A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema: o caso das equipas cirúrgicas
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Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 1 “A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das Equipas Cirúrgicas” Anabela Santos Rodrigues Tese apresentada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto para a obtenção do grau de Doutor em Psicologia Orientador: Professor Doutor José Miguez Co-Orientador: Professor Doutor Paulo Renato Lourenço Investigação apoiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia SFRH/BD/17170/2004
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 2 Resumo Embora nas organizações a utilização de grupos possa, ou não, constituir a melhor opção para a organização do trabalho, esta continua a estabelecer, neste contexto, a lógica dominante, inclusivé nas organizações hospitalares, sobre a crença de que, juntando diversas competências e conhecimentos (equipas multidisciplinares), se obtém mais eficácia e melhor qualidade de cuidados. É o caso do bloco operatório (BO), lugar de intersecção de vários profissionais (médicos e enfermeiros) com as suas próprias actividades e competências e cujo desempenho constitui um factor crítico no cuidado cirúrgico prestado ao doente. A necessidade de encontrar a melhor forma de organizar estas equipas, com vista à sua eficácia, coloca novos desafios à investigação. Neste contexto, a presente dissertação pretendeu averiguar a possível adequação da equipa cirúrgica (EqC) ao sistema grupo, tal como o definem Miguez e Lourenço (2001), enquanto forma de organizar o trabalho, com vista à sua eficácia. Neste sentido, exploramos: a) a presença ou ausência das forças impulsoras (FI) à emergência da EqC enquanto grupo (a percepção de interdependência, a existência de, pelo menos, um alvo mobilizador comum e a interacção directa), b) a sobrevivência e o desenvolvimento da EqC enquanto grupo [partindo do pressuposto que a presença das FI, por si só, não garante a sobrevivência e o desenvolvimento do grupo, exploramos, a este nível, o impacto (se impulsor se restritivo) de um conjunto de variáveis por nós identificadas] e c) o impacto da temporalidade (continuidade da equipa no tempo) na emergência, sobrevivência e desenvolvimento da EqC enquanto grupo. Assim, foram realizados dois estudos empíricos, exploratórios, de natureza metodológica mista, com recurso à realização de entrevistas (semi-estruturadas) e observações (estruturadas) que envolveram duas EqC, uma com pertenças temporárias (equipas rotativas) e outra com pertenças que se prolongam no tempo (equipas fixas). As análises realizadas sugeriram: a) a adequação das equipas cirúrgicas estudadas ao sistema grupo, uma vez que estão presentes as condições de base ou FI à sua emergência, b) o impacto restritivo das categorias sociais, das percepções de eficácia e da importância atribuída a um conjunto de crenças relacionadas com o trabalho em equipa, na sobrevivência e desenvolvimento da equipa cirúrugica (rotativa) enquanto grupo e, c) (tendo em conta estas variáveis) um efeito positivo do factor temporalidade na emergência, sobrevivência e desenvolvimento da equipa cirúrgica (fixa) enquanto grupo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 3 Abstract Although in the organizations the use of work groups can constitute, or not, the best option for the organizaton of the work, this continue to be seen, in this context, the main stream, including in hospital organizations, under the belief that joining different skills and knowledge (multidisciplinary teams) can be achieved more efficacy and better care quality. It’s the case of the operating room (OR), place of diverse professional (doctors and nurses) intersection, with their own activities and skills and whose performance becomes a critical factor in the patient surgical care give. The need to find a better way to organize these teams, in order to its efficacy increasing, places new research challanges. In this context, the present dissertation aimed to search for the possible operating team room (OTR) adequacy to the group system, as it is defined by Miguez e Lourenço (2001) as an way for organize the work in order to improve its efficacy. In this way, we have explored: a) the presence or absence of the driving forces (DF) to the emergency of the OTR as a group (the interdependence perception, the existence of, at least, one common mobilizing target and direct interaction), b) the OTR survival and development as a group [leaving from the assumption that the presence of the DF, by themselves, does not guarantee the group survival and development, we explored, at this level, the impact (if driving or restraining) of a set of variables identified by us] and c) the temporality (the team time continuity) impact in the emergency, survival and development of the OTR as a group. Therefore we carry out two exploratory empirical studies, with a mix design, based on interviews (semi-structured) and observations (structured) involving two OTR, one with temporary belongings (rotational teams) and the other with belongings that remain over time (established teams). Ours analysis suggested: a) the OTR adequacy to the group system, because the DF to the group emergency are present, b) the restraining effect of the social categories, efficacy perceptions and beliefs related with team work, in the rotational OTR survival and development as a group, and c) (having in mind these variables) the positive effect of the temporality in the emergency, survival and development of the established OTR as a group.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 4 Résumé Bien que dans les organisations l’útilization des groupes peuve, constituer ou ne pas constituer la meilleur option pour l’organation du travail, celle-là continue à être, dans cet contexte, la logique dominante, inclusivément dans les organisations hospitaliers, en croyant que on joint les diverses compétences et les diverses connaissances (équipes multidisciplinaires) on a plus efficace et une meilleure qualité des soins. C’ est le cas du bloc opératoire (BO), lieu de intersection de plusieurs professionnels (médecins et infermiers) avec leurs activités et compétences dont son accomplissement est un facteur critique, dans le soin chirurgicale qu’on prête au malade. Le besoin de rencontrer la meilleur façon de organiser ces equipes avec l’objectif de son efficace, pose de nouveaux défis à l’investigation. Dans ce contexte, la présente dissertation a comme objectif assurer la possible adequation de l’équipe chirurgicale (EqC) au système groupe, ainsi que la définition par Miguez e Lourenço (2001), tandis que la façon de organiser le travail, avec l’objectif de son efficace. Dans ce sens-là on a expolité: a) la présence ou l’absence des forces impulseurs (FI) à l’émergence de la EqC pendant groupe (la perception de interdépendance, l’existance de, au moins, un but mobilisateur commun et l’interaction directe), b) la survivance et le développement de la EqC, tandis que groupe [en partant de la présupposition de que la presence des FI, par eux même n’assure pás la survivance et le développement du groupe, on a exploité, à ce niveau, l’impact (impulsif ou restrictif) d’un ensemble de variables par nous identifié] et, c) l’ímpact de la temporalité (continuité de l’équipe dans le temps) dans l’émergence, la survivance et le développement de la EqC comme groupe. De cette façon on a été réalisés deux études empiriques, exploratoires, de nature miste, avec la réalisation des interviews (demi-structurés) et des observations (structurés) qui ont engagé deux EqC, une avec des appartenance temporaires (équipes rotatives) et l´autre avec des appartenances qui se prolonguent dans le temps (équipes fiches). Les analyses qu’on a fait, elles font des suggestions: a) l’ ajustement de l’EqC étudie au système groupe, parce que les FI à l’ émergence sont présent, b) l’impact restrictif des catégories sociales, de la perception de efficacité et des croyances concernants le travail en équipe, dans la survivance et le développement de la EqC (rotatives) tandis que groupe et, c) (en prennant en considération ces variables) un effet positif du facteur temporalité dans l’émergence, dans la survivance et dans le développement de la EqC (fiches) pendant groupe.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 5 Agradecimentos Reflectindo este trabalho os múltiplos contributos que, ao longo de todo o percurso, o tornaram possível, queremos agradecer a todos os que viabilizaram, assim, a sua realização. Todavia, de forma mais particular, queremos deixar o nosso agradecimento mais sentido: Ao professor Doutor José Miguez, orientador científico deste trabalho, pelo seu saber, pelas suas reflexões, pelas suas propostas alternativas, nomeadamente em momentos de maior dificuldade e ansiedade, pela sua tolerância, também, e por ter acreditado neste projecto e na viabilidade da sua realização. Sem a sua orientação teria sido impossível chegar onde chegamos. Dai o primeiro agradecimento ser-lhe dirigido. Ao Professor Doutor Paulo Renato Lourenço, co-orientador deste trabalho, pela sua disponibilidade, pelas suas valiosas reflexões e sugestões que de forma única enriqueceram este trabalho. A ele, o nosso muito obrigado, por tudo, inclusivé pela amizade que ficou. Á Professora Carmen Tabernero, pela sua disponibilidade, pela sua atitude de escuta, pelos valiosos conselhos e ainda pelas palavras amigas com que sempre nos presenteou. A todos os colegas e amigos do CITTE, mais destacadamente ao Dr. Manuel Moreira, ao Dr. Paulo Neves, ao Dr. João Oliveira, e, mais recentemente, à Dra. Ivone, assim como a alguns elementos de Coimbra (nomeadamente, a Dra. Isabel Dimas) pelos debates (mais ou menos acessos) de ideias, pela partilha, pelo apoio e pelos momentos de descontracção, também tão importantes. Aos dois serviços hospitalares (gestão e profissionais do terreno, nomeadamente médicos e enfermeiros) que permitiram a realização dos nossos estudos empíricos. Destacamos, no primeiro BO, nos dois primeiros anos deste percurso, o apoio/incentivo e a disponibilidade para trocas de horário, dos colegas enfermeiros e das enfermeiras chefes e, no segundo BO, destacamos o apoio determinante do nosso gatekeeper, a simpatia com que nos receberam e sempre nos trataram, assim como o interesse, a disponibilidade e a colaboração que sempre demonstraram. À Fundação para a Ciência e a Tecnologia que, com o seu apoio financeiro, tornou possível a dedicação exclusiva à realização deste trabalho. A todos os amigos (mais destacadamente: Tina, Céu, Isabel, Guida, Adalberta, Conceição, Fernanda e China) pelo apoio e pela amizade. Um agradecimento especial aos amigos Lola, Luz e Raul, (também) pela revisão linguística desta dissertação. O último agradecimento vai para os familiares directos (pais, irmãs, irmãs adoptivas, sobrinhos e tia) que proporcionaram o apoio incondicional ao longo deste percurso.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 6 Abreviaturas e Siglas BO – Bloco(s) Operatório(s) EqC – Equipa(s) Cirúrgica(s) FI – Força(s) Impulsora(s) FRForça(s) Restritiva(s) EAEnfermeiro(s) de anestesia EBOEnfermeiro(s) do Bloco Operatório ECEnfermeiro(s) circulante(s) EIEnfermeiro(s) Instrumntista(s) MCMédico(s) cirurgião(ões) MAMédico(s) anestesista(s) AC – Área cirúrgica AA – Área anestésica AAM – Auxiliar de Acção Médica ua – Unidade(s) de Análise FPCEUP – Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto SA – Socio-afectivo T - Tarefa CITTE – Centro de Investigação e Treino para o Trabalho em Equipa
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 7 ÍNDICE GERAL RESUMO ............................................................................................................................................... 2 ABSTRACT........................................................................................................................................... 3 RESUME................................................................................................................................................ 4 AGRADECIMENTOS.......................................................................................................................... 5 ABREVIATURAS E SIGLAS.............................................................................................................. 6 ÍNDICE GERAL..................................................................................................................................... 7 ÍNDICE DE FIGURAS....................................................................................................................... 11 ÍNDICE DE QUADROS..................................................................................................................... 14 INTRODUÇÃO GERAL.................................................................................................................... 16 PRIMEIRA PARTE - ESTADO DA ARTE..................................................................................... 20 NOTA INTRODUTÓRIA .................................................................................................................. 21 CAPÍTULO I – GRUPOS: UMA REALIDADE.............................................................................. 22 1. O ESTUDO DOS GRUPOS: PERSPECTIVA HISTÓRICA........................................................... 23 1.1 A EMERGÊNCIA DA P SICOLOGIA DOS G RUPOS ............................................................................ 23 1.2 A EVOLUÇÃO DA P SICOLOGIA DOS G RUPOS ................................................................................ 33 2. GRUPO: QUE SIGNIFICADOS? .................................................................................................... 40 2.1 A ( REAL ) EXISTÊNCIA DO G RUPO .................................................................................................. 40 2.2 A DEFINIÇÃO DE G RUPO ................................................................................................................ 42 2.2.1 O CONCEITO DE GRUPO À LUZ DA ABORDAGEM SOCIOTÉCNICA ............................................. 48 2.2.2 O G RUPO À LUZ DO M ODELO I NTEGRADO DE D ESENVOLVIMENTO G RUPAL DE M IGUEZ E L OURENÇO ........................................................................................................................................... 49 2.2.2.1 I NTERDEPENDÊNCIAS ................................................................................................................ 60 2.2.2.2 A LVO ( MOBILIZADOR ) COMUM .................................................................................................. 70 3. O IMPACTO DAS CATEGORIAS SOCIAIS E OUTRAS REPRESENTAÇÕES COGNITIVAS NO ESPAÇO DE VIDA DO GRUPO.................................................................................................. 75 CAPÍTULO II - BLOCO OPERATÓRIO E EQUIPAS CIRÚRGICAS....................................... 83 1. O ESTUDO DAS EQUIPAS CIRÚRGICAS: CONTRIBUTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS ............................................................................................................................ 84 1. 1. “M ODEL OF O PERATING R OOM P ERFORMANCE ” (H ELMREICH & S CHAEFER , 1994)........... 85 1. 2. “O PERATING R OOM N URSES ” (D ENISON & S UTTON , 1990) ..................................................... 88 1.3. A LAN M ARCO (2002) E A “G AME T HEORETIC A PPROACHES ”.................................................. 90
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 8 1.4 O DESEMPENHO DA E QUIPA CIRÚRGICA : M ODELO E M EDIDA . C ONTRIBUTOS DO C LINICAL S AFETY R ESEARCH U NIT ...................................................................................................................... 92 1. 5. M ATHIEU ET AL . (2001) E OS M ULTITEAM S YSTEMS .................................................................. 96 SEGUNDA PARTE – ESTUDOS EMPÍRICOS............................................................................ 101 NOTA INTRODUTÓRIA ................................................................................................................ 102 CAPÍTULO IV - ENQUADRAMENTO EPISTÉMICO-METODOLÓGICO .......................... 104 1. OBJECTIVOS GERAIS DO ESTUDO E QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO............................ 105 2. ORIENTAÇÃO TEÓRICA............................................................................................................. 107 2.1. P ARADIGMAS Q UALITATIVO E Q UANTITATIVO : A INVESTIGAÇÃO E O INVESTIGADOR ........ 108 2.2. D O Q UALITATIVO VERSUS Q UANTITATIVO AOS ESTUDOS M ISTOS : COMBINAR PARA VALIDAR E / OU COMPLEMENTAR ....................................................................................................................... 110 2.3. I NFERÊNCIAS : V ALIDADE VERSUS Q UALIDADE ; C RITÉRIOS VERSUS ESTRATÉGIAS .............. 118 3. DESENHO DA INVESTIGAÇÃO................................................................................................. 133 4. A ESCOLHA DAS TÉCNICAS DE RECOLHA DE INFORMAÇÃO E OS INSTRUMENTOS UTILIZADOS..................................................................................................................................... 140 4.1. A ENTREVISTA SEMI - ESTRUTURADA .......................................................................................... 147 4.1.1. O PROTOCOLO DA ENTREVISTA ................................................................................................. 151 4.2. A OBSERVAÇÃO ESTRUTURADA .................................................................................................. 159 4.2.1. A ESCOLHA DAS CATEGORIAS ................................................................................................... 160 4.2.2. O PROTOCOLO DE REGISTO ........................................................................................................ 163 4.2.3. O PAPEL DO OBSERVADOR ......................................................................................................... 165 5.UNIVERSOS DE ANÁLISE........................................................................................................... 167 6. DO ACESSO AO TERRENO À RETIRADA: PROCEDIMENTOS............................................ 173 7. A RECOLHA DE INFORMAÇÃO: PROCEDIMENTOS ............................................................ 175 7.1. A R ECOLHA E A NÁLISE D OCUMENTAL ..................................................................................... 175 7.2. A REALIZAÇÃO DAS E NTREVISTAS ............................................................................................ 175 7.3. A REALIZAÇÃO DAS O BSERVAÇÕES ........................................................................................... 179 8. PROCEDIMENTOS RELATIVOS À ANÁLISE, INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA.......................................................................................................... 182 8.1. A NÁLISE QUALITATIVA ( E QUANTITATIVA ) DA INFORMAÇÃO QUALITATIVA ......................... 183 8.1.1. P RIMEIRO MOMENTO DE REDUÇÃO DA INFORMAÇÃO : A TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS ............................................................................................................................................................. 185 8.1.2. S EGUNDO MOMENTO DE REDUÇÃO DA INFORMAÇÃO : A ANÁLISE DE CONTEÚDO .............. 186 8.1.2.1O USO DOS COMPUTADORES NO PROCESSO DE ANÁLISE ........................................................ 190 8.1.3. A INTERPRETAÇÃO DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 193 8.2. A NÁLISE QUANTITATIVA DA INFORMAÇÃO QUANTITATIVA .................................................... 194 8.3. A INTEGRAÇÃO DA INFORMAÇÃO ( QUALITATIVA E QUANTITATIVA )...................................... 195 9. ESTRATÉGIAS IMPLEMENTADAS PARA O CONTROLO DA QUALIDADE DAS INFERÊNCIAS................................................................................................................................... 196 9.1. P RIMEIRA GRANDE FONTE DE ENVIESAMENTO : REALIZAÇÃO DO ESTUDO NO LOCAL DE TRABALHO DO INVESTIGADOR .......................................................................................................... 197 9.2. S EGUNDA GRANDE FONTE DE ENVIESAMENTO : UM ÚNICO OBSERVADOR .............................. 200 9.3. E NTREVISTAS : FONTES DE POSSÍVEL ENVIESAMENTO E ESTRATÉGIAS DE CONTROLO ......... 201 9.4. O BSERVAÇÕES : FONTES DE POSSÍVEL ENVIESAMENTO E ESTRATÉGIAS DE CONTROLO ....... 204 9.5. S ÍNTESE DAS ESTRATÉGIAS UTILIZADAS NO CONTROLO DA QUALIDADE DAS INFERÊNCIAS . 207 10. “ÉTICA” NA INVESTIGAÇÃO: ASPECTOS PRÁTICOS........................................................ 209 11. SÍNTESE DAS OPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS, METODOLÓGICAS E TÉCNICOINSTRUMENTAIS............................................................................................................................. 214 CAPÍTULO V - O SISTEMA DE CATEGORIAS....................................................................... 218
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 9 CAPÍTULO V I RESPOSTA ÀS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO....................................................................................................................... 224 1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 225 2. COMO SE CARACTERIZA O FUNCIONAMENTO E A DINÂMICA DA EQUIPA CIRÚRGICA NO CONTEXTO BO?........................................................................................................................ 227 2.1. O BO COMO UM SISTEMA SOCIOTÉCNICO : M ACRO - ANÁLISE ................................................. 227 2.2. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................. 241 3. SERÁ QUE AS CONDIÇÕES DE BASE OU FI PROMOTORAS DA EMERGÊNCIA DE UM GRUPO ESTÃO PRESENTES NO CONTEXTO DA EQUIPA CIRÚRGICA?.............................. 246 3.1. I NTERDEPENDÊNCIAS .................................................................................................................. 246 3.1.1 S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA .................................................................... 262 3.2. A LVO , COMUM , MOBILIZADOR ?................................................................................................. 264 3.2.1 S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA .................................................................... 271 4. QUAL É O IMPACTO DAS CATEGORIAS SOCIAIS, DA PERCEPÇÃO DE EFICÁCIA E DAS CRENÇAS RELACIONADAS COM O TRABALHO EM EQUIPA NA SOBREVIVÊNCIA E DESENVOLVIMENTO DA EQUIPA CIRÚRGICA ENQUANTO GRUPO?................................. 273 4.1. O “N ÓS ” E “O S OUTROS ” NO COLECTIVO EQUIPA CIRÚRGICA ............................................... 273 4.1.1 S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA .................................................................... 277 4.2. E FICÁCIAS ................................................................................................................................... 279 4.2.1 S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA .................................................................... 286 4.3. C RENÇAS R ELACIONADAS COM O TRABALHO EM EQUIPA : DIVERGÊNCIA OU CONVERGÊNCIA ? ............................................................................................................................................................. 289 4.3.1 S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA .................................................................... 293 5. COMO É QUE AS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO 2 E 3 DIFEREM QUANDO SE TRATA DE EQUIPAS COM ELEMENTOS FIXOS? EMERGÊNCIA DA 4ª QUESTÃO DE INVESTIGAÇÃO............................................................................................................................... 295 5.1 A REALIZAÇÃO DO SEGUNDO ESTUDO . M ETODOLOGIA E PROCEDIMENTOS : P ARTICULARIDADES .......................................................................................................................... 296 5.2 O BO 2: Q UE SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ?............................................................................ 308 5.3 S ERÁ QUE AS CONDIÇÕES DE BASE OU FI PROMOTORAS DA EMERGÊNCIA DE UM GRUPO ESTÃO PRESENTES NO CONTEXTO DA EQUIPA CIRÚRGICA ? ....................................................................... 314 5.3.1. I NTERDEPENDÊNCIAS ................................................................................................................ 314 5.3.1.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 344 5.3.2. A LVO , C OMUM , M OBILIZADOR ? ............................................................................................... 347 5.3.2.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 357 5.4. Q UAL O IMPACTO DAS CATEGORIAS SOCIAIS , DA PERCEPÇÃO DE EFICÁCIA E DAS CRENÇAS RELACIONADAS COM O TRABALHO EM EQUIPA , NA SOBREVIVÊNCIA E DESENVOLVIMENTO DA EQUIPA CIRÚRGICA ENQUANTO GRUPO ?.......................................................................................... 362 5.4.1. O “N ÓS ” E “O S OUTROS ” NO COLECTIVO EQUIPA CIRÚRGICA ................................................... 362 5.4.1.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 369 5.4.2. E FICÁCIAS .................................................................................................................................. 370 5.4.2.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 379 5.4.3. C RENÇAS R ELACIONADAS COM O TRABALHO EM EQUIPA : DIVERGÊNCIA OU CONVERGÊNCIA ? ............................................................................................................................................................. 385 5.4.3.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................ 388 6. A REANÁLISE DOS DADOS DO PRIMEIRO ESTUDO À LUZ DAS NOVAS CATEGORIAS (DO ESTUDO 2)................................................................................................................................. 392 6.1. S ÍNTESE REFLEXIVA DA INFORMAÇÃO RECOLHIDA ................................................................. 404 7. EQUIPA CIRÚRGICA: TAREFA PARA GRUPO? CONTRIBUIÇÕES DOS ESTUDOS......... 405 8. LIMITAÇÕES DOS ESTUDOS E POSSÍVEIS INVESTIGAÇÕES FUTURAS......................... 413 CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................................. 416 BIBLIOGRAFIA................................................................................................................................. 418 ANEXOS Anexo I – Protocolos para entrevistas (1º e 2º estudos) .........................................................443
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 16 INTRODUÇÃO GERAL Um BO é um lugar de intersecção de vários profissionais (médicos e enfermeiros) com as suas próprias actividades e competências, delimitadas por diferentes conhecimentos e respectivas áreas de intervenção (Rodrigues, 2004). Neste contexto, cada sala operatória representa uma situação de tarefa orientada, onde este conjunto de pessoas [EqC] desempenha uma variedade de actividades no sentido de alcançar um objectivo comum, o bem-estar do doente (Helmreich & Schaefer, 1994). A importância que estas equipas têm na qualidade do cuidado cirúrgico prestado ao doente, tem vindo a ser cada vez mais assumida (e.g. Bleakley, 2006 ; Healey, Undre & Vincent, 2004; Helmreich, 2000; Helmreich & Davis, 1996; Helmreich & Schaefer, 1994), o que justifica o interesse que têm vindo a despertar (nomeadamente, e de forma mais intensa, nos últimos anos), entre investigadores de diferentes áreas científicas que, com diferentes interesses temáticos (que se interrelacionam) procuram aprofundar o conhecimento neste domínio. No nosso caso, o interesse nestas equipas relacionou-se com dois aspectos. Por um lado, o potêncial acesso que dispúnhamos a um contexto com equipas deste tipo e, por outro, o seu potêncial contributo para a discussão das nossas questões centrais de investigação: a emergência, a sobrevivência e o desenvolvimento do grupo, tal como o definem Miguez e Lourenço (2001), assim como a sua utilização enquanto forma de organizar o trabalho, tendo em vista a eficácia deste sistema. Esta última questão (do uso dos grupos como forma de organização do trabalho) constitui, na nossa perspectiva, uma preocupação pertinente, na medida em que nos remete para o domínio actual da lógica colectiva, como “unidade mínima de organização” do trabalho e a consequente generalização do uso dos grupos nesse contexto 1 . Poder-se-á afirmar que a forma mais adequada de organizar tarefas passa, obrigatoriamente, pela constituição e desenvolvimento de grupos? Será que o grupo (“Equipa”) merece o estatuto de panaceia para todos os problemas organizacionais (Sinclair, 1992)? Na verdade, assistimos nas últimas décadas, à transformação dos grupos na “pedra base” de muitas organizações (Stewart & Barrick, 2000), ocupando, deste modo, a crença nos seus benefícios um lugar central e inquestionável na organização do trabalho, tornando-se, 1 Neste caso importa referir que a passagem da unidade mínima de organização para uma lógica colectiva nem sempre se produziu tendo em conta as características do sistema social “grupo”, nomeadamente a interdependência associada à realização da tarefa principal, característica necessária à emergência e desenvolvimento de um grupo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 17 inclusivé, numa das formas mais comuns de mudança organizacional (work redesign) (Osterman, 2000). Daí que a literatura tenha vindo a propor, e a descrever, os muitos benefícios que advêm da sua utilização: aumento na produtividade, melhoria na qualidade, redução na estrutura hierárquica, redução do absentismo e do turnover, entre outros. Contudo, existe uma lacuna na investigação empírica que, embora comprovando largamente estes benefícios, justifique o seu uso generalizado (Glassop, 2002). Allen e Hecht (2004) utilizam o termo “Romance of Teams” para caracterizar esta “fé” (pouco suportada pela investigação empírica) na eficácia no trabalho em equipa. Uma das mais sérias consequências desta crença tem sido a utilização das equipas para quase tudo: desempenhar qualquer tarefa, resolver qualquer problema, alcançar qualquer objectivo (Allen & Hecht, 2004), sem previamente analisar o tipo de trabalho em questão, nomeadamente o tipo de interdependência que lhe está, ou não, associado, de forma a poder perceber se é um trabalho para uma equipa ou se uma outra qualquer forma de organização (incluindo o trabalho individual 2 ) poderia ser mais adequada. Esta tendência foi incentivada pelos investigadores que, tentadoramente, propunham a equipa como uma solução fácil para alguns dos problemas “irresolúveis” da vida das organizações (Sinclair, 1992). As organizações hospitalares não escaparam a esta hegemonia da “supremacia” das equipas, tendo também recorrido aos grupos de trabalho, intitulados, neste contexto, de equipas multidisciplinares, como modelo de organização do trabalho, escolha fundamentada na crença de que estas equipas juntam diversas competências e conhecimentos, acarretam mais eficácia, melhor coordenação e melhor qualidade de cuidados (Ducanis & Golin, 1979). No entanto, e ao contrário de alguns autores que sugerem a formação de grupos como a melhor forma de alcançar uma performance satisfatória (Buchanan, 1979), nós acreditamos que a escolha do desenho que melhor maximiza o desempenho de uma tarefa, por uma determinada equipa, exige uma reflexão sobre essa tarefa, como um todo, na medida em que a melhor opção de organização do trabalho, pode não passar pela formação de grupos, devendo o seu uso ter em conta certas características da tarefa, como por exemplo, a presença de, pelo menos, um alvo mobilizador comum e a necessidade de interdependência para a realização desse alvo [que, como veremos, constituem as FI ou condições de base à emergência de um grupo, na perspectiva de Miguez e Lourenço (2001)]. Daí a inevitabilidade de estudar, de forma pormenorizada, a tarefa das EqC, descrevendo e caracterizando a sua dinâmica. Claro que em alguns dos estudos empíricos realizados neste contexto, assim como em alguns dos contributos teóricos (que abordaremos no Capítulo II), 2 Hackman (1998) reparou que um dos erros mais comuns dos gestores, que muito contribuía para o não funcionamento das equipas, era atribuir-lhes tarefas que podiam ser melhor desempenhadas por indivíduos.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 18 podemos encontrar informação que ajuda a descrever e caracterizar a dinâmica do funcionamento destas equipas, de forma a podermos compreender melhor as “tarefas” e as “relações” que se estabelecem e sua adequação na realização dos objectivos. Todavia, nenhum deles se insere na nossa linha de investigação (emergência, sobrevivência e desenvolvimento de grupos 3 ), nenhum deles foi realizado em Portugal (embora alguns retratem realidades de hospitais europeus, apresentando algumas semelhanças com a nossa realidade hospitalar, o resultado da interacção tarefas/relações será, de qualquer modo, diferente, em diferentes contextos onde interagem diferentes variáveis) e, ainda, em nenhum deles se encontra uma caracterização total (tarefa e relações) destes sistemas (muitas vezes o que se verifica é um estudo compartimentado, relativo, ou a um grupo profissional, ou a uma parte da EqC). Assim, e surpreendentemente (na medida em que o desempenho destas equipas constitui um factor crítico no cuidado ao doente) a investigação empírica e o desenvolvimento de modelos de desempenho, no contexto das EqC, é, comparativamente, escassa, apesar da necessidade de melhorar a qualidade e a segurança nesses contextos, através, como referem Healey, Undre e Vincent (2004; 2006) de análises mais profundas das respectivas estruturas e tarefas, em contexto natural, dando atenção a todos os aspectos relacionados com o respectivo desempenho, esperando a obtenção de evidências empíricas que suportem intervenções adequadas com vista à sua eficácia. Neste universo de oportunidades de investigação (dado o estado inicial em que se encontra a investigação nesse domínio) muitos aspectos poderiam constituir alvo do nosso estudo. Porém, o nosso objectivo relacionou-se com o desafio de contribuir para clarificar a problemática da emergência, sobrevivência e desenvolvimento de grupos no contexto organizacional (hospitalar, mais concretamente), explorando a possível adequação do colectivo equipa cirúrgica ao sistema grupo (tal como é definido por Miguez & Loureço, 2001), enquanto forma de organização do trabalho, tendo em vista a sua eficácia. Neste sentido, podemos dizer que (também) a nossa investigação vai, assim, ao encontro das recomendações de estudos anteriores (Haeley, Undre & Vicent, 2004, 2006; Helmereich, 1994; Helmreich & Davis, 1996) que referem a necessidade de mais estudos empíricos que versem, a diferentes níveis de análise, as especificidades do desempenho da EqC, como um todo, contrariando a tendência, por um lado, da focalização numa visão geral do sistema EqC, perdendo informação sobre quem faz o quê e como, ao nível intra e inter partes constituintes e, por outro, a focalização numa única parte da EqC, perdendo, assim, o global. 3 Embora existam pequenos aspectos tangíveis, o que nos permitirá fazer algumas pontes com estes trabalhos.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 19 O presente estudo, ao centrar-se na especificidade das partes, mas também nas relações, tarefa e socio-afectivo (SA), que se estabelecem no todo da EqC, vem, na nossa perspectiva, contribuir para colmatar esta lacuna da literatura. Neste contexto, estruturamos a presente dissertação em torno de duas partes, uma primeira relativa ao estado da arte das temáticas em questão e uma segunda dedicada aos estudos empíricos realizados. A primeira parte encontra-se subdividida em dois capítulos. O primeiro capítulo inclui uma revisão da literatura dedicada à investigação sobre grupos e sobre o seu significado, numa viagem pelos principais contributos, teóricos e empíricos, que, ao longo do tempo, têm versado esta problemática. No segundo Capítulo, procuramos dar conta do estado da arte no que diz respeito às EqC, em termos teóricos e empíricos. Muito embora constitua principal objectivo do presente trabalho, contribuir para a clarificação da problemática dos grupos (de trabalho), prolongando uma linha de investigação iniciada por Miguez e Lourenço (2001), destacamos o facto de, ser, também, ao nível das EqC que pretendemos apresentar uma contribuição que julgamos ser relevante. A segunda parte da presente dissertação é dedicada aos estudos empíricos realizados. Nela incluímos, primeiramente, a apresentação das opções epistemológicas, metodológicas e técnico instrumentais, que nortearam a realização dos estudos empíricos (IV capítulo). Será um capítulo, intensionalmente e invulgarmente, extenso, não só porque a natureza dos estudos realizados implica a necessidade de deixar transparecer os procedimentos, as reflexões, as escolhas, de todo o itinerário da investigação, mas, também, porque constituí nosso objectivo contribuir neste domínio, ao nível teórico. Incluímos, ainda, nesta segunda parte, o sistema de categorias que orientou a análise qualitativa realizada (V Capítulo), assim como as respostas às questões de investigação (Capítulo VI). Terminamos, destacando as contribuições que julgamos ter proporcionado com o presente estudo, identificando as respectivas limitações, deixando pistas para possíveis investigações futuras, reflectindo, desta forma, sobre o percurso efectuado.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 20 Primeira Parte - Estado da Arte
