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Semântica do Tempo Presente em Pulaar Francês e Português: estudo comparativo

Moctar Baldé

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FACULDADE DE LETRAS UNIVERSIDADE DO PORTO Moctar BALDÉ 2º Ciclo de Estudos em Linguística Semântica do Tempo Presente em Pulaar, Francês e Português: estudo comparativo 2013 Orientador: Profª Doutora Fátima Oliveira Classificação: Ciclo de estudos: Dissertação/relatório/Projeto/IPP: Versão definitiva Semântica do Tempo Presente em Pulaar, Francês e Português: estudo comparativo Moctar Baldé Tese de Mestrado em Linguística, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, orientada pela Profª Doutora Fátima Oliveira Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2013 Ao meu pai Mamadou Yoro À minha mãe Habibatou MBALLO À minha esposa Ndèye Dibor KITAL À minha filha Almoubarakatou I Agradecimentos É a ocasião para mim de expressar a minha gratidão a todas as pessoas que me ajudaram para realizar este trabalho. Agradeço imensamente à minha orientadora, a Professora Doutora Fátima Oliveira, que aceitou dirigir este trabalho. A Doutora Fátima Oliveira é um cesto cheio de conhecimentos. A sua pedagogia, o seu sentido da semântica e sua grande disponibilidade permitiram-me produzir o melhor de mim. Durante os meus dois anos de estudo e ao longo dos nossos encontros notei-lhe muitas qualidades, entre as quais ouvir para perceber e identificar as dificuldades do estudante, encorajar o aluno a acreditar em si mesmo, nunca criticar, corrigir sem frustrar o aluno, etc. Muito obrigado professora, que o bom Deus vos guarde, a si e à sua família, e a favoreça nos seus projetos. Ámen. Agradeço a todos os professores de Linguística, os Professores Ana Maria Brito, Fátima Silva, João Veloso, Graça Pinto, Purificação Silvano, Luís Filipe Cunha, Idalina Ferreira pela formação que recebi deles. Apresento igualmente os meus agradecimentos às autoridades da Universidade do Porto, particularmente à Senhora Diretora, Professora Doutora Maria de Fátima Marinho Saraiva, e toda a equipa administrativa da Faculdade de Letras. Exprimo a minha gratidão a toda a equipa de MUNDUS ACP da Universidade do Porto, dirigida pelas doutoras Bárbara Costa e Ana Paiva que me ofereceram a oportunidade de fazer este Mestrado e agradeço também ao Centro de Linguística da Universidade do Porto pelo seu apoio. Agradeço ainda às autoridades da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar que ajudaram muito, destacando o meu amigo representante das relações internacionais Abdoulaye Niang e os meus Professores Momar Cissé, Thierno Cissé, Amadou Sow Pierre Marie Sambou, Mamadou Ndiaye. Fica também expresso um agradecimento a todos os estudantes de Mestrado em Linguística, particularmente à Margarida Cunha (Guga), à Rita Dala, à Vânia Fernandes e ao António. Aos meus amigos Sandra Rodrigues, Otília Maria Soares, Abdel Aziz, Verá Cruz, Ely. Os meus agradecimentos dirigem-se também a todo o pessoal das relações internacionais da FLUP, os doutores Carla Augusto, Cristina Santos, Raquel Sampaio e Álvaro Costa. Aos meus amigos da biblioteca Laura Mariana Gil, Marlene Borges e às suas colegas, aos meus amigos do bar dos estudantes, Paula e Júlio e a todo o pessoal do bar. A todos os meus compatriotas vivendo no Porto, Gilberta Manga, Mbaye Diop, Oumar Sow, Dione, Fall. Agradeço à minha família pelo seu amor, apoio, generosidade e consideração em todos os momentos da minha vida, Fally, Mamadou Lamine, Abdoul, Oumar, Boubacar, Almoubarakatou Doucoure, Djibril, que sempre me ajudaram e me encorajaram. Os meus agradecimentos dirigem-se a todas as pessoas que de perto ou de longe me ajudam sempre. Resumo Esta tese de Mestrado tem como objetivo fundamental analisar e estudar os valores do Presente do Indicativo, ou seu equivalente, nas línguas pulaar, francesa e portuguesa, procurando comparar este tempo verbal nas três línguas para no fim ver os seus pontos comuns e o que as diferencia. Assim, para atingir este objetivo apresentámos no capítulo 1 as questões gerais sobre Tempo e Aspeto tratadas por vários linguistas. Nos capítulos 2, 3 e 4 tratámos sucessivamente do presente do indicativo em Pulaar, Francês e Português. No capítulo 5, sintetizámos e comparámos as formas do Presente do Indicativo nas três línguas. Vimos também como o valor aspetual é dado em cada língua e os valores transmitidos pelo Presente em cada língua uma vez combinado com as diferentes classes de predicados. No fim do nosso trabalho apresentámos as conclusões gerais, mostrando que o Português e o Francês se aproximam, distanciando-se do Pulaar, que apresenta caraterísticas específicas e privilegia o Aspeto. Résumé Ce mémoire a pour principal but d’analyser et d’étudier les valeurs du Présent de l’Indicatif et de son équivalent dans les langues Pulaar, Français et Portugais; comparer le présent des trois langues pour à la fin voir ce qu’elles ont en commun et ce qui les différencie. Ainsi, pour atteindre cet objectif nous avons, au chapitre 1 présenté les questions générales du temps et de l’aspect abordées par beaucoup de linguistes. Aux chapitres 2, 3 et 4 nous avons successivement abordé le présent en Pulaar, en Français et en Portugais. Dans le chapitre 5 nous avons synthétisé et comparé les formes du Présent de l’Indicatif dans les trois langues. Nous avons aussi analysé comment est exprimé la valeur aspectuelle dans chaque langue et les valeurs que le temps présent peut avoir une combiné avec les différent types de prédicats. A la fin de notre travail nous avons présenté les conclusions générales, en montrant que le Portugais et le Français sont identiques, et sont différents du Pulaar qui présente des caractéristiques spécifiques et privilégie l’Aspect. Abstract This master’s thesis has as the fundamental goal to analyse and study the semantic values of Presente do Indicativo (Simple present), or its equivalents, in the Pulaar, French and Portuguese languages. Comparing the three languages, we aim at finding what is common and what is different in these languages concerning the present tense. To pursue this objective, we present in the first chapter some general issues on Tense and Aspect as they are presented by some linguists. In chapters 2, 3 and 4 we analyze the present tense in Pulaar, French and Portuguese. In chapter 5, we sum up the main conclusions and we compare the present tense in the three languages. We also show how Aspect works in each language and what are the Present tense values in each language, when combined with different aspectual classes. At the end of our study, we present our conclusions. We show that Portuguese and French are very similar, but that they are different from Pulaar, which presents specific characteristics and gives a great importance to Aspect. Índice Dedicatória --------------------------------------------------------------------------------------------------- I Agradecimentos -------------------------------------------------------------------------------------------- II Resumo-------------------------------------------------------------------------------------------------------IV Introdução ----------------------------------------------------------------------------------------------------1 CAPÍTULO 1: Questões gerais sobre tempo e o Aspeto -----------------------------------------------4 Introdução ----------------------------------------------------------------------------------------------------4 1.1. Questões gerais sobre o Tempo ----------------------------------------------------------------------4 1.1.1. Reichenbach (1947) ----------------------------------------------------------------------------------5 1.1.2. Comrie (1985) ----------------------------------------------------------------------------------------6 1.1.3. Kamp e Reyle (1993) --------------------------------------------------------------------------------9 Conclusão ---------------------------------------------------------------------------------------------------10 1.2. Questões gerais sobre o Aspeto ---------------------------------------------------------------------11 1.2.1. Vendler (1967) --------------------------------------------------------------------------------------11 1.2.2. Dowty (1979) ---------------------------------------------------------------------------------------14 1.2.3. Moens (1987) ---------------------------------------------------------------------------------------15 1.2.4. Kamp e Reyle (1993) ------------------------------------------------------------------------------17 Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------------------17 2. CAPÍTULO 2: Valor Temporal e Aspetual do Presente em Pulaar ------------------------------18 Introdução ---------------------------------------------------------------------------------------------------18 2.1. Situação geográfica.-----------------------------------------------------------------------------------18 2.2. Descrição do Pulaar ----------------------------------------------------------------------------------18 2.3. Particularidade do Gaaɓuŋkoore -------------------------------------------------------------------21 2.4. Verbo ---------------------------------------------------------------------------------------------------22 2.4.1. Grupo de verbos.------------------------------------------------------------------------------------22 2.4.2. Morfologia do verbo.-------------------------------------------------------------------------------23 2.4.3. Conjugação dos verbos em Pulaar----------------------------------------------------------------24 2.5. Tempo e Aspeto em Pulaar --------------------------------------------------------------------------27 2.5.1. Tempo ------------------------------------------------------------------------------------------------27 2.5.2. Aspeto ---------------------------------------------------------------------------------------------30 2.5.2.1. Aspeto gramatical --------------------------------------------------------------------------------30 2.5.2.2. Morfemas aspectuais e classes de predicados ------------------------------------------------31 2.5.2.2.1. Predicados de estados -------------------------------------------------------------------------32 2.5.2.2.2. Predicados de processos -----------------------------------------------------------------------36 5 1.1.1 Reichenbach (1947) A sua teoria sobre a análise do tempo fundamenta-se em três pontos que são o Ponto da Fala (F), o Ponto de Evento (E) e o Ponto de Referência (R). O ponto de fala é o momento da fala ou da enunciação, o ponto do evento é o momento em que ocorre a situação e o ponto da referência serve como ponto intermédio a partir do qual se pode situar o evento ou o estado descrito. “Usualmente, considera-se que os tempos gramaticais se referem ao tempo entendido como ordenação linear orientada do passado em direção ao futuro” (Oliveira 2003: 130) Esta conceção do tempo tem como resultado fundamental a articulação dos tempos gramaticais em três domínios, que são o passado, o presente e o futuro. Assim, esta perceção dos tempos permitir-nos-á falar relativamente às situações descritas, como relações de anterioridade, de simultaneidade ou de posterioridade. Ponto de fala ANTES SIMULTÂNEO DEPOIS (passado) (presente) (futuro) O Presente analisa-se como coincidente com o momento da fala. No entanto, é preciso notar que o tempo verbal do presente tem valores muito diversos entre os quais o presente que expressa habitualidade, o que tem um valor de futuro, o presente progressivo, etc. (1) O Pedro fuma. (2) A Ana vai viajar amanhã. (3) O João está a dormir. Se tentamos representar esses diferentes valores na teoria de Reichenbach teremos estes diferentes esquemas. A) Presente habitual: O Pedro fuma. 6 O sentido desta frase é que “o Pedro tem o hábito de fumar” ou “ o Pedro é fumador”. Podemos esquematizar este exemplo numa linha descontínua: E E E E F,R,E No presente de hábito há uma coincidência dos três pontos. B) Presente com valor de futuro: A Ana vai ao cinema. Este exemplo expressa uma ideia que acontecerá no futuro e pode traduzir-se por “ A Ana irá ao cinema (amanhã).” F,R E C) Presente progressivo: O João está a dormir. Neste exemplo o ponto do evento e o momento da fala coincidem. E FR No presente progressivo há também coincidência dos três pontos, mas trata-se de um tempo alargado. A teoria de Reichenbach (1947) sobre o tempo e aspeto permite considerar o tempo como um espaço ou intervalo e identificar os diferentes valores do presente. Assim, a localização dos diferentes pontos de uma situação facilita-nos identificar os valores desse tempo mas também daqueles outros tempos de passado e de futuro. 