scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Meta-emoção: uma dimensão emocional da parentalidade e da grandeparentalidade

Joana Barreiros,Orlanda Cruz

Full text

Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 338 Ano 5, Vol VIII, nº 1 , pág. 338-369, Jan-Jun 2012. META-EMOÇÃO: UMA DIMENSÃO EMOCIONAL DA PARENTALIDADE E DA GRANDEPARENTALIDADE Joana Barreiros e Orlanda Cruz Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Porto, Portugal RESUMO: Este estudo tem um carater exploratório e debruça-se sobre o conceito de meta-emoção parental (Gottman, Katz & Hooven, 1996, 1997), mais especificamente sobre os estilos emocionais parentais e as reações às emoções negativas dos filhos. Dado o estado incipiente da investigação sobre este conceito em Portugal, pretendeu-se, por um lado, analisar comparativamente avós e pais e, por outro lado, verificar a existência de uma estrutura meta-emocional. Participaram nesta pesquisa 33 pais (16 do sexo feminino e 17 do sexo masculino) e 16 avós (10 do sexo feminino e 6 do sexo masculino). As reacções positivas ou negativas dos adultos às emoções negativas das crianças foram avaliadas através da versão portuguesa do Coping with Children’s Negative Emotions Scale. Os estilos de treino e de desligamento emocionais foram avaliados através da versão portuguesa do Maternal Emotional Styles Questionnaire. Os resultados revelaram que os avós adotaram mais o estilo de treino emocional e revelaram mais reacções positivas às emoções negativas dos netos do que os pais em relação aos filhos. Os adultos do sexo feminino (mães e avós) utilizaram mais o estilo de treino emocional e demonstraram ser mais reativos às emoções negativas das crianças do que os adultos do sexo masculino (pais e avôs). De uma forma geral, as reacções positivas às emoções negativas das crianças apareceram associadas positivamente com o estilo de treino emocional e negativamente com o estilo de desligamento emocional. Estes resultados oferecem algum suporte à existência de uma estrutura meta-emocional nos adultos, havendo porém necessidade de expandir a investigação neste domínio. Palavras-chave: meta-emoção, parentalidade, grandeparentalidade. Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 339 ABSTRACT: This study focuses on the concept of parental meta-emotion (Gottman, Katz & Hooven, 1996, 1997), specifically on the dimensions of parents’ reactions to children’s negative emotions and parents’ emotional styles. Given the lack of research available on this subject in Portugal, this study intends to compare parents and grandparents and to search for evidence of a parental meta-emotional structure. Thirty-three parents (16 mothers and 17 fathers) and 16 grandparents (10 grandmothers and 6 grandfathers) participated in this exploratory study. Parents’ positive and negative reactions to children’s negative emotions were evaluated with the Portuguese version of Coping with Children’s Negative Emotions Scale and parents’ emotioncoaching and emotion-dismissing styles were evaluated with the Maternal Emotional Styles Questionnaire. Grandparents embraced predominantly an emotion-coaching style and reacted more positively to the negative emotions of their grandchildren than the parents regarding their children. The adult females (mothers and grandmothers) were more prone to use an emotion-coaching style and to be more reactive to the negative emotions of the children than adult males (fathers and grandfathers). Parents’ positive reactions to children’s negative emotions are positively associated to emotion-coaching style, and negatively associated to emotion-dismissing style. These results partially support the existence of a meta-emotional structure, although more research is obviously needed. Keywords: meta-emotion, parenting, grandparents Introdução A família é um contexto primário de socialização, onde indivíduos de diferentes gerações interagem e se influenciam mutuamente (Cruz, 2005). Os pais são os principais responsáveis pelo desenvolvimento