scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas Numa Empresa do Ramo da Metalomecânica

António Manuel da Silva Beça

Full text

Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto Rua Dr. Roberto Frias, s/n 4200-465 Porto PORTUGAL VoIP/SIP: [email protected] ISN: 3599*654 Telefone: +351 22 508 14 00 Fax: +351 22 508 14 40 URL: http://www.fe.up.pt Correio Electrónico: f[email protected] MESTRADO EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E HIGIENE OCUPACIONAIS Dissertação apresentada para obtenção do grau de Mestre Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto RUÍDO OCUPACIONAL E PERDAS AUDITIVAS NUMA EMPRESA DO RAMO DA METALOMECÂNICA António Manuel da Silva Beça Orientador: Professor Doutor Alberto Sérgio S. R. Miguel Universidade do Porto – Faculdade de Engenharia Co-orientador: Professor Doutor Joaquim Eduardo de Sousa Góis Universidade do Porto – Faculdade de Engenharia Arguente: Presidente do Júri: 2013 Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica i AGRADECIMENTOS A elaboração desta dissertação teve o contributo e a colaboração, de forma direta e indireta, de várias pessoas a quem gostaria de dirigir o meu agradecimento: À Drª Marília que impulsionou a realização deste trabalho e que me incentivou neste projeto de Mestre em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacional. Ao meu orientador, Professor Sérgio Miguel, pelo apoio, pela partilha de saber e pela disponibilidade. E não menos importante, pela amizade que sempre me dispensou. Ao professor Góis, pela simpatia, pelo acompanhamento, pelas sugestões, críticas e correções realizadas. Um obrigado especial à minha família que me acompanhou sempre neste projeto de “bimestre”, em especial aos meus pais e aos meus irmãos. Aos meus avós, que sei que estariam muito contentes, dedico este trabalho. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica iii RESUMO Na indústria metalomecânica, pelas suas características e processos tecnológicos, o ruído foi sempre identificado como um dos perigos existentes, havendo a necessidade de avaliar e quantificar o risco que lhe está associado. Este trabalho incidiu sobre uma população de 50 indivíduos, mas apenas foram considerados os trabalhadores expostos a níveis sonoros superiores a 85 dB (A), num total de 36. Foram retirados, da amostra, 5 trabalhadores, que não realizaram exames audiométricos, por estarem de férias ou de baixa, e 9 que permaneciam no escritório e estavam expostos a um nível inferior a 85 dB (A). Pretenderam-se estudar as perdas auditivas em trabalhadores potencialmente expostos a ruído ocupacional elevado e verificar a existência de uma correlação entre essas perdas, a idade e a exposição ao ruído. Foram recolhidos os registos das avaliações ao ruido feitas na empresa, foi aplicado um inquérito a todos os trabalhadores em estudo e foram feitos exames audiométricos aos trabalhadores. Do estudo das perdas auditivas conclui-se que 26 % dos trabalhadores têm uma perda auditiva considerada “normal”, 52 % uma perda “ligeira” e 22 % uma perda “moderada”. Nenhum trabalhador se encontrava em situação de perda “severa” ou na situação de perda “total”. De referir que o valor máximo da perda “moderada” foi de 59 dB e que o intervalo desta perda está classificado entre 41 a 70 dB. Neste intervalo, o discurso é entendido apenas quando se eleva o tom de voz e o trabalhador compreende melhor a mensagem se puder observar o interlocutor. Verificam-se perdas mais elevadas a 4000 Hz, frequência central de oitava a que corresponde o escotoma característico do ruído industrial. A perceção individual do estado auditivo não pode ser relacionada directamente com a classificação da perda auditiva, pois existem alguns trabalhadores com elevada perda auditiva que dizem ouvir bem e alguns com perda ligeira que indicam que ouvem mal. As principais conclusões a retirar dizem respeito à metodologia aplicada e à significativa incerteza associada aos dados utilizados. Uma amostra mais ampla permitiria eliminar situações que introduzem incertezas ao nível da interpretação dos resultados. Palavras-chave: Ruído, Exposição, Perdas Auditivas, Indústria Metalomecânica. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica v ABSTRACT In metalworking, by its characteristics and technological processes, the noise was always identified as one of existing hazards, originating the need to evaluate and quantify the associated risk. This work has focused on a population of 50 individuals, but only the workers exposed to noise levels greater than 85 dB (A) were considered, in a total of 36 individuals. 5 workers were removed from the sample because, being on vacation or incapacitated, they didn‟t undertake audiometric exams, as well as 9 workers who remained in the office and were consequently exposed to a noise level below 85 dB (A). It was intended to study the hearing losses in workers potentially exposed to occupational high noise and check the existence of a correlation between this losses, age and exposure to noise. Records of noise assessments were collected in the company, a questionnaire was applied to all the workers and audiometric exams were done. From the study, it was concluded that 26 % of the workers had a hearing loss considered "normal", 52 % a "slight" loss and 22% a "moderate" loss. No worker was in a situation of "severe" loss or in the situation of "total” loss. The maximum value of the "moderate" loss was 59 dB and the range of this loss was classified between 41 to 70 dB. In this range, the speech is understood only when lifting the voice level and the individual understands better the message if he can observe the interlocutor. There are higher losses at 4000 Hz, octave central frequency at which a characteristic scotoma of industrial noise takes place. The individual perception of auditory status may not be directly linked with the classification of hearing loss. There are some workers with high hearing loss that indicate that hear well and some with slight losses that indicate that they hear badly. The main conclusions to withdraw relate to applied methodology and the significant uncertainty associated with the used data. A bigger sample would eliminate situations that introduce uncertainties at the level of the interpretation of the results. Keywords: Noise, Exposure, Hearing Loss, Metalworking. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica vii ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 1 2 OBJETIVOS ................................................................................................................... 3 2.1 Objetivo da dissertação ........................................................................................... 3 2.2 Organização da dissertação ..................................................................................... 3 3 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA .......................................................................... 5 3.1 Caracterização da indústria metalomecânica .......................................................... 5 3.2 Caracterização da empresa ...................................................................................... 6 3.3 Planta da área industrial .......................................................................................... 6 3.4 Etapas do ciclo produtivo ....................................................................................... 8 3.4.1 Armazém de matérias-primas/ Discos/ Acessórios acabados........................ 10 3.4.2 Maquinagem (Corte/Estampagem/Repuxagem/Beirar) ................................ 10 3.4.3 Desengorduramento/Banho ........................................................................... 11 3.4.4 Preparação de superfícies (Esmerilagem/Polimento) .................................... 11 3.4.5 Lavagem/Limpeza ......................................................................................... 12 3.4.6 Montagem (Furação/Cravamento/Rebitagem/Soldadura por pontos) ........... 12 3.4.7 Embalagem .................................................................................................... 12 4 ESTADO DA ARTE .................................................................................................... 13 4.1 O som, o ruído e a vibração .................................................................................. 13 4.2 Propriedades e características do ruído ................................................................. 13 4.2.1 Frequência do som ......................................................................................... 14 4.2.2 Pressão sonora e nível de pressão sonora ...................................................... 14 4.2.3 Adição de níveis sonoros ............................................................................... 15 4.2.4 Filtros de ponderação e audibilidade ............................................................. 15 4.2.5 Ruído no ambiente de trabalho ...................................................................... 16 4.2.6 Tipos de ruído ................................................................................................ 17 4.2.7 Nível sonoro contínuo equivalente ................................................................ 18 4.3 Legislação sobre ruído industrial .......................................................................... 20 4.3.1 Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro .................................................. 20 4.3.2 Portaria nº 53/71 de 3 de fevereiro ................................................................ 22 4.3.3 Decreto-Lei nº 352/2007 ............................................................................... 22 4.4 Anatomia e fisiologia da audição .......................................................................... 24 4.4.1 Efeitos na saúde ............................................................................................. 26 Tabela 29 - Trabalhadores com antecedentes de doenças ................................................... 53 Tabela 30 - Comparação entre as perdas auditivas de 2010 com as de 2013 ..................... 55 Tabela 31 - Comparação do cálculo das perdas através do critério da Tabela de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais em Portugal ............... 56 Tabela 32 - Variáveis e respetivos códigos ......................................................................... 57 Tabela 33 - Informação sobre os eixos fatoriais resultantes da ACP, valores próprios e percentagem de explicação dos fatores ............................................................................... 57 Tabela 34 - Coordenadas das colunas (variáveis) nos eixos da ACP .................................. 58 Tabela 35 - Trabalhadores com a menor perda auditiva ..................................................... 