1.1.2. Comrie (1985) A localização temporal pode ser estabelecida de várias maneiras; em função do momento em que um enunciado é produzido, em função de um valor temporal expresso que é tomado como ponto de referência. Na sua teoria sobre o tempo, Comrie (1985) 7 define o sistema temporal como um sistema deítico na medida em que relaciona entidades a um ponto de referência (R): “A system which relates entities to a reference point is termed a deictic system, and we can therefore say that tense is deictic”. (Comrie: 1985:14) Para estabelecer relações de ordem cronológica entre os diferentes momentos da categoria tempo, Comrie considera o momento de fala como momento de referência. “(...) the reference point is typically the present moment..." (idem) As diferentes relações entre esses momentos são relações de anterioridade (antes), posterioridade (depois) e de simultaneidade (simul), em relação ao momento de fala. Na sua tese de mestrado, Silvano (2002) afirma: “A caraterização dos tempos verbais estabelece-se através das relações entre o momento de evento (E) e o momento de fala (S), relações de anterioridade (antes), posterioridade (depois) e simultaneidade (simul), sendo E a variável e S o ponto fixo” [2002:15] O momento presente ou momento de fala desempenha um papel importante na expressão das diferentes formas temporais. Antes de caraterizar os tempos verbais, Comrie refere a necessidade de diferenciar o significado básico do significado secundário dos tempos verbais. O nosso entendimento sobre o significado básico proposto por Comrie corresponde ao valor primeiro que um tempo verbal tem, e o significado secundário é constituído pelos valores temporais, aspetuais ou modais que um tempo verbal pode ter. Por exemplo, (cf. (4)) o pretérito imperfeito do Português tem como significado básico temporal o passado mas em alguns casos tem um valor modal, e este último valor corresponde ao significado secundário (cf. (5)). (4) O João era uma criança inteligente. (5) Queria um café, por favor. (Silvano: 2002) Assim, no exemplo (4), temos uma relação de anterioridade entre a situação descrita e o momento em que o enunciado é produzido. É este tempo passado que Comrie chama significado básico. Mas podemos ter uma outra interpretação ou leitura que é “agora, o 8 João já não é uma criança”, “é uma pessoa adulta”, ou “o João já não é uma criança inteligente” mas “uma criança não inteligente” ou ainda, “o João já não existe”. Depois de mostrar a diferença entre o significado de um tempo verbal e as diferentes interpretações que podemos fazer deste valor, “Comrie agrupa os vários tempos verbais em três grandes grupos: os tempos absolutos, os tempos relativos e os tempos absolutosrelativos.” (Silvano:2002:15) Vamos observar em primeiro lugar os tempos absolutos que se agrupam em presente, passado e futuro. O Presente carateriza-se por descrever uma situação que engloba o momento da fala, mas em alguns contextos ocupa um espaço temporal maior do que o momento da fala como é o caso em que se usa com eventos, constituindo o presente habitual. (6) A Rita vive em Paris. (7) A Maria fuma. No exemplo (6) a situação descrita ultrapassa o momento de fala e não a podemos delimitar, a única coisa que sabemos é que a situação descrita ocorre no momento da fala. O exemplo (7) pode traduzir-se por “ a Maria é fumadora”. O presente do verbo expressa uma habitualidade na vida da Maria e não sabemos se no momento da fala a Maria tem um cigarro e está a fumar. Este presente contradiz a definição de Comrie. Mas como disse Silvano, o linguista explica-se dizendo que “uma situação que constitui um hábito mantém-se no momento presente, embora não se possa dizer que esteja a decorrer nesse intervalo de tempo.” (2002:16) Quanto ao passado e ao futuro, descrevem respetivamente situações localizadas num espaço temporal anterior e posterior ao momento da fala. Não vamos insistir sobre estes dois tempos verbais. O que podemos dizer da teoria de Comrie é que o presente engloba o momento da fala da situação descrita, quer seja habitual quer progressivo. O passado apresenta situações anteriores ao momento da fala e, quanto ao futuro, este descreve situações posteriores ao momento da fala e podem sofrer alterações. 9 1.1.3. Kamp e Reyle (1993) A Teoria de Representação Discursiva (DRT), de Kamp e Reyle (1993), fundamenta-se na semântica e na lógica. Um dos objetivos da DRT é a tentativa de resolução de problemas de tempo e de aspeto. A DRT fornece explicações válidas para resolver problemas semânticos relacionados com estrutura temporal do discurso, incorpora contributos de outras áreas, como a pragmática, essencial à interpretação do discurso. Ela tem como fontes de informação a semântica lexical e composicional e o conhecimento do mundo, entendendo que a construção linguística fornece instruções para o interlocutor interpretar os enunciados. Relativamente ao tempo Kamp e Reyle julgam que há uma teoria bi-dimensional dos valores de tempo, situando-se, portanto, na mesma linha que Reichenbach. Reichenbach, na sua análise dos tempos verbais, apresentou três pontos na localização temporal das situações. Estes pontos são o ponto de fala, o ponto de evento e ponto de referência e estabeleceu as relações que existem entre esses pontos, apresentando como centro de análise o ponto de fala. Estas relações são relações de anterioridade de simultaneidade e de posterioridade. Kamp e Reyle, por sua vez, distinguem dois tipos de pontos de referência, que são o ponto da referência (Rpt) e o ponto de perspetiva temporal (PPT). Rpt é o tipo de referência temporal que explica a progressão narrativa, e o PPT é o tipo de referência temporal a partir da qual a eventualidade é vista. Na sua teoria, os dois linguistas apresentam duas relações que os dois pontos têm em relação ao momento da enunciação e à localização da eventualidade. A primeira relação é a relação que há entre PPT e o momento de enunciação (n), e a segunda é a relação entre a localização da eventualidade descrita e o PPT. A primeira relação tem dois valores, + Past e – Past, o que significa que o PPT se localiza antes do momento de enunciação ou coincide com o momento de enunciação respetivamente. A segunda relação corresponde à caraterística Tempo e determina a relação entre o tempo de localização da eventualidade descrita e o PPT e tem os valores de presente, passado e futuro. A representação dos tempos verbais inclui ainda a determinação das caraterísticas aspetuais, estativo ou eventivo (+/- Stat) e com ou sem estado resultativo (+/- Perf). (cf. Silvano: 2002) 10 Ao comparar o passado ao futuro, Kamp e Reyle observam que os usos destes dois tempos verbais são muito diferentes. A primeira diferença encontra-se na perspetiva temporal e a segunda na forma como os eventos são representados numa narrativa. “Uma narrativa no passado descreve, normalmente, os eventos na sequência em que eles ocorram e uma narrativa no futuro não adota o mesmo procedimento que o anterior, isto é, não descreve primeiro os eventos mais distantes e depois os eventos mais próximos. Para além disso, enquanto concebemos o passado como terminado, concebemos o futuro como aberto.” (Silvano: 2002:46) Ao comparar o presente com o passado e o futuro, Kamp e Reyle descobrem uma grande diferença. A principal diferença é a reflexividade do presente (“tokenreflexiveness”). Consideram que o princípio de interpretação do presente é o de que a eventualidade descrita pelo presente deve incluir o momento de enunciação. Isto significa que uma eventualidade situada numa frase que se encontra no presente deve ser vista como um estado. Uma das caraterísticas dos estados no presente é incluir o momento de enunciação ou da fala. Conclusão Nesta primeira parte do capítulo procurámos, por um lado, construir uma definição de tempo e, por outro lado, descrever e analisar algumas teorias de tempo que nos permitissem compreender melhor as bases da referência temporal. Vimos que as teorias de Comrie e a de Kamp e Reyle têm como origem a teoria de Reichenbach sobre a tipologia temporal, que distinguiu os três pontos para a localização das situações. Na sua análise temporal, Comrie define os tempos na mesma visão de Reichenbach para no fim agrupa-los em três grandes grupos, que são: os tempos absolutos, os tempos relativos e os tempos absolutos-relativos. Quanto a Kamp e Reyle, defendem também uma teoria do tempo bi-dimensional, situando-se na mesma linha que Reichenbach. Eles distinguem dois tipos de pontos de referência que são: referência temporal que explica a progressão narrativa, (Rpt) e referência temporal a partir da qual a eventualidade é vista (PPT). Na análise dos nossos dados, recorremos a conceitos das propostas de Reichenbach e de Comrie. Vamos recorrer também à proposta de Kamp e Reyle. 11 1.2. Questões gerais sobre o Aspeto Em várias línguas do mundo, verifica-se que os tempos verbais podem também dar informações aspetuais, sem que a distinção entre tempo e aspeto se possa fazer morfologicamente. Usualmente, fazemos uma distinção entre aspeto gramatical que se realiza através dos morfemas flexionais e ‘aktionsart’ ou modo de ação dado pelo verbo ou predicado. Esta segunda parte do capítulo tem como objetivo fundamental apresentar algumas questões sobre a semântica do aspeto. Assim, abordaremos este ponto dando alguns exemplos para distinguir aspeto gramatical e ‘aktionsart’, depois apresentaremos sucessivamente as teorias de Vendler (1967) sobre o aspeto, Moens (1987) em que se considera o núcleo aspetual e a rede aspetual, Dowty (1979) e Kamp e Reyle (1993) para no fim apresentar algumas conclusões sobre estas noções apresentadas. 1.2.1. Vendler (1967) O seu trabalho sobre a tipologia dos predicados contribuiu muito para a progressão da semântica do Tempo e do Aspeto. Permitiu diferenciar o aspeto gramatical do aspeto lexical e identificar os valores dos tempos verbais. Na sua classificação, Vendler distingue quatro categorias de classes aspetuais, os Estados, as Atividades, os ‘Accomplishments’ e os ‘Achievements’. Oliveira, (2003), apresenta essa distinção de maneira detalhada e os métodos de diferenciação. Os eventos são situações dinâmicas e os estados são situações não dinâmicas. Usa-se testes para distinguir as classes aspetuais. A primeira distinção encontra-se entre eventos e estados. Segundo Vendler, os eventos podem ocorrer no imperativo e na construção progressiva e os estados não. (8) Come a sopa! (9) O Rui está a comer a sopa. Mas não podemos dizer: (10) *Sê grande! (11) *O Manuel está a ser grande. 12 Os estados não admitem o progressivo mas as actividades, os achievements e os accomplishments admitem-no. (12) *Ele está a saber a resposta. (estado) (13) Ele está a chegar ao topo da montanha. (achievement) (14) Ele está correr. (atividade) (15) Ele está a escrever uma carta. (accomplishment) Com estados, é possível formular perguntas do tipo “Do you V” em Inglês ou sujeito + predicado estativo para obter respostas como sim + sujeito + predicado em Português. Os eventos não aceitam este tipo de perguntas, mas admitem o tipo “Are you V-ing”, em Português é a forma progressiva + verbo sem esquecer o ponto de interrogação no fim da frase. (16) Ele gosta de linguística? (estado) (17) Sim, ele gosta de linguística. Mas não (18) *Ele corre? (ativ.) (19) *Ele escreve uma carta? (accompl.) (20) *Ele chega ao topo? (achiev.) (21) *Sim, ele corre/ escreve/ chega ao topo. No entanto, podemos ter perguntas e respostas do tipo: (22) Ele está a correr? (23) Ele está a nadar? (24) Sim, ele está a correr/ nadar. Vendler usa também o teste da implicação do progressivo relativamente ao perfeito para distinguir as atividades dos ‘accomplishments’. Nas atividades a verdade no progressivo implica a verdade no perfeito; nos ‘accomplishments’ a verdade no progressivo não implica a verdade no perfeito. (25) A Maria está a trabalhar (ativ.) implica que “a Maria trabalhou.” 13 (26) A Maria está a escrever o relatório (acc.) não implica “a Maria escreveu o relatório.” Este teste distingue também estados dos achievements, apesar de (27) só ser possível porque ser simpático é um estado faseável (cf. Cunha 2004). (27) O Pedro está a ser simpático (est.) implica “o Pedro foi simpático” (28) A Maria está a ganhar a corrida (ach.) não implica “a Maria ganhou a corrida.” Assim, podemos observar que o teste de implicação do progressivo relativamente ao perfeito reúne em dois grupos as situações, de um lado os estados e as atividades e, de outro lado, os ‘accomplishments’ e os ‘achievements’. O primeiro grupo é caraterizado pela homogeneidade e o segundo por as predicações serem télicas, é caracterizado por apresentar um estado consequente, necessitando, por isso, de um ponto de culminação para ser verdadeiro. Notamos também que o teste de progressividade utilizado pelo Vendler para distinguir estados de eventos não funciona em todos os casos. Temos dois tipos de estados que são os faseáveis e os não faseáveis; os primeiros podem ocorrer em construções progressivas (estar a + inf) e os segundos não. (29) O Rui está a viver em Paris. (faseável) (30) *A Rita está a ser alta. (não faseável) Quanto ao teste de perguntas de tipo “Dou you V”, as atividades, os ‘accomplishments’ e os ‘achievements’ podem ocorrer com estas perguntas no presente simples, nesse caso o presente terá um valor habitual mas não progressivo. (31) O João trabalha? (32) O João nada? (33) Sim, João trabalha/ nada. Um outro teste relevante consiste na selecção de diferentes expressões adverbiais de tempo, “durante X tempo” e “em X tempos”, para distinguir as classes aspetuais. Os estados e as atividades ocorrem com a expressão adverbial de tempo “ durante X 14 tempo”, os accomplishments com “em X tempo” e os achievements com expressões de localização temporal precisa (ou pontual). (34) A Maria viveu em Paris durante 20 anos. (est.) (35) O Carlos trabalhou durante 5 horas. (ativ.) (36) A Ana comeu a maçã em 2 minutos. (accompl.) (37) A Ana chegou às 2h30mn. (ach.) Nota-se que os ‘accomplishments’ se distinguem dos ‘achievements’ pelo facto de estes últimos ocorrerem com advérbios de localização temporal precisa. É preciso notar que os valores aspetuais são indispensáveis na identificação do valor semântico das frases. Esta proposta de Vendler (1967), que distingue quatro classes aspectuais, será a base ou o fundamento de todas as outras teorias de Aspeto. É neste sentido que Dowty (1979) retoma e desenvolve uma parte dos testes de Vendler. 