e bem-estar dos seus filhos, particularmente nos primeiros anos de vida das crianças (Holden, 2001). O conceito de parentalidade pode ser alargado à relação das crianças com os avós. O aumento da esperança de vida tem permitido uma relação e interação intergeracional mais prolongada (António, 2010), o que vem direcionar a atenção para as relações entre avós e netos. A investigação indica que os netos interagem regularmente com os avós, que estas relações são caracterizadas por satisfação mútua e proximidade emocional (Smith & Drew, Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 340 2002) e que o desenvolvimento pró-social das crianças está associado ao relacionamento emocional que têm com os seus avós (Yorgason, PadillaWalker & Jackson, 2011). O conceito de meta-emoção é relativamente recente, tendo surgido a partir da investigação relacionada com a vida emocional das famílias e o desenvolvimento da regulação emocional nas crianças. A meta-emoção inclui um conjunto organizado e estruturado de emoções e cognições sobre as emoções próprias e as emoções dos outros; ao nível da parentalidade, abrange o conhecimento parental sobre as suas emoções e as emoções dos seus filhos e o treino emocional junto destes. Esta estrutura abarca a ideia de uma “filosofia emocional” que inclui as crenças e atitudes dos pais sobre as emoções dos seus filhos (Gottman, Katz & Hooven, 1997). Gottman e colaboradores (1996, 1997) apresentaram um modelo teórico relativo ao papel da meta-emoção parental no desenvolvimento emocional das crianças, no sentido de colmatar uma lacuna na investigação relativa aos sentimentos e às cognições dos pais acerca dos seus afetos e dos afetos dos filhos. Os resultados iniciais permitiram descrever duas filosofias parentais de meta-emoção: filosofia de treino emocional (emotion-coaching philosophy) e filosofia de desligamento emocional (emotion-dismissing philosophy) (Gottman, et al., 1996). Relativamente à filosofia de treino emocional, os autores identificaram cinco componentes a partir das verbalizações dos pais: tomada de consciência das emoções menos intensas, neles próprios e nos seus filhos; as emoções negativas dos filhos como uma oportunidade educativa ou de proximidade; Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 341 validação das emoções dos filhos; os filhos são ajudados a nomear verbalmente as próprias emoções; participação na resolução de problemas, definição de limites e discussão de objetivos e estratégias para lidar com as situações que desencadearam as emoções negativas (Gottman et al., 1996). A filosofia de desligamento emocional foi identificada em pais que, podendo ser sensíveis aos sentimentos dos filhos, adotavam uma abordagem de negação ou ignoravam as suas emoções negativas. Estes pais consideravam a tristeza ou a zanga como sentimentos potencialmente nocivos para os filhos que, como tal, deviam ser mudados rapidamente. No mesmo sentido, os pais desvalorizavam as emoções negativas das crianças e transmitiam-lhes a mensagem que estas emoções deveriam desaparecer, para não se tornaram prejudiciais (Gottman et al., 1996). A investigação recente relacionada com este modelo concetual sugere que uma filosofia de treino emocional promove o desenvolvimento das competências emocionais das crianças, nomeadamente o conhecimento emocional, a expressão emocional e a regulação emocional. Por seu lado, as competências das crianças nestas três áreas encontram-se associadas a um melhor ajustamento psicológico e relacionamento com os pares (Katz, Maliken & Stettler, 2012). O modelo da meta-emoção construído por Gottman e colaboradores (1996, 1997) proporcionou um interesse crescente no estudo da vida emocional das famílias, nomeadamente no que se refere às reações dos pais às emoções negativas dos filhos e aos estilos emocionais parentais. Não existe porém investigação sobre as reações e os estilos emocionais dos avós. Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 342 Uma das questões estudadas prende-se com a existência de uma estrutura emocional consistente e alguns estudos têm apontado nesse sentido. Por exemplo, as crenças de aceitação em relação às emoções negativas dos filhos estavam associadas a menos reações negativas (Wong, McElwain & Halberstadt, 2009), e as reações de minimização face às emoções negativas dos filhos estavam negativamente associadas ao estilo de treino emocional (HakimLarson, Parker, Lee, Goodwin & Voelker, 2006). Os estudos realizados com pais e mães revelam que os pais tendem a apresentar uma estrutura emocional mais consistente do que as mães, na medida em que dimensões emocionais como expressividade familiar, reações às emoções negativas dos filhos e treino emocional apresentam, entre si, associações mais fortes (Baker, Fenning & Crnic, 2011). Por seu lado, as mães apresentaram valores mais elevados do que os pais nestas dimensões emocionais (Baker et al., 2011). O estudo de Wong et al. (2009) aponta no mesmo sentido, revelando que as mães apresentam mais reações positivas, maior expressividade positiva, mais crenças de aceitação em relação às emoções negativas dos filhos, e ainda maior expressividade negativa. As mães também apresentaram mais reações de apoio e de aceitação das emoções negativas dos seus filhos adolescentes do que os pais (Hunter, Katz, Shortt, Davis, Leve, Allen & Sheeber, 2011). A investigação sugere que as dimensões emocionais dos pais estão associadas ao desenvolvimento socio-emocional das crianças, nomeadamente à compreensão emocional (Rivera & Dunsmore, 2011), às relações de vinculação em crianças de idade escolar (Chen, Lin & Li, 2012) e ao comportamento pro- Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 343 social (Knafo & Plomin, 2006). Os estilos meta-emocionais parentais também aparecem associados a problemas de comportamento nas crianças. Por exemplo, o estilo de treino emocional aparece associado negativamente ao jogo agressivo das crianças, principalmente quando estas apresentam afeto negativo pouco intenso, sugerindo que o treino emocional dos pais pode atuar como fator de proteção, diminuindo o envolvimento em atividades lúdicas agressivas (Lagacé-Séguin & d’Entremont, 2006). Por seu lado, mães de crianças com problemas de comportamento revelaram menos conhecimento das próprias emoções e adotaram menos o estilo de treino emocional, enquanto que as crianças manifestavam melhor relacionamento com os pares quando as mães adotavam um estilo de treino emocional (Katz & Windecker-Nelson, 2004). Considerando as reações dos pais às emoções negativas dos filhos, a investigação sugere que, nas mães, as reações de resolução do problema que desencadeou a emoção negativa nas crianças, tendiam a estar associadas com o funcionamento social positivo destas. Por seu lado, as reações de minimização das emoções negativas dos filhos tendiam a estar relacionadas com níveis mais baixos de competência social e com o evitamento para lidar com problemas nas crianças. Relativamente aos pais, as reações de minimização encontravam-se associadas a um funcionamento social dos filhos mais baixo (Eisenberg, Fabes & Murphy, 1996). Foram ainda encontradas relações entre as reações negativas parentais (minimização e punição) e a reatividade e intensidade emocional negativa dos filhos; adicionalmente, as reações parentais de aborrecimento estavam positivamente associadas com a reatividade emocional dos filhos, e Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 344 negativamente com as suas competências sociais (Fabes, Leonard, Kupanoff & Martin, 2001). A literatura até agora revista evidencia a importância dos comportamentos, sentimentos e crenças dos pais (e outros cuidadores) face à vivência emocional da relação com os filhos, para o desenvolvimento ajustado das crianças. A promoção de competências sociais e emocionais, a capacidade de autorregulação e o bem-estar geral das crianças aparece associado a uma filosofia de meta-emoção parental. A partir do modelo da estrutura da meta-emoção desenvolvido por Gottman e colaboradores (1996, 