Lugares em Espera
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Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto Maria João Tavares Revitalização e requalificação de vazios urbanos Vazios u uu u r rr r b bb b a aa a n nn n o oo o s ss s Lugares Mestrado em Arte e Design para o Espaço Público em espera
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos II Projecto/Dissertação apresentada para a obtenção do grau de Mestre em Arte e Design para o Espaço Público pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Orientador: Professor Doutor Arquitecto Pedro Leão Neto, FAUP
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos III Agradecimentos Ao professor Doutor Arquitecto Pedro Leão Neto, pela orientação prestada. À Professora Doutora Gabriela Pinheiro, pela dedicação ao longo de todo o mestrado. Aos meus pais, à minha irmã e ao Duarte pelo incentivo e por estarem sempre presentes. Às minhas bailarinas e aos moradores do Bairro da Beira-Mar, pela colaboração e implementação das intervenções urbanas. Aos meus amigos, pela compreensão da minha ausência e pela energia positiva que sempre me transmitiram.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos IV Agradecimentos III Índice de imagens VI Índice de Anexos VII Resumo VIII Abstract X 1. Introdução .11 2. Objectos conceituais .14 2.1 Dimensões conceituais da Paisagem .14 2.1.1 Paisagem urbana .15 2.1.2 Percepção e apropriação da paisagem .16 2.2 O espaço e as suas múltiplas dimensões .17 2.2.2 Espaço e tempo .19 2.3 Vazios urbanos - espaços que se esvaziam .21 2.3.1 Classificação dos vazios urbanos .23 2.4 Processos de revitalização e requalificação de .25 vazios urbanos 3. Procedimentos metodológicos .26 3.1 Objecto de estudo .26 3.1.1 Breve contextualização histórica .28 3.2 Métodos e Técnicas .30 3.2.1 Pesquisa bibliográfica e documental .30 3.2.2 Levantamento de campo .31 3.3 Mapeamento do vazio .31 3.3.1 Representação e experimentação do espaço .32 3.3.2 Encontro da vocação artística do espaço .36 4. Investigação experimental - acções sobre os .39 vazios urbanos ÍNDICE GERAL
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos V 4.1 A performance como activador da memória .39 colectiva 4.2 Apropriação de vazios urbanos .43 4.2.1 Secret garden - intervenção de guerrilha .43 4.3 Medidas projectuais .46 4.3.1 Vazios sonoros .48 4.3.2 Jardim flor de sal .49 4.3.3 Jardins do vazio .51 Conclusões .53 Referências bibliográficas .57 Anexos .61
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos VI Figura 1. Mapa da cidade de Aveiro com o limite da área de .27 intervenção (bairro da Beira-Mar) Figura 2. Registo fotográfico de alguns dos “lugares em espera” do .28 bairro da Beira-Mar, Aveiro Figura 3 . Vista aérea das salinas de Aveiro (1977) .29 Figura 4. Vista panorâmica da cidade de Aveiro em 1950 .29 Figura 5. Mapa da cartografia do bairro da Beira-Mar .34 Figura 6. Cartografa individual .35 Figura 7. Mapa final de experimentação do espaço .35 Figura 8 . Os espacialistas na mina .36 Figura 9. Desenhos fotográficos do vazio #1 .39 Figura 10. Festa de São Gonçalinho .40 Figura 11. Fragmentos na paisagem - carris da antiga via-férrea .41 Figura 12. Ramal ferroviário do canal de São Roque (1930) .41 Figura 13. Armazéns de sal e ramal ferroviário do canal .41 de São Roque (1921) Figura 14. Registo fotográfico da performance 2,431km .42 Figura 15. Registo fotográfico da intervenção de guerrilha #1, praça .44 Joaquim de Melo Freitas Figura 16. Registo fotográfico da intervenção de guerrilha #2 .44 Jardim do Rossio Figura 17. Registo fotográfico da intervenção de guerrilha #3 .44 Ponte de Carcavelos Figura 18. Recorte de jornal referente à intervenção “Secret garden” .45 Figura 19. Mapa de localização e fotografias representativas dos .46 Vazios urbanos do bairro da Beira-Mar ÍNDICE DE IMAGENS
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos VII Figura 20. Projecto ”Jardin en mouvement” do Arq. Paisagista Gilles .47 Clement Figura 21. Jardim vertical de Patrick Blanc .47 Figura 22. Sala Urbana “Stadtlounge" da Artista Pipilotti Rist e do .47 Arquitecto Carlos Martinez Figura 23. Fotomontagem ilustrativa da proposta “vazios sonoros” .49 Figura 24. projecto “Buga garden”, do arquitecto paisagista Rainer .50 Landschaftsarchitekten Figura 25. Projecto “Wave field” da Arquitecta e Artista Maya Lin .50 Figura 26: Fotomontagem ilustrativa da movimentação .51 / experimentação das potencialidades do espaço Figura 27: Corte explicativo da proposta .51 Figura 28: Fotomontagem ilustrativa da proposta projectual .52 jardim do vazio Anexo 1: Guião para a entrevista sobre a performance 2,431km .62 Anexo 2: Guião para a entrevista sobre a sobre a instalação .63 “Secret garden” Anexo 3: Livro de projecto ÍNDICE DEANEXOS
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos VIII RESUMO O projecto e o planeamento do espaço urbano, de um modo geral, voltam-se para um ideal de ocupação, visando a optimização dos espaços, dos recursos e das estruturas da cidade. Este objectivo nem sempre é materializado, havendo áreas de expansão lenta em oposição a locais de ocupação saturada e contínua. A desconexão entre o projecto, o planeamento e a realidade urbana, provoca a formação de espaços residuais e áreas vagas, os vazios urbanos. Estes espaços são considerados como excedentes da urbanização, caracterizados pela perda de identidade enquanto parte da vida da cidade. Torna-se fundamental entendê-los no âmbito de uma análise que possibilite o estabelecimento de estratégias de intervenção, indicando normas que contribuam para a revitalização e requalificação destes espaços. O objectivo desta pesquisa, consiste na análise das interferências dos vazios urbanos sobre a população e a cidade, em termos paisagísticos, da percepção e da memória. Deste modo, a partir dos procedimentos metodológicos que confrontam os fundamentos teóricos (paisagem, paisagem urbana, percepção e apropriação da paisagem, espaço e tempo, vazios urbanos, processos de revitalização e requalificação) com a aplicação de levantamentos de campo, mapeamentos e actividades performativas, são abordados os efeitos dos vazios urbanos sobre a percepção e a memória da população que frequenta estas áreas, onde a presença destes elementos causa descontinuidades paisagísticas. Neste contexto serviu a área central da cidade de Aveiro, Bairro da Beira-Mar, como caso de estudo, onde foi feita uma análise dos vazios existentes. Pelos resultados obtidos, conclui-se que a diferentes tratamentos espaciais, relativos aos vazios urbanos, correspondem diferentes reacções nos usuários, seja em relação à qualidade da paisagem e dos seus elementos naturais ou construídos, seja com referência à sensação de segurança transmitida.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos IX Desta análise percebe-se a preferência da população por áreas abertas, amplas, lúdicas, bem como a possibilidade de recuperar a permanência /importância do sal naquele lugar. Assim, com base no estudo de opinião da população, foram elaboradas três propostas projectuais para estes espaços, com a expectativa de poder vir a garantir um devir mais próximo do cidadão e, dessa forma, o seu melhor aproveitamento para a cidade e a sociedade. Palavras-chave: vazios urbanos, processos de revitalização e requalificação, paisagem, população, percepção e memória.