Editorial
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5 EDITORIAL Educação e Gerações/Education and Generations éum número não temático, ainda que reúna artigos que, de alguma forma, abordam questões relacionadas com educação, tendo em mente diferentes grupos etários e que se substanciam em torno do que se pode considerar uma geração. Geração remete-nos para um grupo de pessoas que partilham entre si uma dada historicidade, isto é, uma temporalidade social aferida às balizas cronológicas que circunscrevem a sua vida e que, de alguma maneira, as contextualizam, circunscrevendo oportunidades e constrangimentos específicos, experiências comuns e percursos similares, diferenciando-se de outros grupos. Reenvia-nos, também, para os grupos geracionais que convivem no mesmo tempo histórico, ou seja, para a estratificação e coexistência etária de mais velhos e mais novos, de adultos, jovens, crianças e idosos. Bauman sublinha como as fronteiras que separam gerações não são claramente definidas, são ambíguas mas não podem ser ignoradas. Certamente que a noção de geração vive assumindo a homogeneidade em si. E, no entanto, tem havido variadas contribuições revelando heterogeneidades dentro de uma geração. Os/as leitores/as da Educação, Sociedade & Culturas (ESC) encontram, no número que agora se apresenta, artigos que, de diversas formas, abordam diretamente esse relacionamento de gerações. Outros tornam-se oportunidades para reflexão sobre temas centrais da educação, construindo-se de forma menos direta sobre questões geracionais. Éocaso do artigo «Elaboração de Programas Intergeracionais: O Desenho do Perfil Comunitário», de Susana Villas-Boas, Albertina Oliveira, Natália Ramos e Inmaculada Montero, em que as autoras se debruçam sobre a construção do perfil comunitário de uma comunidade mobilizando conhecimentos com a finalidade de trazer diversas gerações em contacto e comunicação. Também o artigo intitulado «O Envolvimento de Jovens no Ambiente Construído da Escola», de Ana Rute Costa, Sofia Marques da Silva e Francisco Barata Fernandes, foca o envolvimento de jovens no ambiente construído da escola e o potencial educativo que este processo pode adquirir, tornando-se visível a forma como uma geração é aqui invocada. «Breaking the Chains of Social
Exclusion? The Influence of Affective Inequality in Education», de Elsa Guedes Teixeira e Helena C. Araújo é uma contribuição em torno de percursos de inclusão social e profissional de mulheres com apoio do RSI e envolvidas em processos de educação/formação, podendo entender-se que o grupo etário envolvido, na proximidade dos 40 anos de idade, invoca uma geração de mulheres de grupos sociais com menores recursos económicos. Há também artigos que focam docentes na relação com processos profissionais educativos. Não se pode esquecer que as instituições educativas, as escolas, as universidades são lugares de estabelecimento de relações entre gerações. Evocar docentes e suas concepções ou processos da sua formação antecipa a relação para a qual esses processos são construídos. Assim, «Instruir, Socializar e Qualificar: O Ensino de Ciências Humanas e Sociais na Encruzilhada da Tripla Missão Socioeducativa da Escola Quebequense», de Anderson Araújo-Oliveira, aborda conceções de futuros docentes do ensino primário, no Quebeque, Canadá, sobre finalidades do ensino de ciências humanas e sociais a alunos/as do ensino primário, interrogando o impacto da formação inicial de futuros docentes nas suas perspetivas para a relação educativa a construir. Também «Concepções de Professores de Biologia sobreaProfissão docente», de Edinaldo Medeiros Carmo, Sandra Escovedo Selles e Maria Manuela Esteves, foca os saberes docentes na sua relação pedagógica, abrangendo docentes em diferentes fases da carreira, e, de alguma forma, de gerações diferentes. Com enfoque distinto, o texto de Jorge Ávila de Lima, «A Ação Educativa em Rede: Obstáculos eRecomendações», traz uma contribuição relevante para refletirmos sobre redes educativas, redes entreprofissionais de educação e comunidades. O autor acentua que estas têm sido apropriadas mais recentemente, como forma de confrontar o isolamento profissional de docentes, enquadrada em estratégias de reformas na educação. Não deixa de sublinhar que há pouca investigação produzida que possa revelar resultados capazes de responder a essa estratégia de forma a considerar como «produzindo» os resultados esperados. Recorrendo também ao conceito de «rede», ainda que especificamente o de «redes sociais», Felícia Figueiredo aborda o self-cyberbulling,aautoagressão e formas de prevenção, estudadas em pesquisa internacional. Por fim, «La Universidad Confinada por los Procesos de Evaluación y el Olvido a la Formación de Professores Universitarios», da autoria de Oscar Comas Rodríguez, Rosalía Susana Lastra e Carmen Barrera Rosado, aborda os desafios da Universidade no México, muito envolvida em processos das avaliações externas e internas assim como na acreditação de cursos, e também nos processos de gestão e de financiamento, em detrimento da formação e atualização do corpo docente, em tempos de grandes mudanças societais. Este númeroinclui ainda uma recensão da obra Una Maestra Republicana: El Viejo Futurode Julia Vigre (1916-2008),de Sonsoles San Román (2015), por PedroAbrantes que salienta o carácter da narrativa biográfica da professora republicana Julia Vigre na forma como está 6
entrelaçada com o desenrolar de acontecimentos e processos económicos, sociais e políticos que atravessam a Espanha durante o seu percurso biográfico, incluindo a longa ditadura e, depois, o renascer de uma vida democrática. Pretende sublinhar o carácter de análise e escrita rigorosa da autora e a forma como esta obra recupera a vida de uma professora primária representativa do «labor árduo, corajoso e invisível de muitos milhares de docentes, em prol da democracia, do desenvolvimento e da cultura, num momento histórico em que, não apenas a profissão docente, mas também esses valores matriciais da modernidade parecem colocados em causa, em Espanha, tal como em Portugal» (pp. 170-171). AESC agradece a colaboração e interesse de autores/as, avaliadores/as e leitores/as que, ao longo de 21 anos de edição, têm acompanhado e contribuído para o seu crescimento (num trajeto paralelo ao Centro de Investigação e Intervenção Educativas, que a edita), nos seus sucessos, na procura incessante de qualidade, mas também nos desafios e dificuldades que se têm colocado. A participação de todos/as neste projeto é essencial, esperando-se que continue a aumentar a sua internacionalização e visibilidade como importante veículo de difusão do conhecimento na área da educação. Helena C. Araújo 7