, construído a partir de granito proveniente inteiramente do solo portuense. Tem no seu topo o brasão dos Duques de Bragança e nele podese observar uma inscrição em latim, da autoria de José Rodrigues Paços, que se refere não só ao facto de nele se encontrar o coração e do gesto do monarca que nisso resultou, mas também a alguns dos principais feitos de D. Pedro no que a Portugal diz respeito144. Um dos grandes símbolos do liberalismo no Porto e da presença do monarca na cidade é a estátua equestre de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, que o representa a cavalo segurando a Carta Constitucional, que outorgou em 1826, na mão direita e com a farda de Caçadores N.º 5, regimento ao qual pertencia , sendo a sua farda deste regimento parte integrante do projeto145, assim como um impresso da Carta Constitucional146. Por baixo, duas placas representam o desembarque das tropas liberais na praia do Pampelido, com a entrega da bandeira bordada pelas senhoras do Faial ao comandante dos Voluntários da Rainha147, e a entrega do coração de D. Pedro aos vereadores da cidade do Porto148. Esta estátua foi inaugurada em 1866. A par com a toponímia, a estatutária é outro dos aspetos que influencia, ou até muda, a memória coletiva, organizando o passado, como refere Marc Guillaume149. A estátua equestre de D. Pedro, juntamente com muitas outras evocações da memória do monarca, do Cerco ou do Liberalismo, são um fator de manutenção, e até mesmo de ativação da memória coletiva destes temas na cidade, contribuindo para permanência da ligação da cidade à sucessão de acontecimentos relacionados com a implantação do Liberalismo em Portugal. Nas proclamações de D. Pedro aos portuenses, principalmente na sua chegada, em julho de 1832, à cidade, depois na sua partida, em julho de 1833, e quando visita a cidade, em julho de 1834, ficou claro, em primeiro lugar, a luta pelo trono de sua filha D. Maria, pela Carta 144 VIEIRA, Maria de Fátima S. B.; REBELO, Maria Manuela Maia O. – Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Porto: Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, 2001. 145 Peças da farda de Coronel de Caçadores V, utilizada por D. Pedro durante o Cerco do Porto. 1820 – 1832(?) Inv. : 27.1; 27.2; 27.3 Obj Hist CMP/MNSR; 10.2 Div MNSR. 146 Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa. 1826. Impressão Régia: 20 de abril de 1826. Documento gráfico: papel impresso. Nº inv. MMP00605. 147 Enciclopedia pela Imagem. Pôrto. Porto: Livraria Lello, Lda., p.28. 148 Idem, Ibidem, p. 28. 149 GUILLAUME, Marc – A Política do Património. Porto: Campo das Letras, 2003, p.144. 55 Constitucional e pelo Liberalismo e depois, nas duas últimas datas, a ligação especial e a gratidão para com os portuenses. É inclusive da proclamação dirigida aos portuenses, quando visita o Porto, em 1834, que são retiradas pequenas partes que depois são gravadas na urna de prata que guarda o seu coração150. Esta homenagem de D. Pedro IV à cidade do Porto não se ficou pelas proclamações e pela vontade expressa da entrega do seu coração. O Duque de Bragança, ainda durante o Cerco, a 8 de abril de 1833, e por ocasião do aniversário de D. Maria II, decide que, a partir de então, o segundo filho ou filha dos reis passasse a ter o título de Duque do Porto. Neste mesmo dia, decreta que o escudo da cidade seja alterado, acrescentando-lhe a coroa ducal do segundo filho dos reis e a Grã-Cruz da Torre e Espada151. Mais tarde, é já D. Maria II que decreta o conhecido epíteto do Porto “Antiga, Mui Nobre e Sempre Leal Invicta Cidade do Porto”, partindo do modo como D. Pedro se dirige ao Porto nas suas proclamações à cidade, em particular na que dirige ao Porto aquando da sua visita depois de finda a Guerra Civil, no final de julho de 1834. O nome de D. Pedro IV esteve também, durante algum tempo, associado à toponímia de uma praça da cidade do Porto, a atual Praça da Liberdade, por ter sido nela que pela primeira vez D. Pedro se dirigiu aos portuenses152. Se a presença de D. Pedro na cidade e consequente ligação deste aos portuenses deixou marcas até hoje na cidade, fortalecida com a presença do seu coração, diferente não foi no que respeita aos combates nela travados. Como já referido, o Cerco do Porto foi o mais emblemático episódio da Guerra Civil portuguesa, assim como provavelmente também o mais dramático153, e, consequentemente, marcante. Durante aproximadamente um ano o Porto foi palco dos combates, vivendo, em consequência disso, intensamente o Cerco. Este período acabou por ser de grandes privações e dificuldades para os portuenses, agravado pela cólera. É nesta conjuntura, de grande provação, que surgem atos heróicos, assim como as várias vitórias que os liberais foram conseguindo e que permitiram a resistência ao sítio das tropas absolutistas. São, 150 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p.258. 151 MARTELO, David – Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001, p.92. 152 FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e – Toponímia Portuense. Porto: Contemporânea Editora Lda., 1999, p. 161. 153 SILVA, Francisco Ribeiro da – O Cerco do Porto em 1832 para 1833 por um portuense. Introd. de Francisco Ribeiro da Silva. Porto: Universidade do Porto, 2010. 56 essencialmente, os atos heróicos e as vitórias que são lembradas, assim como as causas que defendem, e que se pretende que fiquem na memória, não só através dos vários relatos que chegam até aos nossos dias, como os já mencionados relatos do Coronel Hugh Owen154, de Luz Soriano155, de Charles Napier156 e até mesmo de anónimos157. Como é natural nestas circunstancias, quase só existem relatos do lado vencedor que não deixam de fornecer importantes dados, mas também na toponímia da cidade e em vestígios que chegaram até à atualidade. Estamos aqui perante o que é considerado “um verdadeiro monopólio de uma certa memória autorizada”158, ou seja, neste caso verificamos que só certos aspetos, certos nomes, normalmente de glorificação dos vencedores, são evocados e se pretende que permaneçam na memória das pessoas. Logo no mês seguinte à entrada dos liberais na cidade do Porto, é dada a ordem para que se fortifique a cidade159, rodeada já de baterias das quais chegam até à atualidade ainda importantes vestígios das mesmas160, em muitos casos na toponímia ou nas plantas existentes, que indicam, no caso das primeiras, a localização aproximada e, no caso das segundas, a localização exata. Estas baterias, às quais eram dados, muitas vezes, nomes coincidentes com a toponímia local, como é o exemplo da bateria da Vitória, junto à igreja de Nossa Senhora da Vitória, ou a das Virtudes, no local com o mesmo nome, permitem fazer um roteiro pelos limites da ocupação, do domínio, liberal na cidade, do mesmo modo que é possível, também, fazer o mesmo percurso pelos locais das baterias absolutistas, o núcleo do Arquivo Histórico e Municipal do Porto neste projeto expôs alguns dos documentos161 que podem contribuir nesta identificação162. 154 OWEN, Hugh – O Cerco do Porto contado por uma testemunha. Porto: Renascença Portuguesa, 1915. 155 SORIANO, Simão José da Luz – História do Cerco do Porto. Tomo I/II. Porto: A Leite Guimarães Editor, 1889. 156 NAPIER, Charles - A Guerra da Sucessão D. Pedro e D. Miguel. Int. António Ventura. Lisboa: Caleidoscópio. Centro de História da Universidade de Lisboa, 2005. 157 SILVA, Francisco Ribeiro da – O Cerco do Porto em 1832 para 1833 por um portuense. Introd. de Francisco Ribeiro da Silva. Porto: Universidade do Porto, 2010. 158 GUILLAUME, Marc – A Política do Património. Porto: Campo das Letras, 2003, p.144. 159 COELHO, Sérgio Veludo – As Baterias do Cerco do Porto. In Separata da Revista Museu, IV série, nº4, 1995, p. 271. 160 COELHO, Sérgio Veludo – As fortificações do Cerco do Porto, 1832-1833: seminário de licenciatura em Património Construído. Porto: Universidade Portucalense, 1994. 161 Anexo 15. 162 Coleção de plantas e perfis das fortificações, referidas à carta geral das linhas dos exércitos libertador e rebelde, no sítio do Porto. 