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Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Helder Santos 1 RESUMO O debate teórico que aqui se trava pretende contribuir para a construção de uma visão multidimensional dinâmica do processo de produção do conhecimento dirigido à inovação económica. Partindo do pressuposto de que a estrutura de produção do conhecimento está a mudar, exploram-se diferentes contributos teóricos sobre os processos de produção de conhecimento com o objetivo de contribuir para a construção de uma proposta de interpretação dos espaços dos lugares e dos fluxos do conhecimento, isto é, para a interpretação das redes de lugares de produção do conhecimento. Explora-se o debate em torno da dimensão territorial da produção, translação e disseminação do conhecimento com potencial de inovação económica, sublinhando-se a evolução no sentido de abandonar o binómio tácito/proximidade – codificado/distância, e a aproximação a uma interpretação mais complexa, de geometrias variáveis no que toca à espacialização destes processos associados ao conhecimento. Apresenta-se uma proposta multidimensional de análise do conhecimento e uma proposta taxonómica das redes de conhecimento atendendo à diversidade de fluxos e ao espaço dos lugares envolvidos. Aponta-se ainda a hipótese teórica de que o processo de produção do conhecimento se estrutura, cada vez mais, em redes poligâmicas, exogâmicas e multiescalares. Palavras-Chave Conhecimento; Inovação Económica, Rede Monogâmica/Poligâmica; Rede Endogâmica/Exogâmica, Rede Multiescalar ABSTRACT The theoretical debate we will develop in this paper aims to contribute to a dynamic, multidimensional view of the knowledge production process targeted at economic innovation. Based on the assumption that the structure of knowledge production is changing, several theoretical contributions on knowledge production processes are explored, aimed at building a proposal to interpret the spaces of knowledge places and flows, in other words, to interpret the networks of knowledge places. We will analyse the debate on the territorial dimension of knowledge production, transfer and dissemination with a potential for economic innovation, highlighting approaches that tend to abandon the tacit/proximity – codified/distance relation, and the development of more complex interpretations, of variable geometries in terms of the spatiality of the processes associated to knowledge. We put forward a multidimensional approach to the analysis of knowledge and a taxonomic proposal of knowledge 1 CEGOT, [email protected]
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 146 networks that takes into account the diversity of flows and the spaces of the places involved. We also consider the theoretical possibility that the knowledge production process is increasingly structured into polygamous, exogamous and multi-scalar networks. Keywords Knowledge; Economic Innovation; Monogamous/Polygamous Network; Endogamous/Exogamous Network; Multi-scalar Network. Introdução O conhecimento surge como a matéria central do processo de inovação (OCDE, 1996). A inovação económica é encarada como um processo de aprendizagem individual, organizacional, interorganizacional e social, que resulta na produção ou reconfiguração do conhecimento (COHEN & LEVINTHAL, 1990; LEVINTHAL & MARCH, 1993; LUNDVALL & JOHNSON, 1994 e 2004). As redes são apontadas como a estrutura que suporta e organiza o processo de inovação (POWELL & GRODAL, 2005; STEINER, 2011). O território desempenha um papel importante no processo de inovação, nomeadamente condicionando a aprendizagem e o spillover do conhecimento (AUDRETSCH & ALDRIDGE, 2009) e, consequentemente, originando geometrias variáveis nas escalas territoriais de relações envolvidas nos processos de inovação económica (ASHEIM & GERTLER, 2005; GERTLER & LEVITTE, 2005; MASKELL, BATHELT, & MALMBERG, 2006; ASHEIM, COENEN, & VANG, 2007; AUDRETSCH & ALDRIDGE, 2009; CARRINCAZEAUX & CORIS, 2011) com implicações nas políticas públicas (COOKE, 2006 e 2009; ASHEIM, BOSCHMA, & COOKE, 2011). Há, no entanto, a necessidade de construir um quadro teórico que integre as dinâmicas do conhecimento dirigido à inovação económica com as transformações do território (VALE, 2012). O presente trabalho pretende construir uma visão multidimensional dinâmica do conhecimento que sustente a interpretação territorializada dos processos de inovação, contribuindo, desta forma, para dar resposta a essa preocupação. Assim, no primeiro capítulo, faz-se uma revisão da literatura sobre o processo de produção de conhecimento a partir da qual se constrói, no segundo capítulo, uma interpretação multidimensional do conhecimento que sustenta a proposta heurística da dinâmica do conhecimento (terceiro capítulo). A concluir, propõe-se uma taxonomia das redes de conhecimento, atendendo à diversidade de fluxos e às escalas territoriais envolvidas, que sirva de suporte ao desenvolvimento de casos de estudo direcionados à exploração dos lugares dos fluxos e das redes da produção de conhecimento dirigido à inovação económica. Abordagens teóricas à produção do conhecimento dirigido à inovação económica. O processo de produção de conhecimento dirigido à inovação económica tem vindo a sofrer transformações. GIBBONS et al. (1994) apontam mudanças profundas nomeadamente quanto à origem, diversidade, atores envolvidos, locus de produção, contexto de produção e, ainda, quanto aos processos de aplicação e uso do conhecimento. Com base nestas mudanças concluem que se verifica uma transição
147 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 acelerada do Modo 1 – disciplinar – para o Modo 2 – transdisciplinar – de produção do conhecimento (Quadro 1). Na interpretação de GIBBONS et al. (1994), a difusão do Modo 2 vai possibilitar a emergência de novas formas organizacionais como as indústrias do conhecimento, as redes de empresas, as alianças de I&D e novos interfaces de competição e colaboração que possibilitam a diminuição dos custos e dos riscos de I&D. Estas novas formas organizacionais proporcionam um aumento das possibilidades de fertilização cruzada entre diferentes áreas de investigação. No Modo 2 os recursos do conhecimento passam a estar contidos em diferentes organizações, obrigando à redefinição e ao aumento da permeabilidade das fronteiras, assim como a gerar ambientes simultaneamente de colaboração e de competição entre as organizações. Esta interpretação das mudanças na produção do conhecimento reforça o papel das redes enquanto forma organizacional em que se sustenta a produção do conhecimento e a diversidade de lugares envolvidos. O ponto de partida para a exploração do conhecimento enquanto essência do processo de inovação económica territorialmente contextualizado é, numa dimensão epistemológica, a obra “The Tacit Dimension” (POLANYI, 1966). Por um lado, o conhecimento é conceptualizado enquanto constructo pessoal e