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Ambiente térmico e o seu impacto no Homem - análise numa perspectiva Homem/Ambiente/Trabalho

Célia Rodrigues,Joana Guedes,João Santos Baptista

Abstract

Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica de cariz sistemático que tenta interrelacionar numa perspectiva holística as três dimensões fundamentais do meio laboral. Pretende identificar as influências, directas e indirectas, de variáveis que interferem no comportamento humano, face às exigências ocupacionais e diferentes condições de ambiente térmico. A metodologia aplicada consiste no levantamento exaustivo de variáveis que intervêm no problema, numa perspectiva tridimensional, recorrendo a diferentes áreas do saber, através de ensaios experimentais, estudos de campo, modelação fenomenológica, entre outros, identificados na literatura científica. O mapeamento de relações apresenta, ainda, alguns vazios de conhecimento, que surgem aqui como campos exploratórios, cujas relações podem vir a explicar a variabilidade da resposta psicofisiológica aos diferentes ambientes térmicos. As diferentes condições de ambiente térmico influenciam a saúde, a segurança e a produtividade.

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Ref: CLME’2011_3711A AMBIENTE TÉRMICO E O SEU IMPACTO NO HOMEM - ANÁLISE NUMA PERSPECTIVA HOMEM/AMBIENTE/TRABALHO C. Rodrigues*, J.C. Guedes, J. Santos Baptista Universidade do Porto, Faculdade de Engenharia (CIGAR/LABIOMEP) Porto, Portugal *Email: pee[email protected] RESUMO: Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica de cariz sistemático que tenta interrelacionar numa perspectiva holística as três dimensões fundamentais do meio laboral. Pretende identificar as influências, directas e indirectas, de variáveis que interferem no comportamento humano, face às exigências ocupacionais e diferentes condições de ambiente térmico. A metodologia aplicada consiste no levantamento exaustivo de variáveis que intervêm no problema, numa perspectiva tridimensional, recorrendo a diferentes áreas do saber, através de ensaios experimentais, estudos de campo, modelação fenomenológica, entre outros, identificados na literatura científica. O mapeamento de relações apresenta, ainda, alguns vazios de conhecimento, que surgem aqui como campos exploratórios, cujas relações podem vir a explicar a variabilidade da resposta psicofisiológica aos diferentes ambientes térmicos. As diferentes condições de ambiente térmico influenciam a saúde, a segurança e a produtividade. 1. INTRODUÇÃO A temperatura afecta o homem e as sociedades das mais diversas formas. A própria cultura dos povos é influenciada pelas condições climáticas nas quais se desenvolve. À escala do indivíduo a temperatura e a humidade influenciam de forma indelével todo o seu comportamento. Essa influência vai desde a performance física à psicológica e afecta desde o rendimento do trabalho até às relações com outros indivíduos e com as próprias tarefas. Apresentar o ambiente térmico como factor central obriga a analisar o seu impacto em dois níveis diferentes. Um prende-se um com a capacidade individual de tolerar, melhor ou pior, o ambiente, e outro com o impacto na componente laboral, cuja performance, mediante as exigências das tarefas, será mais ou menos influenciada de acordo com o ambiente térmico em que se realizam. Há, portando, uma relação entre o Homem e o Ambiente (definição da tolerância ao calor de acordo com as características individuais), e entre o Ambiente e o Trabalho (impacto nos níveis de desempenho e produtividade mediante as exigências laborais em determinado contexto de ambiente térmico). Estas relações apesar de importantes não são completas nem auto-explicativas. Uma análise completa e detalhada deve englobar as três dimensões uniformemente. A análise centrada no Homem mostra que este, como ser biopsicossocial, tem uma atitude perante o trabalho e as exigências do mesmo que não se pode dissociar do “ambiente físico” do espaço em que se insere. Este artigo pretende apresentar uma imagem do estado da arte relativamente às influências do ambiente térmico nas suas várias vertentes, nomeadamente as físicas e as psicológicas e, a sua relação com o desempenho laboral. Uma compreensão integrada deste problema ajudará a obter respostas, para além das triviais relações causa/efeito ou simples constatações de resultados. Pretende-se identificar influências, directas e indirectas, de variáveis que interferem no comportamento humano, face às exigências ocupacionais em diferentes condições de ambiente térmico. De forma complementar procura-se identificar estudos que permitam confirmar a validade de afirmações ou opiniões correntes e identificar lacunas de conhecimento. 