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Análise de networks em futebol: estudo do padrão comportamental ofensivo do juniores C (sub-15) do Rio Ave Futebol Clube

Roberto Tiago Alves da Silva

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Análise de Networks em Futebol: Estudo do padrão comportamental ofensivo dos Juniores C (Sub-15) do Rio Ave Futebol Clube Relatório de Estágio Profissionalizante na equipa Juniores C do Rio Ave Futebol Clube – Futebol, SDUQ. Roberto Silva Porto, 2016 III Análise de Networks em Futebol: Estudo do padrão comportamental ofensivo dos Juniores C (Sub-15) do Rio Ave Futebol Clube Relatório de Estágio Profissionalizante na equipa Juniores C do Rio Ave Futebol Clube – Futebol, SDUQ. Relatório de Estágio apresentado à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto com vista à obtenção do 2º ciclo de estudos conducente ao grau de Mestre em Treino de Alto Rendimento Desportivo (Decreto-lei nº 74/2006 de 24 de março). Orientador: Professor Doutor Filipe Luís Martins Casanova Co-orientador: Mestre João Ribeiro Supervisor: Dr. Francisco Costa Roberto Tiago Alves da Silva Porto, junho de 2016 IV Ficha de catalogação Silva, R. (2016). Análise de Networks em Futebol: Estudo do padrão comportamental ofensivo dos Juniores C (Sub-15) do Rio Ave Futebol Clube. Porto: R. Silva. Relatório de estágio profissionalizante para a obtenção do grau de Mestre em Treino de Alto Rendimento Desportivo, apresentado à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Palavras-Chave: Futebol; Formação; Scouting; Networks. V Agradecimentos À Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, a todos os professores, colegas e funcionários, por me terem proporcionado um percurso académico de excelência. Ao Professor Doutor Filipe Casanova pela visão, rigor e disponibilidade permanente ao longo da realização deste trabalho. Ao Mestre João Ribeiro pela generosidade, experiência e entusiasmo prestados durante o desenvolvimento deste trabalho. Ao Rio Ave Futebol Clube pela calorosa integração como membro da sua instituição e pelas experiências incríveis, que em muito contribuíram para o meu crescimento. Ao Coordenador do Departamento de Formação do Rio Ave Futebol Clube, Francisco Costa, agradeço os conselhos, as opiniões e os conhecimentos transmitidos. Aqueles que sempre apoiaram todas as minhas decisões, que me incentivaram a lutar pelos meus sonhos e contribuíram para a minha formação enquanto pessoa e profissional, os meus pais. À Ritinha, por ser tão especial e fundamental na minha vida… Obrigado por TUDO. VII Índice Geral FOLHA DE ROSTO…………………………………………………….……… III FICHA DE CATALOGAÇÃO…………………………………………………. IV AGRADECIMENTOS……………….………………………………..………… V ÍNDICE GERAL……………………………………………………………….. VII ÍNDICE DE FIGURAS………………………………………………………… IX ÍNDICE DE TABELAS…………………………..……………………………. XI RESUMO………………………………………………………………………. XIII ABSTRACT……………………………………………………………………… XV LISTA DE ABREVIATURAS…………………………………………………. XVII 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................... 1 2 ENQUADRAMENTO DA PRÁTICA PROFISSIONAL ................................. 7 2.1 Contextualização Legal, Institucional e de Natureza Funcional ............ 7 2.1.1 O Clube ......................................................................................... 7 2.1.1.1 A história do Rio Ave Futebol Clube ........................................... 7 2.1.1.2 Órgãos Sociais e Diretivos do Clube ........................................... 9 2.1.2 O Departamento de Formação ...................................................... 9 2.1.2.1 Infraestruturas ............................................................................ 9 2.1.2.2 Organização ............................................................................. 10 2.1.2.3 A Equipa – Juniores C .............................................................. 12 2.1.2.3.1 . Caraterização dos jogadores ............................................. 12 2.1.2.3.2 Caraterização e funcionamento da equipa técnica .............. 13 2.1.3 O Departamento de Scouting ...................................................... 15 2.1.3.1 Observação aos Adversários .................................................... 15 2.1.3.2 Observação a jovens atletas .................................................... 16 2.2 Macro-contexto .................................................................................. 16 VIII 2.2.1 Scouting ...................................................................................... 16 2.2.1.1 Scouting – em que consiste? .................................................... 16 2.2.1.2 O Scouting aplicado ao futebol ................................................. 17 2.2.2 Networks ..................................................................................... 19 2.2.2.1 Perspetiva histórica das Networks ............................................ 19 2.2.2.2 Teoria das Networks................................................................. 20 2.2.2.3 Networks aplicadas ao desporto ............................................... 23 2.2.2.4 Networks aplicadas ao futebol .................................................. 25 3 REALIZAÇÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL ......................................... 31 3.1 Introdução .......................................................................................... 31 3.2 Material e Métodos ............................................................................. 35 3.2.1 Amostra ....................................................................................... 35 3.2.2 Procedimentos ............................................................................. 35 3.2.3 Procedimentos Estatísticos.......................................................... 38 3.3 Apresentação e Discussão dos Resultados ....................................... 39 3.4 Conclusão .......................................................................................... 49 4 CONCLUSÕES E PERSPETIVAS DE FUTURO ...................................... 53 5 SÍNTESE FINAL ....................................................................................... 59 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................... 69 IX Índice de Figuras Figura 1 - Organograma da estrutura diretiva. .................................................. 9 Figura 2 - Organograma da estrutura do Departamento de Formação. .......... 12 Figura 3 - Representação gráfica das interações estabelecidas pelos jogadores na equipa. ....................................................................................................... 21 Figura 4Representação esquemática de uma matriz de adjacência como Visitado, compreendendo as interações dos jogadores distribuídos pelas suas posições táticas especificas. ........................................................................... 36 Figura 5 - Representação esquemática de uma matriz de adjacência como Visitante, compreendendo as interações dos jogadores distribuídos pelas suas posições táticas especificas. ........................................................................... 36 Figura 6Valores médios da centralidade de intermediação por posição tática específica em função dos jogos realizados………………………………………..39 Figura 7Valores médios da centralidade de proximidade por posição tática específica em função dos jogos realizados. .................................................... 39 Figura 8Valores médios da centralidade de prestígio por posição tática específica em função dos jogos realizados…….………………………………….39 Figura 9Valores médios do coeficiente de agrupamento por posição tática específica em função dos jogos realizados. .................................................... 39 Figura 10Valores médios da centralidade de intermediação por posição tática tendo em consideração o contexto local do jogo. ............................................ 41 Figura 11Valores médios da centralidade de proximidade por posição tática tendo em consideração o contexto local do jogo. ............................................ 41 Figura 12Valores médios do centralidade de prestígio (eigenvector) por posição tática tendo em consideração o contexto local do jogo. ..................... 41 Figura 13Valores médios do coeficiente de agrupamento por posição tática tendo em consideração o contexto local do jogo. ............................................ 41 Figura 14Rio Ave F.C vs Moreirense F.C. .................................................... 44 Figura 15Rio Ave F.C. vs Varzim S.C .......................................................... 44 Figura 16Rio Ave F.C. vs F.C. Porto. ........................................................... 44 Figura 17Rio Ave F.C. vs C.D. Trofense. ..................................................... 44 Figura 18F.C. Paços Ferreira vs Rio Ave F.C. ............................................. 45 XVII Lista de Abreviaturas RAFC – Rio Ave Futebol Clube AFP – Associação de Futebol do Porto GR – Guarda Redes DD – Defesa Direito DCD – Defesa Central Direito DCEDefesa Central Esquerdo DE – Defesa Esquerdo MDC – Médio Defensivo Centro MCD – Medio Centro Direito MCE – Medio Centro Esquerdo ED – Extremo Direito PL – Ponta de Lança EE – Extremo Esquerdo CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO 1 1 INTRODUÇÃO O presente relatório surge do estágio realizado na equipa de Juniores C do Rio Ave Futebol Clube (RAFC), no âmbito do 2º Ciclo em Treino de Alto Rendimento Desportivo, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. O estágio é um processo de aprendizagem indispensável a um profissional que se deseja estar preparado para enfrentar os desafios da sua profissão, constituindo uma oportunidade de assimilar a teoria e a prática e de apreender as peculiaridades e a realidade do dia-a-dia da função de treinador. Assim, entendi o meu ano de estágio como uma oportunidade para colocar em prática os fundamentos teóricos aprendidos durante os vários anos de formação com o quotidiano desportivo. Durante esta época desportiva tive a oportunidade de explorar uma área sobre a qual nutro muito interesse, o Scouting, definido por Castelo (1996), como a observação da equipa adversária, necessária para uma melhor preparação do jogo, dotando o treinador de informações precisas sobre o adversário, que o capacitam para a orientação estratégico-tática do jogo. Garganta (2000) refere que o Scouting tem um grande peso na preparação das equipas para a competição, sendo uma “arma” utilizada por grande parte dos treinadores na atualidade. Visto que existe cada vez menos tempo para treinar, as equipas têm necessidade de alargar as suas tarefas a outras