público. Segundo a interpretação de POLANYI (1966), os indivíduos constroem o conhecimento a partir das suas experiências, num processo social, em que estes, no seu dia-a-dia, se envolvem com objetos, acrescentando conhecimento àquele que herdaram por processos de interação social. Neste sentido, a construção do conhecimento é um processo simultaneamente individual e de grupo. Por outro lado, a ideia de que “we can know more than we can tell” (POLANYI, 1966, p. 4) é o ponto de partida para sustentar a tese de que muito do nosso conhecimento não pode ser colocado em palavras, isto é, não pode ser codificado. No entanto, perante os meios apropriados, somos capazes de comunicar o nosso conhecimento através de indicações que vamos transmitindo sobre a forma como dispor as diferentes partes do que sabemos, para que possa ser compreendido, sem que, no entanto, sejamos capazes de verbalizar como o fazemos. Não sendo capazes de o dizer, por via de outras ações de comunicação, somos capazes de demonstrar o conhecimento, sendo esta a dimensão tácita do nosso conhecimento (POLANYI, 1966). A transposição direta do pensamento de Polanyi para as teorias da geografia do conhecimento e inovação económica vai originar uma leitura bipolar e simplista que associa a dimensão tácita à necessidade de proximidade territorial na transferência do conhecimento e a dimensão codificada à facilidade de transferência do conhecimento à distância, sem que o território provoque atrito. No entanto, a argumentação de POLANYI (1966) sustenta que o conhecimento é composto simultaneamente por duas dimensões indissociáveis: a dimensão codificada ou explícita e a dimensão tácita. Não significa que existam duas formas distintas de conhecimento – o tácito e o explícito. Pelo contrário, significa que o conhecimento é uma unidade composta simultaneamente pelas dimensões tácita e explícita. A diferença reside na variabilidade do grau de possibilidade de codificação do conhecimento, mas ambas as dimensões estão sempre presentes. Perante a ubiquidade destas dimensões é desaconselhada uma interpretação territorial bipolar.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 148 Quadro 1: Características dos ‘Modos’ de produção do conhecimento. Fonte: elaborado a partir dos trabalhos de GIBBONS, et al. (1994) e NOWOTNY, et al. (2003). Modo 1 Modo 2 Origem Académico; Disciplinar; Separação entre a investigação fundamental e aplicada; Sem qualquer tipo de preocupação prática; Respeito rígido pelos códigos da ciência. Interdisciplinar; Transdisciplinar (diversidade de conhecimento-base) Fluxo bidirecional entre investigação fundamental e aplicada; Intencionalmente dirigido à aplicação Flexibilidade metodológica Organizações Inserido num departamento de uma faculdade pertencente a uma universidade; Institutos públicos de Investigação; Laboratórios de I&D de grandes corporações empresariais. Diversificadas (universidades, empresas, think-tanks, agencias governamentais, movimentos cívicos, …) Redes de interação flexíveis entre as diferentes organizações; Organizações horizontais e, por vezes, transitórias. Fim Construção paradigmática; Saber pelo saber; Renúncia a qualquer objetivo de aplicação. Inovação económica e social; A origem e o fim fundem-se no propósito de aplicação; Comercialização do conhecimento e aumento da competitividade. Difusão Canais institucionais e disciplinares; Publicações científicas; Conferências Indissociabilidade entre a produção, a difusão e o uso (dimensão tácita e indissociabilidade do exploration e exploitation); Incorporado nos indivíduos (knowhow/know-who) Incorporado nas técnicas, instrumentos ou processos. Controlo de qualidade Validação cognitiva disciplinar; Validação pelos pares; Contributo Disciplinar; Cumprimento estrito dos cânones disciplinares. Difusa; Validado pela utilidade e eficiência prática; Responsabilidade social (social accoutability); Critérios intelectuais, sociais, económicos e políticos. Criativida de Individual; Centrada na resolução de problemas no contexto disciplinar. Grupo; Centrada na resolução de problemas no contexto de aplicação e uso. Locus de produção Instituições formais de produção de conhecimento (científico); Dentro de fronteiras institucionais bem delimitadas Socialmente distribuído; Redes interativas, flexíveis e, por vezes, temporárias. Acumulação Comunidades disciplinares; Publicações científicas; Bases de dados; Outras formas codificadas de conhecimento Incorporação nos recursos humanos; Acumulação indissociável do processo de produção (interdependência exploration/exploitation no ciclo de descoberta); Competências (fortemente tácito, sob a forma de know-how e know-who).
149 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 A dimensão tácita e codificada do conhecimento é um aspeto importante para a análise económica e das práticas de gestão do conhecimento nas organizações (NONAKA, UMEMOTO, & SENOO, 1996; TAKEUCHI & NONAKA, 2004). No entanto, a sua integração na análise económica e territorial é problemática, uma vez que são praticamente inexistentes as peças de conhecimento passíveis de serem integralmente codificadas sem que se percam algumas das suas caraterísticas originais fundamentais, sendo que a enorme maioria do conhecimento é composta por uma mistura envolvendo, de forma considerável, ambas as dimensões (JOHNSON, LORENZ, & LUNDVALL, 2002). Este é o argumento que sustenta a proposta de (LUNDVALL & JOHNSON, 1994) para a elaboração de uma nova taxonomia do conhecimento (Quadro 2). Quadro 2: Características da taxonomia do conhecimento. Knowwhat Knowwhy Know-how Know-who Origem Factual (informação). Baseado na ciência. Baseado nas skillsDoing, using. Relacional. Grau Codificado. Codificado/tácito. Tácio. Tácito. Competências Busca, seleção e uso de informação (knowhow); Identificação de especialistas (knowwho). Técnicas e métodos de investigação científica (know-how); Habilidades pessoais dos investigadores (know-how). Habilidades técnicas; Habilidades manuais. Cooperação interpessoal e multicultural (knowhow); Relacionais; Capital social. Locus de produção Múltiplos. Organizações especializadas (universidades, institutos de investigação, laboratórios de I&D). Escolas profissionais; No dia-a-dia em contexto de trabalho. Escolas profissionais (artísticas); Contexto social e cultural. Difusão Tecnologias da comunicação em geral; Bases de dados. Publicações e congressos científicos; Incorporado nos investigadores; Redes de investigação. Comunidades de prática; Aprendizagem interativa face-to-face. Redes relacionais faceto-face; buzz social. Atividades Intensivas em informação (ex. Advocacia, jornalismo, medicina). Intensivas em conhecimento científico (ex. biotecnologia) Transversal às atividades económicas. Atividades culturais e criativas (ex. cinema, moda, publicidade). Fonte: síntese elaborada a partir dos trabalhos de LUNDVALL & JOHNSON (1994); LUNDVALL (1998) e JOHNSON, LORENZ, & LUNDVALL (2002).
