A vida do andamento: para uma caracterização dos consumidores problemáticos de drogas em Guimarães
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FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO PORTO A VIDA DO ANDAMENTO Para uma caracterização dos consumidores problemáticos de drogas em Guimarães LUÍS FERNANDES E TIAGO ARAÚJO 2010
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 3 Ao Manel, ao Rujo, ao Barbas, ao Pibe, ao Lars, ao ADM, ao Speedy Gonzalez, ao Zé Motas, ao Romeu e a muitos outros que nos ensinaram, a nós, forasteiros em Guimarães, a conhecer o centro da sua cidade dum modo bem diferente do dos roteiros turísticos – serão eles os actores principais da narrativa que este texto propõe. À equipa de redução de riscos e minimização de danos IN-Ruas, pelo acolhimento e pelo modo como nos aproximou dos actores e territórios psicotrópicos. E em especial à sua coordenadora, Rita de Aires. Obrigado também ao Simão Pedro Ferreira, que nos ajudou no tratamento dos dados. À Sol do Ave, que lançou a semente deste projecto, e à Divisão de Acção Social da Câmara Municipal de Guimarães, para que este trabalho seja um testemunho da ligação entre a investigação das universidades e a intervenção das instâncias que agem nos sistemas sociais.
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 5 INDÍCE PARTE I OBJECTO E MÉTODO CAPÍTULO 1 Limitação do objecto e da unidade de estudo 9 CAPÍTULO 2 Metodologia 13 2.1. As técnicas 14 2.1.1. Observação 14 2.1.2. Entrevistas 15 2.1.3. Outras técnicas 16 2.2. Ir para o terreno 17 2.2.1. Os primeiros passos 18 2.2.2. Ir até onde? 19 PARTE II ACTORES E TERRITÓRIOS PSICOTRÓPICOS EM GUIMARÃES CAPÍTULO 3 Uma primeira visão de conjunto 23 CAPÍTULO 4 Sociografia dos consumidores problemáticos 27 CAPÍTULO 5 Trajectórias 33 5.1. O início 33 5.2. A consciência da dependência 37 5.3. As flutuações 38 CAPÍTULO 6 Ser agarrado 41 6.1. Uma visão fenomenológica 42 6.2. A centralidade da dependência 47 6.3. Participar no comércio de drogas 51 6.4. Precariedade do quadro de vida 61 6.5. Práticas de risco 68 6.6. Tratamentos e recaídas 80 CAPÍTULO 7 Ser arrumador 91 7.1. Arrumar carros como actividade do trabalho informal 93 7.2. Relação com o automobilista 103 7.3. Territórios 107 7.4. Arrumadores e controle social formal 111 CAPÍTULO 8 Comunidade 115 NOTA FINAL Marginalidade e políticas de cidade 121 Referências Bibliográficas 131
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 7 PARTE I OBJECTO E METODOLOGIA
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 9 CAPÍTULO 1 OBJECTO O presente relatório dá conta dos resultados finais do estudo 1, Caracterização dos consumidores problemáticos de drogas em Guimarães, que integra a investigação solicitada pela Câmara Municipal de Guimarães ao Centro de Ciências do Comportamento Desviante da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, dando cumprimento ao protocolo celebrado entre ambas. A investigação teve início a 1 de Outubro de 2009, começando o trabalho de terreno a realizar-se duas semanas depois. A presença regular na unidade de estudo seleccionada decorreria até Agosto de 2010, seguindo-se o tratamento dos dados e a redacção do presente texto. Este visa transmitir dum modo circunstanciado o percurso de investigação, desde os seus primeiros passos, em que o investigador procura a aceitação e a familiarização no contexto e com os actores que quer estudar, até ao aprofundamento desta relação, que é a condição essencial para a visão de pormenor sobre eles, de modo a conhecer o seu dia-a-dia, as suas trajectórias, as suas práticas de consumo de drogas, as dificuldades que estas lhes vão colocando, as eventuais tentativas de abandono da dependência, os seus projectos de futuro, bem como a interacção que estabelecem com o cidadão comum que usa os mesmos espaços e a reacção social destes ao “drogado”. 1. DELIMITAÇÃO DO OBJECTO E DA UNIDADE DE ESTUDO Os consumos problemáticos de drogas, sobretudo quando adquirem uma dimensão fortemente visível no espaço público, são um dos problemas com que se defrontam hoje as políticas de cidade. Obter um conhecimento mais profundo do que o
A VIDA DO ANDAMENTO 16 conhecimento entre pesquisador e sujeitos, de modo a que a entrevista seja um encontro marcado pela abertura e pela fala franca. Decorreram em contexto natural, variando entre a rua, o café ou a casa do entrevistado; num único caso decorreu nas instalações da Sol do Ave, a organização que acolhe o projecto IN-Ruas. Realizámos oito entrevistas a utilizadores. Mais do que o seu número, privilegiámos a sua significatividade: sujeitos de longa trajectória, representativos do junkie de rua, e com os quais se tinha já um capital de relacionamento que permitisse a riqueza dos dados obtidos. Trata-se portanto duma amostra intencional, guiada pelos critérios teóricos que o terreno nos mostrava já nessa altura relativamente ao tipo de actores a que deveríamos aceder. As entrevistas visaram, para além do que já enunciámos, obter um conhecimento mais preciso da trajectória dos utilizadores, dos acontecimentos cujo desfecho último foi o estar na rua, das suas redes sociais, de modo a avaliar o grau de inserção e de suporte social de que ainda dispõem – na convicção de que a etiqueta “exclusão social” induz a crença, que a realidade frequentemente relativiza, de que quem está “nas margens” se encontra necessariamente em estado de dissocialidade e/ou de isolamento. Mesmo o facto de utilizarmos ao longo destas páginas as expressões “junkie” de rua, utilizador de rua ou outras semelhantes não significa que estejam a morar na rua ou em alguma casa abandonada – vulgo “sem-abrigo”. Embora também seja o caso, referimo-nos em sentido mais lato a indivíduos que fazem da rua o seu contexto privilegiado de vida, tanto para o ”trabalho” (arrumar carros, vender drogas) como para os consumos e para a sociabilidade corrente. Quanto às entrevistas na comunidade, realizaram-se doze, com os sujeitos recrutados entre os comerciantes locais (farmacêutica, merceeiro, dono dum quiosque, empregados de lojas de cosméticos, de pronto-a-vestir, estudantes, funcionária dum equipamento social…). Visavam identificar elementos constitutivos da representação social sobre o “drogado” e sobre o tipo de ajuda que poderia ser-lhe dirigida. 2.1.3. OUTRAS TÉCNICAS Utilizámos ainda a análise documental. Os documentos foram-nos disponibilizados pela equipa de redução de riscos e minimização de danos IN-Ruas, da Sol do Ave: as fichas de caracterização dos seus utentes, o diário de campo que a equipa
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 17 realiza desde que, em 2008, iniciou a sua actividade de intervenção, bem como os resultados dum inquérito de avaliação à satisfação dos utentes. Estes materiais permitiram complementar os dados gerados pela nossa investigação, acrescentando ainda validade aos resultados finais, uma vez que permitiram cruzar informação provinda de fontes independentes relativamente ao nosso estudo. 2.2. IR PARA O TERRENO A narrativa que a partir de agora propomos organiza-se como uma visita ao quotidiano dos actores de longa trajectória nas drogas, com quadros de vida marcados pela precariedade e pela marginalidade – aqui tomada como distância em relação aos mecanismos centrais da integração social: a família (a de origem ou a que já haviam em tempos constituído), a escola, o trabalho. A rua é, pois, o lugar de quem se distanciou doutros lugares sociais. O diário de campo, cujos dados agora apresentamos analisados, interpretados e integrados com os dados provenientes das outras técnicas utilizadas, estrutura a pesquisa, dando-lhe um fio condutor. Se fosse lido tal qual o etnógrafo o foi redigindo, assemelharia um texto de ficção cujas personagens vão, à medida que as vamos conhecendo e introduzindo ao leitor, entretendo uma trama que mais não faz do que trazer para perto algo que habitualmente está longe: o estilo de vida – chamemos-lhe assim – de indivíduos que têm nas drogas o núcleo (des)organizador das suas vidas. É um estar do etnógrafo com os quase-grupos das drogas. Quer dizer, não propriamente com grupos, mas com “entidades sem uma estrutura reconhecível, mas cujos membros têm em comum certos interesses ou formas de comportamento que poderiam induzi-los em qualquer momento a configurar-se como grupos definidos. (…) Estes podem considerarse como quase-grupos interactivos, já que se baseiam num conjunto de pessoas em interacção” (Meier, cit. in Romani, 1982).
A VIDA DO ANDAMENTO 18 2.2.1. OS PRIMEIROS PASSOS “Entretanto o Renato (técnico da equipa de rua) diz, virandose para mim, «Este é aquele colega de que tínhamos falado que vinha uns tempos connosco», frisando bem que eu não pertencia à equipa, que estava a fazer um estudo para a universidade. O F., ainda no chão, com uma prata usada na mão, diz: «é um estágio, não é, jovem? É um estágio…». Eu respondo: «é mais ou menos isso, (entre risos), é uma pesquisa para a universidade do Porto…» dizendo o F.: «é isso, é isso…». Quando o Renato diz o meu nome, eu estendo a mão ao F., que ma aperta.” (diário de campo, 1º dia) O etnógrafo é apresentado aos primeiros utilizadores com quem se cruza. Inicia-se o processo de definição do seu estatuto naquele contexto, funcionando a intermediação do técnico de redução de riscos e a frase “é para a universidade” como apaziguadores da desconfiança que a sua presença causa. “O R. está a desembrulhar com muito cuidado uma prata, e o Renato diz: «queres vir ver aqui o R., que ele não se importa que o vejamos a consumir?», o R. acrescenta: «eu não, não me importo nada…». Eu agradeço e aproximo-me deles. Vão falando, mas eu concentro-me naquilo que o R. está a fazer, acaba de desembrulhar a prata e no seu centro está uma mancha, que parece uma mancha de café coagulada. Com muito cuidado ele descola-a da prata e tomba-a para outra prata nova, depois raspa os restos, como que a tentar aproveitar ao máximo todos os bocadinhos que estavam na prata.” (diário de campo, 1º dia) O etnógrafo obtém as primeiras autorizações para participar, observando directamente a “cena drug”, ainda com a intermediação do técnico de redução de danos. São os primeiros passos para que o vínculo que este já tem criado com os utilizadores de drogas seja transmitido ao investigador. A continuidade deste processo acabará por autonomizá-lo do intermediário, passando a ter acesso directo aos lugares e aos
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 19 indivíduos, explicando uma e outra vez por que se encontra ali, caso note interrogação ou estranheza em algum deles. Ver então o utilizador no momento da consumação do interdito, ou o desvendar da privacidade que os mundos de rua também encerram: “Chegamos perto da parede e o R. acende o isqueiro e dá uma passa. Observo que a mancha se liquidificou, se moveu e largou fumo, que foi aspirado pelo cano de prata. O R. pergunta-me, agachando-se de cócoras encostado à parede: «mas nunca tinha visto, é?», eu respondo que não, e ele diz: «quer dizer, sabia o que é mas nunca tinha visto…». Eu volto a dizer que sim, e reparo que o Renato se afasta um pouco, percebo que era para não apanhar com o fumo. Eu também me afasto, mas consegui sentir o cheiro, era adocicado e esquisito.” (diário de campo, 1º dia) Observar é uma experiência sensorial plena: há também odores, o etnógrafo regista como quem vê pela primeira vez. E nada do que vê é trivial, tudo interessa, precisamos de tudo quanto se ofereça diante de nós – porque, mais à frente, com o acumular dos dados, aquilo que parecia mero pormenor pode revelar grande valor informativo. Resistir às definições prévias, deixar para trás o estereótipo, fazem parte da arte de ver quando se está no terreno. São também as condições que permitem a emergência da novidade. 2.2.2. IR ATÉ ONDE? Os dias seguintes, as semanas e os meses que decorreriam até ao verão de 2010, seriam os da entrada progressiva neste mundo social do junkie de rua – um chegar perto para ver com pormenor. Chegados aqui, é necessário um alerta: a investigação, toda a investigação, no plano concreto da sua realização, tem importantes limites naquilo que é capaz de conhecer. Esses limites estão inscritos, desde logo, no método escolhido. Quando se opta por técnicas de amostragem extensivas, ganha-se em capacidade de generalização, mas perde-se o pormenor; quando se escolhem técnicas qualitativas que implicam o conhecimento directo dos indivíduos e dos grupos que se quer estudar, ganhase no pormenor, descobrem-se traços que as técnicas extensivas não filtram, mas perde-se
A VIDA DO ANDAMENTO 20 capacidade de generalização. A natureza intensiva destas pesquisas implica delimitar unidades de estudo acessíveis à experiência directa do investigador – doutro modo a observação não seria naturalista, nem o recrutamento para as entrevistas baseado em critérios de amostragem intencional, isto é, relacionada com aspectos que o terreno já foi mostrando ao pesquisador e este decide aprofundar4. No capítulo 1 tornámos já claros o objecto, os objectivos e a unidade de estudo da investigação. Se estávamos perante a tarefa de caracterizar os consumidores problemáticos de drogas em Guimarães, optámos, de entre um universo possível de “problemáticos”, por aquele que materializa no espaço da urbe o “problema da droga”. Não se pretende uma ampla generalização a partir destes dados, não se pode ter a ingenuidade de pensar que permitem dizer “a droga em Guimarães”. As práticas alvo de censura e de interdito social ocultam-se, revelam-se só em momentos e em sítios onde possam sobreviver – e por isso estão fragmentadas no conjunto urbano, impossíveis de captar num único olhar. Aquilo que aqui desenvolveremos é apenas uma das manifestações da “droga em Guimarães”: aquela que faz mais interface com o cidadão, porque tem na rua o seu contexto privilegiado de expressão; e aquela que, provavelmente, apresenta maior gravidade social e sanitária, porque protagonizada por indivíduos com longa trajectória nos consumos e com quadros de vida que concretizam as ideias, hoje tão insistentemente repetidas no debate público, de “marginalidade” e de “exclusão”. 4 Sublinhemos de passagem que, em indivíduos ou grupos que não têm interesse ou vantagem em revelar determinados comportamentos, atitudes ou práticas, a investigação baseada em amostras representativas é inviável, uma vez que não temos, por definição, acesso ao universo populacional em causa. É este precisamente o caso dos consumidores problemáticos de drogas ilegais.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 21 PARTE II ACTORES E TERRITÓRIOS PSICOTRÓPICOS EM GUIMARÃES
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 23 CAPÍTULO 3 UMA PRIMEIRA VISÃO DE CONJUNTO Os actores são quase sempre os mesmos, nos mesmos lugares da baixa e do entrançado do centro histórico. Têm relações marcadas pela instrumentalidade, isto é, a sua acção ordena-se a maioria das vezes por um princípio pragmático – conseguir consumir para afastar a ressaca. A relação com os outros actores em igual condição visa em primeira instância este objectivo. Mas o pragmatismo não esgota o leque de relações, não constitui o único princípio de acção. Veremos como a partilha e a solidariedade também aparecem, convergindo embora quase sempre em torno do mesmo objectivo – que é, em última análise, “matar a ressaca”5. Conversar enquanto se espera pelo dealer a quem um deles telefonou, partilhar às vezes a compra para ser mais bem servido, partilhar material de consumo, um tubo para fumar, a prata. Às vezes partilhar o quarto de aluguer onde se vive para fumar ou picar longe das vistas de quem passa. A partilha nunca é emprestar dinheiro, raramente é ceder produto – esses são bens demasiado escassos. Para quem é pobre ou foi pauperizando à medida que a espiral da dependência avançou, todos os cêntimos contam, um euro é dinheiro, gastam-se cinco euros numa dose e não se sabe o tempo que se demora a arranjar outros cinco, é preciso que seja rápido, a ressaca espreita ao fundo, com a ressaca não se consegue fazer nada, temos de nos antecipar à sua chegada, se ela chegar primeiro toma conta de nós – eis a grande tarefa, permanente e sempre recomeçada, do dia-a-dia do junkie. A dimensão profunda da dependência, brutal, invasora do indivíduo, revela-se na ressaca. É toda uma subordinação do sujeito a essa entidade que ameaça 5 A ressaca é o termo usado pelos utilizadores de drogas para se referirem à síndrome de abstinência. De tal modo se instalou que os próprios técnicos da área das drogas o adoptaram. Ao longo do texto, usaremos vários termos e expressões da linguagem corrente dos utilizadores de drogas, fiéis ao princípio etnometodológico de captar a linguagem dos grupos em estudo – porque ela faz parte do comportamento e veicula modos de estar e de perceber o mundo.
