Sentido interno de coerência: relações entre o sentido interno de coerência, bem-estar subjectivo e depressão em idosos
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SENTIDO INTERNO DE COERÊNCIA Relações entre o Sentido Interno de Coerência, Bem-estar subjectivo e Depressão em Idosos Dissertação apresentada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto para obtenção do grau de Mestre em Psicologia, na área de especialização em Psicologia do Idoso sob a orientação do Professor Doutor Félix Neto. Mónica Dias Ferreira Porto, 2007
1 RESUMO O envelhecimento da população é um fenómeno de amplitude mundial. A OMS prevê que em 2025 existirão 1,2 biliões de pessoas com mais de 60 anos. Recentemente, o conceito de Sentido Interno de Coerência foi catapultado para o âmbito da promoção da saúde, inserindo-o nas grandes linhas mestras orientadoras das macro-políticas de promoção de saúde mental do século XXI. A aplicação do modelo salutogénico de Antonovsky à psicologia do envelhecimento aponta para a importância do conceito na saúde mental do idoso. Uma amostra de 99 sujeitos (de uma população original de 104) com idades compreendidas entre os 48 e 85 anos foram inquiridos por questionário. Várias medidas foram obtidas - o Sentido Interno de Coerência; as medidas de avaliação do bem-estar (percepção do estado de saúde; satisfação com a vida e afectividade positiva/negativa), e algumas variáveis sociodemográficas (idade, género, estado civil e classificação social). Dos resultados obtidos destacam-se as seguintes conclusões: O valor médio do Sentido Interno de Coerência é de 130,64, com um desvio padrão de 22,14 e uma amplitude que varia entre os 87 e 177, apresentando um valor inferior à média da escala. Não foram encontradas diferenças nos valores de SIC segundo a idade ao nível das variáveis sociodemográficas, apenas o sexo apresenta valores estatisticamente significativos. Nas medidas de avaliação do bemestar, o Sentido Interno de Coerência encontra-se correlacionado positivamente com a afectividade positiva e com a percepção do estado de saúde, enquanto se encontra correlacionado negativamente com as medidas de depressão e afectividade negativa. A dimensão afectiva do Bem-estar subjectivo revelou-se o melhor preditor dos valores de Sentido Interno de Coerência, explicando cerca 47% da variância, o que confirma o proposto inicialmente para o estudo que aponta para um peso maior das medidas de avaliação do bem-estar, relativamente as variáveis demográficas. Palavras - chave Sentido Interno de Coerência de Antonovsky; Envelhecimento; Satisfação com a Vida; Depressão; Afectividade Positiva e Negativa; Bem-estar Subjectivo; Variáveis sóciodemográficas.
2 ABSTRACT The aging of the population is a world-wide phenomenon. The World Health Organization (WHO) predicts that in 2025 there will be 1.2 billion people over the age of 60. Recently, the concept of Internal Sense of Coherence has been catapulted into the area of the promotion of the health, and has been included in the great orienting master lines of the macro-politics that promote the mental health of the 21st century. The application of Antonovsky´s salutogenic model to ageing psychology aims at the importance of the concept in the aged´s mental health. A sample of 99 subjects (out of an original population of 104) in the 48-85 age range was inquired by questionnaire. Several measures were obtained – The Internal Sense of Coherence; the measures of evaluation of Well-being (perception of health condition; satisfaction with life and positive / negative affection), and some sociodemographic variables (age, gender, marital status and social classification). From the results one can stand out the following conclusions: the average of the SOC is 130.64, with a standard deviation of 22, 14 and an amplitude that varies between 87 and 177, presenting a value which is inferior to the average of according the age regarding the sociodemogrphic variables. Gender is the only variable that presents values that are statistically significant. Concerning the measures of the evaluation of the well-being, the SOC is positively correlated to the positive affection and to the perception of the health condition, but is negatively correlate to the measures of depression and negative affection. The affective dimension of the subjective well-being proved to be the best predictor of the values of SOC, explaining about47% of the variance, which confirms what was initially proposed for the study, that is,a bigger weight of the measures of evaluation of the well-being compared to the sociodemographic variables. Key words Antonovsky´s Internal Sense of the coherence; ageing; satisfaction with the life; depression; negative and positive affectivity, subjective well-being, sociodemographic variables.
3 RÉSUMÉ Le vieillissement de la population est un phénomène d’amplitude mondiale, l’OMS prévoit qu’en 2025, il existera 1.2 billion de personnes avec plus de 60 ans. Récemment, le concept du sens de la concordance a été catapulté vers la promotion de la santé, l’insérant dans les grandes lignes maîtresses orienteuses des macro-politiques de la promotion de la santé mentale du siècle XXI. L’application du modèle salutogénic d’Antonovsky sur la psichologie du vieillissement se dirige vers l’importance du concept de la santé mentale des âgés. 99 citoyens (d’une population originale de 104 citoyens), avec des âges compris entre 48 et 85 ans, avaient été enquis par un questionnaire. Plusieures mesures avaient été obtenues – le sens interne de la concordance; les mesures de l’évaluation du bien-être (perception de l’état de santé; satisfaction avec la vie et l’affectivité positive/négative); et quelques variables démographiques (âge, sexe, état civil et classification sociale). Des résultats obtenus, les conclusions suivantes sont distinguées: le résultat moyen du sens de la concordance est de 130.64, avec une ligne de manœuvre norme de 22.14 et une amplitude qui varie entre 87 et 177, présentant une valeur inférieure à la moyenne de l’éscale. Ils n’avaient pas trouvé de différence de valeurs de SIC selon l’âge au niveau des variables démographiques, seulement le sexe présente des valeurs statistiques significatives. Dans les mesures du bien-être, le sens interne de concordance se trouve co-relacionné négativemment avec l’état de dépression et de l’affectivité négative. La dimension affective du bien-être subjectif a montré être le facteur prédictif des valeurs du SIC, expliquant 47% de variabilité; ce qui confirme le propos du début de l’étude qui se dirige vers un plus grand poids des mesures de l’évaluation du bien-être, en relation aux variables démographiques. Mots clés Sens d’Antonovsky’s de la concordance; vieillissement; satisfaction avec la vie; dépression; affectivité négative et positive; bien-être subjectif; variables sociaux-démographiques
4 Agradecimentos A todos os que contribuíram para a realização desta investigação, nomeadamente: • Ao Prof. Doutor Félix Neto, pelo seu saber e disponibilidade para a orientação desta dissertação. • A Drª Glória e Drª Augusta, pelo seu apoio institucional, no âmbito do Mestrado em Psicologia do Idoso. • A todos os idosos das Universidades Seniors de Espinho e Santa Maria da Feira, que se disponibilizaram para dar os seus testemunhos, contributos essenciais para a concretização dos objectivos deste trabalho. • A todos aqueles que, de uma forma directa ou indirecta, contribuíram, para levar a cabo esta investigação. • Aos avôs Filipe e Manuel; e as avós Delfina e Emília, pelo exemplo de longevidade centenária e de envelhecimento activo. • À minha família, pelo exemplo que me deram de coragem e de luta, que constitui para mim uma referência permanente. • A ti, Hugo, simplesmente por estares aqui SEMPRE.
5 Abreviaturas ESV - Escala de Satisfação com a Vida Ccom - Capacidade de compreensão CGma - Capacidade de gestão CID - Classificação Internacional de Doenças CImea - Capacidade de investimento DSM - Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais GDS - Geriatric Depression Scale INS - Instituto Nacional de Estatística OLQ - Orientation to Life Questionnaire OMS - Organização Mundial de Saúde ONU - Organização das Nações Unidas OPSS - Observatório Português dos Sistemas de saúde PANAS - Positive and Negative Affect Schedule QOV - Questionário de Orientação para Viver SNS - Serviço Nacional de Saúde SIC - Sentido Interno de Coerência SCO - Sense of the coherence SWLS - Satisfaction with life scale SPSS - Statistical Package for the Social Sciences α - Coeficiente Alpha de Cronbach
6 Índice Introdução ......................................................................................................................................................... 10 Capitulo I - O Envelhecimento ........................................................................................................ 14 I.1 - Noções gerais sobre o envelhecimento ............................................................ 15 I.2 - A divisão etária ..................................................................................................................... 18 I.3 - Perspectiva histórica da psicologia do envelhecimento........................ 19 I.4 - Estatísticas demográficas ............................................................................................ 22 Capitulo II - Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador .............. 28 II.1 - O Paradigma Patogénico ........................................................................................... 30 II.2 - Paradigma Salutogénico ............................................................................................. 30 II.3 - Modelo SIC ........................................................................................................................... 37 II.4 - O Sentido interno de coerência e as características sócio-demográficas ......................................................................................................... 44 II.5 - O sentido interno de coerência e o bem-estar subjectivo .................. 47 II.6 - O sentido interno de coerência e a depressão .......................................... 54 II.7 - O Sentido interno de coerência - Encontrando o lugar nas teorias da saúde e no envelhecimento .................................................. 61 Capitulo III - Estudo Empírico ......................................................................................................... 67 III.1 - Objectivos e conceptualização do estudo .................................................... 68 III.2 - Método .................................................................................................................................... 71 III.2.1 - Amostra ................................................................................................................ 71 III.2.2 - Instrumentos e medidas utilizadas .................................................. 73 III.2.3 - Procedimento .................................................................................................. 80 III.2.4 - Análise estatística utilizada ................................................................... 83 III.3 - Apresentação e discussão dos resultados................................................... 84 III.3.1 - Caracterização da amostra ................................................................... 84 III.3.2 - Estatística descritiva de variáveis contínuas ........................... 87 III.3.3 - Análise factorial .............................................................................................. 90 III.3.4 - Estatística Inferencial ................................................................................ 93
7 III.3.5 - Estatística correlacional ........................................................................ 100 III.4 - Conclusões ....................................................................................................................... 104 Referências Bibliográficas .............................................................................................................. 107
CAPÍTULO I > O Envelhecimento >
15> Capítulo I > O Envelhecimento > I.1 - Noções Gerais sobre o envelhecimento A temática do envelhecimento tem vindo a assumir importância devido ao envelhecimento demográfico das populações na Europa e nos países industrializados em geral. O aumento da população idosa não se deve só ao facto de se verificar um aumento da esperança média de vida (uma vez que esta se prolonga na medida em que existe uma diminuição de mortalidade nos primeiros e nos últimos anos da vida), mas, em especial, pelo declínio da fecundidade, que consequentemente provoca uma alteração e inversão da pirâmide das idades: envelhecimento na base e aumento da importância relativa dos mais idosos. Em Portugal tal fenómeno intensificou-se com o movimento migratório, contudo a realidade não deixa de ser muito diferente da existente no resto da Europa. Apesar do envelhecimento ganhar cada vez mais importância, esta é uma temática que remonta desde o início da humanidade e acompanhou desde cedo as preocupações filosóficas de muitos autores. Assim para Aristóteles o envelhecimento remete para uma período de desinteresse e incerteza quanto ao futuro. Para Cícero envelhecer remete para um período em que se parte à descoberta de si próprio. Platão, por sua vez refere que envelhecer corresponde a um período de metamorfose da alma e da emergência da sabedoria. Jean Paul Satre refere que apenas os outros poderão avaliar o nosso envelhecimento. Em muitas civilizações antigas com culturas de ouro, usavam jovens na guerra e nos trabalhos pesados, deixando os idosos para as funções de aconselhamento, sendo estes considerados de sábios e fiéis depositários da tradição. O envelhecimento é um processo cujo resultado é óbvio, mas cujo mecanismo continua desconhecido (Kirkwood, 1988 cit in Paul 1997). O envelhecimento refere-se às mudanças regulares que ocorrem em organismos maturos, geneticamente representativos, vivendo em condições ambientais representativas, à medida que avançam em idade cronológica. De acordo com Birren (1977 cit in Paul, 1997), a senescência é uma função do meio físico e social em que o organismo se desenvolve e envelhece, sendo o envelhecimento contrapartida do desenvolvimento. O envelhecimento pode ser dividido em Primário, Secundário e Terciário (Birren & Cunningham, 1985 cit in Paul 1994). No envelhecimento primário, as pessoas envelheceriam de forma normal, na ausência de doenças. Nesta
16 tipologia o aspecto de funcionamento intelectual mais afectado é a velocidade perceptiva. No envelhecimento secundário, as pessoas envelheceriam fruto da doença e o aspecto de funcionamento intelectual mais afectado seria o raciocínio e a capacidade indutiva. Por último, o envelhecimento terciário refere-se ao envelhecimento resultante de um período longo de tempo em que a pessoa sofre uma deterioração não relacionada com a idade. A compreensão verbal e o processamento da informação seriam as tarefas de funcionamento intelectual mais afectadas. De acordo com Schroots e Birren (1980) o envelhecimento envolve três componentes: a) Envelhecimento biológico - que resulta da vulnerabilidade crescente e de uma maior probabilidade de morrer (senescência); b) Envelhecimento social - relativo aos papéis sociais apropriados às expectativas da sociedade para este nível etário; c) Envelhecimento psicológico - definido pela auto-regulação do indivíduo no campo de forças, pelo tomar decisões e opções que permita aos idosos adaptar-se ao processo de senescência e envelhecimento. Nesta perspectiva, o envelhecimento é produto de um conjunto de determinantes: a base filogenética, num meio social e físico no qual as predisposições genéticas se exprimem. Neste sentido, pode-se referir a existência de uma tipologia tripla de idade, que podem ser maiores ou menores que a idade cronológica (Paul, 1994). A idade biológica é medida pelas capacidades funcionais ou vitais e pelo limite de vida dos sistemas orgânicos, que vão perdendo a sua capacidade de adaptação e de auto-regulação. A idade social, que se refere aos papéis e hábitos que o indivíduo assume na sociedade, e na medida em que mostra os comportamentos esperados pela sua cultura. Por último, a idade psicológica, que diz respeito às capacidades comportamentais do indivíduo em se adaptar ao meio. A idade psicológica é influenciada pelos factores biológicos e sociais, e envolve capacidades como a memória, a aprendizagem, a inteligência, os sentimentos e as emoções, para exercer a auto-regulação. > Capítulo I > O Envelhecimento >
17 Lima e Viegas (1988, cit in Paul, 1997) definem a velhice, em oposição ao envelhecimento enquanto processo biológico, como um conceito referente à forma como cada sociedade conceptualiza esta fase do ciclo de vida, como uma construção social, inscrita numa conjuntura histórica. O processo de herança que assegurava a valorização dos laços de parentesco e asseguravam por meio destes o cuidado e autoridade dos idosos nas sociedades camponesas viu-se grandemente alterada pela estrutura económica e pela introdução das reformas no início do séc. XIX. Surgem nesta altura, um conjunto de instituições, que a par do conceito de terceira idade, reincorporavam idealmente os idosos na sociedade. O isolamento dos idosos passa a ser institucionalizado e a velhice passa a ser encarada como uma espécie de doença social. Nesta ordem de ideias, Prost (1991, cit in Paul 1997), traça uma evolução da estrutura familiar que tinha uma função económica, desempenhando igualmente, um papel importante na educação dos jovens e na assistência aos idosos. Relativamente aos jovens, cabia-lhes a aprendizagem de um ofício dentro da relação parental. Os idosos encontravam, por sua vez, cama e mesa junto de um dos filhos, após a morte de um dos cônjuges. Assim, para além da função económica, a família desempenha uma função educativa e uma função de segurança social. A progressiva introdução do trabalho assalariado retirou progressivamente à família as duas funções descritas anteriormente; assumindo, cada vez mais esta responsabilidade, um carácter público. O modelo médico define o envelhecimento como um processo básico, um fenómeno biológico inevitável e imutável. O envelhecimento normal, à luz do modelo biomédico, inclui uma vertente individualista baseada na relação médicodoente (idoso), sem envolver factores de ordem social e ambiental. Geralmente, os problemas do doente são resolvidos (sob este ponto de vista) por meio de medicamentos e pela institucionalização. Na sequência desta linha de pensamento, a velhice corresponde a uma espécie de doença e a sociedade é encorajada a encará-la como patológica ou anormal. A indesejabilidade da doença é sentida pelos cidadãos em geral, moldando as atitudes destes em relação a si próprios e nas relações entre eles. As expectativas associadas a esta perspectiva resultam em comportamento de > Capítulo I > O Envelhecimento >