1.2.2. Dowty (1979) Dowty utiliza a mesma tipologia aspectual que Vendler, retomando testes deste autor ou propondo outros testes. No caso dos estados, ele retoma o teste de Vendler e acrescenta alguns outros, quer dizer, os estados não podem ocorrer no progressivo. (38) * O Pedro está a ser moreno. Não ocorrem no imperativo (39) * Pedro, sê moreno. Entre os novos testes que Dowty acrescentou temos o de os estados não poderem ser complemento de verbos como forçar ou persuadir. (40) * O João forçou o Pedro a ser moreno. Não podem surgir com advérbios de tipo deliberadamente, cuidadosamente (que implicam agentividade): (41) * O Pedro é moreno deliberadamente. Não ocorrem em construções pseudo-clivadas: 21 No exemplo (14) a posição do pronome mi afeta a alternância e marca aspetual i. Não podemos apresentar neste trabalho todas as diferença que apresentam as diferentes variedades do Pulaar, mas podemos notar que todas essas diferenças não afetam a compreensão entre os locutores das diferentes variedades. No quadro da dialetologia e da sociologia muitos esforços têm sido feitos para a harmonização da língua. Nos países onde a língua tem muitos falantes ainda não foram definidas perspetivas educativas das normas e diretivas internacionais a adotar em relação a uma política geral de harmonização do ensino da língua Fulfulde ou Pulaar ao nível africano como língua unitária de ensino. Neste trabalho, a nossa referência será o Gaaɓuŋkoore, variedade falada na parte Sul do Senegal, uma parte de Guiné Bissau e de Gâmbia (Fuladu antigo do reinado fuulas). 2.3. Particularidade do Gaaɓuŋkoore Neste estudo, o nosso Pulaar de referência é o Gaaɓuŋkoore, Pulaar de Fuladu de Kolda (Sul Senegal). O nome desta variedade, segundo as tradições orais, vem das palavras gaa (aqui) e ɓuri (melhor) (tudo dá aqui é melhor.) É uma variedade falada também na parte norte da Guiné Bissau e no Sul da Gâmbia. A sua descrição fonológica é a mesma do Pulaar falado no Senegal. No entanto, é preciso notar que nesta variante as articulações prenasais não aparecem no início dos substantivos nominais. (16) babba (burro). mbabba (Jeeri ex:) (17) jamndi (ferro) . njamndi ( idem) (18) gaari (touro). ngaari (ibidem) O Gaaɓuŋkoore opera parcialmente a alternância consonântica com os verbos conjugados, porque todas as outras alterações podem ser operadas exceto as prenasais. (19) Ko hande gar-mi. (Fuladu) / Ko hande ngar-mi (Jeeri) (foi hoje que fui) (20) ɓe jeeyi puccu nguu. (Fuladu) / ɓe njeeyi puccu nguu (Jeeri) vendem o cavalo Uma outra caraterística do Gaaɓuŋkoore é a utilização frequente do rotacismo da oclusiva [t] em [rh] quando aparece entre vogais. Este [rh] realiza-se como uma vibrante aspirada fortemente perceptiva. 22 (21) [hita:nde] = [ hirha:nde]. « ano » (22) [koto:] = [ korho:]. «irmão» (23) [wo:te:] = [wo:rhe:]. «voto» (24) [ tati ] = [ tarhi ]. « três » O [t] realiza-se [s] quando o seu contexto precedente é um [r] e o contexto subsequente é uma vogal. (25) [warta:de] = [warsa:de]. «matar-se» (26) [ ʔartude] = [ ʔarsude]. «voltar» (27) [wo:rtude] = [wo:rsude]. « já não passar » (28) [hortude] = [horsude]. «secar» O Gaaɓuŋkoore tem também uma maneira muito particular de expressar o Presente e o Presente progressivo. (29) Mino ñaama maaro. estou a comer arroz (30) Ano una gawri. estás a moer milho (31) Minoonin ñaama maaro. estou a comer arroz (32) Anoonin una gawri. estás a moer milho Todas essas caraterísticas não impedem os outros de compreender os gaaɓuŋkooɓe. 2.4. Verbo 2.4.1. Grupo de verbos Os verbos Pulaar têm uma marca infinitiva (-de) e dividem-se em três conjugações agrupadas como a seguir se apresenta: 1° Grupo: são os verbos formados pelo radical mais -de (marca do infinitivo). Estes verbos têm o mesmo valor que os outros formados com radical mais -u (vogal epentética) mais -de. Exemplo yahde (ir), arde (vir), addude (levar), soggude (expulsar), e todos se conjugam da mesma maneira. 23 2° Grupo: são os verbos cujos radicais são terminados por -aa mais -de. Temos os verbos como: jooɗaade (sentar-se), ɗaanaade (dormir), jippaade (descer), waalaade (deitar-se), liggaade (trabalhar), etc. 3° Grupo: são os verbos cujos radicais contêm a desinência -ee mais -de. Exemplo: laaɓeede (ter a certeza), lippeede (ser batido), humpeede (ser curioso), haɓeede (baterse). Os verbos da terceira conjugação são considerados como verbos passivos e, nesse caso, o sufixo -ee é usado para mudar o grupo dos verbos. Isso exemplifica-se por verbos como lippude (bater), lippeede (ser batido), lootde (lavar), loorheede (ser lavado), etc. Conhecer os diferentes tipos de verbo em Pulaar tem uma grande importância para a conjugação. 2.4.2. Morfologia do verbo O Pulaar é uma língua fortemente aspetual. Na morfo-semântica dos verbos, além da expressão da categoria tempo formalmente marcada, temos também marcas específicas para expressar a categoria de modo. As marcas de voz correspondem aos três grupos verbais apresentados em cima. O primeiro grupo relaciona-se com a voz ativa, o segundo grupo a voz média e o terceiro a voz passiva. A forma negativa é marcada pelos sufixos -aani no passado e -ata no futuro. A marca do aspeto é certificada de maneira distinta e clara em Pulaar. Temos duas marcas aspetuais, que são o -ii marca do perfeito e o -aa marca do imperfeito. (33) mi yahii. (parti (perfetivo/afirmativa)) (34) mi arat toon janngo. (virei lá amanhã (imperfetivo/afirmativa)) (35) mi yahaani Lisboa. (não fui a Lisboa (perfetivo/negativo)) A língua tem também o morfema temporal -no, que pode juntar-se ao verbo com o aspeto para exprimir a anterioridade do processo em relação ao momento da fala ou de uma outra situação. O morfema -oy é também sufixo derivativo de distanciamento, serve para marcar a posterioridade, na maior parte do tempo usa-se com o -t, marca do futuro. As duas marcas, de anterioridade e de posterioridade, podem ser combinadas sem ser amalgamadas. 24 (36) mi yahiino. (tinha partido (ant.)) (37) mi yahoyat. (partirei ou vou partir (post.)) (38) mi yahoyaano to Paris. ( não terei ido para Paris (ant.)) O morfema de anterioridade pode aparecer com a vogal longa (noo) mas sem afetar o sentido semântico do verbo ou da frase. Os dois morfemas (ant. e post.) ficam sempre autónomos e não se misturam com as outras marcas de modalidade do verbo. Contrariamente ao -noo e ao -oy, as marcas de voz, de forma (afirmativa ou negativa) e de aspeto são geralmente amalgamadas numa única unidade morfológica. É o caso nos exemplos (33) e (34). O impato do Aspeto na expressão verbal esconde muitas vezes as marcas de tempo e de modo, (exceto a de anterioridade no e de posterioridade oy). Apesar disso, a língua expressa todas as nuances temporais e modais necessárias para a clareza da comunicação ou do discurso. Para expressar essas modalidades não formalmente marcadas, a língua usa o contraste aspetual combinado com alguns elementos lexicais. É isto que dá ao sistema verbal Pulaar um caráter tão complexo e engana sempre a gente que tenta perceber e definir os vários paradigmas da conjugação. 2.4.3. Conjugação dos verbos em Pulaar A conjugação dos verbos em Pulaar é muito diferente das conjugações nas línguas como o Português e o Francês. Assim, para conjugar um verbo em Pulaar, o falante escolhe uma marca aspetual segundo o tempo e o grupo do verbo. A situação descrita é assegurada por elementos aspetuais que são sufixados no radical verbal. No presente do indicativo, se o sujeito é um substantivo ou um nome próprio, coloca-se o morfema espacial de tempo ɗi (aqui) entre o sujeito e o verbo, e, quanto aos pronomes sujeitos no presente, usa-se os pronomes durativos. Nos outros tempos temos sujeito mais marca aspetual sufixado no radical do verbo. No entanto, as desinências (aspetuais) dos verbos ficam invariáveis em todas as pessoas. Nesse caso é preciso conhecer a desinência de cada grupo. No Presente Simples do indicativo usa-se o aspeto Imperfeito. Os verbos do primeiro grupo têm a desinência -a ou -aa associada ao radical do verbo, nos verbos da segunda 25 conjugação é o radical mais a desinência -oo, e quanto ao terceiro grupo é o radical mais -ee. No Presente, os pronomes sujeitos participam na determinação do tempo presente. É isso que faz a especificidade dos pronomes sujeitos no presente simples. Presente Simples pronomes Yahde /ir Lelaade/ deitar Haɓeede/ bater-se mino (eu) yaha leloo haɓee ano (tu) yaha leloo haɓee mbon (ele/ela) yaha leloo haɓee menen (nós excl.) jaha leloo kaɓee enen (nós incl.) jaha leloo kaɓee onon (vocês/vós) jaha leloo kaɓee ɓen (eles/elas) jaha leloo kaɓee Quadro1 Temos também o Presente Progressivo, que se distingue do Presente Simples na forma do pronome pessoal sujeito (ex: minoonin) cf. quadro2. Presente Progressivo Pronomes yahde lelaade Haɓeede minoonin yaha leloo haɓee anoonin yaha leloo haɓee mboonin yaha leloo haɓee meneenin yaha leloo haɓee eneenin yaha leloo haɓee onoonin yaha leloo haɓee ɓeenin yaha leloo haɓee Quadro2 É preciso notar que a diferença entre o valor semântico do Presente simples do indicativo e do Presente progressivo não é tão clara. O progressivo é contextual e usa-se na maior parte dos casos nos diálogos. No passado, temos a marca perfetiva -i ou -ii como desinência dos verbos da primeira conjugação, -iima nos da segunda e -aama para os verbos da terceira. A forma dos pronomes pessoais sujeito é diferente da do presente, e não se coloca um morfema temporal ou espacial entre sujeito (nome) e o verbo. 26 Passado. pronomes Unde/moer jooɗaade/sentar-se suɓeede/ser escolhido mi (eu) unii jooɗiima suɓaama a (tu) unii jooɗiima suɓaama mbo (ele/ela) unii jooɗiima suɓaama men (nós excl.) gunii jooɗiima cuɓaama en (nós incl.) gunii jooɗiima cuɓaama on (vocês/vós) gunii jooɗiima cuɓaama ɓe (eles/elas) gunii jooɗiima cuɓaama Quadro3 Temos cinco formas para expressar uma situação no passado. Vamos representar num só quadro essas formas de passados com os pronomes com quais se usam. Os passados. Pronomes. Desinência. Forma de passado ou P Mi A Mbo -ii P1 Mino Ano Mbon -i P2 Miin Aan Makko -i P3 Mi A mbo -ø P4 -mi -ɗaa mbo -ø- -ø- -i P5 Quadro 4 Temos duas formas de futuro. Para conjugar um verbo na primeira forma do futuro simples do indicativo, temos o aspeto Imperfeito dos verbos das três conjugações mais o morfema temporal do futuro (-t). Assim, temos a desinência -at no radical dos verbos da primeira conjugação, -oto nos da segunda e -ete nos da terceira forma. Os pronomes pessoais são os mesmos ou idênticos aos do passado e não se coloca um morfema temporal ou espacial entre o sujeito substantivo ou nominal e o verbo. 27 Futuro Simples. Pronomes Dogde/correr Liggaade/trabalhar Haalneede/ser informado mi dogat liggoto haalnete a dogat liggoto haalnete mbo dogat liggoto haalnete men dogat liggoto kaalnete en dogat liggoto kaalnete on dogat liggoto kaalnete ɓe dogat liggoto kaalnete Quadro 5 A segunda forma de futuro constrói-se com a palavra “maa” diante dos pronomes pessoais sujeitos mais as formas dos verbos no presente. Como “maa mi yaha (tenho que ir), maa mi leloo (tenho que me deitar), maa mi haɓee (tenho que me bater).” Notamos que fora a alteração de consoantes no início de alguns verbos nas três pessoas do plural, o radical do verbo não muda nos três tempos. Os pronomes pessoas sujeitos no presente são diferentes dos do passado e do futuro. 2.5. Tempo e Aspeto em Pulaar 2.5.1. Tempo Os tempos gramaticais referem-se ao tempo entendido como ordenação linear orientada do passado em direção ao futuro. Esta visão tem como consequência analisar os tempos gramaticais como uma articulação de três domínios, que são o passado, o presente e o futuro. Cada um desses três domínios pode entreter com o tempo da enunciação uma relação de anterioridade, de simultaneidade e de posterioridade. Se o presente é sempre considerado coincidente com o momento da fala, quanto ao passado e futuro, referem situações anteriores ou posteriores ao momento da referência. (39) Sammba yahii koldaa. Sammba rad. ir perf. koldaa (Sammba foi para kolda) (40) Kadii defoyat janngo. Kadii rad.preparar suf.post. imp. tp. amanhã 28 (Kadii vai preparar amanhã) (41) Alseyni ɗi duuloo. Alseyni aqui rad.binar imp. (Alseyni está a binar) (42) Umaar ɗiinin wulla. Umaar aqui atualmente rad.chorar imp. (Umaar está a chorar) A situação descrita em (39) é localizada num momento de tempo anterior ao momento de fala, e linguisticamente esta localização é assegurada pelo morfema do aspeto perfeito -ii. Em (40), a situação ocupa um intervalo de tempo que é posterior ao momento da enunciação. Esta localização é assegurada pelo morfema de afastamento e de posterioridade -oy mais o sufixo do tempo futuro -t. O advérbio de tempo janngo que corresponde ao Futuro Próximo do indicativo reforça esta ideia. Em (41), a situação descrita é localizada num intervalo de tempo em que o momento da fala é incluído no momento do evento. Nesse caso podemos dizer que há uma sobreposição no mínimo parcial dos dois momentos. Quanto ao exemplo (42), a situação é apresentada no momento da sua realização. O tempo do predicado é o presente progressivo. Nesta parte de nosso trabalho é importante referir-nos à teoria de Reichenbach (1947) sobre a localização temporal. Segundo Reichenbach, a localização temporal é relativa e há três momentos essenciais que são: - ponto da fala (F), que coincide com o momento da fala ou da enunciação; - ponto do evento (E), que diz respeito ao tempo do acontecimento descrito pela frase; - ponto de referência (R), que serve como ponto intermédio a partir do qual se pode situar o evento (ou estado) descrito. (43) Ruɓi yottiima hanki. Ruɓi rad.chegar perf. ontem (Ruɓi chegou ontem) (44) Alfaa ɗi hoɗi Baayaa. Alfaa aqui rad.morar perf. Baayaa (Alfaa mora em Baayaa) (45) Tuubaakooɓe tawø Musaa Moolo dogiino to Sulaabali. colonos rad.descobrir perf. Musaa Moolo rad.fugir perf. ant. là Sulaabali 29 (Os colonos descobriram que Musaa Moolo tinha fugido para Sulaabali) Em (43) a situação descrita é anterior ao momento da fala. Esta anterioridade é reforçada pelo advérbio do tempo hanki, nesse sentido o ponto do evento é anterior ao momento da fala e os dois pontos têm uma relação de anterioridade. Na frase (44), o ponto da fala é incluído no ponto do evento. Assim, podemos dizer que o momento da fala está incluído no ponto do evento. Quanto ao exemplo (45), as situações representadas nas duas orações são anteriores ao momento da fala. Mas, a fuga de Musaa Moolo é anterior à chegada dos colonos, anterioridade reforçada pelo morfema - no. Neste caso a oração principal funciona como ponto de referência. Assim, a categoria Tempo serve para localizar as situações expressas nas línguas naturais em diferentes tipos de enunciados [cf. Oliveira 2003]. Essa localização é, na maior parte dos casos, feita pelos tempos verbais. Mas também advérbios de tempo e algumas construções podem desempenhar este papel. Se a referência é diretamente feita com elementos extralinguísticos, temos nesse caso uma relação dêitica, mas se a localização temporal do enunciado se relaciona com elementos linguísticos falamos duma relação anafórica. O Pulaar tem morfemos temporais para marcar as relações de anterioridade, de simultaneidade e de posterioridade que existem entre os diferentes tempos. (46) Hasana ñaamiino. Hasana rad.comer perf. Suf.ant. ( Hasana já comeu) (47) Hasana ɗiinin ñaama. Hasana aqui atualmente rad.comer imp. (Hasana está a comer) (48) Hasana ñaamoyat. Hasana rad.comer suf.post.imp. tp (Hasana vai comer) Os morfemas -no, -inin e -oy marcam respetivamente a anterioridade, simultaneidade e a posterioridade em relação ao ponto da fala. É preciso notar que estes morfemas podem juntar-se a todas as formas verbais sem que sejam amalgamados com outras desinências. 