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 15 Está associada a uma visão de percepção humana, sob uma óptica social, que representa um ambiente, parcial ou totalmente (TURNER, 1983). A interpretação e a leitura de uma paisagem acontece dentro de uma escala e segundo um observador, por isso pode ser considerada uma estrutura finita, com um limite físico, dentro de um campo visual ou de análise. Para o observador, uma paisagem sucederá sempre a outra (TURNER, 1983). Por conseguinte, nesta investigação, a paisagem será considerada como resultado de uma acção humana do espaço, enquanto construção histórica, carregada de significados, memória, revelando múltiplas impressões passadas. 2.1.1 Paisagem urbana Segundo FORMAN & GODRON (1986) as paisagens podem ser submetidas a inúmeras classificações, podem ser naturais, cultivadas, sub-urbanas e urbanas. A paisagem urbana é interpretada como o resultado visual de um conjunto de formas e volumes geometrizados, possuindo maior proporção de áreas impermeáveis (CULLEN, 2008). Compreende-se, assim, que paisagem urbana é o “suporte físico ambiental do complexo sistema de organização social, onde se relacionam tanto valores materiais como imateriais decorrentes do processo de acumulação e transmissão cultural” (SARAIVA, 2005, pág. 153). O termo urbano não diz respeito apenas à configuração espacial da cidade, mas também ao sistema de relações ambientais, sociais e comportamentais que nela se processam. A paisagem urbana envolve formas espaciais e práticas culturais, podendo ser considerada como um meio dinâmico que exerce influência sobre a história e é moldada pela acção humana.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 16 Assim, a paisagem urbana é entendida como uma importante componente da qualidade de vida dos cidadãos, sendo uma acumulação do seu trabalho, incluindo valores e símbolos que se imaterialização sobre o espaço. 2.1.2 Percepção e apropriação da paisagem A percepção processa-se quando o organismo reconhece objectos e as alterações que ocorrem à sua volta. Por meio da percepção o cidadão apropriase de elementos que acabam por se tornar referenciais que marcam a história do lugar e da cidade. Esta é entendida como a acção mental de permuta do indivíduo com a paisagem, envolvendo mecanismos sensoriais e cognitivos (MAGALHÃES, 2001). Nos mecanismos sensitivos, as sensações são estimuladas pelo ambiente externo. Contudo, as pessoas não recebem estas sensações de um modo passivo, pois existem motivações, interesses, conhecimento prévios, memórias e valores, ou seja, filtros culturais e individuais que fazem parte dos mecanismos cognitivos. A percepção, embora sendo subjectiva, possui recorrências comuns. Desta maneira, pode-se utilizar mecanismos de percepção ambiental que, integrados numa análise mais abrangente sobre determinada realidade, contribuam para dirigir acções de gestão urbana. A percepção da paisagem dá-se através de um processo que envolve o espaço visual, estimulação sensitiva, análise e interpretação, resultando numa avaliação e ocasionalmente em intervenções na paisagem. A observação da paisagem permite a leitura e interpretação de uma situação específica, desvendando a história do lugar, na sua dimensão visível. De modo a entender a paisagem de uma forma mais completa pode-se realizar o reconhecimento dos elementos que a compõem numa abordagem sistémica. Nesta abordagem todos os elementos interagem numa rede de relações divididas em componentes ambientais e estéticas. As componentes ambientais são estruturadas segundo os sistemas naturais e culturais, formando o ecossistema relacionado com a cidade e o lugar.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 17 As componentes estéticas estruturam-se em elementos visuais (linha, cor, forma e textura) e em questões de composição da paisagem (contraste, unidade e variedade) (MAGALHÃES, 2001). Agregado a estes conceitos importa referir o trabalho de LYNCH (1999), que sistematiza e torna científica a interpretação dos elementos da imagem da cidade (vias, limites, bairros), o que a princípio, era empírico e subjectivo. Vários são os elementos que envolvem a percepção da paisagem urbana. Assim, autores como SARAIVA (2005) estabelecem distinções entre percepções ambientais visuais e informativas. A percepção ambiental visual trata da imagem urbana, por meio de elementos tais como cores, formas, volumes, limites, sendo facilmente identificáveis. A percepção ambiental informativa é mais subjectiva uma vez que carrega signos e é processada por uma consciência reflexiva. Sintetizando, a percepção e apropriação da paisagem, ocupam-se do levantamento, observação, associação e interpretação de marcas, sinais impressos no quotidiano dos lugares. 2.2 O espaço e as suas múltiplas dimensões O espaço é um aspecto estrutural da cidade e a sua formação constitui uma construção permanente, realizada por meio de sucessivas apreensões de lugares (KOHLSDORF, 1996) Considerando-se que SARAIVA (2005) afirma que a cidade é formada pelo “pluriespaço”, e dentro dela criam-se diversos espaços, pode-se dizer, então, que o espaço é a base da vida urbana não sendo considerado como um objecto único determinado, mas como uma construção social. Deste modo, diversos fundamentos são levantados e discutidos nos mais variados campos do conhecimento, possuindo várias abordagens teóricas e assumindo diversas classificações.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 18 Para LEFEBVRE (1991), pode-se pensar o espaço em três concepções: como um espaço físico ou percebido, (composto pelos elementos concretos presentes na cidade); como um espaço mental ou concebido (fruto da percepção e de imagens mentais do primeiro) e um espaço social ou vivido (formado por representações e signos que englobam os dois anteriores, baseando-se em acções do indivíduo sobre o espaço). Para esta pesquisa, irá considerar-se sobretudo o espaço vivido, pois as pessoas absorvem as transformações sócio-espaciais, contribuindo para a alteração do ambiente físico, a partir de mudanças no espaço mental. Segundo CÔRREA (1989), o espaço urbano, enquanto local de vivência, é ao mesmo tempo fragmentado e articulado, pois apesar dos diferentes usos que caracterizam a sua fragmentação, cada uma das partes mantém relações espaciais com as demais. Complementando este conceito pode-se afirmar que o espaço urbano é a expressão espacial dos processos sociais, ou seja, é o reflexo da sociedade, tanto das acções que se realizam no presente como daquelas realizadas no passado e que deixaram os seus rastos as suas marcas, assumindo, assim, uma dimensão simbólica e de forte relação temporal. São muitas as abordagens a respeito de temas que envolvem a questão espacial, contudo, actualmente, vários autores concordam que uma das definições mais abrangentes é a de SANTOS (1997), onde o espaço é composto pela relação entre o sistema de objectos, ou seja, elementos a que se atribuem características, chamados fixos, e o sistema de acções, chamados fluxos, considerando-se que estes constituem as acções e informações humanas. Os elementos são apreendidos pelo homem através de filtros biológicos e culturais. Segundo SANTOS (1997, pág.60) “o espaço não é, portanto, algo puro ou absoluto, mas sim construído”. Este propõe ainda outros dois termos espaciais: lugar e território. Assim conjuga espaço, lugar e território para o aprofundamento da discussão sobre fenómenos que envolvam o espaço.