Redes sociais nas equipas de trabalho: afectos e tarefas em diferentes momentos da vida grupal
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2423 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Redes sociais nas equipas de trabalho: Afectos e tarefas em diferentes momentos da vida grupal Marta Pereira Alves1, Paulo Renato Lourenço2 & José Miguez 3 1 Departamento de Psicologia e Educação – Universidade da Beira Interior Bolseira de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/BD/36573/2007) 2 Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação – Universidade de Coimbra 3 Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação – Universidade do Porto O presente estudo descreve o modo como os elementos de uma equipa dependem formal e informalmente uns dos outros em diferentes momentos da vida do grupo. Consideram-se quatro equipas com funções de gestão, cada uma numa fase de desenvolvimento distinta. A interdependência grupal foi analisada através de questionários baseados na metodologia da análise das redes sociais. Como medida de desenvolvimento grupal, utilizou-se o Questionário de Percepção de Desenvolvimento da Equipa (Miguez & Lourenço, 2001). As equipas são comparadas quanto às relações intragrupais de interdependência sócio-afectiva e de tarefa através de indicadores de coesão e de centralidade. As convergências e as divergências que foram observadas nas redes sociais estudadas são discutidas numa perspectiva desenvolvimentista dos grupos de trabalho. Palavras-chave: Interdependência grupal, análise de redes sociais, equipas de trabalho, desenvolvimento grupal 1. INTRODUÇÃO O Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal (Miguez & Lourenço, 2001) define três condições básicas para a emergência de um grupo – percepção de objectivos comuns mobilizadores, interdependência e interacção entre os seus elementos. Tributário do Modelo Sociotécnico preconizado pelos investigadores do Instituto de Tavistock (e.g., Trist & Bamforth, 1951), o referido modelo assume que um grupo se estrutura sobre dois subsistemas fundadores – o sistema tarefa e o sistema socio-afectivo – e concebe o processo de desenvolvimento de um grupo em quatro fases (ou estádios): nas primeiras duas fases (a que corresponde, de acordo com o modelo, o primeiro ciclo de desenvolvimento) o grupo está focalizado no subsistema socio-afectivo e nas duas últimas (i.e., no segundo ciclo de desenvolvimento), o grupo dirige a sua energia para o subsistema técnico ou de tarefa. O primeiro estádio, a estruturação, é caracterizado pelo conformismo dos elementos do grupo e sua dependência em relação ao líder. Observa-
2424 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 se uma preocupação constante em ser aceite no seio da equipa1, evitando o respectivo afastamento ou exclusão. Nesta fase, os membros do grupo encontram-se, ainda, pouco orientados para a concretização de objectivos de equipa. No segundo momento de desenvolvimento, a fase de reenquadramento, as diferenças existentes entre os valores, as ideias e as características de personalidade dos vários elementos do grupo tornam-se mais salientes, podendo conduzir facilmente a desacordos e tensões interpessoais. A terceira fase, a reestruturação, é marcada pela percepção interna do grupo como unidade coesa com objectivos partilhados. Os elementos do grupo estão agora motivados para cooperar e para comunicar acerca do modo de concretização dos objectivos e resultados grupais. Por fim, no estádio de realização, torna-se mais visível o envolvimento dos membros do grupo na realização das tarefas para o alcance dos resultados comuns, à medida que aumentam a confiança, a cooperação e o compromisso no interior do grupo. Considerando que a) os membros de uma equipa são interdependentes nas tarefas que realizam «quando têm que partilhar material, informação ou conhecimento para atingir os resultados e o desempenho pretendidos» (cf. Van der Vegt & Van der Vliert, 2002, p.51), e que b) a interdependência sócio-afectiva grupal, definida com base na sua dimensão de proximidade