A VIDA DO ANDAMENTO 24 permanentemente invadi-lo. E por isso dizemos dela que é o princípio de acção que move os que se igualaram na situação de dependentes de longa trajectória, quando os vários tratamentos já falharam, quando a família nunca lá esteve ou já não acredita, quando o trabalho é uma miragem, um mundo de exigências a que já não se está em condições de responder. A síndrome de abstinência, a ressaca, é um princípio de acção porque é para se lhe antecipar que decorre toda a actividade do indivíduo. Mesmo quando a partilha ou a solidariedade unem os sujeitos, é o fantasma da ressaca que procura esconjurar-se. O convívio e o prazer que dá a experiência psicotrópica, podendo também estar presentes, são uma decorrência daquela6. Voltaremos a este assunto na secção 6.2. do capítulo 6. Pelo meio destes indivíduos, sempre os mesmos city users que fazem irromper a margem em pleno centro da cidade dominante, vai havendo chegadas circunstanciais doutros indivíduos. Vêm movidos pelo mesmo, pela procura de heroína ou de coca, chegam e perguntam por fulano, ainda não chegou, há-de vir. Trocam-se informações, uns vão, outros vêm, todos se conhecem de vista, mas às vezes nem o nome sabem. Chega então quem esperavam, o encontro é rápido, as interacções discretas, todos sabem que a rua tem olhos, que as paredes têm ouvidos, saem pacotes de castanha ou de branca dum bolso, entram notas de cinco, de dez – e daí a pouco já nada resta do frenesim discreto que aconteceu numa dobra da cidade. Talvez por esta espécie de pressa que parece mover os actores eles dizem de quem “anda na droga” que é “do andamento”. E é algo que se incorpora na postura, uma espécie de habitus junkie: é frequente que as deslocações pedestres sejam feitas a passo rápido, como quem vai em ligeiro atraso7. As relações são marcadas pela necessidade, já o dissemos: comprar pó, dar um fumo, caldar para “meter prá veia”. E depois desaparecem por onde vieram, os do costume ficam, esses estão por ali o dia todo, permanecem no seu “parque”, o lugar onde arrumam e onde conseguem financiar o dia-a-dia no pó. Em todo o caso, contrapondo à ideia de senso comum de que “a droga leva ao isolamento”, a vida nos territórios psicotrópicos – vemo-lo aqui, vimo-lo noutros contextos antes deste – é profusamente 6 Luís Vasconcelos (2003), na sua investigação etnográfica sobre territórios psicotrópicos em Lisboa, diz que a ressaca é um “verdadeiro assalto ontológico”. Subscrevemos inteiramente esta expressão tão sugestiva para indicar o vivido interno do sujeito durante esses momentos. Tratámos também a ressaca como “encruzilhada” noutro trabalho (cf. Tinoco e Fernandes, 2002). 7 Tomamos a noção de habitus de Pierre Bourdieu. Seriam disposições incorporadas, quase posturais, como que uma tradução na corporalidade de todo um esquema social. O habitus seria, portanto, o corpo socializado.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 25 relacional. E esta dimensão, que trataremos com algum detalhe noutro capítulo, é sentida pelos actores, quando têm receio de voltar aos mesmos sítios e às mesmas relações depois de terem conseguido a abstinência. Porque a recaída é muito mais do que reencontrar o produto disponível – recair é “voltar ao mesmo”, e o mesmo é a vida relacional nos quase-grupos interactivos. A figura do arrumador merece-nos uma atenção particular. Ele é o actor que materializou no contacto diário da rua a figura do “drogado”, que o cidadão comum desenhava sobretudo a partir do relato da comunicação social. O arrumador é a interface com o city user comum, tem por isso um grande peso na produção de representações sociais sobre o “drogado”, o “excluído”, o “marginal”. É uma personagem relativamente nova nos espaços urbanos, começamos a cruzar-nos com ela em Lisboa ou no Porto no início dos anos 90, proliferou rapidamente, mas nem por isso mereceu a atenção dos cientistas sociais que estudam a cidade ou o desvio. No final dessa década, as autoridades municipais estimaram em cerca de 700 o seu número nas ruas do Porto; em Lisboa, embora não houvesse números oficiais, calcula-se que seriam mais de 1500. Viemos agora encontrá-lo em Guimarães e, depois de o observarmos no seu contexto, o “parque” onde arruma automóveis, aplicar-lhe-emos a frase que Fernando Pessoa criou para a coca-cola: primeiro estranha-se, depois entranha-se. É isso: a sua presença inicial é um corpo estranho – no sentido literal. Um corpo que carrega a marca a partir da qual construímos os nossos estereótipos de marginalidade, um corpo atingido pela droga, que lhe inscreve sinais visíveis e reconhecíveis8. Mas a sua presença continuada impõe o arrumador à cidade: se primeiro o estranha, depois entranha-o. Eis o que parecem revelar os nossos dados, que mostram a sua naturalização na paisagem urbana, evidenciando-o como um novo tipo de city user. O city user é um conceito dos estudos urbanos para designar o indivíduo típico da fase de metropolização das cidades, responsável pelas suas novas centralidades: o turista, o homem de negócios que circula entre centros financeiros, o consumidor de cultura e de 8 A inquietude que a sua aparição no quotidiano das cidades portuguesas provocou deu origem, no final dos anos 90, no Porto, a uma primeira intervenção social, no quadro do contrato-cidade para o combate à exclusão social, o programa “Há Porto contigo”; a partir de 2002 iniciar-se-ia o Porto Feliz, também de iniciativa autárquica, cujo objectivo inicial era o de os retirar das ruas e praças, de modo a restaurar a “normalidade” da cidade dominante. No debate público da altura, o arrumador aparecia como um potenciador do sentimento de insegurança: seria em regra um toxicodependente, e este era tido nos relatos diários da comunicação social como o principal responsável pelo “aumento da criminalidade” (normalmente nunca demonstrado com análises científicas).
A VIDA DO ANDAMENTO 32 Os comportamentos de risco são muito frequentes, quer nas práticas de consumo, quer nas práticas sexuais, ainda que se verifique uma crescente preocupação em adoptar comportamentos mais seguros.” Assinalemos ainda que a sociografia dos consumidores problemáticos em Guimarães que a nossa investigação permitiu traçar é concordante com uma tendência que o relatório do Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência identifica como característica da associação entre formas problemáticas de consumo e exclusão social: “Apesar de não existir uma relação causal directa entre as formas mais problemáticas de consumo de droga e a exclusão social, elas estão frequentemente associadas. Os dados mostram que 9% dos utentes que, em 2008, iniciaram o tratamento da toxicodependência em regime ambulatório e cerca de 13% dos que o iniciaram em regime de internamento eram sem-abrigo. Cerca de 40% dos utentes que iniciaram tratamento em ambos os contextos não tinham concluído o ensino secundário, enquanto 47% dos que iniciaram o tratamento em regime ambulatório e 71% dos que o iniciaram em regime de internamento, disseram estar desempregados ou economicamente inactivos. É provável que estes valores não melhorem na situação económica actual, em que o crescimento das taxas de desemprego faz aumentar a concorrência no mercado de trabalho.” (OEDT, 2010). Algumas das dimensões desta caracterização serão aprofundadas nos capítulos a seguir, como por exemplo a precariedade do quadro de vida, as práticas de risco ou o ser arrumador. E as circunstâncias concretas das suas vidas aparecerão à medida que formos desenvolvendo o texto em torno dos temas nucleares: as drogas, os problemas associados ao consumo, as tentativas para o abandonar, as actividades de subsistência necessárias ao dia-a-dia da “vida no andamento”.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 33 CAPÍTULO 5 TRAJECTÓRIAS A grande maioria dos indivíduos com os quais viemos a aprofundar os dados é utilizadora de drogas há mais de 10 anos. Destes, a maior parte tem uma duração média dos consumos de cerca de 20 anos. Foram poucos aqueles com trajectórias iniciadas há pouco tempo. A substância comum a todos é a heroína, tendo a cocaína e a base de coca também grande presença. E praticamente todos consumiram ou consomem ainda cannabis, não sendo no entanto confirmada a ideia de senso comum de que esta é necessariamente a primeira das drogas, começo inevitável da escalada para produtos mais “duros”. Com efeito, alguns dos indivíduos que conhecemos iniciaram-se directamente na heroína e em idades muito precoces (13 anos)11. 5.1. O INÍCIO As trajectórias têm pontos em comum que se evidenciaram ao longo da incursão no terreno e que a realização de entrevistas permitiu aprofundar. Como é que se começam a consumir drogas duras? Talvez exactamente como se começam a consumir todas as outras, com excepção dos fármacos. Todos os actores nos disseram que o primeiro consumo foi sempre num palco que não era o deles, ou seja, houve alguém que os iniciou. Na expressão sugestiva dum deles, foi alguém que foi seu padrinho – padrinho de baptismo no consumo, num fumo, num snife ou num chuto. Aqui, o papel desencadeador de consumidores mais experimentados revela-se determinante: 11 A maioria teve como substância de início o haxixe. Mas este dado, só por si, não autoriza a falar em escalada. Múltiplos estudos em muitos países, incluindo Portugal, mostram que uma percentagem apreciável de adolescentes e jovens já experimentou, já consumiu ou continua a consumir cannabis. Aparecem, para o sexo masculino e em amostras em escolas secundárias, percentagens tão variadas como os 15 e os 60 %. Outro indicador, o do consumo de Cannabis e de Heroína ao longo da vida na população geral entre os 15 e os 64 anos, mostra para 2007 em Portugal respectivamente 11.7% e 1.1% (I.D.T., Relatório Anual de 2008).
A VIDA DO ANDAMENTO 34 “Contou-me que começou a consumir com 16 anos e agora tinha cerca de 40 e poucos. Disse que jogava futebol no … (clube da 2ª divisão) e que na altura já ganhava 50 contos, e que depois começou a andar com pessoal que fumava e também começou a fumar” (diário de campo) Os dados da nossa pesquisa não trouxeram nada de novo a este respeito: o grupo de pares funciona como plataforma de iniciação, como agente socializador e de mudança de comportamentos, hábitos e atitudes, mesmo quando o indivíduo tem alguma resistência ao que é praticado no grupo, como por exemplo no caso do J.: “Na altura fumava-se uns charritos com o pessoal, e um dia apareceram lá com aquilo… eu ainda rejeitei algumas vezes, até que um dia experimentei.” (J. 39 anos, diário de campo) Os utilizadores que têm um percurso nas drogas duras de cerca de 20 anos ou mais disseram que na altura fumavam haxixe e que duma forma bastante súbita houve escassez. A falta da cannabis foi preenchida com heroína: “O M. disse que depois cortaram com o haxixe e meteram aquela porcaria, maldita a hora em que meteram aquilo” (M. 42 anos, diário de campo) O A. começou por fumar haxixe em 1980, nessa altura tinha um grupo de amigos que fazia parte de uma equipa de futebol. Em 1984 metade da equipa enveredou pela heroína e a outra metade manteve-se no consumo de haxixe, e hoje segundo ele estão bem. O Lars é outro exemplo desta situação, começou a fumar haxixe aos 16 anos e aos 18 foi também “vítima” dessa falha de haxixe e sentiu curiosidade em experimentar heroína. A primeira vez foi logo através de injecção e – “fiquei um bocado… apaixonado, quer dizer, interferiu bastante comigo” (Lars, 39 anos)12. 12 Notemos, de passagem, que esta falha no abastecimento do haxixe como potenciadora do surgimento do mercado da heroína foi-nos já reportada para o Porto exactamente na mesma época, o início dos anos 80,
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 35 A entrada em certos ambientes laborais numa idade precoce pode ser um factor de exposição ao consumo, em que os mais velhos funcionam como figuras de modelagem: “O Pibe diz que começou a fumar heroína com uns colegas de trabalho mais velhos, da pedreira onde trabalhava em 1992. Segundo ele, passado uma semana de começar a trabalhar começou a fumar tabaco, talvez para se integrar em hábitos característicos de pessoas mais velhas.” (diário de campo) A influência que um grupo de pares exerce pode ter duas faces, uma é a necessidade de pertença, e a outra a persuasão deliberada de quem já é iniciado e provavelmente terá alguma vantagem em iniciar o outro, como por exemplo o financiamento do produto, ou o transporte. Este excerto ilustra esta situação, o momento fugaz em que um rapaz de 12 anos (o Pibe) avança para um mundo desconhecido: “(…) tinham sido três colegas do trabalho que o tinham enganado. Disse que a mãe não o costumava deixar sair à noite, pois ele tinha apenas 12 anos. Disse que uma vez às 10 horas da noite foi para o café para ver o futebol e que estavam lá os tais colegas e que o convidaram para ir à festa da madredeus. Ele nem queria ir, pois queria ver o futebol, mas acabou por ir. Disse que os colegas sabiam que ele tinha dinheiro, queriam que ele pagasse o táxi”. (Pibe, 29 anos, diário de campo) Detalhemos agora o episódio em que o investigador acompanhou três jovens na procura, na compra e no consumo de heroína. Embora não fosse o “baptismo”, encontravam-se numa fase inicial, tornando o episódio ilustrativo da dinâmica da iniciação. O mais velho, que já consumia há cerca de 2 anos, era quem coordenava as actividades, era ele que segurava na base da prata enquanto os jovens com o tubo na boca “davam na prata”. Foi ele que abordou um consumidor veterano, o M. e lhe perguntou quem andava a ”meter” produto. Podemos dizer que ele era o passaporte dos jovens na mas não dispomos de elementos para poder afirmar se se tratou dum acaso ou duma estratégia intencional para introduzir o opiáceo nos mercados de rua.