áreas com influência na preparação dos jogadores e das equipas, que não só a realização do treino, contando para isso com equipas multidisciplinares (Cunha, 2003). Assim, Martins (2000) definiu que os quatro objetivos específicos do Scouting consistem em:  Caraterizar o jogo do adversário;  Apoiar o treino;  Avaliar o trabalho desenvolvido;  Avaliar o desempenho da equipa. Quanto ao primeiro, a caraterização do jogo do adversário, assume-se como o objetivo primordial do Scouting, pois proporciona o conhecimento 2 máximo da equipa adversária, nomeadamente, nas suas estratégias coletivas ofensivas e defensivas e nos aspetos individuais nas vertentes técnica, tática, física e psicológica (Gomelski, 1990) . Assim, é possível estudar, entre outros, o sistema tático, os métodos de jogo, os esquemas táticos e as particularidades dos jogadores das equipas adversárias, cujos dados serão posteriormente utilizados na construção do plano de jogo. Relativamente ao segundo, o Scouting fornece elementos que permitem organizar o treino de modo a melhorar os jogadores e a equipa para o confronto do adversário. Assim, o treino será baseado na definição e consolidação de estratégias que sobreponham os “pontos fortes” da nossa equipa aos “pontos fracos” do adversário, evitando que os “pontos fortes” da equipa adversária se sobreponham aos “pontos fracos” da nossa equipa (Castelo, 1996). O terceiro objetivo fica claro citando Proença (1982, pp 36 ), quando refere que “a avaliação do resultado final não é suficiente para o treinador, sendo também imprescindível a avaliação do processo que conduziu a esse resultado final”. Por último, o quarto objetivo baseia-se no pressuposto de que a eficácia de qualquer comportamento é determinada pelo grau de identificação entre o objetivo traçado e o resultado obtido, obtendo-se, assim, uma avaliação isenta e fundamentada (Proença, 1982). Adicionalmente, durante esta época desportiva integrei a equipa técnica da equipa de Juniores C do RAFC, onde desempenhei a função de treinadoradjunto. Apesar de se tratar de uma função aparentemente secundária, a missão do treinador-adjunto é quase sempre fundamental no funcionamento da estrutura técnica de uma equipa de futebol e no seu relacionamento quer com a direção do clube e outros órgãos superiores, quer no relacionamento com os atletas. Assim, são da competência do treinador-adjunto as seguintes funções: - Apoio ao técnico principal, baseado numa ampla e constante troca de ideias e sugestões, fundamental para a manutenção da coesão do grupo de trabalho; - Recolha de informação relativamente à possibilidade de reforços ou adaptações do plantel, através de um contacto permanente com o departamento de Scouting do clube; 3 - Auxílio na direção da equipa dentro do campo, devendo estar constantemente preparado, não só para a substituição do treinador principal em caso de impedimento deste, como para prestar apoio aos jogadores em campo, estabelecendo diretrizes táticas e fornecendo sugestões quanto ao desempenho individual e coletivo da equipa; - Colaboração prática na direção do treino, através da troca de ideias e no fornecimento de sugestões ao treinador-principal relativamente à melhor preparação dos jogos durante os treinos semanais; - Auxílio na elaboração da lista de convocados e dos jogadores titulares, em conformidade com o estudo prévio das caraterísticas do adversário e, principalmente, baseado no conhecimento mais aprofundado do estado da forma física e técnica de cada atleta; - Cooperação na elaboração da lista de reforços a propor à direção, no âmbito da preparação da época seguinte, contribuindo com sugestões em conformidade com um conhecimento mais aprofundado acerca das possíveis lacunas e necessidades da equipa. Quanto ao treinador-adjunto é ainda importante referir que, tendo em conta as funções enumeradas anteriormente, Sabock (1985) elegeu caraterísticas fundamentais que este deve possuir, nomeadamente, a lealdade, a motivação, o entusiasmo, a confiança, a predisposição para o trabalho e a partilha de ideias. Este relatório de estágio profissionalizante procura transmitir as vivências experienciadas ao longo desta época desportiva, enquanto elemento da equipa técnica da equipa de Juniores C do RAFC. Procurando explicar o trabalho desenvolvido ao longo do ano de estágio, o presente relatório encontra-se estruturado da seguinte forma: - Introdução: apresenta-se como um capítulo meramente introdutório, onde se efetua uma apresentação dos temas abordados ao longo do trabalho e se indica a estrutura do relatório; - Enquadramento da Prática Profissional: onde se procede a uma descrição acerca da contextualização legal, institucional e de natureza funcional 4 e adicionalmente se inclui uma revisão da bibliografia, onde se articula um conjunto de informação relevante sobre os temas em estudo, nomeadamente, o Scouting e as Networks; - Realização da Prática Profissional: compreende o desenvolvimento de um estudo, sendo apresentados os seus principais resultados e conclusões; - Conclusões e Perspetivas de Futuro: consiste numa reflexão e análise crítica acerca do trabalho desenvolvido; - Síntese final: onde se apresenta sobre a forma de um resumo o trabalho desenvolvido; - Referências bibliográficas. CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO DA PRÁTICA PROFISSIONAL 12 sentem um acompanhamento mais efetivo em todas os momentos da prática da modalidade, nomeadamente treinos e jogos. Quando os jogos são disputados nas instalações do Rio Ave Futebol Clube procede-se à filmagem do respetivo jogo, para que após edição e análise permita melhorar os comportamentos técnicos e táticos dos atletas, sendo esta ferramenta aplicada transversalmente a todas as equipas da Formação. Figura 2 - Organograma da estrutura do Departamento de Formação. 2.1.2.3 A Equipa – Juniores C 2.1.2.3.1 . Caraterização dos jogadores Na época desportiva de 2015/2016 o escalão de Juniores C do Rio Ave Futebol Clube foi constituído por duas equipas, uma a competir no Campeonato Nacional de Juniores C e outra na 1ª Divisão Distrital da Associação de Futebol do Porto, que competiu com equipas de um escalão etário superior. A maioria dos jogadores que integravam as equipas já pertenciam ao clube no ano transato, o que facilitou a harmonia entre todos. Vice-Presidente António Pereira Juniores A Pedro C. Zé G. Juniores B Luis S. Tiago A. Juniores C Zé G. Eduardo M. Roberto S. Juniores D Paquito Bragança Coordenador Franscisco Costa 13 Tabela 1 - Plantel Sub-15 2015/2016. 2.1.2.3.2 Caraterização e funcionamento da equipa técnica Cada equipa técnica é constituída por um Treinador Principal, um Treinador Adjunto, um Preparador Físico, um Treinador de Guarda-redes e um Diretor (que exerce, simultaneamente, as funções de delegado ao jogo). A função do Treinador Principal consistiu em dirigir e avaliar os seus atletas, preparando-os para a competição e para as exigências associadas ao Nome Alcunha Escalão Posição Daniel Teixeira Dani Sub-15 Médio Ala Direito Frederico Martins Fred Sub-15 Lateral Direito Guilherme Aguiar Gui Sub-15 Médio Centro Hugo Macedo Santos Macedo Sub-15 Médio Ala Direito Nuno Fernandes Nuno Sub-15 Médio Centro Paulo Ribeiro Paulo Sub-15 Médio Ala Direito Rodrigo Dias Rodri Sub-15 Médio Centro Telmo Guedes Telmo Sub-15 Guarda Redes Vasco Moreira Moreira Sub-15 Médio Defensivo Diogo Figueiredo Didi Sub-15 Guarda Redes Ricardo Mota Mota Sub-15 Central Ruben Amaral Amaral Sub-15 Médio Centro Tomás Pimenta Pimenta Sub-15 Lateral Direito Tomás Martins Tomás Sub-15 Central Vasco Costa Costa Sub-15 Médio Centro Reinaldo Agostinho Reinaldo Sub-15 Ponta de Lança Bruno Rodrigues Bruno Rodrigues Sub-15 Ponta de Lança Israel Navarro Israel Sub-15 Lateral Esquerdo José Ferreira José Carlos Sub-15 Médio Centro Jorge Rodrigues Jorge Sub-15 Central Gonçalo Graça Graça Sub-15 Central Luís Leal Leal Sub-15 Médio Centro Vasco de Azevedo Gomes Vasco Gomes Sub-15 Médio Centro Diogo Manuel Maia Moreira Diogo Sub-15 Guarda Redes 14 patamar competitivo enquanto atleta de uma Clube como o RAFC. Assim, para exercer as suas funções, o treinador tem de ser portador de um perfil de competências tanto no domínio do conhecimento específico da modalidade como também no domínio das relações que se estabelecem dentro do grupo. É fundamental saber ser-se líder, planificador, motivador, fomentador do trabalho em equipa e promotor de um ambiente saudável e de sucesso que contagie todos os elementos do seu grupo. O Treinador Adjunto tem como tarefas (i) participar na organização e realização das sessões de treino e (ii) analisar a equipa e os adversários. Adicionalmente, tem a importante função de ser um elemento fomentador da criação de laços entre todos os elementos do plantel. Assim, a sua proximidade com os atletas permite controlar e manter níveis de motivação necessários para o estabelecimento de um grupo unido, com objetivos coletivos e individuais comuns. O Preparador Físico auxilia os restantes elementos da equipa técnica na orientação dos exercícios fundamentais para a melhoria do desempenho desportivo de cada atleta e da equipa como um todo. Durante as sessões de treino, trabalha com subgrupos de atletas de forma a potenciar as suas capacidades tais como coordenação, velocidade e força. Adicionalmente, tem a seu cargo a filmagem dos jogos realizados nas instalações do RAFC e, quando possível, no campo do adversário, fornecendo material para posterior análise pelos treinadores da equipa. O Treinador de Guarda-redes exerce funções simultaneamente nas duas equipas que constituem o escalão de Juniores C, alternando a sua presença entre os jogos de uma ou de outra equipa. Nos jogos em que não estava presente o aquecimento do guarda-redes titular era realizado pelo guarda-redes suplente. Assim, apesar de não estar permanentemente presente durante os jogos, o seu trabalho foi fundamental durante os treinos, onde constitui uma presença assídua. A função de Diretor é exercida por um dos dirigentes do Rio Ave Futebol Clube, sendo responsável pelo cargo de delegado ao jogo. 15 2.1.3 O Departamento de Scouting O Departamento de Scouting do Rio Ave Futebol Clube é liderado pelo coordenador do Departamento de Formação, o professor Francisco Costa. Este elabora um plano mensal de observação, que é realizado não só em função das equipas que vão ser adversárias do Clube mas também em função dos jogadores referenciados. As observações realizadas permitem conhecer o modelo, os princípios de jogo e os contextos onde as equipas adversárias jogam e, simultaneamente, fornecem informações sobre potenciais jogadores para integrarem as equipas da formação do Clube. Após a elaboração do plano mensal, as tarefas são distribuídas por uma equipa composta por diversos elementos, tais como, treinadores com formação académica superior, treinadores com inúmeros anos de experiência ao nível do futebol de formação e ex-jogadores de futebol profissional, ou seja, é uma equipa constituída por um conjunto alargado de pessoas que partilham um denominador como – a paixão pelo Futebol. 