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 19 O termo lugar constitui uma porção do espaço que ganhou significado pelos valores que reflectem a cultura de uma pessoa ou grupo (SANTOS, 1997). Todavia, o espaço só ganha significado pelo uso, ou seja, a construção dos lugares faz-se no aprender e reconhecer determinados espaços, na medida em que o lugar é o espaço da vida. Esta referência ao lugar possibilita a recuperação de raízes e valores colectivos (SARAIVA, 2005). Segundo SARAIVA (2005, pág.183) “ (…) o plano do lugar pode ser entendido como a base da reprodução da vida e espaço da constituição da identidade criada na relação entre os usos, pois é através do uso que o cidadão se relaciona com o lugar e com o outro, criando uma relação de alternância, tecendo uma rede de relações que sustentam a vida conferindo-lhe sentido”. Assim, tal como o lugar, também o território é uma porção de espaço identitário. Contudo, neste caso, existe uma medida cultural imposta ao espaço, ou seja, no território existe um sistema de valores (forma de domínio ou gestão) que determina a dinâmica dos objectos e acções. A partir dos conceitos de espaço, lugar e território, SANTOS (1997) afirma que a análise dos termos não deve ser eliminatória, mas que as diferenças são vividas simultaneamente. 2.2.1 Espaço e tempo O tempo afecta a maneira como se vivencia a experiência do espaço. Assim, a noção de espaço é inseparável do sistema de tempo. Hoje, as relações alteram-se, a sociedade enfrenta a compressão do tempo e do espaço em praticamente todos os domínios da actividade humana. Assim surgem termos como espaço de fluxos e espaço amnésico. Segundo CASTELLS (2006, pág. 501) as mudanças nas relações das pessoas com os objectos dão um novo sentido aos espaços urbanos, surgindo um novo conceito, o “espaço de fluxos”, caracterizando-o como a “(…) a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos”.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 20 Segundo este autor o espaço dos lugares tem sido substituído pelo espaço de fluxos. A sociedade está constituída em torno de fluxos, de informação, de tecnologia, símbolos, imagens e sons. Constata-se, então, que os fluxos de informação (as novas formas que os pessoas utilizam para comunicar e socializar) alteram os espaços/cidade uma vez que permitem utilizar os mesmos espaços para comunicar e socializar. Dando continuidade à anterior linha de pensamento, CARLOS (2004) revela a construção de um “espaço amnésico”, onde o tempo é cada vez mais efémero, marcado pela momentaniedade, numa nova relação espaço-tempo. Ou seja, um enfraquecimento da memória gravada no espaço pela perda dos referenciais urbanos, onde as mudanças muito rápidas se revelam na morfologia das cidades. Desta maneira, os atributos de espaço e tempo são elementos essenciais das experiências humanas, desde as mais comuns às mais elaboradas. Segundo diversos autores, o tempo regista nas cidades marcas, resultado de vários tempos solidificados em lugares, monumentos e construções, assumindo um carácter cumulativo. Segundo CASTELLS (2006) o espaço é a expressão da sociedade e, portanto, está em constante alteração, reflectindo-se em novas formas e processos espaciais. O espaço é um produto material, no qual as pessoas se envolvem em relações sociais. Constata-se assim, a não separação do tempo, espaço e acção social, sintetizando-se que o “ espaço é o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado” (CASTELLS, 2006, pág. 500). O tempo e o espaço sempre moveram a humanidade. Foi o que aconteceu aquando do surgimento dos caminhos-de-ferro, do automóvel, do telefone do rádio, da televisão, que ao comporem redes técnicas de circulação e comunicação possibilitaram conexões territoriais, dissolvendo os obstáculos físicos para a circulação de bens, de pessoas, de opiniões, entre outras. Contudo, nunca uma inovação cumpriu tanto o espaço e o tempo com o fim de revelar o processo de integração, como as novas tecnologias de informação.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 21 Cada vez mais o indivíduo é dominado pelas várias temporalidades que tem de vivenciar. As relações do homem com o tempo e espaço alteram-se. As novas tecnologias da informação possibilitaram ligar as várias esferas da vida, especialmente o trabalho e o lazer. Estes espaços e tempos, antes tão delimitados, hoje, muitas vezes, não se sabe quando começa um e termina o outro. Esta mudança na organização do tempo e do espaço de trabalho, leva a uma reconfiguração do seu sentido no modelo do industrialismo. Antes da massificação das novas tecnologias de informação, o trabalho era realizado num determinado espaço, num tempo destinado às actividades de produção. O lazer e as lides domésticas eram vivenciadas noutros espaços e momentos. Pode-se dizer que a revolução industrial forçou a separação entre a casa e o local de trabalho e, hoje, a revolução digital está a uni-los novamente. 2.3 Vazios urbanos - espaços que se esvaziam O tema vazio urbano pode ser interpretado sob diversos modos, possuindo, ao mesmo tempo, conotações positivas e negativas, dependendo, sobretudo, da abordagem e da situação temporal e regional em que o conceito é elaborado. Diversas são também as expressões utilizadas para a definição do mesmo objecto, as áreas vagas ou vazios urbanos, expressões estas que influenciam fortemente a visão que se tem dos espaços estudados. Há definições abrangentes, que englobam vários tipos de espaço nas cidades, como a adoptada por CLAWSON (1992), que utiliza a expressão espacio aberto para definir toda a área geográfica, seja uma porção de terra ou de água, que se situe dentro de uma concentração urbana ou próximo dela e que não esteja coberta por edifícios ou qualquer outra estrutura permanente. Desta maneira, neste conceito podem ser incluídos locais como lagos, bem como áreas de construção temporárias, que, apesar de serem desocupadas fisicamente, possuem utilizações para a cidade.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 22 Sob a mesma óptica LABASSE (1971) identifica estes espaços através da expressão francesa friches urbaines as áreas livres e abandonadas na cidade e na sua periferia, que não foram cultivadas ou construídas, e onde podem haver ruínas de edifícios ou instalações efémeras. RUFINO (2005) afirma que os vazios urbanos são elementos que, juntamente com outros, colaboram com a degradação das áreas centrais dos grandes centros urbanos. Os conceitos anteriores podem dar margem a interpretações negativas, uma vez que remetem à ausência de algo em oposição à presença de construções, o que nem sempre é um facto urbano importante. Por outro lado, há autores que não entendem o vazio urbano como algo problemático para a cidade. CLICHEVSKY (1998) afirma que os vazios urbanos são áreas resultantes de dinâmicas da cidade, como o funcionamento do mercado imobiliário e que possuem propriedades capazes de influenciar significativamente a forma e direcção do crescimento urbano. MORALES (1995), quando foca o fenómeno dos vazios refere-os como: “…uma área sem limites claros, sem uso actual, vaga, de difícil compreensão na percepção colectiva dos cidadãos, constituindo normalmente um rompimento no tecido urbano. Mas é também uma área disponível, cheia de expectativas, de forte memória urbana, com potencial original: o espaço do possível, do futuro” (MORALES, 1995, pág. 120) Da mesma maneira, FIALOVÀ (1996) utiliza o termo francês terrain vague para designar áreas vagas sem limites bem definidos e que, pela sua presença e pela sua história, possuem um papel relevante na memória da população, tornando-se até mesmo importantes referenciais urbanos. A autora cita casos, como o de cidades europeias de pós-guerra, em que esses vazios são vistos como possibilidades futuras, ou seja áreas de reserva fundiária que trazem a renovação urbana. KOOLHAAS (2001, pág.29), identifica os vazios urbanos como “o grande potencial metropolitano da Europa” sobre os quais pode recair a intervenção do planeamento actual, uma vez que “são mais fáceis de controlar do que o edificado” já existente.