A VIDA DO ANDAMENTO 36 rua, agia como modelo socializador da cultura junkie, mostrando os lugares, com quem falar, como falar, como fazer os negócios, onde comprar, onde consumir e como consumir. Se os primeiros consumos terão sido em ambientes mais recolhidos, perto de casa nuns prédios em obras, em que o Gingas arranja o produto e os presenteia, eis que passam desse meio mais restrito para a rua e consomem em convívio com veteranos. “O Gingas, o Tátá e o Brocas: o mais velho tinha cerca de 20 anos, o mais novo devia ter uns 13 ou 14 e o outro 16 ou 17. O mais velho deu um passo em direcção do M. e estendeu-lhe a mão dizendo: «Não te lembras de mim?». O M. demorou um ou dois segundos a reflectir e depois disse que se lembrava. O Rapaz perguntou-lhe se ele sabia onde se podia arranjar alguma coisa. O M. perguntou se ele queria pó e ele disse que sim, e que não se arranjava em lado nenhum. O M. disse que talvez os desenrascasse e pegou no telemóvel para fazer uma chamada. Chegada então a heroína partilham-na com o veterano M. Este vai para um canto fumar agachado, enquanto o Gingas assumirá a liderança das operações do “dar na prata” junto do Tátá e do Brocas: Depois de dar umas passas, o Gingas deu o tubo de aspiração ao Tátá, e segurou na prata de base. O Tátá só aspirava o fumo, o Gingas é que dava calor e orientava a prata. O Tátá tinha os braços estendidos ao longo do corpo e apenas inclinava a cabeça, ora para a frente, ora para os lados, conforme a inclinação que o Gingas dava à prata.” (diário de campo) Acabado o produto, não demoraram a ir-se embora. Regressaram com certeza ao seu meio social de origem, pareciam jovens dum estrato médio-alto. Mas, na rua, a heroína é igual para todos, o M., que aos olhos de quem passa é um “drogado” ou um arrumador, pode assumir a preponderância que o seu capital de experiência lhe confere.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 37 5.2. A CONSCIÊNCIA DA DEPENDÊNCIA Os consumidores problemáticos são aqueles que transformaram a incursão que acabámos de ver a um território psicotrópico em algo de cada vez mais frequente, até converterem consumos esporádicos em mais ou menos regulares e estes em diários. Nalgum ponto desta evolução dar-se-á um acontecimento importante para a continuidade da trajectória: a tomada de consciência de que se está dependente. A vivência da dependência, a experiência da ressaca como princípio de acção a pautar ritmos e comportamentos de cada dia, serão explorados em capítulos mais adiante. Por agora, detenhamo-nos nesse momento fulcral que é o do reconhecimento de que se “está agarrado”. A evolução dos consumos esporádicos e recreativos para à necessidade do consumo diário é um processo que pode ser relativamente longo e tão subtil que, quando se sente, já existe uma dependência instalada. Os sujeitos em relação aos quais pudemos detalhar esta passagem dizem só ter sentido a ressaca passados 2 a 3 anos. A primeira vez que se deparam com ela é uma surpresa: “Fumava esporadicamente e só ao fim de dois anos é que começou a comprar todos os dias, mas não sabia o que era uma ressaca porque tinha possibilidades e comprava sempre. Não sabia que o “pó” dava ressaca física, pensava que era como o tabaco, se tinha, tinha, se não tinha, não tinha. Certa altura torceu um pé e teve de ficar em casa. Aí é que sentiu a ressaca, mas não sabia o que era. Depois um amigo foi lá casa e também era consumidor. Fumaram e ficou logo bom. Depois disso é que lhe disseram que era ressaca.” (diário de campo) “Ainda não sabia muito bem o que era uma ressaca [na altura em que trabalhava]. Ia tendo para o meu dia-a-dia, trabalhava (…) Só depois quando as coisas estavam mais graves é que me apercebi que havia dependência.” (Lars, 39 anos)
A VIDA DO ANDAMENTO 38 Muitos consumidores que iniciaram a trajectória na década de 80 não tinham conhecimento dos efeitos secundários que as substâncias psicoactivas produziam. Quando sentiam os sintomas pela primeira vez associavam-nos, por vezes, a doença física: “Disse que se levantava de manhã cansado e que lhe doía o corpo. E que depois foi à médica e que ela lhe disse que era a heroína que causava aquilo, e que ele ia chegar ao ponto em que precisava de consumir para tirar as dores.” (diário de campo) Fica por responder a questão acerca do grau de conhecimento sobre as consequências dos consumos nos adolescentes e jovens que se iniciam actualmente. Os actores com quem contactámos ao longo desta investigação eram, na quase totalidade, indivíduos de longa trajectória, tendo portanto iniciado os consumos numa altura em que a visibilidade das suas consequências a prazo era menos evidente. 5.3. AS FLUTUAÇÕES A carreira de consumidor regular – para tomarmos um termo que a sociologia da desviância consagrou nos anos 60 – não é contínua, na maior parte dos indivíduos. Está sujeita a flutuações que se prendem com aspectos tão concretos como a falta de dinheiro para comprar produto e com outros tão subjectivos como o chegar à conclusão de que tem de parar com “o andamento”, nem que seja para recomeçar daí a uns tempos. E o tempo que demoram a chegar conclusões destas é muito variável, porque também é variável o achar-se que já se “anda nisto” há muito tempo. Afinal, quanto tempo é muito tempo? “Eu perguntei se consumiam há muito tempo e o Gingas foi o único que respondeu, dizendo que sim, que já consumia há quase dois anos. O M. exclamou: «E isso é há muito tempo? Foda-se, isso não é nada!».” (diário de campo)
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 39 Ao longo do tempo os consumos vão se modificando consoante cada indivíduo, ora porque experiencia um hiato no consumo, ora porque transita e/ou mistura várias substâncias, como o caso da cocaína e heroína, ora porque mudam a via de consumo, de fumado para injectado ou vice-versa, ora porque se tornam dealers, o que em alguns casos fez disparar os consumos para patamares elevados. Temos relatos de indivíduos que estiveram abstinentes uma ou mais vezes ao longo do tempo como resultado de tratamentos, e que depois retomaram os consumos. Desenvolveremos a questão dos tratamentos e das recaídas em secção própria, no capítulo seguinte. Se a heroína fideliza o sujeito ao “mundo da droga”, se é uma substância que, depois de instalada a dependência, impõe regularidade, já a cocaína parece desregular os ritmos e ser pouco compatível com rotinas. Alguns actores referiram que os consumos se tornaram mais descontrolados quando começaram a utilizar cocaína, referindo que esse período foi o mais crítico, chegando a enveredar pela via do delito para suportar os consumos: “Diz que andou meio ano agarrado à “branca” e que foi a pior altura da vida dele enquanto toxicodependente, foi quando roubou mais e fez mais «loucuras».” (diário de campo) Vejamos o exemplo de R., 35 anos: começou por fumar na prata, mas passou a injectar: “Picou oito anos seguidos, até que secou as veias e depois começou a fumar. Mas mal podia dava um pico. Quando ficou sem veias, perdia muita droga, não acertava nelas e depois fazia hematomas enormes e tinha de ir para o hospital. Na prata tinha de consumir 3 ou 4 vezes mais e aliviava, mas não ficava totalmente bem. Já foi dealer e nessa altura consumia muito: meio grama de heroína 5 vezes por dia e cocaína «o dia todo, dormia apenas dois dias por semana. Metia tanto que nem sei como é que ainda estou aqui!».” (R. 35 anos, diário de campo)
A VIDA DO ANDAMENTO 40 Em suma, primeiro aprende-se a reconhecer a síndrome de privação, e esta “descoberta” provoca a tomada de consciência da dependência. Se esta persistir, resistindo às tentativas de diminuir ou abandonar os consumos, sobrevivendo a desintoxicações e terapias, como foi o caso na quase totalidade dos nossos sujeitos, o indivíduo torna-se um “agarrado” – uma espécie de estado identitário do utilizador de drogas que entrou em falência dos auto-controles. Mais uma vez recorremos à linguagem dos actores. A expressão “estar agarrado” vai bem ao núcleo central daquilo que significa a dependência. Está-se agarrado quando não se pode sair donde se está, quando se percebe que se ficou preso. A metáfora é poderosa, porque evoca imediatamente imagens (a nós lembra-nos alguém “colado” à corrente eléctrica). Curiosamente, a expressão castelhana é “estar enganchado”, mostrando a transversalidade deste estado identitário. A “vida do andamento” é rígida e rotineira quando se é um “agarrado”, porque os graus de liberdade da acção estão muito diminuídos, como veremos nos dois capítulos seguintes, em que exploramos com pormenor a experiência do junkie e do arrumador de automóveis. As etapas seguintes da trajectória, que começamos a contar neste capítulo, terão continuidade na narrativa que desenrolaremos daqui em diante.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 41 CAPÍTULO 6 SER AGARRADO A partir dos anos 80 do século passado assistiu-se em Portugal a uma progressiva atenção à figura do toxicodependente, atingindo no final dessa década e durante boa parte da seguinte um grande protagonismo na comunicação social. Este protagonismo vinha associado quer ao tema do aumento da criminalidade, quer ao das zonas urbanas problemáticas. Também a este respeito entrava Portugal, digamos, para a comunidade europeia, pois a mesma situação se havia começado a viver alguns anos antes em boa parte dos países europeus e, mais geralmente, em todo o mundo ocidental. A modalidade predominante desta mediatização escolheria para a sua narrativa os sujeitos de maior potencial fílmico: num cenário de zona urbana e/ou periurbana degradada, um indivíduo ou um pequeno grupo, quase sempre do sexo masculino, nem sempre já muito jovens, sentados algures no Casal Ventoso com o garrote no braço e a seringa pronta para o “chuto”, falando para a reportagem com uma voz arrastada sobre o “inferno” que era aquela vida. Este toxicómano de fim de linha era a revelação duma outra cidade ali mesmo a nossos pés mas que insistíamos em não ver, e o quadro assim criado possuía uma grande intensidade dramática, que colocaria o “mundo da droga” nos primeiros lugares dos inquéritos sobre os maiores problemas com que a sociedade portuguesa tinha de se confrontar. No fim dos anos 90, era ainda esta a matriz que determinava o pensamento de senso comum acerca do “drogado”. Jorge Quintas (1998) evidencia, para a população do Porto, as formas elementares às quais é reduzida a figura do drogado: “precisa de ajuda”, “tem problemas”, “viciado”, “ladrão”, constituem o núcleo duro da sua representação social. Esta representação era profundamente redutora, tomando a parte pelo todo, induzindo a ideia de que o “problema da droga” era aquela realidade. Não discernia diferenças, igualando todos numa espécie de consequência universal da tirania da
A VIDA DO ANDAMENTO 48 A síndrome de abstinência, marcada por um conjunto de sintomas que surgem durante a privação do organismo em relação à substância de que se está dependente, é talvez o melhor modo de nos aproximarmos da experiência do estar adicto. Já aflorámos o tema logo ao início, detalhamo-lo agora: a ressaca, como é designada na gíria, torna-se um verdadeiro princípio de acção. De tal modo é invasiva do sujeito que lhe determina aquilo que faz, tanto enquanto a sente como quando a pressente. É o próprio do adicto é pressenti-la durante a maior parte do tempo, porque sabe que daí a horas precisará de voltar a consumir e tem de mobilizar os meios para o poder fazer: “Disse que trabalhava sempre sem problemas nenhuns e que quando estava “fumado”, que trabalhava ainda melhor. Disse que quando está “fumado”, se for preciso até vai abrir as portas dos carros às pessoas. Disse que se estivesse a ressacar que não conseguia arrumar carros, nem comer, que não consegue fazer nada.” (Barbas, cerca de 40 anos, consumidor desde os 16) Ressaca e prazer são as duas dimensões opostas da experiência psicotrópica, importantes ambas para compreender o vivido profundo de tal experiência. Se bem que antagónicas, tocam-se num aspecto: na sua incomunicabilidade a terceiros. Sobretudo na forma de flash, êxtase imediatamente sentido após a injecção na veia, são experiências que de tal modo são arrebatadoras, de tal modo invasivas de todo o ser naquele momento, que são irredutíveis ao discurso. Quando muito usa-se a comparação, o orgasmo para tentar descrever o flash; mas já a gripe forte para descrever a ressaca é pouco aproximada das vivências físicas e psicológicas da síndrome de abstinência. A vida do junkie é, em grande parte, determinada pela fuga a este verdadeiro terror. Seria necessário relativizar este carácter tão determinante que a ressaca assume no adicto. Ele resulta do efeito cruzado do modelo médico e do complexo cultural que se foi produzindo no junkie: “(…) a ressaca está altamente magnificada tanto na teoria farmacológica como nos que estabelecem uma relação permanente com a heroína.” (Pallarés, 1995). A abstinência tem causado mais alarme nos toxicodependentes actuais do que nos das décadas de 70 e 80, à medida que se foi instalando na cultura tanto dos técnicos como nos utilizadores a crença de que é um sintoma insuportável – aquilo a que Pallarés chama o modelo dramático da ressaca. Não exploraremos aqui este aspecto, mas
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 49 sempre diremos que também verificámos com alguns dos nossos sujeitos o lado mítico da ressaca, pois só perceberam que estavam perante os seus sintomas característicos quando um consumidor mais experiente lhos identificou. O mito da insuportabilidade pode trazer vantagens, como por exemplo a justificação de actos condenáveis socialmente, segundo a fórmula “não fui eu, foi a ressaca”… Vejamos o modelo dramático da ressaca a exprimir-se através da subjectividade (condicionada culturalmente) dum dos nossos sujeitos: “Ele disse que uma vez tentou não consumir, mas que só aguentou 2 dias, que foi a uma sexta-feira, que se deitou, e que no domingo não aguentou. Pensou que 2 dias bastariam para vencer a ressaca, mas não. Disse: «O pior é que a ressaca aumenta de dia para dia, todos os dias fica pior e um gajo não aguenta, eu se estiver sozinho não consigo aguentar…».” (diário de campo) Nas tentativas para abandonar os consumos, a proximidade doutros indivíduos na mesma situação torna o consumo praticamente irresistível, revelando a dimensão de compulsividade característica do estado de adicção: “Explicou que não podia andar com essas pessoas para não cair em tentação. Depois ainda disse que essa fase tinha de ser ultrapassada até conseguir andar com dinheiro e estar à beira de um tipo que estava a consumir a comprar e não querer nada daquilo. Disse que era muito complicado e referiu várias vezes que sem apoio é praticamente impossível.” (diário de campo) Desenvolveremos as tentativas de tratamento e as recaídas mais adiante, em secção própria.
A VIDA DO ANDAMENTO 50 - PARECE QUE SEM A DROGA JÁ NÃO TENHO VIDA - (Speedy Gonzalez, 40 anos) Estar adicto e na situação pessoal e social em que a grande maioria dos indivíduos que conhecemos ao longo do trabalho de campo se encontra gera com frequência autoavaliações carregadas de negativismo: “Aproveitei para explicar a natureza do meu trabalho, e o Barbas depois disse que não havia muito para aprender, que era a cena de meter o produto na prata e fumar. Eu disse-lhe que para além disso havia muito mais, que eles tinham uma forma de vida própria, que tinham estratégias de sobrevivência, e que tinham conhecimento sobre a vida das drogas. Ele ficou meio nostálgico, como a recordar, e dizia de vez em quando que era uma merda aquela vida. Depois falaram nos putos novos que se metiam na droga, que eles não suportavam ver isso. Disseram que a droga era a ruína mais baixa a que uma pessoa podia chegar.” (diário de campo) O Speedy Gonzalez conseguiu sintetizar em poucas palavras a dimensão radical da dependência, quando afirmou num desabafo que “sem a droga parece que já não tenho vida”. Um jogo entre a vida e a morte magistralmente metaforizado por um junkie de rua num trabalho conduzido por Pedro Machado (2008): “Perto de ti matas, longe de ti morro”… A cristalização deste tipo de pensamento interno vai ao encontro do que a investigação psicológica tem descrito sobre o toxicodependente quanto à sua baixa autoestima. Sair da adicção implica também restaurar esta auto-estima, algo que só acontece se houver rede de suporte, informal ou formal, ambas em simultâneo de preferência, que devolva ao indivíduo uma imagem diferente de si e lhe permita ressignificar a sua própria trajectória. Voltaremos a este assunto na secção 6.6., acerca dos tratamentos e das recaídas.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 51 Como pode restaurar-se a auto-estima atingida? Meditemos numa frase muito repetida no meio drug: “já não ando a consumir tanto”, ou “agora só consumo de vez em quando”: “Depois não me lembro como começou a conversa, mas o Manel disse que tinha ido à consulta no CAT, que tinha feito análises e que não tinha acusado. Eu perguntei como era isso possível e ele disse que já não consumia há um mês, que era só mesmo de vez em quando e que com a metadona, o efeito não era o mesmo. Já me tinha dito a mesma conversa uma ou duas vezes e diz sempre que praticamente não consome, e era impossível ele não consumir há um mês, pois eu tinha-o visto consumir há muito menos tempo que isso.” (diário de campo) Se nos formos enganando a nós próprios, a vida de junkie dói menos? Mais do que nos mentirem, mentem a si próprios, expressando nessa mentira o desejo de que aquele exagero químico tenha um fim. Essa é, a partir de certo momento do percurso, a única saída para a restauração da auto-estima. E mostra-nos que a mentira não é uma espécie de vício de carácter do toxicodependente, mas uma peça da ficção com que tem de se ir reinventando até poder voltar a conceber-se sem droga. Dito doutro modo, a mentira não é um traço, mas uma adaptação, não é estrutura mas função – aos olhos do próprio, revela-se funcional para o trabalho sobre a sua auto-estima e para a imagem de si que procura transmitir aos outros. 6.3. PARTICIPAR NO COMÉRCIO DE DROGAS Ser agarrado, às vezes, passa por ter de ser dealer. Pequeno dealer – mesmo pequeno, pacote vendido, moeda no bolso, pacote fumado. Ao nível da rua o que vemos é o último elo da cadeia de distribuição, onde toda a possibilidade de lucro se esfuma – literalmente, pois vendem-se doses aos outros para poder fumar a sua.