2.1.3.1 Observação aos Adversários Tal como descrito anteriormente, uma das principais funções do Departamento de Scouting do Clube é a da observação das equipas que serão adversárias de algum dos escalões do Departamento de Formação. A análise do jogo do adversário tem como objetivo fundamental a identificação do modelo de jogo, dos sistemas táticos e das transições adotadas pela equipa, assim como, a avaliação as caraterísticas individuais de cada jogador, para que sejam retiradas conclusões acerca dos pontos fortes e das debilidades que poderão ser exploradas pelas equipas do Clube. Sempre que existam as condições necessárias estas observações são realizadas presencialmente, procedendo-se à filmagem do jogo. Este registo através de vídeo é, muitas vezes, o preferido pois constitui um processo de avaliação mais rigoroso, que permite a manipulação da imagem e possibilita uma análise mais pormenorizada. Os vídeos obtidos são, posteriormente, observados e editados pelos elementos pertencentes à equipa técnica, que refletem sobre os mesmos e a partir daí desenvolvem diferentes estratégias tendo em vista a potenciação do desempenho da sua equipa. 16 2.1.3.2 Observação a jovens atletas Outra função primordial que é realizada pelo Departamento de Scouting consiste na observação de atletas que têm potencial para integrarem as equipas do Departamento de Formação do Clube. Este processo normalmente inicia-se aquando de um jogo entre uma equipa do RAFC e um adversário, tendo a equipa técnica um papel fundamental neste primeiro passo, pois, após cada jogo, esta deve preencher um documento onde existe um parâmetro referente a “jogadores a seguir”. Após o seu preenchimento, este documento é entregue no Departamento de Scouting que procede à sua análise. Caso seja concluído que o jogador referenciado poderá ser uma mais-valia para o Clube, são nomeados elementos do Departamento de Scouting para procederem a uma observação mais pormenorizada acerca do jogador, nomeadamente, em contexto de treino e de jogo. Após essa observação, é então decidido se o jogador tem ou não potencial para integrar a equipa, e, em caso afirmativo, procede-se a um contacto formal com o mesmo. De forma semelhante ao que acontece com a observação de adversários, a realização de uma filmagem também assume um papel importante ao nível da observação de atletas, pois, caso existam condições que permitam a sua realização durante o jogo, o processo descrito anteriormente fica agilizado. Assim, o Departamento de Scouting toma decisões mais concretas baseadas na observação e análise do vídeo do jogo. 2.2 Macro-contexto 2.2.1 Scouting 2.2.1.1 Scouting – em que consiste? Na atualidade é bastante frequente o recurso ao termo Scouting nas mais diversas áreas do mercado, sendo, cada vez mais entendido como uma valiosa ferramenta para o sucesso (Mendes, 2016). Ao nível da área desportiva, apesar da sua inquestionável importância, existem divergências quanto à sua melhor definição. Assim, alguns autores consideram que o Scouting consiste na observação, registo e conhecimento das caraterísticas coletivas e individuais do 17 adversário, nas vertentes técnica, tática, física e psicológica (Lopes, 2005). No entanto, Alves (1995) considera esta definição incompleta, uma vez que existem outros fatores e elementos que devem ser observados, tal como por exemplo, o meio onde a competição vai ocorrer, de forma a familiarizar os atletas com as condições existentes. Segundo Wooden (1988), o Scouting significa muito mais do que obter informações acerca do estilo de jogo do adversário, pois consiste também numa análise da informação em relação ao efeito que terá na sua própria equipa. Por último, Rocha (1996) considera o Scouting um instrumento de trabalho que permite aos treinadores adquirirem informações sobre os aspetos que considerarem mais relevantes para o estudo que se encontram a desenvolver. Desta forma, fica clara a importância do Scouting no alto rendimento desportivo, na medida em que potencia a preparação da equipa na competição, devendo ser considerado como uma parte importante do jogo, que permitirá alcançar elevados níveis de rendimento (Batista, 2014). 2.2.1.2 O Scouting aplicado ao futebol O futebol, na sua conceção atual, é um fenómeno de tal modo complexo que envolve um conjunto de pressupostos que podem ser alvo de várias reflexões. Assim, tem-se verificado um investimento considerável de recursos económicos por parte das equipas, nomeadamente na área do Scouting, com o objetivo de adquirirem informação que facilite a sua preparação (Batista, 2014; Ribeiro, 2009). O “instrumento” Scouting e a sua análise, tendo em conta o adversário e a própria equipa, apresenta-se no futebol como um complemento do próprio treinador, pois é através destes processos que o treinador tem acesso a todo o material indispensável para trabalhar nos treinos, de forma a preparar uma estratégia o mais eficiente possível. Adicionalmente, é dotado de inúmeras aplicabilidades, tais como, a preparação do jogo, a determinação de pontos fortes e fracos das equipas em confronto, a seleção de tendências e padrões de jogo, a observação de sistemas, a recolha de dados detalhados e organizados e a criação de situações de treino (Lopes, 2005). Nesta perspetiva, permite conhecer pormenorizadamente o adversário, coletiva e individualmente, 18 possibilitando ao treinador definir e preparar, com a equipa, a forma como quer abordar o jogo, atendendo às caraterísticas e às dificuldades que vai encontrar. Assim, o conhecimento que o treinador tem acerca do adversário permite-lhe planear e operacionalizar ainda melhor o treino, possibilitando a abordagem e a potenciação de alguns momentos e aspetos do jogo, em função do adversário que irá defrontar e das suas respetivas caraterísticas (Mendes, 2016). Assim, independentemente do contexto competitivo em que está inserido, do clube, das exigências e do plantel disponível, o Scouting permite obter informações relevantes que ajudam a delinear a forma como se prepara e encara o jogo. Sem perder a identidade que carateriza a equipa, nem alterar padrões comportamentais significativos, a análise do adversário permite identificar as condutas mais marcantes e ajustar, em consonância, exercícios e comportamentos. Desta forma, seja na análise a equipas adversárias, na construção de um modelo de treino e de jogo, ou ao encontro da necessidade cada vez mais profunda de encontrar bons jogadores dentro dos rigorosos limites orçamentais dos clubes, o Scouting tornou-se uma ferramenta indispensável ao papel do treinador de futebol (Mendes, 2016). Os variados instrumentos de análise utilizados pelos departamentos de Scouting afiguram-se, na sua generalidade, bastante dispendiosos, estando somente ao alcance das equipas profissionais que detém maiores recursos financeiros. Face a estas dificuldades, os analistas da performance desportiva procuram recorrer a outras técnicas de análise, de preferência menos dispendiosas e compatíveis com a realidade económica e financeira do clube onde desempenham funções, que contribuam para um constante desenvolvimento e enriquecimento do processo de Scouting. A análise de redes sociais (networks) consiste numa área emergente no plano desportivo com forte aplicabilidade no estudo da estrutura de interações estabelecidas pelos jogadores no seio da equipa (Passos et al., 2011), compreendendo um conjunto de princípios metodológicos sustentados por um plano teórico que permite identificar e analisar os padrões comportamentais ofensivos das equipas nos mais variados contextos desportivos. Alguns dos softwares mais dispendiosos utilizados no âmbito da análise da performance desportiva incorporam este método da análise de redes (e.g., Amisco e Prozone), no entanto, este tipo de 19 análise pode ser aplicada em qualquer contexto, não estando dependente do uso exclusivo deste tipo de ferramentas. 2.2.2 Networks Desenvolvimentos recentes baseados na sobreposição de várias disciplinas, como a Sociologia, a Economia, a Antropologia, a Matemática, a Ciência Política, a História e a Psicologia Social, proporcionaram o surgimento de uma nova abordagem para a análise das interações complexas intra-grupo. Assim, surgiu o conceito de networks definido como um conjunto de princípios e ferramentas metodológicas que incidem sobre a estrutura de interações desenvolvidas pelos elementos que compõem uma determinada entidade social, com consequentes implicações ao nível dos padrões organizacionais e funcionais (Lusher & Robins, 2010). 2.2.2.1 Perspetiva histórica das Networks O primeiro trabalho elaborado no âmbito da análise de redes (networks) remonta ao ano de 1736, quando o matemático Leonard Euler recorreu à representação gráfica para solucionar o enigma matemático conhecido pelo problema das sete pontes de Königsberg (Newman et al., 2006). Nas décadas seguintes, a aplicação das Networks ultrapassou o domínio da matemática e passou a ser um importante recurso nas áreas da engenharia, da investigação e das ciências computacionais (Newman et al., 2006) . Alguns anos mais tarde, em 1932, o psiquiatra Moreno e a sua colaboradora Helen Jennings realizaram um trabalho conjunto baseado na investigação da estrutura das redes sociais, primeiro num reformatório para raparigas, onde ao analisarem a fuga de um número significativo de meninas dessa escola em Nova Iorque verificaram que a sua decisão esteve mais relacionada com a sua posição na rede social do que com fatores individuais e de motivação e, posteriormente, num estabelecimento prisional. Em 1934, utilizaram a expressão “sociometria” para apelidarem o seu trabalho, 20 introduzindo a ideia de representar as estruturas sociais como uma rede de diagramas (sociogramas) compostos por pontos e linhas. Assim, surgiu um novo conceito que serviria de base aos trabalhos futuros desenvolvidos na área das Networks (Gonçalves, 2011). Os anos seguintes foram marcados por avanços significativos, tendo surgido nos anos 40 e 50 a álgebra matricial e a teoria dos grafos, com a formalização de conceitos socio-psicológicos fundamentais, bem como o desenvolvimento de um programa de experimentação laboratorial em Networks, o qual procurou analisar os efeitos de diferentes estruturas de Networks de comunicação sobre a capacidade dos grupos resolverem problemas (Borgatti et al., 2009). Durante a década de 50, a análise de Networks foi intensamente explorada pelos sociólogos com o objetivo de estudarem as mudanças sociais ocorridas nas cidades. A partir da década de 60, a análise de Networks passou a ser uma importante ferramenta antropológica para o estudo da sociedade enquanto rede social. Nos anos 70, o foco da investigação das Networks direcionou-se para a Sociologia, tendo-se verificado que indivíduos estruturalmente equivalentes, vivendo em ambientes sociais semelhantes, desenvolvem respostas semelhantes, (e.g., atitudes e comportamentos (Borgatti et al., 2009). Desde a década de 90, as Networks foram exploradas por uma ampla variedade de áreas, tais como a física, a biologia, a gestão, a saúde e o crime, permitindo a aquisição de novos conhecimentos impulsionadores do surgimento da teoria das Networks (Borgatti et al., 2009; Newman et al., 2006). 