1997), identificaram-se associações entre as reações parentais às emoções negativas dos filhos, os estilos emocionais parentais e outras variáveis como a expressividade emocional e a socialização emocional das crianças. Estas associações apoiam a multidimensionalidade da meta-emoção parental. Como referido anteriormente, a investigação sugere que a relação entre avós e netos se encontra associada a um sentimento de proximidade emocional (Smith & Drew, 2002). Contudo, não foram encontrados estudos sobre os estilos emocionais e as reações dos avós às emoções dos netos. Considerando a variável idade, apenas se verificou que as mães mais velhas revelaram menos reações negativas do que as mais novas (Wong et al. 2009). No presente estudo a meta-emoção é operacionalizada a partir de duas dimensões: as reações (grande)parentais às emoções negativas das crianças e os estilos emocionais (grande)parentais. O primeiro objetivo consiste em analisar comparativamente as reações e os estilos parentais emocionais dos pais e avós. Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 345 Tendo em consideração que não foram encontrados estudos sobre a metaemoção grandeparental, procurou-se explorar as diferenças entre as reações às emoções negativas das crianças e os estilos emocionais dos pais e mães e dos avôs e avós, em relação aos seus filhos/netos. A investigação tem identificado associações entre diferentes dimensões da meta-emoção parental que se mostraram relevantes para o desenvolvimento socio-emocional das crianças (Baker et al., 2011; Fabes et al., 2001). Assim, um segundo objectivo consiste em recolher evidência para a existência de uma estrutura emocional nos pais e mães e nos avôs e avós. Neste sentido espera-se encontrar uma associação positiva entre as reações positivas às emoções negativas das crianças e o estilo de treino emocional e uma associação positiva entre as reações negativas às emoções negativas das crianças e o estilo de desligamento emocional. Método Participantes Participaram neste estudo 49 adultos envolvidos em projetos de educação e formação ao longo da vida, inscritos num Centro Novas Oportunidades, situado no Norte de Portugal. Podemos caracterizar este grupo como uma amostra de conveniência constituída por indivíduos que se disponibilizaram para participar no estudo. Os participantes tinham idades compreendidas entre os 26 e os 64 anos (M=47; DP=10) e filhos ou netos na faixa etária compreendida entre os 3 e os 12 anos de idade. Dos 49 participantes, 33 eram pais (16 do sexo feminino e 17 Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 346 do sexo masculino) e 16 eram avós (10 do sexo feminino e 6 do sexo masculino). Onze participantes estavam empregados e 38 desempregados, à data da recolha de dados. As respostas dos pais e avós incidiram sobre 49 crianças (27 do sexo feminino e 22 do sexo masculino). Instrumentos Questionário de Avaliação das Reações Parentais às Emoções Negativas dos Filhos (RPEN) Este instrumento de avaliação constitui a versão portuguesa da Coping with Children’s Negative Emotions Scale (CCNES, Fabes, Eisenberg & Bernstein, 1990), tendo sido traduzido e adaptado para aplicação na população portuguesa por Alves e Cruz (2011). O RPEN é um instrumento de autopreenchimento por parte dos pais ou outros responsáveis pela criança, que descreve doze situações hipotéticas nas quais as crianças apresentam emoções negativas. Os pais (ou outros cuidadores) são convidados a pontuar, numa escala de 1 (nada provável) a 7 (muito provável), a probabilidade da resposta ou reação aos cenários apresentados, se encaixar numa de seis formas possíveis (Fabes, Poulin, Eisenberg & Madden-Derdish, 2002), a saber: 1. Reações de aborrecimento (refletem o desconforto e perturbação dos próprios pais às emoções negativas do filho). 2. Reações de punição (refletem o grau em que os pais recorrem ao castigo verbal ou físico para controlar as emoções negativas do filho). 3. Reações de minimização (refletem o grau em que os pais desvalorizam a emoção negativa do filho e a resposta ao problema). Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 353 (1.17) Masculino 4.10 (1.13) 4.35 (.93) 4.17 (1.07) Total 4.43 (1.23) 4.65 (1.02) 4.50 (1.16) Reações positivas Feminino 5.93 (.59) 6.27 (.38) 6.06 (.54) Masculino 5.30 (.78) 5.76 (.64) 5.42 (.76) Total 5.61 (.75) 6.08 (.54) 5.76 (.72) Resolução Feminino 6.18 (.45) 6.38 (.34) 5.71 (.42) Masculino 5.59 (.85) 5.85 (.86) 5.66 (.84) Total 5.88 (.74) 6.18 (.62) 5.98 (.71) Encorajamento Feminino 5.53 (.91) 5.98 (.44) 5.71 (.79) Masculino 4.70 (.98) 5.18 (.69) 4.82 (.93) Total 5.10 (1.03) 5.68 (.65) 5.29 (.96) Distração Feminino 6.07 (.79) 6.45 (.71) 6.22 (.77) Masculino 5.62 (.83) 6.24 (.69) 5.78 (.83) Total 5.84 (.83) 6.37 (.69) 6.01 (.82) Desligamento emocional Feminino .07 (.10) .07 (.10) .07 (.10) Masculino .12 (.13) .12 (.17) .11 (.14) Total .10 (.12) .09 (.12) .09 (.12) Treino emocional Feminino 3.89 (.72) 4.61 (.52) 4.17 (.73) Masculino 3.61 (.69) 3.93 (.48) 3.70 (.65) Total 3.75 (.71) 4.36 (.60) 3.95 (.73) Relativamente às reações negativas, verifica-se um efeito significativo da variável sexo dos adultos, apresentando os adultos dos sexo feminino mais respostas negativas do que os adultos do sexo masculino, F(1,3)=4.40, p<.05. Não se encontraram efeitos significativos do parentesco e do sexo dos adultos Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 354 nas reações de aborrecimento, punição e minimização. O efeito de interação não se revelou estatisticamente significativo. Relativamente às reações positivas, os resultados revelaram um efeito significativo da variável sexo, F(1,3)=8.33, p<.05, e do parentesco, F(1,3)=3.40, p=.05. Assim, os adultos dos sexo feminino têm mais reações positivas dos que os adultos do sexo masculino. Por outro lado, os avós (ambos os sexos) mostram mais reações positivas do que o grupo de mães e pais. Não se encontrou efeito de interação entre as variáveis (sexo e parentesco). Especificamente nas reações de distração verificou-se um efeito significativo do parentesco, F(1,3)=4.22, p=.05, sendo que os avós utilizam mais a distração do que os pais nas emoções negativas das crianças. A variável sexo dos adultos apresentou um efeito significativo nas reações de encorajamento, F(1,3)=9.67, p<.01 e nas reações de resolução, F(1,3)=7.65, p=.01. Os adultos do sexo feminino apresentam mais reações de encorajamento dos que os do sexo masculino, verificando-se um efeito idêntico na reações de resolução. Para todas estas reações, não se verificaram efeitos de interação estatisticamente significativos. Relativamente ao treino emocional, os resultados mostraram um efeito significativo da variável sexo dos adultos, F(1,3)=5.67, p<.05 e do parentesco, F(1,3)=6.54, p=.01. Neste sentido, os adultos do sexo feminino adotam mais este estilo do que os adultos do sexo masculino. Relativamente ao parentesco, os avós de ambos os sexos utilizam mais o treino emocional do que os pais. Não foram encontrados efeitos da interação entre as duas variáveis (sexo e parentesco). Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 355 Finalmente, não se encontraram efeitos significativos das variáveis sexo dos adultos e parentesco no desligamento emocional. Embora não tenham sido encontrados efeitos estatisticamente significativos de interação entre as variáveis sexo e parentesco nas variáveis dependentes, é possível verificar que as avós apresentam valores mais altos em todas as reações positivas e no estilo de treino emocional, sendo os pais (sexo masculino) os que apresentam valores mais baixos. No que se refere ao nível de escolaridade, a tabela 4 mostra que os pais e avós com nível de escolaridade básico apresentam mais reações negativas, de aborrecimento e de punição face às emoções negativas das crianças do os que têm frequência do nível secundário. Tabela 4 Comparação entre as dimensões emocionais em função das habilitações dos pais/avós. Básico Secundário Valor de t p M (DP) M (DP) RPEN Reações Negativas 3.99 (1.22) 3.28 (0.96) t(47) = 2.22 .03* Aborrecimento 3.57 (1.40) 2.69 (0.93) t (47) = 2.61 .01* Punição 3.55 (1.47) 2.74 (1.01) t(42.68) = 2.25 .03* Minimização 4.72 (1.13) 4.27 (1.16) t(47) = 1.36 .18 Reações Positivas 5.82 5.70 (0.81) t(47) = .61 .54 Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 356 (0.63) Resolução 5.94 (0.73) 6.01 (0.70) t(47) = .34 .73 Encorajamento 5.45 (0.83) 5.12 (1.07) t(47) = 1.22 .23 Distração 6.07 (0.73) 5.05 (0.91) t(47) = .50 .62 EMOP Deslig. Emocional (Lg10) 0.09 (0.10) 0.09 (0.13) t(47) = - .17 .86 Treino Emocional 4.04 (0.53) 3.85 (0.89) t(37.48) = .90 .38 *p<.05 Análises correlacionais Tendo em vista conhecer a força e direção da relação linear entre as diferentes variáveis, foram realizadas análises de correlação. A tabela 5 revela a existência de correlações positivas e significativas entre a idade dos adultos e as reações positivas, de encorajamento e de distração face às emoções negativas das crianças. Verifica-se também uma associação negativa entre as reações de distração e a idade das crianças. Finalmente, observa-se uma correlação significativa negativa entre as reações negativas, de aborrecimento e de punição dos pais e avós e o seu nível de escolaridade. Tabela 5 Correlações entre as reações e estilos emocionais e as variáveis sociodemográficas. Idade dos pais/avós Idade das crianças Escol. dos pais/avós Reações Negativas .00 .00 -.33* Aborrecimento -.08 .01 -.34* Punição -.05 .01 -.33* Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 357 Minimização .12 -.02 -.23 Reações Positivas .38** -.20 -.14 Resolução .20 -.26 .04 Encorajamento .44** -.00 -.23 Distração .31* -.31* -.13 Deslig. Emocional (Lg10) -.03 .16 -.02 Treino Emocional .45** -.10 -.26 *p<.05; **p<.01 A tabela 6 apresenta as associações entre as reações dos pais e avós e os estilos emocionais parentais e grandeparentais. Analisando as relações entre as reações dos pais e avós face às emoções negativas das crianças, verifica-se que todas as reações negativas se encontram fortemente e positivamente correlacionadas entre si, o mesmo acontecendo com as reações positivas (correlação muito forte entre as diferentes reações positivas. No entanto, as reações positivas também apresentam uma correlação positiva e significativa com as reações negativas, as reações de punição e as reações de minimização, porém de valor bastante mais baixo. Tabela 6 Correlações entre as reações e os estilos emocionais 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1.Reações Negativas 1 2.Aborreci mento .91 ** 1 3.Punição .94 .81 1 Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 358 ** ** 4.Minimiza ção .90 ** .72 ** .75 ** 1 5.Reações Positivas .35 * .24 .33 * .38 ** 1 6.Resolução .30 * .21 .25 .37 ** .86 ** 1 7.Encoraja mento .37 * .29 * .36 * .36 * .88 ** .63 ** 1 8.Distração .22 .11 .23 .26 .86 ** .67 ** .60 ** 1 9.Deslig. Emoc.(Lg1 0) - .23 - .18 - .16 - .30 * - .49 ** - .52 ** - .30 * - .48 ** 1 10.Treino Emocional .27 .17 .32 * .29 .57 ** .39 ** .54 ** .52 ** - .3 4* *p<.05; **p<.01 As reações de encorajamento apresentam uma correlação significativa e positiva com todas as reações dos adultos (positivas e negativas), porém de valor bastante mais alto com as reações positivas, de resolução e de distração. As reações de minimização também revelam uma correlação positiva e significativa com as reações positivas, de resolução e de encorajamento. Relativamente aos estilos emocionais dos pais e avós, é possível observar que o estilo de desligamento emocional se encontra negativamente correlacionado com o estilo de treino emocional. A análise das associações entre as reações e os estilos emocionais dos pais e avós permite verificar que o estilo de desligamento emocional apresenta uma correlação negativa e significativa com todas as reações positivas e também com as reações de minimização. O estilo de treino emocional apresenta uma correlação forte e positiva com todas as reações positivas. Este Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 359 estilo emocional também se encontra