Atitudes, práticas e mitos dos médicos de família do ACES de matosinhos face à obesidade
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Atitudes, práticas e mitos dos Médicos de Família do ACES de Matosinhos face à obesidade Ângela Cristina Pinto Neves Porto, 2015
ii Atitudes, práticas e mitos dos Médicos de Família do ACES de Matosinhos face à obesidade. Family Physicians´ attitudes, practises and myths from the Matosinhos Health Centre Grouping, regarding obesity. Ângela Cristina Pinto Neves Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto Unidade Local de Saúde de Matosinhos. Mestre Tânia Magalhães, Unidade Local de Saúde de Matosinhos Dissertação de candidatura ao grau de Mestre em Nutrição Clínica apresentada à Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto 2015
iii Resumo Introdução: A crescente epidemia de obesidade constitui um sério problema de saúde pública. Apesar da clara evidência científica acerca dos benefícios da redução de peso, sabe-se que os resultados obtidos encontram-se muito aquém dos resultados desejáveis e metas delineadas. Objetivos: caracterizar as atitudes, práticas e mitos dos Médicos de Família do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) de Matosinhos relativamente à obesidade e aos pacientes obesos. Tipo de estudo: observacional, analítico, transversal. Local: ACeS de Matosinhos, Portugal. População: Médicos de Família e Internos de Formação Específica (IFE) de Medicina Geral e Familiar (MGF) do ACES de Matosinhos Métodos: foi desenvolvido um questionário de autopreenchimento, aplicado a uma amostra não aleatória de conveniência. Na análise de dados foi utilizado o Qui-Quadrado, o teste T de Student e a correlação de Pearson. Resultados: a maioria dos inquiridos (71,2%) não realizou formação pós-graduada na área da nutrição/alimentação e reconhece a necessidade de ampliar conhecimentos e realizar formação neste tema (m=4,1; dp=0,7), bem como a importância (m=:4,5; dp=0,5) e a responsabilidade médica (m=:4.4; dp=:0,7) no aconselhamento e motivação dos pacientes obesos para a mudança de estilo de vida e perda de peso. Demonstram alguma incerteza quanto à sua competência no diagnóstico e tratamento de pacientes obesos (m=3,4; dp:0,9) e à necessidade de um aconselhamento específico destes doentes por parte de um profissional especializado sobre alimentação e exercício físico (m=3,2; dp=1,0) Conclusões: independentemente das capacidades sentidas pelos médicos para lidar com os pacientes obesos, bem como das suas crenças ou conhecimentos, estes profissionais aconselham com bastante frequência os doentes acerca dos hábitos alimentares. Palavras-Chave: obesidade; médicos de família; atitudes; práticas; mitos
iv Abstract Introduction: The growing obesity epidemic is a serious public health problem. Although clear scientific evidence regarding the health benefits of weight loss is known, the results obtained fall short of the desired results and planned goals. Objective: characterize Family Physicians attitudes, practices and myths from the Matosinhos Health Centre Grouping, regarding obesity and obese patients. Type of study: observational, analytic, transversal. Place: Matosinhos ACeS. Population: Family Physicians and Interns of the Family Medicine Residency Program, from the Matosinhos ACeS. Methods: a survey, to be filled in by population members, was developed, applying a non-random convenience sample. Chi-Square and t-Student tests, as well as Pearson correlation coefficient were used for statistical data analysis. Results: The majority of the surveyed (71.2%) did not have any post-graduate background on food and nutrition area and recognized the need to expand their knowledge and obtain educational training regarding this topic (m=4.1; ds =0.7), as well as the importance (m=4.5; ds=0.5) and the medical responsibility (m=4.4, ds=0.7) in recommending and motivating obese patients to carry out life-style changes and lose weight. Uncertainty regarding their competence in diagnosing and treating obese patients (m=3.4; ds=0.9) and the need for specific recommendations regarding nutrition and physical activity, for these patients by a specialized professional (m=3.2; ds=1.0), was demonstrated by the surveyed. Conclusion: Apart from de capacities felt by physicians on how to handle obese patients, as well as their beliefs and knowledge, these professionals give these patients quite frequent nutritional recommendation habits. Keywords: Obesity; Family Physician, Attitudes; Practices; Myths