A VIDA DO ANDAMENTO 52 Os nossos dados mostraram a este respeito uma organização diferente doutras zonas que temos estudado. A obtenção da substância psicoactiva faz-se através dum esquema muito móvel, em que o dealer é chamado a vir servir o cliente. Mais do que um mercado – actividade bem estabelecida num território psicotrópico conhecido de todos como “local de tráfico”, onde acorre quem quer ou precisa de comprar heroína, base de coca, cocaína, haxixe, pastilhas várias – mais do que um mercado, dizíamos, o que vimos acontecer foi uma organização da venda que se desloca ao cliente. Daí preferirmos falar em comércio. É como se o mercado estivesse pulverizado, o que lhe confere grande fluidez espacial. Estamos, obviamente, a falar dum comércio que é ilícito, fortemente punido pela lei e que, portanto, implica riscos acrescidos. Se vender é arriscado, “ir às compras” também não é tarefa fácil. E não é só pelo facto de também corresponder a um ilícito criminal, mas pela dificuldade trazida pela própria dinâmica dum comércio subterrâneo. O dealer que se julga estar num sítio não está, outro a quem se telefona não atende. A rua dos actores psicotrópicos é cheia de meandros, e há regras para quem participa nela. A discrição é uma delas, porque há que iludir o controle: “O Manel veio e disse que também não tinha conseguido contactar este dealer. Disse para irmos à tal praça. Quando já estávamos quase a meter para a rua que ia dar a essa praça, o Manel viu já a atravessar a passadeira o Esteves e o Barbas, e com estes já do outro lado da rua chamou o Esteves. Este reagiu mal e começou a mandar vir com o Manel por este o ter chamado em voz alta e disselhe que ele não precisava de berrar, que podia ir ao pé dele e falar baixo. Estava a dizer que o Manel estava a dar estrondo. Trocaram algumas palavras já com todos do mesmo lado da rua e o Esteves disse que ninguém tinha mas que vinha aí um dealer qualquer e que ia servir o pessoal, que já lhe tinha ligado.” (diário de campo) A espera do dealer é vivida com apreensão e ansiedade, sobretudo se se pressente a ressaca:
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 53 “A Ská (uma jovem de 25 anos) dirigiu-se ao Esteves e perguntou: «Sabes quem é que anda aí a meter as cenas?». O Esteves virou-se para ela e disse para ela falar devagar, para falar com calma. Ela repetiu e ele disse-lhe que vinha aí o M.. Ela disse que queria dois pacotes, e que ninguém tinha, ele disse para ela não se preocupar que o M. tinha material. Enquanto o Esteves dizia para o pessoal ter calma, pois o M. estava quase a chegar, alguém o avista ao longe do outro lado da praça. O Barbas, num impulso, dá dois passos lançando-se na sua direcção. O Esteves e o Manel dizem-lhe para ele esperar e ter calma, tendo o Esteves dito que o M. se iria logo embora se houvesse muito estrondo.” (diário de campo) É como se a rua das actividades psicotrópicas fosse sentida como um espaço perigoso: é preciso falar com moderação no tom, não convém chamar as atenções de quem passa, sai-se rapidamente dali se se pensa ter levantado alguma suspeita. Este comportamento defensivo está sobretudo presente no vendedor do produto, de cujas precauções depende a continuidade do negócio: “Vi o M. a vir em direcção a nós, vinha bastante devagar a olhar com cautela em todas as direcções. Era um indivíduo com cerca de 40 e tal anos. Estava vestido de uma forma bastante discreta. (…) Quando chegou perto de nós disse em voz baixa para o pessoal ter calma e para controlarem de um lado, que ele controlava de outro. Vinha com as mãos nos bolsos e praticamente não as tirou. Quando as tirou para tirar os pacotes de um pequeno saco de papel, manteve-as à frente do abdómen mesmo encostadas, dando a impressão a quem visse de trás ou dos lados que ele as tinha nos bolsos. O Esteves disse para ele se sentar e ele disse: «Não senta nada, não senta nada…». Estava bastante apreensivo. Quando o Manel o cumprimentou passoulhe logo 5 euros em moedas para a mão e disse que queria um. O M. meteu o dinheiro ao bolso e depois, mantendo sempre as mãos junto ao corpo, tirou um pacote de dentro de um saco de papel e atirou para
A VIDA DO ANDAMENTO 54 as mãos do Manel, que estava sentado no banco. O pacote caiu ao chão e o Manel apanhou-o.” (diário de campo) A notícia da presença dum vendedor é levada com rapidez a outros utilizadores de heroína – a rua dos actores das drogas faz fluir as mensagens com eficácia, a discrição é uma das suas condições necessárias: “Começámos a andar dali para fora. Enquanto caminhávamos rua abaixo em direcção à praça, o pessoal ia mais alegre. A Ská ia a sorrir e disse para o Manel: «Os pacotes estão bons, não parecem estar rafados, não estão rafados…». O Manel sorriu e disse que sim, que eram bons. O Brocas (um adolescente de 13 ou 14 anos) juntou-se a nós no fim da rua. Quando chegamos ao passeio e já depois de termos dado uns 5 passos, o Manel parou e deu um passo ou dois atrás para falar com um conhecido. Ouvi-o dizer que estava ali o M. e que tinha produto.” (diário de campo) A rua das actividades psicotrópicas é incerta, as relações entre quem compra e quem vende estão sujeitas a roubos e fraudes. Afinal, como na economia convencional… Vejamos um exemplo do cliente que rouba o vendedor: “Perguntei-lhe se estava tudo bem e ele começou logo a contar-me que tinha feito uma queixa na polícia pois tinham-no roubado. Disse-me ele: «Sabes, eu tenho andado aí a meter uns pacotes, porque preciso de pagar o quarto onde eu estava, não é?» Contou então que um tal de Nabiça, que também andava por aí a “vender material”, lhe tinha roubado 90 euros. Perguntei se ele andava a vender para o Nabiça, pois não tinha ainda percebido como é que esse Nabiça o tinha roubado. Ele disse que não, que lhe estava a vender um pacote, que custa 5 euros e que o Nabiça lhe deu 20 Euros, pelo que ele ao fazer o troco foi ao maço de notas que tinha e o Nabiça deitou-lhe a mão ao maço de notas e fugiu. Ele disse que o
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 55 Nabiça era mais forte do que ele, pelo que não pôde fazer nada.” (diário de campo) O Nabiça, que às vezes vende pacotes, compra agora ao Rujo, que normalmente só compra e não vende. Vender e comprar estão separados por uma ténue fronteira, são dois lados da mesma moeda, elementos da sobrevivência de rua. Um vende porque tem de pagar o quarto, o outro, que normalmente vende, precisa agora de comprar, porque vende para poder consumir e agora nem para si tem. A este nível, ser dealer não corresponde a uma actividade continuada, a um projecto calculado – aparece de súbito nos contactos de rua como oportunidade de “fazer algum”, subordina-se à lei da sobrevivência num dia-a-dia de míngua e incerteza. Nestas condições, nem sempre impera a ética que deve pautar a relação comercial. Há pouco víamos o cliente a roubar o vendedor, vejamos agora o recíproco: “No seguimento desta conversa, ele contou que o Gingas tinha estado com ele há dois dias e que lhe terá contado que um dealer que o Manel conhece, lhe terá vendido 4 “pacotes” de bolacha esmigalhada. O Manel disse que isso não se fazia, que o rapaz estava a ressacar e que chegou a casa e não tinha pó. Disse que sabia quem era o dealer e que quando o visse que lhe ia dar um cachaço e dizerlhe para que fosse a última vez que ele fizesse aquilo a um amigo dele.” (diário de campo) Os compradores de heroína de rua são com frequência enganados pelo vendedor, adquirindo outra coisa qualquer no lugar da heroína. Aqui, o cliente enganado não pode, evidentemente, recorrer a nenhum mecanismo formal para ser ressarcido. Funciona então, não raro, o ajuste de contas directo, vindo daqui uma boa parte dos episódios de violência nos territórios psicotrópicos. O nosso trabalho de campo confirma aquilo que a literatura internacional tem encontrado: mais do que provocar vítimas em terceiros, o “mundo da droga” vitima maioritariamente os seus próprios actores – violência sistémica, interior ao complexo de relações em que os indivíduos se envolvem.
A VIDA DO ANDAMENTO 56 “Eu fiquei curioso e perguntei o que tinha acontecido. O Barbas contou que um fulano que andava a meter uns pacotes lhe vendeu 3 pacotes que tinham pimenta. Ele disse: «Cheguei ao barraco para fumar, botei o pó na prata e quando lhe cheguei calor a puta não destilava… dei-lhe lume por cima e vi, filha da puta…» Disse que ficou furioso e que se o apanhava ali que o matava. A sorte dele foi não estar a ressacar. Depois disse que acabou por encontrá-lo na … e que para o cúmulo o gajo não fugiu, tendo-lhe ainda perguntado se o Barbas lhe ia bater, que os outros a quem ele tinha enganado não lhe tinham feito mal. O Barbas diz que o apanhou e que lhe bateu, que ele caiu ao chão e que ele ainda lhe ia bater mais se não o tivessem segurado.” (diário de campo) Outro aspecto da violência é o que resulta da repressão policial. Conseguir comprar um pacote implica um considerável esforço, para quem vive sujeito à microeconomia de subsistência. Consegui-lo é saber que, por umas boas horas, se adiou a ameaça do sofrimento – a ressaca, essa entidade temível. E perdê-lo é um sério contratempo. É preciso defender a todo o custo a dose que se guarda no bolso: “Eu perguntei-lhe como era isso da polícia e ele explicou. Disse que ontem estava a comprar um pacote a um sujeito, quando apareceu um polícia à paisana e os apertou aos dois. Enquanto o polícia estava a revistar o outro sujeito ele esgueirou-se e deu à perna, berrando o polícia para ele não fugir. Depois disse que o polícia mais tarde o apanhou ali na rua a arrumar carros e que lhe disse que nunca ninguém lhe tinha fugido antes e que agora ia andar em cima dele. Ele disse ao polícia que tinha fugido porque sabia que ele lhe ia tirar o pacote e ele ia ficar a ressacar e sem dinheiro.” (diário de campo) No discurso espontâneo aflora com alguma frequência a relação com a polícia. Muitos dos actores que conhecemos ao longo do trabalho de campo têm um razoável conhecimento do que implica a lei que despenalizou o consumo, sabem por exemplo que
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 57 não podem ser incriminados pela simples posse para uso próprio. Mas recordam também situações em que foram alvo de violência: “(…) disse que se uma pessoa se recusar a ser revistada, eles levam para a esquadra e depois obrigam um gajo a despir-se e sacodem a roupa para ver se há alguma coisa. E ainda por cima podese correr o risco de levar uma porrada. Ao dizer isto ele fez com a mão o gesto que significa tareia. Contou a história que se tinha passado com um conhecido dele, em que esse sujeito mentiu ao polícia dizendo que não tinha nada, quando o polícia o tinha visto a comprar, e que o levaram para a esquadra, despiram-no e deram-lhe uma carga de porrada.” (diário de campo) Não averiguámos da veracidade destes episódios. Registamos, isso sim, que estas agressões policiais fazem parte do rol de episódios que os utilizadores de drogas têm incorporados no seu discurso. Voltaremos ainda a este tema no capítulo seguinte. Por agora, concluamos que é natural que transpareçam uma hostilidade em relação à polícia: “Nesse momento dobrou a curva uma carrinha da polícia. Ao vê-la eu disse-lhe que estávamos a falar nos polícias e eles apareceram. Ele fitou a carrinha e disse: «Estes filhos das putas são os piores, estão lá nas secretárias, levam-nos lá para dentro e dão-nos porrada…».” (diário de campo) Mas há polícias e polícias. Os actores das drogas julgam possuir um conhecimento sobre eles, um saber que lhes permite escaloná-los pelo grau de perigosidade: “Cumprimentámo-nos e ele disse que estava a fazer tempo. Eu disse meio a brincar que ele estava a controlar os polícias que estavam do outro lado da praça mesmo em frente a ele. Ele riu-se e disse que nem os tinha visto e acrescentou que aqueles não faziam nada. Despediu-se de mim de uma forma um pouco rápida dizendo que tinha de ir ter com não sei quem.” (diário de campo)
A VIDA DO ANDAMENTO 64 ao abrir esta secção, o caso do A., como poderíamos ter exemplificado com outros que o terreno em Guimarães nos foi dando a conhecer15. A rua vai passando a ser apropriada: o “meu parque”, sítio vital para a angariação de dinheiro, como veremos no próximo capítulo; o sítio X ou Y, onde vou “dar na prata” com alguém; uma casa abandonada onde estabeleço a minha própria “casa”. E onde guardo pertenças pessoais que não posso transportar na mão o dia todo? “Quando chegámos ao fim da rua … (no centro histórico), o Manel disse para eu esperar. Tinha umas pratas novas guardadas numa janela de um edifício abandonado. Para as alcançar teve de por o pé num parapeito e esticar a perna para chegar à tal janela que ficava um pouco mais alta. As pratas ficavam num dos cantos da janela, entre o caixilho e a portada de madeira, que ainda tinha um espaço considerável.” (diário de campo) Por que não andava ele com as pratas no bolso? Quis saber o etnógrafo. Porque encorrilham e depois a bolha não corre (a heroína, a liquefazer quando recebe o calor do isqueiro, forma uma bolha que corre na prata libertando uma fina coluna de fumo, que é então aspirada pelo tubo). No entanto, pudemos verificar que nem todos os que “dão na prata” se mostram tão meticulosos, transportando consigo as pratas que alisam como podem na hora de usar. E um guarda-chuva? Todos sabemos como incomoda transportálo quando pára de chover. Se a rua for “nossa” resolvemos esse estorvo com facilidade: “Estava lá (no “parque”) um guarda-chuva encostado a uma árvore que era do Barbas. Mais tarde, quando estávamos a ir embora, ele escondeu o guarda-chuva no meio dos arbustos.” (diário de campo) 15 O fenómeno dos sem-abrigo está pouco caracterizado em Portugal. O seu forte aumento dá-se a partir do início da década de 90 no Porto e em Lisboa, podendo dizer-se que até aí era praticamente residual. Alterase também nessa altura o tipo de indivíduo que se vê constrangido a essa situação. Surgiram entretanto variadas respostas institucionais, mas nem sempre representam uma alternativa ao morar na rua, como o mostra a investigação desenvolvida por Adília Rivotti relativamente às pessoas em situação de sem-abrigo em Lisboa (Rivotti, 2008).
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 65 Mas o viver na rua é quase sempre sinónimo de grande precariedade. Notemos a seguinte observação da equipa de redução de riscos: “Demos vestuário ao L., mais uma vez. Não podemos permitir que o vestuário seja sempre para os mesmos, e só para aqueles que pedem. Alguns dos utentes não possuem vestuário para além daquilo que vestem e tem vergonha de pedir ajuda a este nível.” (IN-Ruas, diário de campo) O toxicodependente de rua é, desde os anos 80, uma nova figura da pobreza em meio urbano. Se esta circunstância está bem documentada para as grandes cidades, vemos agora numa cidade de tamanho médio acontecer o mesmo fenómeno. Cerca de 90% das refeições servidas na Casa Económica são-no a indivíduos enviados pelo CRI de Guimarães (dado extraído do diário do IN-Ruas). E a desvinculação progressiva do mercado de trabalho está, como veremos já a seguir, fortemente ligada à pauperização destes utilizadores de drogas. - O TRABALHO - O trabalho é um dos elementos centrais da precariedade. Por um lado, a baixa qualificação da grande maioria dos nossos sujeitos situa-os numa zona de oportunidades laborais marcada pelas más condições, pela baixa remuneração e pela fragilidade do vínculo. Nestas condições, a itinerância, o “saltar” de trabalho em trabalho, são a regra. Esta itinerância inclui em vários casos a emigração temporária: “O M. começa a revelar um pouco da vida dele, dizendo que já chegou a ganhar mil e quinhentos Euros quando trabalhou em Espanha, em Barcelona. Perguntei-lhe em que trabalhava e ele disse que era na construção civil. Disse logo em seguida que era um trabalho muito pesado, que trabalhava doze horas por dia e que ainda trabalhava ao sábado. Que pagavam bem, mas que era o dia todo a
A VIDA DO ANDAMENTO 66 dar-lhe. Perguntei há quanto tempo é que ele não trabalhava e ele disse que era há um ano e tal. Perguntei o que tinha acontecido, por que já não trabalhava, ele respondeu: «Porque me fartei daquilo, fogo! Trabalhar 12 horas por dia no duro e os cabrões dos espanhóis…» Depois perguntei como era em Portugal, se ele não conseguia arranjar nada. Respondeu com indignação que nem pensar trabalhar em Portugal, que pagavam muito mal, diz ele fazendo gestos com as mãos apontando para as costas, braços e pernas: «Tu não imaginas, um gajo fica todo roto a trabalhar o dia todo a acartar com peso nos ombros, fica todo fodido das costas, dói-te aqui, aqui e aqui, tu só no primeiro dia ficas todo roto que nem te aguentas… Andar todo fodido por praí quatrocentos euros!» Depois ainda diz: «Um gajo vai ali ao fundo de desemprego ver, tem lá a dizer precisa-se por exemplo um servente, quanto pagam? Quatrocentos euros ou menos, fogo…!». Não tem um trabalho certo há 20 anos. A última vez que trabalhou foi há 3 ou 4 anos.” (diário de campo) Outra consequência de tais condições é a concorrência que podem representar situações do trabalho informal, como arrumar carros ou “meter uns pacotes” (tarefa mais ou menos esporádica em que se ajuda na distribuição de doses no mercado de retalho da rua). Numa óptica de escolha racional, estas oportunidades podem revelar-se mais vantajosas, sobretudo se tivermos em conta que, como veremos na secção seguinte, a vivência da precariedade relativiza o risco. Por outro lado, a instalação da dependência precipita a degradação da relação com o trabalho, potenciando mais ainda a instabilidade própria às franjas de mercado laboral a que têm acesso. Precipita-se assim a mudança de empregador, tendo como resultado, quando olhamos retrospectivamente a “carreira” dos nossos sujeitos, a itinerância: dum trabalho na construção civil a outro numa tinturaria, desta a uma tipografia; ou de talhante a operário fabril, da fábrica para a construção civil. Outras ocupações: chapeiro, cozinheiro, electricista, manobrador de máquinas. Notemos que praticamente não
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 67 contactámos com indivíduos com formação ao nível do ensino superior, se exceptuarmos um único caso – dado que nos foi também confirmado pelos registos do IN-Ruas16. “Disse que começou a dar os primeiros fumos em 84 e que em 92 se enterrou profundamente nas drogas. Nessa altura, tinha uma pequena garagem onde fazia trabalhos de chaparia automóvel. Tinha 2 empregados e uma conta boa. Disse que a coisa começou a descambar por causa da dependência. Trabalhou noutros sítios, sempre dependente das drogas. (…) Últimas profissões: bate chapas, França na apanha da fruta, quatro anos numa empresa de metalomecânica” (Ferrete, 44 anos) Em suma, se o tipo de trabalho a que a grande maioria dos nossos sujeitos tem acesso é um dos elementos centrais da precariedade, por outro a evolução na carreira de consumidor pode deteriorar a relação com ele, complicando a permanência no seu posto, precipitando a sua perda e a procura de novo trabalho – ou seja, tornando-o ainda mais precário. A procura duma nova oportunidade laboral vai sendo mais espaçada, a crença na sua obtenção mais enfraquecida. Se, nesse momento, se tiver a iniciativa de experimentar as oportunidades do trabalho informal, talvez se inicie uma nova etapa da vida. No capítulo seguinte exploraremos uma destas “saídas”, o ser-se arrumador. As poucas investigações que, em Portugal, têm analisado a relação entre toxicodependência e trabalho têm chegado a resultados convergentes com os nossos. Carla Frazão e col. (2005) exprimem-no bem, quando dizem que “é difícil determinar qual a relação estabelecida entre o consumo de drogas e o trabalho. É aquilo que Comerford (1999) designa de Chicken/Egg Dilemma, no que toca à dificuldade de determinar se é o consumo de drogas que pode causar dificuldades a nível laboral, ou se é o consumo de drogas que pode surgir como resposta à dificuldade”. E, uma vez a adicção instalada, concluem também que “com o aumento de gravidade do problema há um 16 Uma conclusão simplista sobre o que acabamos de dizer poderia ser a de que as trajectórias “pesadas” são praticamente um exclusivo das franjas sociais mais desfavorecidas. Tal conclusão é falsa, como é sabido. Pensamos que os resultados que a nossa pesquisa evidencia, somando-se a muitos outros que vão na mesma direcção, permitem equacionar uma resposta bem mais completa e complexa para o facto evidenciado.