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 150 Esta taxonomia acentua o debate em torno da questão do grau de codificabilidade do conhecimento. Atendendo ao conceito do know-how, a total codificação das competências humanas e organizacionais é uma exceção, sendo mesmo uma impossibilidade para determinados aspetos dessas competências, reforçado pelo facto de ser crucial o que se perde na codificação. Quando a codificabilidade é baixa, a transferência de conhecimento implica um grau acentuado de aprendizagem interativa e, mesmo quando não é baixa, esta aprendizagem interativa não deixa de representar um papel importante no processo de produção, translação e aplicação do conhecimento nas organizações. No entanto, quando é possível chegar muito perto da explicitação quase total para que outros possam repetir o processo, como é o caso da ciência, e não estando os resultados dependentes de pessoas ou dum ambiente específico, o problema da transferência do conhecimento passa a estar mais relacionado com a capacidade de absorção do conhecimento por parte desse contexto institucional (COHEN & LEVINTHAL, 1990). Mas, mesmo nestes casos, a codificação é incompleta dado que, por exemplo, as competências dos cientistas têm de ser aprendidas em interação direta. Isto demonstra que a codificação está mais apta para capturar a quase totalidade das causalidades, dos procedimentos e das descrições mas manifesta-se insuficiente para capturar as habilidades e as competências – “it is easier to codify a description of the world than it is to codify ways to manage and change the world” (JOHNSON, LORENZ, & LUNDVALL, 2002, p. 254). Esta linha argumentativa vem reforçar a ideia de que um constructo elaborado a partir duma visão dicotómica do conhecimento, que procure catalogar separadamente o conhecimento como ora codificado ora tácito, é ineficaz para captar a realidade interdependente destas duas dimensões do conhecimento. A crítica a uma interpretação bipolar do conhecimento, nas suas formas codificada e tácita, sobretudo quando se trata de articular as caraterísticas do conhecimento, o seu processo de produção e translação, assim como o seu comportamento territorial, é o ponto de partida para a construção teórica em torno do conhecimento base (Quadro 3), como enunciam MOODYSSON, COENEN e ASHEIM (2008), ASHEIM, BOSCHMA e COOKE, (2011) e ASHEIM, (2011). Apesar de se enraizar na visão do pragmatismo filosófico de POLANYI (1966), pretendem propor uma alternativa à concetualização dicotómica – tácito / codificado – do conhecimento. A visão é a de que no processo de criação de conhecimento e inovação, as empresas recorrem a diferentes tipos de conhecimento base. Apesar do conhecimento e da aprendizagem serem importantes para todas as atividades económicas, inclusivamente as consideradas de baixa intensidade tecnológica, ASHEIM e COENEN (2005) e ASHEIM, COENEN e VANG (2007) argumentam que os processos de inovação das organizações económicas diferem substancialmente entre vários setores e indústrias cujas atividades requerem conhecimento base específico (Quadro 3).
151 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 Quadro 3: Características do conhecimento-base. Fonte: síntese elaborada a partir dos trabalhos de ASHEIM & COENEN (2005); ASHEIM & GERTLER (2005); ASHEIM, COENEN, & VANG (2007); MOODYSSON, COENEN, & ASHEIM (2008); ASHEIM (2011) e ASHEIM, BOSCHMA, & COOKE (2011). A tese do conhecimento base procura demonstrar que a produção e incorporação económica dos diferentes tipos de conhecimento se apoiam em texturas do conhecimento que envolvem graus variáveis da dimensão tácita e codificada, dada a participação transversal de diferentes formas de know-how na produção do conhecimentobase. Analítico Sintético Simbólico Origem Predominantemente científico (dedutivo); Parte do know-why para produzir know-why. Predominantemente engenharia (indutivo); Instrumental, específico do contexto e prático. Predominantemente cultural, sensorial, emocional (estético e ético); Baseado nas artes e socialmente contextualizado. Grau Genericamente codificado Tácito na estrutura cognitiva e competências do investigador. Essencialmente tácito; Parcialmente codificado no produto ou processo. Essencialmente tácito; Parcialmente codificado em sons, imagens, artefactos e símbolos. Competências organizacionais Reino do know-why; Know-how em investigação científica; Departamento de I&D (absorptive capacity); Redes empresa-universidade; Apropriabilidade via patentes, licenças ou spin-offs/start-ups. Reino do know-how; Know-why apenas em investigação aplicada; “Learning by doing, using and interacting”; Redes produtoresutilizadores; Apropriabilidade via incorporação no produto/processo. Reino do know-who; Know-how na interpretação e produção criativa e cultural; Diversidade, multiculturalidade e conflitualidade criativa; Redes temporárias dirigidas a um processo criativo concreto; Apropriabilidade efémera/licenças. Competências profissionais Intensivo em Know-why Know-how em investigação científica; Know-who para a criação de redes com os pares. Intensivo em Know-how; Know-why relativo à investigação aplicada. Intensivo em know-who; Know-how em criação artística. Inovação Novos produtos ou processos (perfil radical). Rearranjo ou modificação dos produtos e processos existentes (perfil incremental). Atividades intensivamente criativas (perfil incremental). Indústrias Biotecnologia; Farmacêutica; Nanotecnologia; TIC. Intensivos em engenharia industrial. Cinema; Música; Design; Arquitetura.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 152 Em termos de sustentação duma visão sistémica da inovação, caraterizada enquanto processo dinâmico, evolutivo, variável e assimétrico, a ideia de conhecimento base rompe com a ideia de linearidade, mesmo nos processos que partem do conhecimento analítico. Em função do conhecimento base espera-se que surjam diferentes paradigmas tecnológicos e simbólicos e que se estabeleçam as correspondentes trajetórias tecnológicas e simbólicas, dinâmicas e irreversíveis, isto é, trajetos evolutivos que se revelam dependentes do trajeto, dado que as mudanças nesses trajetos devem-se a mudanças nos paradigmas tecnológicos (DOSI & ORSENIGO, 1988) e simbólicos que, por sua vez, estão intimamente relacionados com o conhecimento base em que se sustentam. Assim, em função do conhecimento base e dos paradigmas tecnológicos e simbólicos, espera-se que surjam diferentes regimes evolucionistas, isto é, oportunidades de progresso técnico, com a correspondente variabilidade intersectorial dos níveis de progresso técnico, dos modos de pesquisa e das formas de conhecimento em que se apoia a inovação, com implicações nas possibilidades de apropriabilidade de cada organização dentro de cada setor (DOSI & ORSENIGO, 1988) e, dentro deste, dependendo da posição que ocupam na cadeia de valor, com umas mais dependentes de processos muito relacionados com inputs analíticos, outras com inputs sintéticos e, outras ainda, com inputs simbólicos. Ao cruzarmos as diferentes condições de apropriabilidade intersectorial, com o conhecimento base específico, o resultado são diferenças setoriais nas formas organizacionais de procura por inovação, conduzindo a diferenças quanto ao sistema setorial de inovação (MALERBA, 2002 e MALERBA, 2005) e ao sistema tecnológico de inovação (CARLSSON & STANKIEWICZ, 1991 e CARLSSON, 1997). Em termos de gestão organizacional do processo de inovação, a procura por conhecimento base complementar fora das fronteiras da empresa pode favorecer uma gestão dos processos de inovação assente nos princípios da “Open Innovation” (CHERSBROUGH, 2006) que facilite, precisamente, a aquisição externa desse conhecimento complementar nas redes cada vez mais distribuídas de produção do conhecimento (ASHEIM, BOSCHMA, & COOKE, 2011), o que reforça o papel das redes de produção e translação do conhecimento. No entanto, esta possibilidade também é limitada pelas caraterísticas