30 2.5.2. Aspeto O aspeto dá informações sobre a forma como é perspetivada a estrutura temporal interna de uma situação descrita pela frase, em particular pela sua predicação. Em Pulaar, o aspeto gramatical distingue-se de ‘aktionsart’ por ser realizado pelos afixos e o outro pela natureza lexical dos predicados. 2.5.2.1. Aspeto gramatical O aspeto verbal é uma categoria gramatical presente em todas as línguas naturais. O sistema verbal Pulaar funciona essencialmente na oposição aspetual Perfeito e Imperfeito. Estes aspetos relacionam as situações descritas ao momento da fala. Segundo Li et al (1982) citado por Leiria [1996: 78] “o perfeito é um aspeto relacional, a sua função é relacionar eventos ou estados com um outro momento (tempo da referência)”. No seu enunciado, o locutor pulaar dá os diferentes momentos do desenrolar da situação que ele apresenta. Assim, para apresentar as situações, o Pulaar tem morfemas aspetuais que indicam se o evento ou o estado já foi ou não realizado, em outras palavras, se a situação descrita é perfeita ou imperfeita. (49) Kumba yarii diyam ɗam. Kumba rad.beber perf. água det. (Kumba bebeu a água ) (50) Kumba yarø diyam ɗam. Kumba rad.beber perf. água det. (Kumba bebeu a água) (51) Kumba ɗi yara diyam ɗam. Kumba aqui rad.beber imp. ´ água det (Kumba está beber a água) (52) Kumba yarat diyam ɗam. Kumba rad.beber imp. tp. água suf.cl det. (Kumba beberá a água) (53) Yar diyam ɗam Kumba! Rad.beber imp. água det. Kumba (beba a água Kumba!) 37 Nas frases (85) – (87) temos leituras temporais de passado e de (88) – (90) de presente. As diferentes leituras devem-se a presença ou ausência de ɗi e aos morfemas de perfeito ou imperfeito. No entanto, o morfema ɗi também se pode combinar com o morfema -ii (cf. (91) – (93)) assemelhando-se a um presente narrativo em Português ou em Francês, isto é, uma situação do passado que é apresentada como presente. Assim, o morfema de perfeito, quando combinado com processos, faz uma localização no passado, mas o morfema ɗi faz uma localização no presente. Pelo contrário, o morfema do imperfeito associado ao do espaço, situam o processo no presente atual. (91) Ami ɗi wuulii. Ami aqui rad.nadar.perf. Ami (aqui) nadou. (92) Ami ɗi dogi. Ami aqui rad.correr perf. Ami correu (93) Ami ɗi liggii. Ami aqui rad.trabalhar perf. Ami trabalhou Contrariamente aos predicados de estado, esse tipo de passado acrescenta aos processos a informação de que a situação terminou. Assim, o falante pulaar situa o evento no passado mas com resultados que se verificam no presente atual. (94) Ami ɗiinin wuuloo. Ami aqui atualmente rad. nadar imp. (Ami está a nadar) (95) Ami ɗiinin doga. Ami aqui atualmente rad.correr imp. (Ami está a correr) (96) Ami ɗiinin liggoo. Ami aqui atualmente rad.trabalhar imp. (Ami está a trabalhar) As situações descritas nestas frases são atuais e progressivas e decorrem num momento simultâneo ao momento da fala. 38 2.5.2.2.3. Predicados de processos culminados Com predicados de processos culminados vamos ver se os aspetos gramaticais localizam as situações descritas no eixo dos tempos gramaticais. Por outras palavras, se os morfemas aspetuais situam esses eventos no passado, no presente ou no futuro. (97) Cierno winndii deftere. Cierno rad.escrever perf. livro (Cierno escreveu um livro) (98) Boobo raakii suudu nduu. Boobo rad.calcetar perf. quarto det. (Boobo calcetou o quarto) (99) Kiri yahii Koldaa. Kiri rad.ir perf. koldaa (Kiri foi a Koldaa) (100) Cierno ɗi winnda deftere. Cierno aqui rad.escrever imp. livro (Cierno está a escrever um livro) (101) Boobo ɗi raaka suudu nduu. Boobo aqui rad.calcetar imp. quarto det. (Boobo está a calcetar o quarto) (102) Kiri ɗi yaha Koldaa. Kiri aqui rad.ir imp. Koldaa (Kiri está a ir Koldaa) As frases (97) - (99) têm leituras de caráter temporal de passado, esse tempo relacionase com o morfema -ii que situa as situações num momento anterior ao momento da fala. Quanto às frases de (100) - (102), representa-se os eventos sem tomar em conta os pontos de culminação dos processos. Assim, focaliza-se só na fase preparatória dos eventos descritos. O tempo presente do indicativo apresenta uma subparte dos processos culminados. Assim, podemos falar de uma recategorização dos processos culminados em processos. As situações apresentadas não atingem atualmente os objetivos finais visados respetivamente por verbos/predicações como escrever o livro, calcetar o quarto e chegar a Koldaa, estamos só nas fases preparatórias dos eventos que são atuais no momento da fala. 39 (103) Cierno ɗi winndi. deftere. Cierno aqui rad.escrever perf. livro (Cierno tem um livro escrito) (104) Boobo ɗi raaki. suudu. Boobo aqui rd.calcetar perf. quarto (Boobo tem um quarto calcetado) (105) Kiri ɗi yahi Koldaa. Kiri aqui rad.ir perf. koldaa (Kiri foi a Koldaa) Nestas frases, estamos perante um presente resultativo. Expressam resultados de eventos realizados no passado cujos efeitos se fazem sentir até no tempo da enunciação. O P2 traduz os processos culminados em estados resultativos. No entanto, ao ler os exemplos (103) e (104) não podemos saber qual é respetivamente o livro escrito por Cierno e o quarto calcetado por Boobo. Embora classificado como perfeito, essas frases têm algumas noções de presente, na medida em que são eventos realizados no passado mas com resultados no presente. Ao situar estes momentos no eixo dos tempos, o início ficará no passado e o tempo ocorrido engloba o momento da enunciação. Quanto ao exemplo (105), é preciso ter um local designado por um nome próprio como destino, significando que estar em Koldaa é resultado de ter ido lá. (106) Cierno ɗiinin winnda deftere. (Cierno está a escrever um livro) (107) Boobo ɗiinin raaka suudu. (Boobo está a calcetar) (108) Kiri ɗiinin yaha Koldaa. (Kiri está air a Koldaa) Estas frases são progressivas, parcialmente sobrepostas ao tempo da enunciação. Acontecem no momento da fala do enunciador, mesmo se se trata da fase preparatória dos processos culminados. 2.5.2.2.4. Predicados de culminações Notamos que o morfema do perfeito -ii sem o advérbio do espaço e de tempo situa os processos e os processos culminados no passado, o morfema -aa situa os processos no momento das suas realizações e retira a culminação aos processos culminados. Com culminações vamos ver quais serão os valores desses aspetos. 40 (109) Sammba taccii honndu mun nduu. Sammba rad.cortar perf. dedo pos. det. (Sammba cortou-se no dedo) (110) Sammba foolii dogdu nduu. Sammba rad.ganhar perf. corrida det. (Sammba ganhou a corrida) (111) Sammba yanii. Sammab rad.cair perf. (Sammba caiu) (112) Sammba ɗi tacca honndu mun nduu. Sammba aqui rad.cortar imp. dedo pos. det. (Sammba está a cortar-se o dedo) (113) Sanngallo ngo ɗi yana. Vedação det. aqui rad. imp. (a vedação está a cair) (114) Sammba ɗi yana. Sammba aqui rad. cair imp. (Sammba está a cair) Os morfemas aspetuais de perfeito dão aos predicados de culminações leituras temporais de passado. Nas frases (109), (110) e (111) os predicados apresentam situações acontecidas num tempo anterior ao momento da fala. Quanto ao imperfeito, temos dois casos; na frase (112) o presente do indicativo adiciona ao predicado de culminação um processo preparatório e não apresenta o ponto da culminação da situação descrita. Nas frases (113) e (114) temos duas leituras. Na primeira temos uma recategorização da culminação em processo e na segunda temos uma leitura de iteratividade. Esta diferença entre (113) e (114) encontra-se no sujeito, porque podemos dizer uma parte da vedação caiu mas não uma parte de Sammba. (115) Sammba ɗi tacci honndu mun nduu. Sammba aqui rad.cortar perf. dedo pos. det. ( Sammba cortou-se no dedo/ o dedo está cortado) (116) Sammba ɗi yani. Sammba aqui rad.cair perf. (Sammba caiu) 41 O falante pode interpretar de duas maneiras a frase (116). Uma primeira, o locutor informa a gente para ir ajudar Sammba que não consegue levantar-se; e a segunda é para insistir sobre a queda de Sammba, nesse caso a frase fica um pouco incompleta e precisa de complemento como jommbu (queda) ou hande (hoje). Quanto à frase (115), temos um resultado. O facto de Sammba cortar-se o dedo é passado mas temos os resultados até ao momento da fala. 2.5.2.2.5. Predicados de pontos O morfema aspetual de perfeito situa sempre os eventos no passado. Quanto ao morfema imperfeito, ele dá uma leitura iterativa aos predicados de pontos. Vejam-se os exemplos (117)-(120): (117) Habi iili. Habi rad.espirar perf. ( Habi espirrou) (118) Habi tutti. Habi rad.cuspir perf. (Habi cuspiu) (119) Habi ɗi iila. Habi aqui rad. espirar imp. ( Habi está a espirrar) (120) Habi ɗi tutta. Habi aqui rad.cuspir imp. (Habi está a cuspir) Tal como as culminações, os pontos são eventos temporalmente indivisíveis. No entanto, na perspetiva de Moens (1987), diferenciam-se das culminações por não admitirem um estado resultante. Com efeito, dão informações temporais de passado com os sufixos aspetuais de perfeito (-ii ou ø), e informações aspetuais de iteratividade com o sufixo de imperfeito (aa) mais o morfema de espaço ɗi ou os pronomes pessoais durativos do presente do indicativo. Assim, nos exemplos (117) - (118) os predicados iili e tutti acontecem num momento anterior ao momento da fala. Quanto aos exemplos (119) - (120), temos uma leitura iterativa. 42 Os pontos ocorrem raramente no P2. No caso em que aparecem, precisarão de um advérbio de tempo passado como hanki, ontem, rowani, no ano passado, ou advérbio de localização espacial como too, ɗa ... (ali). (121) Habi ɗi iili rowani! Habi aqui rad.espirar perf. ano passado (Habi tem espirrado!) (122) Habi ɗi tutti hanki! Habi aqui rad.cuspir perf. ontem (Habi cuspiu ontem!) (123) Habi ɗi tutti to jumaa to! Habi aqui rad.cuspir perf. là mesquita là (Habi tem cuspido na mesquita!) (124) Habi ɗi iili to jumaa to! Habi aqui rad. espirar perf. là mesquita là ( Habi tem espirrado na mesquita!) Os exemplos (121) e (122), têm um valor iterativo pois o locutor insiste sobre o espirro e o escarro de Habi no ano passado e de ontem. O acento permite também a identificação dessa iteratividade. Quanto ao (123), ele localiza onde se encontra o cuspo e tem também uma leitura iterativa. Mesmo o exemplo (124) tem um valor de intensidade porque o espirro não tem traços que podem ficar num lugar num tempo de duração. 2.5.2.3. Valor do presente com os predicados Geralmente, pensa-se que o presente do Indicativo Pulaar dá informação estritamente temporal de presente. Mas há casos em que o tempo gramatical presente não coincide com o momento da fala. Assim, vamos sucessivamente analisar o presente do indicativo com os predicados de estados, processos, processos culminados, culminações e pontos. 2.5.2.3.1. Predicados de estados Exceto com o predicado estativo nawneede (estar doente), os estados usam-se raramente no presente do indicativo Pulaar, e no caso em que se usam têm um valor diferente do presente temporal entendido como tempo da enunciação. 43 (125) Saaliw ɗi nawnaa. Saaliw aqui rad.doente imp. (Saaliw está doente) (126) Saaliw ɗi weltoo. Saaliw aqui rad.feliz imp. (“Saaliw começa a ser feliz”) (127) Saaliw ɗi yiɗa gerse. Saaliw aqui rad.gostar imp. amendoins (Saaliw começa a gostar amendoins) (128) Saaliw ɗi annda Ami. Saaliw aqui rad.conhecer imp. Ami (Saaliw começa a conhecer Ami) Há grandes diferenças entre os estados representados nestas frases. Assim, a frase (125) apresenta uma situação em que o tempo da fala coincide com o estado em que se encontra Saaliw. É uma frase episódica na medida em que corresponde a uma fase temporalmente delimitada do sujeito Saaliw. E nas frases (126) - (128), o presente do indicativo dos predicados marca o início de estados diferentes dos estados anteriores. Subentende-se que Saaliw estive respetivamente zangado, não gostava dos amendoins e não conhecia o caráter de Ami. Assim, podemos dizer que o presente simples Pulaar marca o início dos estados. 