A VIDA DO ANDAMENTO 68 acréscimo na dificuldade que o toxicodependente tem em manter a sua capacidade laboral, e um aumento do desinteresse pelo desempenho da actividade laboral.” Agostinho Rodrigues, em 2004, identificou “duas formas principais de interacção entre as trajectórias dos consumos de drogas e do trabalho: (1) as drogas no trajecto laboral e (2) o trabalho nos projectos das drogas”. Na primeira, constata que a influência do consumo de drogas é apenas sentida e valorizada numa fase já avançada do percurso laboral, concretamente quando é percepcionado pelos sujeitos o estado de dependência, sobretudo da heroína. Quanto à segunda forma de interacção, “ela pode ser de dois tipos: (I) trabalha-se para manter o consumo de drogas e (II) trabalha-se para deixar as drogas. O primeiro tipo evidencia-se através das múltiplas tentativas dos indivíduos para conseguirem uma ocupação ou emprego (ainda que, se possível, precário e com condições de remuneração particulares, como pagamento ao dia ou à semana) como forma de financiar o consumo. A maioria dos sujeitos refere também experiências laborais cujo objectivo fundamental era controlar o consumo de drogas, sem, no entanto, pretenderem abandoná-lo” (Rodrigues, 2004). Em sentido convergente com o dos nossos dados, refere também que “Se o conseguem (trabalho), rapidamente o perdem, o que é atribuído, fundamentalmente, às condições de trabalho, com destaque para a precariedade do vínculo laboral.” A precariedade do quadro de vida, as condições em que se apresentam no mercado negro as drogas ilegais e à reacção social estigmatizante dirigida aos utilizadores, convergem para aumentar o risco associado às práticas de consumo. Dedicaremos a próxima secção a analisar este problema sanitário e social. 6.5. PRÁTICAS DE RISCO A precariedade do quadro de vida potencia as práticas de risco dos utilizadores de drogas. Estas práticas não devem ser desligadas de tal quadro, em que o risco assume dois aspectos essenciais: diz respeito a toda a existência do indivíduo, desde as condições do alojamento à possibilidade de se alimentar adequadamente, até ao controle da saúde/doença; por outro lado, nestas condições que fazem da vida uma sobrevivência no
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 69 imediato, a percepção do risco constrói-se em função destas circunstâncias, estando em geral muito relativizada: “Disse que agora, como entaiparam o sítio onde eles injectavam, o pessoal ia chutar para os quartos-de-banho e que no outro dia a senhora da limpeza se picou numa seringa quando estava a fechar o saco do lixo. Disse aquilo como se a senhora se tivesse picado num simples espinho. O Renato (redutor de danos) ficou aflito e perguntou-lhe logo se ela tinha ido ao hospital. O Barbas disse que achava que não, que tinha sido só um “picozito” na palma da mão.” (diário de campo) Diversos estudos que têm o sentimento de insegurança como objecto mostram que a percepção do risco (de se ser vítima dum crime de rua, por exemplo) são função das expectativas de segurança que uma sociedade construiu. Isto explicaria por que é que o sentimento de insegurança pode ser tão intenso numa cidade com taxas de criminalidade moderadas como noutra conhecida por ser violenta e de grande taxa de ocorrência criminal. Podemos, a nosso ver, aplicar esta relação ao nosso caso: num quadro de vida em que o indivíduo foi baixando as suas expectativas de segurança – por exemplo ao dormir na situação de sem-abrigo, ao fazer “casa” numa casa abandonada, consumindo a substância a que está adicto num WC público, sabendo-se exposto a episódios de rua sobre os quais tem um baixo controle – baixa também a percepção do risco. Não é que o desconheça, mas relega-o para um plano secundário, subordinando-o às tarefas da existência no imediato. Nos utilizadores que fomos contactando ao longo do trabalho de campo a substância mais consumida, já o dissemos noutro capítulo, era a heroína. Os modos fumado e injectado eram utilizados, por vezes num mesmo indivíduo em fases diferentes. Os dados anuais do Instituto da Droga e da Toxicodependência dão conta duma progressiva diminuição da forma injectada, ganhando a fumada por consequência mais expressão, o que mostraria um significativo avanço da diminuição do risco sanitário, individual e social, associado aos consumos. O tipo de dados que a nossa investigação gerou não permite responder à questão da curva evolutiva a este respeito. Mas, recorrendo aos dados disponibilizados pelo IN-Ruas, pode estabelecer-se em cerca de
A VIDA DO ANDAMENTO 70 70% o número dos que usam a via fumada e de cerca de 30% os que usam a injectada, num universo de 214 consumidores. “A informação das doenças infecciosas não está sistematizada, mas percebe-se no terreno que há muito HIV e hepatite C.” (IN-Ruas, 2010) - “CHUTAR” - “Abre o pacote com um corta-unhas (super limpo e cuidadosamente guardado); coloca na carica a água, o ácido e a cocaína. Com a ponta do êmbolo da seringa desfaz os cristais da cocaína e de seguida abre o pacote da heroína que, pela cor, acha que “não é grande coisa”. Usa a lima do corta-unhas para raspar o pacote, de forma a aproveitar tudo. Mistura tudo e tira dois filtros usados da tampa de uma seringa. Passa-os para a carica e espreme-os com a ponta do êmbolo para aproveitar o produto do consumo anterior. Depois disso usa-os como filtro e passa o caldo para a seringa e daqui directamente para a veia. Para a meio, com a seringa no braço, e enrola um cigarro: «É muito bom fumar um cigarrinho quando consumo.». Ao lado, o A., a fumar na prata, diz que nem consegue olhar «para o que ele está a fazer».” (IN-Ruas, diário de campo) “Chutar” ou não “chutar”, eis a questão: “Comecei a perceber que eles iam para casa do Rujo para consumir, e perguntei-lhes se eles queriam que eu fosse, disseram que não havia problema nenhum. Foram falando de algumas personagens, sobre o facto de um deles estar a ser influenciado por um outro para dar picos em vez de fumar. O Barbas acabou por dizer que dava um ou dois picos por ano, na altura das festas, como por exemplo a passagem de ano. O Rujo disse que não dava em altura nenhuma, que não tocava em nada disso.” (diário de campo)
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 71 “Falámos na alteração de via de consumo, da injectada para fumada. Disse-me que vir só a fumar seria difícil, pois já eram muitos anos de consumo: «é como tu fazeres a pé um percurso que fazes de carro (…) é tudo, é sentir o pico e bate mais rápido (…)».” (IN-Ruas, diário de campo, 16/11/09) O consumo intravenoso de drogas duras fez já o seu caminho nos utilizadores, acabando por ter actualmente uma imagem negativa: “chuta-se” quando já não se está a controlar a relação com a substância, sabe-se que corresponde a um agravamento da sua situação pessoal, ao aceitar duma certa deriva na “vida da droga”. O “chuto” vai degradando o estado físico das veias, “secando” as mais utilizadas e obrigando a procurar outros lugares no corpo. E as feridas em consequência das deficientes condições deste modo de consumo, desde as higiénicas às ligadas à técnica de injecção na veia, vão-se sucedendo: “Reparei que tinha uma cicatriz no braço e várias feridas por cicatrizar, o que quer dizer que está a picar sempre no mesmo local. Disse-lhe que se continuasse a insistir naquele local iria querer picar e não ia conseguir, deveria alternar para não danificar aquela veia.” (IN-Ruas, diário de campo, 09/08/2010) As consequências da prática continuada da injecção são, por vezes, severas. A distância psicológica a que muitos utilizadores de ruas se encontram das estruturas de saúde leva-os a uma espécie de cuidados de “enfermagem” muito próprios: “Depois fixei-me numa conversa entre o Renato (redutor de danos) e o Zé Velho, que contagiou toda gente devido ao seu conteúdo. Era sobre uma das pernas do Zé Velho. O Renato perguntava como é que estava a perna dele. E o Zé Velho começa a filosofar, cambaleando para a frente e para trás e dizendo: «Qualquer dia vai ser para cortar a perna fora!» (…) Depois disse que se tinha cortado mesmo: «Peguei na navalha e zás, saquei aquilo fora, corteime.» O pessoal exclamava de impressão, e o Renato, ainda sem
A VIDA DO ANDAMENTO 72 acreditar, dizia: «Ó Zé, onde é que te cortaste? Deixa ver, mostra lá isso!». O Zé Velho dizia, com a sua dicção ritmada: «Estava a incharme muito a perna e eu cortei-o com a navalha, agora já não está tão “inchada…!».” (diário de campo) Confrontando com os registos do IN-Ruas, percebemos então o problema do Zé Velho: “A ferida que me mostrou na perna direita mantém-se aberta há mais de um ano – é uma fístula venosa devido aos consumos constantes naquela veia. Em tempos não usou agulha!” (IN-Ruas, diário de campo, 28/10/09) A representação negativa de muitos utilizadores em relação ao consumo por via injectada foi-nos confirmada pela equipa de redução de riscos IN-Ruas. No Relatório Final (2008-2010) refere-se que “95% dos UDI afirma não partilhar seringas. O facto de haver uma percentagem tão elevada de UDI que dizem não partilhar seringas parece estar relacionado com o facto de os UD terem uma representação claramente negativa sobre este material.” Notemos, no entanto, que esta representação negativa não gera necessariamente o abandono da seringa em favor da prata (fumando em vez de injectar, portanto): “30% dos UDI passaram a consumir por via fumada, enquanto 20% dos UDI introduziram a via fumada, usando as duas vias de administração. A mudança de via de administração pode ter várias explicações. No entanto, aquelas que nos são apresentadas com mais frequência prendem-se com o objectivo de ocultação do consumo (não ter marcas de injecção nos braços) e com fases de diminuição de consumo, muitas vezes com vista à abstinência.” (IN-Ruas, 2010). Vejamos um exemplo: “O C. já está há mais de um mês a substituir a via injectada pela fumada. Diz que é porque vem aí o Verão e quer andar de t-shirt. Diz que se sente bem e não aumentou muito a dose de consumo. Está com muito melhor aspecto do que há uns meses atrás, quando chegou à equipa. Disse-lhe isso.” (IN-Ruas, diário de campo, 22/04/09)
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 73 Mas há o lado atractivo: “chutando”, poupa-se na quantidade, sai portanto mais económico a quem tem muito pouco com que se financiar, e “bate” muito mais – por isso o Barbas usa-o nas datas festivas, como quem toca em algo perigoso que só admite uma excepção de vez em quando. - “DAR NA PRATA” - O evitamento das práticas de risco passa pela transmissão de informação rigorosa e correcta. Essa é uma das funções dos redutores de danos das equipas de rua, cujo trabalho tivemos ocasião de presenciar inúmeras vezes: “O Renato (técnico da equipa de rua) começou a explicar as consequências de partilhar o material de consumo, dizendo que se podia apanhar uma série de doenças. Disse que se podia apanhar a hepatite pelo cano de aspiração. Disse que podiam partilhar a base desde que não partilhassem o tubo, embora não devessem partilhar nada. Eles iam ouvindo com atenção e concordando com o que o Renato dizia. Daí a pouco tempo foram embora.” (diário de campo) Mas o modo como essa informação é mobilizada nas situações concretas é mediado pelas crenças dos actores: “Chegámos a casa do Rujo e fomos logo para o quarto dele. Ele começou a organizar as coisas para o consumo: o banco, o isqueiro, as pratas e uma faca para rasgar o pacote. (…) Em relação ao consumo, eles partilharam o mesmo tubo e fumavam a meias, tirando duas a três passas cada um. Quando os questionei acerca do tubo eles disseram que isso era com pessoas que não se conheciam,
A VIDA DO ANDAMENTO 80 para o facto de o encaminhamento para a CT ter de ser feito através do CRI e que era bom voltar.” (IN-Ruas, diário de campo, 02/02/09) “O A. disse que precisava falar comigo: «Preciso da sua ajuda». Sente que está definitivamente na altura de sair de Guimarães e tratar-se. Quer ir para a Comunidade Terapêutica de Meilão (Maia), pois ouviu dizer que pode ir a tomar metadona e fazer lá o desmame. Tem tentado consulta com o terapeuta do CRI, mas sem sucesso. Pede-me para fazer os possíveis para acelerar o processo de atendimento no CRI e para recolher informações sobre a CT e processo de admissão.” (IN-Ruas, diário de campo, 19/08/09) “O P. disse-me que estava a tratar da sua vida, que ia tentar reaver o cartão do cidadão o mais depressa possível e que depois iria ao CAT marcar uma consulta, «isto não é vida, um gajo novo como eu não pode andar assim (…)».” (IN-Ruas, diário de campo, 11/08/10) O trabalho de encaminhamento para cuidados de saúde e/ou programas de tratamento da dependência pode ser o princípio dum percurso que conduza a um abandono da “vida do andamento”. Mas este percurso não tem nada de linear, é sinuoso e descontínuo. É justamente a tentativa de “sair da droga” o tema que analisaremos na secção seguinte. 6.6. TRATAMENTOS E RECAÍDAS “Perguntei a brincar ao Zé Motas se ele não estava bem por causa do frio e ele disse, rindo-se, que não era o frio, que não estava muito bem porque queria mudar a situação de vida dele. Começou a falar num jeito de quem sabe as respostas todas e disse, referindo-se aos consumidores e a ele próprio, que não tinham ajudas nenhumas, a não ser aquela como a que a equipa de rua estava
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 81 a fazer. Disse que já tinha feito muitas desintoxicações, mais de 30, mas que depois de ficar limpo não conseguiu arranjar emprego, o estado não o apoiava, ficava em casa sem fazer nada e acabava por ir para a rua ter com as pessoas que conhecia, que eram as do mundo da droga e acabava por recair. Disse que sem dinheiro e sem nada para fazer, voltar a entrar na droga sempre dava para se meter numas aventuras e ganhar algum.” (diário de campo) Os psicólogos da teoria comportamentalista diriam que o que mantém o hábito do consumo de drogas é o mecanismo de reforço negativo: a emissão duma resposta que evita ou interrompe consequências negativas aumenta a probabilidade desta resposta ocorrer de novo. Ou seja, se ao consumir pó evito a síndrome de abstinência, este evitamento é um reforço que aumenta a probabilidade de voltar a consumir sempre que sinta que a abstinência se aproxima. O reforço negativo interrompe ou evita o estímulo desagradável. Se juntarmos este mecanismo comportamental, que é geral na conduta animal, com o mecanismo fisiológico responsável pelos sintomas da abstinência num organismo que se tornou dependente dum químico, temos os elementos necessários para entender a repetitividade do comportamento dos adictos. Tratar alguém tem de começar por provocar mudanças tanto no mecanismo comportamental como no fisiológico – questão técnica que nos levaria longe e foge aos objectivos do presente trabalho. Diremos aqui que não se trata duma tarefa nada simples, como o comprovam os nossos sujeitos. Com efeito, a maioria deles passou já por um ou por vários tratamentos, mas recaiu e retomou a “vida do andamento”. E, regressados ao estilo junkie, andam no CAT mas vão à carrinha da equipa de rua, andam na metadona mas vão à heroína, reproduzindo na relação com as diferentes modalidades interventivas o estilo errático que o ”andamento” parece instalar neles. Em suma, podemos caracterizar a relação dos nossos sujeitos com o sistema de tratamento como marcada por uma sucessão de encontros e desencontros: o consumidor problemático mantém com o tratamento uma relação tangencial. E os percursos individuais apresentam tantas diferenças entre eles que se torna difícil extrair regularidades, para além da que mostra que passar pelo tratamento e recair parece fazer