2. MATERIAIS A pesquisa foi realizada utilizando a ferramenta de interface de pesquisa do sistema de metapesquisa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, construída com base no sistema Metalib da Exlibris, através do URL: http://metalib.fe.up.pt. Esta ferramenta foi escolhida devido à vantagem que oferece tanto em termos de utilização de recursos como de possibilidades de triagem entre os inúmeros estudos devolvidos. A pesquisa permite englobar as seguintes bases de dados numa única ferramenta, conseguindo assim devolver os resultados de pesquisas em: Web of Science; Zentrallblatt MATH Database; PsycArticles; PsycCRITIQUES; PsycBOOKS; Library, Information Science & Technology; Psychology + Behavior; PsycINFO; PubMed; Regional Business News; MEDLINE; Inspec; Fuente Academica; ERIC; Current Contents; Compendex; Arts & Humanities Citation Index; Academic Search Complete. 3. MÉTODOS A metodologia compreende 2 fases de desenvolvimento: 1. Levantamento exaustivo de variáveis estudadas pelos diversos autores, numa perspectiva tridimensional (Homem - Ambiente - Trabalho), recorrendo a diferentes áreas do saber; 2. Estudo da relação entre as diferentes variáveis, num sistema organizado com a representação do fluxo entre mesmas (mapas de relações), através de ensaios experimentais, estudos de campo, modelação fenomenológica, entre outros, identificados na literatura científica. 3.1. Levantamento de Variáveis A identificação das principais variáveis que estão na origem da abordagem tridimensional em questão foi realizada por especialistas oriundos de duas diferentes áreas (Psicologia e Engenharia), sendo a componente relacionada com a fisiologia humana validada por um elemento da área médica. As variáveis foram agrupadas em 3 dimensões, Homem, Ambiente e Trabalho, no sentido de as caracterizar de uma forma geral. 3.2. O rganização de Pesquisa A pesquisa foi organizada de acordo com as possíveis relaçõ estabelecer entre as diferentes dimensões. As relações estabelecidas par a par, entre: homem/ambiente, homem/trabalho e ambiente/trabalho, estão na origem da introdução da abordagem tridimensional. Para al ém das descritas, anteriormente, h utilizadas na pesquisa, que por não terem sido devolvidas com resultados, não foram aqui apresentadas. 4. DISCUSSÃO DE RESULTADOS O comportamento humano, perante a exigência das tarefas e determinadas condições ambientais, é influenciado por diferentes variáveis. Na perspectiva Homem , o seu comportamento pode ser afectado pelas variáveis sexo, idade, metabolismo energético, capacida líquidos ingeridos, ac tividade imunológica, funcionamento gastrointestinal, prática de exercício físico, vestuário, sensação de conforto térmico (bem determinada temperatura ambiente), consumo de m posturas (…). Relativamente ao trabalho psicossociais, entre eles, o ritmo de trabalho, carga de trabalho, carga horária, horário de trabalho, exigência das tarefas, dime moral, violência no trabalho, cultura organizacional e função, papel no seio da organização, progressão na carreira, liberdade da decisão/controlo, relações interpessoais no trabalho, relações vida privada equipamento, concepção da tarefa, volume/cedência de trabalho, formação, o apoio por parte dos colegas e gestores, as mudanças (OSHA, 2000a,b). Já na perspectiva ambiente térmico: temperatura e radiação, humidade, velocidade do ar; ruído, iluminação, vibrações, radiações), químicos (compostos orgânicos voláteis) e biológicos (micro organismos que podem levar ao desenvolvimento de doenças). O ambiente térmico, factor centr com os restantes factores de risco ambientais, uma vez que a proliferação e contaminação dos restantes agentes (químicos e biológicos) é, em grande, parte determinada