significativamente correlacionado com as reações de punição. As reações de encorajamento apresentam uma correlação significativa e positiva com o estilo de treino emocional, apresentando uma correlação significativa negativa com o estilo de desligamento emocional. Discussão O primeiro objectivo deste estudo consistia em analisar comparativamente as reacções e os estilos emocionais parentais e grandeparentais. Os resultados revelaram que os avós (de ambos os sexos) têm mais reações positivas às emoções negativas dos netos e adotam mais o estilo de treino emocional do que os pais (de ambos os sexos) em relação aos filhos. Estes resultados poderão ser explicados pelo tipo de relacionamento que os avós têm com os netos, que lhes permite estar mais atentos e disponíveis para o conhecimento das suas emoções, encarando-as (nomeadamente as negativas) como oportunidades de aproximação e de treino da expressividade emocional de acordo com a filosofia de treino emocional (Gottman et al., 1997). Algumas investigações revelam que os avós que não coabitam com os netos tendem a não assumir os papéis sociais mais associados com a parentalidade, podendo focar-se mais na promoção do desenvolvimento positivo dos netos e menos em práticas disciplinadoras de comportamentos desadequados (Cherlin & Furstenberg, 1986, in Yorgason et al., 2011). Os avós revelaram reações e estilos emocionais que exigem investimento e disponibilidade para as relações afetivas com os netos, o que parece refletir-se positivamente na qualidade destas relações. Note-se que a grandeparentalidade foi observada, pela primeira Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 360 vez neste estudo, através da lente da filosofia de meta-emoção. Contudo, é necessária mais investigação para confirmar estes resultados, nomeadamente em grupos com características diferentes. Os resultados mostraram também os adultos do sexo feminino (mães e avós) como mais reativos às emoções negativas das crianças dos que os adultos do sexo masculino. Este resultado parece ser coerente com os resultados da literatura, que sugere que as mães têm mais reações positivas dos que os pais (Hunter et al., 2011); no entanto, a literatura também refere que os pais apresentam mais reações negativas do que as mães (Eisenberg et al., 1996), o que não se verificou neste estudo, já que as mães apresentaram mais reações negativas do que os pais. Estes dados, algo surpreendentes, podem dever-se ao maior tempo de envolvimento dos adultos do sexo feminino com as crianças, que poderá estar na origem da manifestação de mais reacções, tanto negativas de punição, como positivas. Aliás, alguns estudos revelaram que as mães tanto expressavam mais emoções positivas como mais expressões negativas, do que os pais (Wong et al., 2009), e que, em comparação com estes, apresentavam uma estrutura de socialização emocional menos coerente (Baker et al., 2011). Relativamente aos estilos emocionais, os resultados deste estudo indicam que os adultos do sexo feminino adotam mais a filosofia de treino emocional do que os adultos do sexo masculino, o que vai de encontro a resultados encontrados na literatura (Katz et al., 2012). Apesar de se terem verificado diferenças significativas nas reações parentais e nos estilos emocionais em função do sexo e do parentesco dos adultos (pais e avós), não foram encontrados efeitos de interação significativos. Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 361 No entanto, estas análises reforçaram o facto de os adultos do sexo feminino apresentarem valores mais altos nas reações positivas, nomeadamente nas de encorajamento da expressividade e de resolução do problema, e na adoção do treino emocional com as crianças. Os efeitos do parentesco revelaram que os avós de ambos os sexos têm mais reações positivas do que os pais (também de ambos os sexos), em particular nas reações de distracção. Os avós parecem assim apresentar maior disponibilidade para utilizar estratégias não confrontativas para lidar com as emoções negativas dos