2.2.2.2 Teoria das Networks A análise de redes (Networks) é caraterizada por uma identidade específica, que a distingue das demais áreas do conhecimento (Newman et al., 2006). Assim, relativamente à terminologia utilizada pelas networks, esta compreende uma linguagem singular, com referência frequente a expressões como “vértices”, “nodos” e “ligações”. No contexto das Networks, os “vértices” ou “nodos” correspondem aos elementos de uma rede, seja ela de caráter tecnológico, social ou biológico, sendo as “ligações” exemplificadas por via 21 gráfica através de setas as quais representam o elo de ligação entre os elementos de determinada rede. Assim, uma rede (e.g., social) consiste num conjunto de elementos (futebolistas), designados “ vértices” ou “nodos” e pelas “ligações” ” (e.g., passes entre colegas de equipa) estabelecidas por esses elementos (Pereira, 2015). Relativamente à sua contribuição na análise de um jogo de futebol, as Networks fornecem um conjunto de representações gráficas dos padrões comportamentais ofensivos de uma equipa, a partir das quais é possível adquirir informações relevantes, tais como por exemplo, identificar os padrões comportamentais ofensivos da equipa tendo como referência os canais preferenciais de circulação da bola, caraterizar a equipa quanto à densidade de interações estabelecidas pelos jogadores, onde redes mais densas sugerem níveis de interação equilibrados por parte de todos os jogadores da equipa (Grund, 2012). Por outro lado, permite-nos identificar se o jogo ofensivo da equipa está dependente do input de determinados jogadores “chave”, essenciais na construção e organização da fase ofensiva do jogo (Dutch et al., 2010; Grund, 2012; Gama et al., 2014; Malta & Travassos, 2014). Adicionalmente, é possível determinar as áreas do campo privilegiadas ou negligenciadas pela equipa na construção do seu jogo ofensivo, analisar se a equipa recorre mais a passes de curta ou de longa distância e determinar se um jogador intervém o suficiente durante um jogo (ver figura 3) (Gama et al., 2014). Por outro lado, a utilização Figura 3 - Representação gráfica das interações estabelecidas pelos jogadores na equipa. 28 Mais recentemente, em 2015, realizou-se um estudo que consistiu na criação de um conjunto de Networks com o objetivo de medir as propriedades específicas de uma equipa. Procedeu-se à análise de 577 jogadas, ocorridas durante cinco jogos, tendo as métricas sido organizadas em níveis de análise macro. A densidade da rede mostrou uma relação ambígua entre a equipa, principalmente durante a segunda parte dos jogos, enquanto os valores de centralização evidenciaram que não houve uma “topologia em estrela”. Em síntese, estas métricas mostraram que é possível identificar como os jogadores se conectam uns com os outros e o tipo e a força das conexões entre eles. Assim, podem ser entendidas como uma ferramenta poderosa para ajudar os treinadores a compreenderem as propriedades específicas da equipa e a tomarem decisões relativamente ao processo de formação desportiva (Clemente et al., 2015). CAPÍTULO III – REALIZAÇÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL 31 3 REALIZAÇÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL 3.1 Introdução O futebol carateriza-se por ser um jogo desportivo coletivo, onde os seus protagonistas estão agrupados em duas equipas, que mantém entre si uma competição constante pela posse de bola, com o objetivo primordial de a introduzir, o maior número de vezes possível, na baliza adversária e evitar que esta entre na sua própria baliza, alcançando assim a vitória (Moreira, 2009). No futebol, a observação e a análise do jogo são essenciais para caraterizar as exigências específicas que são impostas aos jogadores em situação competitiva. Esta abordagem permite descrever a performance a um nível comportamental, procurando descodificar as ações realizadas pelos intervenientes no âmbito das respetivas equipas. Nesta base, a análise do jogo de futebol surge como um meio privilegiado a que os treinadores recorrem para melhorar a qualidade da prestação desportiva da equipa (Vaz et al., 2014). Durante vários anos a análise do desempenho desportivo baseou-se na mera extração e quantificação de dados estatísticos (e.g., número de passes, remates, interceções etc.) provenientes de contextos competitivos (Sarmento et al., 2014). No entanto, apesar da sua reconhecida importância no âmbito da análise do rendimento desportivo das equipas, a análise isolada e descontextualizada de determinados indicadores de performance (i.e., técnicos e físicos) por si só não se afigura suficiente e adequada perante a complexidade que carateriza o jogo de futebol. Por outro lado, a utilização de determinados paradigmas de estudo na investigação dos jogos desportivos (e.g., teoria dos sistemas complexos) permitiram analisar o comportamento como o resultado da interação dos elementos de um sistema (McGarry, 2009). Neste sentido, as equipas de futebol podem ser entendidas como sistemas sociais complexos compostas por elementos (futebolistas) que cooperam e coordenam as suas ações com vista à obtenção de objetivos comuns de performance (Duarte et al., 2012). Com base nestas premissas, importa aferir a variabilidade dos comportamentos cooperativos/coordenativos dos jogadores e das equipas enquanto sistemas sociais complexos, de maneira que se possam identificar determinados padrões de coordenação espácio-temporais inter e intra-equipa 32 caraterizadores do comportamento coletivo das equipas. Esta conceptualização das equipas enquanto sistemas socias complexos cuja elevada complexidade está enraizada numa rede intrincada de inúmeras interações protagonizadas pelos agentes do sistema (futebolistas) sugere a adoção de diferentes metodologias coerentes com este tipo de pressupostos. Nos últimos anos, o avanço tecnológico marcado pelo uso de determinados softwares de análise de jogo (e.g., Amisco e ProZone) assim como a tecnologia de vídeo-computorização ou dispositivos de análise do movimento (GPS) (Frencken et al., 2011; Silva et al., 2014; Silva et al., 2014 Frias & Duarte, 2014) possibilitou incrementar e enriquecer o tipo de análise elaborada no âmbito do estudo do rendimento dos padrões comportamentais dos jogadores e das equipas (Duch et al., 2010; Passos et al., 2011). Uma das novas metodologias propostas na literatura científica para a análise do comportamento individual e coletivo dos jogadores e das equipas compreende a análise de Networks (Passos et al., 2011). De acordo com esta nova metodologia, o comportamento coletivo exibido por uma equipa é sustentado por uma plataforma comunicacional específica, caraterística de cada equipa, através da qual os jogadores interagem e promovem a transferência de determinados recursos (e.g., troca de bola entre jogadores). A teoria das Networks utiliza uma terminologia específica e perspetiva os futebolistas como “nós” ou “vértices” que compõem determinada Network (equipa), estando interligados através de uma variável informacional específica (e.g., passe). Em, síntese, de acordo com o estipulado pela análise das Networks, as equipas são entendidas como sistemas sociais complexos cujos padrões comportamentais ofensivos são suportados por um sistema comunicacional específico que confere singularidade às equipas, no que concerne, por exemplo, à densidade de interações estabelecidas pelos futebolistas, tipo de subgrupos emergentes no seio da equipa assim como a existência de determinados jogadores controladores do fluxo de informação de uma equipa. No futebol existem determinadas variáveis situacionais que podem condicionar este sistema comunicacional específico e o consequente padrão comportamental ofensivo dos jogadores de uma equipa durante uma competição, assumindo-se a localização do jogo (casa ou fora) como um dos 33 mais importantes determinantes do resultado de um jogo (Lago et al., 2010). No entanto, até ao momento não conseguimos encontrar na literatura científica estudos que abordem os efeitos induzidos pela variável situacional, localização do jogo (casa vs fora), no padrão comportamental ofensivo exibido pelas equipas, tendo em consideração a metodologia das networks. Alguns autores consideram que o “fator casa” proporciona uma vantagem técnica, tática e dos comportamentos estratégicos das equipas de futebol profissional, sendo que as equipas que jogam em casa tendem a possuir maior posse de bola, a privilegiar zonas ofensivas e a realizar um maior número de ações atacantes, nomeadamente, remates à baliza e golos (Almeida et al., 2014; Carlos Lago et al., 2011; Carlos Lago & Dellal, 2010; Taylor et al., 2008). Assim, Sacaki e colaboradores (1999) ao avaliar uma equipa profissional de futebol britânica verificaram que esta apresentou maior número de cruzamentos, tentativas de golo, remates à baliza e golos nos jogos em casa do que nos jogos realizados no campo do adversário. No seu estudo, Tucker e colaboradores (2005) apresentaram resultados semelhantes e acrescentaram que as equipas realizam um maior número de passes falhados, perdas de bola e pontapés de baliza quando jogam fora. Lago (2009) analisou a influência da localização do jogo (casa ou fora), da qualidade de oposição e do estado do jogo nas estratégias de posse de bola de uma equipa de futebol. Relativamente à variável localização do jogo, verificou que quando a equipa jogou em casa não apresentou variações da posse de bola. No entanto, os resultados obtidos não são concordantes com os obtidos por Lago & Martim (2007) que concluíram que uma equipa tem maior posse de bola quando joga em casa do que quando joga fora. Já, Liu e colaboradores (2016) avaliou o desempenho técnico e a variação jogo a jogo de equipas de futebol de elite e verificou que a variação do desempenho de uma equipa quando joga em casa é inferior à encontrada quando joga fora, tendo sugerido como possível explicação, que quando a equipa joga em casa, os jogadores estão mais familiarizados com as instalações e o meio ambiente, apresentando estados psico-fisiológicos mais positivos. Apesar da importância destes resultados encontrados nos estudos supracitados, importa analisar quais os efeitos induzidos por determinadas variáveis 34 situacionais (e.g., contexto local do jogo) na performance individual e coletiva dos jogadores e equipas, nomeadamente na rede global de interações estabelecidas por jogadores de diferentes posições táticas. Neste sentido, e face ao exposto, formulamos os seguintes objetivos: Objetivo Geral: - Observar e analisar a variação do padrão comportamental ofensivo da equipa de juniores C do RAFC tendo em conta a localização do jogo (casa vs fora). Objetivos Específicos: - Caraterizar os jogadores distribuídos pelas posições táticas específicas (defesas, médios e avançados) quanto ao grau de importância, medido pelo grau de centralidade, intermediação, proximidade e centralidade de prestígio, atribuído nos jogos realizados em casa e fora. - Analisar os efeitos induzidos pela variável situacional (localização do jogo) sobre a densidade de interações, emergência de subgrupos e proeminência de determinados jogadores no comportamento ofensivo da equipa. 