2.5.2.3.2. Predicado de processos Com os processos o presente do indicativo Pulaar localiza as situações descritas no tempo presente. O momento da fala coincide com o momento do evento. Cf. (129-131) (129) Ami ɗi doga. Ami aqui rad.correr imp. (Ami está a correr) (130) Ami ɗi wuuloo. Ami aqui rad.nadar imp. (Ami está a nadar) (131) Ami ɗi liggoo. Ami aqui rad.trabalhar imp. (Ami está a trabalhar) 44 Com os processos o presente do indicativo dá informações temporais. Em todas estas frases há uma sobreposição parcial ou total do tempo de evento e do tempo da enunciação. 2.5.2.3.3. Predicados de processos culminados Quanto aos processos culminados, o presente recategoriza-os em processos. Cf. (132134) (132) Cierno ɗi winnda deftere. Cierno aqui rad.escrever imp. livro (Cierno está a escrever um livro) (133) Boobo ɗi raaka suudu nduu. Boobo aqui rad.calcetar imp. quarto det. (Boobo está a calcetar o quarto) (134) Kiri ɗi yaha Koldaa. Kiri aqui rad.ir imp. koldaa (Kiri está a ir a Koldaa) Nestas frases o locutor focaliza-se só na fase preparatória dos eventos descritos. O tempo presente do indicativo apresenta uma subparte dos processos culminados, nesse caso há uma recategorização dos processos culminados em processos. 2.5.2.3.4. Predicados de culminações O presente do indicativo pulaar recategoriza as culminações em processos. Vamos exemplificar isso nas frases (135) - (137). (135) Sammba ɗi tacca honndu mun nduu. Sammba aqui rad.cortar imp. dedo pos. det. (Sammba está a cortar o dedo) (136) Sammba ɗi foola dogdu nduu. Sammba aqui rad.ganhar imp. corrida det. (Sammba está a ganhar a corrida) (137) Sammba ɗi yana. Sammba aqui rad.cair imp. 45 (Sammba está a cair (várias vezes)) Nestes exemplos temos duas leituras. Nas frases (135) - (136) o presente acrescenta à culminação um processo preparatório e não apresenta o ponto da culminação da situação descrita. As situações acontecem no momento da fala mesmo se não atingem as suas culminações. E quanto à frase (137) temos uma leitura aspetual de iteratividade, o presente quantifica as quedas de Sammba. 2.5.2.3.5. Predicados de pontos Os eventos de pontos não têm duração e não aceitam estados resultativos e também não apresentam estados imperfeitos. Assim, nestes exemplos temos leituras iterativas. (138) Habi ɗi iila. Habi aqui rad.espirar imp. (Habi está a espirrar) (139) Habi ɗi tutta. Habi aqui rad.cuspir imp. (Habi está a cuspir) (140) Habi ɗi ɗoƴja. Habi aqui rad.tossir imp. (Habi está a tossir) Estes predicados apresentados nestas frases têm uma leitura iterativa mesmo se o tempo de fala coincide com o tempo dos eventos descritos. Conclusão O Pulaar é uma língua que privilegia o Aspeto. No plano morfo-semântico do sistema verbal, a língua tem morfemas específicos para marcar os aspetos perfeito e imperfeito. O morfema -ii sufixado a um radical verbal acrescenta um aspeto perfectivo ao evento descrito pelo predicado da frase em que ocorre. Quanto ao morfema -aa, apresenta situações cujos aspetos são imperfeitos. Assim, para distinguir as situações durativas das situações futuras, a língua coloca um morfema de tempo ou de espaço ɗi entre o sujeito nominal e o verbo da frase e, se o sujeito é um pronome pessoal, nesse caso o 46 Pulaar tem pronomes específicos usados nestas circunstâncias. Quanto às situações futuras, a língua acrescenta o morfema de tempo futuro t ao predicado. Para marcar as relações que existem entre o momento da fala e os tempos passado e futuro, o Pulaar tem o morfema no de anterioridade e o morfema oy de posterioridade. A simultaneidade é marcada pelo morfema in que pode ser sufixado ao morfema espacial ɗi ou aos pronomes pessoais em posição de sujeito. No caso em que é sufixado aos pronomes, a sua forma varia segundo a vogal que termina o pronome. Esses morfemas nunca se confundem com outros morfemas. Assim, os morfemas aspetuais sufixados aos predicados podem mudar o valor do ‘aktionsart’. O -ii dá sempre uma informação de tempo passado e o -aa uma informação imperfeita. O tempo Presente em Pulaar é um tempo que localiza as eventualidades em intervalos de tempo que se sobrepõem ao intervalo de tempo da enunciação. No entanto, o Presente Simples e o Presente Progressivo descrevem situações num momento atual. Exceto alguns deles como nawneede (estar doente), os predicados estativos aparecem raramente no presente quer seja simples ou progressivo. No caso em que aparecem, marcam o início dos estados. E para localizar situações eventualmente ilimitadas, a língua tem duas possibilidades que são o verbo ko mais o adjetivo ou o presente durativo (P2). Os valores estativos, durativos considerados como já perfeitos e que continuam a caraterizar o sujeito são expressos pelo perfeito 2 (cf. quadro 4). Com os predicados de processos, o Presente pulaar dá informações estritamente temporais em que o tempo do predicado coincide com tempo da enunciação. O Presente recategoriza os processos culminados em processos de modo a apresentar a fase preparatória dos processos culminados. Com os predicados de culminações temos duas possibilidades. Na primeira, o Presente recategoriza a culminação em processo e na segunda dá um valor iterativo ao quantificar os eventos descritos. Com os predicados de ponto, o presente dá uma informação aspetual de iteratividade, em que o evento realizado pelo sujeito se repete. . 53 Este aspeto indica o início de uma situação. Carateriza-se pela sua compatibilidade com verbos auxiliares como commencer à, se mettre à, cuja interpretação é claramente ligada à noção de princípio. (21) Luc commence à regarder la télévision. (Luc começa a ver televisão) (22) Dès son arrivée à la bibliothèque, l’étudiant se mets à travailler. (Desde a sua chegada à biblioteca, o estudante começa a trabalhar) -Continuativo Expressa a persistência de uma situação, a sua presença. Combina-se com o verbo auxiliar continuer de ou com o advérbio toujours. (23) Salif continue de regarder le journal. (Salif continua a ver o jornal) (24) Salif regarde toujours le journal. (Salif ainda olha o jornal) - Progressivo Expressa uma situação na sua realização. É indicado por ing em Inglês, estar a mais infintivo do verbo principal em Português, en train de mais infinitivo do verbo principal em Francês, embora nesta última língua tenha caraterísticas algo diferentes. (25) Sadio est en train de regarder le journal. (‘Sadio está a ver o jornal’) (26) Seynabou est en train de préparer le repas de midi. (‘Seynabou está a preparar o almoço’) O que distingue o progressivo do continuativo é que o progressivo é considerado do ponto de vista do seu desenvolvimento, da sua evolução e não unicamente da sua duração. Implica ao mesmo tempo um desenrolar contínuo e gradual da situação. - Terminativo Carateriza o processo em termos de conclusão. É realizado por verbos auxiliares como finir de, terminer de cuja interpretação tem a ver com a noção de fim. Nesse caso tratase de apanhar o processo no seu momento final. (27) Pierre finit de déjeuner. (Pierre acaba de almoçar) (28) Jean termine de regarder le film. (Jean ‘termina’/acaba de ver o filme) 54 - Iterativo “Le fréquentatif permet d’indiquer la répétition, plus ou moins régulière, d’un procès » Lim (1998) citado por Grezka e Buvet (2007: 228). A indicação mais ou menos regular da repetição de um processo é marcada por advérbios de frequência como souvent, quelquefois, rarement, toutes les semaines, tous les mois, etc. (29) Papa regarde le journal tous les jours. (O Pai vê o jornal todos os dias) (30) Ma mère m’appelle souvent au téléphone. (A minha mãe telefona-me muitas vezes) (31) Il vient rarement au cours d’anglais. (vem raramente às aulas de Inglês) Alguns verbos aceitam o prefixo repara marcar a repetição de um processo: (32) Samba recommande un verre. (Samba pede novamente um copo) (33) L’élève refait les cours de mathématique. (o aluno refaz as aulas de matemática) Grezka e Buvet (2007) realizaram um importantíssimo trabalho para a descrição dos predicados em Francês. Para ilustrar o aspeto contextual dos predicados verbais, vamos retomar os exemplos do seu trabalho sobre o verbo voir (ver). (34) L’homme voit. (o homem vê) (35) Cet enfant voit bien. (esta criança vê bem) (36) Je vois un arbre. (vejo uma árvore) (37) De la terrasse, on voit le Vésuve. (vê-se o Vesúvio a partir do terraço) (38) Je vois que tu es triste. (vejo que estás triste) (39) J’ai vu le match de foot. (vi o jogo de futebol) (40) Le professeur a vu ton texte. (o professor viu o teu texto) (41) Le mécanicien a vu ta voiture. (o mecánico viu o teu carro) (42) Nous avons vu l’appartement hier soir. (vimos o apartamento ontem à tarde) (43) Elle voit son grand père tous les week-ends. (vê o avô todos os fins de semana) (44) Depuis leur divorce elle ne voit plus son mari. (desde o seu divórcio ela já não vê o seu marido) (45) Léa a vu le médecin pour des maux de tête. (Léa viu o médico por causa de dores de cabeça) 55 (46) Le directeur peut vous voir demain dans son bureau. (o diretor pode ver-vos amanhã no escritório dele) Esses exemplos, retirados do trabalho de Grezka e Buvet (2007), mostram os diferentes aspetos que o verbo voir (ver) pode ter segundo o contexto em que ele aparece. Em (34) e (35) voir descreve a propriedade de um ser humano, nesse contexto são predicados de estado. Segundo os autores, em (36) e (38) são predicados de eventos que dão informações sobre a capacidade da perceção visual dos sujeitos. Quanto aos exemplos (39) - (41) são predicados de acção pelo fato de ter essas caraterísticas de perceção visual ativa. Os exemplos (43) e (44) são de ação mas de carateristicas sociais, no entanto, o que os diferencia dos outros verbos de ação dos exemplos (42) e (46). O (42) tem a ver com uma ideia de observação e quanto ao (46) pode relacionar-se o sentido de receção. O exemplo (37) expressa uma ideia de iteratividade. Estes exemplos mostram todos os sentidos que ver (voir) pode ter segundo o contexto em que encontra. Estes contextos chamam-se aspetos contextuais. No entanto, creio que as diferentes interpretações atribuídas pelos autores se devem a diferenças de tempo verbal (present/passé composé) e de alguns adverbiais (depuis, tous les week-ends). Para além disso não se entende bem o que é uma “ação de caraterísticas sociais” Quanto ao tempo, ele pode ser dêitico ou anafórico. 3.2. Tempo Como se já disse antes, a categoria tempo, ao fazer a localização, é uma categoria de tipo relacional, porque o posicionamento de uma situação num determinado setor do eixo temporal implica sempre a tomada em consideração de um intervalo que funciona como ponto de referência, para além dos pontos de evento e de fala. Nesta parte vamos dar alguns exemplos sobre os tempos dêitico e anafórico. 3.2.1. Tempo dêitico Este tempo estabelece relação direta com elementos extralinguísticos. Nas frases simples a localização temporal faz-se em relação ao tempo da fala. 56 (47) Je range ma chambre en ce moment. (atualmente estou a arranjar o meu quarto) (48) Je suis allé à la banque faire des réclamations. (fui no banco fazer reclamações) (49) Demain les enfants partiront à la plage. (amanhã as crianças vão partir para a praia) Nestes exemplos, o valor temporal é dêitico e as localizações temporais são dadas pelos tempos presente, pretérito perfeito composto e o futuro simples. No exemplo (47) o tempo da fala e o tempo do evento coincidem. Esta coincidência é assegurada pelo tempo do verbo ranger e reforçada pelo advérbio temporal en ce moment. Em (48), o tempo da fala é posterior ao tempo do evento, pois a situação apresentada localiza-se no passado. Quanto ao exemplo (49), a partida das crianças para a praia situa-se num momento posterior ao momento da fala. Essa localização é dada pelo futuro e reforçada pelo advérbio do tempo demain. 3.2.2. Tempo anafórico O tempo anafórico é dado por outros elementos linguísticos situados na frase em questão. Assim, temos: (50) Maintenant que Pierre a dîné, il va au cinema. (agora que o Pedro jantou, ele vai ao cinema) (51) Quand il avait fermé la porte il sortait. (quando tinha fechado a porta, ele saía) (52) Il ne reviendra qu’après la fin du film. (voltará só depois do fim do filme) Em (50) não há subordinação temporal. A primeira frase é anterior ao tempo da enunciação e a segundo é posterior ao tempo da enunciação. Em (51) os dois eventos são anteriores ao momento da fala. O fechamento da porta é anterior à saída dele. Quanto ao exemplo (52) as duas situações são localizadas num momento posterior ao momento da enunciação, e o regresso dele posterior ao fim do filme. Depois da elaboração da tipologia dos verbos e da evocação dos diferentes tipos de tempos em Francês, vamos analisar o valor que o Presente do Indicativo pode ter quando se usa com os diferentes predicados. Para isso, vamos em primeiro lugar 57 apresentar os valores temporais que o Presente pode ter antes de o analisar com as diferentes classes aspetuais. 