18 afastamento, redução da actividade, aumento da dependência e controlo exacerbado dos idosos através da medicina (Paul, 1997). Olhando ainda para uma outra perspectiva – Perspectiva reducionista, a referência à terceira idade, apresenta uma visão de uniformidade dos idosos, como se chegasse a um estádio do ciclo vital onde se esbatem todas as diferenças individuais e passássemos a falar de um grupo homogéneo de indivíduos, caracterizados por uma diminuição de capacidades vitais, de recursos sociais e económicos. Tal visão simplista afasta-se por completo da realidade, na medida em que cada idoso transporta consigo uma longa história de vida, determinada pelo seu património genético e pelo seu património psicossocial. A história e percurso de vida de cada idoso determinam em grande parte os recursos que os idosos têm no estado actual. Contudo é de sublinhar que a nível intra-individual, existe uma indiferenciação de sistemas em que as diversas áreas - psicológica, social e biológica – são de tal forma interdependentes, que uma alteração em qualquer dos sistemas tem implicações directas nos outros. De facto, apesar da saúde e do bem-estar físico apresentarem um grande peso na vida do idoso (por vezes, estereotipado e excessivo) nem todos os idosos culminam a sua vida num intermitente envelhecimento patológico, mas antes num envelhecimento óptimo e activo. I.2 - A divisão etária A vida humana é frequentemente dividida em várias etapas. Esta divisão é arbitrária, uma vez que todos os processos biológicos de modificação são lentos e progressivos – e muitas vezes coexistem uns com os outros, como o processo de envelhecimento e o de desenvolvimento, ambos iniciando-se na concepção, se considerados todos os aspectos bioquímicos já conhecidos. Assim, a divisão da vida humana em períodos de um ciclo reflecte fenómenos ou estados observáveis, mas padece de enorme variabilidade individual. Dada a influência cultural destas divisões, em algumas culturas, a divisão mostrada abaixo não reflecte um dado homogéneo. Na maioria dos países ocidentais, a idade adulta inicia-se entre os 18 e os 21 anos, apresentando as seguintes fases: jovem adulto (entre os 20 e os 40 anos); adulto de meia-idade (entre os 40 e 65 anos), e idoso geralmente aquele com 65 anos ou mais. Para Levinson (1990, cit in Barros, 2005), a > Capítulo I > O Envelhecimento >
19 vida adulta desenvolve-se ao longo de 4 estações: a pré-adultez (preadulthood), a adultez jovem (early adulthood), a adultez média (middle adulthood) e a adultez tardia (late adulthood). Tendo em conta a amplitude de vida registadas nos recenseamentos nos EUA distinguem-se 3 faixas etárias: 1) idosos jovens ou no inglês elderly (entre os 65 e os 74 anos); 2) idosos ou no inglês aged (dos 75 aos 84 anos) e 3) muito idosos ou no inglês very old (a partir dos 85 ou 90 anos). Se tivermos em conta outro tipo de divisões, encontraremos as divisões por décadas. Neste caso a população idosa pode ser dividida em quatro fases: os velhos (60-69 anos); velhos de meia-idade (70 - 79 anos); velhos-velhos (8089 anos) e velhos muito velhos (a partir dos 90 anos) (Barros, 2005). Lidz (1983), por sua vez, aponta para três fases no envelhecimento: 1) o idoso: é onde não existem grandes alterações psicossomáticas; 2) a senescência: já existem modificações significativas orgânicas e psicológicas, deixando o indivíduo de se bastar totalmente a si mesmo; 3) a senilidade: o idoso torna-se quase totalmente dependente. Contudo apesar destas divisões serem totalmente aceites e de serem aplicáveis a todos, a idade cronológica não corresponde à idade funcional, psicológica e biológica; pois não existem marcadores aceitáveis para cada tipo de idade. Tendo em conta que o desenvolvimento prolonga-se ao longo do ciclo vital ou no inglês life span, por um lado, é a perspectiva tridimensional do envelhecimento, por outro lado, faz sentido lembrar, que para além da idade cronológica, devem ser tidos em consideração, os níveis de maturidade física e o estado de saúde – idade biológica; o desenvolvimento cognitivo-emotivo, assim como a capacidade de adaptação, aprendizagem e motivação - a idade psicológica; e, os papéis e status a desempenhar – idade social. Para além destes, alguns autores acrescentam ainda, a idade funcional. I.3 - Perspectiva histórica da psicologia do envelhecimento A psicologia do envelhecimento tem como objecto de estudo as diferenças de comportamento com a idade, bem como as mudanças no comportamento com a idade e os padrões de comportamento exibidos por pessoas de diferentes > Capítulo I > O Envelhecimento >
20 idades, em diferentes períodos de tempo. Neste sentido, podemos referir que a psicogerontologia ou psicologia do envelhecimento é a ciência que procura descrever, explicar (compreender), intervir e modificar o comportamento da pessoa idosa, usando métodos científicos próprios da psicologia, como a observação, análise de casos, os métodos terapêuticos, etc. (Barros, 2005). A psicologia do envelhecimento, lida essencialmente com todo o processo de envelhecimento, que se inicia logo após ao nascimento, mas que toma especial importância na fase de maturescência (idade que precede à velhice) e que não se limita apenas à idade cronológica/biológica (estado do organismo ou saúde), mas também a idade mental (capacidade afectivo-cognitiva) e funcional (capacidade de adaptação física e psíquica ao ambiente através dos meios disponíveis). Em Psicologia, assim como noutras ciências sociais, a velhice ou terceira idade foram muito menos estudadas em comparação com a infância e adolescência. Contudo, os trabalhos desenvolvidos por alguns psicanalistas enquadrados numa perspectiva desenvolvimental faziam referência à pessoa como adulto (como por exemplo: Freud, Jung, Buehler e Erikson). Contudo, a primeira publicação relacionada com a problemática do envelhecimento acontece muito antes, pela mão de Stanley Hall, em 1922. O autor, reflectindo acerca do seu próprio envelhecimento e reforma, refere que os aspectos psicológicos da velhice podem ser tão importantes quanto os aspectos biológicos. Mais tarde, em 1930, Jung editando um artigo alemão, descreve a vida humana como o sol que chega ao seu limite ao longo da primeira metade da vida, declinando depois a partir daí, sendo este um ponto de viragem emocional. Considera ainda que a segunda metade da vida é mais interessante e importante que a primeira. Charlotte Buehler, publica em 1935 o livro “O curso da vida humana como um problema psicológico” e onde descreve a vida como um período de expansão seguido de outro de restrição e declínio. Numa publicação mais tardia, a autora desenvolve a teoria numa perspectiva humanista e refere que a pessoa constrói um projecto de vida, auto-realiza-se e autodetermina-se procurando intencionalmente um sentido para a vida. A partir do século XIX houve um notório desenvolvimento da psicologia do envelhecimento que teve como protagonista a obra de Erik Erikson – “Chidhood > Capítulo I > O Envelhecimento >
21 and Society”, e onde se faz uma descrição minuciosa do desenvolvimento humano desde a primeira infância até à velhice, embora dando mais importância a infância e à juventude. A segunda e a última fase da vida foi sendo estudada com o recurso a investigações longitudinais dado o gradual envelhecimento da população, o que levou muitos autores a especializar-se em psicogerontologia. Tal foi o caso de Birren (1961) que procedeu à publicação de um manual de psicologia do envelhecimento, que mais tarde, devido à insuficiência de elementos, foi completado pelo colaborador Schaie e que se torna obra prima da Psicologia do Envelhecimento, na medida em que desenvolve a história da psicogerontologia das origens greco-romanas aos nossos dias. Dentro da perspectiva defendida por Birren e Schroots (2001), os autores distinguem na psicologia do idoso, a psicologia da idade e a psicologia do envelhecimento. A psicologia da idade estaria ligada ao estudo transversal de grupos etários, funcionando como variável independente. A psicologia do envelhecimento, por sua vez, coloca-se numa perspectiva desenvolvimental tentando analisar e explicar as mudanças, ganhos e perdas ao longo de todo o percurso de vida, sobretudo na velhice, tendo em conta uma dimensão bio-psico-social. Um dos autores mais representativos no estudo da psicologia do envelhecimento é Baltes e seus colaboradores, com a definição de psicologia do desenvolvimento como uma descrição e explicação das mudanças ontogenéticas ligadas à idade, desde o nascimento até à morte. Posteriormente, Baltes, Reese e Lipsitt (1980, cit in Barros, 2005) alargaram o âmbito deste estudo considerando a psicologia do desenvolvimento como “a descrição, explicação e optimização dos processos de desenvolvimento ao longo de toda a vida, da concepção até a morte.” A evolução psicológica é vista como um modelo multicausal e interactivo, que sofreria de três tipos de influência: 1) Influências ontogenéticas normativas ligadas à idade; 2) Influências normativas ligadas à história; 3) Acontecimentos significativos da vida, de natureza não normativa Anos mais tarde, apresentando novamente um modelo multidimensional e mutidireccional, descreve a psicologia do envelhecimento como o estudo da > Capítulo I > O Envelhecimento >
22 constância e da mudança que se manifestam na conduta humana ao longo da ontogénese, da concepção até à morte. Esta mesma psicologia, elabora princípios gerais sobre a natureza do desenvolvimento, as diferenças inter-individuais, as semelhanças entre as pessoas e as condições que regem a plasticidade intraindividual. Na língua portuguesa foram publicados diversos livros acerca da velhice e da psicologia evolutiva. Em Portugal, é na década de 50, que começam a surgir as primeiras preocupações geriátricas com os estudos de José Reis. Apesar do esforço e da sua persistência para impulsionar o interesse por uma nova doutrina médica - a Geriatria - continuou a pensar-se e a agir-se segundo modelos tradicionais de prevenção, de diagnóstico, de tratamento e de prognóstico, e muito poucas vezes de reabilitação. Um dos primeiros artigos a ser publicado foi o de Merval Rosa em 1987 que dedica o último volume à psicologia da idade adulta, os restantes fazem alusão à psicologia da infância e da adolescência. Para a autora, a idade adulta apresenta três etapas: o jovem adulto, a meia-idade e finalmente a velhice. Outros autores como Marchand em 2001 e Fonseca em 2005, também estudaram o desenvolvimento, cognitivo ou personológico ao longo de todo o arco da vida. I.4 - Estatísticas demográficas do Envelhecimento Tal como Barros (2005) refere, falar de envelhecimento e/ou idoso é antes de mais uma questão demográfica. Assim, devido principalmente à queda vertiginosa da mortalidade infantil e ao aumento da longevidade, assistimos durante o século XIX e XX a um aumento contínuo de mil milhões de pessoas por cada década, e que se traduz numa perspectiva futura de sete mil milhões na década de 2010. Contudo, assiste-se a dois movimentos de sentido contrário: enquanto a progressão geométrica da população é devida à alta taxa de natalidade dos países pobres, o aumento dos idosos é devido ao crescente índice de esperança média de vida dos países ricos. Entre 1990 e 2000 não houve grandes mudanças na distribuição das populações, sendo que percentagem da população idosa mundial aumentou ligeiramente neste período, de 9% para quase 10%. Este aumento foi maior nos > Capítulo I > O Envelhecimento >
23 países desenvolvidos (de 17,7% para 19,4%) em que a percentagem da população idosa é quase 3 vezes maior do que nos países em desenvolvimento, que apresentam uma população idosa na casa dos 7,7%, reflectindo assim, melhores condições de vida nos países mais ricos. Note-se, no entanto, que devido ao elevado índice populacional dos países em desenvolvimento, a maioria dos idosos vive hoje nestes países resultando numa redução de dois terços da população, em 2025. De acordo com Bezrukov e Foigt (2005) citando as previsões da ONU e a propósito da longevidade centenária na Europa, estima-se que o número de europeus até 2025, de 100 ou mais anos de idade se incrementará em 15 vezes, podendo chegar a 624.000 idosos. Na Europa prevê-se que existiram 1.117 pessoas de 100 ou mais anos de idade por cada milhão de indivíduos. Foi sobretudo a partir da segunda metade do século XX que emergiu um novo fenómeno nas sociedades desenvolvidas, que traduz o aumento preocupante do número de pessoas idosas denominado Envelhecimento Demográfico. Tal como Nazareth (1994) refere, o Envelhecimento Demográfico despertou o interesse de numerosos investigadores de todas as áreas científicas. O envelhecimento pode ser analisado sob dois pontos de vista: 1) Envelhecimento individual – assenta na maior longevidade dos indivíduos, isto é, no aumento da esperança média de vida. A este conceito está subjacente o conceito de envelhecimento biológico e as alterações a nível psicológico e social das pessoas idosas. 2) Envelhecimento demográfico – define-se pelo aumento da proporção de pessoas idosas na população total. Esse aumento é consequência da diminuição da população jovem e/ou diminuição da população em idade activa. O fenómeno de envelhecimento resulta da transição demográfica, normalmente definida como a passagem de um modelo demográfico de fecundidade e mortalidade elevados, para um modelo em que ambos os fenómenos atingem níveis baixos. Este processo origina o estreitamento da base da pirâmide de idades (com a redução de efectivos populacionais jovens) e o alargamento do topo (com o acréscimo de efectivos populacionais idosos) (INE, 2002). A pirâmide de idades > Capítulo I > O Envelhecimento >
30> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > 1985), stamina (Thomas, 1981 e Colerick, 1985) ou ainda, learned resourcefulness (Rosenbaum, 1988), o optimism (Sheier, 1985), o sense of humor (Lefcourt, 1986), self efficacy and human agency (Bandura, 1977, 1982, 1989), o constructo resiliency (McCubbin, 1994) . Estes constructos têm como factor comum a compreensão da gestão do stress e a manutenção da saúde (Antonovsky, 1987 in Nunes 1999); assumindo um papel importante na promoção na psicologia da saúde, na medicina, nos cuidados de saúde primários, etc. II.1 - O Paradigma Patogénico A predominância do modelo bio-médico estruturado pelo paradigma patogénico acentua o anormal e disfuncional. Assim, a orientação patogénica caminha para a descoberta daquilo que leva ao aparecimento da doença. Esta compreensão permite descobrir formas de combater e prevenir as doenças. No âmago deste paradigma, encontra-se a assunção de que as doenças são causadas por agentes físicos, bioquímicos, microbiológicos, sociais e psicológicos, tendo várias teorias desenvolvido esta noção básica. Actualmente, e de forma mais sofisticada, o paradigma patogénico encontra a sua importância na determinação dos factores de risco e apresenta como base conceptual o conceito de homeostase do organismo. Isto é, o organismo humano mantém-se numa condição estável pela acção de vários mecanismos de regulação complexa. Esta estabilidade pode estar comprometida pela acção de agentes patogénicos que inviabilizam a acção dos mecanismos de regulação. II.2 - Paradigma Salutogénico Completando a compreensão da saúde do paradigma patogénico, o paradigma salutogénico surge através da publicação científica das diferentes áreas do saber, como por exemplo: a medicina, a psicologia, a sociologia, etc. Uma das mais antigas referências a este paradigma surge com Super, em 1955, fazendo a distinção entre higiologia e psicopatologia. Rotter, dando ênfase à aprendizagem social (Rotter, 1954 in Nunes,1999) pode também ser considerado como um dos percursores do pensamento salutogénico, assim como White
31> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > (1959) com o conceito de motivação competente, que mais tarde foi desenvolvido por Deci (1975), numa cooperação intrínseca motivacional enfatizando a competência e a auto-determinação. No entanto, é a Aaron Antonovsky que se deve o desenvolvimento deste novo paradigma, que auxilia a saúde e os acontecimentos stressantes fora do determinismo bio-médico. Quadro 1 Linhas Orientadoras do Modelo Patogénico e do Modelo Salutogénico Linha orientadora Modelo patogénico Modelo salutogénico Auto-regulação do sistema Homeostásis Hetereostasis Definição de saúde e de doença Dicotomia Contínuo Conceito de Saúde Patologia da doença, reducionismo Sentido Interno de Coerência, holístico, redescoberta de recursos Causas da doença ou da saúde Factores de risco História de vida dos idosos Efeitos dos factores stressantes Potencial promotor da doença Promoção da saúde Intervenção Implementação de estratégias remediativas Adaptação, desenvolvimento de recursos Nota: adaptado de Noack, 1997 O modelo salutogénico de Antonovsky é um modelo alternativo ao modelo tradicionalista ou patogénico. Ao contrário do modelo patogénico (baseado na busca dos factores que conduzem à doença), o modelo salutogénico, procura os elementos que conduzem o indivíduo a manter-se com saúde, independentemente dos elementos desfavoráveis do meio físico e social (Heimam, 2004). a - Salutogénese: a omnipresença dos stressores O stress, como fenómeno que afecta a saúde humana, tem sido o foco de atenção durante as quatro últimas décadas desde a publicação do clássico The Stress of Life de Selye (Selye, 1956). A teoria do Stress está associada à teoria dos acontecimentos de vida, que analisa os diferentes efeitos que os stressores provocam nos indivíduos. Estes são responsáveis pelo desencadear de respostas que transportam em si elementos prejudiciais ou favoráveis à promoção da saúde dos indivíduos. Para
32> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > Selye, a síndroma geral de adaptação assenta na concepção de homeostase: este conceito enquadra-se no modelo biomédico de saúde e doença, segundo o qual o indivíduo é essencialmente saudável, sendo agredido por agentes exteriores do meio físico ou social, ou estilos de vida impróprios e perigosos. Rompe-se então, o equilíbrio (a homeostase do organismo), carecendo o indivíduo de ser curado e alvo da intervenção do profissional de saúde, para reencontrar esse equilíbrio. O sucesso de uma boa estratégia de coping depende da capacidade de mobilização dos três tipos de respostas (comportamental, emocional e cognitiva). Certos indivíduos reagem melhor ao mesmo stressor do que outros, sendo o estado geral de saúde dos elementos de um grupo etário diferentemente afectado pelo mesmo estímulo. Considera-se, habitualmente, a noção de saúde através desta perspectiva bio-médica, na qual o conceito de doença é omnipresente. No entanto, como revelou Lazarus, o stress é uma doença social, e foge ao enquadramento bio-médico tradicional que rege a saúde (Lazarus, 1997, p. 426). Uma das características da investigação relacionada com o stress é, sem dúvida, a ênfase colocada na relação que se estabelece entre os acontecimentos diários causadores de stress e o seu impacto sobre a doença (Monroe, 1982). Baseada na evidência empírica, vários autores dedicaram-se a apresentar a correlação positiva entre os stressores e a doença (Leshhan, 1966; Schmale, 1966, Jenkins, 1971; Holmes 1974, Sparacino, 1982). No entanto, como Rabkin revelou, embora a relação entre o stress e a doença seja estatisticamente significativa, é consistentemente baixa, situando-se tipicamente entre os 0.12 e 0.35 (Rabkin 1976; Wilcox 1981). Taylor alerta igualmente para o facto de que somente 9% da variância é explicada pela correlação existente entre estes acontecimentos e a doença (Taylor, 1986). Com o resultado desta evolução, quebrou-se a tradição vigente: a ausência de elementos stressantes era condição base para uma boa saúde mental. Foram, então, refinados os modelos estudando o stress (Peralim, 1978), sendo incorporados o conceito de vulnerabilidade diferenciada (Kessler, 1979) e a influência de vários recursos de resistência como stress buffers (e.g. apoio social) (Kaplan, 1977).
33> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > Como resultado de tudo isto, na última década verifica-se um distanciamento relativamente ao estudo das relações directas entre os acontecimentos de vida e a doença, passando-se assim ao estudo das variáveis que influenciam a força e a direcção da relação que existe entre o stress e a saúde. Estas variáveis preventivas e autoreguladoras passaram a ser designadas por moderadores de stress, recursos, ou variáveis tampão (buffer variables) (são exemplos disso, como já se referiu anteriormente, o optimismo, o locus de controlo, a personalidade robusta ou o sentido de humor, sendo incluído também o SIC, por alguns autores neste grupo de variáveis (Korotkov, 1994, p. 787; Carmel, 1991, p.1089). O ser humano, para Antonovsky, encontra-se num estado de desequilibro dinâmico hetero-estático (Antonovsky, 1987, p. 130). O autor salienta a predominância da condição patológica da humanidade ao acentuar. Com base num quadro de estatísticas, que um terço ou a maioria da população de uma sociedade industrial é caracterizada por uma condição mórbida, e por isso definida clinicamente ou epidemiologicamente como normal (Antonovsky, 1979, p. 16). Os acontecimentos que fogem ao banal e são típicos de condições extremas, estão muitas vezes associados ao stress. No entanto, será útil lembrar aqui Peralim e Schooler ao observarem que “many of the difficult problems with which people cope are not unusual problems impinging on exceptional people in rare situations, but are persistent hardships experienced by those engaged in mainstream activities within major institutions” (Peralim, 1978, p. 3). Antonovsky colocou-se nesta linha de pensamento salientando que, mesmo pessoas com uma vida desafogada e com ambientes optimizados são expostas a stressores (Antonovsky, 1979). Por exemplo, o acidente, que é imanente a todas as sociedades independentemente das precauções que se tomem, tem o seu reflexo não só nas vítimas directas, mas também aqueles que sobrevivem ou naqueles que lhes são mais chegados, sendo assim afectados pelo stress psicossocial. Consciente do impacto que as condições de vida podem ter sobre certos grupos que constituem, pela sua condição, a maior parte dos habitantes da terra, Antonovsky pesquisou aqueles que são atingidos pela pobreza e pela marginalização (Antonovsky, 1979): os negros norte-americanos, as mulheres sobrevi-
34> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > ventes aos campos de concentração nazi, ou ainda os judeus vivendo na miséria extrema antes do estabelecimento do estado de Israel (Antonovsky, 1971; Datan, 1981). Antonovsky salientou a capacidade que manifestavam estes indivíduos ao encontrar coerência interna na sua vida, apesar das perdas (e.g. familiares, status, condição sócio-económica) às quais tinham estado sujeitos. Chega-se assim à conclusão, por um lado, da omnipresença dos agentes stressores na condição humana, e à sua inevitável consequência destruidora. Tal como diria Antonovsky (1979): “stressors are omnipresent in human existence, in fact the human condition is stressful… given the ubiquity of pathogens - microbiological, chemical, physical, psychological, social and cultural - it seems to me self evident that everyone should succumb to this bombardment and constantly be dying” (Antonovsky, 1979, pp. 9-13). Por outro lado, assiste-se à capacidade de resistência dos indivíduos envolvidos nessas experiências. A pergunta que se impõe é a da compreensão que sustenta a sobrevivência do ser humano (Antonovsky, 1979), bem como saber onde encontrar a força e a capacidade de sobrevivência (Antonovsky, 1979). Esta inquirição levou Antonovsky à definição dos recursos generalizados de resistência. b - Recursos Generalizados de Resistência Durante muito tempo, Antonovsky explorou os diferentes factores que contribuiriam para um coping bem sucedido (promotor e manutentor de um bom estado de saúde). Desta exploração resultou um conjunto de factores, tais como características físicas (inteligência, personalidade…) e sociais (suporte social, recursos financeiros, estabilidade cultural…), que contribuem de forma efectiva para a resistência da pessoa. A este conjunto de variáveis, Antonovsky chamou de recursos generalizados de resistência (RGR). Os recursos generalizados de resistência são predictores de qualidade de vida e incluem características das pessoas, grupos ou ambientes que facilitem a capacidade de coping em situações de stress e a tensão. Os recursos generalizados de resistência (RGR) são fenómenos que oferecem ao indivíduo um conjunto de experiências de vida caracterizadas pela
35> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > consistência, pela participação individual na obtenção dos resultados da acção, e pela possibilidade de fazer um balanço positivo ou negativo da sua acção (Antonovsky, 1987, in Nunes 1999). Nega-se assim a entropia do sistema, caracterizada pela exclusão de participação nas tomadas de decisão. Os recursos generalizados de resistência, facilitando a gestão dos agentes stressores que afectam o indivíduo, articulam o sentido da sua existência e o sentido dos acontecimentos que desencadeiam o desenvolvimento de um Sentido Interno de Coerência forte. Descrevendo alguns dispositivos que facilitam a gestão da tensão numa situação de stress, estes podem ser agrupados em várias dimensões: • RGR físicos ou bioquímicos; • RGR artefactuais e materiais (recursos monetários, status, etc.); • RGR cognitivos (inteligência, conhecimento, etc.); • RGR emocionais (auto-conceito, ego, etc.); • RGR interpessoais (apoio social, etc.); • RGR macro socioculturais, construídos com base nas soluções oferecidas pela cultura e estrutura social (pertença política, convicção religiosa, etc.). Traduzida num repertório de comportamentos concretos, construída a partir de experiências de sucesso relacionadas com variadíssimas situações, a existência dos indivíduos manifesta-se então com uma maior ou menor capacidade de compreensão, de gestão e de investimento. Os RGR bem como os recursos específicos de resistência (RER) estão potencialmente disponíveis, cabendo ao indivíduo activá-los face aos stressores e patogenes. Os indivíduos diferem no modo e na quantidade de transformação quinética do potencial que têm em acção. O que faz a diferença é o nível de SIC: pessoas com um forte Sentido Interno de Coerência estão mais aptas a manifestar compressão e conhecimento para explorar os recursos que dispõem. São as experiências específicas da vida – às quais Antonovsky chama recursos generalizados da resistência – que determinam o Sentido Interno de Coerência. De forma concreta, os recursos generalizados de resistência são um conjunto de recursos que permitem aos sujeitos compreender o seu mundo e orga-
36> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > nizá-los/estruturá-los de acordo com o Sentido Interno de Coerência. Estes são também, uma fonte de estimulação à execução de comportamentos adaptativos, e por conseguinte, estratégias de coping. Os recursos generalizados de resistência têm duas funções essenciais: têm um impacto contínuo na vida do sujeito e permite-nos obter experiências que corresponde as expectativas de vida coerentes com o Sentido Interno de Coerência. Dentro desta linha de pensamento, os elementos stressantes da vida seriam recursos generalizados de resistência deficientes. Assim, os recursos generalizados deficientes e os recursos generalizados de resistência são duas dimensões de um contínuo que oscila entre dois polos. O pólo positivo corresponde a experiências e expectativas de vida próximas das potencialidades do sistema interno de coerência. O pólo negativo corresponde as experiências que fragilizam o sistema interno de coerência. Tal como o próprio Antonovsky refere, o sistema interno de coerência é «orchestrates this battleground of forces promoting order or disorder” (Antonovsky, 1987a, p. 164 cit in Noack, 1997) c - Da entropia para a negantropia Assim para Antonovsky, a antítese saúde e doença deve ser entendida não como uma dicotomia de lugares extremos marcados, mas antes como um espaço num contínuo com dois limites: disfuncionalidade/funcionalidade (ilustração 2) e no qual existe um conjunto de factores/dimensões que influenciam a posição do sujeito no contínuo. (Antonosky, 1987 cit in Nunes, 1998). É proposto, no lugar do modelo homeostático de saúde de paradigma patogénico (baseado na busca dos factores que conduzem à doença), um modelo no qual são procurados os elementos que conduzem o indivíduo a manter-se com saúde - com a saúde que tem, independentemente dos elementos desfavoráveis do meio físico e social. Assim, em vez de elementos distintos, a saúde e a doença são integradas num contínuo disfuncionalidade/funcionalidade máxima no qual todos os indivíduos estão incluídos, progredindo ou regredindo nele em relação aos seus pólos (Antonovsky, 1987). Como base no constructo de Antonovsky encontra-se o modelo entrópico de saúde. Neste modelo, a saúde é resultante da acção estratégica do sujeito
37> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > na gestão de recursos internos na negantropia; isto é, na acção estratégica de recursos no sentido da diminuição da desordem. São então colocadas em evidência as predisposições do indivíduo (por exemplo, hereditárias, sociais), que associadas aos Recursos Generalizados de Resistência, são responsáveis pela regulação das perturbações patogénicas, que levam os indivíduos à situação de doença e morte. Deste modo, passa-se de um modelo imunológico e microbiológico - em que os agentes patogénicos são combatidos pela defesa orgânica interna ou pela imunologia extrínseca onde também são questionados os hábitos e estilos de vida como causas próximas da doença ou morte (Antonovsky, 1984b), para o modelo salutogénico. Ilustração 2: A saúde como um espaço de convergência de várias dimensões num contínuo disfuncionalidade/funcionalidade máxima. Fonte: Nunes (1998) II.3 - Modelo SIC a. Elementos caracterizadores Resumindo o modelo de análise de Antonovsky, este apresenta seis pontos essenciais ou elementos caracterizadores (Antonosky, 1987 cit in Nunes, 1998): 1. Rejeição da classificação dicotómica (pessoas saudáveis e doentes) e estabelecimento de um contínuo multidimensional que varia entre a máxima funcionalidade e a disfuncionalidade. Desta forma, não só as pessoas portadoras de patogenia são alvo de estudo, mas
38> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > também, aquelas que não apresentam qualquer doença. Neste sentido procura-se conhecer o posicionamento dos indivíduos ao logo desse contínuo, no esforço de mover as pessoas rumo ao pólo de máxima funcionalidade. 2. Superação do redutivismo da etiologia da doença e convite a uma consideração da experiência totalizadora a vida do indivíduo. Em vez de procurar as causas da doença é importante questionar acerca dos factores envolvidos no posicionamento do indivíduo no contínuo, rumo ao extremo da saúde. 3. Nunca se poderão anular os factores ansiolíticos da vida quotidiana, mas é possível reduzir o seu impacto. Torna-se importante indagar o que reveste positivamente um factor ansiolítico, no sentido de passar a considerar os estressores (naturalmente negativos) revestidos de consequências saudáveis. 4. Procurar captar os factores que são susceptíveis de influenciar negantropicamente um organismo no seu ambiente. 5. Ultrapassar o redutivismo da categorização e procurar nos casos desviantes a inspiração de uma compreensão alargada do bem-estar do indivíduo. 6. A questão de partida salutogénica é considerar o que faz com que alguns sujeitos, mesmo que em menor quantidade do que num grupo de controlo, estejam bem de saúde, questão de partida completamente diferente daquela que tradicionalmente caracteriza uma hipótese patogénica tradicional. b. Definição e Componentes Antonovsky (1979) desenvolve o conceito de Sentido Interno de Coerência (sense of coeherence - SIC) como constructo central do modelo salutogénico, e que se refere a uma orientação global expressa pelos sujeitos relativamente ao seu contexto interno e externo. O contexto cultural, social e histórico, assim como as experiências de vida são bases fundamentais nos diferentes graus do sistema interno de coerência dos sujeitos (Heiman, 2004). Antonovsky coloca cada indivíduo no continuo, a
39> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > partir de uma estrutura cognitivo – emocional - social, que ele designa por Sentido Interno de Coerência - SIC. Numa fase inicial, o termo Sentido Interno de Coerência foi utilizado para referir uma forma de ver o mundo e de facilitar o sucesso em situações de adversidade. De acordo com Antonovsky, o SIC não se refere a um tipo específico de estratégias de coping, mas aos factores, que nas diferentes culturas funcionaram como estratégias de coping. Para Antonovsky (1987), o Sentido Interno de Coerência do indivíduo define-se como: «uma orientação global que define a capacidade com a qual o indivíduo com um persistente e dinâmico sentimento de confiança encara os (1) os estímulos emanados dos meios internos ou externo de uma existência como estruturados, preditíveis e explicáveis (capacidade de compreensão - Comprehensibility); (2) que o individuo tem ao seu alcance recursos para satisfazer as exigências colocadas por esses estímulos (capacidade de gestão - maneability); e (3) que essas exigências são desafios capazes de catalisar o investimento e o empeno do indivíduo (capacidade de investimento - Meaningfulness)» (Antonovsky, 1987, p.19). A Capacidade de compreensão ou compreensibilidade (no inglês, Comprehensibility) refere-se a maneira como o indivíduo apreende os estímulos intrínsecos ou extrínsecos como informação ordenada, consistente, clara e estruturada, isto é, a forma como os sujeitos percebem-se os recursos disponíveis à sua volta são adequados para preencher as necessidades impostas (Antonovsky, 1987 in Saboga 1997). A capacidade de gestão ou Manejabilidade (no inglês, Mangeability) refere-se à percepção que o indivíduo desenvolve acerca dos recursos pessoais ou sociais, que estão ao seu alcance, para satisfazer as exigências requeridas pela situação de estímulo. Diz respeito a uma componente mais emocional e pessoal que apela ao desafio que estes estímulos podem constituir na vida do sujeito (Paul e Fonseca, 1999). O último elemento que compõe o sistema interno de coerência é a capacidade de investimento ou significabilidade (no inglês, Meaningfulness). De forma concreta a capacidade de investimento diz respeito à capacidade que o sujeito tem de retirar sentido aos acontecimentos da sua vida e por isso encontrar
46> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > Idade Na formulação teórica original, Antonovsky (1987) propôs que o Sentido Interno de Coerência é um constructo desenvolvimental que se encontra estável pelos 30 anos de idade. Contudo, apesar da suposição inicial de Antonovsky, existem estudos recentes que referem que a idade não influencia a estabilidade do SIC. Assim, apesar de o Sentido Interno de Coerência permanecer relativamente estável, algumas mudanças progressivas podem ocorrer, em consequência das interacções ocorridas com o ambiente. Neste sentido, citamos o estudo de Feldt e colaboradores (2003) que pretendendo investigar as diferenças na estabilidade no sentido interno de coerência entre dois grupos de idade (o grupo mais novo constituído por idades inferiores a 30 anos e no grupo mais velho constituído por indivíduos superiores aos 30 anos) e utilizando o questionário de orientação para a vida (Antonovsky, 1987), mediram o sentido da coerência em dois momentos temporais diferentes (anos 1992 e 1997). A metodologia do estudo foi baseada em modelos longitudinais da análise de factor usando a estrutura de LISREL. Os resultados não vão ao encontro da linha teórica de Antonovsky: não se verificando no grupo mais velho mairo estabilidade do SIC. De facto, a idade não foi factor decisivo na estabilidade dos valores médios do Sentido Interno de Coerência. Assim, os autores referem que a teoria de Antonovsky (1987a, 1991) necessita de um estudo mais aprofundado no que diz respeito ao efeito da idade no SIC. No mesmo sentido referimos o estudo de Larsson e Kallenberg (1996), que pretendendo estudar as relações entre as condições sócio-económicas, a saúde e o Sentido Interno de Coerência de 2003 suecos, verificou que os valores médios de Sentido Interno de Coerência aumentam, a medida que aumenta a idade. Estratificação social Além do sexo e da idade, outra componente fundamental nos estudos dos grupos humanos é a pertença social dos indivíduos. De acordo com Hunt (1982) a determinação de classe social é equivalente a determinação estrutural. Nesta linha de pensamento, Graffar (1956, 1957 e 1966; in Nunes 1999) empreendeu um esforço na compreensão de pertença social das pessoas através de uma
47> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > noção mais institucionalizada. Dentro desta vertente teórica, a ocupação desenvolvida pelos adultos tem um impacto substancial sobre a sua psicologia e sobre a estratificação social. O estudo das relações existentes entre a posição na estrutura social e a mortalidade notabilizou Antonovsky na década de 60. Para o autor é no âmbito profissional – do qual deriva a posição na estratificação social – que se desenvolve o Sentido Interno de Coerência ao longo da vida (Antonovsky, 1987). Vários estudos relacionaram o SIC com a estrutura social, verificando o impacto desta na formação, desenvolvimento e estabelecimento do Sentido Interno de Coerência. Um dos estudos mais importantes desenvolvido nesta área é o de Lundberg (1993 cit in Nunes 1999). Após a administração da escala a 3949 pessoas com idades compreendidas entre os 25 e os 75 anos, Lundberg reparou que existia uma relação directa e significativa entre um baixo Sentido Interno de Coerência e uma posição inferior na estratificação social. II.5 – O Sentido Interno de Coerência e o Bem-estar Subjectivo Tal como já foi referido anteriormente, um dos construtos que têm vindo a suscitar o interesse dos investigadores da Psicologia é o bem-estar subjectivo, sendo esta a maneira positiva ou negativa como as pessoas experienciam a sua vida. De facto, este constructo encontra-se relacionado com outros não menos importantes: felicidade, qualidade de vida, envelhecimento óptimo, etc; chegando estes a ser sinónimos do constructo bem-estar subjectivo. Apesar das divergências terminológicas, a investigação defende que o bem-estar subjectivo é um conceito multidimesional. De facto, na linha do que é difundido o bem-estar subjectivo é composto por duas dimensões: Dimensão Cognitiva e a Dimensão Afectiva. A dimensão afectiva do bem-estar subjectivo é composta por dois factores independentes: Afectividade Positiva (necessidade de experimentar emoções agradáveis) e Afectividade Negativa (necessidade de experimentar emoções desagradáveis). A dimensão cognitiva, revela-se unitário e diz respeito a avaliação global que o sujeito faz da sua vida em termos do desejo de a mudar, do desconten-
48> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > tamento com a maneira como ela decorre, no momento presente, da satisfação com o passado (Diener, Emmons, Larsen e Griffin, 1985). Diener e Diener (1995) definem o bem-estar subjectivo como reacção avaliativa das pessoas à sua própria vida - quer, em termos de satisfação com a mesma (avaliação cognitiva), quer em termos de afectividade (reacções emocionais estáveis). Relativamente ao conceito – Satisfação com a vida, este diz respeito ao grau de contentamento com a maneira como tem decorrido a própria vida, referindo-se então a um juízo subjectivo sobre a qualidade de vida e aos aspectos positivos da própria vida (Simões; 1992). Por sua vez, Okun et al. (1990) definiram a Felicidade como a razão entre a afectividade positiva e a afectividade negativa experimentada, no momento presente. Uma característica comum a estes conceitos é o facto de, apesar de serem construtos diferenciados (pois cada um vive e sente de forma diferente, e esta diferenças variam de povo para povo), também insistem numa tendência universal, em que cada homem procura a realização plena de si mesmo. De acordo com Diener (1985) alguns dos factores que influenciam o bemestar subjectivo são: a satisfação subjectiva; os rendimentos económicos; as variáveis demográficas; a personalidade e as influências biológicas. De entre todas estas variáveis as que contribuem de forma substancial para o bem-estar subjectivo são as variáveis personológicas (ou da personalidade). Não admira pois que esta variável seja alvo de constantes investigações e meta-análises. A título de exemplo refere-se aqui brevemente os resultados da meta-análise feita por DeNeve e Cooper (1998) abrangendo um total de 148 estudos, envolvendo uma população heterogénea com idades compreendidas entre os 17 e os 99 anos. O resultado final desta meta-análise revelou que os melhores preditores do bem-estar subjectivo são: a defesa repressiva (evitamento não consciente de informações ameaçadoras), a confiança, a estabilidade emocional, o locus de controlo - sorte, o desejo de controlo, a resistência ao stress, a afectividade positiva e a tensão. Tal como já foi referido anteriormente o bem-estar subjectivo é um constructo multidimensional e coloca em evidência duas dimensões – a dimensão
49> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > afectiva e a dimensão cognitiva. A dimensão afectiva, de carácter pluralista, traduz-se na tendência de experimentar sentimentos e emoções agradáveis (afectividade positiva) ou desagradáveis (afectividade negativa). Por sua vez, a dimensão cognitiva, que assume um carácter unitário, diz respeito a avaliação global que o sujeito faz acerca da sua vida. Esta última está representada por um factor – a satisfação com a vida (Diener, 1996 in Simões et al, 2000). De acordo com Skin e Johnson (1978 cit in Simões, 1992), a satisfação com a vida é uma avaliação global da qualidade de vida de um indivíduo de acordo com critérios por ele escolhidos (saúde, riqueza, mobilidade, etc.); isto é, o grau de contentamento com a maneira como tem decorrido a própria vida. De facto, este constructo remete para um juízo subjectivo sobre a qualidade de vida. Uma outra forma de operacionalizar o bem-estar subjectivo é através da Felicidade, sendo esta conceptualizada como a razão entre a afectividade positiva e afectividade negativa experimentada (Okun et al. 1990 in Simões 1992). Assim, contrariamente a satisfação com a vida, a Felicidade constitui uma dimensão afectiva do bem-estar subjectivo. De facto, dada a importância de estes construtos, os investigadores aprontaram-se a desenvolver escalas destinadas a avaliar quer a satisfação com a vida (dimensão cognitiva), quer com a felicidade (dimensão afectiva). Uma das escalas mais utilizadas para avaliar a Felicidade é a Oxford Happiness Inventory ou a Psychological Well-Being Inventory de Ryff (1989). Relativamente a Satisfação com a Vida encontramos várias: Life Satisfaction Índex de Neugarten, Haighurst e Tobin (1961), Philadelphia Geriatric Center Morale Scale de Lawton (1975) e a Satisfaction With Life Scale de Diener et al. (1985). Contudo, esta última escala figura entre os instrumentos de género mais úteis e válidos na população idosa. Esta escala, Satisfaction With Life Scale de Diener et al. (1985), preencheu, de igual modo, a necessidade sentida relativamente a uma escala multiitem de avaliação da satisfação com a vida, como processo cognitivo; que não era susceptível de ser avaliada por outras escalas compostas por apenas um item. De facto, a escala de Satisfação com a Vida (Satisfaction With Life Scale), foi avaliada, pela primeira vez em Portugal, por Neto et al. (1990), revelando-se
50> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > uma escala com características psicométricas adequadas, sendo confirmadas numa avaliação posterior de Simões (1992). Mais recentemente, Barros (2001), enquadrado na teoria de Ryff (1989), desenvolveu uma escala de avaliação da felicidade. Com base nas dimensões apontadas como preditoras de felicidade, Barros, constitui itens de avaliação a partir das variáveis personológicas. A escala mostrou possuir qualidades psicométricas satisfatórias, através da consistência interna e da validade concorrente e discriminante. Uma das principais conclusões que podemos retirar acerca da validação de instrumentos de avaliação do bem-estar e felicidade é o facto de estes construtos serem complexos e influenciáveis por múltiplos factores, tornando a tarefa difícil (Ferreira e Simões, 1999 in Barros 2001). Para uma avaliação mais rigorosa deste tópico é necessário insistir numa definição abrangente da felicidade, do bem-estar subjectivo e da satisfação com a vida (Barros 2001). De facto tal como Diener (2000) refere, torna-se urgente encontrar bases científicas a nível social e pessoal, a fim de compreender o fenómeno do bem-estar subjectivo, pois este encontra-se ainda num estado rudimentar. A escala de Sentido Interno de Coerência mede a disposição que o sujeito tem para lidar com estímulos stressantes, promovendo a saúde dos sujeitos. Tal como é sugerido por Antonovsky, o Sentido Interno de Coerência surge no nascimento e estabiliza pelos 30 anos de idade, sendo que, a partir de aqui poderão ser observáveis alterações devido a interacções intensas com o meio ambiente. Quando o Sentido Interno de Coerência é forte, os estímulos são percebidos como compreensíveis, fazem sentido cognitivamente, passíveis de serem geridos, são passíveis de serem controlados (individualmente ou por entidade exterior ao sujeito) e emotivamente significativos. Um forte Sentido Interno de Coerência pode sugerir também, que os sujeitos não só lidam eficazmente com o acontecimento traumático, mas esforçam-se por transformar tal acontecimento numa experiência salutar (Tedeschi e Calhoun, 1995). Várias dezenas de trabalhos envolvendo o Sentido Interno de Coerência e o bem-estar subjectivo foram realizados ao longo dos últimos anos. Numa síntese de 20 estudos apresentados por Strumpfer et al. (1998), envolvendo uma amostra global de 1670 sujeitos e utilizando como instrumentos
51> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > de avaliação a Escala de Afectividade Positiva e Negativa (PANAS) e o Questionário de Orientação para Viver (OLQ) foram encontradas correlações altas e significativas (p<0,001) entre o Sentido Interno de Coerência e as medidas de afectividade negativa, ansiedade e neuroticismo. A correlação média encontrada entre os estudos é de -0,70. O estudo de Danana (1995) sugere ainda uma questão interessante, quando compara os valores de correlação, entre o SIC e duas escalas diferentes: Escala Negativa de Afectividade e a Escala de Neuroticismo. Tal como é sugerido inicialmente, existe variação nos valores de correlação, contudo estes mantêm-se significativos. Utilizando a Escala Negativa de Afectividade obtém-se valores de correlação mais baixos entre ambas variáveis (r (112) = -0.32) comparativamente com os valores obtidos quando é utilizada a Escala de Neuroticismo (r (112) = -0,45). Apesar de ser indubitável a relação existente entre o Sentido Interno de Coerência e a Escala Negativa da Afectividade; também surgem estudos que sugerem que, a correlação significativa e negativa existente entre ambas variáveis pode não só representar a ausência de neuroticismo, como também a validação da escala de Sentido Interno de Coerência, se considerarmos que os valores mais baixos de Afectividade Negativa forem considerados como emocionalmente estáveis (Strumpfer, 1998). Entre eles salienta-se o trabalho de Korotkov (1993) que tentando compreender os efeitos do neuroticismo, idade e sexo no Sentido Interno de Coerência (com base nos sintomas físicos ao longo de alguns meses) verifica que o valor médio da correlação varia de – 0,31 para -0, 16. O autor sugere que uma nova escala de Sentido Interno de Coerência deve ser construída, excluindo o domínio afectivo, resultando numa escala “vazia” de emotividade/afectividade. Como alternativa sugere, também, o controlo estatístico do traço de neuroticismo em futuras investigações. Na mesma perspectiva, Hittner (1994), após extrair o efeito do traço da ansiedade, verifica que o SIC não prediz a Depressão e a Raiva. Questiona, ainda, se o Sentido Interno de Coerência será uma medida de resiliência e de bem-estar, ou apenas, uma medida de ausência de neuroticismo. A Afectividade Positiva (PA), como dimensão da personalidade, separada e dominante, assume também importância quando se relaciona com o Senti-
52> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > do Interno de Coerência. Mais uma vez, surge a confusão relativamente a sua terminologia: é conhecido como sendo sinónimo de extroversão (Clark, 1994) o lado positivo da emoção (Watson et al, 1992), ou ainda, o lado positivo das vivências do sujeito (Goldberg, 1992). Para o presente estudo a Afectividade Positiva é caracterizada por sentimentos de prazer, alegria, entusiasmo, excitação, experimentado durante os acontecimentos de vida, mas também pela vitalidade, determinação, aventura, e pela capacidade de envolvimento e alerta. De acordo com Antonovsky e Strumpfer, o Sentido Interno de Coerência é um constructo personológico, contudo, à luz de outros autores, esta conceptualização original “carrega” uma forte semelhança com a Afectividade Positiva. Strumpfer sugere a leitura do estudo desenvolvido por Mlonzi (1998) e no qual se verifica que o Sentido Interno de Coerência encontra-se relacionado significativamente e ao mesmo nível, com o traço de extroversão (r(98) = 0,51) e ansiedade (r(98) = 0,52), utilizando o Questionário de Avaliação de Personalidade de Cattel e colaboradores (1970), com base em 16 factores que integram a personalidade. Apesar destas questões conceptuais, existem inúmeros estudos que correlacionam positiva e significativamente ambas as variáveis. Du Toit et al (1997), encontram uma correlação positiva e significativa (r(58)= 0,74, p< 0,001) entre o Sentido Interno de Coerência e a Escala de Satisfação com a Vida (Diener e Pavot, 1993) e com a Escala de Extroversão do Inventário da Personalidade NEO (Costa e McCrae, 1992) de 0,51. Por sua vez, Compton et al (1996), fazendo uma análise factorial de medidas de saúde mental, verificam que o Sentido Interno de Coerência surge como o terceiro factor mais importante de um conjunto de nove variáveis de Afectividade Positiva e de Satisfação com a Vida, que são frequentemente definidos como os factores mais importante do bem-estar subjectivo. Dentro da mesma perspectiva surge o trabalho de Wissing e van Eden (1997) que apontam o Sentido Interno de Coerência, como o terceiro factor mais importante em oito medidas de bem-estar psicológico e geral. No sentido de compreender qual o peso da Escala Positiva e Negativa da Afectividade no Sentido Interno de Coerência, Strumpfer (1998) desenvolveu várias investigações e os resultados fazem-nos compreender a complexidade do constructo SIC. Strumpfer sugere após análise de regressão múltipla dos dados (PANAS x SIC) que cerca de 29% da variância é explicada pela escala negativa
53> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > de afectividade, enquanto que a escala positiva da afectividade explica cerca de 16%, deixando assim 56% de variância por explicar. O autor sugere que apesar de as investigações referirem a relação significativa entre estas escalas, não podemos esquecer, que existem entre 38% a 47% de variância inexplicada, o que torna estas percentagens pouco importantes para o SIC. Partindo de uma taxionomia tripartida da personalidade, McAdams (1995, 1996), sugere uma alternativa para explicação do conceito do Sentido Interno de Coerência na estrutura da personalidade. Assim a personalidade encontra-se dividida em três níveis: Nível 1 – Traços: características amplas, universais, relativamente descontextualizadas e construtos implicitamente comparáveis. Os traços tendem a ser estáveis ao longo do tempo e dá uma disposição descritiva da personalidade. Nível 2 – envolve as preocupações pessoais, as metas, os objectivos, as tarefas, os projectos, as estratégias de coping, os valores, a motivação e outras estratégias desenvolvimentais. Nível 3 – diz respeito a identidade, que promove a unidade na vida dos sujeitos. À luz da teoria da McAdams, a afectividade positiva e negativa pertencem ao nível 1 da personalidade, enquanto que o Sentido Interno de Coerência com as diferentes componentes (compreensão, gestão e investimento) pertence ao nível 2. De facto, tal pressuposto vai ao encontro do modelo de resolução de conflitos de Antonovsky (1987) e no qual as pessoas portadoras de um forte Sentido Interno de Coerência seleccionam e empregam estratégias de coping mais apropriadas para lidar com os estímulos confrontativos e ansiogénicos. Presume-se, à partida, que estas pessoas tenham um considerável repertório de recursos disponíveis. Uma vez mobilizados os recursos, é essencial definir a natureza e dimensão do problema, fazendo sentido para o sujeito. Contudo, é a constante actualização dos recursos face ao acontecimento ansiogénico que torna originais ou peculiares as pessoas portadoras de um forte SIC. É através da teoria de McAdams (1995), que poderemos ver explicado o motivo pelo qual a Afectividade Positiva e Negativa (assim como outros traços)
54> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > podem estar relacionados com o SIC. Não se trata de uma pura análise factorial traço-medida, mas de uma análise mais complexa da personalidade, que deriva do primeiro nível da taxionomia, isto é, dos Traços. Desta forma, os níveis de personalidade não funcionam de forma independente, mas antes numa constante interacção sistémica entre todos, e onde todos os aspectos da personalidade interagem entre si, criando um longo leque de factores que se influenciam reciprocamente. Assim, McAdams reforça a teoria de Antonvsky (1987), na medida em que os aspectos cognitivos e afectivos se relacionam bi-direccionalmente. À luz desta perspectiva, a questão levantada por Korotkov (1993), relativamente à necessidade de ausência de afectividade na Escala de Avaliação do SIC faz sentido, na medida em que a ausência de afectividade resulta dos mecanismos de desestructuração do funcionamento da personalidade. Assim, estando presente a ansiedade ou outro traço negativo no SIC, torna este menos válido e menos hábil para relacionar-se efectivamente com outros sintomas, variáveis ou estratégias de acção. Salienta-se, desta forma, a natureza de coping que o SIC assume, mais do que a uma medida do funcionamento cognitivo. II.6 – O Sentido Interno de Coerência e a Depressão O modelo salutogénico assume que os “stressores” são omnipresentes e nunca poderão ser completamente anulados. Considera o ser humano num estado de desequilíbrio dinâmico, importando centrar a atenção nos factores envolvidos no posicionamento da pessoa no contínuo rumo ao extremo da saúde. Este modelo rejeita a classificação dicotómica pessoas saudáveis/pessoas doentes e tenta superar o redutivismo da etiologia da doença, considerando a experiência totalizadora da vida da pessoa. O que importa investigar é quais os factores que, num ambiente de stress, permitem uma resposta favorável à saúde – quais os factores promotores de saúde. A resposta de Aaron Antonovsky (1987), principal teórico do modelo salutogénico, está no que chamou recursos generalizados de resistência – ego, poder, inteligência, conhecimento, educação, estabilidade cultural, suporte social... Estes recursos levam a experiências de vida que podem estruturar um “Sentido Interno de Coerência” robusto, uma maneira de fazer face ao mundo que facilita a adaptação com sucesso aos agentes stressores do dia-a-dia.
55> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > O “sentido interno de coerência” é visto como uma orientação global que define a capacidade de um indivíduo, com um persistente e dinâmico sentimento de confiança, encarar os estímulos intrínsecos ou extrínsecos como estruturados, preditíveis e explicáveis (compreensibilidade), considerando ter ao seu alcance os recursos para satisfazer as exigências colocadas por esses estímulos (manejabilidade), e sendo essas exigências encaradas como desafios, que merecem o seu investimento e empenho (significabilidade). Este “Sentido Interno de Coerência” vai sendo estruturado ao longo da vida de cada um e pode evoluir e ser alvo de tentativas de melhoria. Aaron Antonovsky defende que a robustez do “Sentido Interno de Coerência” é influenciada por três diferentes experiências de vida – consistência, avaliação positiva-negativa que faz da sua vida e pela participação em decisões consideradas socialmente importantes. Estas experiências são moldadas pela posição de cada um na estrutura familiar e social, pela própria cultura, pelo trabalho que faz, sexo, etnia, genética, entre outros. Antonovsky elaborou um questionário para avaliar o “Sentido Interno de Coerência”, que se encontra validado para Portugal. Ao abordarmos a problemática da depressão no idoso coloca-se-nos, à partida, várias questões das quais se evidenciam duas que nos parecem fundamentais: a abrangência e a importância que a mesma assume nos nossos dias. Na perspectiva de Barreto (1973), o termo “depressão” pode designar uma doença, síndrome, sintoma, ou um simples estado afectivo – a tristeza. A depressão é um estado de elevada complexidade. É possível a detecção de diversos componentes como a ansiedade, a agitação, a preocupação, a dor mental e sentimentos de culpa implicando um número significativo de ocorrências e uma vivência forte e contínua de infelicidade. Onde o passado imobiliza-se geralmente sob a forma de vivência de culpa, caminhando o deprimido inexoravelmente para ele. O presente é rejeitado por ideias de indignidade e de ruína e o futuro encontra-se bloqueado devido a ideias de catástrofe eminente, de ruína e de morte (Teixeira e Branco, 1989 cit in Fernandes, 2000). Na perspectiva de Blazer (1992), a depressão pode ser analisada em três ópticas diferentes: (1) Como um fenómeno unitário que vai variando na intensidade e onde as suas manifestações formam um contínuo entre extremo, que pode ser “aguda e crónica”, “ligeira e severa”, etc. (2) Como modelo médico tradicio-
62> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > mesma. Logo, ao afectar o comportamento promotor de saúde, o SIC tem uma influência indirecta no estado de saúde da pessoa. Várias dezenas de trabalhos envolvendo o Sentido Interno de Coerência foram sendo realizados, em particular na última década (Berstein & Carmel, 1987, 1991; Bowman, 1996; Carmel & Berstein, 1989; Flannery & Flannery, 1990; Flannery, Perry, Penk, & Flannery, 1994; Frommberger et al., 1999; McSherry & Holm, 1994; Rennemark & Hagberg, 1999; Schnyder, Buechi, Sensky, & Klaghofer, 2000). Seria demasiado extenso referenciá-los todos, mas uma consulta ao sítio da FCHE ou ao sítio www. angelfire. com/ok/soc permite obter um conjunto de evidência em relação ao conceito e à sua aplicabilidade na saúde. A correlação significativa do conceito com um conjunto de alterações no nível da saúde denota o seu vigor e a sua validade. Um elevado nível de SIC está associado: • Melhor percepção do estado de saúde; • Diminuição de sintomas patológicos; • Melhor estado de saúde; • Melhor saúde mental; • Menor risco de depressão; • Menor probabilidade do desenvolvimento de comportamentos de risco; • Maior esperança e participação no processo de recuperação; • Melhor satisfação com a vida, bem-estar e diminuição de sintomas psicológicos negativos; • Melhor adaptação das famílias à doença; • Maior esbatimento das consequências resultantes de incapacidades permanentes; • Menores queixas somáticas. O conceito de Sentido Interno de Coerência mostrou a sua validade. Mas como poderemos trabalhá-lo, perante a situação de velhice, numa perspectiva de promoção e protecção da saúde? A resposta está em colocar o idoso no centro de um sistema multisectorial com abordagem salutogénica, promovendo o seu empoderamento (empowerment). Apesar do constructo proposto inicialmente por Antonovsky não valorizar os aspectos personológicos e sociais certas investigações mais recentes pare-
63> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > cem apontar para relações entre eles e reforçam o modelo salutogénico como um modelo explicativo do bem-estar e da saúde na população idosa (Coe,Romeis; Tang, & Wolinsky, 1990; Schunk and Carbonari, 1984 cit in Brooks, 1998). Na verdade, o Instituto Nacional para o Envelhecimento (Estados Unidos da América) considera que apesar de a condição física contribuir para uma boa adaptação às mudanças ocorridas na Terceira Idade, este não deve ser o único aspecto a ter em conta. A adaptação psicológica, a actividade social e a condição física são dimensões importantes de um envelhecimento bem sucedido. Antonovsky (1987) refere que é imprescindível olhar para o termo Saúde num sentido amplo, indo para além da dimensão fisiológica e incluindo o ajustamento psicológico e o funcionamento global do indivíduo. Para McCubbin, Thompson, Thompson e Fromer (1998 cit in Fonseca, 2005), pensar sob um ponto de vista salutogénico “envolve reavaliar e considerar devidamente aqueles factores e recursos que nos ajudam a permanecer saudáveis”. Para Brooks (1998), a teoria salutogénica rompe com as perspectivas tradicionais sobre o stress, na medida em que procura mudar de um olhar centrado na patologia para um novo enfoque, centrado na adaptação saudável. O autor salienta também, que Antonovsky procurou alcançar uma compreensão mais alargada do conceito de coping, propondo que os traços da personalidade como a racionalidade, a flexibilidade e a prudência sejam também encarados como padrões de coping, susceptíveis de influenciarem a forma como os indivíduos se adaptam. De acordo com Antonovsky, o coping adaptativo constitui o segredo da tendência que os indivíduos sentem para caminharem em direcção ao pólo saudável do continuo saúde-doença, dando especial atenção aos Recursos Generalizados de Resistência, como o bem-estar, a força do self, o ambiente cultural em que se vive e o suporte social que se sente. Assim, os Recursos Generalizados de Resistência são elementos capazes de prever a qualidade de vida o que permite ao indivíduo lidar eficazmente com o stress, facilitando a sua adaptação ao meio. Tal como foi apresentado nos pontos anteriores, os Recursos Generalizados de Resistência formam o núcleo do Sentido Interno de Coerência e traduzem-se numa orientação ou traço disposicional global, estável e permanente
64> Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador > face ao mundo (Antonovky, 1993 cit in Fonseca, 2005). Se aplicarmos este conceito a uma abordagem desenvolvimental, Antonovky sugere que na origem do SIC está a conjunção entre as experiências de vida pelas quais o indivíduo passa e os recursos que utiliza nestas experiências. Isto é, recursos como o suporte social, o dinheiro, a fé religiosa, a educação, a cultura e etc., que proporcionam um quadro de confronto individual mais ou menos coerente com as experiências de vida, de acordo com as capacidade de compreensão, investimento e gestão (Fonseca, 2005). Para McCubbin,Thompson, Thompson e Fromer (1998) o Sentido Interno de Coerência proposto por Antonovsky reconhece a existência de capacidades inerentes ao organismo humano capazes de contrariar o stress e o risco de adoecer, sendo um conceito que se encaixa num âmbito mais alargado - a resiliência. Isto é, um conjunto de competências funcionais e padrões de comportamentos positivos que os indivíduos mostram sobre circunstâncias adversas. Para Antonovsky o Sentido Interno de Coerência individual encontra-se estruturado por volta dos 30 anos de idade. Nesta idade a pessoa vive já numa situação estável em termos da sua vida profissional e familiar. Se o indivíduo alcançar a idade adulta tendo um forte SIC terá mais facilidade em confrontar-se com situações stressantes da vida; caso contrário, é provável que se manifeste um padrão de deterioração da saúde e do bem-estar psicológico. Neste sentido, Antonovsky defende que a pessoa com um forte SIC sabe procurar e usar os recursos adequados para lidar eficazmente com as mudanças e encontrar novos rumos para a sua vida. Assim, uma vez que o SIC está relacionado como bemestar psicológico e com a saúde, podemos usá-lo como uma variável capaz de prever a capacidade de coping. Revelando-se uma perspectiva apropriada para a compreensão da forma como algumas pessoas vencem os desafios e os acontecimentos com que se confrontam na velhice, a teoria salutogénica realça o funcionamento positivo do ser humano e defende uma postura voltada para a saúde em detrimento da patologia. É com base nesta perspectiva que durante a década de 80 foram desenvolvidas uma série de investigações, que fornecendo um suporte empírico à hipótese segundo a qual o SIC e a preservação da saúde face aos acontecimentos
65 stressantes estão relacionados (Brooks, 1998; Coe, Romeis e Hall, 1998). Algumas destas investigações foram realizadas junto de pessoas idosas, revelando a utilidade do SIC no envelhecimento. Tendo em conta os resultados obtidos nestas pesquisas, Brooks (1998 cit in Fonseca, 2005) refere que o modelo salutogénico tem o potencial para explicar as variações na qualidade de vida durante a velhice. Para além disto, afirma que o desenvolvimento desta teoria proporciona evidências importantes acerca da promoção da qualidade de vida e prevenção da dependência dos mais idosos, enfatizando o papel das variáveis psicossociais. Vários estudos apontam neste sentido. É o caso do estudo de Larsson e Kallenberg (1996), que ao comparar a importância das componentes demográficas e das componentes psicológicas de saúde (medida no estudo pelo bemestar psicológico e por indicadores específicos de saúde), os valores de Sentido Interno de Coerência estavam mais fortemente relacionados com os indicadores de saúde e de bem – estar psicológico, do que com a idade, os níveis de instrução, a renda, o número de amigos, entre outros. Olhando para uma perspectiva de ciclo de vida, a teoria salutogénica apresenta ainda o potencial de ajudar as pessoas a viverem «vidas cheias de vitalidade até bem perto do fecho do ciclo biológico da existência.» (Anotnovsky, 1987, p.20). De facto a expressão “vidas com vitalidade” remete para um sentido claramente positivo, bem como para um sentido de aprendizagem; isto é, pode aprender-se a envelhecer bem, não estando condenado a viver uma vida passiva, limitada e dependente. Uma outra evidência empírica que é apontada por estes estudos é a manutenção dos idosos na comunidade e a criação de intervenções adequadas à optimização da qualidade de vida dos sujeitos idosos, nomeadamente através da prestação de serviços domiciliários. A aplicação da teoria salutogénica à problemática da prestação de cuidados aos idosos, nomeadamente, os prestados pelas famílias, permitem contrariar a visão negativista existente a propósito desses cuidados, a qual acentua a sobrecarga que a prestação de cuidados implica, transformando em potenciais doentes os prestadores de cuidados familiares. Seleccionando e categorizando as famílias vulneráveis e que necessitam de apoio, o modelo salutogénico revela-se eficaz na consideração de um equilíbrio entre > Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador >
66 os recursos e exigências situacionais, possibilitando um planeamento adequado do apoio a disponibilizar às famílias dele carenciadas. Para concluir, apesar de não haver dados claros que permitam estabelecer uma relação causal entre o SIC e o envelhecimento bem sucedido, verificase que um Sentido Interno de Coerência elevado aumenta as probabilidades dos indivíduos idosos virem a usufruir e manter uma boa qualidade de vida. A teoria salutogénica, combinada com os modelos clássicos de stress e coping, permitenos explicar, do ponto de vista psicológico, a relação entre os estilos e/ou estados cognitivos e afectivos das pessoas e a sua saúde física. Contudo desconhecem-se, em grande parte, os mecanismos de associação entre as dimensões e o processo pelo qual se influenciam mutuamente (Paul e Fonseca, 2001). > Capítulo II > Sentido Interno de Coerência - um conceito inovador >
CAPÍTULO III > Estudo Empírico >
68> Capítulo III > Estudo Empírico > III.1 Objectivos e conceptualização do Estudo O Sentido Interno de Coerência é um constructo extensamente utilizado. A sua popularidade é tão grande que se torna difícil determinar o seu papel no funcionamento psicológico. A escala de avaliação do Sentido Interno de Coerência ou questionário de orientação para viver (QOV), desenvolvido por Antonovsky, é considerado um questionário de avaliação da saúde global; uma medida de saúde mental, uma medida de avaliação do bem-estar e uma medida de coping (Gana, 2001). Recentemente um grande número de investigadores adoptou uma orientação salutogénica nos seus estudos, explorando os factores que ajudam um sujeito a manter o seu bem-estar físico e psicológico na presença de agentes streessantes. Inicialmente, o significado do Sentido Interno de Coerência foi traduzido como uma forma de ver o mundo que facilita o coping em situações adversas. Contudo, Antonovsky defende que o Sentido Interno de Coerência não se refere, apenas, a um tipo específico de estratégias de coping, mas a todo um conjunto de factores que, em todas as culturas, são sempre a base para lidar de forma eficaz com os agentes stressantes. Estes factores são a capacidade de Compreensão, de Investimento e de Gestão. Para Antonovsky (1987), o Sentido Interno de Coerência do indivíduo é uma orientação global que define a capacidade com a qual o individuo com um persistente e dinâmico sentimento de confiança encara os (1) os estímulos emanados dos meios internos ou externos de uma existência como estruturados, preditíveis e explicáveis (capacidade de compreensão - Comprehensibility); (2) que o individuo tem ao seu alcance recursos para satisfazer as exigências colocadas por esses estímulos (capacidade de gestão - maneability); e (3) que essas exigências são desafios capazes de catalisar o investimento e o empeno do indivíduo (capacidade de investimento - Meaningfulness). A Capacidade de compreensão ou compreensibilidade (no inglês, Comprehensibility) refere-se à maneira como o indivíduo apreende os estímulos intrínsecos ou extrínsecos como informação ordenada, consistente, clara e estruturada. Isto é, a forma como os sujeitos percebem os recursos disponíveis à
69 sua volta são adequados para preencher as necessidades impostas (Antonovsky, 1987 in Saboga 1997). A capacidade de gestão ou Manejabilidade (no inglês, Mangeability) refere-se à percepção que o indivíduo desenvolve acerca dos recursos pessoais ou sociais que estão ao seu alcance para satisfazer as exigências requeridas pela situação de estímulo. Refere-se a uma componente mais emocional e pessoal que apela ao desafio que estes estímulos podem constituir na vida do sujeito (Paul e Fonseca, 1999). O último elemento que compõe o sistema interno de coerência diz respeito à capacidade de investimento ou significabilidade (no inglês, Meaningfulness). De forma concreta a capacidade de investimento diz respeito à capacidade que o sujeito tem de retirar sentido aos acontecimentos da sua vida e por isso encontrar neles razão para investir a sua energia e interesse. Ao contrário da capacidade de gestão, a capacidade de investimento envolve uma componente mais cognitiva do sujeito (Paul e Fonseca, 1999). O Sentido Interno de Coerência assume assim um carácter cognitivo, afectivo e informal que permite ao indivíduo negar a aparente desordem da sua vida (ou acontecimento de vida que o implica) recuperando ordem e coerência, ao integrar positivamente esse acontecimento na sua experiência de vida. Estas três componentes constituem uma visão e compreensão coerente do mundo onde vivemos. A pessoa que esteja dotada de um forte Sentido Interno de Coerência é cognitiva e emocionalmente capaz de identificar a natureza dos problemas e de os enfrentar de forma activa mantendo-se saudável no contínuo da doença – saúde. Embora Antonovsky não defenda que o SIC fosse um variável “amortecedora do stress”, um número crescente de estudos examinou o SIC como um recurso/amortecedor do stress e explorou seus efeitos (Jorgesen, Frankowski e Carey, 1999, cit in Pallant e Lae, 2001). Desde o desenvolvimento do questionário de Orientação para o Viver (QOV), que o construto tem vindo a ganhar importância, ao longo de várias culturas e contextos (Carmel e Berstein, 1989; McSherry e Holm, 1994; Smits, Deeg, e Bosscher, 1995). > Capítulo III > Estudo Empírico >
70 Os resultados desses estudos confirmam a validade e fidelidade do questionário, mas também, demonstra a utilidade e importância do construto. Os mesmos estudos revelam que um forte Sentido Interno de Coerência está relacionado com uma utilização mais eficaz dos recursos, um coping mais eficaz e uma grande capacidade de resiliência. O Sentido Interno de Coerência tem vindo a ser relacionado com baixos níveis de depressão, ansiedade, stress e sintomas físicos, pertencentes a quadros patológicos, mas também, com bem-estar em geral, bem-estar psicológico e físico, bem como capacidade funcional (Berstein e Carmel, 1987, 1991; Bowman, 1996; Carmel e Berstein, 1989; Flannery e Flannery, 1990; Flannery, Perry, Penk, e Flannery, 1994; Frommberger et al., 1999; McSherry e Holm, 1994; Rennemark e Hagberg, 1999; Schnyder, Buechi, Sensky, e Klaghofer, 2000). Assim este estudo tem como objectivo principal reflectir sobre a importância do Sentido Interno de Coerência nas medidas de bem-estar, traduzidas aqui; mais especificamente em: Satisfação com a Vida, Afectividade Positiva/Negativa, Depressão e Percepção do Estado de Saúde. Nesta linha orientadora foram definidos ainda, alguns objectivos específicos: a) Conhecer as relações existentes entre o Sentido Interno de Coerência e outras medidas de avaliação do bem-estar: Bem-estar subjectivo (Satisfação com a Vida e Afectividade Positiva/Negativa), Depressão e Percepção do Estado de Saúde. b) Conhecer a importância das variáveis demográficas e outras medidas de avaliação do bem-estar no Sentido Interno de Coerência. c) Conhecer as relações existentes entre as componentes do Sentido Interno de Coerência e o Sentido Interno de Coerência no Global. As hipóteses a investigar no decurso do presente estudo encontram a sua fundamentação na análise e conhecimentos fornecidos pela literatura especializada referida no segundo capítulo. Tendo em conta o objectivo geral da investigação e as dimensões do estudo que nos propusemos analisar, formulamos as seguintes hipóteses operacionais: > Capítulo III > Estudo Empírico >
71 Hipótese 1 – Não existe diferenças significativas segundo o sexo e o estado civil, no valor global do Sentido Interno de Coerência. Hipótese 2 – Não existe diferenças significativas no valor de Sentido Interno de Coerência segundo a idade. Hipótese 3 – Existem diferenças significativas segundo a classificação social dos sujeitos (Categoria profissional, Habilitações académicas, Fontes de Rendimento; Conforto e Local do alojamento) no valor global do Sentido Interno de Coerência. Hipótese 4 – Existem diferenças significativas nos valores do Sentido Interno de Coerência segundo a percepção do estado de saúde. Hipótese 5 – Existe uma relação significativa inversa (negativa) entre o Sentido Interno de Coerência, a Depressão e o Afecto Negativo. Hipótese 6 – Existe uma relação significativa positiva entre a “Escala de Satisfação com a Vida” e a “Afectividade Positiva”. Hipótese 7 – As variáveis demográficas apresentam uma influência/ peso menor do que as medidas de avaliação do bem-estar (Bem-estar subjectivo e Depressão) no Sentido Interno de Coerência. Após a definição dos objectivos e hipóteses, passaremos a descrever, de forma sumária, a caracterização do grupo de estudo ou amostra. III.2 - Método III.2.1 - Amostra O conjunto de sujeitos que constituem o alvo deste estudo foi seleccionado por duas Universidades Seniores de duas cidades próximas da zona de residência: a Academia de Cultura e Cooperação de Santa Maria da Feira ou Universidade Sénior de Santa Maria da Feira e a Associação de Cultura e Ensino de Espinho ou Universidade Sénior de Espinho. Apesar de a amostra inicial ser composta por 104 sujeitos, esta foi reduzida para 99 sujeitos após eliminar > Capítulo III > Estudo Empírico >
78 etários. Também em ambos os sexos se pode notar um ligeiro aumento dos valores de 1995/96 para os de 1998/99. Por outro lado, as mulheres consideraram o seu estado de saúde como “mau” ou “muito mau” mais frequentemente do que os homens, podendo observar-se uma diminuição em ambos os sexos entre os dois INS. O comportamento da categoria “razoável” parece não ter variado de forma apreciável entre ambos os INS. A categoria “muito bom” não sofreu variação. A percentagem de pessoas que apreciaram o seu estado de saúde como “muito bom” ou “bom” decresce ainda com a idade, em ambos os sexos, o que corresponde a uma percepção do estado de saúde como “mau” ou “ muito mau” mais frequentemente pelos mais idosos. De referir, ainda, uma discriminação mais nítida entre os sexos a partir do grupo etário dos 45 aos 54 anos (Graça, 2001). Escalas de avaliação do afecto Positivo/Negativas (PANAS) Para proceder a avaliação da componente afectiva do Bem-estar Subjectivo recorreu-se às escalas de avaliação do afecto positivo e negativo ou PANAS (Positive anda Negative Affect Schedule). Desenvolvidas por Watson, Clark e Tellegnen em 1988 e aferidas à população portuguesa por Simões em 1993, avaliam o afecto positivo e negativo através de 11 itens cada uma, numa escala de tipo Likert em cinco pontos, que varia do muito pouco ou nada (1) até ao muitíssimo (5). Partindo de um conjunto de adjectivos positivos (Interessado, Estimulado, Forte, Entusiasmado, Orgulhoso, Atento, Inspirado, Decidido, Atencioso, Activo, e Emocionado) e negativos (Aflito, Aborrecido, Culpado, Assustado, Hostil, Irritado, Envergonhado, Nervoso, Agitado, Medroso, Magoado), é pedido aos sujeitos que refiram como se tem sentido na última semana, no que respeita ao conteúdo afectivo indicado. É feito o somatório dos escores obtidos para obter a medida de afectividade positiva (PA) e a medida de afectividade negativa (NA). Tal como é referido pelos autores, estas escalas mostram estar dotadas de uma elevada consistência interna, bem como uma boa estabilidade. Indicaram bons índices de consistência interna, bem como de validade discriminante e de construto. Escala Geriátrica de Depressão A Escala Geriátrica de Depressão – Geriatric Depression Scale (GDS) – traduzida, aferida e adaptada à população portuguesa por Veríssimo (1988), na > Capítulo III > Estudo Empírico >
79 “Avaliação diagnóstica dos Síndromes Demenciais”, proposta no serviço de neurologia e neurocirurgia do Hospital S. João do Porto. Esta escala construída inicialmente por Brink, Yesavage, Lum, Heersema, Adey e Rose, em 1982, é segundo os mesmos autores, o único instrumento que se conhece que terá sido elaborado com o objectivo de ser utilizado, especificamente, para pessoas idosas. Para além disso, elimina a confusão, geralmente presente em outros instrumentos de avaliação da depressão, entre indicadores somáticos da depressão e manifestações físicas normais da velhice (Ballesteros, 1992 cit in Fernandes, 2000). Trata-se de uma escala de hetero-avaliação, composta por vinte e oito itens, com duas alternativas de resposta (sim ou não), consoante o modo como o idoso se tem sentido ultimamente, em especial na semana transata. Como procedimento para a cotação da GDS, deve atender-se que os itens 1, 5, 7, 9, 15, 19, 21 e 27, devem ser pontuados negativamente; isto é uma resposta “Não” corresponde um ponto. Aos itens 2,3,4,6,8,10,11,12, 13,14,16,17,18,20,22,23,24,25,26,e,28, será atribuído um ponto à resposta positiva “Sim”. Veríssimo (1998, cit in Fernandes, 2000) sugere que, para a quantificação dos resultados se proceda à seguinte classificação: valores de 0-10 pontos – idosos normais; pontuações iguais ou superiores a 11 são indicativas de depressão em severidade crescente; uma pontuação média de 23 é indicadora de idosos gravemente deprimidos. No presente caso, para o estudo do Sentido Interno de Coerência e a sua relação com as variáveis em estudo, utilizámos os valores absolutos obtidos da quantificação das respostas na escala Geriátrica de Depressão para estatísticas correlacionais. Escala de avaliação do Sentido Interno de Coerência Tal como Antonovsky (1987) refere, o Sentido Interno de Coerência do indivíduo é uma orientação global que define a capacidade com a qual o individuo com um persistente e dinâmico sentimento de confiança encara (1) os estímulos emanados dos meios internos ou externos de uma existência como estruturados, preditíveis e explicáveis (capacidade de compreensão - Comprehensibility); (2) que o individuo tem ao seu alcance recursos para satisfazer as exigências > Capítulo III > Estudo Empírico >
80 colocadas por esses estímulos (capacidade de gestão - maneability); e (3) que essas exigências são desafios capazes de catalisar o investimento e o empeno do indivíduo (capacidade de investimento - Meaningfulness). Para proceder à avaliação do Sentido Interno de Coerência, Antonovsky desenvolveu o questionário orientação para viver, em inglês: orientation to life questionnaire (OLQ) – composto por 29 itens, exprimindo-se a resposta sobre um referencial semântico posicionado entre duas frases de referência, para medir o Sentido Interno de Coerência. Da sua validação para o português (n= 643, Nunes, 1999) encontraram-se os seguintes resultados que reforçam a pertinência transcultural deste constructo: • Elevada consistência interna (Alpha de Cronbach de .83 a .90); • Validade convergente com o Locus de Controlo Interno-Externo (r= +.36); • Validade convergente com a avaliação subjectiva da saúde (r= +.31); • Validade discriminante com o Teste de Ansiedade (r=-.27); • Validade discriminante com o Isolamento (r=-.45); • Validade discriminante com o traço de stress (r=-.23); • Consistência e validade interna da escala em situações de re-teste(r=.88). A pontuação de cada uma das sub - escalas obtém-se somando as pontuações dos itens respectivos, sendo os itens 1, 4, 5, 6, 7, 11, 13, 14, 16, 20, 23, 25 e 27 a inverterem. O valor do Sentido Interno de Coerência – SIC é o resultado da soma de todos os itens. III.2.3 - Procedimento Após o contacto precedente da investigadora com as Instituições e da posterior autorização da mesma para a recolha de dados, esta deslocou-se às instalações das Instituições, onde administrou o instrumento de avaliação aos sujeitos, durante as diferentes actividades de grupo decorridas na Instituição. A técnica de aplicação escolhida foi a administração directa sendo o questionário entregue e recolhido pela entrevistadora. A aplicação do instrumento de estudo aconteceu em duas condições diferentes, tendo em conta as exigências da Instituição. Assim sendo, na Universidade Sénior de Santa Maria da Feira, a aplicação do instrumento foi colectiva e > Capítulo III > Estudo Empírico >