35 3.2 Material e Métodos 3.2.1 Amostra A amostra foi constituída por oito jogos do escalão Sub-15 do Rio Ave Futebol Clube (RAFC), inseridos no Campeonato Nacional de Juniores C, da Associação de Futebol do Porto. Dos oito jogos analisados, quatro foram disputados nas instalações desportivas do Rio Ave (RAFC vs Moreirense F.C.; RAFC vs F.C. Porto; RAFC vs Varzim S.C. e RAFC vs C.D. Trofense) e quatro no campo do adversário (F.C. Paços de Ferreira vs RAFC; F.C. Porto vs RAFC, S.C. Régua vs RAFC e F.C. Penafiel vs RAFC), tendo ambos a duração de 70 minutos. 3.2.2 Procedimentos Os jogos foram filmados tendo em consideração o contexto local do jogo, dos quais quatro jogos foram filmados nas instalações desportivas do RAFC e os outros quatro nas instalações dos adversários, contabilizando um total de 713 passes realizados nos jogos em casa e 615 nos jogos realizados fora. Para a devida gravação dos jogos foi utilizada uma câmara JVC, que registou imagens a 30Hz. Para a análise dos jogos foi identificado o dispositivo tático utilizado pela equipa, o 1-4-3-3, com o objetivo de identificar o posicionamento de cada jogador em campo. Através do software Dartfish foi criado um painel composto por um total de onze nomenclaturas, tendo os jogadores sido classificados quanto à sua posição tática específica em: GR – Guarda Redes, DD – Defesa Direito, DCD – Defesa Central Direito, DCE – Defesa Central Esquerdo, DE – Defesa Esquerdo, MDC – Médio Defensivo Centro, MCD – Médio Centro Direito, MCE – Médio Centro Esquerdo, ED – Extremo direito, PL – Ponta de lança e EE – Extremo Esquerdo. Posteriormente, aquando da observação do vídeo dos respetivos jogos, e recorrendo novamente ao software Dartfish, foram registadas as interações dos jogadores, nomeadamente o passe, que consiste na transferência da bola de um jogador para outro da mesma equipa, considerandose um passe positivo se o colega ficar na posse da bola e um passe negativo se o colega não ficar na posse da bola. (Castelo, 1996; Guilherme, 2013). Seguidamente, o ficheiro resultante foi exportado para o Excel, onde foram criadas duas colunas correspondentes ao “passador” e ao “recetor”, com base 36 nas quais foi construída uma matriz de adjacência, que contabiliza o total de interações dos atletas. Para a análise das sequências ofensivas, definidas como o momento a partir do qual a equipa observada recupera a posse de bola, foram construídas matrizes de adjacência, as quais comportam todos os jogadores da equipa, representados pelas suas posições táticas específicas, num sistema de “n x n”. O critério adotado para o registo das sequências ofensivas correspondeu a todas aquelas que se iniciaram com a recuperação da posse de bola até à perda da mesma, independentemente da zona do campo. Todas as matrizes de adjacência foram elaboradas com recurso ao Excel. No total foram criadas oito matrizes de adjacência, correspondentes à totalidade de sequências ofensivas referentes a cada um dos oito jogos analisados (ver como exemplo Figura 4 e Figura 5). O passo seguinte consistiu na exportação de cada matriz de adjacência do Excel para o software Node XL, onde se procedeu à aplicação e cálculo de um conjunto de métricas, nomeadamente, centralidade de intermediação (betweenness), centralidade de prestígio (eigenvector), centralidade de proximidade (closeness), coeficiente de agrupamento (clustering coefficient), total de passes com sucesso e densidade (Tabela 2). Através deste software foi possível obter a representação gráfica das ligações entre os jogadores bem como a sua força. Figura 5 - Representação esquemática de uma matriz de adjacência como Visitante, compreendendo as interações dos jogadores distribuídos pelas suas posições táticas especificas. Figura 4Representação esquemática de uma matriz de adjacência como Visitado, compreendendo as interações dos jogadores distribuídos pelas suas posições táticas especificas. 37 Tabela 2Caraterização das Métricas. Métrica Equação Definição Aplicabilidade no Futebol Centralidade de intermediação (Betweenness) Corresponde ao número total de caminhos geodésicos entre dois outros vértices que passam por um determinado vértice. Vértices com elevada betweenness ocupam uma posição importante na rede, pois permitem que sejam usados como meio de ligação entre diferentes regiões da rede. Analisa o número de vezes que um ou mais jogadores promove(m) a ligação entre outros pares de jogadores. Captura o fluxo de informação que determinado(s) jogador(es) controla(m) no seio da equipa. Por exemplo, jogador responsável pela ligação do setor recuado com o setor intermédio. Centralidade de Prestígio (Eigenvector) É baseada na ideia de que o poder e o estatuto de um vértice são definidos pelo poder e estatuto dos seus vizinhos. Determina a ligação entre todos os jogadores, atribuindo uma pontuação mais alta às ligações dos jogadores mais valiosos. Coeficiente de agrupamento (clustering coefficient) O coeficiente de agrupamento mede o grau de densidade de ligações da vizinhança de um dado nó. Procura a existência de subgrupos dentro da própria equipa, ou seja, determinados jogadores que cooperam e se coordenam mais entre si. Centralidade de proximidade (Closeness) Corresponde à posição global de um determinado vértice na rede. Analisa o(s) jogador(s) que estão mais próximos de outros jogadores no seio da rede da equipa. Aquele ou aqueles que apresentar(em) menores valores de centralidade de proximidade, estão mais próximos dos colegas de equipa, podendo 44 permite-nos inferir que os avançados são os jogadores que apresentam os valores mais elevados, tanto nos jogos em casa como nos jogos fora. Relativamente aos jogos em casa, seguem-se os médios e, por último, os defesas. No entanto, nos jogos realizados fora, os segundos valores mais elevados correspondem aos defesas e os valores mais baixos, aos médios. Os resultados obtidos permitem-nos perceber graficamente, em função do contexto local do jogo (casa ou fora), quais as tendências de padrão de jogo que a equipa tende a apresentar (ver Figuras 14,15,16 e 17). Esta informação recolhida pode assumir elevada importância para o treinador, tanto ao nível da organização do treino como da preparação de uma competição, pois permite um conhecimento mais aprofundado acerca da equipa. Figura 14Rio Ave F.C vs Moreirense F.C. Figura 15Rio Ave F.C. vs Varzim S.C Figura 16Rio Ave F.C. vs F.C. Porto. Figura 17Rio Ave F.C. vs C.D. Trofense. 45 Relativamente à análise das ligações interpessoais durante os jogos realizados em casa, verificamos que a reposição de bola em jogo por parte do guarda-redes (GR), através da realização de passes curtos para os jogadores mais próximos, nomeadamente para o DCE e DCD, constituiu a base para a primeira fase de construção do jogo. Adicionalmente, verificou-se que os jogadores com maior influência na equipa durante os jogos realizados em casa foram os jogadores do meio-campo, nomeadamente MCE, MCD e MDC, uma vez que, foram os jogadores que tiveram um maior papel de intermediação (betweeness) entre os restantes atletas da equipa. Também, se verificou que os extremos (ED e EE) foram maioritariamente solicitados pelos médios interiores (MCE e MCD) e pelos laterais (DD e DE) do seu corredor, acentuando a importância da dinâmica pelos corredores criada pelos defesas laterais, médios interiores e extremos, como uma das estratégias mais utilizadas pela equipa quando em posse de bola. Por último, é importante destacar o envolvimento do ponta-de-lança (PL) na zona de finalização, evidenciando-se como um dos principais alvos da equipa no último terço do campo, com o objetivo de atingir o golo. Figura 18F.C. Paços Ferreira vs Rio Ave F.C. Figura 19S.C. Régua vs Rio ave F.C. Figura 20F.C. Porto vs Rio Ave F.C. Figura 21F.C. Penafiel vs Rio Ave F.C. 46 Relativamente à análise das ligações interpessoais durante os jogos realizados fora, verificamos que a reposição de bola em jogo por parte do guarda-redes (GR), não assumiu um padrão uniforme em todos os jogos, procedendo à reposição da mesma através do recurso a diferentes passes, nomeadamente, passes curtos para os jogadores mais próximos, como o DCE e DCD, passes estratégicos para os corredores laterais, nomeadamente para o DE, o EE, o DD e o ED, e passes longos diretamente para a zona mais ofensiva do terreno, privilegiando a ligação direta entre o setor defensivo e o atacante. Adicionalmente, constatou-se que o jogador com maior influência na equipa durante os jogos realizados no campo do adversário foi o MCE, uma vez que, foi o jogador que teve um maior papel de intermediação (betweeness) entre os restantes atletas da equipa, sendo de destacar os passes estabelecidos com o DE e o EE. Também, se verificou que os extremos (ED e EE) foram maioritariamente solicitados pelos médios interiores (MCE e MCD) e pelos laterais (DD e DE) do seu corredor, verificando-se, no entanto, uma preponderância do corredor esquerdo relativamente ao direito. Por último, é importante destacar que o ponta-de-lança (PL) foi um jogador bastante solicitado, tendo estabelecido ligações com os atletas de todos os setores do campo. Figura 23Total de interações como Visitante. Figura 22Total de interações como Visitado. 