específicas do conhecimento base em causa. Por outro lado, a teoria do conhecimento base tem implicações na espacialidade destas mesmas redes de produção e difusão do conhecimento, em função das empresas se apoiarem mais no conhecimento analítico, sintético ou simbólico. Contribui para clarificar o papel da proximidade territorial nos processos de inovação, nomeadamente no que respeita aos processos de translação e difusão em que se sustenta o spillover do conhecimento, quando cruzada com literatura sobre os processos de criação de redes de interação e difusão do conhecimento - global pipelines, buzz, face-to-face (ASHEIM, COENEN, & VANG, 2007). Desta forma, afigura-se como uma âncora teórica capaz de ultrapassar a aparente dicotomia das relações proximidade vs. distância territorial nos processos de inovação, resultante de uma visão simplificada das dimensões tácita e codificada do conhecimento. Os diferentes tipos de conhecimento base contribuem igualmente para a compreensão dos processos de spillover do conhecimento entre indústrias relacionadas o que, por sua vez, poderá representar um contributo para reforçar a teoria da variedade relacionada (ASHEIM, BOSCHMA, & COOKE, 2011). A tese do conhecimento base dá igualmente um contributo para as políticas de estruturação dos sistemas Regionais de inovação e dos clusters locais, sustentando a argumentação contra a ideia de uma fórmula universal de políticas de inovação e, alternativamente, sustentando a necessidade de
153 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 abordagens orientadas de acordo com as especificidades do conhecimento base (ASHEIM & COENEN, 2005). A literatura organizacional também contribui para este debate em torno da produção do conhecimento. Ao encarar as empresas enquanto organizações aprendentes, considera que as organizações, no seu dia-a-dia, desenvolvem atividades de produção do conhecimento. Estas atividades podem orientar-se para formas de exploration e de exploitation (Quadro 4) que sustentam a aprendizagem e a inovação (MARCH, 1991; LEVINTHAL & MARCH, 1993; MCNAMARA & BADEN-FULLER, 1999; GARCIA, CALANTONE & LEVINE, 2003; ROTHAERMEL & DEEDS, 2004; GILSING & NOOTEBOOM, 2005; GILSING & NOOTEBOOM, 2006; GREVE, 2007; BIERLY III, DAMANPOUR & SANTORO, 2009; LAVIE, STETTNER & TUSHMAN, 2010; KIM, SONG & NERKAR, 2012). Àquelas duas formas de conhecimento COOKE (2005, p. 327) acrescenta o examination knowledge para o caso particular da cadeia de valor das biociências dirigidas à saúde humana. Segundo a interpretação original de MARCH (1991), as atividades de exploration e exploitation são formas de aprendizagem e de criação de conhecimento fundamentais para as organizações e para outros sistemas adaptativos. Isto é, as organizações empresariais podem apoiar-se na “exploration of new possibilities and the exploitation of old certainties in organizational learning” (MARCH, 1991, p. 71). As organizações, por processos de aprendizagem dos seus membros, acumulam conhecimento ao longo do tempo que se reflete nas suas normas, regras, procedimentos e configurações; produzidas, reproduzidas e modificadas por processo de socialização dos indivíduos e das organizações, num contexto de competição das organizações para o qual contribui o explotarion knowledge e o exploitation knowledge por elas produzido (MARCH, 1991). Alinhando com uma visão dinâmica de transição e equilíbrio entre exploration e exploitation, e vice-versa, NOOTEBOOM (2005) e GILSING & NOOTEBOOM (2006) sustentam a ideia de que o equilíbrio entre estes se pode interpretar à luz do ciclo de descoberta (NOOTEBOOM 2005, p. 7 e GILSING & NOOTEBOOM, 2006, p. 3) que procura descrever e explicar a forma como exploration e exploitation estão relacionados, numa lógica de “continuity in discontinuity” (NOOTEBOOM, 2005, p. 7) e se desenvolvem apoiados um no outro. NOOTEBOOM (2005) assume explicitamente que esta é uma proposta heurística, uma vez que deve ser encarada como uma proposta de modelo geral de funcionamento, constituído por um conjunto de estádios sucessivos de um ciclo dinâmico, sujeito a muitas contingências e exceções da tecnologia e do mercado, o que reforça a necessidade de adotar um modelo interpretativo multidimensional do conhecimento dirigido à inovação económica.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 160 investigação e a aplicação próprias do Modo 2, pressionam os indivíduos a reforçarem os processos interativos de produção do conhecimento, assentes em redes transdisciplinares e interorganizacionais (GIBBONS et al., 1994) que podem reunir e estruturar taxonomias de competências e até conhecimento base diverso, vincando a continuidade e estreita interdependência entra o exploration knowledge e exploitation knowledge ao nível organizacional. Esta complexidade, associada à importante dimensão tácita do conhecimento daí resultante, reforçam a necessidade de participação nas redes de produção do conhecimento para a ele acederem, dada a indissociabilidade entre a produção e a difusão (GIBBONS et al., 1994). As organizações proporcionam o contexto favorável à ação dos indivíduos na criação, acumulação, translação e aplicação do conhecimento. Funcionam ainda como espaço de acumulação, ressonância, interação e multiplicação coletiva do conhecimento produzido, transladado e aplicado pelos indivíduos pertencentes à organização ou relacionados com ela. Daqui resulta a natureza cumulativa do conhecimento organizacional, de que depende a capacidade de absorção da mesma (COHEN & LEVINTHAL, 1990). Estas são as razões que sustentam a importância de conceber uma arquitetura organizacional enquanto entidade produtora de conhecimento (NONAKA, UMEMOTO & SENOO, 1996; TAKEUCHI & NONAKA, 2004) ou como organização aprendente (LUNDVALL & JOHNSON, 1994; LUNDVALL, 2004). Independentemente das atividades de produção do conhecimento se apoiarem mais numa das categorias de conhecimento base, as organizações necessitam de recrutar e de desenvolver um leque abrangente de categorias taxonómicas do conhecimento. No entanto, o conhecimento base não deixa de condicionar o foco, a arquitetura e as estratégias organizacionais (divisão do trabalho, internalização/externalização de competências, especialização/diversificação, estrutura das redes externas de interação com outras organizações, localização geográfica, etc.) em função destas se apoiarem mais no conhecimento analítico – com o know-why a desempenhar um papel central – ou no conhecimento sintético – acentuando-se o papel do know-how – ou, ainda, no conhecimento simbólico – assumindo o know-who um papel central (ASHEIM, COENEN & VANG, 2007; MOODYSSON, COENEN & ASHEIM, 2008). A própria apropriabilidade do conhecimento pela organização é variável em função destas mesmas caraterísticas, à qual não é alheio o comportamento dependente do trajeto do conhecimento acumulado ao longo do tempo na organização. Por outro lado, dependendo da etapa do ciclo de descoberta a que se dirige num determinado momento, e/ou atendendo à posição que ocupa ou a que se dirige na cadeia de valor, independentemente do conhecimento base de que parte, as dimensões e competências de que necessita e que desenvolve podem estar mais orientadas para o exploration knowledge ou para o exploitation knowledge (NOOTEBOOM, 2005; COOKE, 2005; GILSING & NOOTEBOOM, 2006), reforçando a necessidade de recrutamento de um leque abrangente de taxonomias de competências que permitam o desenvolvimento equilibrado entre os momentos de exploration e os de exploitation. No entanto, dado o caráter contínuo e interdependente destes, a natureza do conhecimento acaba por envolver simultaneamente graus elevados da dimensão tácita e codificada e acabam por abarcar um leque diversificado da taxonomia das competências do conhecimento ao nível organizacional, se bem que, dependendo do conhecimento base de que partem para o subsequente processo inovador, emergem algumas competências que desempenham um papel mais central.