v Índice Resumo .............................................................................................................. iii Lista de Abreviaturas .......................................................................................... vi Lista de Figuras ................................................................................................. vii Lista de Tabelas ............................................................................................... viii Introdução .......................................................................................................... 1 Material e Métodos ............................................................................................. 5 Resultados ......................................................................................................... 8 Discussão e Conclusões .................................................................................. 23 Anexos ............................................................................................................. 32 Anexo A ............................................................................................................ 33
vi Lista de Abreviaturas ACeS – Agrupamento de Centros de Saúde CSPCuidados de Saúde Primários dp – desvio padrão IFE - Internos de Formação Específica IMCÍndice de Massa Corporal mmédia MF – Médicos de Família MGF - Medicina Geral e Familiar OMS - Organização Mundial de Saúde SPCNA - Sociedade Portuguesa de Ciências de Nutrição e Alimentação SPSS - Statistical Package for Social Sciences UCSP – Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados USF – Unidade de Saúde Familiar
vii Lista de Figuras Figura 1 – Sexo dos inquiridos ............................................................................... 8 Figura 2 – Habilitações académicas ....................................................................... 9 Figura 3 – Funções dos inquiridos ......................................................................... 9 Figura 4 – Formação na área da nutrição/alimentação ........................................ 10 Figura 5 – Principal motivo pelo qual não realizaram formação ........................... 10 Figura 6 – Fonte privilegiada de informação ........................................................ 11 Figura 7 – Nº de horas dispensadas em formação .............................................. 12 Figura 8 – Tempo médio para aconselhamento sobre alimentação e atividade física ..................................................................................................................... 12
viii Lista de Tabelas Tabela I – Idade dos inquiridos ............................................................................... 8 Tabela II – Experiência profissional ........................................................................ 9 Tabela III – Média dos itens referentes à efetividade do tratamento e comportamento dos obesos ................................................................................. 14 Tabela IV – Média dos itens referentes à autoeficácia dos Médicos de Família .. 16 Tabela V – Média dos itens referentes às barreiras no tratamento da obesidade 18 Tabela VI – Média dos itens referentes às estratégias de aconselhamento ......... 19 Tabela VII – Comparação das habilitações académicas pelo sexo ...................... 21 Tabela VIII – Comparação da formação em nutrição/alimentação pelas funções exercidas .............................................................................................................. 22 Tabela IX – Comparação do tempo dispensado para aconselhamento dos pacientes sobre alimentação e atividade física por funções exercidas ................ 22
1 Introdução A crescente epidemia de obesidade constitui um sério problema de saúde pública nos países desenvolvidos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no ano de 2008 estimava-se a existência de cerca de 1,5 mil milhões de adultos com excesso de peso, sendo que 500 milhões se encontravam na faixa da obesidade, projetando-se, para o ano de 2015, um acréscimo para os 2,3 mil milhões de adultos com excesso de peso e 700 milhões de obesos. 1 Em Portugal, segundo as observações da investigadora Carmo et al, estimava-se, nos anos de 2003-2005, uma prevalência de adultos (18-64 anos) com 38,6% com excesso de peso (Índice de Massa Corporal (IMC): 25,0-29,9) e 13,8% com obesidade (IMC≥30), perfazendo um total de 52,4% da população portuguesa apresentado um peso superior ao normal. 