pelas variáveis temperatura e humida climas interiores mas, acima de tudo, de climas exteriores (Luber, 2009). Fig 1 . Representação da análise integrada, conjugando relações par a par, resultando num único cenário. rganização de Pesquisa A pesquisa foi organizada de acordo com as possíveis relaçõ es que se podem estabelecer entre as diferentes dimensões. As relações estabelecidas par a par, entre: homem/ambiente, homem/trabalho e ambiente/trabalho, estão na origem da introdução da abordagem tridimensional. ém das descritas, anteriormente, h ouve uma série de outras palavras que foram que por não terem sido devolvidas com resultados, não foram 4. DISCUSSÃO DE RESULTADOS O comportamento humano, perante a exigência das tarefas e determinadas condições ambientais, é influenciado por diferentes variáveis. , o seu comportamento pode ser afectado pelas variáveis sexo, idade, metabolismo energético, capacida de de aclimatação, fadiga, quantidade de tividade imunológica, funcionamento gastrointestinal, prática de exercício físico, vestuário, sensação de conforto térmico (bem - estar perante uma determinada temperatura ambiente), consumo de m edicamentos, álcool e/ou drogas, trabalho , as variáveis prendemse com questões ergonómicas e psicossociais, entre eles, o ritmo de trabalho, carga de trabalho, carga horária, horário de trabalho, exigência das tarefas, dime nsões do espaço, desenho ergonómico, assédio moral, violência no trabalho, cultura organizacional e função, papel no seio da organização, progressão na carreira, liberdade da decisão/controlo, relações interpessoais no trabalho, relações vida privada -traba lho, ambiente laboral e equipamento, concepção da tarefa, volume/cedência de trabalho, formação, o apoio por parte dos colegas e gestores, as mudanças (OSHA, 2000a,b). ambiente , os factores influenciáveis são os factores físicos (ambiente térmico: temperatura e radiação, humidade, velocidade do ar; ruído, iluminação, vibrações, radiações), químicos (compostos orgânicos voláteis) e biológicos (micro organismos que podem levar ao desenvolvimento de doenças). O ambiente térmico, factor centr al na abordagem em questão, tem uma relação estreita com os restantes factores de risco ambientais, uma vez que a proliferação e contaminação dos restantes agentes (químicos e biológicos) é, em grande, parte determinada pelas variáveis temperatura e humida de, não apenas numa abordagem de climas interiores mas, acima de tudo, de climas exteriores (Luber, 2009). . Representação da análise integrada, conjugando relações par a par, resultando num único cenário. es que se podem estabelecer entre as diferentes dimensões. As relações estabelecidas par a par, entre: homem/ambiente, homem/trabalho e ambiente/trabalho, estão na origem da introdução palavras que foram que por não terem sido devolvidas com resultados, não foram O comportamento humano, perante a exigência das tarefas e determinadas condições , o seu comportamento pode ser afectado pelas variáveis sexo, de de aclimatação, fadiga, quantidade de tividade imunológica, funcionamento gastrointestinal, prática de estar perante uma edicamentos, álcool e/ou drogas, se com questões ergonómicas e psicossociais, entre eles, o ritmo de trabalho, carga de trabalho, carga horária, horário de nsões do espaço, desenho ergonómico, assédio moral, violência no trabalho, cultura organizacional e função, papel no seio da organização, progressão na carreira, liberdade da decisão/controlo, relações lho, ambiente laboral e equipamento, concepção da tarefa, volume/cedência de trabalho, formação, o apoio por , os factores influenciáveis são os factores físicos (ambiente térmico: temperatura e radiação, humidade, velocidade do ar; ruído, iluminação, vibrações, radiações), químicos (compostos orgânicos voláteis) e biológicos (micro - al na abordagem em questão, tem uma relação estreita com os restantes factores de risco ambientais, uma vez que a proliferação e contaminação dos restantes agentes (químicos e biológicos) é, em grande, parte de, não apenas numa abordagem de climas interiores mas, acima de tudo, de climas exteriores (Luber, 2009). . Representação da análise integrada, conjugando relações par a par, resultando num único cenário. Numa