1834. Álbum de litografias. AHMP. Cota: D-ALB/GRA-21. 57 A necessidade de grandes infraestruturas neste período para, por exemplo, albergar hospitais e para aquartelar tropas, levou a que muitos conventos, alguns deles abandonados aquando do desembarque das tropas liberais, e grandes edifícios da cidade fossem convertidos, face às necessidades do Cerco. Desde o Paço Episcopal, ao edifício da Igreja dos Grilos, até ao convento de São Francisco, são muitos os que, adquirem esta função. Na história de muitos destes edifícios está, por isso, o Cerco do Porto, que acabou por ser um marco no destino dos mesmos, pois acabaram por, também a partir daí, e até hoje, adquirir novas funções, pois do governo liberal na cidade do Porto resultou, também, a incorporação de muitos conventos e mosteiros nos Bens Nacionais163, aos que se juntaram, em definitivo os restantes de todo o país. No que à toponímia diz respeito, é natural que um ano de Cerco à cidade, com uma intensa sucessão de acontecimentos, deixe marcas na toponímia da mesma, até pela necessidade de se preservar na memória determinados acontecimentos deste período e os seus protagonistas e conquistas, assim como aprofundar uma identidade liberal e heróica da cidade. São, deste modo, muitos os exemplos que se podem enumerar, no que respeita a evocações deste período, logo durante o Cerco e, principalmente, nos anos que se seguiram. É exemplo disso a Praça do Exército Libertador, numa evocação do exército liberal de D. Pedro, ou então a Praça dos Voluntários da Rainha, atual Praça de Gomes Teixeira, evocando a “tropa de segunda linha que voluntariamente se alistou e bateu pela causa constitucional”164. No que a ruas diz respeito, o Porto conta, ainda, com variados exemplos. Há desde as que evocam datas, como a Rua 9 de Julho, data da entrada do exército liberal e de D. Pedro na cidade, ou a Rua 9 de Abril, numa alusão à conquista do Monte Covelo, a ruas que evocam nomes de personalidades liberais, como a Rua Luz Soriano, que nos deixou importantes obras acerca da Guerra Civil, a Rua Mouzinho da Silveira, importante membro do governo liberal de D. Pedro, a Rua Duque de Saldanha, importante chefe militar liberal, a Rua Sá da Bandeira, igualmente importante chefe militar liberal, a Rua Visconde de Setúbal, coronel liberal de nacionalidade alemã, a Rua do Duque da Terceira, chefe militar liberal, e as que evocam vitórias e feitos dos liberais, como a Rua do Heroísmo ou da Glória. A cidade do Porto tem, deste modo, ainda hoje uma forte presença da memória do Cerco do Porto, de D. Pedro e do processo de implantação do liberalismo em Portugal, que lhe vale o título, tantas vezes atribuído pela bibliografia do tema, de Cidade Liberal. 163 ALVES, Jorge Fernandes – A cidade Liberal: da revolução à estabilização do regime in História do Porto, n. 10, Matosinhos: Quidnovi, 2010, p. 65. 164 FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e – Toponímia Portuense. Porto: Contemporânea Editora Lda., 1999, p. 164. 64 Nova de Gaia, o São João. 3.2. Os locais Como já se referiu, o desenvolvimento do projeto sobre o qual este relatório se debruça, envolveu sete diferentes espaços, locais do roteiro/exposição, o que proporcionou o contacto com diferentes realidades. É verdade que, individualmente, o número de objetos era pequeno176, mas todos juntos formaram uma exposição considerável e com sentido, como que um puzzle que se compunha. Ora, neste projeto e seguindo a ideia e objetivos definidos, importavam também os locais, estando as peças expostas integradas no conjunto dos respetivos espaços, quer incorporadas nas exposições permanentes, quer em salas visitáveis no conjunto do espaço, tendo a visita uma lógica integradora e integrada, pela importância dos edifícios ou locais onde estavam inseridos, sendo ao mesmo tempo este projeto um roteiro e uma exposição polinuclear. O primeiro local que refiro é o Mosteiro da Serra do Pilar, mais precisamente o espaço Património a Norte, que serviu de ponto de partida para o roteiro que propúnhamos fazer. As funções que alberga atualmente no que à divulgação patrimonial diz respeito e a relevante importância deste edifício aquando da Guerra Civil e, mais concretamente, do Cerco do Porto, como já referido no anterior capítulo, fez com que este espaço tivesse que ser uma certeza neste projeto, sendo inclusive o local de acolhimento do estágio. Os restantes locais que se associaram à primeira fase do projeto foram escolhidos segundo dois critérios iniciais, a conjugação da importância do local/edifício no que respeita a D. Pedro e ao Cerco do Porto, tendo em conta em seguida o funcionamento dos espaços e a disponibilidade dos mesmos. Assim um dos locais associados foi o Museu Nacional de Soares dos Reis (Palácio dos Carrancas), palácio onde habitou D. Pedro durante o período inicial do Cerco do Porto e onde se encontram algumas das peças mais importantes no que respeita a D. Pedro IV, como é exemplo disso a já mencionada farda do mesmo. A juntar a este facto está ainda a origem do Museu, estando D. Pedro associado à sua fundação, ao seu núcleo inicial. Outro local escolhido para integrar o projeto foi a Igreja da Lapa, a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, onde está desde há 180 anos depositado o coração do Duque de Bragança e que contém, por esses motivos espólio acerca deste mesmo tema, como a urna original que transportou o mesmo até ao local ou os autos relativos às questões relacionadas com a permanência do coração no local, entre outros objetos relacionados com este facto. 176 Anexo 15. 65 Nos três locais anteriormente referidos são os próprios edifícios, associados ao natural acervo que possuem, que determinaram a sua escolha, no caso do primeiro no que respeita ao episódio militar e, no caso dos restantes, no que respeita à figura de D. Pedro. Por fim, e por ter uma característica diferente dos restantes, o Museu Militar do Porto é escolhido não pelo significado do edifício associado ao seu espólio mas pelo significado do local em que se encontra, o local onde ocorreu a batalha de 29 de setembro de 1832, que deu nome à rua do Heroísmo, onde se encontra o Museu, isto associado ao considerável acervo que este possui, aqui sobretudo ao nível militar. Temos, assim, na primeira fase da iniciativa, dois locais mais associados à figura de D. Pedro e outros dois mais associados ao Cerco do Porto, permitindo assim equilíbrio entre os dois temas do projeto. Na segunda fase do projeto os locais selecionados foram-no tendo por critério inicial o considerável acervo acerca do tema que a Câmara Municipal do Porto possui, associado ao significado desta instituição no que ao coração de D. Pedro IV diz respeito, por ser guardiã da chave da urna que guarda o coração. Mantendo o ponto de partida, o Mosteiro da Serra do Pilar, foram, então, associados mais três espaços. Assim o Arquivo Histórico do Porto associou-se ao projeto expondo documentos relativos ao tema do projeto, como é o caso do pergaminho177 onde está registado o auto de entrega do coração, entre muitos outros documentos que interessava divulgar. Outro local era o Gabinete de Numismática, com a sua coleção de medalhística e numismática178 acerca do tema, e, ainda, o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, que possui variadas peças que nos remetem para o tema, como é o exemplo da que deu origem à imagem desta segunda fase do projeto179. Esta segunda fase apresenta-se, como se pode observar, com uma diferente lógica em relação à primeira, no que aos locais envolvidos diz respeito. Aqui as peças e a instituição são os critérios na seleção dos locais. 177 Auto da entrega do coração de Dom Pedro IV à cidade do Porto. 1835. Pergaminho. AHMP. Cota: PERG-809. 178 Anexo 15. 