3.3. Presente do indicativo: valores temporais O Presente do Indicativo em Francês é um dos tempos cuja variedade de usos causa sempre problema tanto aos gramáticos como aos linguistas. E até hoje em dia, as discussões sobre os seus valores e usos continuam a alimentar a discussão linguística. Segundo o modelo teórico adotado, os linguistas propõem explicações diferentes. A primeira ideia considera o presente como uma forma deítica que marca a coincidência entre o momento da fala e o momento da situação. A segunda considera-o como uma forma neutra capaz de situar as situações em todas as épocas. A terceira ideia, avançada por Wilmet (2010: 248), que afirma que o Presente é “une forme verbale qui affirme la concomitance d’un procès au repère de l’actualité.” Assim, segundo Wilmet (2010), quando o tempo é relacionado com o momento da fala, trata-se duma relação dêitica. No caso em que se relaciona com um outro tempo da frase ou do texto temos uma relação anafórica. É preciso notar que na maior parte dos casos, o Presente do Indicativo francês expressa situações (eventos ou estados) que se relacionam com o momento da enunciação. Por outras palavras, este tempo verbal apresenta uma situação na sua fase ou momento de realização. ADêitico Presente momentâneo (53) Je coure. (estou a correr) (54) Je suis à Rennes. (estou em Rennes) (55) La craie tombe. (o giz está a cair) (56) Je suis heureux. (estou feliz) Nestas quatro frases, o Presente do indicativo apresenta situações nos seus momentos de realização. O tempo da fala e o tempo da situação dos exemplos coincidem, pelo menos parcialmente, quer seja em (53), com o processo ou (54) e (56) estados ou (55) culminação, as informações dadas são informações estritamente temporais. 58 O presente atual Nesse caso do presente as situações descritas começam no passado e continuam no presente da enunciação. Marca também resultado de uma ação terminada no presente, em (57) e mostra uma ação que começa no passado e continua no presente e pode prolongar-se no futuro (58). (57) J’ai appelé Katy. (telefonei à Katy) (58) Elle roule tranquillement. (conduz tranquilamente) Tendo em conta os exemplos sugeridos pelo autor, a diferença entre presente momentâneo e presente atual é muito pouco clara dado que (54) e (56) são exemplos com estados que não podem durar apenas o tempo da enuncição. Temos casos em que o presente apresenta situações descritas pelos predicados de fase nas suas continuações. O evento começa no passado e continua até no momento da fala. Na maior parte dos casos a situação é expressa pelas expressões passadas ligadas ao tempo da enunciação. (59) Cela fait trois heures que Katy roule en direction de Paris. (há três horas Katy está a conduzir em direção de Paris) (60) Depuis des siècles, les français ont comme spécialité de se chamailler. (desde séculos, os franceses têm como especialidade disputarem-se) (61) Katy vit à Brest depuis sa naissance. (Katy mora em Brest desde o seu nascimento) O presente põe em relevo também os hábitos de uma pessoa, ou melhor, transforma situações eventivas em situações habituais (estados). (62) Elle chante toujours sous la douche. (ela canta sempre no duche) (63) Il sort de chez lui tous les matins à la même heure. (todas as manhãs sai da sua casa à mesma hora) O Presente do Indicativo francês pode também expressar situações com valores de passado e futuro. Nesses casos não há coincidência entre os diferentes pontos que são o ponto da fala, o ponto da referência e o ponto do evento. 59 Presente com valor de futuro Este presente dá informações de uma ação que acontecerá num futuro próximo. Esse tipo de presente é frequente na língua oral (muitas vezes é reforçado por um advérbio de tempo). (64) Katy arrive. (Katy está a chegar) (65) Fanta finit dans un instant. (Fanta termina num momento) (66) Aujourd’hui je vais à Dakar. (hoje vou para Dakar) (67) Elle danse avec ses camarades demain. (ela dança com as suas amigas amanhã) (68) Lamine vient l’année prochaine. (Lamine vem no próximo ano) Nestes exemplos não há coincidência entre a localização temporal da situação e o momento da fala. Todas as situações são localizadas em momentos posteriores ao tempo da fala. Nos exemplos (67) e (68) o valor futuro é expresso pelo presente associado aos adverbiais demain e l’anné prochaine. No exemplo (64) o predicado é um verbo de movimento e o presente expressa o estado preparatório. Nos exemplos (65) e (66) o futuro é expresso respetivamente pelos adverbiais de tempo “dans un instant” e “aujourd’hui. Este último, embora sendo um advébio de localização temporal, também tem duração, o que lhe permite uma leitura do futuro em relação ao tempo da enunciação. É preciso notar que o presente usado no lugar do futuro dá informação mais provável, mais certa da realização do evento de que o futuro, que é duvidoso. Presente com valor de passado Podemos utilizar o Presente do Indicativo para referirmos factos acontecidos num passado recente. Na maior parte dos casos o tempo do predicado da frase é reforçado pelo um advérbio de tempo. (69) Ma femme, je la quitte à l’instant. (a minha mulher acabo de a deixar) (70) La chambre est pleine de valises, j’arrive tout juste de l’aéroport. (o quarto está cheio de malas, acabo de chegar do aeroporto) 60 O tempo verbal destes dois exemplos pode comutar com o presente perifrástico com o verbo venir de + inf. (69’) ... je viens de la quitter. (70’) …je viens d’arriver de l’aéroport. Quando se conta ou narra eventos históricos, o presente toma o lugar do pretérito perfeito simples e, assim, dá ao texto toda a sua força atual e apresenta ao leitor situações como se fossem presentes. Os eventos tornam-se contemporâneos. Este presente gramatical chama-se presente histórico. (71) L’indépendance du Sénégal est déclarée en 1960. (a independência do Senegal é declarada em 1960) (72) Les Lions de la Téranga gagnent l’équipe de France au Japon. (Os Leões de la Téranga ganham à equipa de França no Japão) (73) Victor Hugo naît en 1802. (Victor Hugo nasce em 1802) Nestes três exemplos as situações referidas encontram-se no passado, em (71) e (73) o passado é expressado pelas indicações temporais “1960” e “1802” e no exemplo (72) é o conhecimento histórico do mundo do futebol que nos permite aceitar como verdadeira a frase. O presente narrativo O tempo presente é utilizado também para relatar eventos passados, nesse caso o autor atualiza as situações e torna-as mais vivas aos olhos do leitor. É também um tempo utilizado na imprensa escrita. (74) Un loup survient à jeun. (um lobo aparece em jejum) (75) C’est alors que brusquement le fantôme apparaît. (é então que o fantasma aparece bruscamente) (76) Il était minuit, tout dormait. Soudain un cri horrible réveille tout le voisinage. (era meia noite, toda a gente dormia. De repente um grito horrível acorda toda a vizinhança) 61 Chama-se presente narrativo no caso em que se trata de uma narração. Nos tempos de presente narrativo (e também usado no discurso oral), as situações relatadas são passadas e o presente gramatical dos predicados das frases torna-as atuais aos olhos do leitor ou ouvinte. BNão dêitico O presente do indicativo expressa também outros valores diferentes de tempo. Pode dar informações aspetuais, modais e estilísticas. Valor iterativo: Nesse caso o tempo gramatical expressa uma repetição (77) Katy quitte Brest une fois par semaine. (katy sai de Brest uma vez por semana) (78) Tous les jours, je fais une promenade de deux heures. (todos os dias, dou uma volta de duas horas) Valores modais Expressão hipotética: Cada um dos exemplos, (79) e (80), é submetido a uma condição introduzida pela expressão conjuntiva si. (79) S’il fait beau, Jean et Jeanne me rejoindront à la plage. (se faz bom tempo, João e Joana encontrar-nos-ão na praia) (80) Si elle vient donne-lui toute la nourriture. (Se vem dê-lhe toda a comida) Expressão de ordem (81) Tu cesses de pleurer tu viens te baigner avec Salif. (páras de chorar e vens lavarte com Salif) (82) Vous me donnez de l’argent. (dê-me dinheiro) (83) Vous lui donnez ce riz ? (dá-lhe este arroz?) É preciso notar que o presente destas frases tem um valor imperativo, e a interrogação do exemplo (83) atenua a ordem conferindo-lhe um valor de sugestão. O presente atemporal Este tempo é utilizado para referir verdades universais, atemporais, eternas. 62 (84) La terre est ronde. (a terra é rodonda) (85) Le soleil est une étoile. (o sol é uma estrela) (86) Quatre et quatre font huit. (quatro mais quatro são oito) (87) La terre tourne au tour du soleil. (a terra gira na volta do sol) Nestes exemplos, o Presente do Indicativo dos predicados não tem início nem fim. O tempo da enunciação tal como os pontos de evento e de referência estão todos incluídos. Os três pontos temporais propostos por Reichenbach (1947) não têm importância neste tipo de presente. Podemos encontrar também este valor nas verdades científicas que não são dependentes do tempo. São, nesse sentido, verdades passadas, presentes e futuras. (88) Un triangle a trois côtés. (Um triângulo tem três lados) (89) L’eau bout à 100ºC dans les conditions normales de pression. (A água ferve em 100ºC nas condições normais de pressão) Encontram-se também nas máximas e provérbios. Estes últimos apresentam factos tão intangíveis como as verdades científicas. (90) L’argent ne fait pas le bonheur. (O dinheiro não faz a felicidade) (91) La fortune sourit aux audacieux. (A sorte sorri aos audaciosos) Temos ainda o presente de caraterização em que o predicado, tipicamente, um estado, dá uma informação que nunca mudará, isto é, são predicados de indivíduo. (92) Katy est claire. (Katy é clara) (93) Salimata a les yeux bleus. (Salimata tem olhos azuis) (94) Zeynabou est de taille courte. (Zeynabou é baixa) Frases genéricas O tempo gramatical presente do indicativo é também usado em frases genéricas. (95) Les lions sont dangéreux. (Os leões são perigosos) (96) L’eau n’a pas de forme. (A água não tem forma) 69 Infinitivo). O advérbio de tempo amanhã reforça esta ideia de posterioridade. Em (3), a situação descrita está localizada num intervalo de tempo em que o momento da fala é incluído neste intervalo. Nesse caso podemos dizer que há uma sobreposição dos dois momentos. Segundo Reichenbach (1947), a localização temporal é relativa e nessa medida há três momentos essenciais, tal como já mencionado anteriormente: ponto da fala (F), o ponto do evento (E) e o ponto de referência (R) 2 . (4) A Ana ama o João. (5) Rita partiu ontem. (6) Zeyna tinha preparado o jantar quando Abdou chegou. Na frase (4) o ponto da fala é incluído no ponto do evento, podemos dizer que há uma sobreposição dos dois pontos. Em (5) a situação descrita é anterior ao momento da fala e nesse sentido o ponto do evento é anterior ao momento da fala e os dois pontos têm uma relação de anterioridade. Quanto ao exemplo (6), as situações descritas nas duas orações são anteriores ao momento da fala, mas a preparação do jantar pelo Zeyna é anterior à chegada de Abdou. Neste caso a oração temporal funciona como ponto de referência. A noção de tempo é um dos aspetos mais estudados em semântica. Assim, trabalhos como os de Reichenbach (1947), segundo o qual o tempo tem uma dimensão anafórica, o aparecimento da Discourse Representation Theory e outros, levaram ao estudo do tempo não apenas em frases isoladas mas também em sequências de frases, ou seja, no discurso. São várias as questões que se levantam quando o estudo do tempo é feito neste plano. Algumas delas são a anáfora temporal, a progressão do tempo no discurso narrativo, a questão dos tempos de referência e as regras de boa sequencializção dos tempos. A localização temporal pode ser relacionada com o tempo da enunciação, ou com um outro tempo da frase ou do texto. A primeira chama-se relação dêitica e estabelece uma referência direta com elementos extralinguísticos. E a segunda é uma relação anafórica e estabelece uma relação com outros elementos linguísticos. O 2 O ponto da fala (F) coincide com o momento da fala ou da enunciação; o ponto do evento (E) diz respeito ao tempo do acontecimento descrito pela frase; e o ponto de referência (R) serve como ponto intermédio a partir do qual se pode situar o evento (ou estado) descrito. 70 Presente do Indicativo Português apresenta também estas caraterísticas de que vamos analisar alguns aspetos. 4.1.2. Aspeto Quanto ao Aspeto, fornece informações sobre a forma como é perspetivada ou focalizada a estrutura temporal interna de uma situação descrita pela frase, em particular, pela sua predicação (cf. Oliveira 2003). Essa estrutura temporal interna das situações representadas na frase e as propriedades que têm sido convocadas como critério para a distinção entre os tipos de situações descritas “são de naturaza temporal, nomeadamente a pontualidade, a telicidade e a homogeneidade” (cf. Lopes & Torto 2007) (7) Pathé levantou-se às 8 horas. (8) Gilberta esteve em Dakar durante todo o verão. Na frase (7) descreve-se uma situaço pontual que não dura e em (8) temos uma situação durativa. A (7) é incompatível com expressões de duração, contrariamente a (8), que é perfeitamente compatível com expressões que marcam a duração na maior parte introduzidas por durante. A telicidade tem a ver com o fim ou não de uma situação descrita. As situações que têm um fim são télicas e as outras atélicas. Para ilustrar esta ideia de telicidade das situações vejam-se os seguintes exemplos: (9) A Carla escreveu a carta em 10 minutos. (10) A Riana nadou durante todo o dia. Em (9), descreve-se uma situação télica, ou seja uma situação que tem um culminação ou ponto terminal intrínseco. Quanto à situação representada em (10), ela é atélica, pois nadar não tende para um ponto final. E assim, a situação identificada pelo verbo nadar pode prolongar-se. Para explicitar o que é a homogeneidade de uma situação vamos referir-nos aos exemplos (9) e (10). Assim, em (9) escrever uma carta identifica uma situação não homogénea que tem várias subfases. A situação descrita aí ocorre num determinado 71 intervalo de tempo, não se verificando em qualquer dos seus subintervalos, ou seja, no início ou no fim dos 10 minutos, que a Carla escreveu a carta. Quanto à situação identificada por nadar, ela é relativamente homogénea. Nesse exemplo podemos inferir que a Riana nadou durante todos os subintervalos de tempo que correspondem ao intervalo mínimo de realização da ação de nadar. Estas propriedades são convocadas como critérios para a construção de classes aspetuais ou tipologias de situações. A proposta clássica é a de Vendler (1967), que distingue quatro tipos de situações que são: Estados, Atividades, ‘Accomplishments’ e ‘Achievements’. A primeira e importante distinção a fazer nesta tipologia aspetual é a distinção entre os Eventos que são situações dinâmicas e os Estados situações não dinâmicas (Oliveira 2003). Os eventos podem ocorrer no Imperativo e na construção progressiva e os estados não podem. (11) Come a sopa! (12) O Rui está a comer a sopa. (13) *Sê alto. (14) *O Rui está a ser alto. Moens (1987), além das quatro classes aspetuais apresentadas por Vendler, acrescentou uma outra classe que é o ponto. Antes de analisar o valor do Presente do Indicativo vamos em primeiro lugar apresentar de maneira mais detalhada os tipos de estados e os tipos de eventos e as especificidades de cada um deles. Na apresentação dos tipos de estados e de eventos vamos referir-nos ao trabalho de Oliveira 2003. A. Estados Temos dois tipos básicos de estados, que são os estados faseáveis e os estados não faseáveis (cf. Cunha: 2004) Distinguem-se entre si por os primeiros poderem ocorrer em construções progressivas (estar a + inf) e os segundos não. (15) O João vive em Lisboa. (16) O João está a viver em Lisboa. (17) A Ana é grande. (18) *A Ana está ser grande. 