2 O estudo “Alimentação e Estilo de Vida da População Portuguesa” (2009), promovido pela Sociedade Portuguesa de Ciências de Nutrição e Alimentação (SPCNA), mostrou que, dos 3529 participantes, 40% apresentava excesso de peso e 10,8% obesidade, com uma prevalência total de obesidade/excesso de peso de 50,8%; sendo as prevalências de excesso de peso mais elevadas nas regiões dos Açores (71,3%), Madeira (59,7%) e Alentejo (57,5%). 3 As expectativas futuras não afloram resultados otimistas, atendendo que dados recentes sugerem a existência de cerca de 3,5 milhões de portugueses a sofrer de pré-obesidade e 1 milhão de obesidade. 4 A Sociedade Europeia de Clínica Geral/Medicina Familiar, descreve os médicos de família como sendo médicos pessoais, principalmente responsáveis pela prestação de cuidados abrangentes e continuados a todos os indivíduos que os procurem, independentemente da idade, sexo ou afeção. 5
8 Resultados Caracterização da amost A amostra do presente estu estes maioritariamente ao s valor de 21,2% (n=22) é com Relativamente à idade, os p os 25 e os 61 anos, sendo q (m=37,7; dp=11,4). A moda i de 26 anos, e a mediana m idade igual ou inferior a 3 relativamente jovem. Ver tab mostra e estudo ficou composta por 104 médicos, ao sexo feminino (mais propriamente 78,8 é composto por inquiridos do sexo masculino. Figura 1 – Sexo dos inquiridos , os participantes apresentam idades compree ndo que em média apresentam aproximadam oda indica que a idade mais frequentemente na manifesta que pelo menos metade dos in r a 33 anos, demonstrando tratar - se de u er tabela I. Tabela I – Idade dos inquiridos Idade 103 37,7 33,0 26 11,4 25 61 n Média Mediana Moda dp Mínimo Máximo icos, pertencendo 78,8%; n=82). O ulino. Ver figura 1. mpreendidas entre adamente 38 anos ente encontrada é dos inquiridos tem de uma amostra
A maioria dos particip licenciatura, mais concre (n=46) possui o mestrado 58,3% (n=60) exerce fun funções IFE de MGF. Ver Figura 2 – Habilitações a Relativamente à experiên início de carreira (zero an média os médicos trabalh 50% dos inquiridos exerc situada nos dois anos de e articipantes apresenta como habilitações oncretamente 55,3% (n=57), e o correspon trado. Ver figura 2. Também se observa que ce funções de Médico de Família e 41,7% Ver figura 3 . ões académicas Figura 3 – Funções do eriência profissional, verifica - se que o períod ro anos de tempo de serviço) e 37 anos de e rabalham há mais de 13 anos (m=13,2; dp=1 exercem a profissão há 9 anos ou menos, c s de experiencia profissional. Ver tabela II. Tabela II – Experiência profissional Experiência profissional 101 13,2 9,0 2 11,4 0 37 n Média Mediana Moda dp Mínimo Máximo 9 ões académicas a espondente a 44,7% que o equivalente a 1,7% (n=43) exerce es dos inquiridos período varia entre o s de experiência. Em ; dp=11,4) e mais de nos, com uma moda
10 Na questão se os participan nutrição/alimentação verific negativamente (71,2%; n=7 realizou formação específica Figura 4 – Fo Relativamente ao principal formação pósgraduada ne apontada pelos inquiridos es formação (33,3%; n=25), seg nesta área (20%; n=15). O nutrição não é prioritária par escassa oferta de formação assinalou não ter tempo para Figura 5 – Princip ticipantes realizaram formação pós - graduada verifica - se que a maioria dos médicos ; n=74), e apenas o correspondente a 2 cífica na área da nu trição. Ver figura 4. Formação na área da nutrição/alimentaç ão cipal motivo pelo qual os profissionais nã da nesta temática observa - se que a cat os está relacionada com a inexistência de opo 5), seguindo - se o desconhecimento de ações 5). O equivalente a 17,3% (n=13) afirma qu para as suas funções e o valor de 16% (n= ação. Existe ainda a percentagem de 13,3% o para realizar formações. Ver figura 5. rincipal motivo pelo qual não realizaram formação duada na área da dicos respondeu a 28,8% (n=30) is não realizaram a categoria mais e oportunidade de ções de formação a que a área da % (n=12) aponta a 13,3% (n=10) que ação
A fonte privilegiada dos part da nutrição/alimentação são 52,4% (n=54). Destacase, internet (13,6%; n=14), e experiencia profissional (5,8 (9,7%; n=10). Ver figura 6. Figu No que concerne à estim foram despendidas para re da nutrição/alimentação, a período inferior a 4 hora profissionais que despend (34,6%; n=36). Somente anos despenderam de 21 médico mencionou um tem (1%). Ver figura 7. s participantes para a recolha de informação refe o são os congressos, workshops e cursos, catego se, ainda, o recurso às revist as científicas (1 4), e como fontes de informação menos utili l (5,8%; n=6) e o recurso a profissionais espec Figura 6 – Fonte privilegiada de informação estimativa do número de horas, nos últimos ara realizar cursos, ações de formação e cong ção, a percentagem m ais expressiva de médic horas (mais concretamente 58,7%; n=61), spenderam de 4 a 20 horas em formação esp ente o valor de 5,8% (n=6) referiram que n de 21 a 40 horas em formação sobre nutrição m tempo superior a 40 horas de investimento 11 o referente à temática categoria apontada por as (18,4%; n=19) e à s utilizadas a própria specializados na área ltimos três anos, que e congressos na área médicos apontou um 61), seguindo -se os específica na área que nos últimos três utrição, e apenas um mento nesta temática