60 Tabela 36 - Trabalhadores com perda auditiva elevada ...................................................... 61 Tabela 37 - Trabalhadores com exposição ao ruído mais reduzida .................................... 61 Tabela 38 - Trabalhadores com exposição ao ruido elevada............................................... 61 Tabela 39 - Perda auditiva do trabalhador nº 17 ................................................................. 65 Tabela 40 - Historial e antecedentes do trabalhador 17 ...................................................... 66 Tabela 41 - Perda auditiva do trabalhador nº 6. .................................................................. 66 Tabela 42 - Historial e antecedentes do trabalhador 6 ........................................................ 67 Tabela 43 - Perda auditiva do trabalhador nº 26 ................................................................. 68 Tabela 44 - Historial e antecedentes do trabalhador 26 ...................................................... 68 Tabela 45 - Perda auditiva do trabalhador nº 5 ................................................................... 69 Tabela 46 - Historial e antecedentes do trabalhador 5 ........................................................ 69 Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica xv GLOSSÁRIO/SIMBOLOGIA/SIGLAS/ABREVIATURAS Simbologia A – Amplitude; λ - Comprimento de onda; f – Frequência; T – Período Hz – Hertz; dB – Grandeza de medida de pressão sonora (Decibel); dB (A) – Grandeza de medida de pressão sonora corrigida com a curva de ponderação “A” (Decibel com curva de ponderação A); - Nível de pressão sonora (dB); - Nível sonoro expresso em dB (A); – Nível sonoro contínuo equivalente; – Nível sonoro contínuo equivalente, expresso em dB (A); – Nível sonoro com proteção; – Nível sonoro equivalente para cada banda de oitava; - Exposição pessoal diária ao ruído, média semanal dos valores diários da exposição de um trabalhador ao ruído durante o trabalho; - Nível de pressão sonora de pico, valor máximo da pressão sonora instantânea, ponderado C, expresso em dB (C); – Valor máximo da pressão sonora instantânea a que o trabalhador está exposto, ponderado C, expresso em pascal; p – Valor da pressão sonora instantânea ; - Pressão sonora de referência . Pa – Pascal; s – Segundo. Siglas ACT – Autoridade para as Condições de Trabalho; AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgica e Metalomecânica e Afins Portugal; CAE - Classificação Portuguesa de Actividades Económicas; DGS – Direção Geral de Saúde; EN – Norma Europeia; EPI – Equipamento de Proteção Individual; ISO – International Organization for Standardization; NP – Norma Portuguesa; OMS – Organização Mundial de Saúde; OIT – Organização Internacional do Trabalho. RINNE - Exame clínico realizado para avaliar a audição; ACP – Análise em componentes principais. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 1 1 INTRODUÇÃO As atividades de Segurança e Saúde do Trabalho assumem, hoje em dia, uma importância extraordinária, seja pela melhoria das condições de vida e de trabalho, seja pelo desenvolvimento da própria atividade produtiva, seja, ainda, pela promoção da imagem da empresa, no mercado. Importa considerar, ainda, que as atividades produtivas da metalomecânica, por força de diversos fatores, mas particularmente mercê da natureza dos seus processos tecnológicos, apresentam uma grande diversidade de riscos profissionais, que importa conhecer, e exigem o domínio de metodologias preventivas adequadas. Por tudo isto, o incremento das ações de segurança e saúde do trabalho nas empresas do setor são não apenas necessárias, mas também oportunas, devendo ser assumidas no contexto de um sistema de gestão da segurança e saúde do trabalho. Por outro lado, tais atividades encontram-se enquadradas por um vasto e exigente panorama legislativo, de origem comunitária, que não pode deixar de ser equacionado pela gestão das empresas que apostam no seu futuro. A exposição a elevados níveis de pressão sonora, nos locais de trabalho, pode ocasionar perdas permanentes de audição, merecendo por isso uma abordagem rigorosa por parte das entidades empregadoras. Existe legislação portuguesa sobre esta matéria onde se referem aspetos associados à proteção coletiva, ao equipamento de proteção individual e à informação e formação aos trabalhadores. Dada a interferência negativa do ruído nos aspetos pessoais, biológicos e sociais dos trabalhadores, é de suma importância o desenvolvimento de pesquisas que visem identificar e avaliar a forma de como a exposição a níveis de pressão sonora elevados pode interferir na qualidade de vida destes trabalhadores. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 3 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo da dissertação O objetivo principal da dissertação consistiu em avaliar as perdas auditivas em trabalhadores potencialmente expostos a ruído ocupacional excessivo. Os trabalhadores realizaram um exame audiométrico, levado a cabo por um médico do trabalho, tendo em vista relacionar a exposição aos níveis de pressão sonora com as consequentes perdas auditivas. Foi realizada uma análise complementar, através de inquéritos aos trabalhadores, para, desta forma, tentar relacionar as variáveis dependentes audiométricas com as variáveis independentes nível sonoro, tempo de exposição ao ruído laboral e idade dos trabalhadores. Espera-se que a partir deste tipo de estudo se obtenha uma melhor perceção das medidas de controlo de ruído e das técnicas para procurar diminuir a exposição dos trabalhadores ao ruído excessivo, estimulando a auto-proteção e a identificação de situações perigosas. 2.2 Organização da dissertação A dissertação está dividida nos 7 capítulos seguintes:  Breve introdução ao problema em estudo;  Objetivos de trabalho;  Caracterização da empresa;  Revisão bibliográfica, onde são referidos, de uma forma concisa, os principais conceitos relacionados com o ruído;  Metodologia seguida para alcançar os objetivos;  Resultados obtidos e a respetiva discussão;  Principais conclusões e perspetivas futuras. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 5 3 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA 3.1 Caracterização da indústria metalomecânica A atividade escolhida, para a elaboração do presente trabalho, está inserida numa indústria metalomecânica. Trata-se de uma empresa que fabrica louça de alumínio e inox, com 48 colaboradores. De acordo com a Classificação Portuguesa de Atividades Económicas, Revisão 3, Decreto-lei nº. 381/2007, de 14 de novembro, a respetiva CAE é a referente à atividade 25991 Fabricação de Louças Metálica e Artigos de Uso Doméstico. Segundo a avaliação feita pela AIMMAP, em junho de 2011, sobre o subsetor de louça metálica (Figura 1) pode-se verificar a evolução deste subsetor quanto ao Comércio Internacional. Figura 1 - Evolução do comércio internacional para o subsector da louça metálica Ao nível das exportações, verifica-se que o subsector de louça metálica apresenta uma excelente performance até 2009, contrariamente ao comportamento verificado no setor metalúrgico e metalomecânico, como um todo, e até nas exportações nacionais, dado o ambiente de instabilidade económica e financeira vivido em Portugal. No entanto, no ano de 2010, apresentou um decréscimo de aproximadamente 3,6%. As importações de louça metálica apresentaram uma tendência de crescimento até 2010. 0 10000 20000 30000 40000 50000 60000 70000 80000 90000 100000 2007 2008 2009 2010 Milhares de Euros Ano Louça Metálica Exportações Importações Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 6 Caracterização da empresa 3.2 Caracterização da empresa A empresa em estudo tem uma larga gama de artigos, muito variada, com oferta nas seguintes áreas:  Loiça e utensílios domésticos em alumínio laminado e fundido;  Loiça e utensílios para hotelaria em alumínio laminado e fundido;  Utensílios em aço inoxidável de uso doméstico e para hotelaria;  Brinquedos em alumínio e aço inoxidável com acessórios de madeira;  Peças para aspiração central bem como os respetivos moldes;  Peças de design sob desenho e modelos específicos para cada um dos mercados de exportação. 3.3 Planta da área industrial A área industrial dedicada à fabricação de louça de alumínio é a que se apresenta a seguir, Figura 2, onde se podem definir as seguintes áreas processuais: A. Vestuário; B. Refeitório C. Cargas e descargas; D. Armazém de matéria-prima; E. Corte; F. Armazém de discos; G. Fabricação por balancés; H. Fabricação de acessórios; I. Prensagem; J. Repuxagem; K. Máquinas de beirar; L. Esmerilagem; M. Polimento mecânico; N. Polimento por vibração; O. Desengorduramento/Banho de decapagem; P. Furação/Cravação/Rebitagem/Aparafusamento; Q. Limpeza; R. Embalagem; S. Armazém; Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 7 Figura 2 - Planta da área industrial com localização das áreas processuais e principais máquinas Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 14 Estado da arte 4.2.1 Frequência do som A frequência (f) refere-se a ciclos de variação de pressão por segundo e é expressa em Hertz (Hz). É uma característica das grandezas físicas de natureza ondulatória que indica o número de ocorrências de um evento, num determinado intervalo de tempo. A sensibilidade do ouvido humano está compreendida entre 20 Hz e 20000 Hz, sendo denominada por gama audível. As frequências inferiores a 20Hz correspondem a infra-sons e as superiores a 20000 Hz a ultra-sons (Miguel, 2012), Figura 14 e 15. Figura 14 - Espectro de frequências sonoras (Fonte: Autoridade para as Condições de Trabalho) Figura 15 - Pressão sonora e nível de pressão sonora (Fonte: Autoridade para as Condições de Trabalho) 4.2.2 Pressão sonora e nível de pressão sonora A pressão sonora é o indicador básico que caracteriza a onda acústica, refere-se por pressão sonora a amplitude da onda correspondente à variação da pressão, em relação à pressão estática do ar, produzida pela propagação do som. O decibel utiliza uma escala logarítmica a qual reduz a larga escala de valores que devem ser tratados e corresponde mais aproximadamente à forma como o ouvido humano capta as ondas sonoras. Com efeito, o ouvido não responde linearmente ao ruído mas sim de forma Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 15 logarítmica. Desta forma, a medida da pressão sonora é realizada segundo uma escala logarítmica (Cabral, 2012). O decibel representa o nível de pressão sonora , de acordo com a norma portuguesa NP 1730:1996, substituída pela NP ISO 1996:2011, partes 1 e 2, intitulada “Descrição, Medição e Avaliação do Ruído Ambiente” . Este é calculado pela seguinte expressão (1) (Miguel, 2012): (1) em que, - Nível de pressão sonora (dB); p – Valor da pressão sonora instantânea ; - Pressão sonora de referência . 