179 Modelo de fardamentos militares. Batalhão de voluntários criados por D. Pedro, Duque de Bragança, em 1831. Pintura a óleo sobre madeira. MRQM. 66 3.3. As vantagens de se assinalarem datas históricas A utilização de datas, marcos históricos ou efemérides, assim como o aproveitamento de épocas favoráveis aos mesmos, é uma realidade que se revela favorável à divulgação histórica e patrimonial. Como tive já oportunidade de salientar, este projeto surge com o grande objetivo de assinalar os 180 anos da entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto, no dia 7 de fevereiro de 1835. Ora, embora o projeto, por questões logísticas, não tivesse sido lançado nesse mesmo dia, mas apenas no mês seguinte, a 3 de março, utilizou, igualmente, o pretexto, chamemos-lhe assim, de assinalar o mesmo acontecimento, no ano em que passavam 180 anos desde a entrega do mesmo, como então era salientado na divulgação da iniciativa. A comemoração de marcos históricos, e em particular quando se assinala a passagem de anos com números redondos, como é o caso dos 180 anos aqui, ou foi dos 150 anos do Cerco do Porto180, entre muitas outras associadas a estes ou outros temas com que todos os anos nos deparamos são uma tentativa de manter viva a memória de determinado acontecimento, aproveitando o impacto que a comemoração possibilita. Este último aspeto acaba por funcionar como justificação para o porquê de se levar a cabo uma determinada iniciativa com um determinado tema. A este assinalar da passagem de determinado número de anos surgem, como pretexto para o lançamento de inúmeras iniciativas, os dias dedicados a diferentes aspetos da cultura, como o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios ou o Dia Internacional dos Museus, este último celebrado a 18 de maio e aqui aproveitado neste projeto, como salientado anteriormente, no lançamento da segunda fase do roteiro/exposição. Os programas abrangentes associados às efemérides locais ou nacionais, como é o caso das comemorações São Joaninas na cidade do Porto e Gaia, são também pretexto para o lançamento de variadas iniciativas, facto que foi aproveitado na segunda fase para o prolongamento da exposição. Depois, igualmente os períodos favoráveis a maior número de visitantes podem ser tidos em conta, como foi o caso, na primeira fase, do período da Páscoa ou, na segunda fase, do já referido São João. O assinalar de datas históricas, associado ou não aos restantes aspetos apresentados, acabam por ser uma estratégia que visa garantir uma maior recetividade da iniciativa que, no caso do projeto, se revelou favorável, também, no que à recetividade dos vários espaços a este 180 O Cerco do Porto: Exposição Comemorativa do 150º Aniversário. Porto: Casa do Infante. 1982. 67 projeto diz respeito. 3.4. Viabilidade na continuidade do projeto Este projeto revelou-se viável e com uma positiva recetividade por parte dos diferentes espaços e público que se podem atribuir a diferentes fatores. O primeiro fator que enumero está relacionado com o tema do projeto, D. Pedro e o Cerco do Porto. Quanto ao Duque de Bragança, a boa recetividade fica a dever-se à ligação histórica e pessoal deste com a cidade, perpetuada quer pela sua imponente estátua equestre no centro da cidade, na Praça da Liberdade, quer pela presença física do seu coração, depositado no altar-mor da igreja da Lapa. A sua ligação direta ou indireta a alguns dos espaços é também fator que leva à referida recetividade, caso da ligação de D. Pedro com o núcleo inicial que deu origem ao que hoje conhecemos por Museu Nacional de Soares dos Reis. Tudo isto a juntar ao variadíssimo espólio que consta nos acervos dos diferentes espaços relacionado com o monarca. Ganhou outra dimensão quando se junta o assinalar dos 180 anos da entrega do coração. O episódio militar que ficou conhecido como Cerco do Porto é, igualmente, um tema que suscita o interesse dos diferentes espaços e público, por ter sido um episódio marcante na História da cidade do Porto, que levou à ligação deste com vários edifícios e locais da cidade, que favoreceu o interesse na integração dos mesmos em projetos envolvendo este tema, como é o caso, já na margem sul do Douro, do Mosteiro da Serra do Pilar, importante reduto liberal do Cerco do Porto. A abundante quantidade de objetos patente nos diferentes acervos, aos quais o projeto recorreu, contribuiu igualmente para a dita integração do projeto. Espólio que, pelo relativo bom estado de conservação em que se encontra, foi possível expor, acauteladas, por parte das equipas das instituições cooperantes, as ajustadas medidas de conservação preventiva. Os outros fatores que enumero prendem-se mais com questões referentes ao projeto em si e o modo como se propunha desenvolver, sem custos consideráveis associados, em cooperação entre diferentes espaços, com reduzidas necessidades logísticas, integrado nas exposições permanentes e facilmente conciliável com o calendário dos espaços. Estes foram os fatores que permitiram uma boa recetividade por parte dos respetivos organismos culturais. Já no que ao público diz respeito, são os temas os fatores de viabilidade do mesmo, como é suposto, a juntar ao que este projeto propunha, a visita aos diferentes espaços que completavam a visita, caso contrário ficaria incompleta, e a juntar a isto o facto de, por exemplo no caso da primeira fase, não importarem só os objetos expostos mas os próprios 68 edifícios ou locais e o seu simbolismo. Com efeito, além dos objetos expostos esta exposição permitia conhecer uma vertente do edifício, do local ou da instituição até então desconhecida de muitos, esta era a novidade que tornava esta exposição diferente, juntando um roteiro a uma exposição. Iniciativas relacionadas com este tema ou este modelo têm, a meu ver, capacidade de continuidade no panorama cultural do Porto e Gaia. O tema, como já referi, tem oportunidade, para se desenvolver pela forte ligação à cidade e quantidade de artefactos existentes. Já o modelo da iniciativa considero, do mesmo modo, ter fortes capacidades de se alargar no futuro, por vários fatores. Em primeiro lugar, o facto de recuperar a memória de diferentes espaços, evidenciando marcos históricos comuns entre os mesmos, e valorizar os seus acervos, onde abundam objetos relacionados com este tema, provenientes de várias coleções de origem particular181, doações da família real182, entre outras. Em segundo lugar, promove a criação de parcerias, o encontrar de pontos de interesse em comum e contribui para a inclusão dos diferentes espaços na cidade, na ligação dos mesmos ao espaço onde se inserem e à identidade da própria cidade. Iniciativas que impliquem parcerias entre diferentes espaços podem-se revelar vantajosas, principalmente no que respeita à divulgação e atração de maior número de visitantes, sobretudo para espaços com mais carências nesse sentido, mas também no que respeita à partilha de recursos logísticos, por exemplo, e mesmo cedência de objetos, de modo a completar exposições efetuadas em cada núcleo. Se no que respeita à historiografia sobre estes temas pode considerar-se que existem já diversos estudos, embora existam sempre outros aspetos que possam ser estudados, quanto à divulgação e valorização do património a estes temas relacionados, há ainda muito que pode ser feito, e foi possível ter esta perceção com o desenvolvimento deste projeto. Ainda utilizando o projeto sobre o qual este relatório se debruça temos, ainda, outros locais, outros espaços, que se poderiam associar à iniciativa, pelos mesmos motivos dos anteriores, sendo eles por exemplo a Santa Casa da Misericórdia do Porto e a Biblioteca Pública e Municipal do Porto. No caso da primeira, D. Pedro foi nomeado Provedor da Misericórdia do Porto a 2 de julho de 1833183, pouco tempo antes de partir para a capital e terminar o Cerco, e 181 Coleção Vitorino Ribeiro. Distribuída por alguns espaços museológicos da Câmara Municipal do Porto e, também, no Museu Militar do Porto. 182 Anexo 15. Caso de algumas peças expostas no MNSR. 183 BARREIRA, Aníbal – D. Pedro IV, Provedor da Misericórdia do Porto In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p. 11. 