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 23 Portanto, é possível considerar os vazios urbanos tanto como locais remanescentes do crescimento da cidade como áreas com potencialidade de mudanças, com importante papel na futura organização espacial urbana. 2.3.1 Classificação dos vazios urbanos Tendo como base os conceitos anteriormente abordados, identificaremos as diferentes tipologias de vazios urbanos. Os vazios físicos compreendem os terrenos onde não existem edificações ou equipamentos urbanos, como ruas, calçadas entre outras. São terrenos públicos ou particulares que não apresentam vestígios de ocupação anterior, tão pouco indícios de utilização num futuro próximo. Já os vazios remanescentes são as áreas também sem ocupação física, mas que permanecem vazios devido a implantação de estruturas urbanas, como vias e caminhos de ferro, ou devido a restrições da legislação urbanística para a sua ocupação plena, o que desmotiva os prioritários a investir no local, não apresentando também vestígios de ocupação anterior. Os vazios de uso são espaços edificados, porém sem uso ou ocupação populacional. São formados por edifícios abandonados, fechados e inacabados, que anteriormente possuíam utilização, mas que actualmente se encontram vagos. Por fim, os vazios de significado são locais que possuíam representatividade urbana, mas que perderam esta característica devido ao seu abandono, correspondendo a áreas remanescentes de antigas estruturas e a edifícios em ruínas. Considera-se também importante destacar os vazios simbólicos, que englobam edificações que já representaram importantes marcos para a cidade, mas que actualmente se encontram abandonadas, enquadrando-se, portanto, tanto em vazios de uso como de significado.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 24 Pela análise dos conceitos anteriormente apresentados, percebe-se que o vazio urbano é passível de compreensão sob duas perspectivas distintas: como preexistência ou como pós existência urbana. Pós existência urbana no sentido em que é derivado, muitas vezes, de actividades que já não existem, especialmente no caso dos vazios de uso e de significado. De preexistência urbana quando precede à presença de algo no local, como no caso dos vazios físicos e remanescentes, constituindo locais de potencial uso futuro. Independentemente da visão que se adopte em relação aos vazios urbanos, é um facto que estes locais exercem influência sobre a cidade e são simultaneamente por ela influenciados. Muitas vezes, não é possível afirmar a causa exacta da existência de uma área vaga, pois muitas delas não surgem, mas são configuradas pela forma de ocupação da sua envolvente. Da mesma maneira, os efeitos destas áreas podem ser apenas estimados, e não mensurados com exactidão, pois são influenciados pela cidade como um todo. Assim pode-se ressaltar algumas das causas e consequências (positivas e negativas) dos vazios urbanos sobre a cidade. As causas surgem geralmente associadas a situações de impedimentos físicos, ambientais ou legislativos restritivos à ocupação, a dinâmicas urbanas determinantes do esvaziamento populacional, barreiras culturais e apropriação de área pela população, desarticulação urbana ou falta de planeamento, especulação imobiliária, entre outras. Como efeito destas situações surgem consequências negativas (a degradação da paisagem, a percepção de abandono do local pelos seus proprietários) e positivas (melhoria do conforto ambiental no caso de existência de vegetação, amenização e variabilidade da paisagem, no caso da existência de áreas verdes). Analisando os possíveis agentes e alguns efeitos dos vazios nas cidades e na sua população, pode-se afirmar que estes espaços, além de representarem desconexões entre a cidade planeada e a concretizada causam reflexos tanto na percepção dos usuários quanto no desenho urbano.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 31 Assim, procura-se, pelos elementos analisados no referencial teórico, contribuir para o alcance dos objectivos propostos pelo trabalho, bem como fornecer fundamentos que permitam a adequada interpretação dos elementos de percepção deste estudo. 3.2.2 Levantamento de campo A escolha da área de estudo foi baseada, na evolução da ocupação urbana da cidade de Aveiro. Esta porção central do território, embora englobe diferentes tipos de paisagem, possui um histórico de ocupação consolidada, pois as suas primeiras edificações datam da fundação do município. Embora tenha sofrido diversas transformações, tanto de uso como de ocupação do solo ao longo dos anos, a região ainda conserva, mesmo que discretamente, traços da sua primeira ocupação, nem sempre adequadamente preservados. A paisagem na área de estudo, varia conforme mudam os parâmetros de uso e ocupação do solo, os quais podem ser considerados representativos de toda a cidade, por englobarem diversas particularidades urbanas. Embora o conjunto da ocupação da região seja antigo e consolidado, ainda existem alguns vazios urbanos representativos. Esta investigação tem como objectivo avaliar a qualidade da paisagem das áreas vagas, ao nível da percepção da sua população. Para tal, recorreu-se às derivas situacionistas, a métodos de guerrilha, à performance e a apropriações experimentais dos espaços. 3.3 Mapeamento do vazio Com o mapeamento do vazio, pretende-se apresentar algumas reflexões e estudos acerca da experiência humana na cidade e do papel da comunicação na constituição desta experiência. As propostas de mapeamento afastam-se da concepção de comunicação como mera circulação ou exposição de conteúdos.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 32 Considera-se aqui a comunicação como um processo de troca simbólica que pressupõe uma interlocução, que se concretiza através de mapas, sons, escrita, gestos e imagens. O ponto de partida foi pensar o que seriam as características da experiência humana no espaço urbano e, a partir delas, elaborar diferentes tipos de intervenções. 