A VIDA DO ANDAMENTO 82 parte da carreira junkie e da referida tangencialidade no (des)encontro entre ele e a instância terapêutica. Sintetizemos em algumas alíneas os aspectos mais relevantes que os dados evidenciaram a este respeito: - A escolha do tipo de instituição ou de método terapêutico é tão variada como as respostas existentes no campo interventivo das drogas. Desde a desintoxicação a frio na Remar em Espanha até à longa estadia no Projecto Homem ou na Casa Leme, passando pela desintoxicação e o acompanhamento nas unidades terapêuticas de vários CRI, até à desintoxicação no domicílio “fechando-se lá com umas pastilhas e a ajuda da mãe”. Mesmo a passagem pela prisão, comum na nossa “amostra”, funcionou nalguns casos como uma desintoxicação forçada. - A variabilidade geográfica dos locais onde se realizou tratamento é grande, incluindo Alemanha ou Espanha, Algarve, Lisboa, Porto, Braga ou, claro, Guimarães. Um dado algo inesperado: passando por várias instituições com resultados tão pouco duradouros, seria de esperar que se referissem negativamente a elas. Mas esta não foi a tónica, encontrámos mesmo alguns sujeitos que nos referiram ter-se tratado duma experiência muito boa, um momento significativo das suas vidas. - Cada sujeito passou, em regra, por vários tratamentos. Podem ser dois, três, meia dúzia, ou, como nos dizia o Zé Motas na passagem do diário com que abrimos esta secção, “sei lá, mais de trinta…”. A recaída é portanto uma experiência generalizada, não sendo possível responder a perguntas do tipo “ao fim de quanto tempo é comum recair?”. A resposta seria, na nossa “amostra”, qualquer período de tempo situado entre a semana a seguir ao tratamento e os dez anos! Num mesmo indivíduo uma recaída pode ter ocorrido ao fim duma semana ou de seis meses, parecendo obedecer apenas ao aleatório dum encontro em que a heroína lhe apareceu diante, sem premeditação, tornando o momento irresistível e os dias seguintes os da evidência de que “se está outra vez enterrado”. A intensa memória que o opiáceo deixou gravada torna o reencontro com este uma espécie de fatalidade a que não se pode fugir. - Quando o percurso habitual é este, acontece também aquilo que encontrámos no terreno: acaba-se num regime de manutenção com metadona. Ele não significa
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 83 necessariamente ter abandonado os consumos de heroína, muito menos os de base de coca. A metadona é um “andar” e “não andar” na droga, uma forma de se dizer que se está a fazer alguma coisa por si sem ter de abdicar do estilo de vida que já se rotinou desde há muito. E também aqui nos aparece uma enorme variabilidade: vimos o Pibe no seu segundo dia de metadona à conversa com o Major, que lhe dava conselhos para esta nova fase falando com a autoridade de quem já leva doze anos na “meta”, depois de se ter iniciado na heroína aos 13 anos. - “QUE RAIO DE VENENO QUE BOTARAM AO MUNDO!” - (Rujo) “O ADM pergunta se podia puxar uma cadeira para se sentar na nossa mesa. Disse que como agora já estava melhor e como eu sabia que ele tinha tido aquele problema, referindo-se à toxicodependência, quando veio da tropa, que me vinha perguntar o que é que eu o aconselhava a fazer, uma vez que era psicólogo. Eu disse-lhe que não era psicólogo e ele, espantado, pergunta-me o que é que eu era então. Eu disse-lhe que a minha área era a sociologia. Ele então pergunta o que é que havia de fazer: «Olha, o que é que eu faço agora, o que é que me aconselhas? Fico em casa sem fazer nada e sem sair, sento-me num banco no parque, vou para o café ler o jornal, arranjo um trabalho, vou para fora daqui, para longe, o que é que eu faço agora?».” (diário de campo) O cansaço vai tomando conta do indivíduo, à medida que a dependência lhe exige os consumos e estes obrigam a rotinas rígidas e a um grande desgaste de energia, primeiro para conseguir ocultá-los aos mais próximos, depois para arcar com a etiqueta de “drogado” e ter de gerir complicadas relações próprias à “vida nas drogas”. E é muito mais difícil de suportar o cansaço quando o suporte social vai diminuindo, à medida que se degradam ou se perdem relações na família, no trabalho, nos amigos “fora das drogas”. É por isso muitas vezes ele o impulsionador da decisão da mudança: iniciar programa de
A VIDA DO ANDAMENTO 84 metadona, dirigir-se a um centro de tratamento, fazer uma desintoxicação, ir a uma comunidade terapêutica onde algum conhecido já esteve. A necessidade do tratamento aparece quando o indivíduo consciencializou plenamente o seu estado de dependência. Esta consciência pode ter uma dimensão física, pode passar pela vivência da sua corporalidade, quando se começa a tornar claro que “aquela vida” atingiu já o corpo: “Nisto o ADM estava no topo da rua do Manel, fui ter com ele e cumprimentámo-nos. Perguntei se estava tudo bem e ele disse que sim. Disse que ia fazer um tratamento para a semana, para o CAT de Cedofeita, no Porto. Disse que tinha de ser, que estava a ficar muito magro e que não estava a gostar nada de se ver. Perguntei se ele estava com força para avançar mesmo e ele disse que sim, voltou a falar na questão do peso e depois disse: «Ó pá, já sei que não é para sempre, mas pelo menos ando meio anito para recuperar… e depois também quero começar a treinar e ganhar corpo outra vez, quero construir uma vida diferente… Eu tenho um DVD e uma televisão no quarto e tenho cenas, mas quero comprar um carro, um BM 320, e quero ter 5000 euros na conta, e assim não dá.» Disse que queria arranjar um trabalho e também queria ter uma família dele. Acrescentou que aquilo não era vida, andar ali a chatear-se por causa de uns trocos, e ao dizer isto olhou para a zona do Manel.” (diário de campo) Nos nossos sujeitos a convicção de que tinham de se tratar era a situação mais comum, numa de três modalidades: ou aguardavam ingressar num primeiro tratamento, ou tinham recaído do último que haviam feito e retomavam os consumos com grande intensidade, ou falavam já de novo em ter de se tratar “um dia destes”. Que é o cansaço que impele a decisão está bem ilustrado no relato do ADM, quando diz que “nem que seja só meio anito para recuperar”. Para recuperar a dimensão física que já está em perda – depois, talvez o apelo da heroína volte a ser mais forte…
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 85 O junkie é, pois, o indivíduo que falha a gestão dos consumos e entra em falência dos auto-controles: “Estávamos a falar sobre os consumos e ele disse que há uns tempos consumia mais duas doses do que agora, que tinha conseguido reduzir porque tinha ficado doente de cama e quando por fim se levantou já se tinha desabituado da dosagem habitual. Agora conseguia manter um consumo de 4 doses diárias. Eu perguntei-lhe então se ele não conseguiria reduzir mais uma dose, e fumar apenas 3 em vez de 4. Ele disse que era difícil, porque o corpo pedia mais para não ressacar. Eu propus-lhe então ele a cada pacote retirar um pouco de “pó” todas as vezes para o lado e que a certa altura já tinha economizado e reduzido alguma coisa, e que se ele fosse fazendo isso gradualmente ia reduzindo. Ele disse que eu estava a falar bem, mas perguntou onde é que guardava o pó que ia pondo de lado. Eu respondi-lhe que ele o podia por num recipiente e guardar em casa. Ele disse que aí é que estava o problema, porque ele a saber que tinha ali uma quantidade de “pó”, não ia conseguir dormir, ia estar sempre a pensar naquilo. Disse que sabendo que o tinha que não conseguia resistir.” (diário de campo) Esta passagem do diário revela bem a dimensão psicológica da dependência, marcada pela irresistibilidade, pela incapacidade de fazer prevalecer a vontade sobre o desejo. Quando este consegue ser submetido àquela, o utilizador pode gerir os consumos de forma a nunca escalar para uma relação em que o produto lhe dita a sua lei – estamos nesse caso perante utilizadores auto-controlados, que alguns trabalhos têm descrito, contrariando com a evidência empírica a ideia comum de que o consumidor de opiáceos se torna invariavelmente toxicodependente. Mas, na generalidade dos actores com quem tivemos contacto ao longo do trabalho de campo, o regime de utilização auto-controlada não nos apareceu. Mas, mesmo assim, é necessário introduzir mais um elemento acerca desta falência dos auto-controles: a relação entre heroína ou cocaína e dinheiro. Elas são duas faces duma mesma moeda, dinheiro é (comprar) droga, (vender) droga é dinheiro. Ora,
A VIDA DO ANDAMENTO 86 como veremos no capítulo seguinte, a actividade de arrumar automóveis funciona como um regularizador, tanto ao nível da organização do tempo na jornada diária, como ao nível duma expectativa razoável de que se conseguirá o dinheiro suficiente para afastar a ressaca. De modo que o adicto que é também arrumador consegue estabilizar a sua relação com as drogas, podendo falar-se no seu caso dum razoável nível de gestão dos consumos. No discurso clínico a falência dos auto-controles é lida como compulsividade da conduta; por sua vez, a dificuldade de parar o consumo é lida como perturbação da esfera motivacional; se juntarmos a isto o conjunto dos sintomas físicos e psicológicos que configuram a síndrome de abstinência, temos reunidos os elementos que conduzem as autoridades da psicopatologia a incluir a “dependência de substâncias” na lista das doenças mentais. Mas este novo “doente mental” conforma-se mal ao estatuto que os especialistas lhe deram: “Depois o Zé disse que a Anita era assim, que já o andava a incomodar pois via-o na rua e começava a berrar perguntando se ele tinha visto fulano e cicrano. E que ele podia estar com alguém e ficar mal, tipo a namorada ver com que companhias é que ele andava. Fezse ali uma piada em torno dessa situação, em que o Romeu, simulando o discurso da namorada, declarou: «ó mor, tu enganaste-me, tu afinal és doutor, porque só conheces doentes!».” (diário de campo) Vejamos outro excerto bem ilustrativo: “Depois não percebo como começou, mas o Abel diz que isto, referindo-se à toxicodependência, é uma doença e que eles andam doentes. Eu aproveito a deixa e pergunto-lhe por que diz ele que é uma doença. Ele responde que é o que os médicos dizem, e que foi o que lhe disseram a ele. Depois diz que há umas pessoas que andam anos na droga e que conseguem sair, e outras que não. Diz que qualquer toxicodependente tem algum problema e que é por isso que
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 87 continua toxicodependente. Diz que a droga é um refúgio e que toda a gente tem refúgios.” (diário de campo) A leitura da toxicodependência enquanto doença não é espontânea, não surge com facilidade nem para o senso comum nem para muitos utilizadores de drogas. A progressiva influência do modelo medico-psicológico nas representações sociais do “drogado” vai sendo assimilada pelos próprios, mas sempre num registo em que essa “doença” é uma consequência de se ter problemas e ao mesmo tempo um refúgio para eles. Estranha doença, que em vez de causar problemas, como acontece nas doenças vulgares, é consequência deles, insólita entidade mórbida que em vez de pedir um refúgio é ela própria o refúgio! - “DROGADOS? PUTA QUE OS PARIU!” - (Zé Motas) Voltar para a rua – porque o quadro de vida não se alterou pelo facto de se fazer uma desintoxicação – é o mais provável. E estar na rua é expor-se à possibilidade de recair: “Disse o Zé Motas que recair era muito fácil. Aparece sempre alguém que o convida para ir tirar uns fumos e a pessoa, para «Preencher o vazio, vai. Quando ficamos sem a droga fica um vazio muito grande!».” “O Meirins disse que já tinha sido consumidor, que tinha consumido alguns anos, e que antes de começar outra vez esteve 8 anos sem consumir. Eu perguntei então porquê e como é que ele tinha voltado ao mesmo. Ele disse que era muito simples. Esteve na cadeia, foi lá que deixou de consumir. E quando saiu, há cerca de 5 meses atrás, não conseguia arranjar trabalho e a solução que arranjou foi traficar. Apanhou-se com ela e consumiu num dia, depois num outro e assim foi”. (diário de campo)
A VIDA DO ANDAMENTO 88 Vejamos agora uma teoria espontânea que circula desde há muito no meio drug, e que vimos também a circular em Guimarães: as autoridades não “resolvem o problema” porque não querem, o Estado podia fazer muito mais pela situação dos toxicodependentes do que o que faz: “Já o tinha ouvido uma vez a falar sobre a questão do Estado e o poder político não quererem acabar com a droga e neste momento voltou a dizer isso. Falou também no RSI, que o Estado estava a dar esse dinheiro para a droga, porque o que é que se podia fazer com cento e poucos euros? Disse ele que o estado devia garantir uma profissão, em vez do RSI onde são gastos milhões do orçamento, ao sujeito que fizesse uma desintoxicação e quisesse endireitar a vida. Disse ele que o Estado se quisesse podia fazer acordos com grandes empresas e empregar este tipo de pessoas. O Zé Motas disse ainda que a base para um toxicodependente se recuperar é um emprego, para que ele comece a frequentar outros espaços e experienciar outras relações.” (diário de campo) A opinião do Zé Motas acerca do papel do emprego no afastamento da “vida da droga” é também partilhada por muitos actores: “Actualmente estava à procura de emprego e já tinha ido a muitas fábricas e empresas, mas que não o empregavam. Disse que Guimarães e arredores era um sítio pequeno e que o começavam a conhecer e que não empregavam drogados. Disse ele: «As pessoas pensam, drogados? Puta que os pariu! É mesmo assim, drogados puta que os pariu!». Disse que se arranjasse emprego, que saía de manhã e só chegava à noite, e depois à noite não saía de casa. E que assim nem pensava na droga.” (diário de campo) A consciência do estigma que representa ser-se toxicodependente está muito presente, e é sentida como um factor inibidor das possibilidades de “mudar a vida” – dito
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 89 doutro modo, a reintegração está condicionada, nas crenças dos próprios, pelo estigma que o olhar da sociedade dominante lança ao “drogado”. No capítulo que analisa as entrevistas realizadas na comunidade voltaremos a este tema.