69 como Provedor continuou até 1836, já após a sua morte, sendo, depois de sair do Porto Provedor Nato e tendo nomeado um Vice Provedor, possuindo, com isto documentos relacionados com este facto e justificando o porquê da escolha de D. Pedro, a Santa Casa buscava sempre pessoas de prestigio para o cargo184, e pelo menos também um retrato do mesmo possuem185. Já a Biblioteca Pública e Municipal do Porto, pelos motivos anteriormente referidos, no contexto de esta ter já sido contactada no sentido de integrar o projeto, poderia dar continuidade a esta iniciativa ou alguma a esta relacionada. A continuidade do presente projeto, o assinalar de datas, torna-se positivo no que à divulgação da iniciativa diz respeito, isto remete-nos para a próxima data que poderia ser assinalada, a 20 de fevereiro de 1837, dois anos depois da chegada do coração à cidade e à igreja da Lapa, altura em que foi inaugurado o mausoléu186 que guarda o coração de D. Pedro IV, no altar-mor da igreja da Lapa, custeado pela Câmara Municipal e que completa, nesse ano, 180 anos, mantendo-se até aos nossos dias. Esta data poderia ser pretexto para ser levada a cabo uma iniciativa neste sentido. Partindo ainda de ideias deste projeto para melhor divulgação e valorização no que à história e património a estes temas relacionados diz respeito podemos ainda referir outro tipo de projetos. Estes temas possibilitariam, pela abundante quantidade de locais que o poderiam integrar, a criação de um roteiro alargado que recuperasse a memória de vários locais espalhados pelas cidades do Porto e Gaia, contribuindo para a divulgação e consequente valorização de uma considerável parcela do património da cidade. Com este projeto, percebeu-se ainda a possibilidade de criação de núcleos permanentes, nos diferentes espaços, dedicados a D. Pedro ou ao Cerco, e integrados nas suas exposições permanentes, o que acontece já no Museu Militar do Porto, numa sala dedicada aos conflitos militares do século XIX. A abundante quantidade de testemunhos escritos, gravuras e outros materiais possibilitariam, de igual modo, reconstituições históricas, muito utilizadas atualmente como fator de divulgação histórica e patrimonial, no que respeita ao Cerco do Porto ou quotidiano de D. Pedro, e que poderiam ser efetuadas em locais ou edifícios de então, como o Mosteiro da Serra do Pilar, o Palácio dos Morais e Castro (MNSR) ou a Igreja da Lapa. Estas são, deste modo, algumas das hipóteses de iniciativas no que ao tema e comuns 184 Idem, Ibidem, p. 16. 185 Idem, Ibidem, p. 17. 186 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil, Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto: Universidade do Porto; Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p.258. 70 objetivos em relação ao projeto apresentado neste relatório diz respeito, onde se percebe a possibilidade de continuidade de projetos variados, partindo do presente. 71 Considerações finais A cidade do Porto foi palco de inúmeros acontecimentos ao longo da sua História, em particular no século XIX, a expansão do Liberalismo em Portugal. Entre estes acontecimentos está o Cerco do Porto (1832-1833), ao qual se associa, desde logo, a figura do então Regente do Reino Português e Duque de Bragança, D. Pedro, que havia sido D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil. Foi este o mote deste projeto e estágio, a ligação existente entre dois tópicos, D. Pedro IV e o Cerco do Porto, sendo o símbolo da conexão o sentimento de gratidão de D. Pedro para com os portuenses, levando-o a deixar o seu coração à cidade do Porto. Assim, este projeto tinha como objetivo assinalar os 180 anos da entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto – reavivar a memória, um dos elementos que alimenta o património como herança a transmitir no futuro. O estágio curricular no espaço Património a Norte, teve a finalidade de desenvolver o projeto de estágio proposto, com a perspetiva de adquirir conhecimentos e prática no meio profissional, integrando uma equipa de trabalho, associando a conceção, abordagem teórica, investigação e criação integradora de um projeto que interessasse, em simultâneo, à instituição de acolhimento. A experiência saiu daquela instituição para se iniciar uma rede de contactos e realizar uma exposição/roteiro em rede, articuladora de diferentes pólos museológicos, públicos e privados. Assim, a limitação do espaço de desenvolvimento do presente projeto de estágio levou a que se procurassem outros e outras oportunidades de trabalho, o que acabou por resultar na associação de sete espaços a este projeto, possibilitando o contacto com diferentes realidades representativas do panorama cultural portuense. Ao longo do período de estágio foi adquirida experiência no que diz respeito à integração no trabalho de equipa, na dinâmica do espaço, no contacto com o público, no contacto com a realidade do panorama cultural, dificuldades e desafios e no contacto com metodologias de trabalho. A par do trabalho desenvolvido, no que à dinâmica do espaço diz respeito, o projeto possibilitou um adquirir de experiências mais alargado que as conseguidas no espaço onde o estágio se desenvolveu, isto pela pequena dimensão do espaço de estágio e associadas limitações. Assim, o projeto possibilitou o contacto com diferentes espaços, não esquecendo que mesmo o Mosteiro da Serra do Pilar pertencendo à cidade de Vila Nova de Gaia está bastante ligado à cidade do Porto, estando inclusivamente incorporado no Centro Histórico do Porto 72 inscrito na Lista do Património Mundial pela UNESCO. O contacto com espaços de diferentes origens e objetivos acabam por fornecer experiências variadas de forte enriquecimento no que ao contacto com diferentes metodologias de trabalho diz respeito, a par das dinâmicas de cada instituição, que encontraram neste projeto pontos de interesse comum, cruzando marcos históricos comuns entre eles e a cidade do Porto, fortalecendo a sua ligação com o meio envolvente. O produto final foi, assim, a organização e realização de um roteiro/exposição, envolvendo sete diferentes espaços, com o objetivo de assinalar os 180 anos da entrega do coração de D. Pedro à cidade do Porto. Cada um foi, deste modo, convidado a expor um pequeno conjunto de objetos relativos a D. Pedro ou ao Cerco do Porto. Assim, o visitante, partindo do Mosteiro da Serra do Pilar revisitaria a cidade do Porto, recuperando a memória destes dois temas e as ligações dos mesmos aos edifícios, enriquecidos pelas chamadas de atenção feitas nas suas exposições permanentes a estes temas, evocando as marcas deixadas pelos mesmos nos diferentes espaços. Este projeto representa a possibilidade de cooperação entre diferentes espaços de cariz cultural da cidade do Porto e Gaia potenciada pelo encontro de aspetos, objetivos e pontos de interesse comuns, que possibilitaram o contacto com várias realidades, que acabam por ser representativas de uma boa parte do panorama cultural portuense. Este projeto possibilitou-me, assim, o contacto com o organismo do estado que tutela a cultura no Norte de Portugal, a Direção Regional de Cultura do Norte, com um pequeno espaço de divulgação patrimonial com uma complexa rede de cooperações187, com um quartel militar, o Quartel da Serra do Pilar, que cedeu as peças expostas no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, com um museu tutelado pelo Exército Português, o Museu Militar do Porto, com um Museu Nacional, sob tutela não da DRCN mas da Direção Geral do Património Cultural, o Museu Nacional de Soares dos Reis, com uma das irmandades da cidade do Porto, a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, e com a Câmara Municipal do Porto, mais precisamente com o Pelouro da Cultura, trabalhando aqui não só com museus mas também com outra realidade, os Arquivos. A diferente natureza de cada instituição com quem desenvolvi o projeto, quer no que respeita às suas tutelas quer no que respeita às suas funções, em certos casos não diretamente relacionadas com a cultura, fez com que este trabalho se tornasse enriquecedor a vários níveis, conhecendo diferentes dificuldades, recursos e metodologias de trabalho, assim como os 187 Capítulo 1.1. 