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Da punição física ao abuso físico: conceptualização e consequências práticas

Ricardo Barroso

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DA PUNIÇÃO FÍSICA AO ABUSO FÍSICO: CONCEPTUALIZAÇÃO E CONSEQUÊNCIAS PRÁTICAS Ricardo G. Barroso Assistente do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro REsUMO: Do prisma teórico, o processo de aplicação de práticas fisicamente punitivas na relação pais-filhos encontra-se compreendido no exercício da parentalidade, decorrendo, de modo mais preciso, da necessidade parental de disciplinar a criança. O entendimento de que as práticas disciplinares pressupõem a utilização da violência física é comum em alguns cuidadores, esquecendo-se por vezes as eventuais cansequências negativas da utilização destas práticas. Seguindo a concepção teórica de alguns investigadores, que conceptualizam o fenómeno das práticas educativas fisicamente punitivas e do abuso físico como decorrendo de um conjunto de circunstâncias sociais e/ou dificuldades interpessoais no desempenho das tarefas necessárias da parentalidade, neste artigo procuramos analisar as circunstâncias individuais, familiares, sociais e culturais que se encontram na origem da ocorrência das práticas disciplinares punitivas. Iremos, igualmente, examinar um conjunto de dados da literatura sobre as consequências da punição corporal e do abuso físico na saúde mental da criança. ABSTRACT: From a theoretical point of view, the process of child physical punishment in a parent-child relationship is better understood in the exercise of parenting practices, more properly due to the need to discipline the child. Understanding lhe disciplinary practices concerning the use of physical violence is common in some caregivers. However, sometimes, the possible negative consequences of the use of these practices are forgotten. In this article we analyre the individual, family, social and cultural factors which are in the origin of the occurrence of punitive disciplinary practices. We will also examine the results from some studies about the effect of corporal punishment and physical abuse in children's mental health, PALAVRAS-CHAVE: punição física; abuso físico; violência física; violência Çamiliar. ::.oirnbra Editora ® RPCC 20 (2010) 280 R/CARDO G. BARROSO KEYWORDS: physical punishment; physical abuse; physical violence; family violence . A existência de maus-tratos infantis no contexto familiar é descrita por Cicchetti (2002; Cicchetti & Toth, 2005; Cicchetti & Valentino, 2006) como o exemplo de um ambiente relacional patogénico que produz riscos significativos de problemas em diferentes domínios do desenvolvimento biológico e psicológico da criança. No que conceme à punição física, esta é definida como "o uso da força física com a intenção de causar na criança a experiência de dor, mas não ferimentos, com opropósito de corrigir ou controlar o comportamento da criança" (Straus & Donnelly, 2005, p. 3). Como referem Straus e Donnelly (2005), a indicação de "dor, mas não ferimentos" ajuda a estabelecer a distinção entre punição corporal e abuso físico, tendo em conta a aceitabilidade social e legal desta prática disciplinar. Os actos fisicamente punitivos mais habituais passam pela aplicação de bofetadas, palmadas ou por apertar ou empurrar a criança de jeito violento. Toma-se assim explícito que o acto de causar dor não é acidental mas tem, antes, carácter intencional. No entanto, ainda que culturalmente sejam admitidos estes comportamentos, alguns deles poderão suscitar um risco acrescido de causar ferimentos na criança, requerendo tratamento médico e, dessa forma, sendo considerados abuso físico e não punição física. A este respeito podemos atender às indicações de Canha (2000), que exemplifica a situação de maus-tratos físicos através do síndroma da criança abanada, ocorrência de quei- .maduras, fracturas ou traumatismos crânio-encefálicos, asfixia da criança, provocação de lesões