3.3.1 Representação e experimentação do espaço As reflexões feitas sobre a experimentação e representação do espaço recaíram sobre as ideias do Internacional Situacionista (1957-1972), movimento de intelectuais e artistas europeus que se constituiu em torno de uma critica radical ao urbanismo e à cidade contemporânea, transformada em espectáculo e à passividade dos cidadãos reduzidos à condição de espectadores. Os situacionistas faziam a reivindicação da transformação do quotidiano urbano através da participação e intervenção dos seus habitantes (ANDREOTTI & COSTA, 1996a) O interesse pela abordagem situacionista da cidade e as questões levantadas por eles, levou-nos a ver na psicogeografia e nas derivas uma forma interessante de explorar o quotidiano da área de intervenção e construir um conhecimento crítico sobre os usos dos vazios urbanos. O apoio na metodologia das derivas situacionistas foi uma estratégia de abordagem da cidade, que permitiu perceber a diversidade dos usos do tempo e do espaço, as mutações contínuas, as disputas, os jogos de significações que se misturam, se sobrepõem continuamente no espaço urbano. (ANDREOTTI & COSTA, 1996b). Significou, sobretudo, reler a cidade a partir de um posicionamento crítico que possibilitou “estranhar” as formas e os usos normalizados e ver para além destes, as múltiplas possibilidades de apropriação e criação de novos usos e convivências. Este estranhamento permitiu uma imersão no quotidiano e, ao mesmo tempo, possibilitou uma atitude de distanciamento para que o olhar não capturasse, por natural, aquilo que é banal e que visse o que está imperceptível no espaço.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 33 Assim, tendo como base a construção de mapas pelos situacionistas, a partir das derivas, que se constituíam em narrativas da experimentação do espaço, traçou-se como objectivo a construção de mapas de percepção dos lugares. Estes mapas têm como finalidade representar as múltiplas possibilidades de apropriação do espaço, elaboradas a partir das experiências subjectivas daqueles que caminham pela cidade. Estas operações de produção de sentido aconteceram na cidade a partir das interacções comunicativas que as pessoas promovem entre si e com os objectos e edificações urbanas. Ao agir sobre o espaço os participantes estabelecem uma relação de significação, que resulta na produção de sentidos sobre o mesmo. Na rua esta relação é vivida colectivamente. A produção de sentido não constrói uma imagem única que representa o lugar ou a cidade. A experiência da cidade é vivida pelos indivíduos, mas o seu sentido colectivo ultrapassa a dimensão individual. “A cidade excede a representação que cada pessoa faz dela.Tanto a presenteia como se retrai, segundo a maneira como é apreendida” (Jeudy, 2005, pág.81). Nas interacções pelas ruas, os significados produzidos pelos diversos sujeitos são colocados em jogo, misturam-se e circulam num determinado lugar, por isso não se produz uma representação única da cidade. Ao agir sobre o espaço, compartilhando ou disputando com os outros, os sujeitos entram no jogo social, posicionam-se. A cidade é sentida, vista falada, posta em circulação nestas acções. O mapeamento da área em estudo, construiu-se com um conhecimento do espaço, que teve como objectivo colocar em relevo as experiências e percepções de um determinado ponto de vista que é o de quem caminha, pára e prossegue pelas ruas da cidade. Este mapeamento consistiu na participação de habitantes e voluntários que percorrem trajectórias pelo espaço urbano. Através destas trajectórias, as pessoas moveram-se pela cidade descobrindo sons, imagens, fragmentos e vegetação.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 34 Nesta intervenção a colaboração deu-se pela experimentação do urbano, funcionando quase como uma performance aberta para o público a protagonizar. Aqui o importante é a mobilidade, o deslocamento, o acaso. Esta experimentação do espaço em colaboração com os percursos feitos pelos participantes gerou um mapa. Para tal durante 1 dia (tendo como ponto de partida o Canal de São Roque e como limite o Bairro da Beira-Mar), vários habitantes e voluntários foram convidados a sair à deriva pela cidade , experimentando e fazendo anotações do seu percurso. As anotações foram feitas em mapas fotocopiados em papel A3 (figura 5), onde os participantes desenharam os seus percursos e fizeram as suas anotações. O objectivo desta prática foi percorrer o espaço urbano com a finalidade de criar uma visualização e algumas anotações dos dados destes percursos (figura 6). Durante o processo de caminhar verificou-se que este não se dá em fluxo contínuo ou seja esta caminhada é irregular e inclui várias paragens. Os sujeitos dividem um espaço repleto de objectos, edifícios e signos. Figura 5: Mapa da cartografia do bairro da Beira-Mar Fonte: Maria João Tavares, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 35 Durante este percurso muitas vezes cruzaram-se com outros, desviaram-se, absorveram diversas sensações, o olhar foi capturado por algo (edifícios, elementos vegetais, barcos moliceiros nos seus trajectos turísticos, animais) o corpo descansou, parou (zonas de sombra e de conforto, jardim do Rossio), foram solicitados por sons (gaivotas, música, tráfego urbano), cheiros (maresia, peixe no mercado), imagens (salinas, vazio, ruína) e texturas (superfícies fragmentadas e descontínuas). Os percursos observados, quase sempre, encerraram esta tensão entre o fluxo quase obrigatório e a paragem, que é dada pelas potencialidades do espaço em que caminham. Desta maneira, os mapas resultantes destas cartografias, desenham percursos que aliam deslocamentos alternados por paragens. Através destes dados foi feita uma compilação destas cartografias num mapa de experimentação do espaço (figura 7). Com base na sobreposição dos diversos mapas, foi possível verificar uma relação directamente proporcional entre a qualidade da paisagem e a sensação de segurança. Assim, ao comparar os diferentes mapas é possível associar a baixa qualidade visual (zonas de vazios) à falta de segurança e por consequência à alteração de percurso. Importa ressaltar, que a segurança representa uma das maiores preocupações da população, facto este confirmado neste estudo pelas várias anotações referentes à segurança ou insegurança dos espaços. Figura 6: Cartografa individual Fonte: Maria João Tavares, 2011 Figura 7: Mapa final de experimentação do espaço (sobreposição de todas as cartografias) Fonte: Maria João Tavares, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 36 Foi ainda possível analisar diferentes pontos que evidenciavam a qualidade de alguns elementos naturais, como a vegetação, a água e os elementos construídos, bem como alguns elementos arquitectónicos que testemunham épocas já vividas pela cidade. Foi surpreendente ver o surgimento de uma nova cidade, descobrir que muitos bairros podem existir dentro de um só bairro. Constatou-se que em pleno centro urbano de avenidas largas de trânsito intenso, encontramos ruas becos e vielas quase sem ruídos automóveis. Através deste estudo (lúdico e criativo) foi possível percepcionar e criar uma narrativa por meio da prática da deriva, das áreas de vazio com maior necessidade de intervenção. Esta intervenção surge com o intuito de “fazer as pessoas pensarem” e redimensionar o quotidiano da cidade. 3.3.2 Encontro da vocação artística do espaço O encontro da vocação artística do espaço surge tendo como ponto de partida uma reflexão sobre a análise espacial feita pelo grupo “ESPACIALISTAS”. Esta análise consiste no mapeamento corporal da paisagem, onde fazem aparecer a vocação artística dos espaços. Através do trabalho dos “ESPACIALISTAS” (figura 8) é possível reconhecer o espaço natural e construído como um ambiente de existência do corpo, que tanto promove quanto está implicado nos processos interactivos geradores de sentido. Figura 8 : Os Espacialistas na mina Fonte: http://www.espacialistas.com/Espacialistas/Diario_do_Espacialista.html, 2010