73 consequentes diferentes desafios inerentes. Contudo é de ressalvar o comum interesse na cultura, na divulgação e valorização da sua História associada ao seu Património. Voltando aos aspetos relacionados com os modos de trabalhar dos diferentes espaços, como já referido, tornou-se essencial para mim respeitar as metodologias de trabalho de cada um deles, desde que não colocassem os objetivos do projeto em causa, o que não aconteceu. Estes aspetos prendiam-se, sobretudo, com aspetos relacionados com as legendas, que se apresentavam de diferentes modos o que, mesmo não deixando de fornecer as informações básicas de identificação no que respeita às peças expostas, deixavam de parte informações que poderão vir a ser desenvolvidas num catálogo futuro, seguindo as normas utilizadas atualmente. Sendo todo o projeto trabalhado na perspetiva de contactar com as diferentes realidades, adaptando-se tanto quanto possível aos diferentes espaços, todos estes obstáculos, chamemoslhes assim, limitaram, em certa medida, um melhor resultado final, mas é de salientar que cumpriram um primeiro objetivo do projeto, as aprendizagens e o contacto com as diferentes realidades das diferentes naturezas das instituições, bem como sensibilidades e objetivos destas,. Esta iniciativa veio demonstrar como a História pode contribuir para a divulgação e consequente valorização do Património Cultural, na construção da sua memória, através dos contextos que fornece, o seu suporte. A História deve ser usada, assim, para valorização do Património, como se verificou neste projeto. Finalmente, o futuro também se equacionou, porque existem várias possibilidades de trabalho que podem vir a ser realizadas. A começar pelo que ficou de fora do projeto, por motivos de calendário ou logísticos, espaços que faria todo o sentido integrarem este projeto, pelas peças que possuem e pela sua ligação aos temas. Falando de locais, são muitos e variados os locais da cidade que poderiam integrar um roteiro alargado sobre o Cerco do Porto, não só na cidade do Porto mas também na margem sul do Douro. O assinalar de datas específicas é, também, um pretexto para se levarem a cabo novas iniciativas acerca do tema, como os futuros 180 anos da construção do mausoléu na igreja da Lapa, que poderia ser um incentivo à realização de conferências, recriações históricas e exposições, entre outras possibilidades. São, por isso e tendo em conta a experiência obtida no projeto, muitos os aspetos que incentivam a exploração deste tema e a valorização patrimonial do mesmo. Tendo sempre em conta a importância da cooperação entre os diferentes espaços/instituições, evidenciando objetivos comuns e ligações que importam preservar e que se revelam vantajosas. 80 Legislação Decreto-Lei nº205/2006. 81 Anexos Anexo 1. Planificação inicial do estágio (projeto). Anexo 2. Países de origem dos visitantes do espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar (janeiro – abril 2015). Anexo 3. Certificado de Participação na Conferência Internacional RenEU. Anexo 4. Certificado de Participação na Conferência A importância da História na Contemporaneidade. Anexo 5. Mapa dos locais do roteiro/exposição. Anexo 6. Cartaz roteiro/exposição (1ª fase). Anexo 7. Texto roteiro/exposição (1ª fase). Anexo 8. Panfleto roteiro/exposição (1ª fase). Anexo 9. Texto prolongamento exposição (1ª fase). Anexo 10. Cartaz roteiro/exposição (2ª fase). Anexo 11. Texto roteiro/exposição (2ª fase). Anexo 12. Cronologia roteiro/exposição (2ª fase). Anexo 13. Folha de Sala roteiro/exposição – frente (2ª fase). Anexo 14. Folha de Sala roteiro/exposição – verso (2ª fase). Anexo 15. Catálogo roteiro/exposição. 82 Anexo 1. Planificação inicial do estágio (projeto)*. Objetivos do estágio - recolher informação relativa à elaboração de roteiro que percorra os lugares que o rei (imperador do Brasil) D. Pedro IV visitou na campanha de guerra designada por Cerco Do Porto. - reconstituir o dia a dia quer a nível de combate e defesa, quer ao nível simbólico, quer no que ao quotidiano de D. Pedro diz respeito. Justificação: - no próximo ano de 2015, comemoram-se 180 anos da transladação do coração de D. Pedro para a cidade do Porto - este roteiro integrar-se-ia nas comemorações do mesmo, - o Mosteiro da Serra do Pilar é um dos lugares que faz parte desse roteiro, por razões históricas. - A instituição “Património a Norte - Mosteiro da Serra do Pilar” é um dos locais que terá que constar, obrigatoriamente, no roteiro sobre o Cerco do Porto, tanto mais que este organismo da DRCN tem como objetivo divulgar o património classificado a norte, onde se inclui, naturalmente, o da cidade do Porto. - Os objetivos do projeto cruzam-se com os objetivos da instituição, principalmente no que respeita à divulgação do património, isto para além de todo o simbolismo do local em que este organismo se encontra. - público-alvo: em geral um público identificado com o turismo cultural, assim como de um público mais em especifico, o proveniente do Brasil Planificação do Estágio Elaboração de um roteiro dos locais mais simbólicos do Cerco do Porto e da estadia de D. Pedro IV na cidade do Porto, 180 anos após a transladação do seu coração para a cidade pesquisa da bibliografia e fontes relacionadas com o tema Cerco do Porto e D. Pedro IV -onde se incluirá o próprio Mosteiro da Serra do Pilar, de onde pode partir o roteiro, olhando o mosteiro como “porta de entrada” na cidade e nesta alusão ao Cerco e a esse período, sejam acompanhados de uma contextualização histórica dos mesmos Preparação exposição/peça do Mês – Museu Soares dos Reis Museu Soares dos Reis: com a exposição de uma ou mais peças relacionadas diretamente com D. Pedro IV e a sua 83 estadia na cidade do Porto (habitou algum tempo no Palácio das Carrancas que atualmente alberga este museu), por exemplo: pintura/desenho de D. Pedro IV (retratado segundo este período) e ainda várias peças de uso pessoal de D. Pedro, como chapéu, óculo e estojo, fardamento e armaria (espada). Outras peças poderão ser as loiças com a efígie de D. Pedro. Pretende-se, neste espaço, que se exponha uma peça/conjunto de peças, que nos remetam para o lado mais pessoal e que “simbolizem” a presença física do mesmo na cidade Exposição/peça do mês Museu Militar exposição de uma peça/conjunto de peças relacionadas, aqui, mais com aspetos militares, ou seja, diretamente relacionados com o Cerco do Porto, ou com exposição de armaria do tipo utilizada durante o Cerco do Porto ou com a exposição de peças utilizadas no Cerco do Porto, como balas, barretinas, capacetes, chapas e fivelas, por exemplo, todos com inscrições alusivas ao acontecimento. Neste espaço pretende-se a exposição de uma peça/pequeno conjunto de peças que nos remetam para os acontecimentos militares que levaram à permanência de D. Pedro na cidade. Biblioteca Pública e Municipal do Porto: exposição documental acerca do Cerco do Porto e D. Pedro IV. exposição do primeiro número da Chronica Constitucional do Porto, órgão oficial dos liberais e uma das fontes utilizada na realização do roteiro. Dando neste espaço maior destaque à imprensa e publicações do referido período Casa do Infante – Arquivo Histórico e Municipal do Porto exposição de proclamações/manifestos assinados por D. Pedro e dirigidos durante a sua estadia na cidade, entre outros. Igreja da Lapa ainda não se possuindo confirmação da existência das mesmas, fui informado de que existiriam pautas originais de D. Pedro IV, posse da Irmandade ou Coro da Lapa. Sabendo que D. Pedro era compositor e compôs, inclusive, 84 um Te Deum, várias vezes realizado em comemoração de inúmeras efemérides durante o Cerco do Porto e, em alguns casos, realizados nesta mesma igreja, seria interessante expor, aqui também, alguma peça com isto relacionado. A