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 21 NOTA INTRODUTÓRIA Nos próximos capítulos, pretendemos debater as questões essenciais que enquadram os nossos estudos empíricos: os grupos enquanto realidade e as EqC. No que concerne aos grupos, e tendo como referência a vasta literatura publicada e o consequente património teórico e empírico construído ao longo de um século de investigações, importa salientar o facto de não constituir nosso objectivo realizar uma revisão exaustiva da literatura, mas sim, rever (apenas) os aspectos que consideramos centrais para o enquadramento desta dissertação. Nesse sentido, e situando a presente investigação no contexto da emergência dos grupos e das condições necessárias à sua sobrevivência e desenvolvimento, procurámos fazer uma passagem pelos principais contributos, teóricos e empíricos, que se debruçaram sobre o estudo dos grupos, e sobre o seu significado, acreditando que as perspectivas e os (acesos) debates do passado ajudam a construir e a compreender melhor o presente. Debruçar-nosemos, contudo, de forma mais detalhada, em dois significados de grupo. Por um lado, o significado de grupo à luz da abordagem sociotécnica [na medida em que não só constituiu uma nova maneira de olhar o grupo como, também, constitui fonte inspiradora da forma como (nós) compreendemos os grupos] e, por outro, o significado de grupo à luz do Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal de Miguez e Lourenço (2001), e nos seus elementos centrais (interdependência e alvo mobilizador comum), uma vez que constitui, neste contexto, a principal base conceptual dos nossos estudos empíricos. Deixamos, assim, intencionalmente de fora a dimensão temporal dos grupos (mais concretamente o conceito de desenvolvimento grupal e respectivos modelos teóricos), uma vez que não constitui um aspecto conceptual que iremos explorar empiricamente 4 . No que diz respeito às equipas cirúrgicas, a revisão de literatura pretendeu ser mais exaustiva, não só porque a publicação nesta área é muitíssimo mais escassa, mas para darmos conta dos principais contributos teóricos e empíricos que, na nossa perspectiva (também) procuram uma melhor compreensão desta problemática. 4 Quanto a esta questão, e uma vez que o nosso modelo de referência se destaca (também), como veremos, pela sua posição teórica em matéria de desenvolvimento grupal, remetemos para Lourenço (2002), Moreira (2007) e Dimas (2007), onde é possível encontrar uma análise detalhada desta problemática.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 22 Capítulo I – Grupos: Uma REALIDADE
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 23 1. O ESTUDO DOS GRUPOS: PERSPECTIVA HISTÓRICA Ao longo de mais de um século de actividade de investigação sobre grupos, produziuse uma grande diversidade de teorias e trabalhos empíricos que têm vindo a ser revistos/integrados por vários investigadores (recentemente: Arrow, McGrath & Berdahl, 2000; Arrow, Poole, Henry & Wheelan, 2004; Cohen & Bailey, 1997; Hare, 2003; Levine & Moreland, 1990; Poole, Hollingshead, McGrath, Morelande & Rohrbaugh, 2004; Sanna & Parks, 1997). Constitui-se, assim, um corpo de conhecimentos, a “Psicologia dos Grupos”, que, como referem González e Barrul (1999) e Cartwright e Zander (1968), não evoluiu de forma linear, uma vez que resultou da convergência de linhas distintas de investigação, em contextos sociais diferentes, não constituindo, assim, o resultado do trabalho de uma única pessoa, nem de um determinado momento, mas sim, o produto de uma conjuntura. Neste contexto, e no que diz respeito ao passado e à actualidade, vários foram os autores que, de forma mais ou menos aprofundada, realizaram arrumações conceptuais dos diferentes contributos, resultantes das diversas linhas de investigação (e.g. Arrow, McGrath & Berdahl, 2000; González, 1997; González & Barrul, 1999; Levine & Moreland, 2006; Lourenço, 2002; McGrath, 1997; Miguez, 2004; Poole, Hollingshead, McGrath, Moreland & Rohrbaugh, 2004; Sanna & Parks, 1997; Wheelan, 1994). A nosso ver, duas das mais bem conseguidas (porque claras, bem estruturadas e completas) tentativas deste arrumo, foram as realizadas por González (1997, pp. 27-39) e também por González e Barrul (1999, pp. 1543). Nesse sentido, tendo como ponto de partida os trabalhos dos referidos autores, complementando-os com o de outros autores, sempre que a nosso ver for pertinente, procuraremos, em seguida, traçar os principais contornos do percurso da história da Psicologia dos Grupos. 1.1 A emergência da Psicologia dos Grupos Terá sido a confluência de três grandes factos que criou a conjuntura favorável à emergência da Psicologia dos Grupos. Primeiro, o interesse de alguns pensadores em abordarem o fenómeno grupal, no domínio da especulação (porque sem apoio empírico), principalmente teóricos vindos de duas perspectivas: da perspectiva sociológica e da perspectiva psicossocial. Assim, e durante o período compreendido entre os séculos XVI e XIX, criou-se, na Europa, uma impressionante produção de literatura que, versando a natureza do homem e o seu lugar na sociedade, constituiu fonte de grande parte das orientações, ou pressupostos
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 24 básicos, que guiaram [e guiam] a investigação e o pensamento sobre os grupos (Cartwright & Zander, 1968, p. 4). Segundo González (1997) e González e Barrul (1999), as ideias filosóficas que primeiramente assinalaram o interesse e respectiva aproximação sociológica aos grupos, conheceram-se através dos contributos, entre outros, de: a) Charles Fourier (1772-1837), um socialista utópico que considerava o homem, em essência, como um ser grupal e que idealizou uma comunidade social utópica onde, com o objectivo de aumentar a produtividade dos grupos e os tornar menos conflituosos, cada indivíduo trabalharia segundo os seus gostos, agrupando-se segundo as suas preferências; b) Auguste Conte (1798-1875), contemporâneo de Fourier, que trouxe para a discussão a ideia de que a dimensão moral do homem está relacionada com os sentimentos e emoções que derivam da sua interacção social, sublinhando que a unidade social verdadeira, é a família, enquanto grupo social, à volta da qual se estrutura toda a organização social; c) Emile Durkheim (1858-1917), o primeiro a falar em consciência colectiva (pensamento grupal), um produto do desenvolvimento do homem dentro dos grupos, que refere que o fenómeno grupal é o elemento chave na explicação dos fenómenos sociais. Durkheim define o grupo de forma holística e dialéctica, encarando-o como mais do que o mero resultado da soma das partes constituintes; d) Charles Cooley (1869-1929), que dentro da estrutura social, classificou os grupos em primários e secundários, sendo os primeiros, grupos pequenos caracterizados pela existência de contactos cara a cara e, os segundos, grupos sociais mais amplos. Quanto às ideias filosóficas que, primeiramente, assinalaram o interesse e a respectiva aproximação psicossocial aos grupos e que influênciaram fortemente a Psicologia dos Grupos, destacam-se, segundo González (1997) e González e Barrul (1999), os contributos, entre outros, de: a) Le Bon (1841-1931), que se interessou pelo que intitulou de “alma das massas”, fenómeno fruto das mudanças que na altura aconteciam a nível psicossocial, nomeadamente a revolução industrial e cultural, assim como os fenómenos que lhes estão associados (e.g. urbanização, colonialização, etc.). Le Bom (1895/2005) concebe a massa psicológica como uma multidão organizada, cuja característica principal, independentemente das semelhanças e das diferenças entre os indivíduos que a compõem, consiste na sua capacidade em dotar aqueles de uma espécie de alma colectiva, que faz pensar, sentir e fazer de forma diferente, daquilo que pensaria, sentiria e faria, cada um, individualmente. Por outras palavras, o indivíduo já não é ele próprio, mas sim um autómato cuja vontade se tornou incapaz de guiar.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 25 Neste sentido, Le Bon argumenta que quando alguém se junta a um grupo, especialmente a um grupo grande, sacrifica parte da sua individualidade, ficando, assim, mais facilmente influenciável e susceptível. Apesar de Le Bon perceber a massa [o grupo], à semelhança do que acontece na química, como algo mais do que a soma e a média dos seus elementos, argumentando que, nesse sentido, se verifica uma combinação e emergência de novas características, apresenta uma concepção negativa do grupo, na medida em que refere que uma massa é sempre intelectualmente inferior ao homem isolado, sendo guiada pela emoção e pelo instinto, o que a torna, por isso, potêncialmente perigosa, podendo mesmo tomar conta da mente dos seus membros, fazendo com que se comportem barbaramente (1895/2005, pp. 42-47); b) G. Tarde (1843-1904), que explicou os fenómenos sociais a partir da interacção interpessoal, baseando-se no processo da imitação. Para Tarde, todos os fenómenos sociais são redutíveis à relação entre duas pessoas, em que uma delas exerce influência mental sobre a outra; c) Sigmund Freud (1856-1939), que aplicou as suas ideias ao grupo, destacando o papel do líder nos processos identificativos que operam mediante uma introspecção real ou imaginária. Para Freud, a formação do grupo baseia-se nos laços afectivos e libidinosos que surgem entre os seus membros, não deixando o indivíduo de pertencer passivamente ao grupo, apesar deste quadro de forças irracionais, uma vez que estabelece vínculos grupais, em muitas direcções, vínculos esses que o ajudam a equilibrar a sua personalidade; d) McDougall (1871-1938), que na linha de Le Bon, e expandindo o seu trabalho, desenvolveu considerações importantes em torno do comportamento grupal organizado. Tal como Le Bom, McDougall acreditava que os grupos desorganizados eram emocionais, impulsivos e violentos, e defendeu que a massa desagrega o sujeito, visto que este pensa e sente num plano inferior à média dos seus membros. Paradoxalmente, defende que o homem só pode rentabilizar as suas potêncialidades através da sua participação na vida do grupo e em sociedade. A tese que defende no seu livro “The group Mind”, diz respeito ao facto de a sociedade humana, organizada, possuir uma mente colectiva, que não é individual mas sim o conjunto, ou sistema, de relações entre as mentes sociais, ou socializadas, dos membros do grupo. Nesse sentido, McDougall (1920) refere que o grupo psicológico se define por um certo grau de actividade mental colectiva, um certo grau de influência recíproca e de interdependência entre os seus membros e ainda um certo grau de homogeneidade mental. Olhando para estas primeiras abordagens ao fenómeno grupal, que concorreram para a emergência da Psicologia dos Grupos, podemos dizer que, psicólogos e sociólogos
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 32 um campo de forças se caracteriza por um conjunto de vectores ou forças que apontam todos para a mesma região, estamos na presença de uma meta ou valência positiva 9 .Lewin (op. cit.) define Valência como um conjunto de factos imperativos do ambiente (necessidades, desejos, etc.) que determinam a direcção do comportamento do indivíduo [grupo], considerando que a sua potência, força e distribuição, devem constituir uma das mais importantes propriedades do ambiente. Segundo o autor, uma valência psicológica pode ser negativa (repulsiva) ou positiva (atractiva) e um objecto ou actividade ganha ou perde valência de acordo com as necessidades do organismo. Uma valência de um objecto ou actividade deriva geralmente do facto de esse objecto ou actividade constituir um meio de satisfação de uma necessidade ou estar com ela relacionada. Uma valência, por si só, não produz movimento ou locomoção, sendo para isso necessário que lhe seja associada uma força, cuja potência vai depender da posição da valência relativamente ao indivíduo e da presença ou não de outras valências. Daí que a uma valência corresponda, sempre, um conjunto de forças (campo de forças), impulsoras ou restritivas, dependendo se a valência é, respectivamente, negativa ou positiva 10 . Alcançada uma valência (satisfação de uma necessidade, que pode acontecer quando se alcança uma meta desejada, ou uma outra, substituta) e não se verificando alterações no campo de forças respectivo (pelo aparecimento, aumento ou diminuição de forças) o indivíduo [grupo] permanece nela num estado de “equilíbrio quase estacionário”, caracterizado por uma constelação de forças que se mantém constante, mas que é passível de ser perturbado perante a emergência de um agregado de forças numa outra direcção desejada ou perante a diminuição de forças oponentes a um outro qualquer equilíbrio, mudando, assim, a situação no seu todo. É desta forma que o indivíduo [grupo] se vai movimentando no seu espaço de vida, adquirindo cada momento onde se encontra o estatuto de presente, influenciado, contudo, pelo passado e pelo futuro. Traçamos, assim, as principais características da conjuntura que originou a emergência da Psicologia dos Grupos que, sem dúvida, não ficou a dever-se ao acaso. Também para Cartwright e Zander (1968), o tempo e o lugar da emergência do estudo dos grupos (dinâmica de grupo 11 ) não foi acidental, sendo que a sociedade americana, na década de 30 do século 9 Quando as forças actuantes sobre a pessoa [grupo] têm direcção oposta e são quase iguais em potência, verificando-se uma sobreposição de, pelo menos, dois campos de forças, aparece o conflito. 10 Um dos factores que determina o tipo de actividade que tem uma valência positiva ou negativa para um indivíduo numa determinada situação são os valores. Não têm carácter de Meta nem constituem por isso campos de força, mas influênciam a conduta porque induzem campos de força. 11 O estudo dos grupos é (também) apelidado pelos autores de “dinâmica de grupo”, [termo utilizado pela primeira vez por Lewin] e que desde a segunda guerra mundial constitui um termo que ganhou popularidade. Dado o seu uso generalizado, tornou-se num termo com significado impreciso, embora os autores o útilizem com o significado de campo de investigação dedicado ao conhecimento avançado acerca da natureza da vida do
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 33 passado, proporcionou o tipo de condições económicas e culturais necessárias à emergência de um movimento intelectual deste tipo, com uma atribuição de grande valor à ciência, à tecnologia e ao progresso. Juntamente com esta questão das condições económicas e culturais da sociedade norte americana, mais dois factores, segundo os autores, facilitaram, nessa altura e nesse local, a emergência do estudo dos grupos. Por um lado, e na linha proposta também por González e Barrul (1999), a existência de distintos profissionais que, maioritariamente, trabalhavam com grupos, tendo-se, por isso, preocupado com o aperfeiçoamento das suas práticas, investindo na descoberta dos princípios gerais que gerem o trabalho com grupos (trabalhadores sociais, psicoterapeutas, profissionais da educação e gestores/administradores) e, por outro lado, o desenvolvimento das ciências sociais como resultado quer das discussões que ocorreram no século XIX sobre a aplicação dos métodos científicos ao estudo do comportamento do homem e dos grupos, quer com o desenvolvimento das técnicas de investigação (nomeadamente, a sociometria, a observação controlada das interacções sociais e as experiências sobre o comportamento individual nos grupos) que permitiram tratar empiricamente a realidade “grupo” que, para os cientistas, passou então a adquirir o estatuto de realidade, uma vez que tudo o que àquele tempo não podia ser objectivamente observado, medido ou experimentalmente manipulado, acarretava pouco valor científico. Neste sentido, os investigadores foram capazes de demonstrar que o fenómeno de grupo, que Allport (1924) referiu ser acientífico, é, afinal, algo real, e como tal passível de ser cientificamente estudado. 1.2 A evolução da Psicologia dos Grupos Vimos que embora a origem do estudo dos grupos remonte ao final do século XIX, foi através da Psicologia Social Norte Americana, nos primeiros anos do século XX, que este se tornou num campo de investigação distinto (Arrow, McGrath & Berdahl, 2000, p. 11), mais concretamente na década de 30, que, tal como referem alguns autores (e.g. Cartwright & Zander, 1968; Levine & Moreland, 2006), marcam o início do estudo sistemático dos pequenos grupos, que, sem dúvida, tem sido de enorme importância para psicólogos sociais e organizacionais (Sanna & Parks, 1997, p. 261). Todavia, e não estando os grupos exclusivamente associados a uma das ciências sociais, vimos, também, que sociólogos (essencialmente), antropólogos, economistas e cientistas políticos, aplicaram muita energia no seu estudo, mostrando que o interesse por grupos era (e continua a ser) partilhado, o que, de grupo, constituindo assim um braço do conhecimento ou uma especialização intelectual, que, se se preocupar com o comportamento humano e as relações sociais, pode ser situada dentro das ciências sociais (Cartwright e Zander, 1968).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 34 acordo com Cartwright e Zander (1968) faz com que qualquer conhecimento geral sobre a dinâmica dos grupos tivesse [e tenha] largo significado dentro das ciências sociais. Foi (este) o primeiro período de evolução do pensamento da Psicologia dos Grupos, a que González e Barrull (1999) intitulam de período fundacional, uma vez que durante o mesmo (décadas de 30 e 40) se formaram os seus pilares teóricos, essencialmente com as contribuições de duas grandes figuras, Moreno e Lewin. Neste contexto, a Psicologia dos Grupos floresceu, principalmente no domínio da Psicologia social, até ao início dos anos 60, entrando, assim, segundo González e Barrull (op. cit.) na década do desenvolvimento teórico, o segundo período da evolução do pensamento da Psicologia dos Grupos, onde se destacam os contributos de Homans (numa perspectiva sociológica), Bavelas (numa perspectiva sistémica), Bales e Schutz (numa perspectiva factorialista), Festinger (numa perspectiva cognitivista), Bion, Thelen e Bennis e Shepard (numa perspectiva psicanalítica) e Thibaut e Kelly (numa perspectiva conductual) na realização de trabalhos teóricos que visaram explicar a natureza grupal do ser humano. Assim, e mais concretamente durante a década que se seguiu à II Grande Guerra Mundial, os psicólogos sociais tenderam a ver o indivíduo como um elemento inserido num sistema mais vasto, sendo as atitudes e as percepções sociais concebidas como antecedentes e consequentes da actividade do grupo (Steiner, 1974). Todavia, depois deste período altamente produtivo 12 , a Psicologia dos Grupos entra numa crise teórica (o terceiro período do seu desenvolvimento), que durou até ao início dos anos 80, em consequência de uma crise maior, a da Psicologia social 13 (González & Barrull, 1999). Tal como refere Steiner “ By the 1960’s, the group did, indeed, seem to be rather dead, or at least, in very deep hibernation” (1974, p. 101). Na realidade, neste período, muitos psicólogos sociais perderam o seu entusiasmo pelo estudo dos grupos (Levine & Moreland, 2006) ou, como refere Steiner (1974, p. 95), adoptaram uma orientação menos grupalista e mais individualista, preocupando-se menos com sistemas sociais mais amplos e mais com a perspectiva individualista dos fenómenos sociais e psicológicos. Nesse sentido, “Social psychologist didn’t just stop studyind the groups as a system. They became more individualistic right accross the board” (Steiner, 1972, p. 104). A juntar ao triunfo do individual, enquanto unidade de análise nas ciências sociais, encontram-se, também, entre as razões do declínio do estudo dos grupos, o facto de estes serem assustadoramente difíceis de realizar, requerendo muito tempo e, de uma forma geral, mais de uma ou duas pessoas, assim 12 Por volta de 1959, mais de 1300 estudos tinham, nesta área, sido realizados (Hare, 1962). 13 Crise fortemente denunciada por Tajfel, de onde, curiosamente, emergiu uma posterior reformulação e impulso à Psicologia dos Grupos (González & Barrull, 1999).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 35 como o facto de o seu tempo de realização (da concepção à conclusão) ser, quase sempre, longo e não existirem garantias dos esforços serem frutuosos (Steiner, 1974, p. 102; Wheelan, 1994, p. 151). Mas Steiner tinha razão quando, a título de prognóstico, referiu: “If there is any truth to my speculations, the group will rise again” (1974, p. 105). Na verdade, a partir de 1980 a investigação com pequenos grupos voltou a prosperar, entrando na sua quarta fase de desenvolvimento, que González e Barrull (1999) intitularam de em busca de uma reformulação. Desde então, não só Turner constitui uma linha de investigação na perspectiva da Psicologia social, relacionada com o aumento de popularidade do estudo dos processos e das relações inter-grupo (Levine & Moreland, 2006; Sanna & Parks, 1997), como também, e com o impacto do desenvolvimento da teoria dos sistemas, vários autores (e.g. O’Connor, McGrath e Von Cranach) da área do comportamento organizacional, investem na realização de estudos baseados no modelo “in-put-sistema-output”, onde relacionam variáveis como o tamanho do grupo, a estrutura de grupo, a produtividade, o conflito, a liderança, as normas, os papéis, as emoções, o tipo de tarefa, entre outras, verificando-se, ainda, o desenvolvimento de estudos com grupos no contexto de outras ciências sociais e comportamentais, como a comunicação, a ciência política, a psicoterapia de grupo, o trabalho social e a Psicologia da educação (Arrow, McGrath & Berdahl, 2000). Sanna e Parks (1997), referem que foi o interesse, quase exclusivo, nos processos inter-grupo, por parte da Psicologia social, que deixou espaço para que outras disciplinas, nomeadamente a Psicologia organizacional, “tomassem conta” da investigação no contexto intra-grupo, uma vez que, tal como referem Levine e Moreland (1990, p. 620), os psicólogos organizacionais, sem dúvidas quanto à importância dos (pequenos) grupos nas organizações, passaram para a linha da frente neste domínio da investigação, estudando aspectos como a composição do grupo, conflitos dentro do grupo, desempenho do grupo, ecologia do grupo e estrutura do grupo. Esta dicotomia inter-grupo (Psicologia social) versus intra-grupo (Psicologia organizacional), deixou, actualmente, de reflectir a diversidade de abordagens, modelos e quadros teóricos que têm sido desenvolvidos no domínio da Psicologia dos Grupos, facto que se pode comprovar nas arrumações conceptuais, mais gerais ou mais específicas, que diferentes autores vão realizando. Por exemplo, Lourenço (2002), embora categorize dicotomicamente a investigação que, neste contexto, se vai realizando, nas duas grandes linhas anteriormente referidas, a da Psicologia social e a da Psicologia organizacional, não associa de forma exclusiva à Psicologia Social, o estudo dos fenómenos inter-grupo. Na verdade, caracteriza esta
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 36 abordagem pela sua ênfase nos estudos laboratoriais, assim como nos processos intra e intergrupais (e.g., coesão, normas, conformidade) e respectivo impacto nos membros do grupo. A outra linha de investigação, relaciona-se, essencialmente, com as áreas da Psicologia das Organizações e do Comportamento Organizacional, e centra a sua análise em grupos integrados no contexto organizacional, visando clarificar temáticas como a eficácia, a liderança e os conflitos. Por seu lado, Miguez (2004), em continuação das linhas ou tendências de investigação dos primeiros trabalhos, refere que a Psicologia dos Grupos apresenta três linhas de investigação: uma associada à Psicologia social, que se centra no estudo dos grupos para a compreensão das relações interpessoais, focalizando-se no sub-sistema socio-afectivo; outra associada aos contextos mais clínicos, que estuda os grupos incidindo também no subsistema socio-afectivo e, finalmente, uma corrente associada à Psicologia organizacional e à gestão, que estuda os grupos no contexto organizacional, com foco no sub-sistema tarefa. Também McGrath (1997) identificou três linhas de investigação presentes nos trabalhos que analisou: os grupos enquanto sistemas de processamento de informação, os grupos enquanto sistemas de gestão de conflitos e alcance de consenso e, os grupos enquanto sistemas de motivação, regulação e coordenação de actividades dos seus membros. Arrow, McGrath e Berdahl (2000) referem, ainda, neste contexto, outro tipo de preocupações empíricas, relacionadas com temas de emergência mais recente e que mais dificilmente se identificam como continuação das linhas ou tendências de investigação dos primeiros trabalhos: a) investigação em equipas de trabalho no contexto organizacional, b) investigação em educação, Psicologia clínica e trabalho social (utilizando os grupos para a obtenção duma melhor aprendizagem e ajustamento psicológico dos membros) e, c) investigação no contexto da cognição e comportamento em grupos mínimos (na tradição da categorização social). Muito caracterizador da actual diversidade de abordagens à entidade grupo, foi o resultado do trabalho de uma equipa de investigadores (Poole, Hollingshead, McGrath, Moreland & Rohrbaugh, 2004) que, após ter analisado e avaliado o estado corrente do conhecimento em pequenos grupos, desenvolveu uma lista com nove perspectivas interdisciplinares que representam diferentes pontos de vista sobre o que são os grupos, o que fazem e como fazem (embora, como por vezes assinalam, algumas temáticas sejam estudadas por mais de uma disciplina, como por exemplo, o conflito): a perspectiva psicodinâmica (que examina a interacção da profunda dinâmica psicológica, ou sócio-psicológica, que regula o comportamento superficial dos pequenos grupos); a perspectiva funcional (que, baseando-se no pressuposto de que os grupos são orientados por objectivos e que a performance do grupo no alcance desses objectivos, pode variar e pode ser avaliada, estuda o funcionamento dos
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 37 grupos em termos de in-puts e/ou processos e a respectiva influência na eficácia do grupo); a perspectiva temporal (que estuda os grupos em termos de como estes se desenvolvem e mudam ao longo do tempo, pressupondo que o grupo progride através de uma série de fases até atingir um estado ou objectivo definitivo); a perspectiva conflito-poder-estatuto (que estuda os grupos em termos de dinâmicas de poder, estatuto, recursos e relações sociais, assim como as estruturas do grupo associadas a estes processos); a perspectiva simbólicainterpretativa (que se focaliza na construção social dos grupos e oferece explicações baseadas nos significados que os grupos têm para os seus membros, criados através dos símbolos e da linguagem); a perspectiva da identidade social (que explora os significados que os membros têm dos grupos sociais a que pertencem, as suas identificações com esses grupos, assim como as dinâmicas entre in-groups e out-groups, na perspectiva da teoria da identidade social); a perspectiva social-evolucionaria (que defende que a estrutura e a interacção dos grupos reflecte as forças que, de forma evolutiva, têm vindo, ao longo dos séculos, a dar forma aos comportamentos sociais); a perspectiva de rede social (que conceptualiza os grupos como padrões de relações entre os seus membros e considera o grupo como um conjunto de estruturas ligadas entre si, inseridas em redes sociais mais amplas) e, finalmente, a perspectiva feminista (que no estudo dos grupos, desafia as abordagens tradicionais, estudando e teorizando sobre como o poder e o privilégio se relacionam com as interacções que favorecem um género em detrimento do outro). Apesar desta diversidade, é consensual que estas diferentes perspectivas teóricas iluminam diferentes facetas do mesmo fenómeno, oferecendo, assim, segundo Hollingshead e Poole (2004), diferentes pontos de vista sobre a entidade grupo. Contudo, e se por um lado os resultantes dos insights teóricos e descobertas empíricas destas abordagens, trouxeram muitos ensinamentos e ideias chave que orientam a abordagem aos grupos, por outro, cada um dos corpos de conhecimento contém algumas sérias limitações e constrangimentos, conceptuais e empíricos (Arrow, McGrath & Berdahl, 2000), que começam, agora, a constituir um obstáculo ao seu progresso (McGrath, Arrow & Berdahl, 2000), proporcionando-nos, inevitavelmente, uma fotografia conceptual limitada dessas complexas, adaptativas e dinâmicas entidades chamadas grupos (McGrath, 1997). Uma das limitações relaciona-se com a forte preferência dos psicólogos sociais em estudar os grupos e outros fenómenos, através de uma análise fragmentada e reducionista em vez de holística. Apenas se os parâmetros mais importantes do grupo funcionassem de forma unidireccional, linear e aditiva, poderiam os investigadores chegar à compreensão do todo através desta abordagem “building-block” que tem vindo a ser utilizada. Todavia, os parâmetros mais importantes funcionam bidirecionalmente, não linearmente e não
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 38 aditivamente (características, aliás, dos sistemas complexos), pelo que, a corrente metodológica reducionista não só não nos deixará chegar a essa compreensão, como também nos enganará sistematicamente. Outra grande limitação dos trabalhos passados e contemporâneos, é (também) decorrente do forte empenho das ciências sociais em recorrer à estratégia de experimentação em laboratório, na qual muito pouca atenção é prestada, seja ao nível teórico, seja ao nível empírico, à interacção do grupo com os contextos que o envolvem, tratando-os, assim, como sistemas isolados cuja única relação importante com o ambiente envolvente é o estimulo (imposto pelo investigador), ou a tarefa. Os grupos são sistemas adaptativos e envolvem-se em trocas bidirecionais com o seu ambiente, sendo por isso importante, estudar, também, esse contexto. Uma última limitação relaciona-se com o facto do grupo ser, também, dinâmico num outro sentido, ou seja, ser palco de interacções sucessivas entre os seus membros e a tecnologia e entre os seus membros e as tarefas, através de contínuos processos adaptativos que implicam mudanças ao longo do tempo, mudanças essas que, com estudos que versam actividades de grupo em períodos muito limitados de tempo, dificilmente são captadas. (Arrow, McGrath & Berdahl, 2000; McGrath, 1997). Parece assim que, embora os grupos constituam um alvo de estudo activamente perseguido por várias disciplinas e sub-disciplinas, o seu estudo mantém-se fragmentado e com fronteiras disciplinares bem definidas (Poole, Hollingshead, McGrath, Moreland & Rohrbaugh, 2004). Constituindo a relevância dos contributos interdisciplinares, como referiram Cartwright e Zander (1968), uma característica distintiva dos estudos realizados no contexto da Psicologia de grupos, os grandes avanços na compreensão dos grupos que surgiram nas diferentes disciplinas, devem, assim, fornecer uma firme base a uma integração interdisciplinar da teoria e investigação com grupos como um todo (Poole, Hollingshead, McGrath, Moreland & Rohrbaugh, 2004). Hollingshead e Poole (2004), acreditam que o desenvolvimento de ligações entre as diferentes perspectivas interdisciplinares, aumenta a influência colectiva dos estudiosos dos grupos, neste contexto de investigação. Daí que “it should also spur more rapid growth of knowledge about small groups as researchers across disciplines build on one another’s work rather than work in parallel”( Hollingshead & Poole, op.cit., p. 244). Foi exactamente no sentido de criar uma teoria integradora e abrangente que servisse de ancoragem para mais trabalhos desta natureza, e cujos resultados podessem dar origem a uma nova tendência de investigação na Psicologia dos Grupos, que, Arrow, McGrath e Berdahl (2000, pp. 33-34), ancorados numa ampla base interdisciplinar (incorporando ideias e perspectivas da teoria geral dos sistemas, da teoria das redes sociais, da teoria dos sistemas dinâmicos e da teoria da complexidade), propõem uma abordagem ao grupo enquanto sistema
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 39 complexo, adaptativo e dinâmico, que parece ultrapassar as limitações de uma abordagem fragmentada e reducionista (analisaremos no Ponto seguinte deste Capítulo, a definição de grupo dos autores). Para terminar e reformulando 14 a pergunta de Sanna e Parks (1997) perguntamos: “Como está o estudo dos grupos? Respondemos com a (re) formulação da curiosa expressão de Levine e Moreland (1990, p. 620): Está vivo, bem e a viver em vários lugares. E o futuro? Seja por acréscimo (mais um ponto de vista sobre a entidade grupo), seja por substituição (convergência e fusão das diferentes perspectivas existentes), parece-nos garantida a emergência de uma tendência holística na abordagem dos grupos. 14 Uma vez que os autores referem que modificaram uma versão inicial desta pergunta, que foi colocada por Steiner (1974).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 40 2. GRUPO: QUE SIGNIFICADOS? Hoje em dia não restam dúvidas que, e desde os tempos mais remotos, a vida em sociedade é própria da natureza humana (Câmara, 1997), sendo impossível compreender o comportamento humano sem considerar o papel que os grupos têm na vida das pessoas (Levine & Moreland, 2006; Cartwright & Zander, 1968). Johson e Johnson (1975) afirmam que os grupos têm uma importância incalculável na vida de todos os seres humanos, precisando nós, em todas as alturas da nossa vida, de pertencer a grupos. Neste sentido, e tal como refere Brown “Humans beings are group beings (1988/2000, p. XV): as pessoas vivem em grupos, trabalham em grupos e divertem-se em grupos (Poole, Hollingshead, McGrath, Moreland & Rohrbaugh, 2004), sendo, por isso, a forma como compreendem os factos e os acontecimentos, assim como a forma com se compreendem a si próprias, profundamente influênciados pelas suas pertenças (Wheelan, 1994). Assim, bastariam, apenas, alguns minutos para nos lembrarmos de muitos exemplos que demonstram o papel central dos grupos nas nossas vidas. Daí que, como vimos anteriormente, desde há muito os processos de grupo suscitem a curiosidade dos investigadores, muito embora o termo seja frequentemente utilizado para definir uma grande variedade de situações, o que nos remete para duas controversas discussões: a da sua (real) existência (que abordaremos, apenas, superficialmente, uma vez que na nossa perspectiva, e na linha de Wheelan [1994, p. 7], os grupos constituem uma realidade que, tal como a realidade individual, é digna de constituir alvo de estudo) e a da sua definição (uma discussão a nosso ver fundamental, na medida em que é aquando se define um grupo que se decidem as características que se consideram realmente cruciais à sua existência). 2.1 A (real) existência do Grupo A realidade dos grupos, de acordo com vários autores (e.g. Cartwright & Zander, 1968; Wheelan, 1994), foi debatida durante quase um século (com o seu ponto mais alto nos anos 20 do século passado), designadamente entre os psicólogos sociais envolvendo dois pólos opostos. Por um lado, os defensores da sua realidade e da sua existência para além da existência dos indivíduos que o compõem, tendo, assim, a entidade grupo, atributos distintos dos apresentados pelos seus membros. O exemplo mais citado como representante desta facção do debate é Le Bon, que como vimos anteriormente se debateu pela existência dos grupos, defendendo a sua real existência, nomeadamente através da sua Psicologia das