A VIDA DO ANDAMENTO 96 A presença continuada dos arrumadores tornou-os familiares. As empregadas da confeitaria sabem a que horas “entra” o Manel. Porque trabalhar num “parque” tem bastantes parecenças com trabalhar noutro sítio qualquer do trabalho formal: atenção à tarefa (há alguma vaga para procurar o automobilista que quer parar?), competências relacionais (interagir com o automobilista), fornecimento do serviço (por exemplo ir à máquina, trazer o ticket, receber a moeda). De manhã, no mesmo parque, está o Pibe. Horas certas para chegar, tal como o Manel de tarde – não há relógio de ponto, mas há o relógio biológico da ressaca, que é férrea a exigir pontualidade. A máquina, nas economias formais, revelou-se devastadora dos postos de trabalho. Aqui, tanto pode ser aliada (dá mais rendimento arrumar em zona de parquímetros) como concorrente: “O automobilista retirou o ticket e veio pô-lo dentro do carro. Parecia não ter intenções de dar nada ao Manel e este pergunta se ele não tem uma moeda. O Homem disse-lhe que não tem, que ia levantar e depois quando viesse que lhe dava. Quando se afastou de nós, o Manel disse, sorrindo: «Vai levantar! granda grupo, prefere dar dinheiro à puta da máquina em vez de a nós…».” (diário de campo) O arrumador que tem presença assídua num “parque” – geralmente “o seu parque” – conhece os ritmos dos utentes da zona, podendo assim tirar partido desses ritmos. O Barbas, por exemplo, sabe que à quinta feira o seu “parque” está fraco quase toda a tarde, mas entre as 18.30h e as 19.30h há uma boa movimentação de automóveis que lhe permite, só nessa hora, fazer 6 ou 7 euros – o suficiente para a dose necessária para passar a noite. Ser arrumador implica portanto, a seu modo, um conhecimento do quotidiano da cidade: “O Barbas disse que aquele sítio não era bom, que do outro lado é que era. Eu disse que do outro lado tinha parquímetros e que pensava que era pior. Ele respondeu que não, que o facto de ter parquímetros ajudava, pois as pessoas davam sempre 50 ou 20 cêntimos para eles tirarem os tickets. Disse que ali em uma ou duas horas se fazia 20 euros à vontade. Perguntei-lhe ainda qual era o dia
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 97 que dava mais dinheiro. Ele disse que era o Sábado, porque as pessoas iam todas às compras e então os carros estavam sempre a sair e a entrar.” (diário de campo) Há porém outros horários bem menos lucrativos. Vimos locais igualmente centrais onde o arrumador que estava de manhã, entre as 8 e as 10h, apenas tinha amealhado dois euros. E quem dá mais moedas? Também aqui os arrumadores têm um saber feito de experiência. Vejamos a “teoria explicativa” do Rujo: “Depois o Rujo ainda disse que os carros bons não davam nada e que podia aparecer um carro velho e a pessoa dava uma boa moeda. Ele justificou a sua teoria: «As pessoas têm um carro e tudo, mas já o têm há muitos anos, não é, e sabem o que é viver com necessidades e dão uma boa moeda, agora os outros com mais posses não sabem e não dão nada…».” (diário de campo) A ajuda ao arrumador pode, na interpretação deste, radicar numa espécie de solidariedade saída da experiência directa das dificuldades. Lembramo-nos do que escrevia Padre Américo a propósito da pobreza extrema que se vivia na Ribeira portuense de meados do século passado: “Ninguém melhor do que o pobre para ajudar o pobre”. Arrumar carros tem em comum com outros ofícios obrigar a perseverança e esforço, por vezes em condições severas do “ambiente de trabalho”. Os dias frios e chuvosos são disso exemplo – e há que trabalhar, porque a ressaca não hiberna… Quando o dia está a correr mesmo mal, quando está difícil juntar a quantia para o pacote de heroína ou de base, lança-se por vezes mão da criatividade. Vejamos como é que o Pibe resolveu o problema: “O dia está a correr mal ao Pibe, os carros não saem, os poucos que chegam não dão moeda. Chega então um, ele vai “metêlo” e, quando regressa, diz: «já tive que espetar uma mentira», dando a entender que era assim que se ia safando. Disse que tinha dito ao homem que hoje fazia anos e que ainda não tinha comido nada. Disse
A VIDA DO ANDAMENTO 98 ainda que eram mentiras inofensivas e eu acrescentei que era uma estratégia, que ele tentou comover o automobilista para este lhe dar dinheiro. Ele concordou e disse que o senhor lhe tinha dado 2 euros.” (diário de campo) A vida na heroína cansa, arrumar carros também, as duas juntas desgastam. “Estou farto desta vida!” é uma frase corrente, “para a semana vou começar um tratamento” também. E no dia seguinte estão no mesmo posto a arrumar os mesmos carros, vão trocar as moedas aos mesmos sítios, correm então a entregar a nota ao dealer para obter o pó do alívio imediato. Tanto cansaço pede descanso, Todo o trabalho precisa de férias. Quando é que são as férias dum arrumador? Quando finalmente recolhe a uma comunidade terapêutica, quando é internado para uma desintoxicação. Às vezes, as férias vão passar-se a um estabelecimento prisional, quando finalmente há o desfecho dum processo por tráfico – algo que, como já vimos, não é nada raro na trajectória de muitos. Umas férias em Custóias Palace, como nos dizia há já alguns anos um que aí tinha “descansado” quatro anos… - UMA QUESTÃO DE ESTILO - O olhar distraído do habitante citadino achará provavelmente os arrumadores “todos iguais” – como temos tendência a fazer quando reduzimos a um estereótipo um grupo em relação ao qual produzimos distância social e simbólica. Mas, como em qualquer outra ocupação, os arrumadores exibem estilos pessoais ao executá-la. Estes estilos têm relação com a personalidade de cada um. Vejamos o que o etnógrafo anotou quando foi ver o Rujo a trabalhar no seu “parque”: “Nós estávamos na entrada do parque encostados ao tal carro. E entretanto tive a oportunidade de ver o Rujo trabalhar. Vagou um lugar mesmo ao nosso lado e ainda demorou uns minutos até aparecer um carro que lá estacionasse. Pensei que o Rujo se ia por à entrada do parque ou na rua principal a angariar, como o Manel, mas não, ele
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 99 manteve-se ali perto do lugar. Foi um facto que constatei, o Manel é muito mais proactivo do que o Rujo. Este não pressionava nada os condutores, não angariava carros para o lugar, esperando que estes aparecessem, e não corria para os lugares, para ajudar as pessoas a estacionar.” (diário de campo) “O Rujo estava a arrumar um carro quando cheguei perto dele, e pude vê-lo durante alguns segundos a trabalhar sem que ele me visse. Não notei diferença das vezes em que ele sabia que eu estava ali, pelo que deduzo que o estilo dele é mesmo aquele. É um estilo retraído e calmo, sem causar pressão nos condutores.” (diário de campo) Também o Barbas, que arruma num “parque” perto do Rujo, apresenta um estilo low profile: “Eu fiquei ali com o Barbas e ele ia “metendo” uns carros e conversando comigo. Fiquei parado e mantinha alguma distância quando ele interagia com os condutores. Tal como o Rujo, ele era bastante comedido, não pressionava os condutores e não era inconveniente.” (diário de campo) A vida no “parque” é rotineira. Uma das operações de rotina é a troca das inúmeras moedas que se vão acumulando nos bolsos por uma nota, pois é prática corrente os dealers não aceitarem moedas quando o arrumador lhes vai comprar a dose. O comércio local é o entreposto em que o arrumador faz a sua troca: “O balcão do café era cinzento claro e tinha alguns utensílios de trabalho em cima. O Rujo despejou o porta-moedas, espalhando as moedas de forma a que não ficassem sobrepostas. E quando a empregada passou por nós ele tratou-a pelo nome e pediu um café. (…) O Rujo acabou de contar e ficou inquieto. Queria que lhe trocassem logo o dinheiro, pois podia perder o dealer. Olhou várias vezes para as funcionárias que andavam atarefadas com serviço de
A VIDA DO ANDAMENTO 100 outros clientes. Os olhares dele eram como uma súplica para que se despachassem.” (diário de campo) Outras vezes, o arrumador tenta “enganar-se” nos trocos. Poucos cêntimos têm um grande valor, sobretudo se são os que faltam para perfazer o preço que paga por um pacote de heroína: “Depois de estacionar, o Manel pediu-lhe uma moeda e o condutor, já fora do carro, disse-lhe que não tinha troco. O Manel disse que lhe trocava, se ele tinha uma nota de 5 euros. O rapaz disselhe que só tinha uma nota de 10 euros e o Manel, sorrindo, disse que também lhe trocava. Começou a contar as moedas e deu-lhe uma nota de 5 euros e algumas moedas para mão e já estava a virar costas quando o rapaz o chamou a atenção, olhando para as moedas na palma da mão. O Manel voltou-se e meteu lá mais uma moeda, guardando depois no bolso da camisa a nota de 10 euros. Depois de o rapaz se ter ido embora, antes mesmo de lhe perguntar o que se tinha passado, o Manel disse: «Estava a ver se lhe comia um euro, mas o cabrão reparou e assim só me deu 50 cêntimos!».” (diário de campo) Mas, em geral, a relação é cordial e o arrumador tem oportunidade de mostrar as suas competências: “Quando eu estava a pagar ao balcão, o Manel apareceu lá com uma nota de 5 euros para trocar. Brinquei com ele e disse-lhe que ele estava cheio de dinheiro. Ele disse que não era dele, que era de uma senhora que tinha estacionado o carro. Estava a pedir à funcionária para lhe trocar em moedas de 1 euro, que era para a condutora lhe dar 1 euro. (…) O Manel, a condutora e a filha desta falavam sobre deixar ou não a janela do Mercedes um pouco aberta, pois lá dentro estava um animal numa jaula de plástico que precisava de respirar. A senhora deixou a janela com um friso de ar aberto e o
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 101 Manel passou lá os dedos e disse-lhe que não havia problema.” (diário de campo) A actividade até poderia tornar-se lucrativa, caso o arrumador conseguisse abandonar os consumos: “O Barbas comentou acerca do indivíduo que estava naquele momento a “trabalhar” naquele “parque”. Disse que o indivíduo já não consumia, que estava a tomar metadona e que agora aquilo que ele fazia lá era tudo lucro. Que devia fazer uma “pasta do caraças”. Disse o Barbas que o indivíduo lhe terá dito que em breve também ia deixar a metadona, que todos os meses reduzia um pouco quando ia à consulta.” (diário de campo) No entanto, esta situação não parece ser comum: a metadona não afasta necessariamente o indivíduo dos consumos de heroína, muito menos o afasta dos de base de coca, mantendo-se por isso a necessidade de financiamento para a sua compra. Uma visita ao terreno já depois de termos dado por terminada a observação sistemática mostrou-nos um Rujo à espera de ser chamado para um internamento, em mais uma tentativa de não apenas parar com as drogas como de mudar de vida, desgastado pelo cansaço. E disse que nessa altura poderia então, aí sim, juntar umas moedas e quando lá voltássemos seria ele a pagar um almoço. Quanto rende esta actividade? Já nos referimos atrás ao assunto, Precisemos um pouco mais: “Perguntei-lhe como tinha corrido o dia e ele disse que tinha corrido muito bem, que tinha feito 13 euros durante a manhã.” (diário de campo) Se se começar a actividade cedo, tem-se o dinheiro suficiente para o consumo imediato de heroína ainda antes do meio-dia. À tarde, o ciclo recomeça – porque a ressaca virá pontualmente, e há que lhe impedir a chegada. Mas os ganhos são muito variáveis, dependendo da localização do “parque”, do facto de haver ou não
A VIDA DO ANDAMENTO 102 parquímetros, dos ritmos de certas actividades que trazem gente ao local, das condições meteorológicas – e, claro, das competências do arrumador, embora seja por enquanto inconclusivo sabermos qual dos vários estilos na relação com o automobilista se revela mais rentável. Vários episódios têm-nos mostrado repetidamente que muitos dos arrumadores evidenciam responsabilidade na execução da tarefa, como se de um trabalho formal se tratasse. Vejamos o episódio em que o etnógrafo tenta obter do Manel uma entrevista sobre a sua trajectória nas drogas: “Perguntei-lhe se podíamos fazer já a entrevista e ele ficou meio calado. Eu disse-lhe que lhe dava uns 3 euros pelo tempo que ele não ia arrumar carros. Respondeu-me que não era pelo dinheiro, mas sim pelos carros que lá estavam, que podiam apanhar uma multa. Perguntou quanto tempo demorava e eu disse-lhe que eram uns 20 minutos. Pediu então se podíamos esperar um pouco para ele controlar os carros.” (diário de campo) Do repertório de competências faz também parte a cortesia: “Perguntei ao Manel como é que ele fazia a abordagem. Ele disse que chegava lá e dizia boa tarde. Num caso como o de agora – tinha acabado de receber moeda dum Mercedes –, ele dizia: «boa tarde doutor». Eu disse-lhe que perguntava aquilo pois havia outros tipos de abordagem em que contavam histórias intermináveis sobre acidentes de percurso e etc. Ele disse que ele era sempre bem educado e que sabia falar, e que quando as pessoas não iam na cantiga dele, que também usava outros métodos para dar a volta. Eu já assisti a esses métodos mais persuasivos por parte do Manel, enrola a conversa e diz que está tudo controlado, que controla a polícia, que podem confiar nele, etc.” (diário de campo)
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 103 No trabalho formal há um equilíbrio entre a competição e a cooperação. Também aqui identificamos este binómio. Sobre a competição falaremos mais à frente a propósito dos territórios; a cooperação também acontece, porque a vida na rua também é relacional e cria laços: “Pelo caminho perguntei-lhe se ele tinha deixado o tal rapaz arrumar na rua dele. Ele disse que sim, que habitualmente deixava que esse tal indivíduo fosse para lá das 5 ás 6. Disse o Manel: «Eu gosto de repartir a riqueza pelos pobres…».” (diário de campo) A pobreza é, de facto, um estado que apresenta uma certa relatividade… 7.2. A RELAÇÃO COM O AUTOMOBILISTA A exploração etnográfica que José Machado Pais (2001) levou a cabo entre os arrumadores de Lisboa sintetiza numa frase o essencial do modo de vida de arrumador: “o seu carácter relacional, a sua dinâmica reguladora de quotidianos da marginalidade urbana e a sua função de subsistência económica”. Também nós, nas notas de terreno, dávamos conta duma economia de subsistência, inspirando-nos na expressão que era utilizada para o campesinato pobre do interior norte de Portugal, em que o trabalho da terra dava apenas para o estritamente necessário à sobrevivência. Também anotávamos a função reguladora que o estar no “parque” a arrumar carros tem no quotidiano destes indivíduos – porque o trabalho é ocupação, e a ocupação estrutura o tempo objectivo e o subjectivo. E anotávamos com abundância o carácter relacional do estar na rua arrumando carros, como que devolvendo à cidade quem, doutro modo, poderia bem estar numa rota de isolamento e de invisibilidade. Este lado relacional aparece nas frequentes interacções que os actores estabelecem com os automobilistas, com comerciantes da zona, com companheiros do ofício, com outros consumidores, com dealers. E, no caso de muitos deles, com a equipa de rua de redução de riscos e minimização de danos, com os técnicos do Centro de
A VIDA DO ANDAMENTO 104 Respostas Integradas (a que ainda chamam CAT) e com outros serviços da rede formal de instituições. Dum modo muito sintético, diremos que este lado relacional se desenvolve segundo duas modalidades: a confiança e a tensão. - CONFIANÇA - “Esperei mais um pouco até ás 15 e 30 e depois resolvi ir embora da confeitaria, mas ia perguntar algumas coisas às funcionárias. Quando estava a pagar perguntei se o Manel se dava bem com elas e apresentei-me como estando a fazer um trabalho sobre a toxicodependência para a universidade. Elas disseram que ele se dava muito bem com elas e que era muito prestável, que as ajudava com as compras, tendo uma delas piscado o olho e dito: «para poder comer!». Disseram também que lhes arranjava lugar para estacionar e que ele anda sempre apresentável, limpinho e que sabia falar. De vez em quando ia lá trocar dinheiro” (diário de campo) A confiança é aquilo que permite o vínculo social, estando portanto na base da vida colectiva. Os grandes espaços urbanos geraram padrões interactivos defensivos, mais caracterizados pela indiferença e pelo anonimato do que pela confiança. Mesmo assim, os indivíduos e os grupos desenvolvem estratégias para minimizar o efeito desse traço da vida urbana, pois apesar da grande cidade continuamos a ser animais de pequeno grupo e de relação face a face18. Ora, o arrumador parece ter-se tornado um especialista deste relacionamento face a face, personalizando um espaço que doutro modo seria um mero sítio de passagem e pára-arranca de automóveis. É certo que força com frequência a interacção, é certo que é da experiência de qualquer pessoa sentir que preferia não ter de trocar alguma frase e, 18 A indiferença, o anonimato e a distância social são características que os primeiros sociólogos da cidade logo mapearam, quando a escala urbana se expandiu na sequência da industrialização. Lembremos as análises de Georg Simmel, no seu clássico “A metrópole e a vida do espírito”, sobre a cidade europeia do início do século XX, e de Louis Wirth, sobre a metrópole dos EUA dos anos 30, no seu “O urbanismo como modo de vida”.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 105 ainda menos, dar uma moeda. Mas é certo também que esta postura do arrumador contribui para quebrar anonimato e indiferença: com o passar dos dias conhece muitos automobilistas mais ou menos frequentes no seu “parque” e, com alguns, desenvolveu mesmo uma relação de confiança. “Disse que um automobilista que tinha estacionado num dos lugares que estavam afastados de nós lhe pagava o pequeno-almoço de vez em quando. Disse que ele o deixava pago e que depois ele ia lá comer. Ás vezes não comia nesse dia e comia no outro.” (diário de campo) Com alguns automobilistas a relação de confiança mútua vai ao ponto de ser o arrumador a realizar a gestão do aparcamento: “Vi esse indivíduo dirigir-se a um carro que acabou de estacionar, a condutora pela janela aberta disse-lhe algo e ele foi à máquina tirar um ticket. A mulher não lhe deu dinheiro algum. Fiz essa observação ao Barbas e ele disse que era assim. A pessoa estacionava e depois pedia ao arrumador quanto tempo queria e este ia tirar o ticket, pagando do bolso dele. Depois a pessoa dava-lhe uma moeda que cobrisse o investimento e que desse mais algum. Imaginemos que a pessoa pedia um tempo que custava 50 cêntimos, depois podia dar ao arrumador 1 euro e este lucrava 50 cêntimos. O Barbas disse que até podia ser mais. E se o arrumador tivesse já um talão ainda com tempo de validade, que era só lucro.” (diário de campo) A confiança pode exprimir-se sob a forma de solidariedade, sobretudo quando o contexto envolvente apela a este comportamento social: “Depois perguntei como é que estava a correr o dia e ele sorriu dizendo que estava a correr muito bem, que já tinha feito 20
A VIDA DO ANDAMENTO 112 do…». Ele disse que havia carros que eram dos polícias, que estavam estacionados o dia todo, mas que nunca tiravam o ticket. Disse também que estava ali um carro, que era do café onde eles iam tomar o pequeno-almoço, e que também não multavam.” (diário de campo) Encontramos nos arrumadores do centro de Guimarães um dado que é recorrente nos grupos que se dedicam a actividades desviantes, ou ajuizadas dum modo negativo pelo discurso dominante: a desconfiança perante as instâncias e as figuras do controle social, imputando-lhes frequentemente o desfrutar de privilégios ilegítimos. Ou seja, também os que seria suposto defenderem a ordem quebram as normas. Quando o indivíduo tem comportamentos ou realiza actividades que sabe alvo da censura social, utiliza aquilo a que David Matza, na sua teoria sobre a delinquência juvenil, chamou técnicas de neutralização. Trata-se de raciocínios através dos quais o indivíduo diminui a culpa associada a essa censura social. O Pibe, no excerto acima, usa na perfeição a “condenação dos condenadores”, uma das principais técnicas de neutralização. Tendo a polícia o mandato de assegurar a ordem nos espaços públicos, tendo o ordenamento jurídico as actividades ligadas a determinadas substâncias psicoactivas como ilícitas e tendo tantos consumidores problemáticos a rua como contexto privilegiado, os (des)encontros entre “ordem” e “desvio”, entre “lei” e “crime” não são apenas inevitáveis – são frequentes e expectados de parte a parte. Como já vimos no capítulo anterior, o tema foi surgindo nos relatos espontâneos ao longo do nosso trabalho de campo, tendo como argumento as detenções seguidas de revista, a descoberta de um ou vários pacotes (conforme se é consumidor ou também se anda a vender), a ida para a esquadra. E, por vezes, um desfecho que os utilizadores consideram negativo e sobre o qual falam com alguma revolta: a destruição do produto mesmo à sua frente quando estavam a precisar dele como “de pão para a boca”. A situação mais extrema é, porém, a agressão física. Registemos a seguinte passagem do diário de campo: “Depois eles falavam de alguém que andava todo partido, que tinha sido agredido. Uns diziam que tinha sido a polícia, outros diziam que tinha sido o gajo que lhe metia as cenas para ele vender – um dos ciganos ou outros. Passado pouco tempo desta conversa chegou o Cabeçote e eu percebi pela cara dele que era dele que falavam. Tinha
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 113 um olho todo esmurrado e uma sobrancelha inchada. Vinha com um boné que tapava a maior parte. Quando chegou fez uma entrada catita, anunciando a sua chegada, dizendo: «Boa tarde pessoal, que aqui vem o homem!» Perguntaram-lhe logo o que se passava e ele disse: «É para verem a autoridade que a gente tem, é a autoridade portuguesa!» Mostrou as mazelas ao pessoal, e o Andrúsio perguntou se ele tinha apresentado queixa, se ele tinha ido ao juiz. Ele disse que sim, mas que os polícias disseram à juíza que tiveram de o agarrar, porque ele estava a ressacar e a dar com a cabeça na parede. À volta o pessoal falava sobre o sucedido.”19 (diário de campo) O exercício da violência sobre indivíduos ou grupos marginalizados é a faceta mais aguda das consequências do estigma social. Viver na margem é sofrer de invisibilidade – mesmo que se esteja, como é o caso dos arrumadores, em espaços altamente visíveis. E é esta invisibilidade que torna a violência de que são alvo invisível. Como também já vimos a propósito do junkie, também o arrumador está consciente da sua situação de desacreditado – para tomar a expressão de Erving Goffman a propósito daquele que é atingido pelo estigma: “Enquanto subíamos a rua o Rujo continuou a conversa que estávamos a ter e disse que as pessoas depois podiam comentar por me verem com ele. Eu disse-lhe que não havia problema, que não me importava com o que as pessoas pensavam, e ele disse: «Muito bem, o que importa é o que fazes e não o que as pessoas dizem e pensam…acho bem, acho bem! É que nestes sítios pequenos…».” (diário de campo) Fica por esclarecer se esta auto-consciência do estigma social deve a sua maior quota-parte ao ser arrumador ou ao ser um “agarrado” – o que, como se foi tornando claro 19 A violência policial tem sido reportada por técnicos de muitas equipas de rua. Não foi, ao longo do nosso trabalho de campo, um tema que tenha aparecido com grande recorrência, pelo que não lhe damos aqui um tratamento mais extensivo. Fizemo-lo já a propósito dum outro território, nos bairros sociais da zona oriental do Porto. Remetemos para Fernandes e Ramos (2010), onde, a partir da investigação etnográfica, se faz um exercício de relacionamento entre a exclusão social, as violências quotidianas e a violência estrutural.