análise integrada, verificou-se que as causas isoladas por si só não se manifestaram suficientes na produção de consequências, no entanto a mecânica das relações demonstra um impacto representativo, nomeadamente no aumento da temperatura corporal dos indivíduos, afectações clínicas (hipertermia dos sistema nervoso central, comprometimento do funcionamento do aparelho cardiovascular, hipoxia tecidular, síndromas de agressão térmica, depressão), stress, inibição da actividade motora, menor produtividade/rendimento físico e/ou cognitivo, alterações psicológicas e/ou comportamentais, maior risco de abortamento nas primeiras semanas de gravidez, absentismo, maiores custos com compensações ou despesas de saúde (Bhattacharya, 1991; Taylor, 2006; Wilson, 2007). Não obstante, não foi possível identificar a existência concreta e quantificável de relações entre certas variáveis, nos inúmeros estudos analisados. 4.1. Homem vs Ambiente Idade A capacidade de termorregulação diminui com a idade, devido ao desgaste do organismo ao longo do tempo. Algumas experiências levadas a cabo mostram que a variação da tolerância ao calor devido à idade tem menos expressão quando não há influência de doenças crónicas, adiposidade e performance física reduzida (C. BRUCE WENGER, 2002 p. 78). Contudo a tolerância ao calor de um indivíduo diminui ao longo dos anos. Genericamente estabelece-se como grupo de maior risco, os indivíduos com idades a partir de 65 anos. A partir dos 75 anos considera-se a idade como factor crítico. A Figura resume as principais capacidades fisiológicas são afectadas com a idade. Figura 2 – Alteração das capacidades de termorregulação com a idade. Adaptado de (Kenney, et al., 2003 p. 2601) Além dos pormenores já apresentados, com o avanço da idade diminui ainda o reflexo de sede, sendo que a reposição de líquidos é fundamental na tentativa de combate ao calor. É também uma evidência que a população idosa feminina é mais afectada do que a masculina, diferença essa que se deve a factores relacionados com o género, questão abordadas abaixo. Jovens Idosos Efeitos da Idade Função das glândulas sudoríparas Fluxo sanguíneo Função cardíaca Redistribuição do fluxo sanguíneo Diminuição da perda de suor Diminuição do fluxo sanguíneo Diminuição da função cardíaca Menor redistribuição do fluxo sanguíneo O grupo etário compreendido entre os 0-14 anos também é considerado como um dos mais afectados pelo calor. Tal como nos adultos, a termorregulação das crianças é afectada pela desidratação. Uma Criança desidratada responde ainda pior ao calor do que um adulto desidratado. Comparativamente com adultos, as crianças têm mais dificuldade de regular a temperatura interna corporal. Têm menor taxa de sudação por glândula sudorípara, menor reposta de frequência cardíaca, menos volume de plasma sanguíneo, geram mais calor metabólico e possuem um rácio de superfície corporal por massa superior aos adultos o que resulta em maior perda relativa de fluidos (Dougherty, 2008). Forma Física (Capacidade Aeróbica) A Performance física de uma pessoa nada tem a ver com o seu IMC. A performance relaciona-se com a capacidade de determinado sujeito de realizar trabalho. É portanto resultado de uma prática regular de exercício. Pessoas com o IMC ou o índice de massa gorda elevado podem apresentar boa capacidade aeróbica. A capacidade aeróbica é tanto maior quanto maior o consumo de oxigénio (V ሶOଶ). A fisiologia muscular, mostra claramente a relação entre capacidade de trabalho muscular e o consumo de O 2 . A prática regular de exercício leva o indivíduo a reduzir a ritmo cardíaco, o que é consequência do aumento da capacidade pulmonar e respectivo consumo de oxigénio. A fisiologia muscular mostra que os músculos consomem ATP a partir de dois ciclos de formação, um aeróbico, e outro anaeróbico. O ciclo anaeróbico é activado devido à incapacidade do sangue conseguir levar oxigénio ao músculo em esforço muscular estático ou então, quando a necessidade de oxigénio é superior à fornecida pelo organismo, em caso de esforço extremo. Nestes casos a produção de ATP leva à formação de um sub-produto tóxico para o organismo (o lactato) que quando atinge determinados níveis de concentração não consegue ser eliminado