161 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 Daqui resulta uma visão que sustenta um papel crescente das redes interativas (intra e interorganizacionais) enquanto estrutura que melhor se ajusta às caraterísticas multidimensionais dinâmicas do conhecimento, como forma de corporizar a produção do conhecimento. Este papel das redes sai ainda reforçado pelo facto de que os indivíduos e as organizações não agem de forma isolada, mas agem num contexto socioeconómico-institucional da produção do conhecimento de um determinado território, em transição ao longo do tempo no sentido de aprofundamento das caraterísticas próprias do Modo 2 (GIBBONS et al., 1994). O forte incremento da produção de conhecimento, proporcionado quer pelo lado da produção, quer pelo lado da procura, está a conduzir a uma crescente especialização, fruto da crescente valorização económica e social do seu papel, cada vez mais ativo, no desenvolvimento em geral e, particularmente, no desenvolvimento económico dos territórios. Nesse sentido, a própria produção do conhecimento está a sofrer uma transformação, reforçando a proximidade entre a investigação e a aplicação, entre a teoria e a prática. Esta reorientação quanto ao fim estimula a geração de contextos de produção mais interdisciplinares e transdisciplinares, reforçados pela tendência para a produção do conhecimento no contexto da aplicação. Consequentemente aumenta a diversidade de locus de produção e força a reconfiguração institucional e o desenvolvimento de processos de produção que atravessam as fronteiras organizacionais, alargando a diversidade de organizações e de atores envolvidos, o que favorece a produção do conhecimento em contextos flexíveis, suportados por redes adaptadas à resolução de problemas concretos e prosseguindo fins determinados que vão evoluindo à medida que evoluem as respostas e as necessidades de novas respostas (GIBBONS et al., 1994). Este processo de mudança no contexto geral, no sentido do Modo 2 de produção do conhecimento reforça a necessidade de uma abordagem multidimensional e dinâmica ao conhecimento para avaliar corretamente o papel das redes. Estas sustentam os processos de produção do conhecimento nos interstícios disciplinares e organizacionais, rompendo com as fronteiras disciplinares e organizacionais, possibilitando os processos complexos de interação socioinstitucional que originam a fertilização cruzada. O processo de difusão do conhecimento está associado ao próprio processo de produção – atendendo à dimensão tácita do conhecimento – pelo que a natureza socialmente distribuída da produção do conhecimento, o aumento da diversidade de locus de produção do mesmo, as suas múltiplas possibilidades de configuração e reconfiguração, o processo bidirecional de comunicação necessário à sua produção, a necessidade do trabalho em equipa para a conjugação da sua produção e aplicação envolvendo múltiplos atores (universidades, empresas, capital de risco, serviços especializados, strat-ups, spin-offs, …), reforçam a necessidade de construção de estruturas reticulares flexíveis e multiescalares. As próprias mudanças institucionais são apoiadas em estruturas reticulares, de que é exemplo a transformação organizacional das universidades em “extended university” (GIBBONS et al., 1994, p. 82) como forma de abarcar o processo distribuído de produção do conhecimento, reforçando as ligações entre os diferentes atores produtores de conhecimento. Ou de que é exemplo a transformação das empresas, no sentido de se tornarem mais permeáveis aos produtores externos de conhecimento, adotando formas organizacionais mais horizontais que fomentem a criação de redes de empresas e alianças de I&D, num ambiente simultaneamente de cooperação e competição, à imagem do modelo de Open Innovation (CHERSBROUGH, 2006), para o qual a proximidade geográfica é interpretada como facilitadora dos contactos, da troca de informações, de colaborações e da aprendizagem.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 162 Ou de que é ainda exemplo o modelo de hélice tripla centrado nas redes de comunicações e de expetativas que reestruturam as formas institucionais entre as universidades, as indústrias e os governos (LEYDESDORFF, 2000; ETZKOWITZ & LEYDESDORFF, 2000; LEYDESDORFF & MEYER, 2003; LEYDESDORFF, 2005; ETZKOWITZ H. 2008). Em geral, na ótica do Modo 2 de produção do conhecimento, a criação, a inserção e a posição nas redes de cooperação, enquanto estrutura de colaboração e comunicação flexível, passa a ser a forma de institucionalização da produção do conhecimento (GIBBONS et al., 1994). Desta forma, espera-se que os espaços dos lugares e dos fluxos do conhecimento desempenhem um papel ubíquo em termos de capacidade de absorção e de spillover do conhecimento, embora com desempenhos variáveis resultantes da conjugação das dimensões do conhecimento base, do ciclo da descoberta e da posição e evolução da cadeia de valor em que se inserem e a que se dirigem os indivíduos e as organizações, o que sustenta igualmente um variabilidade em função do setor e da tecnologia, com implicações para as políticas territoriais de apoio à inovação económica. 2.3. Nível Hermenêutico Atendendo às dimensões epistemológicas e ontológicas do conhecimento, no momento de se proceder à interpretação do processo de origem, acumulação, translação e aplicação do conhecimento dirigido à inovação económica, emergem diferentes propriedades, decorrentes da sua natureza multidimensional dinâmica. 2.3.1. Indissociabilidade A interpretação de cada uma das diferentes dimensões do conhecimento é indissociável das restantes dimensões. Isto é, para a interpretação do conhecimento base é necessário recorrer à dimensão taxonómica do conhecimento que carateriza as competências envolvidas no seu uso, refinação e produção; associar a dimensão exploration-exploitation à medida que evolui no ciclo de descoberta/cadeia de valor; ponderar o grau da dimensão tácita e codificada envolvida no conhecimento. Descrito a partir de outra dimensão, a dinâmica exploration-exploitation do conhecimento envolve diferentes taxonomias do conhecimento que variam em função do conhecimento base de onde parte o ciclo de descoberta/cadeia de valor, refletindo-se na dimensão tácita e codificada do conhecimento utilizado, refinado e produzido (Quadro 5 e 6). Independentemente da dimensão a partir da qual se inicia o processo de interpretação do conhecimento dirigido à inovação económica, as restantes dimensões surgem associadas, potenciando a explicitação interpretativa. Estabelece-se assim uma relação sistémica entre as diferentes dimensões, em que a mudança numa dimensão tem repercussões nas restantes. 2.3.2. Grau A interpretação do conhecimento, dada a inexistência de dimensões absolutamente ‘puras’ do conhecimento, exige que se atenda às múltiplas configurações possíveis resultantes da variabilidade quanto ao grau da mistura da dimensão tácita e explícita, quanto ao grau de mistura da dimensão analítica, sintética e simbólica de que parte, quanto ao grau de mistura da dimensão taxonómica das competências – know-what, why, how e who – em que se apoiam os processos de produção do conhecimento base e as necessárias e produzidas