emocional, reflecte a presença de laços afectivos entre os elementos de um grupo de trabalho, os quais são caracterizados pela partilha de informação pessoal e preocupação com os outros (Alves, Lourenço e Miguez, 2009), tendo por base o Modelo Integrado de Desenvolvimento (Miguez & Lourenço, 2001), pode afirmar-se que num grupo, ao longo do tempo, os níveis de interdependência se alteram. Dito de outra forma, quer o modo como as equipas estruturam o trabalho a realizar – o grau de interdependência de tarefa –, quer a rede de relações informais entre os seus elementos – o grau de interdependência sócio-afectiva – sofrem alterações ao longo do processo de desenvolvimento de um grupo. 2. OBJECTIVO DO ESTUDO O objectivo central do estudo apresentado consiste em descrever o modo como os elementos de grupos em contexto organizacional dependem formal e informalmente uns dos outros quando se encontram em diferentes momentos da sua existência. Como referencial teórico sobre os grupos e seus processos de desenvolvimento adoptou-se o
2425 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal (Miguez & Lourenço, 2001). Para conhecer e analisar as características estruturais de interdependência das equipas estudadas, utilizou-se a metodologia de análise de redes sociais, que permite, para além da obtenção de indicadores ao nível grupal, criar sociogramas que representam as ligações interpessoais entre os membros de um mesmo grupo. 3. METODOLOGIA 3.1 Participantes As equipas participantes no estudo foram seleccionadas com base na definição de grupo por nós adoptada – os seus membros reconhecerem-se e serem reconhecidos formalmente como trabalhando numa equipa, interagindo regularmente tendo em vista o alcance de um alvo comum – e, também, tendo em conta o tipo de actividade desempenhado – funções de gestão – independentemente da sua dimensão. Foram seleccionadas quatro equipas de um total de 40 inquiridas. As equipas pertenciam a quatro organizações diferentes e desenvolviam um trabalho em grupo que exigia elevada autonomia, responsabilidade e interdependência entre os seus membros. Cada uma dessas equipas encontrava-se num estádio distinto de desenvolvimento grupal (estruturação, reenquadramento, reestruturação e realização). Para assegurar esta última condição, o total das 40 equipas inquiridas foi dividido em 4 categorias (cada uma correspondendo a uma diferente fase de desenvolvimento grupal) tendo sido, posteriormente, seleccionada aleatoriamente uma equipa pertencente a cada uma das categorias constituídas. O número de elementos das quatro equipas do presente estudo varia entre um mínimo de 5 e um máximo de 7. 3.2 Instrumentos Para identificar o estádio de desenvolvimento grupal das equipas, utilizou-se o Questionário de Percepção do Desenvolvimento da Equipa (Miguez & Lourenço, 2001), que foi administrado ao nível grupal através da solicitação a cada equipa de uma resposta representativa do grupo. A resposta ao questionário implica a opção por um de quatro cenários descritivos do funcionamento grupal, correspondendo cada cenário a um dos quatro estádios de desenvolvimento grupal propostos pelo Modelo Integrado de
2426 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 Desenvolvimento Grupal. Cada equipa tomou conjuntamente uma decisão, sem a presença dos investigadores, identificando em grupo o cenário que melhor a descrevia nesse momento. A interdependência grupal de tarefa e sócio-afectiva foi medida através de um questionário de análise de redes sociais composto por um conjunto de questões, numa escala de resposta de sete pontos (de 1 = nunca a 7 = sempre), que avaliam a frequência, considerando todos os elementos de cada equipa, de cada relação direccional diádica: (1) de interdependência de tarefa, através do item «Forneço ao meu colega informação e material essenciais sem os quais ele não consegue realizar o seu trabalho» e (2) de relacionamento sócio-afectivo (i.e., proximidade emocional), avaliado por três itens (e.g. « Relaciono-me de modo próximo e familiar com o meu colega para além dos