e a sua concentração pode levar à morte do indivíduo. Um estudo realizado por Arngrímsson (University of Georgia Athens) mostra que consumo de oxigénio e a frequência cardíaca vão aumentando gradualmente com a temperatura ambiente. A elevação da frequência cardíaca está relaciona em parte com o consumo de oxigénio durante o exercício aeróbico. Acima da capacidade aeróbica máxima existe uma dissociação destes parâmetros. Atinge-se o pico de consumo de O 2 e o ritmo cardíaco continua a aumentar (Arngrímsson, et al., 2003). A prática regular de exercício ajuda à optimização destes dois mecanismos que em condições de calor são indicadores de stress térmico. Por um lado a habituação ao esforço diminui o ritmo cardíaco em repouso, melhora o sistema cardiovascular, aumenta a capacidade pulmonar e melhora o valor de pico de absorção de oxigénio. O resultado é maior perda de calor por radiação, mais tolerância a temperaturas elevadas mesmo em condições de esforço. A elevada capacidade aeróbica ajudar a tolerar o calor. Um estudo desenvolvido por Selkirk e McLellan mostra que indivíduos com elevada capacidade aeróbica atingem a exaustão com temperaturas internas corporais superiores em cerca de 0,9ºC do que os indivíduos com capacidade aeróbica inferior (Selkirk, et al., 2001 p. 2062). Índice de Massa Corporal Contrariamente ao tecido magro que aquece facilmente, o tecido adiposo produz o efeito contrário, o que faz com que a sua quantidade afecte directamente a capacidade calorífica do corpo. Assim, a quantidade tecido adiposo influência a resposta do organismo ao calor bem como a sua distribuição e localização influencia a transferência interna e dissipação de calor do corpo (Selkirk, et al., 2001 pp. 2055,2062). Existe uma suspeita que a tolerância a temperaturas internas corporais mais elevadas reside no facto de os indivíduos com menor quantidade de tecido adiposo conseguirem dissipar mais facilmente o calor. Tal resulta na capacidade de atingir temperaturas mais elevadas sem sofrer danos. Estes indivíduos aquecem mais facilmente mas também arrefecem com maior rapidez. Género As principais noções que se prendem com o género já foram abordadas em parágrafos anteriores às quais se somam as questões que se prendem com o ciclo menstrual. Experiências realizadas, revelaram que a diferença na capacidade de tolerância mediante o género é atenuada quando se compara os indivíduos por tamanho, aclimatação e V ሶOଶmáx. O ciclo hormonal feminino altera a temperatura limite para a qual o corpo começa a executar as tarefas de termorregulação. Esta alteração vai condicionar, inevitavelmente, a resposta ao calor. Contudo, não se trata da única alteração que afecta a resposta ao calor e à capacidade de exercício em ambiente quente. Estudos realizados mostram que consoante a fase de ciclo em que se encontra, a mulher está sujeita a variações na temperatura interna corporal. A mesma causa afecta o batimento cardíaco, o qual varia de forma diferente durante a prática de exercício em ambientes quentes, sendo essa diferença tanto maior quanto mais agressivo se apresentar o ambiente. Outros Factores A tolerância ao calor é dependente de uma enorme variedade de factores. Além dos acima descritos, podem apontar-se outros também importantes e ligados ao estilo de vida como: • Alimentação; • Consumo de bebidas alcoólicas e hábitos tabágicos; • Saúde em estado debilitado; • Medicação a que se está sujeito (nomeadamente a toma de anti-depressivos, antiinflamatórios). Estes e outros factores pessoais ligados ao estilos de vida, a problemas crónicos de saúde e/ou o estado de saúde actual, afectam de forma significativa a capacidade de resistência ao calor. Pessoas acamadas representam um grupo de especial preocupação, quando não ocupam espaços devidamente climatizados. A protecção conferida pela roupa de cama favorece o aquecimento, impede a evaporação do suor, o que conduz ao desenvolvimento de dermatoses e ao aparecimento de feridas/chagas. A estes problemas acresce a sobrecarga fisiológica exigida pelo ambiente durante os períodos de recuperação. Comportamentalmente, a aclimatação (habituação a ambientes quentes) ajuda a melhorar a capacidade de tolerância ao calor (RICHARD F. JOHNSON, et al., 