12 Figura 7 – Por fim, foi questionado a consultas para aconselhar tendose constatado que a m 5 minutos (43,3%; n=45), se facto, ao ter em conta a perc 75,1% gasta em média 5 m abordar a temática da alimen Figura 8 – Tempo médio pa – Nº de horas dispensadas em formação ado aos participantes o tempo médio des lhar os pacientes sobre alimentação e ativ e a maior incidência percentual está situada n 5), seguindo - se o tempo de 3 minutos (15,4% a percentagem acumulada constata - se que o e a 5 minutos ou menos por consult a com os d limentação e exercício físico. Ver figura 8. io para aconselhamento sobre alimentação e ativid despendido nas e atividade física, ada no período de (15,4%; n=16). De ue o equivalente a os doentes para atividade física
13 Atitudes, Práticas e Mitos dos Médicos de Família De seguida, aborda-se detalhadamente os itens que refletem as atitudes dos Médicos de Família relativamente à efetividade do tratamento da obesidade e às mudanças comportamentais dos pacientes obesos, a autoeficácia percecionada pelos Médicos de Família no tratamento da obesidade e as principais barreiras destes profissionais na gestão e tratamento desta patologia. Relembrando que se trata de uma escala de likert de cinco opções, sendo o que 1=discordo absolutamente e 5=concordo absolutamente, logo quanto maior a média em cada item maior será o grau de concordância com o mesmo. Posteriormente, desenvolvem-se os itens referentes às estratégias seguidas pelos Médicos de Família no aconselhamento dado aos seus pacientes sobre hábitos alimentares, entre quatro opções disponíveis (nunca, raramente, muitas vezes e sempre), e que pretende detalhar as estratégias escolhidas pelos inquiridos no aconselhamento dos seus pacientes obesos. Efetividade do tratamento e comportamento dos doentes Relativamente aos itens que refletem as atitudes dos Médicos de Família quanto à efetividade do tratamento da obesidade e às mudanças comportamentais dos pacientes obesos, a concordância mais elevada surge nas alegações que afirmam que a obesidade é uma doença (m=4,7; dp=0,6), que para os pacientes obesos mesmo pequenas perdas de peso possam ser benéficas (m=4,6; dp=0,6), que a obesidade é uma doença crónica (m=4,1; dp=4,1; dp=1,0) e que a maior parte dos pacientes obesos gostaria de perder peso, mas sente-se frustrado e desorientado, (m=4,0; dp=0,7). Os inquiridos manifestam, ainda, um nível intermédio de convicção acerca da eficácia do tratamento farmacológico na obesidade (m=3,2; dp=0,9) e algum desacordo relativamente às premissas que declaram que os pacientes obesos apenas mudam os seus comportamentos no caso de se sentirem doentes ou se a
14 sua condição for uma ameaça séria à sua saúde (m=2,8; dp=1,0) ou que os obesos sejam pessoas preguiçosas e sem motivação comparativamente aos pacientes com peso normativo (m=2,4; dp=1,0). Globalmente os inquiridos demonstram, também, desacordo relativamente ao facto de que o papel do médico de família seria o de somente referenciar os pacientes obesos a outros profissionais especializados, em vez de os tratar (m=1,9; dp=0,7) e que apenas os pacientes com obesidade grave deveriam ser submetidos a um tratamento de emagrecimento (m=1,7; dp=0,8). Ver tabela III. Tabela III – Média dos itens referentes à efetividade do tratamento e comportamento dos obesos Item n Média dp 11. A obesidade é uma doença. 104 4,7 0,6 12. A obesidade é uma doença crónica. 103 4,1 1,0 14. Para os pacientes obesos, mesmo pequenas perdas de peso (5 a 10% do peso inicial) podem se benéficas para a sua saúde. 104 4,6 0,6 15. Apenas os pacientes com obesidade grave deveriam ser submetidos a um tratamento de emagrecimento 104 1,7 0,8 16. Os obesos são pessoas mais preguiçosas e sem motivação, comparativamente aos pacientes normoponderais. 104 2,4 1 17. Os pacientes obesos apenas mudam os seus comportamentos no caso de se sentirem doentes ou se perceberem que a sua condição representa uma ameaça grave à sua saúde e bem-estar. 104 2,8 1 18. A maior parte dos pacientes obesos gostaria de perder peso, mas sentese, com frequência, frustrados e desorientados. 104 4,0 0,7 19. O papel do Médico de Família é referenciar os pacientes obesos a outros profissionais especializados, em vez de tentar trata-los. 103 1,9 0,7 38. Acredito na eficácia do tratamento farmacológico da obesidade. 103 3,2 0,9