A VIDA DO ANDAMENTO 114 com os nossos dados de terreno, são estatutos que andam próximos. Já quanto à fonte do estigma, diz a teoria que se liga à reacção social que as instâncias formais de controle, os meios de comunicação social e a comunidade dirigem aos indivíduos que olham como problemáticos. Já fizemos referência atrás ao modo como se sentem olhados pela polícia. Faremos, no capítulo seguinte, uma breve análise em relação à comunidade.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 115 CAPÍTULO 8 COMUNIDADE Como reage a comunidade aos consumidores problemáticos? O desenho metodológico incluía a realização de entrevistas ao cidadão comum, de modo a identificar percepções e imagens acerca da droga e dos utilizadores. Trata-se apenas duma primeira incursão exploratória baseada em 10 entrevistas. Os dados que elas fornecem são combinados com os do diário de terreno, sempre que estes registavam a observação directa da reacção da comunidade, a partir de episódios ou de relatos dos actores das interacções – ou seja, tanto dos utilizadores de drogas como de terceiros interagindo com eles ou falando sobre eles. De qualquer modo, dada a pouca quantidade de material empírico, o que diremos a seguir deve apenas ser tomado como indicativo, um levantamento de pistas que poderão servir a investigação futura. Um primeiro resultado a salientar é o da importância da Comunidade enquanto suporte de subsistência para os consumidores problemáticos. Veja-se a seguinte passagem do Diário de Campo: “Pelo caminho passámos por uma mercearia, demos uns passos, quando o Manel se lembrou e me disse para eu esperar ali que vinha já. Foi à mercearia e falou com alguém de lá. Parecia que ele estava a pedir alguma coisa, e veio de lá com um cacho de uvas num saco. Disse que a senhora era amiga dele e que lhe vendia barato. Acrescentou que aquele cacho, que era bem grande, lhe fora vendido por apenas cinquenta cêntimos.” (diário de campo) No mesmo sentido do que afirmámos, o Diário de campo da equipa de redução de riscos IN-Ruas refere no dia 27/07/09:
A VIDA DO ANDAMENTO 116 “O A disse-me que teve de voltar a pedir dinheiro emprestado e que com juros está a dever 75euros. Contou que quem lhe empresta dinheiro é um proprietário de um quiosque e que por vezes deixa objectos de valor que lhe são devolvidos quando paga o que deve.” Ficámos com algumas dúvidas sobre o valor de tais juros, tornando-se algo ambíguo saber onde acaba a ajuda e começa o aproveitamento… Já vimos como a arrumação de automóveis aparece também como uma actividade que estabelece contactos com a sociedade convencional, traduzindo-se em termos práticos no auxílio económico aos consumidores problemáticos em situação de grande precariedade do quadro de vida. Mais do que um mero suporte, encontramos exemplos de verdadeira negociação sobre a melhor forma de ajuda. A comunidade não é, portanto, passiva à presença dos utilizadores de rua, antes interage de várias formas e negociando com eles: “Perguntei então ao Barbas onde é que ele costumava jantar e ele disse que costumava ir ao Trincas (nome fictício, restaurante no centro da cidade) quando tinha dinheiro. Disse que o dono do restaurante lhe fazia a refeição por 4 euros, e que contemplava sopa, prato, pão e vinho. Disse que o dono um dia tinha estacionado ali e que lhe disse que não lhe dava dinheiro, mas que lhe fazia a refeição por 4 euros.” (diário de campo) Mas encontramos também a reacção oposta, evidenciando a ambivalência que a figura do “drogado” gera: a comunidade que interage e se envolve é também a comunidade que segrega e rejeita. Vejamos uma passagem da entrevista a uma funcionária que trabalha há mais de 20 anos numa estrutura de apoio a pessoas em situação de pobreza: “(…) eles acabam por ser muito mentirosos, estão sempre a ver se embrulham as pessoas, há uns que têm mais princípios, outros têm menos. Quando lhes falta a droga nenhum deles é correcto, põe de
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 117 lado todos os princípios. Alguns deles põe em risco a própria família, os filhos.” Ou ainda os seguintes: “Eu acho que os arrumadores são uma praga. As pessoas dão a moeda porque têm medo de represálias no carro. Porque se não derem uma moeda e eles puderem roubar, roubam mesmo, entre dois males… mais vale o mal menor.” (farmacêutica, cerca de 30 anos) “Uma coisa que eu não gosto nada são os arrumadores de carros. O que eu mais detesto é ter de dar uma moeda, e ainda por cima sabendo para o que é. Nós só damos uma moeda porque temos medo que nos risquem o carro e essas coisas assim.” (estudante de arquitectura, 19 anos) O mito da Escalada parece enraizado nos nossos entrevistados, algo que o restante material empírico, nomeadamente as entrevistas aos utilizadores de drogas, não corrobora. Ouçamos de novo a farmacêutica: “Acho que é aquele efeito de degradação, isto falando nas drogas pesadas, começa com um efeito recreativo, em que a juventude está muito relacionada, e vai escalando.” Crenças como esta mostram como as primeiras mensagens emanadas do dispositivo medico-psicológico, numa primeira fase a seguir à sua constituição nos anos 70 em Portugal, continuam sedimentadas no pensamento de senso comum, apesar da sucessiva evidência empírica que tem mostrado que a escalada não se verifica na maioria dos sujeitos que contactam com drogas. Nas entrevistas à comunidade era inquirida também a opinião sobre a possibilidade de criação duma sala de consumo assistido em Guimarães.
A VIDA DO ANDAMENTO 118 Prevalece a opinião de que poderiam ser importantes para um maior resguardo público do consumo e também para os próprios utilizadores, que passam a consumir mais adequadamente: “Ora bem, isso é um mal necessário, porque é muito melhor eles estarem resguardados, e… privados, mesmo para eles, do que estarem num canto, como eu já vi muitas vezes, num jardim, nas entradas das portas com a seringa espetada no braço, vi tantas vezes isso.” (senhor do quiosque, cerca de 60 anos) Em todos eles, a imagem do “toxicodependente-vítima” está enraizada. Seria vítima de si próprio e da sociedade, ou seja, produto de causas internas e de causas sociais: “No fundo são vítimas deles e da sociedade. São vítimas deles porque são eles próprios que se arrastam para aquela situação, e são vítimas da sociedade porque os põe de parte.” (funcionária duma estrutura de apoio a pessoas em situação de pobreza) O drug aparece como um incauto, alguém que não soube resguardar-se dos perigos: “Eles agora também podiam ver, dá aqueles programas na televisão, mas pronto, metem-se.” Curiosamente, alguns dos consumidores problemáticos confirmam isto, quando dizem que, de início, não sabiam as consequências dos consumos reiterados de heroína, e só os descobririam à sua própria custa, quando a ressaca se tornou inequívoca. Um apontamento final sobre a unidade móvel de redução de riscos e minimização de danos. Ao longo dos muitos meses do nosso trabalho de campo tivemos oportunidade de testemunhar a importância desta resposta de intervenção comunitária no terreno. Ela é um primeiro contacto com o “outro lado” para quem anda na rua, é o sítio onde um
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 119 indivíduo que já vem com regularidade leva outro pela primeira vez. A unidade móvel realiza os actos técnicos próprios a um programa sócio-sanitário, e sobre estes não vamos falar. Diremos, brevemente, que a “carrinha” é também o espaço de sociabilidade que se cria em seu torno, importante para quem fragmentou as relações sociais, para quem se sente distanciado das estruturas formais para toxicodependentes – ou porque já desacreditou depois de vários tratamentos falhados, ou porque nem lá vai, olhando-as como uma miragem ao longe quando a vida se estreitou nos quotidianos de que aqui já demos larga notícia. A unidade móvel funciona como um mediador, criando “um pacto mutuamente negociado que permite estabelecer o enlace humano, relacional, entre aqueles que perderam a capacidade de se relacionar de um modo efectivo.” (Sepúlveda, Báez e Montenegro, 2008). Ela pode ser o passo inicial para uma alternativa à rua. E o passo dáse quando, emergindo desses quotidianos em que a vida fora das drogas duras já não parece possível, se reata a possibilidade de mudar esta perspectiva. Dito doutro modo, a equipa de rua é, muito mais do que a imagem que se foi construindo na opinião pública – a “troca de seringas” – o sítio onde (re)começa a comunidade, se quisermos tomá-la no sentido etimológico da comunitas.
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PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 121 NOTA FINAL MARGINALIDADE E POLÍTICAS DE CIDADE 1. SOBRE AS RESPOSTAS INTERVENTIVAS O percurso que fizemos pelos actores e pelos territórios psicotrópicos em que incidiu o nosso trabalho de campo mostra que, em Guimarães, esta realidade não se afasta daquilo que está caracterizado para outras realidades urbanas. A principal diferença em relação a contextos hoje já relativamente bem estudados, como são os casos de Lisboa e Porto, está na escala do fenómeno. Com efeito, nestas cidades existem concentradores espaciais das actividades em torno das drogas – aquilo a que temos vindo a chamar plataformas junkie (cf. Fernandes e Ramos, 2010) – com uma dimensão bem maior do que em Guimarães. Isto não significa, porém, que devamos descansar sobre o facto de os “males dos outros” serem maiores do que os nossos. Por um lado, não pretendemos ter esgotado com esta pesquisa a caracterização dos consumidores problemáticos, outros trabalhos poderão revelar novas dimensões igualmente difíceis e desocultar novas necessidades. Por outro lado, a caracterização que fizemos, sobretudo a que mostra o tipo de trajectórias, a precariedade do quadro de vida e as práticas de risco dos consumidores problemáticos, evidencia bem a necessidade das respostas aos vários níveis em que tem de se intervir no fenómeno. Se, ao nível do tratamento, nas suas várias modalidades institucionais e terapêuticas, existe uma razoável resposta instalada (até porque o tratamento não tem de ocorrer no território mais próximo), ao nível sócio-sanitário ela deve ser reforçada. Os indivíduos com trajectórias que os colocam em situação de grande vulnerabilidade tanto social como sanitária, aqueles que estão mais longe das oportunidades e dos recursos, aqueles que têm na rua o seu principal cenário de vida, necessitam de respostas de proximidade.
A VIDA DO ANDAMENTO 128 Continuará a procurar quem lhe venda pó ou coca, alimentando com a sua dependência os circuitos da venda a retalho. Continuará a precisar dos 10, dos 20, dos 50 euros diários para manter afastado o verdadeiro pesadelo que é para ele a síndrome de abstinência. Se não puder obter essa quantia através da arrumação de automóveis, fará, com grande probabilidade, uma de três coisas: passará a injectar em vez de fumar, como modo de rentabilizar a heroína; passará a cometer delitos contra a propriedade; tentará abandonar os consumos de drogas. No primeiro dos casos, agravará o problema de saúde pública de transmissão de doenças infecciosas propagadas pelo material de injecção e seus acessórios e agravará mais rapidamente a sua saúde física, potenciando a probabilidade de “ir ficando” pela rua; no segundo caso, agravará a situação da segurança pública e contribuirá para o crescimento do sentimento de insegurança; no terceiro caso, estará votado ao insucesso, dada a condição precária da sua situação social e pessoal, caso não haja uma política consistente de ajuda à saída da rua22. Retirar os arrumadores da rua não pode ser equacionado como uma simples proibição da sua permanência nela, não resultará se assentar apenas na acção coerciva. Se o arrumador, como vimos ao longo deste trabalho, é primeiro um toxicodependente, é esta sua situação existencial que tem de ser encarada. Implicará o trabalhar em rede com instituições locais das áreas social e da saúde, encontrando alternativas a uma rotina que o indivíduo, sozinho, tem uma enorme dificuldade em alterar. Dito doutro modo, trata-se de equacionar alternativas à rua, trabalhando a situação concreta de cada indivíduo: um trabalho de minúcia, feito do contacto e da presença do técnico, que não pode apresentar resultados imediatos porque restabelecer vínculos em quem os foi interrompendo ao longo de tanto tempo é um trabalho meticuloso e que não cede a pressas. Começa onde está o indivíduo, ali mesmo no lugar de onde praticamente já não sai, para lhe reconquistar a confiança e poder oferecer-lhe um caminho – começa numa equipa de rua de redução de riscos e continuará em estruturas intermédias. Não detalharemos os passos deste caminho: estão bem identificados, os especialistas 22 A experiência do programa Porto Feliz, da Câmara Municipal do Porto, que, a partir de 2002, procurou retirar os arrumadores dos principais pontos onde actuavam, mostrou o que acabamos de dizer. Embora em nenhum documento de responsáveis e/ou de técnicos ligados ao programa Porto Feliz, tanto quanto saibamos, isso seja aflorado, técnicos de redução de riscos de equipas de rua a operar em vários pontos de concentração drug constataram os efeitos colaterais da “erradicação dos arrumadores” que referimos. E, no fim, o Porto ficou com os efeitos colaterais e com os arrumadores, que entretanto iam reaparecendo – os mesmos ou outros que vinham de novo – nos mesmos locais.
PARA UMA CARACTERIZAÇÃO DOS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS DE DROGAS EM GUIMARÃES 129 conhecem-nos. Portugal tem uma estratégia nacional na área das drogas que, nos últimos anos, tem reconhecido a importância de actuar de acordo com a realidade de cada território. Mas estes passos e esta estratégia nunca estão concluídos. A formação contínua de todos os profissionais que lidam com os que estão na rota da “exclusão social” – apliquemos por momentos a etiqueta, para ir depressa – continua a ser necessária. Muito desconhecimento, muito a priori, muito preconceito, continuam a fabricar receitas para estes indivíduos e situações. Quanto mais de longe vemos, mais depressa resolveríamos o problema… Esta necessidade de ver de perto e de dentro, de conhecer pelo prisma da proximidade humana as “margens da sociedade”, toca tanto a médicos dos centros de saúde e dos serviços hospitalares como a enfermeiros, toca tanto a psicólogos como a assistentes e educadores sociais nas várias IPSS, toca a todo o pessoal que trabalha em estruturas da área social, desde as públicas às privadas – e toca a todos os políticos que querem estar perto da etimologia da palavra, que é o governo da polis. Inflectir trajectórias como aquelas de que a nossa investigação dá conta implica o envolvimento, com profissionalismo e humanidade, de todos. Porque todos juntos, mesmo assim, sabemos ainda muito pouco. Para os que tomarem isto como retórica, convidamo-los a sentarem-se connosco e com outros investigadores desta área que também considerem que ainda sabem pouco à mesma mesa, discutindo problemas e equacionando respostas. Chamem-lhe workshops, seminários, formação – tanto faz. Ah, e, já agora, chamem-se alguns daqueles em nome dos quais temos criado instituições e lançado programas de intervenção. Porque somos todos defensores de dar voz aos atingidos, de promover as respostas a partir dos próprios, de acreditar no empowerment e na advocacia social. Se assim for, não continuaremos no eterno português lamento à espera que as respostas venham de cima.
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