72 Esta distinção não deve confundir-se com a distinção entre predicados de indivíduo e predicados de fase. Os predicados de indivíduos são estáveis na sua duração, enquanto os predicados de fase envolvem diferentes intervalos de tempo, isto é, uma “fase” é uma parte espáciotemporal de um indivíduo. Diferentemente, um predicado como ser português é não faseável e ser simpático é faseável; ser inteligente é um predicado de indivíduo e estar rico é um predicado de fase. No entanto, um predicado de indivíduo pode ser faseável (está a ser inteligente). Em Português, o contraste entre ser / estar serve para ilustrar a distinção entre predicados de indivíduo e predicados de fase (ser rico/estar rico), mas não para ilustrar a distinção faseável / não faseável. (cf. Oliveira 2003) Para distinguir predicados de indivíduos e predicados de fase, o Português utiliza critérios como: adverbiais de duração e de localização temporal, quantificação por meio de expressões como “sempre que”, comportamento sob escopo do operador “passar a”. (cf. Oliveira & Cunha 2003) (19) *O João foi alto ontem. (20) *O João foi alto às duas da tarde. (21) *Sempre que o João é alto, pratica atletismo. (22) O João passou a ser alto depois de tomar vitaminas. (23) O Rui esteve contente ontem. (24) O Rui esteve contente às duas da tarde. (25) Sempre que o Rui está contente, telefona aos amigos. (26) # O Rui passou a estar contente. Ao analisar estes exemplos, podemos dizer que os predicados de indivíduo ocorrem só com o operador aspetual passar a; e quanto aos predicados de fase não aparecem com este operador mas ocorrem com todos os outros critérios acima citados. Ao caraterizar os tipos de predicados, vamos dar alguns tipos de predicados de indivíduos e predicados de fases. Assim, temos: - predicados de indivíduos não faseáveis: ser largo, ser alto, ter olhos azuis, etc. - predicados de indivíduos faseáveis: ser preguiçoso, ser inteligente, ser simpático, etc. 73 - predicados de fase não faseáveis: estar avariado, ter 40 graus de febre, etc. (cf. Oliveira 2012) - predicados de fase faseáveis: gostar, viver, etc. É preciso notar que os estados lexicais são atélicos, não delimitados e homogéneos. B. Eventos Contrariamente aos estados, os eventos são situações dinâmicas que podem ser télicos ou atélicos, quer dizer tenderem para um fim ou não. E cada tipo de situação pode ter ou não uma duração. Os tipos de eventos são processos, processos culminados, culminações e pontos. B.1. Eventos télicos São os processos culminados e as culminações. Os primeiros ocorrem com advérbios do tipo “Em X Tempo”, e os segundos com advérbios de localização temporal precisa: (27) Salif escreveu a carta em 10 minutos. (28) O João comeu o bolo em 5 minutos. (29) A Diana chegou às 2h30 minutos. Os processos culminados e as culminações distinguem-se entre si por atribuirmos duração razoavelmente longa aos processos culminados e uma duração muito breve ou nenhuma duração às culminações. B.2. Eventos atélicos São os processos e ocorrem com advérbios do tipo “Durante X Tempo” (30) A Ana nadou durante 3 horas. (31) A Rita trabalhou durante cinco horas. (32) O Pedro correu durante 50 minutos. Temos também os pontos que são temporalmente indivisíveis e que se distinguem das culminações por não admitirem um estado resultante. Neste medida não é relevante considerar questões de telicidade. Quando se encontram numa construção progressiva dão uma informação iterativa. 74 (33) A Alice está a tossir. (34) O Rui está a espirar. É preciso notar que os estados lexicais e os processos têm em comum a atelicidade, a homogeneidade e a falta de limitação das situações que representam. A única diferença entre eles é que os estados não são dinâmicos. 4.2. Valores do presente O Presente do Indicativo Português só com estados dá informação estritamente temporal de presente. Mas com eventos, está restringido a relatos diretos e ao uso de enunciados performativos (cf. Oliveira 2003). (35) Sadio está doente. (36) Messi remata fortemente a bola à baliza. (37) Prometo-te que estarei presente amanhã. A categoria linguística de tempo é relacional na medida em que pode estabelecer laços diretos com o momento da fala e nesse caso temos uma relação dêitica, ou relacionar com um outro tempo da frase, do texto ou discurso e nesse caso falamos de uma relação anafórica. Assim, nesta parte vamos analisar em primeiro lugar as relações dêiticas depois as anafóricas do tempo em Português. ADêitico Presente atual (38) A Paula está presente. Neste exemplo o tempo da fala e o tempo da situação coincidem. A frase é episódica, visto que representa uma situação de fase medível. A leitura episódica é reforçada pelo verbo “estar” que marca em Português uma predicação que se verifica num intervalo de tempo delimitado. (39) Os macacos gostam de bananas. (40) Bárbara vive no Porto. (41) João é inteligente. (42) Marta sabe conversar. 75 De (39) a (42) são todas estados. No entanto, (41) é um predicado de indivíduo, (40) e (42) são predicados de fase e (39) é uma frase genérica. (43) A secretária dá a caneta ao presidente que assina o documento. (44) Prometo-te que estou calmo. Nesses dois exemplos o tempo gramatical dos predicados sobrepõe-se com os momentos da enunciação porque em (43) temos um uso reportivo e em (44) um caso performativo. Com efeito, o presente simples pode ser utilizado para referir o tempo futuro e também o do passado. Nos casos em que o tempo gramatical Presente do indicativo refere esses tempos, não há coincidência ou sobreposição da localização temporal da situação com o momento da fala. Assim, o momento da fala é excluído do momento da situação e serve nesse caso de ponto de referência à situação. Presente com valor de futuro Utilizamos este presente para referir factos futuros. Com efeito, pode exprimir-se fundamentalmente com o apoio de adverbiais que expressam ou admitem uma leitura do futuro. (45) Daqui a pouco almoço com a professora. (46) Salif vai a casa dos tios. (47) Hoje, Aminata joga no estádio da cidade. (48) Pedro vem amanhã. Em (45) o futuro é expresso pelo presente associado daqui a pouco. Em (46) o futuro é dado apenas pelo presente. No exemplo (47), apesar do advérbio de tempo “hoje” a situação é também localizada num momento posterior ao momento da fala. Em (48) é o advérbio “amanhã” que permite essa leitura de tempo futuro. A diferença entre os exemplos (47) e (48) é que no primeiro caso, o advérbio de tempo “hoje” permite localizar o evento num intervalo de tempo mais próximo do momento da fala e “amanhã” em (48) afasta esta localização do ponto da enunciação. No entanto, o futuro também pode ser construído pelo presente simples do verbo “haver” + de + infinitivo do verbo principal, e pelo verbo ter + de + infinitivo do verbo 76 principal, e nesse caso o presente terá um valor modal deôntico que se projeta para o futuro. (49) A gente há-de acabar com este assunto de uma vez para sempre. (50) Tenho de seguir os conselhos da diretora. O presente simples usa-se também em certas construções condicionais, em que as situações são localizadas num intervalo de tempo posterior ao momento da fala, tidos incertos e dependentes de ações futuras do agente. (51) Se dizes uma só palavra, sais. (52) Se não trabalhas, deixa o homem tranquilo. Presente com valor de passado Podemos utilizar o presente do indicativo para referirmos factos acontecidos no passado. Esse tempo pode ocorrer nos casos seguintes: Presente histórico O uso do presente do indicativo para descrever factos ocorridos no passado é o chamado presente histórico. Trata-se de um recurso utilizado para dar mais vivacidade ao texto e realçar os acontecimentos que estão a ser descritos. (53) Portugal perde o final do jogo de 2006 em Lisboa. (54) Os EUA atacam o Iraque em 2003. Presente narrativo Este tempo caracteriza-se pelo relato de factos retratados por uma sequência de situações, relacionadas com um determinado acontecimento, podendo ser estes factos reais ou ficcionais. (55) “Tenho de puxar pelas duas portadas da janela ao mesmo tempo para a conseguir abrir. Ela abre-se, de repente, e é como se uma explosão nuclear tivesse deflagrado dentro do quarto.” (56) Um simples olhar no mapa (…). Este é o Sahara Ocidental que se estende a sul de Marrocos e a Oeste da Argélia. 77 Presente de discurso oral (57) Em primeiro lugar, não sei porque é que tu achavas que o Cavaco tinha de fazer um discurso brilhante. (58) Têm direito a pensões de reforma, o que há, de facto, há muito idosos que estão na miséria. BNão dêitico Presente habitual Podemos também utilizar o presente do indicativo para referirmos factos habituais. (59) O casal dá uma volta todas as tardes. (60) A professora ensina semântica todas as quinta-feiras. (61) Gabriel fuma. (62) Abdoul vai de carro para o trabalho. Presente atemporal Este tempo é utilizado para referir verdades universais, atemporais, eternas. As situações apresentadas foram, são e serão sempre localizadas no presente. (63) A terra gira à volta do sol. Nestes exemplos não podemos dar as fronteiras iniciais e finais das situações descritas. Tudo o que podemos notar é que o momento da fala é incluído no intervalo da situação apresentada. Podemos encontrar este valor nas verdades científicas, na formulação de regras gramaticais ou de matemática que são independentes do tempo. São nesse sentido verdades passadas, presentes e futuras. (64) Verbos impessoais – São aqueles que apresentam somente a 3ª pessoa do singular, uma vez que não possuem sujeito. (65) Quatro mais quatro são oito. (66) A soma dos ângulos internos de qualquer triângulo é sempre igual a 180 graus. 78 Encontram-se também nas máximas e provérbios. (67) Quem tudo quer tudo perde. (68) A guerra não mata os ausentes. Encontram-se também em frases genéricas onde o tempo gramatical do predicado ocupa todo o intervalo do tempo. (69) O leão é feroz. (70) As baleias são mamíferos. (71) Os peixes vivem na água. 4.3. Presente simples do indicativo e classes de predicados Como foi anotado em cima, o presente do indicativo só com estados e em certos casos dá informação estritamente temporal de presente. Nesta parte vamos analisar a combinação do presente do indicativo com os diferentes predicados propostos por Vendler e Moens. Assim, vamos ver sucessivamente o presente simples com os estados, processos, processos culminados, culminações e pontos. 4.3.1. Predicados de estados Com os predicados de estado o Presente simples do indicativo português expressa um valor temporal em que o momento da fala e o momento do estado coincidem. Assim, temos: (72) O João está doente. (73) O Pedro vive em Porto. (74) A Ana ama o Pierre. (75) Os macacos gostam de bananas. Nestes exemplos o tempo gramatical dos predicados reforça a representação linguística dos estados, por outras palavras o presente dos predicados das frases coincide e engloba o momento da fala. Mas notamos que há uma diferença entre esses predicados estativos. Por exemplo na frase (72) trata-se de uma situação episódica em que podemos medir a duração da doença. Em (73) - (74) podemos dar as fronteiras inciais e finais das 85 Francês: (16) Carla est allée au Brésil. (17) Rui va travailler demain. (18) Diana lave les enfants. Pulaar: (19) Carla yahii Beresil. (20) Rui liggoto janngo. (21) Diana ɗi loota sukaaɓe ɓee. Notamos que cada uma das três línguas representa de maneira diferente esses três momentos. No exemplo (13) o tempo dêitico passado é dado pelo pretérito perfeito simples do indicativo em Português e, em (16), o Francês representa-o neste contexto por uma forma composta, o pretérito perfeito composto. O Pulaar, uma língua altamente aspetual, apresenta essa situação acontecida no passado pela forma perfetiva -ii. Quantos aos exemplos (14), (17) e (20), a relação dêitica é dada pelo tempo do verbo e reforçada nas três línguas pelo advérbio de tempo amanhã em Português, demain em Francês e janngo em Pulaar. Mas a diferença encontra-se no predicado, as duas línguas românicas usam o futuro perifrásico, enquanto o Pulaar usa os morfemas de imperfetivo e do futuro para indicar o tempo futuro. Podemos, em certos casos, considerar que o advérbio de tempo janngo pode ser um pouco redundante. 