abdominais e intoxicações. Assim, comportamentos que aparentemente não implicarão lesões físicas consideráveis (v. g. bofetada) são amiúde tipificados como punição física, enquanto comportamentos que poderão resultar em ferimentos físicos (v. g. queimar ou pontapear) são considerados abuso físico (Gershoff, 2002a). Dadas as dificuldades muitas vezes sentidas em operacionalizar esta definição, em algumas ocasiões com consequências ao nível da prova das evidências quando o comportamento punitivo é ilegal, Slep e Heyman (2006) procuraram concretizar as diversas tipologias de Coimbra Editora ®RPCC 20 (2010) DA PUNIÇÃO FÍSICA AO ABUSO FÍSICO: CONCEPTUALIZAÇÃO ... 281 maus-tratos, recorrendo ao apoio de técnicos colocados no terreno; No que diz respeito à existência de abuso físico, foi adoptado um enquadramento que requeresse um impacto significativo, facilitasse uma tomada de decisão segura e permanecesse sensível às exigências que surgem no quotidiano. Deste modo, uma situação era considerada fisicamente abusiva quando existia mais do que uma lesão insignificante (v. g., existência de um corte mais do que superficial), quando se verificava um potencial realista para a ocorrência de mais do que ferimentos triviais e, por último, quando ocorria uma reacção de medo (v. g. verbalizado ou manifestado) que podia ser considerada mais do que insignificante (Slep & Heyman, 2006). Também ao nível político, muitas têm sido as críticas relacionadas com a falta de clareza das enunciações. Por exemplo, a Organização Mundial de Saúde (Krug, Dahlberg, Mercy, Zwi & Lozano, 2002) emprega a seguinte definição: "Por abuso infantil ou maus tratos entendem-se todas as formas de tratamento físico ou emocional abusivo, abuso sexual, ou abandono ou tratamento negligente ou exploração comercial ou outra, que lenha como resultado danos reais ou potenciais à saúde da criança, à sua sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade, num contexto de um relacionamento de responsabilidade, confiança ou poder" (p. 38). Como referem Tolan, Gorman-Smith e Henry (2006), trata-se de uma definição que pretende ser inclusiva, e que talvez seja útil para a realização de discussões políticas, mas que não esclarece quais os actos que poderão ser considerados abuso, muito menos que tipo de abuso. Também a Organização das Nações Unidas e a União Europeia (Council of Europe, 2008), referem: "Punição corporal (denominada por vezes punição física) é toda a punição em que aforça física é usada e pretenda causar algum grau de dor ou de desconforto, mesmo que leve... (p.2). No contexto europeu, paralelamente a esta definição, as acções políticas regem-se com base na jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que, desde há vários anos, tem condenado qualquer tipo de punição corporal das crianças, inicialmente no sistema penal, depois escolar e, de forma mais recente, no próprio ambiente familiar. Embora todas estas definições pretendam uma concretização efectiva dos episódios de punição física, para que, entre outras coisas, se Coimbra Editora ® RPCC 20 (2010) 282 R/CARDO G. BARROSO possa diminuir a incidência e prevalência de casos de abuso, numa percentagem significativa de países do mundo a utilização da punição física é frequente, ainda que não seja a estratégia disciplinar principal (Ember & Ember, 2005; Straus, 2005). Ainda assim, segundo Benjet e Kazdin (2003), na população norte-americana, o número de pessoas que percepciona a punição física como aceitável desceu 30% desde os anos 60. Jones, Finkelhor e Halter (2006), referindo-se igualmente à população norte-americana, sublinham uma descida de 36% na incidência de abuso fisco desde 1990 até 2003, salientando o papel importante das intervenções preventivas, da melhoria da situação económica, da melhor gestão judicial dos processos e das mudanças geracionais. Mais recentemente, numa nova análise da evolução destes dados norte-americanos, Finkelhor e Jones (2006) referem um declínio de 43% nas taxas