2002 p. 142). Um organismo aclimatado sofre imensas alterações que vão desde os sinais mais clássicos (diminuição do batimento cardíaco, aumento da taxa de sudação durante exercício e redução do valor da temperatura interna) até às alterações fisiológicas mais complexas como maior capacidade de manter um elevado nível de sudação, diminuir o teor de minerais no suor, redistribuir a sudação do tronco para os membros, aumentar a quantidade de água no organismo e redistribui-la de modo diferente, transformações metabólicas e endócrinas entre outras alterações menos estudadas (C. BRUCE WENGER, 2002 p. 74). Ao nível metabólico e celular a aclimatação aumenta a produção de proteínas que ajudam os tecidos mais frágeis a não sofrer lesões perante aumento da temperatura interna (Samali, et al., 1998; KREGEL, 2002). 4.2. Ambiente vs Trabalho Posturas Tab 1 – Tabela resumo da relação entre Posturas e Temperatura. Ref. Estudo Influência (Kaynakli, Unver et al. 2003) Avaliação de Ambientes Térmicos para a Posição de Pé e Sentado Posturas que aumentem contacto com superfícies tendem a diminuir a dissipação de calor. Bem como posturas fisicamente exigentes tendem a aumentar a produção de calor interno. (Donaldson, Scarborough et al. 1996) Influência da Postura na Temperatura Interna Corporal Há diminuição da temperatura interna corporal entre 0,2 a 0,4 graus Celcius em ambiente neutro a 31 graus de temperatura ambiente, quando o corpo se encontra em supinação. (Huggare and Ronning 1986) Efeito do ar frio na postura da Cabeça O ar frio influencia na posição da cabeça, provavelmente devido à adaptação da respiração. (Kobayashi, Horvath et al. 1980) Termorregulação durante o repouso e o exercício, para diferentes posturas, em ambientes quentes e húmidos As taxas de sudação entre as posturas supina, sentado e de pé, após a prática de exercício a 30% e 45% de VO 2 máx foi respectivamente, 65%, 52% e 46%. A temperatura interna corporal correspondente analisada foi superior na posição de supinação e inferior na posição de pé. (Diaz, Bransford et al. 1979) Diminuição do volume plasmar durante repouso e exercício nas diferentes posturas em ambientes quentes e húmidos A postura está intimamente ligada com a perda de líquido e redução do respectivo volume plasmar. A diferença de peso é de 0,3% durante repouso ao qual acresce uma perda de 1,1% durante o exercício. Exercício realizado em supinação é o que mais reduz o volume plasmar, em seguida a postura sentada e por último de pé. A influência postural está mais intimamente ligada com a produção de calor metabólico e, como tal, com a resposta fisiológica necessária à dissipação desse mesmo calor. Os diversos estudos que foram realizados sobre esta temática centram-se exactamente nessa perspectiva avaliando a sudação (Diaz, Bransford et al. 1979; Kobayashi, Horvath et al. 1980), o seu impacto na redução do volume plasmar (que funciona como critério de restrição na tolerância ao calor) (Diaz, Bransford et al. 1979), uma vez que estas variáveis vão influenciar o mais importante indicador biológico de saúde e bem-estar, a temperatura interna corporal (Donaldson, Scarborough et al. 1996). Existem, no entanto, outros aspectos que influenciam a dissipação de calor (Kaynakli, Unver et al. 2003). A influência no bem-estar vai, por sua vez, depender do compromisso entre a produção e a perda de calor permitida (Kaynakli, Unver et al. 2003) bem como da capacidade que o corpo tem, em determinadas condições, de se termorregular. Fadiga Tab 2 – Resumo das principais relações entre fadiga e temperatura. Ref. Estudo Influência (Kacin, Golja et al. 2008) Influencia da fadiga muscular e da carda de trabalho na temperatura corporal A fadiga muscular não influência o aumento da temperatura média corporal nem a regulação da perda de calor durante o exercício prolongado com carga constante. (Hamilos, Nutter et al. 2001) Estudo do efeito da temperatura e luminosidade na capacidade de trabalho Um ambiente ligeiramente mais frio do que o normal é mais propício ao trabalho sedentário, bem como um ambiente ligeiramente mais iluminado. O cansaço e o humor são afectados pelas condições laborais. As mulheres são mais influenciadas e susceptíveis ao ambiente que as rodeia