ideia passaria por expor, por exemplo, a pauta do Te Deum composto por D. Pedro, numa igreja por ele frequentada e que é particularmente conhecida pela sua forte componente musical (Coro da Lapa e maior órgão de tubos da P. Ibérica). Este objeto exposto remeteria o visitante para o lado espiritual e cultural de D. Pedro, católico e compositor. Contudo a existência destas pautas carece de confirmação. Outro aspeto que, muito provavelmente, poderia ser explorado é, por exemplo, o da Arte Sacra e exposição das mesmas, porque era comum os monarcas e ilustres que frequentavam o culto em determinada igreja oferecerem peças de arte sacra ou fazerem outro tipo de doações, por exemplo. A exposição de peças doadas pela família real ou por D. Pedro a esta igreja ou Irmandade remeteriam o visitante para um D. Pedro católico e para um dos aspetos do seu quotidiano na cidade, a participação em atos religiosos. Serra do Pilar, exposição na instituição de estágio pretende-se, dentro do possível, realizar uma exposição com mapa do roteiro e imagens dos locais, servindo de ponto de partida para o roteiro e, ainda, expondo, se possível, as peças que estiveram, entretanto, expostas nos vários locais referidos, dentro das condições que o espaço pode oferecer e mediante disponibilização das instituições. Caso os objetos não sejam cedidos para a exposição, o caminho a optar seriam, assim, os documentos (digitalizações/transcrições) e as gravuras/litografias (digitalizações), entre outros *planificação realizada antes do início do estágio e sem primeiro contacto com as instituições. 85 Anexo 2. Países de origem dos visitantes do espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar (janeiro – abril 2015)*. Países janeiro fevereiro março abril total Alemanha 42 66 154 175 437 Bélgica 9 38 54 108 209 Brasil 168 162 93 142 565 Espanha 137 92 134 269 632 França 118 209 258 441 1026 *Dados recolhidos diariamente no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar. Aqui apenas foram mencionados os cinco países de onde são provenientes mais visitantes. 86 Anexo 3. Certificado de Participação na Conferência Internacional RenEU. 87 Anexo 4. Certificado de Participação na Conferência A importância da História na Contemporaneidade. 88 Anexo 5. Mapa dos locais do roteiro/exposição (1ª e 2ª fases). 89 Anexo 6. Cartaz roteiro/exposição (1ª fase). 96 Anexo 12. Cronologia roteiro/exposição (2ª fase). 1826, março – Morte de D. João VI. 1826, abril – D. Pedro IV outorga a Carta Constitucional. 1826, maio – D. Pedro abdica da coroa portuguesa em sua filha D. Maria da Glória. 1827, julho – D. Miguel é nomeado regente por D. Pedro. 1828, fevereiro – D. Miguel regressa a Portugal e jura a Carta. 1828, março – D. Miguel declara-se rei absoluto. 1831, abril – D. Pedro abdica da coroa brasileira em seu filho D. Pedro II. 1832, fevereiro – D. Pedro retoma o título de Duque de Bragança e proclama-se regente do trono português. 1832, julho – Desembarque das tropas liberais e D. Pedro no Pampelido e início do Cerco do Porto. 1833, junho – Partida de uma esquadra liberal em direção ao sul do país. 1833, julho – Partida de D. Pedro em direção à capital. 1833, agosto – Fim do Cerco do Porto. 1834, maio – Convenção de Évora-Monte, que põe termo à Guerra. 1834, julho – Visita de D. Pedro e D. Maria II à cidade do Porto. 1834, setembro – Morte de D. Pedro. 97 1835, fevereiro – Entrega do coração de D. Pedro à cidade do Porto. 98 Anexo 13. Folha de Sala – frente (2ª fase)*. *frente da Folha de Sala comum aos quatro espaços. 99 Anexo 14. Folha de Sala – verso (2ª fase). 100 101 102 103 Anexo 15. Catálogo roteiro/exposição. Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto 180 anos da entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto 1835 - 2015 D. Pedro IV – Museu Nacional de Soares dos Reis 104 Roteiro/exposição: D. Pedro IV e o Cerco do Porto 180 anos da entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto 1835 – 2015 3 de março a 30 de junho de 2015 Integrado no Projeto “Revisitar o Porto: D. Pedro IV e o Cerco do Porto” surge este roteiro/exposição, composto por duas fases, que tem como objetivo assinalar os 180 anos da entrega do coração de D. Pedro IV à cidade do Porto. Esta iniciativa insere-se no Projeto de Estágio do mestrando Carlos Furtado, desenvolvido no Mestrado em História e Património – Mediação Patrimonial e levado a cabo no espaço Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar, resultante do protocolo realizado entre a Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a Direção Regional de Cultura do Norte. A este projeto associaram-se diferentes espaços, como o Museu Militar do Porto, o Museu Nacional de Soares dos Reis, a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e a Câmara Municipal do Porto. 105 Cronologia 1798, outubro – Nasce D. Pedro IV, no Palácio de Queluz. 1807, novembro – A Família Real embarca para o Brasil, após a invasão de Portugal por Junot. 1818, maio – D. Pedro casa com a arquiduquesa Leopoldina. 1819, abril – Nasce a primeira filha de D. Pedro, futura D. Maria II. 1820, agosto – Revolução Liberal em Portugal. 1821, abril – D. João VI nomeia D. Pedro regente do Brasil e parte para Portugal. 1822, setembro – D. Pedro proclama, formalmente, a independência do Brasil. 1825, dezembro – Nasce D. Pedro, futuro herdeiro da coroa brasileira. 1826, março – Morte de D. João VI. 1826, abril – D. Pedro IV outorga a Carta Constitucional. 1826, maio – D. Pedro abdica da coroa portuguesa em sua filha D. Maria da Glória. 1826, julho – A infanta-Regente jura a Carta. 1827, julho – D. Miguel é nomeado regente por D. Pedro. 1828, fevereiro – D. Miguel regressa a Portugal e jura a Carta. 1828, março – D. Miguel declara-se rei absoluto. 1829, outubro – D. Pedro casa-se com D. Amélia. 112 Roteiro/exposição D. Pedro IV e o Cerco do Porto – 1ª fase Com o objetivo de assinalar os 180 anos da chegada do coração à cidade do Porto, surge roteiro/exposição “D. Pedro IV e o Cerco do Porto”. Passados estes anos, recordamos a figura do Rei Soldado e as circunstâncias que levaram a esta especial ligação à cidade. Para isso escolhemos quatro locais que simbolizam o seu quotidiano e o referido episódio militar: o Mosteiro da Serra do Pilar, local de aquartelamento das tropas de D. Pedro e único reduto a sul do rio Douro, o Museu Militar do Porto, junto ao local da importante batalha de 29 de setembro de 1832, o Palácio dos Morais e Castro (atual Museu Nacional de Soares dos Reis), onde habitou algum tempo, e a Igreja da Lapa, que frequentava e onde se encontra depositado o seu coração. Cada espaço foi, deste modo, convidado a assinalar esta data com a exposição de um pequeno conjunto de peças referentes ao monarca ou ao episódio militar em questão, assim como à entrega do coração à cidade, formando quatro diferentes núcleos que se complementam. Surge, assim, esta exposição que pretende não só dar a conhecer as peças acerca do tema que os vários espaços possuem mas, também, convidar os visitantes a ir aos próprios espaços, de importante significado tanto no que diz respeito a D. Pedro como no que diz respeito ao Cerco do Porto, atribuindo um significado aos diferentes espaços até agora desconhecidos de grande parte dos visitantes. Propõe-se uma visita aos diferentes espaços no seu conjunto. Partindo do Mosteiro da Serra do Pilar os visitantes são, assim, convidados a fazerem um pequeno roteiro que os remeterão para a figura de D. Pedro IV e para o Cerco do Porto. Património a Norte – Mosteiro da Serra do Pilar* Este mosteiro, fundado em 1537, pela sua localização, num ponto elevado junto à cidade do Porto, é ocupado pelas tropas liberais de D. Pedro, no contexto da Guerra Civil portuguesa e do Cerco do Porto, para aquartelamento de tropas e defesa da cidade. Já alguns anos antes, em 1809, o mosteiro foi ocupado pelas tropas de Wellington, com o objetivo de atacar a cidade do Porto, então ocupada pelas tropas de Napoleão. No dia seguinte à sua chegada à cidade do Porto, o exército liberal ataca a margem sul do Douro e conquista a Serra do Pilar, aquartelando no mosteiro tropas, por se considerar ser um 113 local estratégico, ao nível militar, de relevante importância195, deixando a ala sul do mosteiro em ruínas. O mosteiro ficou, desde cedo, ocupado para fins militares, logo em 1834 a Serra do Pilar é tornada, por decreto da rainha D. Maria II, fortaleza e, em 1835, praça de guerra de 1ª classe, igualmente por decreto, sendo a partir daqui utilizada como Unidade Militar. Atualmente o mosteiro adquire, ainda, uma função militar, funcionando nele o Quartel da Serra do Pilar. É a vertente militar que aqui se pretende realçar, desde o tipo de armamento utilizado então ao significado do edifício em si, utilizado então para fins militares, assim como a sua envolvente. 