47 Procedendo-se a uma análise comparativa relativamente ao padrão de jogo adotado pela equipa quando joga em casa e quando joga no campo do adversário, verificou-se que a equipa adota um padrão de jogo diferente consoante o local do jogo, apesar de manter linhas gerais comuns. Assim, verificaram-se essencialmente alterações ao nível da preponderância dos jogadores do meio-campo, pois, enquanto que nos jogos em casa, o MDC, MCD e o MCE assumem um papel fundamental na equipa, sendo os principais intermediadores entre os atletas, nos jogos realizados no campo do adversário, apesar de um ligeiro destaque para o MCE, verificou-se uma maior equivalência na importância relativa de cada jogador. Tabela 3Estatística descritiva (média, mediana e desvio padrão) dos indicadores globais das networks tendo em consideração a localização do jogo (casa vs fora). Pela análise da Tabela 3, podemos verificar que a densidade média da equipa em casa foi de 0.55±0.16 e nos jogos fora foi de 0,56±0.09. Assim, visto que a densidade de interações de uma equipa se pode relacionar com a posse de bola da mesma, e que os valores de densidade apresentados são iguais, quer a equipa jogue em casa ou fora, podemos afirmar que não existem grandes oscilações entre a posse de bola apresentada pela equipa em função da localização do jogo. Os valores obtidos não estão de acordo com os resultados apresentados nos estudos realizados por Lago e Martin (2007) e Thomas e colaboradores (2004), que referiram que as equipas que jogam em casa obtiveram uma maior posse de bola relativamente ao valor de posse de bola apresentado quando as mesmas equipas jogam fora. Indicadores das Networks Localização do jogo N Média Mediana Dp Densidade Casa 4 ,55 ,54 ,16 Fora 4 ,56 ,56 ,09 Coeficiente de Agrupamento Casa 4 ,58 ,58 ,18 Fora 4 ,61 ,60 ,05 Total passes de sucesso Casa 4 60,75 59,00 17,80 Fora 4 61,00 61,5 10,42 48 Relativamente ao Coeficiente de agrupamento (clustering coefficient), verificamos que o valor médio em casa é de 0,58± 0,18 e fora 0,61 ± 0,05. Assim, uma vez que, o Coeficiente de Agrupamento representa a tendência da equipa para formar subgrupos de jogadores que interagem preferencialmente uns com os outros, verificamos que essa tendência é ligeiramente superior nos jogos realizados no campo do adversário comparativamente aos jogos realizados em casa. Por último, quando se procede à análise da média do número de passes efetuados com sucesso em função da localização do jogo, podemos verificar que a média dos passes realizados em casa foi de 60,75 ± 17,80 e fora de 61 ± 10,42, ou seja, os valores encontram-se bastante próximos. Os resultados obtidos diferem dos encontrados em estudos anteriores, os quais constataram que nos jogos realizados em casa, as equipas tendem a realizar um maior número de ações ofensivas, nomeadamente, passes, golos e cruzamentos. Assim, consideram que a vantagem de jogar em casa pode ser um importante determinante do resultado do jogo (Lago et al., 2009; Lago et al.,2011; Taylor et al., 2008; Tucker et al., 2005). Tabela 4Teste Mann-Whitney para comparação das medianas dos indicadores das networks por localização do jogo (casa vs fora). Indicadores das Networks U p Densidade 7.0 0,89 Coeficiente de Agrupamento 7.0 0,89 Total de passes com sucesso 7.0 0,89 Recorreu-se ao teste de Mann-Whitney para verificar se existiam diferenças estatisticamente significativas nos padrões comportamentais ofensivos efetuados pela equipa nos jogos realizados em casa e fora. Pela análise da Tabela 4, designadamente pelos valores a negrito referentes ao nível de significância, confirma-se que não existem diferenças estatisticamente significativas (p< 0,05 para todos os casos) entre os diferentes indicadores de performance, nomeadamente, a densidade de interações dos 49 jogadores, o número total de passes efetuados com sucesso e o coeficiente de agrupamento para os jogos disputados em casa e fora. 3.4 Conclusão Este estudo teve como objetivo fundamental analisar a variação do padrão comportamental ofensivo da equipa de juniores C do RAFC, tendo em conta a localização do jogo (casa vs fora) e verificar se a ação da equipa e dos seus intervenientes no âmbito de um jogo de futebol podia ser caraterizada por uma network suportada em várias decisões individuais e estratégias coletivas. Assim, mais especificamente, pretendeu-se verificar quais os efeitos produzidos pela variável situacional (local do jogo) ao nível da densidade de interações, emergência de subgrupos ou comunidades dentro do seio da equipa e a prominência de determinados jogadores no comportamento ofensivo da equipa. Pretendeu-se também caraterizar as posições táticas específicas (defesas, médios e avançados) quanto ao grau de importância atribuído à sua performance nos jogos realizados em casa e fora. Relativamente à analise da variação do padrão comportamental da equipa de Juniores C do RAFC em função da localização do jogo (casa vs fora), e através da visualização gráfica das Networks, concluiu-se que a equipa adota uma padrão de jogo diferente consoante o local do jogo, apesar de manter linhas gerais comuns. Assim, verificaram-se essencialmente alterações ao nível da preponderância dos jogadores do meio-campo, pois, enquanto nos jogos em casa, o MDC, MCD e o MCE assumiram um papel fundamental na equipa, sendo os principais intermediadores entre os atletas, nos jogos realizados no campo do adversário, apesar de um ligeiro destaque para o MCE, verificou-se uma maior equivalência na importância relativa de cada jogador. A análise da caraterização das posições táticas especificas demostrou que relativamente às medidas de centralidade de intermediação (betweenness), coeficiente de agrupamento (clustering coefficient), proximidade (closeness) e centralidade de prestígio (eigenvector), os médios foram os elementos da equipa que obtiveram valores mais elevados, seguidos dos defesas e, por último, dos 50 avançados. No entanto, quanto ao coeficiente de agrupamento, os avançados destacaram-se com os valores mais elevados. Através da interpretação da estatística descritiva dos indicadores das networks tendo em consideração a localização do jogo (casa vs fora) constatouse que os valores médios de densidade, coeficiente de agrupamento (clustering coefficient) e total de passes de sucesso evidenciados pela equipa foram bastante similares, não se registando diferenças estatisticamente significativas entre os indicadores de performance global por local de jogo Por último, quanto à sua aplicação prática, a metodologia de análise de networks utilizada neste estudo forneceu um leque amplo de informações acerca dos padrões de jogo ofensivo do RAFC, permitindo que os treinadores ajustassem o modelo de jogo e estabelecessem novas metodologias de treino de acordo com as necessidades técnicas e táticas evidenciadas pela equipa durante o momento de jogo. CAPÍTULO IV – CONCLUSÕES E PERSPETIVAS DE FUTURO 53 4 CONCLUSÕES E PERSPETIVAS DE FUTURO O meu percurso no Departamento de Formação do Rio Ave Futebol Clube começou em 2012, quando integrei a Escola de Lazer. Nas épocas desportivas seguintes pertenci a diferentes equipas técnicas, sendo que na época desportiva de 2015/2016 acumulei as funções de treinador-adjunto no Escalão de Sub-10 e integrei a equipa técnica do escalão de Juniores C. Apesar de ter responsabilidades diferentes em cada um dos escalões procurei durante toda a época desportiva estar sempre disponível e ser empenhado em todas as tarefas. Assim, no Escalão de Sub-10 a minha função consistiu em programar e planear todas as unidades de treino. Para que estas se adequassem ao escalão etário dos atletas e, simultaneamente, permitissem potenciar as suas qualidades procurei incluir exercícios lúdicos com exercícios mais específicos da modalidade do futebol, não descorando o treino das capacidades motoras. Sendo que esta equipa é a base de um percurso de vários escalões que os atletas têm a oportunidade de integrar ao longo da sua formação enquanto jogadores do RAFC, tive a preocupação constante de fomentar a sua evolução, treino após treino. Relativamente ao escalão de Juniores C, as minhas funções consistiram na observação e análise dos jogos e no auxílio do planeamento das unidades de treino. Desta forma, procurei que os treinos e a preparação do jogo da semana seguinte fossem baseados no desempenho da equipa durante o jogo anterior, procurando incidir sobre os comportamentos individuais e coletivos menos positivos e, simultaneamente, potenciar aqueles que revelaram estar de acordo com a filosofia de jogo definida para a equipa. Durante esta época desportiva tive a oportunidade de viver o Clube 7 dias de semana, pois o meu horário compreendia um total de 5 dias de treinos e 2 dias de jogos (ver tabela 6). Assim, assisti a sessões de trabalho desde o futebol profissional até aos jogos de lazer daqueles que ainda estão a descobrir um desporto novo. 60 Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), onde integrei a equipa técnica do escalão de Juniores C, tendo como funções principais a observação e análise dos jogos e o auxílio no planeamento das unidades de treino. Macro Contexto O futebol carateriza-se por ser um jogo desportivo coletivo, onde os seus protagonistas estão agrupados em duas equipas, que mantém entre si uma competição constante pela posse de bola, com o objetivo primordial de a introduzir, o maior número de vezes possível, na baliza adversária e evitar que esta entre na sua própria baliza, alcançando assim a vitória (Moreira, 2009). No futebol, a observação e a análise do jogo são essenciais para caraterizar as exigências específicas que são impostas aos jogadores em situação competitiva. Esta abordagem permite descrever a performance a um nível aptitudinal e descodificar as ações realizadas pelos intervenientes no âmbito das respetivas equipas. Nesta base, a análise do jogo de futebol surge como um meio privilegiado a que os treinadores recorrem para melhorar a qualidade da prestação desportiva da equipa (Vaz et al., 2014). Durante vários anos a análise do desempenho desportivo baseou-se na mera extração e quantificação de dados estatísticos (i.e., número de passes, remates, interceções etc.) provenientes de performances competitivas. No entanto, apesar da sua reconhecida importância no âmbito da análise do rendimento desportivo das equipas, a análise isolada e descontextualizada de determinados indicadores de performance (i.e., técnicos e físicos) por si só não se afigura suficiente e adequada perante a complexidade que carateriza o jogo de futebol. As equipas podem ser entendidas como sistemas sociais complexos compostas por elementos (futebolistas) que cooperam e coordenam as suas ações com vista à obtenção de objetivos comuns de performance. Neste sentido, importa aferir a variabilidade dos comportamentos cooperativos/coordenativos dos jogadores e das