15 Autoeficácia dos Médicos de Família Quanto aos itens que expressam a autoeficácia percecionada pelos Médicos de Família no tratamento da obesidade, os inquiridos apresentam maior concordância com as afirmações que referem “Acredito que é importante aconselhar os meus pacientes obesos a perder peso, mesmo na ausência de outros fatores de risco” (m=4,5; dp=0,5) e “É da minha responsabilidade ajudar o paciente a mudar o estilo de vida, apoiando-o e motivando-o” (m=4,4; dp=0,7). Constata-se também que os médicos concordam substancialmente que são capazes de abordar os benefícios da prática regular de exercício físico com os pacientes obesos (m=4,1; dp=0,7), que acreditam que a maior parte dos seus doentes irá mudar de comportamento se aconselhados nesse sentido (m=4,0; dp=0,7) e que se sentem capazes de elaborar e discutir com os pacientes estratégias para aumentar a sua confiança e motivação para a mudança de comportamento (m=3,7; dp=0,8). Por sua vez, os participantes demonstram alguma neutralidade relativamente à competência no diagnóstico e tratamento de pacientes obesos e à capacidade de avaliar o estadio de mudança de cada paciente antes de iniciar um aconselhamento alimentar (ambas com m=3,4). Da mesma forma, os profissionais demonstram uma posição imparcial no que respeita à capacidade de avaliar a ingestão alimentar e a prática de atividade física dos pacientes obesos (m=3,3; dp=0,8). Ver tabela IV.
16 Tabela IV – Média dos itens referentes à autoeficácia dos Médicos de Família Barreiras no tratamento da obesidade Em relação aos itens que abordam as principais barreiras percecionadas pelos Médicos de Família no tratamento da obesidade, os inquiridos reconhecem a necessidade de ampliar os seus conhecimentos e formação na área da alimentação e nutrição (m=4,1; dp=0,7) e de ter mais formação sobre farmacoterapia da obesidade (m=3,8; dp=1,0), bem como assumem que os seus pacientes frequentemente falseiam os seus hábitos alimentares (m=3,8; dp=0,8). Item n Média dp 20. A maior parte dos meus pacientes irá mudar de comportamento alimentar se eu os aconselhar nesse sentido. 104 4,0 0,7 21. Sinto-me competente no diagnóstico e tratamento de pacientes obesos. 104 3,4 0,9 22. Sinto-me capaz de avaliar o estadio de mudança de cada paciente antes de iniciar um aconselhamento alimentar. 104 3,4 0,8 23. É da minha responsabilidade ajudar o paciente a mudar o seu estilo de vida, apoiando-o e motivando-o. 104 4,4 0,7 24. Sinto-me capaz para abordar os benefícios da prática regular de exercício físico com os meus pacientes obesos. 104 4,1 0,7 25. Sinto-me capaz de elaborar e discutir com os pacientes estratégias para aumentar a sua confiança e motivação para a mudança de comportamento. 104 3,7 0,8 26. Sinto-me capaz de avaliar a ingestão alimentar e a prática de atividade física dos pacientes obesos. 103 3,3 0,8 32. Acredito que é importante aconselhar os meus pacientes obesos a perder peso, mesmo na ausência de outros fatores de risco. 104 4,5 0,5
17 Manifestam uma fraca convicção relativamente ao facto de sentirem grandes dificuldades na persuasão dos pacientes a mudar o seu estilo de vida (m=3,3; dp=0,9) e apresentam dúvidas sobre o facto de disporem de tempo suficiente na consulta para abordar com os pacientes questões relacionadas com a alimentação e exercício físico (m=3,3; dp=1,1). O acordo dos médicos é menos vincado no que concerne à necessidade dos pacientes de um aconselhamento específico por parte de um profissional especializado sobre alimentação e exercício físico (m=3,2; dp=1,0). As opiniões são centrais quanto ao facto de os médicos de família não se encontrarem devidamente preparados para aconselhar os seus pacientes sobre hábitos alimentares e exercício físico (m=3,0; dp=1,0) e existe igualmente tendência para opiniões pouco vincadas, relativamente à afirmação “Se devidamente remunerado, estaria disponível a dedicar mais tempo da minha consulta à gestão e tratamento da obesidade”, pois a média é de 2,9 (dp=1,2). Não consideram o tratamento da obesidade uma tarefa aborrecida (m=2,1; dp=0,9), da mesma forma que discordam que tratar pessoas com obesidade não é profissionalmente gratificante (m=2,0; dp=0,9). Por fim, observa-se que a maior discordância surge na afirmação “Sinto-me desconfortável a fazer um exame físico a um paciente obeso” (m=1,9; dp=0,9) e na “Os pacientes dificilmente perdem peso, logo não vale a pena falar nisso” (m=1,5; dp=0,7). Ver tabela V.