de abuso físico entre 1993 e 2004. Para além dos factores já indicados na investigação anterior (Jones, Finkelhor & Halter, 2006), aqueles autores salientam, neste estudo mais recente, o aumento das intervenções dos agentes sociais e os avanços na psicofarmacologia. Sobre este último factor, sublinham a possibilidade de acesso, nos últimos anos, de todos os estratos sociais e de todos os grupos etários, a tratamentos de perturbações de ansiedade, depressão ou de outros problemas de saúde mental (v. g. uso de fluoxetinaJProzac® na população adulta ou o uso de metilfenidato/Ritalina® em parte da população infantil e juvenil). Em Portugal, o estudo retrospectivo de Figueiredo, Bifu1co,Paiva, Maia, Femandes e Matos (2004) indicou uma prevalência de punição física de 73%, tendo 9,5% dos sujeitos reportado sequelas originadas por práticas graves de abuso físico. Machado, Gonçalves, Matos e Dias (2007), num estudo com uma amostra representativa de 2391 sujeitos, referem que 12.3% dos sujeitos relatam ter praticado pelo menos um comportamento fisicamente abusivo no último ano, embora os sujeitos tendessem a desaprovar a utilização de violência física na sua relação com os filhos. Com a definição e esclarecimento das várias conceptualizações de punição física e abuso físico, é possível observar as dificuldades na obtenção de uma descrição genérica consensual. Esta falta de consensualidade verifica-se também no que conceme ao impacto das práticas punitivas sobre a criança e aos seus resultados no controlo do comCoimbra Editora ®RPCC 20 (2010) DA PUNIÇÃO FÍSICA AO ABUSO FÍSICO: CONCEPTUAUZAÇÃO ... 283 portamento. Passamos, pois, a analisar as diferentes posições que têm vindo a ser articuladas no seio deste debate. Punição física e abuso físico: controvérsias recentes É possível verificar que as diferentes. conceptualizações das práticas disciplinares fisicamente punitivas procuram estabelecer um continuum entre punição corporal, ferimentos e abuso físico (Watkins & Cousins, 2005), No entanto, como referem Larzelere e Kuhn (2005), a ambiguidade quanto ao efeitos da punição física das crianças persiste apesar de dezenas de anos de investigações, havendo uma polarização da opinião pública e dos próprios cientistas sociais e comportamentais (Ripoll-Nunez & Robner, 2006). Um exemplo desta incerteza pode ser observado num estudo de Schenck, Lyman e Bodin (2000), em que, numa amostra de 237 psicólogos com prática clínica, membros de três divisões da Associação Americana de Psicologia (APA), 70% indicou que nunca recomendaria a pais que punissem fisicamente uma criança, 26% raramente o aconselharia e, 4% talvez sugerissem estaprática disciplinar. Ainda que as recomendações para punir fisicamente não fizessem parte da maioria das práticas dos profissionais, este estudo sublinha a inexistência de concordância nos procedimentos. Um outro sinal de ausência de consenso é o facto de um conjunto significativo de psicólogos, membros da APA, se opor persistentemente à adopção de recomendações desta organização no sentido de proibir a utilização da punição corporal (Benjet & Kazdin, 2003). Estes resultados parecem ser o reflexo das diferentes abordagens teóricas presentes na ciência comportamental sobre a temática da punição corporal. Nos últimos anos têm sobressaído duas posições teóricas no que tange à questão dos efeitos das práticas educativas punitivas. A primeira é designada de perspectiva de punição condicional (Ripoll-Nunez & Rohner, 2006), demonstrada, por exemplo, no trabalho de Baumrind, Larzelere e Cowan (2002) ou no de Larzelere e Kuhn (2005). A segunda é denominada de perspectiva anti-punição incondicional (Benjet & Kazdin, 2003; Ripoll-Nunez & Rohner, 2006), evidenciada nos trabalhos de Gershoff (2002a) e Straus (2001; 2005). Coimbra Editora ® RPCC 20 (2010) 284 R/CARDO G. BARROSO Em função dos resultados de diversos estudos, a última abordagem assume a inutilidade e ineficácia de qualquer prática punitiva, .sugerindo consequências