4.2.3 Adição de níveis sonoros A soma dos vários níveis de potência sonora de ruído é dada pela seguinte expressão (2) (Miguel, 2012): (2) 4.2.4 Filtros de ponderação e audibilidade A audibilidade depende da frequência e, por isso, para que um aparelho de medição de ruído se comporte como o ouvido é necessário adicionar-lhe um filtro. As curvas de ponderação correspondem a inversões das curvas isofónicas. Existem vários tipos de filtros normalizados que correspondem, de uma forma não linear, às diferentes frequências, sendo designados por filtros de ponderação: A, B, C, D (Miguel, 2012). A curva A simula, de uma forma muito aproximada, a sensibilidade do ouvido humano e a medição do ruído em decibéis, com a ponderação A (dB(A), é a mais importante a nível industrial, Figura 16. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 16 Estado da arte Figura 16 - Curvas de ponderação normalizadas A, C, e Linear Aos valores captados dos níveis de pressão sonora (dB), somam-se algebricamente os valores de ponderação apresentados na Tabela 1 para cada banda de frequência. Posteriormente, adicionam-se logaritmicamente (Expressão 2) cada um dos valores finais obtidos, resultando desta operação o nível sonoro - expresso em dB(A). Tabela 1 - Filtro de ponderação A (Miguel, 2012) Frequência Central de oitava (Hz) 63 125 250 500 1000 2000 4000 8000 Atenuação (filtro A) (dB) -26,2 -16,1 -8,6 -3,2 0 1,2 1 -1,1 Atenuação (filtro C) (dB) -0,8 -0,2 0 0 0 -0,2 -0,8 3,0 4.2.5 Ruído no ambiente de trabalho O ruído no local de trabalho é um problema global que afeta um vasto conjunto de setores industriais. A exposição excessiva ao ruído pode originar distúrbios auditivos. Os distúrbios da audição causados pelo ruído podem resultar de uma exposição pontual a um ruído impulsivo (mais de 140 decibéis (dB(C)) ou da exposição diária a sons de alta intensidade (mais de 85 decibéis (dB(A)) por várias horas, durante um período prolongado. Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 2009, existem alguns factos importantes sobre os distúrbios da audição provocados pelo ruído no local de trabalho:  Os distúrbios são, frequentemente, acompanhados por acufenos ou zumbidos nos ouvidos;  Os custos dos distúrbios auditivos, causados pelo ruído, correspondem a cerca de 10% do custo total da indemnização das doenças profissionais;  A incidência reconhecida dos distúrbios da audição difere em função do país e da política de reconhecimento. Em 2005, a diferença entre os Estados-Membros era bastante evidente: 5,9 % dos trabalhadores da UE-15 queixavam-se de problemas Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 17 de audição, contra 13,5 % nos 10 novos Estados-Membros e 9,7 % na Bulgária e na Roménia;  O maior número de casos regista-se nos grupos etários dos 40 aos 54 anos e dos 55 aos 60 anos. Mas o ruído não é o único fator de stresse no local de trabalho passível de ter impacto na audição dos trabalhadores. Aliada ao ruído, a vibração poderá ter um efeito sinérgico negativo no sistema auditivo. Certos agentes químicos, definidos como ototóxicos, causam danos no sistema auditivo. Entre os presentes nos ambientes industriais estão os solventes, o monóxido de carbono e o ácido cianídrico. A perda auditiva causada pelo ruído foi registada, em 2001, como a quarta doença profissional mais frequente na UE-12. Catorze milhões de trabalhadores da UE-27, ou 7 % do total, acreditam que o seu trabalho afeta a sua saúde sob a forma de distúrbios auditivos, sendo a taxa de incidência dos distúrbios da audição de 11,5 casos por cada 100 000 trabalhadores. Os efeitos do ruído não se limitam aos danos na audição, podendo induzir também um aumento da fadiga e do stresse, perturbações do sono e até problemas cardiovasculares. No local de trabalho, um dos efeitos mais potencialmente negativos do ruído residem no facto de este se sobrepor aos avisos sonoros e prejudicar a comunicação, potenciando assim o risco de acidentes de trabalho (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 2009). 4.2.6 Tipos de ruído Um ruído pode ser descrito pelo seu espetro de frequências, pelas variações de nível com o tempo e pelas características do campo sonoro, Tabela 2: Tabela 2 - Classificação do ruído, (Miguel, 2012) Descritor Classificação Observações Espetro de frequências Contínuo Sons puros audíveis Tempo Estacionário/Uniforme Quando a diferença entre o máximo e mínimo do nível sonoro for inferior a 5 dB(A), medidos com caraterísticas de resposta lenta, medição efetuada com elevado amortecimento e um tempo de integração de aproximadamente 1 s, durante o período de avaliação – (Ruído estacionário). Não estacionário Flutuante Nível que varia continuamente e numa extensão apreciável do ruído de fundo durante o período de avaliação. Intermitente Nível que desce abruptamente para o nível de ruído de fundo várias vezes durante o período de avaliação, mantendo-se constante durante um tempo de aproximadamente 1 s ou mais. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 18 Estado da arte Impulsivo Um ou mais impulsos violentos de energia com uma duração igual ou inferior a 1s e separados por mais de 0,2s. – Verifica-se a condição de ruido impulsivo quando a diferença entre o pico do nível de pressão sonora (valor máximo em dB) e o nível sonoro contínuo equivalente (dB(A)) num período superior a 5 min, é 20 dB. Características do campo sonoro Livre Campo sonoro numa área afastado de superfícies reflectoras. Reverberante Porção do campo sonoro num recinto de ensaio em que a influência do som emitido pela fonte é desprezável. Semi-reverberante Campo sonoro que prevalece num recinto amplo com superfície moderadamente reflectora. Divergente hemisfericamente Campo sonoro de uma fonte omnidirecional, fonte sonora que permite a mesma quantidade de energia em todas as direções, que está situada próximo de uma superfície refletora rígida (geralmente o solo) mas livre de outras obstruções. 4.2.7 Nível sonoro contínuo equivalente Na generalidade dos casos, o nível sonoro varia com o tempo, sendo necessário explicitar uma relação entre o nível e a sua duração, o qual é conseguido através do nível sonoro contínuo equivalente, que representa um nível sonoro constante que, se estivesse presente durante todo o tempo de exposição, produziria os mesmos efeitos, em termos de energia, que o nível variável (Miguel, 2012). A exposição pessoal diária ao ruído, , que representa o nível sonoro contínuo equivalente, ponderado de A, calculado para um período normal de trabalho diário de oito horas (T0), que abrange todos os ruídos presentes no local de trabalho, incluindo o ruído impulsivo, expresso em dB (A), é dada pela expressão 3, (3) O cálculo do é, segundo o Decreto-Lei nº 182/2006, está descrito na expressão 4 seguinte, (4) em que, – é a duração diária da exposição pessoal de um trabalhador ao ruído durante o trabalho; – é a duração diária de referência de oito horas (28 800 segundos); – é a pressão sonora instantânea ponderada A, expressa em pascal (Pa), a que está exposto um trabalhador; – é a pressão de referência p0 = 2 x 10-5 pascal=200 Pa; Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 19 Esta expressão é idêntica à utilizada pela norma ISO 1999:1990, a qual estabelece tempos limite de exposição em função do nível sonoro a que um trabalhador esteja sujeito, Tabela 3. Tabela 3 - Tempo de exposição limite, em função do nível sonoro a que está sujeito um trabalhador, segundo a Norma ISO 1999:1990 Tempo de exposição Nível sonoro recomendado [dB(A)] 8 horas 85 4 horas 88 2 horas 91 1 hora 94 30 minutos 97 15 minutos 100 7,5 minutos 103 Segundo a norma portuguesa NP 1730:1996, a determinação do nível sonoro contínuo equivalente pode ser realizada por meio da expressão 5, para amostragens dos níveis de pressão sonora a uma taxa , no intervalo de tempo t2-t1, (5) em que, N – nº total de amostras [N= / ]; - nível de pressão sonoro, ponderado A, para a amostra i (expresso em dB(A)); – intervalo de tempo entre duas amostras consecutivas consideradas pelo aparelho. No caso de se aplicar uma distribuição estatística às leituras dos níveis de pressão, ponderados A, utilizando uma técnica de amostragem por intervalos de tempo, vem calculado segundo a expressão 6, (6) em que, n – nº de classes (as classes de intervalos para os níveis de pressão, ponderados A, devem ser escolhidas de acordo com as características do ruído, na maioria dos casos é apropriado um intervalo de 5 dB); – percentagem do intervalo de tempo para o qual o nível de pressão sonora, ponderado A, está dentro dos limites da classe i. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 20 Estado da arte – nível de pressão sonora, ponderado A, correspondente ao ponto médio da classe i, em dB(A). Por analogia, se um fenómeno sonoro for composto por k ruídos, para os quais se conheça o nível sonoro ( ) e duração de cada um dos ruídos (ti), , vem dado pela expressão 7, (7) em que, 4.3 Legislação sobre ruído industrial A legislação portuguesa, com especial interesse para o ruído ocupacional em ambientes industriais, está apresentada na Tabela 4: Tabela 4 - Legislação relevante para a temática do ruído ocupacional em ambientes industriais Instrumento Legal Descrição Decreto-Lei nº182/2006 Prescrições mínimas de segurança e de saúde em matéria de exposição dos trabalhadores aos riscos devido ao ruído. Portaria nº53/71, alterada pela Portaria nº 702/80 Regulamento Geral de Segurança e Higiene do Trabalho nos Estabelecimentos Industriais. Decreto-Lei nº 348/93 Portaria nº 988/93 Prescrições mínimas de segurança e de saúde dos trabalhadores na utilização de equipamentos de proteção individual. Decreto-Lei nº 352/2007 Tabela Nacional de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais. 4.3.1 Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro A prevenção dos riscos profissionais associados ao ruído encontra-se estabelecida no Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro, sendo este o diploma legal universal relativo às prescrições mínimas de segurança e saúde respeitantes à exposição dos trabalhadores aos riscos devido ao ruído. Este Decreto-Lei transpõe para a ordem jurídica interna a Diretiva nº 2003/10/CE, relativa às prescrições mínimas de segurança e saúde em matéria de exposição dos trabalhadores aos riscos devido ao ruído. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 21 Os aspetos chave deste diploma assentam na:  Definição de valores limites de exposição e de valores de ação;  Indicação de metodologias e instrumentos para a determinação da exposição do trabalhador;  Avaliação dos riscos de exposição ao ruído em atividades suscetíveis a tal;  Apresentação de medidas para a redução da exposição e de proteção individual dos trabalhadores;  Vigilância médica dos trabalhadores;  Informação, formação e consulta dos trabalhadores sobre as temáticas referidas nos pontos anteriores. O Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro, estabelece os seguintes valores-limite e de ação, no que se refere à exposição pessoal diária de um trabalhador e ao nível de pressão sonora de pico: Tabela 5 – Valores limite e de ação, segundo o Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro VALOR EM CAUSA Exposição pessoal (diária ou semanal) [dB (A)] Pressão sonora do pico [dB (C)] Valores de ação de exposição (valores a partir dos quais existe a necessidade de adoção de programas de medidas específicas) Inferiores 80 135 Superiores 85 137 Valores limite de exposição (valores que não devem ser ultrapassados) 87 140 O nível de exposição diária, segundo o Decreto-Lei nº 182/2006, está descrito na expressão 3. Se os riscos decorrentes da exposição ao ruído não puderem ser prevenidos por outros meios, devem ser facultados aos trabalhadores protetores individuais auditivos adequados. A exposição pessoal diária efetiva está descrita na expressão 8, (8) em que, tK – é o tempo de exposição ao ruído k; – é o nível sonoro continuo equivalente a que fica esposto o trabalhador equipado com protetores auditivos. O nível de pressão sonora de pico, , valor máximo da pressão sonora instantânea, ponderado C, expresso em dB (C), está descrito na expressão 9, Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 22 Estado da arte (9) em que, – é o valor máximo da pressão sonora instantânea a que o trabalhador está exposto, ponderado C, expresso em pascal; Para além dos valores objetivos que indicam o nível sonoro a que se encontra exposto cada trabalhador, importa considerar que a surdez profissional se relaciona ainda com outros fatores, tais como:  A duração da exposição a tais valores;  A diferente sensibilidade dos trabalhadores ao ruído. 4.3.2 Portaria nº 53/71 de 3 de fevereiro O diploma setorial que rege as medidas e princípios gerais de prevenção da saúde e segurança do trabalho é a Portaria nº 53/71 de 3 de fevereiro, regulamento geral de segurança e higiene do trabalho nos estabelecimentos industriais. Partindo da análise da Portaria nº 53/71 com as alterações introduzidas pela Portaria nº 702/80 verificamos que o risco é refletido no artigo 26º - ruído e vibrações: Tabela 6 - Portaria nº 53/71 de 3 de fevereiro, regulamento geral de segurança e higiene do trabalho nos estabelecimentos industriais Portaria n.º 53/71 de 3 de fevereiro - Regulamento geral de segurança e higiene do trabalho nos estabelecimentos industriais Artigo 26º - ruído e vibrações 1 - Nos locais de trabalho devem eliminar-se ou reduzir-se os ruídos e vibrações prejudiciais ou incómodos. 2 - Os critérios de avaliação do risco de trauma auditivo por exposição ao ruído, bem como o de avaliação do risco devido a exposição a vibrações, devem ser os previstos em normas portuguesas específicas. Recomenda-se que os valores limites de exposição ao ruído e as vibrações não ultrapassem os indicados em normas portuguesas. 4.3.3 Decreto-Lei nº 352/2007 Este Decreto-Lei aprova a Tabela Nacional de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais e a Tabela Nacional para Avaliação de Incapacidades Permanentes em Direito Civil, a partir das quais se calcula a incapacidade do sinistrado ou doente e consequentemente direito à reparação. O capítulo referente à otorrinolaringologia é o capítulo IV, onde se podem destacar os seguintes aspetos:  Surdez profissional é um conceito médico-legal, e não apenas clínico. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 23  As referências subjectivas, tais como ruído ambiente, ambiente ruidoso, poluição sonora e outras equivalentes, são irrelevantes para caracterizar o ruído como traumático para a cóclea; estas referências só dão a noção de incómodo.  A avaliação ou medição da pressão sonora do ruído causal no posto de trabalho deve fazer-se a 10 cm do pavilhão auricular do trabalhador problema, nos termos da NP-1733.  Os silêncios ou locais com ruído com nível não traumático permitem a recuperação da audição, sem lesão da cóclea. Nestes casos trata-se de fadiga auditiva, que é reversível sem sequela. Por isso a pressão sonora destes locais deve entrar no cálculo do Leq dB(A), quando o posto de trabalho for móvel, para efeitos de reparação.  O ruído com Leq 85 dB(A) é considerado cota de alarme para efeitos de prevenção, no âmbito da higiene e segurança do trabalho e da medicina do trabalho. Só o ruído com Leq 87 dB(A) é lesivo para a cóclea. A ausência do estudo do ruído nos postos de trabalho e a ausência de medidas de prevenção nos locais e ambientes de trabalho responsabilizam os empregadores por quaisquer danos para os trabalhadores. O não uso de protetores auriculares pelo trabalhador, quando fornecidos pelo empregador, é considerado atitude dolosa do trabalhador.  O chamado escotoma, vale ou entalhe centrado nos 4000 Hz, no traçado audiométrico, como dado isolado, não permite o diagnóstico de trauma sonoro, por não ser patognomónico. Este acidente do traçado pode ocorrer noutras situações que nada têm a ver com o ruído.  O diagnóstico de surdez profissional deve basear-se sempre em três factores: a) Tempo mínimo de exposição; b) Ruído com características sonotraumáticas; c) Imagem de lesão no traçado audiométrico.  Ao Leq dB (A) do posto de trabalho deve ser subtraído o coeficiente de abafamento do protetor auricular, efetivamente usado pelo trabalhador, para ser obtido o valor verdadeiro da pressão sonora que atinge ou atingiu a cóclea do trabalhador problema.  Nos traçados audiométricos: a) O simples escotoma centrado nos 4000 Hz não permite o diagnóstico de surdez profissional; b) O RINNE (exame clínico realizado para avaliar a audição) fechado ou quase fechado não traduz lesão coclear pelo ruído; c) A simples inclinação do traçado audiométrico sobre as frequências agudas não traduz surdez profissional, antes senescência da cóclea ou lesão de outra origem e, só por si, nunca permite o diagnóstico de surdez profissional.  Existe nexo de causalidade quando estão reunidos e bem caracterizados: a) O tempo mínimo de exposição efectiva ao ruído; b) A característica sonotraumática desse mesmo ruído no posto de trabalho; Só neste caso o escotoma de 4000 Hz, no traçado audiométrico, poderá impor o diagnóstico de surdez profissional, se outra causa não for identificada.  Hipoacusia As perdas médias ponderadas deverão ser calculadas sobre as frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 ciclos por segundo. A perda média é a média aritmética ponderada das perdas observadas nas frequências de 500 Hz, 1000 Hz, 2000 Hz e 4000 Hz, sendo os coeficientes de ponderação, respetivamente, 2, 4, 3 e 1. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 30 Estado da arte  Obtenção de dados para efetuar planos de redução do ruído. Todas estas medições obedecem a normas e critérios, os quais indicam a forma como estas se efetuam, bem como os aparelhos de medição que se utilizam. Na Figura 21, visualizamse exemplos de aparelhos usados na medição do ruído. Figura 21 - Aparelhos usados na medição do ruído Aspetos a ter em consideração na medição:  Calibração do equipamento no início e no final de cada medição ou série de medições;  Posição de medição: o As medições devem ser realizadas, sempre que possível, na ausência do trabalhador com a colocação do microfone na posição em que se situaria a orelha mais exposta; o Quando tal não seja possível, o microfone deve ser colocado a uma distância de entre 0,10 m e 0,30 m em frente à orelha mais exposta do trabalhador – idêntica distância deve ser considerada na utilização dos dosímetros; o A direção de referência do microfone deve ser, se possível, a do máximo ruído, determinado por um varrimento angular do microfone em torno da posição de medição.  Intervalo de tempo de medição: o Escolhido de modo a medir e a englobar todas as variações importantes dos níveis sonoros nos postos de trabalho e de modo a que os resultados obtidos evidenciem repetibilidade; o Pode ser subdividido em intervalos de tempo parciais com o mesmo tipo de ruído, designadamente pelo ruído correspondente às diferentes atividades do posto de trabalho ou do seu ambiente de trabalho; o Pode corresponder à duração total da atividade, a uma parte desta duração e a várias repetições da atividade, de modo que seja possível obter níveis de exposição sonora ou níveis sonoros contínuos equivalentes, ponderado A, estabilizados a mais ou menos 0,5 dB(A). Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 31 4.5.2 Controlo do ruído O controlo do ruído deve ser levado a cabo implementando as seguintes medidas, por ordem de prioridade: 1. Medidas construtivas ou de engenharia Atuam sobre a fonte produtora de ruído, ou no meio de propagação. Exemplos comuns deste tipo de medidas são o isolamento de máquinas ruidosas, instalação de silenciadores nos ventiladores e colocação de barreiras e painéis anti-ruído. Na fase de aquisição de equipamento há que estabelecer uma compra eficaz, que leve em conta as caraterísticas da potência sonora dos equipamentos a adquirir. 2. Medidas organizacionais Planeamento das atividades, com vista à eliminação/redução dos postos de trabalho expostos e do tempo de exposição, como por exemplo rotação dos trabalhadores que ocupam os postos de trabalho com níveis de ruído mais elevados e deslocação das atividades ruidosas para horários em que estejam menos trabalhadores presentes. Embora as medidas organizacionais sejam consideradas a melhor solução para a exposição excessiva de ruído, estas são frequentemente, as alternativas mais caras e podem mesmo se revelarem como impraticáveis. 3. Medidas de proteção individual Consistem no recurso a protectores auditivos, que bloqueiam a propagação do ruído. Quando os protectores auditivos forem usados somente nos casos em que as medidas construtivas ou organizacionais não sejam viáveis (técnica ou economicamente), estes poderão ser a solução para combater os efeitos negativos da exposição ao ruído na indústria. A razão desta situação deve-se ao carácter económico e à facilidade de implementação dos mesmos. 