81 decorreu no âmbito das diferentes salas de aulas /actividades, no horário e data prevista pela Instituição. Na Universidade Sénior de Espinho, a administração era colectiva estando os sujeitos organizados em grupos de aproximadamente 6 elementos, escolhidos aleatoriamente das diferentes salas de aulas. Estes sujeitos eram acolhidos num espaço cedido pela Instituição para o efeito. Este procedimento na nossa opinião, condicionou o número reduzido de questionários recolhidos nesta Instituição. Em ambas Instituições, o questionário era lido e explicado em voz alta pela investigadora, procedendo numa segunda fase ao preenchimento autónomo por parte dos sujeitos. Em casos particulares, quando as pessoas têm um nível de instrução baixo, aconselha-se que a aplicação do instrumento seja feita em voz alta, individualmente, sendo os resultados anotados pelo investigador. Antes de proceder à entrega dos questionários, foi explicado por parte da investigadora a necessidade, importância e objectivo geral do estudo bem como as tarefas a realizarem. Foi garantida também a condição de voluntariado e confidencialidade dos dados obtidos. Foi pedido que os sujeitos não assinassem os questionários, atribuindo a cada um deles um número de identificação. Constituiu-se um único critério de exclusão ou de não participação todos aqueles sujeitos que apresentavam anomalia psíquica ou debilidade mental. A aplicação e recolha dos questionários realizaram-se durante o mês de Julho de 2006, na sede da Instituições referidas anteriormente. Estudo piloto / pré-teste A submissão a pré-teste dos inquéritos ocorreu durante o mês de Junho de 2006 com os seguintes objectivos: • Verificar a sua adequação; • Detectar e corrigir os erros e as incoerências introduzidos pelo investigador; • Medir o tempo de preenchimento dos suportes de recolha de informação; • Ponderar e minimizar as dificuldades que se venham a revelar ao longo do processo de investigação. > Capítulo III > Estudo Empírico >
82 Testado perante um conjunto de indivíduos excluídos da amostra (15 indivíduos), das mesmas instituições, verificou-se que, a tradução das questões usadas por Antonovsky, era adequada às características da população em questão. Foram, entretanto, realizadas as correcções e alterações necessárias nas seguintes perguntas: • Anulação do item 7 - rendimento mensal bruto – pertencente a escala de classificação social de Graffar e resultado de um pedido formal das Instituições que foram alvo do estudo. • Reformulação do aspecto gráfico da V parte do questionário representado na horizontal. Procedeu-se à análise estatística preliminar para identificar a possibilidade de trabalho. Testado o tempo de preenchimento, a compreensão, a pertinência, a unicidade e a receptividade das questões dos suportes de recolha de informação, torna-se possível avaliar se este processo se enquadra nos objectivos definidos pela presente investigação. Relativamente à administração do questionário foram tidos em conta vários factores: participação, tempo dispendido no preenchimento e dúvidas ou dificuldades sentidas ao longo da administração. Assim, pudemos constatar que os inquiridos reagiram de duas maneiras diferentes ao questionário; por um lado, a recusa peremptória sem manifestação de razão ou justificação e, por outro lado, a participação e boa receptividade da maioria dos inquiridos. Relativamente ao tempo dispendido no preenchimento do questionário, foi registado um tempo médio de 25 minutos para a totalidade do inquérito. Quanto as dificuldades sentidas ao longo da administração do questionário, foi possível constatar que, na generalidade, a amostra não levantou dificuldades no seu preenchimento. As dúvidas sentidas durante a administração centraram-se na leitura e interpretação dos itens e a tradução das respostas nos diferentes pontos de Lickert das escalas. > Capítulo III > Estudo Empírico >
83 III.2.4 - Análise estatística utilizada A informação recolhida foi tratada numa base de dados e processada no programa de estatística SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 14.0 para Windows. Cada item foi categorizado com códigos numéricos e/ ou com as suas iniciais. De forma geral, a análise estatística baseou-se na determinação dos valores de distribuição de frequências, tanto para valores absolutos e relativos, valores médios e desvio padrão. Foram também aplicados testes estatísticos inferenciais para a análise de diferenças ou homogeneidade da população em estudo. No entanto, antes da análise estatística objectiva, procedeu-se em primeiro lugar a análise preliminar dos dados, nomeadamente dos valores omissos. Neste sentido, numa primeira abordagem foram eliminados todos os questionários que apresentavam mais de 50% dos itens não respondidos, reduzindo o número de questionários de 104 para 99. Numa segunda abordagem e tendo em conta os valores omissos ainda presentes nos questionários, procedeu-se à substituição destes pela média da variável respectiva, quando tal era exequível. Feita a análise preliminar dos dados, procedeu-se à determinação dos valores de distribuição de frequência em valores absolutos e relativos de algumas variáveis, fazendo a recodificação posterior das mesmas. É o caso da variável idade (de variável métrica para variável ordinal com duas categorias); da variável estado civil (que mantém a condição de variável ordinal, mas passa de quatro categorias para duas); da variável habilitações académicas (que mantém a condição de variável ordinal, mas assume duas categorias, em vez dos cinco níveis iniciais); e da variável percepção do estado de saúde (que assume inicialmente quatro categorias e passa a conter duas categorias). Para além de recodificar algumas variáveis procedeu-se também à inversão dos dados de algumas escalas, nomeadamente, o Questionário de Orientação para Viver (QOV) e a Escala Geriátrica de Depressão. Antes de entrar na análise estatística inferencial e correlacional, procedeu-se à avaliação dos índices de validade das diferentes escalas envolvidas no estudo, determinando o valor de consistência interna Alpha de Cronbach; > Capítulo III > Estudo Empírico >
84 bem como a análise factorial da escala de avaliação do Sentido Interno de Coerência. Dentro dos testes estatísticos inferenciais, procedeu-se, ainda, à análise de diferenças de médias, através da determinação do valor de T de Student, no caso das variáveis ordinais e que corresponde à generalidade das variáveis demográficas e à variável “Percepção do Estado de Saúde”. No caso das variáveis numéricas procedeu-se, após análise descritiva e a análise correlacional, a determinação do coeficiente de correlação de Pearson. Para concluir e com o intuito de reflectir acerca da importância das variáveis demográficas e das medidas de bem-estar nos valores de Sentido Interno de Coerência, procedeu-se à operacionalização da regressão linear simples. III.3 - Apresentação e discussão dos resultados Constitui um dos objectivos do estudo proceder à sua apresentação de acordo com a metodologia prevista, podendo efectuar-se uma reflexão sobre os resultados obtidos. III.3.1 - Caracterização da amostra (Estatística descritiva de variáveis demográficas) Número de sujeitos O conjunto de sujeitos que constituem o alvo deste estudo foi seleccionado por duas Universidades Seniores de duas cidades próximas da zona de residência: a Academia de Cultura e Cooperação de Santa Maria da Feira ou Universidade Sénior de Santa Maria da Feira e a Associação de Cultura e Ensino de Espinho ou Universidade Sénior de Espinho. Apesar de a amostra inicial ser composta por 104 sujeitos, esta foi reduzida para 99 sujeitos após eliminar os questionários que apresentavam um grande número de respostas omissas (superior a 50% dos itens totais). Idade A amostra final de sujeitos é constituída por 99 sujeitos, sendo 71 frequentadores da Universidade Sénior de Santa Maria da Feira e 28 frequentadores da Universidade Sénior de Espinho; com idades compreendidas entre os 48 > Capítulo III > Estudo Empírico >
85 e 85 anos (M = 64,83; SP= 7.9); pertencendo 48,4% à meia-idade ou “adultos maduros” (idades compreendidas entre 48-64 anos) e 51,6% pertencendo à última adultez ou “idosos” (idades compreendidas entre 65 – 85 anos). Sexo Do ponto de vista da composição sexual, a amostra era constituída por indivíduos de ambos os sexos, num total de 99 sujeitos, dos quais 19 (19,2%) eram homens e 80 (80.8%) eram mulheres. Tendo em conta o estado civil, a maioria encontram-se “casados ou vivendo com pessoas significativas” (68%) e os restantes “sozinhos/viúvos/solteiros/divorciados ou separados” (32%). Habilitações Académicas O seu nível de instrução ou habilitações académicas são elevadas, já que 62,6% apresentam 12 ou mais anos de escolaridade e apenas 37,4% apresentam 12 ou menos anos de escolaridade. Fonte de Rendimento Tal como podemos constactar pela leitura do quadro 5, 60,2% da amostra são pensionistas ou reformados, enquanto que 36,7% aufere um rendimento mensal fixo, resultado de uma actividade remunerada. Destacam-se ainda, 3,1% que auferem altos honorários ou lugares bem remunerados. Percepção do Estado de Saúde No que respeita à sua saúde, 58,6% consideram o seu estado de saúde mau ou razoável, enquanto 41,4% consideram o seu estado de saúde bom ou muito bom. Grupo Profissional Relativamente à profissão exercida no Presente/Passado, 70% pertence ao grupo 2 da Escala de Classificação Social de Graffar (Composto por administradores de empresas públicas/privadas, funcionários titulares de cargos de elevada responsabilidade e comerciantes); 25% ao grupo 3 da mesma escala (Composto pelos pequenos industriais/comerciantes, encarregados, operários qualificados, > Capítulo III > Estudo Empírico >
86 funcionários públicos/administrativos e secretárias); 2,5% ao grupo 1 (profissões liberais, professores universitários, directores de empresas/fábricas/bancos, executivos e oficiais das forças armadas); 1,3% ao grupo 4 (Operários semi-qualificados e empregados de comércio) e 1,3% ao grupo 5 (Mão-de-obra não qualificada, serventes de obras, pessoal de limpeza e trabalhadores rurais). Quadro 5 Estatísticas descritivas de variáveis demográficas Variáveis n /% Idade Adultos Maduros 45(48,6) Idosos 58 (51,6) Sexo Masculino 19 (19,2) Feminino 80 (80,2) Estado Civil Casados ou vivendo com pessoas significativas 66 (68) Sozinhas 31 (32) Habilitações académicas <12 Anos 37 (37,4) >12 Anos 62 (62,6) Fonte de Rendimento Altos honorários/lugares bem remunerados 3 (3,1) Vencimento mensal fixo 36 (36,7) Pensionistas/reformados 59 (60,2) Percepção do estado de saúde Mau ou Razoável 58 (58,6) Bom ou Muito Bom 41 (41,4) Profissão Grupo 1 2 (2,5) Grupo 2 56 (70) Grupo 3 20 (25) Grupo 4 1 (1,3) Grupo 5 1 (1,3) Local de Residência Zona residencial elegante 26 (27,7) Bairro residencial bom 63 (67) Zona antiga 5 (5,3) Conforto do Alojamento Casa ou andar luxuoso 11 (11,2) Casa ou andar confortável 66 (67,3) Casa ou andar modesto 19 (19,4) Casa ou andar degradado 2 (2,0) > Capítulo III > Estudo Empírico >
87 Local de Residência Tendo em conta o local de residência operacionalizado pela escala de classificação social de Graffar, 27,7% reside numa zona residencial elegante; 67% numa zona residencial boa e 5,3% reside na zona antiga da cidade. Conforto do Alojamento No que respeita ao conforto do alojamento 67,3% reside em casa ou andar confortável; 19,4% em casa ou andar modesto; 11,2% reside em casa ou andar luxuoso e 2% em casa ou andar degradado. III.3.2 Estatística descritiva de variáveis contínuas O quadro 6 apresenta as estatísticas descritivas das variáveis contínuas do estudo. Idade Relativamente à variável idade, podemos verificar que se trata de uma amostra com uma considerável dispersão (SP = 7,9) e um campo de variação que se estende dos 48 aos 85 anos. O eSICre médio da idade é de 64,83. Sentido Interno de Coerência Para irmos de encontro àquilo que nos propusemos neste estudo, é-nos fundamental avaliar o Sentido Interno de Coerência nesta amostra de idosos. Pela análise do quadro 6 podemos retirar conclusões importantes para a situação de estudo. Relativamente ao questionário de orientação para viver, que avalia a dimensão Sentido Interno de Coerência (SIC), podemos verificar que o escore médio é de 130,64, com um desvio padrão de 22,14 e uma amplitude que varia entre os 87 e 177, apresentando um valor inferior à média da escala (mediana = 131). Tais valores são comparáveis aos obtidos na revisão sistemática acerca deste construto realizado por Eriksson e Lindstrom (2005) e que variam entre 100,50 (SP 28,50) e 164,50 (SP 17,10). Mantendo um olhar atento sobre as estatísticas apresentadas no quadro 6, a análise das diferentes componentes do Sentido Interno de Coerência > Capítulo III > Estudo Empírico >
94 Quadro 9 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base no sexo Variável n Sentido interno de coerência Sexo t = 2,18 sig .03* Masculino 19 140,38 Feminino 80 128,32 Nota: *p < .05 Quanto à variável estado civil, podemos constatar que o grupo de estudo foi dividido em dois sub-grupos: “Casados ou vivendo com pessoas significativas” (n = 66) e “Sozinhas” (n = 31). Desta análise podemos constatar que estas amostras apresentam uma distribuição com uma concentração ligeiramente diferente em torno da mediana e níveis de SIC não muito distintos, embora o valor médio do SIC do grupo “Sozinhas” esteja acima do valor médio do SIC do grupo “Casados ou vivendo com pessoas significativas”. Pela aplicação do teste t de Student com o valor de 0,58 e p de 0,57 (> 0,05), concluímos não existirem diferenças entre as médias do grupo “Casados ou vivendo com pessoas significativas” e do grupo “Sozinhas”. Remetendo para a Hipótese 1 do estudo e em simultâneo para a variável “estado civil”, podemos constatar que esta não se encontra confirmada, uma vez que não existem diferenças significativas nos valores de Sentido Interno de Coerência. Quadro 10 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base no estado civil Variável n Sentido interno de coerência Estado civil t = .58 sig .57 Casados ou vivendo com pessoas significativas 66 129,75 Sozinhas 31 132,56 > Capítulo III > Estudo Empírico >
95 Quanto a percepção do estado de saúde dos idosos, podemos verificar que o grupo foi dividido em dois subgrupos diferentes: os que consideram o seu estado de saúde como sendo “Mau ou Razoável” (n = 58) e os que consideram o seu estado de saúde como “Bom ou Muito Bom” (n = 41). Pela leitura do quadro 11, podemos verificar que os indivíduos que percepcionam o seu estado de saúde como sendo “Mau ou Razoável” apresentam valores médios (126,92) inferiores à mediana, assim como valores médios inferiores quando comparados com o grupo de indivíduos que percepcionam o seu estado de saúde como “Bom ou Muito Bom” (135, 89) . Pela aplicação do teste t de Student com o valor de – 2,01 e p de 0,046 (< 0,05), concluímos existirem diferenças significativas entre os indivíduos que consideram o seu estado de saúde como sendo “Mau ou Razoável” e os indivíduos que consideram o seu estado de saúde como sendo “Bom ou Muito Bom”. Estes resultados confirmam a Hipótese 4 do estudo, que sugere a existência de diferenças significativas nos valores do Sentido Interno de Coerência segundo a percepção do estado de saúde. Quadro 11 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base na percepção do estado de saúde Variável n Sentido interno de coerência Percepção do estado de saúde t = -2,01 sig .04* Mau ou razoável 58 126,92 Bom ou muito bom 41 135,89 Nota: *p < .05 A leitura do quadro 12 permite constatar que os valores de Sentido Interno de Coerência não são diferentes entre os grupos etários diferentes; o que nos permite confirmar a Hipótese 2 – Não existem diferenças significativas no valor de Sentido Interno de Coerência segundo a idade. Explorando mais cuidadosamente os dois grupos amostrais e seus valores médios de Sentido Interno de Coerência, podemos constatar que situam-se abaixo da média da escala, mas > Capítulo III > Estudo Empírico >