desenvolvimentais negativas nas crianças, tanto da punição física como do abuso físico. O estudo de Gershoff (2002a) envolveu uma meta-análise com 88 investigações efectuadas nos últimos 62 anos, onde se verificou a associação entre punição corporal parental e um potencial de abuso físico destas mesmas crianças, confirmando que punição física e abuso físico se encontram estreitamente ligados. Os defensores da perspectiva de punição condicional criticaram, de modo encarniçado, este estudo (Baurnrind, Larzelere &Cowan, 2002; Holden, 2002; Parke, 2002), afirmando que fazia inferências causais inválidas, na medida em que duas variáveis poderão estar correlacionadas sem estarem ipso facto ligadas de uma forma causal. Por sua vez, esta segunda abordagem procura identificar condições onde a punição possa surtir benefícios ou, pelo menos, não ser prejudicial para a criança, enfatizando o contexto parental e a forma de aplicação e distinguindo usos eficazes da punição física de usos contraproducentes (Larzelere & Kuhn, 2005). Assim, para estes autores, os efeitos da punição poderão ser negativos, positivos ou ambos, dependendo das condições em que ocorre. Defendem, em especial, que a punição física deve ser investigada em relação às condições em que pode ser útil, antes de qualquer imposição política de proibição (Baurnrind, Larzelere, & Cowan, 2002), recusando, contudo, a punição física severa como primeira escolha na disciplina parental. Como sublinham Benjet e Kazdin (2003), muitos princípios morais e religiosos inspiraram algumas das investigações sobre punição corporal, levando a que, em alguns casos, a influência dessas crenças tenha diminuído a relevância das evidências empíricas. Várias críticas têm sido dirigidas às duas abordagens que vêm de referir-se. Por um lado, a perspectiva anti-punição salienta que esta prática é inútil em qualquer circunstância, não acolhendo os dados das investigações que comprovam efeitos positivos quando a punição é leve ou moderada, ao nível da obediência da criança (Ripoll-Nunez & Rohner, 2006). Por outro lado, a perspectiva da punição condicional defende a sua utilidade mas esquece o continuum existente entre punição corporal, ferimentos e abuso físico (Gershoff, 2002a; Watkins & Cousins, 2005), sendo difíCoimbra Ecitora ® RPCC 20 (2010) DA PUNIÇÃO FfsICA AO ABUSO FfsICO: CONCEPTUALlZAÇÃO ... 285 cil precisar onde se encontram os limites de cada situação. Aparentemente, estes autores assumem que os pais só adoptam estas práticas quando não estão zangados ou emocionalmente afectados, minimizando o risco de descontrolo emocional (Bamett, Miller-Perrin & Perrin, 2005). Em suma, segundo Ripoll-Nunez e Rohner (2006), o ponto de vista individual sobre a punição física influencia por vezes a forma como a punição é medida e, principalmente, como as verificações científicas são interpretadas. Em relação aos efeitos no ajustamento psicológico da criança, os dados permitem retirar conc1usõesmais concretas, em especial em relação aos efeitos prejudiciais do abuso físico. Punição física e abuso físico: características e efeitos na criança As diferenças que permanecem mais evidentes na análise dos efeitos da punição corporal nas crianças centram-se no desacordo interpretativo relativamente ao que constitui violência legítima ou ilegítima, cuja aplicação tem efeitos divergentes segundo alguns autores (Gershoff, 2002a; 2002b; Straus, 2001, 2005; Baumrind, 1996; 1997; Larzelere, 2000; 2005). Num estudo com crianças entre 2 e os 6 anos de idade, Larzelere (2000)conc1uiu que a punição física produziu mais benefícios que efeitos prejudiciais, quando usada depois da aplicação sem sucesso de outras estratégias disciplinares comuns (v. g. argumentação lógica de consequências) ou na implementação de outras estratégias disciplinares (v. g. após desobediência ao time-out). Estes dados são congruentes com os resultados verificados por Paolucci e Violato (2004) que, mais recentemente, efectuaram uma meta-análise