4.5.3 Proteção de ouvidos A proteção individual auditiva deve ser usada como medida de recurso, ou seja, somente nos casos em que as medidas construtivas ou organizacionais não sejam viáveis. No entanto, o recurso ao equipamento de protecção individual tem vindo a ser cada vez mais utilizado para minimizar os efeitos nefastos decorrentes da exposição ao ruído. O baixo custo e a facilidade de implementação desta medida fizeram que esta tenha vindo a ser a opção mais escolhida (Arezes, 2002). Existem 2 tipos de protetores auditivos: protectores auriculares e tampões. Estes têm de satisfazer as exigências estabelecidas pelas normas NP EN 352-1:1993 e NP EN 3522:1993, respetivamente. Os protetores auriculares montados num capacete de segurança industrial deverão seguir a NP EN 352-3:1996. Protetores auriculares e tampões auditivos Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 32 Estado da arte para proteção dos ouvidos, principalmente em locais onde o ruído é intenso, nomeadamente em fábricas de corte e laminação de metais. Tampões Os tampões são protetores auditivos que são introduzidos no canal auditivo ou na cavidade do pavilhão auricular para obstruir a entrada, impedindo dessa forma que o ruído se propague até ao ouvido interno, Figura 22 e 23. Figura 22 - Tampões auditivos pré-moldados Figura 23 - Tampões moldáveis Auriculares tipo abafador Os protectores auriculares ou abafadores, são protectores auditivos que consistem em duas calotes posicionadas contra um dos pavilhões auriculares ou numa calote circum-aural posicionada contra a região periauricular. As calotes são pressionadas contra os pavilhões auriculares por uma banda à volta ou atrás da cabeça ou por baixo do queixo, Figura 24 e 25. Figura 24 - Protetor auricular passivo Figura 25 - Protetor auricular ativo Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 33 Tabela 9 - Vantagens e desvantagens dos tampões vs abafadores Tampões Abafadores Vantagens  Pequenos e fáceis de transportar;  Convenientes para usar em simultâneo com outros equipamentos de proteção individual;  Mais confortáveis para os usos prolongados em ambientes quentes e húmidos;  Convenientes para uso em zonas confinadas;  Melhores performances nas baixas e médias frequências.  Menor variação da atenuação conferida de utilizador para utilizador;  Possibilidade de utilização com problemas menores do foro da otorrinolaringologia;  Um tamanho serve à maioria dos utilizadores;  Melhores performances nas altas frequências. Desvantagens  Requerem mais tempo para a colocação e remoção;  Colocação correta mais difícil;  Possibilidade de irritação do canal auditivo;  Requerem boas práticas de higiene, para que não sejam introduzidas no canal auditivo poeiras ou sujidade.  Mais pesados e mais incómodos de transportar;  Apresentam incompatibilidade com outros equipamentos de proteção individual;  Mais desconfortáveis em ambientes quentes e húmidos;  Impossibilidade de utilização em zonas confinadas;  Dificuldade de utilização com óculos de leitura. Procedimento para a seleção dos protetores auditivos A escolha criteriosa dos protectores auditivos obedece a um procedimento ténico específico: 1. Determinação do espetro de ruído no posto de trabalho em análise; 2. Seleção do protetor cuja atenuação conduz o ruído, que passa através dele, a níveis considerados não perigosos; 3. Escolha de um protetor que não atenue em demasia o ruído, sob pena de não se ouvir nada, com as consequências que daí podem advir ao nível da presença de outros fatores de risco. Critérios para a seleção e utilização de protetores auditivos Sob o ponto de vista de segurança, embora sendo a atenuação o principal fator a considerar, não é, no entanto, um fator único que deve ser tido em atenção para a seleção e utilização de protetores de ouvido. Dever-se-ão, também, considerar outros fatores, nomeadamente:  Ações térmicas: projeções de gotas de metais de fusão, exemplo, em trabalhos de soldadura;  Desconforto e incómodo durante o trabalho: devido essencialmente à conceção ergonómica do aparelho (massa demasiado elevada, pressão de aplicação demasiada, aumento da transpiração). Ter em atenção que existe três tipos de dimensões (largo, médio e pequeno);  Limitação da capacidade de comunicação acústica: nomeadamente, a deterioração da inteligibilidade da palavra, de reconhecimento dos sinais, dos ruídos informativos ligados ao trabalho e da localização direcional. Estes riscos podem ser Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 34 Estado da arte originados por variação da atenuação com frequência, ou por diminuição das qualidades acústicas, devendo a escolha ser efetuada após experiência auditiva;  Acidentes e perigos para a saúde: exemplo, compatibilidade deficiente, falta de higiene, materiais inadequados, etc;  Insuficiente eficácia de proteção: provocada por escolha ou utilização incorreta do protetor. Devem ser respeitadas as indicações do fabricante (quanto a classes de proteção e utilização específica que se destina), e as condições de conservação, controlo ou substituição em tempo oportuno. A seleção, utilização e manutenção de protetores auditivos deve ter em consideração o disposto na EN 458:2004 e no Decreto-Lei n.º182/2006, de 6 de setembro. Os aparelhos protetores de ouvido devem satisfazer as exigências estabelecidas pelas EN 352-1 a EN 352-7, nomeadamente quanto a valores mínimos de atenuação e respetivos desvios padrão. Identificação dos protetores auditivos Devem, também, conter informação preconizada para permitir a escolha adequada, tendo em vista minimizar os fatores de risco referidos, assim como uma marcação obrigatória onde conste:  Para os protetores auriculares (marcação no aparelho): o Identificação do fabricante; o Modelo; o No caso de necessidade de orientação particular, o fabricante deve indicá-la, eexemplo, Left (esquerdo) ou Right (direito); o Referência à EN 352-1:2002;  Para os protetores do tipo tampões (marcação na embalagem): o Identificação do fabricante; o Referência à EN 352-2:2002; o Modelo; o Instruções para a colocação e uso adequado. Critérios de seleção dos protetores auditivos O Decreto-Lei nº182/2006, de 6 de setembro, apresenta o método de cálculo da atenuação dos protetores auditivos, tendo por base a análise espectral das fontes sonoras a que os trabalhadores estão expostos ao longo do seu dia de trabalho. Este método é bastante rigoroso, não sendo, contudo, o único existente. Uma vez que existem vários métodos, deve ser dada preferência ao método por bandas de oitava. No entanto, atendendo ao disposto no ponto 3, do anexo V do Decreto-Lei nº 182/2006, de 6 de setembro, nas situações em que o espetro do ruído não contenha componentes significativas de baixa frequência, podem ser utilizados os métodos de seleção dos protetores auditivos definidos na normalização aplicável, nomeadamente os métodos HML e SNR. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 35 Métodos de seleção alternativos O método de seleção a usar deve seguir a ordem de preferência a seguir adotada: Tabela 10 - Métodos de seleção dos protetores auditivos Método recomendado Na utilização do método devemos utilizar os seguintes passos: Método por banda de oitava - Fase 1: medir o nível de pressão sonora contínua equivalente, ponderado A, em cada banda de oitava, LAeq,f,Tk, do ruído a que o trabalhador está exposto, para cada posto de trabalho que ocupa, definindo assim o espetro correspondente ao ruído k a que o trabalhador está exposto durante Tk horas por dia; - Fase 2: Determinar os níveis globais, em dB(A) por banda de oitava L63, L125,… Ln,…, L8000, de acordo com a seguinte equação: Ln=LAeq,f,Tk – Mf + 2Sf; - Fase 3: Com os níveis globais, obtidos como indicado na alínea anterior, calcular o nível sonoro contínuo equivalente, LAeq,f,Tk, de cada ruído que ocorra durante o tempo Tk, estando o trabalhador equipado com protetores auditivos, pela equação: LAeq,f,Tk=10lg ; - Fase 4: Aplicar ao conjunto destes valores, calculados como refere a alínea anterior, a exposição pessoal diária efetiva, LEX,8h,efet, em dB(A), de cada trabalhador que use protetores auditivos: LEX,8h,efet=10log . Método HML (H, M e L são três valores de atenuação que são utilizados para calcular a Redução Prevista do Nível Sonoro (PNR), que é de seguida subtraída ao nível de pressão sonora ponderado A) - Fase 1: calcular a diferença entre os níveis de pressão sonora ponderado C e A do ruído, (LC-LA); - Fase 2: calcular a redução prevista do nível sonoro (PNR) com o auxílio de uma das equações seguintes: o o - Fase 3: arredondar para o número inteiro mais próximo; - Fase 4: calcular o nível de pressão sonora ponderado A efetivo no ouvido com o auxílio da equação seguinte: L‟A= LA-PNR. Método SNR - Fase 1: O nível de pressão sonora ponderado A previsto sob o protetor auditivo L‟A pode ser calculado com base no nível de pressão sonora ponderado C no local de trabalho LC de acordo com: L‟A= LC-SNR; o Ou com base no nível de pressão sonora ponderado A, LA de acordo com: L‟A= LA + (LC - LC)-SNR. - Fase 2: Comparar L‟A com o nível de ação [85dB]. Verifica-se a atenuação é suficiente ou não. De acordo com a NP EN 458, é conveniente que o valor de L‟A, não seja inferior a -15 dB em relação ao nível de ação (85 dB), de modo a evitar-se sobreproteção do trabalhador. Deste modo, e atendendo ao valor do nível ponderado A efetivo ao nível do ouvido, a norma estabelece e classifica a proteção dada por um protetor auditivo do seguinte modo: Tabela 11 - Classificação da proteção de acordo com a NP EN 458 Nível ponderado A efetivo no ouvido L’A, em dB Estimativa de proteção Insuficiente Aceitável Satisfatória Aceitável Excessiva (sobreproteção) Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 36 Estado da arte 4.5.4 Conforto e proteção individual auditiva É de uma grande importância que os protetores individuais sejam confortáveis, já que este é um fator determinante para o seu uso. As principais características dos equipamentos de proteção individual auditiva e a sua relação com o conforto estão descritas na Tabela 12 seguinte: Tabela 12 - Características dos equipamentos de proteção individual e a sua relação com o conforto Características Descrição Atenuação  Legislação para o cálculo da determinação da atenuação que deve ser conferida por um protector individual auditivo;  Não se deve cair no erro de seleccionar dispositivos que confiram proteção excessiva; Peso  Potenciador de desconforto;  Normalmente existe uma relação direta entre a atenuação conferida e o peso do abafador, aumentando um na razão direta do outro. Pressão  Pressão exercida pela banda e espuma de vedação dos abafadores;  A pressão exercida no ouvido externo pelos tampões de inserção semi-aural;  A pressão exercida no interior do canal auditivo pelos tampões.  A norma portuguesa EN 352-1, define a pressão máxima que deve ser exercida por cada um destes elementos. Textura  Os materiais e consistência dos componentes têm que ser levados em conta na sua concepção;  As partes do dispositivo em contato com a pele devem ser macias e flexíveis, não causar irritações ou alergias. Capacidade de dispersar o calor gerado  Limita as trocas de calor da área coberta com o ambiente, conduzindo a um aumento de temperatura localizado.  Causa desconforto, em ambientes térmicos quentes, e pode ser benéfico em temperaturas baixas. Capacidade de absorver a transpiração  Em ambientes térmicos quentes é normal que ocorra sudação na zona de contato do protector auditivo com a pele;  Pode ocorrer irritação na área de contato. Dificuldade em realizar tarefas  Dificuldade de realizar normalmente as tarefas associadas ao posto de trabalho. Dificuldade de colocação  Protetores que requerem procedimentos mais complexos de colocação tendem a ser mal/menos vezes colocados;  A dificuldade de colocação pode surgir como consequência da utilização simultânea de diversos equipamentos individuais. Diminuição da inteligibilidade  A capacidade de entender distintamente os sons em geral e a fala em particular, é uma das principais causas para não se usar proteção individual auditiva; Aspeto estético  É apontado como causa para a não utilização dos protetores auditivos (Arezes, 1998). 