96 não diferem muito entre si. Os Adultos Maduros apresentam um valor médio de 130,85, enquanto que os Idosos apresentam um valor médio de 130,57. Quadro 12 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base na idade Variável n Sentido interno de coerência Idade t = .06 sig .95 Adultos maduros 45 130,85 Idosos 48 130,57 Um dos estudos mais importantes desenvolvido nesta área é o de Lundberg (1993 cit in Nunes 1999). Após a administração da escala a 3949 pessoas com idades compreendidas entre os 25 e os 75 anos, Lundberg reparou que existia uma relação directa e significativa entre um baixo Sentido Interno de Coerência e uma posição inferior na estratificação social. De facto, foi esta preposição que conduziu a elaboração da Hipótese 3 deste trabalho e que sugere a existência de diferenças significativas segundo a classificação social dos sujeitos, mais especificamente, quando são analisadas as variáveis: categoria profissional, habilitações académicas, Fontes de Rendimento; Conforto e Local do alojamento. Se tivermos em conta a variável habilitações académicas, esta encontra-se subdividida em duas amostras diferentes. O grupo dos indivíduos que apresentam habilitações académicas superiores a 12 anos (n = 62) e os que apresentam habilitações académicas inferiores a 12 anos (n = 37). Da análise feita pela leitura do quadro 13, podemos verificar uma distribuição com concentração ligeiramente diferente em torno da mediana, com níveis de SIC não muito distintos, embora o valor médio do SIC do grupo de indivíduos com habilitações académicas inferior a 12 anos apresentem um valor médio de SIC (132,12) ligeiramente elevado, comparativamente ao valor médio de SIC do grupo de indivíduos com habilitações académicas superior a 12 anos (129,75). > Capítulo III > Estudo Empírico >
97 A aplicação do teste t de Student com o valor de -0,51 e p de 0,61 (> 0,05) aponta para a não existência de diferenças significativas entre ambos os grupos. Quadro 13 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base nas habilitações académicas Variável n Sentido interno de coerência Habilitações académicas t = - .51 sig .61 <12 Anos 37 132,12 >12 Anos 62 129,75 Tal como foi referido anteriormente, relativamente à profissão exercida actualmente ou no passado pelos participantes seguimos a distribuição de acordo com a escala proposta por Graffar, (adaptada por Amaro, 1990, in Palminha, 1993). Neste sentido, pode verificar-se que os vários grupos profissionais apresentam valores próximos à mediana, com excepção do grupo profissional 3 (composto pelos pequenos industriais/comerciantes, encarregados, operários qualificados, funcionários públicos/administrativos e secretárias) e 4 (composto pelos Operários semi-qualificados e empregados de comércio); que apresentam valores médios inferiores à média da escala (129,39 e 99; respectivamente). O grupo 5 (composto por operários com mão-de-obra não qualificada, serventes de obras, pessoal de limpeza e trabalhadores rurais) apresenta o valor médio mais elevado (146,64). Apesar da dispersão dos valores médios existente entre os diferentes grupos profissionais, a aplicação do teste t de Student, sugere um valor de t de 0,65 e p de 0,63 (> 0,05), pelo qual se conclui que não existem diferenças significativas entre os indivíduos pertencentes aos diferentes grupos profissionais. > Capítulo III > Estudo Empírico >
98 Quadro 14 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base no grupo profissional Variável n Sentido interno de coerência Profissão F = .65 sig .63 Grupo 1 2 130 Grupo 2 56 131,83 Grupo 3 20 129,39 Grupo 4 1 99,00 Grupo 5 1 146,64 Relativamente à variável Fontes de Rendimento, podemos verificar que os indivíduos cujo rendimento depende dos altos honorários ou funções bem remuneradas apresentam valores mais elevados de SIC (138,42), colocandose este valor ligeiramente acima do valor médio da escala. O segundo lugar é ocupado pelos indivíduos cujo vencimento depende de um vencimento mensal fixo, que apresenta um valor ligeiramente acima do valor da mediana (135,41), mas ligeiramente abaixo dos indivíduos que cujo rendimento depende dos altos honorários ou funções bem remuneradas. O último lugar é ocupado pelos indivíduos pensionistas ou reformados que apresentam valores médios inferiores à média da escala (127,40). Aplicando o teste t de Student (que sugere um valor t de 1,66 e p 0,19), podemos verificar que não existem diferenças significativas entre indivíduos com diferentes fontes de rendimento. Quadro 15 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base nas fontes de rendimento Variável n Sentido interno de coerência Fonte de Rendimento F = 1,66 sig .19 Altos honorários/ lugares bem remunerados 3 138,42 Vencimento mensal fixo 36 135,41 Pensionistas/ reformados 59 127,40 > Capítulo III > Estudo Empírico >
99 Tendo em conta a variável Local de Residência, podemos constatar que os diferentes grupos apresentam uma distribuição com concentração ligeiramente diferente em torno da mediana, com níveis de SIC não muito distintos, embora o valor médio do SIC do grupo que habita em zona residencial elegante (139,45) apresente um valor médio superior aos grupos que habitam em zona residencial boa (126,97) ou antiga da cidade (108,29). Pela leitura do quadro 16, podemos verificar, ainda, que o grupo que habita em zona residencial elegante apresenta um valor médio superior ao valor médio da escala, ao contrario dos grupos que residem em zona residencial boa ou antiga da cidade e que apresentam valores médios inferiores à média da escala. Apesar da dispersão dos valores médios existente entre os diferentes grupos, a aplicação do teste t de Student, sugere um valor de t de 6,72 e p de 0,00, pelo qual se conclui que existem diferenças significativas entre os indivíduos. Quadro 16 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base no local de residência Variável N Sentido interno de coerência Local de Residência F = 6,72 sig .00 Zona residencial elegante 26 139,45 Bairro residencial bom 63 126,97 Zona antiga 5 108,29 Tendo em conta a variável Conforto do Alojamento, podemos verificar que os diferentes grupos apresentam uma distribuição com concentração ligeiramente diferente em torno da mediana, com valores que sugerem pela aplicação do teste t de Student, a existência de diferenças significativas entre os indivíduos com diferentes níveis no conforto do alojamento. O grupo que apresenta um valor médio de Sentido Interno de Coerência mais elevado é o grupo que reside em “casa ou andar luxuoso ou confortável” (140,57); seguido pelos que residem em “casa ou andar modesto ou degradado” (119,44). > Capítulo III > Estudo Empírico >
100 Quadro 17 Análise comparativa do Sentido Interno de Coerência com base no conforto de alojamento Variável n Sentido interno de coerência Conforto do alojamento F = 6,97 sig .00 Casa ou andar luxuoso ou confortável 77 140,57 Casa ou andar modesto ou degradado 21 119,44 Tal como foi apresentado anteriormente, os resultados das variáveis pertencentes à escala de classificação social de Graffar, sugerem que os factores associados ao contexto cultural e social, assim como as experiências de vida exercem influência no Sentido Interno de Coerência dos indivíduos idosos. Contudo, os resultados obtidos pelos itens da dita escala, administrada à amostra em estudo sugerem não existir diferenças significativas quando são tidos em conta as seguintes variáveis: Habilitações Académicas, Profissão, Fontes de Rendimento, Local de Residência e Conforto do Alojamento; desta forma verificamos que a Hipótese 2 não é confirmada para a população em estudo. III.3.5 Estatística Correlacional Tendo por base um dos objectivos de estudo - conhecer as relações existentes entre o Sentido Interno de Coerência, a idade, outras medidas de avaliação do bem-estar: Bem-estar subjectivo (Satisfação com a Vida e Afectividade Positiva/Negativa) e a Depressão - procedeu-se a aplicação de testes de significância estatística. A matriz de correlações de Pearson para o Sentido Interno de Coerência e as restantes medidas de avaliação do bem-estar encontra-se resumida no quadro 18. Pela análise dos resultados apresentados, constatamos que existe uma correlação negativa e significativa (p < 0,01) entre o SIC e a Depressão, assim > Capítulo III > Estudo Empírico >
101 como entre o SIC e a escala negativa de afectividade - NA. Desta forma vemos aqui confirmada a Hipótese 5 e que apontava para a existência de uma relação significativa inversa (negativa) entre o Sentido Interno de Coerência, a Depressão e o Afecto Negativo. Por outro lado, podemos verificar que existe uma relação positiva e significativa (p<0,01) entre o SIC e a escala positiva de afectividade – PA. Relativamente as variáveis “percepção do estado de saúde” e “satisfação com a vida”, podemos verificar que estas apresentam uma relação positiva, contudo não significativa. Desta forma, e remetendo à análise a Hipótese 6 – Existe uma relação significativa positiva entre a Escala de Satisfação com a Vida e a Afectividade Positiva – podemos verificar que esta hipótese está parcialmente confirmada no que confere à variável “escala positiva da afectividade”; não se confirmando, por sua vez, no que confere à variável “Satisfação com a Vida”. Quadro 18 Correlações entre o Sentido Interno de Coerência e as restantes escalas de avaliação do bem-estar Idade SWLS GDS SIC PA NA Idade 1 SWLS . 14 1 GDS .08 .07 1 SIC .047 .05 - .29(**) 1 PA -.21 (*) .12 -.29(**) .48(**) 1 NA -. 07 -. 009 .27(**) -. 49(**) -. 01 1 Nota: *p < .05 ; **p < .01 As mesmas correlações encontram-se na mesma perspectiva, quando as componentes do Sentido Interno de Coerência são analisadas em separado (Quadro 19). Assim, para as componentes Compreensão (CCom); Gestão (Cgma) e Investimento (Cimea) existe uma correlação negativa e significativa entre (p < 0,01) a Depressão e a escala negativa de afectividade – NA; enquanto que existe uma correlação positiva significativa (p < 0,01) entre as componentes do SIC e a escala positiva de afectividade – PA. Tal como era esperado, é possível verificar que as componentes do Sentido Interno de Coerência encontram-se significativamente relacionadas com o > Capítulo III > Estudo Empírico >
102 SIC no global. Assim, as correlações significativas (p <0,01) correspondem, a 0,86; 0,89 e 0,87, para as componentes compreensão; gestão e investimento, respectivamente. Estes valores situam-se, na sua generalidade, acima dos valores sugeridos por Gana (2001), que correspondem a 0,71, 0,79 e 0,84, para as componentes referidas anteriormente. Quadro 19 Correlações entre as componentes Sentido Interno de Coerência e as restantes escalas de avaliação do bem-estar SIC CCom CGma CImea Idade .47 .06 .11 -.04 SWLS .05 .11 .02 -.01 GDS -.29** - .34** -.21* -.24* SIC 1 .86** .89** .87** PA .48** .52** .38** .36** NA -.49** -.34** -.49** -.47** Saúde .16 .13 .13 .15 Nota: *p < .05 ; **p < .01 Tal como é sugerido pela literatura, algumas componentes de carácter demográfico (sexo, estado civil, classificação social, etc.), bem como, algumas medidas de bem-estar subjectivo encontram-se correlacionadas com o Sentido Interno de Coerência. A fim de compreender qual a influência destas medidas no SIC procedeu-se a uma análise de regressão. No presente caso, utilizou-se uma regressão múltipla “stepwise” para determinar as variáveis que predissessem o Sentido Interno de Coerência. Para a análise de regressão múltipla foi incluída um conjunto de variáveis contínuas: a idade, a escala positiva e negativa de afectividade; a escala de satisfação com a vida e a escala de depressão geriátrica. Quadro 20 Sumário da regressão hierárquica Modelo R R² F Sig F 1 .49 .24 31,27 .00 2 .68 .48 42,54 .00 > Capítulo III > Estudo Empírico >
103 Tendo em conta o poder preditivo das variáveis, apresenta-se no quadro 20 os diferentes coeficientes de regressão. Duas variáveis emergiram como preditoras significativas do Sentido Interno de Coerência. Tal como podemos verificar a variável afectividade negativa aparece no primeiro passo/modelo como um dos factores de maior poder preditivo. Curiosamente tal posição é mantida no segundo passo/modelo a par da variável afectividade positiva. Ambas as variáveis explicaram 48% da variância nos scores do Sentido Interno de Coerência. Quadro 21 Coeficientes de regressão Modelo BSP Beta t Sig 1 NA -1,76 .31 -.49 -5,59 .00 2NA -1,74 .26 -.49 -6,55 .00 PA 1,47 .23 .48 6,40 .00 Estes dados reforçam os anteriormente obtidos por Strumpfer e colaboradores em 1998, nos quais a escala negativa de afectividade (NA) e a escala positiva da afectividade (PA) relacionam-se significativamente com o SIC, sendo que a primeira assume um peso maior que a segunda e no seu conjunto contribui entre 25 e 47% na escala do SIC. Confirma-se, também, o que é defendido pela literatura, que diz que as escalas de afectividade surgem como os factores preditivos de maior importância, comparativamente às outras medidas de bem-estar (Compton et al;1996 e Wissing e van Eden, 1997). Neste caso, comparativamente às medidas de Satisfação com a Vida e Depressão. Os presentes resultados permitem extrair conclusões relativamente à Hipótese 7, na qual se alega que as variáveis demográficas apresentam uma influência/peso menor do que as medidas de avaliação do bem-estar (Bem-estar subjectivo e Depressão) no Sentido Interno de Coerência. De facto, nenhuma das variáveis demográficas do estudo entrou como factor predictor na análise de regressão múltipla e no caso das medidas de bem-estar (PANAS, Satisfação com a Vida e Depressão), apenas a afectividade positiva (PA) e afectividade negativa (NA) entraram como factor preditivo, explicando cerca de 47% da variância. Tal dado não nos permite retirar uma conclusão objectiva para a hipótese 7. Contudo, > Capítulo III > Estudo Empírico >
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ANEXOS > Anexo I - Questionário de Avaliação >
Questionário de Avaliação O presente questionário faz parte de uma investigação a decorrer no âmbito do mestrado em Psicologia do Idoso da Universidade do Porto e que tem como objectivo geral determinar a relação existente entre o sentido interno de coerência, as medidas de bem-estar subjectivo, a satisfação com a vida, a percepção de saúde e a depressão na população idosa. Não há respostas erradas, todas estão certas desde que sejam sinceras. O questionário é anónimo. Obrigada pela sua colaboração. I Parte Feminino _ _ _ Masculino _ _ _ 1.Sexo 2. Idade: ______ 3. Estado Civil Solteiro (a) ___ Casado ou vivendo com pessoas significativas (a) ___ Divorciado(a) ___ Viúvo(a) ___ 4.Profissão: ____________________________________ 5. Habilitações Literárias: ⋅ Curso Superior com duração de> 4 anos ⋅ Licenciatura ⋅ Mestrado ⋅ Doutoramento ___ ⋅ Curso Superior Politécnico ou outro com duração <3 ⋅ Bacharelato ___ ⋅ 12º Ano ⋅ Entre 9 e 12 anos de escolaridade ___ ⋅ Ensino Primário completo (Entre 4 a 9 anos de estudo) ___ ⋅ Ensino primário incompleto (menos de 4 anos) ⋅ Analfabeto ___ 6. Fontes do rendimento: Faça um círculo (só um em cada resposta) em volta do número que melhor corresponda à sua situação 1 2 3 4 5 Heranças ⋅ Rendimentos ou lucros de empresas e propriedades ⋅ Altos honorários ⋅ Lugares bem remunerados Vencimento mensal fixo ⋅ Remunerações inferior ao salário mínimo nacional ⋅ Pensionistas ou reformados ⋅ Vencimentos incertos ⋅ Subsídios de beneficência pública ou privada 7. Conforto do alojamento: Faça um círculo (só um em cada resposta) em volta do número que melhor corresponda à sua situação 1