assuntos de trabalho.»). As respostas foram posteriormente convertidas numa escala dicotómica (1 = presença de relação de interdependência e 0 = ausência de relação de interdependência), em que a presença de uma relação de interdependência entre dois colegas de equipa corresponde a pelo menos uma resposta de 4 pontos (às vezes) no questionário de interdependência grupal. Foram obtidas medidas de coesão e de centralidade. A coesão é calculada a partir do indicador de densidade da rede completa que é definido pelo número total de ligações da rede dividido pelo número máximo possível de ligações (Kilduff & Tsai, 2007). Se todos os actores fossem elementos isolados, a densidade da rede seria nula e se todos os elementos estivessem ligados uns aos outros, esse valor seria de 1. O grau de centralização grupal avalia em que medida os actores de uma mesma rede social diferem uns dos outros no seu grau individual de centralidade (Knoke & Yang, 2008) e é aqui calculada através do índice de Freeman. São apresentados dois indicadores da medida do grau de centralidade grupal: indegree (i.e., o número de ligações recebidas por um elemento dos restantes) e outdegree (i.e., o número de ligações que partem de cada um dos elementos em direcção aos restantes). 4. RESULTADOS Os resultados obtidos descrevem as medidas de interdependência na dimensão tarefa e na dimensão sócio-afectiva para cada uma das quatro fases de desenvolvimento grupal, sendo para o efeito utilizados os indicadores de coesão e de centralidade da
2427 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 metodologia da análise das redes sociais. Os dados foram analisados com recurso a rotinas do programa informático UCINET (Borgatti, Everett & Freeman, 2002). 4.1 Interdependência de tarefa Os resultados de coesão e centralidade para as relações de interdependência de tarefa são apresentados seguidamente (cf. Tabelas 1 e 2). As Figuras 1 a 4 mostram os respectivos sociogramas de cada uma das quatro equipas nessa dimensão de interdependência. Tabela 1 – Densidade da rede social: Relações de interdependência de tarefa em equipas de gestão em diferentes fases de desenvolvimento Estruturação Reenquadramento Reestruturação Realização Número médio de ligações 3.83 2.00 3.00 3.60 Densidade(%) 76.7% 33.3% 70.0% 90.0% Tabela 2 – Centralidade da rede social: Relações de interdependência de tarefa em equipas de gestão em diferentes fases de desenvolvimento Estruturação Reenquadramento Reestruturação Realização Indegree (%) 4.0% 19.4% 36.0% 12.5% Outdegree (%) 28.0% 38.9% 36.0% 12.5%
2428 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 A B C D E F Figura 1 – Equipa na fase de estruturação A B C D E F G Figura 2 – Equipa na fase de reenquadramento
2429 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 A B C D E F Figura 3 – Equipa na fase de reestruturação A B C D E Figura 4 – Equipa na fase de realização
2430 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 4.2 Interdependência sócio-afectiva Nas Tabelas 3 e 4, constam os resultados relativos aos indicadores de interdependência sócio-afectiva. As Figuras 5 a 8 suportam graficamente esses dados em cada equipa a que corresponde um estádio de desenvolvimento grupal distinto. Tabela 3 – Densidade da rede social: Relações de interdependência sócio-afectiva em equipas de gestão em diferentes fases de desenvolvimento Estruturação Reenquadramento Reestruturação Realização Número médio de ligações 1.83 0.86 2.14 0.60 Densidade (%) 36.7% 14.3% 50.0% 15.0% Tabela 4 – Centralidade da rede social: Relações de interdependência sócio-afectiva em equipas de gestão em diferentes fases de desenvolvimento Estruturação Reenquadramento Reestruturação Realização Indegree (%) 28.0% 22.2% 36.0% 12.5% Outdegree (%) 76.0% 22.2% 60.0% 75.0% A B C D E F Figura 5 – Equipa na fase de estruturação
2431 Actas do VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia Universidade do Minho, Portugal, 4 a 6 de Fevereiro de 2010 A B C D E F G Figura 6 – Equipa na fase de reenquadramento A B C D E F Figura 7 – Equipa na fase de reestruturação