1. Carta Topográfica das Linhas do Porto / Carte Topographique des lignes d’ Oporto 1832-1833 Comando do Pessoal do Exército 2. Planta, e perfiz das fortificaçoens, e do edeficio da Serra do Pilar 1832-1833 Comando do Pessoal do Exército 3. Pistola de pederneira Séc. XIX (?) do tipo usado durante o Cerco do Porto Comando do Pessoal do Exército 4. Carabina de pederneira Séc. XIX (?) do tipo usado durante o Cerco do Porto Comando do Pessoal do Exército 5. Esmerilhão de pederneira Séc. XIX (?) do tipo usado durante o Cerco do Porto Comando do Pessoal do Exército 6. Baionetas (2) Séc. XIX (?) do tipo usado durante o Cerco do Porto 195 MARTELO, David – O Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio, 2001, p.14. 114 Comando do Pessoal do Exército 7. Mosteiro da Serra do Pilar Foto Séc. XX Comando do Pessoal do Exército Obs: Evidencia alguns dos danos resultantes dos combates aqui travados, que destruíram partes do edifício. *As peças expostas são propriedade do Comando do Pessoal do Exército, Quartel da Serra do Pilar, sendo cedidas ao espaço exclusivamente para o projeto. Não possuem número de inventário nem datação específica. Museu Militar do Porto* Junto ao local onde hoje se situa o Museu Militar do Porto ocorreu, a 29 de setembro de 1832, uma das mais importantes batalhas ocorridas no período do Cerco do Porto. O exército de D. Miguel preparou para este dia uma grande ofensiva, simbolicamente programada para o dia do Arcanjo S. Miguel, com o objetivo de pôr termo, em definitivo, à resistência liberal. Uma vitória decisiva tardava da parte absolutista, assim como, do mesmo modo, os liberais precisavam de dar esperança às suas tropas, que muitos acreditavam não ter saída. Os ataques do exército absolutista iniciaram-se entre as 6h e as 7h da manhã do dia 29 de setembro, embora os preparativos dos mesmos fossem percetíveis durante a noite. Com os primeiros ataques as tropas absolutistas conseguem penetrar as linhas do Porto, avançando no espaço compreendido entre Campanhã e o Prado do Repouso, de onde acabam por ser expulsos pelos contra-ataques das reservas liberais. É junto ao local onde hoje se localiza o M.M.P que se deram os principais e mais violentos confrontos, e são os atos heroicos, observados de ambos os lados do conflito, que acabam por dar nome à rua onde se situa o Museu, a rua do Heroísmo. A juntar aos contra-ataques liberais alguma desorientação no lado absolutista, motivado pelas semelhanças nas barretinas de batalhões de ambos os lados, levou a que a vitória nesta batalha fosse liberal e que, após horas de violentos confrontos, os absolutistas recuassem e, por 115 volta das 17h, já todos os batalhões absolutistas haviam regressado às suas posições nas linhas absolutistas. Neste Museu alia-se, deste modo, o significado do local ao espólio militar do século XIX, no que ao Cerco do Porto diz respeito, oferecendo-nos também um interessante contexto militar do século XIX. 1. Pistola de pederneira de Cavalaria 1817 Armeiro anónimo – Braga Calibre 17mm Museu Militar do Porto 2. Pistola de pederneira de cavalaria 1817 Armeiro anónimo – Porto Calibre 17mm Museu Militar do Porto 3. Par de tinteiros de viagem com areeiro e porta pena Século XIX (?) Chifre Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 29 e 30) 4. Par de Dragonas de Oficial do Exército 1806-1834 Metal, galões de metal, couro e tecido Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 95/a) 5. Sá da Bandeira Reprodução fotográfica de litografia Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 200) 6. Perspectiva do Convento da Serra do Pilar no dia 14 de Outubro de 1832 116 Reprodução fotográfica de litografia Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 118) 7. Duque da Terceira Reprodução fotográfica de litografia Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 195) 8. Batalhão do Pataco 1832 Desenho em papel. Esboço a lápis Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 198) 9. Chapa de Barretina de Caçadores Séc. XIX Metal dourado Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 11) 10. Carabina de pederneira de Cavalaria Ligeira Séc. XIX (?) Calibre 17mm Museu Militar do Porto 11. D. João VI, D. Carlota Joaquina e D. Pedro IV 1802 Autor desconhecido Baixo-relevo policromado, cerâmica Nº inv. MMP00903 12. Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa 1826 Impressão Régia: 20 de abril de 1826 Documento gráfico: papel impresso Nº inv. MMP00605 117 13. Hino Imperial Constitucional 1826 D. Pedro IV Documento gráfico: papel impresso Nº inv. MMP00885 14. Medalha de D. Miguel I 1829 Efígie de d. Miguel , D. M. I. Prata dourada Nº inv. MMP00605 15. Proclamação Quartel-General Imperial do Porto 26 de julho de 1833 D. Pedro, Duque de Bragança Documento gráfico: papel impresso Nº inv. MMP00891 16. Hino Constitucional Portuense 1833 João Nepomuceno Medina Paiva Documento gráfico: papel impresso Nº inv. MMP00885 Obs.: “para ser cantado no Theatro de S. João no anniversario da gloriosa acção das linhas da cidade do Porto, no dia 29 de Setembro de 1832.” 17. Medalha das Campanhas da Liberdade nº2 1861 Efigies de D. Pedro e de D. Maria II Cobre Nº inv. MMP00946 18. D. Carlota Joaquina 118 Reprodução fotográfica de aguada Atribuída a João Batista Ribeiro Museu Militar do Porto 19. D. Miguel I 1845 Reprodução fotográfica de litografia Insc.: S. M. Fidellissima D. Miguel I Museu Militar do Porto 20. D. Pedro IV 1852 Reprodução fotográfica de litografia Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 256) 21. Proclamação “Amigos Portuenses” 1833 Reprodução fotográfica de Impresso em papel Coleção Joaquim Vitorino Ribeiro – Museu Militar do Porto (nº inv. 237) *Algumas peças não possuem número de inventário. O Museu encontra-se atualmente em processo de inventariação. Museu Nacional de Soares dos Reis O Palácio dos Morais e Castro ou Palácio dos Carrancas, atual Museu Nacional de Soares dos Reis, foi o “pouso inicial”196 de D. Pedro na cidade, que depois acaba por se mudar para a rua de Cedofeita, de modo a ficar mais protegido dos ataques do exército absolutista. D. Pedro está, também, associado ao núcleo inicial deste Museu, inicialmente Museu Portuense de Pinturas e Estampas, fundado em 1833, com o objetivo inicial de acolher o vasto espólio confiscado dos vários mosteiros e conventos abandonados e nacionalizados. 196 RAMOS, Luís A. de Oliveira – D. Pedro, Imperador e Rei. Experiências de um Príncipe (1798-1834). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2007, p. 81. 119 Ao núcleo inicial deste Museu foram doadas por D. Amélia, entre outras, as peças da farda de Coronel de Caçadores V, utilizada por D. Pedro durante o Cerco do Porto. O significado do edifício neste período, o significado de D. Pedro na sua fundação, assim como o espólio que possui no que respeita ao Cerco do Porto e, especificamente, a D. Pedro, torna-o núcleo essencial nesta exposição. 