do que os homens. A relação entre a fadiga muscular e temperatura, provocada por trabalhos exigentes do ponto de vista físico, não é algo completamente determinado. O estudo levado a cabo por Kacin (2008) demonstrou que a fadiga muscular induzida não tem efeitos directos no aumento da temperatura interna corporal nem na capacidade de termorregulação do organismo. Por sua vez Nelson em 1984 já tinha conseguido comprovar que o humor e a sensação de fadiga (o cansaço percebido) são afectados pelas condições ambientais gerais, entre as quais testou a temperatura e a luminosidade. Este interessante estudo verificou ainda a diferença de percepção mediante o género, sendo as mulheres mais afectadas pelas condições ambientais a que estão expostas. Apesar de a temperatura ter influência directa na capacidade de termorregulação influencia positivamente o processo de acumulação de fadiga (fadiga que deve ser definida como o resultado mais de factores psicológicos do que físicos). Stress e Performance Cognitiva Tab 3 – Principais relações entre cognição e temperatura. Ref. Estudo Influência (Tawatsupa, Lim et al. 2010) Influência do calor na indução de stress psicológico O calor e o excesso de termorregulação deriva numa redução do estado geral de saúde e em angústia psicológica, ou mesmo depressões crónicas e distúrbios de ansiedade crónicos. (Oka, Oka et al. 2001) Aumento da temperatura corporal devido a condições de stress O stress induz um aumento de temperatura corporal da mesma magnitude em ambientes quentes ou frios. O processo é o mesmo que o de ocorrência de febre (alteração no ponto de regulação de temperatura interna). (Nunneley, Dowd et al. 1978) Condições de stress psicológico durante a exposição ao calor na simulação de condições de cockpit A exposição ao calor influencia a curva de aprendizagem de alguns testes RPM (altera tempos de resposta). (Rim 1975) Performance psicológica durante a exposição climática a ambiente quentes. A exposição a ambientes quentes parece não influenciar o discernimento para aritmética, escrita e percepção visual. O stress térmico provocado pelo calor deriva em consequências desagradáveis para o organismo. O stress interfere com a temperatura interna corporal aumentando o set point de termorregulação, gerando deste modo um estado febril (Oka, Oka et al. 2001). Ora desta forma também há uma interferência na capacidade de termorregulação e consequentemente na capacidade de tolerar o calor. Por outro lado, a simples exposição ao calor também deriva em consequências notáveis de stress psicológico, manifestado através de alterações de comportamento a curto prazo, ou ainda, através de depressões e distúrbios de ansiedade crónicos (Tawatsupa, Lim et al. 2010). O stress psicológico e o nível de performance cognitiva confundem-se em diversas alturas, especialmente quando em ambos os casos o que é exigido são tempos de resposta no trabalho em períodos relativamente curtos. A performance cognitiva sofre variações com as variações das condições climatéricas extremas (frio e calor). Apesar dos mecanismos que afectam a performance cognitiva serem algo diferentes entre o frio e o calor, em ambas as condições há um impacte significativo. A performance cognitiva está associada a um aumento no valor da temperatura interna corporal, ao passo que a fadiga induzida pelo calor surge como reflexo da combinação de temperatura interna e temperatura da pele elevadas (Simmons, Saxby et al. 2008). No frio a performance cognitiva também aparece diminuída, no entanto, ao contrário do calor, não interfere directamente com o funcionamento cerebral. Os seus efeitos ocorrem através dos mecanismos de distracção e de excitação, o que, indirectamente, tem implicações na performance final (Mäkinen, Palinkas et al. 2006). Esforço A prática de esforço é fortemente relacionada com as condições ambientais em que se desenvolve, em especial, a temperatura e humidade. A prática de esforço em ambientes quentes apresenta uma diminuição na capacidade de realizar trabalho, em comparação com o mesmo esforço realizado a condições de conforto. O mesmo acontece para temperaturas muito reduzidas. Ambientes quentes, e muito húmidos impedem a dissipação do calor metabólico gerado durante