de 70 estudos realizados entre 1961 e 2000, envolvendo no total 47 751 sujeitos. Ao observar os efeitos da punição corporal no desenvolvimento comportamental, afectivo e cognitivo de jovens, estes autores (Paolucci & Violato, 2004) verificaram que a punição corporal não possuía praticamente nenhum efeito no rendimento académico, pensamentos suicidas, atitudes violentas ou outros resultados cognitivos. Assim, em geral, segundo estes investigadores, a exposição à punição corporal socialmente aceite não parece resultar num risco acrescido em desenvolver problemas comportamentais, cognitivos ou afectivos. Coimbra Editora ® RPCC 20 (20 lO) 286 RICARDO G. BARROSO Straus (2001), por outro lado, demonstra as consequências negativas na criança do uso de práticas punitivas socialmente aceites. Segundo o autor, quando a figura parental pune fisicamente, está a legitimar o uso da violência na resolução de problemas ou de conflitos. Ao mesmo tempo, esta legitimação implícita contribui para a violência em outros aspectos da sociedade, através da generalização da resposta. Alguns estudos suportam estas indicações, sugerindo correlações entre punição física e outras formas de violência, por exemplo, violência escolar (Baldry, 2003), violência conjugal (Kanoy, Ulku-Steiner, Cox & Burchinal, 2003) ou na futura utilização da violência contra os próprios pais (Pagani, Tremblay, Nagin, Zoccodillo, Vitaro, McDuff, 2009). Neste sentido, Cast, Schweingruber e Berns (2006), num estudo longitudinal com 188 casais, em que avaliaram as estratégias de resolução de problemas durante os dois primeiros anos de casamento, verificaram que indivíduos que relatavam punição física durante a infância tinham maior probabilidade de recorrer à agressão verbal e física, tendiam a ser mais controladores dos(as) parceiros(as) e menos capazes de tomar a perspectiva daquele(a). Estes resultados sugerem, por um lado, uma associação entre punição física e estratégias agressivas e de controlo na resolução de problemas e, por outro lado, a existência de efeitos da punição física ao nível das competências sociais que os indivíduos desenvolvem nas suas famílias de origem. Estas conclusões reforçam os dados observados por Bohman (2000) sobre as dificuldades que as crianças sujeitas a punição física parecem desenvolver na tomada da perspectiva dos colegas, competência fundamental na resolução de conflitos. O estudo meta-analítico de Gershoff (2002a; 2002b), já referido, corrobora muitas destas conclusões, destacando as consequências negativas da punição física no desenvolvimento psicológico da criança que se tendem a manter ao longo da idade adulta, tais como dificuldade na internalização moral, problemas de saúde mental e aumento de comportamentos agressivos e abusivos em relação a outros. Algumas investigações sublinham, no entanto, que este impacto no ajustamento psicológico da criança é moderado pelo contexto em que se situa o comportamento (Pinderhughes, Dodge, Bates, Pettit & Zelli, 2000). Numa investigação em várias culturas (China, Índia, FilipiCoimbra Editora ®RPCC 20 (2010) DA PUNIÇÃO FtSIq AO ABUSO FtSICO: CONCEPTUALIZAÇÃO ... 287 nas, Tailândia, Itália e Quénia), Lansford, Dodge, Malone, Bacchini, Zelli e Chaudhary (2005) observaram a ligação entre a utilização materna de punição física e as consequências no ajustamento comportamental e emocional da criança. Os resultados obtidos apontaram para o relevante papel dos valores culturais na forma como a disciplina física se relacionava com o ajustamento psicológico, ainda que mantivessem a indicação de potenciais problemas no uso destas práticas. Ou seja, ainda que a experiência de punição física implicasse, de facto, mais problemas de ajustamento psicológico na criança, a percepção de normalidade cultural das práticas punitivas atenuava esse efeito. Do mesmo modo, a normatividade cultural da punição física percebida pela criança temperava a associação entre punição física parental e ansiedade infantil. Para além