1. Porto e Arrabaldes Linhas de D. Pedro e Posições do Exército de D. Miguel 1832 / 1835 (?) Litografia Inv. : 93 Lit CMP/MNSR Posições militares durante o Cerco do Porto (linhas ponteadas). Localização de baterias e fortes. Datas dos confrontos. A legenda inferior remete para a localização das baterias de ambos os exércitos, a residência de D. Pedro – atual Museu Soares dos Reis – e alguns edifícios e ruas. 2. Vista da Cidade do Porto / View of the City of Oporto 1833 Carlos Van Zeller, desenhador / Robert. Havell, gravador Gravura Inv. : 170 Grav MNSR Tirada durante o Cerco do Porto é uma das poucas representações da cidade durante este período. Obs.: Em primeiro plano foram registadas as personagens militares em paralelo com as figuras populares: um aguadeiro, mulheres com canastras na cabeça, um camponês envergando um capote de palha, dois prisioneiros de guerra acorrentados. Do lado de Vila Nova de Gaia são ainda representados os longos telhados, correspondendo aos armazéns de vinho do Porto. Legenda: "Esta vista da Cidade do Porto foi tomada do Convento da Serra durante as occorrencias / de 1833 - dedicada a S.M.I. o Senhor D. Pedro Duque de Bragança e mandada publicar / por ordem do mesmo Augusto Senhor"/; em baixo: "Carlos Van Zeller/ Capitão da Brigada Ingleza ao Serviço da Rainha de Portugal a Senhora D. Maria II a fez". 3. Retrato de D. Maria II 120 Paris, séc. XIX Achille Jacques Jean Marie Deveria Litografia Inv. :126 Lit CMP/MNSR 4. Retrato de D. Miguel Paris, séc. XIX Gravura Inv. : 186 Grav CMP 5. Gravura Satírica Paris, séc. XIX Litografia Inv. : 212 Grav MNSR Obs.: Legado Visconde da Trindade Duas litografias acopladas, uma representando o retrato de D. Miguel e a outra uma cabeça de burro, visíveis sob ângulos diferentes. 6. Peças da farda de Coronel de Caçadores V, utilizada por D. Pedro durante o Cerco do Porto 1820 – 1832 (?) Inv. : 27.1; 27.2; 27.3 Obj Hist CMP/MNSR; 10.2 Div MNSR. Obs.: Os complementos da farda foram doados pela Imperatriz D. Amélia ao Museu Portuense, fazendo assim parte do núcleo inicial do Museu Nacional de Soares dos Reis. 7. Retrato de D. Pedro IV Jonh Simpson (1782 – 1847) Óleo s/tela Inv. : 594 A Pin MNSR 8. Retrato da Imperatriz do Brasil, Amélia Augusta Eugénia Napoleão de Beauharnais séc. XIX Friedrich Durck (at) 121 Óleo s/ tela Inv. 770 Pin CMP / MNSR Obs.: 2ª mulher de D. Pedro, era neta de Josefina de Beauharnais, mulher de Napoleão Bonaparte Igreja da Lapa Num mausoléu construído, propositadamente, no interior desta igreja encontra-se, até aos nossos dias, depositado o coração de D. Pedro IV. Esta era a igreja que D. Pedro, durante o período em que esteve cercado na cidade do Porto, frequentava, muito devido à sua proximidade ao local onde habitou grande parte do tempo em que habitou a cidade, na rua de Cedofeita. Nela D. Pedro assistia à “missa militar semanal”197, tendo também em vida doado espólio proveniente de mosteiros abandonados da cidade do Porto. São estes os motivos que levam D. Maria II, filha de D. Pedro, a escolher este local para depositar o coração de seu pai, que o doara à cidade do Porto sem especificar um local para a permanência do mesmo. Dois anos depois da sua chegada, em 1837, e depois de umas longas negociações entre a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e a Câmara Municipal do Porto, é inaugurado o mausoléu no interior da igreja onde permanece até hoje o coração de D. Pedro. 1. Estojo que guardava o escrínio de prata dourada com o coração de D. Pedro IV 1835 Madeira forrada a veludo Coleção D. Pedro IV, Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa 2. Bandeira da Monarquia Constitucional Portuguesa 1835 Seda bordada 197 SILVA, Francisco Ribeiro da – D. Pedro IV e a Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa da Cidade do Porto. In D. Pedro Imperador do Brasil e Rei de Portugal. Do Absolutismo ao Liberalismo. Actas do Congresso Internacional. Porto, Palácio da Bolsa, 12 a 14 de Novembro de 1998. Lisboa: Universidade do Porto. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001, p.256. 128 4 – Cruzado novo Prata 1832 80.A.1299 5 – Doze vinténs Prata 1829 80.A.1301 6 – Doze vinténs Prata 1830 80.A.1281 7 – Seis vinténs Prata 80.A.1282 8 – Tostão Prata 80.A.1307 9 – Três vinténs Prata 80.A.1305 10 – Meio tostão Prata 80.A.1309 11 – Pataco Bronze 1828 80.A.1311 12 – Dez réis Cobre 1831 80.A.1292 13 – Cinco réis 129 Cobre 1829 80.A.1293 3. Moedas de D. MARIA II 1 – Peça Ouro 1833 80.A.1397 2 – Peça Ouro 1834 80.A.1336 3 – Cruzado novo Prata 1833 80.A.1338 4 – Pataco Bronze 1834 80.A.1344 5 – Dez réis Cobre 1830 80.A.1330 6 – Cinco réis Cobre 1830 80.A.1332 4. Medalhas 1 – Insígnia da Torre e Espada. Comemorativa da outorga da Carta Constitucional 1826 130 Prata GNUM.1989.MP.0089 2 – Medalha comemorativa da promulgação da Carta Constitucional 1826 Bronze GNUM.1989.MP.0092 3 – Insígnia dos partidários de D. Miguel 1828 Prata dourada GNUM.1989.MP.0094 4 – Insígnia dos partidários de D. Miguel 1828 No anverso, aberta a buril, a legenda “R. “19” Prata dourada GNUM.1989.MP.0095 5 – Insígnia dos partidários de D. Miguel 1828 Latão dourado GNUM.1989.MP.0096 6 – Insígnia dos partidários de D. Miguel 1828 Prata GNUM.1989.MP.0099 7 – Insígnia dos partidários de D. Miguel 1828 Ouro GNUM.1989.MP.0105 131 8 – Medalha dedicada a D. Miguel I pela Academia Real das Ciências de Lisboa 1829 Cobre GNUM.1989.MP.0106 9 – Medalha dedicada a D. Maria II 1833 Latão GNUM.1989.MP.0112 10 – Medalha dedicada a D. Maria II 1833 Cobre GNUM.1989.MP.0111 11 – Galardão por serviços militares 1833 Estanho GNUM.1989.MP.0113 12 – Galardão por serviços militares prestados durante as lutas liberais (1826 – 1834) 1861 Cobre GNUM.1989.MP.0159 13 – Medalha comemorativa da inauguração do monumento a D. Pedro IV, no Porto 1866 Cobre GNUM.1989.MP.0213 14 – Medalha consagrada a D. Pedro IV pela cidade do Porto 1867 132 Estanho GNUM.1989.MP.0216 *Aqui apenas são referidas diferentes origens de objetos, na exposição foram repetidos objetos iguais, em especial pelo facto de se pretender apresentar o reverso e anteverso, no caso das moedas. Museu Romântico da Quinta da Macieirinha Todo o ambiente artístico e cultural característico deste período, e do século XIX em geral, pode ser entendido neste espaço. É neste ambiente romântico que se integram objetos que nos remetem para D. Pedro e para o Cerco do Porto. Importa, para completar este recuperar da memória de D. Pedro e do contexto que fez com que permanecesse na cidade, que se compreenda o ambiente romântico da altura, mesmo tendo em conta o contexto particular de guerra vivido. 1. Morte de D. Pedro Litografia Inv. nº MRQM.71.93.11 2. Modelo de fardamentos militares. Batalhão de voluntários criados por D. Pedro, Duque de Bragança 1831 Pintura a óleo sobre madeira Inv. nº MRQM.71.31.34 3. Leque Varas de prata com filigrana e esmalte. Inv. nº MRQM.71.86.29 Obs.: Papel com a dedicatória “Viva D. Pedro I, o Imperador…” 4. Caixa de mogno com câmara clara Madeira Inv. nº MRQM.71.68.04 133 Obs.: Com a inscrição “D. Pedro, Duque de Bragança…” 5. D. Pedro IV Estatueta de marfim Inv. nº MRQM.71.71.05 6. Pulseira Missangas Inv. nº MRQM.76.47.02 Obs.: Com a inscrição “Viva a Carta Constitucional”. 7. Pulseira Missangas Inv. nº MRQM.76.47.03 Obs.: Com a inscrição “Viva a Senhora D. Maria II” 134 Bibliografia ABREU, Susana – Mosteiro da Serra do Pilar. Direção Regional de Cultura do Norte, 2014. ALVES, Jorge Fernandes – A cidade Liberal: da revolução à estabilização do regime in História do Porto n. 10. Matosinhos: Quidnovi, 2010. MARQUES, A. H. de Oliveira – Breve História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1995. MARTELO, David – Cerco do Porto. A Cidade Invicta. Lisboa: Prefácio. 2001. MEDINA, João (dir.) – Portugal Liberal. 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Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001 135 TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (coord.) – O Liberalismo in MATTOSO, José – História de Portugal, vol. V, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. VIEIRA, Maria de Fátima S. B.; REBELO, Maria Manuela Maia O. – Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Porto: Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, 2001.