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 41 Massas. Por outro lado, no pólo oposto do debate encontravam-se aqueles que defendiam que o grupo não era real, tendo sido Allport um dos seus mais citados protagonistas. Na sua abordagem individualista, Allport (1924) nega a existência do grupo, considerando-o uma falácia, na medida em que o grupo, como entidade real, no sentido científico, não existe uma vez que só o indivíduo é real, pois só ele pode pensar, sentir e actuar. Os grupos são, assim, abstracções, existindo apenas o comportamento dos indivíduos, sendo que o comportamento de todos não é mais do que o comportamento de cada um separadamente, podendo, assim, os grupos ser totalmente compreendidos a partir da perspectiva individual. Como refere “This erro is the attempt to explain social phenomena in terms of the group as a whole, whereas the true explanation is to be found only in its component parts, the individuals” (Allport, 1924, p. 60). Neste sentido, Allport refere que the crow mind não só é falsa como também retarda, de certa maneira, a descoberta da verdade, uma vez que é nos indivíduos que compõem a multidão e não na multidão como um todo, que devemos procurar os mecanismos da explicação da relação causa efeito (Allport, 1924, p. 60). Na altura, segundo Forsyth (1983/1990, p.18), o debate entre estas duas facções (grupo real versus irreal) foi diminuindo de intensidade por várias razões. Em primeiro lugar, porque os psicólogos se aperceberam que grupo era um conceito tão científico como as noções de atitude, valores e mente, tendo sido determinantes para esta mudança os argumentos convincentes de Lewin (1951/1988) que, adoptando o pressuposto da Gestalt “o todo é maior que a soma das partes” (constituindo este todo um sistema unificado de partes que se interrelacionam), afirmou que quando os indivíduos se juntam num grupo algo de novo se cria e este novo produto, deve ser, em si mesmo, alvo de estudo. Neste sentido, e ao contrário de Allport, defende que os grupos possuem propriedades que não podem ser totalmente compreendidas pelo estudo fragmentado das partes constituintes. Em segundo lugar, Forsyth (op. cit.) salienta outro aspecto importante que contribui para o encerramento do debate, o facto, também já anteriormente por nós referido, dos investigadores terem sido capazes de demonstrar que o fenómeno grupal que Allport dizia ser não científico, podia, afinal, ser estudado e manipulado em contexto laboratorial. Finalmente, Forsyth (op. cit.) refere o contributo de Donald Campbell como a última razão para a cisão entre as duas facções do debate grupo real versus irreal. Na realidade, Donald Campbell (1958), utilizando o termo entitativity para descrever o grau em que alguma coisa é percebida como um todo, argumentou, persuasivamente, que os grupos se tornavam reais quando possuíam as características das entidades. Aplicado a um grupo, isto significa compreender o grau em que um grupo é percebido como um agregado unificado, em oposição a um agregado de indivíduos, vagamente ligados. Donald Campbell rejeita a ideia de etiquetar
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 48 2.2.1 O conceito de grupo à luz da abordagem sociotécnica Até ao aparecimento da teoria geral dos sistemas, mais concretamente o conceito de sistema definido por Berytalanffy, do ponto de vista tradicional (positivista/mecanicista), a realidade era concebida como uma justaposição de elementos, formando um todo cujas propriedades eram inferidas a partir do estudo individual de cada um desses elementos (Miguez, s.d.). De acordo com a teoria geral dos sistemas, esta preocupação da ciência em explicar os fenómenos observados, essencialmente, como unidades elementares independentes, tornava impossível a compreensão da noção de totalidade que resulta das relações de interdependência e de interacção entre as diferentes partes que compõem qualquer sistema (Berytalanffy, 1968/1973), nomeadamente nos casos em que o objecto a estudar era complexo, ou seja, composto por um elevado número de elementos: nestes casos, os cálculos a efectuar e as variáveis a controlar na dedução das propriedades do todo, transcenderiam, em larga medida, as possibilidades existentes (Miguez, s.d.). Assim, a teoria geral dos sistemas critica a ideia de que a natureza esteja dividida em áreas, com fronteiras rigidamente definidas e defende que a compreensão da realidade exige a integração das diferentes áreas do conhecimento (Berytalanffy, op. cit). Dado que os elementos de um sistema se encontram em interacção, influênciando-se mutuamente, o seu estudo fora do contexto não proporciona dados utilizáveis para a projecção das propriedades do todo, uma vez que os elementos já não se encontram nas condições de isolamento em que foram inicialmente estudados (Miguez, s.d.). Para a justificação desta interdependência, a teoria geral dos sistemas parte de uma premissa básica: a natureza diferenciada dos sistemas fechados e dos sistemas abertos, descrevendo, estes últimos, as acções e as interacções de um organismo dentro do ambiente (entradas, saídas, fronteiras e a transformação que inclui as actividades de operações ou tarefa principal, manutenção e regulação). Porquê os sistemas abertos? Essencialmente porque possuem duas características que os distingue dos sistemas fechados: a equifinalidade, ou seja, poder alcançar o mesmo estado final através de diferentes caminhos, e a entropia negativa, ou seja, poder importar energia do meio ambiente para assim ordenar e organizar o próprio sistema, contrariando a tendência natural para o desequilíbrio provocado pela entropia (positiva) [Liu, 1983; Buchanan, 1979/1985; Miguez, s.d.]. Será a teoria dos sistemas que contribuirá para a emergência de um dos modelos mais paradigmáticos pelo seu impacto e actual utilidade, no contexto do uso do grupo nas organizações: o modelo sociotécnico (e respectivo conceito de sistema aberto sociotécnico), perspectiva que começou a delinear-se através dos trabalhos de consultadoria em empresas
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 49 dos membros do Tavistock Institute of Human Relation (Keating, 1987), cujas investigações desenvolvidas (designadamente as realizadas nos anos 50 por Trist e Bamforth nas minas de carvão britânicas e, simultaneamente, as de Rice na Índia) permitiram evidenciar a interdependência entre os sistemas social e o tecnológico (Buchaman, 1979/1985). De entre os vários trabalhos que marcaram esta perspectiva, destacam-se os de Lewin e Bion por terem sido determinantes para a estruturação dos conceitos de “organização” e de “grupo” como um sistema aberto sociotécnico, isto é, formado por um sistema de tarefas relacionadas (subsistema técnico) a executar por um conjunto de pessoas também relacionadas entre si (subsistema social), num determinado contexto sócio-economico-cultural (Keating, 1987). Assim se passa a considerar os grupos/organizações fenómenos de natureza sistémica, compostos por sub-sistemas, integrados em sistemas mais amplos (supra-sistemas), caracterizados pela interacção desses sistemas, podendo, assim, um grupo influênciar o seu ambiente envolvente e ser por ele influênciado. Resumidamente, a abordagem sociotécnica, apoiando-se na teoria geral dos sistemas, considera que os grupos são constituídos por dois sub-sistemas indissociáveis e em interacção, o sub-sistema técnico ou de tarefa, que inclui as actividades à produção de algo, as suas características, assim como as relações que se estabelecem entre essas actividades, e por um sub-sistema social ou afectivo, que se refere ao conjunto de pessoas, assim como às suas características e relações (Lourenço, 2002; Keating, 1987). Neste sentido, as mudanças na tecnologia não podem ser vistas separadamente da estrutura social do grupo que se desenvolve em torno quer de uma tecnologia, quer de um conjunto de tarefas específicas, pressupondo, assim, uma optimização conjunta dos dois subsistemas. 2.2.2 O Grupo à luz do Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal de Miguez e Lourenço Miguez e Lourenço (2001) partindo da tradição Lewiniana 17 e da escola sociotécnica 18 , referem que enquanto fenómeno de natureza sistémica, a dinâmica de um grupo se edifica em torno de dois sub-sistemas fundadores, indissociáveis e interactivos (Figura 1): o sub-sistema tarefa (interacção interdependente que visa a realização de uma tarefa) e o sub-sistema socio17 No sentido em que atribuem a essência de um grupo à interdependência, criada pela existência de um alvo comum, constituindo, assim, o grupo um todo dinâmico, e ainda porque perspectivam a emergência, a sobrevivência e o desenvolvimento do grupo, num campo de forças tensionais, responsável pela sua natureza dinâmica. 18 Uma vez que incorporam não só a noção de sistema aberto, como também a noção de sub-sistemas tarefa e SA, em interacção.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 50 afectivo (relacionado com a interacção interdependente que visa a satisfação das necessidades dos membros do grupo ao nível social e afectivo), numa perspectiva dinâmica e evolutiva. Figura 1 O sistema social grupo e seus sub-sistemas estruturantes e interactivos (Miguez & Lourenço, 2001) Esta crença na natureza dinâmica e evolutiva do sistema grupo, por parte dos autores, reflecte-se no seu modelo teórico a dois níveis: por um lado, ao nível da teorização sobre a emergência do próprio sistema grupo (e que constitui uma característica que distingue este modelo da maioria, uma vez que é um dos poucos a integrar esta questão) e por outro, ao nível da teorização sobre o desenvolvimento dos grupos (característica que partilha com vários outros modelos existentes na literatura que, também, abordam esta questão). No que diz respeito à questão da emergência dos grupos, esta relaciona-se com a forma como os autores concebem um grupo, forma essa que se aproxima muito da noção de sistema. Por outras palavras, quando definem o sistema grupo, não o fazem olhando para a entidade em si, ou seja, tomando por referência as características dos elementos que compõem essa entidade 19 , mas sim tomando por referência o tipo de interacção que se estabelece e que se estrutura em torno de um objectivo, assim como, segundo J. Miguez (comunicação pessoal, Dezembro, 2007), em torno de uma fronteira. Neste sentido, Miguez (op. cit.) refere que o sistema grupo não é mais do que uma estrutura que se cria, que contém e focaliza as energias dispersas na realização de um objectivo, através de uma interacção, que é, interdependente 20 . A organização destas energias, ou seja, a emergência de um grupo de acordo com Miguez e Lourenço (2001), está dependente de três condições de base (ou FI 21 ): 19 Como o fazem, por exemplo, alguns psicólogos sociais, no contexto do clássico (e interminável) debate categorias sociais versus grupos, de onde, por consequência, uma categoria social constitui um grupo. 20 Neste sentido, e de alguma forma, a definição de grupo proposta pelos autores é algo que é feito à posteriori, por análise da própria relação que se estabelece. 21 Porque quando presentes, criam as condições base necessárias, e suficientes, à emergência de um grupo; Sistema SA SistemaTarefa Alvo Mobilizador comum Interdependência
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 51 a) A percepção de, pelo menos, um alvo comum, mobilizador, definido como um objectivo, ou objectivos, que todos os elementos da equipa procuram e desejam realizar, sendo por isso suficientemente mobilizador das suas energias. Trata-se, assim, de um objectivo consensual, a todos os níveis (individual/grupal/explícito/implícito). Esta capacidade mobilizadora do alvo comum, insere-se num contínuo que vai desde o limite mínimo de mobilização (suficientemente mobilizador) até a um limite máximo. Quanto mais forte for a capacidade mobilizadora do alvo, maior é a sua FI, o que em qualquer momento da vida de um grupo pode fazer a diferença, no balanço das forças que se estabelecem no respectivo campo de forças. b) A percepção de interdependência para a realização desse alvo. Uma vez que o modelo preconiza que a dinâmica do sistema grupo se edifica em torno de dois sub-sistemas estruturantes, quando os autores falam de interdependência referem-se quer à interdependência do sub-sistema tarefa, quer à interdependência do sub-sistema sócioafectivo. Segundo os autores, uma tarefa é interdependente quando vários indivíduos têm que intervir para a completar, rentabilizando as suas diferenças a favor de um alvo comum, que cada um per si, não conseguiria alcançar. A interdependência da tarefa pode variar em função do grau de influência mutua entre os elementos do grupo aquando da sua realização, podendo, assim, existir tarefas mais ou menos interdependentes. Quanto à interdependência do subsistema sócioafectivo, os autores referem estar relacionada com o grau de interacção/relação entre os membros que a realização da tarefa exige, e os respectivos efeitos na forma de interagirem ou se relacionarem. c) A interacção directa entre os membros, interacção essa definida pelos autores como a possibilidade de todos os elementos do grupo comunicarem com todos, durante a realização, e em função, da tarefa. Todavia, segundo os autores a presença destas forças impulsoras, ou condições de base, não garante “per si” o bom funcionamento do grupo, nem sequer a sua sobrevivência e desenvolvimento. Criando as condições necessárias à sua emergência, estas FI precisam de possuir maior potência do que as possíveis forças restritivas (FR) ou obstáculos envolvidas no processo, para que um grupo possa sobreviver e desenvolver-se. Para além da atenção dispensada ao processo de emergência de um grupo e respectivos indicadores dessa grupalidade, os autores abordam, também, a questão da temporalidade, ou seja, o processo de desenvolvimento dos grupos, defendendo que os sub-sistemas tarefa e sócio afectivo vão sofrendo múltiplas transformações desde o aparecimento de um grupo até à sua maturidade. Este conjunto de transformações, foi descrito pelos autores no seu Modelo
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 52 Integrado de Desenvolvimento Grupal 22 , que teve como fonte inspiradora, quer os modelos lineares [e.g. Modelo Integrado de Desenvolvimento de Wheelan (1994)], quer os modelos cíclicos [e.g. Modelo do Grupo Optimal de St. Arnaud (1978)]. Assim, o carácter linear do modelo é acentuado pela aceitação de que o desenvolvimento e a evolução do grupo, se processa ao longo de um determinado número pré-definido de etapas (neste caso quatro), num processo contínuo que conduz o grupo da dependência à interdependência. Por outro lado, o carácter cíclico do modelo é acentuado pela possibilidade que aquele prevê de o desenvolvimento não seguir de forma sequencial o percurso predefinido, podendo, em função das dinâmicas que se vão estabelecendo, verificar-se avanços e recuos, retenção do grupo por um período indeterminado de tempo, numa determinada fase de desenvolvimento, 23 regressão do grupo para uma fase anterior de desenvolvimento ou ainda a possibilidade de o grupo não atingir a maturidade. Em termos de desenvolvimento de um grupo, desde a sua origem até à maturidade (em analogia com o desenvolvimento do homem) 24 , os autores referem que este se processa numa sucessão de quatro fases, através das quais o grupo vai progredindo de uma fase de dependência total (em relação ao líder) até a uma fase de inequívoca interdependência . Estas quatro fases (Estruturação, Reenquadramento, Reestruturação e Realização) constituem parte integrante de dois ciclos distintos de desenvolvimento, que se caracterizam por se centrarem, predominantemente, ou no sub-sistema SA (o primeiro ciclo de desenvolvimento que integra as duas primeiras fases), focalizado na relação, ou no subsistema Tarefa (o segundo ciclo de desenvolvimento que integra as duas últimas fases), focalizado na tarefa. Assim, na 1ª fase de desenvolvimento (a Estruturação), o grupo está muito centrado no seu líder: os seus membros estão muito dependentes dele e esperam que lhes diga o que deve ser feito e como. Seguem, por isso, as suas sugestões e só muito raramente questionam as suas ideias, resultando a coesão do grupo, desta “cumplicidade”. Embora os objectivos do grupo 22 Trata-se de um modelo sobre o qual tem vindo a trabalhar uma equipa coordenada pelos autores, tendo em vista a sua aplicação em diferentes contextos organizacionais. Os estudos que têm vindo a ser produzidos [inclusivé esta linha de investigação já deu origem a três dissertações de doutoramento, Lourenço (2002), Moreira (2007) e Dimas (2007)] têm apresentado elevados níveis de validade. 23 Esta particularidade da possível retenção, indeterminada, de um grupo numa determinada fase, leva J. Miguez (comunicação pessoal, Dezembro, 2007) a pensar que talvez deixe de fazer sentido falar em fases, mas falar antes em contextos com características diferentes e problemas diversos. 24 J. Miguez (comunicação pessoal, Dezembro, 2007) refere a metáfora dos sistemas mecânicos (regulados externamente) versus sistemas vivos (com capacidade de autoregulação) como uma outra forma possível de caracterizar o desenvolvimento de um grupo, desde a sua origem à sua maturidade. Para o autor, o que se verifica, na maioria das vezes, é que, nomeadamente no contexto organizacional, os sistemas são abordados numa lógica mais mecanicista. Contudo, podemos fazer a analogia dos sistemas mecânicos com a 1ª fase de desenvolvimento do grupo (onde tudo o que acontece depende do líder, ou seja, é um sistema regulado externamente), sendo que, o que se pretende neste processo de desenvolvimento dos grupos, é a evolução de um sistema mecânico para um sistema vivo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 53 não sejam claros para os seus membros, estes assumem que há consenso a respeito dos mesmos, não existindo práticamente discussões sobre os objectivos a atingir. Mesmo que não concordem com as regras/normas estabelecidas, tendem a segui-las (mesmo existindo divergências ou conflitos, eles não são expressos) pois para além de serem chamados à atenção quando não as seguem, têm receio de serem excluídos. Este medo de rejeição, que advém também do facto de ainda não se conhecerem bem, direcciona as suas preocupações principais para a sua aceitação e inclusão no grupo como um todo, esforçando-se, assim, por se conhecerem melhor e desejando relacionar-se de forma positiva. Contudo, a comunicação é ainda muito superficial (pouco autêntica) e tende a ser centralizada (nos mais faladores). Os autores resumem com duas palavras-chave os acontecimentos deste primeiro momento de vida do grupo: dependência (dos membros em relação ao líder) e inclusão (sentido de pertença ao grupo). A resolução da questão do sentido de pertença marca o momento em que o grupo está em condições de transitar para o estádio seguinte, ou seja, a segunda fase, a fase do Reenquadramento. Esta segunda fase, caracteriza-se pela necessidade de libertação face à directividade do líder: as suas opiniões e ideias são colocadas em causa, com alguma frequência, assim como as normas e regras previamente definidas, emergindo comportamentos em direcção oposta. Desacordos e divergências surgem também no que diz respeito às actividades e aos objectivos, sendo frequentes as discussões no sentido de uma maior clarificação e procura de consenso, embora, alguns membros do grupo pareçam empenhados em fazer valer as suas ideias e, assim, influênciarem o destino e as decisões do grupo. Em consequência, pode-se verificar a emergência de sub-grupos o que é sentido como uma ameaça ao bom funcionamento do grupo, razão pela qual são tratados com intolerância e hostilidade. Neste sentido, os conflitos que vão surgindo são resultado destas divergências e constituem a principal preocupação dos seus membros (mantém-se a predominância do sub-sistema socio-afectivo, como já foi referido). Neste ambiente de instabilidade, os elementos sentem-se pouco satisfeitos com o seu papel no grupo ou com o papel que percepcionam que lhes é atribuído pelos outros, procurando, por isso, alterá-lo no sentido de o tornarem mais congruente com as suas expectativas, muito embora, por vezes, sintam vontade de abandonar o grupo. Desta vez, as palavras-chave são: contra dependência (o “não” à dependência dos membros do grupo relativamente ao líder) e aceitação (resolução dos conflitos e consenso). A aceitação marca o momento em que o grupo, resolvendo as questões da afectividade, reúne as condições de transitar para a terceira fase, a fase de Reestruturação, que dá início ao segundo ciclo de desenvolvimento e que se centra nas questões de realização (sub-sistema tarefa), tal como já referimos. Quando os grupos atingem esta fase de desenvolvimento, a
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 54 comunicação entre eles já é aberta e faz-se frequentemente com a participação activa de todos os membros. São frequentes as conversas sobre os objectivos a atingir e a melhor forma de os alcançar uma vez que existem divergências sobre o que deve e como deve ser feito. Os conflitos que resultam destas divergências são resolvidos de forma satisfatória, dado o grau de confiança e cooperação que existe e embora seja visível a existência de sub-grupos, estes coexistem, sendo tolerados sem constituírem um problema para o grupo. No que diz respeito às relações com o líder, elas assentam na base da confiança mútua, assumindo o líder um papel menos directivo: verifica-se o envolvimento dos membros e o desejo de cooperarem na obtenção dos resultados desejados, procurando dar sugestões sobre aspectos que consideram importantes, assim como a consulta dos membros do grupo por parte do líder, antes da tomada de decisão. Esta é também a fase do estabelecimento de regras mais aprofundadas de funcionamento do grupo. Os membros centram-se nas questões da estrutura e dos papéis de cada um, procurando um ajuste entre papéis e actividades no sentido de os tornar mais claros e aumentar a probabilidade de atingir os objectivos definidos. Embora exista pressão do grupo para que as normas/regras sejam seguidas, os comportamentos que delas se afastam são tolerados se contribuírem para melhorar o funcionamento e/ou desempenho do grupo. Neste sentido, constitui principal preocupação dos membros do grupo, a tentativa de adoptar uma estrutura adequada aos objectivos a atingir (foco na tarefa). Palavras-chave desta fase: normalização (definição concreta de regras de funcionamento) e interdependência percebida (embora a interdependência esteja presente em todas as fases do desenvolvimento do grupo, só nesta fase os membros a percepcionam como tal, acreditando que só todos juntos conseguem alcançar o seu objecto). Será no contexto desta interdependência percebida e aceite, que o grupo atingirá a maturidade que caracteriza a quarta fase de desenvolvimento, a fase de Realização: mesmo com uma intervenção mínima do líder, o grupo funciona num clima de elevada confiança, envolvimento e cooperação na realização das diversas actividades, dispendendo tempo a planear e a defini-las, com pormenor. Os objectivos a atingir são claros e aceites por todos, existindo acordo quanto ao que deve ser feito e como. O mesmo se passa com os papéis de cada um, que são claros e aceites por todos, estando associados às reais capacidades dos diferentes membros. A comunicação é franca e clara, o feedback é espontâneo e abundante, a inovação e a mudança são encorajadas, assim como a elevada qualidade de desempenho. Neste sentido, o grupo apresenta elevado nível de coesão e atracção entre os seus membros. Os conflitos são de curta duração pois o grupo encontra, rapidamente, estratégias eficazes para os resolver.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 55 Assim, nesta última fase de desenvolvimento, o grupo, centrado na tarefa, ou melhor, na eficácia da tarefa, atinge a maturidade num contexto de interdependência percebida. Na Figura 2 apresenta-se o modelo, referindo as fases, os ciclos e as respectivas palavras-chave. FOCUS DAS PREOCUPAÇÕESDO GRUPO Fraco ←SOCIO-AFECTIVO →Forte Fraco ←FOCUS DAS PREOCUPAÇÕES DO GRUPO →Forte TAREFA Modelo de Desenvolvimento Grupal (Miguez & Lourenço, 2001) Inclusão Aceitação Normalização Ansiedade Insegurança Retracção Superficialidade Indefinição Dependência Desconhecimento …. Ilusão Euforia colectiva Coesão fusional Conformidade Conflito/tensão Divergência Competição Inquietação Insatisfação Participação Confiança Abertura/Diálogo Ajustamento Partilha Envolvimento Flexibilidade Cooperação Confiança Autonomia Interdependência Figura 2 Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal de Miguez e Lourenço (2001) Tendo sido um modelo concebido para os contextos organizacionais, os autores integram, ainda, uma concepção de eficácia que, tal como o conceito de grupo, nos remete para as dimensões presentes no modelo sociotécnico, referindo que o conceito, na perspectiva de resultados desejados e/ou procurados pelos membros de um grupo, se organiza também em torno dos dois sub-sistemas estruturantes, o sub-sistema Tarefa e o sub-sistema SA, propondo um modelo (ainda não testado empiricamente) onde associadas a cada um destes sub-sistemas se encontram três dimensões de eficácia (Figura 3).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 56 Figura 3 Conceito de Eficácia [Modelo Integrado de Desenvolvimento Grupal de Miguez e Lourenço (2001)] Assim, para o sub-sistema Tarefa propõem como dimensões de eficácia, a dimensão Resultado Tarefa (relacionada com o desempenho da tarefa propriamente dito, ou seja, com aspectos como a quantidade e a qualidade dos resultados obtidos), a dimensão Imagem Tarefa (relacionada com a imagem exterior do grupo, decorrente da realização da tarefa) e a dimensão Perenidade Tarefa (relacionado com a continuidade do grupo associado à realização da tarefa). Da mesma forma, para o sub-sistema SA, propõem as dimensões, Resultado SA (relacionada com os resultados sócioafectivo, ou seja, com critérios como a qualidade da experiência de trabalho em grupo, com a qualidade das relações entre os membros do grupo e com o respectivo grau de satisfação), a Imagem SA (relacionada com a imagem que as interacções entre os elementos do grupo têm no exterior do grupo) e a dimensão Perenidade SA (relacionada com a continuidade das interacções socioafectivas entre os elementos do grupo no tempo). Apresentado o modelo, urge a necessidade de discutir algumas questões que, directa ou indirectamente, lhe estão associadas. Em primeiro lugar, e porque os autores utilizam o termo grupo, importa fazer uma (breve) alusão ao clássico debate dicotómico, inserido no contexto da literatura da Psicologia das organizações, Grupos versus Equipas 25 . No contexto organizacional, de um modo geral, o termo equipa é usado com o mesmo significado do termo grupo, não se verificando, na literatura, consenso sobre se é 25 Dimas (2007), Lourenço (2002) e Moreira (2007), apresentam uma discussão mais detalhada sobre este debate. Tarefa Imagem Sobreviv ê ncia Imagem Sobreviv ê ncia SA Grupo Efic à cia
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 57 conceptualmente indiferente, ou não, neste contexto, a utilização indistinta de um ou outro termo. Na nossa perspectiva, e analisando os argumentos pró-equipa oriundos de autores que advogam o termo equipa como mais adequado ao contexto organizacional, em detrimento do de grupo (e.g. Adair, 1988; Lemoine, 1995; Tannenbaum, Beard & Salas, 1992; Wheelan, 1999), verifica-se a tentação de assumir, como referem Dimas (2007) e Lourenço (2002), que se trata, unicamente, de uma mudança terminológica na medida em que grupo e equipa são a mesma entidade em diferentes momentos da sua existência, sendo que a substituição do termo grupo pelo termo equipa apenas procurou fugir à conotação negativa atribuída aos grupos que, inclusivé, levou à desvalorização do termo, mantendo-se, contudo, os significados. Como resultado, o termo equipa, tal como referem Miguez e Lourenço (2001) e Lourenço (2002), transformou-se na metáfora do grupo bom, ou seja, o grupo que funciona bem. Nesse sentido, na tentativa de ultrapassar esta limitação terminológica, poder-se-ia optar, como refere Lourenço (2002), pela substituição da abordagem grupo ou equipa por uma abordagem grupo e equipa, desde que estivesse bem claro que esta entidade, à qual uns intitulam de grupo e outros de equipa, é, na realidade, o mesmo fenómeno: um sistema social estruturado em torno de dois sub-sistemas, tarefa e SA, interactivos e indissociáveis. Seria, assim, aceitável a utilização dos dois termos como sinónimos, sendo que, e como refere Dimas (2007), a importância dos grupos nas organizações seria evidenciada com a manutenção de ambos os termos, podendo o estudo desse fenómeno usufruir das vantagens a ambos (grupo e equipa) associadas. Todavia, J. Miguez (comunicação pessoal, Dezembro, 2007) argumenta que se compararmos o que na literatura aparece definido como equipa e o que aparece definido como grupo, o que se verifica é que se está a falar, de alguma forma, de diferentes fases de desenvolvimento do mesmo sistema (grupos ou equipas), onde os grupos, no ponto de vista dos defensores das equipas (e.g. Adair, 1988; Lemoine, 1995; Tannenbaum, Beard & Salas, 1992; Wheelan, 1999) são sistemas na fase inicial do seu desenvolvimento e as equipas, no ponto de vista dos defensores do grupo (e.g. Bowews & Fry, 1996; Hackman, 1990; Miguez e Lourenço, 2001; West, 1996), são sistemas na fase final do seu desenvolvimento. Neste sentido, o que todos procuram encontrar são sistemas a funcionar de uma forma mais madura. Assim, esta (falsa) dicotomia que tem dado origem a muita discussão, não é mais do que uma falha de um quadro comum que atravessa toda esta questão e que, na perspectiva de Miguez (op. cit.), são, exactamente, as fases de desenvolvimento de um sistema. Tendo como referência este quadro comum, é fácil perceber que quando as pessoas falam de equipa ou de grupo, estão a falar é de diferentes fases, ou melhor, de dois sistemas (grupo e equipa) a funcionar em diferentes momentos. Daí que, não seja razoável utilizar de forma
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 64 objectivos pelos outros membros. Neste sentido, os indivíduos centram-se no aumento do seu próprio sucesso tentando evitar que mais alguém tenha tanto ou mais sucesso do que eles. Por outras palavras, a uma interdependência negativa associa-se como padrão de interacção a oposição, e como principais resultados um baixo esforço no alcance dos objectivos de grupo, afinidades negativas entre os membros do grupo (comunicação inadequada, egocentrismo, resistência à influência, estereótipos e visão estática dos outros), e desequilíbrio psicológico (ou seja, dificuldades para desenvolver, manter e modificar adequadamente as interacções com os outros, de forma a ter sucesso no alcance dos objectivos). Finalmente a falta de interdependência (individualismo) resulta na ausência de interacção e de afinidades, num baixo esforço no alcance dos objectivos e num “estado psicológico patológico” (ou seja, ausência de interacção com os outros). “Interdependência Complexa”: um modelo tridimensional de interdependência Saavedra, Earley e Van Dyne (1993), basearam o seu modelo de desempenho de grupos de trabalho em contextos interdependentes, no conceito de “interdependência complexa”, que segundo os autores, resulta dos efeitos interactivos das diferentes combinações de três variáveis (referidas pela literatura como facilitadores de uma performance de grupo eficaz), a interdependência da tarefa, a interdependência dos objectivos e a interdependência do feedback. Por outras palavras, até que ponto os membros do grupo têm que contar uns com os outros para desempenharem o seu trabalho (interdependência da tarefa), qual dos objectivos, individual ou grupal, é orientador do seu desempenho e que interacções lhe estão associadas (interdependência de objectivos) e que tipo de feedback é fornecido, individual ou ao grupo como um todo, e que interacções lhe estão associadas (interdependência de feedback). Analisemos pormenorizadamente cada uma destas três variáveis. Relativamente à Interdependência da tarefa, os autores apresentam um modelo composto pelos três níveis hierárquicos de interdependência de Thompson (pooled, sequencial e recíproca) aos quais, inspirados em Van de Ven, Delbecq e Koenig [1976], acrescentaram um outro “team”, utilizando as respectivas definições. Assim, em situação de “pooled” interdependência (Figura 5), cada membro contribui para o resultado final sem a necessidade de interacção directa entre si. Típicamente cada membro do grupo tem funções similares podendo completar o ciclo da tarefa, sendo a performance do grupo um somatório das performances individuais.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 65 Figura 5 Interdependência Pooled: o trabalho fluí num fluxo independente (Adaptado de Saavedra et al., 1993). Por outro lado, numa situação de interdependência sequencial (Figura 6), um membro do grupo tem que actuar antes de outro poder intervir. Aqui, os membros do grupo têm diferentes funções e desempenham apenas parte da tarefa numa ordem previamente definida. A performance do grupo requer que cada passo seja correctamente realizado e na ordem correcta. Figura 6 Interdependência sequencial: o trabalho flúi num fluxo unidireccional” (Adaptado de Saavedra et al., 1993) No caso da interdependência recíproca (Figura 7), o out-put do “membro A” torna-se num in-put do “membro B” e vice-versa. Normalmente os membros do grupo têm diferentes funções e muitas das vezes são especialistas numa área, intervindo em partes da tarefa numa ordem flexível. Apesar da flexibilidade dos passos da tarefa (ordem de intervenção), a estrutura de funções é muito rígida e imposta, exigindo a respectiva performance, coordenação entre os seus membros. Os autores referem que é o caso das equipas cirúrgicas, uma vez que os procedimentos cirúrgicos exigem uma coordenação recíproca entre especialistas. Out-put In - put do grupo Out-put In-put do grupo