netos. Os avós também adotam mais o treino emocional do que os pais, o que sugere, mais uma vez, a maior disponibilidade e tempo para investir na socialização emocional dos netos. Os resultados apontam para valores mais elevados das avós em todas as reações positivas e no treino emocional, embora estes não se tenham revelado estatisticamente significativos. Verificou-se, ainda, que os adultos (pais e avós) com menor nível de escolaridade revelaram mais reações negativas (nomeadamente de aborrecimento e punição) do que os adultos com mais habilitações. Estes resultados encontram algum eco na literatura, que sugere que as mães com menos anos de escolaridade apresentavam mais reações de aborrecimento (Alves & Cruz, 2011) e tinham mais crenças de que as emoções negativas podem ser perigosas para as crianças (Rivera & Dunsmore, 2011). As reações de aborrecimento, refletindo o desconforto e perturbação que os pais têm face às emoções negativas dos filhos, poderão considerar-se relacionadas com crenças de que as emoções das crianças podem tornar-se prejudiciais para as mesmas. Quanto às reações de punição, os adultos menos escolarizados Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 362 recorrem mais a castigos verbais ou físicos quando lidam com as emoções negativas das crianças, o que pode estar relacionado com um contexto familiar com mais factores de stresse, associados a um nível socioeconómico mais desfavorecido (Cruz, 2005). As associações encontradas entre a idade dos adultos e as reações positivas e o estilo de treino emocional, sugerem mais uma vez que os avós (e, possivelmente, os pais mais velhos) apresentam mais conhecimento das suas próprias emoções e das emoções dos seus netos, estando mais disponíveis para os apoiar em contextos de desafio emocional. Os resultados revelaram ainda que os pais e avós tendem a adotar mais estratégias de distração face às situações que desencadeiam emoções negativas em crianças mais novas, o que pode dever-se ao facto de estas crianças serem menos recetivas a estratégias de resolução de problemas ou de encorajamento da expressividade, dado seu nível de desenvolvimento cognitivo. Desta forma, os adultos parecem adotar estratégias menos complexas ou menos confrontativas quando as crianças mais novas expressam emoções negativas. Atendendo agora às relações entre as reações parentais às emoções negativas das crianças e os estilos emocionais parentais, os resultados revelaram-se algo inesperados. Por um lado, foi possível encontrar associações positivas fortes entre todas as reações positivas e também entre todas as reações negativas, o que apoia a consistência interna das escalas do RPEN. No entanto, os resultados sugerem que os adultos que apresentavam mais reações positivas também apresentavam mais reações negativas, reações de punição e de minimização. Aqui importa destacar que as reações de encorajamento se Revista AMAzônica, LAPESAM/GMPEPPE/UFAM/CNPq/EDUA – ISSN 1983-3415 369 Smith, P. K. & Drew, L. M. (2002). Grandparenthood. In In M. H. Bornstein (Ed.) Handbook of Parenting Vol.3 Being and Becoming a Parent (pp. 141-172). London: Lawrence Erlbaum Associates. Wong, M. S., McElwain, N. L. & Halberstadt, A. G. (2009). Parent, family, and child characteristics: Associations with motherand father-reported emotion socialization practices. Journal of Family Psychology, 23, 452463. Yorgason, J. B., Padilla-Walker, L. & Jackson, J. (2011). Nonresidential grandparents’ emotional and financial involvement in relation to early adolescent grandchild outcomes. Journal of Research in Adolescence, 21, 552-558. Nota de autor: Joana Barreiros, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto Orlanda Cruz, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade do Porto Correspondência relacionada com este artigo deverá ser endereçada a Orlanda Cruz, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, Rua Alfredo Allen, 4200-135 Porto, Portugal. Correio eletrónico: [email protected] Recebido em 28/3/2012. Aceito em 28/5/2012.