4.5.5 Exames médicos e audiométricos Segundo o Decreto-Lei nº 182/2006, o empregador deve assegurar a verificação anual da função auditiva e a realização de exames anuais audiométricos a trabalhadores expostos a Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 37 ruído acima dos valores de ação superiores, e bienal a trabalhadores expostos a ruído acima dos valores de ação inferiores. O exame clínico do aparelho auditivo, estudo do histórico de qualquer problema no aparelho auditivo e exames audiométricos devem ser feitos previamente à admissão de trabalhadores em locais muito ruidosos (Miguel, 2012). A realização de exames audiométricos pode ser por via aérea (utilizando auscultadores) e via óssea (colocando um vibrador ósseo no mastóide). A intensidade mínima para a qual um trabalhador percepciona um tom puro, gerado e enviado por um audiómetro representa o limiar tonal do individuo para essa frequência. A determinação dos limiares tonais repete-se para cada frequência considerada, e para cada um dos ouvidos, de forma independente. 4.6 Critérios para o cálculo e classificação das perdas auditivas Após a realização dos exames audiométricos e a obtenção dos seus resultados, existem diferentes metodologias para o cálculo e classificação do tipo e grau de perdas auditivas:  A Tabela Nacional de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais em Portugal aprovado pelo Decreto-Lei nº 352/2007. Para o cálculo das perdas auditivas, ponderam-se os resultados do melhor ouvido (com menos perdas) para frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, sendo os fatores de ponderação de 2, 4, 3 e 1, respetivamente. Para a hipoacusia bilateral, a audiometria tonal deverá revelar uma perda igual ou superior a 35 dB.  O Critério do BIAP – Bureau International d‟AudioPhonologie – calcula as perdas auditivas através da média dos limiares tonais para as frequências 500, 1000, 2000 e 4000 Hz. No caso de a perda ser assimétrica, pondera-se a perda auditiva nos 2 ouvidos utilizando um coeficiente de valor 7 para o ouvido melhor e 3 para o ouvido pior, dividindo-se a soma por 10. O resultado obtido é arredondado por excesso. Este critério permite ainda classificar as deficiências auditivas em 6 estados: Tabela 13 - Critério permite ainda classificar as deficiências auditivas Estado Classificação das deficiências auditivas Normal Perda auditiva inferior a 20 dB. Corresponde a uma perda ligeira sem incidência social. Ligeira Perda auditiva compreendida entre 21 e 40 dB. Uma conversa em tom normal é compreendida. Contudo, existem dificuldades se tal for realizada em voz baixa ou afastada. Moderada Entre 41 e 70 dB. O discurso é entendido quando a se eleva o tem de voz. O indivíduo compreende melhor a mensagem se poder observar o interlocutor. Severa De 71 e 100 dB. O discurso é entendido se a quando o tom de voz é forte e próximo da orelha. Profunda Entre 100 e 119 dB. O indivíduo é incapaz de perceber a palavra, apenas ruídos muito potentes. Total Perda média superior a 120 dB. Nenhuma percepção do ruído. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 39 5 METODOLOGIA 5.1 Recolha de dados 5.1.1 Estudos de ruído Os estudos de ruído foram realizados por uma empresa externa de segurança do trabalho e encontram-se em suporte de papel. A partir desses dados obteve-se o nível sonoro de exposição pessoal para cada trabalhador e ainda uma caracterização do ruído em cada um dos setores de produção. Compilando toda a informação numa folha de EXCEL avançouse para o tratamento estatístico. 5.1.2 Exames audiométricos Os exames audiométricos existentes no arquivo do gabinete da médica de trabalho encontram-se em suporte de papel e o mais recente, realizado durante este trabalho, encontra-se em suporte digital. Esta informação permitiu o cálculo das perdas auditivas. 5.1.3 Questionários A realização dos questionários aos trabalhadores permite conhecer o historial clínico, pessoal e também profissional com interesse para o estudo. O questionário é preenchido de forma individual em suporte papel. Identificação Este primeiro questionário visa obter informação sobre o colaborador, respetivo posto de trabalho e as suas habilitações literárias. Tabela 14 - Questionário aos trabalhadores - Identificação. Nome funcionário: Função: Área de trabalho: Escolaridade: Até ao 4º ano 4º ano - 9º ano 9º ano – 12º ano Superior ao 12º ano Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 46 Resultados e Discussão 6.2 Descrição das variáveis em estudo 6.2.1 Idade do trabalhador O valor da idade do trabalhador, considerado para o estudo em causa, corresponde à diferença entre o ano no qual se realizou o exame audiométrico e o ano de nascimento do trabalhador. 6.2.2 Tempo de exposição ao ruído ocupacional O tempo de exposição ao ruído ocupacional é variável para cada trabalhador e é calculado em função do ano de entrada na empresa e do ano no qual se realiza o exame audiométrico 6.2.3 LEX, 8h Os estudos do ruído, tendo como base o cálculo da exposição individual diária dos trabalhadores, foram realizados por uma empresa externa, nos anos de 2006, 2010 e 2012. A expressão 10 permite calcular o valor global da exposição individual diária ao ruído. (10) em que, LEX, 8h - Valor de exposição individual diária ao ruído, a que estaria exposto o trabalhador, durante o período T; T – Tempo total de exposição; ti – Tempo de exposição parcial, ao qual corresponde LEX, 8hi; LEX, 8hi - Valor de exposição individual diária ao ruído durante o período de tempo ti. 6.2.4 Perdas auditivas Para o cálculo das perdas auditivas e para tornar a interpretação mais intuitiva em termos de quantificação e classificação da perda foi utilizado o critério BIAP, o qual permite também considerar a perda em ambos os ouvidos. O critério do BIAP - Bureau International d'AudioPhonologie, calcula as perdas auditivas através da média dos tonais para as frequências 500, 1000, 2000 e 4000 Hz. No caso de a perda se assimétrica, pondera-se a perda auditiva nos 2 ouvidos utilizando um coeficiente de valor 7 para o ouvido melhor e 3 para o pior, dividindo-se a soma por 10. O resultado obtido é arredondado por excesso. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 47 6.3 Resultados dos inquéritos A partir do questionário referido no capítulo 5.1.3 e através da análise das respostas, podese obter uma caracterização da história de exposição ao ruído ocupacional e não ocupacional, do historial familiar, pessoal ou de eventos clínicos que poderiam provocar perdas auditivas, da utilização de proteção auditiva e da perceção individual do estado auditivo. 6.3.1 Amostra em estudo Da análise da Tabela 20 é possível apresentar uma caracterização mais específica da amostra em estudo. É possível constatar que a maioria dos trabalhadores são do sexo masculino, 77,4 %, a média de idade é de 50,2 anos e o período médio de permanência na empresa é bastante elevado, 27,4 anos. Tabela 20 - Caracterização da amostra em estudo Amostra Nº de trabalhadores considerados Sexo Idade (anos) Antiguidade (anos) M % F % Média dp Média dp Estudo 31 24 77,4 7 22,6 50,2 6,2 27,4 7,4 Excluídos 5 3 60,0 2 40,0 51,6 7,7 29,4 8,4 Gráfico 1 - Caracterização da amostra em estudo 6.3.2 Escolaridade Na Tabela 21 apresentam-se os níveis de escolaridade dos trabalhadores, onde é possível verificar que 90,3 % dos indivíduos em estudo não prosseguiram os seus estudos para além do ensino básico. 77,4% 22,6% Sexo Masculino Feminino Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 48 Resultados e Discussão Tabela 21 - Nível de escolaridade dos trabalhadores em estudo Amostra Até ao 4º ano Do 4º ano ao 9º ano Do 9º ano ao 12º ano Superior ao 12º ano N 13 15 3 0 % 41,9 48,4 9,7 0 Gráfico 2 - Nível de escolaridade da amostra em estudo 6.3.3 Histórico de exposição ao ruído Profissional É possível verificar da Tabela 22 que 42 % dos indivíduos em estudo exerceram funções noutras empresas antes de ingressarem na fábrica em estudo. Tabela 22 - Histórico de exposição ao ruído proveniente de atividades ocupacionais Atividade anterior Pouco intensa Intensa Muito intensa Total N % N % N % N % Atividade 1 4 13 9 29 1 3 13 42 Atividade 2 0 0 2 6 0 0 2 6 Não profissional Da Tabela 23 é possível verificar um significativo número de trabalhadores que esteve a cumprir serviço militar (45,2 %), pelo que se pode assumir que foi realizada a prática de tiro mas não são conhecidas as condições em se realizou essa prática. As outras atividades não profissionais são consideradas bastante reduzidas pelo que apenas são consideradas no caso de se detetarem, nos audiogramas, perdas auditivas suspeitas, ou seja, com um valor demasiado elevado. Tabela 23 - Histórico de exposição ao ruído proveniente de atividade não ocupacionais Atividade / Origem do ruído N % Prestação de serviço militar 14 45,2 Prática de caça ou tiro 1 3,2 Utilização de ferramentas ruidosas 1 3,2 Vítima de rebentamentos ou explosões 2 6,5 41,9% 48,4% 9,7% Nível de escolaridade Até ao 4º ano Do 4º ano ao 9º ano Do 9º ano ao 12º ano Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 49 6.3.4 Antecedentes familiares e pessoais Através da Tabela 24 constata-se existe um elevado índice de tabagismo entre os trabalhadores (35,5 %) bem como a existência no passado familiar com problemas de surdez. De igual forma também existe um elevado número de problemas nos ouvidos, otites ou rompimentos dos tímpanos, e indivíduos com doenças infecciosas, como por exemplo meningite, sarampo ou febre tifóide. Tabela 24 - Antecedentes familiares e pessoais Antecedentes N % Familiares com surdez 7 22,6 Tabagismo 11 35,5 Diabetes 4 12,9 Traumatismo craniano 1 3,2 Problemas nos ouvidos 5 16,1 Doenças infecciosas 10 32,3 6.3.5 Utilização de proteção auditiva Na Tabela 25 apresentam-se os hábitos de utilização de proteção auditiva dos trabalhadores. Constata-se que mais de 90 % dos trabalhadores utilizam “Sempre/Frequentemente” proteção auditiva. De referir que os trabalhadores utilizam como protetor auditivo tanto os tampões como os abafadores, sendo que a maioria dos trabalhadores indicam o uso de ambos. Tabela 25 - Utilização de proteção auditiva Utilização da proteção auditiva Sempre / Frequentemente Às vezes / Nunca N % N % 28 90,3% 3 9,7% Tipo de protetor auditivo utilizado Tampões Abafadores N N 28 28 6.3.6 Perceção individual do estado auditivo Da Tabela 26 importa referir que cerca de 64,5 % dos trabalhadores afirmam que ouvem bem, enquanto cerca de 25,8 % indicam a sensação de zumbidos nos ouvidos. Tabela 26 - Perceção individual do estado auditivo Perceção individual do estado auditivo Ouve bem Sente zumbidos N % N % 20 64,5% 8 25,8% Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 50 Resultados e Discussão Gráfico 3 - Perceção individual do estado auditivo 6.4 Estudo das perdas auditivas Considerando o exame audiométrico realizado em 2013 obtém-se a seguinte amostra representada na Tabela 27. Tabela 27 – Resumo das variáveis em estudo e do cálculo das perdas dos trabalhadores Variável Valor médio Desvio Padrão Valor máximo Valor mínimo Idade (Anos) 50,2 6,2 62,0 37,0 Tempo de exposição ao ruído (Anos) 27,4 7,4 40,0 12,0 LEX,8h (dB) 90,9 4,9 102,6 79,3 Perda auditiva (dB) 27,9 13,0 59,0 6,0 Os dados obtidos dos estudos gerais do ruído tendo como base o cálculo da exposição individual diária dos trabalhadores nos anos de 2006, 2010 e 2012, estão representados no Gráfico 4 para cada trabalhador. 