equipas enquanto sistemas sociais complexos, de maneira que se possam identificar determinados padrões de coordenação espácio-temporais inter e intra-equipa caraterizadores do comportamento coletivo das equipas. Esta conceptualização das equipas enquanto sistemas socias complexos cuja elevada complexidade está enraizada numa rede intricada de inúmeras interações protagonizadas pelos agentes do sistema (futebolistas) apela para uma adoção de diferentes metodologias condizentes com o tipo de lentes que pretendemos aplicar na análise da performance dos jogadores e das equipas. Nos últimos anos, o avanço tecnológico marcado pelo uso de determinados softwares de análise de jogo (i.e., Amisco e ProZone) assim como a tecnologia de vídeo-computorização ou dispositivos de análise do movimento (GPS) possibilitou incrementar e enriquecer o tipo de análise elaborada no âmbito do estudo do rendimento dos padrões comportamentais dos jogadores e das equipas (Duch et al., 2010; Passos et al., 2011). Uma das novas metodologias propostas na literatura científica para a análise do comportamento individual e coletivo dos jogadores e das equipas compreende a análise de Networks (Passos et al., 2011). De acordo com esta nova metodologia, o comportamento coletivo exibido por uma equipa é sustentado por uma plataforma 61 comunicacional específica, caraterística de cada equipa, através da qual os jogadores interagem e promovem a transferência de determinados recursos (i.e., troca de bola entre jogadores) (inserir referência). A metodologia das Networks utiliza uma terminologia específica e perspetiva os futebolistas como “nós” ou “vértices” que compõem determinada Network (equipa), estando interligados através de uma variável informacional específica (i.e., passe). Em síntese, de acordo com o estipulado pela análise das Networks, as equipas são entendidas como sistemas sociais complexos cujos padrões comportamentais ofensivos são suportados por um sistema comunicacional específico que confere singularidade às equipas, no que concerne, por exemplo, à densidade de interações estabelecidas pelos futebolistas, tipo de subgrupos emergentes no seio da equipa assim como a existência de determinados jogadores controladores do fluxo de informação de uma equipa. No futebol existem determinadas variáveis situacionais que podem condicionar este sistema comunicacional específico e o consequente padrão comportamental ofensivo dos jogadores de uma equipa durante uma competição, assumindo-se a localização do jogo (casa ou fora) como um dos mais importantes determinantes do resultado de um jogo (Lago et al., 2010). No entanto, até ao momento não conseguimos encontrar estudos que abordem os efeitos induzidos pela variável situacional localização do jogo (casa vs fora) no padrão comportamental ofensivo exibido pelas equipas, tendo em consideração a metodologia das networks. Alguns autores consideram que o “fator casa” proporciona uma vantagem técnica, tática e dos comportamentos estratégicos das equipas de futebol profissional, sendo que as equipas que jogam em casa tendem a possuir maior posse de bola, a privilegiar zonas ofensivas e a realizar um maior número de ações atacantes, nomeadamente, remates à baliza e golos (Almeida et al., 2014; Carlos Lago et al., 2011; Carlos Lago & Dellal, 2010; Taylor et al., 2008). Assim, Sacaki e colaboradores (1999) ao avaliar uma equipa profissional de futebol britânica verificou que esta apresentou maior número de cruzamentos, tentativas de golo, remates à baliza e golos nos jogos em casa do que nos jogos realizados no campo do adversário. No seu estudo, Tucker et al. (2005) apresentou resultados semelhantes e acrescentou que as equipas realizam um maior número de passes falhados, perdas de bola e pontapés de baliza quando jogam fora. Lago (2009) analisou a influência da localização do jogo (casa ou fora), da qualidade de oposição e do estado do jogo nas estratégias de posse de bola de uma equipa de futebol. Relativamente à variável localização do jogo, verificou que quando a equipa jogou em casa não apresentou nem um aumento nem uma diminuição da posse de bola. No entanto, os resultados obtidos não são concordantes com os obtidos por Lago e Martim (2007) que concluíram que uma equipa tem maior posse de bola quando joga em casa do que quando joga fora. Liu et al. (2016) avaliou o desempenho técnico e a variação jogo a jogo de equipas de futebol de elite e verificou que a variação do desempenho de uma equipa quando joga em casa é inferior à encontrada quando joga fora, tendo sugerido como possível explicação, que quando a equipa joga em casa, os jogadores estão mais familiarizados com as instalações e o meio ambiente, apresentando estados psico-fisiológicos mais positivos. 62 REALIZAÇÃO DA PRÁTICA PROFISSIONAL Objetivo Geral: - Observar e analisar a variação do padrão comportamental ofensivo da equipa de juniores C do RAFC tendo em conta a localização do jogo (casa vs fora). Objetivos Específicos - Caraterizar os jogadores distribuídos pelas posições táticas específicas (defesas, médios e avançados) quanto ao grau de importância, medido pelo grau de centralidade, intermediação, proximidade e centralidade de prestígio atribuído nos jogos realizados em casa e fora. - Analisar os efeitos induzidos pela variável situacional (localização do jogo) sobre a densidade de interações, emergência de subgrupos e proeminência de determinados jogadores no comportamento ofensivo da equipa. Apresentação e Discussão dos Resultados: Relativamente à variabilidade dos valores médios de centralidade de intermediação por posição tática específica verificamos que os valores médios apresentados nos jogos RAFC vs F.C. PORTO, RAFC vs VARZIM S.C. e F.C. PORTO vs RAFC se destacam dos apresentados nos restantes jogos. As possíveis causas para a obtenção destes resultados poderão incluir diferenças ao nível da qualidade dos adversários, assim como, indicações estratégicas por parte do treinador. Quanto à centralidade de proximidade verificamos que a equipa apresentou um padrão uniforme relativamente aos valores médios apresentados, na generalidade dos jogos, excetuando-se os resultados apresentados no jogo F.C. PORTO vs RAFC. A explicação mais plausível para esta situação consiste na qualidade individual e coletiva apresentada pela equipa adversária, uma vez que, o desempenho individual dos jogadores é influenciado pelo posicionamento dos adversários em torno da bola (Travassos et al., 2012). Pela observação dos valores médios de centralidade de prestígio (eigenvector) inferimos que, à semelhança do verificado para os valores médios da centralidade de proximidade, os valores apresentados são relativamente semelhantes na generalidade dos jogos, excetuando os resultados apresentados no jogo F.C. PORTO vs RAFC. Por último, relativamente à variabilidade dos valores médios do coeficiente de agrupamento, por posição tática específica ao longo dos oito jogos analisados, verificamos que os jogos RAFC vs C.D. TROFENSE, F.C.PAÇOS FERREIRA vs RAFC e F.C. PENAFIEL vs RAFC se destacaram dos restantes, verificando-se elevados valores de coeficiente de agrupamento. Pelo enunciado anteriormente, é possível afirmar que nestes jogos a equipa evidenciou um melhor desempenho desportivo (Cotta et al., 2013). Esta métrica corresponde à tendência dos jogadores de uma equipa formarem subgrupos, ou seja, corresponde a um conjunto de jogadores que preferencialmente se interligam entre si. Assim, os jogos onde se verifica um elevado coeficiente de agrupamento (clustering coefficient) correspondem àqueles onde a equipa apresentou um melhor desempenho (Clemente et al., 2014). 63 Pela análise dos valores médios da centralidade de intermediação (betweenness) referentes às posições táticas específicas, nomeadamente os “defesas”, “médios” e “avançados” em função do contexto local do jogo verificamos que, embora em escalas diferentes, o padrão é semelhante entre os diferentes jogos, ou seja, os médios são os elementos da equipa que apresentam índices mais elevados de centralidade de intermediação, seguidos dos defesas e dos avançados. Uma das possíveis causas pode estar relacionada com a posição que estes ocupam em campo, uma posição mais central, estando sujeitos a um maior fluxo de informação e à transferência de determinados recursos (e.g., maior número de passes e ligação de diferentes setores da equipa) com os restantes colegas da equipa. Os resultados obtidos estão de acordo com os referidos em diversos estudos, que concluíram que os médios são os jogadores que apresentam valores mais elevados de centralidade de intermediação (betweenness) (Cotta et al., 2013; Malta e Travassos, 2014). Quando comparamos os valores apresentados em função da localização do jogo, concluímos que os valores são mais elevados, para os três grupos, nos jogos realizados fora, relativamente aos jogos realizados em casa. Estes resultados podem ter como possíveis explicações as indicações estratégicas por parte do treinador e o consequente estilo de jogo adotado pela equipa. Assim, os dados sugerem que a centralidade de intermediação (betweenness) dos jogadores na rede de circulação da bola da equipa foi influenciada pela posição em campo. Estes resultados estão de acordo com a tendência geral identificada na literatura científica, onde se verificou que a performance individual tende a variar em função da posição que o jogador ocupa em campo (Sarmento et al., 2014). Quando observamos os valores médios da centralidade de proximidade (closeness) referentes às posições táticas específicas dos “defesas”, “médios” e “avançados” relativamente ao local do jogo concluímos que os médios são os elementos da equipa que apresentam os valores mais elevados, seguidos dos defesas e, por último, os avançados. Assim, ao verificarmos que os avançados são os jogadores da equipa que apresentam valores mais baixos de centralidade de proximidade (closeness) concluímos que se encontram mais próximos dos colegas de equipa, o que lhes permite receber a bola, proveniente de um passe, mais cedo do que os restantes colegas. À semelhança do verificado nos valores médios de centralidade de intermediação, os valores de centralidade de proximidade diferem em função do contexto local do jogo, sendo mais elevados nos jogos realizados fora. Relativamente aos valores médios da centralidade de prestígio (eigenvector) referentes às posições específicas para os “defesas”, “médios” e “avançados” em função do local do jogo verificamos pela sua análise que os médios são os atletas que apresentam os valores mais elevados, seguidos dos defesas e dos avançados, assim, concluímos que os médios se afiguram como os jogadores mais proeminentes da equipa. Possivelmente, fruto