163 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 ao longo do ciclo de descoberta/cadeia de valor, também ele composto por uma variabilidade quanto ao grau de atividades de exploration, (examination), e exploitation do conhecimento. 2.3.3. Especificidade A interpretação do conhecimento deve atender às particularidades de cada uma das diferentes atividades económicas. Atendendo aos requisitos do setor, da tecnologia, da organização e da cadeia de valor, vão-se produzindo diferentes texturas do conhecimento, em função da conjugação dos diferentes graus de conhecimento base, dos diferentes graus de exploration e explotation do ciclo de descoberta e dos diferentes graus de taxonomias de competências em que se apoiam e que produzem. Por sua vez, cada uma daquelas dimensões conjuga diferentes graus da dimensão tácita e explícita do conhecimento. Assim, em função do setor de atividade, da tecnologia, da organização e da sua posição na cadeia de valor, o conhecimento envolvido exibe determinadas texturas específicas, diferentes das restantes e mutáveis ao longo do tempo. Por exemplo, um determinado conhecimento tecnológico pode ser novo para uma organização mas familiar para outra, o que significa que para a primeira é encarado como exploration e para a segunda como exploitation. Esta especificidade está muito relacionada com a natureza cumulativa do conhecimento, com a dependência do trajeto da organização, do setor ou da tecnologia e com o seu ciclo de vida. Por isso, espera-se que resultem igualmente comportamentos e caraterísticas específicas em termos do espaço dos lugares e dos fluxos do conhecimento dirigido à inovação económica, em função da textura específica do conhecimento em análise. 2.3.4. Relatividade O conhecimento, apesar da especificidade, não deve ser interpretado como encapsulado num trajeto único, mas antes como intercomunicante. Decorrente da variedade de grau das diferentes dimensões do conhecimento, existem múltiplas possibilidades de, ao longo do ciclo de descoberta, se gerarem pontos de sobreposição total ou parcial e complementaridades entre diferentes trajetos do conhecimento, que possibilitem o cruzamento entre dois ou mais processos de produção do conhecimento distintos, resultando daí uma nova oportunidade de criação ou reconfiguração. No fundo, a relatividade vem equilibrar a especificidade, ao afirmar a possibilidade de inter-relação de um processo específico de uso, refinamento e criação do conhecimento com outro processo diferente. Dentro da variedade específica de processos de produção do conhecimento, geram-se possibilidades de variedade relacionada. 2.3.5. Cumulatividade Há uma acumulação de conhecimento ao longo de todo o processo de produção do mesmo. O resultado da produção de conhecimento acumula-se sob a forma de conhecimento individual e organizacional e é a partir da conjugação deste mesmo conhecimento prévio acumulado que é determinada a capacidade de absorção dos indivíduos e das organizações, possibilitando-lhes desenvolverem o processo de aprendizagem, absorção e criação de novo conhecimento. Mesmo quando esse processo é disruptivo, à imagem da teorização schumpeteriana, ele apoia-se no conhecimento normal, recorrendo à imagem proposta por KUHN, [1962 (1970)], para provocar a revolução paradigmática. Assim, ao considerar-se que existe cumulatividade na utilização, refinamento e produção das diferentes dimensões do conhecimento, reforça-se a ideia de que o conhecimento vai
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 164 deixando lastro, gerador de uma certa dependência do trajeto. Isto é, o conhecimento prévio é determinante para o subsequente avanço no conhecimento que, uma vez produzido, reforça as competências individuais e organizacionais, impulsionando para novos avanços. 2.3.6. Transitividade Decorrente da cumulatividade, a interpretação do conhecimento considera a propriedade de transitividade, isto é, não há uma separação hermética entre cada avanço no conhecimento, existindo antes uma transição cumulativa espiralada. A transitividade pode-se verificar, por exemplo, ao longo do ciclo de descoberta, com o exploration a evoluir para exploitation transitando posteriormente para uma nova etapa de exploration e sucessivamente, acrescentando, desta forma, conhecimento ao conhecimento previamente existente, sendo melhor descrita pela imagem de espiral de descoberta. Também existe transitividade, por exemplo, ao longo de uma determinada cadeia de valor como demonstra COOKE (2005) para a cadeia de valor das biociências dirigidas à saúde humana. Esta caraterística da transitividade reforça igualmente a natureza cumulativa do conhecimento e a necessidade de as organizações incrementarem constantemente a sua capacidade de absorção, potenciando, desta forma, a criação de pontes que possibilitem a emergência duma certa variedade relacionada entre diferentes processos de aprendizagem, utilização, refinamento e produção do conhecimento, o que permite que o trajeto do conhecimento, para além da dependência do trajeto, vá reforçando também uma certa interdependência do trajeto 5 (COOKE, 2012) e, desta forma, incrementando o potencial de criação e reconfiguração do conhecimento por fertilização cruzada. Esta é uma propriedade do conhecimento importante para estabelecer uma relação com as teses sobre o ciclo de vida da inovação (MENZEL & FORNAHL, 2009) e com a dos sistemas adaptativos complexos (MARTIN & SUNLEY, 2011). 2.3.7. Dinâmica Pelas propriedades apresentadas até ao momento, é evidente que a interpretação do conhecimento considera o tempo. Não apenas uma datação estática no tempo, o que impediria avaliar a transitividade e a cumulatividade, mas sobretudo a dinâmica da sua evolução ao longo de um período de tempo. Só adotando uma interpretação temporalmente dinâmica se pode capturar as propriedades hermenêuticas do conhecimento enumeradas anteriormente que, em conjunto, permitem caraterizar a natureza cumulativa do conhecimento, traçando um percurso dependente do trajeto, mas caraterizado igualmente pelo entrelaçar de uma ou mais trajetórias, geradoras de uma interdependência do trajeto, graças à variedade relacionada proporcionada por um certo grau de proximidade cognitiva, doseada por um certo grau de distância cognitiva. 5 Segundo COOKE (2012, p. 33), “path inter-dependence” corresponde à “search and selection activities that permit the interaction with other industries”. Neste contexto em que aqui se aplica, corresponde ao conhecimento que, num dado momento do trajeto do ciclo de descoberta, pela abertura de contexto e de conteúdo, entrelaça-se com outro trajeto do ciclo de descoberta (variedade relacionada), resultando daí a reconfiguração ou a criação de novo conhecimento, originando um novo trajeto e o respetivo ciclo de descoberta próprio.