64,5% 25,8% Perceção individual do estado auditivo Ouve bem Sente zumbidos Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 51 Gráfico 4 - LEX, 8hi dB(A) por trabalhador para os anos 2006, 2010 e 2012 (valores retirados dos estudos do ruído nas instalações) Segundo o cálculo e a classificação da perda auditiva, de acordo com o critério BIAP para amostra em questão, obteve-se a distribuição da classificação da perda auditiva representada no Gráfico 5. Gráfico 5 - Distribuição da classificação da perda auditiva, em 2013, segundo o critério BIAP Com estes resultados é possível observar que 26 % dos trabalhadores têm uma perda auditiva considerada “normal”, 52 % uma perda “ligeira” e 22 % dos trabalhadores têm uma perda “moderada”. Nenhum trabalhador se encontra em situação de perda “severa” (acima de 71 dB) ou na situação de perda “total”. De referir que o valor máximo da perda 70 75 80 85 90 95 100 105 110 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 LEX,8hi dB(A) Nº do trabalhador Comparação do nível de exposição diária ao ruído para cada trabalhador nos anos 2006, 2010 e 2012 2006 2010 2012 26% 52% 22% Normal Ligeira Moderada Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 52 Resultados e Discussão “moderada” foi de 59 dB e que o intervalo desta perda está classificado entre 41 a 70 dB. Neste intervalo o discurso é entendido apenas quando se eleva o tom de voz e o indivíduo compreende melhor a mensagem se puder observar o interlocutor. A relação de trabalhadores com perdas está apresentada na Tabela 28. Tabela 28 - Relação de trabalhadores expostos a exposição ao ruído e com as perdas auditivas Nº Trab Sexo Idade (anos) Tempo de exposição (anos) LEX, 8h dB(A) Perda Média BIAP Classificação da perda Resposta NÃO à pergunta 'OUVE BEM?' Resposta SIM à pergunta 'Sente Zumbidos?' Utiliza proteção auditiva 1 M 56 27 84,7 39,0 Ligeira X 2 F 57 40 92,1 22,0 Ligeira X X 3 M 55 27 102,3 29,0 Ligeira X 4 M 53 21 91,6 21,0 Ligeira X 5 F 52 23 91,8 41,0 Moderada X 6 F 45 24 89,2 46,0 Moderada X X 7 F 46 25 91,8 43,0 Moderada X X 9 M 52 22 90,6 17,0 Normal X 10 M 51 37 90,6 21,0 Ligeira X X X 11 M 52 23 90,4 28,0 Ligeira X X 12 M 50 22 101,9 23,0 Ligeira X X X 13 M 59 21 79,3 23,0 Ligeira X X 15 M 49 24 89,2 23,0 Ligeira X 16 M 39 18 91,4 6,0 Normal X 17 M 52 37 102,6 59,0 Moderada X X 18 M 54 38 90,8 41,0 Moderada X X 19 M 52 21 91,0 35,0 Ligeira X 20 M 49 12 79,7 38,0 Ligeira X X X 21 M 42 24 90,7 26,0 Ligeira X 23 M 53 38 90,6 11,0 Normal X 24 M 42 24 91,8 15,0 Normal X 25 M 37 23 90,6 8,0 Normal X 26 M 62 36 89,5 45,0 Moderada X X 27 M 55 40 87,2 27,0 Ligeira X X X 28 M 52 28 89,3 47,0 Moderada X 29 M 48 33 87,7 37,0 Ligeira X 30 M 44 24 91,9 23,0 Ligeira X 32 F 54 40 92,1 25,0 Ligeira X 33 F 59 24 91,8 17,0 Normal X 34 F 39 24 91,8 15,0 Normal X 36 M 46 28 90,7 13,0 Normal X Observa-se que o trabalhador que possui uma perda média mais elevada é o trabalhador nº 17, que também está exposto a um LEX, 8h bastante elevado. Os trabalhadores nº 27 e 32 apresentam os maiores tempos de exposição, 40 anos, mas perdas auditivas „ligeiras‟. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 53 De referir ainda que dos 7 trabalhadores com perdas „moderadas‟ apenas 5 indicaram a perceção de limitações ao nível da audição, e que dos 16 trabalhadores com perdas auditivas „ligeiras‟ apenas 6 referiram a perceção de limitações ao nível da audição. Dos trabalhadores com perda „normal‟ nenhum indicou este problema. De referir que apenas 8 trabalhadores com perdas „ligeiras‟ ou „moderadas‟ indicaram a perceção de zumbidos nos ouvidos, entre os 21 trabalhadores com essas perdas. A utilização efetiva de proteção auditiva, ao longo dos anos de exposição, não implica que no passado se tenha trabalhado de forma desprotegida, alterando desta forma o LEX, 8h real dos trabalhadores. Provavelmente os trabalhadores não teriam tido tanto cuidado com o uso dos EPI‟s, não sendo ainda de descurar uma eventual não disponibilidade da mesma. Tabela 29 - Trabalhadores com antecedentes de doenças Nº Antecedentes Historial de exposição ao ruído Surdez familiar Tabagismo Diabetes Traumatismo craniano Doenças otológicas Doenças infecciosas Explosões Caça Tiro Ferramentas ruidosas 1 X X 0 0 0 0 0 0 X 2 0 0 X 0 X X 0 0 0 3 0 0 0 0 0 0 0 0 0 4 0 X 0 0 X 0 0 0 0 5 0 0 0 0 X X 0 0 0 6 0 0 0 X X X X 0 0 7 0 0 0 0 0 0 0 0 0 9 0 0 0 0 0 X 0 0 0 10 X X 0 0 X 0 0 0 0 11 0 X 0 0 0 0 0 0 0 12 0 0 X 0 0 X 0 0 0 13 X 0 0 0 0 0 0 0 0 15 0 X 0 0 0 0 0 0 0 16 0 0 0 0 0 X 0 0 0 17 0 X 0 0 0 0 0 0 0 18 0 X 0 0 0 0 0 0 0 19 0 0 0 0 0 0 0 0 0 20 0 0 0 0 0 0 0 0 0 21 0 0 0 0 0 0 0 0 0 23 X X 0 0 0 0 0 0 0 24 0 0 X 0 0 0 0 0 0 25 0 0 0 0 0 X 0 0 0 26 X X 0 0 0 0 X 0 0 27 0 X 0 0 0 0 0 X 0 28 0 X 0 0 0 0 0 0 0 29 0 0 0 0 0 X 0 0 0 30 0 0 0 0 0 0 0 0 0 32 X 0 X 0 0 0 0 0 0 33 X 0 0 0 0 X 0 0 0 34 0 0 0 0 0 X 0 0 0 36 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Através da Tabela 29 pode verificar-se que os trabalhadores nº 5 e 6 apresentam casos de perdas „moderadas‟ mas também são referidas doenças otológicas. Para os restantes casos de perdas „moderadas‟, mais nenhum apresenta antecedentes. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 54 Resultados e Discussão É importante conhecer o detalhe histórico e os antecedentes da população em estudo, mas para ter conhecimento se a perda de audição teve origem numa doença otológica seria necessário saber qual era a doença em concreto. Através da média dos valores dos exames audiométricos por banda de frequência (Gráfico 6), verifica-se que os valores mais significativos são os que correspondem às frequências de 4000 e 6000 Hz. Verifica-se também que, nestas frequências, os valores de desvio padrão são mais elevados. Gráfico 6 - Perdas auditivas médias da população em estudo 6.4.1 Comparação entre as perdas auditivas de 2010 e 2013 Segundo o cálculo e a classificação da perda auditiva segundo o critério BIAP para amostra em questão os resultados obtidos a partir dos dados dos exames audiométricos de 2010 estão no Gráfico 7. Gráfico 7 - Distribuição da classificação da perda auditiva em 2010 segundo o critério BIAP 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 Limiar Auditivo (dB) Frequência (Hz) Perdas auditivas médias +1 dp -1 dp 32% 56% 12% Normal Ligeira Moderada Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 55 Com estes resultados é possível observar que 32 % dos trabalhadores têm uma perda auditiva considerada “normal”, 56 % uma perda “ligeira” e 12 % dos trabalhadores uma perda “moderada”. Nenhum trabalhador se encontra em situação de perda “severa” (acima de 71dB) ou na situação de perda “total”. Na Tabela 30 e no Gráfico 8 estão os valores das perdas auditivas de 2010 e de 2013. Tabela 30 - Comparação entre as perdas auditivas de 2010 com as de 2013 Ano Perda 2010 2013 Normal 32,4% 25,8% Ligeira 55,9% 51,6% Moderada 11,8% 22,6% Gráfico 8 - Comparação entre as perdas auditivas de 2010 com as de 2013 É possível verificar que houve uma diminuição de trabalhadores com perda auditiva “normal” de 2010 para 2013 de 6,5 % e uma diminuição de 4,3 % de 2010 para 2013 para a perda auditiva “ligeira”. Por outro lado houve um aumento de 10,8 % na perda auditivas “moderada”. 6.4.2 Comparação do cálculo das perdas através do critério da Tabela de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais em Portugal A Tabela Nacional de Incapacidades por Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais em Portugal aprovado pelo Decreto-Lei nº 352/2007. Para o cálculo das perdas auditivas, ponderam-se os resultados do melhor ouvido (com menos perdas) para frequências de 500, 1000, 2000 e 4000 Hz, sendo os fatores de ponderação de 2, 4, 3 e 1, respetivamente. Para a hipoacusia bilateral, a audiometria tonal deverá revelar uma perda igual ou superior a 35 dB. É possível verificar que os trabalhadores com perdas „Moderadas‟ calculadas a partir do critério BIAP também apresentam uma perda auditiva superior bastante elevada para o 0,00 10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00 Normal Ligeira Moderada % Perda auditiva 2010 2013 Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 62 Resultados e Discussão 2º Plano fatorial – Relação entre idade e banda de frequência de 500 Hz do ouvido esquerdo Na Figura 30 pode-se ver a projeção das variáveis no 2º plano fatorial (F1, F3) e na Figura 31 está representado o 2º plano fatorial das linhas com identificação de cada um dos pontos. Figura 30 - Projeção das variáveis no 2º plano fatorial da ACP A análise da Figura 30 permite concluir que a variável esq1 (500 Hz Ouvido esquerdo) projecta-se isolada no eixo 3. Esta evidência resulta da projeção desta variável no eixo 3, semi-eixo positivo. Em oposição e mostrando uma forte associação negativa com a variável esq1, projetada no eixo 3, identifica-se a variável I (Idade), semi-eixo negativo. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 63 Figura 31 - Projeção dos trabalhadores no 2º plano fatorial da ACP Através da Figura 31 e da Tabela 33 é possível verificar que existe uma correlação negativa entre a idade e a banda de frequência de 500 Hz do ouvido esquerdo. A percentagem de explicação para esta correlação é muito reduzida, apenas de 8,39 %. Os trabalhadores nº 34, 21, 7 e 6 têm um valor elevado de perda no ouvido esquerdo para a banda de frequência de 500 Hz, sendo as suas idades baixas relativamente à média da amostra. Os trabalhadores nº 21 e 34 apesar de terem uma elevada perda no ouvido esquerdo para a banda de frequência de 500 Hz, não apresentam perda auditiva elevada. O trabalhador nº 26 apresenta um valor baixo de perda no ouvido esquerdo para a banda de frequência de 500 Hz, apesar de ser o trabalhador com mais idade da amostra, 62 anos. Este trabalhador apresenta, contudo, um valor alto de perda auditiva. 3º Plano factorial – Tempo de exposição Na Figura 32 pode ver-se a projeção das variáveis no 3º plano fatorial e na Figura 33 está representado o 3º plano fatorial com projecção das linhas com identificação de cada um dos pontos. Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 64 Resultados e Discussão Figura 32 - Projeção das variáveis no 3º plano fatorial da ACP A análise da Figura 32 permite concluir que a variável Te (Tempo de exposição) projeta-se isolada no eixo 4. Esta evidência resulta da projeção desta variável no eixo 4, semi-eixo negativo. A percentagem de explicação para esta correlação é muito reduzida, apenas de 6,01 %. Figura 33 - Projeção dos trabalhadores no 3º plano fatorial da ACP Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 65 Através da Figura 33 e da Tabela 33 é possível verificar que:  O trabalhador com mais tempo de exposição na empresa, mais perda auditiva e mais exposição ao ruído é o nº 18;  O trabalhador nº 2 apresenta também um valor elevado de tempo de exposição e de exposição ao ruído, mas apresenta uma perda auditiva baixa;  O trabalhador com menos tempo de exposição, menos perda auditiva e mais exposição ao ruído é o nº 12;  O trabalhador nº 3 apresenta também um valor baixo de tempo de exposição e um valor elevado de exposição ao ruído, mas apresenta uma perda auditiva mais elevada. 6.6 Análise individual de casos Para os casos que proporcionam algumas dúvidas e valores de perdas auditivas bastante elevados apresenta-se uma pequena análise individual destes indivíduos. Trabalhador Nº 17 Tabela 39 - Perda auditiva do trabalhador nº 17 Nº trabalhador 17 Idade (anos) 52 Exposição (anos) 37 LEX,8h (dB) 102,6 Ouvido Esquerdo (Hz) Direito (Hz) Ano 500 1000 2000 4000 6000 500 1000 2000 4000 6000 Perda Média (BIAP) Classificação da perda 2010 50 45 40 70 60 60 65 55 50 50 54,0 Moderada 2013 40 40 40 65 55 70 65 65 65 40 59,0 Moderada Figura 34 - Ouvido Esquerdo Trabalhador nº 17 Figura 35 - Ouvido Direito Trabalhador nº 17 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 0 10 20 30 40 50 60 70 80 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 66 Resultados e Discussão Tabela 40 - Historial e antecedentes do trabalhador 17 Historial/Antecedentes Sim Não Atividade anterior X Ferramentas ruidosas X Explosões X Surdez familiar X Tabagismo X Doenças otológicas X Doenças infecciosas X Proteção auditiva X Ouve bem? X Sente zumbidos? X O trabalhador 17 apresenta o maior valor de perda auditiva da amostra em estudo, este trabalhador está sujeito a um valor elevado de exposição ao ruído. Os 37 anos de exposição ao ruído foram sempre nesta empresa, nunca trabalhou noutra empresa, e foram sempre na mesma seção de trabalho. Nos inquéritos apenas indicou que fumou, que ouve mal e não sente zumbidos. Observando os gráficos de perda auditiva, verifica-se que no ouvido esquerdo esta é mais significativa para os 4000 Hz, sendo concordante com o escotoma característico do ruído industrial. No ouvido direito nota-se uma perda auditiva para todas as bandas de frequências, principalmente na zona de conversação. Em comparação com o gráfico de perdas auditivas com a idade (Figura 18) este trabalhador está muito afastado dos valores para a sua idade, e segundo o gráfico Bell (Tabela 8) para a evolução da surdez profissional este trabalhador está no estádio 3, ou seja, perda auditiva atingindo as frequências infra e supraconversacionais, hipoacusia neuro-sensorial profunda. Trabalhador Nº 6 Tabela 41 - Perda auditiva do trabalhador nº 6. Nº trabalhador 6 Idade (anos) 45 Exposição (anos) 24 LEX,8h (dB) 89.2 Ouvido Esquerdo (Hz) Direito (Hz) Ano 500 1000 2000 4000 6000 500 1000 2000 4000 6000 Perda Média (BIAP) Classificação da perda 2010 35 40 35 35 40 25 30 30 40 55 33 Ligeira 2013 40 40 50 60 80 35 40 45 55 40 46,0 Moderada Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 67 Figura 36 - Ouvido Esquerdo Trabalhador nº 6 Figura 37 - Ouvido Direito Trabalhador nº 6 Tabela 42 - Historial e antecedentes do trabalhador 6 Historial/Antecedentes Sim Não Atividade anterior X Ferramentas ruidosas X Explosões X Traumatismo cranianos X Surdez familiar X Tabagismo X Doenças otológicas X Doenças infecciosas X Proteção auditiva X Ouve bem? X Sente zumbidos? X O trabalhador 6 apresenta a terceira maior perda auditiva da amostra em estudo, tem menos tempo de exposição que os dois trabalhadores anteriores e é mais novo também. Nos inquéritos indicou que já foi vítima de explosões e traumatismo craniano o que poderá ter agravado a perda de audição. Em comparação com o gráfico de perdas auditivas com a idade (Figura 18) este trabalhador está muito afastado dos valores para a sua idade, e segundo o gráfico Bell (Tabela 8) para a evolução da surdez profissional este trabalhador está no estádio 3, ou seja, perda auditiva atingindo as frequências infra e supraconversacionais, hipoacusia neuro-sensorial profunda. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 0 10 20 30 40 50 60 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 68 Resultados e Discussão Trabalhador Nº 26 Tabela 43 - Perda auditiva do trabalhador nº 26 Nº trabalhador 26 Idade (anos) 62 Exposição (anos) 36 LEX,8h (dB) 89.5 Ouvido Esquerdo (Hz) Direito (Hz) Ano 500 1000 2000 4000 6000 500 1000 2000 4000 6000 Perda Média (BIAP) Classificação da perda 2010 20 20 60 75 65 25 20 45 60 60 40 Ligeira 2013 20 20 60 70 80 35 20 55 60 65 45,0 Moderada Figura 38 - Ouvido Esquerdo Trabalhador nº 26 Figura 39 - Ouvido Direito Trabalhador nº 26 Tabela 44 - Historial e antecedentes do trabalhador 26 Historial/Antecedentes Sim Não Atividade anterior X Ferramentas ruidosas X Explosões X Traumatismo cranianos X Surdez familiar X Tabagismo X Doenças otológicas X Doenças infecciosas X Proteção auditiva X Ouve bem? X Sente zumbidos? X O trabalhador 26 é o trabalhador com mais idade na empresa e apresenta a 4ª maior perda auditiva da amostra em estudo. Nos inquéritos indicou que já foi vítima de explosões e traumatismo craniano o que poderá ter agravado a perda de audição. Em comparação com o gráfico de perdas auditivas com a idade (Figura 18) este trabalhador está muito afastado dos valores para a sua idade, e segundo o gráfico Bell (Tabela 8) para a evolução da surdez profissional este trabalhador está no estádio 3, ou 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 0 10 20 30 40 50 60 70 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 69 seja, perda auditiva atingindo as frequências infra e supraconversacionais, hipoacusia neuro-sensorial profunda. Trabalhador Nº 5 Tabela 45 - Perda auditiva do trabalhador nº 5 Nº trabalhador 5 Idade (anos) 52 Exposição (anos) 23 LEX,8h (dB) 91.8 Ouvido Esquerdo (Hz) Direito (Hz) Ano 500 1000 2000 4000 6000 500 1000 2000 4000 6000 Perda Média (BIAP) Classificação da perda 2010 35 40 25 30 30 20 15 5 15 25 20 Normal 2013 30 30 35 30 35 35 45 45 50 60 41,0 Moderada Figura 40 - Ouvido Esquerdo Trabalhador nº 5 Figura 41 - Ouvido Direito Trabalhador nº 5 Tabela 46 - Historial e antecedentes do trabalhador 5 Historial/Antecedentes Sim Não Atividade anterior X Ferramentas ruidosas X Explosões X Surdez familiar X Doenças otológicas X Doenças infecciosas X Proteção auditiva X Ouve bem? X Sente zumbidos? X O trabalhador 5 apresenta um valor elevado de perda auditiva, está à 23 anos na fabrica em estudo e nunca trabalhou noutra. Nos inquéritos indicou que já teve problemas otológicos e doenças infecciosas que podem causar danos auditivos. 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 0 10 20 30 40 50 60 70 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 dB Hz 2010 2013 Mestrado em Engenharia de Segurança e Higiene Ocupacionais 70 Discussão dos Resultados Em comparação com o gráfico de perdas auditivas com a idade (Figura 18) este trabalhador está muito afastado dos valores para a sua idade, e segundo o gráfico Bell (Tabela 8) para a evolução da surdez profissional este trabalhador está no estádio 3, ou seja, perda auditiva atingindo as frequências infra e supraconversacionais, hipoacusia neuro-sensorial profunda. Ruído Ocupacional e Perdas Auditivas numa Empresa do Ramo da Metalomecânica Beça, António 71 7 CONCLUSÕES E PERSPETIVAS FUTURAS O tamanho da amostra condiciona a obtenção de conclusões objetivas, devido, sobretudo, à metodologia aplicada e à incerteza associada aos dados utilizados. Neste tipo de estudos, o tamanho da amostra populacional deverá ser mais elevado para que se possam retirar conclusões mais fiáveis e assim retirar da amostra em estudo as situações que suscitem dúvidas. A exposição pessoal diária ao ruído está limitada aos estudos de ruído realizados na empresa, tendo sido utilizados, neste caso, os estudos de 2006, 2010 e 2011. Esta escassez de medições e a deficiente caracterização do ruído ocupacional nos locais de trabalho são fatores que conduzem a maior incerteza e condicionam este tipo de estudos. Por existirem trabalhadores que não têm postos de trabalho fixos, o cálculo da exposição pessoal diária ao ruído, através da determinação de n níveis sonoros durante t intervalos de tempo, poderá conduzir a um valor superior ou inferior ao valor real da exposição ao ruído. A eventual utilização de proteção auditiva por parte dos trabalhadores implicaria numa atenuação ao ruído. Foi assinalada nos inquéritos como uma prática frequente, mas é, contudo, necessário assinalar que, no passado, a utilização de EPI‟s poderá não ter sido uma prática corrente, pese embora a elevada percentagem de respostas do tipo „utiliza sempre/frequentemente EPI‟s auditiva‟ Do estudo das perdas auditivas, conclui-se que a maioria (52 %) dos trabalhadores em estudo apresenta perdas auditivas ligeiras. Com estes resultados é possível observar que 26 % dos trabalhadores têm uma perda auditiva considerada “normal e 22 % uma perda “moderada”. Nenhum trabalhador se encontra em situação de perda “severa” (acima de 71 dB) ou na situação de perda “total”. De referir que o valor máximo da perda “moderada” foi de 59 dB e que o intervalo desta perda está classificado entre 41 a 70 dB. Neste intervalo o discurso é entendido apenas quando se eleva o tom de voz e o indivíduo compreende melhor a mensagem se puder observar o interlocutor. Para as perdas auditivas médias por banda de frequências de 4000 Hz e 6000 Hz verificase que esta é mais significativa, sendo os valores mais altos para 4000 Hz, situação característica de escotoma. Quanto à perceção individual do estado auditivo. pode não existir uma relação direta com a perda auditiva, uma vez que dos trabalhadores com perda „normal‟ nenhum indicou este problema. Mas, dos 7 trabalhadores com perdas „moderadas‟ apenas 5 indicaram a perceção de limitações ao nível da audição, e dos 16 trabalhadores com perdas auditivas „ligeiras‟, apenas 6 referiram a perceção de limitações ao nível da audição. A aplicação da Análise em Componentes Principais (ACP) permitiu avaliar positivamente a consistência dos dados analisados. É possível verificar a similitude dos registos efectuados em 2006, 2010 e 2012 (traduzido na ACP pela projecção próxima dessas variáveis). As mesmas conclusões são válidas para as restantes variáveis projectadas muito próximas umas das outras. A partir da ACP foi possível reduzir a dimensionalidade dos dados de partida, possibilitando o cruzamento dos indivíduos com as variáveis quantitativas que os