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 37 O estudo das possibilidades de relações entre corpo e o espaço pode contribuir para o necessário questionamento da actual estetização e espetacularização da cultura, da paisagem urbana, da arte e do corpo, sobretudo ao propor-se como factor de articulação entre políticas culturais e territórios urbanos (ESPACIALISTAS, 2008). Partindo da premissa de que corpo e o espaço se relacionam, mesmo que involuntariamente, através da simples experiência vivencial, o espaço é lido pelo corpo como o conjunto de condições interactivas e o corpo expressa a síntese dessa interacção descrevendo na sua corporalidade, um mapeamento corporal (GIL, 2005). Os exercícios corporais realizados na área de intervenção são um tipo de mapeamento realizado pelo corpo e no corpo, ou seja, é inscrita a memória da do espaço no corpo, o registo da sua experiência, do próprio espaço, que configura o corpo de quem o experimenta. Com estes exercícios surge a pretensão da experiência ficar inscrita, em diversas escalas de temporalidade, no próprio corpo, e dessa forma defini-lo, mesmo que involuntariamente. Tal como os Espacialistas afirmam no seu diário espacial “permanecemos no espaço, sem nos darmos conta das suas reais qualidades e sem nos questionarmos se houve alguém que as pensou antes de nós por causa de nós e da qualidade de vida dos nossos dias” (ESPACIALISTAS, 2008, pág. 1). É neste sentido que se pretende fomentar uma consciência crítica relativa à área em estudo. A redução da acção urbana, ou seja, o empobrecimento da experiência urbana, leva a uma restrição das possibilidades perceptivas do corpo que, então, se configura sob um padrão de corporalidade mais restrito, e os espaços urbanos tornam-se simples cenários (DELEUZE & GUATTARI, 2004).
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 38 Os novos espaços públicos contemporâneos, cada vez mais privatizados ou não apropriados pelos habitantes, levam-nos a repensar as relações entre a arquitectura, a arte e o corpo, entre o corpo urbano e o corpo do cidadão. A paisagem urbana, não só deixa de ser cenário quando é praticada mas, mais do que isso, ela ganha corpo, tornando-se “outro” corpo. Desta relação entre o corpo do cidadão e esse “outro corpo urbano” pretendese que surja uma outra forma de apreensão urbana, e, consequentemente, de reflexão e de intervenção nesta paisagem. Com esta intervenção, pretendeu-se desenvolver “desenhos fotográficos”, (figura 9) substituindo o lápis pela máquina fotográfica e criar exercícios de representação e percepção do espaço, dando ênfase às qualidades ocultas dos espaços naturais e construídos através do próprio corpo. Estes desenhos são pensamentos instantâneos, intuições previstas ou pressentidas, possibilidades de assimilação, comprovação e aprofundamento de conhecimentos anteriores (esquecidos). Surge, assim, uma sequência de desenhos fotográficos, com o intuito de: - consciencializar e recriar, descobrir e captar a percepção daquilo que se (re)vê na paisagem urbana; - alterar um determinado contexto, com o objectivo de fazer aparecer o seu potencial; - dar aparência a novas formas de olhar um espaço em abandono (salinas); - realçar as qualidades ocultas dos espaços naturais e construídos através do próprio corpo.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 39 4. Investigação experimental - Acções sobre os vazios urbanos Neste capítulo pretende-se, numa primeira fase, verificar, por meio da análise perceptual e performativa, os diversos efeitos causados pelo vazio urbano na população e, posteriormente, sugerir medidas projectuais. 4.1 A performance como activador da memória colectiva Numa tentativa de encontrar resquícios de memória, fragmentos de lembranças históricas, gestos dos antepassados ligados à safra do sal, surge a performance 2,431km (extensão do antigo ramal ferroviário do Canal de São Roque). Figura 9: Desenhos fotográficos do vazio Fonte: Maria João Tavares, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 40 Vários moradores do Bairro da Beira-Mar contam histórias sobre a azáfama de outrora ligada ao sal, às manifestações culturais (Festa de São Gonçalinho/Cavacas) (figura 10) à chegada das embarcações/salineiros e o seu transporte e comercialização para todo o país através do caminho-de-ferro. Esta performace surge com o intuito de procurar fragmentos de história, gestos, comportamentos “afogados”, que possam reavivar identidades no tecido da memória colectiva das pessoas da Beira-Mar e reabilitar performances perdidas ao longo da história de ocupação e exploração deste espaço, pois “as performances são feitas de pedaços de comportamento restaurado (…) “ (SCHENER, 2002, pág.35) Observa-se, através de vários relatos, que o “imaginário” ligado ao sal quase desapareceu ou ficou esquecido na história e cultura, quase como um elemento morto. Com esta performance pretende-se “recuperar” estes factos e devolvê-los à comunidade, como elementos de relevância para o fortalecimento e reconstrução da memória colectiva. Figura 10: Festa de São Gonçalinho Fonte: Maria João Tavares, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 47 Assim, o cumprimento do papel dos vazios na cidade não se restringe à edificação de obras em terrenos vagos, mas deve-se considerar, sobretudo, a sua utilização como forma de potencialização das suas características e o bemestar e lazer colectivo. Além de se ter em conta a realidade de cada vazio, é fundamental considerar que estas áreas, se não tratadas, podem entrar num círculo vicioso, transformando-se em diversas tipologias de vazio ao longo do tempo. Estes locais estão abertos a inúmeras possibilidades, jardins (jardin en mouvement (figura 20, 21), parques, praças, salas de estar (figura 22), áreas de lazer, hortas urbanas, definindo a sua utilização plena e, consequentemente, o cumprimento da sua função social. Para tal, surgem algumas medidas projectuais, com base nas pesquisas de campo e na opinião da população local (tendo esta um conhecimento das suas reais necessidades) em relação a possíveis acções para estes espaços. As intervenções projectuais propostas têm como pressuposto inicial não preencher o vazio, mas potencializá-lo, indo ao encontro das vontades dos moradores. Figura 20: Projecto ”Jardin en mouvement” do Arq. Paisagista Gilles Clement Fonte: CLÉMENT, Gilles, Le jardin en mouvement : De la Vallée au Champ, via le parc André Citroën et le jardin planétaire, 2007 Figura 21: Jardim vertical de Patrick Blanc Fonte:http://www.stylepark.com/en /patrick-blanc-verticalgarden/caixa-forum-madrid, 2011 Figura 22: Sala Urbana “Stadtlounge" da Artista Pipilotti Rist e do Arquitecto Carlos Martinez Fonte: VEDIELLA, Alex, Atlas de Arquitectura del Paisaje, Loft, 2008