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 66 Figura 7 Interdependência recíproca: o trabalho flúi num fluxo bidirecional (Adaptado de Saavedra et al., 1993) Finalmente, numa situação de interdependência de equipa (Figura 8) os membros do grupo, juntos, diagnosticam a situação, resolvem problemas e colaboram na realização da tarefa, tendo autonomia para desenhar o seu próprio trabalho. Segundo os autores, o termo interdependência de equipa foi primeiramente utilizado por Van de Ven et al. [1976] como um prolongamento da hierarquia de Thompson, dada a necessidade de descreverem as múltiplas interacções no trabalho. Na realidade, para os autores a interdependência de equipa requer interacções mútuas entre os membros (partilha de materiais, informação, ideias, etc.) na definição do rumo dos in-puts e out-puts do grupo (à semelhança dos grupos autónomos). Figura 8 Interdependência de equipa: o trabalho flúi num fluxo multidirecional (Adaptado de Saavedra et al., 1993) No que diz respeito à Interdependência de objectivos e como já referimos, Saavedra et al. (1993) definem-na como o conjunto de interacções entre os membros de um grupo, que resultam do tipo de objectivo (individual ou de grupo) orientador do seu desempenho. De acordo com a revisão da literatura efectuada pelos autores, um objectivo individual pode encorajar os membros a desenvolverem estratégias de tarefa que maximizem o desempenho individual, podendo esta situação originar uma interacção mais competitiva e, consequentemente, a ocorrência de conflitos. Os objectivos de grupo contrastam com esta situação, uma vez que incentivam o desenvolvimento de estratégias cooperativas que facilitam Out-put In-put do grupo Out-put In-put do grupo
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 67 o desempenho do grupo. De uma forma geral, os membros de um grupo recorrem a estratégias individuais de desempenho se os objectivos lhes sugerirem acções individuais ou a estratégias de grupo, se os objectivos lhes sugerirem acções de grupo. Finalmente, a Interdependência de feedback, segundo Saavedra et al. (1993), refere-se às interacções entre os membros que resultam directamente do tipo de feedback de desempenho que recebem. Os autores distinguem dois tipos de feedback: o relativo ao desempenho do grupo como um todo e o que diz respeito ao desempenho individual. O feedback relativo ao desempenho do grupo reflecte o somatório das actividades de todos os membros do grupo tornando indistinguível o desempenho (e respectivo feedback) de cada um. Neste sentido, os membros do grupo dependem uns dos outros para receberem feedback. Contrariamente, o feedback individual dirige a atenção dos membros para o seu próprio desempenho e esforço, independentemente das acções dos outros membros. Para receberem feedback os indivíduos não dependem uns dos outros mas sim do alcance de um objectivo que lhes foi previamente atribuído. Das combinações possíveis resultantes da interacção destas três variáveis em questão (Quadro 1) e respectivas consequências, o que salientamos dos resultados (mais consistentes) do estudo dos autores? Em termos de desempenho do grupo e comparando todas as combinações possíveis, a combinação entre interdependência recíproca (onde os autores incluem as equipas cirúrgicas), objectivo de grupo e feedback de grupo, foi a que levou a uma melhor performance de grupo. Para as interdependências “recíproca” e “de equipa”, a combinação com objectivos de grupo e feedback de grupo facilita a coordenação e traduz-se em estratégias de tarefa mais efectivas e menos níveis de conflito intra-grupo, logo um melhor desempenho. Por seu lado, em situação de “pooled” interdependência, a melhor combinação, tendo em vista a eficácia, é a sua associação a objectivos individuais e feedback individual. Independentemente do tipo de interdependência, o tipo de feedback (individual/grupo) deve ser sempre consistente com o tipo de objectivos (individual/grupo), uma vez que esta situação permite ao grupo coordenar eficazmente as suas estratégias da tarefa. Uma situação de feedback individual num contexto de objectivos de grupo, em caso de problemas de desempenho, pode levar os membros do grupo a tentarem identificar aquele, ou aqueles que estão a prejudicar a respectiva performance.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 68 Quadro 1 Combinações possíveis entre os três tipos de interdependência que integram e definem o conceito de interdependência complexa de Saavedra et al. (1993) Interdependência “Pooled” Interdependência Sequencial Interdependência Recíproca Interdependência De equipa Objectivo Individual Objectivo De grupo Objectivo Individual Objectivo De grupo Objectivo Individual Objectivo De grupo Objectivo Individual Objectivo De grupo FI FG FI FG FI FG FI FG FI FG FI FG FI FG FI FG Legenda. FI=Feedback individual; FG=Feedback de grupo. Wageman e os “Hybrid Groups” Wageman (1995) distingue dois grandes tipos de interdependência, a estrutural e a comportamental. A interdependência estrutural está relacionada, por um lado, com as características da tarefa e por outro, com os respectivos objectivos e recompensas, de onde resultam dois sub tipos de interdependência, a) a interdependência da tarefa, que tem a ver com a forma como o trabalho é realizado/terminado (uma tarefa é interdependente quando são necessários vários indivíduos para a completar) e, b) a interdependência dos resultados, que tem a ver com a forma como o trabalho é recompensado e valorizado e está associada ao grau em que resultados como recompensas ou o alcance dos objectivos (feedback), estão dependentes da performance do grupo. Finalmente, a interdependência comportamental está relacionada com o grau de interacção que a realização da tarefa exige, ou seja, com os efeitos que as estruturas interdependentes têm na forma dos indivíduos interagirem uns com os outros. No que diz respeito à interdependência estrutural da tarefa, Wageman (2001) apresenta um conjunto de quatro elementos que juntos definem o nível de interdependência de uma tarefa, determinando se esta se adequa ao trabalho em grupo ou ao trabalho individual. São eles: a) a forma como a tarefa é apresentada ao grupo (pode ser apresentada ao grupo como uma tarefa pela qual a equipa, como um todo, é responsável ou então como um conjunto de sub-tarefas cada uma das quais da responsabilidade de um determinado indivíduo); b) as regras e instruções fornecidas sobre o processo (as instruções acerca do processo da tarefa podem levar os membros do grupo a contar com a necessidade de partilhar recursos e trabalhar juntos, pelo menos numa parte da tarefa, ou as instruções acerca do processo podem levar os membros do grupo a esperar trabalharem sozinhos); c) a tecnologia da tarefa (que pode exigir a acção simultânea de vários indivíduos, criando interdependência ou impedi-la) e d) a forma como os recursos necessários à realização da tarefa, como competências,
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 69 informação e materiais, são distribuídos pelos membros do grupo (que está dependente dos anteriores). Por outras palavras, a interdependência da tarefa refere-se à interdependência que resulta dos in-puts da tarefa, que incluem a sua definição, a tecnologia exigida, a distribuição dos recursos necessários entre os elementos do grupo e as instruções de como a tarefa deve ser levada a cabo. Assim, a tarefa é interdependente quando vários indivíduos têm que intervir para a completar. Em contrapartida, numa situação de ausência de interdependência a tarefa pode ser realizada inteiramente por uma única pessoa. Por contraste, numa situação de tarefa altamente interdependente, é necessário que todos os membros contribuam de alguma maneira para o resultado final, não estando esta terminada até que todos tenham contribuído com a sua parte. De uma forma geral, segundo Wageman (2001), investigadores e gestores associam às tarefas dois níveis de interdependência: por um lado, a tarefa pode ser muito interdependente, requerendo o in-puts de várias pessoas para a completar ou, por outro, pode ser muito independente e conseguida através do desempenho de uma única pessoa. Wageman (1995) fala-nos de um terceiro nível que, segundo o autor, tem recebido muito pouca atenção por parte dos investigadores, a tarefa híbrida (ou moderadamente interdependente) que combina tarefas/sub-tarefas de grande interdependência com outras de total independência, aceitando que numa tarefa podem coexistir, simultaneamente, diferentes níveis/graus de interdependência, ou seja, às vezes uma tarefa pode requerer a realização de acções individuais independentes e outras vezes requerer acções em grupo, interdependentes. Relativamente à interdependência comportamental Wageman (2001) refere que esta pode variar de nenhuma (quando os indivíduos executam as suas tarefas sem ajuda, in-puts ou cooperação dos pares) a muito elevada (os membros da equipa completam a tarefa no seu todo, interagindo sempre uns com os outros ao longo da sua realização). Contudo, tal como na interdependência estrutural, a questão que o autor levanta é se será a interdependência comportamental uma variável contínua ou descontínua. Segundo ele, de uma forma geral, a interdependência comportamental é tratada como uma variável contínua. Contudo, em vez de enquadrar os indivíduos numa escala de cooperação, por exemplo, de cooperação negativa (obstrução activa) até cooperação máxima, a autora propõe que o comportamento dos membros da equipa se encaixe num dos três padrões discretos seguintes: a) trabalham sós, b) trabalham como um grupo, ou c) trabalham grande parte do tempo sós, autonomamente, ocorrendo alguma coordenação nos períodos em que a equipa se reúne. Um aspecto que Wageman (2001) salienta é o facto de este tipo de interdependência (comportamental) depender do tipo de interdependência estrutural da tarefa, uma vez que esta influência a percepção que os elementos têm da tarefa a desempenhar, fazendo-os acreditar
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 70 que precisam uns dos outros para a completarem eficazmente, emergindo, assim, os comportamentos de cooperação. Mas será realmente necessário as pessoas percepcionarem o seu trabalho como interdependente para que surjam comportamentos interdependentes ou, esses comportamentos simplesmente aparecem na presença de estruturas da tarefa interdependentes? Muito embora os estudos (segundo revisão da literatura efectuada pela autora) sugiram que a percepção de interdependência é influênciada pela estrutura da tarefa e dos resultados e que a uma elevada percepção de interdependência da tarefa estão associados níveis elevados de interdependência comportamental, não está ainda comprovado empiricamente que na ausência de percepção de interdependência da tarefa, a existência de uma estrutura interdependente, por si só (sem a respectiva percepção), não influencie o comportamento. Mais ainda, Wageman (op. cit) notou que mesmo na presença de uma tarefa interdependente, alguns membros podem escolher trabalhar de forma independente e que às vezes os indivíduos, embora estejam estruturados de forma independente, escolhem cooperar. Que factores estarão a moderar a relação entre a estrutura da tarefa e o comportamento? Possivelmente as diferenças individuais e o contexto cultural dos elementos, uma vez que há estudos que comprovam que a combinação de valores colectivistas com uma estrutura altamente interdependente e indivíduos cooperativos, cria um elevado nível de interdependência comportamental (Chatman & Barsade, 1995 citados por Wageman, 2001). Finalmente, no que diz respeito à interdependência dos resultados, um nível híbrido de interdependência é também referido por Wageman (1995) isto é, a recompensa que um indivíduo recebe pelo alcance de resultados significativos, resulta em parte, do seu desempenho individual e em parte, do desempenho do grupo. 2.2.2.2 Alvo (mobilizador) comum Um objectivo (goal) pode ser entendido como um alvo que dá orientação a uma actividade (Ducanis & Golin, 1979). Ao dar orientação a uma actividade ou conjunto de actividades, ele torna-se mobilizador (daí a nossa preferência pelo uso da expressão alvo mobilizador em vez da de objectivo) uma vez que direcciona a atenção, o esforço e a persistência de um indivíduo, ou conjunto de indivíduos, numa determinada direcção. Dois tipos de alvos mobilizadores podem orientar o desempenho dos indivíduos num grupo, os alvos individuais e os de grupo. Os individuais estimulam o desenvolvimento de estratégias da tarefa que enfatizam o desempenho individual, predispondo, assim, os membros para trabalharem na tarefa do grupo de forma independente. Em contrapartida, os de grupo estimulam o desenvolvimento de estratégias de tarefa que enfatizam o desempenho colectivo,
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 71 promovendo o trabalho em grupo (Saavedra et al. 1993). Contudo, de uma forma geral, os objectivos do grupo coincidem com os objectivos individuais (Guzzo & Dickson, 1996). Se os membros do grupo não percepcionarem alguma congruência entre os objectivos pessoais e os do grupo, podem rapidamente deixar de colaborar, podendo diminuir a sua eficácia enquanto grupo. Da mesma maneira, quando o grupo é composto por elementos de diferentes categorias profissionais, os objectivos de um sub-grupo profissional só se tornam objectivos do grupo quando são compreendidos e aceites pelos restantes membros (Ducanis & Golin, 1979). Matsui, Kakuyama e Onglatoo (1987) referem que de uma forma geral, os estudos nesta área utilizam duas características dos objectivos, a clareza e o grau de dificuldade. Alguns estudos (Ducanis & Golin, 1979; Matsui et al. 1987) sugerem que objectivos definidos de forma geral e ambígua, não fornecem uma orientação clara à equipa sobre onde estão e para onde querem ir, o que acarreta implicações negativas no seu desempenho. Quanto ao grau de dificuldade, tudo indica que os grupos têm melhor desempenho quando os objectivos que os mobilizam são mais complexos (Matsui et al. 1987). Para além da referência às características dos objectivos, a literatura assinala a existência de diferentes tipos de objectivos. Por exemplo, Ducanis e Golin (1979) propõem duas distinções entre objectivos. Uma primeira relaciona-se com a dimensão temporalidade e distingue objectivos de curto prazo (para serem alcançados num período mínimo de tempo) de objectivos de longo prazo (que até serem alcançados pode levar meses ou até anos). Os autores referem que dependendo da tarefa do grupo, este se direcciona primeiramente para o alcance de um ou de outro tipo de objectivos, referindo por exemplo, que as equipas cirúrgicas, porque constituem equipas de intervenção em situações de crise, estabelecem primeiramente objectivos de curto prazo. Claro que os objectivos a longo prazo são também importantes para estas equipas, mas a prioridade é a resolução de problemas a curto prazo. A segunda distinção que os autores propõem (que consideramos muito interessante, uma vez que fazendo emergir a interacção entre os sub-sistemas tarefa e sócio afectivo, se relaciona com a nossa perspectiva de abordagem aos grupos), realiza-se entre objectivos de tarefa e objectivos de manutenção do grupo. Os primeiros, relacionam-se com a interdependência da tarefa, ou seja, com a necessidade de todos juntos alcançarem o objectivo comum que é levarem a cabo a realização da tarefa, porque só, assim, é possível fazê-lo. Por seu lado, os objectivos de manutenção da equipa relacionam-se com a preocupação que os membros apresentam com a qualidade da interacção que estabelecem, e visam promover um funcionamento calmo e sereno do grupo, melhorando a comunicação entre os membros e reduzindo a hostilidade.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 72 Uma outra distinção possível entre tipos de objectivos, é, segundo Carapinheiro (1993 p.59 e 60) 30 , a dicotomia objectivos oficiais versus objectivos operatórios. Reportando-se ao contexto hospitalar (um dos contextos onde, para Carapinheiro, coexistem diferentes tipos de objectivos com complexas combinações), o autor refere que, juntamente com os objectivos oficiais do hospital (o tratamento, a cura ou a recuperação da doença) coexistem quase sempre de forma pouco pacífica, os objectivos operatórios, próprios de cada grupo e que se encontram ligados aos fins particulares que aqueles pretendem atingir. O poder de cada grupo vai depender da capacidade de realização desses objectivos particulares, independentemente de apoiarem ou subverterem os objectivos oficiais do hospital que, por sua vez, podem ter um efeito constrangedor sobre os objectivos particulares, mantendo-se, contudo, o poder nos grupos que menor vulnerabilidade tiverem a estes constrangimentos, assim como, naqueles que melhor conseguirem explicitar e demonstrar que os seus objectivos particulares se ligam intimamente aos objectivos oficiais. Neste sentido, e as investigações desenvolvidas em diferentes hospitais de vários países assim o têm revelado, o funcionamento deste tipo de instituição, que se organiza segundo diversos sistemas de autoridade e formas de poder profissional, coloca de parte a referência única a um conjunto bem definidos de objectivos ou a uma única linha de direcção (Carapinheiro, 1993). Outro contributo muito interessante, pela sua inspiração na teoria de Campo de Lewin e pela sua operacionalização, é a abordagem de Agazarian (1988) e Agazarian e Gantt (2000) aos objectivos, inserida na sua não menos interessante Teoria do Grupo como um Todo (que integra conceitos de várias teorias e teóricos, inclusivé, da Teoria de Campo e da Teoria Geral dos Sistemas). Partindo do pressuposto lewiniano de que o comportamento é dirigido por objectivos, Agazarian (1988) postula a existência de uma relação entre comportamento e objectivos, mediada pelo tipo de objectivo. Assim, distingue dois tipos de objectivos, os explícitos (objectivos que são explicita e publicamente formulados) e os implícitos ou AS IF (objectivos que podem ser deduzidos a partir dos comportamentos manifestos dos que estão envolvidos numa actividade dirigida a uma determinada meta). Para Agazarian (op. cit.), é fundamental na compreensão das aparentes contradições que possam ocorrer no comportamento de um grupo, a capacidade para comparar, contrapondo os objectivos explícitos com os implícitos. Às vezes os dois objectivos são congruentes, às vezes são contraditórios. A congruência ou as contradições entre as direcções do comportamento e dos objectivos verificam-se aos dois 30 Carapinheiro (1993) refere que, em termos de contribuições teóricas no campo dos objectivos, segue a contribuição de Perrow, 1963, e a sua distinção entre “official goals” e “operative goals” que considera a mais importante para o estudo dos objectivos na organização hospitalar.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 73 níveis de análise, individual e grupal, e entre objectivos de grupo e objectivos individuais. Dinamicamente, quando objectivos implícitos e explícitos se locomovem em diferentes direcções, a locomoção dar-se-á no sentido da região dos implícitos, podendo, assim, ser dito que para um sistema alcançar os objectivos explícitos, estes tem de se locomover numa direcção congruente com os implícitos. Para levar a cabo a tarefa de diagnosticar o sistema de objectivos, Agazarian (op. cit.) modificou deliberadamente (com vista à sua operacionalização em termos de instrumento) os conceitos de Forças Restritivas (FR) e FI de Lewin (para quem o conceito de objectivo é também fundamental, uma vez que sem objectivo não pode existir tensão no sistema e logo, não pode haver locomoção no espaço de vida 31 ) definindo-as como comportamentos e referindo que também, e contrariamente a Lewin, as FR (ou opositoras, como lhes chama) são orientadas por objectivos e levam à locomoção, não constituindo meros obstáculos às FI. Assim, as FI significam ir para e promovem a locomoção no sentido dos objectivos explícitos, e as FR significam fugir de e afastando-se da região dos objectivos explícitos, promovem a locomoção no sentido dos objectivos implícitos. Qual o impacto destas questões relacionadas com os objectivos nos grupos de trabalho? A revisão da literatura por nós efectuada, revelou que os estudos efectuados na área dos objectivos se dedicam essencialmente a clarificar a relação entre alvos mobilizadores e eficácia no desempenho de uma tarefa interdependente (Huber, 1985; Huber & Neale, 1987; Lee, Locke & Latham, 1989; Locke, Shaw, Saari, & Latham, 1981; Matsui et al., 1987; Mitchell & Silver, 1990; Wood, Locke & Mento, 1987), sugerindo (embora careçam ainda de comprovação empírica pois alguns resultados são contraditórios) que os alvos mobilizadores podem influênciar o desempenho de muitas maneiras: aumentando o esforço e a persistência, centrando a atenção e estimulando o desenvolvimento de estratégias de tarefa (Lee et al., 1989), levando mais à cooperação do que à competição numa tarefa interdependente (Mitchell & Silver, 1990), melhorando mais o desempenho em tarefas simples do que em tarefas complexas (Wood et al., 1987), melhorando mais a performance quando os objectivos são definidos de forma complexa do que quando apresentam um grau moderado/baixo de dificuldade (Locke et al., 1981), aumentando a eficácia do desempenho mas só se associados ao feedback (Locke et al., 1981; Matsui et al., 1987; Wood et al., 1987), nomeadamente quando o feedback é relativo às duas performances, grupo e individual (Matsui et al., 1987), aumentado a eficácia do desempenho numa situação em que existem, apenas, objectivos de 31 Lewin, 1951/1988.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 80 humanidade), destaca as crenças de grupo (um tipo de crenças comuns) referindo que constituem convicções que os membros de um grupo estão conscientes que partilham e que consideram que define o seu “groupness”, servindo, assim, como razão para que um colectivo se defina a si próprio como um grupo. Nós somos um grupo é a crença fundamental de grupo (expressa a identidade social dos membros do grupo). Se os indivíduos não partilharem esta crença, não se considerarão membros do grupo. Para além da formação da crença fundamental de grupo, verifica-se a formação de outras crenças que Bar-Tal (op. cit) chama crenças de grupo adicionais, cujos conteúdos podem ser variados e que dependem, entre outras coisas, das experiências comuns, do objectivo do grupo, da emergência de normas e valores, das semelhanças percebidas, etc., variando os grupos no reportório de crenças que formam, tendo cada grupo o seu conjunto de crenças. Os grupos podem, assim, fusionar-se quando as suas crenças são similares, preenchendo as várias necessidades dos membros do grupo, permitindo nessa base, que os membros decidam se querem, ou não, juntar-se ao grupo, num processo de demarcação do ingroup e outgroup. Por outro lado, os grupos podem dividir-se em sub-grupos, quando os membros estão fortemente em desacordo acerca das crenças de grupo (o que o autor chama de subgrouping, um fenómeno frequente nos grupos e que significa que enquanto todos os membros do grupo aceitam as respectivas crenças básicas, alguns deles formam crenças adicionais que os unificam e caracterizam como sub-grupo. Estas crenças podem ser consideradas crenças de sub-grupo e definem o subgroupness), ou podem ainda, desintegrarse quando os membros perdem o seu interesse pelas crenças do grupo (Bar-Tal, 1990). No que diz respeito ao estudo empírico das crenças, duas grandes linhas, segundo BarTal (1990, p. 12), podem ser identificadas. Uma estuda as crenças na sua totalidade, tentando aceder ao conjunto total de crenças de um indivíduo. A outra estuda categorias específicas de crenças ou subcategorias (e.g. valores, ideologias, intenções, normas e objectivos), com a finalidade de explorar o contributo de uma determinada categoria de crenças na compreensão do comportamento humano. Independentemente da linha de investigação, o seu estudo pode ser classificado em quatro áreas: a) aquisição e mudança (chamando a atenção para os processos intra-pessoais, interpessoais, intra-grupo e inter-grupo através dos quais as crenças são adquiridas e alteradas, assim como para alguns factores que influênciam este processo); b) estrutura (concentra-se na forma como as crenças estão representadas e organizadas na mente); c) efeitos (focaliza-se nos efeitos que as crenças têm no comportamento dos indivíduos e dos grupos) e d) conteúdos (que se preocupa com os conteúdos das crenças dos indivíduos e dos grupos).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 81 Se nos focalizarmos nos efeitos que as crenças têm no comportamento dos indivíduos e dos grupos, isso pode remeter-nos para o estudo das questões relacionadas com a capacidade do grupo, nomeadamente de um grupo de trabalho ou equipa. Neste contexto, um dos aspectos que pode fazer a diferença é a forma como cada indivíduo de uma equipa compreende o “trabalho em equipa”, uma vez que esta compreensão tem influência nas interacções multiprofissionias que se estabelecem (Mariano, 1989; Freeman, Miller & Ross, 2000). Na realidade, as crenças individuais relacionadas com o trabalho em equipa, assim como os valores pessoais, na medida em que constituem estruturas de conhecimento ou modelos mentais, guiam o comportamento dos indivíduos durante as interacções que estabelecem (Jaffe & Scott, 1998; Salas, Burke & Cannon-Bowers, 2000), podendo a falta de congruência na forma como os diferentes aspectos do trabalho em equipa são interpretados, comprometer a capacidade da equipa (Freeman, Miller & Ross, 2000). O sistema de valores afecta, assim, o trabalho em equipa, sendo importante a existência de congruência/partilha nesta matéria (Burdett, 1989; Gafa, Fenech, Scerri & Price, 2005; McCallin, 2001; Waugaman, 1994), ou seja, será mais fácil para as pessoas trabalhar em equipa se tiverem os mesmos valores e as mesmas prioridades (Jaff & Scott, 1998). No que diz respeito à forma como os indivíduos compreendem o trabalho em equipa, a revisão da literatura por nós efectuada, revelou não só, um vasto conjunto de aspectos a ter em conta no “trabalho em equipa”, como também o uso de diferentes etiquetas para o mesmo conjunto de aspectos: atitudes face ao trabalho de equipa, valores/crenças relacionados com o trabalho de equipa, percepções fundamentais para o trabalho de equipa, aspectos/dimensões do trabalho de equipa, competências para o trabalho em equipa, etc. A este respeito, optámos por utilizar a etiqueta “crenças individuais” não só porque em nossa opinião melhor descreve o conceito que encerra o que se pretende estudar, o conjunto de aspectos relacionados com o trabalho em equipa sobre os quais se tem a crença (ou se acredita) serem fundamentais para a eficácia do trabalho em equipa, como também por se tratar da exploração das opiniões ou convicções de cada elemento sobre a importância da presença desses aspectos no contexto da equipa de trabalho. No que diz respeito ao diversificado, mas consensual, conjunto de crenças consideradas fundamentais para o trabalho em equipa, encontramos referências: à Comunicação (diálogo aberto, troca de pontos de vista e de conhecimento) (Brown, 1995; Hammick, 2000; Jaffe & Scott, 1998; Mariano, 1989; McPherson, Headrick & Moss, 2001; Onyett, Pidd, Cohen & Peck, 1996; Pederson & Easton, 1995; Poulton & West, 1993; Scarnati, 2001), à Colaboração (Bond, 1998; Campion, Medsker & Higgs, 1993; Jaffe & Scott, 1998; McPherson, Headrick & Moss, 2001), à Competência (Brown, 1995; Gafà et al.,
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 82 2005; Jaffe & Scott, 1998; McPherson, Headrick & Moss, 2001; Pederson & Easton, 1995), à Criatividade (Jaffe & Scott, 1998), aos Objectivos comuns (Brown, 1995; Freeman, Jaffe & Scott, 1998; McPherson, Headrick & Moss, 2001; Miller & Ross, 2000; Onyett et al., 1996; Pederson & Easton, 1995; Poulton & West, 1993), ao Respeito pelas opiniões e outros inputs dos colegas (Bronstein, 2002, 2003; Brown, 1995; Mariano, 1998; McPherson, Headrick & Moss, 2001; Pederson & Easton, 1995), à Confiança (Abramson & Mizrahi, 1996; Bronstein, 2002, 2003; Brown, 1995; Pederson & Easton, 1995; Scarnati, 2001;), à Responsabilidade (Mariano, 1998; Scarnati, 2001), ao Respeito pelo trabalho dos outros (Hammick, 2000), e ao Apoio e encorajamento (Pederson & Easton, 1995). Relativamente a este conjunto de crenças que reflecte a forma como os indivíduos compreendem o trabalho em equipa, uma vez que constituem os aspectos que acreditam serem fundamentais para a eficácia do grupo, seria importante, e aplicando a teorização de Bar-Tal (1990), que emergisse uma estrutura de conhecimento comum, de forma a que esta partilha de crenças pudesse ser vista como definidora da essência do grupo como um todo, assim como fornecesse uma grelha psicológica que permitisse aos membros, a estruturação da realidade social do grupo e a regulação das relações inter-grupo, constituindo desta forma, uma determinante do comportamento do grupo. Contudo, a abordagem de Bar-Tal (op.cit.) implica (a nosso ver e contrariamente à nossa forma de perceber o grupo) que as crenças de grupo enquanto representações cognitivas, tal como outras expressões da identidade social como a auto-categorização, sejam consideradas elementos essenciais na definição de grupo na medida em que a auto-percepção dos indivíduos, como membros do grupo, é considerada condição necessária para a existência de um grupo. Na nossa proposta de abordagem do grupo (cf. Ponto 2.2 deste Capítulo), nem a identidade nem qualquer outra representação cognitiva, são consideradas condição Sine Qua Non para a emergência de um grupo, uma vez que privilegiamos, como características cruciais (condições de base ou FI à emergência de um grupo), a interdependência, a existência de, pelo menos, um alvo mobilizador comum e a interacção directa. Contudo, acreditamos que o seu impacto no espaço de vida de um colectivo pode funcionar, em determinados momentos, como FR ou FI à sobrevivência e desenvolvimento desse colectivo enquanto grupo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 83 Capítulo II - Bloco operatório e equipas cirúrgicas
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 84 1. O ESTUDO DAS EQUIPAS CIRÚRGICAS: CONTRIBUTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS Desde finais do século passado, as equipas cirúrgicas têm vindo a despertar atenção crescente entre investigadores de diferentes áreas científicas (e.g. Medicina, Enfermagem, Sociologia, Psicologia) e com diferentes interesses teóricos. Neste sentido, estas equipas têm constituído objecto de estudo de alguma 34 da investigação recente, tendo a revisão da literatura por nós efectuada, revelado que essa investigação/reflexão, se situa em termos conceptuais, a seis níveis ou interesses teóricos 35 : a) ao nível da relação/interacção entre médicos cirurgiões (MC) e enfermeiros da área cirúrgica ou do BO (EBO) 36 ; b) ao nível da gestão do erro médico, segurança do doente e controlo do desempenho 37 ; c) ao nível dos processos de comunicação 38 inter e, essencialmente, intracategorias profissionais; d) ao nível do trabalho em equipa 39 , abrangendo desde questões de colaboração inter e intra-disciplinar, atitudes face ao trabalho em equipa, desempenho e respectiva medida; e) ao nível da descrição do trabalho, ergonomia e work (re) design 40 e f) ao nível da integração/aprendizagem 41 (intra-categorias profissionais, nomeadamente estudos sobre a integração e aprendizagem dos enfermeiros da área cirúrgica (AC), assim como, estudos sobre a aprendizagem e treino das competências cirúrgicas dos MC). Em termos metodológicos, assistimos a um claro predomínio da utilização das metodologias qualitativas, designadamente, da observação (estruturada e não estruturada, dependendo, logicamente, dos objectivos específicos de cada estudo), embora seja, também, usual a utilização de entrevistas semi-estruturadas, Focus Group e o registo de incidentes críticos. Todavia, existem linhas de investigação suportadas pela utilização do questionário e 34 Uma das razões de não se encontrar muitos estudos realizados com estas equipas, embora, por razões óbvias, constituam um atractivo e pertinente objecto de estudo, será, certamente, o facto de os blocos operatórios, como referem Lipponen, Tossavainen, Turunen e Smith (2004), constituírem em qualquer hospital, um dos locais de mais difícil acesso, porque altamente controlado. 35 Importa referir que se trata de uma compartimentação de fronteiras ténues, uma vez que, na generalidade, os temas identificados referem-se a diferentes aspectos do desempenho da equipa. 36 Bowen e Davidhizar (1991); Davidhizar, Policinski, e Bowen (1990); Denison e Sutton (1990); Espin e Lingard (2001); Greenfield (1999); Porter (1991);Tanner e Timmons (2000). 37 Beakley, Boyden, Hobbs, Walsh, e Allard (2006); Beakley, Hobbs, Boyden, e Walsh (2004); Drews, Syroid, Agutter, Strayer, e Westenskow (2006); Flin, Fletcher, McGeorge, Sutherland, e Patey (2003); Helmreich (2000); Helmreich e Davis (1996); Helmreich e Shaefer (1994); Sexton, Thomas, e Helmreich (2000). 38 Espin e Lingard (2001) ; Lingard, Reznick, Espin, Regehr, e DeVito (2002); Lingard et al. (2004); Moss e Xiao (2004); Nestel e Kidd (2006) ; Webster e Cao (2006). 39 Bleakley (2006) ; Flin et al., (2003); Gibbon et al. (2002); Healey, Under e Vincent (2004) ; Healey, Under e Vincent (2006) ; Healey, Undre, Sevdalis, Koutantji e Vincent (2006) ; Hindmarsh e Pilmick (2002); Lipponen, Tossavainen, Turunen, e Smith (2004); Makary et al. (2006); Marco (2002); Mathieu, Marks, e Zacaro (2001); Taylor e Campbell (1999); Williams (1998); Undre, Sevdalis, Healey, Darzi e Vincent (2005). 40 Held e Krueger (2000); Taylor e Campbel (1999); Wurstner e Koch (1995). 41 Brydges, Carnahan, Backstein e Dubrowski (2007); Heizenroth (1996); Penprase (2000).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 85 verificámos, ainda, a realização de um ou outro estudo experimental (ao nível teórico da aprendizagem de competências e controlo da tarefa) e de um estudo misto (para avaliação do impacto de uma intervenção educativa no âmbito do teamwork climate). Apresentam-se, de seguida, alguns dos contributos teóricos e empíricos que, embora não se situando na linha da presente investigação (grosso modo, a emergência, sobrevivência e desenvolvimento de grupos, no contexto organizacional), consideramos constituírem um relevante contributo para o estudo/compreensão desta problemática (EqC/BO). 1. 1. “Model of Operating Room Performance” (Helmreich & Schaefer, 1994) Segundo Helmreich 42 e Schaefer (1994), um BO caracteriza-se por uma dinâmica complexa, na medida em que constitui ponto de intersecção de múltiplos grupos profissionais que, desempenhando uma grande variedade de funções e tarefas, apresentam exigências e “timings” próprios, quer ao nível individual, quer ao nível da equipa. A tarefa das equipas do BO, segundo os autores (op. cit.), é gerir a condição do doente de forma a estabilizá-lo e aliviar a dor (se o doente está consciente), assim como, realizar os procedimentos cirúrgicos necessários, procedimentos estes que exigem um esforço coordenado dos profissionais em questão. Nesta tarefa, desenvolvida em três períodos, o préoperatório, o operatório e o pós-operatório, intervêm quatro equipas: cirurgiões, anestesistas, enfermeiros da AC e enfermeiros da área anestésica (AA), equipas que posteriormente, (também) reagrupam em duas, a equipa anestésica e a equipa cirúrgica. No hospital Europeu onde realizaram as suas observações, Helmreich e Schaefer (1994) verificaram uma forte separação hierárquica entre o staff de enfermagem e o staff médico, uma forte variação na composição das equipas associada a um grande turn-over e consequentemente, uma variedade de elementos (entre quatro e 15) que podiam estar envolvidos numa intervenção cirúrgica, dependendo também da complexidade da cirurgia e da condição do doente. Verificaram, ainda, que as acções de uma equipa podem influênciar os comportamentos de outra [interdependência da tarefa], citando como exemplo o facto de algumas incisões dos MC poderem causar baixas de pressão arterial ou taquicardia, 42 Helmreich dedica-se ao estudo do “erro humano” nomeadamente no contexto da saúde e da aviação. Segundo ele, para se compreender as causas do erro é necessário considerar o contexto organizacional, físico e social assim como os comportamentos específicos (abordagem sistémica). Por encontrar muitas semelhanças entre os ambientes onde operam pilotos e médicos, nomeadamente, os médicos das salas operatórias (cirurgiões e anestesistas), dos serviços de reanimação e cuidados intensivos, realizou alguns estudos (observações) em BO tendo, inclusivé, desenvolvido um modelo de desempenho na sala operatória (“Model of Operating Room Performance”).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 86 requerendo imediatamente a intervenção da equipa anestésica, assim como, da mesma forma, o facto de doentes superficialmente anestesiados, poderem reagir e causar problemas à equipa cirúrgica. Helmreich e Schaefer (op. cit) representaram esta interacção e intersecção das quatro equipas, no serviço ao doente, num esquema a que corresponde a Figura 9 e que coloca o doente no centro do sistema EqC. Figura 9 Grupos que interagem e se intersectam no serviço ao doente (Adaptado de Helmreich & Schaefer, 1994) Partindo das observações realizadas no referido estudo, assim como de estudos que Helmreich efectuou com Foushee sobre os factores humanos na aviação e que originaram o modelo de desempenho de uma equipa de aviação (Helmreich & Foushee, 1993), Helmreich e Schaefer (1994), na tentativa de criarem um modelo dinâmico que explicasse as componentes do desempenho e os processos por si influênciados, adaptaram o modelo de desempenho de uma equipa de aviação ao contexto das EqC, de onde resultou o modelo correspondente para as salas de operação (Figura 10). Segundo esse modelo 43 , o BO posiciona-se no contexto de um sistema organizacional numa lógica de in-puts, processos e out-puts, estando especificadas as influências externas no desempenho e definidas as dinâmicas de grupo que podem influênciar os resultados, reflectindo o modelo, a natureza cíclica dos processos e resultados de um BO. Assim, processos e resultados influênciam os subsequentes in-puts, como as atitudes e comportamentos, sejam eles de natureza técnica ou interpessoal (Helmreich & Davies, 1996). 43 Modelo, aliás, muito próximo dos modelos tradicionais de eficácia (in-put/processo/out-put), que se aplicam a qualquer área. EA MA MC EBO Doente