deste factor, Vitolo, Camargo, Fleitlich-Bilyk, Goodman e Bordin (2005), referem que a forma como a experiência da punição física afecta a saúde mental de uma criança parece depender do seu nível desenvolvimental e da gravidade e frequência das agressões sofridas. _ No que concerne aos efeitos das práticas fisicamente abusivas, Black, Heyman e Slep (2001), numa integração dos resultados de di ersos estudos, indicam que as sequelas físicas encontram-se presentes numa percentagem significativa dos casos (v. g. fracturas, queimaduras), bem como as dificuldades cognitivas (v. g. memória, diminuição do funcionamento intelectual e cognitivo, menor rendimento escolar), comportamentais (v. g. agressão, desobediência, problemas com a lei, comportamento desafiante) e complicações sócio-emocionais v. g. problemas de vinculação, evitamento de adultos, défice nas competências sociais). Ao nível da saúde mental, podem verificar-se perturbações de comportamento, hiperactividade e défice de atenção, depressão ou comportamentos suicidas. Também numa revisão de e tudos sobre os efeitos do abuso infantil, Bamett, Miller-Perrin e Perrin (2005) referem que quando uma criança é fisicamente abusada, as consequências negativas tendem a permanecer ao longo da sua vida, podendo manifestar-se este efeito, entre outras formas, através de comportamento violento e anti-social, perturbações de personalidade, abuso de substâncias, hostilidade e dificuldades interpessoais ou problemas onjugais e parentais. :::oir:bfa Editora ® RPCC 20 (2010) 296 RlCARDO G. BARROSO tos, cujo conteúdo é afectivo e avaliativo. Os indivíduos estruturam assim o ambiente (i. e., o seu conhecimento) que os rodeia usando sistemas de significado cognitivo e afectivo (Molden & Dweck, 2006), sob a forma de teorias. Estas teorias, que os indivíduos, independentemente do seu nível sócio-económico ou académico, utilizam na sua vida quotidiana, são por vezes designadas de implícitas, populares, ingénuas, intuitivas, primitivas, crenças de referência ou de senso comum (Hong, Levy & Chiu, 2001; Hong, Chan, Chiu, Wong, Hansen, Lee, Tong, & Fu, 2003). Como referem Levy, Chiu e Hong (2006), em termos conceptuais, à semelhança das concepções denominadas de científicas, as teorias do senso comum (lay theory) pretendem reduzir incertezas ao providenciar compreensão, predição e controlo. Ao mesmo tempo, e também em conformidade com os propósitos das teorias científicas, as doutrinas populares parecem representar um sistema de crenças, regras e conceitos estruturados e coerentes, e não apenas certas crenças isoladas. Neste sentido, Levy, Chiu e Hong (2006) salientam que estas teorias implícitas pretendem que os indivíduos façam sentido do quotidiano. Recentemente têm surgido estudos em torno delas, no que contende com a utilização das práticas parentais punitivas (Furnham, 2005). Este autor sublinha, por um lado, a influência de valores sócio-políticos neste processo, tanto para os utilizadores de teorias implícitas corno para os cientistas e, por outro lado, destaca as dimensões de eficácia e moralidade da punição física, incluídas também nas crenças sobre punição em geral. Ao nível implícito, a discussão quanto à eficácia da punição física pode ser analisada em provérbios populares conhecidos, tais como: "é de pequenino [ou é de verde] que se torce opepino" ou no comentário "bateram-me e não me.fe: mal nenhum, antes pelo contrário". Estes provérbios e ditos tendem a ser usados para conferir autoridade à prática de bater nas crianças (Benjet & Kazdin, 2003). Sobre aspectos referenciados com a moralidade da punição física pode-se identificar a máxima: "não faças aos outros oque não queres que te façam a ti", ou os aforismos "o respeitinho é muito bonito" ou "cá se fazem, cá se pagam". A prática de punir fisicamente as crianças encontra-se profundamente influenciada por crenças religiosas, perspectivas culturais ou políticas sociais (Benjet & Kazdin, 2003). A este propósito, Coimbra Editora ® RPCC 20 (2010) • JçÃO FÍSICA AO ABUSO FÍSICO: CONCEPTUALIZAÇÃO ... 