5.2.2. Tempo anafórico Estes diferentes tempos, que são o passado, o presente e o futuro podem manter entre si relações de anterioridade, simultaneidade ou posterioridade relativamente a um momento escolhido como o de referência. Essas relações são expressas de várias maneiras nas três línguas. Português: (22) Zeyna tinha preparado o jantar quando Abdou chegou. Francês: (23) Zeyna avait préparé le dîner quand Abdou est arrivé. Pulaar : (24) Zeyna dewtiino hiraande ndee tuma Abdou yottoto. 86 As situações descritas nestas orações são anteriores ao momento da fala, mas a preparação do jantar pela Zeyna é anterior à chegada de Abdou. Em Português e Francês é o valor dos tempos gramaticais que nos permite dizer que a preparação do jantar é anterior à chegada de Abdou. Ao contrário, o Pulaar marca essa anterioridade pelo morfema do tempo -no sufixado ao verbo da oração anterior. Português: (25) Ele vai dizer que leu o livro. (26) Ele disse que vai fazer isso. Francês: (27) Il va dire qu’il a lu le livre. (28) Il a dit qu’il va faire cela. Pulaar: (29) Mbo wi’at mbo janngiino deftere ndee. (30) Mbo wi’i mbo waɗoyat ɗum. Nas orações (25), (27) e (29), o ato de dizer é posterior ao momento da fala que por sua vez é posterior ao ato de ler. No entanto, duas leituras são possíveis. O ponto da perspectiva temporal da completiva pode ser dado pelo tempo da enunciação ou pelo tempo da frase principal. Em Português e Francês é a interpretação dos tempos verbais que nos permite fazer esta afirmação. Quanto ao Pulaar, é o morfema de anterioridade - no e o futuro que dão essas informações. Nas frases (26), (28) e (30), o ato de dizer é anterior ao momento da fala e o tempo da completiva é posterior ao tempo da enunciação. Esta interpretação é dada pelos valores dos tempos das duas frases nas línguas românicas, mas o Pulaar tem o morfema de posterioridade -oy mais o futuro para mostrar que a segunda oração é posterior a primeira e muito possivelmente ao tempo da enunciação. Em resumo, podemos dizer que, contrariamente ao Português e Francês, o Pulaar tem morfemas especiais para marcar a anterioridade e a posterioridade. No entanto, a sua semântica parece ser semelhante nas três línguas. 5.3. Aspeto nas três línguas É uma categoria linguística que define o tempo interno de um estado de coisas. Corresponde a diferentes maneiras de perspetivar a estrutura interna, isto é, o tempo interno de uma situação a partir de um dado ponto de referência. 87 5.3.1. Aspeto gramatical O aspeto gramatical é a maneira de considerar o processo no seu desenvolvimento temporal, enquanto o ‘aktionsart’ considera o processo do ponto de vista da sua modificação semântica interna. Cada uma das três línguas comparadas tem uma maneira de expressar o Aspeto. Assim, o Português e o Francês, línguas que favorecem o tempo, usam os tempos gramaticais para expressar o aspeto. Quanto ao Pulaar, língua que privilegia o Aspeto, tem morfemas específicos para marcar os diferentes aspetos. Podemos ilustrar esta ideia pelos exemplos seguintes: Português (31) Tinha comido. (32) Terei comido. Francês: (33) J’avais mangé. (34) J’ai mangé. (35) J’aurai mangé. Pulaar (36) Mi ñaamii. Nos exemplos portugueses e franceses, o aspeto do verbo comer é apresentado como terminado nas três frases, e pode ser respetivamente reforçado pelos advérbios de tempo ontem e amanhã (Português), hier, aujourd’hui e demain (Francês). As duas línguas marcam de forma distinta o mesmo aspeto associado a tempos diferentes. Esta distinção encontra-se na forma do auxiliar ter. O Pulaar traduz os três verbos das três frases por uma só e mesma forma verbal. Isso é realizado pela marca perfetiva -ii segundo os diferentes contextos. Assim, vamos dizer: (37) Hanki nii han tawi mi ñaamii/no. Ontem nesse hoje rad.encontrar perf. eu rad.comer perf. ant. Ontem a esta hora já tinha comido. (38) Hannde mi ñaamii law. Hoje eu rad.comer perf. cedo 88 Hoje comi cedo. (39) Janngo oo saa’a tawat mi ñaamii/no. Amanhã a esta hora rad.encontrar imp.tp eu rad.comer perf. ant. Amanhã a esta hora, tivera já comido . 5.3.2. Aktionsart É de natureza lexical e é dado pela caraterística dos verbos, mas aparece, também, em perífrases verbais, advérbios e locuções adverbiais. 5.3.2.1. Classes aspetuais Moens (1987), baseado em Vendler (1967), apresenta-nos cinco classes aspetuais que são os estados, processos, processos culminados, culminações e pontos. Mas ele faz uma primeira e grande distinção entre as cinco classes: por um lado, temos os predicados de estados e por outro os predicados de eventos. Os estados não são dinâmicos e os eventos são. Os testes que se usam para as diferenciar são na maior parte dos casos o imperativo e o progressivo. Os estados não aparecem nem no imperativo nem no progressivo. Assim, podemos dizer: (40) Come a sopa! (41) Ele está a comer a sopa. Mas não (42) *Sê grande! (43) *Ele está a ser grande. E dentro de cada grande grupo é feita uma outra distinção interna mais profunda. Assim, dentro dos estados, temos os estados faseáveis e os estados não faseáveis. (Cf. Cunha 2004). Os dois distinguem-se entre si pelo facto de os primeiros poderem ocorrer em construções progressivas e os outros não. (44) A Rita vive no Porto. (45) A Rita está a viver no Porto. (46) A Rita é grande. (47) *A Rita está a ser grande. 89 Há também uma outra distinção que se encontra entre os predicados de indivíduo e os predicados de fase. Os predicados de indivíduo são de duração longa e os predicados de fase duração temporária. (48) A Maria é inteligente. (49) O João está rico. Ser inteligente é um predicado de indivíduo e estar rico um predicado de fase. É preciso notar que um predicado de indivíduo pode ser faseável. Dentro dos eventos há uma distinção entre os eventos télicos e os atélicos. Como eventos télicos temos os processos culminados e as culminações que se diferenciam entre si por atribuição de duração razoavelmente longa aos processos culminados e uma breve duração ou nenhuma às culminações. Os processos culminados ocorrem com advérbios de tipo “em x tempo” e as culminações com localização temporal precisa por exemplo às 2h30m. Os eventos atélicos são os processos que ocorrem com adverbiais de tipo “durante x tempo”. Quanto aos pontos, são eventos temporalmente indivisíveis e que se distinguem das culminações por não admitirem um estado resultante. Nesta medida, não é relevante considerar questões de telicidade. Os pontos na construção progressiva dão uma leitura iterativa. (50) O menino comeu a maçã em 2 minutos. (51) O homem chegou às 5h30m. (52) Aminata nadou durante 15minutos. (53) A Ana está a tossir. No entanto, é possível agrupar as classes segundo os traços que elas têm em comum. Assim, podemos agrupar os estados com os processos por que a única coisa que os distingue é o aspeto dinâmico. Podemos também associar os processos culminados com as culminações, sendo a diferença entre si a duração e, por fim, os pontos com as culminações, que se diferenciam por que estas últimas têm como traço distinto o estado consequente. 90 5.3.2.2. Aspeto gramatical Nesta parte vamos mostrar como cada destas três línguas apresenta o aspeto gramatical, e se tem ou não morfemas ou elementos para marcar o aspeto. Português: (54) A Ana joga futebol. (háb.) (55) Todas as semanas a Ana joga futebol. (freq.) Francês: (56) Ana joue au football. (57) Chaque semaine Ana joue au football. Pulaar: (58) Ana fijat. (59) Yoontere yoo Ana fijat. O Português e o Francês são línguas que privilegiam a noção de tempo, elas não têm morfemas específicos para marcar o aspeto gramatical. Este último manifesta-se nas línguas românicas através de afixos temporais e, nesse caso, o tempo e o aspeto misturam-se. Quanto ao Pulaar, considera o aspeto como modalidalidade fundamental do predicado. Assim, faz a distinção entre o aspeto perfeito (representado por sufixo -i ou -ii) e o imperfeito (por -a ou -aa). O locutor escolhe um sufixo segundo o momento em que ele quer apresentar a sua situação. O Aspeto manifesta-se também através de construções perifrásticas, com auxiliares e semiauxiliares, advérbios, sintagmas nominais, etc. Português: (60) A Ana começou a estudar. (61) Cada sexta-feira a professora tem aula de semântica. Francês: (62) Ana a commencé d’étudier. (63) Toutes les semaines Pierre a cours de sémantique. 91 Pulaar: (64) Ana fuɗiima janngude. (65) Yoontere yoo Pierre janngat semantique. Em Português e Francês, o incoativo e o hábito são respetivamente expressos pelos verbo começar/commencer, o adverbial de tempo todas as sextas-feiras/toutes les semaines. O Pulaar usa também estes elementos, mas há sempre as marcas aspetuais perfeito e imperfeito para mostrar que se trata de uma situação já realizada ou não. Assim, se a situação de começar já se iniciou, temos a marca do perfeito -iima no radical verbal (64), e a marca imperfeito -a no verbo do exemplo (65) para mostrar uma situação repetida não terminada. Nalguns casos estes advérbios de tempo tornam-se redundantes. Nesta parte não vamos insistir muito sobre o ‘aktionsart’, que é o aspeto realizado pela natureza lexical. Apenas lembramos que, em Pulaar, as situações estativas são apresentadas no passado durativo chamado também o Perfeito Durativo. Os outros predicados podem dar informações tanto temporais como aspetuais. 5.4. Presente simples do indicativo e classes de predicados Nesta parte vamos analisar e interpretar o valor que o Presente do Indicativo pode ter com os diferentes predicados nas três línguas. 5.4.1. Predicados de estados Aqui vamos comparar o valor que o Presente do Indicativo Simples veicula uma vez combinado com os estados nas três línguas. Português: (66) O João está contente. (67) O Pedro vive no Porto. (68) A Ana ama o Pierre. (69) Os macacos gostam das bananas. Francês: (70) Jean est contente. 92 (71) Pierre vit à Porto. (72) Anna aime Pierre. (73) Les singes aiment les bananes. Pulaar : (74) Jean ɗi weltii. (75) Pierre ɗi hoɗi Porto. (76) Ana ɗi yiɗi Pierre. (77) waandu ɗi yiɗi banana. Com estados, em Portugês e Francês, o Presente do Indicativo dá informações temporais em que o momento da fala coincide, pelo menos parcialmente, com o momento da situação descrita. Para traduzir estas frases o Pulaar utiliza o Perfeito Durativo. Este tempo indica que o sujeito mantém uma qualidade permanente, ou o resultado de uma ação já realizada. Mas os estados podem ocorre em Pulaar no presente do indicativo, e nesse caso o tempo Presente transforma os estados. Assim,o Presente simples em Pulaar marca o início dos estados. Podemos conferir isso nos exemplos a seguir: (78) Jean ɗi weltoo. (Jean começou a ser feliz) (79) Pierre ɗi hoɗa Porto. (Pierre « começa a morar no Porto ») (80) Ana ɗi yiɗa Pierre. (Ana começou a amar Pierre) Com os predicados estativos, o presente do indicativo Português e Francês dão informações temporais. Quanto ao Pulaar, marca o início dos estados. 5.4.2. Predicados de processos Aqui vamos apresentar as diferenças dadas pelo presente simples uma vez combinado com os processos nas três línguas e depois comparar os resultados obtidos. Português: (81) A Rita fuma. (82) O Pedro nada. (83) A Ana corre. 93 Francês: (84) Rita fume. (85) Pierre nage. (86) Ana court. Pulaar: (87) Rita ɗi fiima. (88) Pierre ɗi wuuloo. (89) Ana ɗi doga. Com os processos, o Presente do Indicativo português não dá informações estritamente temporais de presente. Recategoriza-os em estados habituais. Em Francês, o Presente do Indicativo dá também uma leitura habitual influenciada pelo ‘aktionsart’ dos predicados. Mas contrariamente ao Português, com processos o tempo presente não é tão claro. Segundo o contexto ele pode ou não recategorizar os processos em estados. Por exemplo, num diálogo podemos dizer: (90) Que fais-tu? (91) Je fume. (92) Que fait Pierre? (93) Pierre court. E este presente dá informações temporais em que o momento da fala e o momento do evento coincidem. Quanto ao Pulaar, o Presente do Indicativo dá informações temporais em que há uma sobreposição parcial ou total do tempo de evento e do tempo da enunciação. 5.4.3. Predicados de processos culminados Raramente utilizado com os processos culminados em Português, o Presente do Indicativo Simples aparece em frases com processos culminados, sem advérbios de quantificação, em Pulaar e em Francês. No entanto, vamos comparar os diferentes valores nas três línguas. 94 Português: (94) ? O João escreve uma carta. (95) ? A Maria pinta o carro. (96) ?O Mariano viaja até São Vicente. Francês: (97) Jean écrit une lettre. (98) Amadou peint sa maison. (99) Jean répare sa voiture. Pulaar : (100) Jean ɗi winnda narhal. (101) Amadou ɗi raaka galle mun oo. (102) Jean ɗi watta oto mum oo. O presente do indicativo em Português não localiza os processos culminados no momento da fala, e na maior parte dos casos as frases precisam de advérbios de tempo ou outros elementos para ser aceitáveis. Em Francês e Pulaar as frases são corretas e as situações descritas acontecem no momento da fala mas o tempo dos verbos apresenta uma parte dos processos culminados, isto é, apenas o processo. 5.4.4. Predicados de culminações As culminações são pouco usadas no Presente simples português, mas são usadas nas línguas Pulaar e Francês. Vamos comparar os diferentes valores que tem o Presente nas frases em que os predicados são culminações. Português: (103) ?Macky corta a meta. (104) ?Ami ganha a corrida. Francês: (105) Macky coupe le ruban. (106) Ami gagne la course. 101 Kamp, H. e Reyle, U. (1993) “From discourse to Logic”, Introduction to Modeltheoretic Semantics of natural language, formal logic and dircourse representation theory, Dordrecht, Kluwer. Leiria, I. 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