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 87 Figura 10 Modelo de desempenho para as salas operatórias (Adaptado de Helmreich & Davis, 1996) Por outro lado, para investigarem os aspectos relacionados com a cultura do local de trabalho (neste caso a cultura do BO) Helmreich e Schaefer (1994) adaptaram o “Flight Management Attitudes Questionnaire” ao BO, de onde resultou o “Operating Room Management Attitudes Questionnaire”, constituído por um conjunto de itens que avaliam nos quatro sub-grupos, isoladamente e no seu conjunto: a liderança, o reconhecimento do stress, a partilha de informação/comunicação, os papéis da equipa e a confiança, Dos resultados obtidos com estudos preliminares realizados com este questionário, assim como, das observações realizadas, Helmreich e Schaefer (op. cit.) descobriram que, tal como na aviação, os problemas (na área do erro de desempenho) estão mais relacionados, directa ou indirectamente, com as competências comunicacionais do que com a capacidade técnica e, na sua maioria, envolvem a interface entre o grupo de anestesia e o de cirurgia. In-puts da equipa Personalidade Individual Motivação Individual Atitudes individuais Competências técnicas Composição da equipa Condição física geral Fadiga, stresse Meio envolvente Cultura organizacional Pressão do tempo Condição do doente Processos da equipa Resultados da equipa Formação e gestão da equipa Conhecimento situacional Competências de comunicação Processo de tomada de decisão Resolução Conflitos Resultados individuais e organizacionais Segurança do doente Eficácia da equipa Atitudes Moral Desenvolvimento Profissional Cumprimento da tarefa
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 88 1. 2. “Operating Room Nurses” (Denison & Sutton, 1990) Neste estudo, Denison e Sutton (1990) permaneceram uma semana num BO de um hospital de grandes dimensões, onde mais de 100 cirurgiões utilizavam as 20 salas disponíveis para realizarem mais de 50 operações por dia, cuja duração variava entre os 5 minutos e as 5 horas. Cada doente era preparado na área pré-operatória, conduzido posteriormente para uma das salas operatórias onde era operado e, no fim, era transportado para o recobro. Em cada sala operatória, os profissionais do BO repetiam o mesmo ciclo, vezes sem conta: juntavam-se formando uma (nova) equipa cirúrgica, realizavam a intervenção cirúrgica e depois separavam-se [estas alterações constantes na composição da equipa cirúrgica, foram também referidas por Helmreich e Schaefer, 1994]. Cada uma destas “equipas temporárias” era constituída por um cirurgião, um anestesista, uma instrumentista e uma circulante. Pontualmente poderiam estar presentes outros técnicos. Embora durante a realização do seu trabalho de campo, Denison e Sutton (op. cit.) despendessem muito do seu tempo a observar estas equipas “temporárias” em acção, o focus da sua investigação, ao contrário de Helmreich e Schaefer (1994), consistiu na observação de um grupo “permanente” do BO: o das enfermeiras da área cirúrgica (instrumentistas e circulantes) e não da equipa no seu todo. Este grupo contava com cerca de 30 elementos divididos em quatro equipas, da equipa 1 à equipa 4 [Denison e Sutton (op. cit.) durante o trabalho de campo, acompanharam apenas a equipa 2, formada por oito elementos] especializadas em quatro áreas cirúrgicas, estando todas as enfermeiras preparadas para circular e instrumentar. Este work design era recente: dois anos antes dos autores chegarem ao BO, as enfermeiras constituíam um único grupo, com uma única chefia, e trabalhavam em todas as especialidades cirúrgicas. As entrevistas 44 que Denison e Sutton (op. cit) realizaram, revelaram que o novo desenho do trabalho tinha sido um sucesso: a) o absentismo baixou consideravelmente; b) os médicos referiram que as enfermeiras estavam muito mais eficazes; c) como cada grupo tinha uma enfermeira responsável, a enfermeira chefe ficou com menos trabalho e menos stress, tendo mais tempo para outras tarefas e d) as enfermeiras sentiam-se mais satisfeitas porque ganharam mais autonomia e rentabilizaram a sua performance. As enfermeiras referiram ainda que trabalhavam bem em equipa e que gostavam não só do seu trabalho, como também do companheirismo das colegas da equipa. Todavia e apesar do sucesso obtido, estas revelaram a 44 Tudo indica que este estudo se tratou, em termos metodológicos, de um estudo misto, uma vez que os autores referem ter realizado observações, entrevistas e inquéritos. Contudo, como não disponibilizam informação sobre os aspectos metodológicos e técnico-instrumentais não o “contabilizamos” em termos de contributo metodológico.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 89 existência de três problemas: o tamanho da equipa (era pequena, o que fazia com que estivessem sempre sobrecarregadas de trabalho e com menos pausas), a falta de feedback por parte da equipa médica acerca do seu trabalho e, finalmente, a falta de autonomia (queixavamse que “eram umas escravas e que tinham que fazer tudo o que os médicos ordenassem”). Na realidade e relativamente a esta questão da autonomia, os investigadores observaram que a luta pelo controlo, entre cirurgiões e enfermeiras, era constante. Muitas vezes os cirurgiões excediam-se na sua autoridade, restringindo a autonomia das enfermeiras, baixando a sua auto-estima e, consequentemente, o seu desempenho, perseguindo-as (desnecessariamente) como forma de as manter no seu lugar. Para além do tempo passado nas salas operatórias integrando as equipas cirúrgicas temporárias, os investigadores observaram que as enfermeiras interagiam, pelo menos, em mais três momentos importantes, ao que chamaram de “regiões sociais”: momentos passados com os cirurgiões presentes, momentos passados só com elas e entre elas e momentos gastos com os doentes e as famílias. Nestes diferentes espaços (incluindo a sala operatória) Denison e Sutton (1990) verificaram a existência de diferentes fronteiras psicológicas e papéis relacionados com as diferentes formas como as enfermeiras expressavam as suas emoções. Denison e Sutton (op. cit) observaram que na sala de operações ocorriam muitas conversas com piadas e brincadeiras, o que tinha essencialmente duas razões: por um lado, reduzir a tensão e, por outro, reduzir o aborrecimento associado a algumas tarefas rotineiras. Referem, ainda, que a expressão destas emoções não era igualitária uma vez que as enfermeiras só o podiam fazer com a “permissão” dos cirurgiões enquanto eles o faziam sempre que sentiam essa necessidade. Assim, segundo Denison e Sutton (op.cit.) os cirurgiões abusam do poder legítimo, que advém do seu conhecimento superior da técnica cirúrgica, restringindo a autonomia das enfermeiras, dizendo o que devem e o que não devem fazer. Contudo, esta prepotência desaparece nas interacções fora da sala de operações: os cirurgiões aqui parecem não precisar de mostrar a sua absoluta autoridade envolvendo-se em “conversas amigáveis” na sala de estar ou na sala de refeições (espaços da 2ª região social). Na 3ª região social, onde as enfermeiras estão só entre elas, como referiram Denison e Sutton, fala-se de tudo: das dificuldades do seu trabalho, da incompetência dos cirurgiões e dos seus ordenados, das tarefas mais aborrecidas (ex. da contagem de instrumentos), do aspecto mais ou menos atractivo dos cirurgiões, etc. Na quarta região social, que corresponde ao tempo gasto com os doentes e família, os autores referem que embora seja mais reduzido, carece de alguns cuidados, nomeadamente quando o doente está acordado: é necessário controlar a expressão das emoções, controlando as conversas e os comentários, centrando-se no doente e nas suas necessidades.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 96 Relativamente à percepção dos papéis de cada um e dos outros, o estudo concluiu que todos os grupos profissionais pensam que compreendem melhor os papéis dos colegas do que os colegas compreendem os seus papéis, embora esta diferença tenha sido apenas estatisticamente significativa para os cirurgiões, que, assim, atribuem a eles próprios um elevado nível de compreensão dos papéis dos outros, enquanto que os outros percepcionam que eles têm um nível baixo de compreensão dos papéis dos restantes elementos da EqC. Finalmente, ressaltamos dois aspectos: o facto de os autores terem verificado algum consenso relativo à importância da comunicação entre os grupos profissionais, e o facto de os entrevistados avaliaram a qualidade do seu desempenho como satisfatória mas com lugar para o aperfeiçoamento. 1. 5. Mathieu et al. (2001) e os Multiteam Systems As frequentes referências 47 à existência no BO de diferentes grupos profissionais (subequipas?) a trabalharem simultaneamente, remeteu-nos para a possibilidade, no que toca à estrutura destas equipas, de as enquadrar num tipo de colectivo/equipa que Mathieu et al. (2001) descrevem como um “Multiteam System” (MTS), ou seja, duas ou mais equipas que interagem directa e interdependentemente em resposta às contingências ambientais, para o alcance de objectivos colectivos e cujos elementos centrais assentam nas noções de hierarquia de objectivos, interdependências funcionais inter-equipas, episódios de desempenho e a forma como o trabalho é coordenado, intra e inter-equipas. Ao incluir múltiplas equipas, o MTS forma um forte e unido sistema exigindo comportamentos coordenados no sentido de alcançar o tal objectivo colectivo. Assim, as equipas, ou rede de equipas como referem os autores (op. cit.), são formadas pela necessidade de cada equipa membro contribuir com competências, capacidades e funções distintas para tornar possível o alcance do tal objectivo colectivo. Neste sentido, os MTS constituem entidades maiores do que as equipas individuais, mas menores que as organizações. São sistemas abertos e dinâmicos, altamente reactivos ao meio, podendo, até, incluir equipas de outras organizações (públicas ou privadas). Todas as equipas dentro do sistema, enquanto perseguem diferentes objectivos proximais, partilham, pelo menos, um objectivo comum distante e apresentam interdependência de entradas (in-put), processos (process) e resultados (out-put), com, pelo menos, uma equipa desse sistema. 47 Não só por Helmreich (1994), como vimos, mas praticamente por todos os que escrevem sobre o BO (cf. p. 54).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 97 Um dos exemplos citados pelos autores (embora considerado por eles como uma visão simplificada da complexa “network” de equipas envolvidas num MTS) é uma “emergency response MTS”, ilustrada na Figura 14, onde podemos encontrar a equipa cirúrgica como uma das equipas componentes. Figura 14 Rede de equipas envolvidas numa MTS cuja tarefa consiste em tratar feridos de um acidente (Adaptado de Mathiu et al., 2001) Nesta MTS composta por quatro equipas, bombeiros, EqC, equipa do recobro e INEM, partilha-se, colectivamente, o objectivo final de “salvar vítimas”, o que é conseguido através de uma série de “performance episodes” ou seja, distintos períodos de tempo, dos quais resultam e são revistos desempenhos, podendo os resultados de um episódio de desempenho constituir “in-puts” para episódios de desempenho posteriores: se o INEM fizer chegar um doente rapidamente ao hospital, as EqC dispõem de mais condições para intervir do que se o doente chegar tarde de mais, com a sua situação clínica deteriorada. Neste sentido, a eficácia dos MTS é definida, não só pela forma como as equipas atingem os seus objectivos proximais, mas, também, pela forma como o colectivo atinge o objectivo que partilha ao mais elevado nível da hierarquia dos objectivos. A natureza das redes que se estabelecem entre as diversas equipas de um MTS é delineada pelo tipo de interdependência que entre elas se verifica (“interdependência funcional”), que resulta, directamente, das actividades de cada equipa componente 48 . Assim, a interdependência funcional é um estado em que cada entidade componente tem mutua 48 Muito embora Mathiu et al. (2001) refiram que a organização do trabalho interdependente pode ter várias formas (“pooled”, sequencial, recíproca e intensiva), o aspecto que consideram crucial é o facto de nenhuma equipa componente da MTS conseguir, por si só, alcançar o objectivo final colectivo do MTS. Autarquias Hospital Polícia Equipa Cirúrgica Radiologia Equipa Recobro Bombeiros INEM MTS
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 98 confiança, determinação e influência, partilhando direitos adquiridos no processo que usam para realizar as actividades de trabalho. Este tipo de interdependência implica a existência de uma rede de três “interdependências funcionais”: as interdependências de in-puts, as de processos e as de resultados, sendo que cada equipa para fazer parte de um MTS, tem de ser funcionalmente interdependente (nos três tipos de interdependência funcional) com, pelo menos, uma outra equipa componente do sistema (MTS). Vejamos como Mathiu et al. (2001) definem estes conceitos. A interdependência funcional de recursos (in-puts/entradas), refere-se ao grau em que cada equipa componente tem de partilhar recursos, tais como pessoas, facilidades, constrangimentos ambientais, equipamento e informação relacionada com o alcance do objectivo colectivo [trata-se de um conceito similar ao conceito de interdependência de recursos ao nível da equipa da Wageman (1995)]. Quanto à interdependência funcional de processos, é também um conceito similar ao de interdependência de tarefa ao nível da equipa. É definida como a quantidade de interacção requerida entre as equipas, para o alcance dos objectivos, reportando-se ao grau em que cada equipa depende das outras para desempenhar as tarefas que tem em mão. Estas não são encaradas como “simples tarefas” mas antes como uma missão colectiva, para a qual as equipas componentes trabalham colaborativamente. Finalmente, no que diz respeito à interdependência funcional de resultados, Mathiu et al. (2001) referem que está associada ao grau em que os benefícios pessoais, recompensas, custos, etc., recebidos pelos membros de uma equipa, dependem do desempenho ou do sucesso obtido por outros elementos de outras equipas no alcance dos seus objectivos 49 . Para além das questões da interdependência, outra característica dos MTS é o ambiente onde operam e que Mathiu et al. (op. cit.) referem poder ser de dois tipos: a envolvente organizacional e o ambiente externo (fenómenos específicos fora da envolvente organizacional, com os quais os MTS interagem). Os MTS podem, contudo, ultrapassar as fronteiras da organização para incluir equipas componentes do exterior, como já referimos, inclusivé de outras organizações, dando origem a dois tipos de MTS: as que só incluem equipas da organização e aquelas que incluem equipas do exterior. Independentemente disso, 49 Embora todos partilhem o interesse no alcance do objectivo terminal, neste tipo de interdependência funcional, os autores também incluem o alcance de “sub objectivos” que impliquem a junção de esforços de 2 ou mais equipas, ou seja, não só o alcance do objectivo terminal, que está no topo da hierarquia dos objectivos, mas, também, o alcance de objectivos situados em níveis mais baixos da pirâmide.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 99 segundo os autores 50 , o seu ambiente apresenta sempre quatro características básicas: complexidade, dinamismo, inovação e incerteza. Por último e retomando uma das características principais dos MTS, a presença de uma hierarquia de objectivos, importa referir que os autores consideram que a existência de objectivos comuns (seja ao nível da equipa ou entre equipas) é sempre importante, porque dirige a atenção, canaliza e sustenta os esforços de colaboração e regula a distribuição dos recursos. Tem ainda outros benefícios: dá energia aos membros do grupo, une-os, reduz os conflitos entre os membros e facilita o sentido de unidade e coesão. Nas MTS, alguns dos sub objectivos podem ser alcançados simultaneamente enquanto o alcance de outros depende do alcance dos anteriores. Neste sentido, Mathiu et al. (2001) definem a hierarquia de objectivos dos MTS como uma pirâmide de objectivos colectivos, interligados em rede, onde os objectivos proximais estão nos níveis mais baixos da pirâmide, os objectivos distais estão num nível elevado e os objectivos “superordenate distal” encontram-se no topo da hierarquia. Para estarmos na presença de um MTS têm que existir pelo menos dois níveis nesta hierarquia (Figura 15). Figura 15 Exemplo de uma pirâmide de objectivos com três níveis hierárquicos, correspondendo à tarefa de uma MTS envolvida no tratamento de feridos de um acidente” (Adaptado de Mathieu et al., 2001). Concluindo, numa MTS o trabalho de cada equipa depende em grande parte, do trabalho realizado pela equipa precedente no sistema [interdependência aditiva]. O esforço de 50 Possivelmente inspirados nas três dimensões internas do ambiente da tarefa,de Thompson: complexidade, incerteza e interdependência (Thompsom, 1967/2004). 3º objectivo: sobrevivência do doente segundo objectivo: Tratar o doente primeiro objectivo: retirar e estabilizar a vítima Equipa 1 Bombeiros Equipa 2 INEM Equipa 3 Equipa cirúrgica Equipa 4 Equipa do recobro
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 100 todas as equipas componentes é necessário para o alcance do “superordinate” objectivo colectivo. Cada equipa componente pode trabalhar de forma independente para o alcance de um objectivo próximal, mas o alcance de um objectivo “superordinate” depende do esforço coordenado das várias equipas. Segundo Mathiu et al. (2001), nos MTS, as equipas componentes percebem que os seus objectivos estão positivamente relacionados, de tal forma que o seu alcance aumenta as hipóteses de outras equipas alcançarem também os seus objectivos e vice-versa. Investigadores têm especulado que, quando um grupo procura alcançar os seus objectivos (objectivos próximais), tem problemas na coordenação com outros grupos, mesmo quando os objectivos estão relacionados (Tjosvold, 1984). Mathieu et al. (op. cit.) referem que os MTS contariam esta tendência, uma vez que as relações (interdependências) existentes na hierarquia dos objectivos encorajam a partilha de informação, confiança e apoio entre as equipas componentes, o que faz emergir comportamentos de cooperação entre essas equipas.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 101 Segunda Parte – Estudos Empíricos
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 102 NOTA INTRODUTÓRIA Ao longo da primeira parte desta dissertação, dedicamo-nos à explicitação das diferentes formas de pensar os grupos [da qual salientamos a perspectiva de Miguez e Lourenço (2001) por constituir a nossa referência conceptual] e as EqC/BO, revendo e integrando a respectiva literatura. Nesta segunda parte, pretendemos abordar os estudos empíricos realizados que, centrando-se na EqC e na sua tarefa, visaram contribuir para a clarificação da problemática da emergência, sobrevivência e desenvolvimento dos grupos 51 . Assim, no Capítulo IV (primeiro Capítulo desta segunda parte), apresentamos as opções epistemo-metodológicas que nortearam a realização dos estudos empíricos (sendo que as especificidades epistemo-metodológicas do segundo estudo serão apresentadas no Capítulo VI, Ponto 5.1, respeitando, desta forma, a ordem cronológica do percurso realizado). Este Capítulo mereceu-nos particular atenção por se tratar de um ponto fulcral de todo o trabalho, exigindo a sua natureza, como anteriormente referimos, a necessidade de deixar transparecer os procedimentos, as reflexões, as escolhas, de todo o itinerário da investigação, na prossecução do rigor e da qualidade das inferências. Nesse sentido, e porque pretendemos proporcionar informação que permita a sua apreciação crítica, apresentamos, relativamente aos aspectos epistemo-metodológicos, uma abordagem que pretendemos ser clara mas também detalhada e aprofundada, na medida em que acreditamos (tal como recomendado na literatura, nomeadamente no contexto da investigação qualitativa 52 ) que a natureza do nosso estudo (misto) assim o exige. Desde já nos parece importante referir que esta descrição tão detalhada e pormenorizada das opções epistemológicas, metodológicas e instrumentais, com contínuas pontes para a literatura, pode dificultar a leitura e a compreensão do trabalho que aqui queremos apresentar, podendo, inclusivé, afastar um pouco o leitor do itinerário do presente estudo. Conscientes desta consequência, mas sem querer prescindir do contributo teórico que, com este capítulo julgamos dar, apresentamos no final do referido capítulo, uma síntese onde, exclusivamente e quase de forma telegráfica, nos referimos às opções que realizámos a este nível. 51 Neste contexto, Kurt Lewin e a sua teoria de campo, ocupou um lugar central na presente investigação, não só porque, como vimos, inspirou o modelo de Miguez e Lourenço (2001), modelo estruturante dos estudos empíricos realizados, mas, também, porque foi num dos seus instrumentos de trabalho, a Force-Field Analysis, que ancoramos a análise da nossa problemática, tendo, desta forma, a ela recorrido para descrever/explicar as relações que se estabelecem entre as diferentes dimensões presentes no nosso estudo, ou seja, os diferentes campos de forças que se distribuem pelo espaço de vida das EqC e, assim, determinam as movimentações que aí ocorrem. 52 Por exemplo: Choudhuri, Glauser e Peregoy (2004); Elliott, Fischer, e Rennie (1999); Malterud (2001); Rowan e Huston (1997).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 103 Dedicamos o Capítulo V ao sistema de categorias, grelha estrutural que norteou a (dominante) análise qualitativa realizada no presente estudo, apresentando a descrição/definição de cada categoria, assim como alguns exemplos ilustrativos das unidades de análise (ua) codificadas em cada uma das categorias. Finalmente no Capítulo VI, apresentamos e reflectimos sobre as respostas encontradas às questões de investigação (primeiro as respostas escontradas às três questões de partida, inicialmente formuladas e, depois, as respostas à quarta questão de investigação, questão que emergiu no final do primeiro estudo e para a qual foi planeado o segundo estudo), bem como salientamos os contributos que pensamos ter proporcionado com os estudos realizados e as respectivas limitações, deixando pistas para possíveis investigações futuras.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 104 Capítulo IV - Enquadramento Epistémico-Metodológico
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 105 1. OBJECTIVOS GERAIS DO ESTUDO E QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO Embora com a segurança de que “The beauty of qualitative field research is that there is (nearly) always a second chance” (Miles & Huberman, 1994, p. 25) procurámos, inicialmente, enunciar, de forma clara, realista e pertinente, o que pretendíamos compreender melhor com esta investigação: a possível adequação do colectivo equipa cirúrgica ao sistema grupo, enquanto forma de organização do trabalho, tendo em vista a sua eficácia, constituindo, assim, este, o propósito central desta investigação. A possibilidade de contribuir para uma melhor compreensão desta problemática, passaria, necessariamente, por dois intuitos. Em primeiro lugar, e na ausência de literatura que descrevesse, de forma sistemática, a organização e o funcionamento destas equipas e do seu contexto de actuação (o BO), por explorar, por um lado, o que é um BO, como se caracteriza em termos estruturais e funcionais e, por outro, os elementos, as respectivas competências e a tarefa da equipa cirúrgica, de forma a poder caracterizar o seu funcionamento e dinâmica, no contexto BO, contribuindo, assim, para superar uma lacuna da investigação empírica sobre os seus funcionamentos e, simultaneamente, para a clarificação da problemática dos grupos (de trabalho) no contexto das organizações. Em segundo lugar, e prolongando uma linha de investigação iniciada por Miguez e Lourenço (2001), procurando, assim, consolidar o conhecimento já produzido sobre o seu Modelo Integrado de Grupo, ao nível das condições de base ou forças impulsoras para a emergência, sobrevivência e desenvolvimento de um grupo, perceber se estamos na presença de um sistema colectivo (equipa cirúrgica) com potêncial de grupo, explorando, por um lado, a presença, ou não, das condições de base ou forças impulsoras para a sua emergência, caracterizando, nomeadamente, a tarefa das equipas cirúrgicas no que diz respeito à interdependência e aos objectivos, e, por outro, tendo como ponto de partida o pressuposto de Miguez e Lourenço (2001) que refere que a presença das condições de base, por si só, não garante a sobrevivência e o desenvolvimento do grupo, perceber, no contexto do espaço de vida da equipa cirúrgica, qual o papel (se impulsor se restritivo) de um conjunto de variáveis por nós identificadas com possível impacto na sobrevivência e desenvolvimento da equipa cirúrgica enquanto grupo (as categorias sociais, a percepção de eficácia e um conjunto de crenças relacionadas com o “trabalho em equipa”), contribuíndo desta forma para a
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 112 da publicação de uma obra de referência (Cook & Reichardt, 1979) 54 pioneira na proposta de complementaridade. Actualmente, é cada vez maior o número de investigadores que opta pela combinação de ambas as metodologias 55 , contemplando nos seus estudos a utilização de técnicas próprias de um e outro paradigma, conforme as características do estudo a realizar (Anguera, 2004). Afinal, “One canfeel both and inductivist and a deductivist at different times or even in the same moment of reserach” (Wengraf, 2001, p. 3) Nesse sentido, e uma vez que ambas as vertentes metodológicas podem beneficiar-se mutuamente, sendo muitas as ocasiões em que a sua utilização conjunta dá garantias da sua complementaridade (Anguera, 2004), Anguera (op. cit.) refere que se deveria eliminar da discussão, a necessidade de eleger um paradigma: um investigador (nomeadamente o que utiliza a metodologia observacional) não tem obrigatoriamente que aderir cegamente a um dos dois paradigmas, podendo eleger, livremente, uma relação de atributos que, indistintamente, provenham de um ou outro, se assim o investigador consegue uma adaptação flexível à sua problemática. Também Robson (2002) vê vantagens na combinação das duas metodologias, argumentando que as diferenças entre elas são mais aparentes do que reais. Por seu lado, Johnson e Onwuegbuzie (2004) propõem, não uma escolha entre os dois paradigmas, mas a aposta num terceiro paradigma 56 , o dos métodos mistos, que não tem como objectivo a substituição de nenhum dos existentes, mas antes, juntar forças e minimizar fraquezas dos dois, assumindo uma posição não purista, ou seja, compatível ou mista, permitindo, assim, aos investigadores misturar e harmonizar as componentes do desenho que oferecem as melhores hipóteses de responder às questões de partida, aproveitando, assim, segundo Hoppe-Graf e Lamm-Hanel (2006, p. 265), a heterogeneidade dos métodos e técnicas das duas abordagens. Porém, será possível a utilização conjunta das abordagens qualitativa e quantitativa 57 ? A hipótese de combinar as duas abordagens, pode parecer apelativa ao investigador, uma vez que é razoável pensar que olhar para algo a partir de mais de uma perspectiva, é mais valioso do que olhar só a partir de uma. Contudo, isto só é verdade se as duas 54 Cook, T,D., & Reichardt (Eds.) (1979). Métodos cualitativos y cuantitativos em investigación evaluativa. Madrid: Morata 55 Embora, segundo Shank (2006), os métodos mistos se tenham tornado mais comuns no contexto da investigação qualitativa, ao ponto de, inclusivamente, a autora referir receio de que tornem dominantes nesta área. No sentido de evitar esse possível domínio, Shank apresenta seis altenativas (aos métodos mistos) a útilizar no domíneo da investigação qualitativa, às quais os investigadores qualitativos podem recorrer no sentido de recolher, organizar e analisar as suas descobertas. 56 Johnson e Onwuegbuzie (2004, p. 24) definem paradigma de investigação como um conjunto de crenças, valores e pressupostos que uma comunidade científica partilha no que diz respeito à natureza e condução da investigação 57 Para exemplo de estudos nos quais esta competitividade entre paradigmas (qualitativo versus quantitativo) é discutida, ver: Guba, 1978; Guba e Lincoln, 1982, 1989; Howe e Eisenhart, 1990; Kvale, 1983; LeCompte e Goetz, 1982; Miles e Huberman, 1984; J.K. Smith, 1983; Newman e Benz, 1998.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 113 perspectivas forem complementares. Se não o são? Não estaremos perante uma situação em que os dois métodos interferem um no outro? Não assumirá, um dos métodos, um papel dominante, sendo o outro, nada mais do que um "subordinate afterthought” (Shank, 2006)? Podendo a combinação dos dois métodos ajudar, na prática, a ultrapassar as limitações e a resolver problemas das investigações monométodos, discutidos na literatura por mais de 50 anos, será possível desenvolver estratégias metodológicas, concretas, para a construção de desenhos baseados nesse insight (Kelle, 2006, p. 307)? Se por um lado, sobre a combinação destas duas abordagens, têm vindo a escrever muitos autores (cf.: Anguera, 2000, 2004; Brannen, 1992; Brewer & Hunter, 1989; Bryman, 1992; Creswell, 1994, 2003; Greene, Caracelli & Grahan, 1989; Johnson & Onwuegbuzie, 2004; Mathinson, 1988; Milles & Huberman, 1984, 1994; Morse, 1991, 2003; Onwuegbuzie & Johnson, 2006; Sandelowski, 2000; Tashakkori & Teddlie, 1998, 2003; Teddlie & Tashakkori, 2006), por outro, outros se debruçam, ainda, sobre as diferenças teóricas, técnicas e estratégicas, entre as abordagens qualitativa e quantitativa (Bogdan & Biklen, 1994), fazendo-nos sentir a necessidade de optar por uma ou, por outra, estando muitas vezes subjacente a esta escolha não o que queremos estudar, mas o facto de considerarmos uma abordagem superior à outra, não sendo, de facto, difícil, exagerar a diferença entre as duas abordagens, contrapondo-as (Dey, 1993, p. 3). Convencionalmente falando, a metodologia qualitativa tem tendência a ser associada a uma preocupação com os significados e o contexto, numa abordagem holística. Assim sendo, é geralmente vista em oposição à metodologia quantitativa que, pelo menos em Psicologia, frequentemente produz tentativas restritas de medir o comportamento humano ou o processo cognitivo humano, “which severely lessened their relevance to everyday leaving” (Hayes, 1997, p. 3-5). Assim, os dados quantiativos são frequentemente apresentados como mais ricos e mais válidos do que os dados qualitativos, e por outro lado, os dados qualitativos são, muitas vezes, conotados como muito subjectivos por não se basearem nos padrões estabelecidos (Dey, 1993, p. 14) O problema deste tipo de argumentos, que destacam as limitações de uma e outra abordagem, não é a sua existência, mas o facto de não fornecerem respostas, colocando apenas um ênfase nos problemas, sendo, assim, fácil desviar a atenção sobre as fraquezas da tradição que crítica a outra. Este tipo de discussão exerce um efeito nefasto, uma vez que o potêncial dos dois métodos para lidar com os problemas metodológicos da tradição com que competem, não é utilizado (Kelle, 2006, p. 294).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 114 Na prática isto implica uma desnecessária polarização entre os dois tipos de dados (Dey, 1993, p. 14) sendo que, quando se avaliam os critérios implícitos dessa dicotomia, a distinção torna-se menos clara, e o que parecia ser uma clara dicotomia é, na realidade, um contínuo (Hayes, 1997, p. 3-5). Neste sentido, para além das rivalidades, há um reconhecimento crescente que a investigação requer uma parceria, e que há muito mais a ganhar com a colaboração do que com a competição (Fielding & Fielding, 1986), nomeadamente, quando existem múltiplos aspectos de uma investigação que necessitam de ser analisados ou quando um problema ou uma questão de investigação não pode ser da responsabilidade de um único tipo de método, existindo necessidade, e o mérito, em olhar essa situação de investigação a partir de diferentes ângulos, que, quando utilizados de forma adequada, podem apenas providenciar maior robustez na análise do problema (Anaf & Sheppard, 2007, p. 191) e não, como referem Locke, Spirduso e Silverman (1987, citados por Bogdan & Biklen, 1994, p. 63), produzir algo que não preenche os requisitos de qualidade para nenhuma das abordagens, uma vez que, da possível parceria, não resulta um produto híbrido com características superiores, embora os autores referiram que a combinação seja possível. É certo que existe uma correlação entre as abordagens qualitativa e quantitativa e o objectivo da investigação (por exemplo, e respectivamente, gerar teoria e testar teoria) mas esta relação não é perfeita, nem necessária, uma vez que, e embora a investigação quantitativa seja maioritariamente utilizada para testar teoria, pode também ser utilizada para explorar uma área e gerar teoria ou hipóteses. Da mesma maneira, a investigação qualitativa pode, certamente, ser utilizada para testar hipóteses e teorias, embora seja uma abordagem privilegiada para gerar teoria (Punch, 1998). Tal como referem Miles e Huberman “Both types of data can be productive for descriptive, reconnoitering, exploratory, confirmatory, hypotheses-testing purposes” (1994, p. 42), não havendo, assim, necessidade de nos restringirmos a estereótipos acerca das duas abordagens (Punch, 1998, p. 240). Na realidade, o rigor não é exclusivo da quantificação, nem tão pouco a quantificação garante, por si só, a validade e a fidedignidade que se procura (Vala, 1986, p.103), sendo possível, assim, aprender, quer a partir da relação entre números e significados, quer a partir da sua distinção (Dey, 1993, p. 3). Os números dependem do significado (têm que ser baseados em conceptualizações com significado), mas, de certa forma, os significados também dependem dos números (conceptualizações com significado são informadas por números), o que faz com que medir, a todos os níveis, envolva os dois aspectos, qualitativos e quantitativos (Dey, 1993). Neste sentido, os dois métodos complementam-se um ao outro, e
