scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Tão estranho e tão próximo : do estranho e do estrangeiro no teatro : nota de abertura

Ribeiro, Nuno Pinto

Full text

NOTA DE ABERTURA TÃO ESTRANHO E TÃO PRÓXIMO: DO ESTRANHO E DO ESTRANGEIRO NO TEATRO Nuno Pinto Ribeiro Universidade do Porto / CETUP O XI Encontro Internacional do Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto (C. E. T. U. P.), reunido entre 2 e 4 de Julho de 2015 no Porto (Casa Burmester), escolheu como referência O Estranho e o Estrangeiro no Teatro (Strangeness and the Stranger in Theatre and Drama), e desta vez a simbiose de saberes diversos sob o comum e matricial denominador dos estudos de teatro e drama confere lugar qualificado à Arquitectura, nela repousando mais visivelmente o esforço de articulação entre as estruturas e partes componentes do edifício em que se distribuem os trabalhos desta edição do Teatro do Mundo. A criação dramática, com uma curta peça de Armando Nascimento Rosa, inaugura as propostas que o eixo temático eleito convoca: o estranho, ou ‘excêntrico’, na autodefinição da personagem masculina de Hotel São Carlos, é o novo proprietário do hotel em que se localiza o bar, espaço da acção desta peça, que procura convencer uma antiga grande senhora dos palcos a voltar à representação, perante o olhar só aparentemente casual e alheio dos clientes, afinal actores desocupados à espera de um Godot que assim acaba por chegar, solidários e coniventes como os vingadores do Crime do Expresso do Oriente. Do teatro ao cinema, também nas 8 NUNO PINTO RIBEIRO suas estreitas cumplicidades com a literatura: Ricardo Branco explora, no filme de Abdellatif Kechiche La Vie D’ Adèle , as sugestões colhidas nos movimentos da câmara e da manipulação do olhar do espectador, insistindo em recursos estratégicos que, como a semiótica das cores, dão vida a um percurso de iniciação que atravessa as tensões de uma experiência intensa, e de Cristina Marinho, atenta ainda à proposta de Kechiche e ao jogo de inflexões e descontinuidades nela recortada, examina na mesma obra cinematográfica a dimensão ética e metafísica que desgraçadamente a generalidade da crítica, apegada aos contornos mais ostensivos da narrativa e aos limites de uma leitura convencional, tende a ignorar ou a distorcer; Shakespeare é de seguida brevemente convocado, por Nuno Pinto Ribeiro, para dar testemunho de uma figura marginal (um estranho) que paradoxalmente conquista destacada respeitabilidade e finalmente se erigirá em pilar e porta voz da comunidade (o Bastardo, da peça King John); e o ano de Shakespeare é também o de Cervantes - o siglo de oro é revisitado na interpelação de Jorge Croce Rivera do jogo do uno e do diverso a propósito da pinacoteca de Felipe IV (III de Portugal), lugar em que se cruzam olhares em inconcluso diálogo e se refractam as cores e formas de opulentas e multímodas representações, constelação barroca que é também oportunidade para reflectirmos acerca do tempo que habitamos; Antoni Ramon Graells vem, depois, abrir a contribuição de Arquitectura nas suas relações com o espaço teatral e a Cenografia: o Théâtre du Soleil e a figura tutelar de Ariane Mnouchkine guiamnos no projecto inclusivo de uma cena que envolve a plateia e a ela ritualisticamente se abre em encontros inspirados na festa comunitária e potenciados na reinvenção permanente da relação entre actores e público e na plasticidade das estruturas físicas do edifício; João Mendes Ribeiro e Catarina Fortuna, aquele o coautor do projecto do Arquipélago, Centro de Artes Contemporânea dos Açores, na ilha de São Miguel, dão-nos conta de uma experiência fundada no paradigma modernista do Bauhaus e na tradição do teatro como laboratório vocacionado à construção de uma arte total, também estribada na versatilidade da orquestração do espaço teatral e na conivência nele instituída entre a área da representação e o lugar do público; o Teatro Oficina de São Paulo, com origem no Grupo Oficina de Teatro fundado em 1958, e a sua TÃO ESTRANHO E TÃO PRÓXIMO: DO ESTRANHO E DO ESTRANGEIRO NO TEATRO 9 vida de afirmação cultural e de resistência na cena brasileira, é assunto para uma reflexão de Celso Lomonte Minozzi e Maria Teresa de Stockler e Breja que testemunha uma prática também ligada a um sentido de comunidade e a uma reivindicação modernista traduzidas na configuração integrada do edifício no universo urbano, que o continua e que é dele prolongamento, e no desenho compreensivo de um espaço teatral flexível; finalmente, e ainda num terreno de