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 48 Deste modo, pretende-se potenciar a criação de espaços que valorizem a experiência sensorial, a sociabilidade, a contemplação, susceptíveis de ajustar os hábitos e rotinas dos habitantes, garantindo o conforto bioclimático e as demais funções ecológicas indispensáveis à cidade. 4.3.1 Vazios sonoros A proposta projectual “vazios sonoros” prende-se com a realização de intervenções urbanas, com recurso à tecnologia informática de um modo colaborativo e aberto. A colaboração aqui é entendida como participação, ou seja, é um projecto no qual o público faz parte da obra e esta só pode ser observada pela acção dos mesmos. Propõe-se a realização de percursos (com recurso aos mapeamentos elaborados) pelo Bairro da Beira-Mar nos quais se “plantam” sons nos vazios do bairro, integrando as novas tecnologias no ambiente urbano (vazio 1,2,3,4,5,6,7,8,9). Como ponto de partida, adoptou-se como base a metodologia, software e procedimentos dos programas “Tactical Sound Garden” (2006) e “Sonic Babylon”(2009), que consistem numa plataforma open source, para a criação de ambientes sonoros participativos. Pretende-se a implantação de sons georeferenciados, legíveis através do telemóvel, Pda ou Ipod, com recurso a auscultadores, apenas em zonas com wireless. Com recurso a esta tecnologia o observador/participante pode escutar os sons deixados ou “plantados” por outras pessoas, desfrutando de uma nova experiência sensorial do espaço urbano. Com este projecto pretende-se a participação do público na criação de um exercício sonoro, por meio de selecções áudio em que os participantes do projecto podem fazer o “cultivo de jardins” sonoros na cidade.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 49 Tendo como base a ideia do projecto “Tactical sound garden” de jardinagem comunitária, pretende-se a criação de um ambiente participativo onde possam ser exploradas e avaliadas novas práticas espaciais para interacção social num ambiente mediado tecnologicamente (figura23). Para a implementação deste projecto propõe-se a integração dos “vazios sonoros” de Aveiro no projecto Australiano “Sonic babylon”, podendo este tornar-se no primeiro “jardim” sonoro português. A utilização deste programa poderia ser feita num website, onde a população acederia à documentação conceitual e técnica do projecto, bem como ao download do software necessário para as intervenções urbanas. 4.3.2 Jardim flor de sal Flor de Sal é um jardim efémero de sal, que se desenvolverá num vazio urbano (vazio 5), onde anteriormente o sal era armazenado e posteriormente comercializado. O projecto surge com a apropriação de um dos ícones da cidade, o sal, de modo a permitir uma reconquista dos seus usos e costumes, através de uma prática activa e alternativa. Figura 23: Fotomontagem ilustrativa da proposta “vazios sonoros” Fonte: Maria João Tavares, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 50 É importante compreender que esta actividade não é uma simples transfiguração do sal mas, primeiramente tem como objectivo, transformar, distorcer e reorientar, ver como funciona o seu uso activo, colectivo e participativo no espaço público. Inspirado ao nível da modelação e da apropriação lúdica do espaço, no projecto “Buga garden” (figura 24), do arquitecto paisagista Rainer Landschaftsarchitekten e no projecto “Wave field” (figura 25) da Arquitecta e Artista Maya Lin. O objectivo deste projecto é favorecer a experiência do espaço urbano, permitir uma nova apropriação dos espaços vazios e criar novas reacções sociais entre os usuários. Este projecto propõe a reconquista lúdica e activa de um espaço vazio, através da criação de uma ambiência e movimentação do corpo, convidando os participantes a fazerem uma nova experiência do espaço (figura26). O corpo torna-se, não somente interface entre o mundo exterior e o ser, mas também, identidade própria. Ele propõe igualmente novas condições de sociabilização entre a população, a fim de transformar este espaço numa ambiência definida por novas propostas sensoriais. O espaço é, então, temporalizado e singularizado por essas condições, e tem como consequência, a criação de um lugar, que tendo como ponto de partida a memória do local, criará uma nova identidade urbana. Figura 24: projecto “Buga garden”, do arquitecto paisagista Rainer Landschaftsarchitekten Fonte: KRAUEL, Jacobo, The art of landscape, Carles Broto i Comerma, 2006 Figura 25: projecto “Wave field” da Arquitecta e Artista Maya Lin. Fonte: AMIDON, Jane, Paisajes Radicales: Reinventar el espacio exterior, Blume, 2003
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 51 O projecto consiste numa modelação do terreno com recurso ao sal, sobre uma caixa em madeira que funcionará como uma estrutura de fundação. (figura 27) O projecto tem a possibilidade de ser implantado rápida e facilmente, podendo este ser aproveitado como algo itinerante entre os vários vazios da área em estudo. 4.3.3 Jardins do vazio Com o projecto “jardins do vazio” (figura 28) pretende-se fazer uma ocupação de alguns dos espaços urbanos ociosos e degradados (vazios urbanos), para a prática da jardinagem e da agricultura, com o intuito de criar jardins familiares. Estes espaços caracterizam-se por pequenas parcelas de terreno (vazios 3,4,5,6,8,9) alugadas a particulares para a cultura de flores, legumes e frutos em pleno cenário urbano. Existe uma necessidade crescente da população contactar com a natureza e dar utilidade aos espaços verdes (Falcón, 2007). Em contexto de crise, o projecto garante um apoio orçamental às famílias tentando ir ao encontro das carências da população. Figura 27: Corte explicativo da proposta Fonte: Maria João, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 52 Para a implantação do projecto estão previstas as seguintes actividades: 1) articulação, mobilização e selecção de “famílias jardineiras”, critérios para a participação, levantamento das famílias interessadas e realização de trabalhos de sensibilização; 2) Desenvolvimento e organização do processo de jardinagem e cultivo familiar; 3) Melhoria das condições de jardinagem e cultivo com auxílio de um suporte técnico; Após uma apresentação deste projecto na Câmara Municipal de Aveiro, obteve-se receptividade, estando este a ser actualmente implementado, numa fase inicial (levantamento dos proprietários dos terrenos e de famílias interessadas). Figura 28: Fotomontagem ilustrativa da proposta projectual jardim do vazio Fonte: Maria João, 2011