a prática de esforço, o que provoca um aumento da temperatura. Esse aumento (acumulado nos músculos) provoca reacções que ampliam a sensação de esforço e, consecutivamente, potenciam o cansaço (Armada-da-Silva, Woods et al. 2004). Durante o frio, a prática de exercício físico intenso leva a uma possível deficiência do sistema de termorregulação. O balanço de energia enfraquecido devido à prática de esforço induz, por si, a uma perda de massa corporal que vai reduzir o tecido de isolamento facilitando a transferência de calor do interior do corpo para a superfície, o que gera o arrefecimento corporal e consequente aumento da exigência dos mecanismos de termorregulação (Young and Castellani 2001). Constata-se que a fadiga, stress e burnout não só têm um impacto negativo no desempenho profissional como levam ao cometimento de um maior número de erros, sendo o impacto maior nos trabalhos por turnos. A rotação das tarefas poderá ser, em algumas situações, uma solução para diminuir a percepção da carga de trabalho e aumentar a satisfação. Os EPI e o stress térmico provocado tanto pelo calor como pelo frio, também contribuem para uma performance mais reduzida. Por outro lado, a existência de relações de confiança e boas condições térmicas, são impulsionadoras de um desempenho mais eficaz. As tarefas cognitivas mais exigentes (não repetitivas) obrigam a uma maior capacidade cognitiva, cujos benefícios poderão ser úteis não só em termos de performance no trabalho, mas também na prevenção de doenças neurodegenerativas associadas à idade, constituindo uma espécie de reserva cognitiva. De um modo geral, poder-se-á, assim concluir que a produtividade está sob a dependência de factores intrínsecos e extrínsecos ao ser humano e que a sua variação terá impacto nos resultados. A identificação da existência de um conjunto de factores que mostram ter influência sobre o desempenho permite-nos, assim, estabelecer combinações de factores com vista a potenciar esse desempenho. Na medida em que, aferir consequências sem partir da análise de cenários não permite o planeamento de intervenções prevencionistas. Esta modelação e consequente validação permitem uma abordagem sistémica à problemática de ambientes térmicos, numa perspectiva holística, dentro das possíveis alternativas. Do vasto conjunto de pesquisas efectuadas foi possível detectar-se que existem imensas variáveis que afectam o comportamento humano, em termos de desempenho, mas que precisam de ser melhor exploradas, dado não existir consenso entre os diferentes autores que as tentaram estudar ou devido a alguns estudos não terem tido resultados conclusivos. Outras há que, apesar de serem descritas na literatura, nunca foram validadas por nenhum estudo. Nesse sentido e dada a importância, aqui provada, de que é o conjunto das partes (ambiente, homem, trabalho) que influência o seu todo (Homem – desempenho/performance/produtividade), torna-se importante, que no futuro, venham a ser validadas todas as variáveis identificadas, pois só assim se conseguirá aferir com mais precisão e rigor o verdadeiro mapeamento das relações entre variáveis e do seu efeito no Homem, com vista a potenciar o seu máximo desempenho, nas melhores condições de Segurança. Conclui-se, assim que, o mapeamento de relações apresenta, ainda, alguns vazios de conhecimento, que surgem aqui como campos exploratórios, cujas relações podem vir a explicar a variabilidade da resposta psicofisiológica aos diferentes ambientes térmicos. As diferentes condições de ambiente térmico influenciam a saúde, a segurança e a produtividade. REFERÊNCIAS Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2000). FACTS-8, PT. Stress no trabalho. Síntese de um relatório da Agência. Publicada em http://osha.eu.int. Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2000). FACTS-22, PT. Stresse relacionado com o trabalho. ISSN 1681-2166. Publicada em http://osha.eu.int. Baines, T. S. and J. M. Kay (2002). "Human performance modelling as an aid in the process of manufacturing system design: a pilot study." International journal of production research 40(10): 2321-2334. Bakker, A. B., Demerouti, E., Boer, E., and W.B. Schaufeli (2003). 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