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 115 não existe qualquer razão em excluir os métodos quantitativos, como as contagens e as análises estatísticas, dos instrumentos qualitativos (Dey, 1993, p. 4) 58 . Tal como refere Punch (1998, p. 241) as duas abordagens têm méritos, forças e fraquezas, não sendo nenhuma superior à outra e sendo as duas necessárias na investigação social, constituindo a tarefa dos investigadores, compreender as forças e fraquezas de cada uma das abordagens e seleccionar a abordagem, ou combinação de abordagens, com base nessa análise. O fundamental é que questões de partida e métodos útilizados estejam bem articulados: "Sometimes quantitative methods and data will be required; sometimes qualitative methods and data will be required; sometimes both will be required; sometimes either approach might be used. This reinforces the need to understand the basic characteristics of both approaches” (Punch, 1998, p. 241). Sendo, actualmente, o método de investigação científica, um processo simultaneamente indutivo e dedutivo, com círculos de feedback que afecta ambos os procedimentos (indutivo e dedutivo), que são auto reguláveis (Newman & Benz, 1998, p. 111), o conceito de contínuo é uma abordagem mais compreensiva (op. cit., p.19). Evidências deste contínuo têm vindo a ser demonstradas pelo aumento de popularidade das abordagens multi-métodos em investigação (Newman & Benz, 1998, p. 19), embora estas tenham emergido e vindo a ser utilizadas desde o início do século XX 59 , tendo, inclusivé, Glaser e Strauss (1967) discutido, há 40 anos atrás, a grounded theory no contexto dos métodos mistos: “In many instances, both forms of data are necessary – not quantitative used to test qualitative, but both used as supplements, as mutual verification and, most important for us, as different forms of data on the same subject, which, when compared, will each generate theory” (p. 18). Por outro lado, não só muitos dos “old war-horses” parecem ter ficado cansados de repetir os seus argumentos, vezes sem conta, como também os métodos mistos se têm vindo a tornar numa espécie de moda na investigação social, embora os esforços envolvidos na combinação das duas abordagens, se caracterizem por uma falta de bases metodológicas sólidas, como uma recente meta-análise, acerca de estudos mistos, revelou (Bryman, 2005), dado que, frequentemente, por um lado, os investigadores combinam os dois tipos de métodos (qualitativos e quantitativos) sem fornecerem uma explicação e fundamentação clara 58 Dey (1993) refere inclusivé que a reconciliação entre os métodos qualitativos e quantitativos vai ser, sem dúvida, encorajada pelo crescente papel dos computadores na análise qualitativa. 59 Tashakkori e Teddlie (2003) apresentam uma análise da história (emergência e desenvolvimento) dos métodos mistos, em jeito de comparação, útilizando, propositadamente, o itenerário dos cinco momentos em que, segundo Denzin e Lincoln (1994) se divide a história do paradigma qualitativo (e não os sete momentos em que, posteriormente, os mesmos autores dividem a história da metodologia qualitativa, por melhor se adequarem ao cenário dos métodos mistos).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 116 das escolhas, e, por outro, os resultados quantitativos e qualitativos dos estudos não são integrados de forma coerente quando os resultados são apresentados (Kelle, 2006, p. 294). Johnson e Onwuegbuzie (2004, p. 16), não tendo como objectivo resolver as diferenças metafísicas, epistemológicas, axiológicas e metodológicas entre as posições puristas, e não acreditando que o paradigma de investigação dos métodos mistos 60 esteja numa posição de fornecer soluções perfeitas, defendem que, nesta altura, o que os métodos mistos devem fazer é usar um método e uma filosofia que tente juntar os insights fornecidos pelos paradigmas de investigação qualitativo e quantitativo, numa solução operacionalizável, aconselhando o pragmatismo 61 , como forma de os investigadores pensarem o tradicional dualismo tão debatido pelos puristas 62 . Teddlie e Tashakkori (2003, pp. 3-4) intitularam o actual momento do paradigma dos métodos mistos, como o período de adolescência, caracterizado pela existência de uma série de assuntos não resolvidos, aos quais é necessário dar atenção, para que um estado mais maduro, deste tipo de investigação, possa emergir. Os autores identificam e discutem (ao longo do Primeiro Capítulo do seu interessante Handbook) os seis grandes assuntos, e controvérsias, associados ao uso dos métodos mistos nas ciências sociais e comportamentais, 60 Johnson e Onwuegbuzie (2004, p. 17), definem formalmente investigação por métodos mistos, como um tipo de investigação onde o investigador mistura, ou combina, técnicas, métodos, abordagens, conceitos ou linguagem, da investigação qualitativa e quantitativa, num único estudo. Constitui, para os autores, o terceiro movimento de investigação, a terceira onda, um movimento que, indo para além da guerra dos paradigmas, oferece uma alternativa prática e lógica no contexto da investigação. 61 Segundo Johnson e Onwuegbuzie (2004, pp. 17-18) a lógica de investigação do método pragmàtico inclui a utilização da indução (descobrir padrões), da dedução (testar teorias e hipóteses) e “abduction” (uncovering and relying on the best of a set of explanations for understanding one’s results). Rejeitando os tradicionais dualismos, o pragmatismo reconhece a existência e a importância do mundo natural ou fisico assim como a emergência do mundo social e psicológico, que inclui a linguagem, a cultura, as instituições humanas e os pensamentos subjectivos. As teorias, que são vistas do ponto de vista instrumental, tornam-se verdades e são verdades, em diferentes graus, tendo em conta o seu bom funcionamento, bom funcionamento este que é avaliado especialmente segundo o critério de previsibilidade e aplicabilidade. A investigação humana (human inquiry), ou seja, o que fazemos no nosso dia a dia e como interagimos com o meio ambiente, é visto como anàloga à investigação experimental e científica. Todos tentamos fazer algo para perceber o que funciona, o que resolve problemas e o que nos ajuda a sobreviver. Obtemos as evidências que, no longo caminho do conhecimento, nos fornecem as melhores respostas que podemos juntar e confirmar, e nos conduzem a grandes verdades ou a verdades maiores. Johnson e Onwuegbuzie (2004) apresentam um quadro na p. 18 com as características gerais do pragmatismo, assim como um quadro na p. seguinte com algumas fraquezas. 62 Verificaram-se numerosas tentativas (no contexto das ciências sociais e comportamentais) de fazer a paz entre as duas maiores posições paradigmáticas, através dos chamados “pacifistas” que defendiam a tese da compatibilidade com base num paradigma diferente, a que alguns chamaram de pragmatismo (Tashakkori & Teddlie, 1998, pp. 4-5). Contudo, actualmente, e apesar de os investigadores no contexto dos métodos mistos, assumiem diferentes posições no que diz respeito ao uso dos paradigmas nos métodos mistos, as três posições mais frequentes foram resumidas por Tashakkori e Teddlie (2003, p. 677) da seguinte maneira: a posição dialética, na qual os investigadores encaram os métodos mistos como intencionalmente envolvendo multiplos paradigmas, sem advogar a supremacia de algum; Pensar de forma dialética implica examinar as tensões que emergem a partir da junção destas múltiplas perspectivas diversas. A segunda posição é a tese do paradigma único, na qual os investigadores peferem utlizar uma consistente forma de ver o mundo, sendo que, os dois paradigmas mais populares porque mais escolidos como a forma mais consistente de olhar para mundo, o pragmatismo ou o paradigma transformativo emancipatório. A terceira posição é a posição dos múltiplos paradigmas, que propõe que os investigadores optem pela utilização do paradigma que é mais apropriado para o estudo que pretendem realizar.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 117 que, no seu entender, se encontram por resolver: a nomenclatura e as definições básicas utilizadas na investigação com métodos mistos, a utilidade deste tipo de investigação, os respectivos paradigmas fundadores e as diferentes posições acerca de como esses paradigmas podem ser utilizados nos estudos mistos, os aspectos relacionados com os desenhos, os aspectos relacionados com as inferências e, finalmente, os aspectos logísticos na condução deste tipo de estudos. Mesmo com estes, e outros, problemas por resolver, a investigação por métodos mistos, “que combina a abordagem qualitativa e a quantitativa, num estudo único ou num estudo multi-fase” (Tashakkori & Teddlie, 1998, pp. 17-18) constitui uma tentativa de legitimar o uso de múltiplas abordagens na resposta às questões de investigação (Johnson & Onwuegbuzie, 2004), podendo, assim, ser utilizada para ultrapassar as fraquezas dos métodos qualitativos e quantitativos, complementando as forças de cada um (Kelle, 2006, p. 295), mantendo em mente o princípio fundamental dos métodos mistos 63 (Tashakkori & Teddlie, 1998). Nesse sentido, em vez de restringir as opções, rejeitando, assim, o dogmatismo, constitui-se como uma investigação inclusiva, pluralística e complementar onde o mais importante, e fundamental, são as questões de partida, devendo os métodos se ajustarem a estas, de tal maneira que constituam a melhor opção para a obtenção de respostas úteis (Johnson & Onwuegbuzie, 2004, pp. 17-18), ou melhor, a obtenção de inferências com qualidade. É sobre inferências e respectiva qualidade que falaremos no Ponto seguinte. 63 Johnson e Turner (2003, p. 299) referem que a combinação de métodos deve ter sempre em mente o princípio fundamental da investigação por métodos mistos: partindo do princípio que todos os métodos têm forças e limitações, os métodos devem ser combinados para que originem vantagens ou forças complementares e que ultrapassem as limitações. Este princípio é seguido, pelo menos, por três razões (que no fundo constituem objectivos para esta combinação, na nossa opinião, não conflituosa): para obter convergência ou corroboração dos resultados, para eliminar ou minimizar explicações alternativas para as conclusões obtidas e para elucidar os aspectos divergentes de um fenómeno. Tashakkori e Teddlie (2003, p. 696) acrescentam a este princípio dos métodos mistos (o primeiro) outros cinco adicionais princípios dos métods mistos: a combinação pode ocorrer em qualquer fase do estudo, desde objectivos e questões de partida aos procedimentos de recolha de informação, técnicas de análise da informação e inferências finais (segundo princípio), o desenho do estudo determina os procedimentos de recolha de dados mas é também independente desses processos, podendo múltiplos procedimentos de recolha de informação serem utlizados pelas duas partes integrantes dos métodos mistos, qualitativa e quantitativa (terceiro princípio), os procedimentos de recolha de dados são independentes das técnicas de análise de dados, podendo os dados ser transformados em qualquer altura do estudo e analisados qualitativamente ou quantitativamente (quarto princípo), se os dados não repesentam o fenómeno teórico ou os atributos em estudo, então nada mais no desenho do estudo importa (quinto princípio também intitulado de princípio fundamental da qualidade dos dados) e, a qualidade dos dados é uma condição necessària à qualidade da inferência no entanto não é uma condição suficiente para tal (más inferências podem ser retiradas com base em bons resultados, embora dados pobres levam a inferências pobres) não sendo os critérios para avaliação da qualidade dos dados os mesmos que avaliam a qualidade das inferências (sexto princípio dos métodos mistos).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 118 2.3. Inferências: Validade versus Qualidade; Critérios versus estratégias O objectivo fundamental de qualquer investigação consiste na obtenção de conclusões precisas, fiáveis e, sobretudo, válidas (Balluerka, 1999), independentemente do paradigma de referência que orienta os investigadores, ou seja, independentemente de se tratar de um estudo com orientação quantitativa, qualitativa ou mista. Porém, o que constituem conclusões válidas ou inferências 64 válidas? Sem dúvida, que a história da validade se encontra, irremediavelmente, associada ao paradigma positivista e à sua crença num mundo determinado por uma causalidade directa, previsível e controlável. Embora tenha sido originalmente concebida como um requisito para o rigor de uma investigação, rigor esse procurado pelo paradigma tradicional (Lincoln, 2001), os primeiros autores que abordaram, de forma sistemática, o conceito validade, no âmbito de uma investigação, foram Campbell (1957, 1969) e seus colaboradores (Campbell & Stanley, 1963, 1966; Cook & Campbell, 1976, 1979) tendo-a definido como a melhor aproximação possível à veracidade das proposições. Todavia, apesar da maioria dos autores que posteriormente aprofundou o tema, ter mantido, na sua essência, concepções semelhantes, este consenso não se verificou no que diz respeito à categorização da validade (Balluerka, 1999). A classificação inicial proposta por Campbell e Stanley (1963, 1966) foi modificada, em maior ou menor grau, quer no que diz respeito aos diferentes tipos de validade, quer no que diz respeito ao significado de cada tipo de validade e respectiva relevância (Balluerka, 1999). Dentro desta diversidade houve, contudo, um modelo que foi [e ainda é] mais adoptado pelos investigadores, nomeadamente pelos investigadores da área da Psicologia, o modelo de Cook e Campbell, 1976, 1979, 1986 (Balluerka, 1999). Os autores propõem 4 tipos de validade: a) Validade de Conclusão Estatística ou Validade Inferêncial, que se refere ao grau de confiança com o qual podemos inferir, ou concluir, que existe uma co-variação entre duas ou mais variáveis, com base em testes estatísticos significativos; b) Validade Interna, que se refere ao grau de confiança que pode ser alcançado, no que diz respeito à existência de uma relação tipo causa e efeito entre X e Y, tendo em conta a forma como X e Y foram manipuladas e ou medidas; c) Validade de Constructo de Causas e Efeitos, que se refere ao grau de confiança com o qual podemos estabelecer generalizações a constructos de ordem 64 Tal como Tashakkori e Teddlie (2003, p. 35) também nós preferimos o termo “inferência” quando nos queremos referir às conclusões de um estudo. Os autores utilizam (e recomendam o seu uso) o termo inferência no contexto dos métodos mistos, argumentando que este pode assumir uma diversidade de significados, variando entre a pura conotação qualitativa (conclusão baseada na indução) e a pura conotação quantitativa (conclusão baseada na dedução) à semelhança, aliás, do que os autores referiram para o conceito de amostra.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 119 superior a partir de indicadores ou de definições operacionais das variáveis dependentes e variáveis independentes (variáveis manipuladas e variáveis medidas) e, d) Validade Externa, que se refere ao grau de confiança com que uma presumível relação causal entre variáveis, pode ser generalizada a outras pessoas, contextos e ocasiões, diferentes dos utilizadas originalmente. Na análise que realiza do modelo de Cook e Campbell, Balluerka (1999) concluiu que, segundo os autores do referido modelo, existe validade de conclusão estatística quando é detectada uma co-variação entre duas ou mais variáveis e é inferido um efeito de manipulação. Existe validade interna quando as diferenças observadas na variável dependente entre os grupos experimentais e de controlo, podem atribuir-se, unicamente e exclusivamente, às variações produzidas pela variável independente, ou seja, quando permite eliminar todas as hipóteses rivais plausíveis ou todas as possíveis explicações alternativas do fenómeno estudado. Existe validade de constructo quando as inferências que se fazem sobre os fenómenos não observáveis (os constructos) a partir dos fenómenos observáveis (indicadores) são válidas. Balluerka salienta o facto de os próprios autores do modelo referirem que estas inferências não são fáceis de realizar uma vez que o mesmo constructo se pode manifestar através de múltiplos indicadores e o mesmo indicador pode reflectir constructos diferentes. Por outro lado, os indicadores podem adoptar diferentes significados, em diferentes lugares, culturas, sub culturas e períodos temporais. Daí os autores falarem em validade de constructo efeito e validade de constructo causa. Um constructo tem validade se cumpre as exigências que Campbell e Fiske (1959, p. 96) denominam de validade convergente e validade descriminante. Para conseguir a validade de constructo efeito e causa, segundo Campbell e Cook (1979), o investigador tem que reflectir sobre a forma de definição dos constructos, isolar os constructos de interesse dos outros constructos afins, mas que não vão ser analisados, determinar as medidas/manipulações que podem ser consideradas como indicadores adequados dos constructos objecto de estudo, adoptar medidas múltiplas ou realizar múltiplas manipulações dos constructos hipotéticos e registar as medidas ou levar a cabo as manipulações utilizando múltiplos métodos. Para Trochim (1999) a validade de constructo, tal como a validade externa, está relacionada com a generalização, a diferença é que, enquanto a validade externa envolve uma generalização do nosso estudo para outras populações, contextos e tempos, a validade de constructo envolve uma generalização do nível empírico para o nível conceptual. Assim, existe validade de constructo quando as inferências podem, com legitimidade, ser feitas a partir das operacionalizações (nível empírico) para os constructos teóricos (nível conceptual). Finalmente, existe validade externa se se verifica a possibilidade de generalizar a relação causal observada num determinado estudo, a pessoas,
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 120 contextos, ocasiões e, em geral, a diferentes constructos dos utilizados na investigação original. Segundo Balluerka, os autores falam de dois tipos de generalizações. A primeira é da amostra para a população em estudo, ou seja, a generalização dos resultados obtidos com uma determinada amostra de sujeitos para a população objecto de interesse do investigador (população de referência). A segunda é a inferência da população de referência para outras populações, contextos - ou validade ecológica - e momentos temporais - ou validade histórica - constituindo estas as três dimensões básicas, em volta das quais se estabelece a validade externa. Cook e Campbell (1979, p. 39) argumentam que a sua tipologia se baseia em razões de carácter pragmático, uma vez que cada um dos critérios tem uma correspondência com uma das quatro questões principais que se devem colocar a qualquer investigador: Existe relação entre as duas variáveis? (Validade de Conclusão Estatística ou Validade Inferencial, que se situa ao nível da análise); No caso de existência dessa relação, ela é de natureza causal, ou pode manifestarse na ausência da sua suposta causa ou manipulação? (Validade Interna, que se situa ao nível da implementação); No caso de se tratar de uma relação causal, que constructos específicos de causa e efeito estão implicados nessa relação? (Validade de Constructo, que se situa ao nível teórico); No caso de existir uma relação causal entre o constructo A (causa) e o constructo B (efeito) em que medida essa relação é generalizável a outros sujeitos, contextos e ocasiões? (Validade Externa, que se situa ao nível da generalização de resultados). Partindo deste conjunto de questões, e respectivas validades, podemos facilmente concluir que tudo parece começar com a validade de conclusão estatística e a sua capacidade para detectar a possível relação funcional entre duas ou mais variáveis, centrando-se os restantes três tipos de validade na adequada interpretação dessa relação, ou seja, nas palavras de Trochim (1999), os diferentes tipos de validade constroem-se uns aos outros. Neste contexto, não existindo validade de conclusão estatística, ou seja, na ausência de relação entre uma ou mais variáveis, as outras validades deixam de fazer sentido, assim como a posição positivista para o controlo das inferências qualitativas que, desta forma, não responde às necessidades de grande parte destes estudos, cujo objectivo não é procurar relações entre variáveis. A validade enquanto verdade e os respectivos critérios tradicionais (positivistas/quantitativos) ajustam-se, perfeitamente, a uma realidade única, passível de ser estudada de forma neutra e objectiva. Ajustam-se ao desejo de descobrir as relações de causalidade que estão na origem das leis gerais que governam o mundo. Não se adequam
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 121 quando não se procura uma verdade porque ela não existe, quando não se procuram as relações de causalidade directa que governam o mundo, porque o importante é descrever e revelar os significados mais profundos e contextuais (não gerais), o que remete para a existência de “verdades” e não de uma verdade (perspectiva interpretativa). Caso contrário não seria possível retirar conclusões fiáveis desses estudos, não podendo estes constituir um digno contributo para a construção do conhecimento científico. Outro aspecto interessante (porque contraditório) da teoria da validade referido por Cook e Campbell (1979) e Cook, Campbell e Peracchio (1990) é a possibilidade de um aumento, ou investimento, numa validade, poder minimizar as outras validades. Neste sentido, não podendo ter todas as validades no seu potêncial máximo, surge o risco de uma investigação se revelar mais válida num tipo de que noutro. No âmbito da procura da melhor aproximação possível à verdade, pergunta-se: qual é, então, a validade mais válida? Embora não exista consenso relativamente a esta questão, uma vez que uns autores privilegiam a validade interna e outros a externa (Balluerka, 1999), Cook e Campbell (1979) referem que a ordem de importância das validades depende do tipo de investigação, o que leva a pensar que os autores defendem que os critérios em questão (validade interna, externa, de constructo e de conclusão estatística) se devem manter para todo o tipo de investigação (independentemente do paradigma subjacente) variando apenas na sua ordem de importância, ou seja, para um determinado tipo de investigação (mesmo dentro do mesmo paradigma) poderá fazer sentido investir num tipo de validade enquanto que, noutro estudo, com outro tipo de objectivo, fará mais sentido investir em outro. Aceitando esta perspectiva de Cook e Campbell (1979) e tendo como referência os estudos qualitativos, implicitamente se aceitariam os critérios do paradigma quantitativo como universais e se reclamariam, para a investigação qualitativa, apenas, as validades que assumem importância, ou seja, as que fazem sentido: a) a validade inferencial 65 , uma vez que se fazem inferências sobre relações, não entre variáveis mas entre conceitos, cuja qualidade é preciso controlar e, b) a validade de constructo, não só porque é uma validade de nível teórico, mas também porque no contexto qualitativo se pode, e deve, falar em generalização a constructos de ordem superior, partindo de definições operacionais, isto é, do nível empírico, sendo necessário avaliar se os constructos que se referem estar a operacionalizar para depois 65 Optamos por este termo uma vez que não fazia sentido chamar validade de conclusão estatística no contexto qualitativo, na medida em que não se utilizam testes estatísticos para comprovar possíveis ligações entre variáveis (ou neste caso, possíveis ligações entre conceitos) mas construções subjectivas dos investigadores.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 128 força das inferências 70 pode variar em potência, através da influência de factores que contribuem para o seu aumento/decréscimo, podendo, as inferências, serem mais ou menos válidas, ou melhor, ter mais ou menos qualidade. Esta abordagem do conceito validade enquanto “qualidade de” definitivamente afasta o investigador do paradigma tradicional (positivista) e aproxima-o do(s) paradigma(s) que orientam os estudos qualitativos/mistos. Como referem Whittemore et al. (2001), transferido enquanto verdade para o domínio qualitativo, o conceito de validade não é compatível com o desenvolvimento de critérios que reflectem os princípios da perspectiva interpretativa. Assim, a validade verdade dá lugar à validade estado ou qualidade de ser justo, de confiança e bem fundamentado (Whittemore et al., 2001), uma validade que tem a ver com a descrição, com a explicação e com o ajuste, ou não, da explicação à descrição (JanesicK, 2000). Nesse sentido, e em matéria de controlo de qualidade das inferências qualitativas, talvez a solução não passe tanto pela discussão de critérios, enquanto ideais teóricos, e respectiva operacionalização, através da identificação de estratégias que os permitam alcançar. Primeiro, porque o consenso nesta área parece pouco provável a curto/médio prazo, dada a diversidade de perspectivas e metodologias intra e inter paradigmas, diversidade, essa, que a literatura claramente reflecte no debate dedicado a essa questão. Segundo, e para além da diversidade, outro aspecto é a falta de clareza nas definições dos critérios e a sua consequente difícil operacionalização. Terceiro, muitos autores falam da necessidade urgente de um conjunto de critérios específicos para o controlo das inferências qualitativas sem contudo apresentarem propostas para (re)pensar esse controlo. Assim, mais do que discutir critérios, parece pertinente investir na implementação, ao longo de todo o processo de investigação, de um conjunto de estratégias/técnicas (algumas das quais referidas anteriormente) que quando utilizadas, na sua totalidade ou parcialmente, de acordo com a investigação em questão, permitem ao investigador querer, e acreditar, que está a fazer um bom trabalho, obtendo, assim, indicadores da qualidade das suas inferências que lhe permitam reclamar, sem receios, junto da comunidade científica, a sua legitimidade. Partindo do pressuposto, como já referimos, que o objectivo de qualquer investigação reside na obtenção de inferências precisas e fiáveis, assim como da necessidade de controlar a qualidade dessas inferências, a nossa posição afasta-se do debate em volta dos critérios, porque é improdutivo, para apostar na utilização de técnicas/estratégias no controlo da qualidade dessas inferências. As estratégias utilizadas por nós, na presente investigação, para 70 Isto porque o que é válido ou não, não são as investigações. As medidas, as amostras, os desenhos, não têm validade, eles podem é conduzir-nos, ou não, a inferências válidas (Trochin, 1999).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 129 o controlo da qualidade das inferências, serão alvo de análise pormenorizada, no Ponto 9 do presente Capítulo. Antes de avançarmos no sentido de apresentar e discutir os restantes aspectos metodológicos, e porque a presente investigação se insere, como referimos anteriormente, no movimento metodológico dos métodos mistos, importa aqui realizar, ainda, uma última reflexão: Qual a posição dos métodos mistos no que diz respeito às três questões que temos vindo a abordar, ou seja, conclusões ou inferências, validade ou qualidade das inferências e critérios ou estratégias? Onwuegbuzie e Johnson (2006) referem que, no que concerne à questão da validade, a situação dos métodos mistos é muito diferente da situação onde se encontram as abordagens qualitativa e quantitativa: se na investigação quantitativa a importância da validade há muito foi aceite, e, na investigação qualitativa, as discussões à volta deste assunto têm sido mais controversas, tendo emergido diferentes tipologias e termos, nos métodos mistos, as discussões sobre validade estão ainda no seu início (ou como referem os autores “na infância”). Contudo, querendo contribuir para o debate, os autores discutem três questões que referem, até à altura, constituírem questões controversas, e não resolvidas, no domínio da validade dos métodos mistos: a questão da nomenclatura, mais concretamente, neste caso, a questão de como intitular o conceito de validade no contexto dos métodos mistos, a questão da respectiva conceptualização e, finalmente, a questão da necessidade de identificar tipos ou formas de validade. Assim, e no seguimento da proposta de Teddlie e Tashakkori (2003) da utilização, no contexto dos métodos mistos, de uma nomenclatura bilingue, Onwuegbuzie e Johnson (2006) propõem o termo legitimação para ser utilizado no contexto dos métodos mistos 71 , em vez de validade, uma vez que é um termo que, possivelmente, pode ser aceite pelos qualitativos e quantitativos, ao contrário do termo validade, cuja aceitação, apesar de ser completa no contexto da abordagem quantitativa, é muito controversa no contexto qualitativo. Neste contexto, definem legitimação como um processo (e não apenas um resultado como para Teddlie & Tashakkori, 2003, 2006 ou Erzberger & Kelle, 2003) e, acreditando que a sua verificação deve ocorrer em cada fase do processo de investigação, propõem uma nova 72 tipologia de formas de legitimação nos métodos mistos (que colocam à consideração da 71 Esta proposta, segundo os autores, seria consistente com o uso de outros dois termos de Onwuegbuzie (2003, citado por Onwuegbuzie & Johnson, 2006, p. 55): modelo de legitimação qualitativa e modelo de legitimação quantitativa, não querendo, com isto, o autor sugerir que os investigadores quantitativos deveriam abandonar o termo validade e os investigadores qualitativos abandonarem os termos correspondentes (e.g. credibilidade, confiança), mas apenas que, no âmbito da discussão dos critérios para a validade no contexto dos métodos mistos, o conceito legitimação (ou outro similar) deva ser útilizado. 72 Porque, segundo os autores, os aspectos que abordam nesta tipologia não estão ainda incluídos em nenhuma tipologia existente, inclusivé na grelha de controlo da qualidade das inferências deTeddlie e Tashakkori (2003).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 130 comunidade cientifica para discussão e refinamento, uma vez que se encontra ainda em fase de desenvolvimento, devendo as suas componentes ser estudadas, pormenorizadamente, para determinar quando, e como, operam e como podem ser maximizadas ou feitas acontecer), com nove formas ou tipos de legitimação: a) integração da amostra (aplicando-se a situações em que o investigador pretende fazer generalizações estatísticas da amostra dos participantes a uma população alvo maior, refere-se ao grau em que a relação entre o desenho da amostra qualitativa e o da quantitativa produzem meta-inferências 73 com qualidade); b) “insideoutside” (o grau em que o investigador, de forma precisa, apresenta e utiliza, adequadamente, o ponto de vista do observador, outsider, e o ponto de vista do membro do grupo, insider, quando realiza descrições ou explicações); c) minimização das fraquezas (o grau em que as fraquezas de uma abordagem são compensadas pelas forças da outra; estando, segundo os autores, a investigação por métodos mistos na posição ideal para maximizar esta forma de legitimação); d) sequenciação (o grau em que o investigador minimizou o potêncial problema da possibilidade das meta-inferências serem influênciadas pela reversão da sequência das fases qualitativas e quantitativas); e) conversão (o grau em que a qualitização e a quantitização produzem meta-inferências com qualidade); f) combinação paradigmal (o grau em que as crenças epistemológicas, ontológicas, axiológicas, metodológicas e retóricas, que suportam as abordagens qualitativa e quantitativa, são, com sucesso, combinadas ou “blended into a usable package”); g) comensurabilidade (o grau em que as meta-inferências realizadas traduzem um ponto de vista misto ou combinado, um terceiro ponto de vista, que é informado por, é separado de, e vai para além do que é fornecido, quer pelo ponto de vista qualitativo puro ou pelo quantitativo puro); h) validades múltiplas (o grau em que a legitimação das componentes qualitativas e quantitativas resulta do uso de formas de validade qualitativas, quantitativas e mistas, produzindo-se, assim, meta-inferências de alta qualidade) e i) política (o grau em que os consumidores dos estudos mistos valorizam as meta-inferências provindas das componentes qualitativas e quantitativas de um estudo). Por seu lado, Teddlie e Tashakkori (2003) sugerem aos investigadores que quando utilizarem métodos mistos, prefiram os termos inferências e qualidade de inferências, em vez de conclusões e validade (interna, no paradigma quantitativo) ou, por exemplo, credibilidade (no paradigma qualitativo), respectivamente, pois descrevem melhor os respectivos resultados (dedutivos e indutivos), muito embora os três termos (validade interna, credibilidade e qualidade de inferências) se refiram ao grau em que o investigador acredita que as suas conclusões descrevem, de forma precisa, o que realmente aconteceu no estudo. A 73 Integração de inferências qualitativas e quantitativas.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 131 preferência pelos termos referidos, tem em consideração, por um lado, o facto de o termo inferência incluir o qualitativo (as conclusões obtidas de forma indutiva) e o quantitativo (as conclusões obtidas de forma dedutiva) e, por outro, o facto de o termo qualidade não só constituir um termo forte, conotando um grau de excelência, como também, ser raramente utilizado na metodologia de investigação, tendo, por isso, a vantagem de não ter sido utilizado em demasia o que poderia resultar numa perda de significado, ou má utilização, como o que se verificou, por exemplo, com o termo “validade” que, tendo vindo a ser utilizado de formas diversas e imprecisas, perdeu o seu significado enquanto termo distinto, conotando quer a validade interna, quer a externa, quer qualquer outro tipo de validade no contexto qualitativo ou quantitativo. Segundo Teddlie e Tashakkori (2003), esta controversa utilização, por parte de investigadores quantitativos e qualitativos, de diferentes critérios/estratégias para avaliar a qualidade das suas inferências (muitas vezes, diferenças baseadas num conflito de definições), constitui um dos maiores desafios para os investigadores que utilizam os métodos mistos. Na tentativa de ultrapassar este desafio, o controlo da qualidade das inferências nos estudos mistos, e inspirados nos dois critérios para a determinação da autenticidade das descobertas de Lincoln e Guba (2000), rigor na aplicação do método e rigor na interpretação, Teddlie e Tashakkori (2003) referem que a nomenclatura, dos métodos mistos, deve incluir dois importantes aspectos 74 (os autores não utilizam, nem recomendam o uso, das etiquetas critério/estratégia) para a avaliação da qualidade das inferências: qualidade do desenho (que engloba as orientações para avaliação do rigor metodológico da investigação por métodos mistos, incluindo o conjunto de critérios já estabelecidos no contexto qualitativo e quantitativo) e rigor interpretativo (que engloba as orientações para a avaliação da precisão ou autenticidade das conclusões), mais difícil de aceder, logo mais difícil de conseguir controlar a sua qualidade. Os autores fornecem um conjunto de questões que podem ser colocadas (semelhante a uma checklist) para a avaliação da qualidade das inferências da investigação, e que são função destes dois aspectos, qualidade do desenho (e.g.: O desenho é consistente com as questões de partida e objectivos? As técnicas de análises de dados suficientes e adequadas para proporcionar respostas às questões de partida?) e rigor da interpretação (e.g.: As respostas aos diferentes aspectos das questões de partida são 74 Os autores referem que estes dois aspectos se relacionam com os quatro critérios ou dimensões por onde se distribuem as estratégias para avaliação e melhoramento das inferências útilizadas nas abordagens qualitativas e quantitativas: consistência interna do desenho (que corresponde ao aspecto “qualidade do desenho”), consistência conceptual, consistência interpretativa e clareza interpretativa (estando estes três últimos relacionados com o aspecto “rigor interpretativo”).