165 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 Atendendo à globalidade das propriedades hermenêuticas apontadas até ao momento, espera-se que daqui resulte um mosaico temporalmente dinâmico, composto por uma grande variedade de texturas de conhecimento em função das caraterísticas setoriais, tecnológicas, simbólicas e organizacionais do processo de inovação económica a que se dirige. No entanto, ainda fica uma dimensão em falta: a dimensão territorial do conhecimento. Espera-se igualmente que o mosaico composto pelas diferentes texturas do conhecimento resultantes da sua composição multidimensional dinâmica sustente uma interpretação territorial igualmente variável e dinâmica, em termos dos espaços dos lugares e dos fluxos, contrariando uma visão dualista e simplista que associa a dimensão tácita à necessidade de proximidade geográfica e a dimensão explícita à morte do território enquanto variável explicativa. 3. A visão multidimensional dinâmica A visão é uma proposta heurística que pretende explicar a dinâmica multidimensional do conhecimento dirigido à inovação económica, atendendo às caraterísticas epistemológicas, ontológicas e hermenêuticas apresentadas anteriormente. O contexto em que se insere o processo de criação e reconfiguração do conhecimento é caraterizado pela tendência de aprofundamento das caraterísticas identificadas como o Modo 2 de produção do conhecimento, proposto por GIBBONS et al., (1994). Neste contexto, a interpretação da visão multidimensional dinâmica (Figuras 1, 2 e 3) que se propõem é sustentada pela evolução da produção e reconfiguração do conhecimento ao longo de três planos – o horizontal, o vertical e o diagonal. 3.1. Dinâmica A dinâmica multidimensional é obtida a partir da análise do plano horizontal, vertical e diagonal, ao longo dos quais se vão tecendo diferentes texturas do conhecimento à medida que, ao longo do tempo, se estabelecem trajetórias do conhecimento, resultado, por um lado, da sua acumulação e irreversibilidade e, por outro lado, pela sua evolução no ciclo de descoberta/cadeia de valor. Desta forma, reforça-se uma interpretação dependente do trajeto do processo de produção e reconfiguração do conhecimento, o que consolida a ideia de que as organizações partem do conhecimento prévio acumulado no seio da organização para avançarem no processo de construção de conhecimento e que esse conhecimento acumulado condiciona a capacidade de absorção, isto é, a capacidade da organização para compreender, se relacionar e absorver conhecimento externo diferente do da organização. Assim, considera-se que a produção do conhecimento é um processo espiralado que evolui ao longo do tempo impulsionado pelo ciclo de descoberta. No entanto, estas trajetórias também se vão aproximando ou afastando cognitivamente, podendo cruzarem-se uma ou mais trajetórias em função da variedade relacionada, gerando igualmente uma interdependência do trajeto entre diferentes trajetos evolutivos do conhecimento. 3.2. Plano horizontal O triângulo (figura 1) representa o conhecimento base a partir do qual as organizações e os indivíduos desenvolvem o conhecimento dirigido à inovação económica. Nos
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 166 vértices situam-se os estados ‘puros’ do conhecimento analítico, sintético e simbólico. Considerando que estes estados ‘puros’ são raros ou até inexistentes, cada atividade de produção do conhecimento dirigida à inovação económica distribui-se pela área no interior desse mesmo triângulo, de acordo com as especificidade epistemológicas que o caraterizam, obtendo-se assim o grau de mistura analítica-sintética-simbólica da dimensão do conhecimento base que sustenta cada processo concreto de inovação económica. Figura 1: Dinâmica multidimensional – plano horizontal No seio do triângulo do conhecimento base estão representadas as diferentes categorias da dimensão taxonómica do conhecimento. A sua distribuição obedece ao papel de destaque que desempenham relativamente ao conhecimento base, daí o know-why se aproximar do analítico, o know-how do sintético, o know-who do simbólico e o know-what ao centro, dado que os dados e a informação desempenham um papel de importância equidistante face às diferentes formas do conhecimento base de que partem os processos de inovação. No entanto, todos podem contribuir para o uso e produção de qualquer uma das formas de conhecimento base, embora com variabilidade quanto ao grau de participação. Essa é a razão pela qual não se traçou uma linha de fronteira a delimitar uma área de influência exclusiva para cada uma das taxonomias. Assim, ao posicionar-se a atividade de produção do conhecimento de acordo com o grau de mistura do conhecimento base, devese atender igualmente à mistura do grau das taxonomias de competências envolvidas no uso e produção do conhecimento base. O posicionamento face ao conhecimento base e face às taxonomias que possibilitam a sua produção e uso permite avaliar o grau da dimensão tácita e codificada envolvida, compreendida dentro de um espetro de possibilidades que vai do extremo ‘puro’ da dimensão tácita – posicionada ao nível dos vértices ‘puros’ do conhecimento base sintético e simbólico – ao extremo ‘puro’ da dimensão explícita – localizada ao nível do vértice ‘puro’ do conhecimento base analítico. No entanto, sublinha-se a ideia que as dimensões ‘puras’ do conhecimento são muito raras ou mesmo inexistentes, sendo usadas apenas com o propósito de abstração. Ao entrelaçar a dimensão do conhecimento base, com a taxonomia do conhecimento e com a dimensão tácita e explícita, este plano horizontal permite urdir uma parte da teia do
167 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 conhecimento em que se sustentam os diferentes processos de inovação económica. No entanto, por si só, o plano horizontal não permite obter uma visão dinâmica da trama que vai tecendo, ao longo do tempo, a tela do conhecimento, e a própria interpretação multidimensional fica incompleta. 3.3. Plano vertical O plano vertical representa a evolução da trajetória do conhecimento ao longo do tempo, reforçando a sua natureza cumulativa e irreversível e sublinhando o seu caráter dependente do trajeto. O ritmo dessa evolução é marcado pela dimensão exploration-exploitation ao longo do ciclo de descoberta/cadeia de valor. Partindo da etapa de exploration, com elevado grau da dimensão tácita e assentes num grau de conhecimento base e de taxonomias do conhecimento em função da relatividade hermenêutica, podendo reforçar ou suavizar o grau da dimensão tácita, vai evoluindo para as etapas mais dirigidas à exploitation, evoluindo em simultâneo a mistura do grau analítico-sintético-simbólico e a mistura taxonómica de competências envolvidas. Por uma questão heurística, a espiral de exploration-exploitation foi colocada nos extremos ‘puros’ representados pelos vértices do triângulo (Figura 2) mas o ciclo de descoberta origina-se e, ao longo do tempo, desenvolve-se em qualquer ponto da área do triângulo, dependendo do grau de mistura das múltiplas dimensões do conhecimento representadas no plano horizontal e do trajeto que o conhecimento vai construindo à medida que se desenrola o ciclo de descoberta, representado no plano vertical. Esta dimensão vertical é, ainda, apropriada para representar os processos de variedade não relacionada 6 (FRENKEN, VAN OORT, & VERBURG, 2007) em termos de produção de conhecimento, sendo que cada trajeto de produção de conhecimento prossegue o seu rumo sem nunca se cruzar com outro trajeto. Normalmente tal sucede quando existe elevada distância cognitiva entre os trajetos. 6 FRENKEN et al. (2007), em termos de economia regional, relaciona o conceito com os setores de atividade económica não relacionados entre si e localizados numa determinada região, sendo que o spillover do conhecimento entre estes setores não relacionados é difícil de acontecer. No contexto deste trabalho, o conceito é aplicado dirigido a um determinado trajeto do conhecimento que não estabelece relações com outros trajetos do conhecimento, dificultando igualmente o spillover do conhecimento.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 168 Figura 2: Dinâmica multidimensional – plano vertical 3.4. Plano diagonal Representa a evolução da trajetória do conhecimento ao longo do tempo, permitindo acentuar o caráter cumulativo do conhecimento e o seu trajeto irreversível, mas destaca particularmente a possibilidade de se entrelaçarem diferentes trajetórias em função da variedade relacionada 7 , podendo originar uma nova trajetória, o que acentua o caráter interdependente do trajeto do conhecimento. Além do mais, este plano diagonal do conhecimento permite estabelecer uma relação interpretativa com as teses sobre o ciclo de vida da inovação e dos clusters (MENZEL & FORNAHL, 2009) e sobre os sistemas adaptativos complexos das inovações e dos clusters (MARTIN & SUNLEY, 2011). 7 FRENKEN et al. (2007), associam o conceito de variedade relacionada com as externalidades de Jacobs, resultantes do spillover de conhecimento entre diferentes setores de atividade económica territorialmente co-localizados numa região. No contexto deste trabalho, o conceito de variedade relacionada está associado à ideia de spillover do conhecimento entre diferentes trajetórias de produção de conhecimento que, embora partindo de conhecimento base diferente, ao longo do seu trajeto, podem estabelecer cruzamentos que originem fertilização cruzada.