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 53 5. Conclusões Os vazios são espaços inerentes às cidades, coexistindo tanto como préexistências urbanas, no caso das áreas vagas, com potencial para projectos futuros, como pós-existências urbanas, derivadas de actividades que já não estão presentes naquele local. Independentemente dessas situações, a presente investigação demonstra que as áreas vagas constituem locais com potencialidades que podem ser aproveitadas para o benefício da cidade e da sociedade. Pela bibliografia estudada, depreende-se que o tema vazio urbano é actualmente discutido na literatura, no planeamento, no projecto e gestão das cidades, embora sob diversos aspectos. As ideias a respeito destes espaços são divergentes, variando, sobretudo, de acordo com o autor e as suas experiências pessoais, originando diferentes pontos de vista. Por outro lado, os objectos conceituais de contextualização, o estudo da paisagem, da percepção, do espaço e do tempo é de fundamental importância para a localização do tema vazio urbano no âmbito do planeamento, projecto e gestão das cidades, pois a sua presença na malha urbana causa interferências espaciais que se reflectem na paisagem da cidade como um todo. Por sua vez, as ideias transmitidas pela relação dos conceitos abordados com o espaço vazio, expressas pelos temas referentes à revitalização e requalificação, constituem processos que podem contribuir para uma estratégia de intervenção que vise dar um novo significado e utilidade aos vazios urbanos. As interferências das áreas vagas na dinâmica da vida urbana, têm uma repercussão humana na medida em que são percebidas pela população, configurando a imagem que cada habitante tem da sua cidade. Acerca deste aspecto, o trabalho de campo contribui para uma investigação mais ajustada à realidade do espaço da área de estudo, o centro histórico da cidade de Aveiro.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 54 A partir desta análise, pode-se notar a divergência existente entre diferentes tipologias de vazios urbanos, ressaltando-se a significativa avaliação crítica dos cidadãos em relação aos vazios urbanos em geral, destacando-se negativamente as áreas construídas e abandonadas, em oposição a uma maior tolerância aos terrenos sem ocupação física. Tem-se, assim, a confirmação da hipótese inicial deste trabalho, ou seja, a existência dos vazios urbanos causa uma interferência significativa no bem estar emocional e físico dos usuários do espaço urbano, uma vez que estas áreas são resultantes de uma paisagem diferente da idealizada, constituindo descontinuidades visuais, ocupacionais e de uso, que devem ser adequadamente tratadas. Tal confirmação valida novamente a importância da realização da pesquisa de campo, já que se torna fundamental identificar e compreender as sensações e memórias que a presença destas áreas provoca na população. Cabe, porém, destacar que diferentes tipos de vazios provocam reacções diversas nos usuários, tanto em termos de qualidade da paisagem ou dos elementos naturais e construídos, como também em relação à sensação de segurança que estes locais transmitem. Assim, diferentes tipologias de vazios provocam distintos graus de inquietação à população. Pelo levantamento de campo para a localização e percepção das áreas vagas, percebe-se que a maioria dos vazios se encontra em zonas de ocupação urbana antiga, remetendo ao início da formação da cidade de Aveiro. Assim, não se pode atribuir uma padronização ou tendência comum, mas soluções aplicáveis para cada tipologia, com a realização do seu estudo em separado. A abordagem conceitual e a análise prática do tema permitem afirmar que os vazios exercem influências sobre a vida urbana, em especial na área estudada. Tais influências podem ser tanto paisagísticas, uma vez que estes locais são marcados no espaço urbano pelo seu contraste com a envolvente, como perceptuais, pois são evidentes as suas diferentes interpretações pelos usuários da cidade. Desta forma, tem-se como objectivo específico, proposto no início do trabalho, analisar a paisagem dos vazios urbanos em termos paisagísticos, perceptuais e da memória.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 55 Os procedimentos metodológicos utilizados foram compostos por interpretações conceituais, pesquisa de campo, mapeamento do vazio, representação e experimentação do espaço e encontro da vocação artística do espaço, de modo a atingir o objectivo proposto de analisar os vazios urbanos. Num primeiro momento, forneceram-se conceitos para a compreensão do estudo, fundamentando questões para a pesquisa de campo, a qual por sua vez, foi de fundamental relevância para a aproximação entre teoria e prática e para a implementação das medidas projectuais. Nesta fase, foi possível analisar a percepção do usuário da cidade em relação às áreas vagas, bem como as sensações que estes locais provocaram nas pessoas. Para futuras pesquisas mais aprofundadas, serão necessários estudos em relação às entrevistas de campo, nas quais o tamanho do guião da entrevista trouxe dificuldades de resposta do público-alvo. Recomenda-se, assim, a reconsideração da importância de cada questão, de modo a sintetizar ao máximo possível a pesquisa. O enriquecimento do tema também é possível pelo estudo mais detalhado das possibilidades de uso e ocupação das áreas vagas, baseado na legislação existente, visando a complementação desta pesquisa. Por fim, cabe de novo ressaltar a importância dos vazios urbanos para a cidade. Estas áreas são vistas como degradantes para o meio urbano e para a vida em sociedade, porém, constituem locais com grande potencial de aproveitamento, seja por meio de instalações temporárias, jardins, hortas ou zonas lúdicas. Esta interpretação, embora possa parecer utópica, é confirmada pela pesquisa de campo, na qual a população pôde expressar a sua preferência por áreas abertas e com vegetação, em oposição à visão mais crítica em relação às edificações em ruínas ou abandonadas, sendo destacadas sugestões de ocupação e requalificação destes locais e de utilização não necessariamente ocupacional daqueles.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 56 Torna-se assim evidente a consciência dos cidadãos a respeito do tema, o que é significativo para o projecto urbano, uma vez que acções no sentido de modificar a paisagem devem ser precedidas de processos de consciencialização da população em relação à importância das mudanças a serem efectuadas. Assim, o estudo contribui para a estruturação de procedimentos metodológicos que podem ser aplicados para verificação da necessidade de alterações espaciais na cidade, em especial com referência às áreas vagas, constando a percepção e a memória da população sobre estes locais, bem como o seu grau de satisfação em relação à paisagem. Para além dos procedimentos metodológicos, foram também desenvolvidas algumas medidas projectuais a implementar na área em estudo. Cabe ainda destacar que a pesquisa de campo e medidas projectuais não são aplicáveis exclusivamente à área de estudo, podendo ser produzidas e adaptadas a diferentes realidades urbanas, propondo a análise/revitalização e requalificação de áreas vagas nas mais diversas situações. A pesquisa pode ser reproduzida para o estudo de vazios urbanos em outros casos, sendo necessária a sua revisão e adequação à realidade local e aos anseios dos pesquisadores em relação aos seus resultados. O estudo contribuiu para a análise dos “lugares em espera” da zona histórica da cidade Aveiro, servindo como base para a realização de algumas propostas projectuais (vazios sonoros, jardim flor de sal e jardins do vazio) e para trabalhos acerca destas áreas. Importa, também, ressaltar a importância da inclusão das pesquisas de campo e perceptuais (representação e experimentação dos espaços, encontro da vocação artística dos espaços, performance e intervenções de guerrilha) nestes estudos, uma vez que tais procedimentos aproximam a teoria da realidade, fornecendo conclusões indispensáveis para a compreensão da situação urbana e para a fundamentação das acções projectuais sobre o espaço.
Maria João de Abreu Tavares Lugares em espera - Revitalização e requalificação de vazios urbanos 63 Anexo 2