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 132 consistentes? As inferências têm em consideração a literatura existente? Outros investigadores também consideram que as inferências apresentadas são as mais defensáveis interpretações dos resultados? Existem outras explicações plausíveis para os resultados?). Neste sentido, parece-nos que, tal como nós, os teóricos dos métodos mistos se pretendem afastar do debate em torno dos critérios de validade (muito embora se tenham inspirado em alguns aspectos desse debate), preocupando-se com a realização de um controlo contínuo, isto é, ao longo de todo o processo de investigação, da qualidade das inferências, seja através do que para nós constituem estratégias, seja através do que denominam de um conjunto de aspectos relacionados, por uma lado, com a qualidade do desenho da investigação e, por outro, com o rigor interpretativo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 133 3. DESENHO DA INVESTIGAÇÃO Podemos encontrar na literatura, no contexto dos estudos mistos, várias propostas de tipologias de desenhos de investigação 75 (Creswell, 2003; Creswell, Clark, Gutmann & Hanson, 2003; Miles & Huberman, 1994; Morse, 1991, 2003; Morse, Niehaus, Wolfe & Wilkins, 2006; Patton, 2002; Sandelowski, 2000; Tashakkori & Teddlie 1998, 2003; Teddlie & Tashakkori, 2006 76 ). De acordo com a mais recente tipologia de Teddlie e Tashakkori (2006), The Methods-Strand Matrix, uma proposta muito interessante, na medida em que, não só constitui uma síntese evolutiva do que na literatura tem vindo a ser publicado, como também, privilegia uma perspectiva mais prática, centrando-se nas componentes metodológicas da investigação, definindo os estudos mistos 77 como uma investigação onde o investigador recolhe e analisa dados, integra os resultados e apresenta as inferências usando as duas abordagens ou métodos, qualitativo e quantitativo, num único estudo ou projecto de investigação (Teddlie & Tashakkori, 2006, p. 15). Nesta tipologia, os estudos mistos podem assumir, em termos gerais, quatro famílias de desenhos 78 que correspondem às quatro decisões metodológicas que o investigador tem de fazer, quando escolhe um desenho para o seu estudo: a) número de abordagens metodológicas a utilizar (um estudo com uma única abordagem, qualitativa ou quantitativa, é um desenho monométodo e um estudo onde se combinam as abordagens qualitativa e quantitativa, ao longo das diferentes fases da investigação, é um desenho método misto); b) número de strand 79 ou fases a utilizar (um estudo com uma strand é um desenho monostrand e um estudo com mais de uma strand, contendo cada uma das strand as três fases, é um desenho Multistrand); 75 Para um estudo mais aprofundado desta questão, ver Tashakkori e Teddlie (2003) onde os autores apresentam, no primeiro capítulo deste Handbook, uma síntese das diferentes tipologias existentes, inclusivé uma versão da tipologia dos autores (reformulada em Teddlie & Tashakkori, 2006) assim como, em outros capítulos do Handbook, outros autores apresentam as suas propostas nesta área (e.g. Morse, Creswell et al.). 76 Nesta última tipologia os autores abandonaram algumas componentes das tipologias anteriores (Tashakkori & Teddlie 1998, 2003) uma vez que, com base nas novas definições e conceptualizações no contexto dos métodos mistos, nomeadamente a própria definição de métodos mistos, deixaram de fazer sentido. Estes aspectos, e outros (e.g. útilidade das tipologias, critérios que têm vindo a ser útilizados na construção das tipologias e a mais rcente tipologia dos autores), são analisados neste interessante artigo. 77 No contexto do “Call for Papers” da revista Journal of Mixed Methods Research”. 78 Os autores referem que é mais adequado dizer que a matriz contem famílias de desenhos de investigação em vez de formas, pois cada uma das formas (representada por cada célula da matriz) pode incluir numerosas outras subformas. 79 Strand é a fase de um estudo que inclui três etapas: conceptualização, experimentação (etapa métodológica e analítica) e inferênciação (Teddlie & Tashakkori, 2006, p. 16).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 134 c) o tipo de processo de implementação a utilizar (pode ser concorrente, se as strand qualitativa e quantitativa são implementadas simultaneamente ou paralelamente, pode ser sequencial, se as strand qualitativa e quantitativa são implementadas cronologicamente, uma emergindo da outra e, pode, ainda, ser utilizado o processo de conversão, que constitui característica única dos métodos mistos e que inclui a transformação dos dados recolhidos [e.g. recolher dados qualitativos e transformá-los em quantitativos, o quantitizing de Miles & Huberman (1994), ou o contrário, ao que Tashakkori & Teddlie (1998), inspirados no quantitizing de Miles & Huberman (1994), intitularam de Qualitizing]; d) a fase de integração das abordagens utilizadas (podendo a integração ser realizada apenas ao nível metodológico ou ao longo de todas as fases de uma strand 80 ). Tendo em conta as decisões que tomámos, e numa análise à posteriori 81 , o nosso estudo pode ser integrado na família dos estudos incluídos na célula quatro da matriz de Teddlie e Tashakkori (2006), que, aliás, os autores referem ser os mais complexos da matriz, e, assim, caracterizado como um desenho método misto multistrand (pois combinamos as strand qualitativa e quantitativa, ao nível das três etapas ou strand: conceptualização, experimentação e inferênciação), concorrente (pois as strands qualitativa e quantitativa foram implementadas simultaneamente) e de conversão [se considerarmos, como alguns autores 82 , que a vertente mais quantitativa da análise de conteúdo, as contagens, constitui uma forma de quantitizing ou seja, uma forma de transformação dos dados qualitativos em quantitativos (voltaremos a este assunto mais à frente)]. Por outro lado, Creswell (2003, pp. 213-219), apresenta-nos uma outra tipologia na qual o autor divide os estudos mistos em dois grandes grupos: a) estudos sequenciais, com fases distintas de recolha de informação qualitativa e quantitativa, que incluem três subtipos: os sequenciais explanatórios (que utilizam a metodologia quantitativa primeiro, em termos de recolha e análise dos dados, e depois a qualitativa), os sequenciais exploratórios (que utilizam primeiro a metodologia qualitativa e 80 A este respeito, Sandelowski (2000, p. 246/247) refere que os estudos com combinações ou métodos mistos são operacionalizáveis apenas ao nível técnico da investigação, ou seja, ao nível da amostra, recolha de dados e análise dos dados, não constituindo misturas dos paradigmas de investigação (uma vez que os diferentes paradigmas implicam visões contradictórias) verdadeiras combinações ou junções dos diferentes pontos de vista, mas uma grelha explicita de análise com dois ou mais pontos de vista, cada um dos quais se mantém distinto do outro, embora os paradigmas se reflictam nas técnicas que os investigadores escolhem combinar e no como e porquê desejam combiná-las. Segundo Sandelowski, combinações ao nível técnico permitem a utilização inovadora de uma variedade de técnicas para uma variedade de objectivos. Três desses objectivos incluem: a) triangulação para alcançar ou assegurar a corroboração dos dados ou a validação convergente, b) complementaridade para clarificar e explicar os resultados das análises efectuadas) desenvolvimento para a condução de amostras, recolha de informação e técnicas de análise adicionais (2000, p. 248). 81 Pois o nosso estudo é prévio ao aparecimento desta tipologia. 82 Sandelowski, 2001, citada por Onwuegbuzie e Johnson, 2006 e Onwuegbuzie e Teddlie (2003); Boyatzis, 1998, citado por Onwuegbuzie e Teddlie (2003); Onwuegbuzie e Teddlie (2003).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 135 depois a quantitativa) e os sequenciais transformativos (onde qualquer método pode ser utilizado primeiro e a prioridade 83 pode ser dada a qualquer um dos paradigmas ou aos dois, tendo, ao contrário dos explanatórios e exploratórios, uma perspectiva teórica ou grelha conceptual que guia o estudo e que se torna mais importante do que a utilização dos métodos de forma isolada, na medida em que é em função desta que o investigador escolhe o ou os métodos que melhor servem essa perspectiva); b) estudos concorrentes ou não sequenciais, com recolha simultânea de informação qualitativa e quantitativa, também com três subtipos: estudos concorrentes com estratégia de triangulação (os mais populares, no qual os dois métodos são utilizados para confirmar, validar ou corroborar os resultados de um estudo), estudos concorrentes com a estratégia de encaixe “nested” (onde num só momento de recolha de informação são recolhidos simultaneamente dados qualitativos e quantitativos, e embora, ao contrário do anterior, exista um método dominante que guia o projecto, os dois tipos de dados são combinados na fase de análise) e os estudos concorrentes com a estratégia de transformação (que podem ter a forma de um dos dois anteriores, triangulação ou encaixe, podendo, ou não, os métodos ter igual prioridade, mas tal como nos sequenciais há uma grelha conceptual dominante, que reflecte o objectivo ou as questões de partida do estudo e que guia as escolhas metodológicas). Tendo esta tipologia por referência, o nosso estudo poderia ser classificado no tipo estudo concorrente de estratégia de encaixe, assumindo como dominante o método qualitativo, tendo sido utilizado o método quantitativo (menos dominante) para responder a uma sub-questão de partida, independente, assim como para procurar informação a um nível diferente (observações sistematizadas), razões referidas pelo autor como justificativas do uso deste tipo de estudo. Foram, assim, recolhidos os dois tipos de dados (qualitativos e quantitativos) que foram analisados e depois integrados, na fase de interpretação dos resultados, como um todo (Creswell, 2003, p. 16). Na Figura 16 apresentamos uma representação gráfica (ou modelo visual) do fluxo de procedimentos que integraram o presente estudo, sem, contudo, lhe atribuir uma etiqueta na medida em que inclui elementos das diferentes tipologias que analisámos. 83 Teddlie e Tashakkori (2006) não utilizam o critério prioridade na criação da sua tipologia dos métodos mistos, no que concerne às quatro principais formas ou famílias de desenhos, argumentando que a relativa importância de uma ou outra componente não pode ser completamente determinada antes da realização do estudo. Contudo, os autores referem que este critério pode fazer emergir, ao nível das subformas dentro de cada família de desenhos, diferentes combinações.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 136 NOTA: Atribuímos a etiqueta de informação principal à informação que, de forma independente, responde a uma questão de partida (a informação quantitativa recolhida através da escala de avaliação, incluída na parte final da entrevista) e, informação suplementar, à informação que foi recolhida com o objectivo de complementar com um outro olhar a informação recolhida através das entrevistas (a informação recolhida através das observações estruturadas). O tamanho das caixas está relacionado com o maior ou menor peso no estudo Figura 16 Fluxo de procedimentos do presente estudo Embora as tipologias sejam, inquestionavelmente, valiosas, na medida em que ajudam o investigador a tomar algumas decisões no que diz respeito à elaboração do desenho de um estudo (Maxwell & Loomis, 2003; Teddlie & Tashakkori, 2006), sendo úteis no estabelecimento de uma linguagem comum e de uma estrutura organizacional que, no contexto dos métodos mistos, os diferencia dos contextos qualitativo e quantitativo (Teddlie & Tashakkori, 2006), em vez de encararmos o desenho de um estudo como uma escolha de entre um conjunto fixo de alternativas existentes, preferimos, e acreditamos, que uma abordagem mais completa, em termos de desenho de investigação, constitui uma melhor opção no sentido que ajuda a ultrapassar as limitações das tipologias existentes: Fase Conceptual Indutiva Dedutiva Fase Método lógica Estratégias Qualitativas Estratégias Quantitativas Recolha de Informação (Entrevistas) Recolha de Informação Análise da Informação (NUD’IST) Inferências Meta-Inferências Qualitativas Quantitativas Suplementares Quantitativas Principais Suplementar (Observações) Principal (Escala) Análise da Informação (Contagem manual) Inferências Inferências Análise da Informação (SPSS)
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 137 a) a actual diversidade no contexto dos métodos mistos (os múltiplos paradigmas existentes, a diversidade dos aspectos qualitativos e quantitativos e respectivos desenhos, mais ou menos flexíveis 84 , o largo espectro de objectivos que são adequados ao uso dos métodos mistos e as diferenças nos contextos onde se realizam os estudos), difícil de abarcar, adequadamente, por qualquer tipologia 85 ; b) o facto de muitas tipologias deixarem de fora aspectos importantes de um desenho como as questões da amostra e do controlo da qualidade das inferências; c) e a tendência das tipologias, na concepção dos desenhos, para a linearidade, olhando para as componentes como fases do desenho em vez de partes interactivas de um todo complexo (Maxwell & Loomis, 2003). Neste sentido, optámos por incluir na presente dissertação, para além do fluxo de procedimentos, um outro esquema (Figura 17), representando o desenho do estudo que realizamos (na sua versão final, uma vez que nem todos os aspectos foram prédeterminados 86 ), onde, tentando ir mais além, e alargando os aspectos que normalmente fazem parte de um desenho 87 , acrescentamos as estratégias de amostragem, a natureza das questões de partida e as estratégias de controlo da qualidade das inferências, uma vez que constituem aspectos que se relacionam com as principais decisões que o investigador tem de tomar. 84 Como refere Robson (2002) inspirado em Anastas e Mac-Donald (1994) os desenhos de uma investigação podem ser mais ou menos flexíveis, dependendo do paradigma onde se inserem: os da abordagem qualitativa são mais fléxiveis (flexible research designs) e os da abordagem quantitativa são menos flexíveis (fixed research designs). 85 Apesar da útilidade das tipologias, os investigadores não devem esperar que estas sejam exaustivas uma vez que os métodologistas, dada a capacidade de mutação deste tipo de estudos, e a respectiva diversidade que daí resulta, não conseguem criar uma tipologia completa dos desenhos dos métodos mistos. Esta diversidade advém essencialmente da componente qualitativa do estudo misto e da sua natureza oportunista, ou seja, muitas vezes o estudo pode ter um desenho predeterminado mas novas componentes podem desenvolver-se ou transformar-se, à medida que a investigação vai progredindo (Teddlie & Tashakkori, 2006). 86 Por exemplo, a questão das observações, que, apesar de inicialmente termos decidido que era uma estratégia a privilegiar, no sentido da procurada complementaridade, não sabíamos muito bem o que observar, tendo decidido posteriormente, já durante o trabalho de campo, após a realização das entrevistas iniciais. 87 Esta é também uma postura partilhada por Maxwell e Loomis (2003) que propõem uma alargamento dos desenhos tradicionais através da colocação de outros elementos como por exemplo, os objectivos, as questões de partida, a relação do investigador com os participantes, amostra, validade, entre outros, defendendo, assim, um conceito de desenho mais abrangente e interactivo.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 144 Consideramos esta, uma das (grandes) vantagens da observação, que, na altura da ponderação e respectiva tomada de decisão, pode fazer a diferença. A outra grande vantagem 95 , embora esteja relacionada com a anterior, a nosso ver, merece destaque. É o facto de através da observação o investigador ter a oportunidade de ver coisas que podem, de forma rotineira, escapar à consciência das pessoas do contexto e, por isso, não serem, por elas, verbalizadas, por exemplo, no decorrer de uma entrevista. Todos os sistemas sociais envolvem rotinas e os participantes nessas rotinas podem tê-las como garantidas de tal forma que deixam de estar conscientes de importantes nuances, que só são aparentes a um observador (externo) que não ainda não se deixou absorver por essas rotinas. A observação constitui, assim, uma oportunidade de o investigador se mover para além das percepções selectivas dos outros, obtidas, por exemplo, através de entrevistas. Logicamente que as compreensões conseguidas a partir das entrevistas são, sem dúvida, muito importantes. Porém, retratam percepções selectivas. O observador terá, também, percepções selectivas. Mas fazendo as suas próprias percepções parte integrante dos dados (através das suas observações sistemáticas, disciplinadas e auto-conscientes), os investigadores conseguem chegar a uma melhor compreensão do contexto estudado do que se se ficassem, apenas, pela realização de entrevistas (Patton, 2002). Neste sentido, reconhecendo que todos os métodos têm forças e fraquezas, mantivemos em mente o princípio fundamental da investigação por métodos mistos que, como já referimos, pressupõe que os métodos sejam combinados de forma a se complementarem mutuamente, tendo sido, assim, no caso da presente investigação, complementada uma fraqueza de um método (entrevista) com uma força de um outro (observação). Conscientes de que a metodologia observacional nos poderia oferecer a possibilidade de, no que diz respeito ao estudo dos comportamentos, por nós seleccionados (comportamentos espontâneos que ocorrem em situações não preparadas), melhor operacionalizar esse estudo, fomos verificar se esses comportamentos se ajustavam aos requisitos de conteúdo e metodológicos (Anguera, 2001, 2003a, 2003c) que permitem essa operacionalização, ou seja, essa avaliação através da observação. Relativamente aos requisitos de conteúdo, e segundo Anguera (2001, 2003a, 2003b, 2003c) o, ou os, comportamentos a observar devem cumprir três exigências. Em primeiro lugar, serem perceptíveis, parcialmente ou na sua totalidade. No caso da presente 95 As vantagens e as desvantagens associadas à realização de observações, referidas na literatura (cf. Marshall & Rossman, 1989), são muito semelhantes às referidas para as entrevistas, pelo que destacamos apenas aquelas que nos parecem mais significativas, porque acrescentam algo de novo a esta discussão, ajudando, assim, a clarificar as nossas opções.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 145 investigação, trataram-se de condutas manifestas, com um grau total de perceptividade, oferecendo, assim, garantia de cotação. Em segundo lugar, os comportamento deverão ser parte constituinte do dia a dia, assim como do ambiente natural do (s) indivíduo (s). Os comportamentos que iriam ser alvo de observação, no estudo que apresentamos, constituíam aspectos habituais do quotidiano do ambiente de trabalho, dos elementos da equipa cirúrgica. Uma última exigência, relaciona-se com a necessidade de os comportamentos possuírem um ponto de referência dentro do contexto onde decorrem. No caso dos comportamentos que iriam ser observados, esse ponto de referência era a sala operatória, local onde ocorrem e decorrem as diferentes actividades, entre as quais, as que pretendíamos observar. No que diz respeito aos requisitos metodológicos, e em termos de desenho do estudo, tendo como referência a dicotomia ideográfico (unidade) / nomotético (pluralidade), deve ser dada preferência ao estudo ideográfico, ou seja, ao estudo de um único sujeito (Anguera, 2001, 2003a, 2003c). Todavia, Anguera refere que a esta proposta se tem vindo a incorporar alguma variação adaptativa às diversas situações observáveis, entre elas, a atribuição da etiqueta de estudos ideográficos a estudos que ampliam a proposta clássica de unidade. Como por exemplo, todos aqueles casos em que os sujeitos observados são vários indivíduos mas funcionam como uma unidade, dado que entre eles existe um critério de afinidade, agrupamento ou regras comuns a seguir. Neste sentido, o facto de, na presente investigação, o objecto de estudo ter sido um pequeno 96 grupo de indivíduos, que funciona como uma unidade (uma equipa cirúrgica) pode ser considerado ideográfico, e, consequentemente, um desenho privilegiado para a metodologia observacional. Outro requisito metodológico importante para a operacionalização da observação, é a questão da temporalidade do registo. O ideal é ter a possibilidade de seguimento temporal, ou seja, dispor de um período de tempo durante o qual se podem registar os comportamentos que interessam (Anguera, 2001, 2003b, 2003c), o que implica a necessidade de seleccionar comportamentos cuja frequência vá mais além do que uma mera ocorrência casual ou esporádica (Anguera, 2001). Os comportamento que decidimos observar, na presente investigação, proporcionavam-nos esta possibilidade de seguimento temporal. Finalmente, o último requisito metodológico relaciona-se com natural ausência de um instrumento standard para efectuar o respectivo registo, uma vez que os comportamentos que se estudam através da observação estruturada têm, de forma geral, um carácter espontâneo e particular, estando por isso subjacente a necessidade de construção de um instrumento de registo, adaptado à situação (2001, 2003b, 2003c). Mais à frente, neste Capítulo, 96 Saliente-se o facto de a metodologia observacional não se adequar ao estudo de grandes colectivos ou grupos de indivíduos (Anguera, 2000).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 146 apresentaremos o instrumento (protocolo de registo de observação) que foi construído para a presente investigação. Reunidas, assim, todas as condições, optámos por recorrer, também, à observação uma vez que os respectivos métodos (de carácter não experimental) se caracterizam, como vimos, pela sua adequabilidade ao estudo dos acontecimentos, tal como estes se produzem, e pela sua utilidade para a complementação de outros métodos de análise 97 (Quivy & Campenhoudt, 1992, p. 199). Por outras palavras, se através da observação o investigador não consegue “ver” o que está a acontecer dentro de cada pessoa, uma vez que a observação está limitada à dimensão externa dos comportamentos (Patton, 2002), consegue esse acesso através da entrevista. Neste sentido, combinando entrevistas com observação (triangulação 98 ) o investigador aumenta a validade [a qualidade das inferências] do que vê no sentido de que os pontos fortes de uma estratégia podem compensar as fraquezas de uma outra (Patton, 2002). Neste caso, as observações ajudam a verificar o que foi relatado nas entrevistas e as entrevistas permitem ao investigador ir mais além dos comportamentos externos, explorando sentimentos e pensamentos (Patton, 2002). Mais do que um método pode, assim, ser utilizado durante a realização de um projecto (triangulação metodológica), obtendo o investigador, desta forma, uma visão mais holística do contexto (Morse, 1994). Neste sentido, e como já referimos no Ponto 5 deste Capítulo, optámos por uma estratégia de investigação mista (estudo misto), que simultaneamente combinou a realização de entrevistas, como estratégia dominante para a recolha de informação, com a observação estruturada e a análise documental, tendo como referência, em termos de envolvimento dos participantes na investigação, o modelo mais tradicional, que diferencia o investigador, enquanto um expert, dos participantes (Miles & Huberman, 1994, p. 47). Em suma, podemos referir que a aposta neste tipo de metodologia se prendeu com três aspectos. Primeiro, com a natureza das nossas questões de partida (How and What), assim como com a temática a estudar, que nos conduziram, por um lado, à focalização na experiência subjectiva como fonte de conhecimento, numa lógica indutiva, partindo da 97 Aliás, muitos estudos qualitativos, do tipo estudo de caso, combinam observação com entrevistas, seja pelo facto de existirem várias questões de investigação, seja porque se pretende útilizar vários métodos ou fontes, como forma de tringulação (Silverman, 2000). 98 No debate metodológico, no contexto das ciências sociais, o termo triangulação adquiriu dois significados. Por um lado, triangulação como sinónimo de verificação ou validação mútua (suportada pela ideia de que resultados convergentes de diferentes medidas aumentam a validade dos resultados) e, por outro lado, triangulação como sinonimo de uma potenical complementaridade entre métodos qualitativos e quantitativos, na medida em que, os dois pontos de vista fornecem visões de diferentes ângulos que podem não ser úteis para se validarem mutuamente, mas antes para fornecerem uma visão mais completa do fenómeno em estudo. Neste sentido, a triangulação não pode ser considerada como um método único, mas sim como uma metáfora metodológica, com possíveis diferentes significados que podem ser relacionados com uma variedade de problemas ou tarefas (Erzberger & Kelle, 2003, pp. 458-462).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 147 perspectiva do outro, respeitando, assim, os seus marcos de referência, uma vez que constituía nosso interesse conhecer a forma como as pessoas percepcionam, experienciam e interpretam a realidade em estudo (o modelo de funcionamento do BO, os padrões e a qualidade das relações) e como com ela se relacionam. Na medida em que, para a construção deste conhecimento, as variáveis eram difíceis de identificar e as teorias não estavam disponíveis, nenhum outro método responderia melhor às nossas questões de partida. Por outro lado, levou-nos também a tentar perceber, numa lógica dedutiva, até que ponto as equipas cirúrgicas, e a sua tarefa, se adequavam ao modelo de grupo de Miguez e Lourenço (2002). Segundo, após a revisão da literatura, revelou-se o predomínio da utilização deste tipo de metodologia nos estudos efectuados no mesmo contexto e com objectivos de natureza semelhante aos desta investigação. Finalmente, porque a combinação de estratégias (entrevistas, observação e análise documental) permitia-nos o acesso a diferentes fontes de dados, na procura da tal alternativa prática e lógica que nos ajudaria a compreender melhor a realidade a estudar, dada a oportunidade de, com esta combinação de métodos captar a possível diversidade dos pontos de vista presentes na EqC, conseguindo, assim, inferências de qualidade superior. Assim, mais do que combinar ou triangular para comparar, confirmar e validar as nossas descobertas 99 , pretendemos combinar para complementar, encarando as possíveis faltas de convergência como oportunidades de interpretação, obtendo, assim, inferências mais fortes e com mais qualidade. De seguida, abordamos cada uma das técnicas escolhidas 4.1. A entrevista semi-estruturada Muito se tem escrito acerca dos diferentes tipos de entrevista (Punch, 1998, p. 175), sendo possível encontrar, na literatura, várias tipologias (Bogdan & Biklen, 1994; Flick, 1998; Fontana & Fey, 1994; Ghiglone & Matalon, 1993; Patton, 2002, 1980; Rubin & Rubin, 1995) que, de uma forma geral, as distinguem com base em duas grandes dimensões, que se interrelacionam: o grau de estruturação e o grau de profundidade que se pretende alcançar (Punch, 1998, p. 176) 100 . 99 Como anterirmente referimos, segundo Johnson e Turner (2003, p. 299) o princípio fudamental da investigação por métodos mistos é utilizado, pelo menos, por três razões: para obter convergência ou corroboração dos resultados ou descobertas, para eliminar ou minimizar explicações chave alternativas para as conclusões que se retiram dos dados obtidos e, para elucidar diferentes aspectos de um fenómeno. 100 Punch (1998) refere ainda uma terceira dimensão: o grau de estandardização ou uniformidade que se verifica através dos diferentes participantes e situações que, a nosso ver, se relaciona, intimamente, com o grau de
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 148 Relativamente ao grau de estruturação, as entrevistas (mesmo as qualitativas 101 ) variam num contínuo que vai desde as mais estruturadas (também chamadas de directivas, estruturadas, estandardizadas ou, na linguagem de Patton [2002], “Closed, fixed-response interview” 102 ) às não estruturadas (também apelidadas de entrevistas em profundidade, não directivas, não estandardizadas, não estruturadas, etnográficas, ou, na linguagem de Patton, “Informal conversational interview) (Bogdan & Biklen, 1994; Crabtree & Miller, 1992; Fontana e Fey, 1994; Hinds, 2000; Patton, 2002; Pole & Lampard, 2002; Punch, 1998; Robson, 1993; Rubin & Rubin, 1995; Tashakkori & Teddlie, 1998). No extremo estruturado deste contínuo, as entrevistas, não procurando uma abordagem profunda dos temas em questão, caracterizam-se por serem muito estruturadas e por possuírem perguntas, e respostas, previamente planeadas. Por contraste, no extremo não estruturado do contínuo, as entrevistas são abertas e as suas perguntas não são planeadas nem estruturadas previamente. Em vez disso, existem apenas perguntas gerais que ajudam no desenvolvimento da entrevista. As questões mais específicas irão emergir à medida que a entrevista decorre, estando assim dependentes da, ou das, direcções que a entrevista assume (Punch, 1998, p. 176). Para além destes extremos, existem ainda níveis intermédios de estruturação, ou de directividade, sendo esse o caso das entrevistas semi-estruturadas (Crabtree & Miller, 1992; Flick, 1998; Robson, 1993; Rubin & Rubin, 1995 103 ; Wengraf, 2001), ou focalizadas (Merton, Fiske & Kendall, 1990), nas quais, tal como o nome indica, o investigador tem objectivos claramente definidos mas procura alcançá-los através de alguma flexibilidade (Robson, 1993, p. 227), construindo, a partir dos contributos de diferentes pessoas, uma narrativa coerente que explica os “puzzling outcomes” (Rubin & Rubin, 1995, p. 196). Este formato caracteriza-se, assim, por se centrar num acontecimento, ou processo particular, mas também pelo tipo de intervenção do entrevistador, que, comparativamente estruturação, não sendo propriamente uma dimensão mas uma consequência do grau de estruturação. Daí, não a termos incluído. 101 É interessante o facto de alguns autores (Jones, 1996; King, 2004; Patton, 2002) útilizarem a etiqueta “entrevista qualitativa” quando se referem às entrevistas que, no contínuo de estruturação, se colocam mais perto do lado não estruturado (Aliás, estas entrevistas também são chamadas de intensivas, aprofundadas, não estruturadas) [Jones, 1996], distinguindo-as, assim, das mais estruturadas que, nesta lógica, poderíamos intitular de entrevistas quantitativas. A nosso ver, e como explicaremos mais à frente, as entrevistas semi-estruturadas são, também, qualitativas. 102 Na tipologia de Patton (2002) estas são as entrevistas mais estruturadas, e, muito embora, o autor só inclua neste tipo de entrevista perguntas abertas, não são por si consideradas entrevistas qualitativas. Assim, o autor faz variar o seu conceito de “estruturação” no grau em que as perguntas e a respectiva ordem são previamente planeadas, e não no tipo de resposta fornecida, que deve ser sempre aberta, uma vez que os diferentes tipos de entrevista que ele apresenta, partilham o objectivo de útilizar genuinamente perguntas abertas de forma a oferecer aos entrevistados a oportunidade de responderem nas suas próprias palavras e expressarem as suas perspectivas pessoais. 103 Estes autores também utilizam a etiqueta “Topic interviews” para classificar este tipo de entrevista.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 149 com o que acontece nas entrevistas não estruturadas, tem um papel mais activo na direcção da entrevista, procurando manter a conversa em tópicos específicos. Esta necessidade de um papel mais activo advém, não só, do facto de o investigador procurar obter respostas a um conjunto intencional de perguntas 104 , o que, de uma forma geral, implica a elaboração prévia de um protocolo, que durante a realização das entrevistas é utilizado com o objectivo de apoiar o investigador na condução da conversa, mas também, pelo facto de o próprio estudo se basear na interpretação do investigador: o investigador analisa e faz um balanço do que foi dito pelas pessoas, e depois, com base nisso, cria a sua própria narrativa. As palavras e as evidências são dos entrevistados. A interpretação é do investigador (Rubin & Rubin, 1995, p. 30). Embora em muitas situações de entrevista, uma mistura das duas abordagens, estruturada e não estruturada, seja utilizada (Hinds, 2000, p. 47; Tashakkori & Teddlie, 1998), combinação indicada, nomeadamente, no contexto dos métodos mistos (Tashakkori & Teddlie, 1998), cada um destes tipos de entrevista envolve diferentes tipos de preparação, conceptualização e instrumentação, tendo, cada uma, forças e fraquezas e servindo, assim, de alguma maneira, objectivos diferentes (Patton, 2002). Neste sentido, por exemplo, quando os investigadores querem recolher informação mais específica, usam um formato semi-estruturado, no qual o entrevistador introduz um tópico e depois guia a discussão colocando questões específicas, que, no seu conjunto, cobrem, na totalidade, a questão principal de investigação (Rubin & Rubin, 1995, p.5). É característica destas entrevistas (semi-estruturadas) que questões mais ou menos abertas sejam, assim, trazidas para a situação da entrevista, na forma de um guia de entrevista, sendo esperado que estas perguntas sejam respondidas livremente pelo entrevistado (Flick, 1998, p. 94), no sentido em que respondem como querem, fornecendo a informação que julgam ser mais apropriada (Jones, 1996, p. 145). Desta forma, o investigador ao conduzir este tipo de entrevistas, solicita o entrevistado para explorar essas questões de forma aprofundada, encorajando-o a reflectir, com detalhe, nos acontecimentos ou experiências que viveu. Neste sentido, a nosso ver, e inspirados por Patton (2002) e na sua etiqueta de “entrevistas qualitativas”, este tipo de entrevista, apesar de se centrar em tópicos determinados ou em 104 Podemos dizer que, comparativamente com o formato mais estruturado, as entrevistas semi-estruturadas são conduzidas com base numa perda de estrutura uma vez que consistem num conjunto de perguntas abertas que definem a área a ser explorada, pelo menos inicialmente, a partir das quais, entrevistador ou participante podem divergir no sentido de perseguir uma ideia ou procurar responder de forma mais detalhada. Comparativamente com as entrevistas profundas, esta perda de estrutura das entrevistas semi-estruturadas lógicamente que é relativa, uma vez que estas são as menos estruturadas, podendo ter como objectivo trabalhar um ou dois assuntos com grande detalhe, havendo apenas uma questão inicial pensada, estando as restantes dependentes do discurso do participante (Britten, 2000).