297 êm Parke (2002) sugere que é precisamente um conjunto de cren-' e suporta as leis, norte-americanas e em outros países, que autoa punição física nas crianças. Estas crenças passam por pers- ~::-r::."ar as crianças como propriedade dos seus pais, sendo estes, por "o titulares do direito de as educarem como entenderem. Por ogam igualmente que as crianças não têm direito a negociar ão educativo com os pais e, também, que o comportamento ~:~-e:allil quando ocorrido no contexto familiar é algo de privado '-~'""r"'.uúíiez & Rohner, 2006). Como foi notado anteriormente, uma senso comum filtra a informação social e direcciona a cognição, e o comportamento .. Esta circunstância pode ter implicações .::: " as ou positivas (Keller, 2005), pode implicar mais ou menos ~~:ril:LIC:'La(Levy, West & Ramirez, 2005) ou, até, mais ou menos flexi:::ilildacle(Karafantis & Levy, 2004), embora, no que concerne às práitivas, se possam verificar incoerências entre a desaprovação costume e a extensão do seu uso (Machado et al., 2007). Mesmo mecanismos de transmissão das crenças e atitudes sejam ainda ôesecabecidos (Molden & Dweck, 2006), nos estudos de Furnham (2005) ·~z:;jD à eficácia e moralidade de punição física, é destacado o facto de riências directas dos sujeitos (v. g., em casa ou na escola) e as - exposições a antigas controvérsias (muitas vezes através de deba- - media) serem fortes motivos para a formação de um sistema de ~:c-çci.S coerente, pró ou anti-punição. Este sistema parece ter relam outros sistemas de crenças, tais como uma postura conser- .•.,....u...,a.. crenças de um mundo justo, aspectos éticos do trabalho ou o ítarismo (Furnham, 1986; 2005). Em resumo, desde há vários anos que surgem controvérsias, nas zeerias psicológicas e nas teorias de senso comum, em relação aos _ ntos que sustentam, ou não, a tolerância ou a eficácia da puni- - física (Benjet & Kazdin, 2003). Alguns destes debates, possivel_" os primeiros, parecem ter surgido· em relação à eficácia pedautilização da punição corporal nas escolas (Furnham, 2005), 'pios implícitos tenderão a ser semelhantes à utilização realo pais. Deste modo, ao aplicarem a punição física, os pais feedback imediato do seu procedimento (Miller, 2003), com •.....;=---=--.u.:> normalmente eficazes ao nível do término do comportaRPCC 20 (2010) 298 R/CARDO G. BARROSO mento considerado desajustado ou na condução à obediência da criança (Larzelere, 2000), ainda que sejam efeitos temporários (Turner, 2005). Desta forma pretendem manter o controlo perante um episódio ambíguo que envolve assumpções de responsabilidade moral, suportadas por certos valores sociais e de representações dominantes da infância e da parentalidade (Furnham & Weir, 1996; Machado, 1996; Ripoll-Núfíez & Rohner, 2006), segundo os pressupostos das teorias implícitas veiculadas por esse contexto cultural (Furnham, 1988; Levy, West & Ramirez, 2005). No entanto, o esclarecimento parental das sérias consequências de todo este processo a curto, médio ou longo prazo no desenvolvimento e ajustamento psicológico da criança deverá ser, também, uma das responsabilidades dos profissionais. De igual modo, as intervenções políticas, comunitárias ou individuais devem ter presentes todos os factores etiológicos aqui discutidos, sob pena destes programas de intervenção não promoverem a mudança efectiva do comportamento parental de regulação disciplinar e/ou comprometerem a continuidade do desempenho destas práticas parentais a médio e longo prazo. Bibliografia AlZEN, I., & FISHBEIN,M. (2005). The influence of attitudes on behavior. In D. Albarracín, B. T. Johnson, & M. P. Zanna (Eds.), The handbook of attitudes (pp. 173-221). Mahwah: Erlbaum. ApPEL, A. E. & HOLDEN, G. W. (1998). The co-occurrence of spouse and physical child abuse: A review and appraisal. Journal of Family Psychology, 12,578-599. BALDRY,A. (2003). 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