169 Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 Figura 3: Dinâmica multidimensional – plano diagonal No trajeto que vai descrevendo ao longo do tempo, o conhecimento pode manterse fiel ao grau da mistura epistemológica do conhecimento base, descrevendo uma trajetória vertical (Figura 2). Pode, ainda, inclinar a trajetória na direção de qualquer um dos vértices, graças à alteração do grau da composição epistemológica, com reflexos nas dimensões ontológicas e hermenêuticas (Figura 3). Pode mesmo entrelaçar-se com outras trajetórias do conhecimento (Figura 3), através de uma aproximação cognitiva geradora de uma variedade relacionada. O ritmo dessa evolução é marcado pela dimensão explorationexploitation ao longo do ciclo de descoberta/cadeia de valor. O momento crucial para esta deslocação diagonal de aproximação cognitiva ocorre na fase de exploration, dado que é com a abertura a novos contextos e conteúdos que dois trajetos se podem entrecruzar e gerar formas híbridas do conhecimento graças à fertilização cruzada e, assim, originar um novo trajeto espiralado do conhecimento, com o seu ciclo de descoberta próprio. Esta nova espiral pode ser apropriada através, por exemplo, da criação de spin-offs ou de uma startups. Assim, a dinâmica temporal apoiada no ciclo de descoberta é potenciadora da geração de redes de conhecimento que se podem entrelaçar, e não apenas de trajetos paralelos, gerando nós de ligação nos pontos onde existe proximidade cognitiva. Esta argumentação está em linha com a imagem do Modo 2 de produção do conhecimento, sobretudo no que diz respeito ao reforço da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade do processo de produção do conhecimento. 4. Conclusão: o espaço dos lugares e dos fluxos Até ao momento foram apresentadas as dimensões do conhecimento dirigido à inovação económica e foi modelizada a visão interpretativa que daí resulta. No entanto, subsiste ainda um plano do conhecimento por retratar: o plano correspondente à dimensão territorial, isto é, o espaço dos lugares e dos fluxos do conhecimento. Trata-se de interpretar o processo de translação do conhecimento no espaço. No espaço dos lugares em rede, o conhecimento é a matéria, o conduto são as redes (POWELL & GRODAL, 2005) e os lugares são a origem e o destino das ligações. No entanto, a multidimensionalidade do conhecimento gera interdependência sistémica entre a matéria, o conduto e os lugares, na hora de se gerarem redes de conhecimento.
Uma visão multidimensional dinâmica da produção do conhecimento dirigido à inovação económica e o espaço dos lugares e dos fluxos das redes. Revista da Faculdade de Letras – Geografia – Universidade do Porto III série, vol. 2, 2013, pp. 145–177 176 MARCH, J. G. (1991). Exploration and Exploitation in Organizational Learning. Organization Science , 2 (1), 71-87. MARQUES, T. S.; SANTOS, H. (2013). Lugares e redes de conhecimento e inovação na Área Metropolitana do Porto. Revista da Faculdade de Letras: Geografia, nº 2. MARTIN, R., & SUNLEY, P. (2011). Conceptualizing Cluster Evolution: Beyond the Life Cycle Model? Regional Studies , 45 (10), 1299-1318. MASKELL, P., BATHELT, H., & MALMBERG, A. (2006). Building global knowledge pipelines: The role of temporary clusters. European Planning Studies , 14 (4), 997-1013. MCNAMARA, P., & BADEN-FULLER, C. (1999). Lessons from the Celltech Case: Balancing Knowledge Exploration and Exploitation in Organizational Renewal. British Journal of Management , 10, 291-307. MENZEL, M.-P., & FORNAHL, D. (2009). Cluster life cycles - dimensions and rationales of cluster evolution. Industrial and Corporate Change , 19 (1), 205-238. MOODYSSON, J., COENEN, L., & ASHEIM, B. (2008). Explaining spatial patterns of innovation: analytical and synthetic modes of knowledge creation in the Medicon Valley life-science cluster. Environment and Planning A , 40, 1040-1056. NELSON, R. R. (Ed.). (1993). National Innovation System: A Comparative analysis. Oxford: Oxford University Press. NONAKA, I., & TAKEUCHI, H. (2004). Teoria da Criação do Conhecimento Organizacional. In H. TAKEUCHI, & I. NONAKA, Gestão do Conhecimento (A. THORELL, Trad., pp. 54-90). São Paulo: Artmed Editora S.A. NONAKA, I., UMEMOTO, K., & SENOO, D. (1996). From Information Processing to Knowledge Creation: A Paradigma Shift in Business Management. Technology in Society , 18 (2), 203-218. NOOTEBOOM, B. (2005). Entrepreneurial roles along a cycle of discovery. Tilburg University - Center and Faculty of Economics and Business Administration , Discussion Paper No. 2005-43 , 1-25. NOWOTNY, H., SCOTT, P., & GIBBONS, M. (2003). 'Mode 2' Revisited: The New Production of Knowledge. Minerva , 41, 179-194. OCDE. (1996). The Knowledge-based Economy. Paris: OCDE. POLANYI, M. (1966). The Tacit Dimension. London: Routledge & Kegan Paul Ltd. POWELL, W. W., & GRODAL, S. (2005). Networks of Innovators. In J. FAGERBERG, D. C. MOWERY, & R. R. NELSON, The Oxford Handbook of Innovation (pp. 56-85). New York: Oxford University Press. RAMLOGAN, R., MINA, A., TAMPUBOLON, G., & METCALFE, S. J. (2007). Networks of knowledge: The distributed nature of medical innovation. Scientometrics , 70 (2), 459-489.
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