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 150 questões gerais, de acordo com os objectivos da investigação, não deixa de ser “qualitativa” pois o sujeito ainda controla o conteúdo das respostas. Neste contexto, a tarefa principal dos investigadores (entrevistadores) é, então, ajudar a construir e explorar as respostas dos participantes a essas perguntas, obtendo, desta forma, a reconstrução, por parte do participante, da sua experiência, no que diz respeito ao tópico em estudo (Seidman, 1991, p. 9), constituindo, assim, estas entrevistas, acontecimentos de comunicação orientados, concentrados, focalizados e abertos, co-criados pelos intervenientes no processo, entrevistador e entrevistado (Crabtree & Miller, 1992, p. 16). A existência de diferentes tipos de entrevista, com diferentes objectivos e respectivas vantagens e desvantagens, transforma-a num instrumento de recolha de informação flexível, podendo, assim, adaptar-se a uma grande variedade de questões de partida (Punch, 1998, p. 176). A escolha por um ou outro tipo de entrevista, deve ter em conta a estratégia, os objectivos e as questões de partida da investigação em questão (Crabtree & Miller, 1992; Fontana & Fey, 1994; Creswell, 1998; Punch, 1998), ou, como Pole e Lampard (2002, p. 129) referem, deve ter em conta factores técnicos (o tópico que está a ser investigado, o número e o tipo de pessoas que serão entrevistadas, o tipo de acesso e a localização dos entrevistados, os recursos humanos e financeiros disponíveis e teóricos) e factores teóricos (o grau em que a generalização dos resultados é desejável ou requerida, a amplitude de dados e respectiva análise, gerados por investigações anteriores, a relação das entrevistas com outros métodos de recolha de informação utilizados, a importância que é atribuída às actuais palavras ou “vozes” dos entrevistados, a importância de se compreender o tópico em questão a partir de uma perspectiva de um “insider”e, a importância de se compreender o tópico em questão a partir de uma perspectiva de um “outsider”). A nossa escolha recaiu sobe a entrevista semi-estruturada, não só pelas razões que temos vindo a salientar, não só porque é um modelo que têm vindo a atrair muito interesse, sendo, por isso, largamente utilizada, constituindo, assim, uma das bases metodológicas na investigação qualitativa (Flick, 1998, p. 76), mas, essencialmente, porque permite envolver o entrevistador [investigador] num processo duplo de “model-building”, desenvolvendo e construindo um modelo sobre alguns aspectos da realidade, e de“model-testeting”, testando um modelo já construído (Wengraf, 2001, p. 4), ou seja, permite trabalhar, no mesmo momento da investigação, de forma indutiva (construindo teoria) e dedutiva (testando teoria). A presente investigação exigia, exactamente, essa dupla forma de trabalhar, daí a entrevista semi-estruturada se ter assumido como a melhor opção para recolher a informação que nos iria possibilitar, de forma mais adequada, a descoberta das respostas às nossas questões de investigação.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 151 4.1.1. O protocolo da entrevista Vimos anteriormente, entre outros aspectos, que as entrevistas semi-estruturadas, no que diz respeito à dimensão estruturação, se caracterizam por apresentar questões que são, parcialmente, previamente preparadas (Wengraf, 2001). Nesse sentido, os investigadores, depois de terem estudado o material disponível ou conduzido entrevistas preliminares, preparam um conversational guide. Estes guias, que assumem a forma de protocolos, grelhas ou checklist, e que ajudam o entrevistador a manter-se focalizado no tópico e temas principais, não são instrumentos rígidos, que se preparam definitivamente (Rubin & Rubin, 1995, p. 161) e que se aplicam tal e qual como se apresentam, uma vez que isso, não só, poderia restringir os benefícios da abertura e da emergência de informação contextual, como, também, poderia encorajar o entrevistador a interromper os relatos dos participantes, em momentos errados, de forma a seguir o guião (Flick, 1998, p. 94). Pelo contrário, o entrevistador que utiliza um conversational guide é livre para tomar decisões acerca do como e quando colocar as perguntas, livre de as modificar, de deixar para trás aquelas que não lhe parecem apropriadas para um determinado entrevistado ou que já foram respondidas en passant, livre de adicionar outras, livre de decidir quando e como aprofundar mais, solicitando mais detalhes ou quando voltar ao conversational guide, entre outros aspectos, baseando-se, essencialmente, naquilo que aprende durante a realização da entrevista (Flick, 1998; Jones, 1996; Patton, 2002; Robson, 1993; Rubin & Rubin, 1995). Todavia, o guia está lá, essencialmente, para lembrar o investigador que aqueles tópicos listados são para abordar em alguma altura da entrevista (King, 2004; Jones, 1996). Os guias especificam, assim, as classes de informação necessárias. Podem ser tão simples como um memorando, que recorda os tópicos e sub-tópicos que o entrevistado deve abordar durante a entrevista, espontaneamente ou com algum tipo de exploração, ou podem ser tão específicos como uma lista de perguntas (Jones, 1996, p. 141), diferindo, assim, ao nível de detalhe e estruturação (King, 2004; Patton, 2002), sendo o protocolo o mais elaborado, com todas as questões principais escritas por extenso (Rubin & Rubin, 1995, p. 161). Neste sentido, o guia assegura, não só, que o investigador, cuidadosamente, decidiu a melhor maneira de utilizar o tempo disponível, sempre limitado, na situação de entrevista, como, também, ajuda a entrevistar um determinado número de pessoas diferentes de forma mais sistemática e compreensiva, delimitando, previamente, os assuntos a serem explorados, constituindo, aliás, uma das vantagens da sua utilização o facto de o seu uso consistente aumentar a comparabilidade dos dados recolhidos (Flick, 1998; Patton, 2002), uma vez que assegura que as mesmas linhas básicas da investigação são exploradas com cada pessoa
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 152 entrevistada (Patton, 2002), mantendo-se a interacção que, apesar de focalizada, permite que as perspectivas e experiências individuais emirjam (Patton, 2002). Esta estruturação prévia dos instrumentos acarreta também alguns riscos: cega o investigador no terreno (fenómenos que não se encontrem traduzidos no instrumento poderão passar despercebidos ou serem mal representados) e anseia pela universalidade, uniformidade e comparabilidade, aspectos que não constituem preocupações da investigação qualitativa (Miles & Huberman, 1994, p. 35). Por outro lado, as vantagens de se optar pela utilização de um formato mais aberto, como por exemplo, a flexibilidade, a oportunidade de explorar mais profundamente para clarificar ou testar os limites do conhecimento dos participantes, o encorajamento da cooperação e as respostas inesperadas que podem sugerir novas hipóteses ou questões de investigação (Cohen & Manion, 1989, citados por Robson, 1993, p. 233) compensam, largamente, as desvantagens, nomeadamente, a possível perda de controlo da entrevista por parte do entrevistador e o facto de a informação que delas resulta ser, depois, mais difícil de analisar, comparando com os formatos mais fechados (Robson, 1993, p. 234). Todavia, muitas entrevistas qualitativas contêm uma parte mais estruturada e uma menos estruturada, numa mistura ou combinação das duas abordagens (Hinds, 2000; Patton, 2002; Pole & Lampard, 2002; Rubin & Rubin, 1995), podendo, assim, coexistir os dois aspectos, confirmatórios, que pedem uma maior estruturação, e exploratórios, que não requerem estruturação prévia dos instrumentos (Miles & Huberman, 1994). Evidentemente que esta maior, ou menor, estruturação é gerida pelo tipo de pergunta que se utiliza, sendo possível encontrar na literatura tipologias que classificam os diferentes tipos de perguntas que podem ser integrados numa entrevista (Patton, 2002; Robson, 1993; Spradley, 1979), e que, certamente, irão dar origem a diferentes tipos de dados (Pole & Lampard, 2002). Destacamos a de Spradley (1979) que divide as perguntas a utilizar numa entrevista em perguntas descritivas (que requerem respostas descritivas), perguntas estruturais (que convidam os entrevistados a explicar como as coisas acontecem) e, questões de contraste (que encorajam a introspecção e a discussão de significados). Claramente, a mistura destes diferentes tipos de perguntas irá variar em função do grau de estruturação pretendido para a entrevista, sendo que, nas entrevistas semi-estruturadas, uma grande combinação dos três tipos de perguntas é utilizada (Pole & Lampard, 2002). Independentemente do grau de estruturação das perguntas, Rubin e Rubin (1995, p. 159) utilizam a metáfora da árvore (“tree-and-branche model”) para retratar a estrutura de uma entrevista, onde o tronco é o núcleo central e os ramos são as questões principais. Assim, o investigador planeia as questões de forma a explorar cada ramo da árvore, com
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 153 mais ou menos, o mesmo grau de profundidade, sendo que, estruturar a entrevista é, assim, ligar as questões principais umas às outras. Pegando nesta metáfora, podemos referir que, para a construção da nossa árvore, baseados nos nossos objectivos, questões de partida e no nosso conhecimento e experiência pessoal na área, definimos, primeiro, um conjunto de ramos (nível conceptual) a explorar tendo, depois, elaborado as questões principais de forma a, fazendo sentido para os entrevistados, explorar cada ramo (nível empírico). Na terminologia de Wengraf (2001), traduzimos as Questões Teóricas (TQ: theoretical questions), que se encontram definidas na nossa linguagem teórica, para uma ou mais questões instrumentalizadas, as Questões do Informante (IQ: informant question), definidas na linguagem natural dos entrevistados. O resultado está no Quadro 2, onde apresentamos esta relação entre os níveis conceptual e empírico. Quadro 2 Relação entre nível conceptual e empírico Nível Conceptual Nível Empírico Pergunta(P) da entrevista (Anexo A) Pertença percebida Hierarquia de pertença Agrupamento de cartões (justificação) Identificação do “Nós” e “Os outros” P1. Tenho aqui um conjunto de cartões. Cada cartão representa um grupo de pessoas. Queria que os visse e que indicasse a que grupo sente que pertence em primeiro lugar. E em segundo lugar? (até referir não pertencer a mais nenhum) P2. Pedia-lhe agora que indicasse as diversas formas ou maneiras possíveis de agrupar estes cartões. P3. Porque é que escolheu essa forma? P4. Vê outras formas possíveis de agrupar os cartões? (até esgotar as formas que o participante identifica). P5. “Quando está numa equipa cirúrgica e quando pensa ou fala em “Nós”, quem inclui nesse seu “Nós”? E quando se refere “aos outros”, ou pensa em outros, quem inclui? Quem são “os outros” na equipa cirúrgica?” Percepção de Interdependência (tarefa, objectivos e resultados) Descrição do trabalho dos membros da EqC Descrição das formas de alcance (FI) e dos obstáculos (FR) aos objectivos definidos (ao nível da equipa) Identificação dos obstáculos (forças restritivas) ao alcance dos resultados desejados/procurados (ao nível da equipa) P6. “Como descreve o trabalho, aqui no BO de uma/um instrumentista/circulante/cirurgião/aneste sista?” P10. Como se atingem esses objectivos? P11. O que pode constituir obstáculo ao alcance desses objectivos? P15. O que dificulta a obtenção desse resultado
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 256 O trabalho em equipa, constituindo exemplo disso as seguintes ua: Colaborando uns com os outros, o mais possível. [Entrevista 11EBO: 59-59] Havendo uma grande coesão [Entrevista 3A: 48-48] O doente, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Depois, quanto mais bem estudado vai o doente para o bloco operatório, quanto mais se discutiu a situação patológica do doente e quando se vai para o bloco operatório com uma terapêutica cirúrgica pré-estabelecida, eh, normalmente isso resulta num tratamento mais adequado, porque resulta habitualmente numa redução do tempo da intervenção. O tempo não é fundamental mas se a mesma intervenção cirúrgica se fizer em menor tempo cirúrgico isso é benéfico para o doente [Entrevista 23MC: 56-56] A preparação teórico-prática, constituindo exemplo disso as seguintes ua: Tem que haver um bom conhecimento técnico [Entrevista 10C: 51-51]; […] estudando, trabalhando, vendo outros a fazer, aprendendo […] [Entrevista 10C: 53-53]; A organização do BO, constituindo exemplo disso as seguintes ua: Os objectivos, eh, estes objectivos conseguem-se dentro da equipa, de preferência fazendo com que a equipe trabalhe com… trabalhe num conjunto que se repete frequentemente, ou seja, seja uma equipa que habitualmente se prepara com frequência para aquela prática cirúrgica, ou seja, um cirurgião idealmente deveria ter a sua equipa cirúrgica, que incluía todas as pessoas que estão na sala de operações, porque isso faz com que o treino repetido de uma equipa que não se altera é habitualmente, resulta habitualmente em tarefas que são mais rápidas, mais eficientes, de pessoas que se conhecem, que precisam pouco de comunicar para se entenderem, no que respeita aos pedidos que estão subjacentes às suas necessidades [Entrevista 23MC: 55-55] Haver incentivos. [Entrevista 8EA: 73-73]
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 257 Eu acho que essa coisa das equipas, de nós sermos separados por preferências, eu acho isso importante [Entrevista 23MC: 55-55] c) os entrevistados, como podemos observar na Figura 28, percepcionaram como FI ao alcance dos objectivos, a nível da EqC, na dimensão SA, aspectos relacionados com: O bom relacionamento, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Fundamental, acho que é importantíssimo, o bom relacionamento e interligação, facilita tudo, desde a optimização do tempo, optimização da actuação ou da finalidade para que nós estamos ali, portanto, o tratamento do doente. O relacionamento é extremamente importante para que esta pirâmide funcione, convergindo para, digamos, o objectivo que é tratar o doente [Entrevista 17A: 521-21] O gostar do que se faz/envolvimento, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Quanto mais envolvimento houver melhor as pessoas colaboram […] [Entrevista 20MC: 27-27] No que diz respeito à percepção de interdependência de resultados, nas dimensões Tarefa e SA, solicitámos aos entrevistados que identificassem os factores que proporcionam o alcance dos resultados desejados/procurados ao nível do desempenho da equipa (Forças Impulsoras à eficácia da equipa cirúrgica), assim como os factores que constituem obstáculos ao alcance desses resultados (Forças Restritivas à eficácia da equipa cirúrgica) perguntandolhes (respectivamente) por um lado, como se pode obter esse resultado e, por outro, o que dificulta a obtenção desse resultado, na expectativa de tal como para com a percepção da interdependência dos objectivos, perceber se a obtenção desse resultado era percepcionada como função do contributo de todos os elementos da EqC e, por isso, dependente de outros que não apenas o próprio. A Figura 29 resume o que nos revelaram os discursos dos entrevistados no que diz respeito a esta questão.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 258 Figura 29 Diferentes aspectos onde se centraram as FI/FR à eficácia da EqC nas dimensões tarefa e SA, na percepção dos entrevistados Relativamente à percepção das Forças Impulsoras (neste caso, e embora se tenham verificado grandes semelhanças entre as FI e FR, como emergiram algumas diferenças qualitativas, apresentamos os dois conjuntos de factores separadamente) à eficácia da equipa cirúrgica na dimensão Tarefa, como podemos observar na Figura 29, a análise dos discursos fez emergir aspectos relacionados com: O desempenho individual/Equipa, constituindo exemplo disso as seguintes ua: […] nós podemos fazer a melhor técnica cirúrgica, eles podem fazer a melhor técnica anestésica, cada um tem que cumprir as suas funções correctamente. [Entrevista 20C: 65-65] Um trabalho de equipa eficaz [Entrevista 7EA: 74-74] O papel das hierarquias, constituindo exemplo disso a seguinte ua: […] dar possibilidade às equipas de irem ver outro grupo de trabalho, com outro tipo de experiência, com outro tipo de…até de formação, eh e conseguir que haja tempo , que seja fornecido às equipas , dentro do seu horário de trabalho, tempo cara ter oportunidades para melhorarem a sua formação. Tarefa Papel das hierarquias Forças restritivas Estrutura/organização do BO Condições físicas Recursos materiais Tarefa Tarefa Sócio Afectivo Sócio Afectivo Relacionamento Espírito Equipa Motivação/Envolvimento Desempenho Individual/Equipa SA Desempenho Individual/Equipa Papel das hierarquias Recursos materiais Condições físicas Estrutura/organização do BO Aparecimento de complicações Doente Forças impulsoras Espírito Equipa Desmotivação/Desinteresse Nervosismo/Stresse Conflitos Personalidades EqC enquanto grupo
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 259 [Entrevista 23MC: 73-73] Os recursos materiais, constituindo exemplo disso as seguintes ua: Desde que haja o material necessário. [Entrevista 21MC: 61-61] O próprio material também, é importante que seja um material de fácil utilização, sem grandes aparatos. [Entrevista 2EBO: 93-93] As condições físicas, constituindo exemplo disso a seguinte ua: As condições físicas do espaço, leia-se a presença de ar condicionado, desumidificadores, são aspectos fundamentais ao desempenho destas equipas. [Entrevista 23MC: 82-82] A estrutura e a organização do bloco, constituindo exemplo disso as seguintes ua: [..] que nós tenhamos acesso rápido a resolver as situações. [Entrevista 2EBO: 85-85] Ter equipes que se pudessem reproduzir, eh, semanalmente ou diariamente […] [Entrevista 23MC: 72-72] A análise dos discursos relacionados com a questão da percepção das Forças Impulsoras à eficácia da equipa cirúrgica, na dimensão Sócio Afectiva (Figura 29), fez emergir aspectos relacionados com: A motivação/Envolvimento, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Agora, eu acho que para se atingir esse resultado é necessário haver muito envolvimento pessoal de cada um. [Entrevista 8EA: 87-87] O trabalho em Equipa, constituindo exemplo disso a seguinte ua: […] uma equipa muito coesa. [Entrevista 2EBO: 91-91] O relacionamento, constituindo exemplo disso a seguinte ua:
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 260 Devia-se ter equipes que tivessem relações empáticas eh, as melhores entre si. [Entrevista 23MC: 77-77] A análise dos discursos relacionados com a questão das Forças Restritivas à eficácia da equipa cirúrgica, na dimensão Tarefa (Figura 29), fez emergir aspectos relacionados com: O desempenho individual e da equipa, constituindo exemplo disso as seguintes ua: A falha de alguém. [Entrevista 3A: 65-65] Ter pessoas que não estão dentro daquilo que se vai fazer. [Entrevista 11EBO: 72-72] O estado do doente, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Depende também um bocado do doente, do estado do doente, não é […] o doente em si, a situação, o diagnóstico dele, isso pode à partida logo influênciar o resultado. [Entrevista 9EA: 73-73] O papel das hierarquias, constituindo exemplo disso a seguinte ua: depois a autoridade, a autoridade da chefe em relação a alguns assuntos, eu acho isso, muitas vezes alguns elementos não reconhecem a autoridade das chefes e elas também não fazem muito para se afirmarem em determinadas situações […] [Entrevista 6EBO: 102-102] Os recursos materiais, constituindo exemplo disso a seguinte ua: […] e factores materiais, se nós precisamos de um certo material e não temos para aquele doente isso vai prejudicar. [Entrevista 1EBO: 68-68] As condições físicas do serviço, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Más condições climatéricas dentro da sala, temperaturas altas ou humidade. [Entrevista 3A: 73-73] A estrutura e organização do BO, constituindo exemplo disso a seguinte ua:
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 261 Acho, olhe, acho que o facto de não serem sempre os mesmos enfermeiros para as mesmas áreas, é muito mau […]. [Entrevista 20MC: 67-67] O aparecimento de complicações, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Uma máquina falhar, uma hemorragia que aparece e que não sabemos de onde sangra e temos que perder muito tempo a ver onde está a sangrar, uma contaminação, muitas vezes uma ferida que abre e não percebemos onde abriu… [Entrevista 10MC: 72-73] Por outro lado, identificaram-se como Forças Restritivas à eficácia Sócio Afectiva da equipa cirúrgica, na percepção dos entrevistados, aspectos relacionados com A desmotivação/Desinteresse, constituindo exemplo disso a seguinte ua: Para mim o desinteresse é o principal obstáculo, o desinteresse das pessoas, a desmotivação, é terrível, é o pior […] [Entrevista 10MC: 78-79] O trabalho em Equipa, constituindo exemplo disso a seguinte ua: A falta de coesão da equipa [Entrevista 2EBO: 90-90] O nervosismo/Stress, constituindo exemplo disso a seguinte ua: O nervosismo de algumas pessoas quando é situações de maior stress. [Entrevista 11EBO: 73-73] A emergência de conflitos, constituindo exemplo disso a seguinte ua: As pessoas de certa forma terem conflitos na sala, as pessoas não se entenderem, não é, isso cria um certo stress na equipa e pode, penso eu, não é, pode dificultar o decorrer da cirurgia. [Entrevista 9EA: 75-75] As características da personalidade/disposição da pessoa, constituindo exemplo disso as seguintes ua:
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 262 e a disposição da pessoa… nós nem todos os dias estamos bem dispostos e algumas pessoas se calhar não gerem isso muito bem quando estão no emprego e às vezes pode-se reflectir no relacionamento e pode piorar o desempenho da equipa. [Entrevista 1EBO: 70-70] O feitio de algumas pessoas [Entrevista 11EBO: 78-78] 3.1.1 Síntese reflexiva da informação recolhida Tendo em conta o que as análises revelaram, que reflexões nos suscitam e que aspectos salientamos? Em primeiro lugar, e relativamente à caracterização da tarefa da EqC no que diz respeito à interdependência, as informações obtidas pelas diferentes fontes, não só comprovaram a sua existência como também nos permitiram enquadrá-la, especificamente, no tipo de tarefa híbrida da Wageman (1995) não nos parecendo possível que se enquadre melhor em qualquer um dos tipos de interdependência de Thompson (1967/2004)), mesmo no seu conceito de interdependência recíproca, adaptado por Saavedra et al. (1993) onde, inclusivé, os autores incluem a tarefa da equipa cirúrgica. Assim, por um lado, não sendo sempre “recíproca”, a tarefa das equipas cirúrgicas é “híbrida”, uma vez que, até estar terminada, esta requer o desenvolvimento, por parte dos membros da equipa, quer de acções individuais (que, como vimos, predominam nas actividades de todas as categorias profissionais) quer de acções interdependentes, exigindo diferentes graus de interdependência em diferentes momentos da sua realização (como o referiram Van der Vegt et al., 2001, a título de exemplo) 207 . Por outro lado, e embora se tenha verificado, na realidade, uma maior proporção de acções individuais, isto não implica um baixo grau de interdependência uma vez que não só a proporção de acções interdependentes não deixa de ser significativa, muito embora não seja suficiente para implicar um alto grau de interdependência, mas, também, esta combinação de acções individuais com acções 207 Esta possibilidade da existência de, numa mesma tarefa, diferentes tipos de interdependência, não foi por Thompson (1967/2004) referida ou considerada possível: na sua tipologia, o primeiro tipo (“pooled) refere-se a tarefas desenvolvidas de forma independente (o que nem sempre é verdade nas equipas cirúrgicas: apesar de se verificar a ocorrência de acções totalmente independentes, se assim se pode dizer, vivem-se grandes momentos de interdependência); o segundo tipo de interdependência (sequencial) também não se verifica, uma vez que durante a realização da sua tarefa os elementos de uma equipa cirúrgica não intervêm de forma unidirecional, uma vez que qualquer um deles pode intervir no período pré-operatório, voltar a intervir novamente no intraoperatório com o “input” inicial alterado e, voltar ou não a intervir no pós-operatório, já com um outro “output”. Finalmente, o terceiro nível de interdependência de Thompsom também não parece enquadrar as equipas cirúrgicas uma vez que prevê que a tarefa seja realizada, sempre, de forma muito interdependente, o que não acontece com estas equipas.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 263 interdependentes, no nosso entender, implica uma tarefa moderadamente interdependente ou híbrida. Outro aspecto que nos parece importante é o alvo das acções interdependentes, ou seja, entre quem se estabelecem essas acções. Como vimos, elas desenvolvem-se entre anestesista e cirurgião, instrumentista e cirurgião, enfermeiro de anestesia e anestesista, enfermeiro circulante e todos os outros. Apenas o trabalho do cirurgião foi descrito com recurso exclusivo a acções individuais, sendo o único elemento da equipa com quem todos estabelecem acções interdependentes (à excepção do enfermeiro de anestesia) e aquele que não estabelece acções interdependentes com ninguém. Esta particularidade poder-nos-ia remeter para a situação de “dependência social”(Johnson & Johnson, 1998) do MC uma vez que os seus resultados são afectados pelas acções dos outros, mas não vice-versa. Por outro lado, é possível também encarar esta particularidade, num contexto de interdependência sequencial de Thompson (1967/2004), que ele descreve como uma dependência directa, assimétrica e unidireccional, entre unidades. Outra questão relevante é o facto de os comportamentos de apoio/suporte terem sido tão pouco usados nas descrições do trabalho de todos os membros da equipa. Se os elementos da equipa cirúrgica, percepcionam a sua tarefa e o alcance dos objectivos como interdependentes, reunindo, assim, as condições para o desenvolvimento do que a Teoria da Interdependência Social de Johnson e Johnson (1998) denomina de interdependência positiva ou cooperativa, porquê que os comportamentos de apoio são tão reduzidos 208 , sendo tão necessários à (desejada?) maximização do desempenho dos membros do grupo? Terá a ver com a força das categorias sociais que acentuam as diferenças entre os elementos da equipa, fazendo os seus membros resistir à colaboração e tendendo à competição? Terá a ver com as crenças associados à realização das tarefas? No que diz respeito à percepção de interdependência SA, verificou-se que, embora o grau de interacção que a realização da tarefa da EqC exige seja variável e mais notada dentro de cada área (anestésica e cirúrgica), há uma preocupação com a qualidade da interacção entre os elementos da EqC, assim como evidências da importância dessa interacção para a satisfação das necessidades afectivas dos elementos da EqC. Os efeitos da interacção referida, na forma como os elementos da EqC se relacionam, foram percepcionados (quando inseridos num contexto de um relacionamento menos bom) como negativos. Quanto à percepção de interdependência de objectivos e de resultados, os entrevistados percepcionaram o seu alcance a nível da EqC, nas dimensões tarefa e SA, como 208 De acordo com Deutsch (1973, 1980) quanto mais interdependente uma tarefa é percepcionada pelos membros de um grupo, mais cooperativa será a sua interacção.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 264 interdependentes, na medida em que percepcionam esse alcance como função da presença de uma multiplicidade de factores que dependem do contributo de todos, colocando em todos e em cada um, a responsabilidade de se prepararem, a nível teórico e prático, de colaborarem, de comunicarem de forma eficaz e de zelarem por um bom relacionamento entre todos, de forma a melhorarem o desempenho individual e, por conseguinte (num conceito de interdependência aditiva), o desempenho da equipa, de forma a alcaçarem os objectivos da EqC. Por outras palavras, na percepção dos entrevistados o alcance dos objectivos e dos resultados esperados a nível individual facilita o alcance dos da EqC. Esta percepção de interdependência, aos dois níveis, ultrapassa, como vimos, as fronteiras da EqC na medida em que os entrevistados percepcionam o alcance dos objectivos e dos resultados da EqC como função de factores externos à própria equipa, como por exemplo, o doente ou as estratégias de gestão e organização do próprio BO. No que respeita à percepção de interdependência de resultados, importa ainda analisar duas questões que Wageman (1995) aponta como fundamentais na análise deste tipo de interdependência: por um lado, o feedback que o indivíduo recebe relativo ao alcance dos objectivos do grupo e, por outro, o grau em que é recompensado por isso. Considerando a “satisfação individual” como uma recompensa pelo alcance de um resultado significativo, quer ao nível da tarefa, quer ao nível sócio afectivo, podemos dizer que o resultado das equipas cirúrgicas se trata de um resultado interdependente, na medida em que, a satisfação que o indivíduo recebe pelo alcance de um qualquer resultado significativo, depende em parte da sua performance/satisfação e em parte, da performance/satisfação do grupo. Os resultados do presente estudo, reflectem este aspecto, na medida em que os entrevistados referiram que só alcançam um bom resultado quando a sua performance e a do grupo é satisfatória, ou seja, se alguém der o seu melhor no desempenho (resultado significativo dependente da performance do próprio) mas, se outro, ou outros elementos da equipa cirúrgica não o fizerem e consequentemente apresentarem falhas (resultado significativo que não depende da performance do próprio mas de terceiros) o resultado final não é considerado como bom. Tratar-se-á novamente de um nível híbrido de interdependência? 3.2. Alvo, comum, mobilizador? O segundo aspecto a explorar na resposta à 2ª Questão de Investigação, seria a presença, ou não, na tarefa da EqC, de uma outra FI ou condição de base à emergência de um grupo, o alvo mobilizador comum. Nesse sentido, procurámos caracterizar a tarefa das equipas cirúrgicas no que diz respeito aos objectivos a alcançar, explorando as percepções
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 265 dos entrevistados relacionadas com os objectivos a atingir, aos níveis individual e da equipa, para perceber, por um lado, se os objectivos se estruturariam em torno dos sub-sistemas tarefa e SA, apoiando, assim, o modelo de referência e, por outro lado, se os diferentes elementos da EqC percepcionam a existência de um alvo comum, no contexto da tarefa da EqC, e se esse alvo comum é o mobilizador das suas acções, tendo para isso considerado as unidades de análise codificadas nas subcategorias Tarefa (1 1 1 1) e SA (1 1 1 2), incluídas na subcategoria Alvo mobilizador (no contexto dos dados de conteúdo relacionados com a Equipa Cirúrgica) e as unidades de análise codificadas nas subcategorias Tarefa (1 2 1 1) e SA (1 2 1 2), incluídas na subcategoria Alvo mobilizador (no contexto dos dados de conteúdo relacionados com o Indivíduo). No que respeita aos objectivos a alcançar, nas perspectivas individual e da equipa, e como podemos observar na Figura 30, a análise dos discursos: a) Fez emergir os dois sub-sistemas fundadores de um grupo (segundo o modelo em análise), ou seja, emergiram objectivos relacionados com o sub-sistema tarefa e, também, embora em menor escala, objectivos relacionados com o sub-sistema sócio afectivo; b) Demonstrou uma sobreposição nas percepções dos objectivos individuais versus objectivos da equipa cirúrgica, nomeadamente, no que diz respeito aos três tipos de objectivos referidos com maior frequência (objectivos relacionados com o doente, objectivos relacionados com o desempenho individual/equipa e objectivos relacionados com a ausência de complicações), o que nos remete para a existência de alvos comuns, e daí, potêncialmente mobilizadores.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 272 realizadas mostraram que os elementos da equipa cirúrgica percepcionam a sua tarefa, o alcance dos objectivos e o alcance de um bom resultado, ao nível da equipa, como o que classificamos de moderadamente interdependente, numa interdependência de tipo aditiva, isto é, a equipa alcança os objectivos e os resultados desejados quando cada elemento, por si, também os alcança. Talvez a baixa ocorrência de comportamentos de apoio, tão necessários à (desejada?) maximização do desempenho dos membros do grupo, se relacione, por um lado, com a força das categorias sociais que acentuam as diferenças entre os elementos da equipa, fazendo os seus membros resistir à colaboração e tendendo à competição e por outro, com o facto de estarmos na presença de uma tarefa híbrida, em termos de interdependência, fazendo com que os elementos da EqC se centrem muito nos desempenhos individuais. Finalmente, vimos aquando da revisão da literatura (cf. Capítulo I), que entre vários factores com implicações na questão dos objectivos, a obtenção de feedback relativamente ao alcance dos objectivos, aos níveis individual e grupal, era um dos que podia fazer a diferença no que diz respeito ao aumento da eficácia do desempenho. No nosso entender, a questão do feedback pode também fazer a diferença no que diz respeito à capacidade mobilizadora de um alvo comum. Nesse sentido, e pensando na melhora do doente como um objectivo comum no contexto da EqC (ao nível individual e da equipa) importa referir que só o cirurgião tem informação sobre a “real” melhora do doente (a melhora do doente no BO é apenas um feedback a curto prazo) uma vez que a partir do momento em que o doente sai do BO mais ninguém o acompanha até à alta, a não ser este profissional (que acaba por ter feedback individual relativo a um objectivo/resultado de grupo). Contudo, sabemos (pela informação recolhida) que toda a gente deseja a melhora do doente, tem a percepção de que contribui para o alcance desse objectivo, mas só vai tendo feedback relativo à sua eventual melhora até ao momento em que o doente sai do BO (e muitas vezes nem isso) o que parece ser suficiente (talvez porque é percepcionado mais como um feedback individual do que de grupo). Neste sentido, a passagem do doente pelo BO, que é apenas uma parte do percurso até à sua melhora (que todos referem constituir o seu objectivo e o da equipa) poderá, para uns, constituir um objectivo terminal (para todo o tipo de enfermeiros e anestesistas) e para outros (cirurgiões) um objectivo intermédio, cujo alcance lhes permite subir na sua hierarquia de objectivos. Tal como referem Ducanis e Golin (1979), tudo indica que os elementos das equipas cirúrgicas (à excepção dos cirurgiões) estabelecem objectivos a curto prazo estando por isso dependentes do alcance desses objectivos (muito relacionados com as tarefas de cada um) para receberem feedback, o que segundo Saavedra et al. (1993) se enquadra no tipo de feedback individual.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 273 4. QUAL É O IMPACTO DAS CATEGORIAS SOCIAIS, DA PERCEPÇÃO DE EFICÁCIA E DAS CRENÇAS RELACIONADAS COM O TRABALHO EM EQUIPA NA SOBREVIVÊNCIA E DESENVOLVIMENTO DA EQUIPA CIRÚRGICA ENQUANTO GRUPO? Tendo caracterizado a tarefa das equipas cirúrgicas, no que diz respeito à interdependência e aos objectivos, podemos concluir que as condições de base, ou FI à emergência da EqC enquanto grupo, ou seja, a existência de, pelo menos, um alvo comum, a percepção de interdependência e a interacção directa, estão presentes na tarefa do colectivo EqC, pelo que este colectivo se adequa ao sistema social grupo, tal como o definem Miguez e Lourenço (2001). Contudo, apesar de estarem presentes as condições de base e tendo em conta o pressuposto de que como forças impulsoras estas precisam de possuir maior potência do que as possíveis forças restritivas em campo, para que o grupo sobreviva e se desenvolva, como se caracteriza a dinâmica do campo de forças do espaço de vida da EqC, nomeadamente qual o impacto das categorias sociais (atributo categoria profissional), da percepção de eficácia e das crenças relacionadas com o trabalho em equipa, no colectivo em que se inserem? (3ª Questão de Investigação) 4.1. O “Nós” e “Os outros” no colectivo equipa cirúrgica O impacto das categorias sociais (atributo categoria profissional dos membros da Equipa Cirúrgica), na sobrevivência e desenvolvimento da equipa cirúrgica enquanto grupo, constituiu uma questão de investigação que, como referimos anteriormente, procurámos responder através da exploração das pertenças percebidas, que se esperavam reflectidas nas escolhas que os entrevistados faziam das categorias profissionais de pertença (representadas nos cartões que lhes eram apresentados e, de entre os quais, seleccionavam aqueles a que sentiam pertença), dos colectivos identificados (agrupamentos que formavam com os cartões), do “Nós” e “Os outros”, tendo para isso considerado as unidades de análise codificadas nas subcategorias da subcategoria Colectivos identificados (1 2 2), pelas subcategorias da subcategoria “Nós” (1 2 4) e pelas subcategorias da subcategoria “Os outros” (1 2 5), assim como os resultados relacionados com as escolhas das categorias profissionais de pertença, que constituíram, como referimos anteriormente, variáveis analisadas através do SPSS.
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 274 No que diz respeito às escolhas das categorias profissionais de pertença, os discursos dos entrevistados revelaram que, enquanto que a maioria dos enfermeiros referiu pertencer, em primeiro lugar, ao grupo dos “enfermeiros”, assim como os anestesistas indicaram como primeira pertença o grupo dos “médicos”, os cirurgiões referiram que a sua primeira pertença era ao grupo dos “médicos cirurgiões” (cf. Quadro 9) Quadro 9 Primeira pertença referida por categoria profissional Categoria profissional dos entrevistados 1ª Pertença referida EBO EA MC MA Enfermeiros Médicos EA MC MA 5 4 1 5 4 1 Total 5 5 5 5 Relativamente à segunda pertença, ela parece coincidir com a respectiva área de intervenção específica, à excepção dos MC que tendo-se primeiramente identificado com a área de intervenção específica (MC) escolheram, como segunda pertença, o grupo dos médicos (Quadro 10). Quadro 10 Segunda pertença referida por categoria profissional Categoria profissional dos entrevistados 2ª Pertença referida EBO EA MC MA Enfermeiros Médicos EA EBO MC MA EqC 5 1 3 1 5 1 4 Total 5 5 5 5
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 275 Quanto aos colectivos identificados (agrupamentos que os entrevistados faziam utilizando os cartões fornecidos) verificámos que, por um lado, e como se ilustra na Figura 35, três foram os tipos de agrupamento de cartões realizados por todos os grupos profissionais e pela maioria dos entrevistados, nas suas três primeiras combinações 210 . Um primeiro tipo de agrupamento, onde os entrevistados faziam dois grandes conjuntos com os cartões, um com todo o tipo de enfermeiros e outro com todo o tipo de médicos. Um segundo tipo de agrupamento, onde os entrevistados faziam um único conjunto com todos os cartões. Um terceiro tipo de agrupamento, onde os entrevistados faziam novamente dois grandes conjuntos com os cartões, um com todos os cartões relativos à área anestésica e outro com todos os cartões relativos à área cirúrgica” 211 . Figura 35 Tipos de agrupamentos identificados pelos entrevistados nas suas três primeiras escolhas Por outro lado, verificou-se, também, que o primeiro tipo de agrupamento (aquele que contém dois grandes conjuntos, um com todo o tipo de enfermeiros e outro com todo o tipo de médicos) aparece como primeira combinação em todos os grupos profissionais (Quadro 11), à excepção dos anestesistas, sendo, inclusivé, o tipo de agrupamento mais identificado como primeira combinação. 210 A partir da quarta escolha (e apenas cinco entrevistados a realizaram) a combinação dos cartões foi tão diversificada (cinco propostas diferentes) que resolvemos considerar, para análise, apenas as três primeiras escolhas de todos os entrevistados. 211 Relembramos que a área anestésica inclui o anestesista e o enfermeiro de anestesia e a área cirúrgica inclui o cirurgião, enfermeira instrumentista e enfermeira circulante. EA EI + EC MC Médicos Enfermeiros MA Tipo 1 Tipo 3 Tipo 2 Equipa Cirúrgica
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 276 Quadro 11 Os três primeiros tipos de agrupamentos realizados por grupo profissional 1ª Combinação 2ª Combinação 3ª Combinação EBO (Instrumentistas/circulantes) 2 1 1 2 1 3 3 2 3 3 4 - 3 1 - EA 1 1 2 1 1 3 3 4 3 3 4 2 3 - - MC 1 1 1 2 1 3 4 3 3 - 3 - 3 - MA 3 2 3 2 3 1 1 - 3 1 2 4 - Nota. 1= tipo de agrupamento formado por dois conjuntos: um com todo o tipo de enfermeiros e outro com todo o tipo de médicos; 2= tipo de agrupamento formado por todos os cartões juntos; 3= tipo de agrupamento formado por dois conjuntos, um relativo à área anestésica e outro relativo à área cirúrgica; 4= outro tipo de agrupamento. No que diz respeito á identificação do “Nós”, nas duas primeiras escolhas, e cruzando-a com o “grupo profissional” (através da realização de uma matriz de intersecção) verificou-se que: a) O primeiro “Nós” dos enfermeiros coincide com a respectiva categoria profissional (enfermeiros), o que vai ao encontro da sua escolha inicial relativa à categoria profissional de pertença, que foi Enfermeiros; b) O primeiro “Nós” dos cirurgiões e anestesistas não coincide com a respectiva categoria profissional (médicos): o primeiro “Nós” dos cirurgiões é “cirurgiões” (que também coincide com a sua escolha inicial relativa à categoria profissional de pertença) e o primeiro “Nós” dos anestesistas é a “equipa cirúrgica” ou a “área anestésica (o que não
Dissertação de Doutoramento Anabela Rodrigues A definição do conceito de grupo e suas implicações no funcionamento do sistema. O caso das equipas cirúrgicas 277 coincide com a sua escolha inicial relativa à categoria profissional de pertença que foi Médicos); c) O segundo “Nós” dos enfermeiros coincide com a área de intervenção respectiva (cirúrgica ou anestésica); d) O segundo “Nós” dos anestesistas e cirurgiões coincide com a respectiva categoria profissional (médicos); Analisando a informação obtida no que diz respeito aos tipos de agrupamento realizados com os cartões e à identificação do “Nós”, podemos concluir que vai ao encontro da informação obtida através da identificação das categorias profissionais de pertença, voltando a constituir excepção, os anestesistas, cuja segunda categoria profissional de pertença constitui os “Médicos Anestesistas”. Relativamente à identificação de “Os outros” (que se mostrou mais complicada do que a identificação do “Nós”) nas duas primeiras escolhas (só um EA é que realizou uma terceira escolha), e cruzando-a com o “grupo profissional” (através da realização de uma matriz de intersecção) verificou-se que: a) O primeiro “Os outros” dos enfermeiros (note-se que os EBO só realizaram esta primeira escolha) foi os médicos e os AAM. Houve ainda um EA que referiu os EBO como o seu primeiro “Os outros” e dois EBO que referiram os EA como o seu primeiro “Os outros”; b) O primeiro “Os outros” dos MC (que também só realizaram esta primeira escolha) foi tão diversificado que correspondeu a quatro “Os outros” para cinco MC: AAM, os das outras salas, a EI, o MA e, para dois MC, a área anestésica (MA e EA); c) O primeiro “Os outros” dos MA, foi também diversificado: os das outras salas, os maqueiros, os MC e os médicos e enfermeiros de fora do BO. Apenas dois MA realizaram a segunda escolha, tendo a este nível incluído a família dos doentes e outras equipas de fora do hospital 4.1.1 Síntese reflexiva da informação recolhida Analisando o que os discursos relativos a esta questão revelaram, que reflexões nos suscitam e que aspectos salientamos? Por um lado, o facto das categorias profissionais e respectivas sub-categorias 212 constituírem um colectivo com significado psicológico, uma vez que os entrevistados se 212 A categoria profissional “médicos”, neste caso, divide-se nas sub-categorias profissionais anestesistas e cirurgiões. A categoria profissional “enfermeiros”, neste caso, divide-se em enfermeiros do BO e enfermeiros de anestesia.
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