da posição estratégica que ocupam em campo, são preponderantes na construção de uma dinâmica ofensiva do jogo, sendo responsáveis pela construção e organização das sequências ofensivas. Os resultados obtidos estão de acordo com os referidos em investigações anteriores, onde indicaram que os 64 médios são os jogadores que apresentam valores mais elevados de eigenvector (Cotta et al., 2013; Malta & Travassos, 2014). Quanto aos valores apresentados, em função do local do jogo, verificamos que os valores são mais elevados nos jogos fora do que em casa, exceto, para os avançados, que apresentam valores mais baixos de centralidade de prestígio (eigenvector) nos jogos realizados fora. Assim, os dados sugerem que os valores de centralidade de prestígio (eigenvector) apresentados pelos jogadores foram influenciados pela sua posição em campo e contexto local do jogo. Os resultados obtidos são concordantes com as evidências identificadas na literatura científica, nas quais se concluiu que o desempenho individual de um jogador tende a variar em função da sua posição em campo (Sarmento et al., 2014). Por último, ao observamos os valores médios do coeficiente de agrupamento, referentes às posições táticas “defesas”, “médios” e “avançados” relativamente ao local do jogo, inferimos que os avançados são os jogadores que apresentam os valores mais elevados, tanto nos jogos em casa como nos jogos fora. Relativamente aos jogos em casa, seguem-se os médios e, por último, os defesas. No entanto, nos jogos realizados fora, os segundos valores mais elevados correspondem aos defesas e os valores mais baixos, aos médios. Relativamente à análise das ligações interpessoais durante os jogos realizados em casa, verificamos que a reposição de bola em jogo por parte do guarda-redes (GR), através da realização de passes curtos para os jogadores mais próximos, nomeadamente para o DCE e DCD, constituiu a base para a primeira fase de construção do jogo. Adicionalmente, verificou-se que os jogadores com maior influência na equipa durante os jogos realizados em casa foram os jogadores do meio-campo, nomeadamente MCE, MCD e MDC, uma vez que, foram os jogadores que tiveram um maior papel de intermediação (betweeness) entre os restantes atletas da equipa. Também, se verificou que os extremos (ED e EE) foram maioritariamente solicitados pelos médios interiores (MCE e MCD) e pelos laterais (DD e DE) do seu corredor, acentuando a importância da dinâmica pelos corredores criada pelos defesas laterais, médios interiores e extremos, como uma das estratégias mais utilizadas pela equipa quando em posse de bola. Por último, é importante destacar o envolvimento do ponta-de-lança (PL) na zona de finalização, evidenciando-se como um dos principais alvos da equipa no último terço do campo, com o objetivo de atingir o golo. Relativamente à análise das ligações interpessoais durante os jogos realizados fora, verificamos que a reposição de bola em jogo por parte do guarda-redes (GR), não assumiu um padrão uniforme em todos os jogos, procedendo à reposição da mesma através do recurso a diferentes passes, nomeadamente, passes curtos para os jogadores mais próximos, como o DCE e DCD, passes estratégicos para os corredores laterais, nomeadamente para o DE, o EE, o DD e o ED, e passes longos diretamente para a zona mais ofensiva do terreno, privilegiando a ligação direta entre o setor defensivo e o atacante. Adicionalmente, constatou-se que o jogador com maior influência na equipa durante os jogos realizados no campo do adversário foi o MCE, uma vez que, foi o jogador que teve um 65 maior papel de intermediação (betweeness) entre os restantes atletas da equipa, sendo de destacar os passes estabelecidos com o DE e o EE. Também, se verificou que os extremos (ED e EE) foram maioritariamente solicitados pelos médios interiores (MCE e MCD) e pelos laterais (DD e DE) do seu corredor, verificandose, no entanto, uma preponderância do corredor esquerdo relativamente ao direito. Por último, é importante destacar que o ponta-de-lança (PL) foi um jogador bastante solicitado, tendo estabelecido ligações com os atletas de todos os setores do campo. Conclusão: Este estudo teve como objetivo fundamental analisar a variação do padrão comportamental ofensivo da equipa de juniores C do RAFC, tendo em conta a localização do jogo (casa vs fora) e verificar se a ação da equipa e dos seus intervenientes no âmbito de um jogo de futebol podia ser caraterizada por uma network suportada em várias decisões individuais e estratégias coletivas. Assim, mais especificamente, pretendeu-se verificar quais os efeitos produzidos pela variável situacional (local do jogo) ao nível da densidade de interações, emergência de subgrupos ou comunidades dentro do seio da equipa e a prominência de determinados jogadores no comportamento ofensivo da equipa. Pretendeu-se também caraterizar as posições táticas específicas (defesas, médios e avançados) quanto ao grau de importância atribuído à sua performance nos jogos realizados em casa e fora. Relativamente à analise da variação do padrão comportamental da equipa de Juniores C do RAFC em função da localização do jogo (casa vs fora) concluiu-se que a equipa adota um padrão de jogo diferente consoante o local do jogo, apesar de manter linhas gerais comuns. Assim, verificaram-se essencialmente alterações ao nível da preponderância dos jogadores do meio-campo, pois, enquanto nos jogos em casa, o MDC, MCD e o MCE assumiram um papel fundamental na equipa, sendo os principais intermediadores entre os atletas, nos jogos realizados no campo do adversário, apesar de um ligeiro destaque para o MCE, verificou-se uma maior equivalência na importância relativa de cada jogador. A análise da caraterização das posições táticas especificas demostrou que relativamente às medidas de centralidade betweenness, closeness e centralidade de prestígio (eigenvector), os médios foram os elementos da equipa que obtiveram valores mais elevados, seguidos dos defesas e, por último, dos avançados. No entanto, quanto ao coeficiente de agrupamento, os avançados destacaram-se com os valores mais elevados. Através da interpretação da estatística descritiva dos indicadores das networks tendo em consideração a localização do jogo (casa vs fora) constatou-se que os valores médios de densidade, coeficiente de agrupamento e total de passes de sucesso evidenciados pela equipa foram bastante similares, não se registando diferenças estatisticamente significativas entre os indicadores de performance global por local de jogo Por último, quanto à sua aplicação prática, a metodologia de análise de networks utilizada neste estudo forneceu um leque amplo de informações acerca dos padrões de jogo ofensivo do RAFC, permitindo que os treinadores ajustassem o modelo de jogo e 66 estabelecessem novas metodologias de treino de acordo com as necessidades técnicas e táticas evidenciadas pela equipa durante o momento de jogo. CONCLUSÕES Considero que a realização deste ano de estágio no Departamento de Formação do RAFC foi uma experiência muito enriquecedora, que me permitiu evoluir enquanto treinador e me proporcionou momentos importantes de partilha de experiências e conhecimentos. Enquanto treinador, tive a oportunidade de desenvolver novas competências ao nível do planeamento de treino e de estar mais envolvido na observação e análise do jogo, uma área da qual tenho muito interesse e pretendo continuar a investir. Um aspeto que considero ter sido crucial para o sucesso desta época desportiva foi a ligação harmoniosa entre todos os intervenientes de cada uma das equipas. Adicionalmente, realço a qualidade das infraestruturas do clube, nomeadamente, a oferta de espaços disponíveis diariamente, que permitem que cada equipa disponha de, pelo menos, meio-campo em cada treino. Ao nível do planeamento, este aspeto é fundamental pois possibilita a realização de uma ampla variedade de exercícios, nomeadamente a abordagem da organização ofensiva e defensiva e dos sistemas táticos. Outro aspeto muito favorável, é o facto de a maioria dos balneários ser possível proceder à apresentação de vídeos previamente editados através de um retroprojetor, que funcionam como uma ferramenta adicional fundamental na preparação dos treinos e dos jogos da equipa. Ter optado por abordar como tema de investigação científica “NetworksRedes Sociais” foi uma decisão que se revelou bastante produtiva, pois permitiu-me aplicar os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo da minha formação e em especial no ano transato num contexto prático. Assim, através de dados quantitativos e qualitativos consegui ilustrar os desempenhos da equipa e, posteriormente, de cada atleta individualmente. Esta foi uma ferramenta muito importante para a equipa técnica pois permitiu a construção de um documento onde semanalmente eram descritas as performances da equipa no jogo anterior e, simultaneamente, proporcionou um conhecimento mais alargado da equipa adversária. Em suma, considero que foi uma opção acertada a de realizar o meu ano de estágio no Rio Ave Futebol Clube, pois o investimento que fazem ao nível da formação proporcionou-me uma experiência muito importante num escalão onde se compete com os melhores a nível nacional. Isto fez-me evoluir enquanto treinador pois permitiu-me contactar com treinadores com vários anos de experiência ao nível do futebol de formação e, adicionalmente, motivou-me a pensar sobre o jogo e a explorar as questões da liderança num contexto onde os atletas ainda estão num processo de formação da sua personalidade e da sua identidade enquanto jogadores de futebol. Terminado este importante desafio posso dizer que as minhas expetativas iniciais não só foram confirmadas, como foram largamente ultrapassadas e, por isso, prosseguirei o meu percurso com a certeza de que serei capaz de enfrentar os próximos anos com muito mais confiança e qualidade. CAPÍTULO VI – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 69 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, C., Ferreira, A., & Volossovitch, A. (2014). Effects of Match Location, Match Status and Quality of Opposition on Regaining Possession in UEFA Champions League. Journal of Human Kinetics, 41, 203-214. Alves, J. (1995). Como é que o treinador concebe a observação de uma equipa - Conceptualizaçao. F.C.D.E.F.- U.P. Batista, M. (2014). Fundamentos de Aplicação do Scouting para a análise da dinâmica competitiva em futebol com recurso a software qualitativo. Escola Superior de Educação de Torres Novas. Borgatti, S. (2005). Centrality and network flow. Social Networks, 27, 55-71. Borgatti, S., Mehra, A., Brass, D., & Labianca, G. 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