24 avaliar a ingestão alimentar e a prática de atividade física. Resultados que consolidam os sentimentos débeis de autoeficácia e de competência técnica manifestada pelos MF na gestão e tratamento do excesso de peso/obesidade, descritos por diferentes autores. 11,14,15 Os nutricionistas são identificados pelos diferentes profissionais de saúde como sendo um recuso valioso, com um papel de destaque no tratamento de doentes com excesso de peso/obesidade, com necessidade de um aconselhamento alimentar personalizado e detalhado. 37-39 Neste estudo os inquiridos mostraram um nível de convicção intermédio, face à escala utilizada, em reconhecer a necessidade de um aconselhamento específico destes doentes por parte de um profissional especializado sobre alimentação e exercício físico, muito embora reconheçam a sua insuficiente formação e demonstrem alguma incerteza quanto à sua própria capacidade de gestão e tratamento da obesidade. Nível esse de convicção, a explorar em futuros estudos mais aprofundados. Contrapondo ao descrito na literatura consultada, que sugere que para a maioria dos clínicos gerais os pacientes obesos seriam encarados como preguiçosos, desprovidos de força de vontade e motivação 16-18 , os inquiridos neste estudo discordaram com o estereótipo social de que os pacientes obesos seriam pessoas preguiçosas e sem motivação, bem como divergem das premissas que sugerem o tratamento da obesidade como sendo uma tarefa aborrecida e não profissionalmente gratificante. De ressaltar porém, que, independentemente das capacidades sentidas pelos médicos para lidar com os pacientes obesos, bem como das suas crenças ou conhecimentos, estes profissionais aconselham com bastante frequência os doentes acerca dos hábitos alimentares, confirmando os pressupostos apresentados em diferentes estudos que afirmam que os Médicos de Família reconhecem a obesidade como um problema de saúde significativo e que justifica a sua abordagem. 20,26
25 Este estudo possui diversas limitações, nomeadamente a sua implementação em uma amostra não aleatória de conveniência e restrita à população de Médicos de Família do ACeS de Matosinhos, o que permite inferir conclusões apenas em relação a estes profissionais, não sendo possível a extrapolação dos resultados obtidos. Poderá, também, existir um viés de selecção já que os questionários poderão ter sido preenchidos tendencialmente por profissionais mais interessados nesta temática e dispostos a participar em estudos de investigação. A relutância em declarar limitações, falta de confiança e proficiência no tratamento dos pacientes obesos poderão igualmente contribuir como limitações para o presente estudo. Espera-se, assim, que os resultados obtidos neste estudo venham a ter implicações tanto a nível profissional como organizacional, podendo esta ser uma ferramenta de apreciação e consciencialização para o desenvolvimento de futuras estratégias formativas no ACeS de Matosinhos, com vista à promoção de conhecimentos teóricos e competências práticas que constituam ferramentas de prevenção e tratamento da obesidade, que motivem os profissionais de saúde para esta atividade preventiva e os dote de meios efetivos para a gestão e tratamento desta doença. Como proposta de melhoria contínua, e realçando a importância deste trabalho pioneiro na área dos Cuidados de Saúde Primários e mais propriamente no domínio da Medicina Geral e Familiar, sugere-se uma futura análise comparativa da realidade vivenciada no âmbito das práticas, atitudes e mitos dos Médicos de Família dos diferentes ACeS do nosso país, na perspetiva de um futuro estudo multicêntrico.
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31 39. Glanz K. Review of Nutricional attitudes and counseling practices of primary care physicians. Am J Clin Nutr. 1997; 65 (suppl):2016S-9S.
32 Anexos
33 Anexo A
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