solidariedades que une a inovação modernista e a estética teatral , José Carlos dos Santos Andrade lembra-nos a figura iconoclasta de Jean Genet , o estrangeiro que nos legou, de entre o acervo estranho das suas criações, O Balcão, na versão do encenador argentino Victor Garcia e sob o patrocínio da figura inspiradora de Ruth Escobar. Acto contínuo, Max Risselada diz-nos, em trabalho profusamente documentado, do seu entusiasmo pela obra do arquitecto brasileiro João Figueiras Lima, lembrando algumas das suas criações mais destacadas e sublinhando, nesse registo bem pessoal, a visão integrada do artista que concebe e o técnico que traduz a ideia para o plano da realização técnica e o domínio pragmático da construção. As incertezas na afirmação modernista da arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX, suas inflexões e hesitações ditadas pela supervisão exercida pelas representações de uma identidade mítica da cultura nacional que filtra ou abertamente reprime as experiências estéticas internacionais e ‘estrangeiras’, constituem, depois, as preocupações do trabalho de Eduardo Fernandes e de Rui Pereira: a Exposição do Mundo Português, de 1940, é momento paradigmático da exaltação de uma alegada grandeza do génio nacional, que os autores devidamente contextualizam historicamente e referem à integrada estratégia de persuasão e doutrinação do Estado Novo, sublinhando a capitulação de muitos profissionais perante uma versão oficial que viria a ser cada vez mais convictamente questionada; é, em seguida, um olhar do forasteiro e viajante, o de Christian Von Oppen, tão estranho e, afinal, tão próximo, o que na versão articulada de depoimentos diversos observa e avalia lugares qualificados da nossa história e da fixação da memória imperial – a Praça do Império, o Mosteiro dos Jerónimos e o Padrão dos Descobrimentos - , revisita os dias da Exposição e examina a vida lisboeta e as mudanças no quotidiano 10 NUNO PINTO RIBEIRO da urbe e no estatuto das mulheres: essa presença cosmopolita de refugiados, sobretudo alemães, que puderam encontrar em Lisboa um porto de abrigo e de passagem, foi, nesses anos de chumbo de perseguição e insegurança, agente de transformação e semeadora de futuro em terra portuguesa; regressa ainda a Arquitectura, agora nas suas relações com a Justiça, e no testemunho de Ivo Oliveira: o recente mapa judiciário, que extingue tribunais e reordena a distribuição da sua rede de acordo com critérios contabilísticos de duvidosa razoabilidade, numa aposta concentracionária que em muitas soluções concretas nem sequer responde a economias de escala, ofende gravemente, em muitos casos, a relação orgânica entre a sede de aplicação da justiça e o cidadão, as outras instituições do Estado, ou ainda a malha urbana que acolhera o palácio da justiça numa lógica de coerência funcional e nele reconhecera forte carga simbólica e, até, um relacionamento afectivo temperado na longa experiência das práticas comunitárias; é ainda a Justiça, desta vez no cenário majestoso do Royal Courts of Justice e nas suas improváveis relações com o humor, a incongruência e o riso que se acolhem ao protocolo de investidura dos juízes do Supremo Tribunal e conquistam, na cerimónia solene, o lugar ambíguo de uma incongruência habilmente negociada com o rosto austero da autoridade, o objecto do escrutínio arguto de Leslie J.Moran, Professor de Direito do Birkbeck College; finalmente, e tal como na abertura desta sequência de trabalhos, é-nos oferecido um desfecho marcado por momento de criação: Isobel Williams conduz-nos, em sugestivos esboços do efémero, a uma visita guiada pelas estações de um banal quotidiano em que se cruzam heterodoxamente o público e o privado e a que não faltam os traços do insólito e as marcas de um estranhamento que são também o convite a que olhemos as coisas deste nosso teatro do mundo, tão próximas e, afinal, tão estranhas, ‘com os olhos da manhã’. A disposição dos ensaios não obedece, evidentemente, a qualquer critério de valoração hierárquica: é ao leitor que compete definir prioridades e escolher o percurso de leitura. São devidos agradecimentos a todos os participantes, nacionais e estrangeiros, que tão generosamente ofereceram as suas comunicações ao Colóquio e tão gentilmente nos cederam os TÃO ESTRANHO E TÃO PRÓXIMO: DO ESTRANHO E DO ESTRANGEIRO NO TEATRO 11 respectivos trabalhos para publicação, e ainda a quantos nos honraram com a sua visita e o seu entusiasmo. Escusado seria referir que os artigos são da responsabilidade exclusiva dos seus autores.